Diderot e os enciclopedistas
Resumo
O episódio explora a figura de Denis Diderot e os enciclopedistas franceses do século XVIII, contextualizando a criação da Enciclopédia Francesa (publicada entre 1759 e 1772) como um projeto revolucionário que ia além da compilação de conhecimento. Os participantes discutem como a obra, inicialmente concebida como uma tradução da enciclopédia inglesa de Chambers, transformou-se em um manifesto pela liberdade de expressão, pela supremacia da razão sobre a superstição e um instrumento de crítica social e política, frequentemente driblando a censura eclesiástica e real da época.
A conversa detalha a metodologia inovadora da enciclopédia (organização alfabética, abrangência de ciências, artes e ofícios) e o perfil dos colaboradores, como Diderot, d’Alembert, Voltaire e Rousseau. É destacada a figura menos conhecida do Chevalier de Jaucourt, responsável por cerca de 25% dos verbetes. A discussão também aborda a filosofia pessoal de Diderot, sua luta contra o dogmatismo e sua defesa de uma moral desvinculada da religião, ilustrada por seu diálogo com a Marechala de ***, onde argumenta que a bondade e a moral podem existir sem a expectativa de recompensa divina.
O programa estabelece um paralelo entre o espírito enciclopedista do século XVIII e a era digital, focando na Wikipédia. São discutidos os modelos de construção do conhecimento: o modelo “aristocrático” da enciclopédia original (com verbetes escritos por especialistas indicados) versus o modelo colaborativo e auto-organizado da Wikipédia. Os participantes analisam os mecanismos de controle de qualidade da Wikipédia, a velocidade de atualização, e surgimento de alternativas como a Scholarpedia (baseada em convites a especialistas).
Por fim, o episódio reflete sobre a atualidade das lutas dos enciclopedistas, conectando-as a fenômenos contemporâneos como radicalismos políticos e religiosos, a desinformação (exemplificada por um livro sobre 2012 com erros factuais graves) e a repetição de debates sobre a origem da moral e a associação entre religião e virtude. A conclusão enfatiza a necessidade contínua de defender a razão, o acesso democrático ao conhecimento e o papel crucial dos especialistas em sua construção e curadoria.
Indicações
Ferramentas
- Wikipédia — Enciclopédia online colaborativa discutida como o equivalente moderno do projeto enciclopédico. São analisados seus mecanismos de auto-correção, velocidade, controvérsias e a evolução para incluir certos controles e mediadores.
- Scholarpedia — Enciclopédia online mencionada como uma alternativa à Wikipédia, onde os verbetes são escritos por especialistas convidados. Começou na área de Neurociência por volta de 2006.
Livros
- Enciclopédia Francesa (de Diderot e d’Alembert) — A obra discutida ao longo do programa, publicada entre 1759 e 1772, é destacada como um marco na luta pela liberdade de expressão e razão, com verbetes sobre ciências, artes e ofícios. Está totalmente digitalizada e disponível online.
- Obra de Shaftesbury — Filósofo inglês do século XVII mencionado como uma influência para Diderot, por ter escrito um livro que tentava desvincular preceitos morais de preceitos religiosos, buscando uma moral na natureza.
Pessoas
- Denis Diderot — O principal editor e filósofo por trás da Enciclopédia Francesa. É apresentado como uma figura complexa, lutador contra o dogmatismo, defensor de uma moral independente da religião e organizador monumental do projeto enciclopédico.
- Chevalier de Jaucourt — Colaborador obscuro mas fundamental da Enciclopédia Francesa. Um nobre rico e médico que, após perder um manuscrito de 20 anos, escreveu sozinho cerca de 25% de todos os verbetes da obra.
- d’Alembert, Voltaire e Rousseau — Outros enciclopedistas importantes mencionados. d’Alembert foi co-editor e responsável por verbetes de matemática e ciências. Voltaire e Rousseau são citados como figuras mais radicais do ponto de vista filosófico.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Apresentação do tema: Diderot, enciclopedistas e Wikipédia — O programa é apresentado, definindo o tema da discussão: a conexão entre a Enciclopédia Francesa do século XVIII, liderada por Diderot, e a era da Wikipédia. Os participantes são apresentados: o convidado professor Silvio Dami e os hosts Marco Idiarte e Jefferson Aranzon. A pergunta inicial busca entender a motivação e a conexão proposta por Silvio entre esses dois momentos históricos da compilação do conhecimento.
- 00:00:54 — Origem e espírito da Enciclopédia Francesa — Silvio Dami explica a origem do projeto, que começou com livreiros franceses querendo traduzir a enciclopédia inglesa de Chambers. Diderot, contratado como tradutor, propôs criar uma obra original e superior. A Enciclopédia Francesa, publicada entre 1759 e 1772, tornou-se mais do que uma compilação: um instrumento de propaganda pela liberdade de expressão e pela razão, desafiando a censura eclesiástica e real. O título completo, “Enciclopédia Razonada de Ciências, Artes e Ofícios”, reflete seu espírito.
- 00:05:20 — A filosofia de Diderot: moral, religião e dogmatismo — A discussão se aprofunda na figura de Diderot, destacando-o como mais tolerante que Voltaire e Rousseau. Educado pelos jesuítas, ele lutou contra o dogmatismo, não necessariamente contra a religião. É citado seu diálogo com a Marechala de ***, onde ele argumenta que a moral e a bondade podem existir independentemente de crenças religiosas e da expectativa de recompensa ou punição divina. Essa discussão é conectada a debates contemporâneos que associam falta de religião à falta de moral.
- 00:10:23 — Origens biológicas da moral e paralelos com o presente — Os participantes discutem a origem evolutiva da moral e da cooperação como características vantajosas para a sobrevivência das comunidades. Silvio menciona a influência do filósofo inglês Shaftesbury em Diderot, na ideia de encontrar a moral na natureza. A conversa então conecta as lutas dos enciclopedistas com problemas atuais, como radicalismos (exemplificado pelo Tea Party nos EUA) e a manipulação de informações para corroborar crenças pré-existentes, citando um livro errado sobre as pirâmides egípcias.
- 00:15:21 — A Wikipédia: modelo colaborativo e controle de qualidade — O foco muda para a Wikipédia. Discute-se o contraste entre o modelo da enciclopédia original (verbetes por especialistas indicados) e o modelo colaborativo da Wikipédia. São abordados seus mecanismos de auto-correção, a velocidade de atualização, e a existência de controvérsias em certos temas. É mencionada a hierarquia que se desenvolveu dentro da Wikipédia, com editores e mediadores para áreas polêmicas, mostrando uma evolução do modelo inicialmente completamente aberto.
- 00:19:40 — Democracia do acesso versus aristocracia do conhecimento — Surge um conceito central: a defesa de Diderot por uma “democracia do acesso” ao conhecimento, mas uma “aristocracia do conhecimento” em sua construção. Isso significa que todos devem ter acesso à informação, mas sua produção e validação devem envolver especialistas. O debate compara isso com sistemas como a revisão por pares na ciência e o desenvolvimento do kernel do Linux, onde contribuições são centralizadas e validadas por uma autoridade final (como Linus Torvalds).
- 00:23:26 — Colaboradores e curiosidades da Enciclopédia Francesa — Silvio detalha os colaboradores da enciclopédia, como d’Alembert (matemática) e Diderot (filosofia). Destaque para a figura extraordinária do Chevalier de Jaucourt, um nobre rico que, após perder um manuscrito de 20 anos sobre anatomia num naufrágio, dedicou-se à enciclopédia, escrevendo sozinho cerca de 25% de todos os verbetes (chegando a 44% nos volumes finais). É mencionada também a parte ilustrada dos ofícios, para a qual Diderot visitava oficinas para descrever ferramentas e processos.
- 00:27:49 — Digitalização e um verbete curioso: a “guaxima” — A conversa trata da disponibilidade atual da Enciclopédia Francesa, totalmente digitalizada, e de projetos de tradução colaborativa. Silvio compartilha uma curiosidade: um dos primeiros verbetes é sobre a “guaxima”, uma planta brasileira (o carrapicho). Diderot, ao escrevê-lo, faz uma crítica sutil, dizendo que está ali “para satisfazer aquelas pessoas que preferem encontrar uma besteira do que não encontrar nada”, satirizando a ânsia por completude, mesmo com informações irrelevantes para o público-alvo.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2011-10-11T08:00:05Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/diderot-e-os-enciclopedistas/15b80f50-d63d-012e-72a1-00163e1b201c
- UUID Episódio: 15b80f50-d63d-012e-72a1-00163e1b201c
Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
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Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da Rádio da Universidade, onde discutiremos
[00:00:14] os limites entre o que é ciência e o que é mito.
[00:00:18] O título do programa de hoje é Diderot e os enciclopedistas na era da Wikipédia.
[00:00:24] Então a gente vai discutir um pouco sobre a Wikipédia hoje e sobre, vamos dizer, o
[00:00:29] primeiro esforço de fazer uma enciclopédia que guardasse o conhecimento humano, que foi
[00:00:34] feito pelos enciclopedistas do século XVIII.
[00:00:37] O nosso convidado é o professor Silvio Dami, do Departamento de Física da URGS, e eu,
[00:00:43] Marco Idiarte, e o Jefferson Aranzon, também do Departamento de Física.
[00:00:45] Eu queria começar, então, perguntando para o Silvio o que tu pode dizer.
[00:00:49] Esse título é interessante, é um título de uma palestra que tu está dando.
[00:00:52] Então, qual é essa conexão?
[00:00:54] Como é que tu faz?
[00:00:54] Na verdade, essa conexão veio, talvez acho que é interessante explicar o porquê eu
[00:00:59] me interessei por esse assunto, é que eu sempre achei enciclopédias fascinantes.
[00:01:06] Eu quis entender, basicamente, qual que é o espírito, qual que era a ideia por trás
[00:01:11] da enciclopédia francesa, que foi publicada entre, praticamente, 1759 e 1772.
[00:01:18] E, na verdade, ela começou com alguns livreiros franceses que
[00:01:24] queriam publicar uma enciclopédia.
[00:01:26] Existia uma enciclopédia, a enciclopédia do Chambers, inglesa, escrita por um estudioso
[00:01:31] inglês, e a ideia dos livreiros franceses era publicar essa enciclopédia em tradução
[00:01:36] para o francês na França.
[00:01:38] Porque a maioria dos livros, que seriam livros de conhecimento geral, eles eram divididos
[00:01:42] por áreas.
[00:01:43] Então, havia um livro, por exemplo, só para profissões, havia um livro para medicina,
[00:01:47] um livro para agricultura.
[00:01:50] E o livro do Chambers, essa enciclopédia, que não é a primeira enciclopédia do mundo,
[00:01:53] mas é uma das mais…
[00:01:54] Uma das mais importantes, ela tinha uma metodologia toda nova, porque ela colocava todo o conhecimento,
[00:02:00] todas essas diferentes áreas, por ordem alfabética.
[00:02:03] Que hoje, para a gente, é uma coisa natural, mas naquela época não era.
[00:02:07] Então, havia uma pessoa que trabalhava já, ganhava vida, praticamente, fazendo traduções
[00:02:12] de obras do inglês, que era o Denis Diderot, que é um grande filósofo, considerado um
[00:02:18] grande filósofo, um dos mais importantes enciclopedistas, e ele foi procurado por esses
[00:02:22] livreiros.
[00:02:24] Ele foi procurado, ele propôs…
[00:02:26] Fazer a própria.
[00:02:26] Fazer…
[00:02:27] Mas por que nós não…
[00:02:28] Um bom francês, com um bom francês, por que eu vou fazer o que os ingleses estão fazendo?
[00:02:30] Por que nós vamos fazer o que os ingleses estão fazendo?
[00:02:32] Então, isso justamente, esse comentário teu, foi justamente o comentário que aquele
[00:02:35] nosso, o meu amigo, o professor da Instituto de Informática, que é francês, disse, ele
[00:02:39] falou, mas isso é típico de nós, franceses, por que nós vamos copiar de alguém se nós
[00:02:42] podemos fazer a nossa e melhor?
[00:02:44] Mas o que é mais interessante na enciclopédia francesa é que, na época, todo conhecimento
[00:02:49] ou todos os livros, na verdade, que eram publicados, eles tinham que passar por uma censura.
[00:02:54] Primeiro, uma censura eclesiástica, que nada que pudesse ser, ir contra os dogmas ou
[00:03:01] essas coisas, a igreja poderia ser publicado, como também não poderia ser nada feito que,
[00:03:07] de uma certa maneira, falasse mal do rei.
[00:03:10] Claro, a ordem religiosa e a ordem política tinham que ser mantidas.
[00:03:15] A ordem secular e a ordem religiosa deveriam ser mantidas.
[00:03:17] Nada, nenhuma subversão era possível.
[00:03:19] Justamente.
[00:03:20] E foi a ideia, assim, o Diderot, basicamente…
[00:03:24] Ele já conhecia vários dos, vieram a ser futuros enciclopedistas, o Rousseau, o Voltaire
[00:03:31] e o d’Alembert, que é outro, que ele convidou para se tornar editor junto com ele, resolveram
[00:03:39] usar a enciclopédia como um moto, de uma certa maneira, de propaganda pela liberdade
[00:03:44] de expressão.
[00:03:45] Na verdade, os enciclopedistas, eles tinham, eles pregavam a supremacia da razão sobre
[00:03:52] a superstição, sobre a fé.
[00:03:54] Então, tanto que o título francês da enciclopédia é enciclopédia razonada, é um termo que
[00:04:02] eu acho estranho em português, mas existe, enciclopédia razonada de ciências, artes
[00:04:07] e ofícios.
[00:04:09] E é fantástico, se você lê uma enciclopédia, provavelmente são quase 30 volumes…
[00:04:13] Mas ela é bem mais abrangente do que a inglesa, não é?
[00:04:15] Ela é muito mais abrangente.
[00:04:16] Ela levou, praticamente, como eu disse, uns 22 anos para ser publicada e até momentos
[00:04:22] que ela foi proibida.
[00:04:23] Depois, eles conseguiram, novamente, autorização.
[00:04:25] E essa seria a primeira enciclopédia dos formatos modernos.
[00:04:28] Seria a primeira enciclopédia nos formatos modernos, mas uma enciclopédia que tinha
[00:04:31] uma, uma, uma, que trazia consigo um movimento pela liberdade de expressão, pela liberdade
[00:04:38] de pensamento, que é muito fascinante porque eles, por exemplo, haviam, por exemplo, sistemas
[00:04:45] religiosos tratados na enciclopédia, eram escritos por padres, geralmente, mas eram
[00:04:52] padres que também…
[00:04:53] Partilhavam da mesma…
[00:04:55] Partilhavam da mesma filosofia.
[00:04:56] Então, é interessante como eles, muitas vezes, escreviam os artigos atacando a igreja
[00:05:06] ou atacando os poderes constituídos, mas de uma maneira que dá a impressão que eles
[00:05:11] estão elogiando.
[00:05:12] É fantástico, assim.
[00:05:13] O Voltaire era um cara bom nessas coisas.
[00:05:15] Justamente, justamente.
[00:05:15] Então, e por que isso aí me interessa muito?
[00:05:20] Porque, claro, o Voltaire…
[00:05:23] O Voltaire e o Rousseau são considerados mais radicais do ponto de vista da filosofia.
[00:05:28] Eles têm aquela linha de pensamento e eles, a vida toda, se mantiveram firmes naquela linha.
[00:05:34] Já o Diderot, que eu acho uma figura bastante interessante, na verdade, cuja importância
[00:05:41] só foi, vamos dizer, foi descoberta, redescoberta no século XIX, ele já era uma pessoa um pouco
[00:05:50] mais tolerante, ou seja, ele…
[00:05:52] Ele…
[00:05:52] Ele…
[00:05:53] Ele…
[00:05:53] Ele foi, na verdade, educado pelos jesuítas para ser padre, mas chegou o momento da vida
[00:05:58] que ele viu que ele não queria ser padre e ele acabou indo para Paris estudar, se formou,
[00:06:04] o que seria basicamente hoje em ciências humanas, é um cruz bastante amplo, direito, mas ele
[00:06:09] tinha um irmão padre e uma irmã que era freira.
[00:06:12] Então, em toda…
[00:06:13] Durante toda a vida dele, ele procurou, na verdade, lutar não tanto contra a religião,
[00:06:20] mas contra o dogmatismo, contra…
[00:06:23] A aceitação cega das coisas, né?
[00:06:27] Existe uma frase muito famosa dele, que inclusive ele disse ter se arrependido de ter escrito,
[00:06:32] porque foi dita no momento de brincadeira, a frase que diz que o mundo não vai ter sossego
[00:06:41] enquanto o último rei não morrer enforcado com as tripas do último padre.
[00:06:47] Com as tripas do último padre, é.
[00:06:49] Mas a obra dele…
[00:06:50] Vamos dizer que se ele era moderado, essa frase…
[00:06:52] É, justamente.
[00:06:53] Mas o que é muito interessante, e isso eu acho fantástico na obra do Diderot, ele escrevia
[00:07:02] muitos diálogos, muitas obras, ele escreveu romances, trabalhou na enciclopédia, escrevia
[00:07:07] os verbetes, mas ele tem uma obra em que é uma discussão que ele teve com a esposa
[00:07:13] de um marechal, em que a esposa do marechal tenta mostrar para ele, tenta correlacionar
[00:07:18] valores morais com valores religiosos.
[00:07:21] Ela diz para ele…
[00:07:23] Ela transcreve uma conversa que ele realmente teve, ela fala, mas se você é bom e não…
[00:07:28] Você é uma pessoa boa, faz o bem e não acredita numa recompensa futura, numa recompensa
[00:07:34] de Deus, ou você é louco ou você é um idiota, um tolo, né?
[00:07:39] Sim.
[00:07:40] E daí ele mostra, eu acho fantástico isso, ele tenta mostrar para ela o tempo todo, argumentar
[00:07:45] em cima das coisas, que na verdade moral, bondade não deve ser necessariamente vinculada
[00:07:52] à religião.
[00:07:52] A religião.
[00:07:53] Desculpa.
[00:07:54] A pessoa pode ter conceitos morais, pode ter conceitos de bondade, de caridade, sem esperar
[00:08:00] para isso uma recompensa futura.
[00:08:02] Não é tu que diz, às vezes eu vejo a tua frase aquela, não é tu que diz.
[00:08:06] Eu acho fantástico isso.
[00:08:07] Que tu não confie em alguém que só faz o bem, imaginando que tem alguém observando.
[00:08:11] Assim, eu acho que uma pessoa que é cooperadora, que faz o bem, tem seus princípios morais,
[00:08:17] sem ter medo de uma punição futura, ela é uma pessoa muito melhor, porque ela faz
[00:08:22] o bem, porque ela é…
[00:08:23] Mais confiável, muito mais confiável do que aquela…
[00:08:26] Eu compartilho, eu compartilho totalmente dessa ideia, e o que eu achei fantástico
[00:08:32] é encontrar isso numa pessoa que escreveu isso há 250 anos atrás, que ele disse, quando
[00:08:38] a Marechala, o texto em português é a Marechala, quando a Marechala diz para ele que ou ele
[00:08:43] é um tolo, ou ele é muito malicioso, porque no fundo ele está fazendo as coisas assim,
[00:08:48] esperando um retorno, ele diz, mas a senhora não concordaria que a pessoa que faz as coisas
[00:08:53] assim, ela pode, durante a vida, pelas experiências, pelas dificuldades, chegar à conclusão que
[00:08:59] é melhor fazer o bem, ser bom para o bem comum, para que todos…
[00:09:03] E você vê, é interessante, ele vai colocando cada vez mais contra a parede, contra a parede,
[00:09:08] contra a parede, até que chega um momento, ela interrompe a discussão, dizendo, ah,
[00:09:12] você é um idiota, você é um…
[00:09:14] Não vale a pena discutir contigo.
[00:09:15] E aí termina o livro.
[00:09:16] Então, eu acho muito fantástico isso.
[00:09:18] O que me interessou buscar isso é porque eu acho que nós estamos vivendo o mesmo tipo
[00:09:22] de…
[00:09:23] De situação.
[00:09:27] No meu caso, em particular, não se trata de atacar a religião ou dizer que as pessoas
[00:09:31] que têm uma religião estão erradas, mas eu acho que a gente incorre num grande erro
[00:09:34] ao procurar associar justamente essas características, virtudes, coisas que a gente acha que são
[00:09:41] boas, com conceitos morais.
[00:09:44] Dizer que uma pessoa que não tem religião, ou uma religião organizada, ou que seja até
[00:09:48] agnóstica, que ela não seja uma pessoa boa simplesmente porque ela não tem uma religião.
[00:09:52] Né?
[00:09:52] A gente discutiu no…
[00:09:53] No programa…
[00:09:54] É, imagino que vocês tenham discutido isso no programa.
[00:09:56] Coisa que aconteceu na TV, não foi?
[00:09:58] No negócio da TV.
[00:09:58] Não vou citar o nome do cara porque eu não vou fazer propaganda, mas o cara na TV dizendo
[00:10:03] que tal cara que tinha feito tal coisa horrível só podia ser ateu.
[00:10:07] É, justamente, isso aconteceu há 250 anos, ou seja, que é uma coisa, é uma discussão
[00:10:11] que está sempre voltando e parece que as pessoas não aprendem.
[00:10:14] Sim.
[00:10:15] E, na verdade, esse tipo de discussão começou com os gregos, né, sobre a questão da moral
[00:10:19] e…
[00:10:20] Mas, é claramente uma questão evolutiva.
[00:10:23] Né?
[00:10:23] Porque atos de bondade, de cooperação dentro de uma comunidade, isso ajuda a criar, ajuda
[00:10:30] a aumentar a estabilidade dessa comunidade e aumentar suas chances de sobrevivência.
[00:10:34] Então, é uma característica que ela é selecionada a favor.
[00:10:37] Né?
[00:10:37] Então, a origem da moral, de onde a gente tira regras de convivência, o que é certo
[00:10:43] e o que é errado, é biológico.
[00:10:45] Né?
[00:10:45] Foram características selecionadas porque davam uma vantagem adaptativa, evolutiva para
[00:10:49] a população.
[00:10:49] Sim.
[00:10:50] E foi lendo justamente sobre o Diderot.
[00:10:52] Ele se…
[00:10:52] Na verdade, ele tirou esse…
[00:10:55] Essa ideia, na verdade, não é uma ideia dele, mas, na verdade, havia um filósofo inglês,
[00:10:59] Shaftesbury, do século XVII, que escreveu um livro que, justamente, que tentando…
[00:11:06] Um livro que desvinculou preceitos morais e preceitos religiosos.
[00:11:09] Diz que, na natureza, é na natureza que nós podemos encontrar uma moral, uma…
[00:11:15] E tanto que essa que é a grande discussão que os estudiosos de Diderot fazem, que, na
[00:11:19] verdade, ele mudou as concepções religiosas dele, ou as crenças dele, ao longo da vida,
[00:11:22] teve momentos que ele parecia ser ateísta, teve momentos que ele era deísta, mas, no
[00:11:27] final das contas, ele chegou numa filosofia muito próxima do Spinoza, um panteísmo, assim…
[00:11:31] Isso, o Deus-natureza.
[00:11:33] Deus-natureza, justamente.
[00:11:34] E ele…
[00:11:34] Mas eu acho muito válida essa discussão para os dias de hoje, por isso que eu me interessei
[00:11:41] por esse assunto, principalmente porque eu acho que nós estamos vivendo uma época em
[00:11:44] que esses radicalismos estão se repetindo, né, gente?
[00:11:49] Me incomoda muito…
[00:11:51] O pessoal deixou de ler Diderot.
[00:11:52] É, me incomoda muito ver, hoje em dia, as pessoas…
[00:11:56] O que tem acontecido em nome de uma pretensa religião, que para mim não é religião,
[00:11:59] mas uma pretensa…
[00:12:00] Não só religião, mas político também, né?
[00:12:02] Quando a gente vê esses movimentos agora, o Tea Party nos Estados Unidos, que está
[00:12:06] renascendo com o radicalismo…
[00:12:07] O Tea Party, como é que a gente traduz?
[00:12:09] O Jorge devia estar aqui, como é o…
[00:12:10] A Festa do Chá.
[00:12:12] A Festa do Chá, que ocorreu…
[00:12:13] Foi em 1773, eu até estava lendo esses…
[00:12:16] Sim, o movimento da Festa do Chá era um movimento de liberdade.
[00:12:18] Um movimento de liberdade, justamente.
[00:12:19] Só que hoje em dia é um movimento de anti-liberdade.
[00:12:20] De anti-liberdade.
[00:12:21] Esse é o programa…
[00:12:22] Fronteiras da Ciência, hoje, o programa é sobre Diderot, os enciclopedistas e a Wikipedia.
[00:12:27] A Wikipédia.
[00:12:28] Mas uma outra coisa que me motivou, se eu puder, tiver mais alguns minutos para falar…
[00:12:32] Sim, depois eu quero conversar sobre a Wikipédia.
[00:12:34] Tá, tá, mas uma coisa que já também me motivou a tentar olhar um pouco para esse
[00:12:37] lado é que há pouco tempo um amigo formado, uma pessoa formada na área médica, ele ganha
[00:12:43] um livro que chamava-se 2012, alguma coisa desse tipo.
[00:12:46] Ah, do Fim do Mundo?
[00:12:47] É, do Fim do Mundo.
[00:12:48] E ele é uma pessoa inteligente, mas é uma pessoa que tem uma formação na área médica,
[00:12:52] ele lê algumas coisas e ele falou assim, ó Silvio, você é um físico, tem algumas
[00:12:56] coisas que me parecem um pouco estranhas nesse livro.
[00:12:58] Você poderia dar uma lida e ver se realmente algo, né?
[00:13:02] Então é um livro em que eles misturam maias com egípcios, pirâmides, esse tipo de coisa.
[00:13:06] E teve uma coisa nesse livro que me chamou a atenção, fora todas as outras coisas erradas
[00:13:09] que estão escritas, é que nesse livro afirma que os egípcios construíram as pirâmides
[00:13:14] exatamente no paralelo 30, 30 graus a norte do Equador e 30 graus a oeste de Greenwich.
[00:13:21] De Greenwich.
[00:13:22] Greenwich, desculpa, leste, eu sempre troco leste, leste de Greenwich.
[00:13:25] Eles sabiam de Greenwich.
[00:13:26] É, justamente, eles sabiam de Greenwich há 5, 7 mil anos.
[00:13:30] Mas se você for, daí eu tenho…
[00:13:32] É desobservatório de Greenwich.
[00:13:33] Justamente, mas aí eu tenho um atlas muito bom, eu quis conferir esse realmente, as pirâmides,
[00:13:39] as três pirâmides são ósseas, na verdade elas estão a 31, 32 graus de Greenwich.
[00:13:46] E os autores, são dois autores desse livro, eles sabem disso.
[00:13:49] E eles disseram, ah, mas se você for olhar, você vai ver que…
[00:13:52] Hoje, né, as pirâmides não estão mais no meridiano 30.
[00:13:55] A conclusão é que construíram Greenwich no lugar errado.
[00:13:58] Não, não, a conclusão é que houve o movimento das placas tectônicas.
[00:14:02] Em 7 mil anos.
[00:14:03] Justamente, e aí eu fiz, eu queria explicar para esse meu conhecido,
[00:14:08] eu fiz uma pequena conta de quanto naquela latitude um grau representa,
[00:14:12] era algo como, me lembro, 150 quilômetros.
[00:14:15] Ou seja, cheguei à conclusão que a África, nos últimos 7 mil anos,
[00:14:18] está se deslocando 4 metros por ano, uma coisa assim.
[00:14:21] Então, eu comentei…
[00:14:22] Puxa vida, só nós…
[00:14:24] É, justamente, eu comentei com ele e falei, olha, não se trata de acreditar,
[00:14:28] se trata simplesmente de fatos, que as pessoas estão manuseando informação
[00:14:34] para que ela corrobore uma coisa na qual ele acredita.
[00:14:36] Isso é algo que não pode, a gente tem obrigação de…
[00:14:39] Independente de acreditar ou não em qualquer coisa,
[00:14:41] para mim isso é um fato, enquanto cientista,
[00:14:43] a gente tem que alertar as pessoas para esse tipo de falcatrua,
[00:14:46] para esse tipo de coisa.
[00:14:47] Então, quando você volta agora na história e começa a ver,
[00:14:51] essa luta dos enciclopedistas, quer dizer, foi uma coisa muito mais ampla,
[00:14:54] está relacionada a um movimento político, esse tipo de coisa,
[00:14:57] a Revolução Francesa, você vê que, no fundo, as coisas acabam voltando
[00:15:01] sobre outras, com outras máscaras, mas a gente também sempre tem
[00:15:05] os mesmos problemas, os mesmos, como é que se diz?
[00:15:10] A gente tem que resolver o mesmo problema várias vezes durante a história.
[00:15:13] É, no fundo, é verdade.
[00:15:14] Durante a história, a gente resolve o mesmo problema.
[00:15:15] A história se repete, é incrível isso, eu acho bastante interessante.
[00:15:18] O que é esse fenômeno da Wikipedia?
[00:15:21] Como é que você está relacionando isso?
[00:15:23] É um fenômeno de liberdade também, só que é bem diferente da enciclopédia original.
[00:15:28] Na enciclopédia original, o verbete era indicado para um especialista.
[00:15:32] E agora?
[00:15:33] A Wikipedia, eu acredito que sim, existe agora um certo controle.
[00:15:39] Aqui eu estou vendo 19 milhões de artigos.
[00:15:42] Existem, por exemplo, eu posso dizer que se tratando de físico e matemático,
[00:15:47] eu acho que a Wikipedia é bastante confiável.
[00:15:50] Eu tenho…
[00:15:51] Eu conheço até pessoas que contribuíram com artigos de física para a Wikipedia.
[00:15:53] Eu não saberia dizer quando a gente ia falar de humanas, essas outras,
[00:15:56] porque aí existe muito mais controvérsia, existem escolas de pensamento, esse tipo de coisa.
[00:16:00] Mas eu acho que é uma coisa muito interessante do ponto de vista de acesso ao conhecimento.
[00:16:06] É, mas, tu vê, existe uma revolução aí, que para mim é assustadora, mas tem dado certo,
[00:16:14] que é a liberdade do cara que faz o verbete.
[00:16:19] Né?
[00:16:19] Qualquer um pode entrar e fazer o verbete.
[00:16:20] Qualquer um pode entrar e fazer o verbete.
[00:16:20] Qualquer um pode entrar e fazer o verbete.
[00:16:21] Qualquer um pode entrar e fazer o verbete.
[00:16:21] Tem alguns critérios, né?
[00:16:22] Tem alguns critérios, né?
[00:16:24] Eu não posso ir lá e fazer a minha biografia, por exemplo,
[00:16:28] se eu não tiver uma certa visibilidade, um certo reconhecimento.
[00:16:32] Então, existem critérios para que um artigo se mantenha ou seja removido.
[00:16:37] Sim, mas, por exemplo, tu pode entrar e modificar alguma coisa que está lá.
[00:16:40] E a aposta é que, como ela tem grande visibilidade, o erro vai ser detectado rapidamente e consertado.
[00:16:47] Existem alguns temas polêmicos que…
[00:16:50] Existem alguns temas polêmicos que…
[00:16:50] Existem alguns temas polêmicos que…
[00:16:51] Provavelmente ficam oscilando.
[00:16:52] Que grupos antagônicos fiquem fazendo e desfazendo correções até que sejam colocadas em disputa e sejam resolvidos.
[00:17:00] É que eu estava ali, a Wikipédia são 19 milhões de artigos em torno de, o que ele chama aqui, 90 mil contribuidores ativos.
[00:17:08] Ou seja, 90 mil pessoas, de alguma forma, estão ali.
[00:17:11] O que eu acho importante é a velocidade com que as coisas acontecem.
[00:17:16] Se tu tem uma edição da Britânica, por exemplo, e…
[00:17:19] Sei lá.
[00:17:20] Se a Jane House morreu, tu tem que esperar até a próxima edição para atualizar a biografia.
[00:17:24] Isso eu vi, isso eu vi, isso eu vi.
[00:17:25] Por exemplo, eu…
[00:17:26] Na mesma hora já devia estar atualizado.
[00:17:27] No mesmo dia devia estar atualizado.
[00:17:28] No dia que o Steve Jobs deixou a Apple, eu fui olhar a biografia dele só para ver o negócio das datas, quando é que ele…
[00:17:36] E já estava dizendo ali que ele já estava fora.
[00:17:39] Eu já vi isso na Wikipédia também.
[00:17:40] Que já estava fora.
[00:17:41] Já estava ali no mesmo dia que ele já estava fora.
[00:17:43] Então, eu acho bastante fascinante porque talvez tenha essa coisa do acesso ao conhecimento.
[00:17:49] Uma coisa…
[00:17:50] Até agora, voltando um pouquinho ao Lindau, ele era uma pessoa que ele…
[00:17:55] Não vou, talvez, lembrar exatamente as palavras, mas ele era pela democracia do acesso ao conhecimento, mas pela aristocracia do conhecimento.
[00:18:05] No sentido que ele dizia que todos nós devemos ter acesso.
[00:18:08] O conhecimento deve ser livre e todos devem ter acesso a ele.
[00:18:12] Mas sempre vão haver aquelas pessoas que se destacam no seu conhecimento.
[00:18:16] E essas pessoas, elas têm que ser.
[00:18:18] Obviamente…
[00:18:19] Aquelas que…
[00:18:20] Consideradas têm que ser as pessoas que muitas vezes tomam as decisões.
[00:18:24] E essa é a escolha, a indicação de quem faz o verbete.
[00:18:27] Justamente.
[00:18:28] Porque você, claro, você abre a coisa para que as pessoas contribuam, mas você, principalmente nessas áreas que existem polêmicas, grupos antagônicos, o que não acontece tanto em física e matemática, porque a gente sabe os motivos, mas você tem que ter um mediador, você tem que ter alguém que…
[00:18:46] Mas um mediador imparcial.
[00:18:47] Sim.
[00:18:48] Na física um pouco a gente tem esse mecanismo, né?
[00:18:50] É.
[00:18:51] Todo mundo pode escrever um trabalho e submeter a pesquisa, mas antes de ser publicado ele vai ser revisado por um especialista.
[00:19:00] Por um especialista, claro, claro.
[00:19:01] E também uma coisa parecida acontece no desenvolvimento desse sistema operacional livre que é o Linux.
[00:19:09] Qualquer pessoa pode submeter uma modificação, uma correção, algo a ser incluído no núcleo, no kernel do Linux.
[00:19:17] Mas existe uma pessoa, que é o Linus Torvalds, que foi o criador do Linux, e outras pessoas que centralizam e dão o aval final, se isso vai ser realmente incorporado.
[00:19:28] Então é o papel do especialista.
[00:19:30] Eu gostei muito do que tu disse, que o conhecimento é democrático no sentido do oferecimento dele.
[00:19:36] Sim.
[00:19:37] No entanto, a construção do conhecimento não pode ser democrática, né?
[00:19:40] Porque…
[00:19:41] Tu não pode chegar a um…
[00:19:42] Não em todas as etapas, pelo menos.
[00:19:43] Não, e pegar uma maioria…
[00:19:44] Sim.
[00:19:45] Não.
[00:19:46] Você pode decidir uma maioria se tu revoga ou não as leis de Newton, por exemplo.
[00:19:49] Sim.
[00:19:50] Faz um plebiscito agora para decidir se Netuno existe.
[00:19:56] Nesse sentido, a ideia do Diderot era que justamente existem pessoas.
[00:20:01] Acho que é uma coisa que a gente, trabalhando em ciência, a gente sabe.
[00:20:04] Existem pessoas que têm um dom, têm uma facilidade, que ao caminho aqui da rádio nós conversávamos sobre isso.
[00:20:10] Você encontra físicos que são geniais.
[00:20:12] Pessoas que você fala, por mais que eu me esforce, eu nunca vou conseguir ter o insight que ele teve.
[00:20:15] E essas pessoas…
[00:20:16] Pois é.
[00:20:17] Às vezes tu conta do trabalho que tu está fazendo e o cara te dá três ou quatro ideias muito melhores sobre aquele tema que nunca pensou, né?
[00:20:22] Justamente.
[00:20:23] Justamente.
[00:20:24] E a gente tem que admitir, tem que ter a humildade de saber que as pessoas existem, que elas são diferentes.
[00:20:29] As pessoas fazem a diferença, muitas vezes.
[00:20:31] Não vejo isso como uma coisa que denigre o nosso trabalho, de formiguinhas, de uma certa maneira, mas…
[00:20:37] E o Diderot era muito claro nisso.
[00:20:39] Ele falava, não, o acesso deve ser para todos.
[00:20:41] Mas existe realmente uma elite que…
[00:20:43] E essa elite tem que ser ouvida e ser…
[00:20:47] A Wikipedia, de alguma forma, ela acabou com isso.
[00:20:50] No sentido que a elite é uma coisa mais auto-organizada, né?
[00:20:56] Porque se não existe o controle externo da Wikipedia, se não tem uma pessoa escolhida para fazer o verbete…
[00:21:03] Porque tem uma outra chamada Scholarpedia, vocês conhecem?
[00:21:06] Não, essa não.
[00:21:07] Tem uma coisa chamada Scholarpedia que foi inventada em… deixa eu ver até…
[00:21:11] Deixa eu…
[00:21:12] A Wikipédia é de 2001, né?
[00:21:14] E a Scholarpedia é de 2006.
[00:21:16] Ela começou com o pessoal da Neurociência, eu conheço porque eu via pela Neurociência.
[00:21:19] Ela começou com o pessoal da Neurociência e, pouco a pouco, ela está se expandindo em outras áreas.
[00:21:23] E esses verbetes são por convite.
[00:21:25] Existe uma Conservapédia também.
[00:21:27] Eu não sabia.
[00:21:28] Que é para dar uma visão mais conservadora.
[00:21:30] Eu não sabia, mas a Scholarpedia, é S-C-H, Scholar, como é em inglês.
[00:21:34] Eu penso na Alemanha, Stupidopedia.
[00:21:36] Stupidopedia, que justamente é uma brincadeira.
[00:21:39] Não, mas a Scholarpedia é assim.
[00:21:40] Ela é que nem uma enciclopédia.
[00:21:41] É que nem uma enciclopédia.
[00:21:42] Sim, sim.
[00:21:43] No sentido que as pessoas são convidadas a fazer o verbete, por exemplo, sobre o hipocampo.
[00:21:48] Ou fazer sobre a amígdala.
[00:21:50] Então, começou com Neurociência e agora pode ser Teoria de Cordas.
[00:21:54] Mas na Wikipédia não existe o papel do editor.
[00:21:58] Eu creio que em alguns verbetes existe um editor responsável.
[00:22:02] Tem, isso foi incorporado há pouco tempo.
[00:22:04] Tem uma hierarquia, né?
[00:22:05] Eu me lembro que existe uma hierarquia.
[00:22:06] Para que você possa escrever em certas áreas, você precisa ter, de uma certa maneira, um…
[00:22:10] mostrar que você tem um…
[00:22:12] Ou seja, não é completamente…
[00:22:13] Não é completamente…
[00:22:14] Porque a ideia original era que era completamente livre e o sistema se auto-amenizaria.
[00:22:17] Não, mas eles acabaram introduzindo a questão do mediador, das pessoas que…
[00:22:23] Por exemplo, pegando o exemplo claro de percolação direcionada, que é um termo que é discutido,
[00:22:29] percolação direcionada.
[00:22:30] Eu conheço a pessoa que escreveu o artigo, que é uma especialista na área.
[00:22:33] E as pessoas que contribuem são pessoas também da área.
[00:22:37] Sempre existe uma mudança.
[00:22:38] Existe…
[00:22:39] Calcula-se algo mais aqui, levanta-se dúvidas lá.
[00:22:42] Então, isso está sempre sendo atualizado, mas por pessoas da área.
[00:22:47] Então, eu acho que existe sim um…
[00:22:49] Então, a minha ideia era aquela da construção auto-organizada.
[00:22:55] Mas que exigiria, de alguma forma, a colaboração, vamos dizer, política das pessoas.
[00:23:00] Mas alguns efeitos se vê, por exemplo…
[00:23:02] Às vezes é interessante pegar um tema e olhar as referências que são adicionadas.
[00:23:08] Então, tem as referências tradicionais, clássicas.
[00:23:11] Mas sempre tem uma meia dúzia de trabalhos obscuros que, obviamente, foi o próprio autor
[00:23:15] que foi lá e incluiu.
[00:23:17] Isso vale na comunidade científica como um todo.
[00:23:20] Qualquer artigo que tu pega tem essas…
[00:23:23] Alguém tentando pontuar o seu artigo ali também.
[00:23:26] Mas essa história da enciclopédia original, da enciclopédia francesa, ela é fascinante
[00:23:31] pelas pessoas que ela envolveu.
[00:23:33] Justamente, ela tinha padres, diáconos, que trabalhavam nos artigos sobre religião,
[00:23:36] e havia médicos, havia engenheiros.
[00:23:43] Bom, naquela época foi difícil, né?
[00:23:45] Não havia uma separação muito grande de…
[00:23:48] Mas o d’Alembert cuidou de muitos…
[00:23:50] Boa parte dos artigos de matemática, astronomia, cosmologia foram escritos pelo d’Alembert.
[00:23:54] Muitos artigos de política, filosofia foram escritos pelo Diderot.
[00:23:58] Mas existia uma figura muito interessante na enciclopédia francesa, que era o Louis de Jacu.
[00:24:02] Que era um eugenote que foi estudar teologia na…
[00:24:05] Em Genebra, depois foi para Cambridge estudar físico, que seria física na época,
[00:24:10] ciências, filosofia da natureza.
[00:24:13] E depois ele foi para Leiden estudar medicina.
[00:24:16] E ele é um nobre muito rico e ele passou 20 anos escrevendo uma obra sobre anatomia
[00:24:20] e essa obra se perdeu.
[00:24:21] O navio que levava o original da obra dele para ser publicado em Amsterdã,
[00:24:25] porque, na verdade, também um trabalho de anatomia…
[00:24:27] Devia ter mandado pela internet.
[00:24:29] Justamente, naquela época.
[00:24:30] Mandado pelo e-mail dele.
[00:24:31] Ele perdeu o trabalho de 20 anos, então ele resolveu se juntar à enciclopédia.
[00:24:34] E da enciclopédia toda, 25% dos verbetes foram escritos por ele.
[00:24:40] Puxa vida, tentando compensar o tempo todo.
[00:24:42] Não, não, é um trabalho, assim, hercúleo.
[00:24:44] São mais ou menos 18…
[00:24:45] Diz de novo, são quantos anos? Diz 20 anos.
[00:24:47] 22 anos de concepção.
[00:24:50] 23, na verdade, existem umas datas.
[00:24:52] Ela começou, a autorização para ser publicada foi em 59.
[00:24:55] O último fascículo escrito, 1766.
[00:25:00] E 1772, os últimos volumes com gravuras.
[00:25:03] Porque era uma enciclopédia ilustrada.
[00:25:05] A parte de ofícios, o Diderot ia com desenhista nos vários ateliers.
[00:25:11] Carpinteiros, danistas, todas as profissões.
[00:25:15] O pai dele era coteleiro, acho que tem esse termo em português.
[00:25:19] Ele fazia facas, né?
[00:25:20] O pai dele era famoso pela…
[00:25:21] Os bisturis mais famosos da França eram o pai do Diderot que fazia.
[00:25:24] Ele era um famoso coteleiro.
[00:25:26] E ele ia aos ateliers, aos estudos e aprendia, via como as coisas eram feitas.
[00:25:32] E faziam…
[00:25:33] Faziam uma receita.
[00:25:34] Faziam uma receita.
[00:25:35] Justamente, desenhavam os instrumentos.
[00:25:37] Então, os fascículos finais…
[00:25:39] O corpo da enciclopédia, ele terminou de ser publicado em 1766.
[00:25:43] Daí, os últimos 6 anos foram sendo editados as ilustrações, as gravuras.
[00:25:48] Até 1772.
[00:25:50] Então, foram, na verdade, 22, 23 anos.
[00:25:52] Coisa extraordinária.
[00:25:53] E na parte final, isso é na média que eu citei o cavalheiro, o chevalier de Jacu.
[00:25:59] Na parte final, ele chegou a alguns fascículos finais.
[00:26:01] Ele chegou a contribuir com 44% dos verbetes.
[00:26:05] Mas, na média, 25%.
[00:26:07] Então, é uma figura obscura.
[00:26:09] Poucos o conhecem.
[00:26:10] Existe uma biografia dele só.
[00:26:12] Porque era uma pessoa que…
[00:26:13] Inclusive, um médico que só atendia as pessoas que não podiam…
[00:26:16] Ele era um médico nobre, mas ele atuava como médico, mas só atendendo pessoas pobres que não podiam…
[00:26:21] Que não podiam pagar.
[00:26:22] Podiam pagar.
[00:26:23] Esse programa Fronteiras da Ciência, a gente está discutindo o Diderot, os enciclopedistas, na era da internet.
[00:26:29] Na era da Wikipédia.
[00:26:30] Wikipédia, justamente.
[00:26:31] O guia de estudos, que vai ser, eu acho, extenso sobre esse tema, vai estar, então, no nosso site, o frontedaciencia.urgs.br.
[00:26:39] Está disponível a enciclopédia na rede?
[00:26:42] A enciclopédia, ela está…
[00:26:43] E ainda existe uma enciclopédia francesa?
[00:26:46] Ela existe, sim.
[00:26:47] E existe, na verdade, original…
[00:26:49] Existe um site francês, que depois eu me lembro, é dalambert.fr.
[00:26:55] Mas eu vou conferir, confirmar, porque…
[00:26:57] Ela está toda digitalizada na internet.
[00:27:00] Existe um trabalho da Universidade de Chicago, que é traduzir a enciclopédia para o inglês.
[00:27:06] De volta.
[00:27:07] É.
[00:27:08] Não, não é de volta, não.
[00:27:09] De volta e melhorada, de uma certa maneira.
[00:27:11] Não, mas traduzindo, quer dizer, aquela antiga.
[00:27:14] A enciclopédia antiga, ela está toda digitalizada.
[00:27:16] Inclusive, eu fiquei sabendo, foi um dos primeiros projetos, quando começou essa coisa de digitalização,
[00:27:21] um dos primeiros projetos, na França, foi a digitalização da enciclopédia.
[00:27:24] Ela está toda disponível na internet.
[00:27:26] Em francês, obviamente, é original.
[00:27:27] Eu queria ver a parte de ofícios.
[00:27:28] Acho que essa…
[00:27:29] Essa deve ser a parte muito interessante.
[00:27:30] É muito, muito.
[00:27:31] Você pode comprar…
[00:27:32] Existe…
[00:27:33] A Dofer tem os livros só com as gravuras dos ofícios.
[00:27:35] É bastante…
[00:27:36] Deve ser muito legal.
[00:27:37] Deve ser muito legal.
[00:27:38] E existe agora, na Universidade de Chicago, um trabalho conjunto, um trabalho coletivo,
[00:27:42] de pessoas voluntárias que estão traduzindo verbetes.
[00:27:44] O que eu acho muito fantástico é um verbete que tem sobre uma planta brasileira.
[00:27:49] Um dos primeiros verbetes da enciclopédia é da guaxima.
[00:27:51] Eu fui descobrir depois que essa guaxima é o que nós chamamos de carrapicho.
[00:27:54] Aquela que gruda no…
[00:27:56] É, justamente.
[00:27:57] É fantástico.
[00:27:58] Tem um verbete, lá chama-se a guaxima.
[00:28:00] Está escrito assim, a guaxima, planta do Brasil.
[00:28:03] Por que nós estamos falando dessa planta nessa enciclopédia?
[00:28:07] Para os brasileiros, com certeza, não é.
[00:28:09] Porque dizer para um brasileiro o que é o carrapicho é o mesmo que dizer para o francês
[00:28:12] o que é uma pereira.
[00:28:14] Para nós também não deve ser.
[00:28:16] Porque nós, enquanto franceses, nós nunca vamos ver essa planta na nossa vida.
[00:28:21] Então, isso foi o Diderot que escreveu.
[00:28:23] Porque eles eram assinados os verbetes, né?
[00:28:25] Bom, se eu escrevo isso nessa enciclopédia…
[00:28:27] É para satisfazer aquelas pessoas que preferem encontrar uma besteira
[00:28:31] do que não encontrar nada quando elas abrem o livro.
[00:28:34] Quer dizer, é uma crítica que ele faz às pessoas que…
[00:28:36] Então, é fantástico. Isso é um artigo da enciclopédia.
[00:28:39] E deve ser a única referência ao Brasil na enciclopédia.
[00:28:41] Na verdade, não, não. Existem mais referências.
[00:28:43] Mas é uma das referências que…
[00:28:44] Existe até, se você procurar a guaxima com X na Wikipedia, existe até um…
[00:28:49] Na Wikipedia existe uma referência especial.
[00:28:53] Se bem que está apenas em alemão, eu não encontrei outra língua.
[00:28:55] Sobre esse verbete.
[00:28:56] Sobre esse verbete da enciclopédia.
[00:28:58] Porque ele é muito engraçado, de certa maneira.
[00:29:00] Tem pessoas que preferem encontrar uma besteira do que não encontrar nada.
[00:29:04] Tá bom. Então, esse foi o programa Fronteiras da Ciência.
[00:29:06] Hoje a gente discutiu Diderot, os enciclopedistas, na era da Wikipedia.
[00:29:11] Então, o convidado é o professor Silvio Dahmen, do Departamento de Física da URGS.
[00:29:15] Eu, o professor Marco de Arte.
[00:29:17] E o professor Jefferson Arenzon, também do Departamento de Ficção.
[00:29:26] Diderot da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGS.
[00:29:30] Técnica de Gilson de Césaro.
[00:29:32] E direção técnica de Francisco Guazelli.