Bóson de Higgs 2
Resumo
Este episódio é a segunda parte de uma discussão sobre a busca pelo bóson de Higgs. Os físicos participantes exploram a complexidade aparente da física de partículas, defendendo que o aumento no número de partículas elementares (como os seis quarks) não representa uma regressão no entendimento, mas sim uma expansão da capacidade explicativa do Modelo Padrão, que descreve desde reações solares até forças intramoleculares.
A conversa avança para as limitações do Modelo Padrão, que, apesar de seu sucesso, não explica questões fundamentais como o número e a intensidade das quatro forças da natureza (o problema da hierarquia) ou a incompatibilidade com uma teoria quântica da gravitação. A dificuldade experimental em detectar o Higgs é explicada pela baixa probabilidade de sua produção, exigindo estratégias como aumentar a energia ou a luminosidade dos feixes no LHC.
Os debatedores destacam que a ‘caçada’ não é por uma partícula perfeitamente conhecida. Diferentes teorias além do Modelo Padrão, como a supersimetria (que prevê pelo menos cinco Higgs) e o Technicolor (onde o Higgs é uma partícula composta), preveem propriedades completamente diferentes para o mecanismo de quebra de simetria. O momento é descrito como fascinante, com várias teorias competindo para serem validadas ou refutadas pelos dados experimentais.
O episódio também aborda a nomenclatura peculiar da física de partículas (como ‘charm’, ‘strange’, ‘bottom’), a infeliz alcunha ‘partícula de Deus’ originada de uma decisão editorial, e como distinguir a seriedade científica desses jargões do vocabulário de pseudociências. A discussão final enfatiza que a ciência está preparada para aceitar qualquer resultado – inclusive a não descoberta do Higgs – como um avanço crucial, contrastando com a rigidez dogmática típica das pseudociências.
Indicações
Experimentos
- LEP (Large Electron-Positron Collider) — Acelerador predecessor do LHC, que operou no mesmo túnel. No final de sua operação, nos anos 90, apresentou indícios que poderiam ser do Higgs, levando a uma difícil decisão sobre seu desligamento para a construção do LHC.
- LHC (Large Hadron Collider) — O Grande Colisor de Hádrons no CERN, que sucedeu o LEP. É um colisor próton-próton projetado para alcançar energias e luminosidades muito maiores, sendo a principal ferramenta na caçada ao Higgs.
Livros
- The God Particle — Livro de Leon Lederman que popularizou o infeliz apelido ‘partícula de Deus’ para o bóson de Higgs. Originalmente, Lederman queria chamá-lo de ‘The Goddamn Particle’ (a partícula maldita), mas o editor mudou o título para aumentar as vendas.
Pessoas
- Peter Higgs — Físico teórico que propôs o mecanismo que leva seu nome. Publicou sozinho e é o mais associado à ideia, embora outros tenham trabalhado paralelamente. Estava vivo na época da gravação, aguardando a confirmação experimental.
- François Englert e Robert Brout — Físicos que, independentemente de Peter Higgs, desenvolveram o mesmo mecanismo para a origem da massa. São frequentemente citados junto com Higgs como os pais teóricos do bóson.
- Leon Lederman — Físico experimental ganhador do Prêmio Nobel, autor do livro ‘The God Particle’, que popularizou o apelido infeliz para o bóson de Higgs.
- Philip Anderson — Físico da matéria condensada. O mecanismo de quebra espontânea de simetria, análogo ao do Higgs, já havia sido detectado em seus sistemas nos anos 70, corroborando o arcabouço teórico.
Prêmios
- Prêmio J.J. Sakurai de Física de Partículas Teórica — Prêmio da Sociedade de Física Americana concedido em 2010 aos seis físicos que desenvolveram o mecanismo de Higgs, incluindo Peter Higgs, François Englert e Robert Brout.
Teorias
- Supersimetria — Extensão do Modelo Padrão que prevê a existência de pelo menos cinco bósons de Higgs diferentes, com massas distintas, como parte de seu arcabouço teórico.
- Technicolor — Teoria além do Modelo Padrão que postula uma quinta interação da natureza. Nela, o Higgs não é uma partícula elementar, mas sim composta por outras partículas ligadas por essa nova força.
Linha do Tempo
- 00:00:30 — Complexidade vs. entendimento na física de partículas — A discussão inicia questionando se o aumento no número de partículas elementares representa uma regressão no entendimento científico. Os físicos argumentam que não, pois o Modelo Padrão, com seus blocos fundamentais, oferece um entendimento muito mais amplo e poderoso da natureza do que se tinha no início do século XX, explicando fenômenos desde o Sol até uma gota d’água.
- 00:03:07 — Limitações e questões em aberto do Modelo Padrão — É destacado que o Modelo Padrão, apesar de bem-sucedido, é incompleto. Ele não responde a questões fundamentais como por que existem quatro forças com intensidades tão diferentes (o problema da hierarquia), por que as partículas têm massas distintas e como incorporar a gravitação de forma quântica. Essas lacunas motivam a busca por física além do Modelo Padrão.
- 00:06:04 — Desafios experimentais para detectar o Higgs — Explica-se por que é difícil encontrar o Higgs: a probabilidade de produzi-lo em colisões é muito baixa, ligada à massa dos bósons da interação fraca. Duas estratégias são usadas: aumentar a energia do feixe do acelerador ou aumentar sua luminosidade (intensidade), para gerar mais eventos e melhorar a estatística. O LHC sistematicamente trabalha para melhorar ambos os parâmetros.
- 00:09:11 — O Higgs não é uma partícula perfeitamente conhecida — É feito um alerta importante: a impressão de que se sabe exatamente como o Higgs é e só falta descobri-lo é falsa. Teorias além do Modelo Padrão, como a supersimetria (que prevê múltiplos Higgs) e o Technicolor (onde o Higgs é composto), preveem partículas com propriedades radicalmente diferentes. O experimento no LHC está, na verdade, testando qual dessas possibilidades (ou outras) se concretiza.
- 00:15:25 — Evidências atuais e expectativas para a confirmação — Comentam-se as evidências recentes (na época da gravação) de um sinal correspondente a um Higgs leve, do tipo do Modelo Padrão, com massa em torno de 125 GeV. Espera-se que, com o upgrade do LHC para 8 TeV e a combinação de dados dos experimentos, se atinja o patamar de 5 sigma necessário para a confirmação oficial da descoberta. Menciona-se que Peter Higgs, ainda vivo, aguarda a confirmação.
- 00:21:03 — Jargão científico, pseudociência e a seriedade da física — Levanta-se a questão de como um leigo pode distinguir a física de partículas (com seus termos como ‘charm’, ‘strange’) de pseudociências como a astrologia. A diferença crucial está no debate interno, na competição de teorias testáveis e na disposição de abandoná-las frente a evidências contrárias. A física, ao contrário de pseudociências, permeia e explica a tecnologia do cotidiano.
- 00:23:00 — A infeliz alcunha ‘partícula de Deus’ — Discute-se a origem do apelido ‘partícula de Deus’. O físico Leon Lederman queria intitular seu livro ‘The Goddamn Particle’ (a partícula maldita), mas o editor sugeriu encurtar para ‘God’ para vender mais. O termo é amplamente rejeitado pela comunidade científica, pois não tem relação com religião e ofende tanto ateus quanto religiosos, gerando mal-entendidos sobre o papel da partícula.
- 00:28:25 — A importância de um resultado negativo — Conclui-se que, mesmo se o Higgs não for encontrado no LHC, será uma descoberta científica monumental. Isso forçaria uma revisão radical das teorias fundamentais. Esse espírito de aceitar o veredito dos dados, mesmo que invalide décadas de trabalho, é apresentado como a marca distintiva da ciência séria, em contraste com o dogmatismo das pseudociências.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2012-06-25T08:00:05Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/b%C3%B3son-de-higgs-2/47fa3f60-a0ec-012f-3ffc-525400c11844
- UUID Episódio: 47fa3f60-a0ec-012f-3ffc-525400c11844
Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
- UUID: fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c
Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da Rádio da Universidade, onde discutiremos os limites entre o que é ciência e o que é mito.
[00:00:12] Essa é a segunda parte do programa sobre a caçada dos bósons de Higgs aqui no Fronteiras da Ciência.
[00:00:18] Participam do programa os professores Dmitry Radmyshev, Magno Machado, Emerson Luna e eu, Marco Giard.
[00:00:24] Todos nós do Departamento de Física da URGS e os convidados aqui são todos físicos de partículas.
[00:00:30] No final do programa anterior sobre a caçada do bóson, a gente está discutindo que as teorias de partículas aparecem cada vez mais complexas,
[00:00:40] o que vai um pouco contra o que a gente acha que é a intuição do entendimento científico.
[00:00:44] No entendimento científico a gente espera uma síntese, ou seja, cada vez menos entidades gerando a variabilidade.
[00:00:50] E para uma pessoa que olha de fora parece que está acontecendo o contrário na física de partículas.
[00:00:54] Então era essa a minha provocação.
[00:00:56] Na verdade eu acho que o sentido reducionista que se usa em física de partículas é tentar sempre descrever a matéria
[00:01:02] por menor quantidade de partículas ditas elementares, essa busca sempre continua e sempre está presente.
[00:01:10] Eu não me preocupo, como já foi dito, na verdade você pode reduzir para seis o número de partículas que nós podemos entender como alimentares
[00:01:19] e que formariam a matéria.
[00:01:22] E quais seriam?
[00:01:23] Seriam os quarks.
[00:01:24] São seis quarks.
[00:01:25] Seis quarks.
[00:01:26] O nomezinho deles.
[00:01:28] Bom, em inglês é up, down, que são os dois mais leves, que com esses dois mais leves você monta toda a tabela periódica.
[00:01:36] Prótons e nêutrons são constituídos.
[00:01:38] Up, down é constituindo prótons e nêutrons.
[00:01:39] Prótons e nêutrons, então basicamente precisa desse.
[00:01:43] Depois vem um que é um pouco mais pesado, o strange, que é o S.
[00:01:47] Depois vem o charm, depois o bottom e o top.
[00:01:50] Up, down é um par, depois strange.
[00:01:54] Estranho.
[00:01:54] Depois o bottom, que na realidade tem um outro nome que é beauty, que é beleza.
[00:02:00] E o outro é truth, que é verdade.
[00:02:03] Verdade ou bottom.
[00:02:04] Parece uma religião.
[00:02:06] É uma religião.
[00:02:07] Mas, em princípio, eu não teria problema se em vez de seis fossem vinte, porque eu acho que tem que deixar claro que o entendimento que nós temos hoje da natureza,
[00:02:16] com esses blocos elementares, é muito maior que se tinha no início do século XX.
[00:02:21] Quando se conheciam os prótons, os elétrons.
[00:02:24] E os nêutrons.
[00:02:25] Agora a gente consegue explicar coisas que estão acontecendo.
[00:02:27] Hoje, o modelo padrão dá conta de explicar desde as reações que alimentam o Sol até as forças que formam a gota de água.
[00:02:35] Então, assim, o entendimento é muito mais amplo que se tinha naquela época.
[00:02:38] Então, eu acho que não há, nesse sentido, não há regressão.
[00:02:41] Eu afirmava uma coisa mais, assim, de aparência, né?
[00:02:44] Por exemplo, o leigo que vê as coisas ficando mais complexas, dá a entender que tem menos entendimento.
[00:02:50] Mas se você aumentar de três para seis e ter tudo, e carregar junto todo o que tem, né?
[00:02:54] Contra todo esse entendimento que nós temos hoje, eu acho que isso é super fácil.
[00:02:56] Tu não precisa me convencer.
[00:02:58] Mas o mais interessante é que, apesar do modelo padrão dar conta de todos esses eventos da natureza,
[00:03:07] o mais interessante é que ele não deixa de ser incompleto.
[00:03:09] E isso é mais do que uma outra motivação para que a gente continue fazendo essa busca, principalmente pelo rito.
[00:03:14] E para que vocês tenham emprego, né?
[00:03:16] Exatamente.
[00:03:17] Por exemplo, tem questões que o modelo não responde.
[00:03:19] Por exemplo?
[00:03:20] Por exemplo, por que são quatro forças da natureza e não seis, ou uma, ou dez?
[00:03:24] É isso.
[00:03:24] Por que as partículas têm massas tão diferentes?
[00:03:28] Então são questões…
[00:03:28] Por que as forças, essas quatro, têm intensidades tão diferentes?
[00:03:32] Tão diferentes, exatamente.
[00:03:33] Então essas questões ainda são questões que estão em aberto, né?
[00:03:36] Sim.
[00:03:37] Teria que ter uma teoria que…
[00:03:39] Que pudesse explicar esse… isso é chamado de problema da hierarquia, né?
[00:03:43] Por que tem forças mais intensas que outras, né?
[00:03:46] E a ordem das intensidades, quais são?
[00:03:48] É, por exemplo, a razão entre a força gravitacional e a relato magnética.
[00:03:53] Se eu me lembro assim de cabeça…
[00:03:54] Essa é da hora de dez na quarenta.
[00:03:56] Pra quem?
[00:03:57] A eletromagnética é o mais forte.
[00:03:59] Muito mais forte que a gravitacional.
[00:04:01] E a… e a… depois?
[00:04:04] A ordem acho que é gravitacional, o eletromagnetismo fraco é forte.
[00:04:08] Essa é a ordem.
[00:04:09] A ordem tem a ver com as constâncias de acoplamento das teorias, né?
[00:04:13] A gente tem claramente dada a escala de…
[00:04:15] Cara, isso tem tudo a ver… a intensidade tem a ver com a escala de distância entre as partículas que estão interagindo, né?
[00:04:22] Então, pra mesma escala da distância, a gente tá falando…
[00:04:24] Pra mesma escala da distância, a gente tá falando…
[00:04:24] No caso, pra elas serem comparáveis, a gente tá comparando todas as forças em escala subatômica.
[00:04:29] Então, em escala subatômica, a ordem é, nessa escala, grafitação, eletromagnetismo, força eletrofraca e depois força forte.
[00:04:40] E tudo tem a ver com as constâncias de acoplamento.
[00:04:43] Ah, tá. Então, pode dizer dentro do núcleo a força gravitacional é relevante.
[00:04:46] Ah, é relevante.
[00:04:46] Claro.
[00:04:47] A eletromagnética é importante.
[00:04:49] Exato.
[00:04:49] A fraca é mais importante.
[00:04:53] Sim.
[00:04:53] E a forte muito.
[00:04:54] Agora, se você vai pra escala astronômica, aí é tudo ao contrário.
[00:04:57] Quem domina lá é a grafitação e as outras são irrelevantes.
[00:05:00] Mas, em escala atômica, essa ordenação tem a ver com escala atômica, onde elas são comparáveis, né?
[00:05:05] Então, isso é uma coisa que não tá explicada. E a compatibilidade com a grafitação também, não é?
[00:05:10] Pois é. Falta uma teoria quântica de campos razoável pra grafitação.
[00:05:16] E aí, o pessoal aqui sabe mais por que que não funciona direito, né?
[00:05:19] Parece que são os problemas…
[00:05:20] Porque parece que o eletromagnetismo, a força fraca e a força forte,
[00:05:23] são bem descritas nesse arcabouço teórico que a gente conseguiu inventar, que é as teorias quânticas de campo, né?
[00:05:30] Só que a grafitação não tá se encaixando muito bem, por alguns problemas.
[00:05:35] Eu acho que o Grigmitter tem mais…
[00:05:36] Por exemplo, o Higgs não é atuante nessa história.
[00:05:39] A existência do Higgs ou não, isso aí não ajuda nem atrapalha o entendimento da grafitação.
[00:05:45] Não. Na realidade, o Higgs, de novo, é uma questão ligada à origem da massa.
[00:05:51] E é aquela outra…
[00:05:52] Aquela coisa que nós discutimos no outro programa, da invariança de calibre que a teoria física tem que ter.
[00:05:58] Sim, mas quer dizer, isso não ajuda com…
[00:05:59] Não ajuda, não.
[00:06:00] Não tem nada a ver com a história.
[00:06:01] Não.
[00:06:02] Ah, por que que é difícil encontrar o Higgs, né?
[00:06:04] Por que que é uma caçada?
[00:06:05] A gente já foi e voltou…
[00:06:06] A gente foi e voltou várias vezes.
[00:06:07] Várias vezes.
[00:06:08] Mas, na realidade, tem uma questão, assim…
[00:06:11] Tudo tem a ver com a probabilidade que isso acontece, que um evento vai acontecer, né?
[00:06:15] Então, no Higgs, ele interage com a matéria.
[00:06:18] Aí, na frente dessa interação da probabilidade, isso vai com…
[00:06:22] Tem um fator lá, que é muito pequeno.
[00:06:24] Basicamente, tá ligado com a massa desses bósons pesados da interação fraca.
[00:06:29] Com o inverso dessa massa, né?
[00:06:31] Então, isso quer dizer que esses processos são muito pouco prováveis de acontecer.
[00:06:36] Então, na realidade, pra você conseguir criar um Higgs, você tem que…
[00:06:39] Tem duas estratégias, só.
[00:06:41] Ou você aumenta muito a energia do feixe de aceleração,
[00:06:44] ou você aumenta uma outra coisa que é chamada luminosidade do feixe.
[00:06:47] Ou seja, a intensidade do feixe.
[00:06:49] Então, tu faz uma estatística muito grande…
[00:06:51] Pra ter uma estatística grande…
[00:06:51] Esse é o feixe de próton.
[00:06:52] Quer dizer, seria a corrente de próton.
[00:06:54] Então, muito mais prótons.
[00:06:56] Ou eles…
[00:06:57] É que se aumentar a luminosidade, você aumenta o número de eventos pra mesma energia.
[00:07:01] Então, isso quer dizer…
[00:07:02] E por que não se faz isso? Não é mais barato?
[00:07:03] É o que é feito.
[00:07:04] É o que é feito.
[00:07:05] Eles melhoram a questão do feixe pra sistematicamente aumentar a luminosidade.
[00:07:11] Todos os aceleradores têm, durante décadas, aumento sistemático da luminosidade.
[00:07:16] Ou seja, pra mesma energia, ou próxima da mesma energia, a cada ram…
[00:07:19] Eu pensei que eles ficavam cada vez com mais energia também.
[00:07:21] Cada ram, a luminosidade tem que aumentar.
[00:07:25] Porque você precisa, em geral, a estatística e…
[00:07:27] O pessoal tá sempre focado, tem grupos de trabalho, trabalhando na questão da luminosidade.
[00:07:31] Você tem que ter um aumento sempre da luminosidade.
[00:07:34] Tem uma questão…
[00:07:36] O predecessor do LHC foi o LEP, né?
[00:07:39] Que era um…
[00:07:40] O LEP é o quê?
[00:07:40] É Large Electron Positron Collider.
[00:07:42] Porque antes, naquele mesmo túnel onde tá o LHC montado,
[00:07:47] tinha esse feixe de elétrons e pósitrons, que eram colididos, né?
[00:07:51] No LEP, né?
[00:07:51] E tiram muitas informações importantes, muitas descobertas foram feitas, né?
[00:07:56] Só que no final, quase na época do shutdown, né?
[00:07:59] Do desligamento do acelerador,
[00:08:02] eles começaram a observar alguns sinais que podiam ser do Higgs.
[00:08:05] Então, justamente, eles…
[00:08:07] Isso foi quando?
[00:08:07] Final dos anos 90.
[00:08:08] Final dos anos 90.
[00:08:09] Fechou em 2000.
[00:08:10] Por que eles fecham, por sinal?
[00:08:11] Pra fazer upgrades.
[00:08:12] Ah, pra transformar, fazer um novo experimento.
[00:08:14] Ou não tem mais nada de física nova que pode sair dali, né?
[00:08:17] Ou já tem outros aceleradores em outros lugares do mundo que estão fazendo uma física melhor.
[00:08:21] Mas no caso do LEP, foi interessante, porque o diretor, na época, tinha uma decisão difícil.
[00:08:27] Ou ele desliga o acelerador pra fazer esse…
[00:08:30] Ficava, digamos, uma década fechada pra fazer o upgrade pro LHC.
[00:08:34] Ou ele continua, pra aumentar a estatística das colisões que eles estavam estudando lá,
[00:08:42] indo atrás desse possível sinal que eles tinham indícios naquela época.
[00:08:47] Então, depois de uma longa…
[00:08:49] Eu acho noite de sono.
[00:08:50] Não.
[00:08:51] Eles acabaram decidindo fechar e ficar uma década fechada fazendo o upgrade.
[00:08:57] Então, aí o upgrade consistiu em aumentar a luminosidade, né?
[00:09:00] Como foi comentado, e a energia também, né?
[00:09:02] Mas não é mais elétron-próton-próton.
[00:09:04] Não, agora é próton-próton.
[00:09:06] Você queria dizer alguma coisa?
[00:09:07] Não, não.
[00:09:07] Eu queria só chamar a atenção de um ponto simples, mas que…
[00:09:11] Pra que a gente se interrompa, né?
[00:09:12] Isso.
[00:09:13] Desde o primeiro programa, agora nesse segundo, a impressão que pode dar pra quem tá ouvindo
[00:09:17] é que o Higgs é um sujeito que nós já sabemos exatamente como é que ele é,
[00:09:21] e que tá faltando só descobri-lo.
[00:09:24] Isso não é verdade, tá?
[00:09:26] É, eu acho…
[00:09:27] Não vale a pena falar isso daí.
[00:09:28] Porque, voltando àquele ponto lá, quer dizer, o modelo padrão, ele levanta uma série de questões
[00:09:33] que ele mesmo não responde.
[00:09:35] Então, o que acontece?
[00:09:37] Existem pessoas trabalhando no que chama de física além do modelo padrão.
[00:09:41] Então, a ideia final é de que você possa, com isso, criar uma teoria, digamos, mais completa e elegante
[00:09:48] que englobe o modelo padrão,
[00:09:49] e que essas questões que surgem, que o modelo padrão por si só não responde, possam ser respondidas.
[00:09:55] O interessante é que essas teorias, além do modelo padrão,
[00:10:00] cada teoria prevê um Higgs completamente diferente do outro.
[00:10:04] Tá ok?
[00:10:05] Por exemplo, as duas extensões mais, digamos, famosas, ou que tem mais gente trabalhando,
[00:10:11] uma é a supersimetria.
[00:10:12] A supersimetria, no modelo mais simples de supersimétrico, prevê que tem que existir pelo menos 5 Higgs.
[00:10:19] Diferente.
[00:10:19] Diferentes, massas diferentes.
[00:10:20] Exatamente.
[00:10:23] Outra teoria que muita gente trabalha, além do modelo padrão,
[00:10:25] para tentar entender a quebra da simetria eletrofraca,
[00:10:29] é o pessoal que mexe com o Technicolor.
[00:10:31] Em Technicolor, o Higgs não é um particular…
[00:10:33] Technicolor é um nome de uma…
[00:10:34] É um nome do…
[00:10:36] Digamos…
[00:10:36] Technicolor é o nome das televisões.
[00:10:38] Exatamente.
[00:10:39] Essa piada eu sempre escuto.
[00:10:42] Mas, para o Technicolor, o Higgs…
[00:10:44] Isso é um nome.
[00:10:45] É um nome.
[00:10:46] Para quem mexe…
[00:10:47] Qual que é a ideia da Technicolor?
[00:10:48] A Technicolor seria uma nova interação da natureza,
[00:10:51] seria uma quinta interação,
[00:10:52] em que o Higgs agora é composto.
[00:10:54] Ele é formado por dois caras,
[00:10:56] são ligados por essa nova interação, o Technicolor.
[00:10:59] E é esse, digamos, esse condensado,
[00:11:01] que faz, que é o responsável pela quebra da simetria eletrofraca.
[00:11:05] Então, tem mais essa dificuldade, quer dizer…
[00:11:06] A gente sabe que tem que existir alguma coisa.
[00:11:09] O que eles estão procurando?
[00:11:10] Qual deles?
[00:11:11] Eles estão procurando todos, na verdade.
[00:11:12] Eles conseguem fazer isso?
[00:11:14] Sim.
[00:11:14] Eles não são tão incompatíveis?
[00:11:15] Não, não.
[00:11:16] Na verdade, você…
[00:11:17] Dependendo dos experimentos, você tem vários triggers,
[00:11:20] que eles chamam, gatilhos, que vão…
[00:11:23] Quer dizer, a super simetria prevê que vai acontecer uma certa reação.
[00:11:27] Se essa reação acontece,
[00:11:29] o Higgs está associado com o Higgs super simétrico.
[00:11:32] A Technicolor prevê que outras coisas ocorram.
[00:11:35] E outras teorias da linguagem da pessoa prevêem outras coisas.
[00:11:37] Quem é que está ganhando?
[00:11:39] É o Lidl Higgs, né?
[00:11:40] É o modelo padrão.
[00:11:41] É o Higgs do modelo padrão.
[00:11:43] É o Higgs do modelo padrão.
[00:11:44] É o modelo do Weber falando.
[00:11:45] Leve, leve.
[00:11:46] Ah, tá.
[00:11:46] É o…
[00:11:46] Que, por ironia, digamos,
[00:11:51] se realmente o Higgs for descoberto,
[00:11:53] for o Higgs do Peter Higgs,
[00:11:55] e do Broth e do Engler,
[00:11:57] que são outros caras que fizeram na mesma época trabalhos e tal,
[00:12:00] a ironia é que esse Higgs seria o Higgs mais simples possível,
[00:12:05] seria uma partícula escalar,
[00:12:06] que não é composta por nada,
[00:12:09] e que não tem spin, que seria leve, né?
[00:12:14] Mas…
[00:12:14] O simples fato de existirem…
[00:12:15] Se por acaso existir um tipo de escalar dessa natureza,
[00:12:19] você tem uma série de complicações técnicas relativas à teoria de campos,
[00:12:24] e mais do que isso,
[00:12:25] acredita-se que, de alguma forma, a gente possa ter unificação no futuro.
[00:12:31] Então, você, de alguma forma, enxergar as quatro interações,
[00:12:34] ou uma quinta que apareça, se for tecnicola e tal,
[00:12:38] essas, em uma certa escala de energia, teriam todas a mesma intensidade.
[00:12:42] Qualquer que seja o esquema de teorias de unificação,
[00:12:44] se você tiver…
[00:12:45] Um Higgs simples, como esse…
[00:12:47] É mais complicado.
[00:12:48] Você não consegue.
[00:12:49] Ah, não consegue?
[00:12:50] Você não tem um esquema de unificação satisfatório com Higgs desse tipo.
[00:12:54] Ahá.
[00:12:55] Então, a coisa é muito mais interessante do que parece.
[00:12:58] A gente está procurando um cara que é…
[00:13:02] Pode ser o Higgs, ou algo que faça um papel dele,
[00:13:05] algo parecido com ele.
[00:13:06] Mas a gente não sabe exatamente como ele é.
[00:13:08] Está procurando um cara, está achando um cara que não é o que tu queria achar.
[00:13:11] A princípio, sim, exatamente.
[00:13:12] O princípio é isso mesmo.
[00:13:13] Esse é o programa Fronteiras da Ciência.
[00:13:15] A gente está discutindo aqui a caçada pelo bóson de Higgs.
[00:13:18] O nosso site é o frontedaciencia.urgs.br.
[00:13:22] E essa coisa fica cada vez mais transcendental, né?
[00:13:27] Não, até o pessoal da supersimetria estão acompanhando direto a confirmação,
[00:13:32] porque isso tem implicações na fenomenologia da teoria supersimétrica.
[00:13:38] Quase todos os processos dominantes lá em supersimetria,
[00:13:42] que eles querem olhar, dependem da massa desse Higgs.
[00:13:45] E aí partículas preferenciais para serem olhadas no LHC
[00:13:51] agora já estão sendo preteridas.
[00:13:54] Agora tem outras partículas que são mais fáceis de medir.
[00:13:57] Tem a parte da política, né?
[00:13:59] Tem muita gente que faz teorias conspiratórias sobre os cientistas manipulando os dados.
[00:14:04] Então, aqui a gente tem um exemplo de várias teorias competindo,
[00:14:07] todas olhando para um grande experimento.
[00:14:09] E o experimento, em princípio, tem que decidir qual delas está…
[00:14:13] Pois é.
[00:14:14] Não tem máfia.
[00:14:15] Não tem máfia, assim, de cientistas entrando com guardapós pretos ou de branco.
[00:14:19] Não, não existe.
[00:14:20] Num túnel separado.
[00:14:23] Impressionando o técnico ali do acelerador,
[00:14:26] dizendo, não, não, agora você tem que mentir e dizer que a massa é tal e não é tal.
[00:14:31] Não tem isso.
[00:14:31] Sim, não.
[00:14:33] Existem grupos que, digamos, entre os teóricos,
[00:14:36] que têm uma mente mais aberta que, olha…
[00:14:41] Por exemplo, tem um físico, eu não lembro o nome dele agora,
[00:14:43] eu não lembro se é Lipkin,
[00:14:45] enfim, ele mexe com supersimetria e perguntaram, e aí?
[00:14:49] Ele respondeu, e aí que eu estou na biblioteca aprendendo tecnicola,
[00:14:53] porque pode ser que não seja supersimetria que seja a verdade, seja tecnicola.
[00:14:58] Já tem uns que não, que acreditam piamente, vão morrer com supersimetria
[00:15:01] e se por acaso não enxergarem a supersimetria,
[00:15:03] eles vão tentar enxergar a coisa de outra maneira.
[00:15:07] Mas existe gente de todo tipo…
[00:15:09] Sim, porque isso é ciência, né?
[00:15:10] Sim, sim, sim.
[00:15:11] O cientista é um torcedor, porque ele torce pela teoria dele,
[00:15:14] Claro.
[00:15:14] A teoria que ele gosta, mas em um certo momento ele tem que admitir que ele é o time mais…
[00:15:18] Exatamente.
[00:15:19] É, tem que admitir que ele é o time mais vencedor.
[00:15:22] Mas o momento atual é fascinante porque a gente não sabe, tá?
[00:15:25] O jogo começou, a gente não sabe o que pode dar.
[00:15:28] Sim, mas o resultado que o Magno falou desse quadro…
[00:15:32] É, a evidência é que seja…
[00:15:33] Evidência.
[00:15:34] Esse sinal encontrado agora no 7TV é que seja um Riggs leve, tipo modelo padrão.
[00:15:41] É um Riggs do modelo padrão.
[00:15:43] Leve, sentado…
[00:15:44] 125, 127 gel.
[00:15:47] E a confiança desse…
[00:15:49] A gente já discutiu, mas…
[00:15:50] O CMS, por exemplo, deu um passo além.
[00:15:53] O CMS é um dos experimentos que mediu, né?
[00:15:55] Está caçando o Riggs, né?
[00:15:57] O CMS é um experimento mais completo.
[00:15:59] Ele testou todos os canais possíveis, cobertos inclusive por Riggs, não modelo padrão.
[00:16:05] E eles não encontraram sinal, picos, né?
[00:16:08] Nessa região que seria mais massiva e com certas características.
[00:16:11] Então, nesse momento, com essa energia de santimassa,
[00:16:14] 7TV, a evidência é para a existência desse pico de Riggs, tipo modelo padrão,
[00:16:21] com massa da ordem 125 gel.
[00:16:23] Quando é que sai?
[00:16:23] Onde é que tu acha que batem o martelo?
[00:16:25] Dessa região de massa, no final do ano, vai…
[00:16:28] Tem um shutdown agora no aparelho, fechou o ano passado, em novembro.
[00:16:31] Eles devem fazer um upgrade da energia para 8TV.
[00:16:35] E os experimentos vão refazer essas rodadas com esses canais.
[00:16:38] E eles estão muito otimistas que quando eles fizerem a junção dos dados, dos grupos, né?
[00:16:43] Eles consigam o 5CIMA.
[00:16:44] É necessário para a confirmação experimental, ou seja, descoberta, né?
[00:16:48] Eles estão…
[00:16:48] Aí vai saindo a mídia, vai tendo um crédito.
[00:16:49] Aí sim, aí vai a confirmação experimental, né?
[00:16:53] Da descoberta.
[00:16:54] O Riggs está vivo, o Peter Riggs está vivo.
[00:16:55] Sim, está vivo.
[00:16:56] Tem 82, 83 anos.
[00:16:58] Está vivo.
[00:16:59] Aguardando.
[00:17:00] Aguardando que a confirmação…
[00:17:01] Sim, porque eu vi que eles se discutiam muito, né?
[00:17:04] Se ele ia ter a sorte de ter a confirmação, né?
[00:17:07] Mas o mecanismo, eu não sei, eu lembro que eu já li alguma vez.
[00:17:11] O mecanismo esse, ele foi também utilizado na matéria…
[00:17:14] Na matéria condensada e o bóson de Riggs similar lá, o que faz o papel, né?
[00:17:21] Lá nessa quebra espontânea de simetria lá, na matéria condensada, já foi.
[00:17:24] Já foi detectado nos anos 70.
[00:17:26] O Anderson, né?
[00:17:27] Exatamente.
[00:17:27] Ah, do Phil Anderson.
[00:17:29] Sim, sim.
[00:17:30] O escopo teórico é o mesmo.
[00:17:32] É uma quebra espontânea de simetria, uma teoria lá.
[00:17:34] Ah, só que um aparece na matéria condensada e esse aí aparece na…
[00:17:37] Ou seja, o mecanismo, por si só, parece que já está bem corroborado,
[00:17:40] que ele funciona muito bem, salvo as aparências experimentais.
[00:17:43] Aliás, lembra…
[00:17:44] Quando o Riggs tem uma piadinha que ele já reservou a passagem.
[00:17:47] Que a ideia é o seguinte, se um sinal de…
[00:17:49] Já foi discutido no programa a ideia estatística de você ter sinais com sigma maior do que 5.
[00:17:55] Um sinal de 2 sigma, o Peter Riggs olhou o preço da passagem para receber o…
[00:18:00] Fez o book, fez o book.
[00:18:01] Foi no decolar.com, né?
[00:18:04] Um sigma de 4, ele já reservou a passagem.
[00:18:07] Acima de 5, ele vai e compra a passagem.
[00:18:10] Confirmação, dá o número do cartão de crédito.
[00:18:12] E lá recebeu o prêmio novo.
[00:18:13] Isso.
[00:18:14] Ah, sim.
[00:18:14] Pois é, é outra coisa que o Nobel não é póstumo, né?
[00:18:19] Ele tem que estar vivo.
[00:18:20] Ele tem que estar vivo.
[00:18:21] Não, mas só fazer um comentário.
[00:18:23] Eles já foram premiados, existe um prêmio aqui, anotei, da Sociedade de Física Americana,
[00:18:29] o prêmio JJ Sakurai, de Física de Partículas Teórica.
[00:18:34] Esses seis autores, entre eles o de 64, que foi comentado em outro programa,
[00:18:39] eles ganharam esse prêmio em 2010.
[00:18:41] Então agora a questão é só aguardar o grande prêmio.
[00:18:43] Sim.
[00:18:44] Se lembrando do Higgs também, as pessoas têm o costume de falar bozo de Higgs,
[00:18:49] mas o Higgs não fez sozinho isso daí.
[00:18:51] A gente lembrou do Brott e do Engler.
[00:18:54] Por que ele é o mais famoso?
[00:18:55] Porque tem alguma diferença?
[00:18:57] Ele publicou sozinho?
[00:18:59] Ele publicou sozinho, mas ele tem trabalhos dele que ele continuou nessa linha depois.
[00:19:04] Tem trabalhos publicados em 66, né?
[00:19:07] Então, quer dizer, ele meio que consolidou…
[00:19:09] Então é um reconhecimento que ele é o que estava, vamos dizer, liderando…
[00:19:13] Liderando, liderando essa ideia.
[00:19:16] Essa ideia, exato.
[00:19:16] Mas, de qualquer maneira, caso o Higgs seja detectado,
[00:19:21] provavelmente o prêmio vai ser dividido entre os três.
[00:19:24] Ah, é? Eu acho que é isso que vai acontecer.
[00:19:26] Mas só lembrando essa coisa do Higgs,
[00:19:29] então muita gente ficou incomodada com isso
[00:19:30] e tem gente, tem pessoas sugerindo que sejam outros nomes para o Higgs.
[00:19:35] E é engraçado que eu peguei alguns…
[00:19:37] Sim, por exemplo, tem gente que sugere trocar para, em vez de um bozo de Higgs,
[00:19:41] chamar de maçom.
[00:19:43] Maçom?
[00:19:43] Maçom.
[00:19:43] Maçom.
[00:19:43] Maçom.
[00:19:43] Maçom.
[00:19:43] Maçom.
[00:19:43] Sim, você tem o boson, que termina com on,
[00:19:46] você tem o fóton, o glum,
[00:19:48] então como está relacionado a maça, maçom.
[00:19:51] Dois S, dois S.
[00:19:52] Outro, assim que a gente falou, poderia ser on.
[00:19:55] On?
[00:19:55] Porque no cântico budista, isso aí poderia…
[00:19:58] Quando que levam nirvana?
[00:19:59] E on é O-O-M, então seria origin of mass.
[00:20:03] Sim, sim.
[00:20:04] Outra diz que é a partícula super legal que não é possível de denominar.
[00:20:08] Seria esse o nome completo, tá?
[00:20:10] Mas o nome que eu achei mais engraçado seria billion.
[00:20:12] Billion.
[00:20:13] Já custou…
[00:20:13] Já custou bilhões de dólares para…
[00:20:15] Seria mais ideológico.
[00:20:17] Para bilhão.
[00:20:19] Por causa dos quarks, né?
[00:20:20] O nome quarks que ganhou a mídia tinha outra proposta.
[00:20:24] Acho que os Whig tinham outro nome para os quarks.
[00:20:26] O Aces, né?
[00:20:26] Aces, né?
[00:20:27] Aces, né?
[00:20:28] Mas o Gell-Mann, que também tinha uma formação em…
[00:20:31] O Gell-Mann é o que propôs a ideia dos quarks.
[00:20:34] Essa palavra, na realidade, não existe.
[00:20:38] Existia só na cabeça dele.
[00:20:39] Mas o Guilherme do Queijo, o quark, ele é Joyce, né?
[00:20:42] Ele tirou do livro do Joyce.
[00:20:43] Tirou, mas…
[00:20:43] Mas isso é depois, né?
[00:20:45] Porque, na realidade, ele começou com um som na cabeça.
[00:20:48] Diz ele.
[00:20:49] Eu não sei se ele bebeu.
[00:20:51] Mas ele tinha esse som na cabeça, quark, né?
[00:20:54] Aí ele foi procurar e achou esse texto do James Joyce.
[00:20:59] Então, eu tenho uma pergunta que eu também sempre faço de vez em quando aqui nesse programa,
[00:21:03] já que esse programa tem esse…
[00:21:06] Uma das funções dele é fazer a separação do que é científico, o que não é científico,
[00:21:10] o que é pseudocientífico.
[00:21:12] E eu vou puxar o…
[00:21:13] A perna de vocês, puxar…
[00:21:16] Pegar no pé de vocês.
[00:21:18] Que…
[00:21:18] Bom, quando eu falo mal de astrologia aqui, ou quando a gente fala mal de homeopatia,
[00:21:24] a gente, muitas vezes, ridiculariza a terminologia ou até os mecanismos que essas teorias pseudocientíficas
[00:21:34] propõem de como o universo deve funcionar.
[00:21:36] E eu não sei, para um leigo ouvindo vocês falar,
[00:21:38] é difícil ele não ver a semelhança entre astrologia e o que vocês estão dizendo.
[00:21:43] Quem está copiando quem aí é…
[00:21:45] É, porque a nomenclatura é toda uma…
[00:21:52] Específica.
[00:21:52] E é brincalhona, muitas vezes, não é?
[00:21:56] O charmoso, o estranho…
[00:21:59] E agora, então, como é que você…
[00:22:00] Se uma pessoa lenga e dissesse assim,
[00:22:02] bom, como é que eu sei que esse pessoal, esses físicos de partículas,
[00:22:06] como é que eu sei que eles têm uma teoria séria?
[00:22:08] De onde vem a parte séria da teoria deles?
[00:22:11] É difícil, né?
[00:22:11] Não, é…
[00:22:12] Eu acho que…
[00:22:13] Acho que os americanos são muito brincadeiros.
[00:22:16] Sim.
[00:22:16] É, esses nomes dos quarks…
[00:22:18] E também mostra que…
[00:22:19] Por exemplo, uma coisa que gera uma confusão danada
[00:22:22] é o que se começou a usar chamando a partícula de Deus, né?
[00:22:28] Dizendo que o bóson é a partícula de…
[00:22:30] Porque algumas pessoas, de brincadeira, começaram a falar,
[00:22:32] porque era o…
[00:22:33] Vamos dizer que seria a cereja do bolo,
[00:22:35] a cereja do pudim do modelo padrão.
[00:22:38] Então, se fez uma ironia que talvez fosse a partícula…
[00:22:41] Não, não é ironia.
[00:22:42] Não, não é ironia.
[00:22:42] O nome, a partícula de Deus, vem de um livro, de um físico,
[00:22:45] que é o Leon Lederman, do ano de 72.
[00:22:47] É um físico ganhador.
[00:22:48] Ganhador de Nobel, é.
[00:22:49] Ah, é?
[00:22:50] Ele tem esse livro.
[00:22:51] Claro, ele está discutindo para leigos a teoria da unificada, basicamente, né?
[00:22:56] Não, não, mas existe uma relação mística com esse nome?
[00:22:59] Não.
[00:23:00] Não.
[00:23:00] Não, mas o que a gente vê de vez em quando noticiado
[00:23:04] é quase que estão se propondo que tenha procissões religiosas
[00:23:08] em direção ao cérebro.
[00:23:10] Em direção ao cérebro.
[00:23:11] Ao cérebro.
[00:23:12] Pode aproveitar e contar a história do porquê que o livro se chamou isso aí.
[00:23:15] Sim, é, faz.
[00:23:16] Na verdade, o Leon Lederman, quando escreveu,
[00:23:19] o título que ele sugeriu seria The Gotham Particle.
[00:23:23] Ah, maldita partícula, maldita partícula.
[00:23:26] Sim, no sentido de uma partícula maldita, chata,
[00:23:28] porque era muito difícil de ser detetada.
[00:23:31] Então, The Gotham Particle.
[00:23:33] A questão é que ele mandou isso para…
[00:23:35] Para o editor, o editor falou, olha…
[00:23:37] Não vou vender.
[00:23:38] Você não vai vender nada.
[00:23:39] Então, vamos colocar…
[00:23:40] Tira esse resto e deixa só God.
[00:23:42] Você vai vender como água.
[00:23:43] E foi o que aconteceu.
[00:23:44] Foi a verdade.
[00:23:45] Claro, porque eu imagino um monte de pessoas lendo o livro até o fim…
[00:23:47] Que vai comprar porque tem o God na frente.
[00:23:49] Não, lendo o livro até o fim de estar provado cientificamente que Deus existe.
[00:23:53] Mas isso pegou muito mal na comunidade
[00:23:56] e eu acho…
[00:23:57] A grande maioria acha que foi uma, digamos,
[00:24:00] uma pisada de bola ele ter aceito a sugestão do editor.
[00:24:05] Porque, veja,
[00:24:07] a impressão que às vezes as pessoas têm dos filhos são todos ateus.
[00:24:10] Não, você tem um espectro que vai,
[00:24:12] de ultra-religiosos a ateus, trabalhando no CERN, tá ok?
[00:24:16] E é interessante que quando entrevistaram algumas pessoas a respeito de ter se chamado
[00:24:22] o Higgs de Boson de…
[00:24:24] Partícula de Deus.
[00:24:25] Partícula de Deus.
[00:24:27] Tanto o ateu quanto o ultra-religioso ficaram super ofendidos.
[00:24:31] O ateu porque simplesmente diz que, olha, isso aqui não tem nada a ver com religião, tá certo?
[00:24:37] Isso aqui é mais uma partícula de um modelo chamado dito padrão que falta ser descoberto.
[00:24:42] E que tem um papel físico muito claro.
[00:24:46] Já o ultra-religioso ficou ofendido porque, digamos, olha,
[00:24:50] dá a impressão que estamos tentando tomar o lugar de Deus
[00:24:53] Sim, sim, sim.
[00:24:54] E que vamos descobrir a maioria…
[00:24:56] Ou seja, mas a minha visão é que não tem nada a ver, é um nome extremamente infeliz.
[00:25:01] É, eu acho que o uso se faz porque, por exemplo, modernamente, se…
[00:25:04] Uns certos segmentos falam que a religião e a ciência estão cada vez se aproximando mais, né?
[00:25:11] Por exemplo, esse evento infeliz de ligação mística da física quântica com alguns tipos de misticismo.
[00:25:19] Então a gente ouve muita gente falar essas coisas.
[00:25:23] Ah, não, pois é, agora que a ciência está chegando a um nível de sofisticação, ela está começando a mostrar, vamos dizer, que a religião é uma coisa verdadeira.
[00:25:33] E aí essa partícula de Deus entra no mesmo…
[00:25:36] Tu vê pessoas ligando uma coisa com a outra.
[00:25:39] Mas e essa questão?
[00:25:40] E como é que eu digo para isso?
[00:25:41] eu digo para o leigo que o que vocês estão fazendo é sério.
[00:25:44] O que é que…
[00:25:45] Olha, porque
[00:25:47] desde o momento que ele
[00:25:49] acorda, ele interage
[00:25:51] com coisas. Ele liga a televisão, isso aí
[00:25:53] tem a ver com o modelo padrão.
[00:25:55] Ele liga o chuveiro, tem a ver com o modelo padrão.
[00:25:57] Parece religioso.
[00:25:58] Ele dirige o carro, tem a ver com o modelo padrão.
[00:26:01] Você vive e respira com o modelo padrão.
[00:26:04] Sua vida é
[00:26:05] dominada pelo modelo padrão.
[00:26:08] Então, essas
[00:26:09] coisas têm aplicações na vida
[00:26:11] prática muito imediatas.
[00:26:13] Esse entendimento não é um entendimento
[00:26:15] distante da vida das pessoas.
[00:26:17] É um entendimento
[00:26:18] presente. Mas eu acho que a tua…
[00:26:21] o teu questionamento era mais
[00:26:23] no sentido de como… Do jargão também.
[00:26:24] O jargão em pseudociências tem
[00:26:27] jargão, nós temos jargões
[00:26:29] próprios. E qual é a
[00:26:31] diferença para o leigo? Bom, talvez
[00:26:33] pelo próprio debate que tem
[00:26:35] dentro da ciência. Como o Emerson
[00:26:37] comentou agora há pouco, várias teorias
[00:26:39] competindo entre si, vários
[00:26:41] tipos de abordagens de Riggs
[00:26:43] e a questão final que podem
[00:26:45] estar todas erradas. Agora, tu pega
[00:26:47] uma pseudociência, ela jamais vai ser
[00:26:48] manifestada. Eu estava sugerindo
[00:26:50] essa linha de debate, principalmente porque
[00:26:52] muitas vezes a gente recebe e-mails dizendo
[00:26:54] como é que a gente detecta que uma coisa não é a ciência?
[00:26:57] Pôquer, pode ir pôquer.
[00:26:58] Não, mas muitas vezes…
[00:27:01] Claro, mas muitas vezes é difícil. Tu fica pensando
[00:27:03] assim, o cara lê um artigo
[00:27:05] de jornal. Como é que ele sabe
[00:27:07] que o cara está falando do charme, do bottom-up?
[00:27:09] É a mesma coisa que ele está falando?
[00:27:11] Do espírito, do quântico?
[00:27:13] Eu acho que numa primeira leitura não é tão
[00:27:15] fácil detectar, mas talvez
[00:27:16] aí o Thomas Kuhn, com as suas
[00:27:19] revoluções, a estrutura das revoluções
[00:27:21] científicas, ele comenta da questão da autoridade.
[00:27:23] Mas aí tu tem um outro problema.
[00:27:25] Quem é a autoridade na qual tu acredita?
[00:27:27] A autoridade científica que
[00:27:28] tem todo esse background
[00:27:31] de testes, de estudos,
[00:27:33] de até de abandono
[00:27:34] da própria teoria na qual
[00:27:37] acredita, ou uma pessoa que está
[00:27:39] ligada a uma pseudociência que não
[00:27:41] tem esse rigor, né? Então,
[00:27:43] eu vejo, por exemplo, assim,
[00:27:44] eu estava vendo esses dias um documentário sobre
[00:27:47] a caça ao Higgs, né? Lá do
[00:27:49] pessoal do CERN. E aí entrevistando
[00:27:51] vários físicos lá do CERN
[00:27:53] e muitos deles dedicaram a vida inteira
[00:27:55] a esse trabalho. Mas estavam
[00:27:57] preparados, se por acaso
[00:27:59] no final dessa busca não descem
[00:28:01] nada, eles dizem, bom, mas é assim que a coisa é.
[00:28:03] Então, apesar de toda a minha
[00:28:05] vida de cientista ter sido
[00:28:07] dedicado a estudar essa
[00:28:09] partícula, procurar as
[00:28:11] condições
[00:28:11] necessárias para que ela fosse descoberta e a gente
[00:28:15] não descobrir, paciência, isso faz parte
[00:28:17] do jogo, né? Aliás, do ponto de vista,
[00:28:19] digamos, de um, pelo menos do meu ponto de vista,
[00:28:21] caso nada seja
[00:28:23] enxergado no LHC,
[00:28:25] isso seria um grande descoberto também.
[00:28:26] Eu sempre falo aqui dentro, sempre quando
[00:28:29] acontece uma coisa inesperada…
[00:28:31] Você teria que abrir, assim, a sua
[00:28:33] visão radicalmente
[00:28:35] das coisas que você acredita.
[00:28:37] Sim, a questão, a gente discutiu
[00:28:39] alguns problemas atrás, a questão
[00:28:41] do neutrino, se o neutrino fosse
[00:28:43] mais rápido do que a luz,
[00:28:45] seria uma fase
[00:28:47] muito excitante da ciência.
[00:28:49] Então, só deixando claro que, caso
[00:28:51] não se enxergue nada no LHC,
[00:28:53] isso também vai ser muito importante
[00:28:54] para a ciência. É um resultado muito importante
[00:28:57] para a ciência. E vocês estão desempregados.
[00:29:00] Não, começamos de zero.
[00:29:01] Começamos de zero.
[00:29:02] Houve outros problemas.
[00:29:05] Modelo padrão não existe.
[00:29:07] Tem que
[00:29:09] aceitar essa verdade.
[00:29:11] Mas ele existe nesse momento.
[00:29:12] Não, o modelo padrão vai sempre existir.
[00:29:14] Pode existir uma teoria acima do modelo padrão
[00:29:17] onde ele é uma
[00:29:18] aproximação, mas ele tem que ser
[00:29:21] salvo na teoria posterior.
[00:29:23] Sim, não, eu estava brincando.
[00:29:24] Mas o modelo padrão está em uma fase
[00:29:27] ótima, então. Não, com certeza, ele está
[00:29:29] muito bem estabelecido. Aliás,
[00:29:31] é o modelo mais bem
[00:29:33] estabelecido que se tem na
[00:29:35] sobre a face da Terra.
[00:29:37] São 40 anos de construção do modelo padrão.
[00:29:39] Sim.
[00:29:41] Não é brincadeira.
[00:29:43] Então, esse foi o programa Fronteiras da Ciência.
[00:29:46] A gente discutiu aqui.
[00:29:47] Esse foi o programa 2 da caçada
[00:29:48] do bóson de Higgs.
[00:29:51] Estiveram aqui com a gente
[00:29:53] os professores
[00:29:55] Dmitry Radmyshev, Magno Machado
[00:29:58] e o Emerson Luna,
[00:29:59] que são físicos de partícula.
[00:30:01] E eu, o Mark de Arte, do Departamento de Física.
[00:30:03] O programa Fronteiras da Ciência
[00:30:06] é um projeto do Instituto de Física
[00:30:08] da URBIS, técnica de
[00:30:10] Gilson de Césaro e direção técnica
[00:30:12] de Francisco Guazelli.
[00:30:25] .