Estado Laico II


Resumo

Este episódio é a segunda parte de uma discussão sobre o estado laico no Brasil, focando especificamente nas violações práticas do princípio constitucional da laicidade. Os participantes analisam a distância entre o que está escrito na Constituição e a realidade, onde interferências religiosas são frequentes em diversas esferas públicas.

Um dos principais pontos abordados é o ensino religioso nas escolas públicas. Apesar da previsão constitucional vaga, na prática ele se torna confessional, impondo a religião majoritária e causando constrangimento a alunos que não compartilham da mesma fé. São citados casos de professores que usam a sala de aula para proselitismo e o exemplo do Rio de Janeiro, onde um governador pastor chegou a permitir que líderes religiosos demitissem professores contratados pelo estado.

A discussão se expande para outras violações, como o financiamento público de eventos religiosos (como a Jornada Mundial da Juventude), as isenções fiscais generosas para igrejas – muitas das quais operam como empresas lucrativas – e a terceirização de serviços públicos (educação, saúde) para entidades confessionais via programas como o Prouni. Os participantes alertam para o risco de teocracia, especialmente com o crescimento da bancada evangélica/pentecostal no Congresso.

São analisados exemplos concretos de choque entre dogmas religiosos e a esfera pública, como o Estatuto do Nascituro e os projetos de “cura gay”, que buscam legislar com base em crenças metafísicas contra o consenso científico. A conversa também aborda iniciativas legislativas perigosas, como a PEC que permitiria associações religiosas ajuizarem ações de inconstitucionalidade, o que poderia levar a uma “guerra de confissões” e esvaziar a Constituição.

O episódio conclui refletindo sobre a necessidade de uma cultura laica mais forte para sustentar o estado laico, citando a Declaração Universal da Laicidade no Século XXI e a promoção de cerimônias humanistas como alternativas seculares. O desafio político e cultural é enorme, dado que os laicos são minoria, mas a defesa do estado laico deve transcender convicções pessoais e ser apoiada também por grupos religiosos sensíveis, principalmente minorias, que sofrem com a falta de laicidade.


Indicações

Documentos

  • Declaração Universal da Laicidade no Século XXI — Mencionada por Jorge Kielfeld, é um documento francês de 2005 que discute os princípios da laicidade (liberdade de consciência, autonomia do estado, não discriminação) e a necessidade de criatividade para aplicá-los no mundo contemporâneo.

Livros

  • Livro do Roberto Loret (provavelmente ‘A Escola e o Estado Laico’) — Citado de passagem por Jorge Kielfeld como uma possível fonte onde a Declaração Universal da Laicidade poderia estar traduzida.

Organizacoes

  • Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS) — Representada por Daniel Oliveira, a LiHS tem uma posição oficial contrária a qualquer tipo de ensino religioso ou endoutrinação em escolas públicas. Também promove a popularização de cerimônias humanistas no país.

Pessoas

  • Gamal Ataturk — Citado por Francisco Marshall como exemplo de líder que implementou um estado laico em um país majoritariamente muçulmano (Turquia), mostrando que é possível mesmo em contextos religiosos fortes.
  • Helio Schwarzman — Colunista da Folha que, para demonstrar a facilidade de se criar uma religião no Brasil, registrou a religião ‘Heliocentrista’ gastando apenas 468 reais, evidenciando a falta de controle estatal.

Linha do Tempo

  • 00:00:51Definição constitucional do estado laico no Brasil — Jorge explica o tripé do estado laico (nenhuma religião oficial, separação igreja-estado, liberdade de credo) e como a Constituição brasileira o define. Ele aponta a brecha no artigo 19, que permite colaboração de “interesse público”, e menciona violações práticas como feriados católicos e símbolos religiosos em repartições públicas.
  • 00:03:35O problema do ensino religioso confessional nas escolas — Discute-se como o ensino religioso, na prática, é confessional e impõe a religião majoritária. São citados riscos como a teocracia e o constrangimento de alunos. É mencionado o caso do Rio de Janeiro, onde um governador pastor permitiu que líderes religiosos demitissem professores, exemplificando o risco de ingerência religiosa no estado.
  • 00:09:29Financiamento público a eventos religiosos e isenções fiscais — O debate aborda o financiamento estatal a eventos como a Jornada Mundial da Juventude, justificado por “interesse público” econômico. Critica-se também a isenção de impostos para igrejas, que beneficia entidades por vezes lucrativas, desviando recursos de áreas como saúde e educação. A terceirização de serviços públicos para entidades confessionais é outro ponto problemático.
  • 00:13:40A separação igreja-estado não é uma cláusula pétrea — Jorge observa que a separação entre igreja e estado não é uma cláusula pétrea na Constituição brasileira nem em outras no mundo, indicando que o processo de secularização é imaturo e contínuo. Isso destaca a vulnerabilidade do princípio da laicidade a mudanças constitucionais.
  • 00:15:28Ameaça das bancadas confessionais e o caso Marco Feliciano — Francisco Marshall alerta para o desafio político representado pelas bancadas confessionais, especialmente a evangélica/pentecostal, que avançam sobre o estado laico. O caso do deputado Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos é citado como sintomático do despudor e da agenda conservadora desses grupos na esfera pública.
  • 00:17:42Legislação baseada em dogmas religiosos: aborto e “cura gay” — Jeferson introduz violações onde convicções religiosas influenciam a legislação, citando o Estatuto do Nascituro (que define vida desde a concepção) e projetos de “cura gay”. Discute-se como isso impõe visões metafísicas a toda a população, contradizendo o conhecimento científico e violando a liberdade de quem não compartilha daquela fé.
  • 00:21:54PEC perigosa: permitir que religiões ajuízem ações no STF — É discutida a PEC do deputado João Campos, que permitiria associações religiosas propor ações de inconstitucionalidade. Isso abriria caminho para uma “guerra de confissões”, com milhares de denominações potencialmente entupindo o STF e buscando impor suas visões via controle constitucional, ameaçando gravemente o estado laico.
  • 00:25:02Conexão econômica: Bolsa Família, dízimo e poder político evangélico — Marshall analisa uma mecânica preocupante: o Bolsa Família injeta recursos nas classes D/E, que são também grandes pagadoras de dízimo para igrejas pentecostais. Esse fluxo financeiro fortalece economicamente essas denominações, que por sua vez ampliam seu poder político, criando um ciclo que pode levar a uma hegemonia capaz de transformar o Brasil em uma teocracia.
  • 00:27:29Cultura anti-laica: a campanha “Bíblia Sim, Constituição Não” — É citada a campanha “Bíblia Sim, Constituição Não” no nordeste como exemplo arrepiante da cultura que circula em alguns grupos religiosos. Os participantes propõem imaginar a reação se a campanha fosse “Alcorão Sim, Constituição Não” para dimensionar o problema. Isso ilustra o desdém por fundamentos republicanos em prol de textos religiosos particulares.
  • 00:28:52Declaração Universal da Laicidade e cerimônias humanistas — Jorge menciona a Declaração Universal da Laicidade no Século XXI, que reforça a liberdade de consciência, a autonomia do estado e a não discriminação. Daniel comenta o esforço da Liga Humanista em popularizar cerimônias humanistas (como casamentos) no Brasil, oferecendo alternativas seculares e significativas a rituais puramente burocráticos ou religiosos.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2013-08-20T19:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:13] Esse é o Fronteiras da Ciência, hoje a gente vai ter a segunda parte do programa sobre

[00:00:19] o estado laico.

[00:00:20] Com a gente então hoje temos o Francisco Marshall, que é historiador da URGS e curador

[00:00:25] do estúdio Clio.

[00:00:26] O Daniel Oliveira, que é um dos diretores da Liga Humanista Secular do Brasil.

[00:00:30] O Jorge Kielfeld, que é professor da Biofísica da URGS.

[00:00:33] E eu, Jéfra Cimarenzon, do Departamento de Física da URGS.

[00:00:37] Hoje a ideia é discutir quais são as violações do estado laico brasileiro.

[00:00:43] Então para começar vou pedir para o Jorge nos contextualizar, dizendo o que a Constituição

[00:00:47] Brasileira, a mais recente, nos garante sobre esse assunto.

[00:00:51] Então, a secularização, a luta pelo estado laico, é recente, como nós falamos no outro

[00:00:56] debate, tem menos de 200 anos.

[00:00:58] Tem tripé, que seria definido como foi colocado em 1905 na França, a Constituição deles,

[00:01:04] que é a não existência de uma religião do estado, a existência de uma separação

[00:01:08] entre igreja e o estado, que são coisas diferentes e é importante ressaltar, e liberdade de

[00:01:12] pensamento e credo sem interferência mútuo, ou seja, a igreja não interfere nas coisas

[00:01:16] da política e do estado, e o estado não interfere nas igrejas.

[00:01:18] A Constituição Brasileira, no preâmbulo, fala em Deus, que já criou uma restrição,

[00:01:23] mas no artigo 5o, preconiza livre manifestação de pensamento, inclusive de religião, não

[00:01:27] impedindo nenhum tipo de confissão de caráter religioso, ou seja, se afirma como estado

[00:01:32] laico com essas palavras.

[00:01:33] O estado brasileiro é laico.

[00:01:34] No artigo 19, que é o segundo artigo que menciona isso, ele define o que o estado pode

[00:01:38] ou não pode fazer, que é criar uma religião, subvencionar, apoiar, financiar, também

[00:01:43] não pode tolerar, impedir, interferir, e não pode depender nem associar-se.

[00:01:47] Mas no último item, na última linha, ele abre a exceção, que em alguns casos é aceitável

[00:01:52] e em outros não, é uma brecha vaga, que exceto nos casos em que é uma colaboração

[00:01:57] de interesse público, que tu pode pensar desde uma coisa trivial, como por exemplo

[00:02:00] abrir as portas da igreja para receber vítimas de uma inundação, até delegar, por exemplo,

[00:02:05] as escolas confeccionais e outros, o papel que deveria ser do estado.

[00:02:08] Então, na verdade, são esses os CPS que a gente tenta argumentar, e é importante deixar

[00:02:14] bem claro, no papel está escrito que é laico, o estado de direito é laico no Brasil,

[00:02:19] mas na prática, como você observa, não o é, e aí nós temos que entrar na descrição

[00:02:23] de quais são as infrações, como já foi mencionado, por exemplo, boa parte do calendário

[00:02:28] oficial, uma parte dos feriados, mais ou menos metade são as datas cívicas, a metade são

[00:02:33] datas católicas, exclusivamente.

[00:02:34] Sendo que o catolicismo embora tenha tido 322 anos de ingerência direta no estado,

[00:02:39] mandou no país junto com o estado colonial, basicamente, ainda assim outras religiões

[00:02:45] tiveram uma participação aqui.

[00:02:46] A presença de símbolos em repartições públicas é uma questão cara, a questão do ensino

[00:02:50] público, que na Constituição, e depois também na LDB, falam que é facultado o ensino religioso

[00:02:57] com essas palavras, e esse é um problema, porque o ensino religioso, colocado dessa

[00:03:00] forma, é um ensino normativo de uma religião doutrinária, e não um ensino descritivo,

[00:03:05] que teria que ser então cultura religiosa, que a gente falaria de todas as religiões.

[00:03:08] Pois é, falando de ensino religioso, por exemplo, o Brasil é diferente de outros

[00:03:12] países.

[00:03:13] Por exemplo, os Estados Unidos, que é um país onde a população tem um grau de religiosidade

[00:03:17] bastante alto, o ensino público é proibido de ter religião.

[00:03:21] Eles têm todo um debate, por exemplo, em relação ao ensino de evolução, quando

[00:03:26] tentam embutir conceitos criacionistas.

[00:03:29] E que no Brasil já começou a passagem.

[00:03:31] Mas esse é outro debate.

[00:03:35] Então, qual é a situação do ensino no Brasil?

[00:03:38] Porque o que o Jorge mencionou é uma coisa muito vaga.

[00:03:40] O ensino religioso pode ser o ensino de uma única religião, ou pode ser um ensino sobre

[00:03:45] história das religiões, ou seja, pode ser algo multi-religioso.

[00:03:49] É vago mesmo.

[00:03:50] Na prática, o que acontece?

[00:03:52] Quais são os problemas de ter ensino multi-religioso?

[00:03:55] Na prática é um ensino confessional, é um ensino da religião majoritária, eventualmente

[00:04:00] até de uma versão mais light do cristianismo.

[00:04:03] Vai dependendo do professor.

[00:04:05] Mas dependendo do professor é um ensino…

[00:04:07] Bom, aí nós temos dois riscos muito importantes.

[00:04:09] O primeiro é o risco de teocracia, ou seja, de que haja uma filtração de poder teológico

[00:04:15] dentro da forma do Estado, hipoteticamente light.

[00:04:17] E o segundo é o efeito cultural de esta formação das crianças, os constrangimentos que elas

[00:04:21] passam expostas a essa carga de mensagens.

[00:04:24] Esse risco de teocracia ficou claro no governo de um pastor evangélico no Rio de Janeiro,

[00:04:30] que abriu um processo seletivo para professores que iriam, cada um deles, ministrar a sua religião,

[00:04:36] inclusive o judaísmo, e muçulmanos, e católicos, e luteranos, então eram quatro grandes troncos

[00:04:42] que eles iam apresentar.

[00:04:44] Aliás, luteranos não, pentecostais em geral, evangélicos e pentecostais em geral.

[00:04:47] E ele assegurou que os líderes dessas religiões teriam a prerrogativa de demitir o professor

[00:04:54] contratado pelo Estado caso verificassem que ele faquejona a crença, abandonou a

[00:05:00] crença, tinha um fenômeno que acontece.

[00:05:01] E não vamos esquecer que esses governadores postais são militantes de uma confesão pentecostal,

[00:05:06] que passaram, inclusive, leis a favor de ensino do criação nisto.

[00:05:09] Ali houve uma, a gente notou o que é o risco da teocracia, realmente de um religioso ter

[00:05:15] ingerência na esfera pública, no Estado.

[00:05:18] E outra coisa é inibir aos jovens o direito de optar, claro, o batismo já é uma certa

[00:05:23] violação disso, porque o bebê ali não opta por aquilo.

[00:05:26] O bebê também não entende, então ele é seguro.

[00:05:28] É, mas ele é incluído como ovelha e a sua condição passa a ser de pecador, que é

[00:05:32] uma humilhação à condição humana.

[00:05:34] Só na memória das pessoas que foram testemunhas.

[00:05:37] Então assim, é um ato de violação, sem dúvida, tanto que algumas confissões cristãs

[00:05:42] não fazem o batismo de criança, deixa que a pessoa opte mais tarde para ter realmente

[00:05:46] força nisso.

[00:05:47] Felizmente o batismo cristão não deixa cicatrizes, porque ele podia deixar algo.

[00:05:52] Mas deixa assim, porque depois de te desbatizar, é impressionante, né, a dificuldade.

[00:05:58] Mas quem está preocupado em te desbatizar?

[00:06:00] Eu, que até fiz um hit de desbatismo no dia da chegada do papo ao Brasil.

[00:06:08] Mas não é mais interessante ser excomungado, eu acho mais divertido isso.

[00:06:10] Mas eles têm que ter feito a comunhão, eu não fiz a comunhão.

[00:06:13] Ah bom, arrasaram teu também.

[00:06:14] Então eu vou ter que fazer a comunhão para ter o prazer de ser excomungado.

[00:06:17] Mas depois de volta é isso.

[00:06:18] Já pensei nesse repórter.

[00:06:19] Mas mente aqui, eles não vão saber, vão ter que me conferir.

[00:06:23] Mas o que eu faltava falar é o seguinte, é que tem jovens em várias faixas etárias,

[00:06:28] 7, 8, 10, 12, 13, 14, 15 anos, que notam o ridículo dessas explicações, são uma

[00:06:33] mitologia distante, que falam de coisas assim, verocíneis, de milagres, muitos notam isso,

[00:06:39] e que são apresentados por personagens muitas vezes assim, antiquados, anacrônicos, então

[00:06:44] isso não é um discurso natural, um discurso artificial que é imposto e muitos reagem

[00:06:48] a isso.

[00:06:49] Muitos jovens passam constrangimentos dentro da escola pública brasileira, porque os

[00:06:53] professores, tal como os deputados que não respondem à sua convicção, muitos professores

[00:06:58] estão lá num certo regime de tolerância e liberdade e levam para a escola, sim, a

[00:07:02] sua fé, a sua convicção, e convertem esse espaço que seria franqueado, para compreender

[00:07:06] o fenômeno da religião, o ensino ecumênico, apresentar a história das religiões como

[00:07:11] uma parte da história da cultura, o que é muito importante, e muitos professores

[00:07:14] pegam esse espaço para afirmar o seu credo, puxar a corrente de oração, até nós recebemos

[00:07:21] do Brasil inteiro, inclusive da região metropolitana, que vários casos de jovens que passam constrangimentos

[00:07:26] na escola e na comunidade, e aí entra um outro problema, discutimos antes num outro

[00:07:30] programa a religião e democracia, bom, nas comunidades, geralmente nessas regiões pobres

[00:07:36] onde tem a escola pública, o principal eixo ali, as comunidades são profissionais, são

[00:07:40] concrentes também, então eles acham que sim, que a escola tem que ser também um

[00:07:44] espaço religioso, a defesa dessa liberdade e autonomia laica na escola não vem da comunidade,

[00:07:49] vem de uma ideia de estado que a escola tem que protagonizar, então a escola tem que

[00:07:54] garantir no seu ambiente que não haja qualquer atitude de poltrinação, afirmação, ou

[00:08:02] culturalização dos símbolos, o mero fato de tornar aquela oração, o fato, mas isso

[00:08:07] muito simples, enfim, o fato cotidiano já é uma imposição disso, e é muito frequente

[00:08:11] isso, então é preciso que os gestores, secretários de educação, Ministério Público, diretores,

[00:08:18] todos órgãos que planejam e gerenciam o sistema de ensino público, ampliem o esclarecimento

[00:08:22] para os professores e diretores de que é uma transgressão, transgressão exposta

[00:08:27] a uma série de sanções, quando eles abusando da sua impessoalidade, falta de impessoalidade,

[00:08:34] levando seu credo pessoal, ofendem esses jovens que são constrangidos, ridicularizados,

[00:08:40] são humilhados. Daniel, a Liga Humanista Secular tem uma resolução sobre isso? Sim,

[00:08:45] inclusive uma Assembleia Geral votou uma posição em relação a isso, se a instituição

[00:08:49] deveria ter um posicionamento público contrário ou favorável ao ensino religioso nas escolas,

[00:08:54] e por mais que exista o argumento de que o ensino religioso poderia ser utilizado para

[00:08:59] ensinar a história das religiões, que até seria um tema interessantíssimo, cultura religiosa,

[00:09:05] como na prática se sabe que o ensino tem sido feito de forma absolutamente confessional

[00:09:09] e como o Marshall tem falado, enfim, um ensino violador no sentido de impor a crença do

[00:09:15] professor aos alunos, etc., nós votamos com a Assembleia Geral no passado que o nosso

[00:09:20] posicionamento é absolutamente contrário a qualquer tipo de ensino religioso, endotrinação

[00:09:24] religiosa em escolas, e obviamente principalmente escolas públicas. É tudo uma questão de

[00:09:29] princípios, porque a inclusão de ensino religioso como ideal de introduzir conceitos

[00:09:35] de história das religiões, na verdade, é uma armadilha, como vocês disseram. E o

[00:09:40] mesmo argumento a gente pode estender para outras ações do Estado que violam o conceito

[00:09:45] de Estado laico, como, por exemplo, o recente financiamento para o Partido do Governo do

[00:09:50] Encontro Mundial de Jovens que teve no Rio de Janeiro. Por exemplo, jovens católicos.

[00:09:55] Da juventude católica. Porque a mídia escondia essa parte do título do Encontro Mundial.

[00:10:00] O nome do Encontro já é, assim, meio crítico. Então, o argumento é, esse evento foi financiado

[00:10:07] parcialmente pelo Estado brasileiro, inclusive a vinda do Papa, que é uma coisa híbrida

[00:10:13] entre chefe de Estado e chefe religioso. O evento foi financiado parcialmente pelo

[00:10:18] Estado e o argumento utilizado é que, por interesse do Estado, no sentido de que o evento

[00:10:24] trouxe um grande consumo e as pessoas que participaram, que vieram de vários lugares,

[00:10:29] deixaram recursos, gastaram dinheiro no Brasil e que isso foi lucrativo. Então, isso justificaria

[00:10:38] o investimento do Estado, mesmo violando o conceito. Então, nesse sentido, a ideia

[00:10:42] de armadilha é a mesma. Porque a gente pode ter, nesse momento, um evento aparentemente

[00:10:50] inofensivo, que não interfere diretamente nos direitos de outras religiões se manifestarem.

[00:10:56] Mas, assim como o ensino religioso pode ser manipulado e desviado e tornado ensino confesional,

[00:11:03] o investimento pode andar nesse mesmo sentido. Então, é uma discussão de princípios.

[00:11:08] Claro, tem diversas outras coisas. Acho que a questão de resenção de impostos é um

[00:11:12] desses. Quer dizer, na Constituição talá, que o Estado não deveria subvencionar nenhuma

[00:11:19] religião. E até entende-se que, por uma questão histórica, a questão de resenção

[00:11:23] de impostos foi uma tentativa de exonomia, de não beneficiar uma religião da maioria

[00:11:28] e excluir pequenas denominações, etc. Mas o que se vê hoje é um benefício às religiões,

[00:11:34] quer dizer, em detrimento de recursos que podiam estar sendo utilizados em saúde pública,

[00:11:38] em educação ou em sessão.

[00:11:39] Claramente, essa insinuação de templos, por exemplo, permite que algumas dessas religiões,

[00:11:43] inclusive, evidentemente que a taxação não deve ser a mesma que uma empresa que tem

[00:11:45] fins lucrativos, mas algumas religiões, no fundo, algumas seitas, são claramente

[00:11:50] bastante lucrativas, porque não só fazem uma expansão. Tem um comprador entre empresas.

[00:11:54] Se fazem uma expansão com construções e tal muito rápidas, adquirem redes de televisão

[00:11:59] e rádios, jornais. Quer dizer, isso não dá para dizer que é uma coisa não lucrativa,

[00:12:03] ainda não entrando na taxado.

[00:12:04] É, e neste ano de 2013, o governador Garça Gimbal sancionou uma lei aprovada por uma

[00:12:09] unidade, uma Assembleia Legislativa, que estendia para as religiões a resenção de SMS no

[00:12:14] telefone. O PTU, eles já gostam dessa isenção. Então, a troca de quê dar essa facilidade

[00:12:21] econômica?

[00:12:22] Porque faz sentido tu dar isenção, por exemplo, para uma entidade filantrópica, desde que

[00:12:27] a filantropia seja humanitária para todos, que não discrimine os beneficiários dessa…

[00:12:33] E não vai botir ali uma mensagem religiosa.

[00:12:36] E aí, eu ouço dizer que a reforma neoliberal do Estado que aconteceu nos últimos anos

[00:12:39] a favorecer um pouco mais isso, porque ela trouxe no bojo a filosofia da terceirização

[00:12:44] e da delegação para ONGs e entidades do terceiro setor, como se chama, e quando tu,

[00:12:49] por exemplo, delega parte da educação ou da saúde para esses setores, que o Estado

[00:12:53] quer abdicar de fazer para economizar dinheiro, enfim, para continuar subvencionando o capital,

[00:12:57] vai acontecer que tu tem que trabalhar com o que existe e o que existe nesse setor, mais

[00:13:00] tempo e bem estabelecido, as confeccionais. Então, na verdade, é de outra forma que acaba

[00:13:06] mascaradamente ou não, subvencionando indiretamente escolas. Por exemplo, no caso do financiamento

[00:13:11] de escolas, não é só a insinuação de impostos, vamos pensar que o próprio Prouni, que financia

[00:13:15] as universidades, ele está financiando de forma bastante generosa as universidades confeccionais,

[00:13:21] de todos os tipos, de uma forma bastante… Muito generosa.

[00:13:24] Muito generosa mesmo. Então, alguém vai dizer, não, mas tem o lado da terceirização que

[00:13:28] é necessário. É, mas as coisas estão misturadas aí. Porque, na verdade, tu não pode fazer

[00:13:32] uma coisa que é terceirizar para resolver um problema e infringir uma cláusula da Constituição,

[00:13:37] está infringindo. Falando em Constituição, aí eu queria entrar num outro tópico que

[00:13:40] eu não falei antes, me chamou a atenção o fato que na Constituição existe o que se

[00:13:43] chama Cláusulas Pétrias. São aquelas que faça as mudanças que fizer, que não seja

[00:13:47] uma reforma constitucional completa, tu não pode mexer e no caso da Constituição Brasileira

[00:13:51] são só quatro coisas. A forma federativa do Estado, o voto direto, secreto, universal

[00:13:56] e periódico, a separação dos poderes e os direitos e garantias individuais, que é

[00:14:00] o mais importante, e ali estão inclusive os direitos religiosos e tal. Me chamou a

[00:14:04] atenção que eu imaginava, eu esperava, ingenuamente, que a questão da separação entre os Estados

[00:14:07] fosse uma Cláusula Pétria. E não é, e aí eu fui ver que ela não é em nenhuma

[00:14:10] parte do mundo, nem na França, que tem uma separação constitucional entre os Estados.

[00:14:14] Talvez seja bom tu dizer o que significa uma Cláusula Pétria, né?

[00:14:16] Uma Cláusula Pétria é imovível.

[00:14:18] Uma Cláusula Pétria, exatamente. Então, vejam, não é na Constituição Brasileira

[00:14:21] e não é em nenhuma do mundo. Ou seja, isso deixa bem claro que o processo da secularização

[00:14:25] do Estado é um processo em andamento, ainda imaturo, num mundo inteiro. Nenhum Estado

[00:14:30] pode se dizer que é realmente 100% laico, existem diferenças de grau e diferenças complexas,

[00:14:36] porque assim, alguns são mais adequais, fortes num lado, outros no outro, e nenhum é completo

[00:14:40] e amplo em todos. Inclusive, você mencionou os Estados Unidos, não diria que seja tão

[00:14:44] laico assim, o Estado não. Ele tem várias coisas que são muito confeccionais, inclusive

[00:14:48] toda a parte financeira.

[00:14:49] Não, mas há uma vigília contra a intromissão do… Pode haver.

[00:14:52] A vigília é feita pelos republicanos, inclusive.

[00:14:54] Mas há uma atenção contra esse fato, assim, que faz parte da ética.

[00:14:58] É, desdemocrata…

[00:14:59] Não, nesse caso são os republicanos.

[00:15:01] Agora, nós temos um desafio político e cultural terrível, porque a natureza laica, a convicção

[00:15:06] laica, não é predominante. Então, os legisladores têm que ter um certo grau de discernimento

[00:15:12] para entender o valor disso na sua atuação, na sua esfera de poder, que é o poder de,

[00:15:19] enfim, avançar, mesmo que aquilo não responda à sua própria convicção. E no Brasil,

[00:15:24] nós temos hoje um problema terrível, que é a constituição de bancadas confeccionais,

[00:15:28] militantes e que avançam sobre o Estado laico. Então, as mais despudoradas, as que mais agridem

[00:15:35] o vinão público são as evangélicas, o caos do Marco Feliciano Pentecostais, o caos

[00:15:39] do Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos se tornou uma espécie de ícone disso,

[00:15:44] mas a atitude dele é sintomática, ele é consistente com o restante da atuação pública

[00:15:49] desses grupos.

[00:15:50] Inclusive, tem pessoas defendendo, dizendo que, na verdade, o Feliciano é injustiçado,

[00:15:56] no sentido de que existem outras lideranças religiosas, o próprio Papa, que têm as

[00:16:01] mesmas posições conservadoras, mas não é demonizado como o Feliciano, então nesse

[00:16:05] sentido…

[00:16:06] Mas, enfim, aí é um síntoma que cresceu no Brasil recentemente, que é o despudor desses

[00:16:15] grupos na esfera pública, e isso, claro, obriga um outro tipo de trabalho, que é como

[00:16:20] nesse ambiente de minoria cultural dos laicos e ateus salvaguardar a natureza do Estado

[00:16:27] laico.

[00:16:28] O desafio do Gamal Ataturk, na Turquia, por exemplo, nesse século XX, fazer uma revolução

[00:16:33] nacionalista em um país majoritariamente musulmano, de herança automana, conseguiu fazer e defender,

[00:16:40] e é um país que hoje você ainda tem 93% de população islâmica.

[00:16:45] Mas é reconhecido como uma democracia moderna, no entanto, toda manifestação pública de

[00:16:49] qualquer religião tem que passar pela censura prévia do Estado, sabia disso?

[00:16:52] Mas a religia, assim, ele é quase restritiva, as religiões.

[00:16:56] No mundo islâmico é um fenômeno, então para nós é uma espécie de referência histórica

[00:17:04] terrível, não é?

[00:17:05] É bom lembrar que a defesa do Estado laico, dentro do que você mencionava, essencialmente

[00:17:08] ateus e alguns defensores, mas é o nosso.

[00:17:12] No grupo que explicitamente defende o Estado laico, a gente encontra vários grupos religiosos,

[00:17:18] principalmente de minorias religiosas, que sentem as consequências de não viver no

[00:17:22] Estado laico.

[00:17:23] Além de católicos dotados de bom senso, é bom dizer que existem todos.

[00:17:27] O argumento tem que transcender a convicção.

[00:17:30] Esse é o programa Fronteiras da Ciência, hoje a gente está discutindo o Estado laico

[00:17:35] e suas violações.

[00:17:38] Eu queria trazer um outro aspecto nessa segunda parte, que é a seguinte.

[00:17:42] Existem violações do Estado laico que ocorrem na hora de legislar.

[00:17:47] Alguns políticos misturam as suas convicções religiosas com os domínios sabidamente, historicamente

[00:17:55] dominados, controlados pela ciência.

[00:17:58] Então exemplos recentes são o Estatuto do Narsituro, que dá direitos civis para um conjunto

[00:18:05] de células.

[00:18:07] Ou seja, define como ser vivo qualquer coisa um instante depois do momento da concepção.

[00:18:13] Só que tu também és um conjunto de células.

[00:18:15] Um conjunto de células…

[00:18:16] Tem que ter um argumento na suficiente para eliminar essa…

[00:18:19] Um conjunto de poucas células.

[00:18:20] Mas a lei não está de costas.

[00:18:21] Por exemplo, a masturbação não está condenada.

[00:18:24] Está bom a gente chegar no outro argumento.

[00:18:25] Não, não.

[00:18:26] Nós vamos entrar e vamos definir.

[00:18:28] O ponto é, o ser vivo começa na concepção.

[00:18:31] Esse é um conceito religioso que é colocado na legislação como definidor do momento

[00:18:38] onde direitos civis passam a valer.

[00:18:40] Outro ponto de choque entre convicções religiosas e convicções científicas é a questão da

[00:18:48] chamada cura gay, onde se pretende curar algo que não é considerado por especialistas

[00:18:54] pela medicina, pela ciência como doença.

[00:18:58] Então eu queria que vocês comentassem um pouco esses problemas específicos de choque

[00:19:03] e de colisão, a pesquisa que afeta todo mundo.

[00:19:08] O problema principal é que existe uma interferência baseada em princípios, em dogmas religiosos,

[00:19:15] na vida, nas possibilidades de vida de toda a população, independentemente se seguem

[00:19:21] ou não aquelas…

[00:19:22] Eu acho que essas violações são o melhor exemplo que se pode ter da necessidade da

[00:19:27] gente de fato lutar pelo estado laico.

[00:19:30] E por uma cultura laica também.

[00:19:32] São duas coisas.

[00:19:33] O estado laico já é.

[00:19:34] É um reflexo de uma cultura.

[00:19:37] É hipócrita a situação aqui.

[00:19:39] Porque o que se defende é que cada um possa ter dentro da esfera privada a crença que

[00:19:43] quiser.

[00:19:44] Por exemplo, se a pessoa acredita que a concepção é a origem download da alma para dentro da

[00:19:51] pessoa, enfim, etc.

[00:19:53] Bom, então essa pessoa não faça um aborto, se for estuprada, mantenha a sua fé e continue

[00:19:58] mais.

[00:19:59] Mas o estado não pode proibir, não pode cerciar pessoas que não compartilham dessa visão,

[00:20:05] que é uma visão mística, uma visão absolutamente metafísica do problema.

[00:20:10] E que contradiz tudo o que a gente sabe de medicina e oficina.

[00:20:12] Exatamente, que contradiz o conhecimento científico atual.

[00:20:16] Então o estado não pode…

[00:20:18] Com argumento religioso.

[00:20:20] Pois é, esse é aquele tema que falava antes, que é uma tendência das confissões de uma

[00:20:24] forma geral, de serem totalizantes, de tentar considerar que toda humanidade é, em princípio,

[00:20:28] parte do seu credo.

[00:20:29] E, portanto, se sente no direito de impor a totalidade das pessoas, a totalidade dessas

[00:20:33] restrições.

[00:20:34] Ou seja, quando o estado diz que pode, ele não está dizendo que os seguidores daquela

[00:20:39] religião que não querem desaprovar têm o que fazê-los.

[00:20:42] Não está sendo dito isso.

[00:20:43] Tu opta por fazer, mas tu deixa a possibilidade e, com isso, tu não impinge para aqueles

[00:20:47] que risquem.

[00:20:48] São contrários.

[00:20:49] Que, se tu vai observar estatisticamente, é uma maioria, inclusive, de seguidores da

[00:20:53] religião porque as necessidades atuais.

[00:20:54] Mas desviar, desvirtuar o argumento é o que a gente tem presenciado.

[00:20:59] Dizer que isso, por exemplo, que permitir o matrimônio homoafetivo, que isso, na verdade,

[00:21:06] é o início de uma imposição de leis que virão, que vão permitir outras atividades

[00:21:11] ilícitas como pedofilia…

[00:21:14] Isso aí já é campanha, já é retório.

[00:21:16] Esse laço do equidistro regadil não é o melhor forno.

[00:21:18] Esse lançamento metafísico, é associar coisas que não têm um vínculo.

[00:21:21] Não tem nenhuma relação entre elas, mas assim, aí tu toca-se no ponto importante

[00:21:24] porque a história da União Homoafetiva, ela disparou uma das situações mais preocupantes

[00:21:28] da atualidade para os defensores do estado loico.

[00:21:31] A aprovação no Supremo da União Homoafetiva não foi aceita pela comunidade pentecostal,

[00:21:37] que são um conjunto de seitas derivados dos emagélicos, na verdade derivados do fundamentalismo

[00:21:42] do batista americano, e que estão se expandindo no mundo inteiro aqui no Brasil com bastante força.

[00:21:47] Esse grupo não aceita isso e não aceita o convívio democrático também.

[00:21:50] Hoje o deputado João Campos, do PSDB de Goiás, reagiu a isso assim e falou

[00:21:54] ele criou um projeto de emenda constitucional que apeca em 99, em 2011, que é extremamente perigosa.

[00:22:00] Ela tenta permitir que a capacidade de postulação de ações de inconstitucionalidade, a DIN,

[00:22:06] e ações de constitucionalidades, ADCs, possam ser feitas por associações religiosas.

[00:22:10] Ou seja, na lei, no artigo 103 da Constituição, diz que só apresenta a República, o Senado, a Câmara,

[00:22:16] as Assembleias Relativas dos Estados, o Governador, o Procurador-Geral da República, o Conselho do Geral da OAB,

[00:22:21] que é uma entidade nacional de classe, e entidade, partidos políticos com representação,

[00:22:26] e confederações sindicais e entidades de classe, que tem todo um regramento e que são realmente representativos

[00:22:31] e estão estruturados em várias camadas, em muitas unidades da União e tal, estados e tudo, esses podem.

[00:22:36] Agora, se tu colocar associações religiosas nessa lista, se abre caminho pra uma verdadeira guerra de confissões.

[00:22:43] Porque qualquer religião vai poder ter a sua associação que vai entrar nessa lista,

[00:22:47] então o objetivo dele é poder impetrar uma DIN pra impedir a União homoafetiva.

[00:22:50] Mas depois vão querer impedir outras coisas também.

[00:22:52] Isso pode virar uma caixa preta pro SR.

[00:22:54] Vai começar uma guerra, na verdade, rapidamente vão dilapidar a Constituição e transformar numa coisa medieval.

[00:22:59] Não, entendi, então a questão de…

[00:23:00] E fã castígnica também, porque são várias religiões disputando contra os cidadistas.

[00:23:03] Tem a questão até de um ataque de negação de serviço no STF.

[00:23:07] Pode chegar tanta requisição de tantas denominações.

[00:23:11] Hoje em dia, o Brasil tem milhares de denominações religiosas, cada uma com um CNPJ que poderia facilmente entrar…

[00:23:18] E tu tem que lembrar que a facilidade atual pra se criar uma religião

[00:23:23] permite que um determinado grupo, movido por interesses próprios,

[00:23:27] crie uma religião simplesmente pra poder dar entrada nesse tipo de ação.

[00:23:31] Não é só isso, as religiões petecoçais se comportam, inclusive como uma empresa,

[00:23:34] elas têm esse sentido e arrecadam bastante.

[00:23:36] Conseguem se multiplicar rapidamente.

[00:23:38] Rapidamente se transformam em dissidencias e dissidencias e dissidencias.

[00:23:41] E surgem semanalmente novas confissões com nomes levemente parecidos.

[00:23:45] E cada uma delas vai poder ter esse direito.

[00:23:47] A coisa é descontrolada?

[00:23:48] Por exemplo, o Helio Schwarzman, que é um colunista da Folha,

[00:23:51] ele, pra mostrar essa facilidade de processo, ele criou uma religião chamada Heliocentrista.

[00:23:57] Ele foi até um certo ponto.

[00:24:00] Ele criou 468 reais.

[00:24:02] O registro de filho?

[00:24:03] Tudo, tudo.

[00:24:04] Concluiu o processo e aquilo, ela tem um termo jurídico por isso,

[00:24:08] mas o Estado não pode ir lá examinar a natureza do culto.

[00:24:11] Então, tu faz a igreja da Sagrada Batata, por exemplo.

[00:24:14] Ninguém pode dizer que aquilo ali é insustentável.

[00:24:17] Esse é o problema da isenção sem controle.

[00:24:20] Ninguém tentou registrar o espaguete rolador aqui no Brasil,

[00:24:22] nós podemos ter até a pensão invasiva, mas dá trabalho.

[00:24:24] É inauditável.

[00:24:25] Porque tu pode ter, por exemplo, a isenção de impostos que a gente mencionou antes,

[00:24:28] mas isenção não significa descontrole,

[00:24:31] e que não vá haver um controle por parte do Estado de como esses recursos estão sendo utilizados.

[00:24:35] Se realmente é pra fins filantrópicos, humanistas,

[00:24:39] e não como a gente tem acompanhado pelos noticiários,

[00:24:42] como lavagem de dinheiro por algumas religiões.

[00:24:45] A bancada Pentecostal e o fundamentalismo, que tem alguns católicos fundamentalistas também,

[00:24:50] em torno de uns 80 pessoas, já se aproxima de 100 nesse momento,

[00:24:53] e ela tem o governo nas mãos.

[00:24:54] Tanto que tem indicados pessoas trabalhando junto ao governo federal,

[00:24:57] no Executivo, que trabalham juntos.

[00:25:00] Isso é realmente preocupante.

[00:25:02] Existe uma mecânica social, política e orçamentária brasileira hoje

[00:25:06] que tem que ser percebida.

[00:25:07] A emergência econômica e social das classes E e D movidas pelo Bolsa Família,

[00:25:12] que projeta para essa economia 20 bilhões,

[00:25:15] ela inclui também pagamento de dízimo,

[00:25:18] uma certa proporção que terá que ser auditada.

[00:25:20] Não sei com que método estatístico,

[00:25:23] para ver isso aí.

[00:25:24] Mas nós sabemos que nesse ambiente social,

[00:25:26] os crentes, as convicções pentecostais e a cobrança do dízimo é muito forte.

[00:25:31] São presentes nessas comunidades.

[00:25:33] Mas isso até é secundário para tudo que já é feito no dia antes.

[00:25:36] Mas é um secundário sim, porque é um dinheiro muito superior

[00:25:39] ao que vai para muitos campos de pesquisa.

[00:25:41] Mas o Bolsa Família você pode usar para pagar dízimo?

[00:25:45] Não, estou só percebendo o processo,

[00:25:48] que colocam 20 bilhões de reais em estratos sociais brasileiros

[00:25:52] rapidamente pagadores de dízimo.

[00:25:54] Então, se todos eles pagarem dízimo,

[00:25:57] falamos de 2 bilhões.

[00:25:58] Mas vamos ser tenos, entramos em um quadro…

[00:26:02] A gente tem que pegar pelo outro lado.

[00:26:04] O tempo não pode ser de 100.

[00:26:07] Está entrando uma grana para esses tempos,

[00:26:10] também para esse caminho.

[00:26:11] No mínimo, 500 milhões de dinheiro vendo dessa fonte,

[00:26:15] está indo para esse destino.

[00:26:17] Dá para imaginar que é como se fosse um câncer crescendo

[00:26:19] para um dia estourar e danificar o Estado letalmente.

[00:26:23] Se o crescimento da bancada evangélica

[00:26:26] chegar no alcance de hegemonia,

[00:26:29] daqui a pouco se faz uma Assembleia Constituinte,

[00:26:32] aí sim, transforma-se uma teocracia.

[00:26:34] Como entender a demagogia

[00:26:38] criticada pelo Executivo e pelo Congresso,

[00:26:40] junto a esses Pentecostais,

[00:26:42] é porque eles são dentro dessa economia,

[00:26:43] dentro dessa mecânica que hoje é estratégica.

[00:26:46] É uma das principais fontes de potência política

[00:26:48] a emancipação econômica e social desses grupos.

[00:26:51] E eles são evangélicos, não são Pentecostais.

[00:26:53] E o seu desdém…

[00:26:56] Aí está um risco grande de dar valor político e estratégico

[00:26:59] para essa fonte.

[00:27:00] E o seu desdém cívico pode ser ilustrado

[00:27:02] não só por iniciativas como essa desse deputado

[00:27:04] que dando com a PEC permitir que as religiões

[00:27:06] tenham o poder de vetar,

[00:27:08] literalmente o povo delibera,

[00:27:10] mas existe uma campanha de grupo minoritário,

[00:27:12] que não é ainda felizmente majoritário,

[00:27:14] mas mostra o tipo de cultura que rege,

[00:27:17] que circula nessa comunidade,

[00:27:19] que é uma campanha feita por uma aceita que chama…

[00:27:22] Não lembro agora o nome.

[00:27:23] E esse grupo tem uma campanha com adesivos

[00:27:25] no nordeste brasileiro que se chama

[00:27:27] Bíblia Sim, Constituição Não.

[00:27:29] Ou seja, é quase…

[00:27:30] Parece uma piada, mas é absolutamente arrepiante.

[00:27:33] Eu acredito que seja um grupo minoritário,

[00:27:35] mas não necessariamente precisa continuar sendo assim.

[00:27:37] E para que os ouvintes…

[00:27:39] Já mostra como é que é a cultura.

[00:27:41] Para que os ouvintes consigam imaginar,

[00:27:43] e eu gostaria de propor também que imaginassem

[00:27:45] que esse grupo fosse corão, sim,

[00:27:47] e Constituição Não.

[00:27:48] Acho que isso dá uma dimensão do…

[00:27:50] Tão monte, sim.

[00:27:51] Estariam revoltadíssimos, batendo fogo.

[00:27:53] E vocês acham que a desobligatoriedade do voto

[00:27:57] melhora aí a situação?

[00:27:58] Ah, eu tenho certeza.

[00:27:59] Eu não sei.

[00:28:00] Esse é um outro debate.

[00:28:01] Acho que esse é um debate muito complexo.

[00:28:03] O voto ia transformar o Estado numa estrutura descolada.

[00:28:06] Não importa.

[00:28:07] A liberdade é uma meta,

[00:28:08] é um fundamento superior.

[00:28:10] E é isso que a cultura brasileira não valoriza.

[00:28:12] É o valor, o papel da liberdade na vida pública.

[00:28:14] Mas isso não é um debate no leitorial.

[00:28:16] Há uma armadilha nesse…

[00:28:18] Tudo bem, mas assim, nós somos coagidos

[00:28:20] em uma parcela importante da população

[00:28:22] em coagidas incluindo esse processo.

[00:28:25] Eu estou de acordo, mas é muito complicado debater isso aí.

[00:28:28] É uma tutela, não é?

[00:28:29] O que pode ser dito, uma coisa interessante,

[00:28:31] em 2005 foi comemorado 100 anos da reforma constitucional

[00:28:34] à francesa, que instituiu oficialmente, talvez a primeira

[00:28:37] no mundo, a separação entre o Estado no papel

[00:28:40] e vem implementando de forma, às vezes, bastante radical.

[00:28:43] Inclusive a separação física da igreja,

[00:28:46] de suas partes, a cabeça do corpo.

[00:28:49] Exato.

[00:28:50] Existe, em 2005, comemorando, eles lançaram

[00:28:52] a Declaração Universal da Laicidade no século XXI,

[00:28:55] que é muito interessante, é um documento que não está

[00:28:57] traduzido em português, eu não sei, num dos livros,

[00:28:59] o livro do Roberto Loret.

[00:29:00] Na internet não acho a versão em português,

[00:29:02] era bom talvez socializar ela.

[00:29:04] E nessa acusada, eu falo de novo,

[00:29:06] naquele tripé que eu mencionava do Estado laico,

[00:29:08] a laicidade é a harmonização em diversas conjunturas

[00:29:10] sócio-históricas e geopolíticas de três princípios.

[00:29:13] Respeita a liberdade de consciência e a sua prática

[00:29:15] individual e coletiva, a autonomia da política

[00:29:18] e da sociedade civil com relação às normas religiosas

[00:29:20] e filosóficas particulares, a tradução taguíngue,

[00:29:22] que é a autonomia do Estado, e nenhuma discriminação

[00:29:24] direta ou indireta contra seres humanos.

[00:29:26] Então, ele discute exatamente os limites da questão dos,

[00:29:29] por exemplo, uma coisa são os calendários, as cerimônias,

[00:29:32] o cerimonial, que inclusive no lado dos momentos humanistas

[00:29:35] e outros existem, não clérigos, mas pessoas que celebram

[00:29:38] rituais laicos ou seculares, como se chama o termo?

[00:29:42] Casamento?

[00:29:44] A Liz tem investido num projeto que é tentar popularizar

[00:29:47] mais no Brasil cerimônias humanistas.

[00:29:49] Porque hoje em dia a única maneira que muitas pessoas

[00:29:52] tem de ter um evento, que não seja simplesmente

[00:29:55] o casamento civil, que é um evento muito rápido

[00:29:57] e significado, é basicamente burocrático,

[00:30:00] é estar ligado a alguma identidade religiosa.

[00:30:03] Então, é exemplo do que tem acontecido no resto do mundo

[00:30:05] e diversos países ao redor do mundo têm feito isso.

[00:30:08] A gente também está tentando promover essa possibilidade,

[00:30:11] quer dizer, é uma maneira de ter uma cerimônia

[00:30:14] com um sentido um pouco mais social e não somente

[00:30:18] um sentido burocrático, que seja uma cerimônia

[00:30:21] que basicamente valorize os principais valores humanos,

[00:30:25] o amor, a compaixão, a generosidade, enfim,

[00:30:28] tantas coisas maravilhosas que a espécie humana tem

[00:30:31] para oferecer, que não dependem de um entendimento metafísico

[00:30:34] de uma religião.

[00:30:35] E, na verdade, nessa declaração do secularismo

[00:30:39] tem uma discussão bem interessante que, na verdade,

[00:30:42] nos toca por vários ângulos, que quando ele observa

[00:30:44] assim, esse é um tema que ele lembra,

[00:30:46] a crença, que é um problema na atualidade,

[00:30:48] que é que nós estamos terminando um ciclo de credo

[00:30:51] otimista sobre o progresso da humanidade tecnológico

[00:30:54] baseado na ciência, que embora não tenha atingido

[00:30:56] ou mudado muito a cultura das pessoas,

[00:30:58] está começando a haver um descredo progressivo

[00:31:00] na ciência também. E eu vejo as consequências.

[00:31:02] A crença de que o progresso científico e técnico

[00:31:04] pode engendrar progresso moral e social

[00:31:06] enquanto se atualmente decline.

[00:31:08] Isso contribui para tornar o futuro mais incerto,

[00:31:10] dificultar a sua projeção e tornar

[00:31:12] os debates políticos e sociais menos legíveis.

[00:31:14] Depois das ilusões do progresso,

[00:31:16] qual é o seu risco de privilegiar unilateralmente

[00:31:18] os particularismos culturais?

[00:31:20] Essa situação nos estimula a ser mais criativos

[00:31:22] com relação à laicidade, para inventar novas formas

[00:31:24] por vínculos políticos e social, capaz de assumir

[00:31:27] essa conjuntura inédita e encontrar novas relações

[00:31:29] com a história que construímos em conjunto.

[00:31:31] A gente está em palavras sábias.

[00:31:33] O que vem por aí é mais complexo ainda do que

[00:31:35] nós passamos nas últimas décadas.

[00:31:37] Esse foi o programa Fronteiras da Ciência

[00:31:40] com a conclusão da segunda parte

[00:31:42] sobre o estado laico e suas violações.

[00:31:45] Com a gente hoje estiveram Francisco Marcho,

[00:31:47] que é historiador da URGS e co-redor do estúdio Clio,

[00:31:49] Daniel Oliveira, que é um dos diretores da Liga Humanista Circular do Brasil,

[00:31:52] o Jorge Kielfeld, que é professor do Departamento de Biofísica da URGS

[00:31:55] e eu, Jéfra Sorrisón, do Departamento de Física da URGS.

[00:31:59] O programa Fronteiras da Ciência

[00:32:01] é um projeto do Instituto de Física da URGS,

[00:32:04] técnica de Gilson de César

[00:32:06] e direção técnica de Francisco Guazelli.