AntiCast 169 – Música e Estética


Resumo

O episódio inicia com uma longa introdução dos hosts Ivan Mizuzu, Marcos Beccari e Rafael Ancara sobre as novidades do Patreon do Anticast, incluindo novas recompensas para apoiadores, como participação na introdução do programa, workshops e consultorias acadêmicas. Eles também anunciam a separação da leitura de comentários em um player à parte.

A conversa principal começa com a apresentação do convidado Tiago de Lima Castro, filósofo e músico, que está fazendo mestrado em musicologia com foco em estética musical. Beccari faz uma extensa exposição sobre como a música foi tratada na filosofia ocidental, começando por Platão e sua visão da música como uma arte que pode acessar o mundo das ideias, mas também condenando formas que distraem da razão. Ele percorre pensadores como Kant, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche, destacando como cada um via a música como uma forma de acesso a uma dimensão transcendental ou, no caso de Nietzsche, como uma expressão dionisíaca da vida.

Tiago então entra na discussão, compartilhando sua perspectiva pessoal como músico e pesquisador. Ele questiona a “estética do absoluto” que muitos músicos adotam inconscientemente e discute o problema da indústria cultural levantado por Adorno, que critica a padronização e a alienação na música popular. Tiago argumenta que essa dicotomia entre o “autêntico” e o “não autêntico” é problemática e que a música popular também possui valor estético.

A conversa se aprofunda na relação entre música erudita e popular, na história da notação musical e no surgimento da autoria. Eles exploram como, a partir do Classicismo, surgiu a ideia de “superação” na música erudita, levando a movimentos de vanguarda no século XX. O grupo debate a acessibilidade da música erudita, a formação de “clubes” herméticos e a falta de uma abordagem teórica que valorize a música popular de uma perspectiva nietzschiana, ou seja, como expressão de alegria e afirmação da vida, em vez de busca por transcendência.

Por fim, discutem brevemente a etnomusicologia e a divisão acadêmica entre o estudo da música erudita e popular, concluindo que a música, em todas as suas formas, pode ser uma fonte de alegria e conexão com o real, sem necessariamente carregar o peso metafísico atribuído pela tradição filosófica.


Indicações

Books

  • Mundo como Vontade e Representação — Obra de Schopenhauer citada por Beccari, onde o filósofo discute a música como a mais direta objetivação da Vontade, transcendendo até mesmo as ideias platônicas.
  • O Nascimento da Tragédia — Livro de Nietzsche discutido no episódio, no qual ele explora os conceitos de apolíneo e dionisíaco e o papel da música na cultura grega trágica.
  • Som e Sentido — Livro de José Miguel Wisnik mencionado por Tiago, que faz uma análise antropológica da música.

Concepts

  • Estética do Absoluto — Conceito discutido por Tiago, referente à tendência, especialmente entre músicos, de ver a música como um acesso a uma verdade ou dimensão superior, uma visão metafísica.
  • Trítono (Diabolus in Musica) — Intervalo musical mencionado por Tiago como considerado ‘o diabo na música’ na Idade Média, por sua dissonância, e que posteriormente se tornou um elemento estrutural.

People

  • Guido D’Arezzo — Mencionado por Tiago como uma figura importante no desenvolvimento da notação musical neumática, base da partitura moderna.
  • Jean-Philippe Rameau — Compositor francês citado por Tiago como um dos primeiros a teorizar e compor, rompendo com a separação entre teóricos e praticantes da música.

Podcasts

  • Euterpe Despedaçada — Projeto de podcast mencionado por Tiago de Lima Castro, onde ele participa e que discute música, incluindo um episódio intitulado ‘Quem tem medo do funk?’.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução do episódio e anúncios do Patreon — Os hosts Ivan, Marcos e Rafael apresentam o episódio 169, focado em música e estética, e apresentam o convidado Tiago de Lima Castro. Eles detalham as novas recompensas do Patreon, como acesso ao grupo Cracolândia, participação na introdução do programa, sorteio de vagas em workshops e consultorias acadêmicas. Também anunciam que a leitura de comentários será em um player separado.
  • 00:13:53Apresentação do convidado Tiago de Lima Castro — Tiago se apresenta como músico e filósofo, atualmente fazendo mestrado em musicologia com foco na relação entre música e razão nos séculos XVI e XVII, discutindo autores como Descartes e Zarlino. Ele também menciona sua participação no livro de Ivan como o personagem Miguel Ruas.
  • 00:19:07A música na filosofia: de Platão a Nietzsche — Beccari traça um panorama histórico da filosofia da música, começando com Platão, que via a música (especialmente a pitagórica) como acesso ao mundo das ideias, mas condenava as artes “demoníacas” que afastam da razão. Ele passa por Kant (razão desinteressada), Hegel (música como portal para o real transcendental), Schopenhauer (música como acesso à Vontade) e Nietzsche, que inicialmente vê a música como força dionisíaca e, posteriormente, como expressão imediata da alegria de viver, rejeitando a metafísica.
  • 00:47:56Perspectiva pessoal de Tiago e a questão da indústria cultural — Tiago compartilha sua visão como músico, explicando que sua busca por pensar a música vem justamente de suas dúvidas sobre seu significado e representação. Ele aborda a crítica de Adorno à indústria cultural, que padroniza a produção musical, mas questiona a dicotomia entre o “autêntico” e o “não autêntico”, sugerindo que a música popular também tem valor e que a busca pelo “novo” nem sempre é superior.
  • 01:05:48Apreciação estética formal e acessibilidade da música erudita — Ivan expõe sua dificuldade em apreciar música erudita por não entender suas estruturas formais, em contraste com a música popular. Tiago explica que, para apreciar peças como as de Beethoven, é necessário compreender sua estrutura (exposição, desenvolvimento, reexposição) e como os temas interagem. Eles discutem como o conhecimento formal afeta a experiência estética.
  • 01:30:00História da notação musical, autoria e divisão entre erudito e popular — A conversa aborda o surgimento da notação musical com Guido D’Arezzo e como a autoria se tornou mais relevante com a polifonia (Ars Nova). Discutem a divisão histórica entre música erudita (com teóricos) e popular (de tradição oral), e como, a partir do Classicismo, surgiu a ideia de ‘superação’ e a circulação de partituras, consolidando uma memória musical e a noção de progresso na música erudita.
  • 01:43:00A música no século XX, vanguardas e a cisão com o popular — O grupo discute como, no século XX, a música erudita seguiu um caminho de superação e experimentação (como em Schoenberg e John Cage), tornando-se muitas vezes hermética e formando ‘clubes’ de iniciados. Tiago aponta a cisão acadêmica entre musicologia (focada no erudito) e etnomusicologia (focada no popular), e a falta de uma teoria estética que valorize a música popular de forma nietzschiana, como expressão de alegria imediata.
  • 02:07:07Considerações finais e encerramento — Os participantes sintetizam a discussão, destacando a persistência da visão metafísica da música como arte superior e a necessidade de uma estética que valorize a música como alegria, não como transcendência. Tiago agradece o convite e faz um jabá para seu Twitter (@tianix) e para o projeto Euterpe Despedaçada. O episódio é encerrado com a lembrança de que os comentários estão em um player separado.

Dados do Episódio

  • Podcast: AntiCast
  • Autor: HD1
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2015-02-12T02:36:30Z
  • Duração: 02:16:51

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo.

[00:00:20] Sejam bem-vindos a mais um Anticast.

[00:00:23] Eu sou Ivan Mizuzu, que estou no Copa dos Maloqueiros sempre.

[00:00:25] Marcos Beccari.

[00:00:26] Boa tarde.

[00:00:27] Rafael Ancara.

[00:00:28] Olá, pessoal.

[00:00:30] Exame Liano Comunista.

[00:00:31] Alô, você.

[00:00:32] Tudo bom?

[00:00:33] Tudo bem.

[00:00:34] Então, ótimo.

[00:00:35] Gente, então, Anticast 169, Música e Estética.

[00:00:40] O programa que eu e o Beccari gravamos com o Tiago de Lima Castro,

[00:00:44] que já é ouvinte aqui há muito tempo, mas também é filósofo e músico.

[00:00:47] Ele já vai se apresentar.

[00:00:49] A gente vai passar uma meia hora inicial do programa só falando,

[00:00:53] o Beccari dando uma explanação sobre como que música foi encarada na filosofia.

[00:00:56] E depois a gente tem um papo com o Tiago, assim, mais pontual,

[00:01:00] sobre como que a música é percebida na própria arte, no pensamento, estético, enfim, tudo isso.

[00:01:05] Então, o programa está muito bom.

[00:01:07] Espero que…

[00:01:08] Já reclamaram da gente falando de música outras vezes, mas espero que gostem dessa vez.

[00:01:13] E agora a gente vai dar aqueles monte de recados.

[00:01:15] Se você quiser pular, dê uma olhada no post, tem a descrição certinha.

[00:01:18] Um recado antes de tudo isso.

[00:01:20] Como o programa ficou longo, está com umas duas horas, mais ou menos, o papo do Tiago,

[00:01:24] a gente separou a leitura de comentários.

[00:01:27] Então, hoje, a leitura de comentários…

[00:01:30] O comentário está num player abaixo desse.

[00:01:32] Inclusive, quem só gosta de ouvir leitura de comentários vai ficar mais fácil para vocês.

[00:01:35] E vai que, de repente, é o início da volta do Expresso, né?

[00:01:39] Por que não?

[00:01:40] Ixi!

[00:01:40] Não, não vamos fazer…

[00:01:42] Prometa.

[00:01:43] Não vamos fazer muito prometa.

[00:01:44] Sem alardes, né?

[00:01:45] Mas vamos lá.

[00:01:47] Começando aqueles recadinhos básicos,

[00:01:49] Patreon do Anticast rolando,

[00:01:52] muitos contribuintes já, muito obrigado.

[00:01:55] E para tornar a coisa mais atrativa,

[00:01:58] a gente vai…

[00:01:59] A gente criou novas recompensas, tá?

[00:02:02] Então, antes de eu falar do grande diferencial,

[00:02:09] vamos começar pelas recompensas aqui.

[00:02:12] A partir de um dólar, agora,

[00:02:14] você contribuindo todo mês um dólar,

[00:02:16] que, porra, não é um café na padaria,

[00:02:18] você vai poder participar da famosa Cracolândia,

[00:02:22] que é o local onde nós fazemos nossas elucubrações.

[00:02:27] Elucubrações.

[00:02:27] É só…

[00:02:28] E planos de dominação mundial e insultos bem educados,

[00:02:32] como sempre, né?

[00:02:33] Exato.

[00:02:34] Inclusive, se você está na Cracolândia,

[00:02:36] você sabia dessa gravação.

[00:02:38] Exatamente.

[00:02:39] Você sabia do tema do programa já,

[00:02:40] você já sabe o tema do programa da semana que vem,

[00:02:44] você está ajudando a montar novos temas, inclusive.

[00:02:47] Então, muito divertido.

[00:02:48] Tem gente que…

[00:02:50] Ou melhor, dados apontam que a produtividade do trabalho

[00:02:52] de muitos participantes da Cracolândia caiu em 75%.

[00:02:56] Ah, ah, ah.

[00:02:57] Ah, ah.

[00:02:58] Ah, ah.

[00:02:58] Quando o Gil usa o nome do grupo.

[00:02:59] Exato, porque é muito divertido mesmo, assim.

[00:03:02] Então, se você já é contribuinte, já faz parte da Cracolândia,

[00:03:05] se você quiser participar da Cracolândia,

[00:03:08] é só doar um dólar por mês lá no Patreon,

[00:03:11] o link está na postagem.

[00:03:12] Mas não para por aí as novas recompensas.

[00:03:15] A partir de cinco dólares, o Ivan, eu,

[00:03:18] eu vou ligar para você participar da introdução do Anticast.

[00:03:23] E o Guilherme, chuto, é o primeiro que vai participar.

[00:03:28] Então, ouçam aí como foi a minha conversa com o Guilherme.

[00:03:31] Alô.

[00:03:31] Ô, Guilherme, tudo bom?

[00:03:33] Opa, tudo bem?

[00:03:33] Então, Guilherme, eu estou vendo aqui que você, ali no Patreon,

[00:03:37] decidiu contribuir com a gente com 10 dólares por mês.

[00:03:41] É isso mesmo?

[00:03:42] Isso mesmo.

[00:03:42] Você não ficou louco nem nada.

[00:03:44] Isso é…

[00:03:45] Não, não, cara.

[00:03:46] Então, e você fez isso por espontânea, livre e espontânea vontade.

[00:03:50] Aham.

[00:03:50] Fiquei até feliz por poder contribuir assim, pelo Patreon.

[00:03:54] Maravilha.

[00:03:54] Então, primeiro, eu te agradecer por isso.

[00:03:57] E daí, eu queria…

[00:03:58] Eu queria que você falasse por que que decidiu contribuir com essa quantia para a gente.

[00:04:02] Então, fica aí à vontade.

[00:04:04] Primeiro, assim, porque acho que eu confio bastante, assim, no triângulo de vocês, né?

[00:04:09] Quando vocês tratam de algum assunto mais sério, assim,

[00:04:12] eu acho que eles têm muita propriedade para falar.

[00:04:14] E até quando alguém tem tanto, assim, esses convidados também são excelentes, né?

[00:04:18] É, a gente toma bastante cuidado de chamar a gente que entende do assunto

[00:04:22] quando a gente não entende.

[00:04:24] Não, mas acho muito bacana, assim.

[00:04:27] Enfim, para falar a minha verdade, nem sempre eu entendo, assim.

[00:04:31] Às vezes, eu não entendo quase nada do que eles falam.

[00:04:33] Ainda mais quando eu decario falando.

[00:04:35] É, eu sei.

[00:04:37] Mas faz parte da experiência.

[00:04:39] É, então.

[00:04:40] Mas, pelo menos, eu consigo um vocabulário para pagar um intelectual, né?

[00:04:45] Maravilha.

[00:04:46] Então, manda aí um recado para a galera, para a galera contribuir também.

[00:04:50] Pô, então…

[00:04:51] Ah, galera, contribuem aí, porque é o que o Ivan falou, né?

[00:04:54] São quatro episódios por mês.

[00:04:57] Eu fiz as contas aqui rapidão.

[00:05:00] Dá mais de oito horas de conteúdo, né?

[00:05:02] Então, e de graça, né?

[00:05:05] Isso.

[00:05:06] Você vai estar pagando agora, né, Maria Graça?

[00:05:09] Ah, é verdade.

[00:05:11] E, assim, podcast é uma mídia muito legal, né?

[00:05:14] Eu curto, pelo menos.

[00:05:15] Dá para escutar no carro, lavando louça.

[00:05:18] Lavar louça é bem melhor que escutar muito podcast.

[00:05:21] Ah, sem dúvida.

[00:05:22] Então, Guilherme, aproveitando,

[00:05:24] eu vi aqui que você…

[00:05:27] Com essa contribuição, né?

[00:05:28] A gente está criando uma nova recompensa

[00:05:32] e a gente está querendo oferecer vagas

[00:05:36] para, assim, sortear alguma vaga

[00:05:38] de algum workshop que a gente dá.

[00:05:40] Então, eu, no caso, vou dar uma oficina em abril

[00:05:42] de oficina literária, né?

[00:05:44] Via Hangout.

[00:05:45] E gostaria que você participasse, cara,

[00:05:47] já que você está contribuindo com a gente.

[00:05:49] Então, estou te convidando.

[00:05:50] Pô, eu aceito, cara.

[00:05:52] Com muito prazer.

[00:05:53] Maravilha.

[00:05:53] Então, vamos escrever textos, ler textos e…

[00:05:57] Em abril, a gente…

[00:05:58] Será um prazer ser seu professor durante dois dias.

[00:06:01] Beleza.

[00:06:02] Beleza?

[00:06:03] Cara, então, muito obrigado.

[00:06:06] E eu…

[00:06:07] Vamos lá, então.

[00:06:08] Continue aí.

[00:06:09] Obrigado de novo.

[00:06:10] A gente vai se falando, então.

[00:06:11] Mais um dia.

[00:06:12] Eu que agradeço.

[00:06:13] Tá, valeu, bicho.

[00:06:14] Até mais.

[00:06:15] Bom, então, se você quer fazer como o Guilherme

[00:06:17] e participar da Introdução Nortecast

[00:06:19] e você vai poder falar sobre qualquer coisa,

[00:06:21] você pode fazer jabá do teu blog,

[00:06:22] do teu podcast,

[00:06:23] você pode, sei lá, vender o seu carro,

[00:06:27] ou pedidos de casamento.

[00:06:29] Imagine, que bacana.

[00:06:31] Que louco isso, hein?

[00:06:32] Você pode falar qualquer coisa.

[00:06:33] Só para isso, é a partir de 5 dólares.

[00:06:36] Daí, cada programa, eu vou sortear um ouvinte

[00:06:38] a partir de 5 dólares

[00:06:39] para participar da introdução.

[00:06:42] Se você quiser doar mais,

[00:06:43] você também corre o risco de ser chamado para cá.

[00:06:46] Por exemplo, a partir de 10 dólares,

[00:06:49] você também pode ser chamado para participar da introdução,

[00:06:51] como o Guilherme.

[00:06:52] E o Guilherme, como vocês sabem,

[00:06:54] ele ganhou uma vaga

[00:06:56] num workshop meu de literatura.

[00:06:58] Porque nós vamos sortear isso por mês,

[00:07:02] uma vaga em algum workshop que a gente faz,

[00:07:05] a partir da categoria de 10 dólares.

[00:07:07] E a partir de 25 dólares,

[00:07:10] após 3 meses contribuindo,

[00:07:11] porque nada é fácil nessa vida também, né?

[00:07:13] Não vai ser tão simples assim.

[00:07:15] Mas você terá direito a uma consultoria acadêmica

[00:07:18] de uma hora via Skype,

[00:07:20] comigo, com o Becari ou com o Ankara.

[00:07:22] Eu, por exemplo, posso dar uma consultoria acadêmica

[00:07:25] sobre o seu TCC,

[00:07:26] sobre o seu artigo,

[00:07:28] sobre o, sei lá,

[00:07:30] sobre algum texto literário que você esteja escrevendo.

[00:07:32] O Becari, muito próximo disso também,

[00:07:35] de filosofia, aquarela.

[00:07:37] Olha só.

[00:07:38] E o Ankara, infografia, como sempre.

[00:07:41] Infografia, design da informação.

[00:07:42] Isso.

[00:07:43] Qualquer coisa dessas porra aí,

[00:07:45] nós teremos o maior prazer em ser seu professor

[00:07:48] durante uma hora por mês no Skype.

[00:07:51] Lembrando que tem que ter uma carência de 3 meses

[00:07:53] contribuindo com 25 dólares, tá?

[00:07:54] Então, não venha com essa.

[00:07:56] Tipo, ah, agora eu sou, eu quero minha consultoria amanhã.

[00:07:58] Não, não, não.

[00:08:00] Calma lá, meu amigo.

[00:08:01] Então, eu conferi esse dízimo aí,

[00:08:03] tá pagando o carnê direitinho,

[00:08:05] aí você pode sacar o…

[00:08:07] Lembrando que são consultorias acadêmicas

[00:08:11] não exatamente profissionais.

[00:08:14] Ah, é, né?

[00:08:14] Não vai dizer assim,

[00:08:15] ah, você pode vir no meu escritório aqui?

[00:08:17] Não, não, não vou.

[00:08:19] Ah, você pode ajudar num projeto?

[00:08:20] Não, não pode, tá?

[00:08:21] Agora, TCC, artigo ou coisas assim,

[00:08:25] que não servem pra nada, tipo literatura.

[00:08:28] É, quero fazer um projeto

[00:08:29] pra tentar mestrado em uma puta que pariu.

[00:08:32] Ah, boa, boa, boa.

[00:08:34] Sim, meu artigo pra pós que eu tô fazendo

[00:08:37] ou pra uma matéria, é nóis.

[00:08:39] Agora, quando você vem com um negócio,

[00:08:41] eu quero fazer um projeto pra ganhar dinheiro,

[00:08:43] aí…

[00:08:45] Daí, mas faz sem ensinar, gente.

[00:08:47] Exatamente.

[00:08:48] E lembrando que temos mais duas categorias também,

[00:08:50] essas as recompensas mantêm-se a mesma,

[00:08:52] das 50 dólares, por exemplo,

[00:08:53] que já tá quase acabando,

[00:08:54] impressionante, né?

[00:08:55] Categoria Jared Leto.

[00:08:57] Você ganha um original do Beccari,

[00:08:59] só que não é aquarela,

[00:09:01] não peça uma aquarela,

[00:09:02] que ele não vai ganhar aquarela,

[00:09:04] ele não vai conseguir essas aquarelas tão fácil,

[00:09:06] mas é um original dele em carvão ou grafite,

[00:09:09] correto, Beccari?

[00:09:10] Isso.

[00:09:11] E além de livros também,

[00:09:13] que você pode concorrer,

[00:09:14] todas as recompensas que a gente já ofereceu

[00:09:17] mantêm-se.

[00:09:18] E também tem a categoria pra anunciantes,

[00:09:21] que é 400 dólares por mês.

[00:09:24] Então, daí você pode anunciar

[00:09:26] uma vez por mês no Anticast.

[00:09:27] Então, se você tem uma empresa,

[00:09:28] um produto, um serviço,

[00:09:29] queira anunciar,

[00:09:30] você pode contribuir só um mês

[00:09:31] e já tem o seu nome anunciado aqui,

[00:09:33] sem problemas.

[00:09:35] E é isso.

[00:09:36] O Patreon, nos ajudem lá,

[00:09:38] porque já vai começar a aparecer coisa nova

[00:09:40] com essa contribuição que já temos lá.

[00:09:43] Então, fiquem de olho.

[00:09:45] E, Beccari.

[00:09:47] Oi.

[00:09:47] Reza os seus recados, por favor.

[00:09:49] Manda um recado,

[00:09:50] depois você manda outro.

[00:09:51] Eu estranhei aí,

[00:09:54] estranhar é uma palavra muito forte.

[00:09:56] Mas, saiu um mini-conto meu,

[00:09:59] mini, porque é uma página só,

[00:10:01] no Jornal Relívo.

[00:10:02] É um jornal de literatura aqui de Curitiba.

[00:10:05] Daí eu deixo o link aí na postagem

[00:10:06] pra quem quiser dar uma olhada

[00:10:08] e, enfim, dar um feedback.

[00:10:10] Olha o Beccari virando escritor também agora.

[00:10:14] Que show.

[00:10:15] Querendo roubar o emprego dos outros.

[00:10:17] Pau no cu.

[00:10:18] A Sonara Souza falou pra mim que, cara,

[00:10:20] todo mundo é escritor.

[00:10:22] Eu vou…

[00:10:24] Eu vou começar a pintar aquarela também, Beccari, agora.

[00:10:26] Eu acho que todo mundo é desenhista.

[00:10:28] Não, não, não.

[00:10:30] Eu fujo a regra, cara.

[00:10:32] Nas cavernas aqui na minha cidade,

[00:10:33] eu vou ver se eu boto alguma coisa na parede, né?

[00:10:35] Tura seu pés.

[00:10:37] Tá certo.

[00:10:39] E também falando de literatura,

[00:10:40] saiu uma resenha nova do meu livro

[00:10:42] lá no site Letor Cabuloso.

[00:10:43] Queria agradecer muito a Domênica,

[00:10:45] ou Dominica,

[00:10:46] não sei como é que pronuncia.

[00:10:47] E ficou muito bacana,

[00:10:48] o link tá na postagem.

[00:10:50] Zamiliano, manda aí.

[00:10:51] Então, galera,

[00:10:52] eu voltei a produzir vídeos.

[00:10:54] Não sei por quanto tempo isso vai durar,

[00:10:56] mas estamos lá, né?

[00:10:57] Bicha, viado.

[00:10:59] Viado!

[00:11:00] Não tem Patreon ainda,

[00:11:01] porque provavelmente se eu fizer isso,

[00:11:02] vão me deixar no negativo.

[00:11:05] Mas vamos lá.

[00:11:06] O último vídeo foi sobre Hora de Aventura.

[00:11:08] Olha aí.

[00:11:09] Ficou muito bacana, cara.

[00:11:10] Eu assisti…

[00:11:10] E a gravação foi uma merda.

[00:11:12] Eu salvei tudo na edição.

[00:11:13] Olha aí.

[00:11:15] Seus Zamilianis, editor.

[00:11:18] Quanto é que você cobra a edição?

[00:11:19] Depois a gente conversa sobre isso.

[00:11:20] Vamos bater papo.

[00:11:21] Vamos lá.

[00:11:23] Becari,

[00:11:24] um recado teu aí.

[00:11:25] Eu abri um blog

[00:11:27] voltado mais para os meus alunos,

[00:11:29] na verdade,

[00:11:30] que tem, enfim,

[00:11:31] as questões que eu trabalho em sala,

[00:11:34] chamado Arts de Senho,

[00:11:36] que é em latim,

[00:11:37] a arte do desenho.

[00:11:38] E é do…

[00:11:40] Enfim,

[00:11:41] ele tá vinculado lá

[00:11:42] ao departamento de design,

[00:11:43] no site do departamento de design,

[00:11:45] mas eu fiz isso mais também

[00:11:47] com o intuito de compartilhar

[00:11:50] o conteúdo acadêmico

[00:11:53] sobre desenho,

[00:11:53] que eu tenho desenvolvido

[00:11:54] em sala de aula.

[00:11:56] Algumas pessoas me pedem e tal.

[00:11:57] Enfim, dá uma olhada lá também.

[00:12:00] É um blog bem acadêmico,

[00:12:01] o template padrão do WordPress,

[00:12:03] gratuito.

[00:12:04] Foda-se, assim.

[00:12:05] É só para…

[00:12:06] É só para, enfim,

[00:12:09] abrir aí o leque.

[00:12:11] Mas dá para achar tudo,

[00:12:12] então isso que é importante.

[00:12:14] Então, maravilha.

[00:12:15] E sobre workshops,

[00:12:18] bom lembrar, então,

[00:12:19] que tem novas datas,

[00:12:21] Ankara, certo,

[00:12:22] dos seus workshops,

[00:12:23] correto?

[00:12:23] Sim.

[00:12:23] Não, na verdade,

[00:12:25] a gente já falou do de Belo Horizonte,

[00:12:26] tem em Belo Horizonte,

[00:12:27] tem uma data,

[00:12:28] 21 de março,

[00:12:29] olha ali no post.

[00:12:30] É, no post.

[00:12:31] E Curitiba?

[00:12:32] Curitiba é 7 de março.

[00:12:34] E São Paulo?

[00:12:35] São Paulo eu tô vendo hoje.

[00:12:38] Certo, maravilha.

[00:12:39] Então, as datas estão atualizadas ali

[00:12:42] do workshop do Ankara

[00:12:43] e eu também tenho meus workshops,

[00:12:45] o meu workshop de História da Arte

[00:12:46] em São Paulo

[00:12:47] e também abri duas oficinas de literatura,

[00:12:49] uma em Curitiba

[00:12:50] e outra via Hangout,

[00:12:51] link tá na postagem.

[00:12:52] E eu também,

[00:12:53] e é isso,

[00:12:54] dêem uma olhada no…

[00:12:55] Posso só acrescentar um detalhezinho?

[00:12:57] Desculpa.

[00:12:57] Vai, vai, vai.

[00:12:59] Lá nesse meu blog

[00:13:00] tem também uma sessão

[00:13:01] chamada Workshops,

[00:13:02] que é mais pra curso de extensão,

[00:13:05] daí eu deixei uma enquete,

[00:13:06] quem tiver interesse,

[00:13:08] vota lá,

[00:13:09] eu deixei alguns workshops padrão,

[00:13:11] também com um campo

[00:13:13] pra você sugerir um tema,

[00:13:15] daí, enfim,

[00:13:16] tem muita gente me pedindo

[00:13:17] um workshop aí de aquarela e tal,

[00:13:19] tá lá o espaço pra isso.

[00:13:21] Maravilha, então.

[00:13:21] Então, entra lá no site do Becari,

[00:13:23] entra em tudo,

[00:13:24] faz o que você quiser.

[00:13:26] E vamos pro programa,

[00:13:27] lembrando, então,

[00:13:28] que eu vou me juntar de novo

[00:13:29] com esses três maloqueiros

[00:13:30] na leitura de comentários,

[00:13:32] que é um programa separado,

[00:13:33] então, ao fim do programa,

[00:13:34] não tem leitura de comentários,

[00:13:35] vai ter no player embaixo.

[00:13:37] No player embaixo, exato.

[00:13:38] Boa.

[00:13:38] Então é isso,

[00:13:39] fiquem agora com o programa.

[00:13:53] Boa noite, olá.

[00:14:11] O nosso menino trágico,

[00:14:13] a estrela trágica do podcast.

[00:14:15] Sou eu.

[00:14:16] E temos um convidado aí,

[00:14:19] que é ouvinte há um monte de tempo,

[00:14:21] sempre comenta ali com a gente,

[00:14:22] então,

[00:14:23] Tiago de Lima Castro,

[00:14:24] tudo bom, Tiago?

[00:14:25] Tudo ótimo.

[00:14:26] Maravilha.

[00:14:27] Tiago, então,

[00:14:28] como é a sua primeira vez aqui no podcast,

[00:14:30] os ouvintes precisam te conhecer.

[00:14:33] A gente já falou de você algumas vezes aqui,

[00:14:35] mas, por favor,

[00:14:36] agora se introduza.

[00:14:37] O que você fez?

[00:14:38] Quem você é?

[00:14:39] Fale um pouquinho aí da tua formação, por favor.

[00:14:42] Bom, primeiro eu acho que eu sou um ser humano,

[00:14:44] ou não, né?

[00:14:45] Não, ninguém é.

[00:14:47] Ninguém é.

[00:14:49] O pior que somos.

[00:14:51] O pior tipo de gente.

[00:14:53] Então, eu sou um cara que trabalha com música,

[00:15:00] tenho formação em filosofia também,

[00:15:03] fiz uma passagem estranha pela área de análise de sistemas,

[00:15:09] mas aí eu desisti há tempo, né?

[00:15:16] Mas você tem a maior cara de programador, assim,

[00:15:20] um cientista de computação,

[00:15:22] essas coisas, assim.

[00:15:24] É, cara.

[00:15:26] Teve uma fase, assim,

[00:15:28] quando eu estava quase enlouquecendo,

[00:15:30] resolvi, não, vou virar músico de vez mesmo, né?

[00:15:33] O cabelo comprido serve para as duas coisas.

[00:15:35] Exatamente, né, cara?

[00:15:38] E economiza dinheiro com o barbeiro também, né?

[00:15:40] Que tem o seu lado bom.

[00:15:41] Sei, sei.

[00:15:42] Tem o lado bom.

[00:15:43] E atualmente eu tenho feito mestrado, né,

[00:15:46] em musicologia,

[00:15:47] especificamente nessa parte de estética musical.

[00:15:50] É, ou seja,

[00:15:51] tentando entender,

[00:15:52] música como um objeto filosófico, né?

[00:15:55] Esse sentido de estética que a gente está falando, né?

[00:15:58] Isso, isso daí mesmo.

[00:16:00] Qual que é, daí, a tua base teórica

[00:16:02] que você está fazendo no teu mestrado?

[00:16:05] A base teórica que eu estou fazendo

[00:16:08] é o momento do século XVI,

[00:16:11] como que a música e a razão se juntam com…

[00:16:16] Vou discutir autores como o Descartes, o Zarlino,

[00:16:19] como que eles fizeram,

[00:16:21] como eles tentaram relacionar a música,

[00:16:22] a música com razão.

[00:16:24] Que é uma forma um pouco mais específica.

[00:16:29] Essa relação entre música e razão

[00:16:31] é buscada desde a antiguidade.

[00:16:33] Pitágoras,

[00:16:35] Platão,

[00:16:36] e por aí vai.

[00:16:40] Só que o meu problema pessoal

[00:16:43] é como que isso se dá na modernidade.

[00:16:47] A partir do século XV e XVI, né?

[00:16:49] Isso, exatamente.

[00:16:50] É, que é o tal do renascimento, né?

[00:16:52] Europeu, que muita gente coloca, né?

[00:16:54] Sim.

[00:16:56] E acho que só uma curiosidade também

[00:16:57] para aqueles que leram o meu livro

[00:16:59] até o fim da queda,

[00:17:00] vocês estão falando agora também

[00:17:02] com o Miguel Ruas.

[00:17:04] Olha aí.

[00:17:05] O suicida.

[00:17:07] Olha aí.

[00:17:09] Olha.

[00:17:10] A live, né?

[00:17:11] É, isso aí.

[00:17:12] Então, muito obrigado por ter decidido

[00:17:15] sua foto ali, caiu perfeitamente

[00:17:16] para o personagem que eu queria.

[00:17:19] É, cara.

[00:17:19] Eu ainda quero pegar o seu livro

[00:17:22] e sorrateiramente esquecê-lo

[00:17:26] numa sala de aula.

[00:17:28] Para ver o que os pais

[00:17:30] me falam depois.

[00:17:32] Se quiser, eu te mando

[00:17:33] só a página que você aparece

[00:17:35] em alta definição, assim, para você imprimir

[00:17:37] e fazer um cartaz também.

[00:17:39] E vale lembrar que o Thiago

[00:17:42] também já postou…

[00:17:44] Foi um ou dois textos, Thiago?

[00:17:46] Lá no Filosofia do Design.

[00:17:48] Foi um texto.

[00:17:49] Foi um texto só.

[00:17:50] Ah, é verdade.

[00:17:52] Não, é lá.

[00:17:54] Mas é, inclusive, sobre estética.

[00:17:56] Eu estou devendo há quatro anos para o Becai

[00:17:57] um texto novo.

[00:17:58] Está vendo?

[00:18:00] Tudo bem.

[00:18:01] Tudo bem.

[00:18:02] Mas…

[00:18:02] E eu acho que…

[00:18:04] Eu não sei se a ideia foi essa

[00:18:05] desse programa, mas em algum programa

[00:18:07] que eu jamais vou lembrar qual,

[00:18:09] eu tinha comentado alguma coisa

[00:18:11] sobre estética musical.

[00:18:13] E eu acho que foi na leitura

[00:18:14] de comentários, enfim.

[00:18:16] Aí o Thiago comentou,

[00:18:18] enfim, complementando e tal,

[00:18:19] o que eu disse.

[00:18:19] E eu não sei se foi isso que gerou.

[00:18:22] O que eu me lembro,

[00:18:23] eu vou tentar puxar aqui de memória,

[00:18:25] mas eu acho que foi alguma coisa assim.

[00:18:26] A gente fez aquele programa sobre estética,

[00:18:28] que foi memorável,

[00:18:30] porque você demorou duas horas

[00:18:31] para chegar no ponto que você queria.

[00:18:34] E daí,

[00:18:36] em uma leitura de comentários depois,

[00:18:38] ainda referente à questão de estética,

[00:18:40] o Ankara levantou a questão

[00:18:41] que a gente fala muito sobre estética visual,

[00:18:43] mas nunca fala muito da relação com música.

[00:18:46] E daí o Thiago fez algumas referências.

[00:18:49] O que eu tinha comentado

[00:18:51] é que a música,

[00:18:52] por ela não lidar tradicionalmente

[00:18:54] com representações,

[00:18:56] com objetos, com imagens,

[00:18:58] ela tem uma tradição

[00:19:00] no pensamento ocidental

[00:19:03] de ser relacionada

[00:19:05] à metafísica.

[00:19:06] Acho que foi isso que eu comentei.

[00:19:07] Alguma coisa, aquele debate…

[00:19:10] É que tem um debate clássico na filosofia,

[00:19:11] acho que a gente já pode começar aí,

[00:19:13] quando começa em estética, de qual seria a arte

[00:19:16] que mais se aproxima de uma representação

[00:19:18] pura do belo, vamos dizer assim.

[00:19:20] Então, exatamente.

[00:19:21] E a questão é que,

[00:19:22] na tradição platônica,

[00:19:25] socrático-platônica,

[00:19:26] a música, ela adquiriu…

[00:19:29] Na verdade, o Platão pega isso

[00:19:31] da música das esferas do Pitágoras.

[00:19:36] Pitágoras, enfim, todo mundo já deve ter visto

[00:19:38] aquele filme do Pato Donald.

[00:19:40] E tem o teorema de Pitágoras também.

[00:19:42] Exatamente.

[00:19:44] Mas Pitágoras juntava matemática,

[00:19:46] música…

[00:19:47] Misticismo.

[00:19:48] Exatamente.

[00:19:49] E daí o Platão é o cara

[00:19:51] que tenta…

[00:19:52] De certa forma, sistematizar todas essas

[00:19:54] filosofias pré-socráticas, incluindo

[00:19:56] Pitágoras, Heráclito,

[00:19:59] Parmênides e tal,

[00:20:00] para fundamentar a teoria dele.

[00:20:02] Em vários sentidos, a gente pode dizer, inclusive,

[00:20:04] que ele junta todas elas.

[00:20:06] Claro que de uma maneira particular.

[00:20:10] O mundo

[00:20:10] imóvel do

[00:20:12] Parmênides é

[00:20:15] o mundo das ideias do Platão.

[00:20:16] O mundo móvel,

[00:20:18] em constante movimento do Heráclito,

[00:20:20] é onde o Platão está.

[00:20:22] O mundo que a gente vive.

[00:20:24] Que é uma cópia distorcida

[00:20:25] do mundo real.

[00:20:27] E a música, pegando

[00:20:29] o lance do Pitágoras,

[00:20:32] é uma das formas

[00:20:33] de arte.

[00:20:36] Aí que está. Se não for

[00:20:37] poesia, se não for uma música

[00:20:40] cantada, são as músicas

[00:20:42] justamente das esferas

[00:20:43] que Platão permite na República.

[00:20:47] Platão é extremamente severo

[00:20:50] na condenação dos artistas,

[00:20:52] né? Isso é meio conhecido, né?

[00:20:54] No livro X da República,

[00:20:56] ele fala exatamente quais artistas podem

[00:20:57] e quais não podem e tal.

[00:20:59] Os poetas são os primeiros, né?

[00:21:02] Aí, enfim,

[00:21:03] os pintores, os escultores vão indo

[00:21:06] junto. E daí o que acontece, assim,

[00:21:08] a música,

[00:21:09] produzida justamente não

[00:21:11] para tragédias, não para teatro,

[00:21:14] mas uma música específica,

[00:21:15] assim como, fazer uma comparação,

[00:21:17] os sólidos e geométricos

[00:21:19] platônicos, né? São uma

[00:21:22] forma, digamos, de arte,

[00:21:23] digamos, né? Com aspas, que

[00:21:25] dão acesso às ideias,

[00:21:27] às formas puras, né? É, porque ela tem

[00:21:29] ela se provém de uma

[00:21:31] de uma desmaterialidade,

[00:21:34] digamos assim, né? Exatamente.

[00:21:36] Assim como a nota musical. A nota musical

[00:21:38] é tão abstrata que você não

[00:21:40] não se foca no material.

[00:21:42] Então, por isso, ela se aproxima da ideia.

[00:21:44] É, a ideia é que, tipo assim,

[00:21:45] a gente nunca vai encontrar na natureza, no mundo

[00:21:47] em que a gente vive, um círculo perfeito,

[00:21:50] né? Assim como a gente não vai encontrar um

[00:21:51] quadrado perfeito e todas as geométricas

[00:21:53] mesmas se a gente desenhar perfeitamente,

[00:21:56] né? Então, essas formas

[00:21:57] são essenciais, né? Elas são

[00:21:59] verdadeiras. Elas, justamente,

[00:22:02] e o nosso mundo, por não ter essa

[00:22:03] forma verdadeira, ele comprova que é uma

[00:22:05] cópia mal feita

[00:22:07] desse mundo verdadeiro.

[00:22:10] Enfim, daí o círculo dá

[00:22:11] esse indício, né? E daí, assim,

[00:22:13] em música, pelo que eu me lembro, em Platão

[00:22:15] tem um livro dele chamado Ion,

[00:22:18] né? O Ion de Platão.

[00:22:20] Ion é um rapisodo,

[00:22:21] um intérprete,

[00:22:23] né? Ele declama

[00:22:25] as poesias do Homero,

[00:22:27] se eu não me engano, tá? Me perdoe, Thiago,

[00:22:29] aproximadamente você vê…

[00:22:31] É isso mesmo.

[00:22:34] Qualquer bobagem que a gente

[00:22:35] falar, que a gente fala muito, você

[00:22:37] intervém, né? Exatamente.

[00:22:39] Não, não é bem assim.

[00:22:43] E o Ion…

[00:22:44] O Ion é um rapisodo, tal.

[00:22:46] Ele declamava, né?

[00:22:49] Como era comum, as poesias do Homero,

[00:22:51] eram cantando, tá certo?

[00:22:53] E daí, o Sócrates,

[00:22:55] nesse livro, né?

[00:22:57] Sócrates de Platão. É, o Sócrates platônico,

[00:22:59] isso é importante. Não é o Sócrates

[00:23:01] de verdade.

[00:23:03] É, é um jogador de futebol.

[00:23:06] Boa.

[00:23:07] Ele fala que

[00:23:09] assim, tipo,

[00:23:11] ele só consegue declamar dessa forma

[00:23:13] porque o Ion, ele declama chorando,

[00:23:16] né? Ele se emociona

[00:23:17] e tal. Aí o Sócrates fala que ele só

[00:23:19] consegue declamar dessa forma,

[00:23:21] porque ele tá possuído

[00:23:23] por um demônio, né? Tanto que se você

[00:23:25] for perguntar pra ele

[00:23:27] qual que é o sentido daquilo que ele

[00:23:29] tá falando, o Ion não sabe responder

[00:23:31] assim, racionalmente, né?

[00:23:34] Ele, digamos… Assim,

[00:23:35] na narrativa do Platão, o Ion é só um

[00:23:38] um emo, assim, que só

[00:23:39] chora, sabe?

[00:23:43] Ele acha

[00:23:43] tudo muito lindo, assim.

[00:23:45] E você aí xingando o emo e se achando

[00:23:47] ótimo, né?

[00:23:48] Não sou eu.

[00:23:50] Eu só tenho, o quê? 4 mil anos.

[00:23:51] 4 mil anos de perseguição, aí.

[00:23:53] Então, é.

[00:23:55] E daí o Sócrates

[00:23:58] fala que o

[00:23:59] intérprete, né? Ele, na verdade,

[00:24:01] faz um elo entre

[00:24:03] o…

[00:24:06] a…

[00:24:07] digamos, uma mensagem dos deuses

[00:24:09] que foi, enfim, alcançada por

[00:24:11] Homero e tal. Ele faz um elo

[00:24:13] dessa mensagem originalmente

[00:24:15] transcrita por Homero pro interlocutor

[00:24:18] e por isso que ele é possuído por um

[00:24:19] demônio e tal. Esse demônio,

[00:24:21] pra Platão, aí a gente já tá

[00:24:23] entrando em Platão, é, digamos, aquilo

[00:24:25] que a gente chamaria hoje de

[00:24:27] registro estético.

[00:24:29] Por quê? Porque ele se opõe ao registro

[00:24:31] racional, né?

[00:24:33] Então, os demônios do Sócrates

[00:24:35] são aquilo que impede ele de acessar

[00:24:37] a razão, que impede, portanto, o Ion

[00:24:39] de acessar a razão, e daí que

[00:24:41] essas artes

[00:24:43] demoníacas, pra assim dizer,

[00:24:45] elas são, assim,

[00:24:47] no viés platônico,

[00:24:49] a maior parte delas,

[00:24:51] contrárias à razão, exceto

[00:24:53] enfim, algumas, né?

[00:24:57] Daí, assim,

[00:24:58] eu tinha

[00:24:59] levantado essa bola que música não lida com

[00:25:01] representações, né? Como acontece

[00:25:03] tradicionalmente nas artes plásticas

[00:25:05] ou na poesia, e daí alguém pode falar

[00:25:07] ah, mas o abstracionismo é uma pintura

[00:25:09] que não lida com representações.

[00:25:11] Mas o abstracionismo é um movimento relativamente

[00:25:13] recente na história, o Ion

[00:25:15] não me deixa mentir, né?

[00:25:16] Não, não deixa.

[00:25:19] E o Kandinsky, que é um dos representantes

[00:25:20] aí, né, do abstracionismo,

[00:25:23] ele propunha justamente uma pintura

[00:25:24] baseada na música, né?

[00:25:26] Então, assim, é interessante a gente

[00:25:28] ver como a música, ela

[00:25:30] permanece, assim,

[00:25:32] de uma maneira predominante

[00:25:34] no pensamento ocidental, como sendo

[00:25:36] uma arte mais pura, mais elevada.

[00:25:39] Essa, inclusive, era

[00:25:40] a desculpa pra muitos abstracionistas

[00:25:43] do… a primeira leva

[00:25:44] de abstracionistas, né? O próprio Kandinsky

[00:25:46] se citou, assim, desmaterializar

[00:25:49] a forma, né, através de…

[00:25:50] A gente pode voltar ao William Turner, né?

[00:25:52] O William Turner também, mas é que o nosso

[00:25:54] amigo Felipe Aires está concorrendo ao Oscar

[00:25:57] aí, né, ainda, por ter sido

[00:25:58] figurante no filme, do Turner.

[00:26:01] Mas, além

[00:26:02] disso, o próprio…

[00:26:04] O Mondrian também vai se apoiar muito

[00:26:06] em música, né, pra fazer seus

[00:26:08] quadradinhos coloridos,

[00:26:10] né? Então, a música

[00:26:12] ela acaba virando um modelo pra muitas

[00:26:14] estéticas formais, né, que a gente

[00:26:16] vai ter na… Formalistas, né?

[00:26:18] Formalistas, né, que a gente vai ter no século XX.

[00:26:20] Exatamente, mesmo. Inclusive, na literatura

[00:26:22] com formalismo russo,

[00:26:24] tem um pouco, assim, de como…

[00:26:26] Assim, o texto tem que ser uma…

[00:26:29] O Lissitzky, um pouco disso, de repente?

[00:26:31] É, mas daí já não é literatura,

[00:26:32] né? Daí é de ir pro

[00:26:34] design ou artes plásticas, assim.

[00:26:37] Fotocomposição, sei lá, colagem,

[00:26:38] né? Mas o formalismo russo é justamente

[00:26:40] de…

[00:26:42] entender o texto como

[00:26:44] uma…

[00:26:45] partitura, né? É, eu tava pensando no

[00:26:48] Malevich, desculpe. O Malevich,

[00:26:50] acho que faz alguma coisa assim. Ah, do quadrado branco sobre branco?

[00:26:52] É, o Malevich no quadrado

[00:26:54] branco sobre branco e também o

[00:26:56] Mayakovsky. O Mayakovsky

[00:26:58] que também maçou. O Mayakovsky é um representante

[00:27:00] justamente do formalismo russo, né?

[00:27:02] Aham, isso. O Malevich, ele quebra

[00:27:04] lá com tudo.

[00:27:06] Mas, enfim, o lance, pra gente

[00:27:08] não ficar se enrolando muito e chegar direto na

[00:27:10] música, é que essa ideia da

[00:27:12] música ser uma conexão com alguma coisa

[00:27:14] maior, com o mundo das ideias,

[00:27:16] enfim, metafísica em geral, né?

[00:27:18] É uma coisa que predomina,

[00:27:20] né? E volta com muita força

[00:27:22] no romantismo, né?

[00:27:24] Aí a gente tem Hegel,

[00:27:26] assim, aí que tá, cada

[00:27:28] qual de maneira diferente, né? Hegel

[00:27:30] cante Schopenhauer, né? Falando

[00:27:32] de música aí, e daí o Nietzsche entra.

[00:27:34] Enfim, eu, assim, de certa forma…

[00:27:36] E todos esses caras elevam a música

[00:27:38] a um patamar de… Isso, exatamente.

[00:27:40] Mas aí que tá, de maneiras bem diferentes,

[00:27:42] né? Porque o Hegel contraria Kant,

[00:27:44] Schopenhauer contraria Hegel.

[00:27:47] Então… Mas, de fato…

[00:27:48] Todo mundo concorda que música é foda,

[00:27:50] mas de maneiras… Inclusive Nietzsche.

[00:27:53] Exatamente. Inclusive o Nietzsche,

[00:27:54] que vai contra os três, né?

[00:27:57] E contra o Platão

[00:27:58] também. E, se

[00:28:00] for o caso, eu explico, assim, o mais breve

[00:28:02] possível como cada um entendia a música,

[00:28:04] tá? Pra gente

[00:28:06] daí abrir pra discussão.

[00:28:09] O Hegel,

[00:28:10] assim, com o

[00:28:12] idealismo dele, né? De certa

[00:28:14] forma, no que se trata especificamente

[00:28:16] a música, ele é muito parecido com o Platão.

[00:28:18] Só que ao invés de ser um…

[00:28:20] A música como acesso

[00:28:21] ao mundo das ideias, né? E lembrando que

[00:28:24] Platão joga fora a maior

[00:28:26] parte das músicas, tá?

[00:28:29] Predominantemente, Platão não gosta de

[00:28:30] música, como Pitágoras gostava, né?

[00:28:33] O Hegel fala que a música

[00:28:34] é um portal pra uma

[00:28:36] dimensão do real, justamente.

[00:28:38] Aquele que está além do

[00:28:40] fenomênico. Ou seja, pra além

[00:28:42] desse… Dos nossos sentidos,

[00:28:44] basicamente. Então, a música

[00:28:46] é uma forma de abstrair os nossos

[00:28:48] sentidos, que são enganadores,

[00:28:50] né? Ou, nas palavras dele,

[00:28:52] aquela aparência necessária pra dialética,

[00:28:54] né? E a música seria essa antítese

[00:28:56] dialética, que nos leva a uma

[00:28:58] síntese de elevação do saber

[00:29:00] absoluto, certo?

[00:29:02] Saber absoluto pra ele, que é uma

[00:29:04] coisa, assim, que…

[00:29:06] Assim, muitos hegelianos me

[00:29:08] xingariam muito, mas o saber

[00:29:10] absoluto, pra mim, eu não vejo muita diferença com

[00:29:12] muita diferença com o mundo

[00:29:14] platônico das ideias, tá?

[00:29:15] Mas, enfim, isso é a forma

[00:29:18] dele contrariar Kant, porque Kant,

[00:29:20] diz que não há

[00:29:21] possibilidade de

[00:29:23] você

[00:29:24] acessar fora do…

[00:29:28] acessar o mundo fora dos

[00:29:30] fenômenos percebidos pelos sentidos,

[00:29:32] né? Essa é a novidade kantiana.

[00:29:35] Ele fala

[00:29:36] que existem limites

[00:29:37] da razão humana, né?

[00:29:40] E são justamente os fenômenos,

[00:29:42] os nossos sentidos, e no caso, pra ele,

[00:29:44] a música é aquilo que

[00:29:46] desativa,

[00:29:49] né? A razão,

[00:29:50] a razão humana, aquilo que ele chama…

[00:29:52] Isso é estética, de modo geral, pra ele, né?

[00:29:54] De razão desinteressada.

[00:29:56] Não é razão desinteressada, é alguma

[00:29:58] coisa desinteressada.

[00:29:59] É ação desinteressada. E a música, justamente,

[00:30:02] seria essa, que não tem, digamos, uma

[00:30:04] apropriação

[00:30:05] dos interesses dos nossos sentidos,

[00:30:08] e, portanto, essa é a contemplação estética

[00:30:10] pra Kant, né? Agora, o que

[00:30:12] eu acho interessante é o

[00:30:14] Schopenhauer, que tenta

[00:30:15] ir contra o Hegel, contra o idealismo

[00:30:18] hegeliano, lembrando que os

[00:30:20] reis aqui são alemães, né?

[00:30:22] E a ordem é

[00:30:24] Kant primeiro, depois Hegel,

[00:30:26] e depois Schopenhauer. O Schopenhauer, ele

[00:30:28] tenta, basicamente, conciliar o Platão com

[00:30:30] Kant, pra contrariar o Hegel.

[00:30:32] Então, ele vê na experiência

[00:30:34] estética, e não

[00:30:36] na razão, né? Ou seja,

[00:30:38] ele pega o demônio socrático

[00:30:40] como uma forma de

[00:30:41] acessar as ideias platônicas. Então, ele

[00:30:44] tenta fazer uma versão platônica,

[00:30:46] só que ao invés de ser pela via da razão,

[00:30:48] tem uma carruagem platônica,

[00:30:50] lá, que um dos cavalos é…

[00:30:52] não é a razão, exatamente, mas

[00:30:53] a razão é aqueles que tá…

[00:30:55] é o que conduz a carruagem, né?

[00:30:58] É o cavalo branco, né?

[00:30:59] Isso, exatamente.

[00:31:01] Tem três cavalos, na verdade.

[00:31:04] Daí, a razão é, justamente, a condução deles.

[00:31:06] Enfim, o Kant fala, não,

[00:31:08] a razão não tá com nada,

[00:31:09] a gente tem que pegar

[00:31:10] justamente a experiência estética,

[00:31:14] aquela que não é racional, aquela dos

[00:31:15] nossos sentidos mesmo, e através

[00:31:17] delas que a gente vai acessar a essência

[00:31:20] das coisas. E, assim,

[00:31:21] pra exemplificar isso, o artista

[00:31:23] genial pra Schopenhauer,

[00:31:26] o artista virtuoso,

[00:31:28] é justamente aquele cara que é capaz

[00:31:30] de pintar uma árvore

[00:31:32] perfeitamente, porque ele

[00:31:33] consegue abstrair o que é particular

[00:31:35] na árvore, né? Isso oferece

[00:31:38] aos sentidos, e perceber através

[00:31:40] desse particular a essência

[00:31:41] que empresta forma

[00:31:44] pra esse particular. Não sei se eu fui

[00:31:45] claro nisso. Aham, não, tá, tá perfeito.

[00:31:48] E daí, assim, ele acredita,

[00:31:50] né?

[00:31:50] O Schopenhauer, ainda que através da experiência

[00:31:52] da música, a gente acessaria

[00:31:54] um plano, agora eu tô falando

[00:31:56] de música, eu falei da árvore,

[00:31:58] exemplificando a pintura.

[00:32:00] Pro Schopenhauer, a música seria mais

[00:32:02] elevada que todas as artes, né? Porque

[00:32:04] através dela a gente acessa um plano

[00:32:06] pra além das próprias

[00:32:08] ideias racionais,

[00:32:10] né? Pra além da própria realidade

[00:32:12] em si. Aquilo que o Schopenhauer

[00:32:14] chama de vontade.

[00:32:16] Vontade com V maiúsculo, né?

[00:32:18] De Schopenhauer,

[00:32:19] é um conceito, assim, basicamente

[00:32:21] a gente sabe disso

[00:32:23] depois da biografia

[00:32:25] dele e tal, mas ele empresta

[00:32:27] do conceito zen budista de vontade

[00:32:29] da natureza, aquilo que diz respeito

[00:32:31] ao todo. É como se fosse uma vontade

[00:32:33] com V maiúsculo, é aquilo que tá além da sua

[00:32:35] vontade, das nossas vontades individuais,

[00:32:37] né? Aquilo

[00:32:39] que, digamos, existe uma vontade

[00:32:41] indiferente,

[00:32:44] uma vontade, assim,

[00:32:46] desinteressada

[00:32:47] no mundo que rege, né?

[00:32:49] As nossas vontades, a nossa existência

[00:32:51] e como se faria parte dessa vontade.

[00:32:53] Usando um paralelo com o Crowley,

[00:32:55] que fala umas coisas da vontade também,

[00:32:57] você pode dizer que ela não se mistura com o desejo

[00:32:59] pessoal, né? Os desejos pessoais.

[00:33:01] O desejo pessoal é uma coisa, a vontade com V

[00:33:03] maiúsculo é algo que guia o teu

[00:33:05] espírito acima de um conhecimento

[00:33:07] maior, digamos assim. Exatamente.

[00:33:09] Eu tô aqui com o mundo

[00:33:11] com vontade de representação. Parabéns.

[00:33:14] Parabéns.

[00:33:15] Foi pra casa da mulher com

[00:33:17] um livrinho.

[00:33:19] Um livrinho desse, que bom.

[00:33:20] E no parágrafo 52,

[00:33:23] Jesus amado.

[00:33:25] Se os senhores me permitem, eu acho que é bem

[00:33:27] sintético, assim. Ele fala que

[00:33:29] a música se encontra por inteiro

[00:33:31] separada de todas as demais

[00:33:33] artes. Estimular o conhecimento

[00:33:35] das ideias

[00:33:37] pela exposição

[00:33:38] de coisas isoladas é o fim de todas as

[00:33:41] demais artes. Todas,

[00:33:43] portanto, objetivam a vontade apenas

[00:33:45] imediatamente, não imediatamente.

[00:33:47] A saber,

[00:33:49] por meio das ideias. Ora,

[00:33:51] como o nosso mundo não é nada

[00:33:53] senão o fenômeno das ideias na pluralidade,

[00:33:56] segue-se que a música,

[00:33:57] visto que ultrapassa as ideias

[00:33:59] e também é completamente independente

[00:34:01] do mundo fenomênico,

[00:34:03] ignorando por inteiro,

[00:34:05] poderia em certa medida existir

[00:34:07] ainda que não houvesse mundo.

[00:34:09] Você tá falando que a música pode existir mesmo

[00:34:11] que não houvesse realidade, né?

[00:34:13] De fato, a música é

[00:34:15] uma tão imediata objetivação

[00:34:18] e cópia de toda a

[00:34:19] vontade com V maiúsculo, como

[00:34:21] o mundo mesmo o é.

[00:34:24] Ou seja, todas

[00:34:25] as outras artes pro Schopenhauer também

[00:34:27] de uma maneira

[00:34:28] menor que a música,

[00:34:31] dão acesso pra uma transcendência.

[00:34:33] Transcendência isto é, você

[00:34:35] encarar de frente essa vontade

[00:34:37] que ele chama, né? É uma vontade

[00:34:39] bem caótica, assim, né?

[00:34:41] Tipo, o contrário do racional, né?

[00:34:44] E daí, assim,

[00:34:46] só que

[00:34:47] todas essas artes só…

[00:34:49] dão acesso a um, digamos,

[00:34:51] um nível primeiro da vontade,

[00:34:53] que são as ideias racionais,

[00:34:55] não a vontade em si, ela mesma.

[00:34:58] Então, assim,

[00:34:58] a arte, ela faz aparecer no mundo dos sentidos

[00:35:01] aquilo que está pra além dele,

[00:35:03] que são as essências. A música, por sua vez,

[00:35:06] nos leva ao próprio

[00:35:07] cerne, né? Do mundo,

[00:35:09] do real, né?

[00:35:11] No qual não existe nem mesmo

[00:35:12] multiplicidade, aparência,

[00:35:15] apenas uma vontade una, que é uma

[00:35:17] força que move tudo o que existe.

[00:35:19] Existe, né? Tanto é que, assim,

[00:35:21] no final desse livro, do

[00:35:22] Mundo como Vontade de Representação,

[00:35:25] ele propõe duas saídas

[00:35:27] pra…

[00:35:29] Porque daí ele faz uma longa digressão

[00:35:31] dizendo que a vida é um tédio,

[00:35:33] né? Ele fala que,

[00:35:35] assim, a gente tem desejos de

[00:35:37] viver, só que mesmo

[00:35:39] quando a gente satisfaz esses desejos, a gente substitui

[00:35:41] por outro, enfim, o resumo da história

[00:35:43] é, viver é um tédio.

[00:35:45] Então tem duas saídas que ele propõe,

[00:35:47] pra viver é um tédio, né? Tipo, pra…

[00:35:48] Viver é um sofrimento contínuo

[00:35:50] e tal, né? Isso eu acho que todo mundo sabe,

[00:35:53] ou, enfim, quando ouviu falar de

[00:35:54] Chopin, era um cara pessimista, né?

[00:35:57] É o emo.

[00:35:58] Exatamente. Uma dessas saídas

[00:36:00] é a ética do abandono,

[00:36:02] que é você, basicamente,

[00:36:05] abandonar todas as vontades,

[00:36:07] né? E daí se entregar

[00:36:08] como um zen budista. Outra

[00:36:11] alternativa

[00:36:12] é, que também leva ao abandono

[00:36:14] desse mundo, é através da fuga estética,

[00:36:17] que somente é possível através

[00:36:18] da música, né?

[00:36:20] E daí a gente sabe que o Nietzsche, no primeiro

[00:36:22] livro dele, já passando pro Nietzsche,

[00:36:25] é… No Nascimento da Tragédia,

[00:36:27] né? Não é exatamente o primeiro dele,

[00:36:29] mas é o primeiro que ficou, assim…

[00:36:31] O primeiro é relevante, vamos dizer assim,

[00:36:32] né? É… E ele é

[00:36:34] Chopin… Chopin…

[00:36:36] Enfim, ele segue Chopin…

[00:36:38] Ele segue Chopin nesse livro,

[00:36:43] só que se você pega uma edição,

[00:36:45] qualquer edição desse livro,

[00:36:46] você vai ter considerações críticas,

[00:36:49] do Nietzsche, que ele fez depois, né?

[00:36:50] De ter publicado alguns anos depois,

[00:36:53] e que ele fala que ele se arrepende

[00:36:54] de uma série de coisas, principalmente do

[00:36:56] âmbito de Chopin Hour, né?

[00:36:58] Do que ele pegou de Chopin Hour.

[00:37:00] Mas, assim, ele, em princípio, pega

[00:37:02] a música como, de fato,

[00:37:05] aquilo que nos leva a um caminho

[00:37:06] caótico da natureza,

[00:37:09] assim, que ele vai chamar esse caminho

[00:37:10] de dionisíaco, né?

[00:37:12] Lembrando, assim, que

[00:37:13] o que o

[00:37:15] Nietzsche quer fazer com esse livro,

[00:37:17] o Nascimento da Tragédia, é justamente

[00:37:19] responder a pergunta, como que um povo,

[00:37:22] que é o grego pré-socrático,

[00:37:24] encarou de frente

[00:37:25] o absurdo que é existir,

[00:37:28] ou seja, toda essa…

[00:37:30] Enfim, a falta de sentido da existência,

[00:37:32] da vida e tal,

[00:37:33] e pôde, ainda assim, produzir tanta beleza

[00:37:35] e afirmar a vida com tanta alegria.

[00:37:38] Como que os gregos conseguiram

[00:37:39] isso, que o Nietzsche chama

[00:37:41] de serenojovialidade.

[00:37:44] É uma serenidade

[00:37:45] e, ainda assim, uma alegria,

[00:37:47] jovial, por assim dizer, né?

[00:37:49] E daí ele vai ver que

[00:37:50] nesse período trágico grego,

[00:37:54] por isso que é o Nascimento da Tragédia,

[00:37:57] o que guiava

[00:37:58] os rituais e tal,

[00:38:00] era a música. E daí ele vai

[00:38:01] beber do Chopin, era essa ideia

[00:38:04] de que a música vai para um sentido

[00:38:05] de um polo dionisíaco, obviamente

[00:38:07] relacionado ao deus Dioniso,

[00:38:09] que é esse deus do caos, da desordem,

[00:38:13] também

[00:38:13] do todo,

[00:38:15] da natureza,

[00:38:17] de uma, sei lá,

[00:38:20] um caos

[00:38:21] que está, digamos, por

[00:38:23] trás de todas as coisas. E daí, no

[00:38:25] caso, ele contrapõe esse polo

[00:38:28] dionisíaco ao Apolíneo,

[00:38:30] que é justamente o contrário, o deus Apolo,

[00:38:32] o deus das formas, o deus da

[00:38:33] ordem, da razão, que vai pegar

[00:38:35] o caos dionisíaco

[00:38:37] e, digamos, dar forma

[00:38:40] a ele, né?

[00:38:42] Assim, daí o Nietzsche

[00:38:43] vai identificar nesse livro, primeiro,

[00:38:45] Nascimento da Tragédia, que os gregos,

[00:38:47] eles só conseguiam afirmar

[00:38:49] a vida com tanta alegria,

[00:38:51] porque eles conseguiam fazer essa,

[00:38:53] digamos, alquimia,

[00:38:56] esse jogo

[00:38:58] entre o Apolíneo

[00:39:00] e o dionisíaco

[00:39:01] de maneira criativa. Então, eles

[00:39:03] sempre, nunca deixavam um acima

[00:39:05] do outro, né?

[00:39:07] Eles iam para o mergulho dionisíaco,

[00:39:10] só que potencializava esse mergulho

[00:39:11] pelo deus Apolo.

[00:39:13] Acho que é bom só lembrar que, quando o Nietzsche

[00:39:15] está falando dos gregos, ele está falando,

[00:39:17] anterior a Platão, né? Porque ele acha

[00:39:19] que começa a desandar…

[00:39:21] Pré-socrático, bem pré-socrático.

[00:39:24] E o que acontece é que, assim,

[00:39:25] além disso, nesse livro,

[00:39:27] ele estava naquele dilema

[00:39:29] pessoal da vida dele com o Wagner,

[00:39:32] né?

[00:39:34] Essa história é boa.

[00:39:36] Wagner versus Nietzsche, né?

[00:39:38] Não, então, ele foi um grande

[00:39:39] fã do Wagner, né?

[00:39:41] E, se eu não me engano,

[00:39:43] a primeira publicação desse livro,

[00:39:45] Nascimento da Tragédia, ele ainda não deu

[00:39:47] nenhum piti com o Wagner.

[00:39:50] Não, ainda não.

[00:39:51] É posterior que tem um livro, né?

[00:39:53] O Caso Wagner.

[00:39:54] É que daí, depois, ele vai

[00:39:57] reeditando o Nascimento

[00:39:59] da Tragédia, incluindo Notas de Rodapé

[00:40:02] e tal, que o Wagner,

[00:40:04] para o Nietzsche, representa justamente

[00:40:05] a música dionisíaca,

[00:40:07] em oposição a uma música

[00:40:10] apolínea,

[00:40:12] que seria uma música, assim,

[00:40:14] mais regrada e tal, né?

[00:40:16] Beethoven. Beethoven,

[00:40:17] bem regradinho, por exemplo.

[00:40:19] Eu acho que o Nietzsche, ele chega a falar

[00:40:21] de Beethoven em algum momento

[00:40:22] e coloca ele como

[00:40:25] o…

[00:40:27] É claro, aí que tá. Todos eles, inclusive

[00:40:29] o Wagner, tem um pouco de… Dionisio é um pouco

[00:40:31] de japonês, óbvio. Sim, sim.

[00:40:33] A gente tá falando da predominância

[00:40:35] e tal. E tem o fato

[00:40:37] do Nietzsche ser apaixonado

[00:40:39] pelo Wagner, assim, né? Não no sentido

[00:40:41] homoafetivo, mas no sentido de, tipo…

[00:40:44] Isso. Daí acontece o lance

[00:40:45] que a gente sabe, né?

[00:40:47] A Lúcia Lomé, assim,

[00:40:49] que é a…

[00:40:52] que acaba…

[00:40:54] Ela não só

[00:40:55] dá pro Wagner, né?

[00:40:57] Ela dá pra todos os outros.

[00:40:59] Menos pro Nietzsche. Exatamente.

[00:41:01] E daí… E assim, como a gente acabou

[00:41:03] de fazer um programa de gênero, só dizendo, não que

[00:41:05] a mulher tivesse obrigação de dar

[00:41:07] pro… Mas digamos que o Nietzsche

[00:41:09] não aceita isso muito bem. Não, a questão é

[00:41:11] que a Lúcia Lomé rejeitava apenas

[00:41:13] o Nietzsche. Isso.

[00:41:16] Então… E ele ficou bolado.

[00:41:17] Exato.

[00:41:20] E a questão é que, assim,

[00:41:23] já que se levantou

[00:41:24] a bola do gênero, né?

[00:41:26] Melhor nem falar de Schopenhauer, né?

[00:41:28] Não, não.

[00:41:29] Não, não. Hoje ele é música só, tá?

[00:41:32] Outro dia a gente fala só

[00:41:33] essas coisas. Mas, enfim, só pra finalizar

[00:41:36] aqui, né? E sem falar que o

[00:41:37] Wagner tinha uma tradição

[00:41:39] de comer desejos

[00:41:41] dos amigos

[00:41:44] e amigas,

[00:41:45] filhas de pessoas…

[00:41:47] que ele deixava ele morar

[00:41:49] com ele, né?

[00:41:51] Ele era um fanfarrão.

[00:41:53] Cara, o Wagner, a galera ouve

[00:41:55] as músicas e fala, ah, isso é muito bonito, né?

[00:41:57] Você pensa no Hitler adorando o Wagner.

[00:41:59] Cara, o Wagner era muito filho da puta, assim.

[00:42:02] Ele não

[00:42:03] era uma pessoa muito bacana, assim, pra você ter

[00:42:05] um amigo, não, cara.

[00:42:07] Enfim, só pra… Desculpa, só pra

[00:42:09] encerrar o lance do Nietzsche, daí a gente

[00:42:11] vai embora com a discussão.

[00:42:14] A gente sabe que essa é a

[00:42:15] primeira fase do Nietzsche, né? O nascimento da

[00:42:17] tragédia. No decorrer, por exemplo,

[00:42:19] só pra colocar um contraponto, um dos

[00:42:21] últimos livros que ele escreve, que é o

[00:42:23] Etiomo, se eu não me engano, é esse o último

[00:42:25] livro, né? Eu sempre confundo

[00:42:27] esse com o Cristo.

[00:42:29] Não sei se são os últimos.

[00:42:31] Enfim, ele fala que ele é

[00:42:33] o próprio Dioniso falando.

[00:42:35] Ou seja, tipo, ele

[00:42:37] abandona totalmente essa questão

[00:42:39] da… Cara, desculpa, eu achava que o último

[00:42:41] livro dele era o Zaratustra.

[00:42:42] Eu tô… Sou zoado mesmo.

[00:42:45] O Zaratustra tá na última

[00:42:46] fase dele.

[00:42:47] Eu acho que é, inclusive, aquela

[00:42:49] que marca o início

[00:42:51] da última fase, tá?

[00:42:53] É aí que tá. Isso depende

[00:42:55] de abordagens históricas, obviamente. Mas não

[00:42:57] foi o último.

[00:42:59] Pra mim, ele tem assim. Primeiro, com o nascimento

[00:43:01] da tragédia. Daí, no meio, H é a ciência.

[00:43:03] Essa era a grande preocupação dele.

[00:43:06] E tem também, além do

[00:43:07] bem e do mal e tal, nessa

[00:43:09] fase do meio. E, no fim,

[00:43:11] a partir do Zaratustra, que ele

[00:43:13] vai… Zaratustra, pra ele, é a grande obra.

[00:43:15] No Etiomo, ele fala, ó, eu não tenho

[00:43:17] mais nada pra falar que não tenha saído

[00:43:19] da boca do Zaratustra e tal.

[00:43:23] E daí, ele só vai,

[00:43:24] digamos, só, depois de Zaratustra, fazendo

[00:43:25] obra sobre si mesmo. Sobre a

[00:43:27] própria filosofia e tal. E, nesse

[00:43:29] ponto, ele já não tem mais… Assim,

[00:43:31] pra ele, o Apolo,

[00:43:34] o Deus Apolo, a

[00:43:35] pulsão apolínea já se torna inimiga.

[00:43:38] O que isso tem a ver com a música?

[00:43:39] Qual que é, digamos, a implicação disso

[00:43:41] na consideração dele com a música? Ele não

[00:43:43] perde, nesse processo,

[00:43:46] nesse percurso,

[00:43:47] a paixão pela música. Ele continua

[00:43:49] achando que a música é,

[00:43:52] digamos, a arte mais nobre,

[00:43:54] por assim dizer, tá?

[00:43:55] Só que muda a justificativa

[00:43:57] disso, né?

[00:43:59] No começo, a música era justamente

[00:44:01] aquilo que faz

[00:44:03] ligar o dionísico,

[00:44:06] o dionisíaco com o apolíneo,

[00:44:08] né? Agora, não.

[00:44:09] Agora, a música, ela é justamente aquilo que nos

[00:44:11] faz ligar com a realidade

[00:44:13] dionisíaca, que é a única que existe.

[00:44:16] É o real,

[00:44:17] digamos, trágico, né? Ou seja,

[00:44:19] que não tem nenhuma outra contraposição.

[00:44:22] É isso que ele começa a mudar, né?

[00:44:24] Tipo assim, o Apolo já seria

[00:44:25] uma dicotomia em relação ao real.

[00:44:28] Ele fala, não, não pode ter essa dicotomia.

[00:44:29] A gente precisa só afirmar uma coisa.

[00:44:31] Só existe um mundo, e esse mundo é

[00:44:33] dionisíaco, e já não tem mais nada a ver

[00:44:35] com a vontade chopenhaueriana,

[00:44:38] né? O dionisíaco, no

[00:44:39] começo, era, digamos, o sinônimo

[00:44:41] daquilo que o Chopin

[00:44:43] chamava de vontade com V maiúsculo.

[00:44:45] Agora, o dionisíaco é justamente,

[00:44:47] é o real

[00:44:49] das aparências, das máscaras,

[00:44:52] e não existe nenhuma essência por trás

[00:44:53] dessas aparências, que foi desvalorizado

[00:44:55] durante a história toda.

[00:44:57] Então, pra ele, a música é justamente

[00:44:59] aquilo que, quando ele vai falar

[00:45:01] de vida como obra de arte, aí ele já

[00:45:03] tá elevando a arte com uma coisa,

[00:45:05] tá ampliando o conceito de arte, né?

[00:45:07] A arte é justamente a arte de viver.

[00:45:10] Aquilo que, habitualmente,

[00:45:11] a gente chama de obra de arte, né?

[00:45:13] Pintura e tudo mais, pra ele

[00:45:15] é um reflexo, uma consequência,

[00:45:17] da arte de viver. E a música,

[00:45:20] digamos, seria a forma

[00:45:21] mais

[00:45:21] recorrente, não recorrente,

[00:45:25] como pode dizer, mais imediata,

[00:45:27] é isso que ele coloca,

[00:45:29] de você começar

[00:45:31] a fazer da sua vida uma obra de arte.

[00:45:34] Que é porque, pela música,

[00:45:35] independente da música,

[00:45:38] o Nietzsche fala que você vai

[00:45:39] se sentir alegre. Se você não se sentir alegre,

[00:45:41] você para de escutar e escuta outra.

[00:45:43] Mas a música é aquilo que te deixa mais imediatamente

[00:45:45] alegre, porque ela justamente,

[00:45:47] é aquilo que não se

[00:45:48] detém a representações.

[00:45:51] Quer dizer, ele vai falar que detém

[00:45:53] a representações, só que ela é contínua

[00:45:55] por excelência, né?

[00:45:58] Escutar a música,

[00:45:59] ela sempre significa estar na música.

[00:46:01] Então, ao contrário, assim, de uma

[00:46:03] obra de arte,

[00:46:05] a música é justamente

[00:46:06] o reino demoníaco. Demoníaco

[00:46:09] no sentido socrático também,

[00:46:11] mas justamente por ser possuído

[00:46:13] pelo som, né?

[00:46:15] Ou seja, enquanto Sócrates

[00:46:16] e Platão, né? Ou Sócrates e Platão

[00:46:19] viam esse impulso demoníaco

[00:46:21] como algo negativo, pejorativo,

[00:46:23] que nos afasta da razão,

[00:46:25] o Nietzsche vai falar, não,

[00:46:27] esse é o caminho demoníaco

[00:46:28] da vida, porque é ela que te

[00:46:30] deixa em contato mais direto com o

[00:46:33] real, o único que existe.

[00:46:34] Enfim, é isso. Isso, quer afastar

[00:46:36] do idealismo platônico, basicamente, né?

[00:46:38] Exatamente. Porque ele acha que é uma doença.

[00:46:41] Então, beleza.

[00:46:42] Então, olha só,

[00:46:44] meia hora, só pra fazer uma introdução,

[00:46:46] geral, sobre os temas, né?

[00:46:49] De estética e música.

[00:46:50] Mas esse Ad Convict foi

[00:46:52] assim, um programa de estética.

[00:46:54] Foi muito bom, cara.

[00:46:56] Demorou duas horas. Eu quero só

[00:46:58] também avisar o ouvinte que se achou

[00:47:00] isso tudo muito complicado, por incrível que pareça,

[00:47:02] o Beccari foi muito didático.

[00:47:04] Obrigado, exatamente. Parabéns,

[00:47:06] parabéns. Podemos acabar

[00:47:08] o programa aqui, até, Thiago, você não falou nada.

[00:47:11] É, pelo amor de Deus.

[00:47:12] Isso aí só foi…

[00:47:14] Tô brincando. Então, Thiago,

[00:47:16] dentro disso tudo que

[00:47:18] o Beccari falou,

[00:47:20] uma pergunta que eu

[00:47:22] gosto sempre de fazer a músicos que

[00:47:24] pensam filosofia e

[00:47:26] estética em geral, que é o teu caso,

[00:47:29] como que você se vê

[00:47:30] nesse meio de uma série

[00:47:32] de abordagens e tentativas? Porque eu sei que

[00:47:34] no teu mestrado você querendo pensar essa questão

[00:47:36] da racionalidade, como você acabou de falar.

[00:47:39] Mas acredito que você tenha também

[00:47:40] uma abordagem pessoal, uma forma de ver

[00:47:42] a música nessa

[00:47:44] questão de…

[00:47:46] apreciação estética, né?

[00:47:48] Como que você se encaixa aí nisso

[00:47:50] tudo? Qual que é a tua visão e como é que você gosta

[00:47:52] de pensar tudo isso?

[00:47:56] É…

[00:47:56] No meu caso pessoal, né?

[00:48:00] Enquanto músico,

[00:48:01] é engraçado que

[00:48:02] em geral essa… o que alguns

[00:48:04] autores chamam de estética do absoluto,

[00:48:07] ela é…

[00:48:08] é meio que o padrão da…

[00:48:10] a maioria dos músicos, quando vão falar da sua

[00:48:12] relação pessoal com a música,

[00:48:14] acabam propondo,

[00:48:16] uma… a sua versão,

[00:48:18] digamos assim, da estética

[00:48:20] do absoluto, que…

[00:48:22] que o Beccari estava comentando, século XIX,

[00:48:24] principalmente dos três

[00:48:26] autores citados. No meu caso,

[00:48:28] a minha busca

[00:48:30] por tentar pensar a música

[00:48:31] é exatamente por eu não conseguir

[00:48:34] racionar…

[00:48:35] por não conseguir pensar

[00:48:37] muito claramente sobre ela,

[00:48:39] representa alguma coisa ou não representa?

[00:48:42] Tem um sentido

[00:48:44] em si ou tem um aspecto…

[00:48:46] Ou é simplesmente uma

[00:48:47] apreciação formal?

[00:48:50] Ela…

[00:48:52] Ela pode ser

[00:48:54] dita pela linguagem

[00:48:56] ou não pela linguagem verbal?

[00:48:57] Ou não pode ser dita pela linguagem verbal?

[00:49:00] Exatamente por eu ter mais

[00:49:02] dúvidas do que alguma resposta,

[00:49:05] é que eu gosto de lidar

[00:49:06] com essa área.

[00:49:07] É porque… eu faço essa pergunta porque cada

[00:49:10] artista no seu meio vai puxar a sardinha

[00:49:12] pro seu lado, né? Então, por exemplo,

[00:49:14] eu gosto mais de escrever,

[00:49:15] então eu vou dizer que literatura

[00:49:17] é mais interessante, né?

[00:49:20] Agora, o Beccari pinta,

[00:49:21] então ele vai ter uma relação com a pintura de outra forma.

[00:49:24] Pintura é arte.

[00:49:25] Mais nova ainda.

[00:49:27] Que dá acesso às ações.

[00:49:29] E assim a gente vai indo, né?

[00:49:31] Mas a questão da música…

[00:49:33] Eu queria jogar um pouco disso

[00:49:35] porque tem um cara que

[00:49:37] não foi citado porque, na verdade,

[00:49:40] até no programa de estética a gente chegou

[00:49:41] a falar isso, né?

[00:49:42] De que…

[00:49:44] E adorno, por exemplo.

[00:49:45] Adorno.

[00:49:46] Porque o adorno, eu não sei se ele inaugura

[00:49:49] um novo capítulo de pensar estético

[00:49:51] musical, né? Porque ele vai cair

[00:49:53] na questão da indústria cultural.

[00:49:56] Mas ele fala de música.

[00:49:58] Não, ele fala bastante de música,

[00:50:00] só que ele não… inclusive

[00:50:01] a solução dele pra…

[00:50:04] Porque indústria cultural, vamos lá,

[00:50:05] né? Anticast 68, se não me engano.

[00:50:08] Isso.

[00:50:08] Ou 66, eu não lembro.

[00:50:10] Procura aí.

[00:50:11] Procura aí, Escola de Frankfurt.

[00:50:14] Ele vai falar da questão da indústria cultural,

[00:50:15] que basicamente ela molda um jeito

[00:50:17] de pensar e você não consegue ser dessa forma.

[00:50:19] Vêm palavras muito rápidas, mais ou menos isso.

[00:50:22] Isso, mas ele coloca

[00:50:23] uma contrapartida a ela também.

[00:50:25] Que é a estética…

[00:50:27] A estética, a teoria estética

[00:50:29] dele. É como se fosse

[00:50:31] aquilo que, digamos, em contrapartida

[00:50:33] a alienação

[00:50:36] e essa coisa de se tornar as coisas

[00:50:37] mais… cada vez mais

[00:50:39] pré-fabricadas e

[00:50:42] alienantes, enfim.

[00:50:43] Tem, digamos, a

[00:50:45] estética musical.

[00:50:45] Que vai fazer ele dizer

[00:50:48] qual que é a música autêntica

[00:50:50] e que o jazz não é, por exemplo.

[00:50:51] Sim, sim.

[00:50:53] O objeto de estudo dele, ele tá falando de estética, justamente.

[00:50:56] E ele tá vendo que o jazz

[00:50:58] ele tem uma fórmula, vamos dizer assim.

[00:51:00] E lembrando que ele tá falando de um jazz

[00:51:02] ali do bebop, né?

[00:51:03] O jazz dançante.

[00:51:04] E na verdade é justamente a ausência de…

[00:51:07] digamos, de fórmula, de linguagem, né?

[00:51:10] Porque ele fala assim, ah, o jazz é improvisação.

[00:51:12] Portanto, é que o Adorno

[00:51:14] é formalista, né?

[00:51:15] Então, tipo, ele fala, ó, o jazz é pura…

[00:51:18] O feeling, né? Por assim dizer.

[00:51:19] Ele conversa com músicos de jazz, porque o Adorno

[00:51:22] é músico, inclusive, né?

[00:51:23] É pianista e tal.

[00:51:26] Pra falar do Adorno como

[00:51:27] nessa parte estética musical, é importante

[00:51:30] lembrar que, inclusive, ele foi aluno

[00:51:32] do Alban Berg, que era membro da

[00:51:34] chamada Segunda Escola de Viena, que era

[00:51:36] liderado pelo Schoenberg.

[00:51:39] Nossa!

[00:51:40] Mas aí que tá. O Adorno, ele

[00:51:42] se afasta da Escola de Viena, né?

[00:51:45] É.

[00:51:45] Ele se afasta, mas como compositor, não.

[00:51:49] É, então, ele herda,

[00:51:51] ele herda, né, da

[00:51:52] Escola de Viena a ideia de uma linguagem

[00:51:54] universal da música, tá certo?

[00:51:56] É, mas ainda assim, porque eu tô querendo

[00:51:58] falar isso pelo seguinte, pra não deixar

[00:52:00] a coisa muito complicada em

[00:52:02] questões de Escola de Viena e isso,

[00:52:04] isso ou aquilo, eu tô querendo

[00:52:06] pensar assim, porque quando ele vem com

[00:52:08] a problemática da indústria cultural, que

[00:52:10] a gente acaba se alienando por fórmulas

[00:52:12] já pré-existentes, a gente não consegue mais

[00:52:14] produzir um livre pensamento através da música,

[00:52:16] de uma profissão estética, ele vai

[00:52:18] vir com, por exemplo, com a solução das

[00:52:20] músicas ordecafônicas, né, que

[00:52:21] ao invés de você quebrar

[00:52:23] um espectro sonoro em sete

[00:52:26] notas musicais, você quebra em doze e tenta

[00:52:28] fazer aquelas músicas

[00:52:30] malucas dele, assim, que você não

[00:52:32] por exemplo, o afegão médio

[00:52:34] não consegue apreciar, mas

[00:52:36] você tá fazendo uma

[00:52:38] nova experiência ali dentro.

[00:52:40] Eu não sei se ele chega a falar isso, mas

[00:52:42] eu acredito que, por exemplo,

[00:52:44] chegasse um ponto que a música ordecafônica

[00:52:46] estivesse tocando na Transamérica ou na MTV,

[00:52:49] fodeu, já virou

[00:52:50] indústria cultural, a gente tem que achar um novo meio, né.

[00:52:53] E na verdade eu queria falar tudo isso

[00:52:56] e jogar o adorno aí no meio,

[00:52:58] porque eu acho que

[00:52:59] nesse sentido de que a gente hoje vive

[00:53:02] uma indústria de massa que produz

[00:53:04] conteúdo estético de uma forma

[00:53:06] e que a gente vai seguindo uma série

[00:53:08] de fórmulas, a música

[00:53:10] no fim das contas a gente tá sofrendo

[00:53:12] muito hoje em dia, e eu não acho isso,

[00:53:14] necessariamente, ruim, eu só tô

[00:53:15] querendo colocar isso como uma questão,

[00:53:17] de que existe uma fórmula de se fazer música,

[00:53:20] eu não tô falando, obviamente, aqui do

[00:53:22] erudito, do clássico, que seja,

[00:53:24] por exemplo,

[00:53:26] eu sempre toquei em banda,

[00:53:28] eu era guitarrista, então

[00:53:30] quando a gente ia compor música,

[00:53:32] aquele velho esqueminha, introdução,

[00:53:34] verso,

[00:53:36] refrão, daí verso,

[00:53:38] solo, refrão

[00:53:40] duas vezes aquela música, né, então

[00:53:42] e eu acredito que

[00:53:44] eu não sei, mas eu tenho essa impressão

[00:53:47] que músicos não conseguem

[00:53:49] muito mais pensar sobre essas questões,

[00:53:50] porque a gente já tá muito inserido nesse meio

[00:53:52] de indústria cultural, eu não consigo ver o adorno errado

[00:53:54] nessas horas, entende?

[00:53:56] Tá provocando aí o Thiago.

[00:53:58] Então eu quero saber você como músico,

[00:54:00] porque eu sei que tem gente fazendo

[00:54:02] coisa nova, mas eu não consigo

[00:54:05] ver uma produção de pensamento que, por exemplo,

[00:54:06] consiga colocar, se eu jogo assim, indústria cultural,

[00:54:09] o músico fica,

[00:54:10] que porra é essa, sabe?

[00:54:12] Eu tô fazendo a minha arte, eu tô morando na praia,

[00:54:14] sabe, essas coisas, coisa que a natureza me dá,

[00:54:16] enfim,

[00:54:17] e eu acredito que isso seja

[00:54:20] desesperador pra você também, porque

[00:54:22] você deve ser um dos poucos músicos

[00:54:24] que está pensando nesse nível

[00:54:26] filosófico, assim, né,

[00:54:28] principalmente no meio popular.

[00:54:30] Eu queria daí saber a tua impressão em relação a isso,

[00:54:32] você acha que indústria cultural é uma coisa que

[00:54:34] bate muito, assim, também,

[00:54:36] e tem gente tentando sair disso,

[00:54:38] e, enfim, conseguindo,

[00:54:40] como é que você vê,

[00:54:42] essa noção?

[00:54:44] Olha, sair dessa questão

[00:54:46] da indústria cultural, principalmente quando a gente fala

[00:54:48] na área

[00:54:50] da música erudita, também tem,

[00:54:51] eu sou violonista clássico, né,

[00:54:53] então, eu trabalho tanto

[00:54:56] com música popular, quanto com música erudita.

[00:54:58] Aham, e tem uma rixa aí, né?

[00:55:01] Eu sou praticamente

[00:55:02] um estranho no ninho, em todo caso, é músico

[00:55:04] que gosta de pensar sobre música,

[00:55:06] lutar dentro da popular, dentro da

[00:55:08] erudita, é uma beleza, né?

[00:55:11] Mas,

[00:55:12] quando a gente começa a falar dentro

[00:55:14] da música popular,

[00:55:17] tem fórmulas que se

[00:55:18] colocaram, são fórmulas

[00:55:20] que já existem há um bom tempo,

[00:55:22] a tradição da canção,

[00:55:24] o chanson,

[00:55:25] o song, você tem

[00:55:27] exemplos do século XV que já usam

[00:55:29] essas fórmulas. Realmente, ela entrou

[00:55:32] e há uma questão que

[00:55:33] o músico, ele tende, de uma certa

[00:55:35] forma, a praticar

[00:55:37] a estética

[00:55:38] schopenhaueriana, e mesmo

[00:55:42] nitiriana, que o

[00:55:44] Beccari comentou,

[00:55:46] porque, em geral, os músicos

[00:55:48] tendem a ver o seguinte,

[00:55:50] existe o mundo

[00:55:51] que não é,

[00:55:54] que só faz sentido com

[00:55:56] a música, então, todo o resto

[00:55:58] não tem validade, não tem necessidade.

[00:56:00] Pra que eu vou

[00:56:01] pensar?

[00:56:02] Mas é verdade mesmo,

[00:56:07] então, é muito comum

[00:56:08] que o baterista,

[00:56:09] o professor de bateria,

[00:56:11] o colega de trabalho,

[00:56:12] que a primeira coisa, por exemplo, que ele fala

[00:56:14] pra alguma namorada, apesar que

[00:56:17] hoje ele tá casado, não sei se ele mudou um pouquinho

[00:56:19] disso, mas ele fala assim, olha,

[00:56:21] você sabe que você é a segunda.

[00:56:24] Você sabe

[00:56:25] que a música tá em primeiro lugar,

[00:56:27] você sempre vai ser a segunda da minha vida,

[00:56:29] meu primeiro casamento não vai ser com você.

[00:56:32] E se eu tiver que separar

[00:56:33] de umas duas, vai ser de você.

[00:56:35] Você aceita isso?

[00:56:37] Que beleza.

[00:56:37] Cara agradável.

[00:56:40] Isso é um caso,

[00:56:41] digamos, não é tão

[00:56:43] consciente assim, sabe, não vai falar que a

[00:56:45] música é

[00:56:46] o acesso ao verdadeiro mundo.

[00:56:50] É uma obsessão,

[00:56:51] né? É tipo como

[00:56:53] se fosse um vício, né?

[00:56:56] Sei lá, no meu caso,

[00:56:57] acredito que o Ivan também, você também, em relação

[00:56:59] com a música, eu desenho

[00:57:01] por vício, quer dizer,

[00:57:03] eu faço

[00:57:05] podcast por vício.

[00:57:06] Estamos ganhando dinheiro com isso, então,

[00:57:09] inclusive doem lá, por favor.

[00:57:11] Não, mas sabe que

[00:57:12] você quer atingir o mundo

[00:57:15] de saber absoluto pela

[00:57:17] literatura, tá entendendo?

[00:57:19] Tipo, eu não quero,

[00:57:21] então, eu acho que

[00:57:23] esse professor de bateria que você falou também não quer.

[00:57:25] A questão é justamente que ele se sente

[00:57:27] mais, tem mais prazer

[00:57:29] e isso daí que vem o

[00:57:31] vício, né? O vício pode ser

[00:57:33] pejorativo, mas uma obsessão, né?

[00:57:35] Que também é pejorativo.

[00:57:37] Não, não entendi.

[00:57:38] Claro que tem esse aspecto,

[00:57:41] todo mundo que lida com a arte, mas se você

[00:57:42] começa a conversar com

[00:57:44] músicos de diversas áreas,

[00:57:46] tem uma certa tendência a essa estética

[00:57:48] do absoluto mesmo, porque, cara,

[00:57:50] porque música dá razão,

[00:57:53] música traz,

[00:57:55] música preenche, nada

[00:57:56] mais preenche no mundo,

[00:57:58] que sentido que tem,

[00:58:00] então sempre tem uma certa,

[00:58:02] claro que não é uma postura

[00:58:04] estética declarada,

[00:58:06] digamos assim, mas é uma

[00:58:08] a própria maneira como

[00:58:10] tem um autor, o

[00:58:12] Carlos D’Alias, que ele vai

[00:58:14] fazer uma crítica, também não sei pronunciar

[00:58:16] direito o nome de ninguém, então

[00:58:18] relaxa, é

[00:58:20] Sloterdick, então

[00:58:21] é o imperativo

[00:58:24] pedagógico do podcast, né?

[00:58:26] em atuação, né?

[00:58:28] Então, a primeira coisa que ele vai

[00:58:30] criticar, assim, olha, você

[00:58:31] vai num concerto, veste uma roupa

[00:58:34] diferente, lê todo o programa

[00:58:36] antes, senta, busca a sua

[00:58:38] cadeira, essa já é uma posição da estética

[00:58:40] do absoluto, ele vai fazer todo

[00:58:42] ele tem um ensaio onde ele critica

[00:58:44] como na prática a estética

[00:58:45] do absoluto, ele tá

[00:58:48] no cotidiano dos músicos

[00:58:50] sem uma consciência

[00:58:52] o que ele chama

[00:58:54] The Idea of

[00:58:56] Absolute Music, né?

[00:58:59] apesar de ser alemão

[00:59:00] não sei ler alemão do inglês, né?

[00:59:02] mas é

[00:59:03] então você tem

[00:59:05] então você tem, assim

[00:59:08] você tem

[00:59:10] um

[00:59:10] você tem essa tendência mesmo

[00:59:12] por ele fatores

[00:59:15] do músico

[00:59:16] realmente não buscar

[00:59:19] pensar essa questão, agora voltando

[00:59:20] a questão da

[00:59:21] que o Ivan propôs, da questão da indústria

[00:59:24] cultural

[00:59:25] veja, se a partir do momento

[00:59:28] a única coisa que me faz sentido é música

[00:59:30] então eu começo a não

[00:59:32] a não pensar muito

[00:59:35] sobre a forma dela

[00:59:36] então eu acabo repetindo

[00:59:38] fórmulas mesmo

[00:59:40] e a gente tem um hábito de escuta

[00:59:42] uma das primeiras coisas que eu sempre brinco com os alunos

[00:59:44] olha, vamos aprender a escutar música

[00:59:46] sim

[00:59:47] porque

[00:59:49] a maior parte

[00:59:51] desculpa, mas quando você fala isso

[00:59:54] você tá se referindo a

[00:59:55] sei lá, ao clássico, ao erudito

[00:59:59] ou você tá se referindo inclusive

[01:00:00] ao popular?

[01:00:01] não, inclusive ao popular

[01:00:02] vamos aprender, vamos sentar

[01:00:06] vamos escutar

[01:00:07] vamos aprender

[01:00:08] aprender a perceber as estruturas

[01:00:12] que tem na música

[01:00:14] inclusive porque normalmente

[01:00:16] quando a gente fala em termos de música popular

[01:00:18] o grande foco é a letra

[01:00:19] o grande foco é a letra e a experiência

[01:00:22] dançante

[01:00:23] ou a experiência do bate-cabeça

[01:00:26] da batida

[01:00:27] do ritmo

[01:00:30] então de uma certa forma

[01:00:32] eu tendo a concordar com o Adorno que realmente

[01:00:34] a indústria cultural

[01:00:35] eu não concordo no sentido de que

[01:00:38] é uma coisa que a gente tem que fazer

[01:00:38] é impossível você sair disso

[01:00:40] dentro do âmbito da música popular

[01:00:42] o próprio jazz é um exemplo

[01:00:44] vai pegar o Hermeto Pascual

[01:00:46] sabe

[01:00:47] eu mesmo quando vou falar alguma coisa

[01:00:50] disso nos meus workshops

[01:00:52] ou nas aulas de história da arte

[01:00:54] quando eu vou falar da questão da indústria cultural

[01:00:56] eu dou um monte de exemplos mostrando

[01:00:58] olha a estrutura da música, olha como

[01:01:00] ela se repete, olha o refrão

[01:01:02] essa estrutura básica

[01:01:04] mas depois eu gosto de mostrar

[01:01:06] coisas que saem disso

[01:01:07] por exemplo

[01:01:08] uma banda que eu gosto muito como o Tool

[01:01:10] tem músicas de 8 minutos que tocam na rádio

[01:01:12] nos Estados Unidos

[01:01:13] ou ainda o próprio Pink Floyd

[01:01:16] na década de 70 também

[01:01:18] rock progressivo tem um milhão de caras

[01:01:20] que quebram um pouco disso

[01:01:22] então eu também vejo

[01:01:24] que existe uma saída

[01:01:26] de certa forma

[01:01:27] toda essa discussão

[01:01:30] se pauta assim

[01:01:31] existe o repetido

[01:01:35] o já batido

[01:01:37] enfim a indústria cultural

[01:01:38] existe a fórmula que vende

[01:01:40] isso e uma transgressão

[01:01:42] que é basicamente também a discussão levantada

[01:01:45] para o adorno

[01:01:45] embora o adorno vai dizer que não há saída

[01:01:47] que já vai tudo para a perdição mesmo

[01:01:50] só que

[01:01:51] aí que está

[01:01:53] essa dicotomia

[01:01:55] o autêntico e o não autêntico

[01:01:58] seja

[01:02:00] a venda ou não saída

[01:02:02] ela justamente pressupõe

[01:02:05] que aquilo que cai

[01:02:06] no popular

[01:02:07] ou na indústria

[01:02:08] cultural e tal

[01:02:09] ela justamente por ser tão repetida

[01:02:12] e reproduzida

[01:02:12] ela é de pior qualidade

[01:02:14] isso o adorno fala

[01:02:16] eu já não penso assim

[01:02:18] a partir do momento que a gente fala

[01:02:20] não há saídas para isso

[01:02:21] tem gente fazendo coisa nova e tal

[01:02:24] mas por que o novo?

[01:02:28] já tem um valor implícito

[01:02:29] que o novo é melhor

[01:02:30] ou que existe

[01:02:33] alguém conseguiu sair

[01:02:35] da repetição

[01:02:37] que está fazendo e tal

[01:02:38] então assim

[01:02:39] é muito diferente

[01:02:41] por exemplo

[01:02:41] a gente

[01:02:41] encara como linguagens

[01:02:44] então tipo o novo

[01:02:45] o cara

[01:02:45] o black

[01:02:46] qual que você falou?

[01:02:48] o tool

[01:02:49] o tool

[01:02:50] vamos supor

[01:02:51] ele inventou

[01:02:53] o que eu também acho questionável

[01:02:55] essa questão de inventar

[01:02:56] mas ele criou lá

[01:02:57] enfim uma

[01:02:58] não criou né

[01:02:59] ele fez lá uma

[01:03:00] uma linguagem nova

[01:03:01] nova em relação a que?

[01:03:03] a linguagem que está

[01:03:04] predominante

[01:03:05] recorrente

[01:03:06] exatamente

[01:03:06] e é uma linguagem diferente

[01:03:08] assim

[01:03:09] nenhuma está acima da outra

[01:03:11] o que acontece nessa discussão

[01:03:12] principalmente no adorno

[01:03:14] é a questão hipster

[01:03:15] eu sempre digo que o adorno

[01:03:17] foi o primeiro hipster

[01:03:18] porque assim

[01:03:21] o hipster é

[01:03:22] eu sei daquilo que vai estar

[01:03:24] digamos diferente

[01:03:25] e que vai ser bom

[01:03:27] antes de ser

[01:03:29] então assim

[01:03:31] e a partir do momento

[01:03:33] que se torna popular

[01:03:34] já perdeu a qualidade

[01:03:36] então

[01:03:37] essa é uma questão

[01:03:38] é muito diferente

[01:03:40] por exemplo

[01:03:40] o Thiago estava falando

[01:03:42] de ensinar os alunos

[01:03:44] basicamente a mimetizar

[01:03:45] ou seja

[01:03:46] assimilar

[01:03:47] tanto o erudito

[01:03:50] enfim

[01:03:50] o máximo possível

[01:03:51] de linguagens diferentes

[01:03:52] foi isso que eu entendi

[01:03:53] Thiago

[01:03:54] se não você me corrija

[01:03:56] e daí

[01:03:57] por que serve

[01:03:58] para assimilar isso?

[01:04:00] justamente porque

[01:04:00] digamos

[01:04:01] a gente poderia dizer

[01:04:02] que a gente aprende a falar

[01:04:03] imitando os outros

[01:04:04] pela mimética

[01:04:06] e tudo mais

[01:04:07] é muito

[01:04:08] assim

[01:04:08] é muito

[01:04:08] daí o Aristóteles

[01:04:09] vai falar

[01:04:10] bom a mimética

[01:04:11] leva a essência

[01:04:12] pronto

[01:04:12] caímos na metafísica

[01:04:14] de novo

[01:04:14] não é isso

[01:04:15] tipo assim

[01:04:16] você assimila

[01:04:17] o axé por exemplo

[01:04:18] ao mesmo tempo

[01:04:19] que você assimila

[01:04:20] a ópera

[01:04:21] tá certo?

[01:04:22] linguagens diferentes

[01:04:23] uma melhor que a outra

[01:04:25] sim mas é

[01:04:25] deixa eu pegar

[01:04:26] esse teu gancho

[01:04:27] então Becari

[01:04:28] e jogar uma

[01:04:28] para o Thiago

[01:04:29] porque é o seguinte

[01:04:30] eu vou falar

[01:04:31] de um problema pessoal

[01:04:32] e eu quero saber

[01:04:33] a tua opinião

[01:04:34] sobre isso

[01:04:34] falando de estética

[01:04:36] no sentido formal

[01:04:37] mesmo

[01:04:37] o Becari

[01:04:38] sempre me chama

[01:04:39] de formalista

[01:04:39] e eu acho que eu sou mesmo

[01:04:40] porque

[01:04:42] por exemplo

[01:04:42] a Torna também era

[01:04:43] é então

[01:04:44] é nóis

[01:04:45] mas é porque

[01:04:47] eu por exemplo

[01:04:48] com literatura

[01:04:49] eu já não

[01:04:50] digamos

[01:04:50] eu já li alguns caras

[01:04:52] que fazem certas coisas

[01:04:53] e eu não estou muito

[01:04:53] interessado em ler

[01:04:54] outros caras

[01:04:54] que fazem a mesma coisa

[01:04:55] que aquele cara

[01:04:56] que fez antes

[01:04:56] por um motivo muito simples

[01:04:58] porque eu não

[01:04:58] tipo já vi isso acontecendo

[01:04:59] então eu quero ver

[01:05:00] novas experiências

[01:05:01] não necessariamente

[01:05:03] porque sejam melhores

[01:05:04] ou piores

[01:05:04] mas porque eu quero

[01:05:05] coisas diferentes

[01:05:06] então se você me faz

[01:05:07] um formalista

[01:05:08] foda-se Becari

[01:05:09] eu sou um formalista

[01:05:10] no caso por exemplo

[01:05:12] de música erudita

[01:05:14] uma ópera

[01:05:14] aí que o Becari citou

[01:05:15] eu tenho um problema

[01:05:18] que é assim

[01:05:19] eu não entendo

[01:05:20] como funciona

[01:05:21] tá

[01:05:22] então

[01:05:22] música popular

[01:05:23] por exemplo

[01:05:23] eu entendo

[01:05:24] eu entendo

[01:05:25] porque eu já tive banda

[01:05:26] porque eu fiz aulas

[01:05:27] porque eu toquei guitarra

[01:05:28] porque eu sei

[01:05:29] que é

[01:05:30] sei lá

[01:05:30] uma escala

[01:05:31] específica

[01:05:32] lá enfim

[01:05:33] eu consigo

[01:05:34] eu consigo tipo

[01:05:36] eu tô ouvindo uma música

[01:05:36] eu tô sacando

[01:05:37] o que tá feito ali

[01:05:38] na produção

[01:05:38] eu consigo fruir ela

[01:05:39] desse jeito

[01:05:39] quando eu aprendi

[01:05:41] quando eu tive essa percepção

[01:05:43] sobre estrutura musical

[01:05:44] e daí eu vou ouvir

[01:05:45] uma peça erudita

[01:05:47] eu tenho um problema

[01:05:48] que é assim

[01:05:48] eu não sei o que tá acontecendo

[01:05:49] e isso me deixa

[01:05:51] desesperado

[01:05:52] e eu acabo dizendo

[01:05:53] eu não consigo

[01:05:53] eu não consigo ouvir

[01:05:54] porque eu não tô conseguindo

[01:05:56] entender o que tá acontecendo

[01:05:57] é

[01:05:58] e daí tem um monte

[01:05:59] você não sabe falar latim

[01:06:00] é eu não sei falar latim

[01:06:01] exato

[01:06:01] e daí tem alguém

[01:06:02] que fala pra mim

[01:06:03] eu não tô nem falando da letra

[01:06:04] eu tô falando da estrutura mesmo

[01:06:05] da música

[01:06:06] e daí vem

[01:06:08] um

[01:06:08] daí tem um monte de gente

[01:06:09] que adora música erudita

[01:06:10] que vem falar assim

[01:06:11] não, mas cara

[01:06:12] ouve porque você curte

[01:06:13] e eu digo

[01:06:14] cara

[01:06:14] eu não consigo

[01:06:15] sabe

[01:06:16] tipo

[01:06:16] eu não consigo

[01:06:17] simplesmente sentir

[01:06:17] raríssimas exceções

[01:06:19] tipo algumas peças

[01:06:20] do Mozart e Wagner

[01:06:21] pra falar

[01:06:21] mas por exemplo

[01:06:22] Beethoven

[01:06:22] eu não consigo sacar

[01:06:24] e todo mundo me fala

[01:06:25] tipo

[01:06:25] Bach é do caralho

[01:06:26] é foda

[01:06:27] não sei o que

[01:06:27] daí eu digo

[01:06:28] tá

[01:06:28] mas eu não sei

[01:06:29] o que ele tá fazendo

[01:06:30] então eu não consigo sacar

[01:06:32] o que que você tem pra falar

[01:06:33] pra um imbecil

[01:06:35] que nem eu

[01:06:36] nessas horas

[01:06:37] cara

[01:06:38] você tem que

[01:06:40] pegar as estruturas

[01:06:42] que eles estão usando

[01:06:43] como você

[01:06:44] parte da sua apreciação estética

[01:06:46] tá sendo

[01:06:46] tá sendo pautada

[01:06:47] pela dificuldade

[01:06:49] de aprender

[01:06:49] essas estruturas

[01:06:50] pela forma

[01:06:51] é compreender

[01:06:52] é compreender a forma

[01:06:54] então por exemplo

[01:06:55] Beethoven

[01:06:55] o que que o Beethoven

[01:06:56] vai fazer

[01:06:57] ele

[01:06:58] a estrutura dele

[01:07:00] é bem clara

[01:07:00] umas vezes

[01:07:01] uma introduçãozinha

[01:07:03] expõe

[01:07:04] desenvolve

[01:07:05] e reexpõe

[01:07:06] pra entender

[01:07:07] e encerrar

[01:07:07] mais ou menos assim

[01:07:08] o que que é

[01:07:10] essa exposição

[01:07:11] ele vai propor

[01:07:12] dois temas

[01:07:12] contrastantes

[01:07:13] duas melodias

[01:07:14] contrastantes

[01:07:15] pra

[01:07:15] pra simplificar

[01:07:17] em seguida

[01:07:18] ele vai pegar

[01:07:19] esses dois temas

[01:07:20] e realizar

[01:07:20] uma batalha

[01:07:21] entre eles

[01:07:22] há quem diga

[01:07:23] que mais correto

[01:07:24] que o desenvolvimento

[01:07:25] seria a gente falar

[01:07:26] em travessia

[01:07:27] como se fossem

[01:07:28] duas ideias musicais

[01:07:30] contrastantes

[01:07:30] se misturando

[01:07:32] se interagindo

[01:07:33] no caso do Beethoven

[01:07:34] até chegar ao limite

[01:07:35] que ele propõe

[01:07:37] lá

[01:07:37] e no final

[01:07:38] você volta

[01:07:38] com as ideias iniciais

[01:07:39] pra ver

[01:07:40] tudo aquilo

[01:07:40] que você viu no começo

[01:07:41] estava presente

[01:07:42] aqui no meio

[01:07:43] é claro que

[01:07:44] essa exposição final

[01:07:45] é ligeiramente

[01:07:46] diferente

[01:07:47] mas não vou

[01:07:48] entrar na parte técnica

[01:07:49] disso

[01:07:50] mas é basicamente

[01:07:51] você ouviu

[01:07:53] duas ideias

[01:07:53] passou

[01:07:56] viu

[01:07:56] essas duas ideias

[01:07:57] se misturando

[01:07:58] se degladiando

[01:08:00] se erotizando

[01:08:02] e por aí

[01:08:03] vai imaginação

[01:08:04] afora

[01:08:05] e pro final

[01:08:06] mostrando

[01:08:06] tudo aquilo

[01:08:07] que você viu

[01:08:07] no começo

[01:08:07] veio disso

[01:08:08] sim

[01:08:10] então quer dizer

[01:08:11] eu queria

[01:08:12] eu queria ter

[01:08:13] toda essa percepção

[01:08:13] cara sério

[01:08:14] como eu invejo

[01:08:15] vocês

[01:08:16] nessa hora

[01:08:17] Leandro

[01:08:19] sabe o pior

[01:08:19] que tem um livro

[01:08:20] que é

[01:08:20] bem assim

[01:08:22] é

[01:08:23] forma musical

[01:08:24] para não músicos

[01:08:25] ai que legal

[01:08:26] eu lembro

[01:08:27] é designer

[01:08:29] pra quem

[01:08:30] designer

[01:08:30] pra quem não é designer

[01:08:32] é isso aí

[01:08:34] é mais ou menos isso

[01:08:36] então o que acontece

[01:08:37] todo mundo

[01:08:37] todo período

[01:08:39] tem estruturas diferentes

[01:08:40] no caso da ópera

[01:08:42] ai a gente entra no problema

[01:08:43] porque tem

[01:08:44] cada movimento da ópera

[01:08:45] vai propor uma estrutura

[01:08:46] diferente

[01:08:47] mas normalmente

[01:08:48] o texto predomina

[01:08:49] a letra é mais importante

[01:08:52] no caso

[01:08:52] o enredo

[01:08:53] os personagens

[01:08:54] ela é construída

[01:08:56] tem toda uma briga

[01:08:58] tem cara que vai falar

[01:08:59] não tem letra

[01:09:00] tem drama

[01:09:01] mas o drama é secundário

[01:09:02] não sei o que

[01:09:03] tem

[01:09:04] assim

[01:09:05] de 50 em 50 anos

[01:09:06] os compositores

[01:09:07] o pessoal resolve

[01:09:08] brigar sobre isso

[01:09:09] sabe

[01:09:09] sei

[01:09:10] e a gente

[01:09:12] e sobre

[01:09:14] até sobre

[01:09:15] toda a discussão

[01:09:16] que a gente teve lá

[01:09:16] na introdução

[01:09:17] sobre o que o Beccari

[01:09:18] fez a exposição geral

[01:09:19] sobre isso

[01:09:20] os compositores clássicos

[01:09:22] pensavam

[01:09:24] nessas questões estéticas

[01:09:25] essenciais

[01:09:26] digamos assim

[01:09:27] do tipo

[01:09:27] a música como isso

[01:09:28] eu vou fazer a peça agora

[01:09:30] que representa esse conceito

[01:09:31] tem alguma coisa assim?

[01:09:33] olha

[01:09:34] isso vai depender

[01:09:35] muito do período

[01:09:36] no romantismo

[01:09:37] todo mundo pensava

[01:09:38] sobre esse tema

[01:09:39] romantismo se refere

[01:09:40] a final do século XVIII

[01:09:42] ou XIX

[01:09:43] isso

[01:09:43] exatamente

[01:09:44] quando tem toda essa discussão

[01:09:46] que o Beccari apresentou

[01:09:47] os compositores

[01:09:49] discutem muito diretamente

[01:09:50] porque o que acontece

[01:09:51] na Grécia Antiga

[01:09:52] se formou

[01:09:54] após

[01:09:54] após Platão

[01:09:55] uma divisão

[01:09:57] que vai perpassar

[01:09:58] por toda a história da música

[01:09:59] existe o teórico

[01:10:00] que é o cara

[01:10:00] que pensa em música

[01:10:01] que

[01:10:02] para os

[01:10:03] estetas

[01:10:04] para um grande

[01:10:06] tempo da história

[01:10:07] esse que vai ser

[01:10:08] o cara foda

[01:10:09] e tem um cara

[01:10:10] que toca e compõe

[01:10:12] a gente tem que lembrar

[01:10:14] desculpa

[01:10:15] Thiago

[01:10:15] que no século XIX

[01:10:17] que você está falando

[01:10:18] tem o movimento

[01:10:19] da arte pela arte

[01:10:20] tipo assim

[01:10:21] deixa o Thiago

[01:10:23] falar caralho

[01:10:24] então o que acontece?

[01:10:26] ele está na Grécia ainda

[01:10:27] porra

[01:10:27] lá na Grécia

[01:10:29] com Platão

[01:10:30] você vai começar

[01:10:31] essa discussão

[01:10:32] inclusive já vai ter

[01:10:33] gente brigando

[01:10:35] Platão

[01:10:35] você não sabe

[01:10:36] nem o que é música

[01:10:37] o que você está falando

[01:10:38] porra né

[01:10:38] isso aí

[01:10:39] isso aí

[01:10:39] tem uns caras

[01:10:40] eu seria um que ia falar

[01:10:41] você não faz

[01:10:42] não sabe

[01:10:43] daí o Becaria

[01:10:43] ia ser o cara

[01:10:44] que ia dizer

[01:10:44] não

[01:10:45] eu não preciso saber

[01:10:45] para falar

[01:10:46] pelo contrário

[01:10:48] mas

[01:10:48] a questão é que

[01:10:51] a ópera Ivan

[01:10:51] nesse âmbito

[01:10:52] platônico e tal

[01:10:54] ela de certa forma

[01:10:55] antecede a música

[01:10:56] assim

[01:10:57] foi o Pitágoras

[01:10:59] que fez essa cisão

[01:11:00] porque antes

[01:11:01] a música

[01:11:01] era cantada

[01:11:02] sempre

[01:11:03] pelos poetas

[01:11:05] e daí

[01:11:06] entendeu

[01:11:06] a música de Pitágoras

[01:11:08] é aceita

[01:11:09] pelo Platão

[01:11:10] a música

[01:11:11] dos Rapsodos

[01:11:12] a ópera

[01:11:13] é aquilo

[01:11:14] que é a indústria

[01:11:15] cultural

[01:11:16] para Platão

[01:11:17] é bem isso mesmo

[01:11:21] na Idade Média

[01:11:22] essa ideia

[01:11:23] vai ficar

[01:11:23] por parte

[01:11:25] do Renascimento

[01:11:26] essa ideia

[01:11:26] vai sobreviver

[01:11:28] até que

[01:11:29] que é o momento

[01:11:30] que é o momento

[01:11:31] que eu me interesso

[01:11:32] em estudar

[01:11:33] até o momento

[01:11:34] principalmente

[01:11:35] do século XVI

[01:11:36] onde o músico

[01:11:38] vai começar

[01:11:39] não

[01:11:39] eu também posso teorizar

[01:11:40] e também posso tocar

[01:11:41] a primeira quebra

[01:11:44] que a gente tem

[01:11:45] é o Rameau

[01:11:46] fala um pouquinho

[01:11:48] dele aí

[01:11:48] pra gente

[01:11:49] o Jean-Philippe Rameau

[01:11:50] era um compositor francês

[01:11:52] século XVII

[01:11:54] já né

[01:11:54] o que que ele vai fazer

[01:11:56] ele vai propor

[01:11:57] um tratado

[01:11:58] de harmonia

[01:12:00] que é uma obra clássica

[01:12:03] o tratado de harmonia

[01:12:04] ela vai dar

[01:12:05] base

[01:12:06] a todos os

[01:12:06] sei lá

[01:12:07] você pega a revistinha

[01:12:08] de cifra

[01:12:09] na banca

[01:12:10] existe isso ainda?

[01:12:11] bom

[01:12:11] vai no cifra publica

[01:12:13] na internet

[01:12:13] isso, isso

[01:12:14] melhor

[01:12:14] mas eu comprei

[01:12:15] eu comprei muito

[01:12:16] essas revistinhas

[01:12:17] você compra ali

[01:12:19] você vê

[01:12:19] você vê os acordes

[01:12:21] esse conceito

[01:12:22] começa a surgir

[01:12:23] com o Rameau

[01:12:24] no século XVII

[01:12:25] ele vai ser

[01:12:26] um dos primeiros caras

[01:12:27] tem o

[01:12:28] o Flávio

[01:12:29] Zarlino

[01:12:30] antes dele também

[01:12:31] que vai buscar romper

[01:12:32] com essa ideia

[01:12:34] então ele vai se apropriar

[01:12:35] de um

[01:12:36] de N fontes

[01:12:37] do pensamento iluminista

[01:12:38] principalmente

[01:12:38] ele vai se apropriar

[01:12:40] de um texto

[01:12:41] que o Descartes escreveu

[01:12:43] que é o

[01:12:43] compêndio de música

[01:12:46] apesar que

[01:12:49] quando o Descartes

[01:12:50] escreve esse texto

[01:12:51] ele não é tipo

[01:12:51] o Descartes

[01:12:52] que a gente conhece

[01:12:53] dualista

[01:12:53] ele é um cara

[01:12:54] de 22 anos

[01:12:55] revoltado com os professores

[01:12:56] do colégio Laflette

[01:12:57] e tenta aplicar

[01:12:59] a matemática à música

[01:13:00] pra entender

[01:13:00] os afetos humanos

[01:13:01] certo?

[01:13:04] de uma maneira

[01:13:05] bem resumida

[01:13:05] então

[01:13:06] ele vai ser

[01:13:06] o Ramon

[01:13:06] vai ser o primeiro cara

[01:13:07] que vai falar

[01:13:07] não, eu posso teorizar

[01:13:09] e posso tocar

[01:13:10] inclusive tem episódios

[01:13:12] da vida dele

[01:13:13] onde ele

[01:13:14] quando ele publica

[01:13:15] porque esse texto

[01:13:16] os textos

[01:13:17] que eram muito técnicos

[01:13:18] eram feitos por teóricos

[01:13:19] que muitas vezes

[01:13:20] nem sabiam tocar

[01:13:21] então o Ramon

[01:13:25] ele vai tentar romper

[01:13:26] vai ser o primeiro

[01:13:26] que vai buscar

[01:13:27] então ele vai

[01:13:28] se influenciar

[01:13:29] por N coisas

[01:13:30] e na vida dele

[01:13:31] às vezes falavam

[01:13:31] cara

[01:13:32] você vai chamar

[01:13:34] trazendo pro nosso

[01:13:36] contemporâneo

[01:13:37] você vai chamar esse cara

[01:13:38] pra tocar no bar à noite?

[01:13:39] o cara é filósofo

[01:13:40] você acha que ele toca

[01:13:41] alguma coisa?

[01:13:43] por outro lado

[01:13:44] os filósofos

[01:13:45] olhavam pra ele

[01:13:46] cara

[01:13:47] o cara toca

[01:13:47] o cara toca teclado

[01:13:49] à noite

[01:13:50] escreve ópera

[01:13:51] você acha que ele teoriza

[01:13:52] alguma coisa?

[01:13:53] é o Beccari

[01:13:54] pintando aquarela

[01:13:55] né Beccari

[01:13:56] isso aí

[01:13:56] é pintor

[01:13:58] é designer

[01:13:59] é filósofo

[01:14:00] o que que é esse cara?

[01:14:03] então vai ter

[01:14:04] toda uma briga

[01:14:05] vai ter ruçando

[01:14:06] contra Ramon

[01:14:07] vai ter o Diderot

[01:14:08] fazendo

[01:14:09] uma gozação

[01:14:10] que é o

[01:14:11] sobrinho do Ramon

[01:14:12] é isso mesmo

[01:14:13] na Idade Média né

[01:14:14] Tiago

[01:14:15] quando

[01:14:15] no advento

[01:14:17] lá do canto gregoriano

[01:14:18] pô

[01:14:19] que merda é essa

[01:14:20] que os caras estão

[01:14:20] colocando letra

[01:14:21] na música

[01:14:22] é

[01:14:22] não mas na verdade

[01:14:24] o canto gregoriano

[01:14:25] a estética medieval

[01:14:27] tipo

[01:14:27] a música instrumental

[01:14:29] é uma porcaria

[01:14:30] na estética medieval

[01:14:31] musical né

[01:14:32] o que importa

[01:14:33] a

[01:14:34] a finalidade

[01:14:35] a finalidade

[01:14:36] é a letra

[01:14:37] da liturgia

[01:14:38] o canto

[01:14:39] que tá atrás

[01:14:39] é de fundo

[01:14:41] mas assim

[01:14:41] isso é um movimento né

[01:14:43] é

[01:14:44] a base do cantochão

[01:14:46] vem dessa né

[01:14:47] porque o Agostinho

[01:14:48] por exemplo

[01:14:49] falava que

[01:14:50] esse negócio de cantar

[01:14:51] não é legal não

[01:14:51] não

[01:14:52] mas Agostinho

[01:14:53] tá no

[01:14:53] cara ainda é Roma

[01:14:54] quase né

[01:14:55] é

[01:14:56] a Idade Média

[01:14:57] vai vir um pouco depois

[01:14:59] ele é um

[01:15:00] filósofo medieval

[01:15:01] caralho

[01:15:01] não eu sei

[01:15:02] porra

[01:15:03] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:05] é

[01:15:06] a letra

[01:15:07] é importante

[01:15:07] quando você canta

[01:15:09] é pra enfeitar né

[01:15:10] mesmo

[01:15:10] as práticas musicais

[01:15:12] vão restringir muito

[01:15:13] aonde o canto vai chegar

[01:15:14] é claro que com o tempo

[01:15:15] os músicos vão ficando

[01:15:16] mais saidinhos

[01:15:17] e vão

[01:15:17] ah

[01:15:18] eu quero saber de Boésio

[01:15:20] de Agostinho né

[01:15:21] vamos

[01:15:22] vamos fazer dois coros

[01:15:24] um na frente do outro

[01:15:24] cantar em alemão

[01:15:25] cantar

[01:15:26] pegar um canto profano

[01:15:28] e exorcizar ele

[01:15:28] com

[01:15:29] com ao mesmo tempo

[01:15:30] uma

[01:15:30] recitando salmos

[01:15:33] né

[01:15:34] que loucura

[01:15:35] no momento no fim do ano

[01:15:35] final da idade média

[01:15:37] que foi a maior loucura

[01:15:38] isso era

[01:15:39] equivalente ao Ozzy

[01:15:40] comendo uma cabeça

[01:15:42] de um pombo

[01:15:43] assim né

[01:15:43] isso é sinistro

[01:15:45] é pros ortodoxos né

[01:15:47] sim

[01:15:47] da linhagem lá

[01:15:49] do

[01:15:49] do Agostinho

[01:15:51] enfim

[01:15:51] aham

[01:15:52] é

[01:15:53] a linhagem

[01:15:53] do cristianismo mais

[01:15:56] é

[01:15:57] realmente romano né

[01:15:58] sim

[01:15:59] aí depois

[01:16:00] depois do século 17

[01:16:02] vai ter músicos

[01:16:03] que eles vão

[01:16:04] é

[01:16:05] eles vão

[01:16:05] pensar essa questão

[01:16:06] da forma

[01:16:07] no classicismo

[01:16:09] tem cartas

[01:16:10] de Mozart

[01:16:11] preocupando

[01:16:11] caramba

[01:16:12] a gente tá usando

[01:16:12] a forma demais

[01:16:13] a música do

[01:16:15] será que vai ter música

[01:16:17] depois de nós

[01:16:18] e todos os compositores

[01:16:20] depois do Beethoven

[01:16:21] começam a ficar

[01:16:22] dramáticos

[01:16:23] dizendo

[01:16:23] meu Deus

[01:16:24] Beethoven levou

[01:16:25] a forma sonata

[01:16:26] até o seu limite

[01:16:27] como que a gente

[01:16:29] vai superar né

[01:16:30] caia sobre mim

[01:16:31] para fazer outra coisa

[01:16:32] então

[01:16:33] vai haver

[01:16:33] esse tipo de reflexão

[01:16:35] só que ao mesmo tempo

[01:16:35] o fato dos músicos

[01:16:38] tem uma tradição

[01:16:39] de que

[01:16:40] uma tradição

[01:16:41] muito antiga

[01:16:42] que vem da graça antiga

[01:16:43] passa pela idade média

[01:16:44] que o próprio músico

[01:16:45] não pode teorizar

[01:16:46] vai ter uma grande

[01:16:48] cisão

[01:16:48] no século 19

[01:16:51] ainda

[01:16:51] certo contato

[01:16:52] mas no século 20

[01:16:53] tem uma grande cisão

[01:16:54] então normalmente

[01:16:55] o músico

[01:16:57] que vai teorizar

[01:16:58] ele não quer saber

[01:17:00] que alguém não músico

[01:17:01] teorize sabe

[01:17:02] aham

[01:17:03] sim

[01:17:03] o que vai

[01:17:04] levar essa reflexão

[01:17:05] a um caráter

[01:17:06] excessivamente técnico né

[01:17:08] no século 20

[01:17:11] e

[01:17:13] e muito específico

[01:17:15] sabe

[01:17:15] parece que

[01:17:16] para entrar na discussão

[01:17:17] você tem que ter

[01:17:18] toda uma iniciação

[01:17:19] musical né

[01:17:20] encontrar o absoluto

[01:17:23] num quarto escuro

[01:17:24] sei lá

[01:17:24] é que

[01:17:25] até um

[01:17:26] é interessante

[01:17:27] você estar me falando

[01:17:28] porque por exemplo

[01:17:29] a gente tem numa

[01:17:30] isso muito no Brasil né

[01:17:32] lá fora

[01:17:32] não tem tanto

[01:17:33] mas

[01:17:34] vou falar aqui no Brasil

[01:17:35] a gente tem

[01:17:35] no caso da literatura

[01:17:38] um problema

[01:17:39] no mercado

[01:17:40] que a gente fala

[01:17:40] que é que

[01:17:41] o crítico de literatura

[01:17:42] geralmente também escreve

[01:17:43] e isso é visto

[01:17:45] de maus olhos

[01:17:46] porque você não tem

[01:17:47] a formação

[01:17:48] de uma classe profissional

[01:17:49] que seja só crítico

[01:17:50] né

[01:17:51] e que se dedica

[01:17:52] só a crítica literária

[01:17:54] me parece que

[01:17:56] na música

[01:17:57] não

[01:17:57] não

[01:17:58] eu acredito que

[01:17:59] por exemplo

[01:18:00] nas artes plásticas

[01:18:01] existem críticos

[01:18:02] que não pintam

[01:18:03] mas me parece

[01:18:04] que na música

[01:18:04] não tem muito isso né

[01:18:05] o crítico

[01:18:05] não tem muito isso né

[01:18:05] o crítico

[01:18:05] o crítico geralmente

[01:18:06] está muito ligado

[01:18:07] também com a produção musical

[01:18:08] estou enganado

[01:18:09] ou também existem exceções

[01:18:11] olha

[01:18:12] existe cara

[01:18:13] existem exceções

[01:18:14] mas

[01:18:15] ele pode não estar ligado

[01:18:17] diretamente

[01:18:18] mas assim

[01:18:18] na adolescência dele

[01:18:20] ele tocou

[01:18:21] sabe

[01:18:22] de uma certa forma

[01:18:24] ele

[01:18:24] ele acaba

[01:18:26] ele acaba se inventando

[01:18:27] ou então

[01:18:27] ele é

[01:18:28] aquele cara mais

[01:18:29] é

[01:18:31] que ouve sim

[01:18:33] que tem uma coleção

[01:18:34] de 10 mil discos

[01:18:35] em casa

[01:18:35] sabe

[01:18:36] ou seja

[01:18:38] ele tentou ser músico

[01:18:40] em algum momento

[01:18:40] não deu certo

[01:18:41] virou crítico

[01:18:41] é basicamente isso

[01:18:42] é basicamente

[01:18:44] mas daí é um crítico

[01:18:47] formalista né

[01:18:48] porque daí ele vai

[01:18:48] se apoiar

[01:18:50] numa teoria

[01:18:50] assim tipo

[01:18:51] ou seja

[01:18:52] no modelo né

[01:18:54] exatamente

[01:18:55] pra ter um critério

[01:18:56] e tal

[01:18:56] e isso é uma coisa

[01:18:57] muito frequente

[01:18:59] no século XIX

[01:18:59] esses modelos né

[01:19:02] no caso

[01:19:03] das artes plásticas

[01:19:04] a história

[01:19:05] da arte

[01:19:06] quanto à disciplina

[01:19:07] vem no século XIX

[01:19:08] com alguns caras

[01:19:09] né

[01:19:10] ela surge no século XIX

[01:19:11] com uns caras como

[01:19:12] Wolfling

[01:19:13] não lembro o primeiro nome dele

[01:19:14] enfim

[01:19:15] os historiadores alemães né

[01:19:16] que

[01:19:17] no século

[01:19:18] no decorrer do século XIX

[01:19:19] é

[01:19:20] tentam justamente

[01:19:22] formar a história

[01:19:23] das coisas

[01:19:24] entre as quais

[01:19:25] a história da arte

[01:19:26] que daí tenta

[01:19:27] fazer essas divisões

[01:19:28] e geralmente

[01:19:29] esses historiadores

[01:19:30] eles não são pintores

[01:19:31] no século XIX

[01:19:32] né

[01:19:33] então daí você vê

[01:19:34] eles tentando

[01:19:35] tipo

[01:19:35] encontrar

[01:19:36] uma forma

[01:19:37] por exemplo

[01:19:38] que vai separar

[01:19:39] o renascimento

[01:19:40] do barroco

[01:19:41] que é o Wolfling né

[01:19:42] vai falar

[01:19:42] qual que é a diferença

[01:19:43] entre renascimento

[01:19:45] e barroco

[01:19:45] só que ele vai encontrar

[01:19:46] essa forma

[01:19:47] na pintura

[01:19:48] sem ele nem

[01:19:49] nunca ter encostado

[01:19:50] a mão no pincel

[01:19:52] então ele está inventando

[01:19:53] formas que inclusive

[01:19:54] os artistas

[01:19:55] não falaram

[01:19:56] não foi uma produção

[01:19:57] crítica dos artistas

[01:19:57] falando

[01:19:58] eu segui esse método

[01:19:59] eles acabam inventando

[01:20:01] métodos

[01:20:02] tá entendendo?

[01:20:03] que são usados

[01:20:04] até hoje

[01:20:05] inclusive

[01:20:05] exatamente

[01:20:06] então você vê que

[01:20:07] assim

[01:20:08] é como se

[01:20:09] vamos supor

[01:20:10] o Ivan fizesse aí

[01:20:11] uma música de guitarra

[01:20:13] e tal

[01:20:13] ou você mesmo

[01:20:14] aí eu olhasse isso

[01:20:15] e falava

[01:20:16] não, ele pensou assim

[01:20:17] aí vocês falam

[01:20:19] não, eu não pensei assim

[01:20:20] não, foda-se

[01:20:21] eu sou

[01:20:23] o historiador

[01:20:24] aqui, caralho

[01:20:25] eu preciso de um

[01:20:26] critério

[01:20:27] e daí que

[01:20:28] pra algumas pessoas

[01:20:29] pra alguns teóricos

[01:20:30] surge a profissão

[01:20:31] do crítico

[01:20:31] que é

[01:20:33] sabe

[01:20:34] sabe

[01:20:35] , não que antes

[01:20:36] não havia crítica

[01:20:37] mas a crítica

[01:20:38] era de fato

[01:20:39] algo indissociável

[01:20:40] dos artistas

[01:20:41] os artistas

[01:20:43] faziam crítica

[01:20:43] a outros artistas

[01:20:45] sim

[01:20:45] até

[01:20:46] eu quero

[01:20:47] não sei se tem alguma coisa

[01:20:49] pra falar sobre

[01:20:50] essa questão de crítica

[01:20:50] Tiago

[01:20:51] mas eu queria mudar

[01:20:52] fazer uma outra pergunta

[01:20:53] pra você

[01:20:53] voltando um pouco atrás

[01:20:55] lá pra idade média

[01:20:56] pode fazer

[01:20:57] que é

[01:20:57] o lance é o seguinte

[01:20:58] quando

[01:20:59] por exemplo

[01:21:00] quando eu tô dando aula

[01:21:01] de história da arte

[01:21:02] uma das coisas

[01:21:03] artes plásticas

[01:21:04] em geral

[01:21:05] a gente sempre cita

[01:21:07] o fato

[01:21:07] de que

[01:21:08] você não tem

[01:21:11] nomes de pintores

[01:21:12] na idade média

[01:21:13] eles começam a aparecer

[01:21:15] ali pelo século 12

[01:21:16] 13

[01:21:16] alguma coisa assim

[01:21:18] e que daí

[01:21:19] você já tá abrindo

[01:21:19] as portas pro renascimento

[01:21:21] como um todo

[01:21:21] e uma das marcas dele

[01:21:22] que você vai ter

[01:21:23] assinatura

[01:21:23] o nome

[01:21:25] do artista

[01:21:25] autoria

[01:21:27] já vai ter o autor

[01:21:28] agora

[01:21:29] eu já vi isso

[01:21:31] em várias vezes

[01:21:32] e

[01:21:32] querido

[01:21:33] quero saber

[01:21:34] se eu tô falando

[01:21:35] bobagem

[01:21:36] de que

[01:21:36] isso é muito

[01:21:37] das coisas

[01:21:38] das artes manuais

[01:21:38] que as artes

[01:21:39] intelectuais

[01:21:40] como a poesia

[01:21:42] e a música

[01:21:43] literatura

[01:21:44] em geral

[01:21:44] ela

[01:21:45] a autoria

[01:21:46] sempre foi respeitada

[01:21:47] nós temos

[01:21:49] nomes de compositores

[01:21:51] que vem da idade média

[01:21:52] ali século 7

[01:21:53] 8

[01:21:53] 9

[01:21:54] 10

[01:21:54] a gente tem isso

[01:21:55] a partir

[01:21:57] do século 7

[01:21:58] mais ou menos

[01:21:59] porque assim

[01:22:00] a gente ficou

[01:22:01] sem notação musical

[01:22:02] por muito tempo

[01:22:03] e se você

[01:22:04] não tem

[01:22:04] notação musical

[01:22:05] a prática musical

[01:22:06] vem puramente

[01:22:07] de memória

[01:22:07] então a autoria

[01:22:08] se perde

[01:22:10] inclusive porque

[01:22:11] os textos

[01:22:12] eram meio padronizados

[01:22:13] na idade média

[01:22:14] pelo menos

[01:22:14] quando a gente fala

[01:22:14] em música eclesiástica

[01:22:15] no âmbito

[01:22:17] da música

[01:22:18] profana

[01:22:19] que tem alguns

[01:22:20] registros de época

[01:22:21] a autoria

[01:22:23] não era um tema

[01:22:24] de grande discussão

[01:22:25] quando surge

[01:22:26] a notação musical

[01:22:27] que a gente trabalha

[01:22:28] hoje

[01:22:28] porque os gregos

[01:22:29] tinham a sua forma

[01:22:30] de notar música

[01:22:31] os romanos

[01:22:32] tinham a sua

[01:22:32] e se perdeu

[01:22:34] né

[01:22:34] tem tentativas

[01:22:36] de restauração

[01:22:36] com as bibliotecas

[01:22:37] queimadas

[01:22:38] lá pelo império romano

[01:22:39] olha

[01:22:40] sobreviveu

[01:22:41] um certo repertório

[01:22:42] mas o pessoal

[01:22:42] não sabe nem

[01:22:43] por muito tempo

[01:22:44] não se sabia nem

[01:22:46] como ler

[01:22:46] isso né

[01:22:47] após os anos 40

[01:22:49] que

[01:22:49] os anos 20

[01:22:50] assim

[01:22:51] do século 20

[01:22:51] que a escrita grega

[01:22:53] e romana

[01:22:53] começou a ser compreendida

[01:22:54] tem uma escrita

[01:22:55] no começo

[01:22:56] da idade média

[01:22:57] que também

[01:22:57] ninguém entende

[01:22:58] quando surge

[01:22:59] a escrita neumática

[01:23:01] os chamados

[01:23:02] neumas

[01:23:02] que vai dar base

[01:23:03] na nossa partitura

[01:23:04] moderna

[01:23:05] num primeiro momento

[01:23:06] não tem autoria

[01:23:07] porque praticamente

[01:23:08] o cara que inventou

[01:23:09] o Guido D’Arezzo

[01:23:10] ele vai

[01:23:11] caramba

[01:23:12] eu lembro disso

[01:23:12] vou escrever

[01:23:13] sabe

[01:23:13] ele tentou

[01:23:14] botar toda a memória dele

[01:23:15] são músicas

[01:23:16] folclóricas

[01:23:17] não é

[01:23:17] inicialmente

[01:23:19] não era canto gregoriano

[01:23:20] mesmo

[01:23:21] é porque

[01:23:22] o músico folclórico

[01:23:23] cai no profano

[01:23:26] já

[01:23:26] nos trovadores

[01:23:28] enfim

[01:23:29] toda música popular

[01:23:30] né

[01:23:30] que é negada

[01:23:32] exatamente

[01:23:33] a escrita vai ser

[01:23:34] eclesiástica

[01:23:35] que vai ter

[01:23:35] e aí

[01:23:36] a partir ali

[01:23:37] do século

[01:23:38] 7

[01:23:39] lá pelo 9

[01:23:40] você começa a ter

[01:23:41] mas realmente

[01:23:42] isso fica forte

[01:23:43] no século 13

[01:23:44] quando tem

[01:23:46] ars antigo

[01:23:47] ars novo

[01:23:47] aí você começa

[01:23:48] a ter novo

[01:23:49] é o

[01:23:50] São Tomás de Aquino

[01:23:52] né

[01:23:52] a patrística

[01:23:53] que faz as escolas

[01:23:55] e faz as pessoas

[01:23:56] escreverem né

[01:23:57] enfim

[01:23:59] registrarem as coisas

[01:24:00] registrarem as músicas

[01:24:01] no caso

[01:24:02] por um bom tempo

[01:24:02] porque você tem

[01:24:03] desde Carlos Magno

[01:24:04] já

[01:24:04] as reformas políticas

[01:24:06] culturais

[01:24:07] que ele faz

[01:24:07] século 8, 9

[01:24:08] já tem também

[01:24:09] toda uma preocupação

[01:24:11] a tradição de copistas

[01:24:12] começa com o Magno

[01:24:13] né

[01:24:13] então você já tem ali

[01:24:15] uma preocupação

[01:24:15] do registro

[01:24:16] também a partir do século 8

[01:24:17] por isso que eu faço

[01:24:18] essa pergunta

[01:24:19] porque

[01:24:19] eu já vi essa explicação

[01:24:21] de que a música

[01:24:22] ela pode ter tido

[01:24:24] um momento

[01:24:24] em que ela não foi

[01:24:25] respeitada a autoria

[01:24:26] mas que

[01:24:27] digamos assim

[01:24:28] ela estava num estatuto

[01:24:29] bem mais

[01:24:29] elevado

[01:24:31] socialmente

[01:24:32] digamos assim

[01:24:32] do que o pintor

[01:24:34] né

[01:24:34] mas continue

[01:24:36] você disse que

[01:24:36] os nomes

[01:24:37] aparecem mais no século 12

[01:24:38] mas antes também

[01:24:38] tem alguma coisa né

[01:24:39] é

[01:24:40] você começa a ter

[01:24:42] com Guido de Arezzo

[01:24:43] quando ele inventa

[01:24:44] a escrita neomática

[01:24:45] e a partir dele

[01:24:46] começam a surgir nomes

[01:24:47] sim

[01:24:48] e nomes individuais

[01:24:50] mesmo

[01:24:50] você não tem muito

[01:24:52] tradição a

[01:24:53] guildas né

[01:24:54] é

[01:24:55] é que

[01:24:57] começa a aparecer

[01:24:58] não é uma prática

[01:24:59] geral

[01:25:00] mas depois

[01:25:00] quando chega no século 12

[01:25:02] aí não

[01:25:02] aí tem nome

[01:25:03] principalmente

[01:25:03] é um nome

[01:25:04] geralmente

[01:25:04] quando você tem uma briga

[01:25:05] de dois movimentos musicais

[01:25:07] que é o Ars Antico

[01:25:08] e o Ars Nova

[01:25:08] a partir daí

[01:25:10] é tudo

[01:25:10] é tudo nome

[01:25:11] assinadinho

[01:25:12] registrado

[01:25:14] carimbado

[01:25:14] e tudo mais

[01:25:15] o que que é o Ars Antico

[01:25:17] e o Ars Nova

[01:25:17] só pra gente

[01:25:18] só pra saber

[01:25:19] isso coincide com

[01:25:19] a primeira reforma

[01:25:22] ou não?

[01:25:23] não

[01:25:23] é antes

[01:25:24] é a primeira reforma

[01:25:25] é a reforma

[01:25:26] só vai acontecer

[01:25:26] bem depois

[01:25:27] século 14 né

[01:25:28] não

[01:25:28] a reforma

[01:25:29] caralho

[01:25:30] século 16

[01:25:32] 16

[01:25:32] primeira?

[01:25:33] é a primeira reforma

[01:25:34] é a reforma

[01:25:35] 16

[01:25:35] você está falando

[01:25:37] da reforma católica

[01:25:38] da reforma

[01:25:39] ou reforma protestante?

[01:25:40] não

[01:25:40] aquela que divide

[01:25:42] entre

[01:25:42] ortodoxo e

[01:25:44] século 15 e 16

[01:25:45] isso

[01:25:45] então

[01:25:46] fala aí Tiago

[01:25:47] é sobre

[01:25:48] eu já esqueci

[01:25:49] o que eu te perguntei

[01:25:50] é sobre

[01:25:51] então

[01:25:51] o Ars Antico

[01:25:52] o Ars Antico

[01:25:54] era

[01:25:54] a prática do cantochão

[01:25:57] que começou

[01:25:57] quando começou

[01:25:59] a polifonia

[01:26:00] quer dizer

[01:26:01] eu tenho um coro enorme

[01:26:02] mas não todo mundo

[01:26:03] se repetindo

[01:26:04] vou ter melodias diferentes

[01:26:05] isso era o

[01:26:06] Ars Nova

[01:26:07] aí

[01:26:07] aí todo mundo

[01:26:08] quer por autoria

[01:26:09] e isso é polifônico

[01:26:11] isso

[01:26:11] a não ser

[01:26:12] uma outra obra

[01:26:13] que tem textos

[01:26:14] que falam mal da igreja

[01:26:15] como

[01:26:16] tem o

[01:26:19] Romã do Falvel

[01:26:22] Romã do Falvel

[01:26:25] não vai

[01:26:26] desculpa ouvinte

[01:26:27] não vai ter produção

[01:26:28] melhor

[01:26:28] que isso

[01:26:29] relaxa

[01:26:30] mas o Ars Antico

[01:26:31] é justamente

[01:26:32] aquilo que não é

[01:26:33] polifônico

[01:26:34] portanto tem um tom

[01:26:35] só

[01:26:35] assim seguido

[01:26:37] é como se fosse

[01:26:38] o canto gregoriano

[01:26:39] clássico mesmo

[01:26:40] eles não mudam

[01:26:40] a tonalidade

[01:26:42] não

[01:26:42] não mudam

[01:26:43] para o ouvinte entender

[01:26:45] bem fácil

[01:26:45] roda de violão

[01:26:46] todo mundo

[01:26:47] um monte de gente

[01:26:47] cantando a mesma coisa

[01:26:48] teoricamente

[01:26:49] sim

[01:26:50] então a partir do momento

[01:26:53] que surge a polifonia

[01:26:54] aí o nome vai ser

[01:26:54] muito importante

[01:26:55] porque daí

[01:26:57] se precisa de um autor

[01:26:58] porque não é todo mundo

[01:26:58] fazendo a mesma coisa

[01:26:59] exatamente

[01:27:00] inclusive porque

[01:27:01] há trocas

[01:27:03] eles querem

[01:27:03] até uma série

[01:27:05] porque há uma vigilância

[01:27:07] muito grande

[01:27:08] da estrutura

[01:27:09] igreja

[01:27:10] sobre o que é produzido

[01:27:12] musicalmente

[01:27:12] então o nome

[01:27:14] também tem um sentido

[01:27:15] de controle ali

[01:27:16] a autoria

[01:27:17] ali também é uma forma

[01:27:18] estou sendo meio

[01:27:19] fucotiano né

[01:27:20] também é uma forma

[01:27:21] uma forma de poder

[01:27:23] por parte

[01:27:25] é claro que

[01:27:25] quando a gente chega

[01:27:26] no século XII

[01:27:27] XIII

[01:27:27] a igreja vai ter

[01:27:28] uma série de outros problemas

[01:27:29] século XIV

[01:27:30] e vai prestar pouca atenção

[01:27:32] no que os músicos fazem

[01:27:33] né

[01:27:33] então

[01:27:33] ,

[01:27:34] que aí é

[01:27:35] vai ser inventado

[01:27:36] mas isso vai ficar muito forte

[01:27:37] e essa

[01:27:38] é claro que vai ter momentos

[01:27:40] por exemplo

[01:27:40] no barroco

[01:27:42] como que você

[01:27:43] homenageia um músico

[01:27:44] que você gosta

[01:27:45] pegando um tema dele

[01:27:46] e fazendo uma versão sua

[01:27:47] daquele tema

[01:27:48] o barroco

[01:27:49] na música

[01:27:50] anda ao lado

[01:27:51] do período

[01:27:52] das artes plásticas

[01:27:53] também

[01:27:54] século XVI

[01:27:55] XV

[01:27:56] perdão

[01:27:57] XVI, XVII

[01:27:58] ou

[01:27:58] é um pouco

[01:28:00] outro período

[01:28:00] eu acho que é XVI, XVII

[01:28:02] é muito

[01:28:02] o barroco

[01:28:03] casa junto

[01:28:04] é claro que a gente

[01:28:05] o classicismo musical

[01:28:08] equivale ao

[01:28:08] arcadismo da literatura

[01:28:10] sim

[01:28:10] é que isso

[01:28:12] para o ouvinte

[01:28:13] que não sabe

[01:28:13] sempre que você usa

[01:28:14] esses termos

[01:28:15] romântico

[01:28:16] barroco

[01:28:17] todos esses

[01:28:18] grandes movimentos

[01:28:19] ele funciona de um jeito

[01:28:20] nas artes plásticas

[01:28:21] e outro na literatura

[01:28:22] e outro na música

[01:28:23] só que em algum momento

[01:28:24] eles se encontram

[01:28:26] também né

[01:28:27] então você pode ver

[01:28:28] essas

[01:28:28] algumas características

[01:28:29] de um entrando no outro

[01:28:31] mas não é

[01:28:32] cada caso

[01:28:33] é um caso

[01:28:34] a gente tem que

[01:28:34] sempre tomar cuidado

[01:28:35] com isso

[01:28:35] por isso que eu estou

[01:28:36] perguntando

[01:28:36] é no caso

[01:28:37] no caso do barroco

[01:28:39] casa bem

[01:28:39] então por exemplo

[01:28:40] você tem uma prática

[01:28:41] de autoria

[01:28:41] mas nem sempre

[01:28:43] como essas homenagens

[01:28:44] não eram publicadas

[01:28:45] digamos assim

[01:28:46] nem sempre o cara

[01:28:47] comenta o nome do autor

[01:28:48] às vezes tem no diário

[01:28:50] dele sabe

[01:28:50] você tem

[01:28:53] mas era uma prática

[01:28:54] constante

[01:28:54] por exemplo

[01:28:55] como que a gente

[01:28:56] descobriu

[01:28:57] o Vivaldi

[01:28:58] o cara que fez

[01:28:58] a música do Vinola

[01:28:59] para quem está ouvindo

[01:29:00] coitado

[01:29:00] Vivaldi

[01:29:01] puta merda

[01:29:02] mas

[01:29:03] mas assim

[01:29:04] como o cara descobriu

[01:29:05] porque o bar

[01:29:06] os caras

[01:29:08] ficaram loucos

[01:29:09] pelo bar

[01:29:09] e viu

[01:29:10] o bar

[01:29:10] ah o bar

[01:29:11] curte músicas do Vivaldi

[01:29:13] músicas do Pachebel

[01:29:14] não sei o que

[01:29:15] e foram atrás

[01:29:15] descobrir quem eram

[01:29:17] esses caras né

[01:29:18] mas ao mesmo tempo

[01:29:20] que tinha autoria

[01:29:21] você não tinha

[01:29:21] memória de autores

[01:29:23] desregistros né

[01:29:25] é porque

[01:29:26] o que acontecia

[01:29:28] o cara

[01:29:28] a música era feita

[01:29:30] e era executado

[01:29:31] naquele grupo ali

[01:29:32] a gente só vai

[01:29:33] ter memória musical

[01:29:35] a partir do classicismo

[01:29:36] e principalmente

[01:29:37] no século XIX

[01:29:38] porque você vai ter

[01:29:39] uma impressão

[01:29:41] de partituras

[01:29:42] comercialização

[01:29:42] normalmente o compositor

[01:29:44] você tinha autoria

[01:29:45] mas você não tinha

[01:29:46] uma memória

[01:29:46] sei lá

[01:29:47] o cara no barroco

[01:29:49] não vai saber

[01:29:50] tem grandes chances

[01:29:52] ele não ter ideia

[01:29:53] do que

[01:29:53] do que

[01:29:54] do que era o Ars Nova

[01:29:55] por exemplo

[01:29:56] você tinha acesso

[01:29:58] a técnica

[01:29:59] que o seu mestre

[01:30:00] passava por você

[01:30:01] agora

[01:30:02] você não tinha

[01:30:03] uma memória

[01:30:03] de um barroco

[01:30:03] de compositores

[01:30:04] muito mais antigos

[01:30:05] isso vai surgir

[01:30:07] no século XIX

[01:30:08] no classicismo

[01:30:09] e no século XIX

[01:30:10] no romantismo

[01:30:11] que isso vai ficar

[01:30:12] muito forte

[01:30:12] e daí tentam resgatar

[01:30:14] as coisas antigas

[01:30:15] também né

[01:30:15] isso

[01:30:16] é que daí vai ser

[01:30:18] o momento em que

[01:30:18] a própria história

[01:30:19] vai se formar também né

[01:30:20] é

[01:30:21] como a gente conhece hoje

[01:30:22] é

[01:30:23] juntou

[01:30:25] juntou esses fatores né

[01:30:26] aí que o pessoal

[01:30:27] teve uma curiosidade

[01:30:28] sobre

[01:30:29] sobre a história

[01:30:30] da música

[01:30:31] que é uma disciplina

[01:30:32] que não existia né

[01:30:33] como não existia

[01:30:33] não existia história né

[01:30:34] é sim sim

[01:30:35] e isso é curioso

[01:30:37] porque eles vão daí

[01:30:38] se focar obviamente

[01:30:39] na música erudita né

[01:30:40] porque eu me pergunto muito

[01:30:41] como é que se lida

[01:30:42] com os trovadores

[01:30:43] por exemplo

[01:30:44] com a chamada

[01:30:45] música popular

[01:30:45] no caso né

[01:30:46] porque você não tem

[01:30:48] um senso de autoria

[01:30:49] você não tem

[01:30:50] as músicas são

[01:30:52] passadas de tradição oral

[01:30:53] os trovadores

[01:30:54] estão andando

[01:30:55] pelas cidades

[01:30:55] e cantando

[01:30:56] repetindo músicas

[01:30:57] ou criando mesmo assim

[01:30:58] mas a gente

[01:30:58] não tem o nome

[01:30:59] desses caras

[01:31:00] inclusive eles são vistos

[01:31:01] como a ralé da sociedade né

[01:31:02] então

[01:31:03] durante o medievo

[01:31:04] só que ao mesmo tempo

[01:31:06] você tem músicas

[01:31:07] poderosíssimas

[01:31:08] que são poemas

[01:31:09] cantados

[01:31:10] como por exemplo

[01:31:11] a canção de Rolando né

[01:31:12] que fala lá

[01:31:13] de uma batalha épica

[01:31:15] que aconteceu

[01:31:16] na França

[01:31:17] se não me engano né

[01:31:18] e

[01:31:19] como é que

[01:31:20] esse problema

[01:31:22] da música popular

[01:31:23] entra

[01:31:24] nessa questão assim

[01:31:25] porque

[01:31:26] quando a gente

[01:31:27] está falando de popular

[01:31:28] obviamente

[01:31:29] eu estou querendo

[01:31:29] me referir aqui

[01:31:30] que

[01:31:30] qualquer arte popular

[01:31:32] e eu não estou falando

[01:31:33] do grupo de pagode

[01:31:34] obviamente

[01:31:35] ela é sempre

[01:31:36] meio mal vista

[01:31:37] pelo clero

[01:31:39] e pela nobreza né

[01:31:40] e daí você vai ter

[01:31:41] uma obra na literatura

[01:31:42] importantíssima

[01:31:43] no século XIII

[01:31:43] como por exemplo

[01:31:44] a Divina Comédia

[01:31:45] do Dante

[01:31:45] que ele comete

[01:31:46] a audácia

[01:31:47] de escrever em italiano

[01:31:48] e não em latim

[01:31:49] a língua vulgar

[01:31:50] ganha repercussão

[01:31:52] a obra

[01:31:52] com uma grande crítica

[01:31:53] à igreja

[01:31:54] e a uma série de nobres

[01:31:55] e enfim né

[01:31:56] o popular

[01:31:57] é sempre uma coisa

[01:31:57] que incomoda

[01:31:58] quando que

[01:32:00] como é que a gente

[01:32:01] estuda

[01:32:02] o popular

[01:32:03] e a sua importância

[01:32:04] estética

[01:32:05] se é que existe alguma

[01:32:06] dentro desse

[01:32:07] período medieval

[01:32:08] assim

[01:32:08] se a gente passar

[01:32:10] pelo período

[01:32:10] ou no período medieval

[01:32:12] o que que acontece

[01:32:13] tem

[01:32:13] algumas

[01:32:15] melodias

[01:32:16] anotadas

[01:32:16] quem que anotou?

[01:32:20] boa pergunta

[01:32:21] não se sabe

[01:32:21] quem anotou

[01:32:22] porque não era bem visto

[01:32:23] o próprio texto

[01:32:24] da Carmina Burana

[01:32:25] é

[01:32:26] inclusive

[01:32:27] os clérigos

[01:32:28] tinham mania

[01:32:28] gostavam de fazer

[01:32:29] alguns textos

[01:32:29] mais eróticos

[01:32:30] também

[01:32:31] e ficavam

[01:32:33] lá no mosteiro

[01:32:34] né

[01:32:35] então

[01:32:35] quando você vai abrindo

[01:32:36] você começa a descobrir

[01:32:37] mas você

[01:32:38] como tinha escolas

[01:32:40] de trovadores

[01:32:40] você tem alguns textos

[01:32:42] técnicos

[01:32:43] porque assim

[01:32:44] a ideia de escala

[01:32:46] as notas musicais

[01:32:47] utilizadas

[01:32:47] digamos assim

[01:32:48] eram as mesmas

[01:32:50] da música eclesiástica

[01:32:51] e da música

[01:32:51] dos trovadores

[01:32:53] e por aí vai né

[01:32:54] então como você tem

[01:32:55] alguns manuais

[01:32:56] que indicam a dança

[01:32:58] e que

[01:32:59] indicam

[01:33:00] como que eles

[01:33:01] praticavam a música

[01:33:02] você tenta

[01:33:02] reconstruir

[01:33:03] esse repertório

[01:33:04] e tem algumas

[01:33:05] algumas coisas

[01:33:06] que sobreviveram notadas

[01:33:07] de vez em quando

[01:33:08] eles vão

[01:33:09] os musicólogos

[01:33:10] gostam de mosteiros

[01:33:11] que abrem

[01:33:12] o seu acervo

[01:33:13] pra

[01:33:13] pra fazer isso

[01:33:16] você começou a ter

[01:33:16] um registro maior

[01:33:17] na música de nobreza

[01:33:18] a partir do renascimento

[01:33:19] apesar que é uma escrita

[01:33:21] diferente da partitura oficial

[01:33:22] é a chamada

[01:33:24] tablatura

[01:33:24] que todo guitarrista

[01:33:25] conhece

[01:33:26] sim

[01:33:26] opa

[01:33:27] então você tem

[01:33:28] você a partir

[01:33:30] do século 16

[01:33:31] por exemplo

[01:33:31] tem um

[01:33:32] tem

[01:33:33] um livro

[01:33:34] que eu uso bastante

[01:33:35] que é o

[01:33:36] é

[01:33:37] tem

[01:33:39] é um livro

[01:33:40] de músicas né

[01:33:41] da época

[01:33:42] do

[01:33:42] foi publicado

[01:33:43] no ano de 1533

[01:33:45] caramba

[01:33:46] isso

[01:33:46] e sobreviveu

[01:33:47] porque começou

[01:33:48] a ter imprensa

[01:33:49] então você tem

[01:33:49] manuais

[01:33:50] da prática

[01:33:51] da música popular

[01:33:52] a partir do renascimento

[01:33:53] você já tem registro

[01:33:54] dessa prática

[01:33:55] da música de nobreza

[01:33:56] e alguma coisa

[01:33:57] da música do povão

[01:33:58] também

[01:33:59] e tem técnicas

[01:34:00] de reconstrução

[01:34:01] que é uma grande discussão

[01:34:02] dos

[01:34:03] claro que

[01:34:03] você não vai conseguir

[01:34:05] reconstruir

[01:34:06] exatamente igual

[01:34:07] mas você chega muito próximo

[01:34:08] porque você tem

[01:34:09] muitos dados

[01:34:09] ou seja

[01:34:12] o adorno

[01:34:13] reclamando de música popular

[01:34:14] era

[01:34:14] ele cagou regra

[01:34:16] né

[01:34:17] porque

[01:34:17] isso aí

[01:34:18] porra

[01:34:19] você tem manuais

[01:34:20] assim que vem do século 16

[01:34:21] sobre música popular

[01:34:22] você já tem

[01:34:23] uma indústria cultural ali

[01:34:24] é

[01:34:26] é

[01:34:27] é

[01:34:29] tem toda uma prática né

[01:34:31] a gente está

[01:34:32] ignorando

[01:34:33] que o adorno

[01:34:33] na indústria cultural

[01:34:34] ele está falando

[01:34:35] de uma questão bem econômica

[01:34:36] sim

[01:34:37] que daí seria a novidade

[01:34:38] mas ainda assim

[01:34:40] eu estou falando

[01:34:40] eu concordo

[01:34:41] a questão é que

[01:34:43] o que o Thiago está falando

[01:34:45] é que os mosteiros

[01:34:46] e tal

[01:34:46] enfim

[01:34:47] a igreja

[01:34:47] ela precisava

[01:34:49] ter alguma forma

[01:34:50] de se guiar

[01:34:51] assim

[01:34:52] ela precisava

[01:34:53] guardar

[01:34:54] registrar de alguma forma

[01:34:55] aquilo que ela perseguia

[01:34:57] né

[01:34:57] tipo assim

[01:34:59] pra

[01:34:59] poder assim

[01:35:01] inclusive

[01:35:02] saber o que

[01:35:03] que é a música profunda

[01:35:04] e a sagrada

[01:35:05] isso é ruim

[01:35:05] né

[01:35:06] exatamente

[01:35:06] exatamente

[01:35:07] então eles tinham

[01:35:08] com material

[01:35:09] em alguns casos

[01:35:10] até jurídico mesmo

[01:35:11] sim

[01:35:12] e daí tem uma forma

[01:35:13] de registro pra isso né

[01:35:14] tem que ter

[01:35:15] nem que seja

[01:35:16] não um registro impresso

[01:35:18] e tudo mais

[01:35:18] mas alguém conhecia

[01:35:20] e

[01:35:21] aliás

[01:35:22] até sobre isso

[01:35:23] você decidiu

[01:35:23] que é ruim

[01:35:24] é real aquela história

[01:35:25] da nota maldita

[01:35:26] medieval

[01:35:27] da quinta diminuta

[01:35:28] o diabolo

[01:35:29] em música

[01:35:30] é real

[01:35:31] inclusive

[01:35:31] estava

[01:35:33] dentro de um

[01:35:33] era

[01:35:34] um dos motivos

[01:35:36] pra levar o músico

[01:35:36] pra levar a pessoa

[01:35:37] à fogueira

[01:35:38] anos depois

[01:35:39] quando teve a inquisição

[01:35:40] mais forte

[01:35:40] mas isso realmente

[01:35:41] era proibido

[01:35:42] porque assim

[01:35:43] a quinta diminuta

[01:35:44] quem tiver ouvindo

[01:35:46] escuta a música

[01:35:47] black sabado

[01:35:47] black sabado

[01:35:48] é isso

[01:35:49] exatamente

[01:35:50] que ela inicia

[01:35:51] que ela inicia

[01:35:53] ele é o intervalo

[01:35:54] ele é o intervalo

[01:35:55] mais dissonante

[01:35:55] que tem

[01:35:56] então

[01:35:58] na antiga

[01:35:59] então ele era

[01:36:00] ignorado

[01:36:00] por ser feio

[01:36:01] inicialmente

[01:36:02] mas ele foi

[01:36:03] comparado ao diabo

[01:36:04] na música

[01:36:05] aquilo que não deve ser feito

[01:36:06] que fantástico isso

[01:36:08] posteriormente

[01:36:09] após o século

[01:36:11] após o século 15

[01:36:14] ele começa a se tornar

[01:36:15] o elemento estrutural

[01:36:16] da música

[01:36:17] tem um

[01:36:18] tem um autor

[01:36:18] o José Miguel Wisnik

[01:36:20] ele tem um livro

[01:36:21] vale muito a pena ler

[01:36:22] chama som e sentido

[01:36:23] é uma análise

[01:36:24] antropológica

[01:36:25] das músicas

[01:36:25] é muito bom o livro

[01:36:27] ele até brinca

[01:36:28] que no final

[01:36:29] mas isso mais

[01:36:30] no barroco né

[01:36:31] Tiago

[01:36:31] não no

[01:36:32] não em geral

[01:36:33] olha

[01:36:33] no século 16

[01:36:34] já tem

[01:36:35] ele já começa a ser usado

[01:36:36] é que é o barroco

[01:36:38] né

[01:36:38] sim

[01:36:39] mas fica predominante

[01:36:42] no barroco

[01:36:43] não é

[01:36:44] é

[01:36:44] e é dominante

[01:36:45] até hoje

[01:36:46] porque toda a música

[01:36:47] até o século 20

[01:36:48] o trítono

[01:36:51] né

[01:36:51] os três tons

[01:36:52] né

[01:36:53] três

[01:36:54] aí eu tinha

[01:36:54] tinha umas viagens

[01:36:55] até medievais assim

[01:36:56] tipo

[01:36:57] três tons

[01:36:58] seis semitons

[01:37:00] três

[01:37:00] seis

[01:37:01] meia meia

[01:37:02] meia

[01:37:02] tem umas viagens

[01:37:04] doidas assim né

[01:37:05] mas veja

[01:37:06] o interessante

[01:37:08] nessa história

[01:37:09] é que

[01:37:10] a

[01:37:11] a música

[01:37:12] ela tem

[01:37:13] assim como no

[01:37:14] enfim

[01:37:15] todas as outras áreas

[01:37:16] uma tentativa

[01:37:17] de ficar

[01:37:18] se superando né

[01:37:19] tipo assim

[01:37:20] você falou lá

[01:37:20] em algum momento

[01:37:21] do

[01:37:21] porra o Beethoven

[01:37:22] esgotou

[01:37:23] né

[01:37:24] não sei se foi o Beethoven

[01:37:26] ou enfim

[01:37:27] foi o Beethoven

[01:37:28] ele esgotou

[01:37:29] e tal

[01:37:30] aí o que

[01:37:30] daí a gente tem

[01:37:31] no século 20

[01:37:32] né

[01:37:32] Weber

[01:37:33] e outros

[01:37:35] outros compositores

[01:37:35] combinando no

[01:37:37] John Cage

[01:37:37] que vai fazer

[01:37:38] uma

[01:37:39] um concerto

[01:37:40] de cinco minutos

[01:37:41] de silêncio

[01:37:42] não sei quantos minutos

[01:37:43] de silêncio

[01:37:44] cinco minutos

[01:37:45] e 33 segundos

[01:37:46] meu sonho

[01:37:47] é apresentar

[01:37:48] essa música

[01:37:48] eu acho demais

[01:37:50] ou seja

[01:37:51] você tá em vivo

[01:37:52] toda

[01:37:53] toda essa história

[01:37:54] de superação

[01:37:55] inclusive

[01:37:55] né

[01:37:56] nessa arte conceitual

[01:37:57] do John Cage

[01:37:58] do silêncio

[01:37:59] né

[01:37:59] é pra superar

[01:38:00] alguma coisa

[01:38:01] obviamente

[01:38:01] só que

[01:38:03] o que que é interessante

[01:38:04] essa coisa

[01:38:05] esse ideal

[01:38:06] da superação

[01:38:07] ele vai surgir mesmo

[01:38:08] com a

[01:38:10] num momento

[01:38:11] em que as partituras

[01:38:12] começam a ser

[01:38:13] realmente editadas

[01:38:15] colocadas em circulação

[01:38:17] né

[01:38:18] isso

[01:38:18] você vai ter isso

[01:38:19] na época de

[01:38:20] Mozart

[01:38:21] Heine

[01:38:21] o chamado

[01:38:22] clássico

[01:38:23] por isso que

[01:38:23] esse período

[01:38:24] século 18

[01:38:26] ele é chamado

[01:38:27] classicismo musical

[01:38:28] antes disso

[01:38:29] você não tinha

[01:38:30] o ideal de superação

[01:38:31] porque você não tinha memória

[01:38:32] sim

[01:38:33] você não sabe

[01:38:34] o que o outro cara fez

[01:38:35] então

[01:38:35] você vê o que

[01:38:36] seu mestre fez

[01:38:37] só que você quer pegar

[01:38:38] a técnica do seu mestre

[01:38:40] ou copiar

[01:38:42] ou mantê-la

[01:38:43] manter aquela escola

[01:38:44] ou então tentar fazer

[01:38:45] alguma escola diferente

[01:38:47] mas não tem assim

[01:38:47] um ideal

[01:38:48] não tem uma

[01:38:50] uma ideia fixa

[01:38:52] de eu tenho

[01:38:52] que me superar

[01:38:53] isso vai surgir

[01:38:54] só

[01:38:54] mas o que eu ia

[01:38:56] justamente

[01:38:56] fazer a ponte

[01:38:57] com aquilo que eu falei

[01:38:58] inicialmente

[01:38:59] é que assim

[01:39:00] além de

[01:39:00] no fato

[01:39:01] do pensamento

[01:39:02] ocidental

[01:39:03] ser predominante

[01:39:04] a consideração

[01:39:06] que a música

[01:39:07] é a mais

[01:39:08] nobre

[01:39:08] é a mais

[01:39:09] transcendental

[01:39:10] das artes

[01:39:11] isso desde

[01:39:12] Platão

[01:39:12] e tudo mais

[01:39:13] isso já fez com que

[01:39:15] por consequência

[01:39:17] assim

[01:39:17] por conseguinte

[01:39:18] como Ivan

[01:39:20] bem notou

[01:39:20] sempre existiu

[01:39:22] idade média

[01:39:23] isso mesmo

[01:39:24] na

[01:39:24] só não existiu

[01:39:27] talvez no helenismo

[01:39:27] mas enfim

[01:39:28] essa questão

[01:39:30] da divisão

[01:39:30] entre a arte

[01:39:31] digamos

[01:39:32] popular

[01:39:32] e a arte

[01:39:33] daqueles que são

[01:39:34] iniciados

[01:39:35] a música

[01:39:37] daqueles que são

[01:39:37] iniciados

[01:39:38] pra complicar

[01:39:39] essa história

[01:39:40] a partir lá

[01:39:42] do século XVIII

[01:39:43] XIX

[01:39:43] com esse classicismo

[01:39:45] que você está

[01:39:45] contando

[01:39:46] se torna

[01:39:47] além de ser

[01:39:48] uma coisa

[01:39:49] pra iniciados

[01:39:50] no interior

[01:39:51] desses iniciados

[01:39:52] tem a ideia

[01:39:53] da superação

[01:39:53] por quê?

[01:39:55] porque eles já

[01:39:56] se dão conta

[01:39:57] que aquilo

[01:39:58] que os fazia

[01:39:59] especiais

[01:40:00] que era

[01:40:00] o conhecimento

[01:40:01] agora está

[01:40:03] sendo circulado

[01:40:04] qualquer um pode

[01:40:05] tocar Beethoven

[01:40:05] agora

[01:40:06] sim, sim

[01:40:07] e é só também

[01:40:09] pra fazer o gancho

[01:40:10] do que eu falei antes

[01:40:11] de que

[01:40:11] como as vezes

[01:40:13] o que está acontecendo

[01:40:14] na música

[01:40:15] e na literatura

[01:40:16] e nas artes

[01:40:16] ganham nomes parecidos

[01:40:18] só que em períodos

[01:40:18] diferentes

[01:40:19] o Tiago acabou de falar

[01:40:20] da questão do classicismo

[01:40:21] do período em que o pessoal

[01:40:22] está começando a anotar

[01:40:23] e circular

[01:40:24] o que os mestres faziam

[01:40:25] e isso a gente vai

[01:40:27] nas artes plásticas

[01:40:27] a gente relaciona

[01:40:28] o classicismo

[01:40:29] ao período helenístico

[01:40:30] e romano

[01:40:31] e a gente vai

[01:40:31] fazer o que a gente faz

[01:40:31] a arte clássica

[01:40:32] que é retomada

[01:40:33] no renascimento

[01:40:34] isso no século 15

[01:40:36] século 14

[01:40:36] 15

[01:40:37] então

[01:40:37] e na música

[01:40:39] isso acontece depois

[01:40:39] mas porque é o momento

[01:40:40] que você coloca um norte

[01:40:41] isso aqui é o clássico

[01:40:43] isso é como se faz

[01:40:44] a partir daqui

[01:40:45] a gente tenta superar

[01:40:47] o classicismo

[01:40:49] nas artes plásticas

[01:40:50] é também relacionado

[01:40:51] ao século 19

[01:40:52] porque

[01:40:53] daí que os autores

[01:40:55] que vão fazer

[01:40:56] a história da arte

[01:40:57] vão falar

[01:40:57] a arte clássica

[01:40:59] é inventada

[01:41:00] no renascimento

[01:41:01] não, não

[01:41:01] não, não

[01:41:01] sim

[01:41:02] no renascimento

[01:41:03] não tinha essa palavra

[01:41:04] não tem a palavra

[01:41:07] classicismo

[01:41:08] mas tem a palavra

[01:41:08] renascimento

[01:41:09] na real

[01:41:09] vai ter até

[01:41:11] o termo clássico

[01:41:12] que o Vassari

[01:41:14] vai montar

[01:41:14] quando ele está

[01:41:15] fazendo a biografia

[01:41:16] dos artistas

[01:41:17] ele já diz assim

[01:41:17] estamos fazendo

[01:41:18] um renascimento

[01:41:19] do clássico

[01:41:20] é, mas do clássico

[01:41:21] de Roma

[01:41:22] não é o clássico grego

[01:41:23] é o clássico helenístico

[01:41:26] é, sim, sim

[01:41:28] é complicado

[01:41:28] mas o classicismo

[01:41:30] o ismo mesmo

[01:41:31] é uma coisa que tem

[01:41:32] no século 19

[01:41:33] que é um movimento

[01:41:34] justamente categorizante

[01:41:36] e que tem essa questão

[01:41:37] de superar

[01:41:38] é, e que entende também

[01:41:39] que existe toda uma tradição

[01:41:41] que existe uma continuidade

[01:41:42] que vem lá de Roma

[01:41:44] daí tem

[01:41:44] esquece da Idade Média

[01:41:45] inclusive tem que ser esquecido

[01:41:47] esse período

[01:41:47] daí vai para

[01:41:49] o renascimento

[01:41:50] barroco

[01:41:51] rococó

[01:41:52] neoclássico

[01:41:53] e daí vem

[01:41:55] esses bandos

[01:41:55] de comunistas

[01:41:56] aí querendo acabar

[01:41:58] esses malditos

[01:42:00] que querem acabar

[01:42:01] com o clássico

[01:42:02] engraçado que no caso

[01:42:04] da música

[01:42:04] ficou bem assim

[01:42:05] barroco

[01:42:05] classicismo

[01:42:07] barroco

[01:42:08] desculpa

[01:42:08] rococó

[01:42:09] classicismo

[01:42:10] e romantismo

[01:42:12] né

[01:42:12] então

[01:42:14] mas a questão

[01:42:15] se a gente avançar

[01:42:16] para o século 20

[01:42:17] o que me parece

[01:42:18] um absurdo

[01:42:19] do ponto de vista histórico

[01:42:20] assim

[01:42:21] é que

[01:42:22] eles vão

[01:42:23] nesse movimento

[01:42:24] que eu esbocei

[01:42:25] cada vez mais

[01:42:26] se distanciar

[01:42:27] do popular

[01:42:28] né

[01:42:29] na teoria musical

[01:42:31] cada vez mais

[01:42:31] claro

[01:42:31] eu não sei

[01:42:32] justamente talvez

[01:42:33] eu falo isso

[01:42:34] numa forma de pergunta

[01:42:36] para você

[01:42:36] Tiago

[01:42:37] que o que eu vejo

[01:42:39] assim

[01:42:39] inclusive na tendência

[01:42:40] da arte conceitual

[01:42:42] relacionada a música

[01:42:44] John Cage

[01:42:45] movimento fluxos

[01:42:46] e por aí vai

[01:42:47] os caras vão

[01:42:49] assim tipo

[01:42:50] tentar sempre superar

[01:42:51] aquilo que o

[01:42:52] sei lá

[01:42:53] o classicismo

[01:42:54] iniciou

[01:42:55] e não conseguiu superar

[01:42:58] tá ligado

[01:42:58] daí você vê

[01:43:00] que é uma coisa

[01:43:01] assim cada vez mais

[01:43:02] hermética

[01:43:04] é

[01:43:05] indecifrável

[01:43:06] para as pessoas

[01:43:07] e tal

[01:43:07] que você precisa

[01:43:08] de toda uma carga

[01:43:10] histórico

[01:43:11] e teórica

[01:43:13] para entender

[01:43:14] a porra do John Cage

[01:43:15] para contemplar aquilo

[01:43:17] ou

[01:43:17] na minha opinião

[01:43:18] fingir que

[01:43:19] que contempla

[01:43:20] né

[01:43:21] então

[01:43:23] no século 20

[01:43:24] realmente você vai

[01:43:25] ter essa

[01:43:26] essa grande cisão

[01:43:27] a gente começa isso

[01:43:28] com o Schoenberg

[01:43:29] ele tem um tratado

[01:43:30] de harmonia

[01:43:31] da música

[01:43:31] dele né

[01:43:32] que ele vai

[01:43:33] que ele vai começar

[01:43:34] dizendo

[01:43:34] onde ele vai propor

[01:43:35] uma teoria

[01:43:36] da emancipação

[01:43:37] da dissonância

[01:43:38] pra quem

[01:43:40] curte filosofia

[01:43:41] é tipo

[01:43:42] pega Hegel

[01:43:42] troca o espírito

[01:43:44] por dissonância

[01:43:44] mas daí é a vontade

[01:43:48] do Schopenhauer né

[01:43:49] porque não é o espírito

[01:43:50] absoluto mesmo

[01:43:52] é uma coisa

[01:43:52] que tá

[01:43:53] né

[01:43:54] é que ele também

[01:43:55] vai colocar na história

[01:43:56] tipo em tal momento

[01:43:57] sabe

[01:43:57] é

[01:43:59] o Schoenberg

[01:44:00] fala

[01:44:01] festa com todo mundo

[01:44:02] no século 19 né

[01:44:03] o cara do século 19

[01:44:04] no século 20 praticamente

[01:44:05] então você vai ter

[01:44:07] esse ideia

[01:44:08] tipo o Zamiliano

[01:44:09] aqui participando

[01:44:09] na escola

[01:44:10] na escola de Viena

[01:44:11] esse Schoenberg

[01:44:12] esteticamente

[01:44:14] o Schoenberg

[01:44:15] ele não percebe

[01:44:16] o quanto ele é

[01:44:17] meio século 19 né

[01:44:19] mas ele não faz parte

[01:44:20] da escola de Viena

[01:44:21] não faz

[01:44:22] ele é o

[01:44:23] ele é o mestre

[01:44:23] da segunda escola de Viena

[01:44:24] ele é o mestre

[01:44:25] faz todo sentido

[01:44:26] a escola de Viena

[01:44:27] quer totalizar tudo

[01:44:29] o

[01:44:29] o Albanberg

[01:44:31] que é o mestre

[01:44:31] é moderado né

[01:44:32] o Ebernick vai

[01:44:33] é Schoenberg

[01:44:34] vamos nessa né

[01:44:35] e

[01:44:36] o

[01:44:37] o Albanberg

[01:44:39] que também foi professor

[01:44:40] do

[01:44:40] do Adorno

[01:44:41] então você vai ter

[01:44:42] no século 20

[01:44:43] toda

[01:44:44] na música erudita

[01:44:45] você vai ter

[01:44:46] esse caminho

[01:44:46] de extrapolação

[01:44:47] não

[01:44:48] eu tenho que

[01:44:49] ir além

[01:44:49] do sistema tonal

[01:44:51] porque o sistema tonal

[01:44:52] chegou ao seu limite

[01:44:53] após os anos 60

[01:44:55] ocorre o movimento

[01:44:55] de síntese

[01:44:57] que é um movimento

[01:44:59] em que os compositores

[01:45:00] cara

[01:45:01] eu

[01:45:02] tá

[01:45:02] a música

[01:45:03] por que que eu tenho

[01:45:03] que superar

[01:45:04] a música tonal

[01:45:05] mas o John Cage

[01:45:07] vem depois disso

[01:45:08] é que

[01:45:10] nos anos 60

[01:45:11] que começa

[01:45:11] esse

[01:45:12] esse movimento né

[01:45:13] aí vai ter

[01:45:14] vai ter o minimalismo

[01:45:16] sim sim

[01:45:17] então você vai ter

[01:45:18] uma série

[01:45:19] o Eric Satie

[01:45:20] ao mesmo tempo

[01:45:21] que você tem

[01:45:22] é o Eric Satie

[01:45:23] já é bem

[01:45:23] bem mais antigo

[01:45:24] mas assim

[01:45:25] você tem o Philip Glass

[01:45:26] é o Philip Glass

[01:45:26] que eu ia falar

[01:45:27] Steve Reich

[01:45:29] e outros caras assim

[01:45:30] o Brian Eno

[01:45:32] esses caras assim

[01:45:33] é

[01:45:33] mas ao mesmo tempo

[01:45:34] você ainda tem

[01:45:35] esse movimento

[01:45:36] que busca superação

[01:45:37] e chega

[01:45:38] no momento

[01:45:39] que a gente tem hoje

[01:45:39] então tem gente que

[01:45:40] na área da música erudita

[01:45:42] você tem pessoas

[01:45:43] que continuam

[01:45:44] com essa coisa

[01:45:45] da superação

[01:45:45] tentativas de espacialização

[01:45:47] da música

[01:45:48] por exemplo

[01:45:49] sim sim

[01:45:50] é

[01:45:50] então mas

[01:45:51] o que eu

[01:45:52] aí ao mesmo tempo

[01:45:53] você tem

[01:45:54] esse

[01:45:54] você tem outros

[01:45:56] que vão falar

[01:45:57] não

[01:45:57] não precisa

[01:45:58] essa coisa

[01:45:59] pra que que eu preciso

[01:46:00] superar

[01:46:01] é

[01:46:01] mas eu

[01:46:01] mas eu quero

[01:46:02] eu não sei se é isso

[01:46:03] que o Beccari vai perguntar

[01:46:04] mas é assim

[01:46:05] eu por exemplo

[01:46:05] eu gosto muito

[01:46:06] do Philip Glass

[01:46:07] e do Brian Eno

[01:46:08] dois caras assim

[01:46:09] que eu

[01:46:09] de música minimalista

[01:46:10] que eu curto pra caralho

[01:46:11] principalmente

[01:46:11] quando eu estou estudando

[01:46:12] né

[01:46:13] porque

[01:46:13] são poucas notas musicais

[01:46:15] não me atrapalha muito

[01:46:16] e daí eu

[01:46:18] só que assim

[01:46:19] eu

[01:46:20] não querendo me achar

[01:46:21] mas eu consigo

[01:46:22] sacar o que eles estão fazendo

[01:46:24] tá

[01:46:24] eu

[01:46:25] eu

[01:46:26] se eu mostro

[01:46:27] pra um aluno

[01:46:28] por exemplo

[01:46:28] que sei lá

[01:46:29] tá ouvindo

[01:46:30] seu velho

[01:46:31] sertanejo

[01:46:32] universitário

[01:46:33] ele não

[01:46:34] ele não saca a parada

[01:46:36] e mesmo que ele goste

[01:46:36] de música erudita

[01:46:37] ele também pode ir

[01:46:38] contra aquilo

[01:46:39] ele

[01:46:39] não existe

[01:46:42] uma alto

[01:46:43] sei lá

[01:46:44] aquele famoso

[01:46:45] grupinho da arte moderna

[01:46:46] sabe

[01:46:46] tipo

[01:46:47] a galera

[01:46:48] saca o que que é

[01:46:49] um quadro

[01:46:50] de Lacroix

[01:46:51] mas daí vai olhar

[01:46:52] um

[01:46:53] sei lá

[01:46:54] o

[01:46:54] o Malevite

[01:46:55] que a gente falou antes

[01:46:56] o branco sobre branco

[01:46:57] e daí olha

[01:46:57] não saquei

[01:46:59] achei uma merda

[01:47:00] não vira meio que um

[01:47:01] clubinho de piada interna

[01:47:03] assim

[01:47:03] sim

[01:47:04] a música

[01:47:05] a música do século 20

[01:47:07] talvez esse começo

[01:47:08] do século 21

[01:47:09] caramba

[01:47:09] vou ser xingado

[01:47:10] pra caramba

[01:47:11] vai ser exatamente isso

[01:47:13] você

[01:47:14] você tem um monte

[01:47:15] de clubes

[01:47:16] o que acontece

[01:47:17] é isso

[01:47:17] você tem um monte

[01:47:18] de clubes

[01:47:19] conversando

[01:47:21] assim

[01:47:22] conheço alguns músicos

[01:47:23] que estão fora do Brasil

[01:47:24] o pessoal

[01:47:26] tá ficando

[01:47:26] menos estressado

[01:47:27] menos nessa coisa

[01:47:28] de clubes

[01:47:29] né

[01:47:30] mas ainda

[01:47:30] tem questões

[01:47:31] desses clubes

[01:47:33] né

[01:47:33] o clubinho

[01:47:34] Schoenberg

[01:47:34] o clubinho

[01:47:35] Stockhausen

[01:47:37] né

[01:47:37] o clube

[01:47:39] que

[01:47:39] o clube

[01:47:40] cage

[01:47:41] o clube

[01:47:42] ligget

[01:47:43] né

[01:47:43] o que eu ia dizer

[01:47:46] é que

[01:47:46] mesmo essa questão

[01:47:47] que o Ivan levantou

[01:47:48] e esses clubinhos

[01:47:49] e mesmo

[01:47:51] na década de 60

[01:47:53] que tentam fazer

[01:47:53] uma síntese

[01:47:54] e tudo mais

[01:47:55] ah pra que

[01:47:56] você começa a questionar

[01:47:57] a necessidade

[01:47:58] de superar

[01:48:00] e tal

[01:48:00] tudo isso

[01:48:01] só confirma

[01:48:02] a questão

[01:48:03] da música

[01:48:04] ela ser considerada

[01:48:05] algo que nos leve

[01:48:06] a um mundo maior

[01:48:07] né

[01:48:08] ou seja

[01:48:09] essa ideia

[01:48:10] metafísica

[01:48:10] em nenhum momento

[01:48:12] você tem

[01:48:12] eu nunca vi

[01:48:13] e daí que eu faço

[01:48:14] a pergunta Tiago

[01:48:15] algum movimento

[01:48:16] Nietzscheano

[01:48:17] de teoria de música

[01:48:18] tá

[01:48:19] ou de história

[01:48:20] da música

[01:48:20] quando você fala assim

[01:48:22] deixa eu ver se é isso

[01:48:23] que eu tô sacando

[01:48:24] que por exemplo

[01:48:24] diria que

[01:48:25] ok

[01:48:26] música pode ser

[01:48:27] uma coisa

[01:48:27] que te eleva

[01:48:29] espiritualmente

[01:48:29] qualquer coisa assim

[01:48:30] não eleva

[01:48:32] ela na verdade

[01:48:33] te abaixa

[01:48:33] espiritualmente

[01:48:34] no sentido de

[01:48:35] de te colocar

[01:48:36] de volta no chão

[01:48:39] sim

[01:48:40] mas e que eu poderia

[01:48:41] fazer isso ouvindo

[01:48:42] sertanejo universitário

[01:48:43] sim exatamente

[01:48:44] isso seria

[01:48:45] digamos

[01:48:45] uma abordagem

[01:48:47] Nietzscheana da música

[01:48:48] saquei

[01:48:49] saquei

[01:48:49] mas eu tô perguntando

[01:48:50] isso teoricamente

[01:48:51] na teoria musical

[01:48:52] é

[01:48:53] ou seja

[01:48:54] algum

[01:48:54] teórico da música

[01:48:56] ou sei lá

[01:48:57] filósofo da música

[01:48:58] se é que isso

[01:48:58] faz sentido

[01:48:59] ou seja

[01:48:59] mas que vai falar

[01:49:03] olha

[01:49:04] vai admitir

[01:49:05] assim

[01:49:05] Axé

[01:49:06] sertanejo universitário

[01:49:09] com uma justificativa

[01:49:11] Nietzscheana

[01:49:11] que permitiria muito bem

[01:49:13] entendeu

[01:49:14] o que eu quis dizer

[01:49:15] eu entendi

[01:49:16] não

[01:49:18] a resposta não existe

[01:49:20] existe assim

[01:49:21] ótimo

[01:49:22] a gente agradece

[01:49:22] a sinceridade

[01:49:23] a sinceridade

[01:49:24] porque o que que acontece

[01:49:25] quando

[01:49:26] esse é um problema

[01:49:27] que eu

[01:49:28] é

[01:49:29] é

[01:49:29] , eu pretendo discutir

[01:49:31] no meio da cadeia

[01:49:32] só que eu sei que

[01:49:33] eu vou precisar

[01:49:34] eu preciso me formar

[01:49:36] primeiro se pra

[01:49:37] não é só ter uma

[01:49:38] não, é pra ter uma opinião

[01:49:39] é

[01:49:40] mas o que que acontece

[01:49:41] há uma disparidade

[01:49:43] muito grande

[01:49:44] então

[01:49:44] o mundo

[01:49:45] quem trata de estética

[01:49:46] vai tratar

[01:49:47] da música erudita

[01:49:48] o que

[01:49:48] a não ser que você

[01:49:50] linge

[01:49:50] mas eu vou te falar uma coisa

[01:49:52] desculpa a gente ter um pê

[01:49:53] o Peter Sloterdijk

[01:49:54] ou Sloterdijk

[01:49:55] como queira

[01:49:56] ele tem um livro

[01:49:58] da série

[01:49:59] esferas

[01:49:59] Esferas, que é só sobre estética

[01:50:01] musical baseada em Nietzsche

[01:50:03] e que ele fala assim, ó

[01:50:05] axé no Brasil, enfim

[01:50:07] música indiana lá na Índia e tal

[01:50:09] Nietzscheano, entendeu?

[01:50:11] Só que talvez, de fato, isso

[01:50:13] não chegue na academia de música, né?

[01:50:16] É, é isso que eu, na verdade

[01:50:17] é esse ponto que eu ia comentar. Quando

[01:50:19] se discute a questão de estética musical

[01:50:21] o foco sempre é música erudita

[01:50:23] e automaticamente música

[01:50:25] popular é indústria cultural, o que

[01:50:27] eu discordo completamente

[01:50:29] é

[01:50:30] a grande, a grande

[01:50:32] porque há duas vias aí, por um lado

[01:50:35] o

[01:50:37] caramba, eu não conheço

[01:50:39] nenhum, quantos músicos

[01:50:41] que eu conheço que vão querer ler

[01:50:43] o Sloterdijk, sabe?

[01:50:45] Além de mim

[01:50:46] Não, mas eu tô contando justamente

[01:50:49] não os músicos, né?

[01:50:53] Sei lá, os

[01:50:53] teóricos da música

[01:50:55] Hoje os teóricos da música são os próprios

[01:50:57] músicos eruditos

[01:50:58] Então, por exemplo, quando

[01:51:01] tem

[01:51:03] os teóricos como

[01:51:04] vão ter teóricos que vão se abater

[01:51:07] vão brigar contra essa relação

[01:51:09] entre metafísica e

[01:51:11] música, vão

[01:51:12] Carlos D’Aleus, por exemplo, ele faz todo

[01:51:15] ele tem esse livro que eu tinha

[01:51:17] comentado, a ideia de música absoluta

[01:51:19] a ideia dele é desconstruir todos esses conceitos

[01:51:21] mostrando, tentando

[01:51:23] mostrar e como eles estão inseridos

[01:51:25] dentro do meio da música erudita

[01:51:27] mas uma reflexão estética

[01:51:29] visando a música popular

[01:51:31] ocorre muito pouco

[01:51:32] Primeiro, a música acadêmica, a música popular

[01:51:35] tá fora da academia

[01:51:36] Talvez tenha estetas americanos

[01:51:39] por causa do jazz

[01:51:41] porque o jazz é um

[01:51:43] porque a música popular é um problema

[01:51:45] pros teóricos colombianos

[01:51:46] porque o que a gente chama de música popular hoje

[01:51:48] é uma fusão de tradução europeia

[01:51:51] com tradição africana

[01:51:52] Você pode trazer rock, jazz

[01:51:55] é…

[01:51:57] essa nova, samba

[01:51:58] essa tradição

[01:52:00] então, de uma certa maneira, ela tem sido

[01:52:02] realmente ignorada pela

[01:52:03] pela estética, tem autores que colocam

[01:52:07] mas o que que acontece?

[01:52:08] O músico não chega a lê-los

[01:52:10] Eu sei que tem alguns

[01:52:12] malucos, assim, que eu já vi

[01:52:14] mas eu não vou nem lembrar quem que, por exemplo

[01:52:16] tenta inserir uma guitarra numa orquestra

[01:52:18] por exemplo, né? Mas isso é muito raro

[01:52:20] Não, esses compositores

[01:52:23] que buscam uma

[01:52:24] super… os compositores que buscam

[01:52:27] superar essa

[01:52:28] essa ideia

[01:52:31] de superar

[01:52:32] a ideia de superação é uma beleza, né?

[01:52:35] Pra mim dá na mesma

[01:52:37] Tipo assim, superar a ideia de superação

[01:52:40] é um engodo

[01:52:43] é uma superação também, né?

[01:52:48] Mas assim, deixar de lado

[01:52:49] essa coisa, a música tem que ir pra cima

[01:52:51] então os caras querem colocar a guitarra elétrica

[01:52:53] mas eles não

[01:52:54] eles não fazem, quando eles

[01:52:57] fazem, não façam uma

[01:52:58] elaboração teórica sobre o que estão fazendo

[01:53:00] Certo

[01:53:01] A arte conceitual é basicamente isso, né?

[01:53:05] Ou seja, ele vai lá

[01:53:07] e tenta superar a superação

[01:53:09] Tipo

[01:53:11] e eles têm registros

[01:53:13] quer dizer, eles fazem uma

[01:53:15] reflexão crítica a respeito disso

[01:53:17] aliás, fazem mais isso do que arte, né?

[01:53:19] Quer dizer, o do Champ

[01:53:21] tinha muito mais escrito do que obras

[01:53:22] É quando eu disse

[01:53:25] superação da superação, é mais essa coisa

[01:53:27] não tem que superar a tonalidade

[01:53:28] a gente não tem que superar os compositores

[01:53:31] mas é

[01:53:32] e há todo um movimento no século XX, por exemplo

[01:53:34] de

[01:53:35] de um espectro musical

[01:53:38] que você não consegue classificar

[01:53:40] tão facilmente entre o erudito e o popular

[01:53:42] o problema é que essa linha, em alguns momentos

[01:53:45] ela se junta a um nacionalismo

[01:53:47] do ponto de vista teórico, né?

[01:53:49] Que também

[01:53:50] então

[01:53:52] É século XIX de novo, né?

[01:53:55] Não, é século XX mesmo

[01:53:56] Manoel de Fala

[01:53:57] Eu sei, retomando o século XIX

[01:54:00] E você tem

[01:54:03] então você tem

[01:54:04] compositor, você tem práticas

[01:54:06] que tentam, há quem fale hoje

[01:54:08] que existe uma terceira via musical

[01:54:10] você não pode

[01:54:12] analisar enquanto música erudita

[01:54:15] nem enquanto música popular, né?

[01:54:17] Alguns

[01:54:17] no Brasil

[01:54:20] há uma certa tendência a se buscar

[01:54:22] esse tipo de reflexão, né?

[01:54:25] Mas assim, de teórico

[01:54:26] que vão produzir é muito pouco

[01:54:29] eu mesmo não conhecia, eu não li ainda

[01:54:30] essa obra do Soterdick

[01:54:32] eu não sabia, eu sei que o Zizek escreveu sobre ópera

[01:54:35] sobre a morte da ópera, né?

[01:54:37] Não, mas o Jacóia Junior

[01:54:39] lá da Unicamp, ele também tem

[01:54:41] livro de música, né?

[01:54:43] E também Nietzscheano

[01:54:44] inclusive entendendo

[01:54:46] quase, isso é um pecado falar

[01:54:48] mas sistematicamente

[01:54:50] ele divide assim, ó, vamos entender

[01:54:52] agora o sertanejo, vamos entender agora

[01:54:55] sabe, o axé

[01:54:56] sobre a repercussão

[01:54:58] da música Nietzscheana

[01:55:00] e quando eu digo Nietzscheana, pra ficar claro

[01:55:03] é que assim, o Nietzsche

[01:55:04] ele continua, digamos

[01:55:07] elogiando a música

[01:55:08] mesmo sendo anti-metafísico

[01:55:10] porque naquela ideia da linguagem

[01:55:12] do Nietzsche, né?

[01:55:14] o homem tende a entender a realidade

[01:55:17] trocando ela por

[01:55:19] língua, né?

[01:55:20] por signos, essa é a teoria da linguagem

[01:55:23] do, enfim, é como se fosse

[01:55:24] o único modo que o homem

[01:55:26] tem pra

[01:55:27] facilitar a relação dele com

[01:55:30] o mundo, essa linguagem

[01:55:32] e daí o Nietzsche vai falar da música, é uma coisa que

[01:55:34] digamos, antecede essa linguagem

[01:55:36] porque a própria linguagem

[01:55:38] falada é musical

[01:55:39] então assim

[01:55:41] ele vai falar que a música

[01:55:43] é justamente demonia, que é uma arte

[01:55:46] assim, mais imediata, porque

[01:55:48] quando a gente tá conversando

[01:55:50] falando, a gente já tá fazendo música

[01:55:52] então, é nesse sentido

[01:55:54] ou seja, o axé

[01:55:56] uma linguagem própria

[01:55:58] assim que, digamos, rima

[01:56:00] ou tá em sincronia com

[01:56:02] aquele lugar, né?

[01:56:04] é, mas isso nunca vem de teóricos

[01:56:06] de música, né? Que nem você falou, Becker

[01:56:08] então, é esse que é o lance, porque eu já ia

[01:56:10] mencionar, por exemplo, caras como

[01:56:12] sei lá, o Eugene Tucker, lá nos Estados Unidos

[01:56:15] que tem o livro lá dele, o In the Dust of

[01:56:16] This Planet, que ele fala, que ele faz

[01:56:18] toda uma filosofia sobre

[01:56:20] a extinção da raça humana

[01:56:22] sabe, com abordagem filosófica

[01:56:24] estudando letras de

[01:56:26] rock, de metal

[01:56:29] porrada, né?

[01:56:32] death metal, no caso

[01:56:33] você vai ter, sei lá

[01:56:35] uma série de

[01:56:36] antropólogos e

[01:56:38] estudos de cultura

[01:56:40] que tentam ver, por exemplo, o funk carioca

[01:56:43] como posicionamento político

[01:56:44] filosófico, ideológico

[01:56:46] mas você nunca tem músicos

[01:56:49] falando disso, então

[01:56:50] só pra vocês terem uma ideia

[01:56:52] duas situações, né? Uma teórica

[01:56:55] e uma prática

[01:56:56] existe o campo da musicologia

[01:56:58] e da etnomusicologia

[01:56:59] qual que é o pressuposto

[01:57:03] bom, etnomusicologia

[01:57:04] eu vou analisar dentro daquele contexto étnico

[01:57:06] que até insere pesquisa sobre

[01:57:08] funk e tal

[01:57:09] bom, só que

[01:57:12] a ideia de que existe

[01:57:14] uma musicologia além

[01:57:16] pra analisar

[01:57:18] a música erudita, é como se a música

[01:57:20] erudita planasse

[01:57:22] no mundo ideal

[01:57:24] platônico, em que não tem contexto

[01:57:26] em que só o código musical

[01:57:29] pelo código musical

[01:57:31] etc, etc e tal

[01:57:34] e essa é uma divisão

[01:57:35] é uma divisão ferrada

[01:57:37] dentro da academia, do ponto de vista musical

[01:57:39] é ferrada mesmo

[01:57:41] no Brasil a gente até tem um fenômeno

[01:57:43] por exemplo, de ter universidades que tem cursos de música

[01:57:45] popular

[01:57:46] no mesmo local onde tem

[01:57:49] música erudita, né?

[01:57:51] NICAMP, tem isso e tal

[01:57:53] USP, agora se a gente vai nos Estados Unidos

[01:57:55] onde se estuda jazz

[01:57:57] se estuda jazz

[01:57:58] onde se estuda música erudita

[01:58:00] mesmo no meio acadêmico

[01:58:02] sei lá, deve ter um raio

[01:58:05] de, sei lá

[01:58:07] eu acho que eles devem calcular

[01:58:08] até a distância em quilômetros

[01:58:11] pra não se influenciar

[01:58:12] nos campos, tipo

[01:58:14] se o campus ficar muito perto

[01:58:17] são instituições

[01:58:19] completamente diferentes, então no ponto de vista

[01:58:21] teórico, isso tá muito

[01:58:23] calcado, pra ver uma situação

[01:58:25] prática

[01:58:25] é, teve

[01:58:28] em 2013, teve lá

[01:58:30] teve um simpósio de filosofia em música

[01:58:32] eu mandei dois artigos

[01:58:35] e fui pra lá, né?

[01:58:37] cara, e tinha

[01:58:39] artigos assim, focado

[01:58:41] tinha, sei lá, como é que

[01:58:43] tinha um nome que eu achei engraçado

[01:58:44] engraçado assim, achei interessante

[01:58:46] mas acho que eu não cheguei a ler

[01:58:48] como é que é

[01:58:51] a Paul Black Metal

[01:58:52] enquanto estética da pós-modernidade

[01:58:55] eu já gostei, já gostei, eu quero ler

[01:58:57] na formação da subjetividade

[01:59:02] quer dizer, ao mesmo tempo

[01:59:06] tinha coisas ultra-teóricas

[01:59:12] do ponto de vista musical e de filosofia

[01:59:14] assim, a conversa quando você

[01:59:16] chegava no local, né

[01:59:18] era, cara

[01:59:19] cede que lado

[01:59:21] hahaha

[01:59:22] hahaha

[01:59:23] hahaha

[01:59:25] hahaha

[01:59:26] hahaha

[01:59:27] hahaha

[01:59:28] hahaha

[01:59:29] hahaha

[01:59:30] hahaha

[01:59:31] hahaha

[01:59:32] hahaha

[01:59:33] hahaha

[01:59:34] hahaha

[01:59:35] hahaha

[01:59:36] hahaha

[01:59:37] hahaha

[01:59:38] hahaha

[01:59:39] hahaha

[01:59:40] hahaha

[01:59:41] hahaha

[01:59:42] hahaha

[01:59:43] hahaha

[01:59:44] hahaha

[01:59:45] hahaha

[01:59:46] hahaha

[01:59:47] hahaha

[01:59:48] hahaha

[01:59:49] hahaha

[01:59:50] hahaha

[01:59:51] hahaha

[01:59:52] hahaha

[01:59:53] hahaha

[01:59:54] hahaha

[01:59:55] E daí?

[01:59:57] Tipo, não, mas é incoerente.

[02:00:00] Se é Nietzscheano, você tem que ser pós-moderno.

[02:00:03] Eu, caralho!

[02:00:07] Mas isso é…

[02:00:09] São dicotomias que a gente faz com preconceitos mesmo, né?

[02:00:12] Inclusive no Nietzscheano e tal.

[02:00:15] Sim.

[02:00:16] Eu acho interessante, por exemplo, fazer uma analogia.

[02:00:20] Eu sempre faço analogia do Da Vinci, né?

[02:00:24] Nessa dicotomia mesmo.

[02:00:25] Com, por exemplo, sei lá, pode ser o Vermeer, do Barroco.

[02:00:31] Mas vamos pegar um exemplo mais recente.

[02:00:34] Que é um fotógrafo que eu gosto muito, que é o Saul Leiter, né?

[02:00:37] No caso do Da Vinci, se a gente pegar a análise do Freud, do Da Vinci, famosa, né?

[02:00:46] Não lembro o nome.

[02:00:48] Mas enfim, ele tem lá um texto muito famoso, que eu não lembro o nome, sobre o Da Vinci.

[02:00:53] E o Paul Valery.

[02:00:55] O Paul Valery.

[02:00:57] Não sei pronunciar.

[02:00:58] Valery.

[02:00:59] Valery.

[02:01:00] Que é a introdução ao método de Da Vinci.

[02:01:02] Esse é o texto do Valery.

[02:01:04] Os dois, eles dizem claramente que o Da Vinci era mais preocupado com encontrar as razões da vida.

[02:01:12] Ou as razões principalmente das insatisfações da vida dele, né?

[02:01:20] Tanto que o Freud vai falar que ele é um caso de semi-sublimação.

[02:01:23] Por quê?

[02:01:24] Porque ele não conseguiu sublimar, através da arte, os impulsos sexuais, né?

[02:01:29] No caso do Freud, que ele tinha lá contido.

[02:01:32] Para o Freud, a arte se resume a isso, né?

[02:01:35] Aliás, o Freud não fala de música porque ele só está interessado em representações.

[02:01:39] E daí, no caso do Valery, ele fala justamente a mesma coisa que o Freud, só a diferença é que ele elogia.

[02:01:46] Ele fala que o Valery, sendo romântico, né?

[02:01:48] Ele vai falar que essa é a essência do artista.

[02:01:51] É você…

[02:01:54] Assim, fazer arte pela insatisfação, por assim dizer, né?

[02:01:57] Tem que ser uma coisa sofredora e por aí vai.

[02:02:00] Ou seja, esse é o caso do Da Vinci, assim.

[02:02:04] Obviamente, isso não o impediu de ser genial, de criar coisas diversas e tal.

[02:02:09] Mas, historicamente, a gente sabe que, enfim, ele foi um homossexual enroxido, né?

[02:02:15] Ele não, enfim, não conseguiu, de fato, alcançar aquilo que ele queria com a arte.

[02:02:20] Já no caso do Saul Leiter, que é um fotógrafo…

[02:02:24] Da década de 40, né?

[02:02:25] De Nova York.

[02:02:27] Ele sempre falou…

[02:02:28] Você tem uma tendência na teoria da fotografia, na estética e tal, de falar sobre o feio, né?

[02:02:36] Porque, pra ele, ele falava que os fotógrafos que…

[02:02:40] Ele chama de escola feia.

[02:02:42] Fotógrafos que fotografam sofrimento humano, como, por exemplo, Sebastião Salgado.

[02:02:47] Embora o Sebastião Salgado não existia na época, né?

[02:02:49] Mas essa já era uma tendência.

[02:02:51] Por quê?

[02:02:51] Daí ele falava…

[02:02:52] Ah, essa escola de…

[02:02:54] Fotografar o sofrimento, a pobreza mundial e tal, se julga mais séria do que você fotografar a alegria, por exemplo, né?

[02:03:04] Se julga mais profunda do que a alegria.

[02:03:06] E daí o Saul Leiter fala…

[02:03:08] Não, eu fotografo a alegria.

[02:03:09] Porque eu acho que a alegria é mais profunda que a tristeza.

[02:03:12] Assim como o Vermeer, né?

[02:03:15] Ele fotografa os costumes burgueses do barroco.

[02:03:19] Porque é uma coisa…

[02:03:20] Porque pra ele é mais profunda que o sofrimento, né?

[02:03:22] Ah!

[02:03:24] E isso culmina nessa estética Nietzscheana da música como alegria, em primeiro lugar.

[02:03:29] Agora, o que você vê, o que eu vejo nos músicos, quando vão justamente teorizar,

[02:03:34] e como você disse, Tiago, raramente cai em Nietzsche e tal, né?

[02:03:39] Raramente cai nessa elogio ao heavy metal, por exemplo, ao axé.

[02:03:44] Me parece que sim.

[02:03:45] Eu conheço mil músicos que fizeram regência, enfim, tipo, atuaram como músicos eruditos e tal,

[02:03:53] e que, assim, em algum momento, não é que se cansaram,

[02:03:57] mas digamos que de dia eles trabalham de músico erudito, e à noite tocam jazz.

[02:04:02] Uhum, sim.

[02:04:04] Ou seja, eles vão falar…

[02:04:05] Isso, cara, o sexteto do Jô, cara.

[02:04:08] Todos falam a mesma coisa.

[02:04:09] Por que vocês gostam de jazz?

[02:04:11] Porque o jazz é mais legal.

[02:04:13] Ah, mas tem uma explicação filosófica pra isso?

[02:04:16] Não.

[02:04:17] Uhum.

[02:04:18] Mas aí que tá.

[02:04:19] Foda-se a filosofia nesse caso.

[02:04:22] Você tem…

[02:04:23] O que é extremamente nietzscheano, por um lado.

[02:04:26] Não, mas aí que tá.

[02:04:26] O Nietzsche é justamente aquele que vai falar, não, não é foda-se a filosofia.

[02:04:29] É foda-se a tradição ocidental filosófica, né?

[02:04:33] Agora, você pode fazer uma filosofia demoníaca, mas que seja alegre e que vá justificar o jazz.

[02:04:40] Que, de fato, não precisa ser justificada.

[02:04:42] Essa é a questão, né?

[02:04:44] Sim.

[02:04:44] Mas, ou seja, eu vejo que há esses dois casos emblemáticos, o da Vinci de um lado e o Sol Leiter do outro,

[02:04:51] que vão justamente, assim, ou a tristeza ou a alegria, tá?

[02:04:55] Não que o da Vinci retratasse sempre a tristeza, né?

[02:04:59] Só que o da Vinci queria a profundidade, né?

[02:05:02] Sim.

[02:05:02] Os retratos do da Vinci é sempre a profundidade, né?

[02:05:05] Tentar…

[02:05:06] São obras que…

[02:05:07] Obras olhando pra pessoa e tal.

[02:05:10] Porra, o Vermeer fez uma obra só que foi olhando pro espectador.

[02:05:14] Que é a famosa Brinco de Pérolas lá, né?

[02:05:18] Aham.

[02:05:19] E por que que essa ficou mais famosa?

[02:05:21] Porque…

[02:05:21] Porque, assim, o paradigma ocidental é justamente profundidade, não é superfície.

[02:05:28] Não é alegria.

[02:05:29] É tristeza.

[02:05:31] Sim, sim.

[02:05:32] É ver uma dimensão mais crua do real.

[02:05:35] É ver uma dimensão mais impossível de se acessar, que só algumas pessoas conseguem.

[02:05:40] Sejam as pessoas mais tristes, sejam as pessoas mais inteligentes.

[02:05:43] E, em alguns casos, as duas coisas.

[02:05:46] Sim, sim.

[02:05:46] Mais tristes e mais inteligentes.

[02:05:48] Sim.

[02:05:49] Enfim, eu acho que…

[02:05:50] Eu sou a favor da estética lá do Soul Later.

[02:05:55] Que música, assim como qualquer outra arte, né?

[02:06:00] Ela não é mais profunda por ser triste ou por ser simplesmente música.

[02:06:06] Como se a música fosse mais profunda.

[02:06:08] Ao mesmo tempo, eu concordo com o Nietzsche que a música é mais imediata.

[02:06:11] Porque ela tem alguma coisa a ver com a fala, né?

[02:06:14] Só que isso não significa que ela seja melhor que as outras artes, né?

[02:06:17] Ela é simplesmente uma coisa que…

[02:06:19] Nos dá alegria de viver.

[02:06:21] Porque falar nos dá alegria de viver, né?

[02:06:23] Então, essa é uma estética musical que…

[02:06:28] Digamos, enfim, eu tô definindo aqui a minha opinião, né?

[02:06:31] Ah, jura?

[02:06:32] É.

[02:06:34] Que eu não vejo nenhum livro, exceto alguns malucos, né?

[02:06:38] Que não tem nada a ver com música, assim.

[02:06:40] Digamos, não são músicos.

[02:06:42] Que, enfim…

[02:06:43] Eu acho que é uma…

[02:06:46] Aquilo que, de fato, diz mais respeito…

[02:06:49] A uma época que a gente vive.

[02:06:51] Por mais que nessa época ainda tenha músicos transcendentais e por aí vai.

[02:06:55] Porque é uma época em que, assim…

[02:06:58] Porra, desde Nietzsche a metafísica já…

[02:07:01] Sabe?

[02:07:02] É chutar cachorro morto, né, cara?

[02:07:03] Sim.

[02:07:05] Eu…

[02:07:05] Gente, a gente tá com quase duas horas de gravação.

[02:07:07] Acho que já tem uma hora que terminar.

[02:07:10] Eu só queria…

[02:07:11] Eu não posso deixar de passar esse programa sem citar uma coisa que…

[02:07:14] No mesmo período que o Adorno tá escrevendo…

[02:07:17] Metendo o pau no jazz, né?

[02:07:19] Há pouco tempo depois, o…

[02:07:22] Daí, o historiador, né?

[02:07:23] O Hobsbawm.

[02:07:24] O Hobsbawm vai falar da importância do jazz na questão da…

[02:07:29] Mas é uma história social, cara.

[02:07:31] Sim, sim, sim.

[02:07:32] Não é a história do jazz.

[02:07:34] Isso.

[02:07:34] Mas ele vai falar da importância do jazz justamente como…

[02:07:37] Formar aquele grupo de negros que estão tentando criar…

[02:07:42] Achar o seu espaço na…

[02:07:44] Na sociedade americana, que é extremamente racista, né?

[02:07:47] Naquele período.

[02:07:48] Então…

[02:07:48] Eu só tô querendo colocar isso porque, de novo…

[02:07:51] Não é um cara da música.

[02:07:54] Então, por isso, ele vai fazer uma outra afirmação, né?

[02:07:57] Então, eu só queria citar isso.

[02:07:58] Não tem muito a ver com a questão estética.

[02:08:00] Mas só pra mostrar que existem várias formas de ver isso.

[02:08:04] E daí, eu queria agradecer muito, Thiago, por ter vindo aqui.

[02:08:07] O Beccari, por ter falado sem parar.

[02:08:10] Mas foi excelente.

[02:08:11] Não, tranquilo.

[02:08:12] E…

[02:08:13] Agora fica quieto.

[02:08:14] E, Thiago, eu queria te dar um espaço pra você falar o que você quiser.

[02:08:18] E, no final, se você quiser fazer um jabá.

[02:08:20] Não sei se você tem blog, podcast.

[02:08:22] Fica à vontade aí de falar o que você quiser.

[02:08:24] É, então, é…

[02:08:26] E só comentar, a própria improvisação virou prática comum na música erudita, né?

[02:08:30] Inclusive, resgatando práticas barrocas.

[02:08:33] É muito comum se usar a improvisação dentro do repertório erudito

[02:08:37] que tem sido composto, sei lá, a partir dos anos 40, mais ou menos, né?

[02:08:42] Então…

[02:08:43] A briga perdeu sentido até.

[02:08:46] Mas…

[02:08:46] Bom…

[02:08:48] Agradeço aí o convite, né?

[02:08:50] Desculpa aí se eu falei alguma besteira, alguma rindidata aí,

[02:08:56] porque essa hora é foda, né?

[02:08:58] Não, relaxa.

[02:08:59] Essa hora foi ótima.

[02:09:01] Agradeço aí o convite, pela discussão.

[02:09:04] Ah, eu tenho um…

[02:09:06] Ah, tem o meu Twitter, né?

[02:09:08] O arroba tianix.

[02:09:10] Às vezes eu…

[02:09:11] Especificamente sobre música, eu participo de um projeto,

[02:09:15] o Euterpe Despedaçada, né?

[02:09:17] Que…

[02:09:18] É…

[02:09:19] Tem uns podcasts, alguns textos, apesar que eu não consegui escrever nenhum ainda, mas ok.

[02:09:26] Divulgação.

[02:09:27] Tem uns podcasts, né?

[02:09:29] Até…

[02:09:30] Até fizemos um reclamando de…

[02:09:34] O pessoal que fica usando argumentos clássicos, entre aspas, pra falar mal de funk, né?

[02:09:40] Aham.

[02:09:42] Qual podcast que foi esse?

[02:09:44] Quem tem medo de funk?

[02:09:47] Ah, mas qual…

[02:09:48] Mas qual é o nome do podcast?

[02:09:51] É Euterpe Despedaçada.

[02:09:53] É Euterpe Despedaçada.

[02:09:55] Ok.

[02:09:56] Isso.

[02:09:56] Uhum.

[02:09:57] Tá online ainda?

[02:09:59] A gente pode linkar na…

[02:10:00] Tá, tá online ainda, que eu não sei o endereço.

[02:10:03] Tem que procurar no Google.

[02:10:06] Mas tem…

[02:10:07] É…

[02:10:09] Eu tenho uns blogs que eu escrevo, mas no Twitter eu vou colocando as coisas que eu vou fazer.

[02:10:14] Aham.

[02:10:14] Aham.

[02:10:14] Ah, legal.

[02:10:15] Então o pessoal pode procurar por Tianix, é T-I-A-N-I-X, pra procurar o Thiago.

[02:10:22] O Thiago é um cara super bacana, tá sempre comentando ali também, então certeza que

[02:10:26] qualquer coisa que vocês quiserem perguntar pra ele, pode perguntar ali, que ele atende

[02:10:30] também, né?

[02:10:31] Qualquer dúvida que tenha.

[02:10:32] E só não faça pergunta pro Becari, que senão vem textão e isso é chato.

[02:10:36] Mas o Thiago é o nosso comentador filósofo, né?

[02:10:40] É, isso aí.

[02:10:41] É o único…

[02:10:44] Filósofo da turma.

[02:10:48] Todo mundo, todo o resto.

[02:10:49] Não, não, ele é músico, ele é músico.

[02:10:52] Você não é filósofo porque você, Becari, tá…

[02:10:55] Aliás, eu quero mandar um abraço pro Felipe Aires, que ele vai ficar muito puto.

[02:10:59] Ah, é?

[02:11:00] De não ter participado aqui.

[02:11:01] É, ele que toma no cu, já chamei ele um monte de vezes pra fazer programa aqui e ele nunca quis, então toma no cu.

[02:11:05] Enfim.

[02:11:07] Aliás, não pode não porque ele tá concorrendo ao Oscar, então maravilha.

[02:11:10] Ele é um músico também.

[02:11:12] Aham.

[02:11:13] Porque outra hora a gente faz um outro programa sobre estética musical.

[02:11:18] Exato.

[02:11:19] Então, Thiago, mais uma vez, muito obrigado por ter vindo.

[02:11:22] E lembrando aos ouvintes que a leitura de comentários está num programa separado,

[02:11:25] então é só ir lá no post e ver o player logo abaixo.

[02:11:29] E até a semana que vem.

[02:11:30] Tchau.

[02:11:30] Tchau.

[02:11:43] Tchau.

[02:11:44] Tchau.

[02:11:45] Tchau.

[02:11:46] Tchau.

[02:11:47] Tchau.

[02:11:48] Tchau.

[02:11:49] Tchau.

[02:11:50] Tchau.

[02:11:51] Tchau.

[02:11:52] Tchau.

[02:11:53] Tchau.

[02:11:54] Tchau.

[02:11:55] Tchau.

[02:11:56] Tchau.

[02:11:57] Tchau.

[02:11:58] Tchau.

[02:11:59] Tchau.

[02:12:00] Tchau.

[02:12:01] Tchau.

[02:12:02] Tchau.

[02:12:03] Tchau.

[02:12:04] Tchau.

[02:12:05] Tchau.

[02:12:06] Tchau.

[02:12:07] Tchau.

[02:12:08] Tchau.

[02:12:09] Tchau.

[02:12:10] Tchau.

[02:12:11] Tchau.

[02:12:12] Tchau.

[02:12:13] E ele se sente certo

[02:12:16] Nesta hora

[02:12:16] Na sua corrida de crash

[02:12:20] Com o Big Time

[02:12:22] Angel Minds

[02:12:25] Na distância

[02:12:25] New Day

[02:12:27] Fica com um bom cara

[02:12:30] Diz que se sente certo

[02:12:35] Nesta hora

[02:12:36] Vira-se

[02:12:39] E encontre a direita

[02:12:40] Um bom dia para se sentir certo

[02:12:45] Um bom dia para se sentir certo

[02:12:48] Ele disse

[02:12:49] Quando vem a hora

[02:12:54] De uma luz suave

[02:12:55] No fim do túnel

[02:12:58] É só um trem de freio

[02:13:01] Vindo

[02:13:01] Quando vem a hora

[02:13:08] De uma luz suave

[02:13:09] No fim do túnel

[02:13:10] É só um trem de freio

[02:13:14] Vindo

[02:13:14] Não se sente certo

[02:13:22] Como este

[02:13:23] Todas as peças

[02:13:26] Ficam em suas mãos

[02:13:28] Suck up for my quick reward

[02:13:32] Suck up for my quick reward

[02:13:35] Dizem

[02:13:36] Suck up for my quick reward

[02:13:40] Suck up for my quick reward

[02:13:40] Suck up for my quick reward

[02:13:41] Suck up for my quick reward

[02:13:42] Suck up for my quick reward

[02:13:43] Suck up for my quick reward

[02:13:44] Suck up for my quick reward

[02:13:44] Suck up for my quick reward

[02:13:45] Suck up for my quick reward

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[02:13:46] Suck up for my quick reward

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[02:13:47] Suck up for my quick reward

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[02:13:48] Suck up for my quick reward

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[02:13:49] Suck up for my quick reward

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[02:13:54] O que é isso?

[02:14:24] O que é isso?

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[02:15:24] O que é isso?

[02:15:54] O que é isso?

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