Ficção Científica I
Resumo
O episódio inicia com uma discussão sobre a complexidade de definir ficção científica. Os participantes apresentam várias definições, incluindo a de Darko Suvin (1972), que a descreve como um gênero que combina elementos de estranheza e racionalização científica, criando um referencial imaginativo alternativo. São mencionadas as subdivisões entre ficção científica “hard” (centrada em tecnologia e ciência dura) e “soft” (focada em questões humanas e sociológicas). Definições de John Campbell, Rod Serling e Theodore Sturgeon também são exploradas, destacando a importância do componente humano e da extrapolação a partir do conhecido científico.
A conversa então aborda o preconceito contra a ficção científica, frequentemente vista como literatura de segunda categoria ou “escapista”. Os participantes defendem o gênero, argumentando que ele pode ser um formato poderoso para explorar problemas sociais e humanos, citando exemplos como 1984 e Fahrenheit 451. Discute-se como o gênero foi historicamente associado a revistas pulp e a um mercado de massa, o que contribuiu para essa percepção, mas também como autores de alta qualidade, como Arthur C. Clarke, Ursula K. Le Guin e Kurt Vonnegut, elevaram o patamar literário.
O cenário da ficção científica nacional é analisado. É apontado que, no Brasil, há uma produção significativa de fantasia e romance paranormal, mas relativamente poucos romances de ficção científica são publicados. No entanto, há um florescimento de antologias de contos, que servem como porta de entrada para novos escritores. Editores como Draco, Estronho e Terracota são mencionados como ativos nesse mercado. A cena em Porto Alegre, com eventos como o festival de cinema fantástico, é destacada como um sinal de vitalidade.
Os participantes compartilham suas experiências e conselhos para aspirantes a escritores. Christopher Kasten-Smith explica que normalmente começa com a ideia do enredo, faz um esboço estruturado e depois preenche os detalhes, enfatizando que a escrita do conto em si pode ser rápida, mas o processo de amadurecimento da ideia pode levar anos. A dificuldade e a importância do conto como forma literária são ressaltadas, sendo comparada a tocar em bares para uma banda iniciante.
Por fim, são feitas recomendações de leitura. As sugestões incluem obras consideradas exemplares na integração de ciência, como Os Próprios Deuses de Isaac Asimov, e obras com forte componente humano e social, como as de Ursula K. Le Guin (Os Despossuídos) e Kurt Vonnegut Jr. (Cama de Gato). Também são recomendadas antologias nacionais, como a série Imaginários da Editora Draco, e obras internacionais mais recentes, como A Fire upon the Deep de Vernor Vinge.
Indicações
Editores
- Editora Draco — Citada como uma das editoras ativas no lançamento de antologias de ficção científica e fantasia no Brasil, como a série ‘Imaginários’.
- Editora Estronho — Mencionada como uma editora que publica antologias, oferecendo uma porta de entrada para novos escritores.
- Editora Terracota — Outra editora citada como parte do mercado que lança antologias de ficção especulativa no Brasil.
Livros
- Os Próprios Deuses — Recomendado por um participante como um livro genial de ciência, que explora multiversos e transferência de energia entre universos com propriedade científica.
- Crônicas Marcianas — De Ray Bradbury, citado como um exemplo de ficção científica ‘soft’ com uma verve literária muito lírica e centrada no humano.
- Os Despossuídos — De Ursula K. Le Guin, destacado como um livro impactante que vive na memória de quem o lê, explorando temas sociais e humanos.
- Cama de Gato — De Kurt Vonnegut Jr., descrito como uma história surpreendente, curta, fascinante e irônica de ficção científica.
- A Fire upon the Deep — De Vernor Vinge (publicado em Portugal como ‘Fogo nas Profundezas do Espaço’), recomendado como um grande livro recente com viagens interestelares e intrigas.
Series
- Série Imaginários — Antologias lançadas pela Editora Draco, contendo uma mistura de fantasia e ficção científica, recomendadas para conhecer escritores nacionais de qualidade.
Linha do Tempo
- 00:00:43 — Definindo ficção científica e suas complexidades — Christopher Kasten-Smith é solicitado a dar uma ideia do que é ficção científica. Ele admite que é uma pergunta complicada e polêmica, e oferece sua visão pessoal: histórias onde ciência ou tecnologia são partes fundamentais, de modo que a narrativa não seria a mesma sem elas. Ele também menciona a divisão entre ficção científica ‘hard’ (tecnológica/científica) e ‘soft’ (focada em questões humanas e sociais).
- 00:02:41 — A definição de Darko Suvin e outras perspectivas — Christopher cita a definição de Darko Suvin (1972): ficção científica é um gênero cujas condições são a presença e interação de estranheza e racionalização científica, criando um referencial imaginativo alternativo. Outras definições são mencionadas, incluindo a de John Campbell (esforço honesto de extrapolação a partir do conhecido) e a mais poética de Rod Serling (a fantasia é o impossível feito provável; a FC é o improvável feito possível). Theodore Sturgeon enfatiza a necessidade de um problema e solução humanos.
- 00:05:02 — Defendendo a ficção científica como literatura de qualidade — É levantada a questão do preconceito que vê a ficção científica como literatura de segunda categoria ou ‘escapista’. Os participantes discordam veementemente. Argumenta-se que a FC é um excelente veículo para discutir problemas atuais de forma projetada, citando exemplos como 1984 e Distrito 9. Discute-se como o gênero foi marginalizado (‘ghettoizado’) pela academia literária tradicional, que o associava a revistas pulp, ignorando as obras de alta qualidade.
- 00:09:33 — O cenário da ficção científica no Brasil — É perguntado sobre o cenário nacional. Christopher responde que é o melhor e o pior momento: há muita produção de fantasia e romance paranormal, mas poucos romances de FC. No entanto, há um boom de antologias de contos, que servem como vitrine para novos autores. Editores como Draco, Estronho e Terracota são ativos. A cena em Porto Alegre, com o festival de cinema fantástico, é citada como um exemplo de crescimento e seriedade.
- 00:15:33 — Conselhos para jovens escritores e o papel dos contos — Christopher, autor indicado ao prêmio Nebula, dá conselhos. Ele recomenda que aspirantes a escritores comecem com contos, submetendo-os a editoras de antologias ou publicando em sites especializados. Compara escrever contos a ‘tocar em bares’ para uma banda, é uma forma de ganhar visibilidade e se aperfeiçoar. Ele também discute seu próprio processo criativo, que começa com o enredo e um esboço detalhado antes da escrita propriamente dita.
- 00:22:43 — A centralidade do humano na ficção científica — Retomando a definição de Sturgeon, debate-se se a ficção científica precisa ser centrada em humanos. O consenso é que, para ser palatável e criar empatia, a narrativa precisa ter um componente humano, mesmo que os personagens sejam alienígenas ou máquinas. A literatura é uma arte sobre e para humanos. Autores como Ursula K. Le Guin são citados por usarem cenários de FC para explorar questões humanas profundas, como sexualidade e sociedade.
- 00:26:25 — Recomendações de leitura de ficção científica — Cada participante faz suas recomendações finais. As sugestões variam de FC ‘hard’ com forte base científica (Os Próprios Deuses de Asimov) a FC ‘soft’ com foco humano e social (obras de Ursula K. Le Guin e Kurt Vonnegut Jr.). Também são recomendadas antologias nacionais (série Imaginários) e autores internacionais contemporâneos (Vernor Vinge). As Crônicas Marcianas de Ray Bradbury são novamente elogiadas.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2011-07-25T09:00:05Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/fic%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica-i/ff8e9810-98eb-012e-4e4c-00163e1b201c
- UUID Episódio: ff8e9810-98eb-012e-4e4c-00163e1b201c
Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
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Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos
[00:00:13] os limites entre o que é ciência e o que é mito.
[00:00:18] O tema do programa de hoje é ficção científica.
[00:00:20] Para falar sobre esse assunto, a gente tem um Christopher Kasten-Smith, que é escritor
[00:00:24] de fantasia e também professor na FEVALI, na ESPM e na PUCN.
[00:00:28] O Carlos Miralia, do Departamento de Filosofia da UFPL.
[00:00:32] Jorge Kielfer, do Departamento de Bioquímica da URGS, além de mim, Jephor Sorenson, do
[00:00:36] Departamento de Física da URGS.
[00:00:38] Então, para começar, pedir para o Christopher não definir, porque é uma tarefa bastante
[00:00:43] complicada, mas dar uma ideia do que seja ficção científica.
[00:00:46] Essa é uma pergunta muito complicada, que gera bastante polêmica.
[00:00:50] Os editores de ficção científica gostam de dizer ficção científica e eu digo o que
[00:00:55] é ficção científica.
[00:00:56] Quando eu ponto para um livro e diz que é ficção científica, essa é ficção científica.
[00:01:02] Mas eu acho, na minha definição, porque eu trabalhei muito com fantasia, trabalhei
[00:01:06] muito com outros gêneros, então ficção científica a gente sempre pensa que é a
[00:01:10] coisa mais voltada para ciência, sempre tem algo de ciência, algo de tecnologia no meio
[00:01:16] da história.
[00:01:17] A história em si, se tirar a ciência, se tirar essa tecnologia da história, não
[00:01:22] vai ser a mesma história, então é uma parte fundamental da história.
[00:01:26] Mas isso não pega todos os casos, nem todas as obras de ficção científica aparecem
[00:01:31] ciência, pelo menos não necessariamente a ciência mais dura, mais rara, existem exemplos
[00:01:38] mais onde a ciência envolvida é a humanidade, ciências sociais.
[00:01:44] Isso é uma forma interessante, porque alguns criatores, como o próprio Záquias Imóvel,
[00:01:48] o Arthur Clarke, eles propõem uma espécie de divisão do campo da ficção científica
[00:01:52] em mole e dura, soft e hard.
[00:01:55] A hard é aquela que tem mais centrado na questão tecnológica e científica, e a soft,
[00:02:00] a suave seria mais em questões humanas, sociológicas, estapulações de aspectos comportamentais
[00:02:05] e tal.
[00:02:06] Mas, já que estamos falando em definições, é muito divertido, porque nós uma vez estávamos
[00:02:12] discutindo com o Jefferson e outros, e não tem acordo sobre definição de ficção científica.
[00:02:17] Aí eu fui procurar definições, por exemplo, na enciclopédia de ficção científica, e
[00:02:21] tem oito páginas lá, sei lá quantas páginas, com dezenas de definições, e escolhe em
[00:02:26] uma, claro, que é a que eu vou ler agora, essa é a enciclopédia de ficção científica
[00:02:29] do John Cluth, Peter Nichols, que é uma referência, digamos, mais completa, assim, de enciclopédia.
[00:02:35] Isso é a definição de um cara chamado Daco Suvin, de 1972, que é bem interessante,
[00:02:41] em duas linhas, é um gênero literário, cujas condições necessárias e suficientes
[00:02:46] são a presença e a interação de elementos de estranheza e de racionalização científica,
[00:02:52] ele chama de cognition, cujo principal dispositivo formal é um referencial imaginativo alternativo
[00:02:58] ao ambiente empírico que o autor vive, ou seja, tu sai da tua realidade e tu põe numa
[00:03:02] coisa que é estranha, mas ao mesmo tempo tem uma racionalidade possível.
[00:03:06] É uma definição complexa, mas eles trabalham em cima dela, tem outras, né?
[00:03:09] Discutível também, porque eu consigo encaixar histórias de fantasmas nessa…
[00:03:12] É, eu também acho que…
[00:03:14] Só se aparecer uma explicação lá no meio.
[00:03:16] Basta ter um investigador de fantasmas e…
[00:03:18] Não sei, eu não sei se eu incluí isso de fantasmas puramente.
[00:03:21] Mas isso mostra que realmente o conceito é controlado.
[00:03:25] É complicado, mas, assim, eu acho que o Christopher posta um aspecto da ciência, o John Campbell
[00:03:29] escreve em 47, lá no comecinho da história, ele tem uma definição que reforça isso aí,
[00:03:33] ele fala, olha, para ser ficção científica, não fantasia, deve haver um esforço honesto
[00:03:38] de estapulação profética do que é conhecido e do que pode ser feito, do que pode ser feito,
[00:03:44] pode ser feito a partir do conhecido, que é o científico.
[00:03:46] Então, uma definição melhor, e a última que eu dou aqui é do Rod Sterling,
[00:03:51] ele diz assim, ó, a fantasia é o impossível feito provável.
[00:03:55] Ficção científica é o improvável feito possível.
[00:03:57] Então, ó, é boa, ela é mais poética e tem um outro aspecto, né?
[00:04:03] Falou em soft e hard, mas que é o aspecto humano da ficção científica, né?
[00:04:07] Eu acho que ele é um componente central também, né?
[00:04:10] Se não tiver algum componente humano, alguma coisa que se sirva, como qualquer escritor sabe,
[00:04:14] imagina, seja o gancho, né?
[00:04:15] Aquilo que faz tu te identificar e, portanto, tu viver a história, né?
[00:04:19] Ela não é uma, não chegaria a ser ficção científica.
[00:04:22] Última agora que eu vou ler aqui agora, o Teodoro Sturgeon, em 52, diz,
[00:04:26] uma história de ficção científica, uma história construída em torno de seres humanos,
[00:04:30] com um problema humano e uma solução humana e que não, não aconteceria de forma nenhuma
[00:04:37] sem o seu conteúdo científico.
[00:04:38] Ah, mas eu penso um monte de exemplos que não tem nada a ver com humanos.
[00:04:43] E aí uma mera projeção que tu faz.
[00:04:44] Mas é esse tipo de coisa assim que, na verdade, se encaixa qualquer ideia de literatura,
[00:04:48] né, que tá mais ou menos presa a uma dimensão humana.
[00:04:51] Eu acho que essa definição aqui é bem verdadeira, não sei.
[00:04:53] Mas vamos ser um pouco dada, a definição, eu quero fazer uma pergunta que…
[00:04:57] Já temos cinco, já.
[00:04:58] Se houve falar muito, né, as pessoas declaram assim,
[00:05:02] não, eu não gosto de ficção científica, porque os livros são mais ou menos assim,
[00:05:04] ou seja, existe um conceito, um preconceito de que ficção científica era, ou é,
[00:05:11] literatura de segunda categoria, né?
[00:05:15] No pessoal da área de literatura, eles consideram assim, né?
[00:05:19] O que nós, pelo menos os quatro aqui, como fãs e escritores de ficção científica,
[00:05:24] discordamos, mas eu queria que você desenvolvesse um pouco a defesa da ficção científica
[00:05:28] como literatura de qualidade.
[00:05:31] Posso contar da minha experiência, senhor.
[00:05:32] Então, é típica a experiência de Nerd, a partir da…
[00:05:37] Ah, tu não era assumido?
[00:05:38] É, no início da minha adolescência, lá, 11, 12 anos, eu comecei, fiquei encantado
[00:05:44] com esse tipo de literatura, mas de imediato eu já percebi, de saída percebi que o que
[00:05:51] se chama assim, o nome de ciência para ficção científica, na maior parte das coisas que
[00:05:57] eu li, na verdade era um tipo de especulação tecnológica.
[00:06:01] Assim, algum tipo de artefato que faz certas coisas e tal, e não interessa muito bem
[00:06:06] porque que faz aquilo, tem um alcance, uma espécie de magia travestida, né?
[00:06:11] Tem impacto na vida das pessoas.
[00:06:13] Só para, assim, dar um gancho com as discussões que foram feitas antes, eu li muita coisa
[00:06:19] e eu digo assim, dá para contar nos dedos, as obras, que tem uma preocupação de ciência,
[00:06:24] efetivamente, assim, é uma especulação de ciência, assim, o que a gente pode pensar
[00:06:29] se muda uma lei científica, se muda algum outro tipo de relação, assim, que não é
[00:06:33] exatamente tecnológica.
[00:06:35] Eu acho que na maior parte das vezes, o que se chama ficção científica é uma extrapolação
[00:06:46] tecnológica.
[00:06:47] E eu diria o seguinte, eu acho que isso, pelo fato de ter surgido no século XX e dentro
[00:06:53] das expectativas, assim, da modernidade, que estava em franco progresso, eu acho que
[00:06:58] isso certamente deve ter estimulado a leitura e isso deve ter criado um mercado, um mercado
[00:07:03] que fez se produzir muita coisa, e quando se produz muita coisa, sempre vai ter coisas
[00:07:07] de…
[00:07:08] Um mercado que tem 80 anos.
[00:07:09] Sempre vai ter coisas de baixa qualidade.
[00:07:10] Na verdade, a ficção científica, ela surgiu antes do século XX, ela começou com a revolução
[00:07:14] industrial.
[00:07:15] Sim, mas ela explode no século XX, né?
[00:07:18] Se bem que, olha, acho que isso fala com o Júlio Verne mesmo, que foi um grande vendedor
[00:07:21] de livros.
[00:07:22] Com o Joel e o Júlio Verne.
[00:07:23] Com o Joel e os depois do Júlio Verne.
[00:07:24] Eles são mais ou menos contemporâneos.
[00:07:27] E o outro é o cara do Tarzan, como é que é?
[00:07:30] Guy Rice Burroughs.
[00:07:31] Não, não, eu discordo com vocês.
[00:07:32] Não, a Mary Shelley é considerada…
[00:07:34] Mas ela só fez um livro e o outro fez dezenas.
[00:07:36] É que tem, assim, tem um outro traço importante que aí fica totalmente dominado no século
[00:07:40] XX, assim, que é uma ideia de antecipação.
[00:07:42] Como é que vai ser no futuro?
[00:07:44] Ah, assim, olha, daqui mil anos, daqui cem mil anos.
[00:07:47] E isso criou o mercado, criou, acho que, uma curiosidade, uma expectativa que, claro,
[00:07:51] o mercado começa a produzir um monte de coisa e, inevitavelmente, vai aparecer coisas oportunistas,
[00:07:56] de baixa qualidade.
[00:07:57] Em qualquer gênero, eu diria, né?
[00:07:59] Quando o mercado fica faminto.
[00:08:01] Vocês dão nota a cara na pergunta.
[00:08:03] A pergunta é, dentro desse universo, 90, 95% de obras de baixa qualidade, a pergunta é,
[00:08:10] é 100%?
[00:08:11] Ou seja, existem escritores que podem ser considerados de alto nível?
[00:08:14] Mas eu posso tocar nesse pergunta porque eu acho que primeiro…
[00:08:17] Esse ponto é do Christopher, claro.
[00:08:19] A perspectiva aqui no Brasil é um pouco diferente do que lá fora.
[00:08:23] Porque eu acho que a ficção científica recebe um certo nível de respeito, vamos dizer, nos Estados Unidos.
[00:08:30] Então, podemos olhar obras como 1984, que é basicamente uma obra de ficção científica.
[00:08:35] Podemos olhar o Fahrenheit 451 de Ray Bradbury.
[00:08:39] Os meus favoritos.
[00:08:40] Que era uma leitura obrigatória pra mim no colégio.
[00:08:44] Na escola, né?
[00:08:45] Na escola.
[00:08:48] Às vezes eles não gostam, vamos dizer, comunidade literária não gosta de chamar isso de ficção científica.
[00:08:53] Eles gostam de literatura e dizem, não, mas não é aquele gênero.
[00:08:57] Eles realmente gostam de separar esses livros, a gente chama do ghetto.
[00:09:01] Eles gostam de botar no ghetto literatura fantástica, ficção científica.
[00:09:06] Tem razões pra isso, a razão tá aqui.
[00:09:08] Mas eu acho que tinha um certo respeito, especialmente na época,
[00:09:11] porque olha nos anos 50, 60, que começou a corrida espacial nos Estados Unidos.
[00:09:16] E realmente essa comunidade foi muito respeitada.
[00:09:19] Porque tinha que ser patriota pra apoiar a corrida espacial.
[00:09:25] Então tinha essa visão um pouco mais para o futuro.
[00:09:29] Eu não vivi no Brasil naquela época, mas assim, eu vejo um pouco.
[00:09:33] Eu acho que tudo aqui ficou meio jogado como infanto, juvenil.
[00:09:37] Acho que a visão é um pouco mais para o real.
[00:09:40] É para a correção de problemas sociais, esse tipo de coisa.
[00:09:43] A gente tem que olhar a realidade, o que está acontecendo,
[00:09:46] e não está olhando a realidade, então é uma coisa infantil.
[00:09:50] Ou matemática irrelevante, matemática social.
[00:09:53] Tinha um nome pra isso, literatura escapista.
[00:09:56] Literatura escapista, exatamente.
[00:09:58] Tecnicamente, toda ficção é escapista, seja ela científica ou ficção normal.
[00:10:02] Mas eu acho que tem uma razão anterior até que a literatura com disciplina,
[00:10:06] inclusive com representação na academia,
[00:10:09] com papas e barões e embaixadores,
[00:10:12] ela se cristalizou antes disso, até no século XVIII, nas academias.
[00:10:16] Então, definindo e acompanhando a evolução da literatura,
[00:10:20] sacramentando o que podia e o que não podia.
[00:10:23] A partir do fim do século XIX, século XX,
[00:10:26] o que começou, como tu falaste, com a Revolução Industrial,
[00:10:29] começa a explodir por causa também da imprensa de massa,
[00:10:33] dos meios de comunicação como o rádio e a televisão,
[00:10:35] que aceleraram a difusão disso, e o cinema.
[00:10:37] Aliás, o rádio, o cinema e depois a televisão, nessa ordem.
[00:10:40] A ficção científica estava lá nos primeiros filmes,
[00:10:42] estava lá nas radiotransmissões de novela,
[00:10:44] como o caso dramático de 1939, do Orson Welles,
[00:10:47] com a transmissão da Guerra dos Mundos, que foi confundida,
[00:10:50] até deu uma histeria coletiva.
[00:10:51] O que acontece é que esses barões do que tinha estabelecido cristalizado antes
[00:10:55] não gostaram muito de ver essa novidade invadindo,
[00:10:57] ou seja, como essa temática não parece suficientemente nobre.
[00:11:00] E além do que, ela é publicada em revistas de massa, como essa,
[00:11:03] essa dos imóveis, um exemplo aqui.
[00:11:04] Primeiro, as revistas de ficção científica, não me lembro o nome,
[00:11:06] mas é Analógia, Adventures e não sei quê e tal.
[00:11:10] Eram revistas parecidas com as que tinha de romances pulp, como se chamam, né?
[00:11:14] Que é uma literatura realmente de mais baixa qualidade,
[00:11:17] voltada a sexo, aventura, espionagem e violência,
[00:11:20] parecido com os romances de Western, de policiais e de sexo e de amor,
[00:11:24] e romances Sabrina e outros.
[00:11:26] Então, ele foi emparelhado do mesmo jeito.
[00:11:28] E boa parte da ficção científica era isso aí mesmo, né? É verdade.
[00:11:31] Só que, como toda literatura começa que tem esses gêneros,
[00:11:34] depois vão aparecendo as exceções de escritores como…
[00:11:36] Vamos botar assim, o Arthur Clarke, sem dúvida, que acabou se destacando,
[00:11:39] mas chega em escritores como os meus favoritos,
[00:11:42] que são dois, que é o Ursula K. Leguin e o Kurt Vonnegut Jr.,
[00:11:46] que na verdade é um alemão que foi morar nos Estados Unidos.
[00:11:48] São os meus dois favoritos.
[00:11:49] E tu tem outros escritores que vão muito além disso,
[00:11:52] que transformam isso num gênero, efetivamente, literário.
[00:11:54] E aí fazem isso trazendo o componente humano.
[00:11:56] Por isso que eu enfatizei antes.
[00:11:58] Como é que é tão diferencial?
[00:11:59] Não é exatamente na questão do conteúdo.
[00:12:01] Na qualidade do texto.
[00:12:02] Exato.
[00:12:03] E aí tu tá cheio de contos e croniças e literatura de péssima qualidade,
[00:12:08] mas ninguém se ocupa, por exemplo, não tem ninguém na academia
[00:12:12] tentando classificar literalmente os romances da Sabrina,
[00:12:14] que saem dez por semana, ou dessas revistas pulp.
[00:12:17] É engraçado que ela não se ocupa de desprezar toda essa franja,
[00:12:21] essa margem de coisa de qualidade duvidosa,
[00:12:24] mas ela ensaca no mesmo, digamos, abrigo e ignora
[00:12:28] o que tem de ficção científica de qualidade.
[00:12:30] Isso é um problema na verdade, um preconceito.
[00:12:32] Deixa eu fazer.
[00:12:33] Eu acho que a gente concordo que muitas vezes
[00:12:35] a ficção científica é o melhor formato para expor problemas atuais e reais.
[00:12:41] Então é uma visão muito curta de dizer, não, esse é escapismo,
[00:12:44] porque muitas vezes a própria ficção científica é um estudo do atual
[00:12:49] olhando para um outro lugar, levando para um outro nível.
[00:12:53] Esse é esse filme recente, o Distrito 9, que é uma crítica social.
[00:12:57] Esse é o Fronteiras da Ciência, hoje a gente está falando sobre ficção científica.
[00:13:01] Vocês podem encontrar o podcast para baixar em material extra,
[00:13:05] com mais informações na nossa página, que é frontodasciência.orgs.br.
[00:13:10] Só para fechar a ideia que vocês lançaram agora, eu me lembro claramente
[00:13:14] quando eu comecei a ler 1984, eu queria ler como literatura escapista mesmo, para mim,
[00:13:21] e levei um soco no estômago.
[00:13:23] Com 13 anos você não está afim de ver muita profundidade, não está preparado para isso.
[00:13:28] E obviamente aquilo não é escapista, é só uma parábola do que está acontecendo, pode acontecer.
[00:13:34] Essa parte, eu acho que pode ser explorada mais adiante também.
[00:13:37] Vamos mudar um pouquinho a temática.
[00:13:39] E sobre a ficção científica nacional, qual é o cenário no país?
[00:13:43] Na época que eu li, a ficção científica era praticamente inexistente.
[00:13:47] A nossa nacional.
[00:13:50] A nossa nacional onde a gente mora.
[00:13:52] Então, o Christopher tem mais conhecimento do que está se fazendo atualmente em ficção científica?
[00:13:58] Sim.
[00:13:59] Ou fantasia também?
[00:14:00] Eu acho que, por um lado é o melhor momento, por outro lado é o pior momento.
[00:14:05] Eu vou explicar porque, em termos de romance, eu não vejo saindo muito romance de ficção científica.
[00:14:13] Eu vejo sendo produzido muito, que para mim é legal, é muito fantasia.
[00:14:18] Muito esse que a gente chama de romance paranormal, que é vampiros com emoções.
[00:14:24] É modern dos jovens.
[00:14:26] Esses livros estão saindo muito, estão sendo muito publicados.
[00:14:29] Harry Potter.
[00:14:30] Harry Potter.
[00:14:31] Mas mesmo aqui no Brasil, no cenário nacional, tem muitos escritores nacionais.
[00:14:36] Tivemos o André Bianco, o Eduardo Spohr.
[00:14:40] Esses escritores estão tendo muito sucesso nesses mercados.
[00:14:43] Estão explorando os início então?
[00:14:45] Sim.
[00:14:46] Mas, em termos de ficção científica, tem muito pouco lançamento de romances, mas muito lançamento de antologia.
[00:14:53] Então, estão surgindo muitos escritores.
[00:14:55] Contos, você quer dizer?
[00:14:56] Sim, contos.
[00:14:57] A versão curta, isso é interessante.
[00:14:59] Exatamente.
[00:15:00] E o conto, muitas vezes, é a entrada do escritor para depois escrever romances.
[00:15:05] É verdade.
[00:15:06] Então, tu vê os grandes escritores.
[00:15:08] Muitos começaram nesses revistas de polpa dos anos 20 e 30.
[00:15:12] Muitos grandes escritores.
[00:15:13] Azimov, a própria Azimov.
[00:15:15] As obras-primas dele são contos.
[00:15:17] O trabalho é como freelancer.
[00:15:18] Um conto é uma coisa que tem um pagamento mais imediato.
[00:15:20] Então, para quem está começando, dificilmente vai conseguir um contrato para um romance.
[00:15:24] Quero perguntar para ele.
[00:15:26] Então, é assim, por exemplo, um jovem que esteja nos ouvindo agora e gostaria de escrever um conto.
[00:15:33] O que ele deve fazer?
[00:15:34] Para quem ele deve apresentar?
[00:15:35] Antes do Christopher responder, deixa eu contextualizar.
[00:15:37] Christopher é autor de um…
[00:15:39] Não chega a ser uma coisa intermediária entre um conto e um romance.
[00:15:43] Uma novela.
[00:15:44] Uma noveleta, algo assim.
[00:15:45] Você dá um nome de novela para essas coisas.
[00:15:47] Chamada O Encontro Fortunito de Gerard von Nost e Oludar.
[00:15:51] É um livro de fantasia que foi indicado esse ano a um dos prêmios mais renomados da área, que é o Nebula.
[00:15:59] Então, agora, dentro desse contexto, quais são os teus conselhos?
[00:16:02] Nós recomendamos.
[00:16:04] Nós recomendamos o livro.
[00:16:05] Tem muitos editores agora no mercado que estão lançando essas antologias.
[00:16:10] Então, tem Estrônio, tem Draco, tem Terra Cota.
[00:16:15] Tem vários editores de vir lançando muitas antologias.
[00:16:21] Eles têm uma receptividade, assim, se um jovem manda um conto para eles, vai ter um retorno, dizendo, olha, vale a pena, vale a pena.
[00:16:28] Algumas têm, outras não.
[00:16:30] O principal é encontrar algum lugar para se publicar.
[00:16:33] E tem sites também.
[00:16:35] Tem sites de contos.
[00:16:36] Tem muito lugar para o escritor novo, para alguém realmente tentar se expor nessa área.
[00:16:44] E isso abre muitas portas.
[00:16:46] Se no site ele ganha relevo, então tem chance de entrar no mercado editorial.
[00:16:51] De entrar no mercado de papel, para você dizer.
[00:16:53] Eu escrevo praticamente tudo o conto hoje.
[00:16:56] Eu vou lançar uns romances em breve.
[00:16:58] Mas, assim, eu comecei e nos Estados Unidos, aquele mercado norte-americano,
[00:17:03] a gente considera o conto como tocar num bar.
[00:17:07] Para uma banda que está começando, você vai nos bares e toca nos bares.
[00:17:11] Então, é essa a ideia.
[00:17:12] Você está tocando nos bares para conseguir o grande show depois.
[00:17:16] Para conseguir aquele contrato com a gravadora.
[00:17:19] Então, é a mesma coisa.
[00:17:20] Então, você vai produzindo contos para ser visto pelas editoras.
[00:17:25] E para, potencialmente, ganhar um contrato para escrever um livro.
[00:17:29] E vai ser aperfeiçoando também.
[00:17:31] Os contos estão melhorando.
[00:17:32] Vocês estão falando como se o conto fosse uma forma inferior à literatura de livro,
[00:17:36] completo, novela ou romance.
[00:17:38] Não, mas faça um pouco a ideia.
[00:17:40] E, de fato, não é.
[00:17:41] Eu vou dizer que é muito mais difícil escrever um conto do que um romance.
[00:17:45] Tem que montar personagens em muito menos espaço.
[00:17:48] A síntese é muito mais difícil do que a loquacidade, onde você tem mais espaço.
[00:17:53] A gente fala, num romance, num livro, você pode jogar fora muito palavra.
[00:17:59] Num conto, você não pode jogar fora nenhuma palavra.
[00:18:02] Na poesia, a poesia é a distileção das palavras.
[00:18:06] Total.
[00:18:07] Esculpir a estátua.
[00:18:10] É como um blog e o Twitter.
[00:18:13] O Twitter passa aquela impressão de que é uma coisa fácil e rápida,
[00:18:16] mas na hora que a pessoa tem que passar a mensagem limitada,
[00:18:19] 140 caracteres, ela tem que pensar na maneira de…
[00:18:21] Eu não sei se eu concordo com essa…
[00:18:22] Mas tu nunca leu o Twitter, então tu não pode dizer nada.
[00:18:24] O que eu acho que tem ali é essencialmente não rebuscado.
[00:18:27] O conto não é mais fácil de escrever, mas é mais fácil de publicar.
[00:18:31] Porque uma editora pode lançar um livro com 20 autores ao mesmo tempo.
[00:18:36] Então tem espaço, tem espaço no mercado.
[00:18:38] E estão surgindo realmente autores de muita qualidade no mercado brasileiro.
[00:18:43] Inclusive não é centrado no eixo Rio-São Paulo, como outras áreas.
[00:18:47] Aqui em Porto Alegre teve o Ficção de Poupa, que já teve três volumes editados.
[00:18:52] Essa é da Nao Editora.
[00:18:54] E também tem uma outra, que é Sagas, que é publicado pela editora Argonautas.
[00:18:59] Mais ou menos dentro da mesma seara, mas não escrita.
[00:19:03] Em Porto Alegre tem um festival de cinema fantástico e de fantasia
[00:19:07] que já está entrando no cenário mundial, quase.
[00:19:10] Eu já fui nos últimos anos.
[00:19:12] Realmente eles trazem as coisas muito boas.
[00:19:15] O que está estimulando a qualidade, melhorando rapidamente.
[00:19:17] O pessoal está querendo mostrar.
[00:19:18] Porque antes era uma coisa bem finge, agora não é mais tanto.
[00:19:21] Essa geração leva muito mais sério a fantasia, a ficção científica.
[00:19:26] Eu fiquei surpreso de ver o Harry Potter na capa da Veja uma vez.
[00:19:30] A reportagem era exatamente assim.
[00:19:32] Como é que Harry Potter influenciou a geração de jovens adultos hoje?
[00:19:37] Nem jovens adultos, mas adultos agora que estão entrando no mercado.
[00:19:42] E as pessoas falam, eu aprendi muito sobre ética desses livros.
[00:19:46] Eu aprendi muita coisa desses livros que realmente a comunidade literária
[00:19:50] acha que não vai aprender nada.
[00:19:52] Que é escapismo, aquela coisa de novo.
[00:19:55] Achei bem interessante.
[00:19:56] Uma pergunta para o Cristo.
[00:19:57] Eu fui aqui aproveitando.
[00:19:58] Quando você vai construir uma história, você tem uma experiência de vários contos
[00:20:01] e esse publicado como livro, não sei se são antologias, mas…
[00:20:05] Quando você vai construir uma história dessas, de ficção científica especificamente,
[00:20:08] o que você escolhe primeiro?
[00:20:09] A primeira questão do personagem?
[00:20:10] O contexto onde vai acontecer a história?
[00:20:12] Ou você vem e vem tudo junto?
[00:20:13] Comenta um pouco sobre isso aí.
[00:20:15] Essa é uma pergunta interessante.
[00:20:17] Os escritoras fazem coisas diferentes.
[00:20:19] Mas normalmente eu tenho a ideia do enredo primeiro.
[00:20:22] Eu penso principalmente no enredo e o que vai acontecer.
[00:20:26] Eu tenho já na minha cabeça um começo-meio-fim.
[00:20:29] E eu vou preenchendo detalhes daquilo.
[00:20:31] Eu crio…
[00:20:33] Eu escrevo bastante um outline, um sumário de toda a parte do conto
[00:20:38] e dos diálogos de tudo.
[00:20:39] Um storyboard.
[00:20:40] E depois eu vou preenchendo realmente os detalhes depois.
[00:20:44] Então eu sou o tipo de escritor que é muito estruturado.
[00:20:47] Eu gosto de ter tudo pronto antes de realmente colocar
[00:20:50] e começar a escrever mesmo as palavras finais.
[00:20:53] É, mas é quando começa a escrever.
[00:20:54] Começa a mudar coisas também.
[00:20:55] Tem que fazer ajustes.
[00:20:56] Sim, sempre muda.
[00:20:57] Mas quanto tempo leva para escrever um conto?
[00:20:59] Pode escrever num dia?
[00:21:00] Ah, sim.
[00:21:01] Escrever?
[00:21:02] Posso escrever num dia, mas normalmente é uma coisa.
[00:21:05] Eu tenho uma ideia para um enredo.
[00:21:07] Eu deixo aquilo na cabeça.
[00:21:09] Eu faço uma nota.
[00:21:11] Eu anoto assim.
[00:21:12] É, essa é a ideia.
[00:21:13] Vai ser mais ou menos assim.
[00:21:14] Começa o meio-fim.
[00:21:15] E depois, exatamente, eu deixo cozinhando.
[00:21:17] Talvez eu pegue uma…
[00:21:18] Eu começo uma pesquisa, deixo para o lado.
[00:21:21] Às vezes eu levo dois, três anos para escrever.
[00:21:24] Para finalmente chegar e escrever.
[00:21:26] Mas no momento de escrever normalmente vai um dia.
[00:21:28] Eu escrevo cinco, dez mil palavras num dia facilmente.
[00:21:32] Então um conto com certeza
[00:21:34] raremente leva mais de um dia para escrever.
[00:21:37] Depois eu faço revisões.
[00:21:39] Depois vem o paciente que o Carlos colocou.
[00:21:42] Não sei se me lembro bem, mas é uma situação muito boa
[00:21:44] sobre a síntese e a arte que existem.
[00:21:46] A síntese que é o mais difícil de tudo.
[00:21:48] A frase do Pascal que diz assim…
[00:21:50] Ele mandou uma carta.
[00:21:51] E vai, de início, desculpando.
[00:21:53] Se eu tivesse mais tempo, ela seria bem menor.
[00:21:55] Desculpe.
[00:21:56] Exatamente.
[00:21:57] E aí tu vê escritores que ficaram rebuscando.
[00:22:00] A tendência é sempre em encurtar.
[00:22:02] A caso de escritores que ficaram editando a sua obra até o final.
[00:22:06] Sim, exatamente.
[00:22:07] Obstensivamente.
[00:22:08] O caso mais notável na poesia é o Walt Whitman.
[00:22:11] Ele editou até morrer.
[00:22:12] E o livro foi mudando.
[00:22:13] E teve cada edição diferente da outra.
[00:22:15] O próprio Darwin escreveu seis versões do origem das espécies.
[00:22:18] Só que ele aumentou.
[00:22:19] Mas rebuscou o texto.
[00:22:20] Mas ele publicou as seis.
[00:22:21] Ele publicou as seis.
[00:22:22] Mas foi editando porque…
[00:22:24] Exatamente.
[00:22:25] Tem pessoas que ficam editando e não conseguem sair desse…
[00:22:28] Isso também.
[00:22:29] Em ciência acontece muito isso.
[00:22:31] Tem pessoas que fazem a pesquisa.
[00:22:32] Mas elas não conseguem passar para a fase de publicação.
[00:22:35] Porque elas nunca acham que aquilo ali está bom e fechado o suficiente.
[00:22:38] Não fala muito nisso.
[00:22:39] Eu vou começar a chorar aqui.
[00:22:41] Mas então, tu está falando da construção.
[00:22:43] Tu começa com o enredo.
[00:22:44] O enredo envolve pessoas.
[00:22:45] Sempre.
[00:22:46] Seres humanos.
[00:22:47] Sim.
[00:22:48] Ou alguma coisa humana.
[00:22:49] Isso que eu fiz, aquela definição de humana que eu coloquei não é por acidente.
[00:22:51] Eu acredito que fica impalatável e desinteressante uma história de um ET completamente alienígena
[00:22:57] em que tu não consiga emprestar alguma característica humana para contar a narrativa.
[00:23:00] E eu não me lembro de histórias que são contadas assim.
[00:23:02] Elas sempre têm algo…
[00:23:03] Uma coisa essencial é que tu precisa ter empatia com os personagens.
[00:23:06] Se tu não te identifica com eles…
[00:23:08] Eu me lembro de alguns contos tentando…
[00:23:10] A forma de pensamento de uma máquina.
[00:23:11] A máquina tentando conseguir o seu pensamento.
[00:23:13] Mas ela está buscando o humana.
[00:23:15] Como o Datana, Jornal das Estrelas.
[00:23:16] Ele está tentando, se esforçando para ser aquilo que ele não é.
[00:23:20] Ou então…
[00:23:22] A forma de pensamento.
[00:23:23] Ele alterna histórias de ficção que eu me lembro que alterna como está pensando os humanos.
[00:23:27] Como estão pensando os extraterrestres.
[00:23:29] Mas assim, sempre…
[00:23:31] Bom, não tem outro jeito.
[00:23:32] A gente vai escrever o que a gente sabe.
[00:23:34] Ou a gente conhece de pessoas.
[00:23:35] Mas eu gosto dessas definições que falam que o humano é, sobretudo, o principal.
[00:23:40] É porque literatura é uma arte e a arte tem que ser sob nós.
[00:23:43] No fundo, é isso.
[00:23:45] A gente está dizendo que coincide.
[00:23:47] Essa noção geral de que a literatura está voltada para nossas preocupações.
[00:23:51] Eu concordo contigo.
[00:23:52] Está voltada e, por exemplo, não tem como sair desse leito.
[00:23:55] Mesmo a ficção científica.
[00:23:56] Eu acho que não deve ter nenhum exemplo de ficção científica que não tem absolutamente nada de humano que está acontecendo ali.
[00:24:01] Não, eu gosto…
[00:24:02] Até que tem.
[00:24:04] Tem coisas.
[00:24:05] Eu já vi exemplos.
[00:24:06] Eu acho que não é sempre sobre humano.
[00:24:08] Acho que tem uma certa ala que é mais interessada na ideia.
[00:24:11] Só que hoje em dia, eu acho que antigamente, 50 anos atrás, isso ainda bastava.
[00:24:16] Mas hoje em dia é muito difícil publicar uma coisa dessas.
[00:24:19] A tendência é cada vez mais humano.
[00:24:22] É cada vez mais que tem que dialogar com a pessoa que está lendo.
[00:24:26] Porque esse é o principal.
[00:24:28] Mas tem alguns exemplos técnicos.
[00:24:29] Quando eu me lembro do Asimov nas histórias de robô,
[00:24:31] que às vezes o norte da história é uma questão lógica.
[00:24:35] Porque tem uma lei que se ela for infringida, vai acontecer tais efeitos.
[00:24:39] Se você pegar, por exemplo, o homem bicentenário, que tem uma história completamente centrada em tecnologia,
[00:24:44] no fundo, no fundo é a busca do humano.
[00:24:48] Eu cito, assim, os autores que construíram o humanismo dentro da ficção científica,
[00:24:55] inclui esses dois dos meus favoritos, o Kurt Vonnegut e a Ursula Caliguin.
[00:24:59] O Kurt Vonnegut começou bem antes, até nos anos 50.
[00:25:01] Mas tem o Brian Aldiss também.
[00:25:03] E o Ray Bradbury.
[00:25:04] Já citamos o romance dele.
[00:25:06] O Ray Bradbury, de fato, é o escritor, talvez, de ficção científica americana,
[00:25:10] mais conhecido exatamente por ter essa verve literária.
[00:25:13] Quer dizer, ele tem contos de não ficção também, publicados.
[00:25:17] Poesia eu não sei, mas ele tem uma literatura muito lírica, totalmente centrada nisso.
[00:25:23] E as histórias, por exemplo, vamos citar…
[00:25:25] Só para se disser do contra.
[00:25:27] Uma história da Ursula, claro que tem humano, mas ela tinha coisa…
[00:25:30] Aliás, ela é a mais humana de todas as escrituras.
[00:25:32] A coisa mais interessante que acontece ali é que ela mostra um alienígeno,
[00:25:35] um personagem que pode ter dupla sexualidade mesmo.
[00:25:39] Como é que se chama isso quando é…
[00:25:41] Ele é asexuado bissexuado.
[00:25:43] É mafrodito.
[00:25:44] Exato, é mafrodito.
[00:25:45] Essa é a mão esquerda da escuridão.
[00:25:47] O lado esquerdo da escuridão.
[00:25:49] O lado esquerdo da escuridão é um de sete livros,
[00:25:52] que é uma epitalogia que tem situado nessa rede de planetas, né?
[00:25:57] E a questão de sexualidade é central naqueles personagens.
[00:25:59] Mas essa é uma questão humana que estava represada quando ela começou a escrever no fim dos anos 60.
[00:26:03] Então ela também, ela começou a trazer isso precisamente naquele momento.
[00:26:06] Mas eu acho que eu preciso ser o principal, Jorge.
[00:26:08] Eu não disse que precisa.
[00:26:09] Vou interromper a discussão de novo para lembrar que esse é o Fronteiras da Ciência,
[00:26:12] hoje falado sobre ficção científica.
[00:26:14] Estou a encontrar toda a informação adicional no nosso site,
[00:26:16] fronteirasciência.urgs.br
[00:26:18] A gente está, assim, encaminhando agora para o final.
[00:26:20] Eu queria que vocês comentassem e eu sugerissem um livro cada um de ficção científica.
[00:26:25] Eu vou enfatizar, assim, da minha experiência, dos livros que eu li,
[00:26:29] os que me pareceram dar um destaque, uma ênfase muito forte, assim, para a questão de ciência.
[00:26:36] São os livros que mais me impressionaram, assim, na sua investigação, assim,
[00:26:40] ou então especulação científica.
[00:26:42] Um do Asimov, que agora acho que está traduzido por os próprios deuses,
[00:26:46] que é um livro genial de ciência, um livro genial.
[00:26:49] Ele fala de multiversos, pensa bombas energéticas entre universos diferentes,
[00:26:54] assim, com propriedade científica mesmo.
[00:26:56] E o outro que eu acho genial, maravilhoso e pequeno, puramente científico,
[00:27:00] é dos irmãos Strugatsky, aquele, certamente, talvez.
[00:27:06] Para quem gostaria de conhecer alguns escritores nacionais,
[00:27:10] eu recomendo muito a série Imaginários, que é lançado pela editora Draco
[00:27:16] e já tem quatro volumes desse.
[00:27:18] E, assim, cada um tem realmente umas pérolas no meio, acho que vale muito a pena.
[00:27:23] É uma mistura de fantasias, ficção científica, tem várias coisas,
[00:27:26] mas expõe um pouco os escritores nacionais.
[00:27:29] Mas se quiser uma coisa, uma leitura em inglês, eu ia dizer Werner Wenge.
[00:27:35] Gosto muito dos livros dele, especificamente a Fire on the Deep,
[00:27:39] que eu vi que não tem uma versão no Brasil, mas eu vi que em Portugal eles lançaram
[00:27:43] como Fogo nas Profundezas do Espaço.
[00:27:46] Então eu espero que chegue no Brasil logo, porque é um grande livro.
[00:27:49] Um título melhor.
[00:27:50] Viagens entre as estrelas, muita intriga, muitos personagens bem interessantes,
[00:27:55] mundos diferentes.
[00:27:56] É um grande livro de ficção científica, é uma coisa um pouco mais recente.
[00:28:00] Jorge?
[00:28:01] Eu não consigo fazer dois, eu vou fazer três então, só para ser o chato.
[00:28:05] Mas eu já citei dois deles.
[00:28:06] Eu já citei todos eles, do Ray Bradbury às crônicas marcianas.
[00:28:10] E eu pego que ele é ficção científica e é também ficção científica soft,
[00:28:14] como claramente tem.
[00:28:16] Da Última La Caliguim, eu gosto de todos, mas eu destacaria os dispossuídos.
[00:28:21] Um dos que mais me impactou e que eu vivo citando.
[00:28:24] Eu vivo esse livro.
[00:28:25] E do Kurt Vonnegut Jr. tem vários muito bons também, mas eu vou citar um
[00:28:28] que é pouco conhecido no Brasil, embora esteja traduzido aqui, que é Cama de Gato.
[00:28:31] Que é uma história surpreendente, curta, fascinante.
[00:28:34] E é como uma bela, até engraçada, mas irônica história de ficção científica,
[00:28:39] Cama de Gato.
[00:28:40] Esse foi o programa Fronteiras da Ciência, onde a gente falou sobre ficção científica.
[00:28:45] Os nossos convidados foram o Christopher Carsten Smith, que é escritor de fantasia.
[00:28:51] Também tivemos o Carlos Miralha, professor da Departamento de Filosofia da UFPL.
[00:28:55] O Jorge Kielfer, do Departamento de Bioquímica da URGS.
[00:28:57] E é o Jefferson Anzon, da Física também da URGS.
[00:29:06] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGS.
[00:29:11] Técnica de Gilson de César e Direção Técnica de Francisco Boazelli.
[00:29:27] Obrigado por assistir!