#01 A filosofia Morreu?
Resumo
No primeiro episódio do podcast Não Obstante, os participantes debatem a provocativa pergunta “A filosofia morreu?“. A discussão começa contextualizando a origem do podcast como um desdobramento de discussões filosóficas mais aprofundadas que ocorriam no Anticast, visando criar um espaço dedicado à filosofia do design e ao pensamento filosófico em geral.
Os participantes exploram diferentes perspectivas sobre o que significaria a “morte” da filosofia. Daniel Portugal sugere que se fala em morte da filosofia quando ela para de se perguntar pelas essências, associando-a à morte da metafísica. Rogério de Almeida concorda em parte, mas argumenta que isso representa apenas o declínio de uma certa filosofia platônica que buscou organizar racionalmente uma teoria geral do universo, enquanto outras formas de filosofia vitalistas ressurgem.
Ivan Mizanzuki defende que a filosofia morreu institucionalmente, tornando-se um campo acadêmico hermético e desconectado do grande público, enquanto o espírito filosófico de questionamento migrou para as artes, literatura e cinema, onde há mais liberdade para a criação conceitual. O debate avança para discussões sobre figuras como Platão, Kant, Hegel, Nietzsche, Marx e Freud, e como suas ideias moldaram diferentes concepções do papel da filosofia.
A conversa também aborda a relação entre filosofia e transformação social, com Ivan questionando qual seria a utilidade prática da filosofia para problemas concretos como saneamento básico ou educação. Rogério e Beccari respondem que a filosofia não precisa ter uma função redentora ou salvacionista, mas pode ser entendida como uma forma de expressão e criação de conceitos, similar à arte. O episódio termina com reflexões sobre a insignificância cósmica dos discursos humanos e o valor do debate filosófico como expressão da vida e prazer intelectual, independentemente de seu impacto prático.
Indicações
Autores LiteráRios
- Fernando Pessoa/Alberto Caeiro — Citado por Rogério de Almeida, Alberto Caeiro (heterônimo de Pessoa) representa uma filosofia de “olhar e estar de acordo” com o mundo, em contraste com a vontade de transformá-lo.
- Chuck Palahniuk — Mencionado por Ivan como exemplo de autor que, através da literatura (como em “Clube da Luta”), consegue levar ideias filosóficas a um grande público, algo que a filosofia acadêmica teria dificuldade em fazer.
- Franz Kafka — Citado por Ivan como um exemplo de alguém que, através da literatura, fez filosofia de maneira mais livre e impactante do que muitos filósofos acadêmicos do século XX.
Conceitos
- Morte da Metafísica — Apresentada por Daniel Portugal como a possível raiz da discussão sobre a morte da filosofia. Seria o momento em que a filosofia para de buscar as essências ou o ser por trás das coisas.
- Virada Linguística — Mencionada como um ponto chave onde o foco filosófico muda do ser para o discurso, questionando a existência de essências e priorizando a análise da linguagem e da significação.
- Contra-filosofia — Termo trazido por Rogério de Almeida, inspirado em Comte-Sponville, para designar filosofias que se opõem à filosofia oficial histórica, como as filosofias vitalistas que apostam na força da vida.
FilóSofos
- Platão — Citado como o fundador de uma tradição filosófica que coloca a filosofia como teoria e distanciamento, buscando o mundo das ideias e o eterno, em oposição ao mundo terreno.
- Kant — Mencionado por questionar a possibilidade da metafísica tradicional, argumentando que a razão humana não pode acessar a “coisa em si”, apenas o fenômeno. Define a filosofia acadêmica sistemática.
- Hegel — Apresentado como o ápice da filosofia sistemática, onde a razão é absoluta e a história chega ao fim. Sua ideia de finalidade e sistema lógico é posteriormente criticada.
- Nietzsche — Destacado como figura crucial que desestabiliza a razão auto-suficiente, realiza um “suicídio da razão” e antecipa a virada linguística. É visto como um filósofo poeta que traz um vitalismo, focando na vida em vez de sistemas.
- Marx — Citado como um dos três pensadores (com Freud e Nietzsche) que determinam o século XX. É associado à ideia de que o filósofo deve transformar a sociedade, direcionando o olhar para este mundo e para a ação política.
- Deleuze — Mencionado por definir a filosofia como “criação de conceitos”, colocando-a no mesmo nível da arte, literatura e ciência, e não como uma forma superior de conhecimento com dever de transformar o mundo.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Apresentação do podcast Não Obstante — Marcos Beccari apresenta o primeiro episódio do Não Obstante, um podcast sobre filosofia do design. Explica que o podcast surgiu da sugestão de Ivan Mizanzuki para criar um espaço dedicado a discussões filosóficas mais aprofundadas, que já ocorriam no Anticast. Participam Daniel Portugal, Ivan Mizanzuki e Rogério de Almeida, orientador de Beccari.
- 00:06:14 — Introdução à pauta: A filosofia morreu? — Beccari introduz a pauta central do episódio: “A filosofia morreu?“. Explica que a questão surgiu de comentários do Ivan no Anticast e que é um tema apropriado para iniciar a série. Pergunta aos participantes por que se fala em uma possível morte da filosofia e se essa discussão já ocorreu em outros momentos históricos.
- 00:08:52 — A morte da filosofia como morte da metafísica — Daniel Portugal responde que a filosofia tradicionalmente se preocupava com as essências das coisas, buscando uma verdade fundamental por trás do mundo. A ideia de morte da filosofia surgiria quando ela para de se perguntar por essas essências, ou seja, com a morte da metafísica. A questão central seria se a morte da metafísica significa a morte da filosofia como um todo.
- 00:10:25 — O declínio da filosofia platônica e o surgimento de outras formas — Rogério de Almeida concorda que há um declínio de uma certa metafísica de busca pela essência, que vigorou por dois mil anos na tradição platônica. No entanto, argumenta que isso é apenas uma parte da filosofia. A partir do século XIX e principalmente no XX, essa visão entra em crise, mas outros tipos de filosofia, mais arraigados à vivência (como o epicurismo), ressurgem com força.
- 00:17:27 — A filosofia acadêmica sistemática e Hegel — Os participantes discutem o desenvolvimento de uma filosofia acadêmica e sistemática, que atinge seu ápice com Hegel. Ele cria um sistema onde a razão é absoluta e a história teria chegado ao fim com Napoleão. Essa visão de uma filosofia que explica racionalmente todo o universo e tem uma finalidade clara é posteriormente questionada.
- 00:24:24 — Nietzsche, Freud, Marx e a virada linguística — A discussão avança para as figuras de Nietzsche, Freud e Marx como determinantes para a filosofia do século XX. Nietzsche é destacado por realizar um “suicídio da razão”, mostrando que ela não é auto-suficiente, e por antecipar a “virada linguística”, onde o foco passa do ser para o discurso. Isso abre espaço para o pós-estruturalismo e questiona a filosofia tradicional.
- 00:29:14 — A filosofia morreu institucionalmente? — Ivan Mizanzuki expõe sua opinião de que a filosofia morreu institucionalmente. Argumenta que se tornou um campo acadêmico hermético, com um protecionismo que dificulta o diálogo com o público geral. O espírito filosófico de questionamento e criação de conceitos, no entanto, se desenvolve com mais liberdade nas artes, literatura, cinema e música.
- 00:34:36 — Rebatendo: a filosofia sempre foi elitizada e hoje se prolifera — Rogério de Almeida rebate, argumentando que a filosofia sempre foi elitizada e restrita a pequenos grupos. A novidade hoje é que ela se proliferou e se tornou mais acessível do que nunca, saindo da academia e operando de forma mais orgânica. Cita exemplos como cafés filosóficos e filósofos que vivem de publicações. A “morte” seria de uma ideia específica de filosofia como grande sistema explicativo.
- 00:40:01 — A filosofia perdeu seu papel central na sociedade? — Ivan contrapõe que, ao longo da história, a filosofia sempre teve um papel central na definição de como a sociedade se organiza (ex: Marx). Hoje, ele vê uma impotência da filosofia em fazer qualquer coisa prática, tendo que se transformar em política ou espetáculo para ser ouvida. A filosofia ficou desacreditada em sua capacidade de guiar a sociedade.
- 00:45:04 — Filosofia como criação de conceitos, similar à arte — Beccari introduz a visão de Deleuze, que define a filosofia como criação de conceitos, colocando-a no mesmo nível da arte, literatura e ciência, e não como uma forma superior de pensamento. Isso contrasta com a visão tradicional (como a de Marilena Chauí) de que a filosofia é a forma mais nobre de conhecimento, com um dever ético de transformar a sociedade.
- 00:53:17 — Objetivos da filosofia: elevação espiritual vs. transformação social — Daniel Portugal traça uma distinção histórica nos objetivos da filosofia. Em sua origem com Platão, ela visava uma elevação espiritual, um distanciamento para contemplar o eterno (mundo das ideias). A ideia de que a filosofia deve transformar a sociedade é mais recente, moderna, e ganha força com Marx, que direciona o olhar para este mundo e para a ação política.
- 00:56:00 — Filosofia trágica: aprovar o mundo em vez de transformá-lo — Rogério de Almeida e Beccari discutem uma filosofia de inspiração nietzschiana e trágica, exemplificada por Alberto Caeiro (heterônimo de Pessoa), que propõe “olhar e estar de acordo” com o mundo, em vez de tentar transformá-lo ou idealizá-lo. A dificuldade é distinguir essa aceitação/afirmação de uma resignação passiva diante dos problemas sociais.
- 01:04:48 — Exercício hipotético: Nietzsche como ministro da educação — Ivan propõe um exercício: se Nietzsche fosse ministro da educação no Brasil, o que ele faria? A discussão revela que, de uma perspectiva trágica ou vitalista, a filosofia não oferece um plano de ação salvacionista. Rogério argumenta que essa visão questiona a própria possibilidade de uma ação transformadora radical, pois o mundo não é “transformável” nesse sentido redentor.
- 01:10:46 — Agir sem a ilusão de salvação ou mundo ideal — Daniel Portugal esclarece que negar a possibilidade de uma redenção ou de um mundo ideal não significa não fazer nada. É possível agir, buscar melhorias, mas sabendo que se está perseguindo um ideal próprio, sem a crença de que se está salvando o mundo ou negando a realidade em prol de uma utopia. É uma forma diferente de pensar o que é bom e ruim.
- 01:16:50 — Considerações finais: a filosofia está em coma? — Os participantes dão suas palavras finais. Daniel diz que a filosofia não morreu, mas “está em coma”. Ivan reitera que a filosofia acadêmica está em crise de abrangência, enquanto a indústria cultural (cinema, música, literatura) é mais efetiva em levar questões filosóficas ao público. Rogério imagina o futuro olhando para trás e vendo nossa época como uma em que se achava que a filosofia tinha morrido.
- 01:19:16 — Conforto na insignificância e a filosofia como expressão — Rogério de Almeida finaliza com um pensamento reconfortante: tudo o que dizemos é insignificante perante o universo, o que nos liberta da responsabilidade de “salvar o mundo”. A filosofia, assim como a arte, ganha a dimensão de uma brincadeira, uma expressão. Beccari complementa que fazer filosofia, arte ou literatura é um ato altruísta, pois cria obras que permitem aos outros se situarem no mundo, mantendo vivos os significados.
Dados do Episódio
- Podcast: Não Obstante
- Autor: Marcos Beccari
- Categoria: Society & Culture Philosophy
- Publicado: 2015-03-07T07:54:05Z
- Duração: 01:31:15
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/n%C3%A3o-obstante/5a6c7050-ab31-0132-307f-0b39892d38e0/01-a-filosofia-morreu/1ae6e1ba-306a-45ed-84c7-c6f9a9c4daf7
- UUID Episódio: 1ae6e1ba-306a-45ed-84c7-c6f9a9c4daf7
Dados do Podcast
- Nome: Não Obstante
- Tipo: episodic
- Site: http://www.naoobstante.com/
- UUID: 5a6c7050-ab31-0132-307f-0b39892d38e0
Transcrição
[00:00:00] Você está ouvindo, não obstante, um podcast sobre filosofia, design e outras ficções.
[00:00:12] Oi, eu sou Marcos Beccari e esse é o primeiro Não Obstante, um podcast sobre filosofia do design.
[00:00:34] A gente já vai explicar sobre isso. Eu estou aqui com o Daniel Portugal. Fala oi, Daniel.
[00:00:41] Eu estou aqui com o Ivan Mizanzuki e com o meu digníssimo orientador, o Rogério de Almeida.
[00:00:51] Olá, prazer estar aqui. Obrigado a todos por ceder e se arriscar comigo nessa.
[00:00:58] Eu acho que a primeira coisa que a gente tem que fazer é justamente apresentar, esclarecer o que é esse Não Obstante.
[00:01:06] Que nome é esse? E que ideia é essa de fazer mais um podcast num contexto da podosfera que eu diria já
[00:01:15] totalmente lotado de podcast. Por que isso? Então assim, na verdade, o Ivan me sugeriu essa ideia de abrir um podcast
[00:01:28] principalmente porque existe, digamos, uma pequena que seja parcela do público do Anticast que gosta,
[00:01:36] por aquilo que pareça, das discussões mais, sei lá, malucas que a gente faz.
[00:01:42] Mais filosóficas mesmo.
[00:01:44] É, um pouco mais aprofundadas e talvez uma outra parcela que a gente vê também que não gosta, enfim,
[00:01:51] que acaba deixando de ouvir o Anticast porque acaba sendo muito entragável às vezes, não sei.
[00:01:59] E daí a gente vai tentar, né? O Ivan sugeriu essa ideia de a gente fazer esse podcast com uma parceria
[00:02:07] com Filosofia do Design e que seria levado por mim e pelo Daniel.
[00:02:13] Tá certo? O Daniel vai me ajudar aí de novo.
[00:02:16] Agora eu sou só convidado.
[00:02:19] Exatamente. A gente vai tentar aí fazer uma, enfim, o Daniel pode até me ajudar no que a gente pensou
[00:02:27] para esse podcast, né, Daniel? Uma coisa mais voltada à Filosofia do Design, mas também, na verdade,
[00:02:33] voltada à Filosofia de modo geral, né?
[00:02:36] Sim, acho que o Anticast já tinha alguns programas nessa linha e aí a ideia é um pouco do Ivan,
[00:02:40] por que eu entendi, é seguir como ficava um pouco ambíguo.
[00:02:45] Agora esse podcast sai da linha mais filosófica e o Anticast fica com uma linha mais definida.
[00:02:51] É que a gente no Anticast, acho que não impede também que a gente no futuro faça algum programa
[00:02:57] voltado à Filosofia, qualquer coisa assim, mas a gente vai se dedicar, a gente tem se dedicado mais
[00:03:03] a programas quando são teóricos sobre história ou sobre artes, a gente tem falado bastante
[00:03:08] sobre cultura, então cinema, livros e tal. E como é um programa por semana, daí o pessoal às vezes
[00:03:14] reclamava, né? Ah, eu quero ouvir mais o Beccari e tal, então daí eu disse, então faz um podcast só
[00:03:20] do Beccari. Tá aí agora, só pra ele. Um espinó.
[00:03:30] A ideia eu acho que, pelo que eu tô vendo, é pra não deixar tão, eu diria, esquizofrênico
[00:03:37] o próprio Anticast, já que ele já tem uma, digamos, uma linha editorial, sei que eu posso
[00:03:43] falar isso, bem ampla, né? Então às vezes quando a gente acaba entrando em assuntos mais filosóficos,
[00:03:50] acaba destoando, embora também acabe agradando alguma parcela do público.
[00:03:56] Então, enfim, vamos ver se dá certo, né? Vamos também, eu já agradeço o Saulo novamente pelo
[00:04:03] espaço, né? Provavelmente isso vai ser publicado no B9. E agora vamos pra pauta logo, que vocês
[00:04:11] acham, vocês têm mais algum recado pra falar, Daniel, ou Ivan, ou Rogério, querem fazer algum
[00:04:18] adendo? Só sobre a filosofia, vai ser legal que complementa também o que a gente já tá fazendo
[00:04:24] na filosofia do designer, fica essa parte de áudio agora aqui, então isso é legal, porque a gente tá trabalhando
[00:04:30] muito com texto o tempo todo, e é que a gente pode trabalhar em conjunto com essa parte de áudio e texto
[00:04:36] e aí você fica mais interessante, mais rico. Isso, é, a ideia é justamente tentar ampliar esse alcance aí
[00:04:42] das discussões filosóficas através dessa outra mídia, que é o podcast, enfim, nessa discussão.
[00:04:50] E daí o feed vai continuar o mesmo do Anticat, isso é importante, a gente vai publicar no Soundcloud
[00:05:10] o nome do Anticat e a filosofia vai entrar lá, então se você já é assinante do nosso feed, vai conseguir puxar
[00:05:17] esses programas, eu não sei se isso aqui vai ser semanal, becari, então você decide isso. A princípio a gente vai tentar
[00:05:24] fazer mensal, mas sem dúvida tentando aumentar a periodicidade, mas como esse é só um piloto, tá?
[00:05:31] É bom deixar claro, então a gente vai ver o que acontece, e claro, até agradeço o Ivan por esse
[00:05:38] espaço do feed, e o pessoal que já assina o feed do Anticat não tem como desassinar a filosofia,
[00:05:44] quer dizer, não obstante. Se você não quiser ouvir, vai puxar e daí apaga, é bem simples, não tem problema.
[00:05:54] Então não obstante você vai ouvir. Eu acho que também não precisa explicar o nome, ele já vem, agora acabou de…
[00:06:04] Daniel acabou de explicar o nome. Então muito bem, vamos tentar ir para a pauta que é a filosofia morreu.
[00:06:14] Isso na verdade é… Conto de interrogação, claro. Conto de interrogação, exatamente, não é uma afirmação.
[00:06:23] Não, é uma afirmação, morreu. Então por enquanto quem tem acompanhado o Anticat, os últimos,
[00:06:33] perceberam que o Ivan está com essa coisa de assinar a filosofia, então justamente daí que veio a ideia,
[00:06:41] essa iniciativa da gente discutir sobre isso, que eu achei ótimo para começar, enfim, essa série do podcast não obstante.
[00:06:49] E daí, enfim, eu chamei o meu orientador, o Rogério, que é, enfim, ele já se apresentou no último,
[00:06:57] que ele participou do Anticat, que foi do Imaginário, se eu não me engano. Mas ele é professor lá da Feuspe,
[00:07:05] tá certo? E ele é um dos professores que, na faculdade de educação, acaba se inclinando para os estudos da filosofia
[00:07:13] e também da literatura, enfim, estudos culturais, é difícil, né, também resumido.
[00:07:20] Pra dizer essa linha, a relação da cultura com um viés mais filosófico mesmo, ou antropológico, se podemos dizer assim.
[00:07:30] Enfim, interdisciplinar, acho que… Eu já diria que discutir sobre a morte da filosofia,
[00:07:39] eu acho meio impossível se não for, digamos, num trajeto interdisciplinar, sabe?
[00:07:47] Pela filosofia mesmo, eu acho muito mais, sei lá, complicado.
[00:07:53] Então vamos começar, eu tinha preparado aqui uma pauta do porquê a filosofia teria morrido,
[00:07:58] ou seja, por que é possível falar sobre uma morte da filosofia antes da gente começar a falar, digamos, se a filosofia morreu ou não?
[00:08:07] Então por que se fala de uma filosofia, dessa morte da filosofia, se é uma coisa recente,
[00:08:14] se por acaso, de repente, esse tipo de assunto já foi levantado antes, é muito provável que sim, né?
[00:08:20] Eu imagino, inclusive, que lá no período do epicorismo, estoicismo, que se valorizava a sabedoria de vida
[00:08:29] acima de qualquer tipo de esquema teórico, no sentido platônico e tal,
[00:08:35] talvez esse discurso da morte da filosofia não fosse tão… já tivesse, enfim, já tivesse corrente naquela época.
[00:08:45] Enfim, eu vou perguntar já pro, sei lá, Daniel, o que você diria sobre essa possibilidade da morte da filosofia?
[00:08:52] A possibilidade da morte agora ou essa ideia de que já foi, alguém já falou sobre isso antes?
[00:08:57] Já nasceu morta.
[00:08:59] Já nasceu morto, né?
[00:09:02] Não, daí eu tô sendo polêmico, você não acha isso.
[00:09:07] Então, vai lá, você acha que… assim, não, eu só tô perguntando se essa possibilidade,
[00:09:14] em que momento você acha que acabou, sei lá, se tornando mais clara uma possível morte?
[00:09:20] Por que a gente pode hoje falar, pelo menos, se perguntar se a filosofia morreu? O que que levou a isso?
[00:09:28] Na minha cabeça, pelo menos, eu acho que tradicionalmente a filosofia se preocupa com as essências das coisas,
[00:09:34] quer achar uma verdade ou alguma coisa que, fundamentalmente, que existe por trás daquilo que existe, por trás desse mundo.
[00:09:45] Então, em grande parte, acho que a filosofia, essa ideia de morte da filosofia acontece quando a filosofia para de se perguntar
[00:09:52] pelas essências, ou seja, a morte da filosofia seria junto com a morte da metafísica,
[00:09:58] que seria essa parte da filosofia que se preocupa com o ser por trás das coisas, da essência das coisas.
[00:10:04] Então, acho que a nossa discussão vai acabar girando entre a morte da metafísica, que a gente vai explicar pra ouvinte aqui.
[00:10:12] Significa também a morte da filosofia como um todo? Acho que essa talvez seja a questão principal aqui.
[00:10:18] Sim. Rogério, o que você acha dessa possibilidade de se falar sobre uma morte da filosofia?
[00:10:25] Por que existe essa possibilidade?
[00:10:27] Eu concordo com o Daniel na questão da morte da metafísica, num certo sentido, ou a gente poderia falar em decline,
[00:10:37] ou talvez no decline de uma certa metafísica, que eu acho que ficou bem definida nas palavras dele que é essa busca pela essência.
[00:10:46] Isso, de alguma forma, é ruído. Mas, por outro lado, eu acho que isso é uma parte só da filosofia,
[00:10:54] ou digamos assim, era a parte platônica. E é bem verdade que a gente pode falar nesse sentido de uma certa morte,
[00:11:01] porque a filosofia platônica praticamente vigorou nos dois mil e tantos anos de uma escola filosófica.
[00:11:09] Posso fazer um parêntesis pro ouvinte? O Platão, basicamente, ele coloca a filosofia como uma teoria
[00:11:17] no sentido de um distanciamento em que o filósofo seria o único espectador privilegiado da eternidade.
[00:11:26] E essa eternidade que Platão se refere seria justamente essa metafísica que, enfim, ele vai falar lá do mundo das ideias e tudo mais,
[00:11:35] que a filosofia está direcionada, ou seja, a filosofia pra ele seria essa tentativa de se ver o eterno,
[00:11:44] já que onde estamos, nesse plano terrestre, nada é eterno.
[00:11:49] Então, só pro ouvinte que nunca ouviu falar de Platão, sei que existe um ouvinte assim, mas pode prosseguir.
[00:11:57] Mas é basicamente isso, a exploração ficou clara. De um lado, a filosofia se encaminhou como sendo esse mundo das ideias,
[00:12:10] ou seja, a possibilidade de encontrar uma ordem racional para a existência, pro mundo, enfim, quer que seja,
[00:12:19] é o que estava embutido ali na própria ideia de filosofia.
[00:12:23] Agora, por um outro lado, você tem um questionamento sobre essa possibilidade,
[00:12:30] as ideias realmente conseguem dar conta da existência concreta?
[00:12:35] Então, essa pergunta ela começa a ser feita de maneira mais intensa no século XIX e aí o século XX eu acho que explode,
[00:12:42] seja pelo viés da linguagem, seja, enfim, pelo viés da antropologia, eu acho que explode um pouquinho com essa visão platônica,
[00:12:52] então acho que é um século antes platônica. Daí também a sensação de morte da filosofia.
[00:12:56] Por outro lado, eu acho que há um tipo de filosofia que ressurge com força,
[00:13:02] que é justamente, e não à toa você citou aí o epicurismo, que é uma filosofia acho que mais arraigada a própria vivência,
[00:13:10] mas aí a gente vai falando disso no decorrer do programa.
[00:13:13] Eu acho interessante a gente comentar, porque é óbvio que entre Platão e o século XIX não houve uma estagnação nem nada do gênero,
[00:13:26] a gente tem uma série de filósofos questionando o próprio estatuto da filosofia, dentre os quais um bastante famoso, o Hegel,
[00:13:35] que ele vai tentar justamente se opor a Kant, o Kant no sentido que tenta fazer uma abertura filosófica
[00:13:42] para tentar pensar justamente a possibilidade da metafísica, a possibilidade da alma eterna,
[00:13:50] tudo aquilo que o Platão já colocou como um dado pronto e prévio, o Kant tenta justamente se questionar sobre essa possibilidade
[00:14:03] e daí ele faz toda uma filosofia sistemática para se analisar isso, ou seja, ele tenta de alguma forma,
[00:14:10] claro que eu estou reduzindo o Kant aqui absurdamente, mas para justamente tentar fazer um novo estatuto que é,
[00:14:19] eu não vou lembrar os termos exato, mas é a possibilidade do a priori, Daniel, você sabe?
[00:14:29] A priori sintético, sintético a priori.
[00:14:32] É, são possíveis juízos sintéticos a priori.
[00:14:34] É, juízo sintético a priori, exatamente.
[00:14:36] Mas acho que a questão aí é se explicar para o ouvinte, é que a filosofia tradicionalmente desde Platão
[00:14:43] e ao longo da idade média, como ela se pergunta pelas essências, ela ideia que Deus existe,
[00:14:48] então você tem prova de existência de Deus, prova da imortalidade da alma e assim por diante.
[00:14:53] O que Kant tenta fazer, grosso modo, é dizer, a nossa razão é humana, ela não tem como ir além do humano
[00:15:02] e saber, dizer coisas sobre a essência de Deus.
[00:15:05] Qualquer coisa que você diga sobre a essência de Deus é que nem a história da Chapéuzinho Vermelho,
[00:15:10] porque assim, não tem, a nossa razão chega lá, está inventando coisas.
[00:15:15] E o que acontece, inclusive, é que a razão iria, por ela, ela não inventa assim que nem Chapéuzinho Vermelho,
[00:15:21] mas pelas próprias formas de funcionar você chegaria a uma conclusão que num diz respeito a nada fora da própria razão.
[00:15:29] Então assim, não tem como saber se Deus existe, não tem acesso ao que ele chama de coisa em si, o mundo, ele próprio,
[00:15:36] você só tem acesso ao mundo tal como ele já é modelado pela sua percepção, porque exatamente, é um fenômeno fenomênico.
[00:15:45] Só para complementar, ele usa o termo sensação.
[00:15:50] A gente tem uma sensação do mundo porque de alguma maneira a gente está implicado num determinado tempo e lugar.
[00:15:57] Mas aí é interessante porque o Kant é o que vai, de alguma maneira, definir um tipo de filosofia que é a filosofia acadêmica,
[00:16:10] que é a filosofia sistemática, que é aquela filosofia que começou a ser praticada em determinados espaços, digamos, específicos para tal finalidade
[00:16:21] e que eu acho que hoje começa a explodir um pouco.
[00:16:24] Por isso a sua colocação muito pertinente de que essa discussão talvez fosse influir diferente dos filósofos,
[00:16:34] porque de alguma maneira eles não estariam preocupados especificamente com a filosofia nos moldes como nós colocamos,
[00:16:41] uma vez que ela é uma disciplina acadêmica que tem o seu objeto muito bem definido.
[00:16:45] Nesse sentido, ela permanece. Por isso que eu acho que, de alguma maneira, o que se coloca em xeque hoje seriam os usos da filosofia ou do seu cadáver.
[00:16:58] Isso principalmente para além dela, ou seja, o uso da filosofia fora da filosofia.
[00:17:04] Tem que surgir da própria proposta da filosofia do design ou de outras filosofias que vão se desdobrando.
[00:17:12] O próprio Deleuze vai falar de uma filosofia que não submete ou não está acima da arte, nem da literatura, nem das ciências.
[00:17:20] Mas assim, isso que o Rogério estava falando, digamos, de uma filosofia um pouco mais acadêmica,
[00:17:27] no sentido de ser praticada e limitada de alguma forma a algum espaço específico na sociedade,
[00:17:34] isso chega, eu diria, ao ápice com Hegel, já que ele justamente faz uma filosofia sistemática ao ponto de considerar que a razão já é absoluta em si.
[00:17:47] Então não há porque, digamos, se questionar novamente algumas coisas que já estariam pré-estabelecidas.
[00:17:57] Novamente eu tenho essa tendência de reduzir tanto Hegel quanto Kant.
[00:18:01] Mas justamente você tem uma direção da história, da própria filosofia, da razão, da natureza humana, uma direção muito clara, uma finalidade.
[00:18:11] E é nessa finalidade que ele define essa, digamos, a razão do universo e de qualquer coisa que poderia ser metafísica.
[00:18:21] E essa é a novidade do Hegel, na realidade. Ele acaba gerando a causa, que é uma das coisas principais para o Kant, por exemplo, e dando a ênfase a finalidade ou a causa final.
[00:18:34] Mas o que eu acho que é interessante nesse caso do Hegel é que não só a finalidade já chegou.
[00:18:40] O ponto é que ele, o Estado, chegando nessa fase do Estado, para ele a história acabou.
[00:18:45] Então o ponto dele, o conhecimento dele, ser absoluto é porque ele está numa posição supostamente de que ele tem como ver a história inteira atrás.
[00:18:53] Porque a história acabou ali com Napoleão.
[00:18:58] E daí vai partir a discussão do Fukuyama. Muitas vezes ele é mal interpretado quando ele fala do fim da história.
[00:19:09] Porque não é, de certa maneira, que o capitalismo haveria ganho e, portanto, não aconteceria mais nada.
[00:19:19] A questão é que as possibilidades de progresso estariam findadas.
[00:19:24] A ideia é que não haveria mais progresso, portanto, a história chegaria ao seu fim.
[00:19:29] Mas acho que aí é fechar já de antemão com um presuposto Hegeliano.
[00:19:37] Mesmo que seja subvertendo a interpretação Hegeliana sobre a história, mas de fato a dinâmica é a mesma.
[00:19:44] Acho que é um equívoco muito grande por parte de Hegel ao conceber a ideia de uma história que se faz de maneira racional.
[00:19:54] Então, quando ele vai tentar buscar essas bases, eu acho que certamente ele cria uma ficção.
[00:20:02] Que a própria da época ou da continuidade da época, enfim, Kant começa com essa brincadeira que a ideia de que nós caminhamos rumo a um progresso.
[00:20:13] E essa ideia de progresso, acho que essa sim, está morta, enterrada e é bem difícil pensar a partir dessa noção.
[00:20:25] Eu acho até interessante que isso talvez o Ivan possa me ajudar talvez um pouco mais, não sei.
[00:20:31] Eu não sei nada.
[00:20:33] Depois de Hegel, eu diria até entrando pro século XX, a gente tem, sei lá, o próprio Durkheim, que é considerado o pai da sociologia, certo?
[00:20:44] Um doze.
[00:20:45] É um doze, enfim.
[00:20:48] É que geralmente a sociologia, até o nosso amigo Kudukus, ele fala que na sociologia o pessoal brinca que são os três patetas que formaram a sociologia.
[00:20:59] Marx, Durkheim e Weber.
[00:21:02] Mas a questão é que o Durkheim fala sobre uma certa anomia que vai ser apropriada por Adorno na Escola de Frankfurt como uma anomia social,
[00:21:13] ou seja, aquilo que é um esgotamento de qualquer tipo de crença e qualquer tipo de, enfim, ideia de progresso que o Rogério estava falando,
[00:21:25] que vai levar o Adorno, não por causa disso, mas entre outras coisas, falar que a própria arte teria morrido.
[00:21:33] Isso mais voltado principalmente à questão da teoria musical.
[00:21:37] Ou seja, não existe mais possibilidade de arte nem de cultura, nas palavras do Adorno, isso por ocasião principal da indústria cultural.
[00:21:48] É que daí quando você está falando de Adorno, você já está falando de um outro caso, que ele está tentando entender o impacto do capitalismo na produção cultural.
[00:21:59] Eu até estava relendo Adorno ontem e ele fala tanto da arte de elite quanto a arte popular.
[00:22:06] Na verdade, eu diria até que não é exatamente o capitalismo, é a comunicação em massa.
[00:22:13] Comunicação em massa, só que ele até disse que não quer mais usar o termo massa, então ele prefere falar de indústria cultural mesmo
[00:22:20] para dar essa noção de uma sociedade capitalista que começa a transformar qualquer produção cultural em produto.
[00:22:27] Mas só antes disso, que daí a gente não falou nem de capitalismo ainda, porque daí é outra coisa,
[00:22:34] mas ainda quando você está falando de Hegel, é legal você ver que ele se acha tanto assim, eu acho interessante isso,
[00:22:44] que ele vai até fazer aquele livro, que não é um livro, é uma compilação de várias coisas dele, que é o sistema das artes, o curso de estética dele,
[00:22:53] que ele basicamente diz que a arte funciona assim, você consegue colocar, você consegue ver quais são as artes mais nobres que outras,
[00:23:01] um sistema super lógico sobre como funciona a estética e a arte.
[00:23:12] Desculpe, Vânio, só para complementar uma ideia bastante romântica também, a ideia de gênio,
[00:23:16] a ideia do artista que se eleva acima dos comuns mortais.
[00:23:22] É, exato, e daí agora com o ponto que eu acho que é mais, eu acho que Hegel, sem dúvida, é óbvio, não vou dizer que não é importante,
[00:23:32] mas sem dúvida é, mas eu lembro quando eu estava vendo, acho que era uma palestra do Juané, eu não vi pessoalmente, eu vi em vídeo.
[00:23:41] Isso existe, não é um Deus esse cara?
[00:23:44] Não, não, não. É uma lei.
[00:23:50] O nome da palestra dele era pós-modernismo e ele dizia que apesar do nome da palestra ele não gostava do termo,
[00:23:57] ele dizia que ele ia falar sobre anti-modernismo, que ele achava melhor, e que daí ele dizia, ele fez uma análise que eu acho bem interessante
[00:24:06] quando ele vai falar da virada, principalmente a metade do século 19 virada para o século 20,
[00:24:11] que ele vai dizer que três grandes caras meio que determinam como que vai ser a filosofia que vai acontecer no século 20,
[00:24:18] e daí vão começar as discussões sobre o pós-modernismo a partir daí. Um vai ser o Marx no campo público,
[00:24:24] outro vai ser o Freud no campo privado, e você vai ter um cara que vai na contramão de todos eles que vai ser o Nietzsche,
[00:24:32] que muita gente vai dizer que o Nietzsche é um dos pais senão ou pai ou avô ou bisavô do pós-modernismo como um geral,
[00:24:42] porque ele até, o Rene daí explicava assim, ele dizia, você vai ler o Nascimento da Tragédia, por exemplo, do Nietzsche,
[00:24:49] o Nietzsche ele está desconfiado com essa ideia hegeliana ou marxista ou qualquer coisa assim, de que a razão ela é auto-suficiente,
[00:24:56] então ele vai fazer no Nascimento da Tragédia um suicídio da razão, ele vai tentar usar de próprios argumentos racionais para mostrar que a razão é falha,
[00:25:05] e ele vai apelar para isso daí para a tragédia grega, que daí eu acho que o Rogério vai ser excelente para explicar isso,
[00:25:12] mas o que eu acho interessante ali é que o Nietzsche ele vai fazer esses dois movimentos,
[00:25:19] primeiro de um suicídio da razão para mostrar que a razão ela não é auto-suficiente,
[00:25:23] e outro que eu acho interessante daí no papel do Nietzsche, que ele vai, ele já vai ser um dos primeiros caras também,
[00:25:31] você pode até atribuir isso um pouco para o Freud também, que vai ser a chamada virada linguística,
[00:25:35] quando vai falar da questão da importância do discurso, que não existe essência nas coisas, o que importa é o discurso,
[00:25:42] e daí a gente fica discutindo mais semiologia e semiótica do que necessariamente tentando discutir coisas muito filosóficas.
[00:25:51] Eu diria que justamente essa questão da virada linguística é um ponto chave eu acho nessa questão,
[00:25:58] e por incrível que pareça tem a ver com Hegel, porque o Daniel pode até me ajudar nisso,
[00:26:04] porque assim, um dos caras que foi professor, principalmente dos ditos pós-estruturalistas,
[00:26:14] isso que eu já tô pulando né, o estruturalismo em si, mas enfim, tá foda né, mas é claro, estruturalismo,
[00:26:23] eu sou sírio e a gente já fez um programa sobre isso no AdCast, quem quiser escuta aí,
[00:26:28] mas a questão é que tem um cara chamado Kojev, que ele deu um curso sobre Hegel,
[00:26:34] pra pessoas como Merlouponty, o próprio Lacan, e daí, ou seja, de certa forma, claro que tem uma discussão toda sobre isso,
[00:26:45] mas o Kojev ele fez uma versão de Hegel que é do Kojev né, na verdade.
[00:26:51] Na verdade é o único que eu conheço, do Hegel e a versão do Kojev.
[00:26:55] Mas é que o interessante é que ele adapta, de alguma forma, essa filosofia Hegeliana,
[00:27:02] pra aquilo que alguns vão chamar de dialética negativa, e que fundamenta em muitos casos,
[00:27:09] uma das vertentes filosóficas contemporâneas, que justamente é pós-estruturalista,
[00:27:16] e que vai fundamentar talvez essa possível morte da filosofia.
[00:27:21] Ah não, não tem a ver com o dialética negativa do Adorno.
[00:27:24] Tem, justamente, é que o Adorno não foi aluno do Kojev né, mas o Adorno é Hegeliano, por exemplo, tá certo?
[00:27:31] O Adorno é meio complicado, porque além de ser Hegeliano ele é pós-marxista,
[00:27:36] embora eu vou me arriscar a dizer que ele sobrepõe o Hegel a Marx,
[00:27:44] e no caso, além disso, o Adorno é Weberiano, o que me parece totalmente bizarro,
[00:27:51] mas, enfim, é com essas bases que ele vai construir toda a teoria dele.
[00:27:55] Então, mas sem dúvida, o Adorno ele vai, ele tem até um livro chamado dialética negativa, não é isso?
[00:28:01] Sim, sim.
[00:28:02] É, então, mas a questão é que, sei lá, o Merlouponty não vai por essa linha,
[00:28:07] ele só teve essa aula com o Kojev.
[00:28:12] Agora o Lacan vai, e daí você tem toda uma escola, principalmente que está, sei lá,
[00:28:18] encabeçada, eu diria, por Alain Badiou, de Paris,
[00:28:24] que tem alguns precursores mais atuais, que é o Slavoj Zizek e, aqui no Brasil, o Vladimir Safatov,
[00:28:31] que é essa vertente da dialética negativa que, pra mim, ela é totalmente, digamos,
[00:28:37] tributária a essa virada linguística.
[00:28:40] Agora eu não sei, se alguém me rebate.
[00:28:46] Seu orientador vai te dar umas tapas agora.
[00:28:49] Põe um barulho de tapa.
[00:28:52] É que assim, eu me perdi no que você falou, Beccario,
[00:28:55] e eu quero voltar pra um negócio um pouco antes, então.
[00:28:57] Eu queria que o, porque assim, eu, pelo menos, eu adoro dizer que a filosofia morreu,
[00:29:14] e eu vou deixar logo claro a minha opinião nesse sentido, porque daí eu quero fazer uma pergunta pro Rogério,
[00:29:19] que é assim, eu acho que a filosofia morreu, primeiro, institucionalmente,
[00:29:24] por exemplo, eu acho que hoje, filósofo, ele é um cargo universitário que não consegue falar com um grande público,
[00:29:31] com algumas exceções aqui no Brasil, hoje, a gente tá vendo, o próprio Safatli, o Pondê,
[00:29:37] que são filósofos que estão tentando quebrar a barreira da universidade em polos opostos.
[00:29:41] E fora do Brasil tem os Zizek.
[00:29:43] É, tem os Zizek. Não, fora do Brasil você tem alguns casos, assim,
[00:29:47] o Sartre mesmo era um cara que participava de movimentos populares o tempo inteiro na França,
[00:29:53] que escrevia em jornal, então ele…
[00:29:55] Fez com o Michel Humphrey.
[00:29:57] É, então você tem muita gente, assim, lá fora que tá aí, e no Brasil isso não, mas enfim,
[00:30:03] isso ainda é meio novo, apesar que você teve exemplos no passado também, mas ainda assim,
[00:30:08] não teve tanto impacto quanto estamos vendo hoje.
[00:30:12] Mas assim, o que eu vejo é que, por exemplo, qualquer coisa que você vai discutir filosofia hoje em dia,
[00:30:19] ou você vai ter que estar num centro acadêmico, num centro acadêmico não, mas num centro universitário de filosofia pra estar discutindo,
[00:30:25] daí você vai entrar num cano extremamente hermético, assim,
[00:30:28] você vai em qualquer congara de filosofia, os caras ficam discutindo cante por horas, assim, eles adoram isso.
[00:30:33] Nietzsche, por exemplo, que é um filósofo super interessante,
[00:30:36] é mais lido por adolescentes do que pelos próprios filósofos,
[00:30:39] porque é um cara que é difícil de sistematizar,
[00:30:42] quando alguém tenta sistematizar vai vir algum idiota que é especialista em Nietzsche e vai dizer
[00:30:46] assim, Deborah, tô errado, seu filho da puta, coisa assim,
[00:30:49] ou seja, já tem toda uma questão de parece que é um protecionismo do campo acadêmico filosófico
[00:30:54] pra que a gente sabe ler, você não, então não venha falar bobagem,
[00:30:58] e isso é uma das críticas que fazem, por exemplo, caras como Safatli e o Pondé,
[00:31:02] que são caras que tentam trazer o debate ao público,
[00:31:05] daí tem que fazer uma redução, daí cai naquela questão da indústria cultural, do Adorno, enfim, são outras coisas.
[00:31:10] Mas eu acho que assim, hoje em dia, por exemplo, qualquer programa que você vai fazer,
[00:31:14] a dificuldade que a gente tem, por exemplo, de fazer, introduzir discussões de filosofia no design,
[00:31:18] vai acontecer que, de um lado, os designers não entendem o que está falando,
[00:31:22] e de outro lado, os filósofos vão dizer que você também está falando bobagem,
[00:31:27] porque você não é filósofo de formação, então você não conseguiu entender direito a coisa.
[00:31:31] Então assim, uma coisa que eu acho que era importante em toda a história da filosofia,
[00:31:35] que era a prática do pensamento,
[00:31:38] ela acabou virando uma questão de jogo de poder,
[00:31:41] por simplesmente sentir que alguém que tem um diploma,
[00:31:44] ou de alguém que faz parte de um certo círculo que pode fazer isso,
[00:31:48] e se tenta levar isso ao público, ele vai ser linchado se não fizer parte daquele grupo,
[00:31:52] e daí o que eu vejo assim, que ela está tão fechada em si mesma que ela não tem,
[00:31:57] por exemplo, você não consegue pensar, ok, como é que eu posso colocar um filósofo aqui dentro
[00:32:01] para ajudar na minha empresa, ou para ajudar no meu departamento de ensino,
[00:32:05] na filosofia vai-se saber aquela matéria que tipo, no ensino médio o cara vai matar,
[00:32:09] porque não serve para nada, o filho chega um dia para o pai e diz assim,
[00:32:14] pai, vou tentar fazer vestibular de filosofia, o pai já vai ter três preocupações
[00:32:19] para o resto da vida, assim, sem fim,
[00:32:22] ou seja, é uma coisa que, eu digo que ela está morta institucionalmente,
[00:32:26] contudo eu vejo, e daí eu acho que o grande espaço que hoje nós temos
[00:32:31] da filosofia, daquele espírito filosófico de você questionar,
[00:32:37] criar conceitos e fazer generalizações e montar sua visão de mundo baseada em qualquer coisa,
[00:32:43] esse tipo de atitude parece que ela se desmembra muito melhor,
[00:32:49] se desenvolve com mais liberdade nas artes, na filosofia, na literatura,
[00:32:55] no cinema, na música, eu acho que hoje em dia as artes estão muito mais livres
[00:33:01] para fazer filosofia do que essa filosofia que está sendo feita por filósofos,
[00:33:05] e eu sinto às vezes que isso ainda é o impacto que a gente sentiu do Nietzsche,
[00:33:10] quando o Nietzsche vai fazer, por exemplo, livros que são quase literatura,
[00:33:14] muita gente diz que o Nietzsche é o filósofo poeta,
[00:33:18] enquanto o Fernando Pessoa, que é o grande tema do Rogério,
[00:33:23] que estudou muito tempo, seria um poeta filósofo,
[00:33:27] agora, é muito difícil institucionalmente, por exemplo, você falar das discussões
[00:33:32] de, por exemplo, sei lá, a questão da efemeridade da vida
[00:33:40] ou do sentido trágico, não sei quem, Fernando Pessoa num curso de filosofia,
[00:33:43] isso vai ser muito complicado porque os caras vão dizer não, não tem sistema aqui dentro.
[00:33:47] Não isso, eles vão dar outros argumentos, mas tudo bem.
[00:33:52] E só para finalizar também, daí eu vejo que os filósofos contemporâneos que eu mais gosto,
[00:33:59] eles, geralmente, eles foram caras que, se não desenvolveram toda uma carreira em literatura,
[00:34:06] pelo menos flertaram com isso em algum momento, como Sartre, na Náusea, por exemplo,
[00:34:10] eu acho que é um livro muito melhor do que qualquer outra coisa que ele escreveu,
[00:34:14] assim como o Camus também no Seu Estrangeiro ou qualquer outro,
[00:34:19] o Kafka eu acho que é um filósofo muito melhor do que muito que foi discutido
[00:34:24] em filosofia contemporânea no século XX, mas enfim, isso sou eu.
[00:34:29] Eu acho que esses caras têm mais liberdade do que o filósofo em si.
[00:34:34] Eu queria que o Rogério der sua opinião sobre isso.
[00:34:36] Eu vou rebater até causar uma certa polêmica, porque eu acho que essa ideia
[00:34:44] de que a filosofia se dedicava aos grandes pensamentos e, portanto, ela morreu
[00:34:50] porque hoje não tem esse espaço.
[00:34:52] Eu acho que é, concordo com você, mas é a morte de uma ideia de filosofia,
[00:34:57] que seria, por exemplo, a filosofia como aquela arte de organizar racionalmente
[00:35:03] uma teoria geral que explicasse o universo todo.
[00:35:07] Essa visão de todo, inegavelmente, ela se perdeu, mas eu acho que aí é justamente
[00:35:13] um problema maior que a própria crise da razão.
[00:35:18] Porque, de certo modo, quando você diz assim, ela está lá restrita, algumas pessoas
[00:35:25] da academia, mas ela sempre foi extremamente restrita.
[00:35:29] Na Grécia, filosofia fazia parte de pequenos grupos e cidadãos, fora de tudo, enfim,
[00:35:36] tudo aquilo que a gente poderia chamar da grande maioria da parceria,
[00:35:39] por exemplo, que era escrava.
[00:35:40] Na Idade Média, ela ficou presa ali num âmbito religioso.
[00:35:45] Então ninguém filosofava fora daqueles espaços, por o menos não existia nenhuma
[00:35:50] validação de um pensamento fora desses espaços.
[00:35:53] Se você pega isso depois, vamos pegar ali no período de efevescência das reciclopédias,
[00:36:04] enfim, do iluminismo de modo geral, a gente falou aí, citou alguns, Kant,
[00:36:09] Reagan, enfim, eles são quase ilegíveis para o público médio.
[00:36:14] Então ela sempre foi muito elitizada.
[00:36:16] Eu acho que de alguma maneira hoje o que ocorreu e aí que a gente derrapa é porque
[00:36:23] ela se proliferou.
[00:36:25] Então hoje a filosofia é acessível e ela é tão mais acessível do que sempre
[00:36:29] foi que hoje a gente, acredito que nenhum de nós aqui seja filósofo de formação
[00:36:35] e nós estamos discutindo filosofia para um público especificamente de não-filósofo,
[00:36:42] primeiramente interessados ainda na filosofia do design.
[00:36:45] Então eu acho que, por exemplo, há vários fenômenos, como por exemplo os
[00:36:49] cafés filosóficos que invadiram, enfim, mídia, enfim, adaptações, até um uso mais,
[00:36:56] digamos, voltado para o comércio de autoajuda, então muita filosofia aplicada
[00:37:04] a autoajuda, filosofia aplicada à empresa, você tem vários, você pega por exemplo
[00:37:09] o Mário Sérgio Cortella que tem, enfim, uma consultoria inteira, um trabalho
[00:37:17] todo voltado para a área de administração e alguém que conhece bastante de filosofia,
[00:37:23] que tem uma formação, enfim, de filosofia humanista.
[00:37:26] Então eu acho que hoje a gente está justamente num momento em que a filosofia,
[00:37:30] e aí eu concordo com você, sai daquele espaço mais restrito da academia ou
[00:37:38] dos grandes sistemas e passa a operar de uma forma mais orgânica, ou seja,
[00:37:45] uma filosofia mais presa ao próprio pensamento da vida.
[00:37:49] Ou seja, aquilo que o Nietzsche, e aí para o meu modo de ver,
[00:37:53] a principal contribuição do Nietzsche.
[00:37:55] Não foi desestabilizar alguns sistemas, mas acho que foi trazer para o sério da
[00:38:00] filosofia um certo vitalismo, ou seja, o que importa é resolvido ali na vida
[00:38:06] e não efetivamente num pensamento.
[00:38:09] Então assim, os sistemas ruíram, e aí eu concordo, podemos falar da morte da filosofia
[00:38:14] da mesma forma que falaríamos da morte desses grandes sistemas.
[00:38:18] Mas eu acho que, por exemplo, o interesse pela filosofia,
[00:38:22] mesmo a apeligência de um público mais cultivado em relação à filosofia,
[00:38:27] tem que ir de uma maneira muito intensa.
[00:38:29] Na França, por exemplo, Kondis Povili, ele se licenciou da academia,
[00:38:34] saiu da academia para viver apenas da publicação de livros,
[00:38:39] que é uma coisa que todo escritor sonha.
[00:38:41] Então você imagina um escritor de filosofia vivendo dos seus escritos.
[00:38:45] É o caso do Kondis Povili.
[00:38:47] Jean Fré fundou uma universidade aberta de filosofia,
[00:38:52] quer dizer, também basicamente a partir dos livros que ele escreve,
[00:38:58] e ele faz um trabalho muito interessante, e aí eu já aproveito,
[00:39:01] já trago o termo dele aqui para a nossa discussão,
[00:39:04] que é de uma história de uma contra-filosofia.
[00:39:07] E aí talvez, e aqui fica com uma possibilidade, talvez a constatação da morte da filosofia
[00:39:13] seja a constatação de um tipo de filosofia
[00:39:16] que se escreveu historicamente como a filosofia oficial
[00:39:19] e que hoje passa a ser impedida, digamos assim, por várias filosofias,
[00:39:23] inclusive filosofias vitalistas, que vão, enfim, apostar numa força vital
[00:39:30] como mais forte do que um argumento racional, por exemplo,
[00:39:33] ou um sistema explicativo do sentido da vida.
[00:39:37] Eu acho então que esse tipo de filosofias, ele vem reescrever a história,
[00:39:44] então a gente passa a ter uma contra-filosofia,
[00:39:46] então nesse sentido a gente constata uma morte de uma certa filosofia
[00:39:50] para tentar reabilitar uma outra filosofia.
[00:39:52] Não sei se eu fui claro, mas é a filosofia como toda se morre.
[00:39:56] Só que veja só, minha questão nisso também é, por exemplo,
[00:40:01] desde o início da filosofia da Grécia, passando por Roma,
[00:40:05] daí depois indo para…
[00:40:07] Em Roma, por exemplo, você tinha o Santo Agostinho,
[00:40:10] ele era um… Qual era o nome da profissão dele?
[00:40:13] Era tipo um advogado, assim.
[00:40:15] Ele era um… Só que era outro…
[00:40:17] Um orador de impostos.
[00:40:18] Não, não. Ele era um orador, se não me engano, né?
[00:40:21] Era a profissão dele.
[00:40:22] Depois ele virou bicho, né? Ele foi estudar para ser orador, né?
[00:40:26] Isso.
[00:40:27] Depois ele virou bicho.
[00:40:28] É, que era…
[00:40:30] E daí depois, na Idade Média,
[00:40:32] você tem toda a questão também da filosofia dentro da igreja e tal,
[00:40:36] e daí depois você vai ter todo o movimento iluminista e tal.
[00:40:40] Durante todo esse período,
[00:40:42] porque eu vou dizer que vai até mais ou menos o século XIX,
[00:40:45] pelo menos com o Marx fazendo todo…
[00:40:48] Eu sempre brinco com meus alunos, eu digo assim,
[00:40:49] cara, o Marx e o Engels, eles escreveram coisas, assim,
[00:40:54] que, por bem ou por mal, mudaram o rumo do mundo, né?
[00:40:58] Assim, com as ideias de comunismo, dialética material,
[00:41:02] enfim, você vai ter as noções deles sobre isso.
[00:41:05] Então, socialismo, enfim, isso mudou o mundo, querendo ou não.
[00:41:09] E a partir de então, você vai ter uma ausência desse tipo de atuação social
[00:41:14] a partir desse modelo clássico de filosofia que é pensando
[00:41:20] ou de uma maneira lógica sobre o mundo inteiro,
[00:41:23] ou de como a sociedade tem que funcionar, enfim.
[00:41:25] O que eu quero dizer é que, pelo menos a minha impressão,
[00:41:28] é que durante toda a história da filosofia,
[00:41:30] a filosofia sempre teve um papel central
[00:41:32] na questão da definição de como que a sociedade ia montar.
[00:41:35] Hoje em dia, se você é filósofo e tenta fazer um negócio disso,
[00:41:39] você tem que virar político e tem que provavelmente trabalhar
[00:41:42] dentro de uma série de regras sobre espetáculo político
[00:41:46] para que alguém te ouça e se Deus quiser, se Deus existir,
[00:41:50] você talvez vai ter…
[00:41:52] Você vai conseguir fazer aquilo que você realmente pensa,
[00:41:54] mas provavelmente o sistema nem vai permitir isso,
[00:41:56] vai ficar só no campo do discurso.
[00:41:58] Então a filosofia ficou desacreditada.
[00:42:00] Daí dizer assim…
[00:42:01] Eu até concordo contigo, Rogério,
[00:42:02] quando você vai dizer aí, ah não, mas…
[00:42:04] Então morreu um tipo de filosofia,
[00:42:06] mas que outro tipo de filosofia que existiu?
[00:42:09] Eu só vejo essa.
[00:42:11] Só se você pegar, por exemplo,
[00:42:13] o Michel Freyna contra o estado da filosofia,
[00:42:15] ele vai listar pelo menos duas dezenas de filósofos
[00:42:20] que filosofaram a parte da igreja.
[00:42:23] Quando você pega a Idade Média,
[00:42:24] quantos filósofos da Idade Média?
[00:42:26] Basicamente sobram dois anonizados,
[00:42:29] que é o Santo Agostinho e o Tomás Aquino
[00:42:31] com mil anos de diferença entre um e outro.
[00:42:33] Então é como se tivesse mil anos, digamos,
[00:42:35] da filosofia de Bernando.
[00:42:37] Que não foi o caso.
[00:42:38] Não foi o caso, é que ela está em outros lugares.
[00:42:40] E mesmo a questão, por exemplo,
[00:42:42] de uma filosofia política,
[00:42:45] você tem o Maquiavel,
[00:42:49] o príncipe que exerceu ali
[00:42:52] um certo domínio,
[00:42:55] e aí a gente pode falar de Confúcio e tal,
[00:42:57] mas a gente pega, por exemplo,
[00:42:59] a República de Platão,
[00:43:00] que nunca serviu pra nada,
[00:43:01] do ponto de vista político.
[00:43:04] Ele se propôs, digamos,
[00:43:07] um tratado político que realmente…
[00:43:09] Isso, e aí você pode pegar o Campanela,
[00:43:11] enfim, os utópicos,
[00:43:13] mostrar determinadas sociedades.
[00:43:16] Se a gente vai expandir para a literatura
[00:43:18] de Mirável Mundo Novo,
[00:43:20] de 1984,
[00:43:22] que eu acho que são mais…
[00:43:24] Mesmo a questão…
[00:43:25] Enfim, eu acho que o Marx ali
[00:43:27] é um personagem central na história,
[00:43:29] mas eu acho que Freud também é.
[00:43:31] Em certo sentido, também traz impacto.
[00:43:34] O Freud hoje é mais lido
[00:43:36] em curso de Filosofia
[00:43:37] do que em curso de Psicologia, né?
[00:43:38] Isso é algo interessante.
[00:43:40] Então, mas olha só,
[00:43:42] deixa só complementar um detalhe,
[00:43:44] porque, de fato,
[00:43:46] você tem essa questão
[00:43:48] que o Rogério Ben colocou,
[00:43:50] e que parece que a gente concorda nesse sentido,
[00:43:53] que sempre a Filosofia foi praticada
[00:43:55] em algum espaço, digamos,
[00:43:58] limitado ou, enfim, elitizado.
[00:44:00] E amplamente tensionado,
[00:44:02] é importante que se diga isso,
[00:44:03] amplamente tensionado.
[00:44:04] Sempre ocorreram muitas disputas
[00:44:07] pra ver qual é a visão que vai predominar,
[00:44:10] e hoje também não é diferente, né?
[00:44:12] Sem dúvida.
[00:44:13] E a questão é que…
[00:44:15] Isso que eu ia dizer,
[00:44:17] que embora hoje a gente veja
[00:44:19] uma certa disseminação,
[00:44:21] que sem dúvida parece…
[00:44:24] Parece, né?
[00:44:25] Que nunca antes houve,
[00:44:28] ainda se mantém uma Filosofia
[00:44:30] totalmente elitizado.
[00:44:31] Se for ver nos cursos de Filosofia mesmo,
[00:44:34] eu sempre gosto de brincar,
[00:44:36] mas o pessoal para em Hegel,
[00:44:38] e no máximo vai até Heidegger.
[00:44:39] Ou seja, não existe mais Filosofia depois disso.
[00:44:42] No sentido, quer dizer…
[00:44:45] Mas ainda assim,
[00:44:46] todos esses Filosofos eles criaram…
[00:44:49] O que eu digo, eles estavam em sintonia
[00:44:51] com um tipo de pensamento…
[00:44:53] Com um tipo de projeto
[00:44:55] que estava sendo feito na época,
[00:44:57] ou uma tentativa.
[00:44:58] Achei a questão do Ivan,
[00:45:00] então é a relação entre Filosofia e Política,
[00:45:02] é isso?
[00:45:03] Pode ser.
[00:45:04] De certa forma é.
[00:45:05] O que eu vejo é uma impotência da Filosofia
[00:45:07] em fazer qualquer coisa hoje.
[00:45:09] E culpa dos Filosofos.
[00:45:13] Qual área não é impotente hoje?
[00:45:15] Qual área do pensamento não é?
[00:45:17] Por exemplo, a Sociologia,
[00:45:19] pega a Linguagem, a Linguística,
[00:45:22] pega a Semiótica…
[00:45:23] Não, mas eu diria o contrário.
[00:45:25] Por que ela deve ser impotente?
[00:45:28] Porque eu acho que se você considerar
[00:45:30] que a Filosofia é impotente hoje,
[00:45:32] parte do pressuposto de que ela deveria ser
[00:45:34] potente no sentido que eu estou entendendo,
[00:45:36] politicamente.
[00:45:37] Não é nem isso.
[00:45:39] Eu estou dizendo que ela já foi.
[00:45:40] Ela já foi.
[00:45:42] O Marx dizia que o Filósofo
[00:45:44] tem que transformar a sociedade.
[00:45:46] Só sob essa perspectiva do Marx
[00:45:48] eu vejo uma discussão possível
[00:45:50] do Filósofo ser potente ou não.
[00:45:52] Se a gente tirar do jogo,
[00:45:55] se a gente desconsiderar esse argumento do Marx,
[00:45:58] como eu faço, por exemplo,
[00:46:00] eu falo que para mim o Filósofo
[00:46:02] não tem que transformar a porra nenhuma.
[00:46:04] Aí não faz sentido a gente discutir isso.
[00:46:08] É um tipo de Filosofia que morre.
[00:46:11] É um tipo de definição de Filosofia.
[00:46:13] Porque o Marx tem toda essa importância
[00:46:16] devido à maneira como ele é recebido no século XX.
[00:46:19] Final do XIX e século XX.
[00:46:22] No momento de vida dele,
[00:46:24] o Marx não tinha dinheiro nem para pagar as contas.
[00:46:27] Ele não estava transformando o mundo.
[00:46:29] Na verdade, ele mal conseguia gerir a casa dele.
[00:46:34] Tem essa questão muitas vezes.
[00:46:36] Tem muitas vezes essa questão de que
[00:46:40] haveria uma aura.
[00:46:42] Estou puxando bem já aqui.
[00:46:44] E que essa aura se perdeu.
[00:46:47] Essa ideia é uma ideia decadentista.
[00:46:51] Uma ideia de decadência.
[00:46:53] É uma ideia bastante velha.
[00:46:55] Que vai sendo reformulada ao longo do tempo.
[00:46:57] E que hoje sempre me causa preocupação.
[00:47:00] Porque eu ouço muito nos discursos hoje
[00:47:03] A gente perdeu isso.
[00:47:05] Morreu aqui.
[00:47:06] Se você falasse assim
[00:47:07] A Filosofia morreu. Que legal.
[00:47:09] Agora a gente pode filosofar de verdade.
[00:47:12] Pode pensar.
[00:47:14] Pode na literatura.
[00:47:18] Nesse sentido, a Filosofia também está aberta para isso.
[00:47:21] Acho que hoje a gente tem grandes filósofos, por exemplo.
[00:47:25] Que ainda conseguem
[00:47:28] gerar interesse pela Filosofia.
[00:47:30] E numa linguagem que me parece muito acessível.
[00:47:32] Acho que o que os flancienses fazem.
[00:47:34] De certo modo.
[00:47:36] Às vezes passa por vincionices.
[00:47:39] Mas por outro lado.
[00:47:42] Ele possibilita que se leia a Filosofia.
[00:47:44] Que se escuta a Filosofia.
[00:47:46] Porque todos esses grandes filósofos que foram citados.
[00:47:49] Eles só são lidos através de outros comentadores.
[00:47:52] Porque é muito difícil você conseguir, por exemplo.
[00:47:54] Mergulhar na obra do Hegel.
[00:47:57] E extrair de lá uma síntese sem ser especialista.
[00:48:01] Então essa Filosofia, na verdade.
[00:48:03] Era uma Filosofia muito restrita aos especialistas.
[00:48:06] E que eu acho, minha visão.
[00:48:08] Que não chegou nos grandes…
[00:48:11] De fato, você nunca causou um grande impacto.
[00:48:14] Nos grandes…
[00:48:18] Na grande organização da sociedade.
[00:48:21] Ela faz parte de um pensamento.
[00:48:23] Mas é um pensamento que é elitizado.
[00:48:25] E que quando tem a salvaguarda.
[00:48:28] De que a razão é a melhor coisa que existe.
[00:48:31] Ele se justifica.
[00:48:33] E eu acho que a grande questão hoje.
[00:48:36] É que tudo mais ou menos.
[00:48:39] Que se tinha como organizado.
[00:48:41] Ele se mostrou desorganizado.
[00:48:43] Então não é que a Filosofia hoje não consegue dar conta.
[00:48:45] É que a ordem.
[00:48:47] Ou a pseudo ordem que ela queria enxergar.
[00:48:49] Ou que ela queria construir.
[00:48:52] Ela de fato nunca existiu.
[00:48:55] Ela sempre foi uma ordem fictícia.
[00:48:57] Por isso que quando você fala da literatura.
[00:48:59] Eu acho que Filosofia sempre foi literatura.
[00:49:02] Agora sim, agora sim.
[00:49:07] Essa que é a questão.
[00:49:08] Se a gente começar a ver a Filosofia.
[00:49:10] Eu também já vou passar a palavra pro Daniel.
[00:49:12] Que eu imagino que ele esteja aí.
[00:49:14] Tá maluco eu vou falar.
[00:49:16] Mas é o interessante que eu acho.
[00:49:18] Que o Deleuze faz por exemplo.
[00:49:20] Que ele também é um, digamos.
[00:49:22] É difícil a gente chamar ele assim.
[00:49:24] Mas a gente pode chamar ele como um historiador da Filosofia.
[00:49:26] Porque ele tem isso no sentido de.
[00:49:28] Ele ter publicado uma série de livros.
[00:49:30] Sobre filósofos.
[00:49:32] Eu acho que ele até tem mais livros sobre filósofo.
[00:49:34] Do que livros digamos dele mesmo.
[00:49:36] Quer dizer sobre uma teoria própria dele.
[00:49:38] Eu imagino que ele tenha mais.
[00:49:40] Comentando outros filósofos.
[00:49:42] E daquele jeito que ele faz.
[00:49:44] Para comentar que enfim.
[00:49:46] Outra hora a gente fala sobre isso.
[00:49:48] Mas a questão é que ele vai definir a Filosofia.
[00:49:50] Como uma forma de arte.
[00:49:52] E não é uma nova Filosofia.
[00:49:54] Ele vai falar não a Filosofia sempre foi isso.
[00:49:56] Aquilo que ele chama de criação de conceitos.
[00:49:58] Então quando ele faz isso.
[00:50:00] Ele coloca a Filosofia.
[00:50:02] Digamos na mesma altura.
[00:50:04] Que a arte.
[00:50:06] E a literatura.
[00:50:08] O cinema.
[00:50:10] E a ciência.
[00:50:12] A mesma baixura.
[00:50:14] A mesma baixura.
[00:50:16] A ideia é que a Filosofia fosse superior.
[00:50:18] Você encontra isso nos manuais.
[00:50:20] Se você pegar a Marina Chauí.
[00:50:22] A Filosofia ela é.
[00:50:24] Dentre as formas de pensamento.
[00:50:26] Superior.
[00:50:28] Porque ela teria justamente essa condição.
[00:50:30] De criar uma teoria geral.
[00:50:32] E eu acho legal que o Daneze faz no sentido contrário.
[00:50:34] Não é mais uma forma.
[00:50:36] De elaborar uma visão de mundo.
[00:50:38] É exatamente.
[00:50:40] Essa visão que a Marina coloca.
[00:50:42] Ela coloca isso no livro introdutório.
[00:50:44] Da Filosofia.
[00:50:46] É uma visão predominante de fato.
[00:50:48] Entre os filósofos e tal.
[00:50:50] A Filosofia tem um certo dever.
[00:50:56] De guiar.
[00:50:58] Ou fornecer as coordenadas.
[00:51:00] Uma vez que ela é a forma mais nobre de pensamento.
[00:51:02] Ou uma forma de você encontrar.
[00:51:04] A iluminação espiritual.
[00:51:06] E se esclarecer.
[00:51:08] Perante todas as outras formas de você obter conhecimento.
[00:51:12] Como a arte.
[00:51:14] A Filosofia é a mais nobre.
[00:51:16] A mais difícil.
[00:51:18] Também iluminada.
[00:51:20] A forma de você obter conhecimento.
[00:51:22] E portanto.
[00:51:24] Se você é filósofo.
[00:51:26] Você tem acesso a isso.
[00:51:28] Você tem certo dever perante a sociedade.
[00:51:30] Um dever ético.
[00:51:32] De ir transformar.
[00:51:34] O Daneze vai totalmente contra isso.
[00:51:36] Porque a Filosofia é que nem um artista.
[00:51:38] Não tem dever nenhum.
[00:51:40] Não tem nenhuma responsabilidade.
[00:51:42] De transformar a sociedade.
[00:51:44] Só tem uma responsabilidade.
[00:51:46] Não tem nenhuma responsabilidade.
[00:51:48] Porque isso pode até parecer uma coisa meio Sartreana.
[00:51:50] Mas que é uma certa necessidade.
[00:51:52] De você expressar o mundo.
[00:51:54] Para simplesmente se encontrar nele.
[00:51:56] Se situar nele.
[00:51:58] Só que ele está falando isso quando ele já é o Deleuze.
[00:52:00] Então tem isso.
[00:52:02] Ele não é por exemplo o Ivan e o Beccari.
[00:52:04] Estando fazendo seu doutorado.
[00:52:06] Sem dúvida.
[00:52:08] Só que é que está esse argumento.
[00:52:10] Daí é a mesma coisa do Foucault.
[00:52:12] Pelo menos no Foucault inicial.
[00:52:14] Ou seja, ele tem certa razão nisso.
[00:52:16] Eu acho até que nesse sentido eu posso passar a palavra para o Daniel.
[00:52:18] Que estuda bastante o Foucault.
[00:52:22] Para dizer o que é essas questões do poder.
[00:52:24] Até que ponto.
[00:52:26] Digamos essa.
[00:52:28] Relação de dominação de poder.
[00:52:30] Ela de fato.
[00:52:32] Acaba influenciando.
[00:52:34] O desenvolvimento da Filosofia.
[00:52:44] Na verdade eu estudo um pouco de Foucault.
[00:52:46] Quem realmente estuda Foucault…
[00:52:48] A doidada me orientador.
[00:52:50] O Paulo Weiss.
[00:52:52] Ele é um foteon.
[00:52:54] Mas é…
[00:52:56] Antes de falar sobre isso, só para comentar o ponto anterior.
[00:52:58] Outra questão…
[00:53:00] Como que a Filosofia iria…
[00:53:02] Mudar o mundo.
[00:53:04] De cara ao mundo HIMA.
[00:53:06] O carriers e os animais.
[00:53:08] Essas questões de como que a filosofia iria mudar o mundo ou não, eu acho que quando
[00:53:17] ela surgiu com o Patão, a filosofia está muito mais próxima do que a gente hoje entende
[00:53:24] como uma religião ou alguma coisa assim, porque a ideia é que você vai realmente
[00:53:29] atingir com os olhos da alma, virando o sol para o plano das ideias, você vai ter
[00:53:34] uma impulsão das ideias, você vai interagir diretamente com essas ideias que existem
[00:53:39] nelas mesmas, né, são essência, é um mundo lá próprio, então a ideia de teoria é
[00:53:45] meio olhar o divino, uma coisa assim, olhar o plano superior, certo distanciamento, então
[00:53:51] o objetivo, digamos assim, da filosofia é sair desse mundo, é conseguir uma elevação
[00:53:57] espiritual.
[00:53:59] Essa ideia de que a filosofia iria alterar a sociedade como estava parecendo antes, acho
[00:54:06] que é algo que só vai ter algum sentido quando você tem uma valorização desse
[00:54:10] mundo, né, isso é uma coisa moderna, digamos, o que vai acontecer mais recentemente, aí
[00:54:16] você pode pensar então, é uma mudança radical já, então antes disso, acho que
[00:54:21] a filosofia sem dúvidas não tinha essa pretensão, não é o objetivo dela, e
[00:54:26] aí realmente você vai ter essa, aí vai começar esse monte de debate que alguns vão
[00:54:30] tentar criar, me parece, teorias que já são mais voltadas para uma ação, e aí
[00:54:36] outros vão pensar a filosofia como uma esfera mais autônoma de reflexão, mas só para
[00:54:42] colocar, jogar essa ideia de que isso só começa a aparecer como um problema
[00:54:49] depois que a gente tem essa noção de que a gente tem que alterar esse mundo,
[00:54:53] né, porque antes a ideia é você vai chegar e vai ter uma vida ferra no outro mundo,
[00:54:57] mas esse mundo não importa, né, antes do modernismo, justamente a filosofia
[00:55:02] estava voltada para outro mundo, aí com o modernismo, principalmente, na verdade,
[00:55:05] não diria modernismo e tal, mas principalmente a partir dessa virada
[00:55:09] linguística, na realidade, você tem essa, os olhos voltados principalmente com
[00:55:13] Marx, que é, digamos, um nome canônico, que vai falar, não, o filósofo tem
[00:55:17] que parar de olhar para outro mundo, olhar para si mesmo e olhar para a
[00:55:21] própria sociedade, ele tem que olhar para, sabe, essa é a responsabilidade dele.
[00:55:27] Só para provocar um pouquinho, o Alberto Caeiro, né, se a gente for tomá-lo como
[00:55:31] um filósofo ou um filósofo vitalista, ele diz que o mundo não foi feito para
[00:55:37] pensarmos nele, mas para olharmos e estarmos de acordo, né, eu acho
[00:55:41] interessante essa ideia de pensar, por exemplo, uma filosofia, como você
[00:55:45] mesmo falou, Beccari, que não precisa pensar na transformação do mundo, na
[00:55:49] verdade, eu acho que a grande dificuldade é pensar numa filosofia que
[00:55:55] aprove o mundo, né, para mim, sim, é uma novidade, ao mesmo tempo, é algo
[00:56:00] tão antigo, né, que é, enfim, a filosofia trágica que está na base do
[00:56:03] pensamento nitiano, mas que o Nietzsche vai recuperar isso de uma
[00:56:10] fonte de pensamento pré-platônica, pré-socrática, enfim, pré-filosófica,
[00:56:19] vamos dizer assim, e aí é muito interessante observar que no século
[00:56:22] vinte você vai ter o Alberto Caeiro com essa mesma ideia, né, o mundo foi
[00:56:25] feito para olharmos e estarmos de acordo, não para necessariamente
[00:56:29] transformar, porque essa ideia de transformação, para mim, esconde a
[00:56:32] ideia de poder, e aí volta para aquela questão que já estava desde a fonte
[00:56:37] de Platão, assim, por que é na República do Platão os filósofos
[00:56:40] que são os reis, né?
[00:56:42] Não, com poder, além do que você transfere o mundo ideal que antes era
[00:56:46] no céu, você simplesmente transfere para a terra, mas é a mesma coisa,
[00:56:49] basicamente, você quer dizer, vamos fazer uma revolução aqui.
[00:56:52] Exatamente, você idealiza, da mesma forma que se idealizava o mundo,
[00:56:59] sei lá, outro mundo, ou além, você idealiza o mundo daqui, o difícil mesmo,
[00:57:04] isso que o Rogério está colocando, é a gente, ao invés de idealizar
[00:57:07] o mundo aqui, é aprovar ele, né?
[00:57:09] Isso é complicado, porque…
[00:57:11] Mas calma, como é que a gente vai aprovar um mundo que está com
[00:57:14] problemas sérios, por exemplo?
[00:57:16] Então, mas isso que eu ia falar, sobre a ótica, sei lá, marxista,
[00:57:22] mas de várias outras também, essa questão de aprová-la se confunde
[00:57:25] com resignação, e de fato, é muito difícil a gente começar a…
[00:57:30] Isso daí seria um programa sobre filosofia trágica, que não é resignação.
[00:57:34] Sim, mas veja, aqui olha só, gente, exatamente, existe essa questão de você
[00:57:39] confundir resignação com aceitação.
[00:57:43] Com aprovação.
[00:57:44] Com aprovação, ou em que seja, tá?
[00:57:46] A questão só que quando você vai trabalhar isso de maneira acadêmica,
[00:57:52] ou na atual configuração social que nós temos,
[00:57:56] você dizer simplesmente coisas do tipo, merda acontece,
[00:57:59] e a gente tem que saber lidar com isso, que eu acho que na literatura,
[00:58:03] por exemplo, isso tem um espaço fantástico para acontecer,
[00:58:06] não à toa dos toievis que são caras incontestáveis, assim.
[00:58:12] Mas espera aí, também na literatura não é bem assim, né?
[00:58:14] Se você for ver academicamente, sei lá, os programas de pós-graduação,
[00:58:18] em letras e tudo mais, em estudos literários,
[00:58:22] existem cânons que acabam de fato sufocando.
[00:58:27] Por exemplo, sabe…
[00:58:28] A literatura é mais morta do que a filosofia.
[00:58:30] É, porque, sabe, você vai ver lá o pessoal, você tem duas vertentes,
[00:58:34] já me falaram lá na literatura, ou você é joeciano ou proustiano.
[00:58:39] Porra, se você quer estudar, sei lá, a Cáfrica, você se fodeu, entendeu?
[00:58:45] Ah, mas quer ver, por exemplo…
[00:58:46] Você vai para outro lugar.
[00:58:47] Agora vou falar de coisas bem práticas, tá?
[00:58:49] Se eu quiser escrever um livro de literatura, uma novelinha, assim, tá?
[00:58:54] Em que o meu personagem é um filho da puta,
[00:58:56] assim, ele é o cara que diz assim,
[00:58:59] ah, eu vou morrer mesmo, então dane-se.
[00:59:01] Alguma coisa tipo meio Lourenço Mutarelia, assim, sabe?
[00:59:04] Que tipo, taca o fodo, assim mesmo, e o que é legal,
[00:59:07] ou o Clube da Luta, pronto, Clube da Luta.
[00:59:09] É, o Palaniuque.
[00:59:10] É, o Palaniuque, que é um do cara, é do caralho, assim.
[00:59:13] Eu revi o Clube da Luta esses dias, assim, um filme, e disse,
[00:59:16] cara, isso aqui é genial, assim.
[00:59:17] Eu gosto, cara, academicamente o Palaniuque é lixo.
[00:59:20] É o que eu tô…
[00:59:21] Não, mas é aí que tá, eu não tô mais falando de academia,
[00:59:24] o que eu tô querendo dizer que o Palaniuque, por exemplo,
[00:59:26] é um cara que conseguiu ir para Hollywood,
[00:59:29] colocou, com toda a filosofia maluca dele,
[00:59:31] ele conseguiu ir para Hollywood, fez um puta filme,
[00:59:35] tem um monte de gente que adora esse filme,
[00:59:37] mesmo não concordando com muitas ideias,
[00:59:39] às vezes os caras até tatuam um coisa do Clube da Luta no braço,
[00:59:42] e daí depois ficam falando que, sei lá, é contra rolezinho,
[00:59:45] ou qualquer coisa do tipo, assim,
[00:59:47] o que é um contrassenso gigantesco, mas tudo bem,
[00:59:50] e daí, assim,
[00:59:52] mas pelo menos o Palaniuque, ele consegue, por exemplo,
[00:59:54] criar um próprio espaço, que é,
[00:59:56] no caso de um monte de autores que a gente conhece,
[00:59:58] ser ouvido ou ser lido por auto-publicação.
[01:00:02] O cara que diz assim, eu sou filósofo de formação pessoal,
[01:00:06] e ele publica um livro,
[01:00:08] esse cara, esse cara, ele é o lixo do lixo
[01:00:11] que tá na bota do sapato de alguém, assim, sabe, então…
[01:00:14] Depende, se ele conseguir um sucesso como o do Palaniuque,
[01:00:17] por exemplo, ele faz caminho, faz carreira,
[01:00:20] você tem aí, sei lá, a Lander Botham, na França,
[01:00:23] você tem uma linha, uma leva,
[01:00:25] assim, que seria, digamos, de picaretas,
[01:00:27] e que você assina como filme só,
[01:00:30] mas é verdade, mas é verdade,
[01:00:32] tem muitos que, enfim,
[01:00:35] fazem ali um tipo de filosofia aplicada
[01:00:40] a determinadas, enfim, finalidades e finalidades,
[01:00:44] aí ele consegue público, por isso que é complicado medir
[01:00:47] o valor de qualquer questão pelo público que se tem,
[01:00:51] porque a questão assim,
[01:00:52] a academia, ela vai valorizar,
[01:00:55] ela vai valorizar dentro do jogo ali,
[01:00:58] digamos, que faz parte da academia,
[01:01:00] agora, dentro da academia você vai ter os filtros de diferenciação,
[01:01:05] é que nem, sei lá, na política,
[01:01:07] o sujeito tem um cargo, ele tem o nome escrito na história,
[01:01:10] ele vai fazer parte… agora, ele vai ser diferenciado,
[01:01:14] foi um bom governador, sei lá, o Collor,
[01:01:16] Fernando Collor de Mera tá lá,
[01:01:17] nos anais dos livros de história com o presidente do Brasil,
[01:01:20] agora, a gente não vai deixar de avaliar,
[01:01:23] então, eu acho, por exemplo,
[01:01:24] que nunca foi tão simples escrever um livro de filosofia,
[01:01:28] agora, a questão é conseguir fazer com que o seu nome seja algum nome,
[01:01:36] ele hoje é extremamente difícil,
[01:01:39] porque os sistemas classificatórios ruíram,
[01:01:42] então, é o que o Beccari falou,
[01:01:45] ah, o Palanil que ele não é nada na literatura,
[01:01:50] oficialmente falando não é nada,
[01:01:51] agora, o Hollywood se interessa por histórias
[01:01:55] e levou a história dele pra tela,
[01:01:57] eu gosto muito do filme,
[01:01:59] e a gente pode até dizer que tem uma filosofia lá,
[01:02:00] mas qual é a filosofia que tá na base do Clube da Luta, por exemplo?
[01:02:06] Ah, filosofia da negação do mundo tal como é,
[01:02:10] então, o sujeito, no final das contas,
[01:02:12] ele só consegue, enfim, imaginar o próprio suicídio,
[01:02:20] porque quando você propõe pra ele, então, um mundo diferente,
[01:02:23] você pergunta pra ele qual é o mundo diferente que ele propõe,
[01:02:26] porque não existe nenhum, entendeu?
[01:02:28] Então, assim, é um tipo de ideia que é uma ideia totalmente nilista,
[01:02:34] que é uma ideia de desaprovação total da própria existência,
[01:02:39] não é à toa que o sujeito obtém prazer chorando
[01:02:43] nos encontros de pessoas com estado terminal de câncer,
[01:02:49] não é à toa que, por exemplo, ele quer destruir o mundo inteiro,
[01:02:52] mas você pergunta pra ele, assim,
[01:02:53] legal, mas o que a gente vai colocar no lugar, né?
[01:02:56] Qual é o mundo que você quer, um empire ou um silêncio absoluto?
[01:03:00] Não, eu diria até que essa questão da desaprovação na filosofia,
[01:03:04] você tem lá o Clément Rosset que ele vai colocar justamente essa divisão,
[01:03:08] os que negam e os que afirmam,
[01:03:10] mas e que justamente foi predominante na história oficial da filosofia
[01:03:16] a negação justamente do mundo,
[01:03:19] seja por diversas modalidades você nega esse mundo.
[01:03:23] Eu acho que só pela aprovação, coisa que o Deleuze faz,
[01:03:26] porque quando o Deleuze ele, digamos, rebaixa a filosofia,
[01:03:29] rebaixa em certo sentido, né?
[01:03:31] Mas a criação de conceitos, ou seja, a pessoa que faz filosofia,
[01:03:35] ela não tá refletindo nada, ela não tá querendo mudar nada,
[01:03:38] ela só tá se expressando, tá certo?
[01:03:41] É como se a pessoa tivesse, ao invés de pintar um quadro,
[01:03:44] ela escreve filosofia, porque sei lá,
[01:03:48] porque é a opção dela,
[01:03:49] ou porque ela consegue se expressar melhor dessa forma,
[01:03:51] é assim que ele coloca a filosofia.
[01:03:53] Vamos assim, vocês são da área de educação,
[01:03:56] então eu quero colocar aqui uma situação hipotética,
[01:03:58] vamos dizer assim que o Nietzsche,
[01:04:00] pra ser um cara que todo mundo conhece, tá?
[01:04:02] Não vou falar do Rosset, mas o Nietzsche, tá bom?
[01:04:05] O Nietzsche, ele existe hoje, ou um cara que é, sei lá,
[01:04:09] é o Nietzsche, assim, as ideias dele estão ali e tal.
[01:04:12] Por alguma cagada do destino,
[01:04:13] esse cara virou ministro de educação no Brasil.
[01:04:16] O que que…
[01:04:17] Porque assim, eu quero que vocês agora expliquem,
[01:04:20] pelo menos para muita gente,
[01:04:21] eu tenho muita dúvida em relação a isso,
[01:04:23] qual que vai, porque muita gente vai dizer que o Nietzsche,
[01:04:26] como um trágico, ele vai ser,
[01:04:29] em certos momentos ele vai ser afirmativo,
[01:04:31] em outros momentos ele vai ser niilista,
[01:04:33] em outros momentos,
[01:04:36] muita gente vai achar que ele seria resignativo
[01:04:38] em questões sociais sérias.
[01:04:40] Então eu quero dizer o seguinte,
[01:04:42] eu quero que vocês agora me expliquem,
[01:04:43] qual que seria uma atitude do Nietzsche
[01:04:46] como ministro de educação no Brasil, assim.
[01:04:48] Só pra gente, eu quero agora entender,
[01:04:51] como é que um filósofo desse tipo
[01:04:52] pode ajudar em algum problema desse tipo.
[01:04:55] Eu falaria de nada.
[01:04:57] Mas é, é absolutamente incapaz,
[01:04:59] ele não conseguiu nem contestar a Luz Salomé.
[01:05:03] Era um bulherafa.
[01:05:04] Mas aí que tá, a questão é por que que ele deveria?
[01:05:07] Sim.
[01:05:08] Sabe, por que que ele deveria,
[01:05:10] sei lá, conversar com o ministro,
[01:05:12] eu não sei das quantas, sabe?
[01:05:13] Com o ministro ele faria a mesma coisa
[01:05:15] que qualquer outro faz.
[01:05:16] A grande questão aí, Ivan,
[01:05:18] é que quando você separa, por exemplo,
[01:05:20] um mundo prático como uma possibilidade de ação,
[01:05:24] a filosofia nitiana, de certo modo,
[01:05:25] vai dizer que não existe ação.
[01:05:29] É por isso que, por exemplo,
[01:05:30] o mundo não é transformável.
[01:05:33] Porque não existe verdadeiramente
[01:05:37] um acontecimento como uma ação concreta
[01:05:40] que eu possa tomar,
[01:05:43] capaz de modificar a própria natureza do mundo,
[01:05:46] vamos dizer assim.
[01:05:47] Então o que você teria?
[01:05:48] Você teria uma ordem qualquer,
[01:05:50] enfim, a que nós temos hoje, por exemplo,
[01:05:53] que seria fruto de encontros, tensões,
[01:05:56] enfim, fruto do acaso,
[01:05:58] que você tenta mais ou menos controlar,
[01:06:01] mas efetivamente provocar uma transformação.
[01:06:04] Então por isso que os discursos hoje,
[01:06:06] na maior parte das vezes, eu acho que são discursos
[01:06:09] como o Beccari falou,
[01:06:11] são bonitinhos, são ficcionais, por exemplo.
[01:06:14] O homem está destruindo a natureza.
[01:06:16] Bobagem.
[01:06:17] Bobagem total.
[01:06:18] Ele está mudando o mundo.
[01:06:20] Bobagem total.
[01:06:22] O grande impacto que nós temos
[01:06:24] é um impacto muito minúsculo
[01:06:26] nos espaços que nós habitamos.
[01:06:28] Se você considerar que a gente tivesse,
[01:06:30] de fato, um poder destrutivo,
[01:06:32] a única destruição que nós causaríamos
[01:06:34] seria a nós mesmos.
[01:06:36] Daqui a um milhão de anos,
[01:06:38] que não é nada para a história da geologia,
[01:06:42] a Terra estaria do mesmo jeito de sempre,
[01:06:45] quer dizer, passando pelas transformações
[01:06:47] para as quais sempre passou.
[01:06:49] A ideia de que, por exemplo,
[01:06:50] nós podemos tomar uma ação e socialmente
[01:06:53] criar uma sociedade igualitária,
[01:06:56] isso é uma grande bobagem,
[01:06:57] isso nunca existiu em nenhum momento da história.
[01:07:00] Porque se o homem fosse, de fato,
[01:07:03] capaz de tal proeza,
[01:07:06] ele já teria feito,
[01:07:07] ou na verdade ele não teria nem sobrevivido.
[01:07:09] Porque me parece que o Meander Tal,
[01:07:12] que conviveu com a espécie do Homo sapiens,
[01:07:14] era um sujeito muito mais pacífico.
[01:07:17] Então, assim, aquilo que nós mais odiamos
[01:07:21] na espécie humana, de alguma maneira,
[01:07:23] é o que nos caracteriza,
[01:07:24] é o que nós somos.
[01:07:25] É a própria humana.
[01:07:26] É, por isso que a gente, por exemplo,
[01:07:28] gerar uma revolta contra X, Y, Z,
[01:07:32] legal, é levada dentro de determinados contextos.
[01:07:35] Mas, filosóficamente falando,
[01:07:37] a gente ainda estaria, digamos,
[01:07:39] acreditando numa possibilidade de ação
[01:07:42] que seria salvadora.
[01:07:45] Daí é que a religião encontra,
[01:07:47] daí é que o filosófico encontra a religião.
[01:07:48] Deixa eu assumir, então, o papel do ouvinte
[01:07:52] que está revoltado, que você acabou de falar.
[01:07:54] Só complementar, só complementar antes.
[01:07:56] E aí aquela questão do poder
[01:07:58] que o Marco Divis levantou antes,
[01:07:59] entra aí também.
[01:08:00] Porque a questão toda é que,
[01:08:02] se você supuser um mundo ideal,
[01:08:04] a ideia é que acabou as sensções de poder.
[01:08:06] E por nito isso é impossível,
[01:08:07] já que a vida é a vontade de poder.
[01:08:09] Então a questão é só como que você aloca.
[01:08:11] Se você faz a Revolução Francesa,
[01:08:13] Beleza, muda o poder, muda a mão de quem está no poder.
[01:08:17] Muda quem está no poder.
[01:08:19] Mas continua sendo a mesma tensão.
[01:08:20] É uma questão que, por todo,
[01:08:22] por uma questão de suposta redenção,
[01:08:23] é relevante.
[01:08:24] Você só muda o local do poder.
[01:08:27] Só muda as tensões do poder.
[01:08:29] Não tem como mudar isso.
[01:08:31] Se você quiser fazer a sociedade bonitinha,
[01:08:33] vai ter que ter, no máximo,
[01:08:35] um corpo grotesco que mata todo mundo que se revoltar.
[01:08:39] Então, é assim.
[01:08:40] Eu acho que o interessante é que isso está na Bíblia,
[01:08:42] está no Antigo Testamento,
[01:08:43] ou seja, está num dispositivo de…
[01:08:47] Alguns poderiam dizer de educação, entendeu?
[01:08:50] Em Eclesiastes, vai falar assim,
[01:08:53] não, todos estão debaixo do mesmo sol
[01:08:56] e a Terra permanecerá para sempre, tá certo?
[01:08:59] Tá, mas eu quero assumir o papel do do ouro,
[01:09:02] vim te falar, puto.
[01:09:03] Eu quero perguntar assim,
[01:09:05] então o que o filósofo tem que fazer com problemas sociais
[01:09:08] ou tipo saneamento básico, educação,
[01:09:11] problemas de, sei lá, mulheres apanhando de maridos bêbados,
[01:09:15] enfim, é o mesmo que todo mundo faz, ele plefa, né?
[01:09:20] Isso expressa.
[01:09:21] Isso é a vida, isso é a vida.
[01:09:23] Mas assim, não existe, então assim,
[01:09:25] a gente não pode pensar num mundo melhor,
[01:09:28] já que está tudo, já que assim daqui a um milhão de anos
[01:09:30] vai estar tudo igual,
[01:09:32] a gente não pode pensar num mundo melhor, isso ou é isso?
[01:09:35] Não, eu acho que pode, assim, perfeitamente,
[01:09:37] assim como você pode, sabe, se distrair.
[01:09:41] E começar a se divertir com os amigos, você sabe, pode pensar.
[01:09:44] A grande questão é querer salvar o mundo, tá entendendo?
[01:09:47] Tipo assim, o filósofo, pra mim, ele se expressa.
[01:09:49] Ele vai se expressar, sei lá, em relação ao feminismo,
[01:09:52] vai se expressar em relação ao gênero,
[01:09:54] em relação a uma série de problemas sociais,
[01:09:57] porque é o meio em que ele está,
[01:09:58] e se expressar em relação a esse meio
[01:10:01] é uma forma de também habitá-lo
[01:10:03] e também se situar nesse meio.
[01:10:06] Só que querer salvar esse meio,
[01:10:09] se colocar num lugar que estaria acima do próprio meio, entende?
[01:10:16] E esse acima do próprio meio que é o problema.
[01:10:19] Tem que partir de algum lugar, caralho.
[01:10:21] Aliás, rapidinho, a questão é a seguinte só,
[01:10:25] não é que você não possa fazer nada,
[01:10:26] pelo menos na minha leitura, a ideia iniciando não é de modo algum
[01:10:29] querer que você faça, então não vou fazer porra nenhuma, foda-se.
[01:10:33] Você vai fazer alguma coisa, vai ter um ideal que seja,
[01:10:36] mas você vai saber que é apenas você querendo chegar naquele lugar,
[01:10:40] não é uma salvação do mundo.
[01:10:42] Saber disso faz toda a diferença.
[01:10:44] Com você, uma ideia sua.
[01:10:46] Respondendo ao Ivan,
[01:10:50] óbvio, você não tem saneamento básico,
[01:10:52] digamos, você não tem esgoto numa região,
[01:10:54] você coloca esgoto lá, ótimo,
[01:10:56] isso melhorou a condição daquelas pessoas que viviam lá
[01:10:59] e eu sou favorável.
[01:11:00] Agora, essa questão do poder, por exemplo, é uma chave.
[01:11:04] Você tem os 85 homens mais ricos do mundo,
[01:11:08] a gente está falando não de estados, a gente está falando de pessoas físicas,
[01:11:12] que representam ali pessoas jurídicas, mas enfim,
[01:11:16] os 85 homens mais ricos do mundo,
[01:11:21] homens e mulheres mais ricos do mundo,
[01:11:23] possui de concentração de riqueza
[01:11:27] o equivalente a 50% da população mais pobre.
[01:11:32] Agora, a questão é a seguinte,
[01:11:33] como é que eu consigo, por exemplo,
[01:11:36] resolver o problema?
[01:11:37] É muito simples, você pega essa metade da população,
[01:11:39] que dá mais ou menos 3 bilhões,
[01:11:42] e pega esses 85, entendeu?
[01:11:44] E toma tudo o que é deles.
[01:11:47] Aí você teria, digamos assim,
[01:11:49] todo mundo pobre, mas ninguém, sabe,
[01:11:52] com uma riqueza vexaminosa dessa.
[01:11:54] Mas é óbvio que esses 85 homens são os 85 homens mais poderosos do mundo.
[01:11:58] Existe ali toda,
[01:11:59] já revista que diz quem são as pessoas mais poderosas,
[01:12:02] existem sistemas que elencam isso,
[01:12:05] existem as listas de convidados das festas,
[01:12:07] aí tem uns VIPs e por aí vai.
[01:12:10] Me parece que, como o Daniel colocou,
[01:12:12] essa questão do poder,
[01:12:14] ela é tão forte, tão arraigada,
[01:12:16] que quando você diz pra mim,
[01:12:18] ah, mas a gente não pode fazer um mundo melhor,
[01:12:20] eu perguntaria assim, melhor pra quem?
[01:12:22] É, exatamente.
[01:12:23] Ah, pra quem?
[01:12:24] Porque quando eu digo assim, o melhor mundo pra mim,
[01:12:28] muito provavelmente ele vai entrar em choque
[01:12:31] como talvez o melhor mundo pra 3 milhões de pessoas, não sei.
[01:12:36] Então essas questões são muito complicadas
[01:12:39] porque elas pressupõem que alguém detém o poder
[01:12:41] e que, portanto, ela pode tomar uma ação
[01:12:45] que vai, digamos, desencadear
[01:12:48] a possibilidade, como o Beccardi falou, de salvação do mundo, por exemplo.
[01:12:51] Não, óbvio.
[01:12:52] Se eu puder dar uma cachaça pro cara que está jogando na rua lá,
[01:12:57] que está sedento de cachaça,
[01:12:58] se eu der uma cachaça pra ele, eu resolvi o problema dele naquele momento.
[01:13:01] Se eu estou precisando, digamos,
[01:13:02] desabafados nos problemas e alguém vai lá e gentilmente me ouve
[01:13:07] e me dá um apoio, eu me sinto melhor,
[01:13:09] claro que esse melhor ninguém nega, sabe?
[01:13:12] Se você tem um salário X e consegue ganhar dois X,
[01:13:14] pô, que legal, isso é melhor.
[01:13:16] Mas esse melhor é sempre um melhor circunstancial
[01:13:19] que estaria, digamos, previsto no lance de dados,
[01:13:21] que é o próprio arranjo que o acaso, né, feito ao acaso.
[01:13:26] A possibilidade, por exemplo, de fazer o ser humano melhor, pra mim,
[01:13:31] é algo que está fora de questão.
[01:13:33] Acho que filosoficamente isso não é possível,
[01:13:35] talvez biologicamente, tecnologicamente,
[01:13:39] implementando chips, coisas do gênero.
[01:13:41] Mas sempre vai ter um parâmetro do que é melhor.
[01:13:43] E gente, vamos pro encerramento, ou seja,
[01:13:46] eu quero que cada um fale, digamos, sua palavra final, né,
[01:13:50] pra gente resolver esse problema da humanidade, todas por todas.
[01:13:55] E só pra finalizar essa questão,
[01:13:59] existe um ponto que eu concordaria com o Ivan, se é que eu estou entendendo,
[01:14:03] que é assim, a filosofia é tão inútil pra fazer questões úteis
[01:14:08] e bem localizadas, sei lá, saneamento básico.
[01:14:11] A gente está precisando aqui de saneamento básico,
[01:14:13] precisa, sei lá, levantar o muro aqui, sabe, precisa.
[01:14:18] A filosofia nesse sentido, pra eu levantar o muro aqui de casa,
[01:14:20] ela é tão inútil quanto a literatura ou quanto o cinema.
[01:14:23] É isso.
[01:14:24] Sabe, ela é inútil, sabe, pra eu levantar o muro.
[01:14:27] Isso não, sabe, invalida ela.
[01:14:30] Tipo, eu preciso levantar esse muro pra, inclusive,
[01:14:32] eu assistir melhor o meu filme ou ler melhor o meu livro, tá ligado?
[01:14:37] Só que isso, sabe, não são coisas que se excluem.
[01:14:39] Mas enfim, vamos então pras opiniões finais aí.
[01:14:44] Pode ainda até rebater o que acabei de dizer.
[01:14:53] Daniel, manda ver o que você acha a respeito disso
[01:14:56] e qual que é o seu diagnóstico, sei lá, supremo.
[01:15:01] Não, pra finalizar, eu só queria um diagnóstico em relação a esse,
[01:15:05] essa última discussão que é o Ivan perguntando, né,
[01:15:08] então não vai fazer nada e a gente meio que respondendo,
[01:15:11] ah, mas você quer o que redimir o mundo, né, que haja uma redenção.
[01:15:17] E acho que a questão aí que pode aparecer problemática
[01:15:20] é que, assim, então o que você está dizendo,
[01:15:22] talvez seja o Ivan no papel do ouvinte revoltado e dizendo
[01:15:27] então você não vai fazer nada, né, então foda-se.
[01:15:30] Mas acho que é importante frisar que você dizer que não tem uma redenção,
[01:15:35] que não tem como, ah, vou criar o mundo ideal,
[01:15:37] isso não quer dizer que você não vá fazer nada.
[01:15:39] Assim, você pode ter, eu tô lendo atualmente muito,
[01:15:42] o Jotterdijk, que é um falemão que é um leitor de elite,
[01:15:45] assim, muitas vezes, e aí um livro dele
[01:15:52] que se chama You Must Change Your Life,
[01:15:55] você tem que mudar a sua vida, aproveita esse título,
[01:15:59] ele pensa como é esse espaço vertical aberto agora, né,
[01:16:02] se você não tem mais esse ideal, o mundo ideal que você quer chegar,
[01:16:06] como que você pode pensar em ir para algum lugar?
[01:16:11] E é isso, então essa é uma questão realmente difícil de lidar.
[01:16:15] Obviamente não dá para falar agora em um segundo,
[01:16:17] mas o ponto é, você pode pensar, sim, em espaços verticais,
[01:16:21] ou seja, não é que você quer ficar parado,
[01:16:23] você quer ir para algum lugar, a única questão é fazer coisas,
[01:16:26] pensar em coisas que você acha melhor, mas o ponto é,
[01:16:29] você sabe que você não vai chegar no mundo ideal,
[01:16:31] você não quer negar esse mundo em prol de um ideal,
[01:16:33] esse que é o ponto, eu acho que é o principal.
[01:16:35] São outras formas de pensar o que é bom e o que é ruim.
[01:16:39] A filosofia morreu ou não?
[01:16:40] Não. Ela tá em coma.
[01:16:46] Estava vejofatil.
[01:16:48] Tá certo, e Ivan?
[01:16:50] Eu concordo com o que o Daniel falou,
[01:16:54] concordo com tudo que vocês falaram,
[01:16:55] eu só queria realmente assumir o papel do cara que tá puto.
[01:17:00] É jogado do diabo.
[01:17:02] Mas ainda assim, de qualquer forma, eu acho que a filosofia,
[01:17:06] se eu for falar simplesmente numa questão de abrangência
[01:17:10] ou do que a filosofia se propõe,
[01:17:14] como mesmo dos próprios discursos dos filósofos,
[01:17:16] e não é só filósofo esse problema,
[01:17:18] tô falando também de acadêmicos de design,
[01:17:20] acadêmicos de sociologia,
[01:17:22] todo mundo da ciência humana,
[01:17:24] acho que ciência humana como um geral,
[01:17:25] tá em grande crise nesse sentido,
[01:17:27] porque ela fala muito sobre a sociedade,
[01:17:29] mas não consegue quebrar a parede da academia nesse sentido.
[01:17:32] E querendo ou não, eu acho que sim,
[01:17:35] a tal indústria cultural é mais efetiva nesse sentido,
[01:17:38] seja através do cinema, da música ou da literatura.
[01:17:42] Eu acho que esses temas, por exemplo,
[01:17:44] que estão sendo debatidos em algumas músicas,
[01:17:46] em alguns filmes, em alguns livros,
[01:17:49] acabam sendo mais relevantes para o indivíduo
[01:17:53] que está vivendo na sociedade fora da academia,
[01:17:56] quando a academia fica olhando muito para ela
[01:17:58] e não entra em contato.
[01:18:01] Existe uma saída soberba de que
[01:18:05] não vale a pena entrar nesse meio
[01:18:07] ou quando entra de uma maneira muito estranha.
[01:18:09] Então eu falo como relato pessoal mesmo,
[01:18:14] eu tentei me aproximar do campo filosófico acadêmico,
[01:18:20] não gostei da experiência
[01:18:22] e quando me aproximei mais do meio literário,
[01:18:25] eu me senti mais realizado,
[01:18:28] até porque eu tinha mais liberdade para escrever.
[01:18:31] Em vez de ficar escrevendo,
[01:18:32] não tinha um filho da puta dizendo
[01:18:34] não, você não entendeu o cara direito.
[01:18:37] Simplesmente eu conseguia montar um personagem dentro,
[01:18:39] e eu gosto da ideia de que filosofia é ficção,
[01:18:42] eu gosto das ideias,
[01:18:43] dessas ficções são montadas,
[01:18:45] eu acho que essa criação desse espaço
[01:18:47] e eu acho que na literatura nós temos mais espaço para isso.
[01:18:49] Essa sua inserção na literatura não foi acadêmica também.
[01:18:52] Não, não foi acadêmica, é isso.
[01:18:54] Eu tentei na academia e também não deu certo,
[01:18:55] mas daí é outras coisas,
[01:18:57] como eu falei,
[01:18:58] a academia como um todo está um grande problema.
[01:19:02] É certo, então a filosofia está morta.
[01:19:03] Ela está morta, está morta.
[01:19:05] O design também morreu, está tudo morto.
[01:19:09] Ninguém está vivo.
[01:19:10] Ninguém está vivo,
[01:19:11] só vou falando sobre cadáveres só,
[01:19:12] passei no cemitério.
[01:19:15] Rogério?
[01:19:16] Eu imagino poder daqui a 200 anos,
[01:19:19] alguém ouvindo a gravação,
[01:19:23] olha só, existia uma época que o pessoal achava que a filosofia tinha morrido.
[01:19:29] Eu acho que ela continua,
[01:19:31] eu acho que continua de maneira diferente.
[01:19:34] Só sua desculpa, Rogério,
[01:19:36] eu imagino eu vou ouvindo essa semana que vem já,
[01:19:38] e dizendo, olha, aqui perto.
[01:19:41] Pode ser, pode ser.
[01:19:42] Mas eu sempre faço um exercício que é pensar o seguinte,
[01:19:47] o que que as outras bilhões de espécies de vida que existem,
[01:19:51] que habitam o planeta Terra,
[01:19:53] por enquanto,
[01:19:54] vão ficar receitas ao planeta Terra,
[01:19:58] como que elas receberiam isso que a gente diz?
[01:20:01] E aí eu fico pensando no universo inteiro,
[01:20:03] as galáxias, os planetas,
[01:20:06] como que eles receberiam isso que a gente diz?
[01:20:11] Aí eu acho bem divertido,
[01:20:12] isso me apazigua bastante,
[01:20:14] porque de alguma maneira a gente já está salvo.
[01:20:16] O fato de não ter salvação nos deixa todos salvos,
[01:20:19] porque de alguma forma ninguém ouve o que a gente diz.
[01:20:23] A gente diz pra gente mesmo,
[01:20:25] ou seja, a gente diz pra um punhado de pessoas
[01:20:31] e que fica, digamos assim,
[01:20:33] chovendo no molhado,
[01:20:35] é como a lesma espalhando sua gosma pelo mundo,
[01:20:39] a gente espalha sons, freqüências,
[01:20:43] e que são absolutamente insignificantes.
[01:20:46] Então eu acho que isso é um pensamento
[01:20:48] que sempre me reconforta muito,
[01:20:50] porque se eu estou pensando errado,
[01:20:53] eu teria uma responsabilidade muito grande,
[01:20:57] um medo muito grande de estar, por exemplo,
[01:21:00] cometendo uma irresponsabilidade em relação ao mundo.
[01:21:05] Mas quando você observa que, na verdade,
[01:21:07] tudo o que se diz é absolutamente insignificante,
[01:21:09] porque o mundo é insignificante,
[01:21:11] ou seja, ele não tem um significado,
[01:21:13] aí fica tudo mais leve,
[01:21:16] porque aí a filosofia, por exemplo,
[01:21:18] ganha essa dimensão de ser uma brincadeira,
[01:21:21] como a literatura, como a política,
[01:21:24] como, enfim, todos esses discursos
[01:21:28] que se propõe a dizer alguma coisa,
[01:21:30] mas que no fundo nunca ultrapassa a dimensão de um ruído.
[01:21:34] Então os sentidos estão todos na nossa cabeça,
[01:21:39] eles não estão de verdade no mundo.
[01:21:41] Então eu acho que desse sentido,
[01:21:43] o mundo está salvo, o mundo continua indo,
[01:21:46] e aí, óbvio, o que a gente puder fazer em termos de ação,
[01:21:50] enfim, fazer com que o espaço que a gente vive seja melhor,
[01:21:54] é sempre louvável, é sempre bom,
[01:21:57] mas de alguma maneira acreditar, por exemplo,
[01:22:00] que haja uma estrutura política, uma organização social,
[01:22:05] ou uma ideia filosófica capaz de, enfim,
[01:22:10] dar conta desse anseio de organização, de ordem no mundo,
[01:22:13] eu acho que isso a gente está um pouco fadado a fracassar.
[01:22:24] A filosofia não está viva, não está morta.
[01:22:28] A terra continua viva e inútil como sempre.
[01:22:33] Eu só vou dar uma palavra final também.
[01:22:37] Eu acho que eu sempre fico discutindo com Rogério
[01:22:41] sobre justamente esse autodistanciamento
[01:22:46] que eu acho que o Rogério estava falando agora,
[01:22:49] que a gente fica falando, porra, eu fico sempre lá no blog,
[01:22:53] ou enfim, nos artigos que eu escrevo e tal,
[01:22:56] ou com o Daniel, ou com o Rogério, etc,
[01:22:58] falando sobre a existência, sabe?
[01:23:03] Eu falo, de certa forma, sobre o que é certo e o que é errado.
[01:23:07] Mesmo falando, a filosofia inútil é uma espécie de juízo.
[01:23:12] E a gente fica fazendo esse tipo de juízo
[01:23:15] e falando sobre o que significa a existência,
[01:23:19] o que significa a vida, o que é importante,
[01:23:23] o que é a morte, para que serve isso, etc.
[01:23:26] Mas assim, é a mesma coisa que a gente faz
[01:23:28] na filosofia do design, lá, com eu e o Daniel.
[01:23:31] E, enfim, a gente fica também, novamente, digamos,
[01:23:35] especulando e fazendo uma série de levantamentos,
[01:23:38] sei lá, propriamente filosóficos, sabendo que o nosso público é medíocre,
[01:23:43] medíocre no sentido quantitativo, ou seja,
[01:23:46] ele é totalmente pequeno se comparado com toda, sei lá, a população.
[01:23:52] Mas eu acho que é um prazer que justifica isso, Beccari.
[01:23:55] É isso que eu estou tentando querer dizer, talvez, dentro do início.
[01:23:59] Para quem ouve ou para a gente que está debatendo,
[01:24:03] eu acho que é um grande prazer.
[01:24:04] Por isso que, de certa maneira, não é que é inútil debater.
[01:24:08] É inútil acreditar que o debate ou aquilo que se diz do debate
[01:24:12] vai ter, por exemplo, um resultado, qualquer que seja.
[01:24:17] No fundo, ele é uma expressão da vida.
[01:24:20] Isso poderia ser feito, por exemplo, de inúmeras outras maneiras.
[01:24:23] Eu acho que nós escolhemos a nossa.
[01:24:26] E se tiver dez pessoas, cem pessoas, mil pessoas,
[01:24:30] não tem tanta importância, porque a questão não é a quantidade
[01:24:34] ou o quanto isso vai impactar, o quanto vai mudar a vida das pessoas,
[01:24:38] mas é o fato de que, de alguma forma, você está vivendo enquanto faz isso.
[01:24:42] A gente poderia, sei lá, estar varrendo a rua e se divertindo.
[01:24:46] Como a gente não se diverte aí no rua, a gente faz esse podcast.
[01:24:51] Não é exatamente.
[01:24:52] Eu acho que a grande questão do ouvinte revoltado lá,
[01:24:56] a gente pode chamar assim, é que vocês estão sendo individualistas
[01:25:00] ou, sei lá, preocupados só com a própria existência.
[01:25:02] E eu diria que não. Por quê?
[01:25:03] Porque justamente a gente está fazendo quando você faz filosofia,
[01:25:08] sabendo que ninguém vai ler, está certo?
[01:25:10] Ou quando você faz um quadro, uma tela, ou quando você, sei lá,
[01:25:13] faz uma fotografia e posta no Instagram, sabendo
[01:25:17] que isso não é importante para as pessoas de um modo geral, para a humanidade,
[01:25:21] entendendo, para toda a estrutura do universo.
[01:25:24] Você sabe que não é importante.
[01:25:25] Ah, então você só está fazendo isso por prazer próprio.
[01:25:28] Não, eu diria que o Paul Ricoeur,
[01:25:30] que é um cara que eu estou estudando, é um hermenóter e personalista.
[01:25:35] Quando ele fala do mundo do texto, ou seja, o mundo que a gente acaba
[01:25:39] conformando ou configurando a partir da obra que a gente produz,
[01:25:43] ou seja, aliás, a partir não, na própria obra,
[01:25:46] ou seja, quando a gente escreve um texto de filosofia, escreve um livro literário.
[01:25:50] É verdade que o Paul Ricoeur está falando mais de obras literárias.
[01:25:53] Mas eu sei lá, me arrisco a dizer que isso também se aplica a textos,
[01:25:56] a fotos, a qualquer tipo de produção de expressão
[01:26:00] que o Deleuze diria essa criação de conceitos ou de afetos
[01:26:03] ou de qualquer outra coisa.
[01:26:04] Esse tipo de coisa carrega em si a obra,
[01:26:07] um mundo que permite com que todos vivam.
[01:26:10] Eu acho que é nesse sentido que a literatura talvez pareça, sei lá,
[01:26:13] pro Ivã e pra grande parte das pessoas, mais, sei lá,
[01:26:18] importante para a vida, sei lá, da humanidade do que a filosofia,
[01:26:22] porque talvez seja mais lida, etc.
[01:26:25] E tudo bem, sabe, a questão não é ver qual que é mais lido ou qual que é, sei lá.
[01:26:30] A questão é que existe a literatura,
[01:26:33] assim como a filosofia, elas precisam ficar se dialogando, sabe.
[01:26:37] Eu duvido que nenhum escritor literário
[01:26:40] já não tenha tido alguma aporia filosófica na vida, sabe.
[01:26:45] A forma dele expressar essa aporia filosófica foi fazendo uma ficção,
[01:26:50] construindo uma ficção literária.
[01:26:51] A forma do filósofo, sei lá, expressar o que ele pensa
[01:26:57] é pelo texto filosófico, a forma que o pintor, de repente,
[01:27:00] o pintor também parece pejorativo, a forma que o artista plástico
[01:27:05] ou, sei lá, o musicista
[01:27:08] vai expressar o que ele pensa sobre o mundo
[01:27:10] ou aquilo que ele simplesmente está sentindo, é através da música.
[01:27:13] Isso não é egoísta.
[01:27:14] Eu acho que pelo contrário, egoísta é a gente, sabe,
[01:27:18] guardar tudo para si e daí não fazer obra nenhuma.
[01:27:21] Eu acho que a coisa mais, digamos,
[01:27:24] altruísta, se poderia dizer, ou humanitária, é fazer obras.
[01:27:28] E obras eu estou querendo dizer, sabe, qualquer coisa que você queira deixar no mundo
[01:27:32] e deixar no mundo no sentido, assim, não querendo que alguém veja,
[01:27:35] mas simplesmente, sabe, tentando produzir.
[01:27:38] Eu acho que é isso que mantém a própria filosofia viva,
[01:27:43] assim como a arte, assim como literatura e qualquer outra coisa.
[01:27:47] Ou seja, essas obras que, na verdade, mantêm vivos os significados,
[01:27:51] o reino simbólico, a gente poderia dizer,
[01:27:54] são as coisas que justamente permitem com que a gente se situe no mundo
[01:27:59] e faça com que os outros se situem também.
[01:28:02] Acho que essa é a grande mediação.
[01:28:05] Se não houvesse obra artística, filosófica, literária,
[01:28:08] as pessoas daí, sabe, eu sei lá, me arriscou a dizer que não teriam
[01:28:13] aí sim nenhum sentido de existência.
[01:28:24] Então alguém quer falar mais alguma coisa?
[01:28:25] Eu cansei.
[01:28:26] Concordo.
[01:28:29] Tá certo.
[01:28:30] Então, gente, nas próximas a gente vai fazer leitura de comentários, talvez.
[01:28:33] Esse ficou longo, ficou com uma hora e vinte e oito aqui de gravação.
[01:28:37] Eu agradeço de verdade aos três pela confiança.
[01:28:41] Ah, pelo prazer.
[01:28:42] Prazer.
[01:28:43] É um prazer participar.
[01:28:45] Legal, poxa, maravilha.
[01:28:47] E vamos tentar, você, ouvinte, por favor, escreva o que você achou.
[01:28:51] Pode xingar a vontade que daí a gente vai,
[01:28:55] esse é um piloto, né, então a gente vai ver se de repente vale a pena
[01:28:58] ou não fazer isso.
[01:29:00] Claro que isso, a gente vai continuar escrevendo lá no filosofia e tal.
[01:29:04] E a ideia é justamente essa de a gente tentar ampliar através de uma outra mídia,
[01:29:09] o que a gente sempre faz e que não é para ajudar ninguém,
[01:29:13] não é para salvar o mundo, tá certo?
[01:29:16] Se você for o ouvinte revoltado do programa, se identifique, por favor,
[01:29:20] nos comentários.
[01:29:21] É, sem dúvida.
[01:29:22] Afinal de contas, é uma forma de você se expressar também.
[01:29:25] Isso é o que mantém a filosofia viva.
[01:29:27] Muito obrigado.
[01:29:29] Tá certo.
[01:29:30] Então é isso.
[01:29:32] Todo mundo dá um tchau aí.
[01:29:33] Tchau.
[01:29:34] Tchaaaau.