Estresse e Ansiedade II
Resumo
Este episódio, segunda parte de uma discussão sobre estresse e ansiedade, aprofunda os mecanismos fisiológicos da resposta ao estresse e suas consequências quando se tornam crônicas. Os participantes descrevem o eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), que inicia com a percepção de uma ameaça (real ou imaginária, como falar em público), passa pela liberação de CRH e ACTH, e culmina na produção de adrenalina (resposta rápida) e cortisol (resposta mais lenta).
O cortisol, em níveis agudos, tem um papel adaptativo, ajudando na formação de memórias de eventos ameaçadores. No entanto, a exposição crônica a esse hormônio está ligada a uma série de problemas de saúde, incluindo a síndrome de Cushing (obesidade, pressão alta, colesterol alto), atrofia do hipocampo (com sequelas cognitivas) e supressão do sistema imunológico. A discussão conecta o estresse crônico à epidemia de obesidade, destacando como alimentos altamente palatáveis (ricos em gordura e açúcar) podem atuar como automedicação, inibindo a secreção de glicocorticoides.
A conversa explora onde podem ocorrer desequilíbrios no sistema, focando no papel do hipocampo e seus receptores de glicocorticoide (GR), responsáveis por encerrar a resposta ao estresse. Indivíduos com ansiedade crônica podem ter menos desses receptores ou receptores menos funcionais, criando um ciclo de realimentação positiva. É discutida a plasticidade do sistema, especialmente no início da vida, onde experiências como o cuidado materno (ou a falta dele) podem configurar a resposta ao estresse de forma duradoura, embora intervenções como ambientes enriquecidos na infância possam reverter alguns efeitos.
Por fim, são abordadas as formas de tratamento. Os participantes criticam o abuso de fármacos como ansiolíticos (benzodiazepínicos) e antidepressivos, que atuam como um “martelo” grosseiro no delicado sistema neuroquímico. Defendem-se as psicoterapias e outras formas de modulação comportamental (como esporte, dança e música) que ativam sistemas de recompensa de forma mais sutil e integrada. A conclusão aponta para a necessidade urgente de uma mudança social, com melhor cuidado pré-natal e infantil, proteção das crianças contra a sociedade de consumo e a criação de ambientes menos estressantes para prevenir as marcas duradouras da ansiedade.
Indicações
Atividades
- Dança — Recomendada como uma terapia excelente para a ansiedade, pois combina a apreciação musical (que ativa o sistema de recompensa) com o foco corporal e a expressão, modulando o sistema nervoso de forma integrada.
Conceitos
- Eixo HPA (Hipotálamo-Hipófise-Adrenal) — A cascata hormonal central da resposta ao estresse, descrita em detalhes: começa no hipotálamo (CRH), passa pela hipófise (ACTH) e termina nas glândulas adrenais (adrenalina e cortisol).
- Receptores GR (Glicocorticoide) no hipocampo — Receptores no hipocampo responsáveis por detectar níveis altos de cortisol e sinalizar o fim da resposta ao estresse. Sua redução ou disfunção está ligada à ansiedade crônica.
- Ambiente Enriquecido — Em modelos animais, um ambiente com diversos estímulos, brinquedos e texturas durante a infância pode reverter efeitos negativos do estresse precoce, aumentando a plasticidade cerebral.
- Sistema Dopaminérgico Mesolímbico — Sistema cerebral de recompensa ativado por experiências prazerosas como música, comida gostosa, sexo e drogas. É citado como uma via que pode ser modulada por terapias comportamentais como a dança.
Condicoes
- Síndrome de Cushing — Síndrome clínica resultante da exposição crônica a altos níveis de glicocorticoides, com sintomas como obesidade, pressão alta, colesterol alto e atrofia muscular, servindo como exemplo exagerado dos efeitos do cortisol crônico.
Substancias
- Cortisol — Hormônio glicocorticoide liberado em resposta ao estresse. Tem papel adaptativo agudo (formação de memória), mas se torna prejudicial quando liberado cronicamente, associado a danos no hipocampo e problemas metabólicos.
- Benzodiazepínicos — Classe de ansiolíticos (ex.: diazepam) que atuam nos receptores GABAérgicos, freando a atividade cerebral. São criticados por atuarem de forma muito ampla, diminuindo não só a ansiedade mas também outras funções desejáveis.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao programa e tema: estresse e ansiedade — Apresentação do programa Fronteiras da Ciência e dos participantes: a doutora Patrícia Silveira (pediatra e neurocientista), Jorge Kielfeld (biofísica) e Marco de Arte (física). Anunciam a continuação da discussão sobre estresse, focando em como experiências precoces condicionam o organismo e como a resposta ao estresse pode alterar a circuitaria cerebral e o comportamento.
- 00:01:06 — A resposta ao estresse como sistema antigo e adaptativo — Explicação de que o sistema de estresse é antigo na evolução, servindo para reagir a ameaças (lutar ou fugir) por pouco tempo. No ser humano moderno, estímulos sociais (como falar em público) ativam cronicamente esse sistema, levando a consequências dramáticas como úlceras, problemas de comportamento, ansiedade e diversas patologias. Discute-se por que o mesmo sistema fisiológico é acionado tanto por um predador real quanto por uma ameaça social imaginária.
- 00:03:27 — Descrição detalhada do eixo HPA (Hipotálamo-Hipófise-Adrenal) — A convidada Patrícia Silveira descreve a cascata hormonal da resposta ao estresse. Estímulos sensoriais (reais ou imaginários) são processados e chegam ao hipotálamo, que libera CRH. O CRH estimula a hipófise a liberar ACTH na corrente sanguínea. O ACTH age nas glândulas adrenais, levando à liberação de adrenalina (resposta rápida, com sintomas como tremor, vasoconstrição e aumento da frequência cardíaca) e, posteriormente, do cortisol.
- 00:05:52 — O papel do cortisol: de protetor a vilão na cronicidade — Discussão sobre o cortisol. Em respostas agudas, ele é adaptativo e importante, por exemplo, para a formação de memórias de eventos ameaçadores. O problema surge com a exposição crônica, que está ligada a síndromes como a de Cushing (obesidade, pressão alta, colesterol alto, atrofia muscular) e ao encolhimento do hipocampo, com sequelas cognitivas. A conversa conecta o estresse crônico à epidemia moderna de obesidade.
- 00:08:06 — Alimentos como automedicação para o estresse — Exploração de como alimentos altamente palatáveis, ricos em gordura e açúcar (como chocolate e churrasco), têm a capacidade de inibir a secreção de glicocorticoides. Isso sugere que o consumo excessivo desses alimentos em situações de estresse crônico pode ser uma forma de automedicação, contribuindo para o ganho de peso e a obesidade. Contrasta-se com o café, que tende a aumentar a ansiedade.
- 00:11:43 — Localizando o desequilíbrio: receptores no hipocampo — Investigação sobre onde ocorrem as mudanças que levam à ansiedade crônica. O foco é no hipocampo, que possui receptores de glicocorticoide (GR) responsáveis por detectar níveis altos de cortisol e encerrar a resposta ao estresse. Indivíduos ansiosos podem ter menos desses receptores ou receptores com funcionalidade reduzida, criando um ciclo em que a resposta não é adequadamente desligada, exigindo mais secreção hormonal e causando mais danos, como morte neuronal no hipocampo.
- 00:14:48 — Plasticidade no início da vida e possibilidade de reversão — Discussão sobre a sensibilidade do sistema no início da vida (períodos críticos). Experiências como o cuidado materno em ratos configuram a quantidade de receptores GR no hipocampo, influenciando a resposta ao estresse na vida adulta. Intervenções como “ambiente enriquecido” (com brinquedos e estímulos) na infância podem reverter efeitos negativos. Debate-se a aplicação em humanos, a irreversibilidade de alguns danos e a importância de programas de intervenção precoce que promovam a interação mãe-bebê.
- 00:20:01 — Tratamentos: fármacos, seus abusos e limitações — Análise crítica dos tratamentos farmacológicos para ansiedade. São mencionados ansiolíticos (como os benzodiazepínicos, que atuam no sistema GABAérgico) e antidepressivos. Destaca-se que os medicamentos não funcionam igualmente para todos, podem ter efeitos colaterais graves (como aumento do risco de suicídio no início do uso de antidepressivos) e atuam de forma grosseira, “amortecendo” o indivíduo além da ansiedade. Critica-se o abuso e a medicalização da infelicidade.
- 00:24:35 — Psicoterapias e modulação comportamental como alternativas — Defesa das psicoterapias e outras formas de tratamento não-farmacológico. A terapia é vista como uma forma de usar os sistemas endógenos do cérebro para modificar seu funcionamento de maneira mais sutil e integrada. Atividades como esporte, dança e música são citadas como potentes moduladores do sistema nervoso, ativando vias de recompensa (como o sistema dopaminérgico mesolímbico) de forma saudável. Argumenta-se que o futuro está na combinação de melhores relações humanas e suporte social com o uso criterioso de fármacos.
- 00:29:49 — Conclusão: prevenção através do cuidado com a infância — Conclusão do programa enfatizando a prevenção como a chave. Para evitar as sequelas duradouras da ansiedade, é fundamental proteger as crianças. Isso inclui melhorar o cuidado pré-natal e a saúde da gestante, oferecer ambientes infantis saudáveis com comida de qualidade e cultura adequada, e, crucialmente, protegê-las da sociedade de consumo e da propaganda dirigida, que exploram sua vulnerabilidade cognitiva e a culpa dos pais. Defende-se uma mudança cultural que respeite a infância e evite pressionar as crianças como “mini adultos”.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2012-10-29T15:00:00Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/estresse-e-ansiedade-ii/181c2d00-041d-0130-af14-723c91aeae46
- UUID Episódio: 181c2d00-041d-0130-af14-723c91aeae46
Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
- UUID: fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c
Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos
[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.
[00:00:13] Hoje no programa Fronteiras da Ciência a gente vai discutir o estresse e a ansiedade.
[00:00:17] Vamos ser o programa dois.
[00:00:18] A convidada é a doutora Patrícia Silveira, pediatra e doutora em neurociência do Departamento
[00:00:23] de Pediatria da URX, Jorge Kielfeld do Departamento de Biofísica e eu, Marco de Arte do Departamento
[00:00:28] de Física.
[00:00:29] No programa anterior a gente discutiu essa relação entre o que acontece nos primeiros
[00:00:33] momentos de vida ou até na vida intrauterina dentro da mãe e como isso condiciona o que
[00:00:38] vai acontecer depois com o organismo.
[00:00:40] Então eu acho que seria um momento de começar.
[00:00:42] Para entender como isso pode chegar a influenciar questões plásticas, ou seja, mudar a circuitaria
[00:00:47] e do encefro do cérebro e até mudar o comportamento mais adiante, talvez descrever a resposta
[00:00:53] do estresse todo.
[00:00:54] Que substância liberar, em que sequência e entender onde ela está.
[00:00:57] E vamos comentando cada uma delas, porque é muito interessante entender que esse é
[00:01:00] um sistema muito antigo, que evoluiu para permitir uma resposta adaptativa, que é reagir
[00:01:06] a estímulos aversivos, perigosos e outras ameaças, basicamente se esquivando delas,
[00:01:11] fugindo delas e eventualmente se preparando também para lutar para se defender delas.
[00:01:14] É tudo que é necessário e de preferência é necessário por pouco tempo.
[00:01:18] E a resposta é essa que na natureza todos os animais exibem, todos os animais inclusive
[00:01:22] em vertebrados e outros, mas que no caso do humano ele acaba tendo exacerbações em
[00:01:26] função de que nas sociedades humanas, na sociedade moderna onde vivemos, certos estímulos
[00:01:32] acabam organizados para agir constantemente, cronicamente, de forma que a gente tem respostas
[00:01:38] que deveriam ser feitas apenas em situações eventuais, recrutadas constantemente e com
[00:01:42] consequências dramáticas, úlceras, enfim, problemas de comportamento, de ansiedade
[00:01:49] comportamental e social e patologias, transtornos mais diversos.
[00:01:52] Uma ameaça persistente por causa da situação toda, né?
[00:01:56] Uma coisa que não existe no mundo alemão.
[00:01:57] Eu imagino assim, não é óbvio que uma pessoa tenha que responder da mesma forma, por exemplo,
[00:02:02] o estresse causado, por exemplo, um perigo iminente, esse predador, ele faz sentido lógico
[00:02:08] que você tenha uma reação corporal a isso, né, que vai fazer você evitar esse animal
[00:02:13] tanto naquele momento como no futuro.
[00:02:15] Para mim não é nada óbvio que uma pessoa tenha o mesmo tipo de reação fisiológica
[00:02:21] quando está pensando, por exemplo, que ele vai falar em público, tenha que usar o mesmo
[00:02:25] sistema.
[00:02:26] No entanto parece que ele, no entanto, usa.
[00:02:28] Você citou um estresse que é padrão para se usar em humanos que é falar em público,
[00:02:31] uma das coisas mais interessantes que tem.
[00:02:33] É, um dos estresse mais poderosos que tem em termos de ele citar a resposta é falar
[00:02:37] em público.
[00:02:38] Por que existe essa ligação?
[00:02:39] Falar em público é como estar na frente de um leão.
[00:02:40] Do leão.
[00:02:41] Por quê?
[00:02:42] Exatamente.
[00:02:43] A resposta é a mesma.
[00:02:44] Provavelmente porque o sistema é muito antigo, em termos assim de…
[00:02:47] Ou seja, o organismo não tem outra coisa.
[00:02:49] Evidentemente que o humano reagir assim, na hora de falar em público, ele está levando
[00:02:53] em conta outras coisas.
[00:02:54] Por exemplo, nós não somos animais que meramente reagimos aos estímulos.
[00:02:57] Nós temos já histórias de vida, percepções, preconcepções e construções, imaginações
[00:03:03] e a gente tematiza isso.
[00:03:04] Por exemplo, a gente fala em público e fica ansioso porque está supondo o que os outros
[00:03:07] estão pensando e é isso retroárgico com o que você está falando.
[00:03:10] Então na verdade você está construindo um leão imaginário.
[00:03:12] E nós podemos ficar ansiosos, inclusive aqui, para gravar o programa.
[00:03:15] A gente está falando na frente do microfone numa sala, só tem três pessoas aqui, o microfone
[00:03:19] está ligado e eu não estou vendo uma multidão me olhando e me cobrando, o mundo entretanto
[00:03:21] não sabe que isso vai ser ouvido por outro e isso é suficiente para criar uma resposta
[00:03:25] de estresse também.
[00:03:26] Como é que é essa resposta?
[00:03:27] Então existem sistemas de captação de estímulos, ou seja, sensoriais, que percebem
[00:03:32] então essas dicas ambientais, sejam elas reais, como a gente viu, para dar dor lá
[00:03:36] ou imaginárias, como a gente estava falando no caso de humanos, o que está dentro da
[00:03:40] cabeça dessas pessoas que estão me ouvindo.
[00:03:42] Então essa mensagem é agrupada, é processada e acaba chegando no hipotalo.
[00:03:48] Chega no nervo central, a parte sensorial e aciona várias áreas, a primeira é o hipotalo
[00:03:55] e aí libera uma substância que chega na hipófise, que é o CRH, que é o hormônio
[00:04:00] liberador de corticotropina, e estimula a hipófise, que é uma glândula, a liberar
[00:04:05] o ACTH.
[00:04:06] A hipófise está junto ao cérebro, mas é uma glândula, não é a semanervoso.
[00:04:09] Elas formam um sisteminho, estão acoplados, então uma manda um sinal químico que liga
[00:04:13] na outra que, por sua vez, produz o ACTH, e como existem vasos sanguíneos que passam
[00:04:19] ali muito do lado da hipófise, o ACTH consegue cair na corrente sanguínea e vai para a circulação.
[00:04:25] Para o corpo.
[00:04:26] Para o corpo.
[00:04:27] Para o corpo.
[00:04:28] Para o corpo inteiro.
[00:04:29] Para uma resposta.
[00:04:30] Como é que é essa resposta?
[00:04:31] Então, assim, o ACTH chega principalmente em todos os tecidos, mas principalmente ele
[00:04:35] vai agir na glândula adrenal, que fica lá em cima do rim, no caso do humano, que está
[00:04:39] de pé.
[00:04:40] Os animais, ele está deitadinho e está do lado.
[00:04:41] E aí, ele age em diferentes regiões dessa glândula e existe a liberação de hormônios
[00:04:45] de ação rápida, como a adrenalina, na hora do atendimento, que você é responsável
[00:04:49] por aqueles sintomas, então, de tremer, vasoconstrução, exatamente.
[00:04:53] Fica pálido.
[00:04:54] Aumenta a frequência cardíaca.
[00:04:55] A adrenalina faz o fechamento dos vasos sanguíneos periféricos e aí tu fica com circulação
[00:04:58] concentrada nos músculos e no interior, de forma que tu fica pálido.
[00:05:02] Mas a palidez é um sinal de que tu está realmente preparado para alguma coisa.
[00:05:05] Isso, aliás, faz parte dos sinais não verbais de leitura corporal que os animais fazem apenas
[00:05:11] isso para se comunicar e nós, humanos, substituímos por palavras, mas, assim, algumas pessoas
[00:05:15] ainda são mais sensíveis a isso, estão dentro de uma pessoa e a pessoa fica pálida
[00:05:20] e te olha.
[00:05:21] Inclusive, tem vaso pupilo, contração, do caso de distressão, tu pode ficar com medo
[00:05:27] que essa pessoa provavelmente vai te atacar, é muito provável, ou ela é psicótica ou
[00:05:30] ambas as coisas.
[00:05:31] Mas, assim, ou ela está pálida e vai desmaiar, é outra coisa, mas essa combinação de coisas
[00:05:35] que são a resposta do cara estar se preparando para lutar contigo, por quê?
[00:05:39] Porque isso acontece, às vezes, com adversários, numa situação de uma discussão, no combate,
[00:05:43] num assalto, por exemplo.
[00:05:44] Agora, a Patrícia está descrevendo a sequência de coisas que estão acontecendo, aí tu parou
[00:05:48] na liberação de adrenalina, tem outras coisas que vão.
[00:05:51] A adrenalina é a resposta rápida.
[00:05:52] Rápida, aí existem os glicocorticoides, o cortisol, que é um hormônio, ele vai ter…
[00:05:57] Ah, tudo bem, esse cortisol é o inimigo da saúde moderna, qualquer revista, de banca
[00:06:04] de revista de saúde vai dizer que o cortisol é bandido.
[00:06:06] Por que ele é o bandido?
[00:06:08] Assim, na resposta aguda, o stress, ele até tem um papel importante também, para a gente,
[00:06:14] adaptativo e protetor, então, assim, ele é importante, por exemplo, para coisas como
[00:06:19] ajudar na formação da memória aquele evento que é ameaçador e aí depois tu não esqueça
[00:06:26] que…
[00:06:27] Eu mesmo tenho trabalhos, isso aí, no caso, o enrato é a corticosterona, que é parecido
[00:06:31] com o cortisol, é uma molécula um pouco diferente, mas é a mesma função.
[00:06:34] O cortisol é quem vai recrutar, por exemplo, a formação de memórias através de certos
[00:06:38] sistemas como o sistema endocanabinoide, é um exemplo particular, então, assim, ele
[00:06:41] é fundamental para formar memórias de eventos traumáticos e aversivos.
[00:06:45] Exatamente.
[00:06:46] E dá a força dele.
[00:06:47] Exatamente.
[00:06:48] Sim, e outras coisas do cortisol.
[00:06:49] Sim, e outras coisas do cortisol.
[00:06:50] O problema do cortisol é quando ocorre a exposição crônica, a liberação crônica
[00:06:54] desse hormônio e aí, por exemplo, no caso do stress crônico que a gente estava falando
[00:06:58] lá no início.
[00:06:59] Não, a molécula está aí para estar o tempo todo, porque o tempo todo ela começa a ser,
[00:07:02] eu não digo tóxica, mas ela produz sequelas sérias.
[00:07:04] Ela tem, por exemplo, fica claro, se a gente pensa, tem uma síndrome em humanos que é
[00:07:10] de secreção, aumento dos glicoticóides, que é a síndrome de Cushing, que é clássico,
[00:07:15] diz todos os efeitos ali, fica bem caricáticos, digamos assim, Cushing, tem obesidade, tem
[00:07:21] alteração do perfil lipídico plasmático, hipercolesterolemia e essas coisas, aumento
[00:07:27] da pressão arterial.
[00:07:29] Pressão alta, colesterol alto, obesidade, fraqueza muscular, atrofia muscular.
[00:07:34] Isso quer dizer que boa parte da obesidade, que é uma praga que afeta a humanidade agora,
[00:07:38] tem a ver com ansiedade.
[00:07:39] Pode ser um dos sintomas epidemiológicos.
[00:07:41] Pode estar relacionado, sim.
[00:07:42] Não é a única causa, certamente, porque comida barata e de baixa qualidade de alto
[00:07:47] carboidratos disponível também ajuda, a propaganda ajuda a comprar, tem ansiedade, te motiva
[00:07:51] a comer mais e você fica mais tempo na internet, viu, pessoal?
[00:07:54] Tempo demais na internet, comendo porcaria, já viu, foi um recordo.
[00:07:57] Você tem que fazer exercício, faz o podcast do Portátil e caminha no Parque do Luiz.
[00:08:03] Só vou pegar esse gancho que você falou do alimento e aí a gente entra em uma área
[00:08:06] muito interessante, que assim, ó, existe um conjunto de alimentos que quando a gente
[00:08:11] consome, ela é capaz de inibir a resposta ao estresse, né?
[00:08:16] Ou pelo menos, até para não soar, isso é bom, é bom até por ali, né?
[00:08:20] Então assim, por exemplo, os alimentos que são ricos em gordura, são altamente palatáveis,
[00:08:25] os ricos em gordura e açúcar, eles têm a capacidade de inibir a secreção de glicosecóides.
[00:08:29] Quer dizer que a pessoa que está comendo demasiadamente isso está se automedicando,
[00:08:34] na verdade.
[00:08:35] Se automedicando.
[00:08:36] Com a comida.
[00:08:37] Não tenho nenhuma dúvida disso, comer um churrasco gordo é um negócio mais calmante
[00:08:39] que tem.
[00:08:40] Exatamente.
[00:08:41] Eu não consigo imaginar isso.
[00:08:42] Além de ser delicioso, é extremamente calmante.
[00:08:43] No meu caso, eu também tenho o chocolate, que combina a gordura com o açúcar e algumas
[00:08:47] xantinas que são moléculas estimulantes.
[00:08:49] Então, gorduras, coisas muito doces.
[00:08:51] Altamente palatáveis, assim.
[00:08:52] Que é gostoso.
[00:08:53] Que é gostoso, né?
[00:08:54] Que, tipicamente, é rico em gordura e açúcar.
[00:08:56] Então, eles inibem a secreção dos glicosecóides frente ao estresse.
[00:09:00] E o café?
[00:09:01] O café não tem, pelo menos eu não conheço tantos estudos relacionados a isso.
[00:09:05] Eles dizem que o café é o contrário, né?
[00:09:06] Que ele faz o contrário.
[00:09:07] Ele é um estimulante, mas ele também aciona, ele se liga em outros sistemas da denosina,
[00:09:12] que é um sistema de denosina recentemente descrito e que está envolvido com uma série
[00:09:16] de coisas.
[00:09:17] Ainda estamos compreendendo o papel do café ali, mas ele tem esse papel de aumentar a
[00:09:20] ansiedade.
[00:09:21] Mas aí a gente pensa em relação à obesidade, né?
[00:09:24] Se um indivíduo tem um estresse crônico e começa a usar esses alimentos de forma crônica
[00:09:28] também, com uma forma de alívio.
[00:09:30] Gordura em excesso e carboidrato em excesso.
[00:09:32] Carboidrato em excesso está feito um estrago.
[00:09:34] Então, nós estamos vivendo uma epidemia de obesidade que se alastrou nos Estados Unidos,
[00:09:38] onde ele é impressionante, para o Brasil.
[00:09:40] Eu noto entre os alunos isso, uma coisa que nunca via.
[00:09:43] Entre alunos e alunos com obesidade mórbida.
[00:09:45] O momento que eu circulo, eu já conheço um 6 ou 7.
[00:09:47] Isso aí é impressionante.
[00:09:48] Eu acho que o 6 ou 7 é o que eu tinha visto em toda a minha vida.
[00:09:51] O Estados Unidos é uma combinação, eu acho, do mundo moderno, estressado.
[00:09:56] E a combinação de uma cultura de relação com a comida que é um pouquinho diferente,
[00:10:00] por exemplo, da cultura europeia.
[00:10:02] É verdade.
[00:10:03] Não vê isso na Europa ainda.
[00:10:05] Obviamente, tu imagina que na Alemanha, tu tem o mesmo grau de estresse.
[00:10:09] Então, tu não vê a mesma coisa porque o que os Estados Unidos fez foi desmanchar o ritual
[00:10:14] de comer.
[00:10:16] Não existe o ritual de comer.
[00:10:18] Existe o ato de consumo.
[00:10:19] A comida é uma coisa quase como respirar.
[00:10:21] Enquanto que na França, por exemplo, que eu conheço mais,
[00:10:24] se respeita muito o ritual do momento da comida.
[00:10:26] O momento de sentar a mesa.
[00:10:28] Na França, na Espanha.
[00:10:29] Na verdade, o Brasil está sentado no meio disso.
[00:10:32] Nós somos um povo meio desprovido de tradições.
[00:10:35] E rapidamente aderimos às novas práticas.
[00:10:37] Isso a gente costuma orientar até lá, atendendo crianças com obesidade e tal.
[00:10:43] A gente diz, olha, a mesa e as cadeiras existem por um motivo adaptativo.
[00:10:47] Então, para comer, tem que sentar a mesa, fazer a refeição testilada.
[00:10:51] Só fazer isso.
[00:10:52] E não levar a comida para frente do computador.
[00:10:54] Ou levar o livro do lado da mesa para comer.
[00:10:56] Exatamente.
[00:10:57] Agora, tu descreveste essa sequência, vamos dizer, como é que foi dito, o eixo esse.
[00:11:03] O eixo principal.
[00:11:05] Voltando até a uma pergunta que eu tinha feito antes.
[00:11:07] A gente sabe que a pessoa que vai ficando com ansiedade crônica,
[00:11:11] ela tem mudanças nesse sistema.
[00:11:13] E onde é que essas mudanças acontecem?
[00:11:15] Elas podem acontecer em diversos…
[00:11:16] Por exemplo, uma pessoa que tem uma tendência a ser mais estressada.
[00:11:20] Isso significa que…
[00:11:21] Pode significar que toda a primeira parte do processo seja ok.
[00:11:25] Mas, por exemplo, quando chega ali na liberação de adrenalina, libera demais do que devia.
[00:11:30] Ou pode dizer que seja lá e lá no hipotálamo.
[00:11:32] Mas o problema mesmo acontece com o crônico.
[00:11:35] No meu caso, claro, eu sou semi-obeso.
[00:11:37] Não é essa a questão.
[00:11:38] A questão é dizer em que.
[00:11:39] Concessões ao rádio.
[00:11:40] Mas em que momento pode haver o desequilíbrio?
[00:11:43] Pode ser no começo ou pode ser em algum momento intermediário que a abundância começa a acontecer?
[00:11:47] É.
[00:11:48] Ou lá no final, que parece que é bem…
[00:11:50] São os receptores.
[00:11:51] São os receptores.
[00:11:52] Então existe uma parte do cérebro que é responsável por uma série de funções.
[00:11:55] Mas entre elas, encerrar a resposta ao estresse.
[00:11:58] Então o hipocampo tem receptores de glicocorticoide que percebem.
[00:12:02] Tem bastante cortisol.
[00:12:04] Vamos encerrar a resposta.
[00:12:06] Então os receptores percebem que o glicocorticoide inibem o eixo.
[00:12:10] Então o número e a funcionalidade dos receptores nessa região lá.
[00:12:14] São responsáveis então por terminar.
[00:12:17] Ou demorar mais para terminar a ativação do eixo.
[00:12:20] E aí a modulação disso aí vai determinar a resposta.
[00:12:24] Duração, intensidade da resposta.
[00:12:26] Mas a gente está num momento de entendimento do sistema.
[00:12:29] Que a gente sabe quais são as…
[00:12:31] Onde é que provavelmente está acontecendo o defeito.
[00:12:33] Nessa parte que eu estou falando especificamente é lá no hipocampo.
[00:12:36] É no hipocampo.
[00:12:37] Se tem aquele problema no hipocampo, certamente vai ter o problema.
[00:12:40] É.
[00:12:41] E está relacionado especificamente com o receptor GR de glicocorticoide.
[00:12:45] Que é o responsável por encerrar a resposta.
[00:12:47] Então uma pessoa que tem ansiedade crônica.
[00:12:50] Então se ela vai lá no hipocampo, ela vai ter mais ou menos desse receptor?
[00:12:55] Menos ou menos funcionalidade.
[00:12:57] Como está secretando mais constantemente.
[00:12:59] Uma das respostas que tem receptores quando são muito estimulados.
[00:13:02] É de recolher e diminuir a quantidade de receptores.
[00:13:05] Para não ter um tônus, uma ação tão grande.
[00:13:07] Isso.
[00:13:08] Aí o que acontece?
[00:13:09] O organismo para poder produzir a mesma resposta real.
[00:13:11] Precisa produzir mais vezes.
[00:13:13] Então uma coisa realimenta outra.
[00:13:14] Uma das sequelas que tem importantes no hipocampo.
[00:13:16] É que ele promove o glicocorticoide e o morte neuronal no hipocampo.
[00:13:19] Inclusive morrem tantas células que ele encolhe.
[00:13:21] Dá para ver em humanos inclusive o encolhimento.
[00:13:24] O encolhimento em imagens.
[00:13:27] Tem um hipocampo meio murcho assim.
[00:13:29] Uma perda de células.
[00:13:30] Ou um indivíduo que sofre abuso constante.
[00:13:32] Com certeza.
[00:13:33] Eu sempre brinco que dentro do encéfalo, dentro do crânio,
[00:13:36] tu tem os ventrículos.
[00:13:37] O terceiro, o quarto e os laterais.
[00:13:39] Que são quatro ventrículos.
[00:13:41] São espaços vazios.
[00:13:42] Eu sempre brinco que eu sou um incertado.
[00:13:44] Eu tenho também o quinto e o sexto ventrículos.
[00:13:46] São os buracos onde uma vez eu tinha um hipocampo.
[00:13:48] O que explica porque eu nunca acho no meu carro do Saúde do Metroshop.
[00:13:51] Porque o hipocampo tem essa função espacial.
[00:13:53] Enfim, estou brincando.
[00:13:54] Na verdade eu ainda devo ter algum resquício.
[00:13:56] Mas a verdade é que é isso.
[00:13:58] Sequelas cognitivas.
[00:13:59] Vem então do estresse crônico.
[00:14:01] Com o tempo deve ser cumulativo.
[00:14:03] Fora também, não vamos esquecer,
[00:14:05] o lado da relação neuroimunitária.
[00:14:08] Vamos esquecer disso.
[00:14:10] Esses sistemas conversam, então o estresse crônico
[00:14:12] leva a uma depilitação do sistema imunitário.
[00:14:15] As respostas diminuem e o cara fica mais propenso a ter doenças.
[00:14:17] E os estressados estão sempre gripados.
[00:14:19] Estão sempre com diarreia.
[00:14:21] Com problemas de pele, diversos fungos e tudo.
[00:14:24] Toda a defesa do cara cai.
[00:14:26] Essa aí certamente não é uma…
[00:14:28] Não é uma consequência indireta, mas claro.
[00:14:30] Não é um mecanismo adaptativo.
[00:14:31] Isso aí é um defeito do sistema.
[00:14:33] Péssimo, porque um cara tem que lutar contra o outro
[00:14:35] e está com diarreia.
[00:14:36] Não vai dar muito isso, cara.
[00:14:37] Para não ser nisso que eu como uma árvore.
[00:14:39] Esse é o programa Fronteiras da Ciência.
[00:14:41] A gente está discutindo estresse e ansiedade.
[00:14:43] E o nosso site é o frontedaciense.org.br.
[00:14:46] Vou voltar para as crianças.
[00:14:48] Nessa região,
[00:14:50] é uma região bem importante,
[00:14:52] bem sensível no início da vida.
[00:14:54] Assim, eventos que acontecem no início da vida.
[00:14:56] Se fosse um período crítico,
[00:14:58] o período crítico a gente chama
[00:15:00] aquelas partes da organização do sistema nervoso
[00:15:02] que a circuitaria só fica pronta
[00:15:04] depois de montada pelos genes
[00:15:06] e pelo desenvolvimento embriológico,
[00:15:08] fetal, até a autogênia.
[00:15:10] Depois que está semi-pronto,
[00:15:12] ele não está pronto, ele está semi-pronto,
[00:15:14] ele ainda tem que receber estímulos externos
[00:15:16] para ser concluído.
[00:15:17] Por exemplo, se você está com estresse,
[00:15:19] é concluído.
[00:15:20] Por exemplo, o sistema visual é assim.
[00:15:22] Você tem a retina, os núcleos em baixo,
[00:15:24] mais simples, até chegar no córtex visual.
[00:15:26] O teu córtex visual só termina de amadurecer
[00:15:28] se você olha, se você vê,
[00:15:30] se você pega animais,
[00:15:32] fecha os olhinhos dele, um bandaid,
[00:15:34] durante um período crítico,
[00:15:36] os animais ficam cegos.
[00:15:37] Não porque eles perderam a retina, nem aqueles outros núcleos,
[00:15:39] mas porque o córtex dele foi fazer outra coisa.
[00:15:41] Não sabe processar.
[00:15:42] Em humanos também acontece isso,
[00:15:44] de forma um pouco mais sutil,
[00:15:46] mas tem casos particulares muito raros.
[00:15:48] Se você tem um sistema de resposta emocional,
[00:15:50] eu vou dizer isso.
[00:15:51] É isso que eu queria perguntar para a Patrícia.
[00:15:53] Isso leva a ter uma noção de que exista
[00:15:55] talvez uma certa irreversibilidade?
[00:15:57] Não é fatalista, mas…
[00:15:59] Tem essas discussões muito polêmicas
[00:16:01] sobre violência, que diz que
[00:16:03] teve o dano naquela parte da vida,
[00:16:05] agora para sempre vai ser um problema.
[00:16:08] Até de recuperação de criminosos e coisas assim.
[00:16:11] Sim, a questão da reeducação ser possível.
[00:16:13] Isso, exatamente.
[00:16:15] E tem essa polêmica na violência.
[00:16:17] Eu queria saber se existe uma questão parecida
[00:16:19] na questão da ansiedade.
[00:16:21] Aí assim, quanto mais cedo
[00:16:23] se tentar reverter, melhor.
[00:16:25] Porque justamente porque a gente pega
[00:16:27] essas janelas de plasticidade,
[00:16:29] o sistema está aberto às informações.
[00:16:31] Por bem ou por mal.
[00:16:33] Então, por exemplo, no caso…
[00:16:35] A gente falou antes daquele experimento
[00:16:37] onde só se observava o cuidado materno
[00:16:39] nas ratas, numa população de ratas.
[00:16:41] Comparava aquelas que cuidavam muito,
[00:16:43] cuidavam um pouco dos filhotes.
[00:16:45] Os filhotes de mães muito cuidadoras,
[00:16:47] ou aquele ambiente melhor,
[00:16:49] eles têm mais receptores de glicocorticoides
[00:16:51] nessa região aí do hipocampo.
[00:16:53] Portanto, a resposta ao estresse deles
[00:16:55] é mais atenuada e eles,
[00:16:57] na vida inteira, são expostos a menos
[00:16:59] glicocorticoides.
[00:17:01] Então, eles parecem seriam os autoconfiantes.
[00:17:03] Exatamente.
[00:17:05] Mas tem os filhos de mães pouco cuidadoras,
[00:17:07] que é tudo o contrário.
[00:17:09] Então, eles têm menos receptores de glicocorticoides
[00:17:11] nessa região. Reagem mais ao estresse,
[00:17:13] porque eles são mais nervosos, tem todo esse perfil
[00:17:15] de estressado, ansioso.
[00:17:17] Esse receptor está ali para quando
[00:17:19] você detecta, você acaba.
[00:17:21] Nesse tipo de animal, por exemplo,
[00:17:23] se a gente pegar um filho de mãe
[00:17:25] pouco cuidadora, que é todo nervoso,
[00:17:27] todo estressado, e fizer
[00:17:29] uma estimulação ambiental durante
[00:17:31] a infância do rato, expor ele
[00:17:33] numa gaiola cheia de brinquedinhos,
[00:17:35] diferentes texturas…
[00:17:37] Se chama ambiente enriquecido.
[00:17:39] … ambiente enriquecido, reverte o efeito
[00:17:41] durante a infância.
[00:17:43] Isso tem um equivalente para humanos?
[00:17:45] Claro, o cara é criado numa favela sem estímulos,
[00:17:47] uma vida pobre, miserável, sem espaço para brincar,
[00:17:49] sem objetos, sem interações sociais
[00:17:51] construtivas e positivas.
[00:17:53] Por outro lado, o subjetivo
[00:17:55] construgente a abusos psicoafetivos,
[00:17:57] cidadão físicos também, obviamente
[00:17:59] isso explica parte da
[00:18:01] cadeia de produção
[00:18:03] traumatizados, psicológicos e
[00:18:05] eventuais parte da violência.
[00:18:07] Mas você consegue imaginar que eles têm crianças de…
[00:18:09] Que são ansiosas, mas estão
[00:18:11] em um ambiente…
[00:18:13] Não é determinista isso aí,
[00:18:15] tem muita margem, é uma curva de
[00:18:17] gás, mas nesse caso, esse é um ambiente
[00:18:19] propiciador.
[00:18:21] O que eu queria perguntar para a Patrícia é isso,
[00:18:23] se imaginam um programa de reeducação
[00:18:25] para humanos nessa linha, que se observa com o rato,
[00:18:27] se diz, considera isso,
[00:18:29] se diz, por exemplo, quando uma mãe leva
[00:18:31] um filho ansioso para o médico,
[00:18:33] o que o médico vai dizer, o que o pediatra vai dizer,
[00:18:35] o especialista vai dizer para ela?
[00:18:37] Bota numa gaiola cheia de brinquedos.
[00:18:39] O que se diz?
[00:18:41] O que dessa pesquisa passou para a Prática Mérida?
[00:18:43] Existe uma série de pesquisas
[00:18:45] propondo programas de intervenção,
[00:18:47] e até mais cedo lá na vida,
[00:18:49] intervenções que promovam a interação
[00:18:51] mãe-bebê, então assim,
[00:18:53] melhora essa relação, melhora o cuidado,
[00:18:55] mais tempo e tal.
[00:18:57] A pesquisa sobre isso ainda nos trouxe
[00:18:59] uma resposta muito
[00:19:01] clara da efetividade disso
[00:19:03] a longo prazo. E isso são estudos
[00:19:05] que estão pedindo para ser feitos.
[00:19:07] Qual o impacto disso
[00:19:09] a longo prazo? Será que a gente consegue reverter?
[00:19:11] Será que ser adulto não vai ser ansioso?
[00:19:15] Claro que são estudos muito difíceis
[00:19:17] de fazer por causa do
[00:19:19] seguimento a longo prazo e também
[00:19:21] por coisas metodológicas,
[00:19:23] por exemplo, assim, não se sabe
[00:19:25] o que acontece durante a vida desses indivíduos.
[00:19:27] Eu acho interessante que o tratamento,
[00:19:29] a reversibilidade é
[00:19:31] esperar poder reverter para um estado mais
[00:19:33] normal, mas também é possível tratar
[00:19:35] os sintomas, que tu não reverte, mas tu lida
[00:19:37] com eles, é como a SIDA,
[00:19:39] ou AIDS, tu não tem uma cura ainda, mas tu
[00:19:41] tem o tratamento dos sintomas e o cara pode viver
[00:19:43] muitos anos com certos cuidados e
[00:19:45] sobrevive, ele não vai ter uma vida perfeitamente
[00:19:47] tranquila, mas ele vai ter uma vida,
[00:19:49] uma coisa que há 20 anos atrás não era possível.
[00:19:51] No caso do tratamento de situações como essa,
[00:19:53] tu talvez não consiga reverter,
[00:19:55] é meio complexo, são sistemas muito intrincados,
[00:19:57] mas tu pode, tu tem uma série de
[00:19:59] medicamentos para começar que são usados
[00:20:01] e até abusados.
[00:20:03] São abusados,
[00:20:05] os ansiolíticos,
[00:20:07] os antidepressivos
[00:20:09] seriam reverte
[00:20:11] também ansiolíticos. Eles trabalham na mesma linha
[00:20:13] porque os sistemas convergem
[00:20:15] e estão no contínuo.
[00:20:17] Depressão é uma coisa mais complexa que a ansiedade,
[00:20:19] mas tem uma relação e envolve, por exemplo,
[00:20:21] serotonina, serotoninérgica,
[00:20:23] dopalinérgica, então são sistemas
[00:20:25] que estão meio que transitando aqui no meio
[00:20:27] dessas duas coisas. Também não podemos achar
[00:20:29] que porque existem medicamentos que estão cada vez melhores,
[00:20:31] porque também as pessoas são diferentes,
[00:20:33] tu precisa acabar, os sistemas que
[00:20:35] estão realmente pesando mais em cada caso
[00:20:37] não são os mesmos, por isso que os medicamentos não tem o mesmo resultado
[00:20:39] nas pessoas. O cara diz, po, mas eu tomei
[00:20:41] o remedinho e não deu nada, ou piorei,
[00:20:43] e pode acontecer. O cara está deprimido,
[00:20:45] tomou antidepressivo e tem ataca de pânico,
[00:20:47] que, aliás, é comum, o antidepressivo é um medicamento
[00:20:49] muito perigoso, que tem que ser tomado
[00:20:51] com um comportamento médico constante,
[00:20:53] porque nos primeiras 4 a 6 semanas,
[00:20:55] é bom dizer, tu está fazendo a adaptação,
[00:20:57] tu está realmente regulando a quantidade de receptores,
[00:20:59] essas mudanças são tão dramáticas
[00:21:01] quando a adolescência é,
[00:21:03] em termos de hormônios, e tu pode ter nesse
[00:21:05] desbalanço momentâneo, um ataque de pânico
[00:21:07] e até suicídio acontece em alguns casos.
[00:21:09] Isso é perigoso porque os antidepressivos são usados
[00:21:11] inclusive para tratar a obesidade, o pessoal compra
[00:21:13] no mercado negro e toma em quantidades maiores
[00:21:15] que se usa para a depressão, podendo
[00:21:17] ir nas situações dessas, ou seja, a loucura
[00:21:19] é grande. E o que são os remédios
[00:21:21] para a ansiedade? Para criança, se usa
[00:21:23] bastante antidepressivo, assim,
[00:21:25] mas assim, foge um pouco da minha área
[00:21:27] de farmacologia
[00:21:29] para ir mais…
[00:21:31] Apesar de ser farmacologista,
[00:21:33] eu trabalho com memória e não com ansiedade, então não
[00:21:35] poderia dar exêmenos, mas temos o mais famoso,
[00:21:37] o mais antigo, ansiolítico,
[00:21:39] ou seja, um fármaco
[00:21:41] disruptor da resposta
[00:21:43] da ansiedade, são os biônios de azepínicos.
[00:21:45] Os de azepãs.
[00:21:47] O de empaxe, de boa vez.
[00:21:49] Atualmente,
[00:21:51] se diversificou de uma família enorme de fármacos
[00:21:53] que tem vários tipos, ele também
[00:21:55] é usado para outras coisas.
[00:21:57] Esses biônios de azepínicos são fundamentais
[00:21:59] no tratamento da epilepsia também, porque eles atuam
[00:22:01] sobre os receptores gabaérgicos, que são o freio
[00:22:03] de todo o seu nervoso. E frear a resposta
[00:22:05] de ansiedade também é parecido
[00:22:07] com frear um ataque epilético.
[00:22:09] Só que são doses diferentes,
[00:22:11] situações diferentes. O remédio é um remédio que tenta
[00:22:13] diminuir a resposta geral do cara.
[00:22:15] O cara fica abatido.
[00:22:17] Se a ansiedade é uma
[00:22:19] série de retroações positivas que se realimentam
[00:22:21] em uma espiral ascendente, ele
[00:22:23] vai e freia o cara e o cara afunda.
[00:22:25] É bom freio.
[00:22:27] Aí não só
[00:22:29] diminui a ansiedade, como
[00:22:31] diminui uma série de outras coisas que são boas.
[00:22:33] E tu não quer diminuídas.
[00:22:35] O que está se descobrindo, na verdade, é que
[00:22:37] cada caso é um caso.
[00:22:39] A coisa está ficando meio alacarte.
[00:22:41] O cara tem um bloqueio, eu estou escrevendo
[00:22:43] o meu livro, não consigo terminar o meu livro,
[00:22:45] porque eu estou muito ansioso. Eu tomo esse remédio
[00:22:47] e não consigo terminar o meu livro, porque não consigo pensar.
[00:22:49] Não estou motivado.
[00:22:51] A gente tem que ver,
[00:22:53] bem como Jorge falou, cada caso é um caso.
[00:22:55] Complicado da
[00:22:57] farmacoterapia, que também
[00:22:59] existem momentos da vida, e isso
[00:23:01] é bem claro para quem trabalha com crianças,
[00:23:03] em que se enfrenta crises.
[00:23:05] E tem que passar por elas.
[00:23:07] Adolescentes
[00:23:09] são momentos…
[00:23:11] Isso que você está falando, Patrícia, é muito interessante, porque eu vi alguém diz uma vez
[00:23:13] essa frase que ficou na minha cabeça,
[00:23:15] que no mundo moderno, ficar
[00:23:17] uma patrícia é uma doença.
[00:23:19] Estesa passou a ser uma patologia, a ser tratada quimicamente.
[00:23:21] Eu fico me perguntando, dessa geração toda tratada
[00:23:23] com outro remédio que acaba tendo um papel
[00:23:25] fortemente, a Ritalina, né?
[00:23:27] Eu acho que é uma questão que já discutimos aqui, é uma coisa super
[00:23:29] diagnosticada. Se usa
[00:23:31] mais para controle social,
[00:23:33] nessa escala, do que de fato para tratar casos
[00:23:35] que de fato precisam ir. Tem caso que precisa sim,
[00:23:37] e é fundamental, mas certamente é abusado
[00:23:39] em muitos outros casos. A minha pergunta é como é que
[00:23:41] vamos amadurecer, como é que vamos amadurecer essa geração
[00:23:43] que não vive plenamente
[00:23:45] de doenças psicoafetivas, que está drogada
[00:23:47] nesse momento, né? Por essa razão que
[00:23:49] muitos tratamentos psiquiátricos com fármacos
[00:23:51] não são usados para menores de idade, porque
[00:23:53] tem que deixar o cara amadurecer, depois
[00:23:55] é que você vai ver o que vai fazer. Não vamos
[00:23:57] acreditar na panaceia
[00:23:59] química. Existe um mercado
[00:24:01] muito poderoso, farmacêutico, para vender
[00:24:03] a felicidade química, mas não é bem assim
[00:24:05] a coisa. Isso ajuda, é fundamental,
[00:24:07] mas não é tudo, e pelo contrário,
[00:24:09] ele tende a ser um problema em muitos anos,
[00:24:11] como o caso da Ritalina, até dos antidepressivos
[00:24:13] também é um abuso que há. A questão que
[00:24:15] também tem o lado das terapias,
[00:24:17] das psicoterapias. Ou seja, a ansiedade
[00:24:19] pode ser tratada em boa parte, com
[00:24:21] variados graus de sucesso, porque cada pessoa
[00:24:23] é uma pessoa, com uma relação
[00:24:25] com um terapeuta, que é uma relação que envolve
[00:24:27] conversa, conhecimento mútuo
[00:24:29] progressivo, descoberta de
[00:24:31] certas estruturas psiquiátricas. Que é de fato uma outra
[00:24:33] forma da gente interagir
[00:24:35] e modificar o cérebro, né?
[00:24:37] Totalmente. É uma outra forma.
[00:24:39] É aquilo que tu faz na vida
[00:24:41] inteira, se relacionando, tendo amizade,
[00:24:43] conversando, te abrindo, amando.
[00:24:45] Grosseiramente, superficialmente,
[00:24:47] um tratamento psiquiátrico
[00:24:49] é uma coisa que visa modificar
[00:24:51] a estrutura cerebral, o funcionamento.
[00:24:53] Porque, basicamente, quando tu tá fazendo uma terapia
[00:24:55] dessa, tu tá usando o teu sistema
[00:24:57] endógeno, interno,
[00:24:59] que envolve os mesmos, né, tradutores? Sacando
[00:25:01] detalhes, sem interferir artificialmente
[00:25:03] com eles. Tu não tá sobrepesando
[00:25:05] eles, não tá esmagando e oprimindo eles.
[00:25:07] Eu até queria me meter no que tinha de falar, porque eu sou quase
[00:25:09] um discurso contra a ciência, né?
[00:25:11] É o contrário. É o lado que as pseudociências
[00:25:13] e as medicinas alternativas estão um pouco certas.
[00:25:15] E eles são muito bons nessa parte de lidar
[00:25:17] com a ansiedade. Porque eles estão conversando
[00:25:19] e dando atenção pras pessoas. 90%
[00:25:21] ou mais do resultado de muitas dessas
[00:25:23] terapias pseudocientíficas
[00:25:25] funcionam porque as pessoas, na verdade, têm sintomas
[00:25:27] que são de origem psicosomática, psicológica.
[00:25:29] Elas são solitárias, ansiosas,
[00:25:31] sozinhas, sem companhia e recebem
[00:25:33] a atenção de alguém. Isso ajuda, porque
[00:25:35] se tu tem uma mão amiga te segurando, claro que é bom.
[00:25:37] Eu vejo as psicoterapias, na verdade,
[00:25:39] são terapias de relacionamento. Tem muitos tipos
[00:25:41] e funcionam de variadas formas com
[00:25:43] várias pessoas. Mas a ideia aqui é assim
[00:25:45] nós temos todos esses sistemas lá dentro. E
[00:25:47] pelo sistema sensorial e pela cognição
[00:25:49] nós temos como controlar
[00:25:51] e regular finamente os nossos hormônios
[00:25:53] e neurotransmissores e tudo mais. Eu fico
[00:25:55] imaginando que o cérebro, o encéfalo
[00:25:57] no fundo desses sistemas neuroquímicos que
[00:25:59] controlam nosso humor, nossas ansiedade e tudo mais,
[00:26:01] são como uma arpa que tá ali, montada pela
[00:26:03] natureza, geneticamente, moldada
[00:26:05] afinamente pelas experiências da tua vida
[00:26:07] e pelo teu dia a dia, pronta pra ser
[00:26:09] tocada. Só que a gente não se submete
[00:26:11] em situações onde alguém vai lá e ajuda a tocar ela.
[00:26:13] Nós não temos uma relação que não ajuda a tocar ela.
[00:26:15] Então a gente pega e faz o seguinte, ele toma um remédio
[00:26:17] e faz o quê? O remédio é mais ou menos como
[00:26:19] pegar um martelo e começar a bater nas cordas da arpa
[00:26:21] e sair por decisões.
[00:26:23] E cadê os dedinhos que tu acalça de cada um?
[00:26:25] Eu gostei do teu comentário, mas eu penso assim
[00:26:27] imagine que tem uma arpa e tem uma corda
[00:26:29] que tá desafinada. Que é um sistema
[00:26:31] desfuncional. Isso, tem uma corda
[00:26:33] desfuncional. Então o remédio esse é tu tentar
[00:26:35] afinar todas ao mesmo tempo.
[00:26:37] E ao tentar afinar todas ao mesmo tempo
[00:26:39] tu tira algumas do…
[00:26:41] Gostei da tua metáfora porque ela me lembrou outra coisa. Às vezes tu não consegue
[00:26:43] arrumar aquela corda, mas tu compensa com as
[00:26:45] demais. Usando inclusive sobretons e
[00:26:47] harmônios. Eu vou dar um exemplo, Parkinson
[00:26:49] que é outra doença fascinante e terrível,
[00:26:51] mas fascinante no sentido de compreendê-la
[00:26:53] que a pessoa não consegue caminhar, não consegue
[00:26:55] movimentar, com pequenos desvios
[00:26:57] de atenção. Por exemplo, deixa o cara lá
[00:26:59] fazer caminhar e ele não consegue caminhar. Aí tu faz ele ficar
[00:27:01] contando um, dois, três, quatro enquanto fala.
[00:27:03] Ele passa a caminhar como qualquer pessoa normal.
[00:27:05] Então é como assim, na verdade
[00:27:07] o que ele tá fazendo, já que o sistema
[00:27:09] que diretamente faz ele
[00:27:11] conscientemente caminhar não funciona, ele toma
[00:27:13] um atalho passando por outra coisa que o distrai
[00:27:15] e acaba trocando a arpa.
[00:27:17] Ele caminha e controla. Isso pode ser feito
[00:27:19] comportamentalmente e quimicamente também.
[00:27:21] O que tu acha exatamente dessa questão das
[00:27:23] psicoterapias combinadas com os fármacos?
[00:27:25] Porque eu diria que o futuro promissor
[00:27:27] seria mais e melhores relações
[00:27:29] humanas, uma sociedade mais equilibrada
[00:27:31] e fármacos sendo usados como complemento
[00:27:33] mas não como mercado. Eu acredito
[00:27:35] plenamente, claro, na função dos
[00:27:37] fármacos. Para alguns casos
[00:27:39] eles são essenciais, é impossível
[00:27:41] tratar alguns casos sem eles. Mas
[00:27:43] em muitos casos, claro que a terapia
[00:27:45] eles são discutíveis e retiráveis.
[00:27:47] Sim, exatamente.
[00:27:49] Eu vou até mais porque a terapia, quando a gente fala
[00:27:51] em terapia a gente parece falar daquela situação
[00:27:53] do terapeuto,
[00:27:55] do analisado, etc.
[00:27:57] Às vezes é fazer esportes.
[00:27:59] Às vezes é fazer
[00:28:01] dança com a namorada.
[00:28:03] A dança é uma terapia excelente, eu
[00:28:05] recomendo. Então não é só a
[00:28:07] escolha entre o fármaco e o analista.
[00:28:09] A escolha entre o fármaco e o analista
[00:28:11] e possibilidade de mudança
[00:28:13] de comportamento. Tem alguns estudos bem
[00:28:15] interessantes que agora tem explorado
[00:28:17] mais essa questão assim de
[00:28:19] os eventos que ativam áreas específicas
[00:28:21] do CR. Acho que foi no ano passado que saiu
[00:28:23] um artigo que era em relação
[00:28:25] a música e eles fizeram
[00:28:27] resumação magnética funcional. A música
[00:28:29] ativa o sistema dopaminético mesolímbico
[00:28:31] do cérebro. Que é o sistema da recompensa.
[00:28:33] Que é o sistema da recompensa. Meso olímbico,
[00:28:35] lembra?
[00:28:37] É o mesmo sistema que é ativado
[00:28:39] quando se come um alimento
[00:28:41] muito gostoso, ou até mesmo
[00:28:43] que é ativado quando se usa drogas de abuso.
[00:28:45] Ou quando se tem experiência de prazer sexual
[00:28:47] ou orgasmo. Mas é, então
[00:28:49] assim, fizeram imagem
[00:28:51] dos indivíduos enquanto ouviam a música
[00:28:53] e esse sistema é ativado. Então, tenho
[00:28:55] certeza que existem outras formas
[00:28:57] da gente ir modulando
[00:28:59] o sistema nervoso central e adaptando
[00:29:01] o funcionamento dele pra levar uma vida mais
[00:29:03] equilibrada. Mais equilibrada e feliz.
[00:29:05] A dança, eu acho que ela tem
[00:29:07] esse esquema interessante porque
[00:29:09] é a apreciação musical
[00:29:11] misturada com esse
[00:29:13] foco no seu corpo. Na verdade,
[00:29:15] dança é música ouvida e
[00:29:17] interpretada. Interpretada, isso.
[00:29:19] Então é uma apreciação
[00:29:21] diferente porque existe a tradução corporal
[00:29:23] dela. Eu comparo a dança com a
[00:29:25] música assim como a leitura e a escrita.
[00:29:27] Mas a escrita é tudo, leia e escreve.
[00:29:29] Até uma coisa que eu tirei como lição mais
[00:29:31] importante talvez, eu não tinha falado, como é que eu reverto
[00:29:33] isso? E parece que reverter não é possível, mas
[00:29:35] tratar os sintomas é via
[00:29:37] fármacos, via terapias, via várias
[00:29:39] coisas e, certamente também, nós vamos
[00:29:41] ter que mudar algumas coisas nos nossos modos vivende.
[00:29:43] Meio que todas as terapias apontam pra isso,
[00:29:45] mas a sociedade não discute isso.
[00:29:47] Não discute. Mas se quiser uma coisa pra reverter,
[00:29:49] vamos pensar no que nós falamos no início do programa.
[00:29:51] As sequelas duradouras das
[00:29:53] experiências lá no início da vida,
[00:29:55] que acontecem muito e que variam também de caso
[00:29:57] pra caso, mas geralmente podem ser muito negativas.
[00:29:59] Crianças traumatizadas ou que tem
[00:30:01] mudanças plásticas ocorridas em função
[00:30:03] das suas experiências precoces que acabam
[00:30:05] fazendo você uma pessoa muito ansiosa e sofrendo.
[00:30:07] A melhor forma de evitar isso é evitar que isso
[00:30:09] continue acontecendo.
[00:30:11] Crianças têm que receber um tratamento
[00:30:13] especial e isso é uma debanda urgente.
[00:30:15] Nós temos que melhorar o nosso sistema de ensino,
[00:30:17] o nosso sistema de saúde, a nossa cultura
[00:30:19] da infância, temos que respeitar a criança,
[00:30:21] tem que onerar ela menos, pressionar ela menos
[00:30:23] e uma das coisas que me preocupam muito
[00:30:25] é elas estarem submetidas à sociedade de consumo
[00:30:27] e tratadas como se fossem mini adultos.
[00:30:29] No Brasil é o debate de agora.
[00:30:31] A sociedade de consumo sabe que é o lado frágil
[00:30:33] da família, da porta de entrada da família.
[00:30:35] A criança até os 7 anos não distingue
[00:30:37] a realidade fantasia, ela vê uma propaganda
[00:30:39] de um negócio que diz que aquilo não é nem sequer
[00:30:41] uma mentira, é absolutamente
[00:30:43] verdadeiro e sólido, tão sólido quanto a
[00:30:45] vida imaginária. É de uma crueldade espantosa.
[00:30:47] Então vamos debater isso.
[00:30:49] Temos que discutir a propaganda da infância.
[00:30:51] E também acaba explorando a culpa dos pais.
[00:30:53] E isso tudo que alimenta a ansiedade.
[00:30:55] A criança é a forma mais fácil
[00:30:57] de entrar, tanto para a violência,
[00:30:59] por exemplo, se uma pessoa quer atacar uma família
[00:31:01] ele sequestra uma criança.
[00:31:03] Totalmente derrassador.
[00:31:05] Assim como essas outras formas, o consumo é muito
[00:31:07] mais fácil do consumo entrar pela criança.
[00:31:09] Na verdade ele deveria ser proibido e isso está em debate
[00:31:11] agora, espero que vença, porque em alguns países da Europa
[00:31:13] já é, nos Estados Unidos até tem algum controle
[00:31:15] e aqui está totalmente descontrolado.
[00:31:17] Só uma palavrinha, sempre que a gente fala em estresse em criança
[00:31:19] a gente pensa naqueles casos extremos,
[00:31:21] abuso, negligência
[00:31:23] com a criança, mas tem outros
[00:31:25] eventos que acontecem no início
[00:31:27] e mais ainda no início da vida
[00:31:29] durante a vida fetal, que também podem ter uma marca
[00:31:31] persistente, por exemplo,
[00:31:33] hipertensão durante a agitação, diabetes,
[00:31:35] coisas assim que podem acontecer.
[00:31:37] Então assim, cuidar da criança
[00:31:39] não só em termos da infância,
[00:31:41] mas até assim, cuidado pré-natal,
[00:31:43] saúde da gestante,
[00:31:45] orientação da mulher,
[00:31:47] de acompanhamento.
[00:31:49] E durante a infância ter comida
[00:31:51] saudável, cultura saudável.
[00:31:53] Mas isso é o mais difícil, porque nós não temos.
[00:31:55] Bom, então esse foi o programa Fronteiras da Ciência,
[00:31:57] hoje a gente discutiu, foi o segundo programa
[00:31:59] sobre estresse e ansiedade,
[00:32:01] convidada de hoje é a
[00:32:03] doutora Patrícia Silveira, que é pediatra
[00:32:05] e doutora em neurociência, professor do departamento
[00:32:07] de pediatria da URX.
[00:32:09] Tiveram aqui também o Jorge,
[00:32:11] e eu o Mario Pediari.
[00:32:13] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto
[00:32:15] do Instituto de Física da URX,
[00:32:17] técnica de Gilson de César
[00:32:19] e direção técnica de
[00:32:21] Francisco Guazelli.