Ficção Científica II


Resumo

O episódio discute a relação simbiótica entre ficção científica e ciência, explorando como a ficção científica inspira cientistas e como a ciência, por sua vez, influencia a ficção. Os participantes compartilham experiências pessoais sobre como a leitura de ficção científica na juventude motivou suas carreiras científicas, citando obras como as de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke.

A conversa aborda a evolução do gênero, desde o otimismo dos anos 60, representado por séries como Star Trek, até o tom mais pessimista e realista das obras contemporâneas, como cyberpunk e distopias ambientais. São mencionadas obras como ‘The Wind Up Girl’ e ‘Little Brother’, que refletem preocupações atuais com controle estatal, privacidade e colapso ecológico.

Os debatedores analisam como a ficção científica pode envelhecer rapidamente quando tenta prever tecnologias específicas, mas permanece relevante quando explora temas humanos atemporais, como em ‘O Homem Bicentenário’. Discute-se também o papel da ficção científica em estimular a imaginação e a reflexão crítica sobre o impacto da tecnologia na sociedade, questionando se o gênero atual perdeu parte de seu otimismo inspirador.

Por fim, é anunciado o concurso Hydra, uma parceria para incentivar novos escritores de ficção científica e fantasia no Brasil, com a possibilidade de publicação nos Estados Unidos. O programa é dedicado ao colecionador e influenciador Teófilo Bassos.


Indicações

Autores

  • Isaac Asimov — Escritor frequentemente citado, autor de ‘Os Próprios Deuses’ e ‘O Homem Bicentenário’, reconhecido por suas ideias científicas coerentes e temas humanos profundos.
  • Ursula K. Le Guin — Autora mencionada por criar o conceito do ‘ansible’, um dispositivo de comunicação instantânea que antecipa ideias da internet, e por obras com densidade humana atemporal.
  • Robert Heinlein — Escritor citado, autor de ‘Starship Troopers’ e ‘Stranger in a Strange Land’, descrito como um grande escritor, embora algumas de suas obras sejam vistas como reacionárias.
  • Orson Scott Card — Escritor premiado, autor de ‘Ender’s Game’, cuja revista é parceira no concurso Hydra anunciado no programa.

Conceitos

  • Cyberpunk — Subgênero da ficção científica mencionado como representante da tendência pessimista e crítica da tecnologia, mostrando futuros distópicos e antiutópicos.
  • Steampunk — Subgênero descrito como uma ‘ficção científica retrô’, que imagina uma história alternativa baseada na tecnologia a vapor do século XIX, representando uma fuga para um passado mais interessante.
  • Ansible — Dispositivo de comunicação instantânea criado por Ursula K. Le Guin, citado como uma antecipação ficcional da internet, permitindo comunicação sem limitações de velocidade da luz.

Filmes_Series

  • 2001: Uma Odisseia no Espaço — Filme citado como exemplo inspirador que fez uma geração acreditar que no futuro estaríamos em estações espaciais.
  • Star Trek (Jornada nas Estrelas) — Série citada como exemplo de ficção científica otimista e utópica, onde a humanidade superou problemas como dinheiro e desigualdade, e que inspirou tecnologias como o celular.
  • Blade Runner — Filme citado como exemplo de ficção científica pessimista (cyberpunk) que mostra um futuro distópico, mas que ainda assim inspirou muitas pessoas.
  • Battlestar Galactica — Série citada como exemplo do tom pessimista contemporâneo, em contraste com o otimismo de Star Trek, mostrando a humanidade quase extinta e em fuga.
  • Starship Troopers (Tropas do Espaço) — Filme baseado no livro de Robert Heinlein, mencionado como um sucesso que representa uma visão mais militarista e menos utópica do futuro.
  • Dr. Who — Série de TV britânica mencionada como uma das favoritas, ao lado de Star Trek, por construir uma visão positiva e bondosa do futuro.

Livros

  • Os Próprios Deuses (Despertar dos Deuses) — Livro de Isaac Asimov (1972) citado como exemplo que apresentou de forma coerente a ideia de universos paralelos com leis físicas diferentes, possivelmente inspirando cientistas.
  • The Wind Up Girl — Livro de Paulo Bacigalupi que ganhou prêmios Hugo e Nebula. Descreve um futuro pós-colapso energético onde a comida é a principal fonte de energia e o controle alimentar significa poder.
  • Little Brother — Livro de Cory Doctorow mencionado como exemplo de ficção científica otimista, onde adolescentes usam tecnologia (como redes baseadas em Xbox) para lutar contra um governo totalitário e defender a privacidade.
  • Neuromancer — Romance cyberpunk de William Gibson, citado como exemplo de obra que antecipou conceitos da internet e da realidade virtual.
  • O Homem Bicentenário — Conto de Isaac Asimov citado como exemplo de obra atemporal que explora temas humanos profundos (humanidade, mortalidade, direitos) em vez de previsões tecnológicas passageiras.
  • Ender’s Game (O Jogo do Exterminador) — Livro de Orson Scott Card, autor mencionado em conexão com o concurso Hydra para novos escritores.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao tema e participantes — Apresentação do programa Fronteiras da Ciência e do tema: a relação entre ficção científica e ciência. São apresentados os participantes: Christoph Kasten-Smith (escritor e professor), Carlos Miralha (professor de filosofia), Jorge Kylfell (biofísica) e Jethro Soenzon (física). A ideia central é discutir a interdependência mútua entre os dois campos.
  • 00:01:15A ficção científica como inspiração para cientistas — Carlos Miralha dá o exemplo do livro ‘Os Próprios Deuses’ de Isaac Asimov (1972), que apresentou a ideia de universos paralelos com leis físicas diferentes de forma coerente. Ele especula que muitos cientistas atuais podem ter sido estimulados por essa literatura. Jorge Kylfell compartilha sua experiência pessoal, contando como a ficção científica o motivou a estudar física, especialmente o desejo infantil por teletransporte, e menciona a organização de um encontro de ficção científica em Porto Alegre na juventude.
  • 00:05:20A decepção com a realidade científica e a evolução do gênero — Jorge Kylfell comenta sua decepção ao descobrir que a física do teletransporte era mais complicada do que imaginava. A conversa evolui para a mudança de tom na ficção científica: do otimismo espacial dos anos 60 (como ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’) para um foco mais realista e sombrio em temas contemporâneos como meio ambiente, controle estatal e distopias tecnológicas (como ‘Blade Runner’). Christoph menciona o livro ‘The Wind Up Girl’, que imagina um futuro pós-colapso energético.
  • 00:08:52Tendências atuais: steampunk e retorno ao passado — Christoph discute a tendência do steampunk, que imagina uma história alternativa baseada na tecnologia a vapor do século XIX, representando uma fuga nostálgica para um passado mais interessante. Ele menciona exemplos no cinema (‘Quinto Elemento’) e em quadrinhos (‘As Cidades Ocultas’). A discussão salienta que a ficção científica não precisa ser apenas sobre o futuro, mas também pode explorar passados alternativos.
  • 00:11:33Exemplos de ficção científica otimista e o papel da fantasia — Christoph cita ‘Little Brother’ de Cory Doctorow como um exemplo de ficção otimista, onde adolescentes usam tecnologia para resistir a um governo totalitário. Jorge contrapõe com a visão utópica de ‘Star Trek’. A conversa se volta para a popularidade da fantasia (como ‘Harry Potter’) e seu papel em fazer uma geração ler, questionando se a ficção científica atual perdeu seu poder de inspirar um futuro positivo.
  • 00:17:38Ficção científica e reflexão crítica sobre tecnologia — Debate sobre a capacidade da ficção científica de provocar reflexão sobre o uso da tecnologia e a falta de espaços democráticos para decisões tecnológicas (como privacidade na internet e agricultura). Discute-se se o gênero deve fugir de estereótipos e apresentar a ciência de forma neutra, inspirando as novas gerações através do fascínio, assim como fez o programa espacial.
  • 00:19:50Ficção científica como reflexo do espírito do tempo — Christoph argumenta que a ficção científica reflete o ‘espírito do tempo’. O otimismo de ‘Star Trek’ dos anos 60 contrasta com o pessimismo pós-11 de setembro de ‘Battlestar Galactica’ ou a crítica à guerra em ‘Starship Troopers’. Questiona-se se há espaço hoje para obras otimistas que apostem em um futuro melhor, ou se a fantasia assumiu esse papel escapista.
  • 00:21:44O envelhecimento da ficção científica e obras atemporais — Discussão sobre como a ficção científica que tenta prever tecnologias específicas envelhece rapidamente (como histórias de viagem à Lua), enquanto obras que exploram questões humanas profundas permanecem atemporais. São citados exemplos como ‘O Homem Bicentenário’ de Asimov (questões de humanidade e mortalidade) e autores como Kurt Vonnegut e Ursula K. Le Guin, cujas obras transcendem a previsão tecnológica.
  • 00:24:33Influência da ciência na ficção científica — Os participantes tentam identificar exemplos claros de como a ciência de uma época influenciou diretamente a ficção científica produzida. São citados: ‘Viagem ao Centro da Terra’ (teorias geológicas da época), ‘Frankenstein’ (eletricidade e anatomia), e ‘Contato’ de Carl Sagan (programa SETI). Christoph menciona o ‘ansible’ de Ursula K. Le Guin, um dispositivo de comunicação instantânea que antecipa conceitos da internet.
  • 00:26:57Concurso Hydra e encerramento — Christoph anuncia o concurso Hydra, uma parceria para incentivar escritores brasileiros de ficção científica e fantasia. Contos publicados em 2009 ou 2010 podem ser inscritos, e o vencedor terá sua obra traduzida e publicada profissionalmente nos EUA pela revista de Orson Scott Card. O programa é encerrado com uma dedicatória ao colecionador e amigo Teófilo Bassos, reconhecendo sua influência.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2011-08-22T15:00:05Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:11] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:14] O tema de hoje é a relação entre ficção científica e ciência.

[00:00:20] Para falar nesse assunto, nós temos o Christoph Kasten-Smith, que além de escritor de fantasia,

[00:00:27] que também é professor na FIVALI, na SPM e na PUC, o Carlos Miralha, professor do Departamento

[00:00:33] de Filosofia da URFEL, o Jorge Kylfell, do Departamento de Biofísica da URX, e eu,

[00:00:39] Jethro Soenzon, da Física da URX.

[00:00:42] Então a ideia um pouco é discutir a relação entre ficção científica e ciência, como

[00:00:48] é que uma se alimenta da outra.

[00:00:50] Carlos.

[00:00:51] Interdependência mutua.

[00:00:52] Interdependência, relação entre elas.

[00:00:53] Bom, em primeiro lugar eu devo dizer que me sinto bastante agora à vontade, familiarizado

[00:00:58] assim, a mesa se mostrou bastante receptiva a essas questões ligadas à ciência e as

[00:01:04] questões das suas possibilidades extremas na ficção, e com isso então eu me sinto

[00:01:10] à vontade de dizer que eu vim do futuro e tenho novas para colocar para vocês.

[00:01:15] Boas novas.

[00:01:16] Eu não sabia disso.

[00:01:17] Por exemplo, saindo da brincadeira agora, essa ideia, fico pensando agora de imediato

[00:01:22] algo que eu acho que vai servir como exemplo de algum tipo de impacto das ideias que aparecem

[00:01:28] em literatura, em ficção científica, em produtos da ciência.

[00:01:32] Falo de novo sobre um livro do Asimov, esse é Despertar dos Deuses, tem uma nova tradução

[00:01:38] agora que é Os Proprios Deuses, no qual, de maneira assim, o livro é de 1972 e o Asimov

[00:01:47] coloca de forma muito coerente, com um respaldo científico bastante razoável, uma ideia

[00:01:55] de que o nosso universo não é um único universo, poderia haver uma multiplicidade

[00:01:59] de outros universos com outras leis físicas que estarem por trás.

[00:02:03] Eu aposto, tenho certeza que muitos dos autores de ciência agora, entre os seus 35, 40 anos

[00:02:12] que estão produzindo, aposto que muitos devem ter se deparado com esse tipo de literatura

[00:02:19] ou esse tipo assim de estimulação para produzir as coisas que estão sendo feitas agora em

[00:02:23] ciência, propriamente em ciência, que acho uma tremenda, seria muito estranho que isso

[00:02:30] não acontecesse.

[00:02:31] Não, acho que é inegável que muitos escritores de ficção científica tiveram excelentes

[00:02:40] insights, antecipações, assim como cometeram erros, dificilmente a gente vê uma obra

[00:02:46] mais antiga, onde as pessoas carregassem seus celulares, em termos de futurologia com

[00:02:52] certeza.

[00:02:53] Mas tem gente que antecipa web, tem gente que antecipa displicitamente web, mas eu estou

[00:02:58] esperando a minha mochila jato até hoje, mas é uma questão de tempo, por exemplo,

[00:03:02] o celular foi antecipado na série Jornal das Estrelas, na verdade o desenho do celular

[00:03:07] foi inspirado no que eles quando jovens, o autor declara, viam na série A do que é

[00:03:13] o tricorder, aqueles instrumentos de comunicação da Jornal das Estrelas, então estamos chegando

[00:03:18] lá, já estamos chegando lá, a gente falando assim sem a mochila jato, eu já estou atropelando

[00:03:26] aqui, tem a influência, digamos, sobre os futuros cientistas, posso falar por mim também,

[00:03:34] eu li sempre muito ficção científica, sempre fui um leitor ávido, aponto que a gente quando

[00:03:40] era muito novo, com 15, 16 anos, a gente teve a ousadia de aqui em Porto Alegre organizar

[00:03:44] o primeiro e que eu saiba o único encontro sul-riograndense de ficção científica,

[00:03:48] lembram?

[00:03:49] E trouxemos então o escritor mais pop da época, que era o Fausto Cunha, conseguimos

[00:03:54] bazalhar dinheiro, uns guris de 15, 16 anos, o dinheiro para ele vir aqui, deu uma palestra

[00:03:57] ali no centro de cultura, o Jefferson Vontava ali, mas nós estávamos lá.

[00:04:03] E conseguimos fazer uma cobertura, inclusive com alguns colegas professores que tinham coleções

[00:04:08] de livros e menos, vieram falar sobre vários autores, cada um de nós estudou dois para

[00:04:11] contar a história deles, enfim, teve muita gente assistindo, foi um surpreendente, né?

[00:04:16] Na época, claro que era meu favorito.

[00:04:18] Eu falei do Stanislaw Lehm e dos Trugatsky, dos Irmãos Trugatsky, isso eu me lembro bem.

[00:04:23] Enfim, foi influente, foi influente, mas eu não sei se só isso foi, digamos, eu gostava

[00:04:30] Então, ler literatura motivante faz parte, mas certamente reforçava, porque te fazia sonhar.

[00:04:36] Eu me lembro também que de brincadeira, eu acabei fazendo física, mas depois eu migrei

[00:04:40] para a área biológica, eu estava com neurociências hoje, mas, por exemplo, um dos meus motivadores

[00:04:45] infantis, infanto-juvenis para entrar na física, é que eu queria ter um síntimo de teletransporte

[00:04:49] que nem daquela série de TV, Os Seres do Amanhã, que tinha uma série inglesa, de 1972,

[00:04:55] para me teletransportar para onde eu quisesse, bom, depois de entrar na física eu descobri

[00:04:58] que é um pouco mais complicado que isso, fiquei um pouco decepcionado, até por isso

[00:05:01] eu talvez tenha ido embora, mas, se procurar na história de qualquer síntese, essas motivações

[00:05:06] meio metafísicas, até irracionais, mas bobinhas, mas muito interessantes, elas têm o seu papel,

[00:05:11] elas são motivações.

[00:05:12] Com 12 anos, em 1976, eu vi 2001, eu mordissei no espaço, e eu tinha a certeza absoluta

[00:05:20] que agora nós estaríamos fazendo esse programa numa estação espacial.

[00:05:24] Bom, se o programa fosse sobre filmes, esse seria o filme, a gente vive no mundo, que

[00:05:29] é o futuro dos livros de ficção científica que a gente lia na nossa adolescência, e

[00:05:33] mesmo assim eles não perderam a sua…

[00:05:35] Eu nunca pensei, eu nunca imaginei a web assim, aliás, eu acho que até foi melhor assim.

[00:05:39] Sim, essa é uma coisa interessante, porque eu vejo uma tendência dos últimos 20, talvez

[00:05:44] até 30 anos na ficção científica, que antigamente a ficção científica era muito aquela coisa

[00:05:50] de viagem no espaço, vamos popular outros mundos, vamos resolver todos os problemas,

[00:05:57] mas hoje em dia, o que eu vejo muito mais é a ficção científica voltada à realidade

[00:06:02] atual.

[00:06:03] Então a ficção científica meio tirou aquela ideia, ainda tem pessoas escrevendo sobre

[00:06:09] viagens espaciais, mas muito menos.

[00:06:11] Hoje em dia a ficção científica é muito sobre meio ambiente, é muito sobre tópicos

[00:06:16] mais relevantes e um futuro mais perto, e eu acho que vem um pouco da, assim, pessoas

[00:06:23] desludidas dos anos 80, 90, que cresceram achando, ah bom, agora a gente foi para a

[00:06:29] lua, então próximo passo vamos para as estrelas em 10 anos.

[00:06:33] Também porque a ficção científica há 20, 30 anos era focada em adolescentes, em pessoas

[00:06:39] novas, só que esses adolescentes cresceram e continuaram gostando de ficção científica,

[00:06:42] então agora tem uma exigência maior.

[00:06:44] Mas eu acho que ele falou uma coisa importante, houve um amadurecimento na temática da ficção

[00:06:49] científica, ela deixou de ser tão ingênua como era de fato, as pessoas eram mais ingênuas,

[00:06:53] talvez principalmente nos Estados Unidos, anos 60, 70, era uma ingenuidade mais ou menos,

[00:06:57] acho que depois da guerra do Vietnam a coisa ficou um pouco mais diludida.

[00:07:01] Também teve essa contraparte que as pessoas se deram conta que nem sempre a tecnologia

[00:07:07] é boa.

[00:07:09] Essa ficção fica, exatamente, e a ficção americana poucas vezes fazia crítica, o que

[00:07:15] depois vem com o que o Wallace comentasse, esse movimento que eu não li nada importante,

[00:07:20] mas o cyberpunk e outros, por exemplo no cinema, que eu não sei mais, tem uma tendência

[00:07:26] assim de mostrar as antiutopias do futuro próximo e remoto, como o Blade Runner e outros,

[00:07:30] ou seja, o futuro é uma desgraça, eu não quero meus filhos chegando naquilo, e parece

[00:07:35] que está se confirmando, porque tudo aponta para lá mesmo, sejam estados totalitários

[00:07:40] ou barbarismos, enfim, coisas de vários tipos.

[00:07:42] O futuro está muito mais escuro agora.

[00:07:44] Muito mais sombrio.

[00:07:45] E a gente vê isso, o livro The Wind Up Girl, que vai ser traduzido para o português em

[00:07:51] breve pela De Vir, mas o escritor é Paulo Batigalupe, e esse livro ganhou todos os prêmios

[00:07:58] do ano passado, ganhou Hugo, Nébula, Lucas, apareceu na lista de Time Magazine dos melhores

[00:08:04] prêmios do ano, que fez tanto impacto, e a ideia é que no futuro acabam todas as fontes

[00:08:11] de energia, e a única energia é comida, e as pessoas começam a comer comida e usam

[00:08:17] elefantes e outras coisas para usar uma tecnologia baseada em molas, eles ficam guardando energia

[00:08:23] em molas que basicamente fica lá com…

[00:08:28] Volta quase da pedra.

[00:08:31] Exatamente, é uma coisa muito…

[00:08:34] Então quem controla a comida controla o mundo nesse caso, é uma futura bem baseada em Tailândia,

[00:08:43] é uma coisa bem diferente, mas assim…

[00:08:45] É bem diferente isso mesmo, fiquei curioso.

[00:08:47] E tem uma outra ala também que eu vejo muito que é essas coisas tipo o steampunk, que o

[00:08:52] porque este steampunk é uma história alternativa, e é baseado na tecnologia de vapor, mas que

[00:09:01] na época vitoriana, no século 19, que eles desenvolveram outra tecnologia usando vapor

[00:09:06] como energia, então é uma volta para o passado, e de novo acho que a tendência…

[00:09:12] Clima retrô, assim?

[00:09:13] É, é retrô, ficção científica é retrô, e assim é meio, vamos esquecer do futuro

[00:09:17] e pensar num passado mais interessante.

[00:09:20] Aliás, no cinema tem vários desse tipo, assim, pegar por exemplo o Quinto Elemento,

[00:09:24] James West, e nos quadrinhos também, vou pegar os quadrinhos daqueles autores da Torre

[00:09:30] e do Urbicanda, como é que são os nomes deles?

[00:09:33] São espanhóis?

[00:09:34] Eles são belgas na verdade, eles são arquitetos inclusive, e eles têm uma série que chama

[00:09:39] Cidades Ocultas, e essa Torre são histórias assim, é uma ficção num futuro, num mundo

[00:09:44] alternativo e coisa retrô, no caso a arquitetura arnovo é central em todas as histórias.

[00:09:49] O Christo falou interessante que a ficção científica não precisa ser sobre um futuro

[00:09:52] alternativo, ela pode ser sobre um passado alternativo.

[00:09:54] É verdade, aliás, A Guerra do Fogo é conselhado num livro de ficção científica, é um filme

[00:09:59] muito interessante que é inclassificável, que é uma história muito interessante, que

[00:10:03] é Descoberta do Fogo.

[00:10:05] A ficção científica também, inicialmente ela também foi responsável pela criação

[00:10:10] de uma série de estereótipos na ciência, como o cientista maluco que queria conquistar

[00:10:16] o mundo.

[00:10:17] O próprio Frankenstein, talvez um dos primeiros exemplos de ficção científica, é um médico

[00:10:26] que…

[00:10:27] É o melhor exemplo máximo, assim, tá tudo concentrado, acho, no Frankenstein.

[00:10:28] É, certos paradigmas são lá, certos paradigmas são lá, outros estão em outros, enfim,

[00:10:34] os companheiros, por exemplo, pegar o livro do Allen, depois do filme, ele resgata na

[00:10:40] verdade um pouco a história do Drácula misturado com a exploração do desconhecido.

[00:10:45] Então, na literatura há certos, vou dizer, padrões, né, arquétipos que se repetem,

[00:10:51] não são fórmulas?

[00:10:52] Nesse exemplo da Merchelito já vi, assim, já li uma ideia, assim, que talvez a tecnologia

[00:10:58] não seja boa.

[00:10:59] Temos que tomar cuidado.

[00:11:00] Por isso que ele é tão adiantado, é um dos melhores romances de toda a história,

[00:11:03] com certeza.

[00:11:04] Bom, esse é o Fronteiras da Ciência, hoje a gente tá falando sobre ficção científica,

[00:11:11] vocês vão encontrar o material que a gente tá mencionando aqui no nosso site, o fronteirasdaciência.orgs.br,

[00:11:19] assim como o MP3.

[00:11:21] Então, geralmente eu vejo um futuro mais escuro, isso é muito comum, é uma temática

[00:11:27] comum.

[00:11:28] Não quero dizer que todo mundo, que ninguém é otimista, porque eu vejo livros como o

[00:11:31] Little Brother, de Cory Doctorow.

[00:11:33] Então, Little Brother é o apóstolo de Big Brother, Big Brother foi o 1984, aquele grande

[00:11:40] viório vendo o que todo mundo tava fazendo, a ideia de Little Brother é que os adolescentes

[00:11:47] conseguem utilizar a tecnologia pra lutar contra um governo meio totalitário.

[00:11:53] E, na verdade, é futuro, é muito pouco, é 20 anos no futuro esse livro, então a ideia

[00:11:58] é que, assim, o governo dos Estados Unidos já é meio totalitário naquela época, 10

[00:12:02] anos daqui, e fala de tecnologia atual, isso que é interessante, é bom.

[00:12:08] Podemos debater isso, mas estamos falando de ficção aí.

[00:12:12] Eu não posso falar pra não perder o passaporte, nada assim, sabe, não tem nada.

[00:12:16] Não baixar sozinho sabe o meu endereço.

[00:12:18] Mas é bem interessante que eles usam, assim, já que o governo começa a controlar a informação,

[00:12:24] porque a informação é fundamental hoje em dia, então, internet, tudo, claro, o governo

[00:12:28] pode chegar e olhar qualquer coisa que alguém tá mandando, e o meu qualquer coisa.

[00:12:33] E uma privacidade.

[00:12:34] Não, não existe privacidade.

[00:12:35] Um livro que é interessante, eles pegam os Xbox, antigos deles, e eles usam a rede,

[00:12:41] o que conectou os Xbox, eles fazem uma rede paralela, usando essa tecnologia que ninguém

[00:12:47] tá olhando mais, então, é bem interessante, mas, basicamente, é um livro praticamente

[00:12:52] de receita de como é que fazer uma rede dessas, de como é que fazer…

[00:12:55] O link eles agora vão publicando, agora eles já sabem.

[00:12:57] A web materialmente é…

[00:13:00] Antiguada.

[00:13:01] Exatamente.

[00:13:02] Talvez não controlável pelo outro sistema, principalmente por não ter compatibilidade.

[00:13:07] Mas é um livro otimista, é um livro que diz que mesmo com todo o controle, que é

[00:13:12] essa falta de privacidade, falou que ainda, assim, que as pessoas inteligentes, as pessoas

[00:13:18] que sabem utilizar a tecnologia podem encontrar jeitos para burlar a tecnologia, e esses são

[00:13:24] os heróis hoje em dia, basicamente os hackers.

[00:13:27] Mas não tem nada mais otimista sobre o futuro do que a série Star Trek, onde todas as

[00:13:32] pessoas eram vestidas, alimentadas, e não havia moeda, nem exploração, e leis igualitárias.

[00:13:41] E no mundo, pelo menos, a humanidade é…

[00:13:43] Pelo menos na Terra e em boa parte da federação.

[00:13:47] Mas isso aí é dos anos 60, porque não se faz, na jornada de cenas acabou.

[00:13:51] A jornada das estrelas passou para a Battlestar Galactica, que é uma coisa totalmente deprimente,

[00:13:56] quando toda a humanidade foi destruída praticamente, sobraram uns 40 mil pessoas e ficam

[00:14:02] fugindo no espaço.

[00:14:03] Ou a vitória, a vitória de um dos piores contos do Heinlein, que até que é um ótimo

[00:14:08] escritor de ficção científica, que é os patrulhos, como é que é, as tropas do espaço,

[00:14:12] que é um filme, que é a rinha no espaço, e é um baita sucesso também.

[00:14:17] Inclusive em videogames.

[00:14:18] Aliás, é uma cara interessante.

[00:14:19] Não, não, não.

[00:14:20] Eu não adoro ele de reacionário, mas eu acho que no fundo ele é um baita negociador.

[00:14:24] É, mas eu não sei.

[00:14:25] Eu acho que tem ironia.

[00:14:26] Desculpa, é o Starship Troopers que você está falando?

[00:14:29] Starship Troopers, tropas do espaço.

[00:14:30] Não é do…

[00:14:31] Não é do Heinlein.

[00:14:32] Não é do Robert.

[00:14:33] Robert Heinlein.

[00:14:34] É do Heinlein.

[00:14:35] O mesmo que fez um Estranho em uma Terra Estranha e outros que são dos melhores que eu tenho.

[00:14:39] Eu não achei nada em reacionar o Estranho em uma Terra Estranha.

[00:14:41] Não, não é.

[00:14:42] E ela é bem riponga, por sinal.

[00:14:44] Mas assim, não importa.

[00:14:45] Pode começar com uma ironia, acabou ficando um baita sucesso hoje.

[00:14:49] Aliás, uma coisa interessante.

[00:14:51] Nós não falamos no programa Solificação Sentida, mas podemos falar agora.

[00:14:54] Quem é que sabe que guerra nos mundos, no fundo, é uma parábola assim do imperialismo

[00:14:58] britânico na África.

[00:14:59] Quem é que vai saber?

[00:15:00] A motivação está nas análises.

[00:15:02] Ninguém lê as análises literárias.

[00:15:04] Mas, por exemplo, te perguntando dos vários modos, assim, esse cyberpunk e outros modelos,

[00:15:11] toda a literatura, a ficção, aparentemente não sei se dá pra generalizar, mas hoje

[00:15:15] o que se faz hoje é de caráter pessimista, talvez um pouco mais maduro, mais realista,

[00:15:19] ou pelo menos menos iludido.

[00:15:21] Se a literatura tem um papel de estimular os jovens pra um futuro mais promissor, será

[00:15:26] que não está faltando talvez esse tipo de impulso dentro da literatura?

[00:15:28] Ou seja, construtores de um otimismo futuro que…

[00:15:31] Por exemplo, eu sempre achei a Série de Jornal de Externo as uma das melhores coisas, e pra

[00:15:34] mim é a disparada melhor de todas as séries da televisão, agora disputando o caixa de

[00:15:38] tacatato com o Dr.

[00:15:39] Hugo, que eu estou aprendendo mais recentemente.

[00:15:41] Mas, assim, Jornal de Externo é exatamente isso, é a construção de que é possível

[00:15:45] ser, assim, bom, bondoso, apesar de cometer erros e tal, e compartilhar e ser, enfim,

[00:15:51] uma sociedade mais igualitária.

[00:15:53] E procurar não interferir, né?

[00:15:55] Isso, isso aí é brutal.

[00:15:56] De uma dificuldade filosófica incrível, né?

[00:15:59] Talvez é por isso que a fantasia está indo melhor agora, porque namorar um vampiro

[00:16:04] pode ser um futuro melhor do que…

[00:16:06] Ensino a tolerância.

[00:16:08] Acabar com todo o meio ambiente.

[00:16:10] Nunca tinha pensado nisso.

[00:16:11] Bom, isso não vai me fazer gostar daquela série que a minha filha assiste lá dos vampiros

[00:16:15] descabelados e pálidos, mas assim…

[00:16:18] Mas o Harry Potter é legalzinho.

[00:16:20] É um mundo fantasioso.

[00:16:22] O Harry Potter tem um mérito muito, muito importante, que ele fez toda uma geração

[00:16:27] começar a ler.

[00:16:28] Que não lia.

[00:16:29] A agorizada nova não lia.

[00:16:31] Infelizmente eles pararam do volume 7.

[00:16:33] Isso é um problema.

[00:16:34] Se bem que eles partiram para coisas parecidas, como desventuras em série.

[00:16:38] Tem algumas coisas aí?

[00:16:39] Eu acho que alguns continuaram.

[00:16:41] Eu vejo isso no mundo editorial, porque tu vê que…

[00:16:45] Eu estava falando com alguém em uma entrevista sobre isso.

[00:16:48] Tem que ter uma geração de leitores para ter uma geração de editores depois, que vai

[00:16:51] publicar o que eles gostam.

[00:16:53] Então a gente começou a ver alguns editores nos anos 80.

[00:16:57] Acho que aqui no Brasil, eu estou falando, baseado em leituras, eu acho, de 20 anos antes

[00:17:02] do Tolkien, que pegou esse grupo.

[00:17:06] Pegou o Asimov, o Tolkien, esses começaram.

[00:17:09] E eles começaram a publicar umas coisas.

[00:17:11] E eu vejo que muitos editores dessa geração começaram lendo as coisas que eles publicaram

[00:17:16] na outra geração.

[00:17:17] A nova geração até.

[00:17:18] Eu tenho uma nova geração de editores que estão publicando bastante.

[00:17:21] Será que não dá fazer uma transferência dirigida nesse processo?

[00:17:24] Ou seja, começar a estimular alguns editores aí que publiquem uma coisa mais construtiva

[00:17:28] e otimiza além da fantasia.

[00:17:29] Talvez até na ficção científica juntar o útil ao agradável.

[00:17:32] Porque, na verdade, provocar essa reflexão sobre o uso da tecnologia é central.

[00:17:35] A verdade é o que vai decidir se nós vamos durar ou não.

[00:17:38] Tem problemas tecnológicos sérios e não há na nossa cidade, não só no Brasil, mas

[00:17:42] no mundo todo, espaços para a intervenção democrática e o direito de decisão da população

[00:17:48] sob introdução de novas tecnologias que são, muitas vezes, totalitárias.

[00:17:51] Como, por exemplo, a privacidade na internet, a introdução de intervenções na agricultura

[00:17:56] que não são controláveis a partir daí, que tem um lago prazo.

[00:17:59] Tem um monte de problemas.

[00:18:00] Mas acho que não é o caráter mais obscuro, mais iluminado dos livros que vão decidir

[00:18:06] a influência que vão ter no futuro das crianças.

[00:18:09] Eu acho que é muito mais relevante fugir desses estereótipos, apresentar a ciência

[00:18:15] como uma coisa que pode, dependendo como usada, pode ser má ou não, mas ela, a ciência

[00:18:20] em si, ela é neutra.

[00:18:21] Os fatos são os fatos.

[00:18:23] Então passar a versão correta da ciência para a nova geração e inspirá-la.

[00:18:28] Blade Runner foi um filme que mostrava um futuro bastante complicado, mas nem por isso

[00:18:35] deixou de inspirar um monte de gente.

[00:18:37] Eu não sei…

[00:18:38] Como é que tu realizas?

[00:18:39] Me conta algum importante romance de ficção científica que ensina isso.

[00:18:42] O que tu falaste?

[00:18:43] Ensinar o quê?

[00:18:44] Pensar cientificamente, raciocinar, decidir teorias.

[00:18:47] Qual é?

[00:18:48] Não tem?

[00:18:49] Não é isso que eu estou dizendo.

[00:18:50] Não é isso.

[00:18:51] Eu estou chamando a atenção…

[00:18:52] Você está falando da história do…

[00:18:53] Mas aí acabou.

[00:18:54] Eu não.

[00:18:55] Star Trek era uma série que não passava lição de moral, ensinamento…

[00:19:01] Ah, ensinava um pouco do pensamento científico.

[00:19:03] Mas fascinava.

[00:19:04] Para fascinar aquele universo possível, fascinava.

[00:19:08] Então aquilo atrai atenção à ciência.

[00:19:10] É só isso.

[00:19:11] Outra maneira é com a própria ciência.

[00:19:14] Por exemplo, o Programa Espacial Americano, uma das coisas…

[00:19:18] Várias das coisas que foram feitas, por exemplo, com ônibus espacial, estação espacial.

[00:19:22] É praticamente irrelevante do ponto de vista científico o que é feito.

[00:19:26] Mas a principal função é fascinar.

[00:19:29] Você vai ter gerações de cientistas que vão ser criadas, porque viram um ônibus

[00:19:36] espacial levantando voo.

[00:19:37] Ou viram um homem…

[00:19:38] O pessoal da NASA não ia gostar de ver o Brasil.

[00:19:40] Esse é um dos argumentos que são usados.

[00:19:43] Acho que a ficção científica acaba refletindo um pouco o espírito do tempo, um pouco mais

[00:19:50] do que um dos outros gêneros.

[00:19:51] Então eu acho que você vê aquela coisa dos anos 60, era aquele otimismo total e a ficção

[00:19:58] científica foi aquele otimismo total.

[00:20:00] E a gente vê hoje em dia, por exemplo, eu falei da Balustrad Galáctica, uma coisa que

[00:20:05] as pessoas conhecem, mas aquele tinha muito a ver com a invasão do Iraque, por exemplo,

[00:20:09] que os humanos viraram bomba terrorista, esse tipo de coisa.

[00:20:13] E o alienígenas que eram…

[00:20:16] Totalmente bombardeiro.

[00:20:17] Eles viraram para mostrar o outro lado da coisa.

[00:20:21] Star Trek é uma resposta, o Vietnã também, é uma resposta aos exageros da intervenção.

[00:20:26] Star Trek era otimismo, isso era meio o contrário do que estou falando, porque era a visão,

[00:20:33] era a guerra fria, era essa visão, não, vai dar tudo certo, a gente vai resolver e

[00:20:37] todo mundo vai junto.

[00:20:38] Mas na verdade o Star Trek é totalmente destoante do meio, exatamente porque não era o que

[00:20:42] estava acontecendo.

[00:20:43] Mas não é…

[00:20:44] Realmente botou no futuro.

[00:20:45] Mas é uma resposta, destoa porque é um negativo do troço, não é?

[00:20:48] Vamos deixar de ser assim.

[00:20:49] Por exemplo, não tem um negativo do pessimismo de hoje na ficção, pelo menos não estou

[00:20:53] vendo exemplos de escritores que apostam no outro que vai sair, não vamos sair dessa.

[00:20:58] Não são publicados?

[00:20:59] Não sei, eu não estou lendo o suficiente, por isso que eu me pregunto.

[00:21:02] Eu vejo muito mais otimismo na fantasia, porque eu acho que fantasia é um pouco mais escapismo.

[00:21:08] Mas aí usando aquela definição, fantasia é o impossível feito provável e ficção

[00:21:15] científica é o provável feito possível.

[00:21:20] Eu não sei se isso aí motiva para a ciência, porque muitos cientistas gostam de ler fantasia

[00:21:27] puramente.

[00:21:30] Eu acho que quase todos os cientistas que eu conheço em algum momento leram ficção

[00:21:34] científica.

[00:21:35] A grande maioria leu ficção científica.

[00:21:36] Tem uns que não gostam, eu conheço, mas a maioria gosta.

[00:21:39] Uma coisa interessante que talvez diferencia a ficção científica de outros ramos da literatura

[00:21:44] é que as obras envelhecem rapidamente.

[00:21:49] A gente, por exemplo, lendo alguns livros que eu li há 20 anos, eles são datados, eles

[00:21:58] envelhecem.

[00:21:59] Eu acho que não tem muitos livros na ficção científica que permanecem como grandes obras

[00:22:04] de literatura.

[00:22:05] É, mas aqueles que têm essa densidade humana mais bem estabelecida, Kudvo Negut, Augusto

[00:22:10] La Caleguin, porque eles apostam uma coisa tão remota, tão diferente que não é um

[00:22:14] termo de comparação, não é ficção tão imediata.

[00:22:17] O risco é você fazer algo muito parecido com o que está agora, aí você vai ser, como

[00:22:21] diz o nome da descrição, muito parecido com o que tem agora.

[00:22:23] Por exemplo, o homem bicentenário nunca vai envelhecer.

[00:22:26] O homem bicentenário é…

[00:22:28] Dá pra contar a história diferente, né?

[00:22:30] Mas se você vai ler o livro, lá tem componentes que são já superados.

[00:22:34] Mas a ideia, assim, do robô que vai…

[00:22:36] O teu prato é cheio, assim, o robô que vai se humanizando, humanizando, no final pede,

[00:22:41] pede inclusive pra ser mortal.

[00:22:42] E parece pra ser reconhecido direito de casar.

[00:22:44] Isso não vai envelhecer nunca.

[00:22:45] Mas se acontecer algum dia, isso vai envelhecer.

[00:22:48] Isso que é interessante, porque ficção científica, na verdade, é ruim prever o futuro.

[00:22:53] 99% não acontece.

[00:22:55] Bom, eu vim pro negócio dos escritores.

[00:22:57] É bom pra inspirar, mas é ruim pra prever.

[00:23:01] Claro, se o livro, se o ponto que o livro quer passar é essa extrapolação que ele

[00:23:05] faz do conhecimento da época pra um futuro possível, então a chance dele envelhecer

[00:23:11] é muito grande.

[00:23:12] Eu acho que não é esse ponto dele.

[00:23:13] Eu acho que é uma ideia de o que é humano.

[00:23:15] Nesse caso…

[00:23:16] Esses livros de viagem pra lua envelheceram rapidamente quando as pessoas foram pra lua.

[00:23:22] Então, eu acho que tu chega numa certa tecnologia e…

[00:23:25] Eu li um romance, claro, que era uma espécie de jipe lunar que ele começa a afundar na

[00:23:31] areia da lua, porque eles achavam que…

[00:23:34] E eles têm que voltar pra esta história.

[00:23:36] É, na verdade, o Júlio Verne e o Gajoel, só se tem essas histórias envolvendo a lua

[00:23:40] e tal, elas são meio hilárias.

[00:23:41] O Júlio Verne usou um canhão pra lançar uma nave.

[00:23:44] Mas assim, o resto da história…

[00:23:46] E na lua tinha habitantes.

[00:23:47] Tem seres plunários.

[00:23:48] É muito louco.

[00:23:49] É tão, assim, bizarra que passa a ser interessante ler de novo.

[00:23:52] Não, não.

[00:23:53] Eu acho que sim.

[00:23:54] Algumas coisas capas, só tu fazer de conta que não é na nossa lua, mas é uma lua alternativa.

[00:23:58] Ah, estimula a imaginação, sabe?

[00:24:00] Acho que talvez seja o principal papel…

[00:24:02] Mas olha só que interessante.

[00:24:03] Nós tivemos um desafio no início do debate que a gente não conseguiu vencer.

[00:24:06] A gente tentou fazer as duas mãos, né?

[00:24:08] A gente tenta a influência da ficção científica sobre os cientistas.

[00:24:10] Acho que essa está amplamente coberta.

[00:24:12] Até com relatos pessoais, tudo.

[00:24:14] Mas o contrário, a verdade é que…

[00:24:16] A não ser a influência da época do entorno, nós ficamos numa definição mais vaga.

[00:24:20] Ficção científica como uma extrapolação do ambiente humano e das tecnologias num futuro

[00:24:24] ou numa situação alternativa, ou alienígena, né?

[00:24:27] Mas assim, a influência da ciência em cada momento sobre o que se faz de ficção científica…

[00:24:33] Bom, então talvez o Neuromancer, que é um romance pós-internet, vamos dizer assim.

[00:24:37] Eu não consigo imaginar…

[00:24:38] Eu não consigo lembrar de exemplos.

[00:24:39] Você se lembra de exemplos de ficção científica?

[00:24:41] Não, era pré-internet.

[00:24:42] Era pré-internet.

[00:24:43] Nem pré.

[00:24:44] Não, a internet é dos anos 60.

[00:24:45] O Neuromancer é dos anos 80.

[00:24:46] Não, mas para o uso público…

[00:24:48] Ah, mas ele já sabia.

[00:24:49] O cara era da área.

[00:24:50] Eu conhecia ele.

[00:24:51] Ele é um cara informático, não me engano, autor, né?

[00:24:54] Do Neuromancer.

[00:24:55] Mas assim, não é completamente pré.

[00:24:57] Já vi uma noção do negócio.

[00:24:59] O cara que foi pré-internet foi o O’Leary, o cara da alucinação lá com LSD,

[00:25:04] que foi supostamente o que antecipou nos seus delírios uma coisa como internet,

[00:25:08] uma comunicação virtual e tal.

[00:25:10] Mas, pois é, exemplos de ficção científica que beberam da ciência daquele momento?

[00:25:16] Bom, eu te dou um exemplo no início da ficção científica,

[00:25:19] que foi a viagem ao centro da Terra.

[00:25:21] As teorias geológicas daquela época, eles tinham essas imagens de túneis que desciam…

[00:25:29] Era consistente com…

[00:25:30] Nós já falamos da Mary Shelley, a eletricidade e anatomia,

[00:25:33] isso realmente é um ótimo exemplo também.

[00:25:35] A literatura…

[00:25:36] Tá, mas vamos puxar para cá.

[00:25:37] A literatura espacial, toda ela está comprometida com o que você sabia na época.

[00:25:40] A dos anos 50, bebeu bastante, né?

[00:25:42] Dos anos 60.

[00:25:44] Segundo o momento, começa a se perder, né?

[00:25:46] Pega o próprio Contato do Carl Sagan, que é um livro mais recente.

[00:25:49] Ele é todo baseado no programa 7 de busca por inteligência extraterrestre,

[00:25:55] o problema da comunicação.

[00:25:57] Pessoal, me lembrando agora um exemplo de antecipação sobre a internet,

[00:26:01] nos momentos da Úrsula Kaligin, nesse universo dos planetas alternativos,

[00:26:05] que eu não me lembro agora o nome da sherry,

[00:26:07] mas eu vou botar no caderno de estudos,

[00:26:09] existe um instrumento que é o ansible,

[00:26:11] que é um instrumento de comunicação que, na verdade,

[00:26:13] ele tem uma internet em todo o universo dominado por eles.

[00:26:16] A única diferença é que ele se comunica por uma espécie de espaço

[00:26:19] e ele tem velocidade infinita, ele é instantâneo.

[00:26:21] É um comunicador instantâneo em qualquer lugar.

[00:26:23] Isso muda tudo, porque antes de ter ele,

[00:26:25] a comunicação é na verdade a luz e todas as limitações que tem.

[00:26:28] Não é uma reflexão sobre isso, um pouco a internet trouxe isso.

[00:26:31] Esse é o programa Fronteiras da Ciência,

[00:26:33] hoje falando sobre ficção científica.

[00:26:36] Vocês podem achar material extra no nosso site,

[00:26:39] que é frontodasciência.orgs.br.

[00:26:42] Nosso tempo está acabando, então, se vocês quiserem fazer uma última consideração

[00:26:46] sobre por que se deve ler ficção científica…

[00:26:48] Deixar para o nosso convidado aqui especial.

[00:26:50] Acho que o Christopher é a pessoa indicada.

[00:26:52] Eu também, só peço que a gente faça mais uns quatro programas sobre isso.

[00:26:54] Eu até gostaria de falar sobre o concurso Hydra,

[00:26:57] que está começando agora.

[00:26:59] Foi uma parceria entre o meu site e o Orson’s Cardcard.

[00:27:03] Vocês conhecem o Orson’s Cardcard?

[00:27:08] Bom, ele é um grande escritor,

[00:27:10] bem premiado de ficção científica.

[00:27:12] Ele é o orador dos mortos e o Ender’s Game,

[00:27:18] o jogo de Ender, o jogo do Exterminador no Brasil.

[00:27:21] Acho que é o nome.

[00:27:23] É bem famoso.

[00:27:26] Qualquer um que teve um conto publicado no ano 2009 e 2010

[00:27:31] de ficção científica ou fantasia pode concorrer.

[00:27:34] Tem que já estar publicado?

[00:27:35] Sim, já publicado. Qualquer antologia, blog, qualquer coisa…

[00:27:38] Ah, pode ser na internet.

[00:27:39] Sim, pode ser na internet.

[00:27:41] E pode concorrer e o vencedor vai ser traduzido

[00:27:44] e vai ser publicado nos Estados Unidos com pagamento profissional.

[00:27:47] Então é uma ótima oportunidade.

[00:27:51] Estamos realmente tentando incentivar…

[00:27:53] Não vale publicar rapidinho agora na internet e entrar…

[00:27:55] 2009 e 2010.

[00:27:56] Mas vai ter a ideia que esse concurso tenha futuras edições?

[00:28:00] Sim, gostaria de continuar no futuro.

[00:28:02] Talvez vamos mudar de parceiro ao longo do tempo,

[00:28:05] mas essa vez com certeza vai ser essa revista de Orson’s Cardcard,

[00:28:09] que é bem conceituada, é uma revista premiada.

[00:28:12] E temos juízes para escolher três finalistas

[00:28:16] e o Orson’s Cardcard vai escolher o conto vencedor.

[00:28:19] Esses concursos são decisivos para estimular o pessoal?

[00:28:22] Certamente, certamente.

[00:28:24] O estímulo é decisivo mesmo.

[00:28:26] Você não tem estímulo para uma coisa tão delicada

[00:28:28] que não é considerado um mercado de trabalho clássico.

[00:28:31] É como ser artista, como ser músico e tal.

[00:28:33] Não é aquela coisa que os pais olham e dizem

[00:28:35] que você tem que ter uma profissão, meu filho.

[00:28:38] Vai viver disso.

[00:28:39] Então é uma motivação, uma parte para desenvolver, com certeza.

[00:28:42] Jorge, então só para terminar, sei que você tem uma última mensagem.

[00:28:46] Na verdade, eu quero aqui, em nome dos demais membros da mesa,

[00:28:49] que é um amigo comum que vive ultramar agora em Portugal,

[00:28:52] mas que teve muitos anos aqui com a gente,

[00:28:54] foi muito influente, é um grande colecionador de ficção científica,

[00:28:57] nos influenciou bastante também, nos estimulou muito isso,

[00:28:59] que é o colega, amigo Teófilo Bassos, está lá em Portugal,

[00:29:02] nós dedicamos o programa a ele.

[00:29:03] Então esse foi o Fronteiras da Ciência, hoje falando sobre ficção científica.

[00:29:07] Nossos convidados foram o Christopher Castiel Smith,

[00:29:12] que é escritor de Fantasia, professor na FEVALI, na SPM, na PUC,

[00:29:16] e o Carlos Miralia, do Departamento de Filosofia da UFPL.

[00:29:19] Também hoje a gente teve o Jorge Kieffel,

[00:29:21] do Departamento de Biofísica da URGES,

[00:29:23] e eu, Jéfer Sorenson, da Física da URGES.

[00:29:32] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES,

[00:29:37] Técnica de Gilson de César e Direção Técnica de Francisco Guazelli.