Relativismo e Pós-modernismo


Resumo

O episódio inicia com uma definição do relativismo como a visão de que não existe uma verdade objetiva a ser desvendada, mas que o mundo se conforma segundo os interesses e formações culturais de diferentes grupos. São distinguidos tipos como o relativismo epistêmico, moral e subjetivo, usando o exemplo do gosto por sorvete de pistache para ilustrar questões onde a convergência objetiva não é necessária. A discussão explora a extrapolação dessa ideia para os resultados científicos, questionando se estes também seriam produtos de subjetividades, e menciona a aparente postura diplomática que dá espaço a todas as opiniões.

A conversa avança para as críticas ao pós-modernismo, descrito como um credo que considera uma descrição correta da realidade como impossível. Os participantes analisam uma lista de itens pós-modernistas que citam filósofos e cientistas como Nietzsche, Kuhn, Popper e Niels Bohr fora de contexto, para sustentar a ideia de que ‘tudo vale’. Isso é visto como a instalação de um ‘circo’ onde índios, xamãs, cientistas e filósofos teriam igual validade, uma posição considerada populista e potencialmente reacionária, pois, ao validar tudo, justificaria a manutenção do status quo, incluindo práticas culturais opressivas.

São apresentados exemplos concretos dos perigos dessas ideias, como a relativização do Holocausto ou da teoria da evolução em aulas de ciência, e o caso de uma mãe orientada por um homeopata a não vacinar o filho contra a pólio, ligando isso a surtos de doenças como o sarampo na Europa. Uma estratégia didática é compartilhada, onde um professor demonstra a existência de uma realidade objetiva contando cadeiras em uma sala, contrastando com a alternativa pós-moderna de discussões intermináveis no corredor. A conversa também diferencia a ‘relatividade’ de Einstein do ‘relativismo’, destacando como o primeiro busca invariantes, não a negação da objetividade.

Por fim, discute-se onde o pós-modernismo está enraizado (crítica literária, estudos culturais, sociologia, antropologia) e seu estado atual, considerado ‘moribundo’ no meio acadêmico devido a uma maior vigilância, embora o vírus do relativismo sempre permaneça à espreita. Conclui-se que o pós-modernismo, com sua combinação de relativismo e apropriação indevida de legitimidade científica, ataca esperanças modernistas como o uso do conhecimento para o bem comum, a convivência democrática entre culturas e a superação de ódios, acabando por construir um mundo de separação e intolerância, contradizendo sua fachada de mensagem tolerante.


Indicações

Filmes

  • O Expresso do Oriente (refilmagem) — Citado por Marco de Arte, o filme mostra o detetive Hercule Poirot em um dilema moral ao testemunhar um apedrejamento por adultério em outro país, justificado como ‘a lei’ local, ilustrando tensões do relativismo cultural.

Pessoas

  • Terry Eagleton — Crítico literário mencionado que escreveu uma crítica ao pós-modernismo. Comentou em uma palestra que o movimento, como corrente acadêmica específica, está enfraquecido ou ‘moribundo’.

Textos

  • A Espera de uma Resposta (ensaio de Susan Haack) — Recomendado por Carlos Miralha, argumenta que a fachada democrática de dar espaço a todas as verdades é, no fundo, um pensamento reacionário que impede a melhoria e justifica o status quo.
  • A Relatividade do Erro (texto de Isaac Asimov) — Citado como um dos melhores textos de filosofia da ciência, refuta a ideia de que, porque teorias científicas do passado foram superadas, todas as atuais também estão erradas (a ‘meta-indução pessimista’).
  • Site ‘Por que não sou um pós-modernista?’ (Edward Friedlander) — Faz um resumo das expectativas modernistas atacadas pelo pós-modernismo, como a esperança de usar o conhecimento para o bem comum e de construir sociedades democráticas interculturais.

Linha do Tempo

  • 00:00:30Introdução ao conceito de relativismo — Carlos Miralha define o relativismo como a visão de que não existe um mundo e uma verdade objetiva a desvendar, mas que tudo é relativo aos interesses de grupo e formação cultural. Distingue tipos como relativismo epistêmico, moral e subjetivo, usando o exemplo do gosto por sorvete de pistache para ilustrar onde a objetividade não se aplica. A discussão questiona se essa relatividade pode ser estendida aos resultados científicos.
  • 00:05:53Crítica ao pós-modernismo e suas citações — Jorge Kielfeld apresenta o credo pós-moderno essencial: uma descrição correta da realidade é impossível. Ele lê uma lista de itens que usam citações de Nietzsche, Kuhn, Popper e Niels Bohr fora de contexto para sustentar essa visão. A conclusão é que isso instala a ideia de que ‘tudo vale’, equiparando visões de cientistas, xamãs e seitas, uma postura vista como populista e que pode sustentar uma produção acadêmica de nicho aparentemente legítima mas vazia.
  • 00:07:51O relativismo como pensamento reacionário — Carlos Miralha recomenda a filósofa Susan Haack, cujo texto argumenta que a fachada democrática de dar espaço a todas as verdades, mesmo incompatíveis, é na verdade um pensamento reacionário. Se tudo vale, não há motivo para melhorar nada, justificando até práticas como o apedrejamento de mulheres. O exemplo extremo é a defesa de dar espaço igual na educação a negacionistas do Holocausto ou da evolução, mostrando a armadilha desse raciocínio.
  • 00:10:43Exemplos práticos dos perigos: homeopatia e vacinas — Jefferson Arenzon discute o perigo do pós-modernismo celebrar o ‘indecidível’, usando o exemplo da homeopatia versus medicina científica. Ele relata o caso de uma mãe que hesitava em vacinar o filho contra a pólio seguindo conselho homeopata, ligando essa mentalidade a surtos de sarampo na Europa devido à queda nas taxas de vacinação. O exemplo concreto ilustra como a relativização do conhecimento científico tem consequências diretas e perigosas para a saúde pública.
  • 00:12:17Estratégia didática contra o relativismo — É contada a história de um professor de filosofia que, ao debater com alunos adolescentes que defendiam que a verdade é relativa, os levou para fora da sala e perguntou quantas cadeiras havia dentro. Com respostas divergentes, a solução foi voltar e contar, demonstrando a existência de uma realidade objetiva (o número exato de cadeiras) independente das opiniões. Isso contrasta com a alternativa pós-moderna de discussões intermináveis no ‘corredor’ sem buscar a verificação objetiva.
  • 00:17:02A ciência como aproximações sucessivas, não revoluções absolutas — Os participantes discutem como a ciência avança por aproximações sucessivas, não por revoluções que descartam completamente o conhecimento anterior. Exemplos incluem Kepler corrigindo órbitas circulares para elípticas, e a mecânica de Newton sendo ainda válida em contextos de baixas velocidades, mesmo após Einstein. Isso refuta a ‘meta-indução pessimista’ usada por pós-modernistas para argumentar que, como teorias passadas foram superadas, todas as atuais também estarão erradas, portanto ‘ninguém está certo’.
  • 00:20:05Origens e estado atual do pós-modernismo — A discussão localiza o pós-modernismo principalmente nas áreas de crítica literária, estudos culturais, sociologia e antropologia (as ‘ciências da cultura’), não nas ciências duras. Comenta-se que, como movimento acadêmico específico, ele está ‘moribundo’ ou enfraquecido devido a uma maior vigilância e banho de bom senso, citando o crítico Terry Eagleton. No entanto, alerta-se que o ‘vírus do relativismo’ sempre renasce em novas roupagens, exigindo constante vigilância.
  • 00:22:45A contradição intrínseca e o ataque às esperanças modernistas — Jorge Kielfeld cita Edward Friedlander, que resume três esperanças modernistas que o pós-modernismo ataca: 1) usar o conhecimento rigoroso da natureza para o bem comum; 2) que pessoas de diferentes culturas possam viver juntas em sociedade democrática; 3) que a humanidade possa descobrir valores comuns e superar ódios. O pós-modernismo, ao negar a possibilidade de verdades compartilhadas, acaba construindo um mundo de separação e intolerância, contradizendo sua fachada de mensagem tolerante e revelando seu caráter reacionário de fundo.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2011-08-29T14:00:05Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da Rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:08] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:12] O tema do programa de hoje é relativismo e pós-modernismo.

[00:00:16] Estão aqui com a gente o Jorge Kielfeld, do Departamento de Biofísica da URGS, o professor

[00:00:21] Jefferson Arenzon, do Departamento de Física da URGS, e o professor Carlos Miralha, do

[00:00:25] Departamento de Filosofia da UFPL.

[00:00:26] E eu, o professor Marco de Arte, da Física da UFPL.

[00:00:30] Então, Carlos, vamos falar, o que é o relativismo?

[00:00:34] Digamos assim, eu acho que nós vivenciamos um tipo de disputa entre culturas, entre grupos,

[00:00:43] a respeito de como o mundo realmente é, como se apresenta para nós.

[00:00:48] E esse tipo de iniciativa promoveu diferenças a ponto de certos grupos,

[00:00:56] outros reivindicarem, assim, ou apresentarem uma proposta de que a iniciativa em si, ela é equivocada.

[00:01:05] Não existe efetivamente um mundo e uma verdade que nós podemos desvendar.

[00:01:10] E que é tudo relativo, assim, aos interesses de grupo, tipo de formação cultural que o grupo vem a ter,

[00:01:19] e o mundo vai se moldar, vai se conformar segundo esse modelo.

[00:01:26] E, num certo sentido, assim, eu não sei se você já…

[00:01:29] Eu acho que tem muitos aspectos que são assim, né?

[00:01:32] É verdade, é verdade.

[00:01:33] Então, tem que distinguir, porque existem vários tipos de relativismos, né?

[00:01:36] Existe o relativismo epistêmico, o relativismo moral…

[00:01:40] Moral, que é o método.

[00:01:40] Sim, não, e tem…

[00:01:41] O moral é mais o que eles vão se alimentar mutuamente.

[00:01:43] Não, e tem, digamos, tem equilíbrio.

[00:01:45] A gente pode pensar um relativismo subjetivo, óbvio, né?

[00:01:49] Do tipo, para um sorvete de pistache, assim, eu posso gostar, e um dos meus colegas,

[00:01:56] ou eventualmente…

[00:01:56] O Jorge, o Jefferson, venham gostar ou não venham gostar, e não precisamos…

[00:02:01] Não é necessário haver uma convergência, assim, nesse tipo de opinião.

[00:02:04] Ou seja, não dá para a gente dizer objetivamente que o sorvete de pistache é bom.

[00:02:09] Exato, exato.

[00:02:10] E isso, quem sabe, esse tipo de questão, assim, esse tipo de resultado,

[00:02:17] se a gente for levar ao extremo e pensar os próprios resultados de ciência,

[00:02:22] como também, ao fim e ao cabo, assim, tudo que a gente obtém,

[00:02:26] na ciência, né, como explicação do mundo,

[00:02:30] é produto de sujeitos que têm suas experiências subjetivas.

[00:02:35] Nós constituímos, assim, a partir da nossa subjetividade, como o mundo é.

[00:02:38] Daí, então, nós podemos, quem sabe, né, concluir, bom, que tudo está à mercê dessa espécie de relatividade.

[00:02:45] Inclusive a força da gravidade, o efeito…

[00:02:47] É, porque não, né?

[00:02:49] E quem sabe essas coisas não se dão, assim, de forma diferente para negros verem um mundo,

[00:02:56] num certo jeito, as mulheres veem um mundo, num certo jeito, os cubanos veem um mundo, num certo jeito,

[00:03:02] os chineses podem ver do seu jeito, a partir da sua cultura.

[00:03:07] Aparentemente, esse tipo de postura, posição, assim, tem uma roupagem, assim, diplomática e simpática, né?

[00:03:13] Que, digamos, dá espaço para todas as opiniões, todas as opiniões.

[00:03:17] Que é, em princípio, bom, mas também isso é uma coisa populista, né?

[00:03:20] Vamos abrir a bela do mundo, todo mundo vale igual, tudo vale.

[00:03:22] Sim, por exemplo, num país islâmico, uma mulher pode ser…

[00:03:26] Verdejada por adultério, porque é uma característica da sua cultura, então aquele contexto está correto.

[00:03:31] Mas aqui no Ocidente não, e não nos cabe opinar sobre isso.

[00:03:35] Eu vi um filme do Hercule Poirot…

[00:03:38] Do detetive da Agatha Christie.

[00:03:39] Eu vi um filme muito genial, porque ele era um cara muito apegado à lei.

[00:03:43] É um filme…

[00:03:44] Legalista.

[00:03:45] Como é aquele do trem, é o…

[00:03:47] O Espresso Oriente.

[00:03:48] O Espresso Oriente, uma nova refilmagem, mas muito legal, porque mostra esse aspecto do Poirot.

[00:03:52] Porque ele está caminhando num país que talvez seja…

[00:03:56] Não sei, Turquia, coisa assim, e existe um apedrejamento de uma mulher.

[00:04:00] Foi um atualizado da edição, não.

[00:04:01] Isso, claro, não, foi uma releitura.

[00:04:04] E naquele momento, uma inglesa pergunta para ele, o senhor não acha isso horrível?

[00:04:08] E ele disse, é desagradável, mas é a lei.

[00:04:11] Ela nasceu e cresceu com essa lei, então ela sabe o que esperava ela.

[00:04:15] E ao mesmo tempo, depois, quando termina o filme, ele é obrigado a dizer,

[00:04:21] porque depois ele descobre, se vocês se lembram da trama,

[00:04:24] todas as pessoas que estavam no vagão acabam matando…

[00:04:27] Dando uma facada, né?

[00:04:28] Dando uma facada na vítima.

[00:04:31] Porque a vítima era horrível, porque a vítima era uma pessoa, vamos dizer, cruel…

[00:04:36] Monstruosa.

[00:04:36] Era monstruosa.

[00:04:37] Então, ele sofre muito porque ele se vê obrigado a não delatar essas pessoas.

[00:04:43] Ele sofre mais porque…

[00:04:45] A ele não importava tanto a justiça como importava a lei.

[00:04:46] Mas eu acho, Marco, que tu está trazendo, é interessante,

[00:04:49] mas esse é um tema do relativismo moral, ele é mais complexo.

[00:04:52] Eu não entraria nessa sério.

[00:04:54] Eu voltaria um pouco para o relativismo ontológico, por assim dizer.

[00:04:57] Não, não, não.

[00:04:57] Que é o que nos cabe mais.

[00:04:58] Mas é verdade.

[00:04:59] Esse é um tema delicado.

[00:05:00] Inclusive, tem muitas nuances, assim, para citar o caso do julgamento do macaco,

[00:05:04] o julgamento daquele professor John Scobes,

[00:05:06] que foi condenado pela lei do TNC em 1925 por ter ensinado a evolução de Darwin na aula.

[00:05:12] Então, no Brasil, tem um grupo de teatro de Brasília que está fazendo apresentações

[00:05:15] e eles convidam o pessoal do público para entregar o júri.

[00:05:17] E tu pode votar no final.

[00:05:18] Então, ao contrário da vida real, dá votações no final.

[00:05:21] E, obviamente, ele é quase sempre perdoado.

[00:05:23] Ao contrário do que aconteceu lá na época.

[00:05:25] Mas o fato é que teve um caso em que eles reuniram um monte de advogados na OAB

[00:05:29] e eles votaram pela condenação, baseado no que ele infringiu a lei.

[00:05:33] Então, é que tu tem dois tipos de padrões para comparar o que a lei manda

[00:05:38] e o que a humanidade, digamos, prescreve.

[00:05:41] Isso não é trivial.

[00:05:43] Não, pois é.

[00:05:44] Acho que a nossa pergunta é bater em um outro mundo.

[00:05:45] A natureza é relativista.

[00:05:46] Mas voltando assim para…

[00:05:47] Desculpe, relativista.

[00:05:48] Por que a questão do pós-modernismo e o relativismo, hoje,

[00:05:53] tem tudo a ver com os nossos debates com vocês aqui sobre ciência e realidade, né?

[00:05:57] Porque, basicamente, o essencial do credo pós-moderno

[00:06:00] é que uma descrição correta da realidade é impossível.

[00:06:04] E eles usam citações, inclusive, da ciência, fora de contexto, parciais e tudo.

[00:06:08] E aqui tem uma reunião, esse site muito legal aqui.

[00:06:10] Se tem certeza, deve estar aparecendo em algum lugar.

[00:06:12] Sobre a verdade e a realidade, ele faz uma lista de dez itens aqui, olha só.

[00:06:17] Toda verdade é limitada, aproximada e em constante evolução.

[00:06:20] Aí ele cita o Nietzsche, Kuhn e Popper.

[00:06:22] Nenhuma teoria pode…

[00:06:23] Pode nunca ser provada verdadeira.

[00:06:24] Só podemos mostrar que a teoria é falsa.

[00:06:26] Popper, nós não vamos discutir cada um, porque eles aqui…

[00:06:28] Mas estão essencialmente corretas, assim?

[00:06:30] Nenhuma teoria pode…

[00:06:31] Sim, sim, mas o contexto que eles dizem aí não dá vontade de sair de casa.

[00:06:34] Tá, mas olha a reunião.

[00:06:35] Eu estou só na terceira.

[00:06:36] Nenhuma teoria pode jamais explicar todas as coisas consistentemente.

[00:06:40] Teoria mas em completude de Guido.

[00:06:42] Existe sempre uma separação entre a nossa mente, as ideias das coisas e as coisas em si.

[00:06:47] Kant.

[00:06:47] A realidade física não é determinística.

[00:06:49] Interpretação de Copenhagen da física quântica em Niels Bohr.

[00:06:52] Os conceitos da ciência são construtos mentais.

[00:06:55] Positivismo lógico, Ernst Mach, Rudolf Carnap.

[00:06:57] A metafísica é vazia de conteúdo e, por fim, portanto, uma verdade absoluta e certa

[00:07:03] e que explique todas as coisas não é obtenível.

[00:07:06] Baseado nisso, então, está instalado o circo, vale tudo.

[00:07:09] E aí tu entra com isso no lugar com uma solução muito mais legal.

[00:07:12] Todo mundo está certo.

[00:07:13] Tudo vale.

[00:07:14] O índio, o xamã, o maluco lá da seita e tal, o cientista, o filósofo e o bêbado.

[00:07:19] Todos têm alguma ponta de razão e vamos deixar todo mundo…

[00:07:22] Vamos opinar.

[00:07:23] Evidentemente, isso seria muito interessante se surgisse na época do florescimento da ciência

[00:07:27] associado com o processo industrial, o que os barões que estavam financiando o processo

[00:07:31] iam ficar, né?

[00:07:32] Como é que eles iam avaliar isso?

[00:07:33] Porque eles não iam financiar uma coisa dessas durante muitos minutos, eu diria.

[00:07:36] Mas, digamos que hoje, no seio da academia, construindo, como nós falamos num outro programa,

[00:07:40] um nicho já de produção acadêmica aparentemente legítima e aparentemente substanciosa,

[00:07:45] é possível discursar sobre o nada e construir fungos à volta dele.

[00:07:48] Só deixa eu fazer um comentário.

[00:07:51] De fato, o que eu gosto…

[00:07:52] O que eu gostaria mesmo de fazer aqui no programa era conseguir apresentar um resumo conciso, sim,

[00:07:59] e que expressasse de forma precisa as ideias de uma autora que eu acho que vale a pena,

[00:08:05] público ouvinte, tomar conhecimento dela, uma filósofa inglesa, agora ensinada nos Estados Unidos,

[00:08:11] chamada Susan Hack, e vocês vão encontrar um texto muito interessante dela na internet

[00:08:17] chamada A Espera de uma Resposta.

[00:08:19] Embora seja uma tradução lusitana…

[00:08:22] Lusitana.

[00:08:22] Lusitana no sentido…

[00:08:23] É feita em Portugal.

[00:08:24] É, sim, com seus regionalismos, assim, regionalismos, ela é muito interessante porque ela mostra o seguinte, assim, ó.

[00:08:30] Essa cara democrática, né, essa cara liberal de que nós temos que dar espaço a todas as verdades possíveis,

[00:08:39] a verdades que são incompatíveis, isso é, no fundo, é fachada de um pensamento reacionário.

[00:08:44] Porque se é assim, qualquer coisa vale, então a gente não precisa melhorar nada.

[00:08:49] Pode ficar como está também, se qualquer coisa serve.

[00:08:51] Então serve isso.

[00:08:52] O que a gente tem agora também.

[00:08:53] Sim, serve deixar…

[00:08:53] Então pra que mudar?

[00:08:54] Serve deixar as mulheres serem apresenjadas, afinal, é a verdade.

[00:08:57] Não, o caso, o caso extremo que eu sempre gosto…

[00:08:58] Mas leiam ela, que é também melhor do que…

[00:08:59] O caso extremo que eu sempre gosto de citar em relação a essas controvérsias é que existem pessoas que defendem

[00:09:04] se há uma controvérsia, a gente deve dar espaço pra todos em pé de igualdade.

[00:09:09] Então, por exemplo, numa aula de história, quando vocês forem contar sobre o holocausto na Segunda Guerra,

[00:09:14] vocês também têm que dar o mesmo espaço porque existe um pequeno grupo de pessoas que acham que o holocausto não ocorreu.

[00:09:20] Ninguém acha, né?

[00:09:21] Nenhuma pessoa…

[00:09:21] É, nenhuma pessoa em sua sã consciência vai dizer que realmente tem que deixar espaço.

[00:09:28] Em outros contextos já é uma coisa um pouco mais sutil.

[00:09:30] Por exemplo, existem teorias científicas onde a gente tem mais de 100 anos de acúmulo de evidências,

[00:09:37] como a teoria da evolução, mas a existência de um pequeno grupo que acha que,

[00:09:42] como isso está em contradição com os seus livros sagrados, que isso não aconteceu,

[00:09:46] e essas pessoas defendem que tem o mesmo espaço numa aula de ciência sobre isso.

[00:09:51] Sim, mas é outra coisa.

[00:09:51] É muito indestrutível essa ideia porque eles estão enunciando essa ideia,

[00:09:56] mas considerando que eles são a única contradição à teoria da evolução.

[00:09:59] Imagina se aparecem mais 600 contradições diferentes.

[00:10:02] Então ele vai ter que dividir em 600.

[00:10:04] Aí ele não vai gostar mais do argumento.

[00:10:06] O apogeu desse relativismo moral…

[00:10:07] A Caterina aqui não diz essa frase assim, ó…

[00:10:09] Não é relativismo moral, é epistêmico.

[00:10:13] Bom, também, mas assim, ó…

[00:10:14] É capaz o pós-modernismo de condenar os perpetradores do genocídio diante disso?

[00:10:20] Pois é.

[00:10:21] É uma coisa que a gente estava falando até no outro programa.

[00:10:23] Tu entra nas razões locais, né?

[00:10:24] Tu entra nas razões locais, tu vai sempre encontrar uma…

[00:10:26] Bom, dentro daquele contexto, o azar era o que tinha.

[00:10:29] E a questão, eu acho que o perigo do pós-modernismo é a ideia de que talvez coisas sejam indecidíveis.

[00:10:35] Ou indecidíveis…

[00:10:35] Mas uma apologia do indecidível.

[00:10:37] É, por exemplo…

[00:10:38] Uma celebração.

[00:10:39] É, a questão que a gente discutiu várias vezes aqui da homeopatia.

[00:10:43] Eu tive uma experiência muito interessante.

[00:10:44] Eu fui tomar a vacina da gripe.

[00:10:46] E eu estava nesse lugar e tinha uma mãe segurando uma criança que devia ter uns 4, 5 anos.

[00:10:50] E ela estava pedindo…

[00:10:51] Conselhos às atendentes do lugar, esse que eu fui fazer a vacina,

[00:10:56] porque ela queria dar a vacina da polio.

[00:10:58] Porque o médico homeopata dela era contra.

[00:11:00] Então, era uma criança que estava sem a vacina da polio.

[00:11:04] E a mãe estava pedindo conselhos para as atendentes.

[00:11:08] Ah, pois é, eu acho que tem que dar.

[00:11:10] Tem uma ordem, inclusive, né?

[00:11:11] Isso, tem uma ordem.

[00:11:12] Provavelmente ela deve estar com as vacinas todas fora de ordem.

[00:11:15] Isso aí é um crime.

[00:11:16] Não, mas esse é um exemplo…

[00:11:18] Eu não sabia que o médico homeopático, o homeopata tem…

[00:11:20] Existe.

[00:11:21] Os homens fazem isso.

[00:11:22] Direito não se existe.

[00:11:23] Baseado num mito que a gente já discutiu num programa aqui,

[00:11:25] que é o mito da história da vacina que continha mercúrio e que causava autismo.

[00:11:32] Isso.

[00:11:32] Que já foi desmontado.

[00:11:33] Não, mas a questão, por exemplo, é uma questão clara que o pós-modernismo diria

[00:11:37] que não dá para decidir entre a homeopatia e a medicina científica

[00:11:43] porque as duas estão certas no contexto.

[00:11:45] E olha que combinação perigosa de coisas loucas, né?

[00:11:48] Nesse momento tem uma epidemia de sarampo na Europa.

[00:11:50] E eu pergunto, sarampo na Europa?

[00:11:53] Qual será a razão?

[00:11:54] A razão é exatamente isso.

[00:11:55] Os caras…

[00:11:55] Essa campanha se espalhou no público, pessoas deixaram de vacinar, diminuíram a massa crítica

[00:11:59] e uma doença ridícula como sarampo retornou na Europa.

[00:12:02] Esse é o programa Fronteiras da Ciência e a gente está discutindo aqui o relativismo

[00:12:05] e o pós-modernismo.

[00:12:06] Nosso site é o frontedaciencia.urgs.br

[00:12:09] E a gente vai botar uns textos de apoio.

[00:12:12] Eu estava pensando assim, eu estava me lembrando agora de uma estratégia didática brilhante

[00:12:17] de um colega meu como professor de filosofia.

[00:12:20] Ele era no segundo grau, professor Arthur, que estava tendo essa discussão com os alunos

[00:12:24] adolescentes, 15, 16 anos.

[00:12:27] Ah, ok, a verdade é relativa e tal, isso depende de mim, depende de você e tal.

[00:12:31] E aí ele, assim, espontaneamente ele pensou assim, ah tá, vocês acham que é assim.

[00:12:35] Então vamos fazer o seguinte, saiam da sala de aula, vamos sair todos agora.

[00:12:39] E aí fora do corredor perguntou, quantas cadeiras tem dentro da sala de aula?

[00:12:42] E a cadeira teve assim, cada um, acho que tem 22, 33, sei lá.

[00:12:46] Tá, então vocês acham que isso é relativo, assim?

[00:12:50] Ela disse que tem 23, o outro falou que tem 30.

[00:12:52] Como é que nós resolvemos isso?

[00:12:54] Entrando na sala de aula de novo, né, contando, né, professor Ian Trário, tá, pronto.

[00:12:57] Assim, ó, vejam que de fato havia uma divergência de posições, assim, no corredor,

[00:13:03] mas as cadeiras estavam lá e o número de cadeiras que tem é aquele.

[00:13:06] Não vai depender de que um pensa que é 20, o outro que é 30.

[00:13:09] Essa hipótese básica que tem por trás da ciência é de que existe uma realidade objetiva.

[00:13:16] Ela tá lá e não vai se enganar.

[00:13:18] É muito engraçado pensar o termo na aula.

[00:13:20] E os alunos, pô, o professor nos convenceu.

[00:13:21] Não, mas é interessante pensar a alternativa.

[00:13:24] Qual seria a alternativa?

[00:13:25] A alternativa seria esse grupo continuar no corredor, aí a mulher, a moça dizer, não, mas eu sou minoria.

[00:13:31] Fazer um consenso, né?

[00:13:32] Não, eu sou minoria, só porque eu sou mulher não estou levando em conta a minha mídia.

[00:13:35] Isso aí começar uma discussão que não termina, onde cada um assegura algum tipo de validade.

[00:13:43] Bom, isso seria uma ótima forma de produzir uma série autossustentável, um modo contínuo de discussões,

[00:13:50] de artigos, e nunca mais na sala de voto, sempre ficar no corredor.

[00:13:54] Deixa eu destilar o meu preconceito aqui, se as pessoas continuassem no corredor, elas seriam filósofas.

[00:14:05] Pois é, olha só, eu gosto de citações, então eu tinha que colocar mais um exemplo.

[00:14:09] Mas o exemplo foi de fora.

[00:14:09] Foi muito bom, né?

[00:14:11] Muito bom esse exemplo.

[00:14:13] A Elisabetta Wilson diz assim, o pós-modernismo recusa-se a privilegiar qualquer perspectiva em relação à outra.

[00:14:19] Reconhece?

[00:14:20] Reconhece apenas a diferença, nunca a desigualdade, somente os fragmentos, nunca o conflito.

[00:14:25] E o outro, o Harold Pinter, que escreveu uns livros interessantes, não há uma distinção rígida entre o que é real e o que não é real,

[00:14:31] nem entre o que é verdadeiro e aquilo que é falso.

[00:14:33] Uma coisa não é necessariamente nem verdadeira nem falsa, ela pode ser ambas, verdadeira e falsa.

[00:14:38] Me diz como é possível fazer uma discussão ocasional, exatamente a negação.

[00:14:42] É ficar no corredor.

[00:14:43] Não, a gente pode fazer uma discussão onde tem simplesmente a autoadulação, né?

[00:14:48] Ou a troca de adulação.

[00:14:50] Mas tudo isso é baseado, inclusive aquelas frases que o Jorge estava lendo, fora de contexto ali,

[00:14:55] nesse não entendimento…

[00:14:58] Fora de contexto, mas porque eram colocadas fora de contexto, não é uma crítica.

[00:15:02] Sim, sim, eu sei.

[00:15:02] Nesse mau entendimento de como a ciência funciona.

[00:15:06] É claro que, por exemplo, quando Einstein, com a teoria da relatividade, ele mostrou que Newton estava errado,

[00:15:13] não quer dizer que do dia para o outro a gente jogou fora tudo que Newton fez e passou a usar a relatividade.

[00:15:18] Pelo contrário, a gente continua usando.

[00:15:20] A gente continua usando mecânica newtoniana, no contexto onde a mecânica newtoniana

[00:15:23] continua nos dando os resultados aproximadamente corretos.

[00:15:27] Dá para mandar a nave para Saturno.

[00:15:29] É, não dá para usar um GPS, mas dá para mandar, botar um satélite em órbita.

[00:15:34] Então, a ciência, ela troca o que ela considera como o mais correto

[00:15:39] num período em relação ao que se conhecia anteriormente,

[00:15:42] mas as coisas vão, são aproximações sucessivas.

[00:15:45] A gente tem…

[00:15:46] Não existem, pelo menos na física, não existem aquelas coisas chamadas de revolução.

[00:15:49] Não existem revoluções, né?

[00:15:51] As revoluções talvez sejam filosóficas, mas elas…

[00:15:53] Ocasionalmente chegam a ter…

[00:15:54] Não, mas elas não chegam a ser revoluções do ponto de vista do uso da física.

[00:15:59] Quando a gente, por exemplo, quando se descobriu que a mecânica de Newton não estava correta,

[00:16:05] não significa que a mecânica de Newton desapareceu dos livros.

[00:16:08] Não, estava exaustivamente correta, digamos.

[00:16:10] A mecânica de Newton é válida para a maioria das coisas que um ser humano normal faz.

[00:16:15] Os contextos das velocidades baixas, basicamente.

[00:16:17] Os contextos das velocidades baixas, né?

[00:16:19] E das massas pequenas, né?

[00:16:23] Não, não, a todo momento.

[00:16:24] Não, quando, por exemplo, Kepler se deu conta que as órbitas dos planetas não eram circulares,

[00:16:29] ele não trocou de, bom, de hoje em diante as órbitas são quadradas.

[00:16:33] Não, as órbitas, elas eram melhor, os fenômenos eram melhor descritos

[00:16:38] levando-se em conta a não circularidade, o fato das órbitas serem elípticas.

[00:16:44] Mas não é parte dos corpos celestes, o quanto ela é elíptica é uma quantidade mínima.

[00:16:49] Então, foi uma pequena correção que foi feita.

[00:16:51] É, mas foi uma pequena correção, mas um gigantesco passo.

[00:16:54] Não, foi uma das revoluções.

[00:16:56] Essa é uma das revoluções do conhecimento.

[00:16:58] Claro, claro.

[00:16:59] Parecida ao Einstein, reinterpretando o conceito de velocidade.

[00:17:02] Mas acho que o Jefferson está querendo colocar o seguinte assim,

[00:17:04] bom, já que antes se achava que Newton, antes se achava que Aristóteles estava certo,

[00:17:10] e aí aparece Galileu e mostra que Aristóteles estava errado.

[00:17:14] E depois aparece um cara como Newton e mostra que Galileu também não estava certo.

[00:17:18] Não, não, não.

[00:17:19] Um cara como Einstein dizendo que Newton estava certo.

[00:17:21] Então, também o Einstein deve estar certo.

[00:17:23] Então, ninguém está certo.

[00:17:24] É só questão de tempo, todo mundo está errado.

[00:17:25] Não é, não é.

[00:17:26] É, mas são sempre…

[00:17:27] É a chamada meta-indução pessimista.

[00:17:30] É, a indução pessimista.

[00:17:31] Mas o que eles chamam de…

[00:17:33] O que os pós-modernistas criticam é as tentativas de explicar tudo.

[00:17:36] Hoje tem uma explicação final, pelo menos esperar ela,

[00:17:38] e eles chamam isso de meta-narrativa.

[00:17:40] E é o nêmesis dos pós-modernistas.

[00:17:42] Só para resgatar um pouco isso que o Jefferson estava comentando,

[00:17:45] dessa suposta meta-indução pessimista,

[00:17:48] tem um texto, assim, que eu acho que é um dos melhores textos de filosofia da ciência,

[00:17:53] que não é feito por um filósofo, mas é por um cara muito inteligente.

[00:17:56] Apesar de não ser filósofo.

[00:17:58] Não, embora…

[00:18:01] Não, em geral, acho que ele é bem mais inteligente que a maioria dos filósofos.

[00:18:05] Um cara, um escritor de ficção científica, divulgador de ciência também.

[00:18:10] Não, ele é bioquímico.

[00:18:11] Ele é bioquímico.

[00:18:13] Ele é pós-graduado.

[00:18:14] Tem um texto dele que se chama A Relatividade do Erro.

[00:18:16] A Relatividade do Erro.

[00:18:17] É um clássico.

[00:18:18] É um clássico da verdade.

[00:18:19] Disponível na internet.

[00:18:19] Que é maravilhoso.

[00:18:20] Assim, eu recomendo para todos.

[00:18:22] Aliás, já está no nosso site, citado num outro programa, mas vamos botar de novo.

[00:18:26] Aliás, eu diria para vocês, assim, que no ambiente acadêmico, de filosofia,

[00:18:31] de filosofia da ciência, essa questão da meta-indução pessimista ainda rende assunto.

[00:18:37] Mas eles…

[00:18:37] E eles não leram.

[00:18:38] Se eles tivessem lido o Azimov, não ficariam…

[00:18:40] A questão até do Einstein, quando a gente fala em Einstein,

[00:18:43] é muito comum as pessoas que usam o relativismo,

[00:18:47] como dizer, associar o relativismo com a relatividade,

[00:18:51] dizendo, não, Einstein já mostrou que tudo é relativo.

[00:18:55] Isso aí é uma fraca.

[00:18:55] É um bordão pop.

[00:18:57] É um bordão pop que, de fato, não é a verdade.

[00:18:59] Mas é bom ter colocado isso aí, porque tem uma baita diferença entre a expressão relatividade e relativismo.

[00:19:06] Relativismo.

[00:19:07] Mas se usa, vamos dizer, no popular, claro.

[00:19:09] Relatividade não é relativista.

[00:19:10] Eu acho que a gente já comentou aqui no programa algumas vezes,

[00:19:15] que a mudança de paradigma do Einstein é dizer que aquilo que a gente achava que era absoluto não é,

[00:19:22] mas o que ele fez não é dizer o absoluto desapareceu ali.

[00:19:27] O absoluto simplesmente trocou de lugar.

[00:19:29] E mesmo assim, sobre as letras referenciais, sobre certas circunstâncias,

[00:19:32] são aqueles valores que tu vai chegar.

[00:19:34] Não, não vai ser sempre aqueles valores.

[00:19:35] E não vai ser diferente da mesma circunstância.

[00:19:37] E o fato de valer para sistemas de referência e mecânica não pode ser extrapolado livremente

[00:19:42] para qualquer contexto.

[00:19:45] Eu quero puxar, então, nós estamos fazendo uma lapidação aqui,

[00:19:49] que é o apedrejamento de uma área suposta do conhecimento, que é o pós-modernismo.

[00:19:54] Eu vou só dizer que esse é o programa Fronteiras da Ciência,

[00:19:56] a gente está discutindo aqui o relativismo e o pós-modernismo,

[00:19:59] e o nosso site é o frontedaciencia.urgs.br, Jorge.

[00:20:02] Então, nós estamos nessa lapidação do pós-modernismo,

[00:20:05] nós falamos do abuso das citações fora de contexto

[00:20:07] e de um desconhecimento completo e profundo da ciência que tem ali,

[00:20:11] apenas para criar um ar de legitimidade combinado,

[00:20:14] combinado, portanto, um tipo de picaretagem intencional,

[00:20:18] combinado com o relativismo conceitual e uma série de confusões epistemológicas.

[00:20:25] Talvez, às vezes, não seja intencional.

[00:20:26] Talvez, às vezes, seja um equívoco mesmo.

[00:20:28] Mas tem o outro lado também, que, como isso, pelo menos no contexto do pós-modernismo

[00:20:34] de origem americana e francesa e tal,

[00:20:36] ele vem também com um discurso progressista no sentido de ser muito semelhante

[00:20:40] às alegações do que são as pautas da esquerda,

[00:20:43] da esquerda socialista.

[00:20:44] A esquerda comunista, enfim, dos movimentos mais progressistas.

[00:20:47] E isso é um problema.

[00:20:48] É um problema também para a esquerda,

[00:20:50] que, inclusive, acabou sendo, em boa parte, contaminada por isso,

[00:20:52] porque ela acaba sendo contaminada por uma ferramenta de pensamento

[00:20:56] que não é, inclusive, a tradição da esquerda,

[00:20:57] que, desde o marxismo, preza a razão sobre um discurso enlouquecido e delirante.

[00:21:03] Então, tem um cara que, na minha última situação, eu prometo,

[00:21:06] Edward Friedlander, que tem um site ali que é

[00:21:08] Por que não sou um pós-modernista?

[00:21:10] Ele faz um resumo muito legal exatamente dessas expectativas,

[00:21:13] do pós-modernismo, né?

[00:21:15] Diz assim, ó, no máximo, no máximo,

[00:21:18] o pós-modernismo contemporâneo é uma reação contra todas aquelas pessoas estúpidas

[00:21:22] que pretendiam ser donas da verdade e ter resposta para tudo.

[00:21:25] Aquilo que os pós-modernistas chamam de metanarrativas.

[00:21:28] A ciência, usada corretamente, faz a mesma coisa.

[00:21:31] O pensamento crítico, a avaliação pelos pares, também acaba com as tentativas

[00:21:34] de ser arrogante, estúpido e ser dono da verdade.

[00:21:37] Mas tem outra coisa, né?

[00:21:39] Tem três expectativas modernistas

[00:21:42] que o pós-modernismo tenta atacar, que essas são inaceitáveis.

[00:21:45] Então, primeiro, a esperança modernista de que nós poderíamos usar

[00:21:50] uma forma rigorosa e disciplinada de estudo da natureza

[00:21:55] e utilizando esses novos conhecimentos para bens comuns,

[00:21:58] para o benefício de todos.

[00:21:59] Isso é uma expectativa que eles entendem como modernista.

[00:22:01] Eles não acreditam nisso.

[00:22:02] Eles acham que tem várias verdades.

[00:22:04] Segundo, a expectativa ou a esperança modernista de que as pessoas

[00:22:07] de diferentes backgrounds culturais e culturas possam viver juntas.

[00:22:12] Em uma sociedade democrática e beneficiando-se mutuamente

[00:22:15] de aspectos econômicos e pessoais, liberdades pessoais,

[00:22:18] que é uma forma de intolerância que está embutida no fundo do pensamento

[00:22:22] e é o que o Carlos chamou de reacionarismo intrínseco do pensamento relativista.

[00:22:27] E, por fim, terceiro, a esperança modernista de que as pessoas ao redor do mundo

[00:22:30] poderiam discutir e descobrir seus elementos comuns de credos e valores e tudo mais,

[00:22:37] superar o ódio, o preconceito e a incompreensão e passar a compartilhar.

[00:22:42] Literatura, valores e outros aspectos dessa forma.

[00:22:45] Ou seja, no fim, o pós-modernismo, no seu programa, ele acaba construindo um mundo de separação

[00:22:51] e intolerância que é aparentemente o oposto do que ele prega querer fazer.

[00:22:55] É uma contradição intrínseca.

[00:22:57] Sim, mas é uma contradição bastante sutil.

[00:22:59] Por exemplo, o tipo de trabalho que a gente está fazendo aqui…

[00:23:02] Pois é, um trabalho de formiguinha.

[00:23:04] Não, o nosso trabalho aqui, às vezes, de chegar e apertar o alerta e dizer

[00:23:10] isso aqui não é bem assim como eles estão dizendo.

[00:23:11] É visto por alguns grupos como intolerância.

[00:23:15] Essas pessoas…

[00:23:16] Pois é, eles acham que eles sabem tudo e não sei o quê.

[00:23:19] Não sabem nada.

[00:23:21] Não, e a questão…

[00:23:22] Que eles soubessem.

[00:23:23] Pois é. Então, na verdade, é sutil.

[00:23:26] Mas a questão é essa.

[00:23:27] É sutil perceber que o pós-modernismo não é uma mensagem…

[00:23:31] De tolerância.

[00:23:33] De tolerância.

[00:23:34] No fundo, aparentemente, é uma mensagem.

[00:23:36] Sim, mas é que eu acho que é uma generalização inaceitável.

[00:23:39] Uma intenção de status quo.

[00:23:40] Pois é, a cegueira ao fato que existem coisas objetivas e existem coisas…

[00:23:45] O mundo era, normalmente, e é pensado pelo cientista,

[00:23:50] como um mundo que tem coisas objetivas e subjetivas.

[00:23:53] Mas o mundo do pós-modernismo é um mundo só dos subjetivos.

[00:23:56] Sei lá, os negros devem ter um salário menor porque é uma questão cultural, né?

[00:24:00] Eles gostam, estão felizes, assim.

[00:24:02] Não é isso que se diz, assim, que a nossa cultura manteve desse jeito e tal.

[00:24:05] Então, deve ser assim mesmo.

[00:24:07] Atenção que no rádio não é possível sinalizar enquanto sublinhar…

[00:24:09] Sinalizar enquanto sublinhar quando a pessoa fala e dizer isso é uma afirmação irônica.

[00:24:12] É?

[00:24:13] É uma afirmação irônica.

[00:24:14] Não, mas uma coisa…

[00:24:15] Eu estava…

[00:24:16] É o homem legenda agora.

[00:24:17] É o homem legenda.

[00:24:18] Tem que colocar.

[00:24:19] É uma coisa parecida.

[00:24:20] Vou até botar uma colocação parecida com a…

[00:24:21] Ou as mulheres também, né?

[00:24:22] Para que vocês pudessem ter um salário menor na média.

[00:24:23] Com a colocação do Poirot, que eu estava…

[00:24:26] Eu agora faço uma…

[00:24:27] Depois que alguém me falou, não sei quem falou, que gostava de ficar lendo os comentários

[00:24:32] das notícias na Folha de São Paulo e coisa assim.

[00:24:35] E tinha aquela notícia sobre o pai que prendeu o rapaz…

[00:24:38] Prendeu o rapaz dentro da caixa.

[00:24:40] Sim, no Canadá.

[00:24:41] Por uma questão cultural, assim.

[00:24:42] Era um religioso de um grupo fanático que o rapaz, eu acho 18, 20 anos, que era muito…

[00:24:50] Fazia coisas ruins, roubava galinhas e coisa assim.

[00:24:52] Então, ele resolveu prender por várias semanas numa caixa.

[00:24:55] Então, era uma caixa legalzinha, em pé.

[00:24:57] O cara ficava…

[00:24:58] Tinha um portinho que entrava comida.

[00:24:59] Ele não podia sair para fazer as necessidades.

[00:25:00] Era uma coisa solitária.

[00:25:01] Ficava o cara ficando dentro dessa caixa.

[00:25:03] E aí, bom…

[00:25:04] Isso foi um caso isolado.

[00:25:05] Eu pensaria assim, por exemplo, nas caixas que eram colocadas em torno dos pés das mulheres,

[00:25:08] na China e no Japão.

[00:25:09] Não, mas o interessante é que eu fui ler os comentários.

[00:25:13] E um dos comentários era de uma pessoa que dizia assim…

[00:25:16] Não, mas esse rapaz foi criado dentro dessa cultura e não sei o quê, não sei o quê.

[00:25:22] E ele não vai sofrer.

[00:25:23] E ele estava desrespeitando Deus.

[00:25:25] Logo, é válido.

[00:25:26] Que loucura.

[00:25:27] Essa observação que tu fez me lembra do comentário do pai do Austin Power, que é

[00:25:32] um super espião, melhor que o 007, que diz assim, falando para o filho, meu filho, só

[00:25:36] tem duas coisas que…

[00:25:37] Duas coisas que eu detesto.

[00:25:39] Preconceito cultural e holandeses.

[00:25:41] Eu acho que a gente conseguiu cobrir vários pontos importantes aqui e mostra que essa

[00:25:49] interface…

[00:25:50] O problema que o pós-modernismo trouxe para o ambiente acadêmico e para a comunidade

[00:25:56] racional e acadêmica e científica, mas também filosófica, é muito parecido com o problema

[00:26:00] das pseudociências.

[00:26:01] E eu acho que esse que é o objetivo desse programa estar cumprido.

[00:26:05] É interessante uma…

[00:26:06] Eu só queria que vocês relembrassem…

[00:26:07] Não chega nem a dizer que ela é uma pseudociência.

[00:26:08] Ela é uma confusão danada, mas…

[00:26:09] Não chega nem a ser uma pseudociência.

[00:26:10] Não, não chega.

[00:26:11] Mas é uma confusão danada.

[00:26:12] Eu queria que vocês comentassem de novo, só para ficar claro, o pós-modernismo vive

[00:26:13] aonde?

[00:26:14] Ele está sucumbido agora, infelizmente.

[00:26:15] Não, mas no sentido de dizer assim, ele está numa corrente filosófica, o pessoal…

[00:26:16] Mas eu acho que o vírus do relativismo sempre está assim, à espreita.

[00:26:17] Mas o pós-modernismo, por exemplo…

[00:26:18] Para essa aparência…

[00:26:19] Os teóricos do pós-modernismo, os teóricos do pós-modernismo, os teóricos do pós-modernismo,

[00:26:20] vem de que áreas?

[00:26:21] Quais são as áreas?

[00:26:22] Da crítica literária…

[00:26:23] Filosofia…

[00:26:24] Dos estudos culturais e antropológicos…

[00:26:25] Sociologia…

[00:26:26] Antropologia do gênero e de etnias e tal.

[00:26:27] Isso é nessa área que…

[00:26:28] No geral, se faz parte da cultura da cultura.

[00:26:29] É, é.

[00:26:30] É, é.

[00:26:31] É.

[00:26:32] É.

[00:26:33] É isso aí.

[00:26:34] É, é.

[00:26:35] É, é.

[00:26:36] É.

[00:26:37] É, é.

[00:26:38] É.

[00:26:39] É.

[00:26:40] É.

[00:26:41] É.

[00:26:42] É.

[00:26:43] É.

[00:26:44] É.

[00:26:45] É.

[00:26:46] É.

[00:26:47] É.

[00:26:48] É.

[00:26:49] É.

[00:26:50] Imunidades da ciência sociais, da ciência social…

[00:26:51] E, especificamente na literatura.

[00:26:52] Ah, mas a gente tem que ter cuidado, porque na ciência social tem gente que detesta

[00:26:55] esse tipo de coisa.

[00:26:57] Não, claro.

[00:26:58] Mas deixa eu aconselhar o seguinte.

[00:26:59] Pô, pô.

[00:27:00] Isso é para contextualizar parazeicha ficar pensando que vem da biologia, ou…

[00:27:04] Não.

[00:27:05] Pois é, não tem לשis para intimidating as pessoas nas ciências duras, isso é um

[00:27:06] fato interessante.

[00:27:07] Mas eu conheço físicists assim que são super relativistas.

[00:27:12] É, mas não pós-moderno…

[00:27:13] Mas isso é um outro debate.

[00:27:14] Mas, enquanto pessoas não na sua obra…

[00:27:17] Não na sua obra?

[00:27:18] Ah sim…

[00:27:19] É isso quefiction é pra…

[00:27:20] Deixa eu comentar

[00:27:23] No ano passado aqui

[00:27:24] No Fronteiras do Pensamento

[00:27:26] Que é a nossa grife que nós liberamos

[00:27:29] Para a URGS, do Fronteiras da Ciência

[00:27:31] É brincadeira

[00:27:32] Teve aqui o Terry Eagleton

[00:27:34] Que é um crítico literário muito bom

[00:27:36] Que escreveu vários trabalhos importantes

[00:27:38] E um deles sobre uma crítica ao pós-modernismo

[00:27:41] E eu fui lá pegar o autógrafo

[00:27:43] Dos livros dele, que eu tinha

[00:27:45] Que eu sou um grande admirador

[00:27:46] E aí eu prometi conversar rapidamente e perguntar

[00:27:48] E o pós-modernismo, que ele não tocou

[00:27:50] Ele continua vigente

[00:27:52] Como movimento, ele está fraco

[00:27:54] Ele está moribundo, no meio acadêmico

[00:27:57] Isso quer dizer que, de certo modo, o caso de Socal

[00:27:59] Essa coragem funcionou

[00:28:00] Foi educativo, as pessoas se deram conta

[00:28:02] Isso é ridículo, não pode continuar

[00:28:04] Então, digamos, aumentou a vigilância

[00:28:05] É um banho de bom senso que se espalhou no meio acadêmico

[00:28:09] Ou seja, ele está sendo

[00:28:10] E na comunidade geral

[00:28:11] Ele está sendo purgado do meio acadêmico

[00:28:13] E viverá durante uns 100 anos

[00:28:15] Nas literaturas

[00:28:16] Essa elaboração aí

[00:28:18] Essa elaboração de Lyotard, Baudrillard

[00:28:21] Esses franceses e outros lá e tal

[00:28:23] Alguns americanos e tal

[00:28:24] Essa formulação, eu acho que ela está morrendo

[00:28:26] Agora, o relativismo vai renascer

[00:28:28] Como ele existe em outras formas

[00:28:29] Temos sempre que estar vigilantes

[00:28:31] O que é a característica do pós-modernismo

[00:28:34] Ele é essa combinação de relativismo

[00:28:36] E algumas outras coisinhas

[00:28:37] Com uma apropriação da legitimidade científica

[00:28:40] É uma outra roupagem

[00:28:41] O pós-modernismo, como o Jorge está colocando assim

[00:28:43] Com roupagem científica, fica super estranho

[00:28:45] Relativismo científico

[00:28:46] Virou uma espécie de xerox

[00:28:48] De mau gosto da pseudociência

[00:28:49] Nem para pseudociência

[00:28:50] A manifestação pseudocientífica

[00:28:55] Em geral, ela não é acadêmica

[00:28:57] E essa aí tem pés na academia

[00:28:59] Inclusive, nas agências financiadoras

[00:29:01] De alguns países, como Portugal

[00:29:02] Pés e outros órgãos

[00:29:03] Produção de doutores

[00:29:06] Com certeza

[00:29:07] É uma coisa bem diferente

[00:29:09] Por isso que é bom a gente saber onde é que anda

[00:29:11] Se tu presta atenção, o pessoal da área

[00:29:13] Até de jornalismo e outros, quando eles escrevem

[00:29:14] Eles têm esse…

[00:29:15] Está lá presente aí

[00:29:16] De vez em quando eles se correvem

[00:29:17] Não tem…

[00:29:18] Comentaristas importantes no jornal

[00:29:19] Ninguém é dono da verdade

[00:29:20] Esse foi o programa Fronteiras da Ciência

[00:29:22] Hoje a gente discutiu o relativismo e o pós-modernismo

[00:29:25] Estiveram aqui com a gente o professor Jorge Kiel

[00:29:28] Do Departamento de Biofísica da URGS

[00:29:30] O professor Jefferson Arenzon

[00:29:31] Do Departamento de Física da URGS

[00:29:33] O professor Carlos Miralha

[00:29:34] Do Departamento de Filosofia da UFPEL

[00:29:36] Eu, o Marco de Arte

[00:29:38] E o Léo Nunes Arenzon

[00:29:40] Aqui do Colégio João Paulo

[00:29:42] O programa Fronteiras da Ciência

[00:29:45] É um projeto do Instituto de Física da URGS

[00:29:48] Técnica de Gilson de Césaro

[00:29:51] E direção técnica de Francisco Guazelli