T05E38 Ted e Marcia: como é falar em um TED


Resumo

Neste episódio do Fronteiras da Ciência, a professora Márcia Barbosa compartilha sua experiência como palestrante no TEDx CERN, evento focado em meio ambiente, água e energia realizado no maior acelerador de partículas do mundo. Ela detalha o rigoroso processo de preparação, que incluiu meses de treinamento com um coach especializado para adaptar sua palestra técnica sobre água para um público leigo e global, dentro do limite rígido de 10 a 15 minutos. Márcia descreve a estrutura profissional do evento, com regras específicas sobre vestimenta, movimentos no palco e conteúdo, contrastando com seu estilo naturalmente expansivo e improvisado.

A conversa explora a cultura do TED, marcada por um profissionalismo que busca eficiência e impacto massivo, com palestras editadas e legendadas em dezenas de línguas. Os participantes discutem como esse formato, embora por vezes homogeneizado e controlado, se tornou uma ferramenta poderosa de divulgação científica na era da brevidade midiática. Eles contrastam essa abordagem com a cultura latino-americana de comunicação, mais espontânea e menos treinada para falar em público desde a juventude.

Márcia revela o conteúdo de sua palestra, centrada na crise global da água limpa e em soluções tecnológicas emergentes, como o uso de nanotubos de carbono para dessalinização e filtragem ultra-rápida, e dispositivos para capturar água da umidade atmosférica. Ela enfatiza como essas inovações surgem de pesquisa básica, ilustrando a importância de financiar ciência fundamental cujas aplicações podem ser imprevisíveis.

O debate se expande para os desafios do empreendedorismo e da inovação no Brasil, incluindo a necessidade de formar mais recursos humanos qualificados e de políticas industriais que apoiem o desenvolvimento tecnológico nacional. A experiência no TEDx CERN também serviu para quebrar estereótipos, como o baixo desempenho esperado de cientistas latino-americanos, mostrando o valor da diversidade e da autenticidade mesmo em formatos padronizados.

Por fim, os participantes refletem sobre o papel de formatos como o TED na popularização da ciência, reconhecendo sua eficácia em alcançar um público vasto, mas também ponderando sobre a perda de espontaneidade e a complexidade que pode ser sacrificada em prol da compactação e do impacto imediato.


Indicações

Conceitos

  • Pesquisa Básica (Ciência Básica) — Conceito amplamente defendido no episódio. Márcia e os hosts argumentam que inovações aplicadas, como os filtros de nanotubos, nascem de pesquisa teórica fundamental, cujo valor e aplicações são muitas vezes imprevisíveis a longo prazo.
  • Estresse Hídrico — Problema central da palestra de Márcia. Ela explica que uma em cada seis pessoas no mundo sofre com a falta de acesso a água limpa para viver, e que essa proporção pode chegar a uma em cada duas até 2050 se não houver mudanças.

Organizacoes

  • CERN — Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, sede do maior acelerador de partículas do mundo e local onde foi realizado o TEDx. Márcia o descreve como um lugar simbólico e maravilhoso de colaboração científica global.
  • TED / TEDx — Conjunto de conferências sobre Tecnologia, Entretenimento e Design. O episódio discute extensivamente sua cultura profissional, processo de curadoria, regras de apresentação e seu papel como ferramenta de divulgação científica massiva.

Pessoas

  • Brian Cox — Apresentador do TEDx CERN e físico de partículas britânico, ex-vocalista de uma banda, conhecido por documentários científicos da BBC. Márcia o descreve como pessoalmente tímido.
  • Michael Shermer — Cético e desmascarador de mitos mencionado pelos hosts como exemplo de palestrante americano que passou por treinamento intenso (coaching) para suas apresentações.
  • Brian Greene — Cosmólogo e físico mencionado como outro exemplo de excelente comunicador que, segundo os hosts, também passou por treinamento para suas palestras polidas.

Tecnologias

  • Nanotubos de carbono para filtragem de água — Tecnologia discutida por Márcia em sua palestra. A água flui em nanotubos de carbono com uma rapidez 900 vezes maior do que o esperado, oferecendo uma rota potencial para dessalinização e filtragem eficientes, embora ainda com desafios de escala e fabricação.
  • Sistemas de captura de água atmosférica — Dispositivos que usam superfícies hidrofóbicas para transformar vapor de água da atmosfera em água líquida. Márcia menciona que é uma ideia antiga (como coletores de sereno) que está sendo aprimorada para maior eficiência e escala.
  • Sistema de detecção de motosserras com celulares — Projeto de um jovem palestrante do TEDx que usa celulares reciclados colocados em árvores na Amazônia para detectar o som de motosserras e alertar guardas florestais via mensagem.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao TED e convidada Márcia Barbosa — O programa apresenta o tema das conferências TED (Tecnologia, Entretenimento e Design) e sua missão de espalhar ideias. Os hosts Jefferson Lorenzón e Jorge Kielfel apresentam a convidada Márcia Barbosa, professora e diretora do Instituto de Física da UFRGS, como a única pessoa que conhecem que já palestrou em um evento TED. Eles a convidam a contar sobre sua experiência.
  • 00:00:56A origem do convite para o TEDx CERN — Márcia explica que foi convidada para o TEDx CERN, uma edição temática sobre meio ambiente, água e energia organizada pela colaboração ATLAS do CERN. Ela destaca que a equipe de curadoria busca palestrantes que sejam bons cientistas e também bons comunicadores, capazes de explicar seu trabalho em 10 a 15 minutos. O convite partiu de uma coordenadora brasileira que mora na Suíça.
  • 00:02:27O intenso processo de preparação com um coach — Márcia descreve o preparo de três meses com um treinador profissional contratado pelo evento. Ela relata que a experiência inicial foi “catastrófica” porque não gosta de ficar presa a um roteiro rígido. O coach a ajudou a refletir sobre como explicar fenômenos complexos da física da água para um público leigo e global, que assistiria ao vídeo legendado em 50 línguas. Ela também comenta regras sobre vestimenta (cores sólidas, evitar branco/preto) para boa gravação.
  • 00:04:54A experiência de estar no CERN e a estrutura do evento — Márcia fala sobre a experiência de visitar o CERN, descrevendo-o como um lugar simbólico e maravilhoso que demonstra colaboração científica em escala global. Para o TEDx, montaram tendas enormes para receber mil convidados da plateia, uma mistura de pessoas do CERN, patrocinadores (como a Rolex) e pequenos empresários europeus. Ela descreve o palco temático com uma roda no chão que limitava seus movimentos, algo difícil para seu estilo dinâmico.
  • 00:07:50Restrições de conteúdo e interação com o apresentador Brian Cox — Márcia revela que propôs uma ilustração cômica envolvendo o apresentador Brian Cox (físico e ex-vocalista de banda) para explicar ligações de hidrogênio, mas a ideia foi negada. Ela brinca que as regras do evento—sem palavrões, sem piadas de duplo sentido—“invabilizavam 90% do que ela faz”. Os hosts comentam sobre a timidez de Cox, contrastando com a imagem pública dele.
  • 00:08:35Conhecendo outros palestrantes e projetos inovadores — Márcia compartilha histórias de outros palestrantes que conheceu, como uma cientista americana que liderou um projeto de agricultura na Arábia Saudita e um jovem que desenvolveu um sistema com celulares reciclados para detectar o som de motosserras na Amazônia e alertar guardas florestais. Ela também conta que o palestrante anterior a ela travou durante a apresentação, o que a deixou mais nervosa.
  • 00:10:34Contraste entre a cultura de palestra americana e a brasileira — Os hosts discutem como palestrantes americanos, como Michael Shermer e Brian Greene, passam por treinamento intenso que resulta em apresentações polidas e quase idênticas em diferentes eventos. Eles contrastam isso com a cultura brasileira/ latino-americana, onde há menos treinamento para falar em público desde a escola e mais valor à espontaneidade e improviso. O próprio programa Fronteiras da Ciência é descrito como um “anti-TED” por sua natureza conversacional.
  • 00:13:31O momento de descontração e dança no final do evento — Márcia conta o momento mais divertido e não filmado: após as palestras, um DJ fez uma mixagem com trechos das falas do TED. Ela, contrariando a formalidade, começou a dançar e puxou o treinador e outras pessoas para o palco, causando uma “transição de primeira ordem” onde toda a plateia começou a dançar, deixando a organizadora entre a felicidade e o medo de danificar a estrutura para um evento seguinte do CERN.
  • 00:16:06Treinamento final e a surpresa com a reação positiva — Márcia descreve o treinamento final no local, um dia antes do evento, onde todos ensaiam com som, roupa e equipe. Ela revela que Brian Cox chegou depois de sua palestra e, surpreso com os aplausos que ela recebeu (já que a anterior foi ruim), comentou “não é que gostaram?“. Ela compara essa baixa expectativa com experiências anteriores de preconceito contra latinos (e mulheres) no meio científico.
  • 00:18:01Repercussão da palestra e o tema central: a crise da água — Márcia fala sobre a repercussão positiva de sua palestra, incluindo convites de uma universidade canadense e interesse de empresas. Ela então detalha o conteúdo apresentado: a crise global da água limpa, onde uma em cada seis pessoas sofre de estresse hídrico, podendo chegar a uma em cada duas em 2050. Ela explica que a água se suja facilmente porque forma ligações de hidrogênio com poluentes.
  • 00:19:47Soluções tecnológicas: nanotubos de carbono e captura de umidade — Márcia apresenta duas soluções tecnológicas discutidas em sua palestra. A primeira usa nanotubos de carbono, onde a água flui 900 vezes mais rápido do que o esperado, oferecendo uma rota potencial para dessalinização eficiente. A segunda é a captura de água da umidade atmosférica usando superfícies hidrofóbicas, uma ideia antiga aprimorada com novas tecnologias. Ela ressalta que essas ideias nascem de pesquisa básica e teórica.
  • 00:23:28A importância da pesquisa básica e os desafios no Brasil — A conversa evolui para a importância de financiar pesquisa básica, que é a base para inovações aplicadas imprevisíveis. Eles discutem os desafios do Brasil, como a escassez de doutores formados em áreas estratégicas (ex: apenas 500 em microeletrônica, número que um único laboratório nos EUA pode ter) e a falta de uma política industrial integrada que incentive a inovação e o empreendedorismo de base tecnológica.
  • 00:28:00Dificuldades do empreendedorismo e o exemplo do crowdfunding — Usando o exemplo do jovem do TEDx que criou uma empresa com celulares reciclados, discutem as barreiras ao empreendedorismo no Brasil, que vão além do financiamento e incluem uma cultura de aversão ao risco e falta de segurança para largar empregos estáveis. Eles mencionam o crowdfunding como uma alternativa emergente, mas reconhecem que o problema é complexo, envolvendo cultura, política e formação de recursos humanos.
  • 00:29:16O TED como ferramenta de divulgação científica na era digital — Os participantes refletem sobre o sucesso do formato TED como ferramenta de divulgação científica. Eles notam que as palestras curtas e bem “empacotadas” se encaixam perfeitamente na cultura midiática atual, baseada na brevidade. Um vídeo de 15 minutos é mais facilmente vinculado e consumido do que uma palestra de duas horas, driblando a superficialidade da era digital para transmitir ideias complexas de forma eficiente.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2014-11-24T16:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:13] Existem algumas ideias que vale a pena espalhar.

[00:00:16] Esse é o slogan do conjunto de conferências que a gente conhece como TEB, que é tecnologia,

[00:00:22] entretenimento e design.

[00:00:24] E são realizadas em vários lugares do mundo.

[00:00:26] Existem dois conjuntos, tem o TEB original, que são as conferências oficiais, e depois

[00:00:30] tem as conferências associadas, que são chamadas TEBx.

[00:00:33] Para falar então da sua experiência num desses eventos, hoje a gente tem a única pessoa

[00:00:38] que eu conheço que já participou dessas palestras, que é a Márcia Barbosa, que é professora

[00:00:42] e diretora do Instituto de Física da URX.

[00:00:44] E para conversar com ela, hoje temos o Jorge Kielfel, do Departamento de Biofísica, e

[00:00:49] eu, o Jefferson Lorenzón, do Departamento de Física da URX.

[00:00:51] Márcia, o primeiro nos conta aonde foi, um pouco do que tu sabe da organização.

[00:00:56] O CERN, que é onde nós temos a maior acelerador de partículas do planeta, ele tem vários

[00:01:03] grupos de pesquisa, e um grupo de pesquisa desse, o ATLAS, que é o responsável por

[00:01:08] encontrar o bósono de Higgs, eles têm um trabalho de tentar entender outras áreas

[00:01:14] de pesquisa, com isso eles têm um programa que mantém todos os anos, já essa é a segunda

[00:01:20] edição, chamada TEBx no CERN.

[00:01:23] Ele tem uma equipe grande de pessoas que fica vasculhando pelo mundo, pessoas para falar,

[00:01:28] e nesse TEBx, o foco deles era meio ambiente, água e energia, então eles começavam a

[00:01:34] olhar artigos, e muito particularmente olhar vídeos, eles não chamaram ninguém que eles

[00:01:39] não tivessem visto um vídeo, porque pelo que eu entendi do TEBx, não basta ser um

[00:01:44] bom cientista, tem que ser um cientista que consegue, em de 10 a 15 minutos, contar o

[00:01:49] que tu fazes de trabalho.

[00:01:50] Então eu recebi esse e-mail convidando para ir para essa apresentação, foi uma coisa

[00:01:55] muito feliz, porque a pessoa que é a chefe coordenadora desse projeto é uma brasileira,

[00:01:59] que mora na Suíça já há muitos anos, e ela estava super entusiasmada, que a equipe

[00:02:04] no descobrir e olhar nomes, pegou o nome de uma pessoa do Brasil, ela estava super animada

[00:02:09] com isso, e eu fiquei bem assustada no começo, dizendo assim, olha, eu nunca dei uma palestra

[00:02:14] que tem essa restrição de tempo tão grande, devo confessar, eu nem sabia o que que era,

[00:02:19] vou para a internet, vou descobrir o que que era, tinha muita palestra que eu tinha visto,

[00:02:22] mas quem me conhece sabe, a minha memória é horrível para nomes, aí começou o preparo,

[00:02:27] isso me assustou bastante, porque eu estou acostumada a preparar, como todos nós, na

[00:02:31] mesa, a presença, exatamente, ou do avião indo para o lugar, e três meses antes começa

[00:02:37] a preparação, eles contratam um treinador de palestras, que é uma pessoa que tem uma

[00:02:41] empresa para treinar, principalmente empresários, para fazer apresentações de produtos, projetos,

[00:02:48] aí nós trabalhamos em Skype, com várias sessões, nas quais eu tinha que fazer o treinamento,

[00:02:53] essa parte foi catastrófica, porque eu não sou uma pessoa boa de ficar presa em caixinha,

[00:03:00] aí eu expliquei isso na primeira, olha, vocês querem que eu faça essas reuniões chatas

[00:03:04] para dizer o que que eu vou dizer, eu faço, mas na hora eu vou dizer uma coisa completamente

[00:03:08] diferente, que é o que vai rolar na hora, até do, as transparências que eu vou mostrar

[00:03:12] que serão pouquíssimas, porque elas tinham que ser numa qualidade, que eu sou muito preguiçosa

[00:03:16] para fazer as minhas figuras dessa qualidade, então tinha todo esse senoso.

[00:03:20] E a gente está acostumado com um outro tipo de público, porque ali é um público, além

[00:03:24] do público local, as conferências, elas são gravadas, editadas e muito reproduzidas,

[00:03:31] traduzidas, eles preparam legendas em 50 línguas diferentes, então o público é realmente

[00:03:35] muito heterogêneo, então essa preocupação se justifica, que é um pouco a preocupação

[00:03:39] que a gente tem aqui também, a gente está falando não é para físicos, então tu vai

[00:03:43] falar de um assunto técnico, nosso costume é preparar apresentações técnicas, com

[00:03:48] jargão, com fórmulas, e tu tem que sair desse paradigma, então um pouco sair da tua

[00:03:53] caixa de conforto é importante nesse caso.

[00:03:56] Eu fui dizendo que que esse coach foi maravilhoso, eu explicava o que eu fazia, ele fazia perguntas

[00:04:01] do que ele não entendia, então ele me ajudou não a palavra por palavra, porque eu não

[00:04:06] consigo, a refletir, como é que eu vou explicar esse fenômeno de uma maneira que uma pessoa

[00:04:11] comum possa entender, e isso foi muito importante, aí a gente vai para lá, e assim é uma caixinha

[00:04:18] do qual eu já estava um pouquinho acostumada, porque eu tive que fazer um vídeo para L’Oreal,

[00:04:21] eu fiz um vídeo para Petrobras, que tem coisas que a gente, pessoalmente como cientista,

[00:04:26] é irrelevante, e que para eles é quase mais importante que a palestra, a roupa que a

[00:04:30] gente vai usar, isso eu já tinha, já sabia, quando eu disse vamos combinar a roupa, eu

[00:04:33] já sei, não, tem que ter estampa, tem que ser cor sólida, a cor tem que ter um bom

[00:04:38] diálogo com o fundo, com o que tu tá mostrando, branco jamais, preto muito raramente, tinham

[00:04:44] várias regras, mas eu fui, já com a roupa preparada, porque eu já sabia, eu sabia que

[00:04:48] eles iam escolher a roupa no final do dia, e fui para o CERN, se alguém tiver a oportunidade

[00:04:54] de visitar, visite, porque é uma experiência, eu já fui várias vezes, porque a gente faz

[00:04:58] muitas reuniões da União Internacional no CERN, porque tu entra naquela máquina, tu

[00:05:02] te sente assim como ser humano, é maravilhoso, que é uma junção de tecnologias tão grande,

[00:05:08] tanta gente colaborando, que aí tu entende, olha, dá para ter paz nesse mundo, se essas

[00:05:12] pessoas desse mundão inteiro conseguem trabalhar juntos.

[00:05:15] É colaboração em escala industrial.

[00:05:17] Isso, e num clima muito bom, quer dizer assim, tu tá na lancheria bom, é um clima bom, porque

[00:05:22] tá permeando pessoas muito diferentes no mesmo meio, e tudo bem, vamos trabalhar todos

[00:05:29] juntos, então é um lugar maravilhoso.

[00:05:31] Não esquece que meca simbólica para quem faz ciência.

[00:05:34] E aí eles fizeram um negócio muito interessante, porque teriam mil pessoas que eles convidaram,

[00:05:38] as pessoas eram convidadas para vir.

[00:05:40] Tudo isso de convidado?

[00:05:41] De platéia.

[00:05:42] De platéia.

[00:05:43] E é uma sequência de vários, não era só tudo?

[00:05:44] Não, não, é assim, é um festival.

[00:05:46] É um festival, então eles montaram, como o CERN não tinha um espaço apropriado para

[00:05:50] receber de platéia mil pessoas, eles montaram duas tendas enormes, uma para fazer a parte

[00:05:57] social, hotel, etc., e a outra tenda da platéia.

[00:06:00] A platéia era uma mistura de convidados do próprio CERN, pessoas que estavam no CERN,

[00:06:05] os convidados do patrocinador, que era a Rolex, e convidados de empresas de toda a Europa.

[00:06:11] Então tinha um conjunto de pessoas, pequenos empresários, entrepreneiros, todo mundo querendo

[00:06:16] ver as ideias, porque eles vão lá também para prospectar.

[00:06:19] É muito profissional.

[00:06:21] E era assim, tinha um acordo com o público, e o público não ia fazer ruído durante

[00:06:25] as apresentações, porque também era uma coisa muito importante.

[00:06:28] Depois tinha um palco lindo, porque o projeto era uma coisa de um barco que atravessa as

[00:06:33] áreas do conhecimento nessa perspectiva de meio ambiente.

[00:06:38] No palco divertido, que o palco tinha uma roda no chão, que da onde a gente não podia

[00:06:43] sair.

[00:06:44] Nós que gostamos de caminhar fora da caixinha, aquela roda foi a coisa mais difícil, possível

[00:06:51] e imaginável, porque é uma roda.

[00:06:52] A câmera te pega ali?

[00:06:53] Isso.

[00:06:54] Os cortos bruscos eram não permitidos, porque realmente quando você está vendo um vídeo

[00:06:59] e começa a mexer as mãos como a gente gosta de mexer, como eu adoro mexer demais, a pessoa

[00:07:04] fica meio tonta vendo, então tinha um limite.

[00:07:07] Para quem nunca assistiu o seminário da Márcia, a Márcia não só não consegue ficar parada

[00:07:11] no lugar, ela pula, ela dança, ela se abraça nas pessoas da platéia.

[00:07:17] Pediram uma anti-Márcia para fazer a palestra.

[00:07:18] Uma anti-Márcia.

[00:07:20] Eu tinha sugerido que, porque se estou na palestra eu uso uma pessoa.

[00:07:24] Eu queria usar uma pessoa para ilustrar as ligações de Drogênio, eu até mandei um

[00:07:27] vídeo e eu queria usar o apresentador, que não teria dado, porque ele é pessoalmente

[00:07:32] um pouquinho tímido, e negaram.

[00:07:35] O apresentador é uma pessoa super conhecida no meio de divulgação científica, ele é

[00:07:39] o Brian Cox, que é um físico de partículas em inglês, era vocalista de uma banda, ele

[00:07:44] já participou, já realizou vários documentários pela BBC, é realmente uma pessoa muito conhecida,

[00:07:49] mas a Márcia dizendo que ele é muito tímido.

[00:07:50] Eu era um dos pessoalmente mais tímidos, e a ilustração que eu queria fazer era justamente

[00:07:56] de casar e flertar, para comparar a ligação covalente com a ligação de hidrogênio,

[00:08:02] e eles a evitaram.

[00:08:04] Tu pode atualizar como ficar agora, né?

[00:08:06] É, ficar.

[00:08:07] E também eles estavam um pouquinho constrangidos, porque era o CERN, vamos dizer assim.

[00:08:11] Não podia dizer palavrão, não podia sair de grau.

[00:08:13] Não, de jeito nenhum.

[00:08:14] Então já praticamente me viabiliza noventa por cento o que eu faço.

[00:08:19] Olha, parece besteira, mas é um vínculo importante.

[00:08:22] Conseguir executar ele, depois tu volta pro teu mundo, e aquilo fica e tem vida própria.

[00:08:26] O vídeo reproduzido massivamente, legendário em várias línguas, dá uma projeção.

[00:08:31] O mais divertido é assistir às palestras e conversar com essas pessoas ao vivo, porque

[00:08:35] tinha uma mulher que é uma cientista americana, mas que se desafiou a coordenar um processo

[00:08:43] de agricultura e obtenção de água na Arábia Saudita.

[00:08:48] Entende?

[00:08:49] Uma mulher ser liderança na Arábia Saudita.

[00:08:51] Só que ela passou pra implementar isso, e uma pessoa acostumada, onde tudo funciona,

[00:08:56] e enfrentar o que a gente enfrenta aqui no Brasil no dia a dia, que é tentar implementar

[00:09:00] alguma coisa e ter que passar por todas as restrições burocráticas, ela se enriqueceu

[00:09:04] também.

[00:09:05] Depois assim, tinha um menino assim, menino, vinte, menos de trinta anos, que ele desenvolveu

[00:09:12] um método usando celulares recicláveis, que ele coloca nas árvores, e quando dá

[00:09:18] o som de uma motosserra, manda uma mensagem pro guarda.

[00:09:23] Então ele tá espalhando isso por toda a Amazônia, nos parques que são reservados

[00:09:27] que não pode ter motosserra, onde tem dois guardas pra quilômetros e quilômetros de

[00:09:31] floresta.

[00:09:32] Ele tá usando materiais que as pessoas mandam o celular pra ele do mundo inteiro, mas ele

[00:09:36] conseguiu montar o equipamento que realmente ele responde, e ele filmou a primeira vez

[00:09:41] que receberam o primeiro sinal, ele com o guarda chegando pra conversar com os caras

[00:09:46] eram hilários, os caras todos sentados na hora do almoço, serrando dentro de uma reserva

[00:09:51] florestal na nossa Amazônia.

[00:09:54] Então pessoas muito interessantes, e um susto, porque eu fui a segunda a falar, o primeiro

[00:10:00] trancou no meio da palestra dele.

[00:10:02] Isso nós não ficamos sabendo porque é editado.

[00:10:04] Eles é editado, e eles treinam a gente, se esquecer, tu para, dá um tempo e retorna,

[00:10:09] mas ele retornou bem, deu pra notar sempre, ele continuou do ponto que ele tinha esquecido,

[00:10:15] e ele deu pra notar que isso deixou ele um pouquinho nervoso, e eu era que falava logo

[00:10:19] depois dele, aí eu fiquei mais nervosa, e principalmente porque eu sabia que não ia

[00:10:24] dizer exatamente palavra por palavra, porque a maior parte das pessoas treinava palavra

[00:10:29] por palavra.

[00:10:30] Pois é, isso é uma coisa interessante, na verdade, as pessoas aqui agora, nós temos

[00:10:34] um sistema de palestras aqui no Grande Sul, que tá guardado pelo Brasil, que é o Fronteiras

[00:10:37] do Criançamento, e eles tão trazendo grandes palestrantes internacionais, e a gente tá

[00:10:41] tendo esse contato com esse pessoal, e a gente tá tendo esse contato com as pessoas estrangeiras

[00:10:45] e tal, e é muito notável os palestrantes americanos, principalmente, como eles têm

[00:10:50] essa cultura do coaching, do treinamento, todos eles fazem cursos, e todos são muito

[00:10:55] parecidos até falando, porque homogeniza, de certo modo, até perde um pouco a individualidade,

[00:10:59] mas assim, alguns são notáveis, os dois que a gente inclusive entrevistou, um já

[00:11:03] foi ao Arno, como podcast bônus nosso, que foi o Michael Shermer, que é um desenganador

[00:11:07] importante, um cético, explicou que ele fez esse curso, como foi, etc, e tal, e o outro

[00:11:13] é o Brian Greene, que é o cosmólogo e físico, que nós temos um material que vamos disponibilizar

[00:11:18] em algum momento, que negou ter o feito, mas quando eu apertei ele disse sim, e fiz com

[00:11:22] uns colegas ali e tal, e ele é um excelente comunicador, ou seja, tu notas, as pessoas

[00:11:26] têm uma coisa, a galera dá uma palestra onde não gagueja, as frases estão todas no mesmo

[00:11:31] lugar, a encenação parece toda estudada, e se tu assiste o vídeo de uma outra versão

[00:11:35] da mesma, é quase idêntico, então, claro, não é o caso, é uma dificuldade, mas é

[00:11:39] uma coisa eficiente, tem uma certa lógica, e aí nós no Brasil temos essa dificuldade,

[00:11:45] nós temos uma, primeiro, história também, nós somos um povo que não tem uma cultura

[00:11:48] de estimular a juventude na escola, por exemplo, a falar em público, ao contrário da Argentina

[00:11:52] do Uruguai, onde eles são treinados pra falar em público desde muito jovem, que tá sendo

[00:11:56] confundido muitas vezes, muitas vezes é mesmo, muitas vezes não, com uma desinibição

[00:12:00] excessiva e eventualmente até uma arrogância, mas é uma postura que tu coloca, que tu

[00:12:04] veste um personagem e vai lá e tu não é tu, tu é o personagem, e a gente não tem

[00:12:08] isso aqui, então nós somos falantes amadores de uma forma geral, essa diferença é importante

[00:12:14] porque as pessoas que vêm pro fronteiro do pensamento, muitas das pessoas que falam

[00:12:18] no TED, são oradores profissionais, eles vivem disso, tem pessoas que vivem, uma parte da

[00:12:25] sua renda é de palestras e onde realmente ganha muito dinheiro, e a outra coisa é que

[00:12:31] são palestras que foram dadas muitas vezes.

[00:12:33] Assim, o que eu aprendi, eu acho que isso foi interessante, é que ele dizia, tem que

[00:12:37] entrar e dizer algo de impacto, e tu tens que no final dizer algo de impacto, o que

[00:12:43] ele me ajudou foi frear, eu sou muito garalhada, ele dá uma relaxada e isso eu acho que foi

[00:12:50] eficiente, mas a entrada eu troquei, entende, isso foi a surpresa, eu disse pra ele, vai

[00:12:55] ter várias coisas que não vão ser exatamente como a gente combinou.

[00:12:59] A gente também gosta do improviso, e isso é uma coisa que chamou a atenção, tanto

[00:13:02] no Green quanto no Sherman, eles não improvisam nada, nada, não vê, então pode ser porque

[00:13:07] é mais cômodo também, mas a gente gosta do improviso, improviso é a criação, é

[00:13:10] um estímulo normal, você tem mais tesão de fazer isso e tu vai poder fazer isso.

[00:13:15] E a essência do nosso programa, é 100% isso, aqui no caso nosso programa é um anti-teddy.

[00:13:22] Eu acho assim, usar a plateia também é um negócio que eu senti falta, eu não podia

[00:13:26] usar a plateia, agora eu vou contar a coisa que não apareceu e que pra mim foi a coisa

[00:13:30] mais divertida.

[00:13:31] Ao final das apresentações tinha um grupo, um cara que fazia sintetização de som, ele

[00:13:39] juntou a música.

[00:13:40] Isso é uma descrição interessante, porque é bem usado.

[00:13:44] Ele juntou partes do Ted, e juntou com música, e fez uma música meio batistaca, e a plateia

[00:13:52] toda estava assim meio que se mexendo, sabe assim se mexendo, mas todo mundo estava pensando,

[00:13:57] todo no CERN, ali do lado está toda direção da rolex, parece que as suas frases viraram

[00:14:02] o refrão.

[00:14:03] Eu pulei pra frente, comecei a dançar, vocês imaginam mil pessoas, de repente foi assim

[00:14:08] a transição de primeira ordem, todos pularam, fui pro Emmer, ai eu puxei o treinador, que

[00:14:15] não queria ir, porque é um cara que ganha vida trabalhando pra empresária, o primeiro

[00:14:19] olhar que ele deu foi pra massa crítica da rolex, que nos olhava com uma cara meio,

[00:14:23] mas até uns da rolex se levantaram, começou a bater, e o chão era de madeira, e todos

[00:14:28] subiram pro palco, o palco começou, sabe, quando a madeira começa a balançar, a organizadora

[00:14:34] ficou assim super feliz, mas nervosa, porque no dia seguinte a mesma estrutura ia ser

[00:14:45] usada pro aniversário do CERN, ela não estrague a estrutura, porque eu vou ter que responder

[00:14:49] pro diretor presidente, que também ela ia ter que responder, como é que aconteceu esse

[00:14:53] fenômeno, e foi uma coisa que as pessoas todas, que eram muito diferentes, se divertiram

[00:14:58] muito com essa música estranha, e foi o final do evento, que tinha um pouco isso de trocar

[00:15:04] ideias, desse bate-papo que a gente tá fazendo aqui, mas um bate-papo com um pouquinho de

[00:15:08] maquiagem, de fazer cabelo, dessas coisas, todo mundo passou por maquiagem, todo mundo

[00:15:12] passou por um cabeleireiro pseudo-melhoradinha, né?

[00:15:15] Agora vocês entendem porque o nosso programa é áudio.

[00:15:17] Eu sonho, eu sonho o dia que esse programa vai ser de TV.

[00:15:23] Muita gente sonha, mas a gente tem certeza que não.

[00:15:25] A gente vai achar algumas pessoas e que a gente vai dublar.

[00:15:28] Eu prefiro um desenho animado, personagens tipo South Park, interessante essa experiência,

[00:15:32] mas na verdade, se tu dissesse, é uma palavra que resume tudo, que é uma catriz que a gente

[00:15:36] tem, os latino-americanos, e não é um estereótipo, é verdade, é responsabilidade.

[00:15:40] A cultura do TED é uma cultura muito profissional, mas é um profissionalismo que exclui a responsabilidade

[00:15:45] pra colocar o controle total, porque funciona, porque é eficiente.

[00:15:49] Aí quando o diretor, que era o chefe da Cláudia, Cláudia Morta, eu disponho a culpa em mim,

[00:15:54] se der qualquer problema, ele se virou pra ela e disse, o ano que vem nós vamos ter

[00:15:57] só brasileiro falando aqui.

[00:15:59] E tu participou fisicamente só nos dias do evento, ou tu chegou a fazer uma visita

[00:16:06] pra treinar lá?

[00:16:08] Teve um dia antes, a gente chega um dia antes pra fazer o treinamento final, e aí aconteceu

[00:16:13] uma coisa divertida.

[00:16:14] É eu passar o som.

[00:16:15] É assim, todo mundo treina e aí ele traz toda uma equipe, porque é só pra ele ir

[00:16:20] num lugar, com o som, com a roupa, com tudo.

[00:16:23] E aí tu assiste os outros.

[00:16:24] Aí eu assisto os outros, só que o Brian chegou depois da minha palestra.

[00:16:28] Então ele não cheirou.

[00:16:29] Dos outros ele sabia exatamente o que as pessoas iam falar e qual era o estilo.

[00:16:33] E isso obviamente também não pega na filmagem, mas depois da minha palestra teve muito aplauso.

[00:16:39] E ele se surpreendeu, porque o anterior tinha sido muito ruim, eu acho que o pessoal tava

[00:16:43] com uma expectativa negativa, e ele passou por mim, olhou e disse, não é que gostaram?

[00:16:50] Isso me lembrou muito quando eu comecei a sair do Brasil e trabalhar em pesquisa, a

[00:16:55] primeira vez que eu dividi sala com o inglês de Oxford.

[00:16:57] E ele me deu um artigo dele, e eu peguei o artigo ali e disse, olha, tem um erro aqui.

[00:17:02] E ele disse assim, não é que tu consegue achar eu em coisas que eu faço.

[00:17:05] Que é aquela postura de que as pessoas não têm uma grande expectativa, coisas de latinos.

[00:17:11] Preju.

[00:17:12] É, preju.

[00:17:13] E assim…

[00:17:14] Caso ainda tenha, se soma o preconceito de ser mulher também, não só latino.

[00:17:17] Isso.

[00:17:18] E eu estou tentando cuidar, no TED é que tem um equilíbrio entre mulheres, mas tem mais

[00:17:21] obras de ser mulheres.

[00:17:22] É.

[00:17:23] Eles admitem com um pouco de vergonha.

[00:17:24] E tem uma dificuldade adicional…

[00:17:25] É difícil pra quem conseguir, não é difícil?

[00:17:26] Não.

[00:17:27] E tem a dificuldade adicional da língua.

[00:17:30] É muito fácil pra um americano em inglês falar em 10, 15 minutos, porque eles dominam

[00:17:35] o idioma.

[00:17:36] Tu teve que falar em inglês.

[00:17:37] Em inglês.

[00:17:38] É interessante as iniciativas locais, o TEDx é isso, né, num outro país, não tem

[00:17:42] na Argentina, né?

[00:17:43] É, usar a língua…

[00:17:44] Usar a língua local, e aí você fica à vontade, só que tem que respeitar as mesmas

[00:17:47] regras, que na verdade são muitas, é um desidrato lá de 30 critérios.

[00:17:52] Pra tu cumprir aquilo tudo, realmente é um esforço enorme, então acho legal que tá

[00:17:55] tendo o pessoal dedicado a isso, porque não tem como comportar.

[00:17:58] E vou dizer assim, agora uma coisa que me impressionou bastante é a repercussão.

[00:18:01] Tem uma universidade do Canadá que me convidou pra aula inaugural, e lá não tem ninguém

[00:18:05] que trabalha na minha área.

[00:18:06] Depois tem uma empresa querendo fazer uma competição do projeto que eu discuti durante…

[00:18:11] Vai acabar tendo convidado pela empresa que vende as garrafas que produzem água…

[00:18:14] Água.

[00:18:15] Fazer propaganda.

[00:18:16] É, do Emoto.

[00:18:17] É.

[00:18:18] Em resumo, assim, porque as pessoas estão curiosas pra saber sobre o que tu falou,

[00:18:22] porque afinal é tanto sucesso.

[00:18:23] O assunto, assim, chave é o fato de que nós temos problemas de água limpa no mundo.

[00:18:29] Nós já temos problemas de água limpa no mundo hoje em dia, hoje em dia.

[00:18:33] Uma em cada seis pessoas no mundo sofre de o que se chama de falta, não é bem falta

[00:18:38] d’água, mas ter estresse em água quer dizer que tu não tem água pra viver.

[00:18:43] Não é a falta de água de São Paulo, é a falta de água mesmo.

[00:18:46] Não, mas lá tá chegando perto.

[00:18:47] E lá tá chegando perto.

[00:18:48] E que no ano de 2050 isso vão ser uma em cada duas pessoas se continuarmos com o crescimento

[00:18:54] industrial, se a gente continuar sujando a água como a gente vem sujando.

[00:18:58] Uma alternativa…

[00:18:59] Quer dizer, aí eu expliquei um pouco qual é o grande problema da água e o grande problema

[00:19:02] da água é que a água suja fácil porque ela faz ligações de hidrogênio, ela ama

[00:19:06] estar envolvendo outras coisas e a indústria usa isso porque é o que a gente tem de mais

[00:19:12] abundante como solvente e então tudo que é lixo tu joga na água porque a água vai

[00:19:16] envolver esse lixo.

[00:19:17] E as pessoas às vezes não entendem isso, também tem o debate do horário de verão

[00:19:21] e o consumo de energia elétrica, tanto da energia elétrica quanto a água quem mais

[00:19:25] consome não são os usuários individuais, são as indústrias, é uma diferença de várias

[00:19:29] horas de grandeza, então é um troço complicado, mas esse debate não é feito.

[00:19:34] Eu não toquei nesse assunto diretamente no TED, mas foi uma coisa que eu acho que é

[00:19:38] uma provável, eu não acho que a gente tenha que frear a tecnologia pra poder…

[00:19:41] Mas pode mudar ela.

[00:19:42] Mas pode mudar a tecnologia e pode desenvolver novas tecnologias e a tecnologia em particular

[00:19:47] que eu discuti porque é uma coisa que a gente trabalha na parte de pesquisa básica são

[00:19:52] os nanotubos de carbono, a água em nanotubo de carbono flui, ela passa com uma rapidez

[00:19:57] que é 900 vezes maior do que se ela fosse a água da torneira, se ela obedecesse as

[00:20:02] mesmas regras físicas da água da torneira, a física é diferente, não está completamente

[00:20:07] conhecida mas é um fato, ela flui mais rápido e sal não gosta de tubos, então uma das

[00:20:13] propostas de separação.

[00:20:16] Não é tão simples como eu vendi, pra começar porque nanotubo de carbono não encontra na

[00:20:21] quitanda da esquina, ele ainda tem um desenvolvimento tecnológico que se espera, existem outros

[00:20:29] problemas no fazer esse filtro que eu também não discuti, e tem o fato de que tu consegue

[00:20:35] separar sal de água esse mecanismo, mas as moléculas biológicas tem que fazer alguma

[00:20:38] coisa, elas vão entupir a entrada do filtro porque elas aglomeram, então tem que pensar

[00:20:43] ou carregar elas, fazer alguma coisa que evite elas chegarem perto do filtro, mas é uma

[00:20:46] proposta, tanto que tem um grupo de empresários da Suíça que querem abrir uma competição

[00:20:54] pra protótipos que tentem ir nessa direção.

[00:20:57] E o segundo projeto é parecido com umas garrafinhas que já existem mais ou menos no mercado

[00:21:02] que é captura de água a partir do vapor de água na atmosfera, então em manhãs muito

[00:21:09] úmidas, o que não se aplica a todo o planeta, mas algumas regiões, inclusive alguns desertos

[00:21:14] pela manhã, e muito em Porto Alegre, tu pode usar uma superfície hidrofóbica transformar

[00:21:21] vapor da água em água.

[00:21:23] Na verdade essa coleta de água do sereno, da umidade ambiental lá é uma coisa milenar,

[00:21:28] vários povos, especialmente nomades de desertos e outros, faziam a coleta da umidade à noite

[00:21:33] esticando um couro liso, agora plástico, que é mais fácil, e é assim que eles coletavam

[00:21:38] Mas essas precisam ser um pouco mais eficientes, então precisa de alguma bateria, uma célula

[00:21:42] solar.

[00:21:43] A diferença agora é a escala, qual é a eficiência do processo.

[00:21:46] E escala, escala.

[00:21:47] Então o desafio que a gente está trabalhando agora é em utilizar as duas coisas, a gente

[00:21:53] está construindo nanotubos hidrofílicos que vão fazer isso, então vou usar o fluxo rápido

[00:21:59] pra economia de energia, porque tu notas que mesmo coletar e armazenar tem uma questão

[00:22:04] energética.

[00:22:05] Se eu conseguir o fluxo mais rápido, eu faço uma economia de energia.

[00:22:08] Então a gente está começando com simulações nessa área e sugerir inclusive pra essa empresa

[00:22:12] ampliar o projeto pra também usar essa questão da hidrofobicidade nesse desafio.

[00:22:18] Mas acima de tudo eu acho que a questão importante é a gente se preocupar com o assunto, se

[00:22:22] preocupar com o fato de ter falta de água, eu diria o Brasil, é o país que menos tem

[00:22:27] que se preocupar porque a gente é campeão em ter água, a gente tem ainda, além da

[00:22:33] A gente tem água subterrânea do aquifer Guarani, que claro, tem um custo de puxar essa água,

[00:22:39] é ridículo.

[00:22:40] São Paulo está com falta de água e o aquifer passa bem embaixo de São Paulo, mas tudo

[00:22:44] bem.

[00:22:45] É inacessível.

[00:22:46] É inacessível até a gente ter tecnologia pra ser acessível, então as pessoas procurarem

[00:22:49] essas tecnologias é a questão que eu acho que é desafiadora, principalmente porque

[00:22:53] as pessoas não dão bola pra ela, tem tanta, então…

[00:22:56] Tem uma coisa que tem que chamar a atenção, que o teu trabalho é 100% teórico e esse

[00:23:02] mecanismo, por exemplo, de fusão acelerada dentro dos nanotubos, é um conceito decorrente

[00:23:09] do estudo de modelos desses termos, ou seja, de pesquisa básica, então eu acho que é

[00:23:14] um bom exemplo que mostra que a gente precisa, sim, incentivar e financiar pesquisas, não

[00:23:20] que tenham aplicações imediatas, mas mesmo aquela pessoa que está fazendo um modelinho

[00:23:24] simplificado, abstrato, de água, porque a gente não sabe onde vai levar.

[00:23:28] Exato, é essa coisa da ciência base, da ciência aplicada, pessoas do público, principalmente

[00:23:33] os legisladores, quando discutem financiamento, agora eles estão um pouco superados porque

[00:23:37] no momento, por exemplo, no Brasil, nós estamos com até bastante bons recursos na área de

[00:23:42] ciência e tecnologia comparado com o que já foi, mas não quer dizer que não possa

[00:23:45] voltar nessa situação, mas o fato é que não há uma compreensão sobre isso, a ideia

[00:23:50] predominante é que tem que ser uma coisa com aplicação prática, tem que ter evidente

[00:23:55] aplicação prática, e na verdade na comunidade científica tem muita gente trabalhando com

[00:23:58] pesquisa básica, que é uma espécie de base de uma pirâmide trófica, que alimenta as

[00:24:02] ideias que então vão poder ser aplicadas, muitos deles não vão ter aplicação, mas

[00:24:06] se não tiver 10 pessoas gerando 10 ideias, eventualmente quase todos não úteis no momento,

[00:24:13] não vai aparecer, que é uma coisa de acaso, não tem como prever, aquele um ou dois casos

[00:24:17] que eventualmente vai poder ter aplicação, algumas até esbarram nela rapidamente e aí

[00:24:21] uma descoberta pode se transformar em um produto em poucos anos, outros podem levar décadas.

[00:24:25] Eu acho que a gente, a escala, assim, no Brasil no momento a gente tem um problema ainda muito

[00:24:30] sério de número de pessoas formadas, por exemplo, pegar uma outra área bem diferente

[00:24:34] da minha, que é a microeletrônica, microeletrônica a gente tem 500 doutores formados em microeletrônica,

[00:24:41] a Texas em um dos laboratórios tem esse número, então como é que eu vou, entende, fico acusando

[00:24:47] como é que vocês não estão produzindo ainda lá da escala chip, como é que eu vou

[00:24:50] produzir lá da escala chip se eu não tenho pessoas, então ainda tem um trabalho enorme

[00:24:54] pela frente, que nós temos que produzir, gente, mão de obra.

[00:24:58] E também tem uma política industrial voltada a isso, porque isso tem que ser outro problema,

[00:25:02] até para a alta tecnologia, nós temos uma dificuldade enorme de ter os recursos para

[00:25:06] isso, mas isso é um detalhe que é política industrial, é o caso da Seitec, que é uma

[00:25:12] ideia interessante fazer uma engenharia reversa para poder desenvolver tecnologia eletrônica

[00:25:15] que já é obsoleta lá fora, mas que para nós ainda não aprendemos, para então dominar,

[00:25:19] para então, eu tomo os passos seguintes, mas assim, o investimento que é grande não

[00:25:23] é suficiente, para tu ter uma indústria nacional, torno e tal, isso leva muito tempo,

[00:25:28] você precisa ganhar mais recursos.

[00:25:29] E mais gente também, porque eles precisam contratar, se a gente tivesse aqui uma segunda

[00:25:37] empresa como essa, nós não teríamos quem trabalhasse lá, porque todo o pessoal que

[00:25:43] forma essa área vai imediatamente trabalhar lá.

[00:25:46] Então temos que ter, sim, uma política de formação de recursos humanos, mas junto,

[00:25:51] eu acho que tem que vir uma formação de, não é nem personalidade, as pessoas têm

[00:25:56] que estar com mais sangue no olho.

[00:25:59] O que eu observo é que nós estamos num momento de um pouquinho de acomodação também,

[00:26:03] talvez porque a política econômica não aponte com a possibilidade de a gente fazer

[00:26:08] um desenvolvimento real no Brasil, mas eu acho que precisamos ter, os nossos formandos

[00:26:14] tinham que estar com mais vontade, vontade para aproveitar as oportunidades, porque a

[00:26:18] gente tem uma incubadora de empresas aqui, que tem dificuldades enormes em captar pessoas

[00:26:22] que estejam interessadas em abrir uma empresa.

[00:26:23] Quanto isso é devido a ser difícil abrir uma empresa, ou quanto é o fato de a gente

[00:26:27] estar formando pessoal técnico que quer ser piloto de escrivaninha, quer ser administrador?

[00:26:32] Eu acho que uma dificuldade é que as pessoas, naquele momento da vida, onde elas decidem

[00:26:39] em que direção eu vou investir nos próximos anos de estudo, quando elas vão para a universidade,

[00:26:43] elas não têm conhecimento de quais são as reais possibilidades.

[00:26:46] Quem é que sabe que pode fazer um curso de física ou de informática, e eventualmente

[00:26:52] depois um doutorado em microeletrônica, quem é que sabe isso enquanto é no segundo grau?

[00:26:57] Essa informação não percola até esses estudantes.

[00:27:01] A gente tem um problema não só na qualidade baixa do ensino médio e básico, mas também

[00:27:07] na divulgação científica, que é uma carência enorme, nós temos, e também numa cultura.

[00:27:11] Na verdade já existem iniciativos, há um tempo dessa história da cultura da inovação

[00:27:15] e do empreendedorismo, mas eu vejo isso com uma política bastante contraditória, porque

[00:27:21] se estimula o empreendedorismo mas não tem onde empreender ou como, então não adianta

[00:27:24] muito.

[00:27:25] Enfim, a gente acaba criando empresas sob ideias ótimas que acabam sendo fagositadas

[00:27:30] literalmente por grandes empresas estrangeiras, e o pessoal se contenta em ser funcionário

[00:27:35] pagador porque é mais cômodo tomar a iniciativa.

[00:27:37] Então aqui o problema é mais complexo, ele passa por uma política industrial nacionalista,

[00:27:41] minimamente nacional, não digo nacionalista, mas minimamente nacional, que nós não temos

[00:27:46] ainda.

[00:27:47] Nós temos parte da receita, mas não temos tudo, é como querer fazer um bolo com os

[00:27:50] ingredientes mas sem a forma.

[00:27:52] Voltando para o TEDx, esse rapaz que montou esses celulares, nota que ele era um funcionário

[00:28:00] de uma empresas de informática, e aí montou sua empresa, teve uma boa ideia, conseguiu

[00:28:06] facilmente montar uma empresa, provavelmente porque tinha financiamento adequado, ou seja,

[00:28:11] é um casamento de uma pessoa, eu comecei a pensar porque ele é um velho mais velho,

[00:28:15] é um pouquinho mais velho que o meu sobrinho, mas eu imaginava que o meu sobrinho teria

[00:28:18] coragem de largar uma coisa para começar a sua empresa, a segurança de fazer isso,

[00:28:25] eu não sinto isso porque eu não vejo as facilidades para se montar uma empresa.

[00:28:30] Agora pelo menos a gente tem outras possibilidades que não são só o financiamento oficial,

[00:28:35] que é o crowdfunding, então se alguém tem uma boa ideia, ainda existe uma possibilidade

[00:28:40] de conseguir que pessoas interessadas…

[00:28:41] É bem complicado, alguns conseguem, não depende da escala do investimento, mas nesse

[00:28:46] exemplo das dificuldades do empreendedorismo até, nós ganhamos dois programas recentemente

[00:28:50] com uma iniciativa em termos brasileiro trabalhando, que é o Aenetra, que é um aplicativo para

[00:28:55] celular que faz exames visuais, que é uma ideia que começou na verdade aqui na URX,

[00:29:00] na coladora, e que acabou migrando, mas enfim, exatamente por demonstrante essa dificuldade,

[00:29:06] essa dificuldade cultural e política que nós temos, mas enfim, é um outro debate,

[00:29:11] Eu acho legal exatamente, voltando para o TED, que é o mais chave aqui, que das ferramentas

[00:29:16] de divulgação científica que estão aparecendo, essa é uma grata surpresa o sucesso que

[00:29:24] ela está tendo, porque o TEDx não tem, bom, já tem em torno de 10 anos ou mais, 15 anos

[00:29:28] talvez, mas assim, está sendo conhecido massivamente agora, como são programas curtos e eficientes,

[00:29:34] empacotadinhos, redondinhos, eles se prestam para se encaixar também na cultura midiática

[00:29:38] que é baseado na brevidade e na superficialidade das coisas, ou seja, uma matéria de jornal

[00:29:42] pode linkar para uma matéria, um vídeo de 15 minutos, porque não é um exagero, não

[00:29:46] é uma palestra de duas horas, ou um filme, ou uma série, ou um livro, enfim, ela se

[00:29:52] adequa bem a essa realidade, que é na verdade um tanto superficial que nós temos hoje,

[00:29:58] então ela acaba dribulando bem, e isso é muito interessante, tu vê, algumas são

[00:30:02] tão eficientes nessa sua compacticidade que parece que tu viu uma palestra de uma hora

[00:30:06] e na verdade foram 15 minutos perfeitamente montados por um relojoeiro, e eu acho que é

[00:30:11] legal, mas assim, é o formato, eu acho que o nosso livro também tem um formato um pouco

[00:30:14] mais livre que esse aí, mas isso é outro debate, mas vamos primeiro aprender o, vamos

[00:30:18] fazer engenharia reverso.

[00:30:19] É isso.

[00:30:20] Ele vai se chamar Det.

[00:30:21] Esse foi o Fronteiras da Ciência, hoje a gente falou com a Márcia Barbosa, que é

[00:30:25] professora e diretora do Instituto de Física, sobre a experiência que ela teve no TEDx organizado

[00:30:29] no CERN esse ano, também estiveram aqui o Jorge Kielfer, do Departamento de Física

[00:30:34] e eu, Jeffrey Soenzon, do Departamento de Física, também da URGES.

[00:30:37] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES, direção

[00:30:42] técnica de Francisco Guazelli.