Paul Dirac II


Resumo

Este episódio do Fronteiras da Ciência é dedicado a explorar a figura excêntrica e genial do físico Paul Dirac. Os participantes discutem suas contribuições fundamentais para a física, como a formulação da mecânica quântica e a previsão da antimatéria, mas o foco principal está em seu caráter peculiar, que o levou a ser conhecido como ‘o homem mais estranho’.

A conversa aborda especulações sobre Dirac possuir traços associados ao espectro autista, como foco intenso, dificuldades de socialização e uma comunicação extremamente lacônica. São contadas diversas anedotas que ilustram seu comportamento literalista, sua aversão a conversas superficiais e sua relação peculiar com colegas como Niels Bohr, Robert Oppenheimer e Richard Feynman.

Os participantes também exploram a infância difícil de Dirac, marcada por um pai abusivo e severo, e o trágico suicídio de seu irmão. Apesar de sua personalidade reservada, Dirac formou amizades duradouras, casou-se (em grande parte por insistência de sua esposa) e manteve posições políticas e religiosas bem definidas, sendo um ateu convicto com uma visão crítica da religião como instrumento de controle social.

O episódio reflete sobre por que Dirac, apesar de suas contribuições científicas serem consideradas do mesmo nível de Albert Einstein, não alcançou a mesma fama popular. As razões apontadas incluem sua aversão total à publicidade, sua comunicação restrita ao círculo de especialistas e o fato de Einstein ter sido amplamente promovido, especialmente após a confirmação da relatividade geral em 1919.

Por fim, é destacado o legado duradouro de Dirac, incluindo prêmios com seu nome e sua influência contínua na física teórica, consolidando-o como um dos gigantes do século XX, cuja genialidade estava inextricavelmente ligada a uma personalidade verdadeiramente única.


Indicações

Books

  • “The Strangest Man: The Hidden Life of Paul Dirac” de Graham Farmelo — Biografia de Paul Dirac citada como a principal fonte de informações sobre sua vida e personalidade, incluindo a especulação sobre traços de autismo. É referida como ‘O Homem Mais Estranho’.
  • “Os Fundamentos da Mecânica Quântica” de Paul Dirac — Livro didático de Dirac mencionado como exemplo de sua escrita excepcionalmente clara e fluida, que faz a mecânica quântica parecer simples.
  • “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski — Romance que Dirac leu e sobre o qual seu único comentário registrado foi apontar um erro factual (o sol nascendo duas vezes no mesmo dia), ilustrando sua atenção a detalhes lógicos em detrimento do conteúdo emocional.

Organizacoes

  • Centro Internacional de Física Teórica (ICTP) — Instituição em Trieste com a qual Dirac colaborou a convite de Abdus Salam. O ICTP concede uma Medalha Dirac, um dos prêmios que levam seu nome.

Pessoas

  • Richard Feynman — Físico mencionado como o ‘antimatéria’ de Dirac em termos de personalidade - expansivo e falante. É citado o contraste filosófico entre os dois sobre a importância da beleza versus experimentos nas equações.
  • Niels Bohr — Físico dinamarquês com quem Dirac tinha um estilo de trabalho e comunicação completamente oposto, o que impediu qualquer colaboração entre eles. A anedota sobre Bohr não saber como terminar uma frase é contada.
  • Peter Kapitsa — Físico russo e grande amigo de Dirac, que o ensinou alpinismo e com quem ele tinha uma forte ligação, visitando frequentemente a União Soviética.
  • John C. Polkinghorne — Último aluno de doutorado de Dirac, que relatou o lema do professor sobre a beleza das equações. Também protagonizou um dos supostos diálogos mais longos de Dirac.
  • Sônia Aschauer — Física brasileira que foi orientanda de Dirac, possivelmente a segunda doutora em física do Brasil. Sua história é descrita como misteriosa, com pouca informação disponível.

Recursos

  • Entrevista de História Oral com P. A. M. Dirac (AIP) — Longa entrevista transcrita concedida por Dirac a Thomas Kuhn e Eugene Wigner em 1962, disponível no arquivo do American Institute of Physics (AIP.org), citada como uma fonte primária valiosa sobre sua vida.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao programa e à figura de Paul Dirac — O programa apresenta Paul Dirac como um gigante da física, responsável por contribuições como a mecânica quântica e a previsão da antimatéria. Anuncia que o foco deste episódio será explorar o caráter peculiar de Dirac, descrito como um dos cientistas mais estranhos. Os participantes são apresentados.
  • 00:01:16Biografia inicial e especulações sobre autismo — Jorge apresenta uma breve biografia de Dirac, desde seu nascimento em 1902 até sua formação em engenharia e matemática. Discute a infância difícil com um pai severo e a especulação presente em sua biografia (‘O Homem Mais Estranho’) sobre ele possuir traços de autismo, como foco intenso, isolamento social e comunicação lacônica. São mencionados seus hábitos solitários, como longas caminhadas.
  • 00:03:34Carreira científica e legado — A carreira científica de Dirac em Cambridge é detalhada, incluindo seu Prêmio Nobel de 1933 pela formulação da mecânica quântica e a previsão da antimatéria. São citadas outras contribuições, como trabalhos em eletrodinâmica quântica e na purificação do urânio durante a guerra. É mencionado que ele ocupou a prestigiosa Cadeira Lucasiana de Matemática, anteriormente de Newton.
  • 00:05:34A busca pela beleza matemática e contraste com Feynman — É destacado o lema de Dirac de que ‘as leis da natureza devem ser expressas em equações belas’. Este princípio é contrastado com a visão mais pragmática de Richard Feynman, que priorizava a correspondência com experimentos. A anedota do primeiro encontro silencioso entre os dois físicos, culminando na pergunta ‘Eu tenho uma equação, você também tem uma?’, é contada para ilustrar seus caracteres opostos.
  • 00:08:44Habilidade de reconhecer padrões e intuição — Os participantes discutem a notável intuição e capacidade de Dirac de reconhecer padrões. É contada a história em que, observando sua esposa tricotar, ele deduziu que existiam apenas duas formas possíveis de fazer aquele ponto. Essa habilidade de resolver problemas de forma analógica e visual é relacionada a possíveis características de sinestesia dentro do espectro autista.
  • 00:10:14Diálogos lacônicos e a ‘unidade Dirac’ — São compartilhadas histórias que ilustram a extrema concisão de Dirac na comunicação. É mencionado o diálogo supostamente mais longo com o físico John C. Polkinghorne, sobre mésons. Os participantes brincam sobre a ‘unidade Dirac’ (uma palavra por hora) como medida de fala. É citada sua longa entrevista para o projeto de história oral de Thomas Kuhn.
  • 00:12:03Anecdotas sobre literalismo e falta de sutileza social — Várias anedotas são contadas para exemplificar o literalismo e a falta de percepção de sutilezas sociais de Dirac. Incluem a pergunta sobre o horário de aparecimento de um fantasma (Greenwich ou horário de verão), sua resposta seca a um aluno que fez uma afirmação disfarçada de pergunta, e sua crítica direta ao estilo de escrita prolixo de Niels Bohr.
  • 00:15:01Capacidade como professor e orientador — A discussão aborda as habilidades didáticas de Dirac. Embora seus livros sejam considerados de clareza excepcional, ele não era considerado um bom orientador no sentido de oferecer apoio pessoal ou emocional aos alunos. É mencionada brevemente sua orientanda brasileira, Sônia Aschauer. O contraste entre sua escrita fluida e sua dificuldade em interações pessoais é destacado.
  • 00:16:38Relação com literatura, poesia e emoções — São narradas histórias que mostram a relação peculiar de Dirac com as artes. Seu único comentário sobre ‘Crime e Castigo’ de Dostoiévski foi apontar um erro factual (o sol nascendo duas vezes no mesmo dia). Sua famosa crítica a Robert Oppenheimer por escrever poesia é citada, onde ele contrasta a ciência (dizer algo novo em palavras claras) com a poesia (dizer algo conhecido em palavras obscuras).
  • 00:18:11Infância traumática e suicídio do irmão — São detalhados os aspectos traumáticos da infância de Dirac: um pai controlador que impunha regras absurdas (como a separação por gênero nas refeições, levando Dirac a acreditar que mulheres falavam inglês e homens francês) e que proibia visitas. O trágico suicídio de seu irmão mais velho é mencionado, e comenta-se que este evento fez Dirac perceber, pela primeira vez, que seus pais se importavam com os filhos.
  • 00:23:49Posições políticas e religiosas — Os participantes discutem as visões políticas e religiosas de Dirac. Ele era um ateu convicto e via a religião como um instrumento para ‘manter as classes baixas quietas’, uma visão próxima a uma análise marxista. Sua amizade com cientistas soviéticos e uma visita negada aos EUA durante o macartismo em 1954 são citadas como reflexo de suas posições.
  • 00:25:37Por que Dirac não é tão famoso quanto Einstein? — O episódio questiona por que Dirac, com contribuições de magnitude similar, não alcançou a fama popular de Albert Einstein ou mesmo de Richard Feynman. As razões discutidas incluem: a aversão total de Dirac à publicidade; a natureza mais abstrata e difícil de explicar de suas contribuições; e o fato de Einstein ter sido amplamente promovido pela mídia, especialmente após a confirmação experimental da relatividade geral em 1919.
  • 00:29:56Amizades e relacionamento conjugal — A última parte aborda como Dirac formou amizades, muitas vezes por persistência dos outros, como com o físico russo Peter Kapitsa. Seu casamento com a irmã de Eugene Wigner é descrito como algo que aconteceu mais por insistência dela. Uma anedota final ilustra sua literalidade até em uma discussão conjugal, quando perguntado o que diria se a esposa fosse embora, respondeu: ‘Tchau, querida’.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2014-06-16T20:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:17] Num programa anterior discutimos as contribuições do físico Paul Dirac, um gigante da física,

[00:00:23] participou na construção da mecânica quântica, do formalismo da teoria quântica como é

[00:00:28] conhecido hoje, fez contribuições extraordinárias, previsão da existência da antimatéria,

[00:00:34] todo mundo que gosta de ficção científica, desde desenho animal até filmes mais profundos

[00:00:39] ouve falar que Paul Dirac concebeu a possibilidade dessa antimatéria.

[00:00:42] Então no programa anterior a gente discutiu um pouco de como é que se formou essa contribuição

[00:00:47] científica dele e no programa de hoje vamos conversar mais sobre a figura, sobre o caráter

[00:00:51] dessa personalidade, um dos físicos, um dos cientistas mais estranhos que já apareceu

[00:00:56] pelo nosso planeta.

[00:00:57] Então vou tentar desvendar porque que ele era tão estranho e como ele era tão estranho.

[00:01:01] Para isso um dos convidados é a doutora Fernanda Stephens, que é física, está falando de

[00:01:06] São Paulo, o Jorge Kylfield e o Jefferson Anzon em Porto Alegre, e o Marco Idarte aqui

[00:01:11] em Berlim.

[00:01:12] Vamos começar com o Jorge, com aquela introdução sobre o Dirac.

[00:01:15] Obrigado.

[00:01:16] Em 2013, de certo modo, comemorando um número bonito referente a Dirac, que é um homem

[00:01:20] que adorava números.

[00:01:21] São 111 anos do nascimento de Paul Adrian Maurice Dirac, um dos maiores físicos, mas

[00:01:27] da história, um dos maiores cientistas da história do século XX, mas não reconhecido

[00:01:31] popularmente como um grande ídolo como Einstein e outros, por vagões que acabam de discutir

[00:01:35] por que hoje.

[00:01:36] Mas ele acabou sendo um sinônimo de personalidade estranho.

[00:01:40] Aliás esse é o nome da biografia dele, saiu do programa Farnelo, que é o homem mais estranho

[00:01:45] de todos.

[00:01:46] Dirac nasceu em 1902, muito jovem, entrou no curso de engenharia na cidade dele de Bristol,

[00:01:51] ele filho de um pai muito severo e exigente, importante esses dados, que fez uma pressão

[00:01:56] muito grande sobre o filho, especialmente sobre ele, ele era professor de francês,

[00:01:59] o pai dele era suíço.

[00:02:00] Pressão é um modo de dizer, né, que hoje se chama de abuso.

[00:02:03] Pois é, bom para os pais que fazer grandes pressões nos filhos normalmente não gera

[00:02:07] um gênio, mas sim neurótico.

[00:02:09] Nesse caso ele chegou a uma combinação dos dois, porque ele acabou sendo uma pessoa

[00:02:12] que inclusive é considerada por alguns, e ele é lançado em alguns lugares como um

[00:02:15] autista.

[00:02:16] Mas eu pessoalmente não li nada muito sofisticado sobre isso, eu pessoalmente não sei se eu

[00:02:20] defini ele como um autista, mas que é uma personalidade parecida com o autista, estranha,

[00:02:24] que inclusive é pouco social, de pouca fala, ele respondia as conversas longas basicamente

[00:02:29] com monossílabos e tal, isso sim, e deu origem a histórias divertidas.

[00:02:32] Essa tese de autismo é uma especulação até do próprio autor da biografia, mas ele

[00:02:37] mesmo diz que não passa de uma especulação, o que acontecia é que o Dirac ele tinha várias

[00:02:43] das características que hoje se associam com o autismo, talvez uma versão do autismo,

[00:02:47] que tem vários tipos né, que é o Asperge.

[00:02:49] Por exemplo, ele tinha poucos interesses, ele era muito focado, ele não procrastinava,

[00:02:54] basicamente ele trabalhava no que ele se propunha muito tempo seguido assim.

[00:02:58] De segunda a sábado, todos os dias, e os domingos ele caminhava sozinho, e não queria

[00:03:02] conversa gay, e se alguém fosse junto, ele só ouvia.

[00:03:04] Ele tinha essa tendência a isolamento, ele falava pouco, acho que mais ou menos.

[00:03:08] Porém nessas caminhadas, depois de um período eu estive com um amigo Capítis, cadê ele,

[00:03:11] que era russo, que ensinou alpinismo pra ele, Capítis era todo atlético e desportivo,

[00:03:15] ele resolveu então treinar as técnicas de se segurar em pedros, e começou a treinar

[00:03:19] subindo nas árvores de Cambridge, usando a roupa de trabalho, ou seja, terno lá,

[00:03:23] sério, tudo era visto, um professor muito sério, todo bem, visível trepando nas árvores

[00:03:27] de Cambridge.

[00:03:28] Enfim, isso já foge um pouco da característica do autista.

[00:03:30] Só pra terminar então a biografia, ele se formou então em engenharia, depois em matemática,

[00:03:34] foi pra Cambridge, no St. John College, onde ele acabou muito rapidamente fazendo sua carreira

[00:03:40] científica em cima de uma série de produções de artigos muito impactantes, que na verdade

[00:03:44] foi a primeira formulação formal, elentíssima, da mecânica quântica, que levou ao Prêmio

[00:03:49] Nobel, inclusive, em 1933, que previu a antimatéria, entre outras coisas, além de uma série

[00:03:54] de outras contribuições que ele foi fazendo nos anos seguintes, como, por exemplo, a

[00:03:58] criação, a proposição da eletrodinâmica quântica, e várias outras contribuições,

[00:04:02] por exemplo, durante a guerra, ele trabalhou na questão da purificação do urânio,

[00:04:05] né, da purificação do urânio, enfim, acabou formando família anos depois, casando com

[00:04:09] a irmã do Vigna.

[00:04:10] O Vigna viveu até 69 em Cambridge, ou seja, ele ficou 46 anos na mesma cidade, 37 anos

[00:04:17] como professor na cadeira que se chama Professor Lucasiano de Matemática, que é a mesma cadeira

[00:04:22] que foi ocupada por Newton, e que realmente é ocupada por Christopher Hawking.

[00:04:26] Em 1970, a filha dele se mudou para a Flórida, e ele foi atrás, já aposentado, e viveu

[00:04:30] os últimos 14 anos lá ligado à Universidade Estadual da Flórida.

[00:04:34] Essa biografia estanta da contribuição científica dele passa pela teoria mais geral da mecânica

[00:04:39] quântica, que junta a mecânica quântica de Heisenberg com a relatividade, fazendo

[00:04:44] a equação relativística do elétron, prevendo a antimatéria, dando as bases para o que depois,

[00:04:49] e isso a Fernanda agora deve desenvolver da história da teoria do campo quântico, desenvolveu

[00:04:53] outras ideias como o monopólio magnético, tentou fazer as modelos de quantização do

[00:04:57] campo gravitacional, enfim, que está na base das grandes teorias de hoje, ou seja, a contribuição

[00:05:01] dele é enorme, e ele realmente é uma pessoa interessante, e interessante pelos casos curiosos

[00:05:07] em que ele protagonizou a paixão dentro da matemática de buscar beleza, né, o último

[00:05:12] aluno dele chamada John Polkinghorne, ele disse que uma vez perguntaram para ele qual

[00:05:16] é o seu credo fundamental, professor, e ele sem falar, se levantou, foi no quadro, escreveu

[00:05:21] no quadro, as leis da natureza devem ser expressas em equações belas, ponto, esse é o, digamos,

[00:05:27] o moto básico que resume a personalidade dele, e aí ele gostava tanto disso que protagoniza,

[00:05:34] e o último que eu falo já passa ao avesso sexto, mas é interessante que nós temos

[00:05:37] um outro programa, o Feynman, que é outra personalidade estranhíssima, interessantíssima,

[00:05:41] e eles se conheceram, novamente, o Feynman mais jovem, quando ele se encontrou, ele era

[00:05:45] um cara extremamente expansivo, falante, é a antimatéria, a antimatéria do Dirac,

[00:05:52] a lenda conta que quando ele encontrou pela primeira vez o Feynman numa conferência,

[00:05:56] eles ficavam em silêncio, um vendo o outro, e o Dirac se vira para ele já reconhecendo,

[00:06:00] ele disse, eu tenho uma equação, você também tem uma?

[00:06:02] Eu achei também, Guiço!

[00:06:04] Tem uma frase de cada um deles, do Dirac e do Feynman, que mostra realmente como eles

[00:06:09] são opostos, a frase do Dirac diz o seguinte, o mais importante numa equação é que ela seja bela,

[00:06:14] e não que ela corresponda aos experimentos, enquanto que o Feynman teria dito que não importa

[00:06:19] quão bonita seja a tua teoria, não importa quão esperto você seja, se a sua equação

[00:06:24] não corresponder aos experimentos, ela está errada.

[00:06:26] E esse é o estándar da ciência moderna.

[00:06:28] Esse é o estándar da ciência moderna.

[00:06:29] Mas aí vi uma coisa misteriosa aqui na observação, que na verdade ao apostar loucamente na perfeição

[00:06:34] da matemática, na bussa da perfeição da forma, ele lembra um pouco Johannes Kepler

[00:06:39] buscando assim fazer a realidade se encaixar na perfeição da matemática, o incrível

[00:06:43] é que ele conseguiu fazer isso, ele conseguiu unir as ferramentas certas e fazer sínteses

[00:06:46] belíssimas e enxugadíssimas, extremamente poderosas e predictivas da matemática, mas

[00:06:52] a matemática é um produto do cérebro humano, da mente humana, isso é um dos mistérios

[00:06:56] aí que a gente poderia em outro momento desenvolver.

[00:06:58] A controvérsia, Jorge.

[00:06:59] Não, é que sim é da mente, mas o fato é o seguinte, é muito curioso que um produto

[00:07:04] completamente humana seja organizado com regras intrínsecas próprias que acabem sendo

[00:07:08] os mesmos do mundo externo e um símbolo para interpretar o outro, ou seja, aí tem um grande

[00:07:11] enigma que a filosofia da mente e outras disciplinas estão tentando quebrar há séculos de certo

[00:07:16] modo ou pelo menos há várias décadas de forma mais elaborada, que é um dos grandes

[00:07:19] problemas.

[00:07:20] Como é que pode?

[00:07:21] Porque ele de fato apostou na coisa mais louca de todos, quase numa negação científica,

[00:07:24] é uma afirmação quase anti-científica essa, tem que ser belo antes de certo, no entanto

[00:07:29] ele estava certo.

[00:07:30] A gente volta um pouco para a hipótese do autista, porque existem alguns autistas dentro

[00:07:36] de todo o espectro do autismo, que é bastante amplo, que tem essa característica que se

[00:07:41] chama sinestesia de relacionar algumas imagens abstratas com outras imagens abstratas, por

[00:07:46] exemplo associar números com figuras geométricas, então existem algumas pessoas que podem enxergar

[00:07:52] uma beleza que só é acessível a elas, não estou dizendo que seja o caso do Jeraco, mas…

[00:07:58] eles enxergam as associações antes que a gente já se compute, ele dizia inclusive que ele

[00:08:02] entende uma equação quando ele consegue imaginar no que ela vai dar sem ter resolvido

[00:08:06] ela.

[00:08:07] Ou seja, ele realmente resolveu as coisas analogicamente.

[00:08:09] Isso é o que a gente chama de intuição.

[00:08:11] Tem um caso, enquanto ele conversava com um dos colegas dele na casa dele, ele observava

[00:08:16] a esposa tricotar, e ele ficou observando, tricotava e ele falava de outros assuntos,

[00:08:21] não tinha nada a ver, ele pediu, foi embora, ele não se deve muito, ele voltou e disse

[00:08:24] Para ela, o jeito que você está fazendo é uma das únicas duas possibilidades de

[00:08:28] fazer esse tipo de tricot, a outra forma é assim, de fato é a outra forma de fazer

[00:08:32] tricot, o ponto de meia que se chama, que é o contrário do que ela fazia, e só existem

[00:08:37] essas duas possibilidades.

[00:08:38] Mas que já era bem conhecido.

[00:08:39] É bem conhecido, mas ele é um cara que observava padrões, realmente ele parecia mesmo um secado

[00:08:43] por padrões.

[00:08:44] Só queria levantar um ponto aqui e lembrar que a relatividade que o Jorge estava falando

[00:08:49] é a relatividade restrita, a união da mecânica quântica com a relatividade geral ainda

[00:08:55] é um dos grandes problemas da física atualmente, ou se não talvez um dos maiores de todos,

[00:09:01] já que disso resultaria a unificação total de todas as teorias fundamentais da física.

[00:09:07] Sobre a unificação da mecânica quântica com a relatividade geral, a teoria hoje aceita

[00:09:12] ou a mais aceita para fazer essa unificação é a teoria de cordas, ou a teoria das membranas,

[00:09:18] a teoria M, que é uma extensão da teoria de cordas.

[00:09:21] Mas também isso é só uma possibilidade, não tem absolutamente nenhuma confirmação

[00:09:26] experimental de que essa unificação entre a teoria de cordas e a relatividade geral

[00:09:31] é conseguida, vamos colocar assim, pela teoria de cordas.

[00:09:34] Sobre Simon e Dirac, o Simon tinha o Dirac como um grande ídolo dele, talvez o maior

[00:09:39] ídolo do Simon, na verdade, desde que o Simon começou a estudar a mecânica quântica ainda

[00:09:44] como estudante na década de 30, e ele descobriu no estudo dele a equação de Dirac, ele ficou

[00:09:48] totalmente maravilhado, ele se aprofundou muito no estudo da equação de Dirac, na

[00:09:52] verdade ele virou a equação de Dirac do avesso, usou isso muito nos trabalhos posteriores

[00:09:56] dele, principalmente na teoria do Positron, mas de qualquer maneira, o Dirac sempre foi

[00:10:00] um grande ídolo para o Simon, inclusive anos mais tarde, já na década de 60, em 62, quando

[00:10:05] o Simon teve a oportunidade de encontrar o Dirac novamente numa conferência, Simon falou

[00:10:10] para o Dirac, deve ter sido maravilhoso ter descoberto a equação que você descobriu.

[00:10:14] E o Dirac falou, sim, o que você está trabalhando agora no momento?

[00:10:18] O Simon falou, mesons, mesons é uma partícula de interações fortes da física, ao que

[00:10:25] o Simon falou, mesons, mas é muito difícil conseguir uma equação para essas partículas,

[00:10:30] e o Dirac respondeu, bom, mas alguém tem que tentar.

[00:10:32] Esse provavelmente foi um do, tem onde eu sei, na verdade, tem onde sabe, foi o diálogo

[00:10:36] mais longo que o Simon teve com o Dirac, e é bem provável que tenha sido um dos mais

[00:10:41] longos também que o Dirac tenha com qualquer pessoa na vida dele, a concepção da esposa

[00:10:46] dele, provavelmente, já que o Dirac é uma pessoa que reconhecidamente, pessoa que não

[00:10:51] falava, que não gostava de, não é que não gostava, mas é que simplesmente não tinha

[00:10:55] interesse ou a maneira dele era de se expressar muito sussentamente, tanto que existe uma

[00:11:01] unidade de fala, uma piada, uma unidade de fala chamada de Dirac, um Dirac, uma unidade

[00:11:06] de uma palavra por hora.

[00:11:07] Deixa eu, deixa eu…

[00:11:08] Ah, mas o Jorge fala quantos bilhões de trilhões de Dirac?

[00:11:11] Aí tem que fazer o Terra-Dirac.

[00:11:13] O Jorge, a gente precisa usar uma escala logarítmica.

[00:11:16] É verdade que ele falava pouco, e ele deu uma ou duas entrevistas na vida dele, porém,

[00:11:20] ele deu uma longa entrevista, dividida em cinco sessões, para o Thomas Kuhn e Eugênio

[00:11:26] Wigner, em 1962, e isso está transcrito na internet por inteiro, e é muito bom, porque

[00:11:30] quem quiser ler sobre a biografia dele, para que ele fale sobre todos os assuntos.

[00:11:34] Ele chama Oral History Transcript por Adriano Ulrich Dirac, está no arquivo da AIP.org,

[00:11:39] e de fato ali está toda a biografia dele contada por ele.

[00:11:41] Esse é o programa Fronteiras da Ciência, a gente está discutindo a estranheza do caráter

[00:11:45] do Pão Dirac e o nosso site, ofrontedaseciência.urx.br.

[00:11:49] Vocês falaram um monte de coisas estranhas do Dirac, eu não ouvi falar em nada muito

[00:11:53] estranho ainda.

[00:11:54] Eu sou…

[00:11:55] Então vamos lá, histórias estranhas.

[00:11:58] Não, tem uma história interessante quando o Dirac estava viajando com o Heisenberg, e

[00:12:03] conversando, porque o Heisenberg fazia o tipo completamente oposto em termos de caráter

[00:12:08] do Dirac.

[00:12:09] Então ele era um cara extrovertido, saía com mulheres.

[00:12:12] Mas Dirac, por que tu não aproveita um pouco mais?

[00:12:15] Tem tantas meninas legais, bacanas aqui, e o Dirac disse, como é que tu sabe de antemão

[00:12:20] que elas são legais e bacanas?

[00:12:22] Esta foi numa viagem de navio para o Japão.

[00:12:24] Isso.

[00:12:25] Eles estavam discutindo se ir ou não dançar.

[00:12:28] Tem uma outra história do Dirac, que ele estava num castelo.

[00:12:31] Nesse castelo eles estavam contando algumas histórias e falaram para ele que uma das

[00:12:36] salas era assombrada e que à meia-noite aparecia um fantasma numa determinada sala.

[00:12:42] Aí o Dirac perguntou, mas meia-noite do horário de Greenwich ou meia-noite do horário de

[00:12:47] Verão?

[00:12:48] O mais interessante disso é que ele não falou essas coisas em tom jocoso de piada.

[00:12:53] Eu acho que ele realmente queria saber qual era o horário em que aparecia o fantasma.

[00:12:57] Ou seja, ele era uma pessoa literalista.

[00:13:00] Ele interpretava as coisas de maneira literal.

[00:13:02] Ele não percebia as sutilezas.

[00:13:04] Mesmo porque eu faria a mesma pergunta, porque um fantasma não deve seguir o protocolo temporal

[00:13:10] normal.

[00:13:11] Mas você, Marco, faria essa pergunta da maneira que você falou agora, então de ironia, mas

[00:13:17] o Dirac não.

[00:13:18] O Dirac faria essa pergunta como o Sheldon do Big Bang Theory faz.

[00:13:24] Ele é tão preciso que, por exemplo, em várias ocasiões, com diferentes formas, ele estava

[00:13:28] dando uma aula ou explicando algo no quadro e alguém não entendia algo.

[00:13:31] Por exemplo, alguém observava.

[00:13:32] Isso aconteceu.

[00:13:33] Ele disse, o professor Dirac, eu não entendo como você derivou a fórmula no canto esquerdo

[00:13:36] do quadro.

[00:13:37] E Dirac se vira e diz, isso não é uma questão, é uma afirmação.

[00:13:40] A próxima pergunta, por favor.

[00:13:41] E a outra boa foi ele conversando com o Bohr.

[00:13:43] Bohr chegou pra ele, estava num momento tranquilo lá e Dirac escrevia com muita clareza,

[00:13:48] muita simplicidade.

[00:13:49] O Bohr estava escrevendo um paper e tinha muitas excitações, muitas versões e rabiscos

[00:13:54] e rascunhos.

[00:13:55] E ele chegou pro Dirac e disse, eu não sei como terminar essa frase.

[00:13:59] E Dirac replicou pra ele.

[00:14:01] Eu aprendi na escola que você nunca deve começar uma frase sem saber como ela termina.

[00:14:05] Estruiu, coitado.

[00:14:06] Então, uma das razões pelas quais o Dirac e o Bohr nunca, nunca jamais escreveram nenhum

[00:14:11] trabalho junto é porque, exatamente por causa disso, o Bohr tinha esse estilo de escrever

[00:14:16] onde ele se encerrava numa sala com seus colaboradores ou seus estudantes e ele ficava

[00:14:20] em voz alta ditando e tentando as frases e voltava atrás e ia pra frente e tudo mais.

[00:14:25] Quanto que o Dirac provavelmente seria alguma coisa do tipo, praticamente um vampiro seria

[00:14:31] alho e uma cruz mostrando pra ele.

[00:14:33] Provavelmente ficava completamente apavorado com uma situação desse tipo.

[00:14:37] Quando se fala em conversa…

[00:14:39] Eu queria uma dúvida sobre a capacidade dele como professor.

[00:14:42] Se menciona se ele era considerado um bom palestrante, um bom professor, se ele é uma

[00:14:48] pessoa que tem uma dificuldade de relacionamento ou a dificuldade dele, a quietude dele era

[00:14:53] uma coisa específica à relação social?

[00:14:55] Como você sabe sobre isso?

[00:14:57] Alguns comentários que se fazem é sobre a capacidade dele como orientador.

[00:15:01] Ele teve alguns alunos, inclusive teve uma mulher que foi, talvez acho que foi a segunda

[00:15:06] doutorada em física no Brasil que foi com ele, que é a Sônia Aschauer.

[00:15:11] É um pouco misteriosa a história, não se acha muita informação na rede, ela morreu

[00:15:15] com 25 anos e era da USP.

[00:15:17] Então o que se diz do Dirac como orientador é que ele tecnicamente era competente, ou

[00:15:22] seja, ele passava um problema pro seu aluno que era factível, que é o que tu tem que

[00:15:27] fazer, não, não mudava um problema impossível, mas ele não era bom em termos de dar apoio

[00:15:31] pro aluno.

[00:15:32] Na verdade o orientador hoje em dia precisa ser uma coisa mais completa, que vai desde

[00:15:36] psicólogo, psiquiatra, pai, mãe…

[00:15:38] Tá pensando em ter uma coisa mais mundana assim.

[00:15:40] É importante salientar aqui que, apesar desses problemas que a gente pode encontrar

[00:15:45] no Dirac como orientador, vamos colocar assim, de não dar todo apoio, os livros dele são

[00:15:49] de uma clareza absurda, são muito claros, são muito claros e muito didáticos, a escrita

[00:15:56] dele flui de uma maneira tão natural.

[00:15:59] Se você pegar um livro do tipo Os Fundamentos da Mecânica Quântica, começa a ler aquele

[00:16:04] livro e você acha que Mecânica Quântica é muito simples.

[00:16:07] Os antigos também, inclusive tu pode baixar na internet os antigos.

[00:16:09] Tem a faca da relação dele com a literatura, que diz que então sendo uma pessoa sem emoções

[00:16:13] ele não conseguiria apreciar a literatura.

[00:16:16] O Kapitsky, o físico russo amigo dele, ele deu uma vez pra ele uma tradução em inglês

[00:16:21] do Crime Castigo do Dostoevsky.

[00:16:23] Ele diz, ah, isso aqui é muito bom e tal.

[00:16:25] Aí o Dirac uns dias, um tempo depois ele perguntou, e aí?

[00:16:27] Leu o livro?

[00:16:28] E o Dirac disse o seguinte, é interessante, mas nos capítulos o autor comete um erro,

[00:16:32] ele descreve o sol nascendo duas vezes no mesmo dia.

[00:16:35] Esse foi o único comentário que ele fez sobre o livro em toda a história.

[00:16:38] Encontrou um erro no Dostoevsky.

[00:16:40] Tem uma outra que é melhor, na Oppenheimer, um dia ele chegou e olha só, pra quem fala

[00:16:44] pouco, isso aqui parece ser um discurso imenso.

[00:16:46] E disse a Oppenheimer, me disseram que você escreve poesia.

[00:16:49] Eu não vejo como seria possível um homem que trabalha nas fronteiras da física escrever

[00:16:54] poesia ao mesmo tempo.

[00:16:56] Eles estão em completa oposição.

[00:16:57] Na ciência você quer dizer alguma coisa que ninguém sabe antes, em palavras que todo

[00:17:02] mundo pode entender.

[00:17:03] Na poesia você está obrigado a dizer alguma coisa que todo mundo sabe, em palavras que

[00:17:07] ninguém pode entender.

[00:17:10] Enfim, tem várias outras histórias curiosas.

[00:17:13] E ele se casou então?

[00:17:14] Foi sem querer, mas ele casou.

[00:17:16] Mas a resposta dele é uma pessoa muito especial.

[00:17:18] Isso é uma ilação tua, Fred.

[00:17:20] Eu acho que foi por acaso mesmo, ele conheceu a irmã do Wigner numa visita que ele estava

[00:17:24] fazendo, o Dirac estava fazendo no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, e o Wigner

[00:17:29] estava lá.

[00:17:30] E ele acabou encontrando a futura esposa dele.

[00:17:32] Mas eles começaram a se relacionar, seja lá como você define relacionamento, caso do

[00:17:37] Dirac, muito mais por insistência dela, do que por atitude dele.

[00:17:42] Ela finalmente capturou ele e cuidou dele.

[00:17:45] E muitos físicos reconhecem, inclusive quando ele morreu, fizeram uma homenagem, muita

[00:17:48] esposa dele, que apesar de ter uma vida redagindo normal com filhos, a qual ele tratou certamente

[00:17:53] muito melhor do que ele sofreu nas mãos dos pais dele, porque a família dele era muito

[00:17:57] complicada.

[00:17:58] Alguns autores, inclusive o próprio Franello, sugerem que o pai também era um autista,

[00:18:01] por isso que ele não conseguia se relacionar.

[00:18:03] Inclusive, ele ficava comendo na sala e obrigava apenas o filho, o Paul, a comer com ele na

[00:18:07] sala, enquanto que a mãe com a filha e o outro irmão tinham que comer na cozinha.

[00:18:11] Isso é uma história interessante, porque o Dirac falava em inglês com a mãe e só

[00:18:15] em francês com o pai.

[00:18:17] Obrigado.

[00:18:18] E o pai impedia visitas na casa, então eles não tinham contado com ninguém.

[00:18:21] Então ele cresceu achando que as mulheres falavam em inglês e os homens falavam em francês.

[00:18:27] É só uma das brincadeiras.

[00:18:28] Mas isso teve um lado menos agradável, que o irmão dele, que eram dois anos mais velhos,

[00:18:32] não aguentou o tranco.

[00:18:33] De fato, ele foi para a faculdade antes, para usar a engenharia e trabalhar lá, mas ele

[00:18:37] não era tão bem sucedido nos estudos e o irmão dele, como ele vendo o irmão dele

[00:18:40] se dando tão bem, além de toda a vida tendo sido o queridinho do pai, ele realmente largou

[00:18:44] o emprego depois de um tempo morando numa cidade vizinha.

[00:18:47] Quando terminou o recurso de poupança dele, em três meses, ele cometeu suicídio, que

[00:18:50] foi um trauma violento na família, que sacudiu muito e levou o próprio Dirac a fazer uma

[00:18:55] série de reflexões.

[00:18:56] Ele teve um irmão que se suicidou quando ele tinha 25 anos.

[00:18:59] Mas ele comenta em relação a isso, ele observou que os pais sentiam muito o suicídio e ele

[00:19:06] se deu conta que os pais dele se importavam, que ele nunca imaginou que os pais se importassem

[00:19:11] com os filhos.

[00:19:12] Exato, essa observação é muito interessante porque ela sugere assim, esse cara não é

[00:19:15] um autista completo, mas ele é notável.

[00:19:17] Mas o Dirac, ele tem uma biografia dele, tem uma autobiografia, como é que vocês sabem

[00:19:23] isso que vocês estão falando?

[00:19:24] Isso está no Farnelo.

[00:19:25] O Farnelo está bem detalhado nas histórias e também nas entrevistas ele fala bastante.

[00:19:30] Essa biografia é recente.

[00:19:32] Ela é de dois anos atrás.

[00:19:33] Dois anos atrás, o Farnelo ele é físico.

[00:19:35] Estava pensando essa questão do o que mais, eu fico com essa impressão que ele não é

[00:19:41] tão estranho assim, mesmo vocês tentando me convencer.

[00:19:45] Quando a gente diz…

[00:19:46] De contar uma história interessante, sei lá…

[00:19:47] Não, mas é assim Marco, toda vez que a gente fala, toda vez que a gente descreveu

[00:19:51] que um diálogo, a gente está cortando as pausas.

[00:19:55] Porque o típico diálogo com o Dirac era uma palavra, depois um silêncio longuíssimo,

[00:20:00] meia hora de silêncio.

[00:20:01] Só te ouvindo.

[00:20:02] E aí ele respondia a sua pergunta, ou ele dizia sim ou não, se dizia que o vocabulário

[00:20:07] dele compreendia sim e não, eram as únicas duas palavras.

[00:20:10] Mas, por exemplo, do ponto de vista de aparência pessoal, a gente podia dizer, por exemplo,

[00:20:17] olha, todos nós que vivemos em conferências internacionais, a gente vê cada coisa.

[00:20:22] Aliás, não eram duas, eram três frases, era sim.

[00:20:25] Gente que não toma banho, até pessoas que simplesmente não têm modos nenhum, que

[00:20:29] são capazes de empurrar.

[00:20:31] Talvez isso seja muito mais normal hoje do que há 70 anos atrás.

[00:20:35] Era um pouco se chamava mais atenção, né?

[00:20:37] É, chamava mais atenção.

[00:20:39] Tem a história do sobretudo dele, que ele tinha um sobretudo, mas aí numa visita dele

[00:20:43] a Rússia, o amigo dele, o Kapsa, ele acabou doando o sobretudo dele para o Kapsa, daí

[00:20:48] ele voltou para Cambridge, passou o inverno todo em Cambridge sem o sobretudo, passando

[00:20:53] o frio, provavelmente, e ele só foi comprar um casaco no inverno seguinte, quando ele

[00:20:58] estava em visita a Nova York com a esposa dele, a irmã do Wigner, aí ela acabou levando

[00:21:03] ele para comprar um novo casaco, finalmente ele parou de passar frio, passou o resto da

[00:21:08] vida dele com esse mesmo sobretudo, nunca mais comprou outro.

[00:21:11] Aliás, ele ganhou uma coisa interessante, ele ganhou muitos prêmios, além do Nobel

[00:21:15] de 1933, com o Schrodinger, ele também ganhou a medalha real 39, Coppola e Meadow e a medalha

[00:21:20] Max Planck em 52, foi eleito fellow da Sociedade Real Inglesa em 1930, da Americana de Física

[00:21:26] em 48, da Difísica de Londres em 71, ganhou a ordem do mérito, teve um reconhecimento

[00:21:31] até, na cidade onde ele nasceu, e depois ele foi indicado para ganhar o cargo de cavaleiro,

[00:21:36] e ele recusou, baseado no seguinte, que ele não queria ser chamado pelo primeiro nome,

[00:21:40] porque ele seria Sir Paul, e não Sir Dirac.

[00:21:42] Ele queria recusar o Nobel, porque ele não queria atrair tanta publicidade acima dele,

[00:21:47] ele não gostava dessas coisas, aí convenceram ele de que se ele recusasse, ele atrairia

[00:21:51] mais atenção, então o que era melhor é aceitar.

[00:21:53] Aliás, uma coisa interessante, ele acabou sendo amigo, fez alguma contribuição com

[00:21:57] o Abdussalam, que é o seguinte, o Abdussalam que colaborou com ele e fez, inclusive levou

[00:22:01] ele para umas sete conferências, no que depois ia ser o Centro Internacional de Física

[00:22:05] Teórica, em Trieste, inclusive o ECTP, ele tem uma medalha Dirac, do ECTP, e o prêmio

[00:22:10] Dirac, são dois prêmios e uma medalha Dirac, são os, junto com a medalha Dirac da Sociedade

[00:22:15] Física, da Teórica da Inglaterra, são os únicos dois prêmios que levam o nome dele.

[00:22:18] Só tem uma coisa melhor, dentro desse contexto, do que ganhar um desses prêmios importantes,

[00:22:23] é tu ter um prêmio importante com o teu nome, acho que é muito mais importante do que…

[00:22:27] Acho que ele fica lembrado para sempre, disse que tinha um aceroide para ele, o nome dele,

[00:22:31] Mas vocês veem como é impressionante a contribuição científica dele, imagina-se,

[00:22:43] essa descrição que o Jefferson falou de uma pessoa que demora cinco minutos para dar

[00:22:47] um sim a uma colocação de uma pessoa que está tentando conversar…

[00:22:51] Não é cinco minutos, Marco, os relatos são de trinta minutos.

[00:22:55] E isso faz o interlocutor achar que o cara, na verdade, tem uma deficiência cognitiva

[00:23:02] e não que ele seja uma pessoa gifted.

[00:23:05] É incrível que se consiga reconhecer toda essa genialidade dele sem a ajuda dele em fazê-lo.

[00:23:13] É até interessante de contar outras coisas.

[00:23:15] Apesar de ser um cara fechado, ele tinha uma certa, digamos, consistência, algumas ideias políticas.

[00:23:19] Ele era muito amigo do Kapitsky, o Kapitsky era soviético, russo, e ele ia muito à Lúcia,

[00:23:24] fazia vários tours por lá, e era muito querido, tanto que ele tinha uma espécie de reconhecimento

[00:23:28] como fellow da Academia Russa de Ciências lá, por ser um amigo da ciência soviética, o Podirak.

[00:23:34] E por isso ele teve problemas, ele teve um visto negado, inclusive, para entrar nos EUA em determinado momento.

[00:23:39] O visto foi negado em 1954, no apogeu do macartismo, então dá para compreender porquê.

[00:23:45] Outra coisa curiosa também são algumas ideias religiosas dele, porque com essa lógica penetrante dele,

[00:23:49] ele também era, digamos, um ateu convicto, tem uma declaração que ele deu para Heisenberg,

[00:23:55] Boric e Heisenberg, que reportaram, mais tarde, ter dito isso, né, coisas, e essa frase,

[00:23:59] que se ainda é ensinada a religião, de forma nenhuma, porque suas ideias ainda nos convencem,

[00:24:04] mas simplesmente porque alguns de nós querem manter as classes baixas quietas.

[00:24:08] Ou seja, ele já fazia uma leitura quase marxista.

[00:24:13] Na verdade, essa posição talvez seja uma inferência do autor do livro,

[00:24:16] mas a posição de Dirac a respeito a Deus é muito conhecida, inclusive por uma anedota de uma reunião

[00:24:22] que estava em Copenhague, e após o Dirac falar abertamente, uma das poucas vezes ele falou abertamente

[00:24:28] sobre a posição dele em relação a Deus e religião, o Paulo levantou e falou aquela frase famosa.

[00:24:34] Ele disse assim,

[00:24:38] O que significa, né, não existe nenhum Deus e Dirac é o seu profeta.

[00:24:42] É o Paulo que era um católico ferrenho.

[00:24:44] Mas essa frase é interessante, se a religião ainda é ensinada não é porque as suas ideias

[00:24:48] ainda nos convencem, mas porque é usada para manter as classes baixas quietas.

[00:24:51] Um povo quieto é muito mais fácil de governar do que pessoas clamorosas e insatisfeitas.

[00:24:56] Também é muito mais fácil explorar pessoas, religião é um tipo de ópio que permite a uma nação

[00:25:01] se enganar e conduzir-la a sonhos desejosos, esquecer a injustiça que são sendo perpetuados

[00:25:07] e que são sendo perpetuados quantas pessoas.

[00:25:09] Portanto, existe uma aliança próxima, estreita, entre as duas grandes forças políticas da atualidade,

[00:25:14] o Estado e a Igreja. Ele pegava pesado.

[00:25:16] Isso, mas é bom deixar bem claro no nosso programa que isso é opinião do Paul Dirac,

[00:25:20] não é opinião do Jorge Kielson.

[00:25:22] Não, a minha é um pouco mais radical, mas foi boa.

[00:25:26] Talvez fosse interessante discutir por que que, já que o Dirac ele era um físico que fez contribuições

[00:25:32] do mesmo nível que o Einstein, por que que o grande público conhece o Einstein e não conhece o Dirac?

[00:25:37] Ou até o Feynman. O Feynman já é uma coisa intermediária, ele é pouco menos, mas também é conhecido.

[00:25:42] O Einstein é um rico de hip-hop.

[00:25:44] Mas o Dirac, pouquíssimas pessoas que não estão dentro da física ou da química já ouviram falar.

[00:25:49] Eu compartilho contigo a dúvida porque, por exemplo, a diferença entre o Feynman e o Einstein é que

[00:25:54] o Feynman, a contribuição dele é mais difícil de explicar.

[00:25:58] O Einstein tem toda essa visão da relatividade, do tempo ser dependente de quem observa,

[00:26:03] tem toda uma descrição clássica que é mais intuitiva do que que está acontecendo na relatividade.

[00:26:08] O Einstein desafiou o Newton.

[00:26:10] O Dirac tem bastante matéria que é muito legal, acho que é uma coisa assim que…

[00:26:13] Eu acho que a explicação é…

[00:26:15] O Einstein desafiou o Newton, que era uma estrutura secular,

[00:26:19] no sentido de dizer que era a ciência que a gente usava há séculos e, de repente, foi colocada.

[00:26:26] Mas imagina o Dirac desafiou o Newton porque ele tinha uma correção de x³, não sei aonde, não sei aonde,

[00:26:33] que tinha que pegar desse jeito. Entende?

[00:26:35] Ele seria o desafiador, a pessoa que corrigiu as equações de Newton, mas não seria popular.

[00:26:40] Será que eu nunca li sobre isso?

[00:26:42] Eu acho que o Einstein virou um ícone hip-hop porque ele tem uma foto de língua de fora.

[00:26:47] Então, da mesma maneira que o Che Guevara é um ícone hip-hop por causa das camisetas…

[00:26:51] Não, porque teve uma foto muito boa.

[00:26:53] Eu nunca li sobre essas diferenças, mas eu fui pensando aqui e me ocorreu o seguinte.

[00:26:57] Bom, uma primeira diferença.

[00:26:58] O Einstein até que fez alguns pequenos incursões na divulgação científica.

[00:27:01] Escreveu as notas autobiográficas, escreveu um livro de divulgação sobre a relatividade, mais ou menos.

[00:27:06] E ele tentou, ele lavou entrevistas, ele é um cara relativamente bem comunicante.

[00:27:09] Mas eu acho…

[00:27:10] E o Dirac não queria saber…

[00:27:12] O Dirac foi proposto que o Einstein fosse presidente do Estado de Israel.

[00:27:18] Exato.

[00:27:19] Mas o Dirac não tinha essa preocupação, ele é um cara que se comunicava só para expert.

[00:27:23] Mas eu desconfio que a principal razão não é nem essa.

[00:27:25] É o fato de que Einstein imigrou para os Estados Unidos durante a perseguição, a intelectualidade na Alemanha.

[00:27:31] E ele foi promovido um pouco com um esforço de guerra.

[00:27:33] Ou seja, para mostrar que tem os alemães legais como esse aí, que é um gênio, o maior gênio da história.

[00:27:37] E ele foi promovido e acabou, digamos, recebendo muitas luzes.

[00:27:40] E era um cara certo para isso também.

[00:27:42] Por exemplo, o Dirac não viveu exílio, não foi perseguido.

[00:27:46] Eu pego essa questão dessa quebra da noção que o tempo é uma coisa absoluta.

[00:27:51] A minha visão é que o Einstein ficou realmente popular após aquela viagem que ele fez aos Estados Unidos em 1920.

[00:27:59] Que foi logo depois da confirmação, vamos colocar assim, da relatividade geral do deslocamento da luz.

[00:28:05] Foi feito em 1919, a partir do eclipse.

[00:28:08] Quando aconteceu isso, o Einstein foi capa de todos os jornais.

[00:28:12] E ele realmente é uma figura pop desde essa época.

[00:28:15] Diferente do Dirac, o Einstein nunca foi avesso a esse tipo de coisa.

[00:28:19] Aliás, isso também é verdade.

[00:28:22] Foi um artigo escrito por um jornalista num jornal de Bristol, contando essa viagem aos Estados Unidos.

[00:28:29] Que resumia a teoria de Einstein, que pela primeira vez o Dirac tomou contato com a teoria de Einstein.

[00:28:33] E que mudou a vida dele. Na verdade, talvez tenha sido esse o momento mesmo.

[00:28:37] O Dirac não. O Dirac era uma pessoa avessa a qualquer tipo de publicidade, a qualquer tipo de exposição.

[00:28:43] A pessoa realmente está citorna, tanto com o público quanto até o círculo mais próximo dele, de amizade.

[00:28:50] Bem sabido, quando ele estava em Göttingen, lá no postdoc dele, ele ia trabalhar de manhã cedo e ia para a biblioteca.

[00:28:56] E ele ficava sentado o dia inteiro na biblioteca, praticamente na mesma posição, uma posição incômoda.

[00:29:02] Que são os relatos que vêm dessa época.

[00:29:05] E não falava com ninguém. O único amigo dele, de fato, era o Oppenheimer.

[00:29:08] Mas era uma amizade do tipo, assim, eles saíam para caminhar, para longas caminhadas em volta de Göttingen.

[00:29:13] Onde o Oppenheimer falava, falava, falava, e o Dirac ouvia, ouvia, ouvia.

[00:29:18] Fez alguns amigos próximos, capiça.

[00:29:21] As amizades dele eram mais ou menos assim, as pessoas tinham que realmente gostar dele, as pessoas insistiam.

[00:29:26] As pessoas tinham que entender que ele era assim, insistiam nessa amizade e aceitavam ele como ele era.

[00:29:32] Ele acabou fazendo, de fato, grandes amigos, como Kaptzer, que foi um amigo para a vida inteira.

[00:29:37] Na verdade, eles aceitavam a presença dele.

[00:29:40] O Weissing não Weissing era muito mais sociável, envolvido em discussões filosóficas, envolvido com os amigos.

[00:29:46] Na década de 20, depois que ele ficou muito popular, ele marava à noite nos carros das madames lá da alta sociedade de Berlim.

[00:29:53] Então, nesse aspecto, muito diferente.

[00:29:56] Eu lembrei de uma outra história com a mulher do Dirac.

[00:29:59] No meio de uma das raras brigas, ela disse, o que que tu diria se eu fosse embora?

[00:30:04] Bom, acho que eu diria, tchau, querida.

[00:30:08] É melhor não provocar o cara, não com o Dirac.

[00:30:11] Então, esse foi o programa Fronteiras da Ciência.

[00:30:13] A gente discutiu um pouco do caráter do físico Paul Dirac.

[00:30:16] Estiveram aqui com a gente, então, em São Paulo, a doutora Fernanda Stephens.

[00:30:21] Em Porto Alegre, o Jorge Kielfeld e o Jefferson Aranzon.

[00:30:24] E eu, o arco de arte aqui em Berlim.

[00:30:26] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da Urbis.

[00:30:31] Pécnica de Gilson de César.

[00:30:33] E Direção Técnica de Francisco Guazelli.