Albert Einstein, o gênio
Resumo
O episódio inicia apresentando Albert Einstein como o maior cientista do século XX e uma figura icônica que transcende a ciência, tornando-se um estereótipo do gênio na cultura popular. Os participantes discutem como o ano de 1905, considerado seu ‘annus mirabilis’, foi marcado pela publicação de cinco trabalhos revolucionários, incluindo a teoria da relatividade e o efeito fotoelétrico, que lhe rendeu o Prêmio Nobel. A conversa explora a resistência da comunidade científica às suas ideias, exemplificada pelo ceticismo de Max Planck e pelos onze anos de experimentos de Robert Millikan para tentar refutar o efeito fotoelétrico.
A biografia de Einstein é analisada, destacando suas dificuldades acadêmicas: sua rejeição ao ensino tradicional na ETH de Zurique, seu conflito com professores que o impediram de obter uma posição universitária após a graduação, e seu trabalho no escritório de patentes de Berna, onde desenvolveu suas teorias mais importantes longe do ambiente acadêmico, apoiado por um pequeno grupo de amigos como Michele Besso. O episódio também aborda o contexto político, incluindo o antissemitismo que Einstein enfrentou na Alemanha desde a década de 1920, sua fuga para os Estados Unidos em 1933 e seu papel indireto no Projeto Manhattan através da carta escrita com Léo Szilárd.
Os participantes refletem sobre o legado complexo de Einstein: sua dedicação à teoria do campo unificado (um problema ainda não resolvido), seus erros científicos (como sua inicial descrença na possibilidade da bomba atômica) e sua imagem pública como pacifista e comentarista político. O episódio conclui desconstruindo o mito do ‘cientista louco’ e destacando que Einstein era uma pessoa pragmaticamente engajada com a realidade, capaz de gerenciar suas finanças e antecipar perigos políticos, longe da caricatura do gênio alienado.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao programa e apresentação dos participantes — O episódio começa com a apresentação do podcast Fronteiras da Ciência e dos participantes: Carlos Alberto dos Santos, Jorge Kielfeld e Jefferson Alenzon. Eles anunciam que a discussão será sobre a biografia de Albert Einstein, considerado o maior cientista do século XX, e convidam o professor Carlos Alberto a iniciar a conversa.
- 00:00:52 — Quem foi Albert Einstein? O ícone cultural e científico — Carlos Alberto responde à pergunta ‘quem foi Einstein?’ destacando que ele se tornou um ícone pop, comparável a Pelé, e que seu nome virou um adjetivo para gênio. Ele menciona que 2005 foi declarado o Ano Internacional da Física em comemoração ao centenário de seus trabalhos de 1905, e que Einstein é o estereótipo do cientista na cultura, com sua imagem fotográfica sendo uma das mais vendidas, perdendo apenas para a de Marilyn Monroe.
- 00:01:19 — O ano miraculoso (Annus Mirabilis) de 1905 — É explicado que 1905 foi o ‘annus mirabilis’ de Einstein, ano em que publicou cinco trabalhos revolucionários, incluindo dois sobre relatividade. Esse ano é comparado ao ano miraculoso de Newton. Os participantes discutem como esses trabalhos abalaram a física estabelecida e como a relatividade não era compreendida nem pela maioria dos físicos da época, o que atrasou seu Prêmio Nobel.
- 00:08:01 — O Prêmio Nobel pelo efeito fotoelétrico e a resistência às suas ideias — Discute-se que Einstein ganhou o Nobel pelo efeito fotoelétrico, não pela relatividade, devido à incompreensão da comunidade. É contada a história de como Max Planck inicialmente via sua constante como um artefato matemático, e como Robert Millikan passou onze anos tentando provar que Einstein estava errado sobre o efeito fotoelétrico, acabando por confirmar a teoria e ganhar seu próprio Nobel. Isso ilustra o ceticismo saudável na ciência.
- 00:12:01 — As dificuldades acadêmicas de Einstein e o trabalho no escritório de patentes — Carlos Alberto descreve os problemas de Einstein com a educação formal: sua insatisfação com os professores na ETH, seu abandono das aulas, e a consequente rejeição pelos professores que não o recomendaram para cargos acadêmicos. Por influência de um amigo, ele conseguiu emprego no escritório de patentes de Berna em 1902, onde desenvolveu seus trabalhos mais importantes longe da academia, discutindo ideias com amigos como Michele Besso.
- 00:14:44 — O antissemitismo e a fuga da Alemanha nazista — Os participantes abordam o antissemitismo que Einstein enfrentou na Alemanha desde a década de 1920, incluindo campanhas difamatórias de físicos como Johannes Stark e a invasão de uma palestra por nazistas. Com a ascensão de Hitler em 1933, Einstein fugiu para os Estados Unidos, nunca mais retornando à Europa. A emigração em massa de cientistas judeus para os EUA foi crucial para o Projeto Manhattan e a superioridade científica americana.
- 00:18:50 — O Projeto Manhattan e o erro alemão no programa nuclear — Explica-se por que os EUA desenvolveram a bomba atômica antes da Alemanha, apesar de Werner Heisenberg liderar o programa alemão. Um erro de cálculo de um estudante de Heisenberg levou os alemães a optarem pela água pesada como moderador, em vez do grafite usado pelos EUA. A fábrica de água pesada na Noruega foi destruída pela resistência, impedindo o progresso alemão. Einstein foi convencido por Léo Szilárd a escrever a carta que alertou Roosevelt sobre a possibilidade da bomba.
- 00:23:44 — Os anos finais, erros científicos e legado de Einstein — Discute-se a produção científica menos impactante de Einstein em seus anos finais, sua obsessão com a teoria do campo unificado (um problema ainda aberto) e seus erros, como duvidar da viabilidade da bomba atômica em 1934. Os participantes enfatizam que cometer erros é parte do processo científico e que a imagem de Einstein como um gênio infalível é um mito pop. Ele era, na verdade, um pragmático engajado politicamente, como evidenciado por seu convite para ser presidente de Israel.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2011-09-19T15:00:05Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/albert-einstein-o-g%C3%AAnio/9b637190-c520-012e-6909-00163e1b201c
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Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
- UUID: fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c
Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da Rádio da Universidade, onde discutiremos
[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.
[00:00:13] A gente vai continuar a nossa série de biografias e para falar sobre, sem dúvida, o maior cientista
[00:00:21] do século XX, Albert Einstein, a gente tem aqui o professor Carlos Alberto dos Santos,
[00:00:27] que foi professor do Instituto de Física da URGS e atualmente ele trabalha na Universidade
[00:00:34] Federal da Integração Latino-Americana, o MILA, em Foz do Iguaçu.
[00:00:38] Ele dirige as atividades de ensino e pesquisa.
[00:00:40] Também temos esse que acabou de falar, que é o Jorge Kielfeld, do Departamento de Biofísica
[00:00:45] da URGS e eu, Jefferson, sou um da Física da URGS.
[00:00:47] Então eu queria começar pedindo para o Carlos Alberto, começar contando quem foi esse
[00:00:52] cara, quem foi esse tal de Einstein.
[00:00:54] É difícil dizer quem foi Einstein porque…
[00:00:57] Os ângulos que a gente pode vê-los são tão grandes e tão amplos e tão diversos,
[00:01:03] mas já que você não me fez uma provocação muito grande, específica, eu posso dizer
[00:01:11] que talvez quem foi o Einstein, dizendo que o ano de 2005 foi considerado o ano internacional
[00:01:19] da física em comemoração aos trabalhos que ele fez em 1905, um século antes.
[00:01:24] Um ano maravilhoso.
[00:01:26] Assim como…
[00:01:26] É.
[00:01:27] O ano miráblis do Einstein.
[00:01:29] O ano miraculoso.
[00:01:30] O ano miraculoso, exato.
[00:01:32] É como havia o ano miraculoso do Newton.
[00:01:36] E como esse ano se comemora o ano mundial da química, em comemoração ao centenário
[00:01:41] do Prêmio Nobel da Madame Guirini, em 1911.
[00:01:44] Então, se você me pergunta quem foi o Einstein, o fato dele ter sido, e ter inaugurado essa
[00:01:51] história de ano internacional comemorativo da obra de um cientista, já é…
[00:01:56] Relevante para definir quem é esse…
[00:01:59] Mais do que isso, o Einstein é o estereótipo, não só o estereótipo, ele é o estereótipo
[00:02:04] e a caricatura do cientista.
[00:02:07] Acho que todas as pessoas, se perguntar quem é Einstein, é como perguntar quem é Pelé.
[00:02:12] É, um ícone pop.
[00:02:14] Aliás, sobre o Einstein, virou um adjetivo.
[00:02:18] Você é um Einstein.
[00:02:20] Você é um Einstein.
[00:02:20] Em 2005, por conta dessa comemoração, vieram à tona vários…
[00:02:26] Informações equivocadas e preconceitos sobre o Einstein.
[00:02:29] Uma revista, ou então a imprensa, publicou muito sobre isso.
[00:02:32] Imprensa séria e não séria, todo mundo publicou muito.
[00:02:35] Uma revista aqui no Brasil publicou um número especial, uma revista que eu acho que nem
[00:02:39] existe mais, mas publicou um número especial e dizia que o Einstein não era um Einstein.
[00:02:43] Obviamente, a revista explorava os mitos, os preconceitos.
[00:02:46] Os mitos mais velhos, por exemplo.
[00:02:48] Os mitos, é.
[00:02:48] Agora, sobre a figura pop, tem um fato interessante.
[00:02:53] Tem uma empresa em Nova York.
[00:02:56] Que vende fotografias de personalidade.
[00:02:58] E a fotografia do Einstein só perde para Mary Moore.
[00:03:01] Quer dizer, só Mary Moore tem mais fotografias no arquivo dessa empresa do que o Einstein.
[00:03:05] Quer dizer, mais que o Che Guevara?
[00:03:07] Mais do que o Che Guevara.
[00:03:07] Excelente.
[00:03:08] Mais do que o Che Guevara.
[00:03:09] Depende da área de aplicação da empresa.
[00:03:12] É, é.
[00:03:14] É uma empresa que…
[00:03:16] De imagens, não é?
[00:03:17] De imagens.
[00:03:17] É aquele arquivo da internet?
[00:03:19] Não lembro, não lembro…
[00:03:23] Mas é notável, ele é um ícone visual.
[00:03:25] É.
[00:03:26] E, bom, enfim, ele é um sujeito que também atraiu muito preconceito pela sua condição racial, não é?
[00:03:38] Quer dizer, então, muitos dos preconceitos que tem vem por problemas…
[00:03:42] Étnicos.
[00:03:42] É ético, não é?
[00:03:43] É mais ético do que o Che Guevara.
[00:03:45] Exatamente.
[00:03:45] E aí mistura étnico e ignorância científica a respeito do trabalho dele, bom, então, tá feito.
[00:03:51] Mas acho que nessa questão do ícone, não entra muito o fato dele ser…
[00:03:56] O judeu, ele é associado à imagem do cientista, aquele personagem de cabelo desganhado, né?
[00:04:03] Não cuida da palhaça.
[00:04:04] E a língua pra fora, assim, muito…
[00:04:06] Extravagante.
[00:04:07] Mas uma parte dele mesmo provocava isso, né?
[00:04:11] Quer dizer, essa coisa, e a vida pessoal do Einstein também propiciava, propiciou esse tipo de coisa.
[00:04:17] E também a capacidade intelectual do Einstein propiciou isso.
[00:04:22] Quer dizer, o Einstein foi um sujeito que fez coisas absolutamente inimagináveis.
[00:04:26] No padrão acadêmico daquela época e mesmo hoje.
[00:04:29] Então, eu acho um sujeito que tinha essas coisas que você não consegue explicar.
[00:04:34] Não, você é estudioso, você segue, você vai…
[00:04:37] Isso não se explica, as pessoas estão fora da curva, os gênios, né?
[00:04:41] Eu acho que os gênios são pessoas que têm uma heurística e uma intuição absolutamente fora do padrão
[00:04:46] e saem com umas que você não entende, né?
[00:04:49] E também a falta de compreensão desse fato, que também faz as pessoas defenderem,
[00:04:56] os mitos em torno do que ele não fez isso, não fez aquilo,
[00:04:59] também pela falta de compreensão desse fato, dessa intuição que o Einstein tinha.
[00:05:03] Portanto, era um sujeito que chamava a atenção pelo fazer e pelo não fazer.
[00:05:08] Mas olha só, é até interessante que eu li em algum lugar, agora eu não me lembro onde,
[00:05:12] tentando analisar a origem do mito, né?
[00:05:14] E esse mito foi publicitado basicamente pela grande imprensa,
[00:05:17] as revistas, os noticiários e depois a cultura de massa, de uma forma geral,
[00:05:22] antes mesmo da internet.
[00:05:24] E diz que talvez o fator que mais…
[00:05:26] acabou alimentando isso seria o aspecto de ele ter uma história de vida
[00:05:31] que é um caso humano muito comovente, ou seja, ele é realmente uma espécie de herói, né?
[00:05:37] Porque não é um acadêmico comum que teve a vida sempre tranquilo,
[00:05:40] entrou na universidade e foi seguindo, não.
[00:05:41] Ele trabalhou no porão do escritório de patentes, nas horas vagas, escrevia lá…
[00:05:46] Não só isso, né?
[00:05:47] Isso toca muitas pessoas, não é qualquer cientista que tem uma biografia dessa.
[00:05:51] O próprio envolvimento dele com questões humanistas e pacifistas, né?
[00:05:55] Acho que aproximou também…
[00:05:56] Ele usou isso também porque ele era muito hábil politicamente, né?
[00:06:01] Eu já vi, também existem alguns estudos, ensaios, porque esse mito surgiu.
[00:06:08] Ah, eu já vi também uma informação de que quando terminou a Primeira Guerra,
[00:06:11] o mundo precisava de dar uma mexida de…
[00:06:15] de levar o…
[00:06:16] Autoestima.
[00:06:17] Autoestima das pessoas.
[00:06:18] E usar o Einstein como… exatamente, como esse sujeito.
[00:06:21] Tanto ele é uma espécie de embaixador da paz na época.
[00:06:23] Tanto que o Nobel dele foi lá em seguida.
[00:06:26] Então, foi em 1921.
[00:06:28] Foi em 1921, é.
[00:06:29] Três anos depois do final da…
[00:06:30] Mas se bem que não se pode estabelecer essa correlação.
[00:06:34] Eu estou dizendo que não pode ver o seguinte.
[00:06:35] Porque o Einstein, ele foi indicado pelo Nobel de 1910 a todos os anos,
[00:06:40] excetuando dois anos, que não sei se foi em 1913, 1915.
[00:06:44] Dois anos, mas todos os anos ele tinha a indicação do nome dele para o Nobel.
[00:06:48] Então, essa razão de que…
[00:06:50] Mesmo qualquer que seja a razão para porque foi que virou um mito, né?
[00:06:53] É muito…
[00:06:54] Não tem como comprovar.
[00:06:55] Eu vi um pouco depois disso.
[00:06:56] Inclusive, eu ouvi alguém comentando uma vez, um historiador da ciência,
[00:07:00] que tem uma curva de compreensão progressiva também das ideias de Einstein.
[00:07:04] Ou seja, Einstein não era compreendido nem pelos físicos na década de 10.
[00:07:07] É verdade.
[00:07:08] Início de 20, anos 20.
[00:07:10] Em 1920, parece que tinha uma dúzia de pessoas que realmente dominavam
[00:07:13] e estavam naquela temática.
[00:07:15] Então, todo mundo ganhou o Nobel com uma população tão restrita.
[00:07:17] Aí tem a questão não só da compreensão, mas a questão da aceitação das teorias.
[00:07:22] E da validade delas.
[00:07:24] Estava sacudindo o castelo.
[00:07:26] Aí tu chamou da fortaleza de Newton.
[00:07:28] Que é uma fortaleza mesmo.
[00:07:30] 300 anos de solideiro.
[00:07:32] Não, e na década de 20 não tinha muitas confirmações ainda.
[00:07:35] Foi de 19.
[00:07:36] A primeira confirmação, de fato, foi de 19.
[00:07:39] É que, sim, das ideias do Einstein…
[00:07:41] Porque acontece que em 1905, o Einstein publicou cinco trabalhos.
[00:07:45] Digamos, dois estavam ligados à relatividade.
[00:07:49] Mas, digamos, quatro linhas de trabalho completamente diferentes.
[00:07:51] Então, isso é uma coisa impressionante.
[00:07:53] Que ganhou o Nobel pelo menos notável dele.
[00:07:56] Ele ganhou o Nobel pelo efeito fotoelétrico e não ganhou o Nobel pela relatividade
[00:08:01] por causa da falta de compreensão.
[00:08:02] Teve um ano que o comitê, que é o processo do Nobel,
[00:08:06] o comitê pede para um relator, encaminha para um cientista para ler o trabalho,
[00:08:11] quando a pessoa é indicada, por muita gente,
[00:08:13] lê o trabalho que merece o prêmio e a pessoa faz um relato.
[00:08:16] Teve um ano, não me lembro agora exatamente qual deles,
[00:08:18] teve um ano que foi um médico que foi fazer o relato do trabalho da relatividade do Einstein.
[00:08:23] O cara não sabia absolutamente nada de relatividade.
[00:08:25] E fez um parecer absolutamente equivocado.
[00:08:27] E não ganhou o Nobel.
[00:08:29] Até terminou ganhando pelo efeito fotoelétrico.
[00:08:31] Que é irônico, considerando que ele teve tantos problemas com a mecânica quântica,
[00:08:34] depois, no ano seguinte…
[00:08:35] Exatamente.
[00:08:35] Mas, em 1919, foi o grande triunfo do Einstein com o Eclipse Solar.
[00:08:40] E no Ceará, e na Ilha de Príncipe, na África.
[00:08:46] Mas o efeito fotoelétrico de 1905,
[00:08:48] o efeito fotoelétrico é uma coisa, do ponto de vista da história da ciência e da epistemologia da ciência,
[00:08:53] é um exemplo, é um caso espetacular.
[00:08:55] Porque o Planck propõe a sua constante em 1900,
[00:08:59] em uma atitude absolutamente desesperada para explicar a curva da radiação do corpo negro.
[00:09:05] Mas o Planck era muito conservador, sempre foi muito conservador.
[00:09:09] O Planck tentou tudo antes de aceitar essa escatização.
[00:09:14] Eu me lembro da história do Kepler, inclusive, lá brigando com os mitos mais profundos dele, conservadores.
[00:09:20] Mas quando o Planck propôs a constante dele para explicar, ele achou que aquilo era…
[00:09:25] não passava de um artefato matemático para ajustar a curva.
[00:09:29] Quando, em 1905, cinco anos depois, o Einstein propõe a constante de Planck,
[00:09:34] atribuindo a partícula de luz, que vinte anos depois foi denominada de fóton, né?
[00:09:39] A gente hoje fala na teoria do Einstein, e põe a palavra fóton,
[00:09:44] e a palavra fóton aparece vinte anos depois, né?
[00:09:46] Não está no paper.
[00:09:47] Não, não está aí nem…
[00:09:48] Bom, então, mas o fóton, quando ele atribui aquilo lá, o Planck ficou desesperado.
[00:09:52] Porque o Einstein estava dando vida,
[00:09:55] universal, à sua constante.
[00:09:57] Numa outra situação.
[00:09:58] E não mais um artefato matemático.
[00:10:00] E não mais um artefato matemático.
[00:10:01] Era uma realidade da natureza.
[00:10:03] Inaugurando o mesmo paradoxo que depois ia…
[00:10:06] Da teoria quântica, da teoria quântica.
[00:10:08] Então, o Millikan também não acreditou.
[00:10:13] O Millikan ficou onze anos medindo para provar que o Einstein estava errado.
[00:10:18] Que a equação do efeito atlético pela qual o Einstein ganhou o Nobel estava errada.
[00:10:22] E então ele passou vinte anos medindo para provar que a medida da questão de
[00:10:25] Planck pela equação de Einstein estava furada.
[00:10:27] Ao final de onze anos, ele obteve a questão de Planck tão precisa que ele mesmo ganhou
[00:10:30] o Nobel.
[00:10:31] Dois anos depois do Einstein.
[00:10:32] Em 1940, ele confessa que passou onze anos medindo com absoluto escepticismo para provar
[00:10:39] que o Einstein estava errado.
[00:10:40] Agora, você veja que, do ponto de vista epistemológico, é interessante porque quando uma teoria ou
[00:10:46] uma hipótese é lançada e ela começa a vingar e aparecer em diferentes experimentos, em
[00:10:53] diferentes situações, você tem que acreditar que aquilo…
[00:10:55] Faz sentido.
[00:10:56] Então, você veja que a questão de Planck funcionou para ajustar a curva no efeito do
[00:10:59] corpo negro.
[00:11:00] Ela foi aplicada no efeito atlético.
[00:11:02] Em 1913, ela foi aplicada para o Bohr nas transições atômicas, o que explicou maravilhosamente
[00:11:07] bem o espectro hidrogênico.
[00:11:09] Então, a questão de Planck tinha que ser uma coisa da realidade e da natureza universal.
[00:11:14] Essa rebeldia, essa coisa do ceticismo a toda prova, ou seja, eu não acredito, eu vou
[00:11:18] acabar com esse cara.
[00:11:19] Isso é um motor fundamental na história da ciência.
[00:11:21] Ele é importante.
[00:11:22] As pessoas não entendem.
[00:11:23] Acho que é tudo um festival de confete, a gente concordando com quem teve a primeira
[00:11:27] ideia.
[00:11:28] Não, é a gente realmente duvidando saudavelmente até ser convencido do contrário.
[00:11:32] Um pouco é a batalha de ego, mas isso é um motor potente.
[00:11:38] Dentro de César Zimites é ótimo, mas assim, é um motor, é um motor indiscutível de
[00:11:41] sucesso.
[00:11:42] Deixa eu fazer a nossa publicidade, esse é o Fronteiras da Ciência, onde a gente está
[00:11:46] conversando sobre a biografia do Einstein, como a gente já disse, Einstein virou sinônimo
[00:11:52] de gênio.
[00:11:53] Então, eu vou continuar falando, esses trabalhos que o Einstein fez, ele não estava no ambiente
[00:11:58] acadêmico na época, como é que foi isso?
[00:12:01] O Einstein teve muito problema durante toda a sua vida escolar com os professores, então,
[00:12:07] quando ele foi para a ETH, Instituto Politécnico de Zurique, ele foi para lá com as maiores
[00:12:14] esperanças de ter um ambiente científico de alto nível, mas ele logo foi decepcionado,
[00:12:20] embora a ETH, quer dizer, hoje é muito famosa.
[00:12:22] Em 2012.
[00:12:23] Naquela época, vários, várias pessoas ilustres da história da ciência davam aula, o Einstein
[00:12:29] relata que as aulas eram sofríveis, os professores, e aí eu estou falando de gente da estipe
[00:12:34] do Minkowski, então…
[00:12:36] Que era muito bem tido na época, era muito respeitado.
[00:12:40] Sim, o matemático, fiz uma de altíssimo, mas então, e aí o Einstein, eles liam, primeiro
[00:12:48] eles não liam a literatura da época, eles não liam os Helmholtz, por exemplo, não
[00:12:53] é usado nas aulas.
[00:12:54] Hoje a gente também não lê a literatura daquela época.
[00:12:57] Também, também.
[00:12:58] É.
[00:12:59] No máximo uma nota de rodapé.
[00:13:00] Tá bom.
[00:13:01] E depois os professores davam aula lendo o livro, e isso era uma coisa demais.
[00:13:04] O Einstein não tinha uma tolerância zero para a mediocridade e ele não escondia, então,
[00:13:10] ele passou a abandonar as aulas da ETH, o que atraiu para ele a raiva de todos os professores,
[00:13:17] então quando ele se formou, ele não conseguiu nenhuma posição em uma universidade, porque
[00:13:21] os seus professores…
[00:13:22] Ou não aceitavam, ou não recomendavam para outros.
[00:13:26] E o Einstein, com uma inocência enorme, pedia aos seus professores para dar carta de recomendação
[00:13:31] para outros onde tinha cargo de assistente.
[00:13:33] E depois se sabe que aqueles professores não davam a carta de recomendação, davam a carta
[00:13:38] contra recomendação, não recomendando, e o próprio Einstein, isso a gente sabe com
[00:13:42] as cartas que ele trocava com a Mileva.
[00:13:44] Então o Einstein não conseguia…
[00:13:45] A Mileva é a esposa dele.
[00:13:46] Foi a primeira esposa dele e foi colega de turma na ETH.
[00:13:50] Como ele não conseguia um emprego na academia…
[00:13:52] Ele conseguiu, por influência de um amigo dele da escola, um emprego em Berna, no escritório
[00:14:01] de patentes de Berna.
[00:14:02] Então ele foi trabalhar no escritório de patentes de Berna, analisando patentes, e
[00:14:06] ali foi que ele realizou todo o seu trabalho até 19…
[00:14:09] Ele só veio…
[00:14:10] O primeiro emprego do Einstein em academia, em universidade, foi em 1908.
[00:14:13] Então ele trabalhou de 1902, quando ele começou no Le Mans, até 1907.
[00:14:19] Lembrando que o Einstein nasceu em 1808.
[00:14:20] Sim.
[00:14:21] É.
[00:14:22] Em 1879.
[00:14:23] Em 1879.
[00:14:24] Então aos 23 anos ele foi para o escritório de patentes.
[00:14:27] É.
[00:14:28] E ele escreveu e publicou os trabalhos com 26 anos de idade.
[00:14:31] Ele entrou na universidade com 17 anos, ele era o aluno mais novo da turma.
[00:14:34] O Einstein, ele teve problemas, acho que na década de 30, 40, como físico judeu na Alemanha,
[00:14:44] né?
[00:14:45] Então como é que é essa questão na época, porque ciência em geral ela é e deve ser
[00:14:50] avaliada pelo seu conteúdo.
[00:14:52] Não pelas características pessoais da pessoa que propõe.
[00:14:56] Mas isso é uma coisa que naquela época não é muito bem compreendida.
[00:15:00] Então até que ponto isso pode ser a causa, por exemplo, do atraso que a Alemanha teve
[00:15:05] no programa nuclear durante a guerra?
[00:15:08] Porque os Estados Unidos venceu essa corrida até por influência do próprio Einstein,
[00:15:13] que escreveu contando, avisando que existia essa possibilidade da Alemanha estar desenvolvendo…
[00:15:19] Não avisando não.
[00:15:20] Pedindo, façam.
[00:15:21] É bom, mas ninguém tinha evidências concretas de que realmente estavam…
[00:15:25] Então ele aventou a possibilidade…
[00:15:27] Ele e outros.
[00:15:28] E aí se criou o projeto Manhattan, né?
[00:15:30] Então o quanto a negação de toda essa física, porque a própria validade da física proposta
[00:15:36] pelo Einstein era negada pelo fato da origem judaica dele.
[00:15:40] Se pode afirmar isso, que os aliados venceram a guerra por causa do antissemitismo?
[00:15:47] Mas deixa eu só voltar um pouco.
[00:15:49] É que eu acho que eu não comentei apropriadamente a história do Einstein quando ele fez o trabalho
[00:15:55] que ele estava no escritório de patente.
[00:15:56] Eu acho que precisa acrescentar uma coisa muito importante.
[00:15:58] É que ele não estava na academia e não só isso.
[00:16:01] Ele fez os seus trabalhos absolutamente sem nenhum auxílio da academia.
[00:16:04] Quer dizer, ou seja, ele não fez o trabalho como a gente conhece hoje, que tem um orientador
[00:16:08] que trabalha.
[00:16:09] Ele discutiu todo o seu trabalho com três colegas dele absolutamente fora da academia.
[00:16:14] Então era um engenheiro muito inteligente, que era o Michele Bell.
[00:16:18] O Michele Besso.
[00:16:19] Muito inteligente, mas muito dispersivo.
[00:16:21] E isso ajudou muito o Einstein.
[00:16:22] Ele era muito inteligente, mas escrevia uma parte de produção.
[00:16:25] Um filósofo que não sabia o que fazia, ficava segurando.
[00:16:27] E um matemático.
[00:16:28] Então, ele com esses três colegas.
[00:16:30] E muito pouco com a Mileva.
[00:16:33] Então, com esses três colegas, que era a sua caixa de ressonância no momento.
[00:16:36] Ele discutia com eles o que estava fazendo.
[00:16:39] Então, portanto, ele só queria uma pessoa para ficar ouvindo as coisas que ele estava
[00:16:42] fazendo.
[00:16:43] O Michele Besso ajudou muito.
[00:16:44] Bom, voltando então.
[00:16:45] Em 1933, o Einstein sai da…
[00:16:47] Quando Hitler chega ao poder, o Einstein vai para os Estados Unidos.
[00:16:51] E ele, depois de 1933, jamais volta à Europa.
[00:16:54] Há uma cena tocante relatada nas biografias.
[00:16:58] É que ele leva a segunda mulher dele e mostra a casa de praia que eles têm.
[00:17:03] Vocês podem olhar.
[00:17:04] É a última vez que ele está olhando para essa casa.
[00:17:06] Então, eles fogem, vão para os Estados Unidos e nunca mais voltam.
[00:17:08] Mas o problema do antissemitismo na Alemanha era muito grave muito antes disso.
[00:17:15] E o próprio Einstein foi vítima disso.
[00:17:17] Na década de 1920, ele foi vítima de…
[00:17:20] O Johann Stark, que é um físico muito famoso, tem o efeito Stark, fez uma guerra imensa
[00:17:29] para destruir a reputação do Einstein.
[00:17:32] E tentou associar a uma ciência judia que não tinha valor.
[00:17:37] Então, isso…
[00:17:38] Em 1921, 1922, uma palestra que o Einstein deu na Universidade Alemã foi invadida por
[00:17:44] jovens nazistas.
[00:17:45] Naquela época já não existia.
[00:17:46] Portanto, 1933, com a chegada do Hitler ao poder, só consolidou uma posição que havia
[00:17:53] vindo.
[00:17:54] Agora, isso Einstein é, digamos, o mais conhecido de todos os perseguidos.
[00:17:57] Portanto, era um alvo fácil.
[00:17:59] Mas todos os outros que emigraram para os Estados Unidos, principalmente, mas para outros
[00:18:03] países da Europa…
[00:18:04] Muitos foram lá para o norte, para Dinamarca, mas a maioria foi para os Estados Unidos.
[00:18:09] Então, quer dizer, foi esse pessoal que, de fato, fez o projeto Manhattan.
[00:18:13] E só por eles.
[00:18:14] Vocês sabem muito bem que até esse período, até a Segunda Guerra, os Estados Unidos estavam
[00:18:18] em uma posição científica muito atrás da Europa.
[00:18:22] Então, toda a ciência importante que se fazia era na Europa e muito na Alemanha.
[00:18:26] Então, esse pessoal todo…
[00:18:27] Era um grano de brinde.
[00:18:28] É.
[00:18:29] Então, esse pessoal todo foi para os Estados Unidos e esse pessoal levou toda a tecnologia.
[00:18:31] E eles sabiam.
[00:18:32] E eles sabiam o que estava sendo feito, sabiam o que era possível fazer.
[00:18:35] Então, portanto…
[00:18:36] Então, todo esse pessoal judeu, não só alemão, mas gente que era lá do leste europeu, que
[00:18:42] estudava na Alemanha.
[00:18:43] E teve que fugir.
[00:18:44] E sabia que tudo estava sendo feito.
[00:18:46] Uma curiosidade nessa história toda, que pouca gente conhece, né?
[00:18:50] Por que é que os Estados Unidos, então, fez a bomba antes dos alemães?
[00:18:54] Porque lá, os alemães que ficaram lá na Alemanha também não eram desprezíveis.
[00:18:59] Eram pessoas que conheciam.
[00:19:00] Tá certo?
[00:19:01] Quem chefiava o programa alemão era Heisenberg.
[00:19:04] Heisenberg.
[00:19:05] Nada menos.
[00:19:06] Então…
[00:19:07] Agora, por que é então que eles não fizeram e os Estados Unidos fez?
[00:19:08] Tem uma história muito interessante, que pouco é divulgada.
[00:19:13] É que o seguinte…
[00:19:14] Havia um programa lá para você…
[00:19:15] Como é que você faz o refriamento dos nêutrons, né?
[00:19:20] Então, tinha duas hipóteses.
[00:19:22] Ou fazia com água pesada ou fazia com grafite.
[00:19:24] Eram as duas hipóteses que…
[00:19:25] Então, como é que você sabe qual é que é melhor?
[00:19:26] Você calcula a seção de choque.
[00:19:28] Então, em termos técnicos, enfim…
[00:19:29] Você calcula a capacidade de absorção do nêutron por um material.
[00:19:32] O Heisenberg tinha um estudante que fazia os cálculos e o Fermi tinha um estudante
[00:19:37] que fazia os cálculos também.
[00:19:38] Então, nesse momento…
[00:19:40] Foi em 40.
[00:19:41] Nesse momento…
[00:19:42] Ninguém estava mais publicando os seus resultados na literatura.
[00:19:45] Todo mundo fazia secretamente.
[00:19:47] Você sabe hoje que foi assim.
[00:19:48] Então, o estudante do Heisenberg fez o cálculo e mostrou que a seção de choque para água
[00:19:54] pesada era maior do que a grafite.
[00:19:55] Foi um erro que ele cometeu na conta.
[00:19:57] E o estudante do Fermi mostrou que a seção de choque do grafite era maior do que a água
[00:20:02] pesada.
[00:20:03] Os Estados Unidos resolveram fazer então com grafite, como moderadores do nêutron.
[00:20:06] E a Alemanha resolveu fazer com água pesada, porque os dois tinham resultados positivos
[00:20:10] para um e para o outro.
[00:20:11] Só que estava errado o estudante do Heisenberg.
[00:20:13] E a Alemanha tinha a sua fábrica de água pesada na Noruega.
[00:20:16] E quando eles invadiram a Noruega, que ficou lá sob dominação dos alemães, a resistência
[00:20:21] norueguesa explodiu a fábrica de água pesada.
[00:20:24] E eles ficaram sem poder produzir material físico para fazer a bomba.
[00:20:27] Então, eles iam fazer a bomba.
[00:20:29] O que teria acontecido se eles tivessem feito com água pesada?
[00:20:31] Ah, não sei.
[00:20:32] Não sei o que teria acontecido.
[00:20:34] Qualquer coisa que se diga, meio que especulação, eu não sou capaz de dizer.
[00:20:40] Eu não sou capaz de fazer uma boa especulação em torno disso.
[00:20:43] De qualquer forma, poderia ter uma Hiroshima e Nagasaki, poderia ter uma New York e Washington.
[00:20:48] Ou, mais provável, a guerra ia se prolongar por mais 10, 15 anos.
[00:20:51] Porque as condições iam mudar.
[00:20:53] Mas, enfim, ninguém sabe.
[00:20:55] O próprio Heisenberg não se envolveu com o projeto Manhattan diretamente, além de ter incentivado.
[00:21:01] O Heisenberg foi um sujeito que explorou quase todas as áreas da física, praticamente.
[00:21:09] Diria que, naquela época, todas as áreas da física.
[00:21:11] Mas, depois dos anos 20, ele se concentrou muito na sua teoria do campo unificado.
[00:21:16] E ele meio que abandonou mesmo a briga dele com o Niels Bohr a respeito da mecânica quântica.
[00:21:21] Ele participava da briga, mas ele não investia muito.
[00:21:25] Mas isso foi muito usado contra ele, até para desconstruir dentro da comunidade física a imagem dele.
[00:21:30] Ele foi considerado de um físico que não seguiu o seu tempo.
[00:21:34] Ficou para trás e ele é o excêntrico lá, que bota a língua para fora.
[00:21:37] Mas ele estava envolvido na teoria do campo unificado.
[00:21:40] Então, na década de 30, o Einstein…
[00:21:42] Aliás, o Einstein…
[00:21:43] O Rutherford também apresenta uma certa falta de clareza com relação às possibilidades da energia nuclear.
[00:21:49] Em 1934, tem uma entrevista à imprensa, uma entrevista coletiva, que o Einstein dá à imprensa em 1934.
[00:21:55] Existe até uma fotografia muito famosa, onde ele diz que é absolutamente idiota quem pensa que se possa fazer um artefato nuclear impossível aproveitar a energia nuclear.
[00:22:04] Em 1934.
[00:22:05] Em 1938, se descobre a fissão nuclear.
[00:22:07] Então, o Einstein estava fora do jogo do entendimento da física nuclear naquele período.
[00:22:13] Não estava acompanhando.
[00:22:14] Não estava acompanhando.
[00:22:15] E não tinha o fluxo de publicações por causa da guerra, então estava tudo muito complicado.
[00:22:19] Então, ele foi convencido…
[00:22:21] Ele foi convencido…
[00:22:22] Como é que é o nome do garoto que eu estou dizendo?
[00:22:24] Não estou conseguindo me lembrar aqui.
[00:22:25] Foi o Szilárd, não é?
[00:22:26] Szilárd.
[00:22:27] Léo Szilárd.
[00:22:28] É, isso aí.
[00:22:29] Estou precisando para Szilárd.
[00:22:30] Tudo foi feito pelo Szilárd.
[00:22:32] Aliás, o Szilárd fez de tudo.
[00:22:34] É o articulador.
[00:22:35] Foi todo o articulador.
[00:22:36] Foi perseguido pelo FBI depois, porque o Szilárd, quando percebeu…
[00:22:40] O Szilárd fez de tudo.
[00:22:41] Ele fez o começo e tentou fazer…
[00:22:43] E tentou impedir.
[00:22:44] Segurar os freios porque ia ser usado contra a União Soviética.
[00:22:47] Exatamente.
[00:22:48] E, bom, qualquer que seja, de qualquer forma, o argumento dele era que a bomba não precisava
[00:22:53] ser usada porque os alemães já tinham Sintrae e os japoneses podiam ser convencidos a parar
[00:23:00] a Sintrae.
[00:23:01] Tarde demais.
[00:23:02] Mas os russos não, né?
[00:23:03] Tarde demais.
[00:23:04] É uma demonstração para os russos.
[00:23:05] É.
[00:23:06] Pois é.
[00:23:07] Mas, enfim, então foi o Szilárd que convenceu o Einstein a escrever a carta, as duas cartas.
[00:23:12] Que depois foram apoiados por um monte de físicos importantes na época também, né?
[00:23:16] Hã?
[00:23:17] Teve apoio de outros físicos.
[00:23:18] Ah, muitos.
[00:23:19] Era uma espécie de baixo assinado das maiores…
[00:23:22] Sim, sim, sim.
[00:23:23] Mas quando foi para impedir o lançamento da guerra, só meia dúzia de físicos assinavam.
[00:23:27] Ah, bom, isso é.
[00:23:28] Assim, a parte pacifista dele foi…
[00:23:30] Ele ficou isolado, né?
[00:23:31] É.
[00:23:32] Mas ele já tinha muita força, o que foi funcionar.
[00:23:33] E essa…
[00:23:34] Até aproveitando…
[00:23:35] A gente meio chegando, enfim, um pouco desses anos mais da…
[00:23:40] Digamos da…
[00:23:41] Os anos finais da vida, os últimos 10, 15, 20 anos, né?
[00:23:44] Como cientista, como físico, né?
[00:23:46] Que, digamos, ele não fez uma produção expressiva, né?
[00:23:48] Uma grande novidade importante.
[00:23:50] Talvez até só alguma parte da relatividade geral, mas também já estava mais nos dados,
[00:23:54] né?
[00:23:55] É.
[00:23:56] Ele foi produtivo até o final da carreira, né?
[00:23:57] Ele tem…
[00:23:58] O Einstein tem da ordem de três anos artigos.
[00:23:59] Sim.
[00:24:00] Mas assim, digamos, ele não fez…
[00:24:01] Aquele negócio também, cobrar que o cara tenha grandes ideias a cada cinco ou dez anos,
[00:24:04] é ridículo.
[00:24:05] Mas alguns…
[00:24:06] Até o Smolin…
[00:24:07] Sim, as grandes contribuições foram no início.
[00:24:08] É.
[00:24:09] O Smolin, que fez um apanhado ali em 2007, na próxima aproximação do ano internacional,
[00:24:13] né?
[00:24:14] Mostrando assim que, digamos, começou a ficar oficialmente, para gerações mais novas,
[00:24:18] que as opiniões do Einstein, por estarem desatualizadas e não estar acompanhando o cutting-edge
[00:24:22] mais moderno que tinha e tal, então ele passaria a ser uma espécie de…
[00:24:26] Enfim, não era um bom modelo para a física.
[00:24:28] Então ele fica como o bobão lá, que representa outras coisas, valores de pacifismo e tal.
[00:24:32] Um pouco, também, esse tipo de contra-imagem.
[00:24:34] Ícone, né?
[00:24:35] Um contra-ícone na comunidade científica.
[00:24:37] Não aconteceu isso também?
[00:24:38] Pois é.
[00:24:39] Mas então eu vou contextualizar isso aí.
[00:24:41] Contestar e contextualizar, né?
[00:24:43] De fato, o Einstein fez, digamos, as coisas iconográficas da ciência.
[00:24:48] Paulo Madeira foi em 1916, foi a relatória geral.
[00:24:51] Em 1917, ele fez uma coisa muito importante que não teve grande destaque na história
[00:24:55] da ciência, mas hoje…
[00:24:56] Que foram os cálculos que deram origem à descoberta do laser.
[00:25:00] Pois é.
[00:25:01] A possibilidade de existir o laser foi um cálculo que…
[00:25:03] Foi um cálculo que o Einstein fez, os famosos coeficientes AIB, que o Einstein fez em 1917.
[00:25:08] Mas isso não ficou como uma grande coisa na história da ciência, né?
[00:25:11] Com todos os furtos tecnológicos derivados disso…
[00:25:13] Mas o problema é o seguinte.
[00:25:15] O Einstein ficou esse tempo todo…
[00:25:17] Digamos que ele não fez grandes coisas e que pode ser um bom exemplo,
[00:25:20] mas o problema é que o Einstein inventou um problema que, até hoje, a ciência está enfrentando.
[00:25:25] A teoria de campo unificado é um problema em que olha a quantidade de gente que envolveu…
[00:25:29] Portanto, portanto, é mais…
[00:25:31] Não há, não há…
[00:25:32] Está cobrando muito o fato que ele individualmente não tenha conseguido chegar nisso,
[00:25:35] que ninguém chegou ainda satisfatoriamente.
[00:25:37] Ou que tenha cometido erros, né?
[00:25:39] Que cometeu vários…
[00:25:40] Sim, mas os erros são naturais na história da ciência.
[00:25:42] O problema é que quem diz…
[00:25:44] Quem levanta essa questão é porque não sabe…
[00:25:46] Ou porque tem má fé ou porque não sabe o que é ciência.
[00:25:49] Cometer erro na ciência é como…
[00:25:51] É como perder gol em centro-avante que só perde quem está tentando fazer.
[00:25:55] Mas eu acho muito bom…
[00:25:56] E as outras gravitações não é um outro bom exemplo?
[00:25:58] É.
[00:25:59] Você acha que também é derivado?
[00:26:00] Quer dizer, nós ainda não demonstramos isso.
[00:26:01] Não.
[00:26:02] É uma hipótese científica mais antiga,
[00:26:04] que está sendo perseguida obsessivamente e é cara de demonstrar.
[00:26:07] Portanto, vai dizer…
[00:26:08] Pô, mas quem acha que cientista é esse que não conseguiu isso?
[00:26:10] E sim, a humanidade inteira não conseguiu ainda.
[00:26:12] Eu acho fundamental que o Einstein tenha cometido erros,
[00:26:15] até para deixar essa imagem de que a autoridade, ela não conta para nada.
[00:26:19] E errar é o Manon West.
[00:26:21] Claro, não basta uma afirmação ter sido feita pelo maior cientista do século XX,
[00:26:25] talvez um dos maiores de todos os tempos.
[00:26:27] Mas esse é um mito pop.
[00:26:29] O pop é o gênio que está sempre certo.
[00:26:31] Que, aliás, não foi o Einstein que o fabricou, ele só reforçou.
[00:26:34] Tem um professor aqui, um colega bioquímico da UFRJ, o Leopoldo Demes,
[00:26:38] que se dedica muito a ensino de ciência, deve conhecer.
[00:26:41] Então ele fez uns estudos de opinião entre professores, educadores, civis e crianças,
[00:26:46] para ver o que eles imaginavam, como eles imaginavam os cientistas.
[00:26:49] Descobriu uma penetração muito grande desse mito dos cientistas
[00:26:52] como uma pessoa meio perdida, desorientada, fora da realidade, excêntrica e tal.
[00:26:56] E vai buscar as raízes disso, na verdade, no cinema do início do século XX, na literatura.
[00:27:00] Inclusive, talvez até antes, o cientista louco é o Frankenstein.
[00:27:03] De certo modo, ele é um mito da modernidade.
[00:27:06] Depois da Revolução Industrial, na metade do século XIX,
[00:27:09] começa-se a elaborar um pouco isso, que é um problema.
[00:27:11] Ele é um obstáculo um pouco para, talvez, motivar os jovens para a ciência.
[00:27:15] Agora, de qualquer forma, acho que isso é o que é mais explorado,
[00:27:19] porque isso estimula o nosso imaginário.
[00:27:22] Talvez o cientista tenha um pouco dessas características,
[00:27:28] porque vocês que fazem ciência sabem…
[00:27:31] Acho que estatisticamente…
[00:27:33] Sabe que é preciso você ficar um pouco absurdo para você realizar…
[00:27:37] Um pouco mais lúdico que o normal.
[00:27:40] E mesmo você precisa ter um certo afastamento das coisas do cotidiano
[00:27:46] para você aprofundar muito numa questão, quando você se dedica muito a um problema.
[00:27:50] Imagino que em momentos de vida de cada um que faz ciência tenha esse tipo de coisa.
[00:27:54] Se a pessoa tem uma intensidade muito grande, com mais frequência ele vai ter esse tipo de comportamento.
[00:27:58] Agora, não é assim.
[00:28:00] O Einstein também não era um alienado da realidade.
[00:28:04] Claro que não.
[00:28:05] Ele sabia muito bem…
[00:28:07] O Einstein tem vários fatos da história da sua vida,
[00:28:11] que você percebe claramente que…
[00:28:14] Estou dizendo que se você quiser ingenuamente pensar que ele,
[00:28:17] como cientista doido e cientista louco,
[00:28:19] seja um cara alienado da realidade…
[00:28:21] Ele era um comentarista político respeitado na época.
[00:28:23] Ele era socialista.
[00:28:25] Isso.
[00:28:26] Além disso, coisas…
[00:28:27] Além disso, coisas práticas.
[00:28:29] Ele tem vários exemplos.
[00:28:30] Por exemplo, ele percebeu com muita antecedência
[00:28:34] os problemas que ele enfrentaria com o sistema…
[00:28:37] Com os nazistas na Alemanha.
[00:28:39] Com muita antecedência.
[00:28:41] Com mais de uma década.
[00:28:42] Talvez um pouco a experiência dos italianos que já estavam apanhando um pouco antes.
[00:28:45] Pode ser.
[00:28:46] Mas aí o Einstein começou a transferir todo o seu dinheiro para a Europa,
[00:28:50] para fora da Alemanha,
[00:28:52] muito, muito antes…
[00:28:54] Dez anos antes de problemas.
[00:28:56] Então, quando começou a ter o problema em 1929,
[00:29:00] ele já tinha salvo grande parte do seu…
[00:29:03] Do dinheiro que ele tinha.
[00:29:04] Tudo que ele ganhava, ele mandava para bancos no exterior.
[00:29:07] Então, ele não era um sujeito alienado.
[00:29:09] Nem um pouco.
[00:29:10] Tanto que a imagem pública dele era tão alta naquela época
[00:29:13] que quando se criou o Estado de Israel, na década de 40,
[00:29:16] ele foi convidado para ser o presidente até para…
[00:29:18] E vários biólogos concordam que ele poderia ter perfeitamente sido, se quisesse.
[00:29:22] A capacidade não faltava.
[00:29:23] Esse foi, então, o Contenhas da Ciência.
[00:29:25] Hoje falamos sobre…
[00:29:27] Brevemente, sobre a biografia do Albert Einstein.
[00:29:30] Aqui tivemos o Carlos Alberto dos Santos, da UNILAM,
[00:29:34] Jorge Kielfeld, da Biofísica da URGS,
[00:29:37] e o Jefferson Alenzon, da Física da URGS.
[00:29:40] O programa Fronteiras da Ciência
[00:29:42] é um projeto do Instituto de Física da URGS,
[00:29:45] técnica de Gilson de Césaro
[00:29:47] e direção técnica de Francisco Guazelli.
[00:29:55] O programa é realizado em parceria com o Instituto de Física da URGS.