#03 Afetos de hoje
Resumo
O episódio abre com a apresentação do tema central: a sensibilidade estética no ethos contemporâneo, a partir da noção de que o conhecimento é o mais potente dos afetos, ideia compartilhada por Nietzsche e Espinosa. Marcos, Rafael e o convidado André Martins, professor de filosofia da UFRJ, exploram como essa concepção funde epistemologia e estética, instaurando um imperativo ético de conhecer a realidade e os próprios afetos para aumentar a potência de vida.
A discussão detalha a teoria da imaginação de Espinosa, que entende a mente como ideia do corpo, rompendo com a dicotomia cartesiana entre razão e emoção. André explica que, para Espinosa e Nietzsche, conhecer os afetos e a realidade sensível permite uma interpretação menos projetiva e delirante do mundo, reduzindo a suscetibilidade a medos e preconceitos. Esse conhecimento é, portanto, um afeto ativo que amplia a capacidade de criar e de se afetar positivamente.
O diálogo avança para tópicos contemporâneos como o uso de drogas (diferenciando uso sagrado ou terapêutico do vício como fuga), a crítica à mídia e à comunicação de massa, e a análise de conceitos como os “amores líquidos” de Bauman. André argumenta que a sociedade atual, marcada por um imperativo de felicidade e modelos ideais (como o corpo perfeito), muitas vezes inibe a criatividade singular e gera depressão, ao passo que a afirmação da vida passa pela aceitação e fruição da realidade sensível.
Por fim, reflete-se sobre o contraste filosófico entre pensadores que afirmam a vida (como Nietzsche, Espinosa e Deleuze) e aqueles que a negam (como Schopenhauer e certas vertentes da Escola de Frankfurt). A conclusão enfatiza a importância de uma educação e de práticas midiáticas que valorizem a singularidade criativa de cada indivíduo, permitindo que, mesmo em contextos adversos, as pessoas possam se afetar bem e contribuir para transformações positivas, seguindo o exemplo de figuras como Nelson Mandela.
Indicações
Conceitos
- Conhecimento como mais potente dos afetos — Ideia central do episódio, extraída de Nietzsche e Espinosa, que funde epistemologia e estética num imperativo ético de conhecer a realidade e os próprios afetos.
- Teoria da imaginação (Espinosa) — Conceito explicado por André: a mente é a ideia do corpo, o pensamento das afecções corporais, o que implica que todo conhecimento é mediado pelo corpo.
- Antropologia negativa — Mencionada por André como abordagem filosófica que estuda a gênese do ser humano, destacando o potencial criativo singular desde a origem.
Filmes
- Clube da Luta — Filme mencionado como exemplo de narrativa que retrata a indiferença e o vazio na sociedade contemporânea, com protagonista que busca sensações extremas.
- Beleza Americana — Citado como crítica à “American Way of Life” e aos vícios ocultos por trás da fachada de felicidade.
- Matrix — Mencionado como exemplo de narrativa conspiratória que busca uma ordem oculta por trás da realidade sensível, ilustrando uma negação da realidade.
FilóSofos
- Espinosa — Filósofo do século XVII cuja teoria da imaginação e concepção de conhecimento como afeto são centrais na discussão.
- Nietzsche — Filósofo que, em cartão postal, identificou Espinosa como precursor e compartilhou a ideia do conhecimento como mais potente dos afetos.
- Descartes — Contraponto crítico na discussão, representante da separação entre corpo e mente que Espinosa e Nietzsche rejeitam.
- Bauman — Sociólogo contemporâneo citado por sua análise dos “amores líquidos” e da sociedade de consumo.
Livros
- O Mais Potente dos Afetos — Livro organizado por André Martins sobre Nietzsche e Espinosa, discutido como referência central para o tema do episódio.
- As Ilusões do Eu — Outro livro organizado por André Martins, também focado em Nietzsche e Espinosa.
- Pulsão de Morte — Livro de André Martins mencionado na apresentação, relacionado à clínica psicanalítica.
- Amor Líquido — Obra de Zygmunt Bauman discutida no episódio no contexto da sociedade de consumo e das relações afetivas contemporâneas.
Linha do Tempo
- 00:01:31 — Apresentação do tema: sensibilidade estética e afetos contemporâneos — Marcos introduz o episódio, apresentando o convidado André Martins e o tema central: a sensibilidade estética no ethos contemporâneo, com foco na ideia de conhecimento como o mais potente dos afetos. A pergunta inicial é sobre o significado de criar e afetar-se melhor em um mundo em crise, marcado pela banalização do sofrimento e da alegria.
- 00:06:29 — Nietzsche e Espinosa: o conhecimento como afeto mais potente — André Martins começa a responder, partindo do cartão postal de Nietzsche onde ele descobre Espinosa e identifica a tendência comum de fazer do conhecimento o mais potente dos afetos. Explica que esse conhecimento refere-se ao conhecimento da realidade e dos afetos, produtor de alegria e potência, alinhando-se à concepção espinosana.
- 00:10:52 — Teoria da imaginação em Espinosa: mente como ideia do corpo — André detalha a teoria da imaginação de Espinosa, segundo a qual a mente é a ideia do corpo. Isso significa que pensamos a partir das afecções corporais, e nosso conhecimento do exterior é sempre mediado pela natureza do nosso corpo. Essa visão contrapõe-se radicalmente à separação cartesiana entre corpo e mente.
- 00:15:27 — Inversão do paradigma cartesiano: razão e emoção integradas — Marcos observa que Espinosa e Nietzsche propõem uma inversão completa do paradigma cartesiano (e newtoniano), que busca uma objetividade separada das percepções corporais. André concorda, destacando que, para Espinosa, pensar sem a participação do corpo é impossível; a razão pura é uma abstração falsa.
- 00:20:21 — Drogas como potencializadoras ou fugas dos afetos — Rafael pergunta sobre as drogas e sua relação com os afetos. André responde diferenciando o uso sagrado ou terapêutico (que pode facilitar experiências de êxtase e relativização de identidades) do vício (que funciona como fuga e embota a afetividade). A droga pode tanto potencializar afetos positivamente quanto servir para evitar problemas.
- 00:32:25 — Crítica à mídia e à comunicação de massa — A conversa volta-se para a mídia e a comunicação de massa. André argumenta que o problema não é a mídia em si, mas seu monopólio por grupos que propagam uma ideologia única. Mesmo sem monopólio, a comunicação de massa pode ser criticada por reforçar conservadorismo moral, como ilustrado pelas novelas que inserem homeopaticamente temas como relacionamentos homossexuais.
- 00:40:50 — Bauman e os amores líquidos na sociedade de consumo — André comenta a análise de Bauman sobre os “amores líquidos”: na sociedade de consumo, ter uma relação estável é vivenciado como perda de experiências infinitas, levando a uma frustração generalizada. Essa crítica sociológica, porém, tende ao pessimismo, enquanto a filosofia pode apontar alternativas criativas.
- 00:50:22 — Conhecimento, medo e conservadorismo — André amarra a questão ética do conhecimento: quanto mais conhecemos nossos afetos e a realidade, menos regidos pelo medo estamos. O medo, ligado à ignorância, leva ao conservadorismo e à inibição da criatividade. A moral e o moralismo são formas de enquadrar as pessoas em identidades rígidas para uma falsa segurança.
- 00:56:04 — Afirmação versus negação da vida na filosofia contemporânea — Marcos levanta o contraste entre filósofos que afirmam a vida (Nietzsche, Espinosa, Deleuze) e aqueles que a negam (Schopenhauer, Adorno). André associa isso à depressão contemporânea e ao imperativo da felicidade, que impõe modelos ideais (como o corpo perfeito) e gera frustração, distanciando as pessoas da fruição sensível da realidade.
- 01:06:45 — Conclusão: como criar-se e afetar-se melhor no mundo atual — Em resposta à pergunta final de Marcos, André sintetiza: é preciso deixar-se afetar pela potência criativa interna, confiando na singularidade de cada um. A educação e as mídias contra-hegemônicas devem valorizar essa potência, permitindo que, mesmo em ambientes negativos, as pessoas se afetem bem e contribuam para mudanças, como exemplificado por Nelson Mandela.
Dados do Episódio
- Podcast: Não Obstante
- Autor: Marcos Beccari
- Categoria: Society & Culture Philosophy
- Publicado: 2015-03-07T08:01:38Z
- Duração: 01:20:38
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/n%C3%A3o-obstante/5a6c7050-ab31-0132-307f-0b39892d38e0/03-afetos-de-hoje/ce830f3e-b8bd-4935-9ee8-8a41d28c532c
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Dados do Podcast
- Nome: Não Obstante
- Tipo: episodic
- Site: http://www.naoobstante.com/
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Transcrição
[00:00:00] Você está ouvindo, não obstante, um podcast sobre filosofia, design e outras ficções.
[00:00:12] Então começando mais um Não Obstante Finalmente, o número 3, né? Finalmente a gente ficou numa
[00:00:36] eu acho que de um mês, né? Você lembra exatamente, cara? Para mim faz uns três meses. Pois é,
[00:00:45] então, enfim, eu tô aqui com o nosso já conhecido Rafael, cara. Olá, pessoas, agora em outro lugar.
[00:00:53] Exatamente, muito obrigado, cara, por ter, enfim, aceitado aí participar dessa lavagem
[00:01:02] e o Daniel, ele tá, enfim, muito ocupado, né? Ele virou um Lorde inglês agora. E o nosso
[00:01:11] convidado especial de hoje, também agradeço bastante a presença, o professor André Martins.
[00:01:16] Diga oi, André. Opa, tudo bem? Tudo certo, muito obrigado mesmo. Marcos e Rafael.
[00:01:22] Direto do Rio, você tá no Rio, né, André? Tô. Legal. Então, bom, o tema hoje é
[00:01:31] um vídeo de hoje, né, mais ou menos, sobre a sensibilidade estética no etos contemporâneo.
[00:01:36] Acho que, assim como todos os outros Não Obstante, na medida do programa isso vai ficando mais
[00:01:43] claro, né? Quase assim, a gente vai, a gente entra direto sem muito KY. Sem muita explicação.
[00:01:51] Exatamente, já. Mas assim, eu vou apresentar o professor André, se você me permite, André,
[00:01:58] e logo em seguida, enfim, se você quiser acrescentar mais alguma coisa ou corrigir, né? Eu fiz um
[00:02:04] pequeno resumo aqui baseado no que eu conheci. Assim, já pra esclarecer, eu conheci o trabalho do
[00:02:13] professor André Martins na minha pesquisa atual de doutorado, passando pela filosofia trágica,
[00:02:19] né? Então, eu vi que ele foi, por exemplo, orientando do Clément Rosset, tem alguns artigos
[00:02:25] do Clément Rosset, que é um filósofo francês contemporâneo. Aí que eu tive contato, um feliz
[00:02:32] contato, né? Que, enfim, tem me ajudado bastante. Professor André é professor de Filosofia da UFRJ,
[00:02:40] é doutor em Filosofia, né? Na Université de Nice, da França, e em Teoria Psicanalítica na
[00:02:48] UFRJ. Ele é autor de Pulsão de Morte, Interrogação por uma Clínica Psicanalítica da
[00:02:54] Filosofia da UFRJ, e organização e organizador entre vários livros, O Mais Potente dos Afetos,
[00:03:03] que é um livro sobre Nietzsche e Espinosa, e As Ilusões do Eu, ambos sobre Nietzsche e Espinosa,
[00:03:09] na realidade, né? Foi curador no espaço cultural CPFL, CPFL Cultura, do programa
[00:03:16] Café Filosófico, no qual proferiu oito conferências. Foi professor convidado da Casa
[00:03:23] de Ferro do Rio de Janeiro e de São Paulo, e é editor responsável da revista Trágica Estudos
[00:03:29] sobre Nietzsche. Então esse é o resumo, que eu acho que já tá de bom tamanho. Se tem uma coisa
[00:03:36] a acrescentar, André, fica à vontade. É, não imagino até hoje. Então realmente é uma grande
[00:03:42] honra aqui, enfim, tê-lo conosco. Enfim, eu acho que já dá pra ir direto pra, enfim,
[00:03:51] a anunciada da primeira ponto de discussão. O título, O Mais Potente dos Afetos, que na verdade
[00:04:09] se refere ao conhecimento, ou seja, esse enunciado, o conhecimento como o mais potente
[00:04:14] dos afetos, que é uma, na realidade, uma tendência em comum que o André e outros
[00:04:20] identificaram entre Nietzsche e Espinosa, traz em si uma quase fusão, me parece,
[00:04:27] entre epistemologia e estética a princípio, né, porque o conhecimento como objeto da epistemologia
[00:04:33] e afetos e sensibilidade como objeto da estética. Mas antes de tudo, ou seja,
[00:04:39] eu acho que é aparente essa fusão entre epistemologia e estética, porque me parece
[00:04:45] mais a ver com uma ética e estética, né, porque instaura um imperativo ético,
[00:04:50] né, já que diz respeito a uma relação de potência que é determinada entre o
[00:04:56] conhecimento e os afetos. Então, me parece que há um imperativo ético de elogiar esse
[00:05:03] conhecimento como o mais potente dos afetos, que na realidade a gente vai ver mais pra frente,
[00:05:07] não é qualquer conhecimento, né, que é o mais potente dos afetos. O título de uma
[00:05:13] referência que você proferiu na CPFL Cultura, é um mundo onde conhecer é criar e afetar-se
[00:05:22] melhor e faz justamente parte de uma série chamada o mundo em crise, reinventar os
[00:05:30] alicerces da modernidade. Então a pergunta que eu gostaria de fazer é o que significa
[00:05:35] rapidamente, se possível, criar e afetar-se melhor em um mundo em crise, um mundo esse,
[00:05:44] né, que alguns chamam de pós-modernidade e no que diz respeito a afetos, muitas vezes
[00:05:51] é caracterizado como uma banalização do sofrimento, banalização, enfim, até da própria
[00:05:59] alegria, do próprio prazer, enfim, que tende a uma certa indiferença. Então se é verdade essa
[00:06:05] essa caracterização recorrente que a gente vê, como que você se afeta e cria,
[00:06:12] né, o que que é esse afeto como mais potente, aliás, o conhecimento como mais
[00:06:16] potente dos afetos nesse mundo em crise? Vamos lá, né, tem vários pontos, eu vou
[00:06:29] falar por algum lugar e a gente vai desenvolvendo, né. Bom, começando por esse diálogo, né,
[00:06:38] essa, o Nietzsche escreveu um cartão postal para um amigo, né, em 1881 e é nesse cartão
[00:06:46] postal que ele fala que descobriu Espinosa, que Espinosa é o seu único precursor e ele
[00:06:53] diz, e que precursor, né, ele tá estupefato com esse encontro e ele diz que a tendência
[00:07:03] geral da filosofia de Espinosa é a mesma que a minha, fazer do conhecimento mais potente dos
[00:07:08] afetos, né. Bom, então isso já dá uma dica, no meu caso, né, que sou o estudioso tanto da
[00:07:15] filosofia de Nietzsche quanto da filosofia de Espinosa, de entender o que que Nietzsche
[00:07:20] está fazendo por conhecimento e reconhecendo esse conhecimento em Espinosa. Bom, então esse
[00:07:28] conhecimento é, a gente poderia dizer, é um conhecimento dos afetos, é um conhecimento da
[00:07:35] realidade, na introdução que eu fiz, na apresentação ao livro que eu organizei, eu
[00:07:42] até mostro os aforismos sobre conhecimento desse mesmo ano em que ele escreveu esse cartão
[00:07:48] para ver, assim, o que que nessa época Nietzsche estava entendendo por conhecimento e o Nietzsche
[00:07:53] fala justamente do conhecimento da realidade e até tem um trecho em que ele diz assim, o
[00:07:59] conhecimento da realidade até a pior das realidades, a mais dura, cruel, das realidades,
[00:08:06] por si só o próprio conhecimento ele já é produtor de alegria, produtor de potência,
[00:08:13] e de fato essa compreensão do conhecimento, como o conhecimento de si, dos afetos, da
[00:08:21] realidade, ela tem tudo a ver com a concepção de conhecimento em Espinosa, porque para
[00:08:29] Espinosa, vamos ver, tentando assim, resumir bastante, né? Lembrando que Espinosa é bem
[00:08:35] uma cultura Nietzsche, né? Para quem nunca ouviu falar, sei lá. É, dois séculos antes,
[00:08:41] né? É mil seiscentos e tanto, né? E o Nietzsche mil oitocentos e tanto, né? Então,
[00:08:50] ficam-se os anos quase que exatos entre um e outro, né? Só que a filosofia do Espinosa,
[00:08:55] embora seja do século XVII, né? Ele é um contemporâneo de Descartes, de Hobbes,
[00:09:00] e escreve-se opondo a Descartes e Hobbes, é uma filosofia totalmente contemporânea,
[00:09:06] sem a necessidade de nenhuma interpretação para torná-la contemporânea a nós, né? Ele
[00:09:13] conseguiu não só um grau de atemporalidade, como toda a filosofia, né? Que faz com que o
[00:09:19] que ele escreva seja muito atual, como, além dessa atemporalidade, o modo que ele aborda,
[00:09:29] o pensamento dele, ele é um pensamento que tá no início da modernidade, compartilhando com a
[00:09:37] modernidade a crítica, as críticas que são feitas ao que depois passou a se chamar a idade
[00:09:42] média, mas ao mesmo tempo já fazendo uma crítica dos seus contemporâneos modernos. Então,
[00:09:50] ele é um crítico do que tá começando a nascer, né? E essa crítica que ele já faz na
[00:09:58] hora da modernidade é a crítica que a filosofia contemporânea passou a fazer ao final da
[00:10:04] modernidade, né? Ele é de fato contemporâneo tanto por tratar de temas atemporais,
[00:10:13] assim, válidos, independente da época, né? Como, em termos históricos, ele faz uma crítica
[00:10:20] que ainda tava por vir, né? E se coloca assim, de fato, como um autor cujo pensamento tá muito
[00:10:30] mais afinal do século XXI do que a própria época dele, né? Então, quando ele tá pensando
[00:10:39] o conhecimento retomando, né? Tanto ele, depois Nietzsche, como o conhecimento dos afetos,
[00:10:45] o conhecimento da realidade, ele… Então, o Espinosa, ele vai, por exemplo, na teoria da imaginação
[00:10:52] de Espinosa, ele vai falar uma ideia bem simples, mas que é fundamental pra entender o que ele tá
[00:10:57] dizendo, que a mente é o que ele chama da ideia do corpo. Então, a mente é um pensamento das
[00:11:08] afeições corporais, um pensamento que não tá pensando depois como o corpo foi afetado,
[00:11:16] mas concomitantemente, né? Então, o corpo sofre afeições, ele é impressionado, a mente é a
[00:11:24] elaboração concomitante dessa vivência do corpo, digamos, né? Isso quer dizer que eu só posso
[00:11:33] conhecer um corpo exterior ou a realidade, um acontecimento, a partir da natureza do meu corpo,
[00:11:40] porque eu conheço algo somente a partir do momento em que aquilo me impressiona,
[00:11:48] pelos sentidos, né? E vai me impressionar com mais intensidade ou menos intensidade. Então,
[00:11:53] quer dizer, ele tá mostrando que a nossa tendência a imaginar erroneamente, digamos,
[00:12:04] a projetar um estado afetivo meu e interpretar o fora, o outro, o acontecimento, de uma maneira
[00:12:13] que no extremo seria delirante, né? Ele usa esse termo, né? Delírio. É muito grande. E isso,
[00:12:22] pra simplificar e a gente entender o que ele tá dizendo, a gente vê de maneira corriqueira,
[00:12:28] né, no nosso cotidiano, quando a gente até pergunta pra alguém assim, olha, eu vou te
[00:12:33] dizer o que aconteceu, vê se eu tô certo ou se eu tô exagerando, né? Na intensidade do meu
[00:12:40] sentimento. O outro, de fato, foi agressivo ou eu que tava com uma predisposição, né?
[00:12:47] As pessoas geralmente falam, pô, eu não sei se eu tô pensando com a cabeça ou com o coração.
[00:12:52] Com o coração. Exatamente. Não sei se eu tô viajando, né? Por quê? Porque,
[00:13:00] justamente, digamos, quando a gente tá de mau humor, um pouco de contrariedade já basta pra
[00:13:08] gente interpretar mal outra pessoa, né? Pra aquilo ser mal interpretado e a gente achar que
[00:13:15] enfim, agressivo e tudo mais. Quando a gente, ao contrário, tá se sentindo bem, pleno, realizado,
[00:13:21] aí, digamos, as mesmas coisas que teriam nos contrariado já não nos contrariam mais. A gente
[00:13:28] fala, não, que isso? Imagina. Não foi nada. Não foi nada. Nem percebi. Então, entendo
[00:13:35] totalmente, aí fica compreensivo, generoso, né? Sim. Ou seja, a gente tá refletindo a
[00:13:42] maneira como o nosso corpo, a disposição do nosso corpo tem um papel que não é de um determinismo,
[00:13:51] mas um papel determinante, na maneira como a gente vai se afetar a partir dessas impressões.
[00:13:57] Certo. Então, quando o Spinoza diz, aí eu vou dizer com as palavras que são do Nietzsche,
[00:14:05] mas concordando com o Nietzsche, portanto, né? Atribuindo a ideia, não a frase, mas a
[00:14:10] que o conhecimento é mais potente dos afetos, não? Isso quer dizer, assim, que quanto mais eu
[00:14:16] conhecer a minha maneira de me afetar, o funcionamento dos afetos em geral e a realidade
[00:14:22] como um todo, mais eu vou poder ficar, vamos colocar pelo menos, menos eu vou estar suscetível
[00:14:33] a melindres, suscetível a essas projeções, e no extremo, suscetível a delírios, enfim, né?
[00:14:41] Porque eu vou ter mais condições de sentir, Nietzsche usa o termo interpretar para falar
[00:14:48] desse sentimento, de sentir e interpretar, interpretar tanto pelo pensamento quanto pelo
[00:14:56] pensamento, o que o outro está me trazendo, ou está me impressionando, como uma questão
[00:15:04] que é do outro, né? E eu vou estar mais ligado aos meus próprios afetos.
[00:15:12] Aham, ou seja, me parece que é uma inversão quase absoluta em relação ao paradigma,
[00:15:27] sei lá, cartesiano, que é recorrente até hoje, né? Você mesmo está falando da divisão que a
[00:15:35] gente faz, né? Muitas vezes forçada entre pensar com a cabeça, ou enfim, ou se…
[00:15:41] A razão e a emoção, né?
[00:15:42] A razão e a emoção e tal. É, a divisão que o Descartes faz entre res cogita e resistência,
[00:15:48] ou seja, o corpo e a mente, né? E como se justamente, isso também se reflete, sei lá,
[00:15:53] me parece no paradigma de Newton, né? Ou seja, que a percepção objetiva que a gente tem das
[00:16:00] coisas, ela é, digamos, ela deve ser separada, né? Dos nossos, das nossas percepções corporais
[00:16:10] que tendem a distorcer ela, né? Então essa é uma percepção recorrente hoje, assim, não,
[00:16:16] deixa eu deixar meus sentimentos de lado aqui, meu, sei lá, o que aconteceu ontem,
[00:16:21] pra pensar de uma maneira bem transparente objetiva no que eu preciso fazer. E parece que,
[00:16:27] como você está falando, o Spinoza e o Nietzsche, eles vão totalmente no caminho inverso, na
[00:16:32] contramão desse tipo de anunciado. Exatamente, exatamente. Isso, e aí a gente já tem, né,
[00:16:39] uma pista do quanto ele está se contrapondo aos contemporâneos, Newton é contemporâneo
[00:16:44] dele também, né? Newton e Descartes, por exemplo, né? E quanto ele está afinado com
[00:16:50] a filosofia contemporânea. É no caso de hoje, né? De hoje, né? Exatamente, século 21, né?
[00:16:57] Sim, sim. E inclusive, essa comparação, né, com Newton, concordo, com Descartes,
[00:17:07] fica ainda mais explícita porque o próprio Spinoza faz essa contraposição da própria
[00:17:13] filosofia, a de Descartes, né? A gente pode ver, por exemplo, no livro do Descartes,
[00:17:20] As Paixões da Alma, o Descartes, ele diz assim, que quando, ele não diz com essas palavras,
[00:17:29] mas aí ele está descrevendo esse movimento. O sangue que sobe da cabeça, né? É uma interferência
[00:17:38] do corpo na mente, no caso na alma, né? E que isso impede a pessoa de pensar corretamente.
[00:17:45] E que então uma paixão, segundo Descartes, é uma ideia que se tornou obscura e confusa pela
[00:17:52] participação do corpo. E que então o que devemos fazer para pensar de forma clara seria impedir
[00:18:01] essa participação do corpo, porque então a ideia dele é assim, se o corpo participa, eu fico
[00:18:07] confuso. Então eu tenho que esperar, como vocês relataram que ainda, né, é familiar e
[00:18:12] comum até hoje, né? Eu tenho que pensar como se fosse um ideal de pensar sem emoções. O que o
[00:18:19] Espinosa vai dizer é justamente assim, que eu só penso porque o meu corpo foi afetado, né? Eu
[00:18:27] sofri uma afecção, foi afetado. E, portanto, pensar sem a participação do corpo é impossível.
[00:18:34] Então quando Descartes descreve um pensamento, ou quando a gente pensa no senso comum, né?
[00:18:40] Em pensamentos sem emoções, antes de mais nada, isso é impossível. Portanto, é uma falácia,
[00:18:48] isso não acontece. O que eu vou estar fazendo é justamente buscando um raciocínio, e aí a gente
[00:18:56] pode pensar em Descartes, mas pode pensar também, né, cem anos depois de Espinosa,
[00:19:02] em Kant, né? Como se fosse um ideal de uma razão pura. Só que é um ideal que não existe,
[00:19:08] uma razão pura, purificada do corpo, né? Ou da realidade ou do mundo sensível.
[00:19:13] Então ao fazer isso, a gente vai estar pensando com o corpo, vai estar pensando com as emoções,
[00:19:19] mas vai estar criando o que a psicanálise chama de dissociação. A gente vai estar pensando o que
[00:19:26] Espinosa vai denunciar como uma abstração dissociada do mundo sensível, e justamente por
[00:19:36] essa dissociação, essa abstração vai ser falsa. Então o que é apresentado como verdade em Descartes
[00:19:43] e em Kant posteriormente, em Espinosa é justamente o índice da falsidade. Porque para eu pensar
[00:19:52] verdadeiramente, ao contrário, eu tenho que conseguir ser, pensar, aí Espinosa chama de
[00:19:58] razão, mas é uma outra concepção de razão. É uma razão afetível, eu tenho que pensar o que
[00:20:04] está acontecendo, e esse conhecimento do que está acontecendo comigo, com os meus afetos,
[00:20:09] esse aqui é o mais potente dos afetos. Da realidade sensível, né, no caso.
[00:20:14] Isso. André, e como que ficaria no caso, por exemplo, um assunto que é bem recorrente,
[00:20:21] nos dias de hoje, é a questão das drogas, né? As drogas teoricamente, elas afetam a
[00:20:28] sensação do corpo, né? Elas seriam tipo uma fuga desses afetos ou um catalisador do afeto?
[00:20:35] Não, aí ótima pergunta, né? Eu vou responder por mim, né? Não é tema que eu me lembre assim,
[00:20:43] de Espinosa, acredito que não, de Nietzsche, que eu me lembre não, enfim. Aí eu pensando,
[00:20:49] usando eles como ferramenta conceitual, né? Falando por mim. Eu vejo assim, né,
[00:20:57] eu tive entrevistas de psicólogos que trabalham especificamente com o tema, né? Bom, e também
[00:21:07] o meu conhecimento de história da filosofia, e as drogas, sempre, a humanidade sempre lançou
[00:21:15] mão de drogas, né? O que o Nietzsche vai mostrar, por exemplo, né? Pensando no dionisíaco,
[00:21:20] da Grécia antiga, que as drogas sempre tiveram um uso sagrado. Sagrado em que sentido? Porque
[00:21:33] a droga, ela permite o êxtase. Êxtase, a etimologia da palavra significa ecstase. Esse
[00:21:42] é para fora, estásia do estado, né? Então, essa alteração de um estado de consciência é como
[00:21:50] uma experiência sensória de sair do seu estado habitual. Então, esse caráter sagrado é porque,
[00:21:59] justamente, tudo que nos permite, aí, vou falar de forma bem livre, acho que vai dar para
[00:22:05] você. Tudo que nos permite é uma experiência que saia de todos os fatores identitários,
[00:22:12] no sentido normal, digamos, neutro, mas também no sentido negativo do identitário, né? Então,
[00:22:20] por exemplo, quando eu tenho uma experiência de ecstase, isso significa que eu estou fazendo
[00:22:28] uma experiência sensória, vivencial, de sair de tudo que me apega, me coloca grudado
[00:22:35] na minha nacionalidade, no meu credo, no gênero, enfim, na classe social. Embora eu faça uma
[00:22:49] experiência de ecstase, com todos esses dados que o Espinosa vai falar, de dados de memória
[00:22:55] de história, que não são essenciais de um ser humano, a experiência de ecstase me permite
[00:23:03] me separar, embora eu só possa fazer essa experiência na minha condição histórica e
[00:23:12] concreta, essa experiência é uma experiência de ir além desses dados identitários. Então,
[00:23:18] nesse sentido, por exemplo, em Espinosa, a gente pode dizer que isso corresponde ao que
[00:23:25] o Espinosa fala da experiência da eternidade, porque ele diz assim, a eternidade na história
[00:23:31] da religião, ela foi mal interpretada como uma perpetuidade, uma perpetuidade na duração,
[00:23:39] mas ele vai definir a eternidade, o Nietzsche vai retomar e concordar e retomar essa
[00:23:45] como uma experiência de se estar fora do tempo cronológico. Então, a eternidade não é
[00:23:52] permanecer no tempo da duração perpetuamente, mas sim ter uma experiência que nos tira do tempo
[00:24:01] da duração. Só que o paradoxo disso é que, enquanto experiência, ela só pode se dar na
[00:24:08] duração. Então, a eternidade não diz respeito a uma objetividade de um tempo perpétuo,
[00:24:15] mas diz respeito a uma experiência psíquica na duração, e essa experiência psíquica como
[00:24:20] uma experiência que nos tira dessas marcas identitárias da cronologia da duração.
[00:24:27] Eu não sei se eu estou entendendo corretamente, mas então as drogas, elas podem ser vistas como
[00:24:41] uma potencializadora afetiva ou não? Isso, exatamente. Então, as drogas, não à toa,
[00:24:52] desde que o ser humano é ser humano, desde que existe o ser humano. Então, a primeira coisa a
[00:24:59] fazer é diferenciar o uso das drogas do vício das drogas. Isso que pode parecer tão difícil,
[00:25:09] eu acho que cada um de nós tem a experiência, por exemplo, com as drogas lícitas. Você
[00:25:16] pode usar um antidepressivo, você usar um chope, você está viciado numa droga. Então,
[00:25:24] a questão é justamente assim, enquanto experiência individual com as drogas,
[00:25:30] se a gente remonta na história, fica mais fácil entender o porquê que as drogas tinham
[00:25:38] porque eram um facilitador de uma experiência da gente se desapegar desse crivo, dessas marcas
[00:25:49] que nos tiram da nossa essência singular e nos colocam com preocupações extremamente mundanas
[00:25:57] e ligadas a, enfim, por exemplo, essas marcas que eu estou dizendo, vamos pensar no extremo
[00:26:06] são elas que levam a qualquer tipo de preconceito. Uma pessoa preconceituosa,
[00:26:12] digamos, um machista, um nacionalista, um integralista, seja, portanto, em termos da
[00:26:21] pátria, seja da religião, seja, enfim, de gênero, são pessoas que se apegam tanto
[00:26:30] a essa questão identitária que se confundem com essa identidade falsa, digamos, e se veem
[00:26:38] ameaçados imaginariamente pelas identidades diferentes da dele. Então, qualquer sentimento,
[00:26:47] e aí a gente está falando totalmente em contemporaneidade em vários âmbitos,
[00:26:53] qualquer sentimento preconceituoso, identitário, fica claro, quando a gente pensa no preconceito,
[00:27:01] fica claro o quanto que o preconceituoso, ele não está vivendo a sua própria singularidade,
[00:27:12] ele está fugindo de alguma coisa, aí fica claro que é uma fuga, ele está fugindo de algum
[00:27:17] fantasma, de algum perseguidor interno, criando essa rivalidade, mas sobretudo
[00:27:25] quando envolve ódio, isso fica mais explícito, é mais fácil de ver, alguma rivalidade com a
[00:27:31] diferença. Bom, então, o uso sagrado, digamos, e a gente poderia dizer, terapêutico
[00:27:43] da experiência com as drogas, ele vem nessa relativização desses dados identitários e,
[00:27:50] portanto, é possível se conceber, não estou dizendo que é sempre que isso acontece,
[00:27:55] mas é possível se conceber o uso das drogas e daí a explicação delas virem serem usadas,
[00:28:02] enfim, desde que a humanidade existe, como algo positivo para o ser humano de uma maneira
[00:28:10] geral e inclusive para a própria sociedade. Agora, isso não quer dizer uma apologia do vício.
[00:28:19] Sim, eu acho que foi bem interessante essa diferenciação que você falou do vício e
[00:28:24] das drogas, porque o vício daí sim ele poderia atuar como uma fuga, né?
[00:28:29] Isso, exatamente, exatamente.
[00:28:31] Como um desabilitador, por assim dizer, de afeto, justamente.
[00:28:35] Exatamente, exatamente. A mesma substância, ela pode ser usada para potencializar afetos
[00:28:44] de uma maneira positiva, como também, caso se torne um vício ou também dependendo
[00:28:51] do, como a gente estava falando, da questão em espinosa, da teoria da imaginação de
[00:28:56] espinosa, dependendo da disposição psíquica do nosso corpo, a droga pode ser usada também
[00:29:05] como uma fuga desde o início, mesmo antes do vício. E normalmente a droga vicia quando
[00:29:11] ela tem para aquela pessoa que está fazendo uso já essa função de fuga de problemas.
[00:29:17] Então ela pode tanto potencializar afetos no sentido positivo, como ela pode começar
[00:29:24] como uma fuga, se tornar um vício e embotar a afetividade.
[00:29:29] Eu acho que é interessante essa questão porque aquele recorrente anunciado de que
[00:29:38] há uma indiferença progressiva se instaurando na sociedade e tal, ele pode ser problematizado
[00:29:44] a partir dessa questão das drogas. Por exemplo, eu lembro que na década de 90,
[00:29:49] muitos filmes que ficaram na minha memória justamente apontam para essa suposta indiferença
[00:30:00] e de certa forma relacionada ao vício. Por exemplo, um filme emblemático é o Clube
[00:30:06] da Luta, que é, na verdade, a adaptação do Pala Niuk, não é isso?
[00:30:15] É isso, André. Não sei confirmar, mas…
[00:30:19] Pala Niuk, enfim, me perdoem pela falta de memória, mas que é justamente o protagonista
[00:30:28] Mi, ele não está a rigor, viciado em droga nenhuma, mas ele se sente como se estivesse.
[00:30:35] Ele não aguenta mais tomar remédio, quer dizer, na realidade ele está a rigor viciado
[00:30:41] porque os remédios não fazem mais efeitos nele, e daí ele começa a participar de um
[00:30:47] grupo de narcóticos anônimos, se eu não me engano, e daí começa a se auto-espancar,
[00:30:54] e daí, enfim, vai toda a trama para uma questão mais esquizofrênica, me perdoem
[00:31:01] um spoiler também. Além disso, a gente vê, por exemplo, Beleza Americana, que
[00:31:08] é uma crítica lá a American Way of Life, o mote do filme é veja mais de perto, como todo
[00:31:15] cidadão feliz americano na verdade esconde um vício, e por aí vai, eu acho que tinha
[00:31:20] vários filmes, pelo que eu não sei listar todos, óbvio, e também não é o caso,
[00:31:25] mas que, de certa forma, tentam retratar, parece que há esse discurso de um cenário
[00:31:31] bem diferente, em que o sofrimento ele é palatinamente absorvido e, de certa forma,
[00:31:41] assim, indiferenciado, que é uma crítica também a questão do espetáculo e tal.
[00:31:44] Como que essa questão, enfim, das drogas como algo que pode potencializar os afetos,
[00:31:53] quanto também pode, digamos, desativá-los quase completamente, indo em direção a uma
[00:31:59] realidade sensível, ela é comparável a algumas coisas que entram em pauta nas
[00:32:04] discussões filosóficas contemporâneas, como, por exemplo, a questão do espetáculo,
[00:32:09] da mídia, que são geralmente demonizados, não é isso? Daí você tem a questão do simulacro,
[00:32:17] no âmbito da comunicação você tem, mesmo o próprio mercado de trabalho, às vezes,
[00:32:22] demonizado nesse sentido também.
[00:32:25] Perfeito, perfeito. Então, vamos começar por um ponto que eu acho que é central nessa
[00:32:33] discussão e que é mais evidente, então facilita assim o raciocínio para depois abranger outros
[00:32:40] aspectos, que é a própria questão da mídia enquanto mídia, que é simplesmente um veículo
[00:32:47] de comunicação. A demonização da mídia, ela, na verdade, deveria ser, digamos, um julgamento
[00:32:57] negativo do monopólio da mídia, do monopólio por grupos, por certas elites sociais e
[00:33:05] financeiras que fazem de certos canais da mídia, por exemplo, a televisão, e não só,
[00:33:14] mas sobretudo, um propagador de uma dada ideologia, e aí, em nome da liberdade de imprensa,
[00:33:23] eles acusam qualquer denúncia desse esquema de monopólio e de passagem de ideologia,
[00:33:31] como se fosse uma crítica à liberdade de imprensa, sem ser, e ao mesmo tempo,
[00:33:38] quer dizer, apresentam essa deturpação, ou, se a gente quisesse dizer de uma
[00:33:47] maneira mais neutra, essa tendência monolítica ou hegemônica que segue uma única ideologia,
[00:33:57] uma única, um único ponto de vista sobre as notícias, isso é que deveria ser criticado.
[00:34:09] Não a mídia em si. Não a mídia em si. Me parece que é evidente, mas eu sei que não,
[00:34:17] que as pessoas fazem a crítica como se fosse a mídia em si. Aí, passando para uma crítica,
[00:34:24] menos ingênua, a crítica seria a comunicação de massa como um todo, e aí a gente pode pensar em
[00:34:31] Adorno. Escola de Frankfurt. Eu acho que é uma crítica válida, só que, mais uma vez,
[00:34:41] a comunicação de massa, ainda assim, me parece que o que é criticável na comunicação
[00:34:47] de massa, mesmo imaginando que não houvesse, no caso concreto do Brasil, e imagino que
[00:34:54] vários países seja análogo, esse monopólio de uma ideologia única, esse domínio das mídias
[00:35:03] por uma ideologia única, mesmo que não houvesse, ainda assim, a crítica à comunicação de massa,
[00:35:10] eu acho que deveria ser feita há uma certa maneira de estabelecer essa comunicação com
[00:35:18] as massas, se a gente mantiver o termo. Em que sentido? Eu vejo assim, até no caso do Brasil,
[00:35:26] as próprias organizações Globo. Existem certas notícias, por mais que haja manipulação de
[00:35:33] informação ou tendência numa dada ideologia, numa mensagem ideológica e parcial, como se
[00:35:43] as notícias fossem editoriais travestidos de notícia, tomadas de posição com aparência
[00:35:49] de neutralidade falsa. Ainda que isso não acontecesse, ou pelo menos acontecesse com um
[00:35:57] poder distribuído, outros canais e outras mídias, com outras perspectivas igualmente
[00:36:07] poderosas no cenário da comunicação brasileira, ainda assim a gente poderia fazer a crítica à
[00:36:14] comunicação de massa. Mas, por exemplo, pegando o exemplo das organizações Globo,
[00:36:18] tem certas notícias ou certas coisas que são apresentadas na televisão a cabo,
[00:36:23] que não podem circular na televisão aberta, simplesmente porque se a gente
[00:36:33] pensar de uma maneira bem pragmática no dia de hoje, elas gerariam muita revolta,
[00:36:42] gerar reações violentas em um povo, uma cultura de massa, que está habituada
[00:36:51] a um certo moralismo social. Se a gente for pegar o caso das novelas, que nem agora,
[00:36:58] recentemente as últimas duas ou três novelas das nove, que eu sou um fiel telespectador,
[00:37:06] tiveram casos de relacionamentos homossexuais que a impressão no senso comum é que
[00:37:14] não eram bem aceitos e hoje talvez se tolere mais. O que as novelas fazem,
[00:37:23] e acho que é um bom exemplo porque fazem assim bem devagarzinho, é ir inserindo,
[00:37:30] só que com o apoio de pesquisas, de opinião e tudo mais, inserindo homeopaticamente certas
[00:37:36] questões, certas cenas. Então, por um lado, eu acho louvável porque vai quebrando esse
[00:37:44] moralismo social e habituando as pessoas a novos valores, basicamente a aceitação
[00:37:51] da diferença e a aceitação da realidade. E, por outro lado, elas próprias servem para mostrar
[00:37:58] o quanto que a sociedade como um todo, em geral, e se a gente for falar no conceito de massa,
[00:38:05] é conservadora. Um beijo gay é notícia, manchete. Na própria reação das pessoas a gente
[00:38:16] vê que, digamos, ao quebrar o moralismo parece que se instaura outro maior ainda.
[00:38:21] E isso, quando eu falo massa, é pensando no senso comum, não é uma questão financeira,
[00:38:29] de classe social, porque esse moralismo das massas, digamos, é um retrato antes
[00:38:36] mais nada do moralismo burguês. A gente vê cartas no jornal e tudo, tenho que tapar
[00:38:45] dos meus filhos, mandar minha filha de casa assistir novela, com umas reações assim,
[00:38:51] essas sim, chocantes, né? E essa, por exemplo, já que a gente acabou tocando esse assunto,
[00:39:05] hoje tem também outra pauta que se discute muito, essa multiplicidade da dinâmica dos
[00:39:14] relacionamentos, né? Eu vou voltar sempre no exemplo da novela, me desculpe a falta de
[00:39:22] cor assim, mas, que nem na última novela, tinha vários casamentos, tinha relacionamentos
[00:39:28] entre duas mulheres, tinham casamentos abertos, vários tipos de relacionamentos, como que
[00:39:37] o afeto acaba circulando nessa, a gente acaba compreendendo o afeto diante dessa dinâmica
[00:39:43] dos relacionamentos. Só complementando a pergunta do Ankara, tem vários teóricos atualmente,
[00:39:50] como por exemplo o Bauman, que tendem a se lamentar, eu acho, uma certa decadência
[00:40:01] dos bons alures, claro que eu tô sendo extremamente grosseiro, né? Eu já tô sendo bem preconceituoso,
[00:40:07] mas a questão da modernidade líquida, poxa, não tem mais laços fortes, né?
[00:40:13] Pela certa nostalgia, né? Pois é, então, esse já é o nosso julgamento, mas, sabe, já não tem mais,
[00:40:22] digamos, referenciais sólidos da modernidade, por aí vai, e isso reflete na forma como a
[00:40:29] gente se relaciona, não só afetivamente, no sentido de casais e tudo mais, que tendem a
[00:40:37] se tornar cada vez mais abertos e tal, mas também, enfim, relações de trabalho, de amizade, por aí vai.
[00:40:42] Perfeito, perfeito, e isso, ótima essa colocação, que me permite voltar para o centro da nossa
[00:40:50] conversa e da questão dos afetos, né? Vamos pegar, por exemplo, o Bauman, né? A denúncia que
[00:40:57] tem na parte dos amores líquidos, é uma denúncia, digamos, de uma sociedade de consumo
[00:41:05] contemporânea, que eu acho uma denúncia muito boa, que, basicamente, eu resumiria da seguinte
[00:41:13] maneira, né? Enquanto que, digamos, na época, eu concordo com vocês, né? É época nostálgica,
[00:41:26] anterior a esse consumismo generalizado, você pensava assim, puxa, que bom, eu tenho um amor,
[00:41:33] né? Eu tenho alguém para chamar de meu, sei lá, alguma coisa assim. É uma família, tem uma igreja.
[00:41:40] É, bom, vamos começar pelo relacionamento amoroso, que eu acho que é mais típico,
[00:41:45] para depois fazer críticas mais pesadas a esses outros valores, né? Mas, digamos, eu tenho
[00:41:50] uma relação estável, estabelecida, bom, então eu tenho algo. O que o Bauman está tentando denunciar
[00:42:01] com uma lente de aumento, talvez, né? É que, assim, na contemporaneidade, o ter uma relação
[00:42:07] estável é vivenciado, é sentido afetivamente, como não ter todas as outras relações que eu
[00:42:16] tenho de ter ao me amarrar a uma só. Então, ao invés de pensar, eu tenho algo, é assim,
[00:42:21] eu não tenho todo o resto. Deu para entender a comparação que ele faz? É como fosse assim,
[00:42:27] vamos pensar, por que ele associa isso ao consumismo? Antigamente, é assim,
[00:42:31] puxa, que legal, eu tenho um carro, né? Hoje em dia seria assim, puxa, eu tenho um carro,
[00:42:37] isso quer dizer que eu não tenho nenhum dos outros carros que eu poderia ter.
[00:42:40] Ah, mas isso leva a uma inação, no caso. Exatamente. Então, essa virtualidade de poder ter tudo,
[00:42:50] leva a não poder, a não ter efetivamente nada. Então, isso que é um, digamos, é uma cultura
[00:43:01] do consumismo que se torna difusamente hegemônica, eu não quero ter nada,
[00:43:07] porque se eu tiver alguma coisa, isso vai ser vivenciado, não como um ganho,
[00:43:12] mas como uma perda, porque se eu me amarro em alguma coisa, eu tô deixando de ter
[00:43:17] experiências outras infinitas, corre o risco de eu não ter experiência nenhuma.
[00:43:23] Sim, é uma ansiedade. É, porque toda experiência é vivenciada como frustração,
[00:43:30] e não como aquisição ou como enriquecimento. Então, eu entendo que é isso que ele tá
[00:43:38] falando do amor líquido. Eu não tenho nenhum amor mais palpável, porque um amor palpável
[00:43:47] significa perda de experiência e não ganho de experiência, e que o risco é justamente eu
[00:43:54] não ter coisa nenhuma e ficar numa frustração muito maior. Dito isso, os livros do Bauman,
[00:44:03] além de serem um pouco variações sobre o mesmo tema, eles, se a pessoa de fato entra
[00:44:11] na afetividade do livro, das ideias dos dois livros, são livros, digamos,
[00:44:18] que se dá rapidamente, com termos simples assim, simplórios, são livros muito pessimistas.
[00:44:23] E isso é um problema, eu acho, da própria sociologia. Eu vejo assim, a sociologia faz um
[00:44:34] retrato caprichado nas tintas de problemas contemporâneos. Eu acho que isso tem a
[00:44:46] vantagem de ter um diagnóstico do presente muito eficaz e preciso, mas ela não tem o que é uma
[00:44:55] vantagem da filosofia. Digamos, a filosofia, normalmente, ela tem essa dificuldade de partir
[00:45:01] dos conceitos ou desse pensamento atemporal para se pensar o singular contemporâneo.
[00:45:06] Em compensação, ela tem a vantagem de pensar justamente para além desses dados identitários,
[00:45:14] ligados à duração, ao tempo, ao momento presente. E que, portanto, a filosofia tem um potencial de
[00:45:22] nos mostrar criativamente alternativas que, na maior parte das vezes, a sociologia não tem.
[00:45:28] Por isso que eu acho que quando um filósofo capaz, de qualidade, consegue pensar o
[00:45:34] contemporâneo, a tendência dele nunca é, como, por exemplo, seria a do Bauman nessa análise
[00:45:41] que eu estou fazendo, a de não ver saída. Ao contrário, a tendência do filósofo é sempre
[00:45:49] ver saída. Por quê? Porque a origem das saídas está numa criatividade que não
[00:45:54] depende desses dados de tempo, duração, identitários.
[00:45:58] André, desculpe, então, eu estava assistindo algumas palestras tuas e eu
[00:46:04] lembro de, em algum momento, você explica uma questão da antropologia negativa. Tem a ver
[00:46:10] com isso que você está falando agora? Tem a ver, tem a ver, exatamente. Porque a antropologia,
[00:46:19] no caso da filosofia, ela não é como a antropologia, no caso das ciências sociais,
[00:46:26] o estudo de algum grupo, seja antropologia urbana ou um grupo específico, tradicionalmente
[00:46:33] dos índios. A antropologia é assim, como se dá a gênese, ou seja, a origem do ser humano
[00:46:40] e, então, quando a gente estuda como que o ser humano é formado, o indivíduo, e aí no meu caso
[00:46:50] eu utilizo também não só a filosofia como a psicanálise, a teoria do Winnick, que estudou
[00:46:57] essa gênese do psiquismo ao estudar os bebês, enquanto psicanalista e pediário que ele foi,
[00:47:03] né? Aí fica claro essa origem imaginativa que está ligada a um potencial de criatividade,
[00:47:14] né? É outro ponto que a gente tinha falado no início. Então, a criatividade, ela é algo que
[00:47:23] surge a partir da nossa própria singularidade, mas uma singularidade no sentido incontornável.
[00:47:30] Quer queira, quer não, todos nós somos únicos e singulares. Bom, essa singularidade, se ela
[00:47:38] psiquicamente tiver se desenvolvido sem inibição, sem repressão, essa singularidade, ela vai de
[00:47:47] alguma maneira interagir de um modo, digamos, mais autoral ou mais explícito com o entorno.
[00:47:56] Esse entorno pode ser as pessoas com quem a gente convive, né? Na vida íntima, na vida social,
[00:48:02] pode ser também através da profissão, pode ser e através das mídias, né? Sim. Então,
[00:48:11] o ser criativo, isso tem a ver até com temas mais contemporâneos, como inovação, né?
[00:48:19] O ser criativo é dar vazão, mas não é algo deliberado só, né? É algo que vem desde da
[00:48:27] maternagem, né? Dar vazão a um sentimento singular, a um ver as coisas a partir de uma
[00:48:37] perspectiva singular e a interação, a comunicação dessa maneira singular de ver com o que está
[00:48:43] socialmente. Então, nós todos temos um potencial contrário a esse conservadorismo,
[00:48:52] tentando ligar todas essas questões que a gente está conversando, contrário a esse conservadorismo
[00:48:56] das massas. O conservadorismo das massas, ele é regido por uma afetividade regida pelo
[00:49:06] medo, calcada pelo medo. Então, se eu tenho medo, eu me torno conservador. Por quê? Porque
[00:49:12] eu me sinto ameaçado e então eu vou reduzir, vou inibir a minha singularidade e, portanto,
[00:49:21] a minha criatividade para não correr riscos. E vou, portanto, diminuir o que seria um desejo
[00:49:30] de expansão, de criatividade de coisas novas. Eu vou reduzir, digamos, no extremo,
[00:49:37] a um princípio de autoconservação. Autoconservação do quê? Autoconservação de um estado de coisas
[00:49:45] e de um estado pessoal. Eu vou abrir mão de uma expansão, de uma criatividade ou de novas
[00:49:51] ideias, tanto individualmente, quanto intimamente, quanto socialmente, porque eu tenho medo,
[00:49:58] eu acho que é arriscado. E é assim que eu me torno conservador, que uma pessoa se torna conservadora.
[00:50:06] Então, vamos tentar amarrar, a questão ética do conhecimento a gente pode descrever
[00:50:22] dentro desse quadro. Quanto mais eu conheço os meus afetos, menos regido pelo medo eu
[00:50:30] vou tentar, porque o medo, evidentemente, e invariavelmente, ele tá ligado à ignorância.
[00:50:36] Não é um afeto, no caso. Ele é um afeto negativo, ele é um afeto passivo. É um
[00:50:43] afeto ligado à tristeza, nos termos de Espinosa. Então, ele é um embotamento dos
[00:50:50] outros, e que tá justamente ligado ao fato de eu desconhecer o funcionamento das coisas e,
[00:51:00] portanto, me sentir mais ameaçado do que alguém que conhece a realidade e os afetos.
[00:51:06] A gente pode fazer mil metáforas simples para ajudar isso. Se eu entro num bairro que eu
[00:51:14] nunca entrei, eu vou entrar com prudência. Se eu entro numa floresta sem conhecer a floresta,
[00:51:19] eu vou talvez entrar com medo. Se eu entro não só conhecendo a floresta, como com instrumentos
[00:51:27] que me ajudam a esse conhecimento, a me sentir referenciado lá dentro e tudo mais,
[00:51:31] eu já vou entrar sem medo. Então, o conhecimento, e quando o Espinosa chama a
[00:51:37] atenção, e Nieto concorda, que eu julgo, eu interpreto o outro e o mundo a partir da
[00:51:46] como eu sou impressionado por ele, o conhecimento vai me impedir ou vai favorecer com que eu não
[00:51:56] projete os meus medos na interpretação do outro. Então, conhecer a minha maneira de me afetar
[00:52:04] a realidade e o outro também, me deixa mais seguro. Então, ao me sentir mais seguro, eu
[00:52:14] me sinto menos conservador e menos agressivo. Portanto, eu me sinto mais autorizado por mim
[00:52:28] mesmo e socialmente a ser mais criativo. Toda forma de moral e de moralismo,
[00:52:36] de pensamento fortemente identitário são maneiras de enquadrar as pessoas em certas
[00:52:45] casas, certas gavetas, compartimentos sociais, de modo a que elas se sintam
[00:52:54] minimamente seguras ali dentro e inseguras no contato com o outro, com o diferente.
[00:53:06] Então, a moral, ela regra, ela dita uma regra básica de comportamento como se ela tivesse
[00:53:16] dizendo assim, seja conservador e mantenha-se colado ao que dizem que é a sua identidade,
[00:53:25] que você vai estar seguro e combata, faça o jogo de combater o outro, a identidade diferente.
[00:53:35] Se siga modelos, ideias, categorias e tudo mais. Eu acho interessante, lembro de uma citação,
[00:53:42] uma frase bem famosa do Nietzsche, que ele fala, e é meio paradoxal, ele fala,
[00:53:47] pra viver a vida é preciso não pensar muito nela. E eu interpreto essa frase da seguinte
[00:53:54] forma, porque ela é meio paradoxal, pra viver a vida é preciso não pensar nela,
[00:53:59] a mesma forma que você vive, principalmente se pensar na conhecimento como mais potente
[00:54:04] dos afetos. Eu interpreto, assim, se a gente faz uma ideia do que significa vida,
[00:54:09] se a gente pensa nela, ou seja, reduzir ela a uma ideia, ao que a vida deveria ser,
[00:54:18] aí você deixa de viver ela. Então eu vejo daí essa aproximação que o Nietzsche
[00:54:24] faz com o Espinosa, nessa afirmação de viver, que o Espinosa, se eu não me engano,
[00:54:29] você me corrige, André, ele coloca isso nos termos de Conatos, esse desejo de vida e tal.
[00:54:38] E o que eu acho interessante, pensando novamente no contemporâneo e tal,
[00:54:42] é que há um contraste filosófico, que eu acho muito interessante particularmente,
[00:54:49] e que se reflete de uma maneira bem indireta também num contraste ético atual, que é o seguinte,
[00:54:56] a gente tem, digamos, alguns filósofos, alguns chamam de vitalistas ou afirmativos,
[00:55:03] como o Nietzsche, o Espinosa, de repente o próprio Deleuze, que são aqueles que afirmam
[00:55:09] a vida e que, enfim, a vida, digamos, vale pelo próprio desejo de ser vivida e tudo mais.
[00:55:17] Por outro lado, a gente tem alguns outros filósofos, sei lá, o mais emblemático,
[00:55:21] como me parece, o Emile Soham, a princípio, que parece dizer, não, a vida, ela deve ser negada,
[00:55:28] daí a gente tem toda uma ética negativa, ou mesmo, às vezes, se a gente quer tomar um pouco mais atrás,
[00:55:36] uma dialética negativa, que vem desde, sei lá, Orquheim, Adorno, enfim, toda uma linha,
[00:55:45] como o Sando por Hanna Arendt, que me parece, assim, que é justamente o contrário, sabe,
[00:55:51] eu vejo esse contraste que há entre, não sei se eu tô me fazendo entender,
[00:55:54] mas entre afirmação e negação da vida, do desejo de viver. Isso, eu acho, que se traduz
[00:56:04] nas condutas éticas contemporâneas, principalmente, assim, a gente tem, por um lado,
[00:56:12] uma grande indiciamento crescente de doenças diversas relacionadas à depressão, por exemplo,
[00:56:22] enfim, outras como hiperativismo, existe isso? Deve existir, né? Hiperatividade, isso.
[00:56:31] E, por outro lado, a gente também tem um imperativo de que é preciso ser feliz a qualquer
[00:56:39] coisa, assim, porque a vida é preciso, digamos, encontrar um equilíbrio e tudo o mais. Então eu
[00:56:45] vejo, sabe, uma simetria entre esses contrastes, o contraste desses imperativos de condutas éticas,
[00:56:51] assim, não, é preciso ser feliz a qualquer coisa, encontra o segredo aí da felicidade,
[00:56:57] por aí vai, e, por outro lado, a gente vê essa crescente depressividade, com o perdão
[00:57:04] do neologismo, mas aqui me parece que, de uma forma talvez bem exagerada da minha parte,
[00:57:11] simétrica essa oposição entre a afirmação e a negação da vida na filosofia.
[00:57:18] Perfeito. Então, ótimo você ter tocado nesse ponto, né? Assim, a depressão, ela tá
[00:57:26] diretamente ligada à inibição dessa criatividade que é uma expressão do nosso
[00:57:32] pensamento, da nossa própria potência individual. Então, por que a depressão é um fenômeno da
[00:57:42] contemporaneidade? Porque a contemporaneidade é fruto de uma ideologia que tá ligada à globalização
[00:57:53] de um pensamento hegemônico de fundo, inclusive ontológico do liberalismo ou do consumismo,
[00:58:04] essa hegemonia desse pensamento único, hegemônico, é um pensamento de uma produtividade
[00:58:11] sem fim. E essa produtividade, embora ela às vezes se faça em nome de um pensamento da
[00:58:20] inflação, etc, ela paradoxalmente é contrária a qualquer tipo de criatividade, em que sentido?
[00:58:27] Porque eu, segundo esse imperativo da produtividade, eu tenho que ser produtivo
[00:58:32] dentro de valores que me são impostos. Não é uma produtividade criativa ou singular que
[00:58:42] dá para as diferenças. É uma produtividade que segue certas normas e que tenta, que busca,
[00:58:49] impor no sentido mesmo de uma coação de uma certa ideologia de modo de ser. E isso se expressa
[00:58:59] justamente de uma maneira mais explícita e paradoxal, né, interessantemente paradoxal,
[00:59:08] esse imperativo da felicidade. Porque quando se pensa, eu tenho que ser feliz,
[00:59:13] eu tenho que aproveitar a vida, e isso aparece em campanhas publicitárias, as mais diversas,
[00:59:22] esse tenho que ser feliz, esse imperativo se traduz como assim, ao invés de eu valorizar
[00:59:30] as experiências corporais, eu tenho que ter um corpo perfeito, por exemplo. Numa palestra
[00:59:36] da Fé Filosófico sobre corpo e saúde na contemporaneidade, a primeira coisa que
[00:59:42] eu chamei a atenção, que para mim é fundamental, foi esse ponto. Falam que hoje existe uma sociedade
[00:59:47] que valoriza o corpo, contrariamente à sociedade dos valores do intelecto e tudo mais, mas são
[00:59:55] variações do mesmo tema. Por quê? Porque o suposto corpo que é valorizado hoje em dia
[01:00:02] é um ideal de corpo, é um corpo perfeito, ou seja, a gente permanece no mundo das ideias platônicos.
[01:00:10] Sim, porque vivem em constante busca da ideia, né? Exatamente, busca da ideia, só que agora
[01:00:20] não é uma ideia abstrata, é a ideia de um corpo, um modelo de corpo que está sendo colocado
[01:00:26] e o único que me trará felicidades, né? Que a gente dizendo assim fica evidente o quanto que é um
[01:00:32] delírio, né? E mais, e a ideia de que se eu não tiver esse corpo perfeito, aí não tem jeito,
[01:00:40] eu vou ser infeliz. Então, existe assim uma exclusividade de certos modelos ideais,
[01:00:47] de um idealismo que é ainda mais forte ou tão forte quanto o idealismo do século 20. Então,
[01:00:58] a gente está tão platônico quanto sempre esteve, nesse sentido fortemente negativo,
[01:01:04] que é de não aceitação da realidade e de não fruição da realidade. Se eu tenho uma
[01:01:12] interação com o meu corpo real e não uma submissão ao meu corpo real a esse modelo ideal
[01:01:21] de corpo, então o que vai valer é uma experiência estética da minha vida e do meu corpo.
[01:01:28] No imperativo da felicidade, no imperativo do corpo perfeito, no imperativo de uma suposta
[01:01:35] perfeita, eu estou me submetendo, eu estou submetendo o meu corpo verdadeiro, o meu corpo real,
[01:01:41] eu estou com o sentimento de que ele está aquém do que deveria estar, então eu estou gerando um
[01:01:50] mal-estar, uma frustração em relação a mim mesmo e buscando certos ideais, certos modelos
[01:01:58] ideais, certas ideias, ainda por cima acreditando que se eu não as alcançar, e que no parênteses
[01:02:04] eu poderia saber que eu não vou alcançá-las, se eu não as alcançar, não tem jeito, eu serei infeliz.
[01:02:12] Então, assim, se você entra afetivamente, se você morde essa isca afetivamente e a pressão,
[01:02:21] e aí entra a mídia, não enquanto mídia, mas enquanto o que a mídia faz hoje em dia,
[01:02:25] a pressão midiática é enorme nesse sentido e é direta e também subliminar e em vários
[01:02:34] aspectos, várias frentes, essa pessoa é muito difícil pensar como que ela não vai deprimir,
[01:02:40] né? Ela é pressionada de todos os lados, né? De todos os lados, ela está muito distante de um
[01:02:49] contato com a sua própria potência de vida. Então essas filosofias que pensam a afirmação da
[01:02:58] vida, é a afirmação da vida enquanto a vida real, a vida enquanto uma experiência estética
[01:03:04] singular, que eu vivo com a sensorialidade do meu próprio corpo. Você perfazendo as próprias,
[01:03:11] digamos, opções além daquelas que já são dadas de antemão em relação aos parâmetros e
[01:03:18] modelos estéticos. Isso, exatamente, o que o meu corpo é capaz de vivenciar, porque eu só
[01:03:25] tenho essa fonte de contato com o mundo e então, digamos, a estética e a ética,
[01:03:33] né? Ela vem de um reconhecimento, uma aceitação do que eu posso vivenciar a
[01:03:41] partir do corpo que eu tenho, da vida que eu tenho. E da realidade sensível, né, portanto?
[01:03:45] Sim, sensível, exatamente.
[01:03:56] Andreia, só para então finalizar, a gente já está com uma hora de gravação, né, Rafa?
[01:04:01] Isso.
[01:04:02] E talvez tentar sintetizar tudo. Enfim, também fique à vontade para, de repente,
[01:04:09] acrescentar alguma coisa, enfim, a gente acabou, de repente, te interrompendo e tudo mais.
[01:04:16] É ótimo, mas é ótimo que fica mais vivo, né?
[01:04:19] Mas essa questão da estética, que às vezes é elevada a uma questão idealista, como você
[01:04:31] colocou, eu preciso atingir esse patamar e tal. Eu vejo também que, assim, no sentido
[01:04:37] de uma afirmação, parece uma afirmação pseudo-afirmação da vida. Preciso afirmar
[01:04:44] uma felicidade, ou seja, um modelo de felicidade, porque essa é a opção que foi me dada e por aí vai.
[01:04:49] Por outro lado, eu também vejo um idealismo nos, digamos, conspiradores ou mesmo pessimistas,
[01:04:56] que, sei lá, emblematizado pelo filme aí da Matrix, também da década de 90, hoje eu tô
[01:05:02] com a década de 90 na cabeça, que buscam realmente encontrar o segredo ou a ordem oculta
[01:05:07] do universo, da realidade sensível, por detrás da realidade sensível, e daí tentam encontrar
[01:05:14] níveis, assim, ou sair da caverna de Platão, né? Para encontrar isso. Então eu vejo justamente,
[01:05:21] eu não sei se você concorda comigo, que infelizmente há uma mais negação. É difícil
[01:05:29] fazer esse tipo de decreto, mas realmente o que eu vejo nas narrativas contemporâneas é uma
[01:05:35] maior negação do que afirmação da realidade sensível. E daí eu volto para justamente finalizar
[01:05:42] a questão que eu fiz no início. Eu sei que eu não quero repetir ela, mas justamente para você
[01:05:47] tentar sintetizar essa questão. Uma vez que existe essa negação, que eu acho que existe,
[01:05:55] pode ser que não, da realidade sensível, como criar-se e afetar-se melhor no mundo em
[01:06:05] forma relativa, recorrente, essa de um outro mundo ideal, nem que seja, às vezes, um mundo ideal
[01:06:13] nesse próprio mundo, né? Aquelas promessas salvacionistas, de emancipação não alienante,
[01:06:20] eles não sabem o que fazem, tudo mais. Ou seja, até numa questão de educação contemporânea,
[01:06:29] o que me interessa até particularmente, como se você cria enquanto sujeito e se afeta,
[01:06:37] se deixa afetar no mundo em que aparentemente a realidade sensível é desprezada?
[01:06:45] Perfeito, perfeito. Eu diria assim, quanto mais a gente, cada um de nós, se deixar afetar
[01:06:55] completamente, pelo que é apresentado como inevitável, como incontornável,
[01:07:03] menos a gente vai se sentir bem, que a gente vai se sentir inibido e submetido a um determinismo
[01:07:12] de uma dita realidade que se impõe a nós, e no caso, uma realidade negativa que se impõe a
[01:07:19] nós. E, portanto, pior a gente vai se sentir, e menos a gente vai se permitir essa criatividade,
[01:07:31] essa ousadia. Então, eu acho que pensando em termos da educação, a educação tem que
[01:07:40] uma despertar e uma valorização dessa singularidade não inibida,
[01:07:49] que significa também uma autoconfiança. As pessoas têm que confiar nessa potência interna.
[01:07:59] Se você tem um filho, esse seu filho tem que confiar na potência interna dele,
[01:08:05] quando eu digo na sua potência interna, essa potência de ele se sentir, vamos falar em termos
[01:08:11] bem amplos, se sentir amado, se sentir valorizado, porque quando a gente se sente bem,
[01:08:18] justamente, a gente vai ter muito menos preconceito contra o diferente. A gente se
[01:08:24] sente bem, a gente vai ter muito mais força e vai acreditar muito mais em nós mesmos para
[01:08:29] nos levar a algo diferente para o mundo, uma contribuição para melhorar o mundo,
[01:08:35] digamos. Ao contrário, quanto mais a gente se sentir ameaçado por uma realidade concreta,
[01:08:48] como inevitável, mais a gente vai usar nossas energias para se defender desse outro ameaçador.
[01:08:55] Então, pensando na questão da mídia, por exemplo, o próprio funcionamento da economia
[01:09:08] é sempre negativo, é sempre negativista, sempre dessa ordem de um pessimismo generalizado
[01:09:16] onde tudo vai piorar. E não só, a mídia, de um modo geral, tende, por interesse financeiro,
[01:09:25] quer dizer, na base também calcada por esse pessimismo da economia, a criar, a tentar
[01:09:33] manipular, em geral ser bem sucedido em relação a isso, os afetos numa certa direção que
[01:09:38] interesse e que dê um retorno financeiro para os grupos que estão com esse poder
[01:09:44] de manipulação da informação. Então, por outro lado, as mídias de denúncia disso,
[01:09:55] com frequência elas caem nesse sentimento conspiratório e acabam participando dessa mesma
[01:10:03] produção de negatividade. Então, quando eu estou falando numa contraposição a isso,
[01:10:09] não é num alto engano, o que eu estou dizendo é que é justamente o mais importante a gente entender
[01:10:17] que a vida, o mundo e a realidade, ela renasce, tem até uma frase que circulou pelo Facebook,
[01:10:30] ela renasce, uma frase do Mandela, ela renasce em cada pessoa que nasce,
[01:10:35] porque ela nasce, não é pura, ela nasce a partir de um conatos individual, de uma potência individual
[01:10:44] que ainda não está inibida. Então, ela renasce criativa a cada novo nascimento. Então, o quanto
[01:10:54] mais a sociedade, a educação, a mídia contra-hegemônica, a filosofia tem um papel
[01:11:03] importante, como eu disse, a sociologia também, mas a sociologia ela tende a ficar mais com a
[01:11:09] parte da denúncia e menos com a parte da criação, da alternativa, quanto mais se puder ter esse
[01:11:17] conhecimento, que esse sim é o mais potente dos afetos, esse conhecimento do quê? Do nosso
[01:11:23] potencial criativo. Isso tende a gerar não uma ideia, não necessariamente uma ideia autótica de
[01:11:33] ah, o mundo vai mudar, não, porque os afetos passivos, negativos e tristes também continuam
[01:11:39] se reproduzindo, mas isso ajuda a ter uma clareza, e eu tenho que usar uma clareza, tanto de
[01:11:47] pensamento quanto intelectual, uma clareza de que o que importa é a gente se afetar bem,
[01:11:56] a gente se afetar sem se sentir ameaçado, conseguir regir a nossa vida a partir de,
[01:12:05] não de uma ameaça, mas a partir de um sentimento de fruição da existência,
[01:12:13] e que isso é o caminho de criatividade para se sentir melhor, seja em que ambiente for,
[01:12:22] por pior que seja um ambiente, e aí eu diria que a gente vai inclusive descobrir que o ambiente
[01:12:28] não é tão ruim, por pior que seja, a gente vai descobrir que a vivência afetiva é que importa,
[01:12:36] né? A gente tem exemplos radicais, mas a tendência é as pessoas pensarem,
[01:12:39] examinarem, mas ele é um gênio, mas ele é uma exceção, o próprio Mandela que ficou 27
[01:12:45] anos preso, ao invés dele sair com ressentimento de quem o prendeu, ele saiu para revolucionar
[01:12:52] a sociedade que o prendeu, junto com quem o prendeu, acreditando que essas pessoas
[01:12:59] poderiam pensar de outra maneira, e isso foi possível, né? Então, esses exemplos que são
[01:13:07] pontuais de coisas que parecem impossíveis, eles partem de uma potência criativa de afetar-se,
[01:13:17] sem, a partir de uma disposição do próprio corpo ligada à potência da vida e da existência,
[01:13:24] e não determinada por essas marcas externas. Voltando para a teoria da imaginação de Espinosa,
[01:13:32] quanto menos a gente projetar no fora o que esse fora tenta dizer para a gente,
[01:13:38] como um determinismo da tristeza, um determinismo, enfim, dos afetos ruins,
[01:13:45] da crueldade, etc, etc, e mais a gente reconhecer a crueldade, os afetos tristes,
[01:13:51] como uma realidade, mas uma realidade que não necessariamente vai me atingir,
[01:13:57] essencialmente, mas eu posso, a partir dessa fonte inesgotável de vida que é cada indivíduo,
[01:14:06] eu posso me afetar bem, e ainda por cima contribuir para que outros também se afetem
[01:14:11] bem, ou seja, afetando os outros, de uma maneira criativa, sim, sim.
[01:14:20] André, muito bom, eu agradeço realmente imensamente, Ankara, também obrigado pela
[01:14:29] companhia, pelas excelentes intervenções. André, enfim, eu espero que você tenha gostado
[01:14:39] e sinta-se, sei lá, já convidado para próximas vezes, se você tiver disponibilidade,
[01:14:45] e enfim, para afetar um pouco mais nossos ouvintes aqui.
[01:14:51] Maravilha, Marcos, eu queria agradecer o convite, já aceito publicamente o convite
[01:15:00] de todos vocês, é realmente um prazer para mim essa conversa, foi muito agradável e fico feliz
[01:15:08] de participar, justamente de usar uma mídia, uma mídia bem contemporânea, o podcast, para
[01:15:17] ajudar a gente a pensar melhor e fazer do conhecimento uma ilusão de que as coisas não
[01:15:27] são uma vida, mas ao contrário, o mais potente dos afetos internos, não?
[01:15:32] Legal, muito obrigado mesmo, enfim, espero que vocês, os ouvintes, tenham gostado,
[01:15:37] espero também fazer logo os próximos episódios, obrigado novamente a vocês e
[01:15:44] ficamos por aqui, digam tchau.
[01:15:46] Naquilo é para mandar um abraço para os ouvintes também, e para vocês.
[01:15:50] Valeu, então um abraço, até mais, gente, tchau.
[01:16:27] Eu amo a filha da Virgina
[01:16:30] Eu amo ela, eu realmente amo ela
[01:16:34] Eu amo ela, eu realmente amo ela
[01:16:38] Eu amo ver você na terra cheia de cor
[01:16:41] De qualquer forma, as pessoas amam o mundo
[01:16:45] Ela não perca o diamante, ela não perca o barulho
[01:16:48] E eu, eu, eu, eu
[01:16:51] Eu perco o barulho
[01:16:55] Eu perco o barulho
[01:16:57] Eu perco o barulho
[01:16:59] Eu perco o barulho
[01:17:01] Eu perco o barulho
[01:17:03] Eu perco o barulho
[01:17:05] Eu perco o barulho
[01:17:07] Eu perco o barulho
[01:17:09] Eu perco o barulho
[01:17:11] Eu perco o barulho
[01:17:13] Eu perco o barulho
[01:17:15] Eu perco o barulho
[01:17:17] Eu perco o barulho
[01:17:19] Eu perco o barulho
[01:17:21] Eu perco o barulho
[01:17:53] E eu fui na mão
[01:17:55] Anyway, she told people I go with the flow
[01:17:58] She told where she came from and then she told where she came from
[01:18:01] I heard, that’s why I love her, feel me
[01:18:04] I go, I go, I go, I go, I go
[01:18:20] Love to see when she walk and pose
[01:18:24] Fancy rose to match her clothes
[01:18:27] Channel, I really love her so
[01:18:31] Channel, I really love her so
[01:18:34] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:18:38] I’m speaking, speaking, ah, ah, ah
[01:18:42] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:18:45] I am dreaming, dreaming
[01:19:18] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:19:34] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:19:37] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:19:41] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:19:44] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:19:48] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:19:52] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:19:55] I’m the vegan, the vegan, ah, ah
[01:19:59] E que você seja realista
[01:20:29] E que você seja realista