T05E41 Memória e estresse


Resumo

O episódio explora a natureza da memória, começando por uma definição básica: a capacidade de guardar uma representação interna formada pela aquisição de informação nova. Os participantes discutem como a memória não é um processo fixo ou instantâneo, mas dinâmico e plástico, sujeito a reconstruções a cada evocação, moduladas pelo estado emocional e contexto. A analogia com a memória de computador é criticada, pois a memória biológica é associativa e adaptativa, ao contrário do armazenamento rígido e indexado por endereço dos sistemas digitais.

A conversa avança para o valor evolutivo da memória, destacando seu papel na predição e na vantagem adaptativa, especialmente para memórias emocionais que permitem prever ameaças. O estresse é abordado em seus diferentes níveis: um estresse moderado pode potencializar a formação de memórias (como o medo antes de uma prova), mas eventos traumáticos intensos podem levar ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (PTSD). São discutidos os impactos devastadores do PTSD, incluindo depressão e suicídio, e como ele é mais provável quando a violência é perpetrada por outros seres humanos, em comparação com desastres naturais.

A neurobiologia do medo e do trauma é examinada, com foco no papel da amígdala e nas vias rápidas de processamento de ameaças que podem ocorrer abaixo do nível consciente. A discussão também cobre distúrbios comuns de memória no dia a dia, como esquecimentos por distração, contrastando-os com doenças degenerativas como o Alzheimer. São mencionadas estratégias para melhorar a memória, como a criação de rituais e hábitos, e a importância do engajamento social e mental, descartando a existência de medicamentos ‘milagrosos’ para a memória, enfatizando que o uso e o treinamento são as melhores ferramentas.


Indicações

Books

  • Sete Pecados da Memória — Livro de Daniel Schachter, mencionado como uma referência sobre os fenômenos normais do esquecimento e distorção da memória.

People

  • Joseph Ledoux — Cientista importante na área do medo, conhecido por seu trabalho sobre as vias rápidas (tálamo-amígdala) e lentas (corticais) de processamento de ameaças.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao tema memória e estresse pós-traumático — Apresentação do programa e do convidado, professor Vitor Molina, especialista em memória e estresse. É estabelecido que a memória é a base da identidade humana e que o estresse pode perturbar sua formação e evocação. São mencionadas doenças sérias como o Alzheimer, mas destaca-se que muitos problemas cotidianos são causados por estresse.
  • 00:01:52A natureza dinâmica e plástica da memória — Discussão sobre como a memória não é fixa, mas uma função dinâmica e plástica. Contrasta-se com a visão antiga de que memórias traumáticas eram indeléveis. Explora-se a ideia de que o que acessamos são reconstruções, não registros fiéis, o que leva a falsas memórias e interpretações variadas de um mesmo evento, como ilustrado por uma história familiar.
  • 00:04:51Crítica à analogia da memória com computadores — A metáfora da memória do computador é criticada como inadequada para a neurociência. Enquanto a memória digital é rígida e indexada por endereço, a memória biológica é adaptativa, associativa e sujeita a mudanças. Cada evocação é uma reconstrução modulada pelo estado emocional, o que explica por que não há duas reconstruções iguais.
  • 00:08:02O valor evolutivo e adaptativo da memória — A memória é discutida como uma vantagem evolutiva porque permite prever o futuro, especialmente ameaças. Sua natureza plástica e dinâmica é vista como adaptativa, permitindo incorporar novas informações. São dados exemplos de condicionamento, como associar um lago a um ataque de predador.
  • 00:09:42Estresse moderado vs. traumático e o PTSD — É explicado que o estresse moderado pode potencializar a memória (como para estudar), mas eventos traumáticos extremos podem levar ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (PTSD). O PTSD é caracterizado por memórias patológicas, intensas e involuntárias que roubam a atenção, podendo levar à depressão e suicídio. É mais provável quando a violência é causada por outros humanos.
  • 00:12:50A neurobiologia do medo e o papel da amígdala — Discussão sobre as estruturas cerebrais envolvidas no medo, focando na amígdala. São descritas as vias rápidas (tálamo-amígdala) que permitem reações inconscientes a ameaças, e vias mais lentas (corticais) para identificação. A amígdala é parte de um sistema primitivo, com o córtex atuando para modular e controlar essas respostas.
  • 00:19:51Esquecimento cotidiano vs. doenças degenerativas — Distinção entre problemas comuns de memória no dia a dia (como esquecer chaves devido à distração) e doenças graves como Alzheimer. É explicado que o esquecimento é uma função normal (transitoriedade) e que a maior parte das queixas é causada por estresse e distração. Estratégias como criar hábitos (ex: sempre colocar as chaves no mesmo lugar) são sugeridas.
  • 00:22:32Estratégias para fortalecer a memória: rituais e hábitos — São discutidos exemplos de como rituais e sequências (como os de tenistas antes do saque) atuam como ‘reminders’ ou pistas que fortalecem a evocação de memórias motoras complexas. A conversa explora a linha tênue entre correlação e causalidade nesses rituais e como a repetição de pias do contexto original de aprendizagem fortalece o traço de memória.
  • 00:27:20Medicamentos para memória e a importância do uso — É afirmado que não existem medicamentos para melhorar a memória de forma significativa, e que soluções reductionistas são inadequadas para um sistema tão complexo. A melhor forma de manter a memória é usá-la, treiná-la e se engajar socialmente. O isolamento social é apontado como um fator prejudicial, enquanto a atividade mental e a curiosidade são benéficas.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2014-12-16T09:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:13] O programa de hoje vai ser sobre memória e estresse pós-traumático.

[00:00:17] O convidado é o professor Vitor Molina, que é do departamento de farmacologia da Universidade

[00:00:22] Nacional de Córdoba, na Argentina.

[00:00:24] O pessoal aqui do programa é o Jefferson Orenzon e eu, Marco de Arte do Departamento

[00:00:27] de Física da URIGS, e o Jorge Aquil, fiel do Departamento de Biofísica da URIGS.

[00:00:31] Bom, então vamos receber Vitor, um amigo de longa data e colaborador científico, temos

[00:00:36] alguns papers publicados juntos, que eu trabalho também em memória.

[00:00:39] Vitor é uma das maiores autoridades em memória e estresse, na América Latina, e um dos poucos

[00:00:43] pesquisadores em memória com uma produção extensa na comunidade argentina.

[00:00:47] É interessante sempre poder falar sobre temas que são de interesse geral.

[00:00:52] Memória é a base da identidade de qualquer ser humano, nós somos o que somos pelas nossas

[00:00:57] memórias, o que nos diferencia também são as memórias.

[00:00:59] O acesso a elas também é um elemento importante para definir o nosso bem-estar e saúde, e

[00:01:04] também tem essa preocupação cada vez mais constante, nós somos uma sociedade mais hipocondríaca

[00:01:09] e preocupada com doenças e também muito dependente de medicamentos e tratamentos e

[00:01:14] terapias e tal.

[00:01:15] As pessoas têm medo de ter Alzheimer, de perder a memória, então na verdade a maior

[00:01:19] parte dos casos é simplesmente estresse.

[00:01:21] O estresse desrompe e perturba a memória de forma tal, tanto na formação quanto na

[00:01:26] invocação, vamos ver essas fases, de forma que pode produzir falso alarme.

[00:01:29] Existem doenças sérias de memória como a doença de Alzheimer, que é uma das demências

[00:01:33] mais notável e é comum em pessoas mais idosas, e como a população está envelhecendo ela

[00:01:38] começa a se manifestar e ser mais conhecida, mas ainda ela é incipiente.

[00:01:42] Então, para falar sobre isso, Victor, nós vamos falar aqui em híbrido, em Portuñol,

[00:01:47] porque o espanhol não é uma língua estrangeira, essa é uma das diretrizes que eu sempre defendo,

[00:01:51] que é a memória.

[00:01:52] Memória é a capacidade de se guardar, a representação interna que se forma pela

[00:01:59] aquisição de uma informação nova, essa seria a ideia básica de que é a memória.

[00:02:05] Algo físico fica registrado?

[00:02:07] Algo físico se traduz, por exemplo, um evento do exterior externo, traduzido biologicamente

[00:02:15] em uma representação que nós fazemos, e isso se guarda, esse seria o processo simples

[00:02:21] de dizer que é memória.

[00:02:22] Mas não é um processo instantâneo, tem etapas.

[00:02:26] Tem etapas, mas não é estático, uma vez que uma forma memória pode mudar.

[00:02:32] Essa é uma ideia nova da última década, que a memória é uma função dinâmica e

[00:02:39] plástica, não é uma função fixa, como se dizia há 20 anos.

[00:02:44] Sim, eu me lembro que sobre traumas se falava muito que não haveria jeito de acabar com

[00:02:49] uma memória traumática, que uma vez ela estivesse impressa, está perdida.

[00:02:54] Então o que tinha que fazer era desenhar estratégias para evitar acessar essa memória,

[00:02:59] mas o que você está dizendo é que isso talvez seja diferente hoje em dia.

[00:03:02] Não, eu acho que não se pode mudar o traço da memória, pode mudar a expressão emocional

[00:03:08] dessa memória, pode mudar.

[00:03:11] Então, há uma estratégia, um exemplo muito claro, de terapêutica.

[00:03:16] Você vê uma pessoa chorando em uma igreja, então a pessoa diz, ui, se morreu alguém.

[00:03:22] E diz, não, estratégicamente você tem que pensar que está chorando de alegria porque

[00:03:27] tuvo um neto, que está em bautismo de neto.

[00:03:29] Estratégia é para não formar uma imagem negativa, sempre.

[00:03:34] Isso está relacionado com o fato de a gente sempre fazer narrativas em cima das memórias

[00:03:41] que a gente…

[00:03:42] O que a gente tem acesso não é o registro fiel?

[00:03:45] Não, não, não.

[00:03:46] Do que aconteceu.

[00:03:47] A gente reconstrui e interpreta.

[00:03:52] Então, os eventos são interpretados de diferentes maneiras, porque cada um tem sua

[00:03:57] história.

[00:03:58] E o quanto a gente pode então confiar nas memórias?

[00:04:02] Complicado, porque isso passa com os testigos, testemunhos em juízes que vão cambiando o

[00:04:09] relato ao meio do tempo.

[00:04:10] Uma experiência interessante, a minha tia, irmã do meu pai, ela foi uma das…

[00:04:15] A gente falou no programa passado de Perseguidos Políticos, ela desapareceu durante 15 anos.

[00:04:20] Depois se reencontrou com o meu pai e as histórias que eles contavam sobre os mesmos

[00:04:24] eventos eram diferentes.

[00:04:25] Que eram?

[00:04:26] Ficaram 15 anos sem se falar e as histórias já eram diferentes.

[00:04:29] Mudaram de conteúdo.

[00:04:30] Isso é o tema das falsas memórias, né?

[00:04:33] Como a memória…

[00:04:34] Isso não é nem falsa, né?

[00:04:35] São memórias reais que foram sofrendo pequenas mudanças ao longo do tempo.

[00:04:39] Mas se acabaram ficando grandes as diferenças.

[00:04:41] Claro, depois.

[00:04:42] Mas aí tem uma coisa.

[00:04:43] Memória é uma palavra muito ampla que se aplica a várias outras coisas.

[00:04:46] E a principal praga desse debate é o fato que existe a memória do computador.

[00:04:51] E se costuma fazer uma analogia muito constantemente.

[00:04:54] Aliás, a metáfora do computador nas neurociências é o principal problema, meu ver, das neurociências,

[00:04:59] porque ela não serve.

[00:05:00] Então a memória do computador é uma memória armazenada também de forma física, de uma

[00:05:04] forma diferente, mas ao contrário da memória biológica, ela é armazenada de forma rígida

[00:05:08] e com muito cuidado para que isso reproduza idêntica.

[00:05:11] Até o check-sum e uma série de sistemas de algoritmos para garantir que cada detalhezinho

[00:05:16] dela seja igual, caso contrário.

[00:05:18] Até se diz que a memória do computador é uma memória indexada por endereço.

[00:05:22] Isso, muito preciso.

[00:05:23] Ou seja, endereço.

[00:05:24] Ela está naquele canto do disco rígido.

[00:05:27] Naquele canto da memória.

[00:05:29] Mas esse é outro problema.

[00:05:30] A questão mesmo é a rigidez da informação.

[00:05:32] A memória do computador, ela é extraída e ela tem a mesma natureza e extensão que

[00:05:38] tinha quando foi armazenada.

[00:05:39] Claro.

[00:05:40] Já memória biológica parece ser outro tipo de sistema mais parecido com uma compactação.

[00:05:44] Memória biológica tem que ter um sentido evolutivo.

[00:05:46] Tem que ser adaptativo.

[00:05:47] Tu escolhe, tu filtra, tu pega o que é adaptativo e tu aparentemente não armazena todos os

[00:05:52] detalhes.

[00:05:53] Isso ainda é um debate.

[00:05:54] A ideia basicamente é pegar um arquivo que tu escreveu, um arquivo texto no teu computador,

[00:05:59] e cada vez que tu abre esse arquivo, as palavras foram trocadas, são sinônimos, a frase foi

[00:06:05] invertida.

[00:06:06] Se fosse no computador seria inaceitável.

[00:06:08] Isso que as emoções fazem.

[00:06:09] Se tu está deprimido, tu vai puxar só as partes tristes do texto.

[00:06:13] Se tu é eufórico, vêm as partes bombásticas do texto.

[00:06:15] Mas essa questão da analogia do computador é interessante e da memória indexada por

[00:06:20] endereço.

[00:06:21] Porque existe todo um controle, quem já programou em si sabe, dos malloc, da alocação de memória,

[00:06:27] e isso garante que durante o processamento que o computador vai fazer, aquele pequeno

[00:06:32] pedaço da memória que está guardando aquela informação nunca vai ser acessado.

[00:06:36] E que é o contrário que acontece na memória real.

[00:06:38] Vai ser acessado, mas não…

[00:06:40] Nunca, uma nova memória que tu bote lá nunca vai se sobrepor naquele lugar que está aquela

[00:06:46] outra memória.

[00:06:47] Enquanto que na memória biológica não, cada nova memória muda as memórias antigas.

[00:06:51] É, ou seja, é um sistema diferente.

[00:06:53] Eu vou dizer assim, pra resumir, esse aí é a memória digital e o biológico é uma

[00:06:57] versão do analógico que é muito complexa.

[00:07:00] Que é associativa por excelência.

[00:07:02] O mais importante eu tenho não é tanto como armazena, mas o fato de que de fato quando

[00:07:06] se evocam as memórias biológicas, elas são sempre reconstruções.

[00:07:09] E a reconstrução, modulada pelo estado emocional, pelo contexto, pelo que aconteceu no meio

[00:07:14] do tempo, a gente fala que não tem duas reconstruções iguais.

[00:07:17] E aí, o que a gente chama de falsas memórias?

[00:07:19] Porque na reconstrução tu acrescenta a coisa e tira a coisa.

[00:07:21] Eu ouço dizer, por exemplo, que todos nós temos falsas memórias da nossa infância

[00:07:25] e especialmente da nossa adolescência.

[00:07:27] Que todo mundo reinterpreta as memórias traumáticas, constrangedoras, de quando tu

[00:07:31] tinha uma explosão de hormônio.

[00:07:33] Eu não tive mesmo a memória.

[00:07:35] Tu esquece todos os traumas, as ignoradas, as coisas que tu não conseguiu fazer, aquela

[00:07:40] cantada que tu não entendeu, tudo apaga.

[00:07:42] As coisas muito mais simples.

[00:07:44] Eu conto histórias como se tivesse acontecido comigo, que eu sei que aconteceram com a

[00:07:48] Claudia, por exemplo.

[00:07:49] Tu não te dá as contas.

[00:07:50] Ela já me pegou contando e disse, não, mas isso aconteceu comigo.

[00:07:55] Tu tinha problema?

[00:07:57] Eu queria te perguntar, mencionou de passagem, sobre o valor evolutivo das memórias.

[00:08:02] Eu imagino, sequenciado no assunto, que o valor das memórias evolutivo é porque a gente

[00:08:07] consegue projetar o futuro e fazer previsões.

[00:08:10] Permite predecir.

[00:08:11] Isso, isso é tudo.

[00:08:13] A predicação é uma vantagem evolutiva.

[00:08:15] E, sobretudo, as memórias emocionais, porque predecer uma ameaça dá muita vantagem

[00:08:21] evolutiva.

[00:08:22] É adaptativo.

[00:08:23] É por isso que não se pode aceitar o conceito de que a memória é fixa.

[00:08:28] A memória biológica é uma memória que é dinâmica, é plástica.

[00:08:32] Então seria muito limitado se fosse fixa.

[00:08:34] Claro.

[00:08:35] Então você pode incorporar novas informações de acordo com o ambiente hoje.

[00:08:41] De uma informação que tuve antes.

[00:08:44] O próprio fato de associar um padrão a um agente.

[00:08:48] Se eu enxergar a grama se mexer, isso tem um leão, um predador.

[00:08:55] Então associar um padrão que a gente observa com um agente é baseado nas nossas memórias

[00:09:00] e permite prever o que vai acontecer ou evitar o que vai acontecer.

[00:09:03] Claro.

[00:09:04] Se vai a um animal, tomar água no lago e atacar por um predador, depois quando vê

[00:09:11] o lago, já perdiste a ameaça.

[00:09:12] Isso é um condicionamento.

[00:09:13] Se você está com um caíac e vai a uma praia muito bonita e diz que…

[00:09:18] Florianópolis.

[00:09:19] Andam todos os argentinos.

[00:09:20] Florianópolis.

[00:09:21] E de pronto é um tiburão.

[00:09:23] Muito legal.

[00:09:24] Você vai associar todo o contexto, o lugar, com essa ameaça.

[00:09:29] Você não vai mais.

[00:09:30] Cada vez que vai a Florianópolis tem uma descarga de adrenalina.

[00:09:34] Por que é difícil?

[00:09:35] Isso é adaptativo.

[00:09:36] O adaptativo tem um certo ponto.

[00:09:38] Eu queria fazer uma pergunta sobre stress, já que é uma das coisas que a gente vai

[00:09:42] abordar aqui.

[00:09:43] Me parece esquisito que o stress cause problemas de memória.

[00:09:46] A gente está discutindo aqui do ponto de vista de evolução, de adaptação.

[00:09:50] Não seria mais importante, durante uma fase de stress, que eu guarde as minhas memórias

[00:09:56] do que que eu perca elas?

[00:09:58] De fato, fazemos.

[00:10:00] Eu imagino a questão, por exemplo, de um evento muito importante, muito traumático.

[00:10:09] Claro, que ele vai guardar e tu vai reviver ele muitas vezes durante os anos que se segue.

[00:10:15] Mas, por exemplo, uma época de stress, que é o que a gente sofre muito.

[00:10:18] Corregulado por outro, faz burocracia, pega avião, não sei o que.

[00:10:23] Por que que neste momento, que também é um stress contínuo?

[00:10:26] Bom, há níveis de stress.

[00:10:28] Em memória emocional, um evento estressante moderado potência a formação da memória,

[00:10:35] de medo, da memória emocional.

[00:10:37] Isso é adaptativo.

[00:10:38] Está um pouco estressado.

[00:10:39] Está biologicamente registrado.

[00:10:41] Todo mundo sabe disso.

[00:10:42] Tem um pouco de medinho e ajuda a estudar pra prof.

[00:10:44] Claro.

[00:10:45] Você tem que arrumar um exame, tem stress.

[00:10:47] E isso pode aumentar a memória e a evocação dessa memória.

[00:10:51] Mas em que momento ela começa a causar problemas da formação de memória?

[00:10:56] Você tem um evento traumático.

[00:10:58] Típico exemplo, os combatentes veteranos de guerra.

[00:11:01] Então, eles sofreram eventos traumáticos com ameaças de vida.

[00:11:06] E é interessante porque há mais mortos por transtornos de memória traumática

[00:11:12] que os que morreram na guerra, no Iraque.

[00:11:15] Há mais mortos porque o transtorno de memória traumática não só leva ao stress postraumático,

[00:11:23] mas também à depressão, ao suicídio.

[00:11:26] Então, há mais mortos quando eles voltam do combate.

[00:11:30] Isso é importante dizer que só 20% ou 30% de pessoas que sofreram um evento traumático

[00:11:37] fazem esse transtorno.

[00:11:39] Porque normalmente você tem uma experiência traumática e depois de um tempo cede.

[00:11:43] Cede a pressão emocional, flashbacks, pesadilhas.

[00:11:48] Pesadelos, pesadelos.

[00:11:50] Para de ter as revivicências e pesadelos e todas as consequências emocionais dessas memórias.

[00:11:54] Porque o problema é que elas são memórias patológicas do stress postraumático.

[00:11:58] A sigla em inglês é PTSD.

[00:12:01] E elas são memórias muito intensas que se realimentam sozinhas.

[00:12:05] Ou seja, elas voltam a todas sem tu pedir.

[00:12:07] E aí ocupam, roubam a tua atenção e acabam sendo um estourbo enorme na vida.

[00:12:12] Acabam levando a situações de doença, depressão, suicídio, muito suicídio.

[00:12:16] Nos Estados Unidos é muito comum a gente ver…

[00:12:18] Até porque eles são especialistas pela gente.

[00:12:20] A gente vê veterano de guerra vivendo nas ruas.

[00:12:23] E aí tu fica pensando, por que essa pessoa tá vivendo na rua?

[00:12:25] Em geral, se tu olha pra eles, são pessoas saudáveis.

[00:12:28] Saudáveis fisicamente, né?

[00:12:30] São pessoas fortes.

[00:12:31] Não necessariamente lá em Harvard Square, perto de onde eu moro.

[00:12:34] Tem dois ou três veteranos que são pessoas fisicamente muito fit.

[00:12:38] Pero aumentamente.

[00:12:39] Mas estão paradas lá, tu não sabe?

[00:12:41] Porque eles estão pedindo dinheiro.

[00:12:42] Então o que provavelmente está acontecendo é que são pessoas deprimidas.

[00:12:45] Mas do ponto de vista microscópico, bioquímico, o que que diferencia?

[00:12:50] Como é que eu caracterizo o trauma?

[00:12:52] Por que isso muda da maneira como eu armazeno a memória?

[00:12:55] Por exemplo, não é totalmente conhecido,

[00:12:58] mas há estruturas cerebrais que permanecem ativadas.

[00:13:02] Por exemplo, o complexo da amígdala.

[00:13:05] É a amígdala dentro do cérebro.

[00:13:08] Essa é a única amígdala que existe agora.

[00:13:10] Porque os anatomias finalmente trocaram o nome da amígdala da garganta.

[00:13:13] Para os nossos ouvintes, amígdala da garganta não são a mesma coisa que a gente fala.

[00:13:19] Aliás, já trocaram de novo.

[00:13:21] Se você fez, amigo, uma amidelectomia, o nome correto agora é tonsilectomia.

[00:13:27] É tonsila.

[00:13:28] A gente não recomenda que vocês retirem as amígdala do cérebro.

[00:13:31] Isso também não.

[00:13:32] Você vai ficar um zumbi.

[00:13:34] Estão permanentemente ativadas.

[00:13:36] Porque essa pessoa que sofre as doenças de tratamento psiquiátrico,

[00:13:41] a ameaça generaliza tudo.

[00:13:44] Não é só batalhas, ruídos.

[00:13:47] Já generalizam o tráfico de carros.

[00:13:49] Já generalizam com trauma.

[00:13:52] Começam a ver todas as ameaças de todos os lados.

[00:13:55] É impossível viver assim.

[00:13:57] Claro.

[00:13:58] Porque a interpretação vai desde a interpretação paranoica,

[00:14:01] de achar que existe uma vontade contra nós mesmos,

[00:14:04] mas também tem a interpretação da conspiração cósmica.

[00:14:08] O avião vai cair, o carro vai me atropelar.

[00:14:11] Eu vou ficar doente.

[00:14:13] E há uma coisa muito interessante.

[00:14:15] É mais provável desenvolver um tratamento pós-traumático

[00:14:19] quando um sofre violência da espécie.

[00:14:22] Roubo, combate.

[00:14:24] Com específicos.

[00:14:25] Que é um estupro.

[00:14:27] É um estupro, no caso, bem real.

[00:14:29] Não sei se eu entendi.

[00:14:31] Se a violência envolve outras pessoas…

[00:14:35] A violência é sofrida pela mesma espécie.

[00:14:38] Por exemplo, combate.

[00:14:40] Assalto à mão armada.

[00:14:42] Quando a causa da violência é um outro ser humano.

[00:14:46] Sim.

[00:14:47] Isso é mais provável.

[00:14:49] Desenvolver o trastorno do que ser em um tsunami.

[00:14:53] Exatamente natural.

[00:14:55] Porque é incompreensível.

[00:14:57] Como você tem empatia, você se coloca no lugar da pessoa

[00:15:00] e diz como ela fez isso.

[00:15:02] Mas o terremoto é bom.

[00:15:04] Por que não tem o que fazer?

[00:15:06] Porque é um fenômeno que aconteceu

[00:15:09] corrompendo com as expectativas e o costume.

[00:15:12] A partir daí, você vai ter que desconfiar de tudo e todos.

[00:15:15] Todos podem ser estupradores.

[00:15:17] Eu tenho uma interpretação um pouco mais pedestre.

[00:15:19] Quer dizer que a gente tem muito mais representação cerebral

[00:15:22] para outros seres humanos do que a gente tem

[00:15:24] para, por exemplo, um earthquake.

[00:15:26] Coisas abstratas.

[00:15:28] A variável de terremoto é um incidente.

[00:15:31] Não tem muita representação inteira.

[00:15:34] A amígdala, por exemplo, é um scanner da amígdala.

[00:15:37] Você pode medir a atividade.

[00:15:39] A amígdala tem uma prova que passa,

[00:15:41] uma foto, um revólver tão rápido,

[00:15:43] que você conscientemente não sabe o que aconteceu.

[00:15:45] Mas a amígdala se prendeu.

[00:15:47] Ou seja, que a amígdala actua ainda sem ter consciência.

[00:15:50] Tem acesso direto sem passar pela consciência.

[00:15:52] Incrível.

[00:15:53] A amígdala é uma glândula.

[00:15:55] A amígdala é uma região do cérebro.

[00:15:57] Que diz que é associada a medo.

[00:15:59] Você pega, você pode medir a atividade.

[00:16:01] Se passa, por exemplo, um revólver assim,

[00:16:04] tão rápido, a pessoa não chegou ao nível consciente.

[00:16:07] Mas a amígdala se prendeu.

[00:16:09] Não tem por parte da pessoa o reconhecimento

[00:16:11] que ele viu uma arma.

[00:16:12] Não dá consciência.

[00:16:13] Imagina, no meio, você está recebendo imagens,

[00:16:15] você está num seminário e, de repente,

[00:16:17] alguém bota um revólver bem rápido e você não vê,

[00:16:19] mas você já fica nervoso.

[00:16:21] Há uma pessoa científica importante nesta área,

[00:16:24] Joseph Ledoux.

[00:16:25] Isso é muito importante.

[00:16:26] Há duas vias rápidas que chegam à amígdala.

[00:16:29] A via mais rápida permite reaccionar

[00:16:31] sem identificar o objeto,

[00:16:33] que seria a via através do tálamo.

[00:16:36] A via que chega da corteça

[00:16:38] dura mais tempo, porque você identifica.

[00:16:41] Corteça é o cortex.

[00:16:43] No caso é o cortex frontal.

[00:16:45] Mas mesmo essa segunda via não necessariamente é consciente.

[00:16:48] Não, porque você, por exemplo, vai num bosque.

[00:16:51] Sim, um é a sombra.

[00:16:53] Sombra dispara.

[00:16:54] Um vulto.

[00:16:55] Um vulto esse aí já toma um cagaço.

[00:16:58] Mas aí tem a via cortical,

[00:17:00] que tem reconhecimento do que pode ser,

[00:17:02] mas mesmo assim ela pode ser não consciente.

[00:17:05] É isso que eu estava dizendo.

[00:17:06] Não, não, não.

[00:17:07] Aí você, quando a corteça actua,

[00:17:09] então você reconhece a sombra.

[00:17:11] Reconhece o objeto.

[00:17:13] Mas você tem que ter uma via muito rápida.

[00:17:15] Ledoux fala da via tálamica à amígdala.

[00:17:17] Isso, para o estímulo que gera medo,

[00:17:19] é também adaptativo.

[00:17:20] Você pode não ter tempo.

[00:17:22] Dá uma vantagem de supervivência.

[00:17:24] A amígdala faz parte daquela região do cérebro que é mais primitiva.

[00:17:28] Sim.

[00:17:29] Então ela não é a única nossa.

[00:17:32] Todos os mamíferos praticamente têm.

[00:17:34] E outros animais têm, por exemplo.

[00:17:36] Praticamente todos os vertebrados têm alguma coisa.

[00:17:38] Na verdade, o córtex foi criado para segurar a amígdala.

[00:17:41] Para segurar essa região.

[00:17:42] A amígdala pertence a um conjunto núcleo que está…

[00:17:46] A parte mais primitiva do encéfalo é o tronco encefálico,

[00:17:49] que todos os vertebrados têm que ter,

[00:17:51] porque senão é o que controla.

[00:17:52] Paternamento cardíaco, respiração.

[00:17:54] É o essencial.

[00:17:55] E vários estímulos e sensações também.

[00:17:57] O córtex é uma das coisas que brotam,

[00:17:59] a partir daí, como se fosse um cogumelo.

[00:18:01] O cerebelo é outro.

[00:18:02] E aí antes do crescimento do córtex,

[00:18:04] teve alguns núcleos que cresceram por cima,

[00:18:06] que se chamam de encéfalo.

[00:18:08] Ele incluiu o chamado núcleos da base.

[00:18:10] A gente chamava ganglos da base, mas não são ganglos.

[00:18:13] São núcleos da base.

[00:18:14] Inclui a amígdala.

[00:18:15] Então ele surge antes do córtex,

[00:18:17] mas logo em associação com ele.

[00:18:19] Então ele trabalha junto.

[00:18:20] Porque nós temos outras áreas cerebrais

[00:18:22] mais primitivas lá no tronco,

[00:18:24] como a substância cinzenta periaquedotal,

[00:18:28] que controlam a resposta de medo.

[00:18:30] A gente tem um circuito de medo muito antigo,

[00:18:32] que inclusive se você arrancar o córtex

[00:18:34] de uma pessoa inteira, ele vai ter medo ainda.

[00:18:36] Porque o que controla o medo não está no córtex,

[00:18:38] está lá embaixo.

[00:18:39] É uma coisa para acontecer,

[00:18:40] independente do que você está entendendo,

[00:18:41] está acontecendo.

[00:18:42] Porque senão você não sobrevive.

[00:18:43] É adaptativo.

[00:18:44] Só que como a evolução vai se dando

[00:18:46] por crescimento de áreas novas,

[00:18:47] e elas vão, digamos, umas controlando as outras,

[00:18:49] colocando…

[00:18:50] E aí parece uma coisa freudiana, não é?

[00:18:52] O ídio é ego, o superego, não é?

[00:18:54] O primitivo vai se recebendo uma nova camada,

[00:18:56] que então controla aquilo,

[00:18:57] mas traz coisas novas.

[00:18:58] Depois vem uma outra mais sofisticada.

[00:19:00] E é esse balanço que define como nós funcionamos.

[00:19:03] Você disse que a corteza perfrontal

[00:19:05] inhibe a atividade da míntara.

[00:19:08] Porque senão tendríamos medo de descontrolar tudo.

[00:19:12] É por isso que a terapia essa

[00:19:14] de ressignificar o estímulo,

[00:19:17] actua através da corteza.

[00:19:19] Sim, claro. Exatamente.

[00:19:21] Está ressignificando o estímulo para dizer

[00:19:23] que não tudo tem que ser uma ameaça.

[00:19:25] É, e pode dizer assim, não.

[00:19:26] Ver como aquela situação, no final,

[00:19:28] não foi tão horrível porque você sobreviveu,

[00:19:31] porque você teve sorte.

[00:19:33] Aqui vai um comentário interessante, senhor.

[00:19:35] Primeiro, existe…

[00:19:37] Deve ter alguém te pensando,

[00:19:38] mas o cara está preocupado com aquele sujeito

[00:19:40] em estresse pós-traumático,

[00:19:41] não consegue esquecer uma coisa ruim.

[00:19:43] Mas a maioria das pessoas não está preocupado com isso.

[00:19:45] Está preocupado com o outro lado.

[00:19:46] Ou seja, a perda das memórias,

[00:19:47] o esquecimento excessivo,

[00:19:49] as amnésias e a Alzheimer,

[00:19:51] como, digamos, um exemplo de rainha.

[00:19:53] Mas existem outras demências.

[00:19:54] Inclusive, o próprio Parkinson vem associado

[00:19:56] a uma demência que, além de você ter todas as

[00:19:58] tremedeiras e problemas,

[00:19:59] também vai ficando com problemas de perda

[00:20:01] de cognição associado.

[00:20:02] Esse é um caso extremamente…

[00:20:03] O alcoolismo tem assim, no Corsacofe,

[00:20:05] o cara vai perdendo as memórias.

[00:20:06] Tem um monte de símbolos demenciais.

[00:20:08] É, mas talvez isso que está dizendo nos interessa

[00:20:10] um pouco saber essa amnésia que a gente tem

[00:20:12] no dia a dia.

[00:20:13] Eu me considero amnésico agora.

[00:20:14] Ah, bom, é aí que eu queria chegar.

[00:20:16] Será que essa coisa do dia a dia, tipo,

[00:20:18] esqueci de deixar as chaves.

[00:20:19] Ah, eu estou muito…

[00:20:20] Ultimamente eu não esquecendo de tudo.

[00:20:21] Esqueci de pagar a conta do…

[00:20:22] Será que eu estou virando Alzheimer?

[00:20:24] Bom, primeiro, é possível.

[00:20:26] Mas, assim, é uma oportunidade que tem que vir

[00:20:28] as estatísticas, né?

[00:20:29] RPD-melórias e outras pra ver.

[00:20:30] E, na verdade, é baixo.

[00:20:31] Mais pessoas reclamam de perda diária de memória

[00:20:34] do que, de fato, vão desenvolver uma doença grave.

[00:20:36] Na verdade, eu diria que praticamente todo mundo

[00:20:39] pode ter distúrbios de amnésia de memória.

[00:20:41] Aquilo que o Schachter, que é um colega

[00:20:43] que escreveu um livro muito legal sobre memória,

[00:20:45] que está traduzido, que se chama

[00:20:46] Sete Pecados da Memória.

[00:20:47] O esquecimento, transitoriedade.

[00:20:49] Todo mundo esquece.

[00:20:50] O esquecimento é uma função normal.

[00:20:51] Os detalhes se perdem.

[00:20:53] Depois, outros aspectos se perdem.

[00:20:54] A atribuição se perde.

[00:20:56] Por exemplo, memória episódica.

[00:20:57] Por exemplo, eu aprendi numa aula muito legal

[00:21:00] com um professor estupendo e inesquecível.

[00:21:02] Naquela aula, eu participava de um determinado conceito.

[00:21:04] O Napoleão esteve na Ilha Tau e ele contou

[00:21:05] de tal forma que eu nunca mais vou esquecer.

[00:21:07] Com o passar dos anos, eu vou esquecendo da aula

[00:21:10] onde eu aprendi a história do Napoleão,

[00:21:12] mas não da história do Napoleão.

[00:21:14] Eu perco os detalhes e, inclusive,

[00:21:17] os detalhes de como eu adquiri aquela memória.

[00:21:19] E fico com a memória, que se chama

[00:21:21] a semanização da memória.

[00:21:22] Ela passa de ser episódica.

[00:21:23] Ou seja, eu sei dizer quando eu aprendi,

[00:21:25] foi naquela aula.

[00:21:26] E eu passo a ter o conceito.

[00:21:27] Não, eu sei que o Napoleão esteve lá

[00:21:29] e foi bem interessante,

[00:21:30] mas eu não sei quando eu aprendi.

[00:21:31] Posso ter lido, posso ter ouvido falar.

[00:21:33] Essas várias pernas são totalmente normais.

[00:21:35] Todo mundo tem e não é patológico.

[00:21:37] A maior parte dos problemas que as pessoas têm

[00:21:38] são causados precisamente pelo estresse.

[00:21:41] O estresse, enquanto você está se formando memórias,

[00:21:44] essas memórias podem ou se formar com menos informação

[00:21:48] e aí ficam incompletas.

[00:21:49] É o que se chama ausência ou distração.

[00:21:52] Por exemplo, eu entro em casa e atiro a chave

[00:21:54] em cima de um móvel que eu nunca faço,

[00:21:56] porque me parece uma boa ideia naquele momento,

[00:21:58] mas eu também não estou pensando nisso.

[00:21:59] Você está segurando os pacotes do supermercado.

[00:22:02] Tu não te ficou, tu não pensou naquele troço.

[00:22:05] Tu largou lá, foi depois da hora,

[00:22:07] tem que ir para a rua.

[00:22:08] Pô, cadê minha chave?

[00:22:09] Tu começa a vasculhar a casa enlouquecido

[00:22:11] e fica alucinado, gritando.

[00:22:13] E cadê a chave?

[00:22:14] Eu faço isso muito.

[00:22:15] Por quê? Tu é amnésico?

[00:22:17] Tu está alusado?

[00:22:18] Não.

[00:22:19] Tu simplesmente não formou a memória

[00:22:20] daquele lugar porque tu fez ela sem pensar.

[00:22:21] Isso se resolve com alguns hábitos.

[00:22:24] Entre os hábitos mais disciplinados,

[00:22:26] tipo, largar a chave sempre do mesmo lugar resolve.

[00:22:28] Porque aí a memória está fixa, tem um peguinho lá.

[00:22:30] E o inverso funciona?

[00:22:32] Se eu quiser selecionar uma memória

[00:22:34] para que ela permaneça.

[00:22:36] É possível.

[00:22:37] Eu tenho como…

[00:22:38] Concentrar.

[00:22:39] Ou fazer algo…

[00:22:40] Por exemplo, estou dando aula.

[00:22:41] E eu digo, essa informação é importante.

[00:22:43] É a nossa função.

[00:22:44] Meus alunos não se dão conta da importância,

[00:22:46] então eu preciso gerar o trauma.

[00:22:48] Se eu tirar a roupa na hora,

[00:22:50] eles nunca vão me esquecer?

[00:22:52] De tu sem roupa, não.

[00:22:53] A informação vem junto.

[00:22:54] Eu não sei.

[00:22:55] Isso é um problema, não é garantia.

[00:22:57] É um exemplo clássico.

[00:22:59] Você sabe quando, como o tênis,

[00:23:01] no saque.

[00:23:02] Sim, sim.

[00:23:03] O saque é um ritual.

[00:23:05] Então eles formam tudo.

[00:23:07] Quando são assim.

[00:23:08] Todos são reminders.

[00:23:09] São reminders para que a coordenação do movimento

[00:23:12] seja exata.

[00:23:13] Então ele reproduz todos os passos

[00:23:15] para não errar.

[00:23:16] Faz uma coreografia.

[00:23:18] Até os caquetes.

[00:23:19] O caquete tem uma função de lembrar

[00:23:21] qual é o movimento corporal que ele vai fazer.

[00:23:23] No beisebol, é a mesma coisa.

[00:23:25] O beisebol também.

[00:23:26] Porque tu tem que deixar o corpo programado

[00:23:28] para fazer uma sequência muito precisa.

[00:23:30] Bailarinos, coreógrafos e músicos

[00:23:32] tocando instrumentos têm a mesma situação

[00:23:34] de lembrar as sequências.

[00:23:35] Isso é possível de a gente fazer um experimento

[00:23:37] e mostrar que se eu impesso o…

[00:23:40] Sim, isso já está super estudado.

[00:23:41] Por exemplo, se eu peço o pitcher

[00:23:43] de tocar no boné,

[00:23:44] aí eu consigo medir a qualidade do lançamento.

[00:23:47] Desse exato experimento eu não sei,

[00:23:48] mas tem muitos outros experimentos de psicofísica.

[00:23:50] Muita.

[00:23:51] Tem muito estudo em psicologia

[00:23:52] de distração que funciona.

[00:23:54] Distração não é um fenômeno folclórico

[00:23:56] e anedótico que a gente está falando aqui.

[00:23:58] Ele é um fenômeno estudado no laboratório

[00:24:00] em modelos humanos e animais.

[00:24:02] É possível distrair de inúmeras maneiras.

[00:24:03] O que a maioria das pessoas reclama

[00:24:05] com falta de memória,

[00:24:06] no fundo é consequência de distração.

[00:24:08] Sim.

[00:24:09] Agora, você também pode estar muito estressado

[00:24:10] e aí a memória foi adquirida bem,

[00:24:12] mas aí o processo de registrar ela

[00:24:14] no seu nervoso acaba prejudicando.

[00:24:16] Por exemplo, uma coisa que as pessoas…

[00:24:17] Aí também é mais grave.

[00:24:18] É um problema de tensão.

[00:24:20] Quando há muitos distractores.

[00:24:21] Não tem que fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

[00:24:24] Não presta atenção nenhuma.

[00:24:25] Mas em que momento se começa a misturar

[00:24:27] correlação e causação?

[00:24:29] Porque no exemplo do tenista,

[00:24:31] tem uma sequência de eventos

[00:24:33] que supostamente estão correlacionados,

[00:24:35] mas mais do que isso,

[00:24:36] eu tenho uma relação causal.

[00:24:38] Esse movimento dispara o seguinte,

[00:24:40] dispara o seguinte.

[00:24:41] Existem outras coisas que as pessoas fazem,

[00:24:43] todo mundo faz,

[00:24:44] que é detectar a correlação

[00:24:47] quando não há causação nenhuma.

[00:24:49] Então, bom, o meu tenista preferido vai sacar,

[00:24:53] então eu vou botar o boné,

[00:24:55] vou botar a camiseta, dar sorte,

[00:24:57] mas não tem nenhuma causação ali.

[00:24:59] Então, em que momento, no caso do cérebro,

[00:25:02] as coisas começam a se confundir?

[00:25:04] Quando é que eu começo a deixar de ter causação?

[00:25:08] A minha pergunta é só,

[00:25:09] como é que eu sei que no caso do tenista,

[00:25:11] aquele ritual…

[00:25:12] São realmente necessários.

[00:25:14] São necessários.

[00:25:15] Ou se não é só porque ele tentou tirar…

[00:25:18] Quando eu mexo no boné, eu acertei.

[00:25:20] Não, porque se você…

[00:25:21] Tem que haver uma razão porque

[00:25:23] fazem o mesmo ritual,

[00:25:25] cada um utiliza o ritual.

[00:25:27] E através do tempo,

[00:25:29] fazem sempre o mesmo ritual.

[00:25:31] Se você forma a memória,

[00:25:33] experimentalmente, em um momento,

[00:25:35] cada reminder,

[00:25:37] reminder é uma clave

[00:25:39] do aprendizagem original.

[00:25:41] Você mostra uma clave,

[00:25:43] uma dica,

[00:25:44] uma dica,

[00:25:45] cada vez,

[00:25:46] a traça da memória se torna mais forte.

[00:25:48] E lembra.

[00:25:49] Ajuda a lembrar.

[00:25:50] Aqui eu acho que estou fazendo alguma outra coisa.

[00:25:51] Na verdade, a memória é assim,

[00:25:53] como você lembrar de uma frase

[00:25:55] numa música do Chico Buarque,

[00:25:56] lembrar da música inteira.

[00:25:57] Para algumas pessoas,

[00:25:58] é mais fácil lembrar da música do começo

[00:26:00] até chegar na frase.

[00:26:01] Outras conseguem ir direto,

[00:26:02] indexá-la no meio e pegar ela,

[00:26:04] pinçar ela.

[00:26:05] Por exemplo, eu tenho dificuldade.

[00:26:06] Eu tenho que lembrar no meio da sequência.

[00:26:09] Eu não sei que…

[00:26:10] Mas assim, em muitas situações,

[00:26:12] lembrar…

[00:26:13] Porque está armazenado no mesmo lugar,

[00:26:15] vamos dizer.

[00:26:16] Em conjunto.

[00:26:17] Às vezes lembrar daquele conjunto

[00:26:19] vai te ajudar a puxar aquele pedaço que você precisa.

[00:26:21] Então, de fato, o que o teniça precisa?

[00:26:24] O teniça precisa do pedaço do golpe.

[00:26:26] Mas aí ele puxa então todo o entorno,

[00:26:28] como se lembrasse da música inteira,

[00:26:30] e executa a música inteira

[00:26:31] para chegar lá sem errar.

[00:26:33] E ajuda a te concentrar também.

[00:26:34] Quando ele está reproduzindo a sequência,

[00:26:36] ele esquece do resto

[00:26:39] e foca lá,

[00:26:40] que é tudo que ele precisa fazer.

[00:26:41] É um exemplo muito limitado.

[00:26:43] A diferença do torcedor

[00:26:44] é que obviamente o torcedor

[00:26:45] não influencia na ação do atleta.

[00:26:48] Mas, no caso do tenista,

[00:26:50] quando ele tem o seu próprio ritual,

[00:26:52] mesmo que ele tenha criado o ritual

[00:26:54] em falsas premissas.

[00:26:56] Ele podia ter criado o ritual

[00:26:57] porque ele acha que dá sorte

[00:26:59] ele tocar no boné antes de lançar.

[00:27:01] Mas o que o Victor está falando

[00:27:03] é que ele toca.

[00:27:04] Mesmo que ele ache que aquilo ali

[00:27:05] seja sorte que ele está evocando,

[00:27:08] no fundo ele está evocando memória.

[00:27:10] Veja o que eu creio.

[00:27:12] Nada isso no estúdio científico de isso,

[00:27:15] mas eu creio isso.

[00:27:16] Eu queria uma questão

[00:27:18] que interessa muito às pessoas, não sei…

[00:27:20] É a questão de medicação.

[00:27:23] Existe, principalmente com as pessoas

[00:27:25] que estão chegando à maioridade,

[00:27:26] não estou sem memória,

[00:27:27] quero tomar um remédio

[00:27:28] para melhorar a minha memória.

[00:27:30] Uma professora aqui até diz

[00:27:31] não, estou tomando tal remédio.

[00:27:33] Não tem remédio para melhorar a memória.

[00:27:35] Isso, exatamente.

[00:27:36] Não tem e não vai ter por um bastante tempo.

[00:27:38] Mas tem soluções para melhorar a memória.

[00:27:40] A melhor solução é usar.

[00:27:42] Se usar bastante a memória,

[00:27:43] treinar bastante,

[00:27:44] exercitar bastante,

[00:27:45] você vai ter ela.

[00:27:46] É a lei do uso e desuso.

[00:27:47] Mas ainda não tem o medicamento.

[00:27:48] E nós temos que escapar dessa lógica.

[00:27:50] Tudo o que você não faz

[00:27:51] porque não tem vontade

[00:27:52] ou está com preguiça,

[00:27:53] então você substitui por um remédio.

[00:27:54] É, não só um remédio,

[00:27:56] mas, por exemplo, um suplemento.

[00:27:58] Um suplemento, alguma coisa assim.

[00:28:00] Não é uma questão de princípio?

[00:28:01] Poderia ter,

[00:28:02] porque a gente tem uma série de moléculas

[00:28:04] que são envolvidas nos processos.

[00:28:06] A gente compreende os mecanismos básicos

[00:28:08] alguma coisa já,

[00:28:09] mas ainda é uma fração muito pequena

[00:28:11] de um sistema bem mais complexo.

[00:28:13] E a gente tem um sistema

[00:28:15] de um sistema bem mais complexo.

[00:28:17] E é reductionista demais

[00:28:19] crer que mexer nessa fraçãozinha

[00:28:22] de um grande sistema complexo,

[00:28:24] tu puxa tudo.

[00:28:25] Então, a medicina e a farmacologia,

[00:28:27] os medicamentos,

[00:28:28] eles são reductionistas.

[00:28:29] Mas, em alguns casos,

[00:28:30] o que funciona como?

[00:28:31] Tu tem uma enzima,

[00:28:33] uma parte das células que tem todo o corpo.

[00:28:35] E aí, tu tá com um doente daquilo.

[00:28:37] Toma um medicamento que ataca tudo em massa.

[00:28:39] Vai funcionar.

[00:28:40] Mas, assim, memória

[00:28:41] é uma coisa mais sutil.

[00:28:42] Memória é o uso de frações seletivas

[00:28:44] de células,

[00:28:45] e atingi-la em massa não resolve.

[00:28:47] A única coisa que pode usar

[00:28:48] é os mecanismos que o próprio corpo te dá.

[00:28:49] Por exemplo,

[00:28:50] o estresse suave ajuda a melhorar a memória.

[00:28:52] Por isso que,

[00:28:53] tu tá preocupado com a prova.

[00:28:54] Ah, não posso rodar

[00:28:55] porque eu não tenho dinheiro pra repetir,

[00:28:56] mas aí tu estuda.

[00:28:57] E funciona.

[00:28:58] Agora, o estresse é exagerado, não.

[00:29:00] Quer dizer, se o velhinho vai lá

[00:29:01] e fica em casa não fazendo nada,

[00:29:03] ele vai perder memória.

[00:29:04] Vai, vai, porque não tá usando ele.

[00:29:06] Ele tem que ter compromissos.

[00:29:07] O desonamento social é um mecanismo fundamental

[00:29:10] pra perder memórias.

[00:29:11] Há que reduzir os tractores.

[00:29:13] É, mas a doença é reduzir o isolamento,

[00:29:15] porque o isolamento social te troca.

[00:29:17] Tu não conversa, tu não troca informação,

[00:29:19] tu não fica exercitando a curiosidade,

[00:29:21] tu não procura.

[00:29:22] A pessoa que tem isolamento social

[00:29:24] não adianta tomar remédio.

[00:29:25] Não.

[00:29:26] Aliás, o que é um isolamento social?

[00:29:27] Ao contrário disso,

[00:29:28] ele tá conversando depois,

[00:29:29] tá conversando com fofoca.

[00:29:30] Fala fulana, beutrana, não sei quem deu pra não sei quem.

[00:29:32] Isso já é compartilhar a informação,

[00:29:34] já é exercitar a memória.

[00:29:35] Pode não ser muito nobre, mas funciona.

[00:29:37] Agora, se fizer isso com livros,

[00:29:38] com revistas e tal,

[00:29:39] vai ser melhor pra todo mundo.

[00:29:41] Tá, então esse foi o programa

[00:29:42] Fronteiras da Ciência.

[00:29:43] Hoje a gente discutiu memória,

[00:29:44] estresse post-almático,

[00:29:45] memória no geral.

[00:29:47] E o convidado foi o Vitor Molina,

[00:29:50] que é da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina.

[00:29:53] E o Jorge Guilfão,

[00:29:55] do Departamento de Biofísica da URGES,

[00:29:57] e eu e o Jé Persón Arenzón,

[00:29:58] do Departamento de Física da URGES.

[00:30:00] O programa Fronteiras da Ciência

[00:30:02] é um projeto do Instituto de Física da URGES,

[00:30:05] direção técnica de Francisco Guazelli.

[00:30:12] Atendimento Físico do Instituto de Física da URGES