Isaac Newton


Resumo

O episódio explora a vida e o legado de Isaac Newton, considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos. Os participantes discutem sua infância complicada, seu isolamento social e sua formação, destacando como o domínio do latim e o acesso aos clássicos foram fundamentais. O ano da peste (1666) é apresentado como um período crucial onde Newton desenvolveu ideias fundamentais sobre a luz, o cálculo infinitesimal e a gravitação.

As principais contribuições científicas de Newton são analisadas, com foco na mecânica e na ótica, que consolidaram a revolução copernicana e unificaram as leis que regem o céu e a terra. A controvérsia com Leibniz sobre a primazia do cálculo é detalhada, incluindo as consequências do nacionalismo científico que atrasou o desenvolvimento da matemática na Inglaterra. A expedição francesa de 1736, que confirmou a previsão newtoniana do achatamento da Terra nos polos, é citada como uma validação impressionante de sua teoria.

O programa revela facetas menos conhecidas de Newton através dos manuscritos adquiridos por Keynes em 1936. Descobriu-se seu intenso envolvimento com a alquimia – que pode ter influenciado sua concepção de ação à distância – e suas crenças religiosas unitaristas, que negavam a Santíssima Trindade e a divindade de Jesus, crenças que ele escondeu para evitar perseguição. Também é discutida sua possível intoxicação por mercúrio devido a experimentos alquímicos.

A vida posterior de Newton é examinada, incluindo seu período como membro do Parlamento (onde proferiu apenas uma famosa frase sobre uma janela) e seu trabalho como diretor da Casa da Moeda britânica, onde perseguiu falsificadores com rigor. Seu funeral na Abadia de Westminster e o epitáfio que o celebra como uma ‘jóia do gênero humano’ encerram a discussão sobre a reverência quase monárquica que ele recebeu.


Indicações

Books

  • Os Mistérios da Natureza e da Arte — Livro de John Bates, favorito de Newton na infância, que ensinava metodologia de fazer experimentos, artesanato, química e análise de ideias, influenciando profundamente sua formação.
  • Principia (Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica) — A obra-prima de Newton, escrita em latim, onde apresentou suas leis do movimento e da gravitação universal usando raciocínios geométricos, imitando o estilo de Euclides.

Concepts

  • Lei de Stigler — Lei da eponímia que afirma que nenhuma descoberta científica leva o nome de seu descobridor original. É mencionada de forma irônica, pois a própria lei não foi nomeada por Stigler.

People

  • Gottfried Wilhelm Leibniz — Matemático e filósofo alemão com quem Newton disputou a primazia da invenção do cálculo. A disputa, inicialmente amigável, tornou-se amarga e dividiu a comunidade científica europeia.
  • Edmond Halley — Astrônomo e amigo de Newton que o desafiou a resolver o problema da trajetória orbital, levando à escrita do ‘Principia’. Também financiou a publicação da obra.
  • Voltaire — Filósofo e enciclopedista francês que, após passar um tempo na Inglaterra, tornou-se um grande divulgador das ideias newtonianas no continente, inclusive escrevendo um texto de física para mulheres.
  • John Locke — Filósofo que se tornou amigo de Newton no fim da vida e conheceu suas crenças unitaristas. Ele estimulou Newton a publicar suas ideias religiosas, o que quase levou Newton ao exílio.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao tema e importância de Newton — O programa apresenta o tema da vida de Isaac Newton, destacando como a física newtoniana e sua linguagem permeiam o cotidiano. Os participantes são apresentados: Fernando Lang, Jorge Kieffel e Jeffrey Soniazón, todos físicos. É feita uma reverência inicial a Newton, considerado um dos maiores cientistas da história, ao lado de Arquimedes e Einstein.
  • 00:01:05Infância complicada e formação de Newton — É descrita a infância difícil de Newton: nasceu prematuro, o pai morreu antes de seu nascimento e foi criado pela avó após a mãe se casar novamente. Ele odiava o padrasto. Teve acesso a educação em uma escola onde estudava em latim, o que foi decisivo para ler os clássicos. Um livro infantil, ‘Os Mistérios da Natureza e da Arte’ de John Bates, influenciou seu método de aprender fazendo experimentos e anotações.
  • 00:04:50Contribuições científicas fundamentais — Discute-se a importância da obra de Newton, que não é supervalorizada. Suas grandes contribuições foram na mecânica (leis do movimento e gravitação) e na ótica (composição da luz branca, teoria corpuscular). Ele também foi um dos inventores do cálculo, junto com Leibniz. A discussão aborda como Newton consolidou a revolução copernicana e unificou as leis do céu e da terra.
  • 00:06:01A disputa de primazia do cálculo com Leibniz — A controvérsia entre Newton e Leibniz sobre quem inventou primeiro o cálculo é explorada. Eles começaram como amigos e colaboradores, trocando correspondência, mas a disputa tornou-se amarga. A adoção da notação de Leibniz no continente e a rejeição da notação de Newton na Inglaterra, por razões nacionalistas, teria atrasado o desenvolvimento da matemática inglesa em cerca de 100 anos.
  • 00:09:39A apresentação geométrica do Principia — É explicado que Newton apresentou suas ideias no ‘Principia’ usando raciocínios geométricos no estilo de Euclides, e não a notação do cálculo que ele havia desenvolvido. Isso foi uma escolha estratégica para que seu novo sistema mecânico fosse mais compreensível. As demonstrações geométricas do livro são consideradas difíceis e imperfeitas para o leitor moderno.
  • 00:11:00A origem do Principia e a lei da gravitação — Conta-se a história de como Edmond Halley desafiou Newton a resolver o problema da trajetória orbital sob uma força de atração com o inverso do quadrado da distância. Newton respondeu imediatamente ‘uma elipse’, pois já havia feito os cálculos durante o ano da peste (1666). Um erro inicial na estimativa do raio da Terra fez com que ele descartasse a teoria temporariamente. Com dados mais precisos, a teoria foi confirmada, levando à escrita do ‘Principia’.
  • 00:13:29As facetas ocultas: Alquimia e religião — A discussão revela outras facetas de Newton descobertas em manuscritos comprados por Keynes em 1936. Newton era profundamente envolvido com alquimia, o que pode ter influenciado sua aceitação da ação à distância na gravitação. Ele também dedicou-se à cronologia bíblica, recalculando a idade da Terra, e era unitarista, rejeitando a Santíssima Trindade e a divindade de Jesus – crenças que ele escondeu para evitar perseguição.
  • 00:19:25Saúde de Newton e possível intoxicação por mercúrio — É levantada a hipótese de que o colapso nervoso de Newton e seu temperamento explosivo podem ter sido causados por intoxicação por mercúrio, devido a seus experimentos alquímicos. Uma exumação em 1979 encontrou altos níveis de mercúrio em seus cabelos. Seu embranquecimento precoce aos 30 anos também é citado como um possível sintoma.
  • 00:22:02Reconhecimento e difusão das ideias newtonianas — Discute-se o reconhecimento das ideias de Newton. Na Inglaterra, foi reconhecido em vida, mas no continente, especialmente na França cartesiana, houve resistência. Voltaire foi um grande divulgador de Newton na França. A aceitação final veio com a expedição francesa de 1736, que mediu o achatamento da Terra nos polos, confirmando a previsão quantitativa de Newton e refutando a previsão cartesiana.
  • 00:28:05Vida posterior: Parlamento e Casa da Moeda — Aborda-se a vida posterior de Newton. Ele foi membro do Parlamento por um ano, onde proferiu apenas uma famosa frase pedindo para fechar uma janela. Posteriormente, foi nomeado diretor da Casa da Moeda, onde combateu a falsificação com rigor, mandando 27 pessoas para a forca. Esse trabalho o afastou da ciência e o impediu de revisar a segunda edição do ‘Principia’.
  • 00:30:10Morte, legado e reverência póstuma — O episódio conclui com a morte de Newton e seu legado. Ele foi o primeiro cientista enterrado na Abadia de Westminster. Voltaire, que testemunhou o funeral, comentou que os britânicos honravam um matemático como outras nações honrariam um rei. Seu epitáfio o celebra como uma ‘jóia do gênero humano’, refletindo a enorme reverência que recebeu.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2014-08-25T10:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:13] O nosso tema de hoje é a vida de Isaac Newton.

[00:00:17] Na nossa vida cotidiana, física newtoniana ela é extremamente relevante porque é a

[00:00:22] física que é dominante nas nossas escalas de massa, espaço e tempo, mas na nossa vida

[00:00:29] não científica, na nossa vida diária nós também somos newtonianos.

[00:00:33] A nossa linguagem é newtoniana, a gente fala no momento que aquela pessoa tem, na inércia

[00:00:39] que aquela pessoa tem.

[00:00:40] A gente costuma dizer que as situações, as reações, muitos dos conceitos científicos

[00:00:46] introduzidos pelo Newton acabaram na nossa linguagem cotidiana de tão importante que

[00:00:51] só.

[00:00:52] Então para falar nesse assunto hoje o nosso convidado é o professor Fernando Lang das

[00:00:56] do Instituto de Física da Works, Jorge Kieffel da Biofísica da Works, junto comigo,

[00:01:00] Jeffrey Soniazón, também da Física da Works.

[00:01:02] Então um rápido resumo da vida inicial do Newton.

[00:01:05] Bom, aqui na mesa, três físicos sentados, a postura não podia ser diferente a não

[00:01:09] ser de uma grande reverência para falar do mestre de todos, quase que o nosso profeta

[00:01:14] maior, ou pelo menos o mais antigo, o professor de Moisés da Física.

[00:01:17] Isso é uma coisa que me surpreendeu, quando eu era adolescente eu estava lendo naqueles

[00:01:20] livros de divulgação das imóveis, onde ele respondia perguntas e uma das perguntas

[00:01:24] era quem foi o maior cientista de todos os tempos, e eu fui ler, bom, Einstein, e ele

[00:01:29] disse, não, Einstein é um dos segundos, e Newton era o primeiro.

[00:01:34] O Alias relendo a biografia dele, porque os imóveis tem uma coleção de biografias

[00:01:37] de ciências de tecnologia muito boa em três volumes, e ele considera Archimedes, o Newton

[00:01:42] e o Einstein, os três maiores cientistas de toda a história.

[00:01:44] Mas o Newton, ele evoca uma certa reverência exatamente pelas contribuições duradoras

[00:01:48] e o edifício que ele dirigiu para o bem e para o mal, ele permanece de pé, embora tenha

[00:01:53] sido superado em alguns domínios, ele tem a vigência completa garantida em outros,

[00:01:57] e que inclusive, durante um bom tempo, ele também apresentou um obstáculo ao avanço

[00:02:01] de algumas áreas da ciência, como a gente pode comentar depois.

[00:02:03] Newton teve uma infância bem complicada, porque ele nasceu prematuro, menos de sete

[00:02:08] meses, isso que cabia numa caneca, sobreviveu sabe-se lá como, e o pai dele tinha morrido

[00:02:12] uns meses antes.

[00:02:13] Quando ele tinha três anos de idade, a mãe resolveu se casar com um outro cara que era

[00:02:17] um reitor de uma escola, e a mãe não teve dúvida, ele foi criado pela avó, ele odiava

[00:02:23] esse padrasto dele, inclusive, aos 19 anos, numa das suas famosas listas, ele compilava

[00:02:27] listas de tudo, ele fez a lista dos pecados que ele tinha cometido até aos 19 anos, e

[00:02:30] um deles foi desejado ter botado fogo e matado o pai e a mãe, abandonaram ele, ele ficou

[00:02:34] bastante revoltado com isso, mas depois ele voltou, morreu o padrasto, ele voltou a ver

[00:02:38] com a mãe, que eles vão transformar em um fazendeiro durante alguns anos, foi um pouco

[00:02:41] antes da grande peste de 1666, interessante, porque é meia-meia-meia, mas tinha que ter

[00:02:45] uma peste ali, com cometa e tudo, né, ou seja, direito ao espetáculo completo.

[00:02:49] Eu acho que naquela época a peste fosse uma coisa, uma novidade.

[00:02:52] Tinha cada dois, três anos, mas essa foi particularmente terrível, foi uns anos na

[00:02:56] Inglaterra, porque também teve um incêndio de Londres logo depois, enfim, nesse momento

[00:03:00] ele obviamente detestou, mas conseguiu ser salvo por um tio e um amigo, que decidiu que

[00:03:04] de fato ele era um cara que gostava de estudar, ele tinha tido a oportunidade, em função

[00:03:07] do padrasto e da avó, de estudar um pouco numa escola onde estudava tudo em latim, que

[00:03:12] foi decisivo, porque dominando o latim ele pôde ler os clássicos, e toda a literatura

[00:03:17] E aí depois ele conseguiu, é, o grego, mas ele dominava bem o latim, tanto que ele escreveu,

[00:03:21] até o princípio, o primeiro livro foi escrito em latim, porque é dirigido às classes

[00:03:24] pensantes.

[00:03:25] Aí ele conseguiu voltar para terminar a escola e entrar na universidade, no colégio da Trindade,

[00:03:28] o Trinity College, em Cambridge, onde então ele até não se sobressaiu tanto, dando seu

[00:03:33] período de estudo, mas ele sempre foi um cara assim, que era solitário, gostava de ficar

[00:03:37] pensando e resolvendo seus problemas, gostava de fazer experimentos o tempo todo, e gostava

[00:03:40] de fabricar objetos, maquinetas e coisas, bastante talentoso, como artesão, né, e

[00:03:45] até ele tinha um livro, que era um livro favorito da infância dele, que é o John

[00:03:49] Bates, Os Mistérios da Natureza e da Arte, que ensinava a seguinte metodologia, fazer

[00:03:53] experimentos na prática, fazer artesanato, química, analisar as ideias e organizar categorias.

[00:03:58] Um livro que influenciou o garoto, isso e os cadernos, as anotações dele, foram a escola

[00:04:03] principal do Newton.

[00:04:04] Teve o ano da peste, onde se encerraram as atividades, esvaziaram as cidades, porque

[00:04:07] na cidade a contaminação é muito mais rápida, mandando todo mundo para morar no campo, especialmente

[00:04:11] mulheres e crianças.

[00:04:12] Aí ele teve várias das ideias que ele desenvolveu, por exemplo, algumas observações sobre

[00:04:16] a luz, as ideias que são a origem do cálculo infinitesimal e o princípio da gravitação.

[00:04:21] A história da maçã teria acontecido lá, é uma história que é questionada, mas parece

[00:04:25] que agora apareceu aí um misturador da Royal Academy, se não é verdade que ele estava

[00:04:30] deitado embaixo de uma árvore e caiu uma maçã e ele teve a ideia, de fato, observou uma

[00:04:34] maçã caindo pela janela e aí teve, juntou algumas ideias que ele já estava pensando,

[00:04:38] ou ele usava isso como exemplo didático, para explicar aquela trajetória retilínea

[00:04:42] de um objeto caindo em queda livre que seria uma explicação.

[00:04:44] Fernando, a importância da obra do Newton, ela é supervalorizada ou ela realmente foi

[00:04:50] algo que mudou os paradigmas da ciência?

[00:04:52] Não, eu acho que não, não é supervalorizada, Newton, sem dúvida, é um dos maiores cientistas

[00:04:59] de todos os tempos, ele consolida a revolução copernicana, alguns problemas que havia na

[00:05:06] hipótese copernicana só foram resolvidos efetivamente pelo…

[00:05:10] A hipótese copernicana é retirar a terra do centro do universo.

[00:05:14] Isso, e botar o Sol no centro.

[00:05:17] Pelo menos o sistema solar.

[00:05:18] É não, mas pro copérnico o Sol é o centro do universo também, e claro que depois essa

[00:05:23] ideia evolui, mas na origem o Sol é o centro do universo.

[00:05:27] O que não importa porque é o principal astro nas proximidades, em termos de gravitação

[00:05:31] é tudo que interessa, até porque naquela época tinha pouca diferença entre o sistema

[00:05:35] solar e o universo.

[00:05:36] Então quais foram as grandes áreas onde o Newton teve uma influência fundamental?

[00:05:40] A mecânica, a gente sabe, as leis de Newton, a ótica, a composição da luz branca.

[00:05:46] Eu acho que são as duas grandes áreas, a mecânica e a ótica.

[00:05:50] A ótica com a versão corpusculada.

[00:05:53] E é um dos inventores do cálculo junto com o Leibniz.

[00:05:57] Essa controvérsia está decidida?

[00:05:58] Não, eu acho que nem há condições de decidir isso.

[00:06:01] Só pra que as pessoas saibam, existe uma questão sobre a prioridade da descoberta,

[00:06:05] que foi já uma questão discutida naquela época, porque os dois alegavam terem sido

[00:06:10] os primeiros.

[00:06:11] Acusações mútuas de plágio, de ter roubado ideias.

[00:06:15] Mas eu preciso dizer que na verdade Newton e Leibniz começaram como amigos e trocaram

[00:06:19] correspondentes durante anos, provavelmente eles criaram várias ideias em conjunto, mas

[00:06:23] depois da medida que foi crescendo a importância e o reconhecimento, os egos foram um pouco

[00:06:27] divididos e aí eles começaram uma disputa bem amarga mesmo, que foi até o fim da vida.

[00:06:31] Então esse é um ponto importante, o Newton é um ídolo, é um gênio, então é uma pessoa

[00:06:38] acima de todos os outros, ele está sentado em ombros de gigantes.

[00:06:43] Foi o primeiro cientista enterrado na badia de Westminster.

[00:06:45] Então como uma pessoa como o Newton acaba se envolvendo em picoinhas.

[00:06:50] Mas eu acho que Newton não é uma exceção sobre esse aspecto, há muita discussão em

[00:06:55] outros momentos históricos, com outros cientistas.

[00:06:58] Mas quando a pessoa tem essa postura, tem o poder que o Newton tinha naquela época,

[00:07:02] aí as coisas ficam mais complicadas.

[00:07:05] Na época ele chegou a ser presidente da Royal Society, ele tinha outros desafetos,

[00:07:11] inclusive mais próximos do que o Leibniz, que era na própria Inglaterra, que era o John

[00:07:14] Luke, que tinha sido da academia antes e também teria movido mundos e fundos contra o Newton,

[00:07:20] mas quando ele faleceu, morreu antes, era um pouco mais velho, reza a lenda, até parece

[00:07:23] no episódio do Cosmo, que o Newton meio que assim, foi longe, se vingou e inclusive eliminou

[00:07:28] o único retrato que tinha, então a imagem dele não é mais conhecida, umas coisas assim.

[00:07:32] Mas enfim, a história da primazia em ciência na verdade é talvez o caso do Leibniz e do

[00:07:37] Newton, que seja paradigmático, era quando começava a ciência e isso até hoje é

[00:07:40] o grande tema em ciência, quem descobre primeiro as coisas.

[00:07:43] E veja que eles começaram como colaboradores e terminaram como oponentes, ambos fazendo

[00:07:47] contribuições aí.

[00:07:48] Então é importante dizer que a formulação conceitual, talvez o Newton tenha chegado

[00:07:52] um pouco antes, ou junto, difícil decidir isso, mas eles optaram por notações diferentes.

[00:07:57] Tinha um tipo de notação e o Leibniz elaborou a notação que viria a durar, que é a que

[00:08:02] nós usamos hoje.

[00:08:03] E isso inclusive, a notação interfere na aplicabilidade, de forma que diz, não sei

[00:08:09] se é verdade, é que a partir disso, como virou uma questão nacional, nacionalista,

[00:08:13] então os ingleses ficaram com o lado de Newton e os alemães e a Europa continental do Leibniz,

[00:08:18] então na Inglaterra não se adotou a notação alemã do Leibniz e que a matemática, o cálculo

[00:08:23] inclusive entrou num beco sem saída, ficou 100 anos atrasado.

[00:08:25] No continente, notoriamente, a matemática foi mais desenvolvida.

[00:08:29] O Thomas Kuhn tem um artigo muito interessante, exatamente mostrando a tradição racionalista,

[00:08:35] muito vinculada com a matemática, vigente no continente e na ilha, vigindo mais a abordagem

[00:08:43] empirista.

[00:08:44] E o Newton é um sujeito que vai jogar nos dois times, porque o Newton do Principia é

[00:08:50] o racionalista.

[00:08:52] Já o Newton do livro de ótica, ele privilegia a abordagem experimental, mas depois, pelo

[00:08:58] que eu recordo assim desse artigo interessante do Thomas Kuhn, depois do Newton, as matemáticas

[00:09:04] têm grande desenvolvimento no continente.

[00:09:07] É lá que a ideia passou a existir.

[00:09:10] Quem faz qualquer curso de cálculo aprende uma série de nomes e são todos eles de um

[00:09:15] modo geral francês.

[00:09:17] Bom, mas isso é um pouco complicado, porque existe uma lei que se chama Lei de Stiegler,

[00:09:20] que diz que as descobertas científicas, elas levam o nome de outra pessoa, não a que descobriu.

[00:09:25] E essa lei não foi o Stiegler que inventou, é outra pessoa.

[00:09:28] Aliás, diz que algumas das ideias do cálculo já estavam em firmar, algumas, claro, e outras

[00:09:32] em raiz desde a Graça Antiga, que é o problema do infinito.

[00:09:35] Mas interessante, já que a gente está falando do cálculo, é que o Newton não usa o cálculo

[00:09:39] para apresentar isso.

[00:09:40] No princípio não.

[00:09:41] Até porque, aí seria uma coisa que ninguém teria condições de entender, porque é uma

[00:09:47] nova teoria mecânica, e agora com uma nova matemática seria impossível.

[00:09:53] Ele tem que apresentar as suas ideias ainda na velha forma dos raciocínios geométricos.

[00:10:00] Do axiomas, corolares, definições, aliás, diz que é imitando o livro do Euclides, os

[00:10:05] elementos.

[00:10:06] Sim, mas isso se faz até hoje, uma conversão mais matemática, mas o que é diferente é

[00:10:10] a demonstração.

[00:10:11] A demonstração é geométrica.

[00:10:13] Tanto que nós não temos praticamente nenhuma condição de entender hoje, porque aparecem

[00:10:20] esquemas geométricos que para nós são…

[00:10:22] E dizem também que essa versão no princípio tem muitas falhas, até porque sabidamente

[00:10:27] ele foi convidado, foi um apóstolo entre os inimigos, ele e o Hulk, e um amigo, o Halley,

[00:10:33] e o Reign, que é o crack, para resolver o problema das áreas, que é o problema clássico

[00:10:39] e tal, se já tinha os elementos.

[00:10:41] E aí eles apostaram entre eles quem ia resolver, inclusive o Reign ofereceu um prêmio.

[00:10:45] E o Hulk não gostava do Newton por causa da óptica e não sei o que, mas o Halley era

[00:10:50] amigo dele, perguntou para ele, eu estou tentando procurar uma forma de, sabendo que os corpos

[00:10:55] se atraem gravitacionalmente, a versão do inverso do quadrado da distância, que tipo

[00:10:59] de trajetórios isso vai definir?

[00:11:00] Aí o Newton respondeu, sem pestalejar, evidentemente, uma elipse.

[00:11:05] Como assim evidentemente uma elipse?

[00:11:06] Como é que sabe disso?

[00:11:07] Eu calculei.

[00:11:08] Eu calculei quando?

[00:11:09] Eu calculei na época da peste, 20 anos antes, é mesmo, mas então me posta esse material

[00:11:12] e ele escreveu uma noção de 9 partes, deu para ele, e o Hulk e o Halley ficam loucos

[00:11:16] e disse isso aqui, tem que ser um livro, e essa é a origem do princípio.

[00:11:19] É porque naquela época as leis de Kepler já eram bem conhecidas, mas elas não tinham

[00:11:23] o embasamento teórico, eram baseadas em observações, mas não tinha uma teoria que explicasse o

[00:11:29] mecanismo.

[00:11:30] E talvez isso tenha sido uma coisa importante do Newton, porque o que ele fez basicamente

[00:11:33] foi unificar o céu e a terra.

[00:11:35] Isso.

[00:11:36] Aliás, pela filosofia aristotélica que vigia até então, as regras e leis que regem a

[00:11:41] terra são diferentes das espaças.

[00:11:43] Quando o Newton disse que o que atrai a massa para o chão é o mesmo, faz a luz ao redor

[00:11:46] da terra, ele derrubou tudo, foi o fim, já era um negócio…

[00:11:49] E o que é engraçado, porque hoje quando a gente estuda a gente separa de novo, a gente

[00:11:54] estuda uma lei de gravitação que vale na superfície, que é diferente da lei da gravitação

[00:12:00] que vale para o suprador de volta, a dizer não, não, porque realmente passa essa impressão

[00:12:04] de que são duas coisas diferentes.

[00:12:07] Mas até voltando a história da geometria, essa tentativa pela geometria, o Newton era

[00:12:11] um admirador do Euclides, que até hoje é considerado um dos maiores livros de toda

[00:12:14] a história da ciência, pelo menos da matemática, é da perfeição dele, é o mais perfeito.

[00:12:18] Mas as demonstrações que tem no princípio não são para nada perfeitas, tem bastante

[00:12:21] problemas, inclusive erros de precisão.

[00:12:23] E uma das partes que ficou mais frágil foi exatamente a lei da gravitação, que o primeiro

[00:12:28] cálculo que o Newton fez lá nos anos da peste, uns anos antes, não dava certo porque precisaria

[00:12:32] calcular a distância da Terra e a Lua, tinha que ter uma estimativa do tamanho da Terra

[00:12:36] e a distância da Lua, para fazer em diâmetros terrestres, e tinha erros nessas duas medidas

[00:12:40] e ele achou, o resultado ficou sete oitavas do valor real, aí ele disse, isso é muito

[00:12:45] grande o erro, e ele achou que estava errado a teoria, descartou ela por uns anos.

[00:12:48] Quando o Halley fez o desafio, já tinha dados num cálculo chamado Picard, uma medida do

[00:12:52] tamanho da Terra mais precisa, e ele refez e bateu ali bonitinho, com três casas, agora

[00:12:57] sim, agora vai.

[00:12:58] Esse é o Fronteiro da Ciência, nós estamos falando hoje sobre Isaac Newton, vocês podem

[00:13:02] encontrar informações sobre esse programa no nosso site, que é o fronteirodasiência.orgs.br

[00:13:07] Mas o Newton, a gente sabe que ele fez contribuições não somente para áreas científicas, o Newton

[00:13:13] foi uma pessoa que viajou muito pouco, tinha muito poucas interações sociais, então

[00:13:17] ele realmente tinha muito tempo para se dedicar à ciência, e a gente sabe que não foi só

[00:13:22] a ciência que ele gastou seu tempo, então passou nessas outras áreas as quais ele se

[00:13:28] dedicou.

[00:13:29] Em 1936, o Prêmio Nobel de Economia, ou Keynes, compra num leilão um conjunto de manuscritos

[00:13:37] do Newton, que ninguém dava nada por aqueles manuscritos, ninguém esperava encontrar nada

[00:13:42] de importante.

[00:13:43] Quando eles começam a estudar esses manuscritos, eles descobrem duas facetas do Newton que

[00:13:48] até ali praticamente estavam desconhecidas.

[00:13:51] Mas eram desconhecidas esses documentos, eles eram desconhecidos do momento?

[00:13:54] E não tinham publicado, ou porque teve algum esforço explícito dos documentos?

[00:13:59] Acho que as ideias religiosas dele não eram compatíveis com a religião oficial na Inglaterra,

[00:14:06] então nesses manuscritos aparecem duas vertentes diferentes do Newton que era desconhecida.

[00:14:12] É o Newton alquímico, muito envolvido com alquimia, inclusive alguns historiadores dizem

[00:14:18] que a chegada dele na lei da gravitação universal é graças às suas ideias alquímicas, a possibilidade

[00:14:27] de um corpo agir sobre o outro à distância, e isso é inconcebível no racionalismo cartesiano.

[00:14:34] Aliás, o Newton é formado como cartesiano, porque a física que se aprendia na época

[00:14:40] que o Newton estudou era a física cartesiana.

[00:14:43] Sim, onde o contato é…

[00:14:44] É só a física do contato.

[00:14:45] Isso que é uma coisa estranha, né?

[00:14:47] Você gera uma física cheia de mistérios, porque o que tu podia é dois corpos colidiram

[00:14:51] com o outro, passaram perto do outro, mas eles não influenciavam o outro.

[00:14:54] Isso.

[00:14:55] É a teoria do vórtex, que era um tour de force, mas não existia a explicação da

[00:15:01] gravidade que hoje nos parece tão natural.

[00:15:02] Mas então aparece essa versão alquímica, que parece ter sido muito importante para

[00:15:08] algumas ideias científicas do Newton.

[00:15:11] Ele tentou transbultar também em ouro algumas coisas.

[00:15:14] Você é pedofilosofal.

[00:15:15] E aparece um outro envolvimento do Newton com a cronologia da igreja da cristandade.

[00:15:22] A cronologia bíblica.

[00:15:23] Isso.

[00:15:24] Ele tentou calcular a idade da terra baseada nas informações, por exemplo, nas idades

[00:15:29] que são dadas na bíblia.

[00:15:30] Ele recalculou?

[00:15:31] Ele recalculou a idade da terra por volta de 6, 7 mil anos.

[00:15:34] 3.500 anos, mais nova que a tradição bíblica.

[00:15:37] Sobre isso eu não sei, porque o que eu sei desse cálculo é do Bispo Wücher.

[00:15:42] Então, isso foi depois ainda.

[00:15:44] Mas ali naquela época ele calculou 500 anos mais jovem que a tradição, que era 4 mil

[00:15:48] e 4 anos, mas isso teve que esperar um século, até vi o Hutton, que foi o cara que lançou

[00:15:52] o primeiro texto, o fundador da geologia, onde ele fez um cálculo e chegou na idade

[00:15:56] da terra muito mais longa do que isso, porque os processos não poderiam ter acontecido.

[00:16:00] Para a época estava aceitável esse tipo de maluquice.

[00:16:03] Mas o Newton, nesses textos envolvidos com a religião, aparece bem claro a posição

[00:16:09] unitarista do Newton, contra a posição oficial da igreja anglicana, que é trinitarista também,

[00:16:15] assim como a igreja católica romana.

[00:16:17] Ele não aceitava a santa trinidade, o que se tivesse.

[00:16:22] O Deus uno.

[00:16:23] E não aceitava também que Jesus era divino, ele era apenas humano.

[00:16:27] Foi muito divertido, porque ele passou 20 anos da vida dele como funcionário do colégio

[00:16:31] da trindade.

[00:16:32] Pois é.

[00:16:33] Trinity College.

[00:16:34] Pois é, mas então.

[00:16:35] Zip, né?

[00:16:36] Boquinha calada.

[00:16:37] E ele, para assumir a cátedra no Trinity College, o Isaac Barrow, que era o matemático

[00:16:41] que tinha fundado a Cátedra Lucasiana, ele se retira para ir trabalhar com o rei e a

[00:16:47] dica da cátedra, e aí o Newton vai assumir essa cátedra.

[00:16:51] As cátedras do Trinity College só eram assumidas por pastores anglicanos, os cientistas

[00:16:57] que estavam ali também teriam que ser pastores anglicanos.

[00:17:00] Com essa descoberta de 36 dos textos do Newton, se entende melhor o que aconteceu, porque

[00:17:06] se sabia que o rei teria aberto a possibilidade para o Newton assumir sem ser pastora anglicana.

[00:17:12] Ele abriu uma exceção.

[00:17:13] Inclusive o argumento do rei era dizendo assim, eu entendo que ele não tem a vocação, que

[00:17:18] o Barrow explicou, ele não tem vocação para ser pastor, eu entendo, porque eu também

[00:17:21] não teria.

[00:17:22] E aí ele acenou e parece que acabou com essa tradição.

[00:17:24] Porque havia muitas mudanças, primeiro era mais ortodoxo, depois menos, depois teve

[00:17:28] o governo do Cromwell antes disso, que foi mais fundamentalista, e teve restauração.

[00:17:33] Tem vários momentos em que a religiosidade subia e descia em rigor e cobrança.

[00:17:37] Se ver por esses documentos de 36 que possivelmente ele não assumiria se fosse mantida a necessidade

[00:17:46] de…

[00:17:47] Como ele ia ser preso, que essa heresia era conhecida como arianismo, de negar a trindade

[00:17:53] e a santidade de Jesus, que aliás ele nunca contou porque sabia que ia ser perseguido

[00:17:57] para o exílio.

[00:17:58] Mas no fim da vida dele, com mais de 70 anos, ele ficou muito amigo do John Locke, que

[00:18:02] é um cara da política, da história e tal, e trocava muitas ideias, e o John Locke conheceu

[00:18:07] então essa faceta dele, e ele teria estimulado ele a divulgar as ideias dele, e aí ele decidiu

[00:18:12] publicar uma versão traduzida no exterior para ver o que acontecia, e aí caiu a ficha

[00:18:17] depois que ele autorizou isso, já tinha mandado o manuscrito para lá, caiu a ficha que ele

[00:18:21] ia ser mandado para o exílio, e aí ele foi correndo atrás, procurou o editor e pagou

[00:18:25] para ele não publicar.

[00:18:26] Isso foi o primeiro caso de um editor que ganhou mais para não publicar um livro e

[00:18:29] para publicar.

[00:18:30] E se só for de ser conhecido, como esse manuscrito circulou e algumas pessoas leram, talvez

[00:18:34] não fosse segredo absoluto essa história, mas a prova final na mão do Newton só apareceu

[00:18:39] mesmo nesses manuscritos do Keynes, que tem dois milhões de palavras escritas sobre

[00:18:47] esses assuntos, muito mais do que todo o resto.

[00:18:49] Mais sobre esses assuntos do que sobre os outros.

[00:18:52] De vez em quando mais.

[00:18:53] A dúvida que eu tenho é se naquela época qual era a distinção que já existia entre

[00:18:57] alquimia e química, elas ainda eram confundidas, elas ainda eram a mesma disciplina, ou seja,

[00:19:04] na época não era considerado pseudociência, era padrão.

[00:19:08] Não era pseudociência.

[00:19:09] Inclusive, alguns biógrafos dele consideram, porque na verdade, analisando parte desses

[00:19:14] textos e outros, ele fez muitos experimentos, inclusive ingerindo substâncias, por exemplo,

[00:19:19] aliás Mercúrio é uma delas, né?

[00:19:21] Você acredita inclusive que a parte dos colapsos nervosos, ele teve um colapso nervoso muito

[00:19:25] importante, que ficou dois anos sem trabalhar, em função de conflitos com as pessoas que

[00:19:28] ele brigava, ficava nervosinho e chutava o pau da barraca, abandava tudo, mas ele também

[00:19:33] ficava muito nervoso e alterado e tinha umas respostas muito tempestivas que correspondem

[00:19:36] aos sintomas neurológicos de intoxicação por Mercúrio, e de fato, em 1979, na exumação

[00:19:42] que fizeram para analisar artes, que os cabelos dele estão atolados em Mercúrio, e de fato

[00:19:47] tinha uma contaminação respeitável, mas não dá para saber porque ele não tinha

[00:19:50] outros sintomas, por exemplo, perda de cabelo, a não ser que ele usasse uma peruca, e não

[00:19:53] tinha sangue a menos nas gengivas sabidamente, mas o fato é que ele ficou grisado aos 30

[00:19:57] anos, isso imediatamente, que é um sintoma também de contaminação, talvez tenha sido

[00:20:02] isso.

[00:20:03] Qual é a origem da contaminação?

[00:20:05] Ah, ele conseguia usar experimentos, claro.

[00:20:35] Ele resgatou, inclusive consolidou, com força da influência dele, aterriu a cura particular

[00:20:40] da luz, que é contra quase todos os grandes pensadores da época, inclusive as evidências,

[00:20:44] embora ele tinha uma evidência muito boa, porque os que defendiam que a luz era onda

[00:20:49] tinham um furo para explicar, que é o fato de que o som contorna os objetos completamente,

[00:20:53] e a luz não faz isso, mas isso pode ser só um descuido nos experimentos, porque o som

[00:20:58] se reflete de forma mais adequada no meio e a luz nem tanto, só isso, mas enfim, o fato

[00:21:02] é que o Newton, ele estava talvez tentando procurar uma compreensão sobre a matéria,

[00:21:07] e pela via mística, e também por várias outras coisas, na história da Bíblia também,

[00:21:11] ele acreditava numa teoria do livro, como é que se chamava, é uma teoria que diz que

[00:21:15] os sábios da Antiguidade teriam recebido de Deus a explicação de tudo, e isso teria

[00:21:20] sido perdido com o tempo, ele estava tentando resgatar ela, cifrado lá no meio, e aí ele

[00:21:25] também passou um bom tempo procurando segredinhos na Bíblia, como fazem numerólogos e outros,

[00:21:30] e assim aconteceu a ciência, mas tem esse lado de química, então parece que foi interessante,

[00:21:34] e o fato é que essas duas coisas aconteceram meio ao mesmo tempo, ele fazia tudo ao mesmo

[00:21:37] tempo, e durante um tempo ele largou a mecânica, largou a óptica, não só essa alquimia,

[00:21:41] inclusive recusou um convite do Huck, que ele desafiou ele, ele me prova esse troço

[00:21:46] aqui, diz, agora não me interessa mais matemática, eu estou ocupado de outras coisas, e ficou

[00:21:49] fazendo um semiannando lá em um canto, de fato, essas duas coisas devem todas ter convergido

[00:21:54] nas ideias dele, ele é um sujeito bastante cêntrico.

[00:21:57] E o Newton teve reconhecimento da obra em vida ainda, né?

[00:22:02] Na Inglaterra, porque no continente havia forte oposição às ideias newtonianas exatamente

[00:22:10] por causa do Descartes, da física cartesiana.

[00:22:15] Conta um pouco como é que eles decidiram essa, em que momento os franceses, por exemplo,

[00:22:19] passaram a aceitar até a Newtoniana?

[00:22:21] E a Newtonianos, já na França, o Voltaire, o enciclopedista, ele passa algum tempo na

[00:22:28] Inglaterra, e aí ele volta pra França como Newtoniano, inclusive ele escreve um texto

[00:22:35] de divulgação das ideias newtonianas, que é um texto de física pra mulheres.

[00:22:41] Essa é uma época muito curiosa.

[00:22:43] Porque ele pretende atingir os cientistas franceses através das suas esposas, ele é

[00:22:51] um grande divulgador das ideias newtonianas.

[00:22:54] E bom, o que acaba decidindo?

[00:22:57] Havia uma previsão da mecânica newtoniana que conflitava com a mecânica cartesiana

[00:23:03] sobre a forma da terra.

[00:23:05] Finalmente a Real Academia de Ciências da França, patrocinada pelo Rei da França,

[00:23:10] isso é 1736, portanto nove anos depois da morte do Newton, o Rei da França patrocina

[00:23:18] as expedições, uma que veio aqui pro Equador e outra que vai pra Lapônia, pra fazer medidas,

[00:23:26] diversas medidas geodésicas, inclusive pra testar outras, por exemplo, a mecânica newtoniana

[00:23:33] previa que o pêndulo no Equador oscilasse mais lentamente do que na Lapônia, e fizeram

[00:23:42] a medida mais importante de um grau do meridiano terrestre na Lapônia e no Equador, porque

[00:23:49] a mecânica cartesiana fazia uma predição sobre o comprimento de um grau do meridiano

[00:23:55] terrestre que era conflitante com a mecânica…

[00:23:58] Então toda a questão é se a terra é achatada nos polos ou no Equador?

[00:24:02] Isso, ou no Equador, porque a mecânica cartesiana imaginava a terra achatada no Equador.

[00:24:10] Se ela é achatada nos polos significa que a distância no Equador até o centro é maior

[00:24:14] ou significa que a constante gravitacional é menor, então o período de oscilação

[00:24:19] do pêndulo é maior, então o pêndulo oscila mais devagar no Equador.

[00:24:22] No Equador, isso, isso, isso.

[00:24:24] Outro que contribuiu bastante foi que uma das lacunas que ele deixou, porque não tinha

[00:24:29] como responder na época, era a constante que aparece na equação da gravitação universal,

[00:24:33] que é G maiúsculo, e que foi calculada com precisão por Cavendish, um experimento do

[00:24:38] pêndulo de torção.

[00:24:39] Medida.

[00:24:40] Medida, foi medida.

[00:24:41] E isso também trouxe credibilidade para ter uma medida, e é, e bate, e com isso inclusive

[00:24:47] pela primeira vez se calculou a massa da terra.

[00:24:49] Sim, sim, mas isso já é…

[00:24:51] Era um século depois, mais ou menos.

[00:24:52] Isso, é porque essa expedição é 36, a medida do Cavendish é final do século 18.

[00:24:58] Mas dá para dizer que o Newton foi vindicado, digamos, nas poucas décadas que sucedem a

[00:25:03] sua morte, no continente, foi rápida a difusão, até porque já tinha acessado o ruído da

[00:25:08] disputa com Leibniz e outros, e Descartes já tinha dado o que tinha para dar.

[00:25:12] É, a mecânica cartesiana não tinha, estava estagnada, a mecânica newtoniana oferecia

[00:25:18] muitos problemas interessantes.

[00:25:19] Tinha muitos problemas não resolvidos, as maré, as librações lunárias, a precisão

[00:25:24] do equinócio, nada disso ela explicava.

[00:25:26] Não.

[00:25:27] Mas a mecânica cartesiana, ela tinha um corpo teórico, matemático, assim?

[00:25:31] Alguma coisa, mas eu não sei, por exemplo, isso é uma dúvida que eu tenho, se a mecânica

[00:25:37] cartesiana fazia uma predição quantitativa, por exemplo, sobre o achatamento, qualitativamente

[00:25:43] dá para entender.

[00:25:44] Sim.

[00:25:45] Agora, a mecânica newtoniana é impressionante, porque o Newton não só prevê que a Terra

[00:25:50] é achatada no polo, mas calcula o grau de achatamento, o cálculo dele seria alguma

[00:25:57] coisa em torno de 30 quilômetros, e essa expedição faz a medida, eles conseguem saber

[00:26:04] qual é o achatamento, e é um pouquinho menor do que ele tinha calculado, é da hora

[00:26:08] de 27 quilômetros, agora nós reconhecemos que é 21 quilômetros, então é 30, seria

[00:26:13] a previsão.

[00:26:14] 21 quilômetros é a diferença do raio do Equador e o raio polado.

[00:26:19] Isso, que é uma diferença pequeniníssima.

[00:26:21] Para 6 mil e pouco, menos de meio por cento.

[00:26:24] Mas então a mecânica newtoniana é impressionante, porque inclusive alguém disse o seguinte,

[00:26:30] O que a expedição fez de ir até a Lapônia lá e fazer a medida, o Newton fez sem sair

[00:26:35] da sua cadeira, porque ele calculou o achatamento, e os caras foram lá e confirmaram os números

[00:26:41] muito parecidos com os calculados.

[00:26:42] O experimento que o Newton fez foi dentro da sua cabeça, que mostra que ela era muito

[00:26:45] grande.

[00:26:46] Aliás, isso é uma brincadeira que tinha, o infinito é um problema que também deu origem

[00:26:51] ao cálculo, é um problema muito grande que tem que ser resolvido por uma coisa chamada

[00:26:54] cérebro que tem 15 por 15 por 15, nas maiores das cabeças.

[00:26:58] Mas assim, não vamos diminuir a importância do Descartes, o fato é errado, porque o Descartes

[00:27:01] fez uma coisa revolucionária, que é poder ligar aquelas cônicas da época dos gregos,

[00:27:05] porque os gregos, ficaram 2 mil anos o sistema da geometria, era uma geometria descritiva,

[00:27:10] tu sabia desenhar, formar a figura, mas tu não sabia como descrever elas numericamente,

[00:27:15] através de equações.

[00:27:16] E o Descartes inventa a geometria analítica, ou seja, equações que calculam, mas aí

[00:27:21] eu gosto de pensar assim, dos gregos para o Descartes, o Descartes para o Newton, o

[00:27:25] Newton faz mais do que isso.

[00:27:26] Ele liga Kepler com a geometria analítica e joga com a lei da gravitação e consegue

[00:27:30] juntar tudo numa coisa só.

[00:27:32] Isso aí, ver tudo junto, é o que ninguém tinha feito.

[00:27:35] De novo, lembra o Einstein, que também o trabalho estava ali fragmentado entre vários

[00:27:39] autores e ele enxergou como colocar tudo junto, fazendo uma pequena inversão conceitual.

[00:27:44] Então esse é o pulo do gênio, mas é um gênio obsessivo, esse é um cara que trabalhava

[00:27:48] muito.

[00:27:49] Até ele dizia ali, o biógrafo que entrevistou ele no fim da vida ali, como é que tu trabalha,

[00:27:52] ele diz, não é inspiração ou intuição súbita, mas é um esforço contínuo de pensamento

[00:27:57] até eu chegar na conclusão que eu desejo.

[00:27:59] Aquilo que o Zachar Smolff chamou de suor mental infinito.

[00:28:02] Ele depois experimentou outras coisas, por exemplo, durante aqueles conflitos religiosos

[00:28:05] teve um período em que era república, e havia uma perseguição, uma censura grande

[00:28:11] e o Newton meio que saiu em defesa, arriscando a própria vida até, da Universidade do Trinity

[00:28:16] College.

[00:28:17] Quando foi restaurada a monarquia o rei Carlos II premiou ele, disse, po, foi importante

[00:28:22] esse elemento, porque como ele era muito irrespeitado os caras não usaram tocar nele

[00:28:25] até que em poucos meses se debelou a crise.

[00:28:28] E aí o Newton foi convidado e entrou no parlamento, ficou um ano e pouco como parlamentar, ele

[00:28:33] não pronunciou nenhum discurso, mas era a pessoa mais respeitada lá, e uma única

[00:28:36] vez ele se levantou para falar, e todo mundo ficou quieto, ficou em reverência, o Newton

[00:28:41] vai falar, ele já tinha setenta e poucos anos, ele se levantou e disse, por favor alguém

[00:28:45] fecha aquela janela que está entrando numa correnteza aqui, foi o único discurso que

[00:28:49] ele pronunciou em vida no parlamento.

[00:28:52] Mas isso não atrapalhou a carreira acadêmica dele, porque pelo visto parlamentar de lá

[00:28:56] como aqui não trabalham muitas horas por semana, então o que atrapalhou mesmo foi

[00:29:00] que depois de um outro momento mais velhinho ainda, foi aquilo que foi considerado por alguns

[00:29:03] um crime que foi cometido contra ele, ele foi convidado para assumir a casa da moeda

[00:29:07] britânica, que tinha muita falsificação, tinha mais de vinte por cento das moedas

[00:29:11] era falsificada, e as não falsificadas, o pessoal tinha mania de cortar pedacinhos

[00:29:14] para fundir e fazer outras coisas, então na Europa inteira ninguém aceitava moeda

[00:29:18] inglesa.

[00:29:19] Eu disse, deixa que eu resolvo, e ele se dedicou a perseguir os falsificadores, ele mandou

[00:29:23] vinte e sete para a Forca, o cara era terrível, inclusive o mais importante falsificador

[00:29:28] que era amigo do rei e quase colocou um substituto do Newton, ele ia botar um pincha dele no

[00:29:32] lugar do Newton e ia assumir a presidência da casa da moeda, a posa cuidando do galerino,

[00:29:36] e ele desafiou o Newton, disse que o Newton fraudava, aí o Newton ficou opulto, foi lá

[00:29:40] e começou a levantar dados, montou um dossiê e em dois anos mandou o cara para a Forca,

[00:29:44] e nesse período ele parou de fazer ciência, inclusive abandonou de fazer a revisão, a

[00:29:49] segunda edição do princípio, que é um problema, porque ele foi desafiado a fazer, porque tinha

[00:29:54] vários matemáticos que queriam reescrever melhor, e tinha como fazer melhor, mas ele

[00:29:58] não deixava de noite que eu fazia, só que ele não fez, que é uma pena.

[00:30:01] Para mostrar como essa reverência, tinha justificação, mas talvez tenha sido um pouco

[00:30:05] excessiva, Voltaire estava na Inglaterra quando o Newton morreu, e assistiu toda aquela

[00:30:10] comoção, o fato de ser enterrado como chefe de estado, o Badir Westminster, que ele escreveu

[00:30:15] lá, uma das coisas que marcou assim, os britânicos honram um matemático, como as outras nações

[00:30:20] honrariam um rei, e de fato o epitáfio na tumba dele tem escrito, mortais, alegrem-se

[00:30:25] por tal joia pertencer ao gênero humano.

[00:30:27] Então esse foi o Fronteiras da Ciência, onde a gente falou sobre o grande Isaac Newton,

[00:30:32] tiveram aqui o Fernando Langre da Silveira, do Departamento de Física da Urix, o Jorge

[00:30:36] Kieffel, da Biofísica da Urix, e eu, Jeffrey Sorenson, também da Física da Urix.

[00:30:41] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da Urix, Técnica

[00:30:46] de Gilson de César e Direção Técnica de Francisco Guazelli.