Amyr Klink


Resumo

O episódio apresenta uma entrevista com o navegador e explorador Amyr Klink, gravada ao vivo durante o evento Antártica 2048 em Porto Alegre. A conversa inicia com uma análise da corrida ao Polo Sul entre Robert Scott e Roald Amundsen, há 100 anos. Klink argumenta que o desfecho não foi uma tragédia, mas sim uma corrida justa, onde a vitória norueguesa se deveu a uma maior sensibilidade às soluções locais e simples, como aprender com os inuits e projetar equipamentos funcionais para o frio extremo, em contraste com a abordagem tecnológica e culturalmente rígida dos britânicos.

Klink então reflete sobre seus próprios projetos, como a travessia do Atlântico a remo em 1984. Ele descreve seu processo de planejamento não como um exercício burocrático, mas como uma busca por soluções técnicas simples, aprendidas com pescadores e canoeiros. Detalha os desafios de projetar um barco para viver e remar por meses, a importância da estabilidade quando o barco está à deriva, e a decisão de viajar sozinho para evitar os conflitos da convivência em espaços confinados sob pressão. Ele também comenta a pressão psicológica em expedições solitárias e o mito da bússola, preferindo a navegação astronômica.

A discussão se expande para outros exploradores, como a épica história de sobrevivência de Ernest Shackleton, considerada por Klink mais fantástica que a conquista do Polo Sul, e os desafios burocráticos da exploração moderna, como a Passagem do Nordeste. Ele também aborda, com cautela, observações sobre mudanças ambientais, notando o aumento da radiação UV e a degradação mais rápida de materiais como o polipropileno, mas evita fazer um atestado científico sobre o aquecimento global antropogênico.

Por fim, Klink compartilha suas paixões atuais, criticando a falta de planejamento urbano e senso estético no Brasil, usando exemplos como Porto Alegre e Brasília. Ele defende a necessidade de coerência visual e funcional nas cidades. Revela também seu interesse por projetos pessoais, como a construção de cúpulas geodésicas em seu quintal, motivado pela matemática e pela estética, e conta a história casual e conturbada de como começou a escrever livros, transformando suas experiências de exploração em narrativas.


Indicações

Livros

  • Livros de Amyr Klink — Klink relata como começou a escrever livros casualmente, após um contrato com a editora José Olympio. Seu primeiro livro surgiu da necessidade de transformar anotações técnicas e desenhos de seu diário de bordo em uma narrativa sobre suas experiências de exploração.

Pessoas

  • Roald Amundsen — Explorador norueguês vencedor da corrida ao Polo Sul. Klink destaca sua sensibilidade em adotar soluções simples e aprender com os inuits, como o uso de couro de rena e a projeção de equipamentos práticos para o frio.
  • Robert Falcon Scott — Explorador britânico que perdeu a corrida ao Polo Sul e morreu na volta. Klink analisa sua expedição como focada em provar superioridade britânica e dependente de tecnologia inadequada, sem adaptação cultural.
  • Ernest Shackleton — Explorador britânico conhecido pela épica história de sobrevivência do navio Endurance. Klink considera essa história mais fantástica que a conquista do polo e comenta como Shackleton transformou um grande fracasso em um sucesso narrativo.
  • Buckminster Fuller — Arquiteto e inventor norte-americano. Klink menciona seu interesse pela matemática geodésica de Fuller, que o inspirou a projetar e construir cúpulas geodésicas em seu quintal.

Linha do Tempo

  • 00:00:22Introdução à corrida ao Polo Sul e a questão do planejamento — O apresentador introduz o tema da corrida ao Polo Sul entre Scott e Amundsen, perguntando a Amyr Klink sobre a importância do planejamento em ambientes críticos e se o planejamento foi responsável pelo fracasso de Scott. Klink inicia sua resposta, questionando a visão do evento como uma tragédia e começando a analisar as diferenças entre as expedições.
  • 00:01:53Diferenças tecnológicas e culturais entre Amundsen e Scott — Klink detalha como Amundsen aprendeu com os inuits, adotando soluções simples como roupas de couro de rena em vez de lã. Ele contrasta isso com a abordagem britânica, que insistia em hábitos culturais inadequados (como tomar chá, um antienergético) e equipamentos padronizados que não consideravam a praticidade no frio extremo, como latas difíceis de abrir com luvas.
  • 00:04:06Objetivos das expedições: ciência vs. conquista — É levantada a diferença de que Scott tinha preocupação científica, enquanto Amundsen estava focado no objetivo. Klink refuta isso, argumentando que a motivação de Scott também era a conquista geográfica e a prova de superioridade britânica, notando que os ingleses pararam as expedições após alcançar o polo, o que não aconteceria se a ciência fosse o motivo principal.
  • 00:05:40O planejamento nos projetos pessoais de Amyr Klink — Retornando à pergunta inicial, Klink discute seu próprio conceito de planejamento. Ele afirma que não basta planejar no papel; é preciso ser proativo e ter sensibilidade para soluções técnicas. Ele descreve o planejamento para sua travessia do Atlântico a remo como um exercício intenso de buscar soluções simples, muitas vezes aprendidas com pessoas fora do meio náutico tradicional.
  • 00:07:54Crítica à engenharia naval tradicional e valorização do conhecimento prático — Klink critica engenheiros navais que não têm experiência prática, afirmando que um mestre jangadeiro pode ser mais engenheiro naval que um formado. Ele defende que a sabedoria para projetar um barco que também é uma casa vem de quem depende do mar, não apenas de cálculos teóricos. Ilustra com o exemplo de projetar um barco com duas proas para evitar o capotamento quando à deriva.
  • 00:10:09Rotina e desafios psicológicos da travessia a remo — Klink descreve sua rotina na travessia: cerca de 12 horas no posto de remo para conseguir 8-10 horas líquidas de remada, totalizando cerca de 45% do dia. Ele fala sobre a navegação astronômica imprecisa e como a falta de conhecimento exato de sua posição foi uma vantagem psicológica, evitando a frustração de saber que estava regredindo devido às correntes.
  • 00:13:52A história de Shackleton e a sobrevivência na Antártica — Klink menciona o navio Endurance de Shackleton, considerando sua história de naufrágio e sobrevivência talvez mais fantástica que a conquista do polo. Ele explica como Shackleton transformou um grande fracasso britânico na maior história de sucesso do período heroico da Antártica, salvando sua tripulação, mas também comenta as mortes esquecidas na base de apoio do outro lado do continente.
  • 00:15:43A escolha de expedições solitárias — Questionado sobre por que viaja sozinho, Klink responde que é menos complicado. Ele relata que conversou com pessoas que invernaram em grupo na Antártica e que, se pudessem refazer, escolheriam ficar sozinhos, devido à dificuldade da convivência em espaços pequenos sob pressão. Ele também menciona as necessidades técnicas de uma embarcação para navegação solitária.
  • 00:18:15Observações sobre mudanças ambientais e aquecimento global — Klink é questionado sobre suas observações do aquecimento global. Ele reconhece mudanças, como o aumento da radiação UV (notando que hoje não pode mais ficar pelado na Antártica como há 25 anos) e a degradação mais rápida de materiais como o polipropileno. No entanto, ele se abstém de atestar cientificamente sobre a causa antropogênica, sugerindo que pode fazer parte de um ciclo natural.
  • 00:21:07Críticas ao urbanismo brasileiro e projetos atuais — Klink fala sobre seu interesse atual em urbanismo, criticando veementemente a falta de planejamento e senso estético nas cidades brasileiras. Ele cita exemplos como as calçadas de Porto Alegre, a impraticabilidade de Brasília e o aterramento de corpos d’água em Porto Alegre, que inviabilizou a navegação. Defende a necessidade de coerência visual e funcional.
  • 00:26:25Projeto pessoal com cúpulas geodésicas — Klink conta sobre seu interesse pela matemática geodésica de Buckminster Fuller e seu projeto de construir uma cúpula geodésica de 18 metros de diâmetro no quintal de sua casa em Moema. Ele descreve a reação negativa dos vizinhos e da imprensa, que questionavam a utilidade da estrutura, que ele vê como uma escultura matemática. Ele acabou vendendo a primeira com lucro.
  • 00:28:07O processo de escrever livros e transmitir conhecimento — Klink discute como começou a escrever livros, de forma casual. Ele relata um contrato mal feito com a editora José Olympio, que esperava um diário de bordo de sua travessia, mas ele só tinha anotado desenhos e números. Sob pressão da editora, ele acabou escrevendo seu primeiro livro, que foi um sucesso, iniciando assim sua carreira literária de compartilhamento de experiências.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2013-12-23T14:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mil.

[00:00:12] O convidado do programa de hoje é o escritor, navegador, explorador, Amir Klink, e foi

[00:00:17] gravado ao vivo durante o Antártica 2048 em Porto Alegre.

[00:00:22] Bom, a gente sabe que a corrida pela conquista do Paulo Sul há 100 anos atrás terminou

[00:00:28] em tragédia, essa corrida entre o Scott e o Hummus.

[00:00:32] Então eu queria te perguntar o quanto nesse tipo de missão, em ambientes críticos, o

[00:00:37] quanto o planejamento é fundamental, o quanto o planejamento pode ter sido responsável

[00:00:41] pelo fracasso do Scott, e nos teus projetos individuais, o quanto o planejamento foi,

[00:00:47] digamos, a parte que consumiu tempo.

[00:00:49] Não acho que foi uma tragédia o término da corrida aos Polos, acho que foi uma corrida

[00:00:53] maravilhosa que terminou de maneira absolutamente justa e…

[00:00:57] Esperados, quer dizer, as mortes…

[00:00:58] Mas o Scott foi grande.

[00:01:00] É, talvez individualmente pra ele foi, talvez pra o mito britânico de superioridade da

[00:01:05] raça britânica tenha sido ruim, mas o fato é que foram experiências que exigiram muito

[00:01:11] dos seus protagonistas, e esses caras que participaram dessa corrida, mesmo os japoneses

[00:01:15] que mal conseguiram se afastar na época do continente antártico, as tentativas belga,

[00:01:22] escocesa e de outras nacionalidades, essas experiências exigiram uma visão muito à

[00:01:27] frente do tempo, na época em que aconteceram.

[00:01:29] Eles chegaram a desenvolver tecnologia, assim, pode dizer…

[00:01:32] Eles sofreram com a dificuldade num ambiente pouco compreendido, e os noregueses, por outro

[00:01:37] lado, não era pelo fato de conviverem com o frio, mas de perceberem o quanto o modo

[00:01:42] de fazer local era importante, se beneficiaram, então eu acho que houve uma sensibilidade

[00:01:48] maior daqueles que venceram em perceber que, às vezes, a tecnologia está nas soluções

[00:01:52] mais simples.

[00:01:53] No caso do Amundsen, é muito interessante, o Amundsen aprendeu muito com os isquimos,

[00:01:58] quer dizer, quando ele percebeu que lã não serve pra frio, é uma borrice usar lã, o

[00:02:03] que protege do frio não é a lã, o que protege do frio é o ar que está contido no couro

[00:02:08] macio das renas, as botas de couro não protegiam os pés do atrito, que eram sapatos macios,

[00:02:14] então, assim, eu acho que foi uma experiência que fez com que todos pensassem muito à

[00:02:19] frente do seu tempo, e mesmo o próprio Scott, eu acho que foi um sucesso, quer dizer, ele

[00:02:23] usou tudo que a tecnologia na época dispôs pra ele, ele usou um balão, mas não sabia

[00:02:28] operar direito o balão, ele usou um automóvel de projeto francês, mas não levou um engenheiro

[00:02:32] francês, e usou os pôneis que o concorrente dele, o Sheperton, propôs, já sabendo…

[00:02:38] A ideia dos pôneis era ocupar pouco espaço, mas ter uma força ali de…

[00:02:42] Ter uma força de tração.

[00:02:43] E eventualmente uma fonte de alimento também.

[00:02:46] Pois é, mas não de alto alimento, então logisticamente os pôneis não funcionavam,

[00:02:50] ele usou a ideia dos skis, só que os ingleses não sabem esquiar, os norueguês tinham um

[00:02:56] amor pelos skis, tinham paixão, uma atividade nova, então eles, enfim, endeusaram a indústria

[00:03:02] estabelecida deles, com sua forma de fazer comida, com suas embalagens, hábitos culturais

[00:03:06] burros, como tomar chá, por exemplo, o chá é um anti-energético, o chá é pra quem

[00:03:11] quer fazer dieta, você não toma chá no frio, você precisa de gordura, de calor, quer

[00:03:15] dizer, você despender energia pra derreter água, pra beber água quente, quando você

[00:03:20] poderia tomar alimento quente, é uma incongruência muito grande, mas é fruto de uma…

[00:03:24] Tem coisas pequeninhas, parece.

[00:03:25] São músculas, diferenças.

[00:03:26] Mas teve uma diferença.

[00:03:27] As latas padronizadas dos ingleses, enquanto os norueguês perceberam que, bom, quando

[00:03:31] você vai urinar a 40 graus abaixo de zero, é difícil abrir a calça, melhor ter um

[00:03:36] abertura diferente, abrir uma lata, soltar uma correia de couro padrão, em inglês era

[00:03:41] muito difícil, porque os norueguês foram até a esse aspecto de projetar latas cujas

[00:03:46] tampas eles pudessem remover sem tirar as luvas, porque é difícil tirar luvas a 40

[00:03:50] graus abaixo.

[00:03:51] Esse mesmo tipo de coisa aconteceu na exploração espacial, eles faziam um treinamento com uniforme

[00:03:56] e eles deram conta que não conseguiam fazer operações básicas, como abrir uma bolsa

[00:03:59] pra botar as pedras da lua, por exemplo.

[00:04:02] Tinha uma diferença grande também entre as duas expedições, que o Amundsen caiu

[00:04:06] afocado no objetivo dele, e o Scott teve toda uma preocupação de fazer experimentos científicos

[00:04:10] ao longo do projeto.

[00:04:11] A minha opinião é falsa, falsa, porque se ele quisesse fazer ciência, ele poderia ter

[00:04:16] ficado fazendo ciência a vida inteira lá no mar de Oedo, no Ross Island.

[00:04:20] Na verdade, a razão que originou a expedição dele era o objetivo geográfico e pouco científico

[00:04:27] de alcançar o polo.

[00:04:29] Ele queria ser o primeiro.

[00:04:30] Por que os ingleses pararam com a corrida depois que eles já tinham alcançado?

[00:04:33] Se a ciência fosse a razão, eles teriam continuado depois de 1912, 1913, continuariam

[00:04:40] e não aconteceu isso.

[00:04:42] Então eu acho que havia um aspecto de provar superioridade, porque existem esses cultos

[00:04:47] raciais.

[00:04:48] Eu acho que naquela época, principalmente, na virada do século, está muito em voga.

[00:04:53] Pois era um período estranho pro Império Britânico, de declínio, era a época vitoriana,

[00:04:58] eles estavam começando a entrar em declínio, havia essa questão da arrogância de nós

[00:05:02] somos melhores e superiores, e eles, de certa maneira, demonstraram isso do mundo inteiro

[00:05:06] em todas as colônias, na Índia, na África, na Ásia, na América Central, quer dizer,

[00:05:11] em todas as colônias, eles deixaram essa marca da superioridade britânica, e de fato

[00:05:16] eles alcançaram isso.

[00:05:17] Claro, eles tinham uma civilização.

[00:05:19] Na interferência na Guerra do Paraguai, aqui, onde eles transformaram os brasileiros de otários

[00:05:23] e nos transformaram em criminosos.

[00:05:26] Então, assim, a gente tem aspectos muito interessantes dessa corrida, que normalmente

[00:05:30] não são mencionados, não era só o desafio em si.

[00:05:34] Então, voltando à questão original do planejamento, nos teus projetos, quanto tu te preocupou com

[00:05:40] o planejamento antes de entrar no barco e a tradição atlântica?

[00:05:43] Eu nunca me propus a falar sobre o planejamento, eu fiz duas mil e quinhentas palestras, quando

[00:05:48] me pediram, imploraram, para falar sobre o planejamento, e não tem a menor importância

[00:05:51] fazer o planejamento.

[00:05:52] O problema é que a gente não tem, no Brasil, essa cultura de planejar.

[00:05:55] Não basta planejar, não basta planejar se você não é proativo, não basta planejar

[00:05:59] se você não tem…

[00:06:00] Quando eu digo planejamento, pensa, por exemplo, que mencionou na tua palestra que o teu barco

[00:06:05] tem autonomia para dois anos e meio antes de…

[00:06:08] Mas não basta eu desenhar, eu determinar que tem que ter dois anos e meio de autonomia,

[00:06:13] tem vários detalhes que dependem muito de sensibilidade, de astúcia, de…

[00:06:17] Quer dizer, tu decide muito na hora lá, tu toma decisões na hora?

[00:06:21] Eu tenho muito cuidado em tentar aprender, enxergar soluções técnicas que possibilitem

[00:06:26] aquilo que eu quero alcançar.

[00:06:28] Então, eu acho que esse é um aspecto interessante, por exemplo, os britânicos na corrida ao

[00:06:32] polo, eles iam sentar acima do patrimônio que eles tinham conquistado, eles não se

[00:06:36] dedicaram de corpo e alma às minúcias, os norueguês foram nas minúcias, então, no

[00:06:41] meu caso, eu sei que fiz um trabalho de planejamento.

[00:06:44] Em 1984, quando tu fez o cruzamento esse do Atlântico, o remorque, quanto tu tem que

[00:06:49] planejar esse barco, esse barco tem que ser inafundável.

[00:06:52] Foi um exercício de planejamento intenso, mas não é nesse exercício.

[00:06:56] Por que tu escolheu remar?

[00:06:58] Eu achava a ideia completamente estúpida, mas depois eu falei, cara, é linda a ideia,

[00:07:02] com energia de feijão e arroz, nenhum hidrocarbonetro, nenhum hidrocarbonetro.

[00:07:06] Por que o inverno?

[00:07:07] O inverno é muito pior?

[00:07:08] Porque eu atrasei, porque eu não ia escapar do mau tempo querendo ou não, então, se

[00:07:11] era para ser bem sucedido no verão, quer dizer, eu rompi com o planejamento que eu fiz,

[00:07:16] mas o mais importante da viagem foi assim, o quanto eu aprendi soluções incrivelmente

[00:07:20] simples que a gente foi revendo, que eu aprendi com pescadores, com pessoas que não tinham

[00:07:25] nada a ver com essa história.

[00:07:26] Tu testava o barco?

[00:07:27] Eu testei pouco o barco, mas eu pensei muito nas soluções, eu conversei muito sobre as

[00:07:31] soluções que a gente usou.

[00:07:32] Burrice usar uma dieta desidratada para economizar peso.

[00:07:35] Eu vou ter que carregar água de novo, o segredo era reidratar com a água do mar, mas quais

[00:07:40] são os alimentos que permitem uma concentração de sódio suficiente para você poder comer?

[00:07:44] São muitos, e aí você tem que tomar certos cuidados, o tempo de cocussão tem que diminuir

[00:07:48] para evitar a evaporação, então tinha muitos detalhes interessantes, porque um projeto

[00:07:52] clássico não é um projeto moderno?

[00:07:54] Porque todos os engenheiros navais fazem burrada por não navegarem.

[00:07:57] Eu vivo cercado de engenheiros navais, eu não conheço um que seja brilhante, porque eles

[00:08:01] não têm experiência prática aplicada, um engenheiro naval não aceita receber conselho

[00:08:05] de um mestre jangadeiro, um mestre canoeiro, só que o mestre jangadeiro é muito mais

[00:08:09] engenheiro naval do que um cara formado, não ospe.

[00:08:11] Qual é a tua experiência prévia com barcos?

[00:08:14] Minima, era mínima, mas a minha dúvida era tão grande que eu fui conversar com todo

[00:08:18] mundo, com engenheiros navais, ultracompetentes, com canoeiros.

[00:08:22] Então a tua ideia com barcos não era assim, ah estou toda a minha vida cercado de barcos

[00:08:25] e decidi fazer um grande projeto?

[00:08:26] Não, eu estava completamente aberto a qualquer solução, e eu acho que essa clareza, essa

[00:08:31] capacidade de perceber é muito importante, é uma espécie de sensibilidade hiper acionada,

[00:08:38] digamos, e eu estava na época muito sensível a qualquer sugestão, ah mas isso é ótimo,

[00:08:43] ah que bom que ótimo, fibra de carbono é a solução, ah que ótimo, mas de repente

[00:08:47] eu vi que o problema não era o peso, o barco tem que ter um certo peso, tem que ter uma

[00:08:50] inércia, porque a energia motriz é pequena, ele não é estável, a história de projetar

[00:08:55] um barco para não navegar foi incrível né, porque muitos engenheiros, não, você tem

[00:08:59] que fazer um casco ultra sofisticado, aconteceu com o Gerardo Abouvi no Pacífico, no Atlântico

[00:09:04] Norte, eles saíram com máquinas ultra e elas funcionaram muito mal, porque esqueceram

[00:09:09] que o barco fica parado a maior parte do tempo.

[00:09:11] O que o barco diz em não navegar é para que nos momentos que ele não está remando,

[00:09:14] para que ele não saia a deriva?

[00:09:15] Não, não, não, não, não, não é nada disso, o barco tem uma atitude ativa quando

[00:09:19] ele está sendo propulsionado e ele tem uma atitude passiva quando ele fica a deriva,

[00:09:24] essa atitude passiva o mar bate nele, o que que acontece quando o mar bate um barco que

[00:09:28] está sem governo?

[00:09:29] O barco vira de lado, quando vira de lado capota, opa eu não quero que meu barco capote,

[00:09:33] então por que o barco tinha duas proas?

[00:09:35] Para ele ter uma atitude diferente, mas essa sabedoria vem de quem depende da pesca do

[00:09:40] mar, não vem de uma escola de engenharia naval, que nem você projetar uma Ferrari

[00:09:44] para você dormir dentro, se você for comprar uma Ferrari que tem um beliche dentro, coisa

[00:09:49] estranha, só que Ferrari é um brinquedo para você usar e jogar fora, um barco não,

[00:09:54] um barco você mora dentro, então compreender o contexto, eu compreendi que o contexto do

[00:09:58] que eu ia fazer incluia remar durante vários meses, dormir, comer, morar, viver dentro,

[00:10:06] não fazer nada.

[00:10:07] Remar era quanto por cento do dia?

[00:10:09] Era uns 45 por cento mais ou menos, eu ficava 12 horas por dia no posto de remo para conseguir

[00:10:18] de 8 a 10 horas líquidas de puxada, aí tinha momentos de fazer navegação astronômica

[00:10:23] em que você estava com coisinha, graças a Deus, se tivesse não teria dado certo, seria

[00:10:29] um auxílio tecnológico que teria me prejudicado, porque eu teria consciência tão precisa

[00:10:34] dos avanços de retrocesso que psicologicamente muitas vezes não conseguiria continuar.

[00:10:39] E prejudicar saber que muitas vezes você não teria mandado fazer nada?

[00:10:43] Eu não teria tido força psicológica para continuar remando sabendo que eu estou remando

[00:10:47] para lá e voltando para trás, e isso explica porque uma francesa nos anos 90 atravessou

[00:10:52] Atlântico Norte e a 16 milhas da Britânia, 16 milhas de uma viagem de 2.700 milhas ela

[00:10:59] desistiu.

[00:11:00] E voltou?

[00:11:01] Não.

[00:11:02] Não, ela desistiu e pediu para ser socorrido, e ela foi acusada de covarde, de louca, de

[00:11:07] Eu sei porque na última semana, quando ela estava a menos de 30 milhas, começaram os

[00:11:12] infernos humanos, quer dizer, mídia, imprensa, patrocinadores, instituições nojentas, começaram

[00:11:18] a cobrar, não, você tem que chegar no domingo, que no domingo é melhor, e aí ela tomava

[00:11:23] uma lufada de vento e voltava para trás, que aconteceu isso durante a viagem.

[00:11:27] Na média ela continuaria avançando, atrasou uma semana, mas a pressão psicológica da

[00:11:31] família, dos parentes, do fabricante do barco…

[00:11:35] Mas você tinha uma boa noção da tua localização?

[00:11:37] Não, tinha uma péssima noção que eu fui aperfeiçoando com o tempo.

[00:11:42] Várias vezes eu fiquei uma semana sem saber onde eu estava.

[00:11:45] Claro que eu tinha noção que se eu estava nos valizes de Sudeste e eu estava aqui, passou

[00:11:50] isso uma semana, você vai adquirindo uma sensibilidade para perceber.

[00:11:53] Eu acho que o vento preliminante do sul jogou para cima, a corrente um pouco contrária

[00:11:58] anulou para cá, eu devo estar por aqui, mas eu só ia confirmar quando eu conseguisse

[00:12:02] ir a uma altura solar.

[00:12:04] E aí tu usava basicamente bússola, cestrante?

[00:12:06] Não, bússola não serve para nada no mato, eu nunca usei a bússola, esse é outro mito

[00:12:10] que as escolas ensinam.

[00:12:11] A gente gosta de mitos.

[00:12:12] É um mito a bússola, não serve para nada, a direção não serve para nada, o que importa

[00:12:16] é a posição.

[00:12:17] E no Atlântico Norte, na verdade, a bússola nunca foi necessária porque você tem uma

[00:12:21] bússola permanente no céu, é a Estrela Polar, que não tem no Atlântico Sul.

[00:12:25] Estava muito coberto quando te fez a travessia, não?

[00:12:28] Várias vezes, eu tive cinco, seis dias cobertos.

[00:12:31] Mas aí depois você se redescobria de novo?

[00:12:34] Às vezes o céu estava limpo, o mar estava tão agitado que eu não conseguia fazer uma

[00:12:37] observação astronômica.

[00:12:38] Quando eu fui para a Antártica a primeira vez, não tinha GPS, e aí eu não estava

[00:12:41] no barco Carrema, eu estava num bruto tabeleiro de 50 pés, é rápido, o barco é rápido,

[00:12:47] a chance de trombar com um gelo, com outro barco, sair fora de rolo, quebrar os planos.

[00:12:54] Teu barco ficou preso no gelo do antigo inverno?

[00:12:57] Ficou porque eu escolhi um lugar para ele prender, fui com esse objetivo.

[00:13:00] O que a gente lê por aí, que tinha sido planejado para aguentar a pressão do gelo?

[00:13:05] Foi outro mito nesses que o gelo pressionou, na verdade o gelo pressiona todos os antigos

[00:13:10] veleiros em Estocolmo, em Murmansk.

[00:13:14] E não quebram também?

[00:13:15] Não, o que quebra o barco não é a pressão do gelo contra o casco, porque a pressão

[00:13:20] aumenta a temperatura de fusão e o barco vai fatalmente ficar na mesma situação.

[00:13:25] O que estoura o casco é quando o gelo trinca e uma parte do gelo assim…

[00:13:31] A gente tem esse exalhamento, escorre uma contra a outra.

[00:13:34] Uma contra a outra, por exemplo, quando há uma fratura da camada de gelo, quando a camada

[00:13:37] está estável, isso explica porque o Endurance ficou quase um ano aderindo, mas ele afundou

[00:13:44] quando de repente uma parte do gelo arrancou o leme e outra quebrou, virou uma ponta e

[00:13:48] entrou no casco.

[00:13:49] Só para quem não sabe, o Endurance é um navio do Shackle.

[00:13:52] O Endurance foi protagonista no caso de sobrevivência, naufrágio de sobrevivência, talvez mais

[00:13:57] famoso da história da humanidade.

[00:13:59] Aliás, eu considero a história do Shackleton muito mais fantástica do que a própria

[00:14:03] conquista do polo sul.

[00:14:05] É incrível o fato de que ele transformou o maior fiasco do Império Britânico, a British

[00:14:10] Imperial Transantarctic Expedition, que nem tocou na Antártica, virou um naufrágio,

[00:14:19] o maior fracasso ele transformou na maior história de sucesso quando se fala sobre o período

[00:14:25] heróico da Antártica.

[00:14:26] E ele só perdeu um pé, teve um pé de queima, ele não foi dele.

[00:14:30] Houve um pé e um olho.

[00:14:31] Ele trouxe os 28 homens vivos, mas ninguém fala do pessoal do Aurora, que ficou esperando

[00:14:35] eles durante três anos do outro lado da Antártica e lá dois morrendo.

[00:14:40] Ouvi essas mortes que a história britânica esconde um pouquinho.

[00:14:43] Essa era a base de apoio?

[00:14:44] Quer dizer, era a base que ficou esperando ele do outro lado da Antártica, ele nunca

[00:14:48] Ele ia cruzar, então um navio Aurora ficou com o irmão do Frank Wild, que se chamava

[00:14:53] C.J.

[00:14:54] Wild.

[00:14:55] Ficou esperando, e aí como eles ficaram sem comida, eles ficaram dois anos moribundos

[00:14:58] lá esperando o Shecton e acho que dois ou três homens, se eu não me engano, morreram.

[00:15:03] Do Shecton foram dois anos, mas eu não me engano.

[00:15:05] Do Shecton foram, acho que um pouco mais dos dois anos, mas ele teve que ir lá resgatar

[00:15:10] os coitadinhos do outro lado, o inferno dele não começou com o sucesso de salvar os

[00:15:15] 28 homens na Inglaterra.

[00:15:17] Ele teve que ir para o Pacífico, para a Austrália, para a Nova Zelândia, descer para o Mar de

[00:15:22] Rosso para pegar a turma do Aurora, que teve uma história também que infelizmente as

[00:15:25] histórias esquecem de contar, eles perderam um navio, o Aurora, e esse navio ficou à

[00:15:30] deriva durante dez meses no Southern Ocean, no Oceano Austral, foi recuperado, voltou para

[00:15:36] Nova Zelândia e ele acabou levando ele de volta para buscar os homens, é uma história

[00:15:40] fantástica.

[00:15:41] Eu queria te perguntar, por que sozinho?

[00:15:43] Porque é menos complicado, não é porque eu gosto de ficar sozinho.

[00:15:45] Para algumas pessoas é mais complicado estar sozinho.

[00:15:47] Aparentemente é mais complicado, no fundo, eu conversei muito com pessoas que, por exemplo,

[00:15:53] invernaram na Antártica, o casal Ponce ficaram um ano e pouco na Antártica, os quatro amigos

[00:15:58] franceses do Quim ficaram um ano também, e quando eu pude conversar com as pessoas

[00:16:02] que tinham passado um ano e perguntei o que eles mudariam se fizessem de novo, todos

[00:16:06] eles foram lá, eu ficaria sozinho.

[00:16:10] Eu percebi que a convivência num espaço sob pressão e pequeno é muito difícil.

[00:16:14] É muito difícil para um grupo pequeno, mas você fez mais sozinho, você fica pensando

[00:16:18] para o que?

[00:16:19] As dificuldades técnicas de ficar sozinho eu já tinha aprendido, quer dizer, é só

[00:16:23] você ter uma embarcação simples, de administração simples, ela não pode ser complicada, não

[00:16:28] pode ter muitos cabos para você cuidar ao mesmo tempo, o barco tem que ser equilibrado

[00:16:32] também, o barco tem que ter um andamento equilibrado, alguns barcos não servem para

[00:16:36] navegar solitário.

[00:16:38] Eu não sabia se ia conseguir, pode ser que eu desistisse no segundo dia.

[00:16:41] Felizmente o primeiro para ti foi um barco que foi feliz nesse aspecto de ser uma embarcação

[00:16:47] muito estável de rota.

[00:16:49] E tu tem assim coisas que não deu certo?

[00:16:51] Minha das coisas que não deram certo, soluções que eu achei que funcionariam, criar uma horta,

[00:16:57] ter plantações em relação a roupa, mas também tinha alternativas, então foi uma

[00:17:03] experiência bacana.

[00:17:05] Mas algum projeto abortado depois de começar?

[00:17:07] Há vários, eu tentei fazer a passagem de Nordeste e tive que desistir por razões políticas.

[00:17:13] A passagem hoje está aberta e é um desafio complexo no aspecto político, burocrático,

[00:17:18] porque a Rússia tem um problema sério de corrupção, é difícil, você ter um agente

[00:17:23] local que manobre e tem um custo, não é uma coisa como simplesmente eu tenho competência

[00:17:30] para navegar, tentar, que vou, você vai.

[00:17:31] Lá não, você tem que ter autorização para passar pelos portos, então é muito mais

[00:17:36] complexo e a realidade hoje é que os desafios, o Everest não é difícil, é uma montanha

[00:17:42] que qualquer bom opinista tem que subir, o difícil do Everest é conseguir a licença,

[00:17:46] as autorizações, os chefas, então é o outro lado.

[00:17:50] O que falta para ser explorado?

[00:17:52] Falta tudo, por exemplo, a Antártica não é bem conhecida, São Paulo é uma cidade

[00:17:56] inexplorável porque muda a cada dia, então eu acho que é um processo contínuo, falta

[00:18:03] muita coisa para a gente explorar ainda, a capacidade humana de fazer uso inteligente

[00:18:08] dos recursos, a gente faz um monte de coisas absurdas, então acho que tem a história

[00:18:13] que a gente explora muito pouco.

[00:18:15] E te perguntar, já que a gente está no contexto do aquecimento global, bom, existe uma quantidade

[00:18:19] muito grande de dados dizendo que o aquecimento global existe, está aí, vou dizer isso,

[00:18:24] está todo mundo de acordo e ainda que é antropogênico, que é origem humana, já que tu é uma pessoa

[00:18:31] que cruzou várias latitudes, tu andou por aí, então tu nota isso desde que começa,

[00:18:36] tu pode dizer assim, isso aconteceu e isso foi uma mudança?

[00:18:40] Essa antropogênia de fato ela existe e é verdadeira, mas eu acho que ela não explica,

[00:18:45] acho que eu falei isso, é engraçado, eu gosto muito desse ambiente antártico porque os

[00:18:49] caras que estão pensando sobre isso estão todos juntos lá e não há um consenso.

[00:18:53] Mas se tu notasse alguma coisa que tu dizia assim, ah não, isso aqui está diferente,

[00:18:57] está menor, tem menos…

[00:18:59] Mas eu também noto um Paraty, não tem mais Pitú no Rio, Rio Assolio, não é só na Antártica,

[00:19:03] então está vendo transformações em todos os lugares.

[00:19:06] Mas como a extensão geográfica que tu anda é grande, tu consegue ver por relações,

[00:19:10] porque muitas vezes o cara diz assim, eu sou muito comum, o cara diz, ah não, mas lá

[00:19:13] em Vacaria tem estado mais frio, mas a minha pergunta é essa, como tu tem essa visão…

[00:19:19] Tu tem a visão global.

[00:19:20] A visão global, tu vê tudo na mesma direção…

[00:19:24] Percebo que há uma mudança, mas eu tenho consciência de que essa mudança pode fazer

[00:19:27] parte também de um ciclo, não vou me antecipar nem ter pretensão de fazer um atestado científico

[00:19:33] sobre o aquecimento.

[00:19:35] Há várias mudanças, a mudança que eu testemunho com frequência que mais me impressiona não

[00:19:41] está ligada ao aquecimento, está ligada ao polipropileno, a gente usa muita coisa de

[00:19:45] poliércica que é muito parecida com o polipropileno e às vezes o pessoal engana a gente, veio

[00:19:50] de pôr uma correia na vela ali para o poliércico onde o polipropileno, polipropileno é muito

[00:19:53] sensível ao ver, então de repente, eu deixava antigamente um cabo de emergência de uma

[00:19:59] retinida, de uma boia de localização, a gente deixava exposto no tempo, durava 5, 6 anos,

[00:20:05] hoje não dura dois, eu ficava pelado em Antártica, há 25 anos atrás eu tomava banho só pelado,

[00:20:11] hoje se você ficar pelado 15 minutos lá, você vai para o poliproteto.

[00:20:15] Então isso eu noto aqui na praia, na praia, eu sou boi hoje.

[00:20:17] É, te imagina, eu atravessei o Atlântico e usei 1 miligrama de creme em protetor solar,

[00:20:22] e eu estava ferrado, nunca usei protetor solar, nem existia protetor solar, não existia,

[00:20:28] existia bronzeador, um óleo para fritar, para fritar, até lá sim, mas isso não é só

[00:20:34] eu que testemunhei, todo mundo.

[00:20:36] Uma questão do debate é a taxa com que as mudanças acontecem, não só que acontecem

[00:20:41] mas que agora elas estão acontecendo muito rápido, os animais, por exemplo, não conseguem

[00:20:44] evoluir com a mesma taxa e agarram-se extinguindo, variações climáticas sempre houve.

[00:20:51] Eu não duvido que haja uma parcela importante de interferência nossa nesse processo,

[00:20:57] mas como eu não sou cientista, já tenho conflitos com várias outras áreas profissionais,

[00:21:03] eu prefiro não atestar.

[00:21:05] E qual é o teu próximo projeto?

[00:21:07] A gente faz muitos projetos diferentes, eu gosto de projetos na área de urbanismo,

[00:21:11] eu não gosto do urbanismo que a gente adotou no nosso país, aliás da falta de senso urbanístico,

[00:21:17] a gente tem um país lindo e a gente pratica uma sensatez em massa e aplaude ao mesmo tempo

[00:21:23] e estamos todos como se estivéssemos numa canoa chegando na cachoeira e estamos festejando

[00:21:27] que o rio é lindo, não é um caos, não tem uma calçada em Porto Alegre que dá para andar,

[00:21:33] não tem um prédio decente, um prédio tem 20 andares, o outro tem dois, verticaliza em qualquer lugar,

[00:21:39] qualquer prefeito se chega lá com uma grana e passa.

[00:21:41] É possível andar de bicicleta em Porto Alegre por causa das calçadas?

[00:21:45] Pois é, mas aí nas cidades planejadas também a gente não fez,

[00:21:48] uma cidade que foi planejada para o uso do automóvel, é o único lugar no Brasil

[00:21:52] onde não dá para usar automóvel em Brasília, vai de carro para Brasília às 7h30 da manhã,

[00:21:56] não entra, não sai e a gente em Deus uma anta, uma anta que morreu com mais de 100 anos,

[00:22:01] que se chama Niemeyer, o cara é um baita artista, o maior projetista de maquetes que eu vi na minha vida,

[00:22:06] as obras dele são maquetes, não são obras reais, eu não quero morar num prédio dele

[00:22:10] porque ele não sabe projetar, é mal feito, não bate luz, não tem acabamento,

[00:22:14] não tem fechamento, não tem detalhe.

[00:22:16] Como uma cidade projetada para automóvel hoje é impraticável para os outros,

[00:22:19] ele andava de bicicleta, ele nunca pensou que ia.

[00:22:22] Mas eu acho que essa parte era do Lúcio Costa.

[00:22:24] Pois é, mas houve uma geração política também onde alguns privilegiados

[00:22:29] encabeçaram um processo que deveria ter sido muito mais inteligente.

[00:22:32] Nós temos uma geração, duas gerações inteiras de grandes arquitetas

[00:22:36] que ficaram na sombra de, na minha opinião, um falso ídolo.

[00:22:40] No Brasil acho que tem dois problemas, um é a falta de senso de urbanismo

[00:22:43] e outra a falta de senso estético, que não existe nas cidades.

[00:22:46] Existem cidades no mundo que para construir um prédio

[00:22:49] ele precisa ser aprovado esteticamente no contexto onde ele está.

[00:22:52] E no Brasil a gente tem o ruído visual.

[00:22:54] Eu sei que parece um pouco pedante falar do senso estético,

[00:22:58] mas ele é muito importante, porque ele cria uma coerência.

[00:23:00] A coerência visual está atrás de uma certa funcionalidade física,

[00:23:05] que é o que a gente fala quando a gente projeta cascas de ultra performance.

[00:23:09] De repente quando ele começa a ficar muito feio, tem uma coisa…

[00:23:12] Você sabe que não vai dar certo.

[00:23:14] Você sabe que não vai dar certo.

[00:23:16] Por exemplo, a gente estava agora em um lugar que tem prédios horríveis,

[00:23:19] arquiteturas horríveis, um mal gosto latente, que é a Flórida, a Miami.

[00:23:24] Mas tudo funciona, é impecável, não tem um lugar onde não tem vaga para parar,

[00:23:29] não tem um lugar onde você não anda de patinete, cadeira de roda, bicicleta.

[00:23:33] Você pode andar de bicicleta nas vias ou nas calçadas.

[00:23:36] Existe uma espécie de regra ou uma coerência na intervenção urbanística

[00:23:41] que faz todo o sentido.

[00:23:43] Tem canais, luz nos canais, olha os canais que tem aqui.

[00:23:46] Me diz quem é o daúcha aqui que tem o barco parado na beira d’água,

[00:23:48] abaixo o barco na beira d’água.

[00:23:49] Nenhum, nenhum são os coitados miseráveis que estão em palafitas na beira d’água.

[00:23:54] Então assim, temos medo da água, temos medo de…

[00:23:57] Cidade não tem mar, cidade não tem porto, mas a cidade se chama Porto.

[00:24:00] Não, não, mas temos um trauma quando teve essa enchente…

[00:24:04] Eu não vivo, você não nasceu em 1941, não é possível.

[00:24:07] Mas a gente entrou a água da Copa de 50, sem ter participado, né?

[00:24:12] Se o Oxalá houvesse outras enchentes como essa para fazer a gente crescer o Porto.

[00:24:17] Não, porque o que eles fizeram, o que eles fizeram, houve a enchente

[00:24:20] e ao invés deles entenderem o lago, eles botaram um muro para não ver…

[00:24:25] E aterraram.

[00:24:26] E aterraram.

[00:24:27] Até os incríveis.

[00:24:28] Então todos esses prédios antigos que estavam…

[00:24:30] Eu tomei uma aula ontem com o maluco do Bueno lá, do Eduardo Bueno, o Peninho, né?

[00:24:36] Ele foi contando a história daqueles prédios lindos, todos tinham atracadouros lá.

[00:24:40] A Renner tinha atracadouros.

[00:24:42] E assim, quem são esses urbanistas abrutalhados, ignorantes que…

[00:24:47] A questão, se você for pensar, aterrar…

[00:24:49] Porto Leque não tinha nada, era só campo, tinha espaço onde não acabava mais.

[00:24:54] Eles vão aterrar onde tem o lago ao invés de…

[00:24:57] E aí acontecem os problemas que se repetiram em outras cidades.

[00:25:02] A maior malha navegável natural da América do Sul, tirando a história do Amazonas,

[00:25:07] e talvez lá do Maranhão, a Baixada Santista,

[00:25:11] que era uma região economicamente empujante, forte,

[00:25:15] que está na origem da economia brasileira, com o Porto de São Vicente,

[00:25:19] foi o primeiro corpo, e de repente nesse século que passou,

[00:25:23] nos poucos anos que se passaram,

[00:25:24] foi castrada por pontos baixos de todos os lados, inviabilizou a navegação.

[00:25:29] E hoje a gente reclama, nossa, mas que trans, mas somos muito burros, né?

[00:25:32] E hoje o Brasil está revertendo esses erros a um custo muito grande.

[00:25:36] Quer dizer, essa estratégia, sei lá, dos plantadores de soja,

[00:25:39] dos matrúrios do Sul, de escolar a soja pela Amazônia, pelo Amapá…

[00:25:44] Mas, poxa vida, se tivesse sido pensado isso antes,

[00:25:47] a hidrovia tinha que ter Paraná é maravilhosa,

[00:25:49] mas o Paraná-Panema não esqueceram das reclusas.

[00:25:52] Aí em Tocantins, a lei obriga as reclusagens e os canalhas dos corruptos

[00:25:57] que deram as concessões para os concessionários de energia,

[00:26:01] não exigiram que fizessem as recluses,

[00:26:03] então o Rio Tocantins hoje não é mais navegável.

[00:26:07] E assim a gente fez numa escala extraordinária.

[00:26:09] Então essa falta de método me incomoda um pouco.

[00:26:12] Em urbanismo, claro, você precisa do senso estético, o planejamento,

[00:26:16] mas precisa ter um rigor técnico.

[00:26:18] Como é que é a atuação nessa área?

[00:26:19] Está a assessoria?

[00:26:21] Tem ideias?

[00:26:22] Todas as coisas que a gente usa, a gente gosta de repensar.

[00:26:25] Então, por exemplo,

[00:26:26] eu dos anos atrás me interessei pela matemática do Fuller,

[00:26:30] do Bookminster Fuller, matemática geodésica.

[00:26:33] E aí eu vi e falei, caramba,

[00:26:34] eu quero ter uma geodésica no quintal de casa.

[00:26:37] Aí você vai procurar uma geodésica,

[00:26:39] tem todos os amantes do Fuller, do boom geodésico dos anos 50, 60, não sei o quê,

[00:26:45] mas só fizeram porcaria, tudo mal feito, tudo amassado.

[00:26:49] Não.

[00:26:50] Aí eu resolvi desenhar um sistema de conexões

[00:26:53] e resolvi recalcular geodésicas na proporção que me interessava.

[00:26:57] Eu não quero terminar no Equador,

[00:26:59] eu quero ter o efeito estético de descolamento do chão.

[00:27:03] E aí eu quebrei as pestanas calculando lá meses de cálculo

[00:27:07] e estou fazendo geodésicas lindas de moé.

[00:27:09] Muitas vezes pra que serve essa geodésica?

[00:27:11] Aí eu fiz uma geodésica de 18 metros de diâmetro no quintal de casa.

[00:27:16] As vizinhas durante dois meses ficaram ensandecidas,

[00:27:20] mas pra que serve isso?

[00:27:22] Pra nada, pra nada, nada.

[00:27:24] As pessoas não aceitam que você faça uma coisa que se vê pra nada.

[00:27:26] Onde estão os discos voadores?

[00:27:28] E no final eu vendi ela,

[00:27:29] tive um baita lucro e mandei uma caixa de bombons lá pra presidente do bairro.

[00:27:34] Fiz outra geodésica e ninguém falou nada.

[00:27:36] Mas vendece pra que pra?

[00:27:38] Encheram tanta paciência que de repente começou a aparecer

[00:27:40] a imprensa na porta de casa,

[00:27:42] filmando, obra misteriosa em Moema,

[00:27:45] na casa do navegador, não sei o quê.

[00:27:48] Um dia saiu na vejinha de São Paulo,

[00:27:51] esperamos que o navegador não tenha perdido a razão,

[00:27:54] porque é um bairro residencial,

[00:27:56] isso é uma obra, mas é uma escultura matemática,

[00:27:59] eles são tudo de alumínio, é linda de Moema.

[00:28:01] Ela tem a estética dela mesmo,

[00:28:03] mas ela pode ser apreciada por isso.

[00:28:05] Uma das coisas que eu aprecio muito na tua obra

[00:28:07] é que tu faz os teus projetos,

[00:28:09] dedica o teu tempo de exploração,

[00:28:11] depois esse conhecimento que tu acumula tu passa adiante,

[00:28:15] tu escreve livros,

[00:28:17] porque isso é um pouco próximo do que a gente faz,

[00:28:19] a gente aprende um monte de coisa e nosso trabalho é ensinado.

[00:28:22] Como é que tu vê esse processo de passar adiante

[00:28:25] essa experiência que tu acumula durante as tuas explorações?

[00:28:29] Eu não faço isso como um ímpeto,

[00:28:31] aconteceu a casualidade de passar pra frente

[00:28:34] do mesmo modo como eu recebi,

[00:28:36] então é engraçado, mas eu gosto muito de ler,

[00:28:38] gosto de escrever.

[00:28:40] Parece que não vai bem com uma personalidade

[00:28:43] de quem gosta de botar a mão na massa.

[00:28:45] Pois é, mas eu gosto de graxa, de mecânica,

[00:28:47] eu gosto de tudo,

[00:28:49] mas no Brasil a gente não aceita que uma pessoa

[00:28:51] tenha interesses opostos, limpos e sujos.

[00:28:53] O fato é que eu descobri essas histórias todas lendo

[00:28:57] e de repente surgiu a oportunidade de escrever.

[00:29:00] Eu já tinha escrito sobre constituições,

[00:29:02] embarcações brasileiras,

[00:29:04] mas nunca tinha tido a chance de publicar.

[00:29:06] E aí a primeira experiência de livro aconteceu casualmente.

[00:29:09] Pra mim foi uma experiência muito divertida,

[00:29:11] porque de repente havia uma febre.

[00:29:13] Ah, queremos publicar um livro sobre essa experiência.

[00:29:16] E eu, antes de sair, não tinha menor intenção

[00:29:19] de fazer um livro.

[00:29:20] Eu queria concluir a história de um jeito bacana.

[00:29:22] Quando acabou, era uma história divertida.

[00:29:24] Aí eu falei, vou contar.

[00:29:26] E aí surgiu um contrato mal feito

[00:29:28] com uma editora que se interessou,

[00:29:30] José Olímpic, que na época não era comum,

[00:29:32] mas adiantaram um dinheiro.

[00:29:33] Eu estava cheio de dívidas,

[00:29:35] aceitei o dinheiro e no contrato esqueci de botar o prazo.

[00:29:37] E aí, quando a gente assinou o contrato,

[00:29:39] eles falaram, bom, agora queremos o diário.

[00:29:41] Eu estava na mesa do contrato, recebi o dinheiro,

[00:29:43] e eles falaram, agora dá o diário.

[00:29:45] Eu falei, mas pra que vocês querem?

[00:29:47] Não, nós queremos publicar o diário.

[00:29:49] Aí eu abri, ninguém tinha aberto o meu diário.

[00:29:51] Não tinha nada?

[00:29:53] Só tinha desenhos e números.

[00:29:55] Não tinha uma frase no diário.

[00:29:57] E aí eles ficaram loucos.

[00:29:59] Mas você nos enganou.

[00:30:01] Na época José Olímpic estava em regime falimentado,

[00:30:03] foi comprada pela Xerox.

[00:30:05] A Xerox ficaram malucos.

[00:30:07] Botaram um advogado pra tocar campanha de casa

[00:30:09] todos os dias durante oito meses.

[00:30:11] E nos seis primeiros meses,

[00:30:13] não tinha vontade nenhuma de sentar e escrever.

[00:30:15] Tinha um monte de coisa legal pra fazer.

[00:30:17] Conta pra pagar.

[00:30:19] E foi assim que começou,

[00:30:21] de um modo polêmico, o primeiro livro.

[00:30:23] Quando eles assumiram o prejuízo,

[00:30:25] aí esqueceram e eu sentei e escrevi.

[00:30:27] E o livro foi feliz.

[00:30:29] Esse foi o Fronteiras da Ciência.

[00:30:31] Nosso convidado de hoje foi o Amir Klink,

[00:30:33] que é navegador, explorador e escritor.

[00:30:35] Não necessariamente nessa ordem.

[00:30:37] E além dele, tivemos o Marco de Arte

[00:30:39] e eu, Jéfer Sorenson,

[00:30:41] do Instituto de Física da URGES.

[00:30:43] O programa Fronteiras da Ciência

[00:30:45] é um projeto do Instituto de Física da URGES.

[00:30:47] Técnica de Gilson de César

[00:30:49] e Direção Técnica de Francisco Guazelli.