Teoria de Cordas
Resumo
O episódio aborda a teoria de cordas como uma tentativa de unificar a gravitação com a mecânica quântica. Marcelo Disconzi, professor de matemática e especialista no tema, explica a ideia central: partículas elementares como elétrons e quarks seriam manifestações de um único objeto fundamental, uma corda vibrante em diferentes frequências. A teoria prevê naturalmente o gráviton, a partícula mediadora da força gravitacional, e exige a existência de dez dimensões, das quais seis são compactadas e imperceptíveis em nossa escala.
Os participantes discutem a história da teoria, desde sua origem na década de 1960 para modelar hádrons até sua “ressurreição” nos anos 1980 como candidata à gravitação quântica. São mencionados marcos importantes, como a proposta da teoria M por Edward Witten na década de 1990, que unificou cinco versões da teoria, e a incorporação do princípio holográfico. O debate também aborda o desafio das inúmeras soluções possíveis (as variedades Calabi-Yau, estimadas em 10^500) e a dificuldade de selecionar a configuração que corresponde ao nosso universo.
O programa explora as críticas à teoria, incluindo a falta de previsões testáveis no curto prazo e a consequente diminuição no número de vagas acadêmicas na área. Compara-se o entusiasmo da década de 1990 com o cenário atual, onde áreas como a cosmologia (com questões como matéria escura e energia escura) e a física de partículas experimental (com o LHC) atraem mais atenção. A conversa também toca na relação entre ondas gravitacionais (um fenômeno clássico) e grávitons (sua contraparte quântica), e na esperança de que avanços experimentais indiretos possam um dia testar as previsões da teoria.
Por fim, discute-se o futuro da pesquisa em teoria de cordas, centrado na busca por um princípio que selecione naturalmente a variedade Calabi-Yau correta entre as incontáveis possibilidades. Os participantes refletem sobre a natureza da ciência, a importância de modelos matemáticos mesmo quando contra-intuitivos, e a necessidade de paciência e criatividade para desenvolver testes experimentais para ideias que operam em escalas de energia inacessíveis atualmente.
Indicações
Conceitos
- Variedades Calabi-Yau — Espaços geométricos de 6 dimensões nos quais as dimensões extras da teoria de cordas são compactadas. Existem estimativas de 10^500 configurações possíveis, criando um grande problema de seleção.
- Gráviton — Partícula mediadora da força gravitacional, prevista como uma partícula de spin 2 e sem massa. A teoria de cordas a prevê naturalmente entre seus modos de vibração.
Experimentos
- LHC (Large Hadron Collider) — Grande Colisor de Hádrons. Foi mencionado como uma esperança para testar previsões da teoria de cordas, expectativa que não se concretizou, contribuindo para um desvio de interesse na área.
- Observatórios de ondas gravitacionais — Mencionado que existem observatórios no mundo, inclusive no Brasil (Minas Gerais), tentando detectar diretamente ondas gravitacionais, uma predição clássica de Einstein que validaria aspectos da relatividade geral.
- Telescópio Espacial James Webb — Mencionado como uma ferramenta futura que trará muitos dados para a cosmologia, área que atualmente atrai mais pesquisadores do que a teoria de cordas.
Pessoas
- Edward Witten — Físico teórico que propôs a Teoria M em 1995, unificando as cinco versões da teoria de cordas. É mencionado como um dos físicos mais citados.
- Juan Maldacena — Físico argentino de Princeton que formalizou a ideia do princípio holográfico no contexto da teoria de cordas, permitindo cálculos concretos.
- Shing-Tung Yau — Matemático que provou a conjectura de Calabi, estabelecendo a existência dos espaços conhecidos como variedades Calabi-Yau, cruciais para a teoria de cordas.
- Eugenio Calabi — Matemático que formulou a conjectura sobre a existência de certos espaços geométricos, posteriormente provada por Yau, dando origem às variedades Calabi-Yau.
Teorias
- Teoria M — Proposta por Edward Witten em 1995, unificou as cinco versões da teoria de cordas sob um único framework, representando a ‘segunda revolução’ na área.
- Princípio Holográfico — Ideia de que uma teoria gravitacional em um espaço de dimensão D é equivalente a uma teoria sem gravidade em um espaço de dimensão D-1. Foi formalizada no contexto das cordas por Juan Maldacena.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao programa e ao tema Teoria de Cordas — Apresentação do programa Fronteiras da Ciência e do tema do episódio: a teoria de cordas. É apresentado o convidado especialista, Marcelo Disconzi, e os demais participantes. Contextualiza-se a discussão como continuação de um programa anterior sobre gravitação quântica.
- 00:02:50 — Explicação básica da Teoria de Cordas — Marcelo Disconzi explica a ideia fundamental da teoria: partículas elementares (elétrons, quarks, múons) não são pontuais, mas sim diferentes modos de vibração de um único objeto fundamental, uma ‘corda’. A analogia com as vibrações de uma corda de violão é usada para ilustrar como diferentes frequências geram diferentes partículas.
- 00:06:04 — Relação com a gravitação e o gráviton — Discute-se como a teoria de cordas prediz naturalmente uma partícula de spin 2 e sem massa, que é identificada como o gráviton, o mediador da força gravitacional. Explica-se que essa descoberta foi um dos motivos para o ressurgimento do interesse pela teoria nos anos 80, após sua origem nos anos 60 para modelar hádrons.
- 00:11:18 — Histórico e a Teoria M de Edward Witten — Marcelo descreve o pico de popularidade da teoria na década de 1990, impulsionado por Edward Witten, que propôs a Teoria M. Esta teoria mostrou que as cinco versões diferentes da teoria de cordas eram manifestações de uma única teoria subjacente. Discute-se a expectativa não cumprida de que a teoria fizesse previsões testáveis no LHC.
- 00:16:52 — O problema das dimensões extras — Os participantes abordam uma característica peculiar da teoria: a necessidade de 10 dimensões para ser matematicamente consistente. Explica-se que as 6 dimensões extras não observadas devem estar ‘compactadas’ ou ‘enroladas’ em escalas muito pequenas, usando a analogia de um cilindro fino que de longe parece uma linha.
- 00:21:22 — Ondas gravitacionais e grávitons — A conversa aborda a detecção de ondas gravitacionais (um fenômeno clássico previsto por Einstein) e sua relação com os grávitons (a partícula quântica correspondente). Explica-se que a teoria de cordas recupera a relatividade geral de Einstein em limites de baixa energia e, portanto, prevê ondas gravitacionais. A detecção direta de grávitons, no entanto, é considerada um desafio tecnológico enorme, talvez impossível.
- 00:25:40 — O desafio das variedades Calabi-Yau — É explicado que as dimensões extras compactadas não são arbitrárias, mas devem ter a forma de espaços especiais chamados variedades Calabi-Yau. O grande problema atual é que existem um número astronômico (estimado em 10^500) dessas configurações possíveis, e a teoria não oferece um princípio para selecionar qual delas corresponde ao nosso universo. Esta é uma das grandes questões em aberto na área.
- 00:27:34 — Futuro da pesquisa e conclusões — Marcelo Disconzi comenta que o principal programa de pesquisa atual é justamente encontrar um princípio que selecione a variedade Calabi-Yau correta. Os participantes refletem sobre o estado da teoria, sua relação com outras áreas da física como a cosmologia, e a importância da criatividade experimental para testar ideias que atualmente parecem inacessíveis. O programa é encerrado com uma mensagem de otimismo sobre a capacidade da ciência experimental de superar desafios.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2013-06-10T12:00:00Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/teoria-de-cordas/aa5dc920-b433-0130-291f-723c91aeae46
- UUID Episódio: aa5dc920-b433-0130-291f-723c91aeae46
Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
- UUID: fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c
Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos
[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.
[00:00:13] Recentemente fizemos um programa sobre a gravitação quântica e que existem muitas teorias que
[00:00:18] buscam fazer essa unificação que seria entre uma teoria gravitacional e a teoria quântica.
[00:00:24] E uma delas é a teoria de cordas, então o tema do programa de hoje vai ser teoria
[00:00:28] de cordas.
[00:00:29] O convidado é o Marcelo Disconzi, que é professor da Universidade de Vanderbilt, em Nashville,
[00:00:34] nos Estados Unidos.
[00:00:35] Ele está no Departamento de Matemática, ele é um especialista em teoria de cordas
[00:00:39] e para debater com ele, o Jorge Kuhfeld, o Jefferson Arienzon e eu, o Marc de Arte.
[00:00:45] Então Marcelo começa falando o que é a teoria de cordas, por que ela é tão interessante.
[00:00:50] A gente falou no programa anterior sobre o número absurdo de 10 na 500 possíveis soluções
[00:00:56] e o Jefferson disse que essa teoria não se vê para nada, e a gente teve que terminar
[00:00:59] o programa antes, então agora você vai ter que explicar um pouco.
[00:01:02] No começo a gente recuperece porque é bom lembrar que esse programa que a gente fez
[00:01:05] antes e um pouco na continuação desse, falamos de gravitação quântica, um assunto que
[00:01:10] deu o título a um programa de 1º de abril de 2013.
[00:01:13] Esse não é um programa de 1º de abril, um programa certo.
[00:01:16] Exatamente, esse é também um programa científico, existe gravitação quântica, foi tratado
[00:01:19] no ano anterior e uma das teorias sobre a borda essa que vamos ver agora.
[00:01:22] É bom lembrar, volta em meia a gente recebe e-mails de ouvintes dizendo assim, como é
[00:01:27] que eu sei se uma coisa é séria, até recentemente recebemos um, como é que eu sei que uma coisa
[00:01:31] é cientificamente séria ou não.
[00:01:33] É importante dizer que não é pelos nomes das teorias, como a gente viu em vários programas
[00:01:38] sérios científicos aqui, os nomes das teorias e dos elementos da teoria podem ser muito
[00:01:44] esquisitos, mas muito engraçados.
[00:01:46] Do poético ao hilário.
[00:01:47] É, do poético ao hilário dentro do sério, claro, do pouco sério também é muito engraçado.
[00:01:52] Então não é pelo nome que a gente vai diferenciar.
[00:01:54] Não é só porque uma teoria se chama teoria de cordas que a gente não vai prestar atenção
[00:01:58] nela.
[00:01:59] Não é teoria de marinho.
[00:02:00] Teoria de barbante.
[00:02:01] Um exemplo de nome nesse sentido é que tem os quarks, que constituem os prótons e nêutrons,
[00:02:09] tem seis tipos de quarks, dois deles são chamados de charme e estranho.
[00:02:13] Exato, então se a pessoa vai tentar separar o joio do trigo com o nome, ela vai se dar
[00:02:18] mal, não é com o nome, tem várias técnicas, mas o nome não é uma delas, o que mostra
[00:02:22] que as nossas terminologias usam palavras, é uma limitação humana, natural, na hora
[00:02:26] de fazer teorias a gente fica sem termos para dizer, como quando você fica sem palavras
[00:02:29] para descrever a experiência sensorial de um vinho, de um alimento, você não tem palavras
[00:02:34] para dizê-la e fica fazendo analogias, na mesma forma a ciência tem dificuldade de
[00:02:37] usar os termos.
[00:02:38] Em algumas situações até o nome é colocado de maneira perjorativa e ele acaba pegando
[00:02:42] o próprio Big Bang.
[00:02:43] Por causa do Big Bang.
[00:02:44] Durante o boom, era um deboche que acabou virando o nome oficial.
[00:02:47] Marcelo, você podia falar um pouco então da teoria de cordas.
[00:02:50] A ideia básica de teoria de cordas é que existem várias partículas elementares,
[00:02:54] o elétron, como eu falei, existem os quarks, que são aqueles que constituem os prótons
[00:03:00] e nêutrons, a gente aprende no segundo grau ou primeiro grau química que a matéria é
[00:03:05] sempre feita de prótons, nêutrons e elétrons, que são constituintes básicas da matéria,
[00:03:10] mas se sabe hoje em dia que o nêutron e o próton não são realmente elementares, eles
[00:03:15] são compostos de partículas ainda menores, chamadas quarks, aí tem outras partículas
[00:03:19] menos conhecidas, por exemplo, tem uma partícula chamada muon, que são partículas que são
[00:03:26] exatamente iguais ao elétron, tem carga negativa, se comporta exatamente como elétron, mas
[00:03:32] elas têm massas diferentes, o muon é um pouco mais pesado que o elétron e tal, um
[00:03:36] pouco mais pesado que o muon.
[00:03:37] Então tem várias partículas elementares, de onde é que vem esse monte de partículas,
[00:03:41] como é que tem partículas tão diferentes, e aí a hipótese fundamental de teoria de
[00:03:46] todas as partículas, na verdade, elas são manifestações do mesmo objeto, a gente imagina
[00:03:50] as partículas como se fossem coisas pontuais, só um pontinho, sem estrutura interna, agora
[00:03:54] imagina ter uma corda no sentido de uma corda de violão que vibra, então cada partícula
[00:03:59] corresponderia a esse mesmo objeto, uma corda, mas vibrando em frequências diferentes,
[00:04:04] então isso explicaria como é que tantas coisas parecem diferentes, porque a gente
[00:04:08] sabe de física básica que vibrações podem dar, assim como um violão em diferentes modos
[00:04:14] de vibração podem dar origem a diferentes sons, notas, toda aquela coisa, uma coisa
[00:04:19] riquíssima que vem do mesmo fundamento, só as cordas vibrando, nessas partículas também
[00:04:25] seria uma coisa assim, tudo isso viria de uma mesma entidade, essa corda vibrando em
[00:04:30] frequências diferentes.
[00:04:31] Aqui o violão é uma analogia meio esquisita, porque a gente está acostumado no violão
[00:04:35] a fazer cada corda tocar só num modo dela, mas eles estão lá, mas a gente está acostumado
[00:04:42] a ter cordas diferentes para notas diferentes, porque cada uma delas está tocando num modo,
[00:04:45] mas é bom lembrar que uma única daquelas cordas pode vibrar em vários modos diferentes,
[00:04:49] em várias notas diferentes.
[00:04:50] Mais do que isso, não é meramente uma metáfora, porque na verdade tu utiliza a descrição
[00:04:55] física dos modos acústicos, toda a parte mecânica, para usar analogia, matematicamente
[00:05:00] é essa a razão, usar conceitos de harmônicos e outros, está incorporado na teoria.
[00:05:04] A questão é que a ideia de vibração é realmente, talvez, a ideia fundamental, uma
[00:05:09] das ideias fundamentais, não vou dizer a ideia fundamental, uma das ideias fundamentais
[00:05:12] em física.
[00:05:13] Quando a gente faz um curso de física, a gente estuda o chamado oscilador harmônico,
[00:05:16] que é o modelo básico que escreve oscilações, se repete em tudo, e aí tu vai estudar coisas
[00:05:22] de teoria moderna, teoria física de partículas, as coisas assim, tu acha que vai ver uma
[00:05:25] coisa completamente diferente, mas no fundo, tu estuda de novo modos de vibração, movimento
[00:05:30] harmônico, porque a maneira que, por exemplo, luz se propaga no espaço é exatamente por
[00:05:35] uma vibração do campo eletromagnético, então vibrações são coisas muito importantes,
[00:05:39] que também está na base.
[00:05:41] É, seria um dos fenômenos mais fundamentais de todos.
[00:05:43] Então a teoria de cordas, vamos dizer que ela é concebida para explicar todas essas
[00:05:48] partículas, unificar todas essas partículas numa única entidade, mas no programa passado
[00:05:52] a gente fez essa relação da teoria de cordas, não sei se tu já podia começar a falar
[00:05:57] sobre isso, a teoria de cordas e a gravitação, por que é uma forma razoável de ver a gravitação
[00:06:03] usando essa teoria?
[00:06:04] Como eu falei, tem todas essas partículas, e cada uma dessas partículas tem certas propriedades,
[00:06:09] e uma das propriedades é o chamado spin da partícula, que tem a ver com a maneira
[00:06:14] que a partícula, a maneira clássica de imaginar um spin é como é que a partícula gira em
[00:06:19] torno de um eixo.
[00:06:20] É, como se fosse um pião.
[00:06:21] No sentido mais fundamental, o spin tem a ver com as propriedades de simetria do campo
[00:06:25] que gera a partícula, por exemplo, o campo eletromagnético tem certas simetrias, o
[00:06:29] campo do elétron tem certas simetrias, o campo dos quarks tem certas simetrias, as
[00:06:32] simetrias são classificadas por uma coisa chamada spin, que classicamente a gente pode
[00:06:37] imaginar como uma coisa, um giro da partícula como eixo inteiro.
[00:06:40] E aí, das propriedades de simetria desses campos, tu vê que a única partícula que
[00:06:44] corresponde a um spin chamado spin 2, de uma partícula sem massa, que é uma partícula
[00:06:49] que viaja pelas radias da luz, é o grávido.
[00:06:51] O único candidato com uma partícula, de todas as forças que a gente conhece, o único
[00:06:54] candidato com uma partícula sem massa e de spin 2 é o grávido.
[00:06:59] Estuda teoria de cordas, e tu, numa conversa com a teoria básica, de simplesmente pegar
[00:07:03] uma cordinha que vibra e aplicar as leis da mecânica quântica para essa corda, um
[00:07:09] dos primeiros objetos que tu encontra é exatamente uma vibração que corresponde a uma partícula
[00:07:14] sem massa de spin 2.
[00:07:16] Então o grávido…
[00:07:17] Pulo da teoria.
[00:07:18] Pulo da teoria.
[00:07:19] De fato, historicamente, quando as pessoas começaram a teoria de cordas, eles não tinham
[00:07:21] ideia de modelar partículas subatômicas, eles queriam conseguir uma teoria de hadrons,
[00:07:25] ou seja, modelar como é que os núcleos interagem.
[00:07:27] Eles imaginaram que a corda era tipo como se fosse uma mola ligando núcleos, correspondendo
[00:07:31] a certas oscilações.
[00:07:33] A teoria de cordas data de quando?
[00:07:35] Pois é, essa ideia original é de 1960, na verdade, mas num modelo hadrônico, onde
[00:07:40] as pessoas estavam tendo…
[00:07:41] Era o problema principal na época.
[00:07:42] Era o problema principal na época.
[00:07:43] Mas aí quando as pessoas calcularam essas recitações e viram que a teoria predizia
[00:07:48] a existência de uma partícula sem massa de spin 2, as pessoas disseram, mas nenhum
[00:07:52] núcleo tem essa propriedade, então a teoria não pode estar correta.
[00:07:54] Aí na década de 80, quando as pessoas estavam estudando gravidade quântica, alguém se
[00:07:57] deu conta de que, não, espera aí, tinha aquela teoria lá na década de 60 que nos
[00:08:02] deu de graça a partícula que deveria ser a partícula quântica do campo gravitacional,
[00:08:06] que é o gravitan.
[00:08:07] Então eles ressuscitaram a teoria, mas com uma interpretação diferente.
[00:08:10] Eu vou interromper só dizendo que esse é o programa Fronteiras da Ciência, a gente
[00:08:12] está discutindo a teoria de cordas e a sua importância na gravitação quântica.
[00:08:17] O nosso site é o Fronte da Ciência, ponto urgs.br.
[00:08:20] Talvez seja bom dizer que quem estudou física sabe que o estelador harmônico é das coisas
[00:08:27] que a gente mais estuda e tem uma matemática razoavelmente simples.
[00:08:30] Por outro lado, a matemática envolvida em teoria de cordas mesmo, a tua explicação
[00:08:33] ter sido simplificada, pode ter dado a impressão de que a teoria de cordas é matematicamente
[00:08:40] simples.
[00:08:41] É exatamente o oposto.
[00:08:42] Sim, é exatamente o oposto.
[00:08:43] Uma das dificuldades com a teoria de cordas é que é uma teoria extremamente sofisticada,
[00:08:47] então é muito difícil para uma pessoa só conseguir ter uma visão geral da teoria.
[00:08:51] E é um grupo minoritário de pessoas que estão envolvidas na produção das teorias,
[00:08:55] que não é uma teoria mainstream na física.
[00:08:57] Depende quando você pensa em física em geral, não, porque quem estuda são os físicos
[00:09:02] de altas energias que em si não é um grupo majoritário na física, eu não saberia te
[00:09:07] dizer.
[00:09:08] Pode ser o grupo que mais gasta dinheiro na física.
[00:09:09] Pode ser o grupo que mais gasta dinheiro na física.
[00:09:10] Não é verdade.
[00:09:11] Eu não saberia te dizer.
[00:09:12] Não, não é verdade.
[00:09:13] Ao mesmo tempo, se você pensar, os trabalhos saem com, sei lá, 500 pessoas, a gente tem
[00:09:18] que dividir.
[00:09:19] Feita quando assim.
[00:09:20] Eu não sei.
[00:09:21] São os que usam os equipamentos de maior porte.
[00:09:22] Mas eles, eu acho que eles são a única área onde toda a comunidade participa do mesmo
[00:09:26] trabalho.
[00:09:27] Isso é uma brincadeira.
[00:09:28] É um luxo que nem mais de 10 autores não têm.
[00:09:31] É brincadeira do Jephas, mas o que o Marcelo estava dizendo continua.
[00:09:34] Pois é, mas parece muito perigoso.
[00:09:36] Então na área de altas energias especificamente, se tornou um grupo considerável na década
[00:09:42] de 90, quando a teoria estava muito popular, mas recentemente o número de posições nos
[00:09:48] Estados Unidos que vão para teóricas de bordas em departamentos de física, mesmo
[00:09:53] em posições que abrem para teórias de altas energias, é muito pequeno.
[00:09:57] E tu acha que essa diminuição…
[00:09:59] Só deixa eu fazer um esclarecimento de linguagem, quando o Marcelo fala em posições, ele se
[00:10:04] refere em…
[00:10:05] Empregos.
[00:10:06] Vagas.
[00:10:07] Vagas nas universidades.
[00:10:08] E tu acha que essa diminuição pode estar associada com aquela crítica que a gente
[00:10:12] discutiu no programa de gravitação quântica, que diz que a teoria de cordas pode não ser
[00:10:17] inclusive nem ciência, pode ser uma resposta a esse criticismo, ou é simplesmente um
[00:10:25] fato de que é uma teoria que a sua realização experimental, como está tão longe, que talvez
[00:10:30] não seja o momento…
[00:10:31] Pois é, mas é uma pergunta bem difícil, não estou nos comitês que estão fazendo
[00:10:35] as decisões.
[00:10:36] Eu acho que…
[00:10:37] De novo, eu estou apenas a especular agora das coisas que eu presencio, indo ao congresso,
[00:10:42] mostrando com pessoas.
[00:10:43] Os congrestos que tu vai são de matemática ou de física?
[00:10:44] A maioria deles são de matemática.
[00:10:46] E tu está numa vaga que fica em teoria de cordas ou de matemática em geral?
[00:10:49] Eu estou numa vaga de matemática, e uma das minhas especialidades é a teoria de cordas.
[00:10:53] Não entrou na seleção a respeito?
[00:10:55] Também não sei.
[00:10:56] Tem que pegar para a pessoa que me contratou.
[00:10:59] Interessante, não.
[00:11:00] Até porque tu falasse das vagas existirem poucas.
[00:11:02] Então…
[00:11:03] Está falando da razão para isso.
[00:11:06] Eu acho que é um pouco de tudo.
[00:11:08] Acho que a teoria prometeu muito e entregou pouco, no sentido de que as pessoas achavam
[00:11:12] que em 1995, que foi talvez o pico da teoria, quando o Edward Witten propôs o que é chamado
[00:11:18] a teoria M, que até então, até 1995, existiam cinco diferentes versões da teoria de cordas.
[00:11:24] E o Witten mostrou que existiam certas simetrias entre elas, o que é um argumento muito forte
[00:11:30] para a ideia de que todas as cinco são apenas manifestações diferentes numa mesma teoria
[00:11:33] que ele chamou de teoria M.
[00:11:35] E ninguém sabe exatamente por que M.
[00:11:38] Mas se pensou que talvez, se chegasse a uma teoria final, coerente, que explicasse tudo
[00:11:44] e que pudesse fazer predições confirmadas, por exemplo, no LHC.
[00:11:48] Isso não aconteceu.
[00:11:49] Então talvez essa é uma das razões.
[00:11:52] Mas certamente outra razão é que, com o advento do LHC, várias perguntas…
[00:11:57] Muitas outras perguntas que podem ser respondidas de forma mais imediata.
[00:12:01] E não necessariamente com a teoria de cordas.
[00:12:03] Não necessariamente com a teoria de cordas.
[00:12:04] Muitas perguntas ainda no contexto de teoria de campos tradicional sem cordura de gravidade.
[00:12:10] E também os desenvolvimentos mais recentes em cosmologia, como a gente discutiu no programa
[00:12:16] passado.
[00:12:17] A aceleração do universo, a matéria escura, coisas dessas coisas.
[00:12:20] São fenômenos que não conseguem ser explicados apenas pela relatividade geral.
[00:12:24] Exatamente.
[00:12:25] Ou apenas pelo que nem a quantidade.
[00:12:26] Existe algo novo que, de certa ou outra, os unifique.
[00:12:28] São fenômenos por os quais a gente tem uma maneira mais direta de tentar fazer um acesso
[00:12:35] experimental.
[00:12:36] Medindo radiação de fundo, usando o Hubble.
[00:12:39] Tem um novo telescópio, que é o telescópio que vai substituir o Hubble, o James Webb
[00:12:43] Telescope.
[00:12:44] Que não sabe exatamente quando, como tudo, o Congresso americano tem que…
[00:12:48] E fizeram cortes medões nos últimos dois anos.
[00:12:50] Mas que, em princípio, vai sair.
[00:12:52] Existe a perspectiva de obter muitos dados no campo da cosmologia.
[00:12:57] Claro, que aí parece que a cosmologia é uma das áreas quentes do momento.
[00:13:01] E isso também atrai muito.
[00:13:02] Ou seja, o pessoal que naturalmente trabalharia com teoria de cordas e está sendo atraído
[00:13:08] por essas outras áreas que estão mais quentes.
[00:13:12] Exatamente.
[00:13:13] Inclusive, existem muitos teóricos de cordas tentando fazer modelos cosmológicos usando
[00:13:18] cordas.
[00:13:19] Eu queria saber, você falou da teoria M do Whitham.
[00:13:21] Quais foram os grandes desenvolvimentos da teoria de cordas?
[00:13:25] Eu vou estar numa época que o pessoal todo está simplesmente explorando a matemática.
[00:13:30] Não, eu acho que, como eu falei, no meio da década de 80, teve o que se chama de
[00:13:36] a revolução das supercordas, quando as pessoas se deram conta de que essa ideia antiga
[00:13:41] da década de 60 poderia realmente ser aplicada para tentar entender a realidade pontua.
[00:13:46] A gente fazia sentido resgatá-la, porque quando ela surgiu ainda era meio precoce.
[00:13:50] Isso.
[00:13:52] As pessoas começaram a desenvolver a teoria, e você teve essas cinco versões diferentes
[00:13:56] da teoria de cordas.
[00:13:57] No meio da década de 90, o Whitham mostrou que elas provavelmente são apenas limites
[00:14:02] ou manifestações diferentes de uma mesma teoria de teoria M.
[00:14:04] São as mesmas particulares de uma maior.
[00:14:06] Isso.
[00:14:07] Isso é chamado de a segunda revolução em supercordas.
[00:14:11] Mais recentemente, teve-se a implementação dessa ideia do princípio holográfico no contexto
[00:14:20] de teoria de cordas.
[00:14:21] O princípio holográfico discutiu no último programa essa ideia de que teoria, aparentemente
[00:14:27] diferente de materia gravitacional em dimensão de 5, é exatamente equivalente a uma teoria
[00:14:32] em dimensão menor de 5, digamos de dimensão 4, ou depende do modelo que você considera,
[00:14:37] mas sem gravidade.
[00:14:39] Funcionando como uma projeção.
[00:14:40] Uma projeção.
[00:14:41] Sem a ideia de um princípio holográfico não…
[00:14:45] Já é uma coisa que já estava nos ares.
[00:14:49] E o princípio holográfico, essa ideia do princípio holográfico na teoria de cordas
[00:14:52] é de quando, tu diz?
[00:14:54] Sinal decto 90, em 2000.
[00:14:57] Quer dizer que se uma pessoa quer se mostrar erudito em cordas, ele vai falar da teoria
[00:15:01] M do princípio holográfico e todo mundo vai ficar…
[00:15:03] Mas eu quero apontar que a ideia do princípio holográfico já estava nos ares, mas aí o
[00:15:07] mal da cena, que é um físico argentino que está em Princeton, essa pessoa que colocou
[00:15:11] isso num framework onde você conseguia realmente fazer contas e colocar as bens de uma maneira
[00:15:16] mais formal.
[00:15:18] Uma coisa curiosa é que o Witten e acho que o mal da cena também, eles estão entre os
[00:15:23] físicos mais citados de todos os tempos, mas não tem um Nobel associado com isso.
[00:15:29] Pode ser também a mesma dificuldade…
[00:15:32] Citados, citados, para o ouvinte entender, citados é aquela pessoa cujos trabalhos
[00:15:37] são referenciados em outros trabalhos.
[00:15:39] É uma medida da repercussão do…
[00:15:42] Do trabalho de uma pessoa, certo?
[00:15:43] A pessoa é muito citada, o nosso Jorgão que era muito citado, significa que muita
[00:15:47] gente baseou trabalhos nos trabalhos dessa pessoa.
[00:15:50] Ou ele tem muitos amigos.
[00:15:52] Ou ele tem muitos amigos.
[00:15:53] Não deixe de ser o contrassenso, Grande, quando ele falou de ser tão um pouco corrente,
[00:15:58] de ter poucas gentes envolvidas, poucas pessoas comprometidas com a teoria, não ser
[00:16:02] uma área majoritária dentro da física.
[00:16:04] Sim, mas ele lembra, eu falei, não é uma área majoritária comparado a todas as áreas
[00:16:09] da física, mas como eu falei, durante a década de 90 era um dos campos principais
[00:16:13] de física teórica de altas energias.
[00:16:17] E também era uma das áreas que atraía…
[00:16:20] Os melhores talentos eram atraídos por essa área.
[00:16:23] Sim, sim.
[00:16:24] Agora eu só quero ressaltar que a gente fica falando assim, era, foi, como nos parece
[00:16:28] que a coisa não acabou não.
[00:16:30] Apenas não existe todo o entusiasmo que existia na década de 90.
[00:16:35] Porque a gente pode pensar num ponto de vista mais de mercado, agora o tamanho está certo,
[00:16:40] o tamanho das pessoas que tem a inflação, tem o negócio.
[00:16:43] Mas voltando a teoria em si.
[00:16:46] Uma das coisas que são um pouco, talvez, bizarras da teoria, é essa necessidade que
[00:16:52] ela tem de dimensões.
[00:16:55] A gente vive num mundo tridimensional, se a gente inclui o tempo, se pode dizer que
[00:17:00] o nosso espaço tem quatro dimensões.
[00:17:02] A teoria de cordas ela considera dez dimensões.
[00:17:04] Então assim, o que a gente precisa…
[00:17:06] Primeiro, por que ela considera dez dimensões?
[00:17:08] É uma pergunta interessante.
[00:17:09] Por que a gente precisa mais do que quatro?
[00:17:11] Por que pra teoria de cordas quatro não é suficiente?
[00:17:14] E onde é que estão essas seis?
[00:17:16] Por que a gente não observa essas seis?
[00:17:18] É pra vibrar mais, como diria o Chaveuzinho Vermelho?
[00:17:20] Sim.
[00:17:21] A ideia quando descreve as equações de teoria de cordas, existem certos testes de consistência
[00:17:25] que a teoria tem que passar.
[00:17:27] E aí tu mostra, se demonstra, que pra essa teoria ser consistente, passar esses testes
[00:17:33] de consistência, que é o que se chama de cancelamento das anomalias,
[00:17:37] é necessário um espaço de dez dimensões.
[00:17:41] Eu ouvia, como eu lembro que eu ouvia, que o pessoal dizia
[00:17:43] não dá pra quantizar as cordas em menos de dez dimensões.
[00:17:46] Talvez seja consequência do tipo de matemática usada.
[00:17:49] Então na verdade a corda que tu descrevia que vibrava,
[00:17:51] na verdade ela vibra, não como um acorde violão que vibra.
[00:17:54] É um violão bem estranho ainda.
[00:17:56] Sim, assim, como um acorde violão,
[00:17:59] você pode apenas vibrar pra cima e pra baixo,
[00:18:01] isso é realmente uma coisa unidimensional,
[00:18:03] mas essa corda tem várias direções que ela pode vibrar.
[00:18:05] Essa é a necessidade.
[00:18:07] Por um lado, é uma coisa que mostra o poder da teoria,
[00:18:11] que é uma teoria que realmente diz até qual…
[00:18:13] Tu não tem que botar a mão,
[00:18:15] não tem que começar com uma teoria com um espaço de dimensão 4,
[00:18:18] a teoria te diz qual a dimensão tem que ser.
[00:18:21] Segue simplesmente por um aumento de consistência.
[00:18:23] Sim, eu vou dizer, desse ponto de vista é interessante,
[00:18:26] porque a teoria está definindo o espaço onde ela vive,
[00:18:29] mas ao mesmo tempo ela está definindo um espaço que é muito estranho pra gente.
[00:18:32] Exatamente, como eu falei no programa anterior,
[00:18:36] é um package deal, tem um monte de coisas boas,
[00:18:38] mas tem coisas que tu tem que explicar,
[00:18:40] que vem junto, que tu não consegue separar.
[00:18:42] Então tem essas outras 6 dimensões que a gente aparentemente não observa,
[00:18:46] então a ideia é que essas dimensões são muito pequenas.
[00:18:48] Quem é uma dimensão pequena?
[00:18:50] Mas essa é uma ideia pra consertar o fato de a gente não observar elas,
[00:18:55] ou dentro da teoria se tem alguma razão pra elas serem pequenas?
[00:18:58] Pois é, boa pergunta.
[00:19:00] Tu pode fazer teoria de cordas sem considerar essas dimensões pequenas,
[00:19:03] então nesse sentido não tem uma teoria que diga que elas tenham de ser pequenas,
[00:19:07] da maneira que a gente entende a teoria hoje.
[00:19:09] Mas como a gente não observa essas dimensões,
[00:19:11] tu tem que ir lá ainda e dizer que essas dimensões são pequenas.
[00:19:15] O que é uma dimensão pequena?
[00:19:17] O ouvinte pode imaginar que tu tem uma linha unidimensional,
[00:19:22] agora essa linha se fecha como se fosse um círculo,
[00:19:24] e se ela se fecha como um círculo, o círculo é muito pequenininho
[00:19:27] e tem uma formiga vivendo ao longo dessa linha,
[00:19:33] tu vai andar apenas no círculo,
[00:19:35] ou seja, tu não vai chegar ao final do círculo,
[00:19:37] porque o círculo é fechado,
[00:19:39] ou seja, tu não vê o fim do universo ou o fim do mundo.
[00:19:41] O círculo é infinito.
[00:19:43] Mas você mexe e não sai do lugar.
[00:19:45] Quase não sai do lugar, a gente pode imaginar como um cilindro,
[00:19:49] tu pega uma folha de papel, enrola e monta um cilindro,
[00:19:51] um cilindro bem fininho,
[00:19:53] então tem uma dimensão do cilindro,
[00:19:55] a dimensão longe do dinau, que é longo,
[00:19:57] vai ao eixo do cilindro,
[00:19:59] mas a outra parte, se o cilindro é bem fininho,
[00:20:01] é uma dimensão muito pequena.
[00:20:03] Então se você olha o cilindro de muito longe,
[00:20:05] realmente parece como se fosse só uma coisa unidimensional,
[00:20:07] só uma linha,
[00:20:09] mas é um tubo, então tem duas dimensões.
[00:20:11] Eu, sobre esse negócio das analogias,
[00:20:13] eu diria dizer o seguinte,
[00:20:15] a gente está tentando fazer analogias para tomar palatável
[00:20:17] conceitos que são bem absurdos, se faz muito isso,
[00:20:19] é uma tarefa da divulgação,
[00:20:21] muitas vezes elas são armadilhas também,
[00:20:23] elas são sempre simplificações, são sempre perfeitas,
[00:20:25] sempre incompletas, mas servem de
[00:20:27] matéria-prima para os místicos e pós-modernos
[00:20:29] fazer uma festa, mas o que importa
[00:20:31] na teoria é que a parte, a perfeição
[00:20:33] das analogias que se possa extrair para justificá-la
[00:20:35] para todos, é que ela tem que ser
[00:20:37] suficientemente consistente para fazer previsões
[00:20:39] que funcionem na experimentação.
[00:20:41] Se ela faz isso, ela pode ser completamente maluca,
[00:20:43] mas funciona, porque na verdade
[00:20:45] entender o mundo, em parte, que a ciência
[00:20:47] faz, não é ter um modelo
[00:20:49] completamente palatável e compreensivo em cada detalhe,
[00:20:52] às vezes tem um modelo matemático que explica,
[00:20:54] e por que ele explica ainda é um outro problema
[00:20:56] que não precisa ser resolvido.
[00:20:58] As pessoas não precisam nem entender, basta que uma pessoa
[00:21:00] entenda a teoria.
[00:21:02] Mas eu queria tomar um ponto importante,
[00:21:04] parece que um dos eixos das motivações
[00:21:06] principais é a interação traficacional,
[00:21:08] ela é central como problema,
[00:21:10] não é o único, mas é central, e aí eu fico
[00:21:12] pensando exatamente no fato da determinação
[00:21:14] daquela que é uma predição do Einstein, de que a gravidade
[00:21:16] se manifesta de forma ondulatória,
[00:21:18] e isso não foi provado ainda,
[00:21:20] da propagação onda gravitacional.
[00:21:22] E dizer que como existem
[00:21:24] observatórios gravitacionais montados
[00:21:26] no mundo, inclusive no Brasil, em Minas Gerais,
[00:21:28] inclusive um espaço, a vocês já foi
[00:21:30] colocado lá, com um observatório
[00:21:32] gravitacional, enfim, são pesos,
[00:21:34] colocados numa distância conhecida, monitorados
[00:21:36] por instrumentos que permitem ver
[00:21:38] pequeníssimas, minúsculas variações
[00:21:40] de distância, que comprovariam a passagem, por exemplo,
[00:21:42] de um campo gravitacional que fizesse
[00:21:44] ele oscilar, e aí as distâncias variariam.
[00:21:46] Esse é um resumo muito grosseiro,
[00:21:48] mas eu acho que nos próximos poucos anos
[00:21:50] vai se comprovar uma predição que já tem
[00:21:52] mais de 90 anos, que é das ondas gravitacionais.
[00:21:54] Onde entram as ondas gravitacionais no ateliê
[00:21:56] de cordas, como é que se encaixa com gravitação
[00:21:58] quântica, inclusive?
[00:22:00] Para responder a tua pergunta, só para dizer que
[00:22:02] quando se diz que não se sabe
[00:22:04] se as ondas gravitacionais existem,
[00:22:06] não se usa nenhuma detecção direta, mas existem
[00:22:08] evidências indiretas de ondas gravitacionais.
[00:22:10] Quando você olha como é que
[00:22:12] a energia é transportada
[00:22:14] para fora de um sistema
[00:22:16] gravitacional, você observa, digamos,
[00:22:18] um aglomerado de estrelas,
[00:22:20] alguma coisa assim, e você tenta fazer
[00:22:22] o balanço de todas as energias
[00:22:24] que entram na construção desse sistema,
[00:22:26] tem luminosidade,
[00:22:28] força gravitacional, etc.
[00:22:30] Aparentemente, em certas situações,
[00:22:32] se você não considera a energia que é
[00:22:34] radiada do sistema por ondas
[00:22:36] gravitacionais, você não consegue fechar
[00:22:38] todas as ondas gravitacionais.
[00:22:40] Mas nesses modelos não tem explicações alternativas
[00:22:42] que prescindam disso, porque se tiver,
[00:22:44] não serve em uma prova, são uma possibilidade
[00:22:46] de novo, mas não a prova direta,
[00:22:48] que o problema é da prova direta, né?
[00:22:50] Um fenômeno tão básico, né?
[00:22:52] E a relação com a aterria de cordas
[00:22:54] e a gravitação quântica, né?
[00:22:56] Porque se tem ondas, se essas ondas
[00:22:58] são quantizadas.
[00:23:00] O que a aterria de cordas te dá
[00:23:02] é que a gravidade é quantizada,
[00:23:04] e, portanto,
[00:23:06] se a gravidade é
[00:23:08] quantizada, o campo do gravitacional
[00:23:10] possui essas partículas, que são os
[00:23:12] gravitons, que se propagam, e que são
[00:23:14] os constituintes dos ondas gravitacionais.
[00:23:16] Então, nesse sentido, a aterria de cordas
[00:23:18] não só é consistente, mas como ela prediz
[00:23:20] também as densidades de ondas gravitacionais,
[00:23:22] ela tem que predizer, porque uma coisa que
[00:23:24] eu não falei antes é que
[00:23:26] num limite de baixa energia, a aterria de cordas
[00:23:28] recupera a aterria do Einstein.
[00:23:30] Então, as equações de Einstein são um caso
[00:23:32] particular da aterria de cordas.
[00:23:34] Claro, esse é o primeiro teste que
[00:23:36] qualquer teoria nova faz,
[00:23:38] que tem uma teoria que tenta explicar
[00:23:40] um número de fenômenos maior do que a gente
[00:23:42] consegue explicar hoje,
[00:23:44] ela tem que participar de explicar o que a gente já explica.
[00:23:46] Ela explica tudo. Tudo que a gravitação
[00:23:48] explica, ela explica.
[00:23:50] Como falamos no programa anterior,
[00:23:52] a aterria de cordas é
[00:23:54] uma das formas de conectar
[00:23:56] a teoria gravitacional com
[00:23:58] as outras três forças,
[00:24:00] a eletromagnética,
[00:24:02] a nuclear forte e a nuclear fraca,
[00:24:04] que é o lado capenga
[00:24:06] da teoria. Não há ainda uma grande teoria
[00:24:08] e a aterria de cordas é uma das abordagens.
[00:24:10] Então, ela está naturalmente incluída ali.
[00:24:12] E ela é uma das abordagens para explicar a gravitação quântica.
[00:24:14] E que tem fenômenos próprios que exigem.
[00:24:16] Só para entender,
[00:24:18] a aterria de cordas,
[00:24:20] nesse limite, ela recai nas
[00:24:22] equações de Einstein.
[00:24:24] E no caso da mecânica quântica,
[00:24:26] ela recai.
[00:24:28] Ela recai na mecânica quântica.
[00:24:30] Mas, de novo, aí entra que a questão
[00:24:32] que a gente discutiu na…
[00:24:34] Ela dá os dois limites.
[00:24:36] Ela dá a gravitação…
[00:24:38] A teoria da realidade geral
[00:24:40] no limite das escalas maiores que a
[00:24:42] escala de Planck, né?
[00:24:44] E dá grandes limites das…
[00:24:46] de baixos campos gravitacionais.
[00:24:48] A questão é que
[00:24:50] tem essas dimensões extras.
[00:24:52] E eles têm…
[00:24:54] A gente tem que entender que a gravitação
[00:24:56] é uma teoria da gravitação.
[00:24:58] A gravitação é uma teoria da gravitação.
[00:25:00] A gravitação é uma teoria da gravitação.
[00:25:02] A gravitação é uma teoria da gravitação.
[00:25:04] Que tem essas dimensões extras, né?
[00:25:06] E existem diferentes maneiras…
[00:25:08] diferentes candidatos para essas dimensões extras.
[00:25:10] Existem… é um termo técnico,
[00:25:12] mas existe uma coisa chamada calabial,
[00:25:14] que a dimensão extra não é qualquer coisa, ela tem que satisfazer
[00:25:16] certas propriedades. Aí…
[00:25:18] Qual é o nome? Calabial.
[00:25:20] Que é devido aos
[00:25:22] matemáticos calabi.
[00:25:24] Iau. Calabi fez uma conjectura chamada
[00:25:26] Conjectura de Calabi. E o Iau resolveu essa
[00:25:28] conjectura provando a existência
[00:25:30] desses espaços
[00:25:32] chamados agora de calabial.
[00:25:34] Calabial. Então o calabial é o…
[00:25:36] Cada uma das
[00:25:38] possíveis soluções é um calabial.
[00:25:40] Exatamente. Então a questão é quantas
[00:25:42] calabiais existem… Então essas 10 na 500
[00:25:44] são os calabiais?
[00:25:46] São os calabiais.
[00:25:48] E aí pra um
[00:25:50] calabial, tu consegue recuperar as
[00:25:52] dimensões já, isso não depende pra outro,
[00:25:54] você consegue recuperar outros tipos de campos.
[00:25:56] Mas como a gente não explora ainda
[00:25:58] os 10 na 500 calabiais?
[00:26:00] Tem muito emprego, né?
[00:26:02] Essa é a minha pergunta
[00:26:04] de terminar o programa aqui.
[00:26:06] A minha pergunta de terminar o programa aqui
[00:26:08] é… Tu falaste
[00:26:10] dos grandes
[00:26:12] eventos dentro da teoria,
[00:26:14] que foi a teoria AEM,
[00:26:16] esse pelográfico, e agora
[00:26:18] o que você, como
[00:26:20] pesquisador da área,
[00:26:22] pra onde eles querem ir agora? Qual é o programa?
[00:26:24] Qual é o projeto de pesquisa
[00:26:26] interedicória? Eu acho que um dos grandes problemas
[00:26:28] é exatamente esse de
[00:26:30] descobrir qual é a calabial correta,
[00:26:32] digamos.
[00:26:34] A gente espera que…
[00:26:36] Hoje é uma coisa,
[00:26:38] eu vou lá e escolho essa calabial,
[00:26:40] e tu vai lá e escolhe aquela calabial.
[00:26:42] Tu tá estudando uma em especial?
[00:26:44] Eu tô estudando a questão de quais são as
[00:26:46] propriedades que a calabial tem que ter
[00:26:48] pra que num limite de baixa energia
[00:26:50] nos dê todas as
[00:26:52] forças.
[00:26:54] Isso é o chamado approach de
[00:26:56] isso aí é o mesmo problema que a gente tem em mecânica
[00:26:58] estatística, quando tu tem um sistema
[00:27:00] onde o número de configurações possíveis
[00:27:02] é dessa ordem, e tu tá procurando
[00:27:04] o estado fundamental do sistema.
[00:27:06] Tu não pode escolher ao acaso
[00:27:08] uma configuração. Exatamente, mas em mecânica
[00:27:10] estatística tem um mecanismo que te diz que
[00:27:12] aquela é a solução, que o sistema
[00:27:14] que a gente tem uma força por cima.
[00:27:16] E esse seria o princípio
[00:27:18] que as pessoas estão procurando onde ter de correta, o princípio
[00:27:20] que te diz qual é… Qual é de todas
[00:27:22] as calabias possíveis… Qual é aquela que a teoria escolhe
[00:27:24] de forma natural, não é?
[00:27:26] Então isso se for nas conferências
[00:27:28] as pessoas vão estar sempre
[00:27:30] circulando a volta desse problema.
[00:27:32] Eu tenho um província mais legal
[00:27:34] que foi falar dois fenômenos, que inclusive
[00:27:36] quando falem ondas, eu estou te referindo ao fenômeno clássico.
[00:27:38] Sim.
[00:27:40] Quando falem quânticos em pacotes, você está falando o fenômeno quântico.
[00:27:42] Detetar as ondas gravitacionais
[00:27:44] em parte é um problema clássico
[00:27:46] remanescente, e
[00:27:48] os gravitons, que
[00:27:50] são as partículas
[00:27:52] relacionadas a isso, é a parte quântica
[00:27:54] do problema.
[00:27:56] Ou seja, é um fenômeno…
[00:27:58] Ou seja, são teorias à procura de um fenômeno
[00:28:00] ainda. Não precisava dizer assim
[00:28:02] porque são os dois ângulos da mesma coisa.
[00:28:04] Como é que elas se ligam?
[00:28:06] Bom, quando eu descrevesse bem
[00:28:08] as ondas gravitacionais é um problema clássico
[00:28:10] como detectar ondas eletromagnéticas.
[00:28:12] Seria um problema muito, muito
[00:28:14] mais difícil detectar gravitons.
[00:28:16] Existem pessoas que dizem que a gente
[00:28:18] não vai nunca conter a tecnologia para fazer isso.
[00:28:20] Não é. Então, realmente
[00:28:22] a gravidade quântica
[00:28:24] tem essa dificuldade.
[00:28:26] Eu quero esclarecer que isso não é um problema da teoria,
[00:28:28] porque se a natureza é de tal maneira que existem fenômenos
[00:28:30] que acontecem em escala…
[00:28:32] O problema é nosso. O problema é nosso. Nós que não somos
[00:28:34] capazes de fazer a ligação.
[00:28:36] Exatamente, mas então a gente…
[00:28:38] Mas claro, isso não é uma desculpa,
[00:28:40] a gente tem que tentar achar maneiras
[00:28:42] indiretas, não é?
[00:28:44] De medir essas coisas e
[00:28:46] pretender, talvez, com
[00:28:48] um pouco de otimismo. Existe um fenômeno
[00:28:50] chamado de lentes gravitacionais,
[00:28:52] que é quando a luz é…
[00:28:54] A trajetória da luz é modificada
[00:28:56] devido a…
[00:28:58] A configuração de astros
[00:29:00] e de massas. Exatamente, de massas.
[00:29:02] E como isso funciona, a gente confusa
[00:29:04] uma lente, né? Mas usando a realidade.
[00:29:06] Sim, mas isso interposto em astrofísica e fundamental em astronomia.
[00:29:08] É um instrumento.
[00:29:10] E o Einstein
[00:29:12] ele observou
[00:29:14] que isso é uma consequência
[00:29:16] das equações, mas disse que isso
[00:29:18] nunca seria observado, não é?
[00:29:20] Porque a gente jamais teria tecnologia para fazer isso.
[00:29:22] Eu mais achava que não.
[00:29:24] E hoje é um fenômeno
[00:29:26] corriqueiro em astrofísica, então…
[00:29:28] É usado como uma ferramenta. Exatamente, exatamente.
[00:29:30] A gente pode observar exoplanetes em outras
[00:29:32] galáxias, coisas que não podemos observar na nossa
[00:29:34] usando essa ferramenta. Então acho que a gente
[00:29:36] tem que ter um pouco de fé
[00:29:38] nos nossos colegas experimentais,
[00:29:40] que eles são muito criativos e quando a gente acha que
[00:29:42] não vai conseguir medir alguma coisa, eles sempre vêm com uma ideia
[00:29:44] nova, né? E conseguem fazer alguma medição.
[00:29:46] Bom, esse foi o programa Fronteiras da Ciência.
[00:29:48] Hoje a gente
[00:29:50] debateu a teoria de cordas
[00:29:52] e a sua importância
[00:29:54] na gravitação quântica.
[00:29:56] Tivemos como convidado Marcelo Disconzi,
[00:29:58] que é professor da Universidade de Nashville,
[00:30:00] professor do Departamento de Matemática,
[00:30:02] da Universidade de Nashville, o Jorge
[00:30:04] Kuhfeld, e o Jefferson Lenzon,
[00:30:06] e o Marco Dyer.
[00:30:08] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto
[00:30:10] do Instituto de Física da URGES,
[00:30:12] da Física Técnica de Gilson de César
[00:30:14] e Direção Técnica
[00:30:16] de Francisco Guazelli.