#04 Machado de Assis, Filósofo Brasileiro


Resumo

O episódio investiga a tese de que Machado de Assis pode ser considerado um filósofo, indo além de sua reconhecida grandeza literária. A discussão é conduzida pelo professor Rogério de Almeida, que ministrou uma disciplina sobre o “imaginário trágico de Machado de Assis” na USP. O ponto de partida é questionar se a obra machadiana expressa um pensamento filosófico próprio, distanciando-se da visão tradicional que o via apenas como um escritor influenciado por filósofos pessimistas como Schopenhauer.

O núcleo da “filosofia machadiana” é apresentado como um pensamento trágico estruturado em três coordenadas fundamentais: o nada, o acaso e a convenção. O nada se refere à origem e destino finais da existência, à constatação de que viemos do nada e para lá retornamos. O acaso é entendido como o princípio gerador sem causa ou razão, o grande “caldeirão” ou caos que embaralha elementos e gera encontros felizes ou infelizes. A convenção é o arranjo provisório e sempre mutável que surge desses encontros, abrangendo desde as leis da natureza até as normas sociais.

Para ilustrar esse pensamento, é analisado em detalhes o capítulo “O Delírio” de Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde o protagonista, em estado delirante, encontra a figura de Pandora, representação da Natureza com um rosto de “vontade imóvel” e “eterna surdez”. Essa passagem sintetiza a visão de um mundo indiferente, sem ouvido divino que nos escute, onde a vida brota e perece de maneira impassível. A discussão também contrasta a recepção de Schopenhauer por Machado e Nietzsche, argumentando que Machado, como Nietzsche, fez uma correção ao pensador alemão, rejeitando a metafísica da Vontade única e afirmando a vida a despeito de seu caráter absurdo e doloroso.

O episódio ainda conecta o pensamento trágico de Machado a questões contemporâneas de educação e ética. Argumenta-se que uma pedagogia inspirada nessa visão não seria utópica nem buscaria eliminar o negativo da existência, mas sim ensinar a aprovar a vida incondicionalmente, compreendendo sua fatalidade e extraindo dela o “maior bem do maior mal”. A conversa também tangencia temas como niilismo, a ilusão da felicidade e a contradição humana, fechando com a ideia de que afirmar a existência, com tudo que há de problemático nela, é um ato de liberdade radical e de alegria trágica.


Indicações

Artigos

  • O Delírio de Brás Cubas, síntese do pensamento filosófico machadiano — Artigo do professor Rogério de Almeida, mencionado como material de apoio que aprofunda a análise do capítulo central de Memórias Póstumas de Brás Cubas e sua importância para entender a filosofia de Machado.

FilóSofos

  • Arthur Schopenhauer — Frequentemente citado como uma influência inegável em Machado de Assis, especialmente suas ideias sobre a vontade, o absurdo do mundo e o pessimismo. A discussão explora como Machado teria feito uma “correção” ao pensamento de Schopenhauer, rejeitando a metafísica da Vontade única.
  • Friedrich Nietzsche — Apresentado como um pensador cuja filosofia trágica e afirmação da vida são muito próximas à visão encontrada em Machado de Assis, embora não tenham tido contato direto. Ambos teriam lido Schopenhauer e feito escolhas semelhantes ao rejeitar o pessimismo lamentoso em favor da aprovação incondicional da existência.

Livros

  • Memórias Póstumas de Brás Cubas — Obra fundamental de Machado de Assis, analisada em profundidade, especialmente o capítulo “O Delírio”, considerado a síntese de seu pensamento filosófico sobre o nada, o acaso e a convenção.
  • O Alienista — Conto de Machado de Assis mencionado como exemplo claro da noção de convenção, questionando os limites entre sanidade e loucura e mostrando como essas definições são social e historicamente construídas.

Linha do Tempo

  • 00:03:34Apresentação da questão central: Machado de Assis como filósofo — Os participantes introduzem o tema do episódio: investigar se e como Machado de Assis pode ser considerado um pensador filosófico, além de seu legado literário. Rogério de Almeida contextualiza historicamente a crítica que relaciona Machado à filosofia, mencionando Afrânio Coutinho e Miguel Reale, e antecipa que defenderá a tese de que, sob certas condições, Machado é sim um filósofo, alinhado a uma tradição de pensamento trágico.
  • 00:12:43Definição das três coordenadas do trágico: nada, acaso e convenção — A discussão retoma as três ideias centrais que definem o imaginário trágico em Machado de Assis, conforme trabalhado na disciplina do Rogério. O nada é a condição de onde tudo vem e para onde tudo vai. O acaso é o princípio sem causa que origina a existência. A convenção são os arranjos provisórios (sociais, naturais) que surgem desses encontros casuais. Juntas, essas noções formam a base de uma “sabedoria trágica” que aprova a vida apesar de sua fatalidade.
  • 00:34:29Análise do capítulo “O Delírio” de Memórias Póstumas de Brás Cubas — Rogério de Almeida analisa detalhadamente o capítulo “O Delírio”, considerado a síntese do pensamento filosófico machadiano. Nele, Brás Cubas, em estado delirante, é levado ao início dos tempos e encontra Pandora, uma representação da Natureza com um rosto de “vontade imóvel” e “eterna surdez”. A passagem descreve a indiferença absoluta da natureza, que não ouve nem fala, e para a qual dar ou tirar a vida não faz diferença. O capítulo é colocado como um delírio justamente para que o autor possa “tirar o seu da reta” ao expor essa visão crua da existência.
  • 00:54:49A visão da história e da humanidade no delírio de Brás Cubas — É lido e comentado o trecho em que Pandora mostra a Brás Cubas o desfile dos séculos. A humanidade é descrita como “flagelada e rebelde”, correndo eternamente atrás da “quimera da felicidade”, uma figura feita de retalhos do impalpável e do improvável. A dor e o prazer são apresentados como faces da mesma moeda, sendo o prazer uma “dor bastarda”. A visão é a de uma história cíclica, onde todos os dados da existência já estão dados e apenas se rearranjam em convenções novas, sem progresso linear ou sentido transcendente.
  • 01:07:41A crônica “O Autor de Si Mesmo” e a correção machadiana a Schopenhauer — É discutida a crônica “O Autor de Si Mesmo”, na qual Machado relata o caso verídico de um menino de dois anos devorado por galinhas. Na narrativa, o menino pergunta a Schopenhauer o porquê de seu sofrimento, e o filósofo responde que a culpa foi sua, por sua “vontade de nascer”. Os participantes argumentam que, mais do que uma simples assimilação, Machado está fazendo uma correção irônica a Schopenhauer, destacando o acaso brutal da existência em oposição a uma Vontade metafísica transcendente. A vida surge de impulsos (desejo sexual, vontade de vida) sem propósito, e pode ser destruída com igual indiferença.
  • 01:24:41Aprovação incondicional da existência e suas implicações éticas — A conversa aborda a objeção do “ouvinte revoltado”: como aprovar uma existência que inclui horrores como o tráfico de mulheres? A resposta, alinhada a Nietzsche, é que a aprovação trágica é incondicional e não resignada. Aprovar a existência não significa ser conivente com a crueldade, mas reconhecer que o “aspecto ruim” é constitutivo e não superável por completo. O valor da vida é intrínseco a ela, não derivado de uma verdade ou ideal externo. A ação no mundo para melhorar as condições de vida é compatível com essa afirmação, desde que não seja pautada pela ilusão de erradicar totalmente o sofrimento ou transformar a fatalidade das coisas.
  • 01:35:39Educação a partir do pensamento trágico e considerações finais — Os participantes refletem sobre que tipo de educação poderia emergir de uma filosofia trágica como a de Machado. Seria uma educação não utópica, que ensinasse a viver a vida da melhor maneira possível precisamente porque ela é efêmera, dolorosa e única. Inspirada no Renascimento, mostraria que a única coisa que temos é a vida, e que a felicidade não vem da eliminação do problemático, mas de afirmar a vida apesar e com tudo isso. O episódio se encerra reforçando que pensar “o pior” é um exercício para testar e fortalecer a aprovação da vida, que mesmo nos momentos mais dolorosos, uma alegria de estar vivo pode persistir.

Dados do Episódio

  • Podcast: Não Obstante
  • Autor: Marcos Beccari
  • Categoria: Society & Culture Philosophy
  • Publicado: 2015-03-07T08:05:00Z
  • Duração: 01:44:51

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Você está ouvindo, não obstante, um podcast sobre filosofia, design e outras ficções.

[00:00:12] Começando mais um Não Obstante, milagrosamente seguindo a periodicidade mensal pela primeira

[00:00:38] ou não, depende de se o Filipe conseguir fazer a edição dentro do prazo, mas o que interessa

[00:00:46] é que a gente está novamente com o meu amigo Daniel Portugal, esse nosso nobre duque luso

[00:00:52] brasileiro recém chegado das terras anglo-saxônicas, diga oi Daniel, olá, já voltou com sotaque

[00:01:05] e como convidado especial contamos novamente com a companhia do professor Rogério de Almeida

[00:01:15] da USP, diga oi Rogério, olá, prazer estar de volta, muito obrigado, é sempre uma honra

[00:01:21] pra gente a sua participação e uma garantia de prestígio aos nossos ouvintes, hoje eu

[00:01:28] estou em época de alhecerado. Bom, a gente vai falar hoje sobre Machado de Assis, filósofo

[00:01:43] brasileiro, esse é o título do nosso Não Obstante número 4, e a escolha desse

[00:01:48] tema se deu por conta de uma disciplina ministrada pelo Rogério na USP na pós-graduação

[00:01:55] de educação que eu tive a oportunidade de assistir ano passado e o título da disciplina

[00:02:01] é o imaginário trágico de Machado de Assis, elementos para uma pedagogia da escolha,

[00:02:07] então foi uma das melhores aulas que eu já assisti na vida e é resultado, o Rogério

[00:02:16] me corrige se tiver errado, de uma pesquisa financiada pela FAPESP no período de

[00:02:22] 2010 a 2012, é isso? É, perfeitamente, perfeitamente, 2010 a 2012, isso mesmo.

[00:02:29] Isso, então eu lembro que por meio da leitura semanal de uma série de contos de Machado

[00:02:35] de Assis, a gente refletia durante as aulas sobre o dado trágico que constitui o que

[00:02:41] se poderia chamar, talvez polemicamente ou não, de uma filosofia machadiana.

[00:02:47] Sim, sempre com uma certa dose de polêmica, mas dá para sustentar sob algumas condições

[00:02:55] essa afirmação. E é isso que a gente vai tentar fazer, aquilo que o Rogério na

[00:03:01] aula dele chamava de um imaginário trágico de Machado de Assis, que era expresso

[00:03:06] pelas noções de acaso e convenção, basicamente. Caso, nada e convenção.

[00:03:11] É, nada, exatamente. Tinha três ideias que definiriam o trágico. Isso, como condição

[00:03:16] da escolha de uma provação incondicional da existência, certo? Perfeitamente.

[00:03:23] Então vamos para a pauta.

[00:03:34] Será que a gente pode ver Machado de Assis, que todo mundo, todo brasileiro

[00:03:39] praticamente conhece como grande figura literária, também como pensador e filósofo?

[00:03:45] E se sim, de que maneira? De que modo? O que ele pensaria nesse caso?

[00:03:51] Isso. Em primeiro lugar, então, já entrando na pauta, se a filosofia que a gente está

[00:03:58] chamando aqui, ela foi entendida como uma busca racional e elevada e privilegiada

[00:04:04] Na verdade, com V maiúsculo, que rege o mundo verdadeiro por detrás das aparências

[00:04:09] supérfluas, é evidente que Machado de Assis não poderia ser chamado de filósofo.

[00:04:14] Por outro lado, também é evidente que há, na sua obra, no mínimo uma expressão

[00:04:19] filosófica que se manifesta pela relativização das referências de sentido de verdade,

[00:04:26] pelo questionamento das crenças, pela adesão às circunstâncias, pelo reconhecimento

[00:04:31] do espetáculo, da força das opiniões e das convenções sociais, principalmente pela

[00:04:36] afirmação do caráter efêmero da vida, das contradições humanas e da conjunção

[00:04:42] da coincidência entre uma realidade indiferente e nossa vontade de viver essa realidade.

[00:04:47] Sendo assim, preciso, antes de tudo, selecionar quais coordenadas que nos permitem

[00:04:53] enxergar Machado de Assis como um filósofo.

[00:04:57] Então, Rogério, como você apresentaria o Machado de Assis enquanto filósofo?

[00:05:03] Essa questão é bastante interessante porque, de certo modo, o interesse pela crítica

[00:05:09] em apontar uma relação da obra do Machado com a filosofia já data de um bom tempo.

[00:05:15] Afrânio Coutinho, por exemplo, dizia que o Machado havia se aproveitado,

[00:05:23] portanto, sido influenciado pelas leituras que fez e citaria aí, basicamente, pra sua

[00:05:29] afirmação, Schopenhauer e Pascal. E, no entender, obviamente, do Afrânio Coutinho,

[00:05:37] o Machado teria, digamos assim, utilizado o pensamento desses filósofos justamente

[00:05:44] pra dar vazão a um sentimento que ele nutria de, digamos, insatisfação diante da vida,

[00:05:53] ressentimento mesmo, como se o Machado odiasse a vida. Essa é a expressão do

[00:05:58] Afrânio Coutinho. Depois, surgem discussões em relação à questão de se há uma filosofia

[00:06:05] de Machado de Assis ou uma filosofia na obra de Machado de Assis, se é só

[00:06:11] uma questão de influência, se é uma questão, enfim. Essa discussão surgiu e aí

[00:06:15] o Miguel Reale aparece com a filosofia na obra de Machado de Assis. E aí ele vai

[00:06:19] mostrando de que maneira ela aparece, por exemplo. Muitas vezes a filosofia aparece

[00:06:24] quando o Machado diz que tava lá um asno, tava lá um burro pensando, ou tava lá

[00:06:30] um burro, um asno com a sua filosofia. Ou então, por exemplo, o próprio Quincas

[00:06:36] Borba que aparece com a filosofia do humanitismo. E a gente sabe que o Quincas

[00:06:43] Borba estava naquele momento completamente louco. Então, a filosofia aparece na obra

[00:06:49] do Machado, muitas vezes pela porta dos fundos, de maneira chocosa, de maneira

[00:06:53] humorada. No entanto, o que eu procurei mostrar é que, sob algumas condições,

[00:07:02] o Machado de Assis, sim, é filósofo. Por quê? Porque ele tem, digamos, um

[00:07:07] pensamento que estaria alinhado a alguns outros pensadores. Então, eu mostro, por

[00:07:13] exemplo, que é inegável a influência que ele recebeu de Schopenhauer, como,

[00:07:17] por exemplo, o próprio Nietzsche recebeu, mas que, na verdade, ele teria

[00:07:21] uma filosofia muito mais próxima da filosofia nitiana em relação ao aspecto

[00:07:26] trágico. Agora, nem Nietzsche conhecia Machado, nem Machado conhecia Nietzsche,

[00:07:30] eles eram contemporâneos, mas ambos leram muito bem Schopenhauer. Um outro

[00:07:37] ponto é que, se a gente entender que o pensamento trágico, ele aparece em

[00:07:42] várias filosofias, por exemplo, o Baltasar Graciã, século 17, por

[00:07:49] exemplo, na Antiguidade, no Crécio, por exemplo, antes mesmo, de Sócrates,

[00:07:55] como o Sophistas, se a gente pensar, enfim, nas várias insurgências do

[00:08:03] trágico, seja na literatura, que é onde ele nasce, seja na mitologia,

[00:08:09] por exemplo, pensando aqui no Deus Dioniso, que encena o ritual trágico,

[00:08:15] então, todos esses autores, o próprio Pascal, de certa forma, são autores

[00:08:22] que expressaram um pensamento trágico e o Machado de Assis estaria filiado

[00:08:27] a isso. Daí vem a necessidade de dizer o que é, então, esse pensamento

[00:08:31] trágico. Embora a gente tenha antecipado um pouco naquele não

[00:08:37] obstante número dois e o um também, né? Mas no dois, principalmente.

[00:08:43] Isso. Mas, enfim, de fato é interessante a gente contextualizar

[00:08:47] tanta filosofia trágica e eu diria um pouco do próprio Machado de

[00:08:51] Assis, que é um autor do século 19, né? Perfeito. Marcado pela

[00:08:56] ascensão social, justamente. Ele também tinha esse ressentimento,

[00:09:01] que o Rogério falou, ele era mestizo. Eu acho que essa é a única

[00:09:05] ensina no ensino médio a respeito dele, que ele era mulato, não é isso?

[00:09:11] É, ele tinha uma série de adversidades, era mulato, né? E era epilético também.

[00:09:18] Isso, isso. Gago e epilético. Ele é gago. Era gago, epilético e mulato

[00:09:27] numa sociedade escravocrata. A despeito disso, enfim, por meio de apadeiamentos,

[00:09:34] ele consegue iniciar a carreira numa tipografia, né? Aí ele passa a escrever,

[00:09:41] depois ele entra no funcionalismo público e aí, enfim, segue mais ou

[00:09:47] menos a carreira de outros tantos e tantos escritores, né? De então,

[00:09:52] de antes e de depois, que é ter um emprego, digamos, no funcionalismo

[00:09:58] público, mais burocrático, tudo, e ele teve, enfim, uma ascensão

[00:10:03] do fundo do funcionalismo e uma carreira literária que foi, é importante

[00:10:08] que se diga, reconhecida em vida, né? Isso, muitas vezes, por exemplo,

[00:10:14] o Nietzsche teve a sua obra ali muito tempo depois. Fernando Pessoa,

[00:10:19] a obra foi reconhecida muito tempo depois. Kafka, a obra foi reconhecida muito tempo

[00:10:23] depois. No caso Machado, ele gozou em vida do reconhecimento tanto que foi,

[00:10:29] enfim, aclamado presidente da Academia Brasileira de Letras, que ele ajudou a

[00:10:34] fundar e recebeu livros, inclusive um livro muito crítico da sua obra,

[00:10:41] em vida, né? Não é qualquer autor que recebe um livro dedicado à análise da sua

[00:10:46] obra ainda em vida. Então, Machado foi reconhecido um grande escritor na

[00:10:52] época em que viveu e desde então praticamente não tem dificuldades em se

[00:10:58] sustentar como o melhor escritor brasileiro. E ele chegou a trabalhar como

[00:11:03] tipógrafo, é isso que você disse? Isso, ele começou ainda, ele vendia doces,

[00:11:09] o pai dele era pedreiro, né? Ele vendia doces e foi coroinha, isso é um dado

[00:11:17] interessante. Nossa, ele estava inserido lá no meio religioso. Dizem que

[00:11:25] aprendeu francês com uma senhora para quem ele vendia doces, então às vezes ele

[00:11:30] ficava um tempo ali escondido ouvindo as aulas dela de francês. Certamente

[00:11:36] aprendeu latim na igreja como coroinha e depois ele, enfim, começou a

[00:11:43] escrever no jornal e aí foi profuncionalizado no público. E ele teve

[00:11:48] contato com pelo menos Chopin-Auer, a filosofia da obra de Chopin-Auer.

[00:11:53] Sem dúvida, a filosofia de Chopin-Auer, de Pascal. Montaigne também não?

[00:12:01] Montaigne, Lucretio e os moralistas do século XVIII.

[00:12:18] Isso é um dado interessante, mas ainda assim eu diria que as coordenadas

[00:12:24] que a gente chegar a chamar ele de filósofo ainda poderiam ser, sei lá,

[00:12:31] melhor organizadas. Eu acho interessante a gente retomar, talvez, porque é muito

[00:12:37] sintético o que a gente falou no começo, aquelas três coordenadas que a gente

[00:12:43] viu muito nessa disciplina que o Rogério ministrou, que é os dados do nada,

[00:12:50] do acaso e da convenção. Então, Rogério, o que são essas três?

[00:13:00] Antes de o Rogério responder, vale a pena citar que o Rogério tem um artigo

[00:13:04] sobre o tema também que se chama O Delírio de Brás Cubas,

[00:13:09] síntese do pensamento filosófico machadiano e que vai estar na postagem

[00:13:14] para o pessoal acessar, que vai ajudar a refletir sobre o tema e estar ligado

[00:13:20] ao que o Rogério falar agora.

[00:13:22] Obrigado.

[00:13:23] Provavelmente eu acho que tem mais outros artigos, né, Rogério?

[00:13:27] Tem, eu agradeço a lembrança do Daniel e tem o último artigo que eu

[00:13:35] publiquei, ele trata especificamente sobre a questão da relação entre

[00:13:42] a educação, né, a pedagogia da escolha, mas passa obviamente pelo trágico e eu

[00:13:46] faço ali uma síntese, um arrasoado dessa definição de trágico.

[00:13:53] Enfim, é fácil também de encontrar esse material no meu site, enfim,

[00:13:59] depois pode deixar o link também.

[00:14:01] A gente coloca na postagem.

[00:14:05] Basicamente, né, qual seria a definição do trágico?

[00:14:10] Clément, você vai dizer que a ligação entre a alegria de existir e o caráter

[00:14:14] trágico da existência.

[00:14:16] Então, de certo modo, o pensamento trágico nos levaria a uma sabedoria

[00:14:25] trágica, que seria, justamente, compreender o caráter, digamos, de

[00:14:32] fatalidade da existência.

[00:14:34] Se você compreende isso, quer dizer, se você adota, aceita isso, então,

[00:14:40] de certo modo, essa aprovação te liberaria para a alegria de existir.

[00:14:45] É importante dizer que não a alegria no sentido mais momentâneo do termo,

[00:14:50] estou alegre, estou triste, não nesse sentido, mas no sentido de se aprovar

[00:14:55] a vida a despeito de todas as contrariedades, principalmente racionais,

[00:15:01] em relação a ela.

[00:15:03] Ou seja, a vida é breve, ela não tem um sentido em si, ela é dada gratuitamente,

[00:15:09] nós existimos por acaso.

[00:15:13] Diante dessas circunstâncias, dessa situação, você aprova a sua existência.

[00:15:21] Esse trágico é, então, nada, por quê?

[00:15:24] Porque tudo veio do nada, quer dizer, é o acaso que origina as coisas,

[00:15:30] e também para onde tudo vai.

[00:15:34] Tudo vai.

[00:15:36] A gente pode também dizer que Machado de Assis é filósofo no conceito de Deleuze,

[00:15:43] que é o criador de conceitos, e ele cria dois muito interessantes,

[00:15:47] um é a eterna surdez e o outro é a vontade imóvel.

[00:15:51] Isso identificaria a natureza, então qual é a natureza do mundo,

[00:15:57] qual é a existência do mundo?

[00:16:00] A vontade imóvel, ou seja, é uma vontade que não leva a lugar nenhum,

[00:16:05] portanto que não transcende nada, não tem nenhum fundo metafísico,

[00:16:11] e uma eterna surdez.

[00:16:13] Eu acho que essa é uma imagem importante, porque é um conceito que nos ajuda a entender

[00:16:18] quando a gente diz o nada.

[00:16:20] Por que que seria essa eterna surdez?

[00:16:22] Bom, uma pessoa religiosa, por exemplo, ela reza,

[00:16:26] ela acredita que aquilo que de algum modo ela está dizendo,

[00:16:32] pedindo, dirigindo em oração, será levado para algum ouvido que ouvirá isso.

[00:16:40] E ele está dizendo que não, não há, nenhum ouvido nos ouve.

[00:16:45] E o mesmo ele acaba dizendo também,

[00:16:48] para quem tem um viés, digamos, mais cientificista,

[00:16:52] ou mesmo um viés mais ligado ao ateísmo,

[00:16:55] bom, então, de alguma forma não há um Deus que nos ouve,

[00:17:01] mas existe, por exemplo, uma racionalidade no mundo,

[00:17:05] existe algo, digamos, uma inteligência no mundo,

[00:17:09] e que nós estaríamos acessando essa inteligência do mundo

[00:17:13] por meio da nossa descoberta de sentidos,

[00:17:17] ou da nossa fala, ou aquilo que normalmente se chama conhecimento.

[00:17:21] Então o nosso conhecimento desvendaria o mundo

[00:17:24] e chegaríamos, portanto, a ser ouvidos, entre aspas, aqui,

[00:17:28] por essa inteligência com a qual dialogaríamos.

[00:17:32] Para o trágico, isso também, para o machado, isso não existe.

[00:17:36] É uma eterna surdez mesmo, ou seja, nós fazemos barulho.

[00:17:40] E olha, essa eterna surdez não teria a ver com,

[00:17:44] eu estou pensando de Schopenhauer,

[00:17:46] com aquela vontade de ver maiúsculo da natureza

[00:17:51] que ele, enfim, de certa forma, descreve como um inconsciente

[00:17:56] e, portanto, meio surdo assim.

[00:17:58] É cega, pelo menos.

[00:18:00] Sem dúvida alguma, concordo com vocês,

[00:18:03] é inegável a influência de Schopenhauer em machado,

[00:18:06] mas eu acho que tanto machado quanto Nietzsche fizeram a seguinte decisão

[00:18:10] em relação ao Schopenhauer.

[00:18:12] Bom, a primeira coisa que eu queria dizer de Schopenhauer,

[00:18:14] Schopenhauer não é meramente um filósofo pessimista,

[00:18:18] que eu acredito que é o cuio moral que as pessoas tomam de Schopenhauer para atacá-lo.

[00:18:23] Então, Schopenhauer não é um filósofo,

[00:18:25] ele é um escritor de grandes qualidades,

[00:18:27] mas que tinha uma visão pessimista da vida.

[00:18:30] Me parece que o Schopenhauer está por detrás dos grandes pensadores do século XX,

[00:18:39] que vão despontar ali no XIX para o XX.

[00:18:43] Então, eu não acredito, por exemplo,

[00:18:45] que pudesse haver Freud e o pensamento freudiano sem Schopenhauer,

[00:18:50] o mesmo, por exemplo, vale para Nietzsche.

[00:18:54] E para machado.

[00:18:56] E para machado, obviamente.

[00:18:58] Muito antes, por exemplo, de Kafka ou de Camus,

[00:19:02] quem vai falar que o mundo é absurdo é o Schopenhauer.

[00:19:06] E ele é absurdo por quê?

[00:19:08] Não estaria, digamos, submetido a nenhuma racionalidade.

[00:19:16] A racionalidade é um produto, uma capacidade, uma faculdade,

[00:19:19] pode se chamar como quiser, mas é humano.

[00:19:23] A racionalidade é humana.

[00:19:25] A vontade seria justamente essa liberdade radical,

[00:19:27] a qual a gente não tem acesso,

[00:19:29] ou tem acesso só através da vontade em nós.

[00:19:32] Perfeito, perfeito.

[00:19:33] Agora, qual é a mudança que faz tanto Nietzsche,

[00:19:35] no meu modo de entender, também machado?

[00:19:38] O Schopenhauer, ele diz que há uma vontade,

[00:19:43] que ele vai dizer, como bem lembrou Beccari, com V maiúsculo,

[00:19:46] há uma vontade que essa vontade, de certo modo,

[00:19:49] seria, digamos, essa máquina que impulsionaria a existência.

[00:19:55] Que há uma vontade, que há vontades, isso me parece inegável.

[00:20:00] O Nietzsche chama disso de força.

[00:20:03] E aqui, no machado, aparece como vontade imóvel.

[00:20:07] Ou seja, uma vontade que residiria, por acaso mesmo, nas pessoas.

[00:20:14] Vontade de vida.

[00:20:15] Mas não que ela teria, por exemplo, um V maiúsculo,

[00:20:18] no sentido de ser externa a nós mesmos.

[00:20:22] Eu acho que foi ali que o Schopenhauer falhou,

[00:20:26] porque, de alguma forma, ele deixou a porta dos fundos aberta

[00:20:31] para que a metafísica voltasse.

[00:20:34] Então, para o machado, por que a vontade é imóvel?

[00:20:39] Porque ela é incapaz de gerar movimento,

[00:20:43] no sentido, vamos dizer assim, mais profundo,

[00:20:46] de uma transformação, ou daquilo que a gente chamaria de telos.

[00:20:50] Um encaminhamento para uma solução no futuro, algo do gênero.

[00:20:54] Quer dizer, é como se nós tivéssemos,

[00:20:56] num cenário de escuridão e silêncio,

[00:20:59] o enrompimento da vida,

[00:21:02] sob as suas formas mais plurais possíveis,

[00:21:05] e dentre essas formas plurais,

[00:21:07] nós tivéssemos a nossa condição,

[00:21:09] a nossa existência humana.

[00:21:12] E que, por acaso, também,

[00:21:14] ela seria dotada de uma série de atributos.

[00:21:17] Não estou negando aqui todo o evolucionismo que chegou nisso,

[00:21:21] mas o evolucionismo também seria obra do acaso,

[00:21:24] nas suas mutações, e não de algum plano prévio,

[00:21:27] para se chegar a um formato específico de existência.

[00:21:30] E que, mais cedo ou mais tarde,

[00:21:32] enfim, essa forma de existência

[00:21:34] também deixa de existir como todas as outras.

[00:21:37] A gente poderia dizer, em primeiro lugar,

[00:21:40] com relação ao nada,

[00:21:42] que seria, sei lá,

[00:21:44] uma forma de se nomear esse absurdo,

[00:21:48] de uma constatação de que,

[00:21:50] antes de a gente nascer,

[00:21:52] a gente era esse nada, para se dizer,

[00:21:54] ou não ser.

[00:21:56] E, ao mesmo tempo,

[00:21:58] a nossa condição,

[00:22:00] a nossa condição,

[00:22:02] a nossa condição,

[00:22:05] ou não ser.

[00:22:07] E, ao mesmo tempo, simultaneamente,

[00:22:09] a gente constata que a gente está destinado

[00:22:11] a retornar a este nada,

[00:22:13] que é essa condição de não ser,

[00:22:15] sendo que o próprio ser

[00:22:17] já é um conceito extremamente contraditório

[00:22:20] no decorrer da história da filosofia,

[00:22:22] já que o próprio ser

[00:22:25] está em meio a uma infinidade de possibilidades

[00:22:29] que essa comparação entre um infinito

[00:22:33] que é constatado,

[00:22:35] esse ser se torna irrisório, por assim dizer.

[00:22:37] É, mas nesse ponto que eu acho que tem a ver

[00:22:39] com Schopenhauer, no sentido de que

[00:22:41] se você, quando não é,

[00:22:43] justamente não é um, não tem unidade,

[00:22:45] e se quando você é alguém,

[00:22:47] você continua a ser, se não ser nada,

[00:22:49] é nesse ponto,

[00:22:51] exatamente, é nesse ponto que me parece

[00:22:53] que existe a vontade de cumprir maiúsculo,

[00:22:55] que ela liga tudo

[00:22:57] no sentido de que ela não está

[00:22:59] dentro da…

[00:23:01] a ela não vale a unidade,

[00:23:03] ela está além

[00:23:05] do muitos ou do poucos.

[00:23:07] É, esse acho que seria a questão ali.

[00:23:10] Então, a meu ver,

[00:23:14] me corrijam se estiver errado,

[00:23:15] vocês que leram mais Schopenhauer do que eu,

[00:23:17] mas essa vontade com ver maiúsculo,

[00:23:19] ela me parece como um contraponto,

[00:23:21] de certa forma, justificador,

[00:23:23] ou justificante,

[00:23:26] de uma qualificação que ele dá como absurda

[00:23:29] em relação a essa constatação.

[00:23:31] Então, sabe como assim, bom,

[00:23:33] a existência é absurda porque é isso, né?

[00:23:35] A gente é um ser potencialmente nada,

[00:23:37] provendo nada,

[00:23:39] e daí é um absurdo,

[00:23:41] ou seja, já tem uma…

[00:23:43] um caráter de lamentação.

[00:23:45] Pô, que coisa, né?

[00:23:49] Esse nada e tal.

[00:23:51] É, até porque o grande fim ético

[00:23:53] seria justamente conseguir negar a vontade,

[00:23:55] chegar ao nada.

[00:23:57] Eu acho que sim, né?

[00:23:59] Tem esse fim,

[00:24:01] essa coisa que você poderia fazer no final

[00:24:03] e chegar ao redentão do público.

[00:24:05] É nesse sentido, inclusive,

[00:24:07] de redenção que eu vejo,

[00:24:09] talvez de uma maneira, sei lá,

[00:24:11] extremamente leiga e tudo mais, grosseira,

[00:24:13] mas o conceito de vontade

[00:24:15] com ver maiúsculo do Schopenhauer,

[00:24:17] que é uma forma de negação desse nada.

[00:24:19] Ou não, estou errado.

[00:24:21] Não, eu acho que sim,

[00:24:23] que pode ser dito dessa forma,

[00:24:25] mas há,

[00:24:27] no meu modo de entender,

[00:24:29] uma questão que eu acho que é fundamental.

[00:24:31] É como se o Schopenhauer

[00:24:33] olhasse para a obra do Kant

[00:24:35] e dissesse assim,

[00:24:37] não, não é isso,

[00:24:39] o homem não é esse senhor

[00:24:41] da razão,

[00:24:43] ele está submetido

[00:24:45] a forças incontroláveis,

[00:24:47] que depois com Freud vai ficar mais claro

[00:24:49] que seriam as forças do inconsciente,

[00:24:51] mas o Schopenhauer é o primeiro a abrir

[00:24:53] espaço para esse pensamento,

[00:24:55] nós estamos submetidos

[00:24:57] a forças incontroláveis,

[00:24:59] que não são forças racionais,

[00:25:01] são as nossas paixões,

[00:25:03] que nos ligam à vida,

[00:25:05] e não propriamente

[00:25:07] a razão específica para viver.

[00:25:09] Só que quando o Schopenhauer

[00:25:11] constata isso, ou seja,

[00:25:13] quando ele olha para o nada

[00:25:15] e ele percebe que, enfim,

[00:25:17] a única coisa que nos resta

[00:25:19] é essa vontade,

[00:25:21] essa vontade de vida,

[00:25:23] ele lamenta, então ele diz assim,

[00:25:25] Kant estava errado,

[00:25:27] que pena,

[00:25:29] eu queria tanto que ele estivesse certo,

[00:25:31] então é daí que viria,

[00:25:33] por exemplo, o pessimismo

[00:25:35] do Schopenhauer,

[00:25:37] não necessariamente porque

[00:25:39] ele, digamos,

[00:25:41] acredita que as coisas não vão melhorar,

[00:25:43] é porque ele de alguma forma

[00:25:45] constata que nada vai para lugar nenhum

[00:25:47] e ele lamenta essa constatação,

[00:25:49] a diferença, por exemplo, para o Niet,

[00:25:51] ou, no meu modo de entender, para o Machado também,

[00:25:53] mas acho que Niet, isso é mais forte,

[00:25:55] é, sim, Kant estava errado,

[00:25:57] nós não somos senhores

[00:25:59] da nossa razão, é uma força,

[00:26:01] é uma vontade

[00:26:03] que nos

[00:26:05] anima,

[00:26:07] o Niet vai chamar essa vontade

[00:26:09] de potência,

[00:26:11] a vontade de poder mesmo,

[00:26:13] quer dizer,

[00:26:15] essa vontade de for, de exercer,

[00:26:17] de se afirmar pela vida,

[00:26:19] e no entanto,

[00:26:21] ele vai dizer que isso

[00:26:23] é ótimo, porque é isso que nós temos,

[00:26:25] então, por exemplo,

[00:26:27] eu estou finalizando o livro

[00:26:29] sobre o Machado, eu espero ainda

[00:26:31] lançar no final desse ano,

[00:26:33] a gente pode depois até falar sobre isso,

[00:26:35] se ficar pronto,

[00:26:37] mas tirando a parte aqui

[00:26:39] de Merchan, eu abro

[00:26:41] o livro com uma epígrafe,

[00:26:43] que é a arte de viver

[00:26:45] que consiste em tirar o maior bem

[00:26:47] do maior mal, isso é o Machado de Assis,

[00:26:49] quer dizer, apesar

[00:26:51] de todas as circunstâncias

[00:26:53] adversas

[00:26:55] da vida, extrair disso o maior bem,

[00:26:57] ou seja, quando o Machado diz

[00:26:59] a arte de viver consiste em tirar

[00:27:01] o maior bem do maior mal,

[00:27:03] esse bem e mal aqui é relativo,

[00:27:05] no sentido Nietiano mesmo, de além

[00:27:07] do bem e do mal, ou seja, como

[00:27:09] uma

[00:27:11] circunstância

[00:27:13] que nos é nada, que nos é nada, que é a vida,

[00:27:15] e que eu posso tentar extrair dessa circunstância

[00:27:17] aquilo que é melhor para mim,

[00:27:19] aquilo que de alguma maneira

[00:27:21] é melhor dentro da ordem

[00:27:23] da convenção, por isso que

[00:27:25] junto da ideia de nada,

[00:27:27] para a gente não ficar também só preso a esse

[00:27:29] conceito, vem

[00:27:31] a de acaso e convenção,

[00:27:33] acaso é algo muito simples de compreender,

[00:27:35] porque o acaso é aquilo que não se justifica,

[00:27:37] o acaso é aquilo que não se explica,

[00:27:39] que não tem causa,

[00:27:41] então, quer dizer,

[00:27:43] aquilo que surge

[00:27:45] espontaneamente, vamos

[00:27:47] dizer isso em relação, por exemplo,

[00:27:49] a existência que seria aí no caso

[00:27:51] o mais interessante, porque óbvio, a gente

[00:27:53] pode estabelecer relações de causa e efeito

[00:27:55] desde uma

[00:27:57] construção, desde a construção,

[00:27:59] uma construção sintática, por exemplo,

[00:28:01] isso aconteceu,

[00:28:03] saí de guarda-chuva porque estava

[00:28:05] chovendo, então estabeleço uma relação de causa,

[00:28:07] o porquê aí

[00:28:09] ajuda a estabelecer isso,

[00:28:11] mas não é nesse aspecto,

[00:28:13] por exemplo, que o acaso entraria,

[00:28:15] mas ele entraria justamente como

[00:28:17] o acaso constitutivo da existência,

[00:28:19] então é a ideia de que

[00:28:21] desse nada

[00:28:23] de onde tudo

[00:28:25] vem, de onde tudo vai, quer dizer, esse nada

[00:28:27] que no fundo é aquilo que

[00:28:29] é a

[00:28:31] existência,

[00:28:33] ele enrompe

[00:28:35] a partir do acaso,

[00:28:37] a existência rompe a partir do acaso,

[00:28:39] e aí, obviamente,

[00:28:41] essa

[00:28:43] existência se dá por meio de

[00:28:45] convenções. Então essa é a parte

[00:28:47] que eu acho, pelo menos

[00:28:49] pra mim foi a mais complicada,

[00:28:51] ela é complicada mesmo, porque as convenções

[00:28:53] de pelo menos relacionar com tudo isso

[00:28:55] que a gente estava falando até agora.

[00:29:03] Se a convenção não é só uma convenção

[00:29:05] social, por exemplo,

[00:29:07] porque quando a gente fala convenção,

[00:29:09] as pessoas imediatamente imaginam,

[00:29:11] então nós temos as leis da natureza

[00:29:13] e nós temos as convenções sociais.

[00:29:15] Não. Aquilo que se chama

[00:29:17] leis da natureza é uma

[00:29:19] convenção também.

[00:29:21] Ou seja,

[00:29:23] digamos que se você

[00:29:25] fizer as contas

[00:29:27] de trás pra frente,

[00:29:29] e dizer o seguinte, pra terra

[00:29:31] existir, foi preciso

[00:29:33] que ocorresse

[00:29:35] uma conjunção de fatores

[00:29:37] ímpar

[00:29:39] no mundo pra que

[00:29:41] se formasse oxigênio,

[00:29:43] pra que se formasse água, pra que a temperatura

[00:29:45] fosse ideal pra nossa existência, etc.

[00:29:49] Por que existiu

[00:29:51] esse tipo de circunstâncias?

[00:29:53] Seria por acaso, o acaso

[00:29:55] mistura tudo, ele embaralha

[00:29:57] tudo. O acaso seria

[00:29:59] portanto um grande caldeirão,

[00:30:01] ou aquilo que os gregos chamavam de caos.

[00:30:03] Então,

[00:30:05] esse caos inicial

[00:30:09] é que estaria ligado

[00:30:11] a uma ideia de acaso,

[00:30:13] ou seja, de experimentações

[00:30:15] sem controle,

[00:30:17] sem uma razão específica, portanto

[00:30:19] como você disse, sem uma causa

[00:30:21] anterior, que

[00:30:23] no embaralhamento

[00:30:25] dos seus

[00:30:27] elementos, gerasse a existência

[00:30:29] e portanto, com o passar do tempo

[00:30:31] e todos os

[00:30:33] esdobramentos que foram

[00:30:35] dados por acúmulo,

[00:30:37] e também ainda funcionando esse aspecto

[00:30:39] do acaso,

[00:30:41] esse aspecto casual da existência,

[00:30:43] nós chegássemos, portanto, à existência.

[00:30:45] Esse movimento

[00:30:47] todo, que a gente poderia chamar

[00:30:49] de natureza, por exemplo,

[00:30:51] a chuva, o sol, enfim, são convenções.

[00:30:53] Em que sentido?

[00:30:55] São encontros

[00:30:57] felizes

[00:30:59] dados pelo acaso.

[00:31:01] Vamos pensar o seguinte,

[00:31:05] os dinossauros foram

[00:31:07] um encontro feliz,

[00:31:09] provisoriamente feliz,

[00:31:11] um encontro do acaso,

[00:31:13] um encontro feliz, provisoriamente feliz.

[00:31:15] Por quê? Porque deixou de existir,

[00:31:17] ou seja, as condições

[00:31:19] para que a existência se mantivesse

[00:31:21] deixaram de existir.

[00:31:23] Então, por exemplo,

[00:31:25] tudo aquilo que não existe

[00:31:27] ou que não veio a existir

[00:31:29] seriam os encontros

[00:31:31] infelizes.

[00:31:33] Estou pensando aqui um pouco na linha do epicuro,

[00:31:35] um pouco na linha do lucrés,

[00:31:37] então os átomos vão se juntando,

[00:31:39] vão se encontrando, e aí você tem,

[00:31:41] digamos, encontros felizes

[00:31:43] que geram uma convenção,

[00:31:45] e encontros infelizes

[00:31:47] que não geram nenhuma convenção.

[00:31:49] Se a gente pensar no aspecto humano,

[00:31:51] é da mesma forma, nós nos reunimos,

[00:31:53] por exemplo, nós três,

[00:31:55] e aí dizemos, bom, esse programa

[00:31:57] vai durar com tempo, vai durar

[00:31:59] uma hora, não, vai durar 40 minutos,

[00:32:01] enfim, a gente faz uma discussão aqui,

[00:32:03] todas as nossas ideias,

[00:32:05] digamos, vai durar 24 horas,

[00:32:07] enfim, a ideia caiu,

[00:32:09] porque é uma ideia infeliz,

[00:32:11] ou seja, não houve encontro

[00:32:13] com absolutamente nada.

[00:32:15] Ninguém…

[00:32:17] Nós chegamos a lugar…

[00:32:19] Se você está disposto a falar por 24 horas,

[00:32:21] muito menos ninguém está disposto a ouvir por 24 horas.

[00:32:23] Então você chega à condição aí

[00:32:25] de uma hora, mais ou menos,

[00:32:27] porque também, né, não tem…

[00:32:29] O programa não tem patrocinador

[00:32:31] que interrompe a nossa grade

[00:32:33] da programação,

[00:32:35] e por aí vai.

[00:32:37] Tem que ter debate de candidato, assim,

[00:32:39] mas para e porta.

[00:32:41] Eu já queria interromper

[00:32:43] rapidamente, assim,

[00:32:45] pensando em encontro infeliz,

[00:32:47] que vai aqui o nosso ouvinte revoltado,

[00:32:49] que diria o seguinte,

[00:32:51] mas o acaso e o nada,

[00:32:53] não são convenções também?

[00:32:55] São, são convenções

[00:32:57] para, digamos, dar conta da convenção

[00:32:59] e do acaso.

[00:33:01] Porque você tem de alguma forma,

[00:33:03] digamos, assim,

[00:33:05] de saciar a nossa vontade

[00:33:07] de compreender as coisas

[00:33:09] e de explicar.

[00:33:11] Então, quando…

[00:33:13] Mas de onde nós viemos,

[00:33:15] para onde nós vamos,

[00:33:17] nós não estamos fazendo absolutamente nada,

[00:33:19] nós viemos do nada, nós vamos para lugar algum.

[00:33:21] Então, o que nós temos é esse intervalo.

[00:33:23] Bom, mas e a minha indignação

[00:33:25] com a injustiça do mundo?

[00:33:27] Bom, faça

[00:33:29] bom proveito dela,

[00:33:31] porque se você de alguma forma

[00:33:33] utilizá-la como

[00:33:35] uma retórica de lamentação,

[00:33:37] isso não vai mudar

[00:33:39] absolutamente nada.

[00:33:45] Bom, Rogério,

[00:33:47] é sobre esses temas,

[00:33:49] esse acaso, natureza e tal,

[00:33:51] nesse seu artigo dele,

[00:33:53] o de Brás Cubas,

[00:33:55] eu acho que você mostra,

[00:33:57] discute a respeito dele de uma maneira muito legal

[00:33:59] a partir de um capítulo

[00:34:01] desse livro do Machado,

[00:34:03] que eu acho sensacional,

[00:34:05] que é o memória exposta do Brás Cubas.

[00:34:07] Só para relembrar, o livro é narrado

[00:34:09] por um morto, o Brás Cubas

[00:34:11] está morto e ele narra a vida dele

[00:34:13] de uma maneira

[00:34:15] meio distanciada,

[00:34:17] bem interessante.

[00:34:19] E aí, de repente, você poderia usar

[00:34:21] agora esse livro para falar, acho que fica

[00:34:23] interessante nessa relação

[00:34:25] que você faz.

[00:34:27] Para ilustrar, se você puder fazer isso.

[00:34:29] Posso, posso. Eu vou começar com uma

[00:34:31] historinha bem breve,

[00:34:33] mas que, digamos, vai tirar um pouco

[00:34:35] do peso de falar,

[00:34:37] do memória exposta do Brás Cubas.

[00:34:39] Enfim, ver a aula

[00:34:41] durante muito tempo

[00:34:43] de literatura para o ensino fundamental

[00:34:45] e de leitura para o fundamental.

[00:34:47] E tanto no fundamental

[00:34:49] eu li a Machado com os alunos,

[00:34:51] e no médio também.

[00:34:53] Um pouco como também eu faço na pós-redação.

[00:34:55] Eu tenho o hábito de ler

[00:34:57] o autor, não simplesmente

[00:34:59] falar dele.

[00:35:01] Se nós tivéssemos aqui tempo,

[00:35:03] se fossem às 24 horas

[00:35:05] de programa, eu leria também

[00:35:07] para os leitores, mas eu acho que a

[00:35:09] questão do Daniel é importante.

[00:35:11] Em uma das aulas, eu dizia,

[00:35:13] os alunos falavam, ah, Machado, nós não gostamos

[00:35:15] de Machado, por quê? Ah, fica muito chato,

[00:35:17] aquela linguagem é

[00:35:19] difícil e ele está falando de questões

[00:35:21] muito sérias. E eu dizia para eles,

[00:35:23] bom, vocês não têm a…

[00:35:25] Isso, vocês não têm a chave

[00:35:27] para entender Machado. Vamos

[00:35:29] pegar algumas chaves. A primeira é do humor.

[00:35:31] Até a gente começou a ler o livro

[00:35:33] e aí eu dizia assim, olha, ele começa

[00:35:35] dizendo que não sabe se vai narrar suas histórias

[00:35:37] como fez Moisés

[00:35:39] pelo começo ou pelo final.

[00:35:41] Mas como o Moisés

[00:35:43] começou pelo começo, então ele

[00:35:45] ia começar pelo final, que era narrando a sua morte.

[00:35:47] Já começa aí… É hilário, o livro é hilário.

[00:35:49] Muito hilário. Já começa aí

[00:35:51] duas piadas. A primeira é se

[00:35:53] comparar com

[00:35:55] com Deus.

[00:35:57] Depois ele vai voltar a falar

[00:35:59] sobre isso. Mas assim, sobre o

[00:36:01] patriarca

[00:36:03] do Velho Testamento,

[00:36:05] portanto que serve tanto

[00:36:07] para os judeus quanto para os

[00:36:09] católicos. Então essa primeira comparação

[00:36:11] que é muito divertida. E o segundo lugar

[00:36:13] ele vai narrar a própria morte.

[00:36:15] E aí ele diz que

[00:36:17] havia

[00:36:19] 11 pessoas no seu enterro.

[00:36:21] E aí os alunos pararam,

[00:36:23] olharam e eu falei assim, pensem aqui qualquer um

[00:36:25] de vocês, entendeu? Se qualquer um de

[00:36:27] nós morresse hoje

[00:36:29] ou amanhã, no mínimo nós teríamos

[00:36:31] 100 pessoas chorando no nosso enterro.

[00:36:33] No mínimo. E olhe lá que nós não somos

[00:36:35] pessoas notáveis,

[00:36:37] célebres, nada disso. Agora,

[00:36:39] para um homem que tentou ser célebre, como Brás Cubas,

[00:36:41] ter 11 pessoas

[00:36:43] no seu enterro,

[00:36:45] é algo risível. E aí ele diz,

[00:36:47] de maneira muito bem humorada,

[00:36:49] que um deles,

[00:36:51] ele diz assim, bom, a cresce que chovia.

[00:36:53] Então lá, as pessoas não foram no meu enterro porque também estava garoando.

[00:36:55] Não era garoa fina, mas estava

[00:36:57] garoando. E aí um dos

[00:36:59] seus amigos diz,

[00:37:01] a natureza parece chorar

[00:37:03] a morte, a perda

[00:37:05] deste ente tão querido.

[00:37:07] E aí ele diz, não, não me arrependo de ter

[00:37:09] deixado 11 apólices para

[00:37:11] ele de herança. E aí eu dizia lá pros alunos,

[00:37:13] olha, 11 apólices é como se fossem

[00:37:15] 11,

[00:37:17] enfim, 11 títulos, é como se fossem

[00:37:19] enfim, ações de uma bolsa de valores.

[00:37:21] Então, portanto, ele está deixando

[00:37:23] herança, está deixando dinheiro pra esse amigo.

[00:37:25] E aí vem a primeira questão, a fala

[00:37:27] do amigo, é interessada ou desinteressada?

[00:37:29] Bom, é totalmente interessada.

[00:37:31] Mas é uma fala que remonta a quê?

[00:37:33] Remonta ao romantismo.

[00:37:35] A natureza teria

[00:37:37] um dentro, um si,

[00:37:39] teria, portanto, um sentimento

[00:37:41] e ela externaria isso

[00:37:45] por meio da chuva

[00:37:47] ou do sol, que seria o sentimento

[00:37:49] da natureza. Bom, pra aquela

[00:37:51] eterna surdez,

[00:37:53] a gente sabe o quanto há de ironia aí.

[00:37:55] Até chegar, claro, na Marcela,

[00:37:57] que amou por tantos contos de réis

[00:37:59] e algumas semanas.

[00:38:01] Essa parte é ótima. É ótima também.

[00:38:03] E aí quando os alunos começaram a perceber

[00:38:05] isso, então eles

[00:38:07] despiram daquela

[00:38:09] seriedade, daquela aura de seriedade

[00:38:11] que envolve o Machado de Assis por ser

[00:38:13] o nosso principal descretor, etc, etc, etc.

[00:38:15] E começaram a compreender

[00:38:17] o que é que de fato

[00:38:19] ele está fazendo. E o que ele está fazendo

[00:38:21] o tempo todo é rindo

[00:38:23] da sua

[00:38:25] existência. Ah, tem uma questão

[00:38:27] de classe, óbvio que tem.

[00:38:29] Ele está rindo também

[00:38:31] da classe

[00:38:33] capitalista, conservadora,

[00:38:35] etc, etc. Eu acho que o

[00:38:37] Chivares mostrou um pouco isso.

[00:38:39] Mas, por outro lado,

[00:38:41] ele está rindo da própria existência.

[00:38:43] E ele tem algo que é muito

[00:38:45] que é um privilégio, que é

[00:38:47] ter vivido a vida e depois

[00:38:49] fazer comentários

[00:38:51] dessa vida vivida. E os comentários

[00:38:53] sempre, ou quase sempre

[00:38:55] desmentem

[00:38:57] os interesses

[00:38:59] confessados durante a vida.

[00:39:01] Ou seja, nós agimos

[00:39:03] por uma vontade

[00:39:05] que não se pode confessar.

[00:39:07] Por isso que ele precisa ser um

[00:39:09] autor difunto.

[00:39:11] Um difunto autor, pra ser mais

[00:39:13] exato. Uma visão postuma,

[00:39:15] no caso. Perfeito. Ele precisa morrer

[00:39:17] pra poder dizer, entre aspas, a

[00:39:19] verdade, ou seja, os interesses

[00:39:21] desses reais que moviam

[00:39:23] as suas ações

[00:39:25] e que, portanto, estariam

[00:39:27] no limite,

[00:39:29] desvinculado de todo

[00:39:31] princípio,

[00:39:33] digamos, mais racional.

[00:39:35] Quer dizer, é uma

[00:39:37] vontade, vamos dizer assim,

[00:39:39] de poder.

[00:39:41] Ele quis

[00:39:43] ser ministro, ele quis

[00:39:45] ser célebre,

[00:39:47] ele quis fazer o emplasto pra ser

[00:39:49] uma pessoa famosa, ele quis

[00:39:51] escapar do anonimato

[00:39:53] da

[00:39:55] existência e ter um instante,

[00:39:57] um instante sequer de brilho.

[00:39:59] E ele fracassou nisso.

[00:40:01] Ele diz isso no final, eu fracassei, eu não consegui.

[00:40:03] Mas é muito sintomático, por exemplo,

[00:40:05] que ele não tenha

[00:40:07] querido casar com a

[00:40:09] Virgínia. Depois, quando a Virgínia

[00:40:11] vai casar com

[00:40:13] outro, o lobo

[00:40:15] Antunes, não, lobo Nervis,

[00:40:17] desculpa, eu fiz confusão com o autor

[00:40:19] português, quando ela vai se casar com o lobo

[00:40:21] Nervis, depois

[00:40:23] de ela estar casada,

[00:40:25] ele vai e a conquista,

[00:40:27] cometendo, portanto, adultério, e ele

[00:40:29] volta pra casa dizendo, é minha.

[00:40:31] Ela é minha.

[00:40:33] Quer dizer, é essa vontade

[00:40:35] que aqui a gente

[00:40:37] não deve confundir muito rapidamente

[00:40:39] com amor, mas pode ser expresso com amor,

[00:40:41] que tá

[00:40:43] vinculado aí à ideia

[00:40:45] de poder.

[00:40:49] Então, especificamente

[00:40:51] sobre o capítulo que o

[00:40:53] Daniel mencionou,

[00:40:55] eu acho ele fundamental,

[00:40:57] e também é um capítulo que

[00:40:59] nos dá informações muito contrárias.

[00:41:01] Ele se chama o Delírio, é o capítulo

[00:41:03] 7 do livro.

[00:41:05] O livro, ele apresenta a morte

[00:41:07] dele, depois ele

[00:41:09] conta esse delírio, depois

[00:41:11] o delírio, ele dá um salto

[00:41:13] para o nascimento.

[00:41:15] E a gente poderia dizer aí, portanto,

[00:41:17] que o livro tem um prólogo,

[00:41:19] que é essa

[00:41:21] abertura do instante da morte.

[00:41:23] Se a gente pensar num filme,

[00:41:25] é aquele instante do filme

[00:41:27] que antecede a última cena.

[00:41:29] Então, a gente tem

[00:41:31] ali o momento em que ele vai morrer,

[00:41:33] o momento em que ele morre,

[00:41:35] depois nós temos como se fosse

[00:41:37] um retorno ao início,

[00:41:39] que vai seguir linearmente do

[00:41:41] nascimento até a sua morte.

[00:41:43] E o final do livro vem

[00:41:45] portanto com um epílogo, que seria

[00:41:47] o balanço que ele faz da vida,

[00:41:49] que ele diz que saiu

[00:41:51] com um ganho, um saldo,

[00:41:53] porque se ele não foi famoso de um lado,

[00:41:55] não foi célebre, não foi ministro,

[00:41:57] não se casou, por outro

[00:41:59] lado também, ele não precisou ganhar

[00:42:01] a vida com o suor

[00:42:03] do trabalho, porque ele era um capitalista,

[00:42:05] então ele pode, digamos, levar a vida

[00:42:07] no sossego, isso não é pouca coisa.

[00:42:09] É da punição.

[00:42:11] E ele diz que saiu com saldo

[00:42:13] da vida, né, no finalzinho, ele diz que saiu com saldo,

[00:42:15] que é o fato de ele não ter tido nenhum

[00:42:17] filho, portanto não ter levado

[00:42:19] adiante a nossa miséria,

[00:42:21] ou seja, o reconhecimento

[00:42:23] de fato de que a vida é

[00:42:25] sofrimento, sobretudo

[00:42:27] dor, sobretudo

[00:42:29] sofrimento, desmentindo, portanto,

[00:42:31] o que vai aparecer no humanitismo

[00:42:33] na fala do Kinkas Borba.

[00:42:35] Mas voltando a esse capítulo

[00:42:37] central do livro, eu chamo de central

[00:42:39] justamente porque ele está nesse momento em que ele

[00:42:41] encerra a morte e faz o grande

[00:42:43] salto para o nascimento,

[00:42:45] o Brás Cubas diz

[00:42:47] inicialmente que ele vai narrar o seu

[00:42:49] delírio, portanto

[00:42:51] não é para nós nos fiarmos

[00:42:53] no que ele vai dizer, porque o que ele vai dizer é uma

[00:42:55] bobagem, ou seja, é um delírio, é obra

[00:42:57] de uma mente insana que está

[00:42:59] delirando prestes a morrer.

[00:43:01] Ou seja, como se fosse tirar o seu da

[00:43:03] reta. Totalmente, totalmente.

[00:43:05] Falar uma besteira, por exemplo.

[00:43:07] E o Machado já tinha tirado dele ao colocar

[00:43:09] a autoria do livro na voz

[00:43:11] do Brás Cubas, que já é

[00:43:13] uma autoria. Duas vezes.

[00:43:15] Mas ele diz uma outra coisa,

[00:43:17] assim, leitor, se você que quer ação,

[00:43:19] que quer, enfim, tramo, não precisa

[00:43:21] esse capítulo, esse capítulo não

[00:43:23] é o capítulo importante.

[00:43:25] E essa coisa da insanidade, é bom lembrar que é

[00:43:27] também uma constante na obra do Machado de Assis,

[00:43:29] no alienista também, sempre tem a discussão

[00:43:31] de se o insano, de repente, está mais próximo

[00:43:33] de uma suposta verdade.

[00:43:35] Perfeito.

[00:43:37] A fala do Daniel

[00:43:39] absolutamente importante, porque a gente poderia

[00:43:41] justamente entender a convenção como

[00:43:43] esse

[00:43:45] conto alienista, como um

[00:43:47] exemplo claro da convenção.

[00:43:49] Não existe loucura, não existe

[00:43:51] sanidade. Embora a gente

[00:43:53] reconheça ali os

[00:43:55] insanos por um comportamento

[00:43:57] desviante. Mas toda vez que você tenta

[00:43:59] dizer onde é que esse comportamento desvia,

[00:44:01] a única coisa que nós temos é a convenção,

[00:44:03] ou seja, está-se convencionado que

[00:44:05] devemos agir de tal forma.

[00:44:07] Se agirmos de outra maneira, isso

[00:44:09] seria, portanto, loucura.

[00:44:11] Só que essa loucura, digamos,

[00:44:13] seria tão cambiável, e acho que Foucault

[00:44:15] mostrou isso, essa loucura seria tão

[00:44:17] cambiável que nós não teríamos,

[00:44:19] de modo algum,

[00:44:21] condições de dizer que a loucura

[00:44:23] é loucura. Então, essa

[00:44:25] relatividade

[00:44:27] extrema que aparece no

[00:44:29] alienista, somado com a questão

[00:44:31] da vontade de poder, a gente

[00:44:33] não deve esquecer o farmacêutico e o

[00:44:35] açogueiro que vão disputar

[00:44:39] o comando da cidade,

[00:44:41] mostra

[00:44:43] claramente essa ideia de convenção.

[00:44:45] Agora, voltando pro

[00:44:47] delírio,

[00:44:49] depois de dizer que é um capítulo sem nenhuma

[00:44:51] importância, enfim,

[00:44:53] que é só um delírio, que o leitor

[00:44:55] pode saltar, etc., ele escreve uma das páginas

[00:44:57] mais belas e mais importantes da nossa

[00:44:59] literatura. A lenda dizia

[00:45:01] que

[00:45:03] S. Dickeirosus sabia o capítulo de Cori,

[00:45:05] declamava pra quem quisesse ouvir.

[00:45:07] Sempre que se fala de um machado

[00:45:09] filósofo,

[00:45:11] imediatamente se faz referência

[00:45:13] a esse capítulo do delírio.

[00:45:15] Então, olha como ele é argiloso,

[00:45:17] ele coloca a sua

[00:45:19] filosofia, digamos assim, sintetizada

[00:45:21] num capítulo que é um

[00:45:23] delírio e que pode ser saltado pra leitura

[00:45:25] do livro. Na verdade, aí estaria

[00:45:27] o pensamento, no modo

[00:45:29] de Dickeirosus entender, sintetizado

[00:45:31] no Machado de Assis. Por quê? Porque

[00:45:33] a despeito do

[00:45:35] elemento fantástico da narrativa,

[00:45:37] ele volta,

[00:45:39] enfim, no lombo de um hipopótamo

[00:45:41] até o início dos tempos,

[00:45:43] até antes do início dos tempos,

[00:45:45] onde tudo é branco,

[00:45:47] branco, branco, branco e gelado,

[00:45:49] e lá aparece Pandora.

[00:45:51] Portanto, é um capítulo

[00:45:53] que trata de um mito,

[00:45:55] o mito da primeira mulher, e aí essa

[00:45:57] primeira mulher, portanto, doadora

[00:45:59] da vida humana, é a Pandora

[00:46:01] que aparece na figura de uma

[00:46:03] gigantesca,

[00:46:05] uma mulher gigantesca,

[00:46:07] uma natureza gigantesca,

[00:46:09] que mostra

[00:46:11] que o seu prazer reside

[00:46:13] justamente, que é um prazer cruel,

[00:46:15] que o seu prazer reside justamente

[00:46:17] em distribuir

[00:46:19] as dores pra existência.

[00:46:21] E também

[00:46:23] as dores e as alegrias, vamos dizer

[00:46:25] desse modo.

[00:46:27] Muito interessante que

[00:46:29] quando ela suspende,

[00:46:33] quando o Brás Cubas, enfim,

[00:46:35] delirando, conversa com ela,

[00:46:37] ela diz, eu sou sua mãe, sou

[00:46:39] inimiga, e ele diz, não, mas isso

[00:46:41] não é possível, você não pode

[00:46:43] ser minha inimiga, você

[00:46:45] me deu a vida, me deu amor

[00:46:47] pela vida, você não pode tirar a vida,

[00:46:49] ela diz que não faz diferença absolutamente alguma,

[00:46:51] dar ou tirar a vida,

[00:46:53] e aí ele pede um tempo a mais,

[00:46:55] eu quero que todos nós pedimos,

[00:46:57] bom, tudo bem, já que eu vou ter que morrer,

[00:46:59] pelo menos me dá mais um tempo, e ela pergunta

[00:47:01] justamente pra quê,

[00:47:03] pra aumentar, quer dizer, elevar um pouco

[00:47:05] mais a dose de dores e

[00:47:07] sofrimento que a vida, de certo

[00:47:09] modo, oferece.

[00:47:11] É interessante, essa

[00:47:13] deusa tem o quê das deuses

[00:47:15] da fertilidade, talvez,

[00:47:17] mitologias como Seltra e tal,

[00:47:19] que é isso, né? Tem três caras,

[00:47:21] por exemplo, uma que é da mãe,

[00:47:23] outra da mãe, da inimiga, que é a

[00:47:25] morte, que é assim por essa mistura.

[00:47:27] Mas eu acho que ela assume

[00:47:29] mais um aspecto da inimiga,

[00:47:31] de uma coisa mais indiferente.

[00:47:33] É, mas é isso mesmo, a morte

[00:47:35] como indiferente, como inimiga,

[00:47:37] é esse o ponto.

[00:47:39] É isso mesmo, e aí é a vontade imóvel.

[00:47:41] Por que vontade imóvel? Porque

[00:47:43] vamos dizer assim, a natureza, ela

[00:47:45] incessantemente

[00:47:47] se renova.

[00:47:49] Então, a vida, digamos, brota

[00:47:51] a todo o instante.

[00:47:53] Só que ela brota de maneira

[00:47:55] absolutamente indiferente.

[00:47:57] Ou seja, ela brota na mesma, vamos

[00:47:59] dizer assim, na mesma proporção

[00:48:01] que a morte.

[00:48:03] Então, é sofrimento,

[00:48:05] alegria, prazer,

[00:48:07] dor, quer dizer, tudo que se dá, tudo que é

[00:48:09] dado na vida

[00:48:11] pra nós é indiferente,

[00:48:13] absolutamente diferente. E aí ela vai

[00:48:15] dizer, claro, dessa eterna

[00:48:17] surdez, porque como ela está

[00:48:19] falando pra ele, ela não pode

[00:48:21] dizer que a natureza é muda.

[00:48:23] Mas o que a gente poderia entender

[00:48:25] por decorrência da filosofia,

[00:48:27] do pensamento machadiano, é que a natureza

[00:48:29] não só é surda, mas ela é muda, ou seja,

[00:48:31] não há um

[00:48:33] ouvido divino

[00:48:35] que nos ouve,

[00:48:37] e também não há uma boca

[00:48:39] divina que nos fale.

[00:48:41] Então, aquilo que a gente tenta depender

[00:48:43] como sinais

[00:48:45] da natureza, é uma grande

[00:48:47] bobagem. Por exemplo, hoje

[00:48:49] que a gente está numa época

[00:48:51] sustentável, politicamente

[00:48:53] correta

[00:48:55] em relação aos aspectos

[00:48:57] dos recursos naturais,

[00:48:59] então é mais ou menos o seguinte, a gente está

[00:49:01] num momento em que, não, não queremos

[00:49:03] nenhuma

[00:49:05] alternativa pra

[00:49:07] economia capitalista que foi gerada,

[00:49:09] que é a base de um

[00:49:11] desenvolvimento e um progresso

[00:49:13] sem fim. No entanto,

[00:49:15] nós queremos salvar a natureza.

[00:49:17] Esse é o discurso mais

[00:49:19] paradoxal que

[00:49:21] existe hoje. E o que as pessoas

[00:49:23] dizem em relação à preservação

[00:49:25] da natureza? A natureza está dando

[00:49:27] sinais de que ela está esgotada.

[00:49:29] Bobagem! Bobagem!

[00:49:31] A natureza não fala conosco,

[00:49:33] ela não nos dá nenhum sinal.

[00:49:35] Se falta água num lugar,

[00:49:37] sobra em outro.

[00:49:39] Se esquentar a temperatura de um lado,

[00:49:41] ah, azar pra nós, sim,

[00:49:43] mas sorte pra determinadas bactérias

[00:49:45] que vão viver melhor.

[00:49:47] Sinais estão muito mais relacionados a nós.

[00:49:49] Sinais de que a nossa vida

[00:49:51] está difícil, não que a natureza é

[00:49:53] ela que está.

[00:49:55] A descrição, inclusive, do rosto da

[00:49:57] natureza, que eu acho interessante,

[00:49:59] se me permitiram, eu leio rapidinho.

[00:50:01] Ele fala assim, nada mais

[00:50:03] quieto, nenhuma contorção violenta,

[00:50:05] nenhuma expressão de ódio ou ferocidade.

[00:50:07] Afeição única, geral,

[00:50:09] completa, era a da impassibilidade

[00:50:11] egoísta, a da

[00:50:13] eterna surdez, a da vontade

[00:50:15] imóvel. Raiva, siastinha,

[00:50:17] ficavam encerradas

[00:50:19] no coração. Ao mesmo tempo,

[00:50:21] nesse rosto de expressão glacial,

[00:50:23] havia um ar de juventude,

[00:50:25] mescla de força e visto

[00:50:27] diante do qual me sentia eu

[00:50:29] o mais débil e decrépito

[00:50:31] dos seres. É porque ele está morrendo,

[00:50:33] ele envelheceu, ele está morrendo

[00:50:35] e essa

[00:50:37] juventude, digamos, ela

[00:50:39] vem como força.

[00:50:41] Então, a vida, por exemplo,

[00:50:43] uma espécie entra

[00:50:45] em extinção, outras surgem

[00:50:47] por conta desse

[00:50:49] movimento da natureza. Então,

[00:50:51] a natureza não nos ouve,

[00:50:53] a natureza não fala conosco,

[00:50:55] no entanto, ela não para

[00:50:57] de agir. Só que esse agir

[00:50:59] incessante da natureza,

[00:51:01] ele é incapaz de mover

[00:51:03] qualquer coisa, por isso que

[00:51:05] é uma vontade imóvel,

[00:51:07] por isso que é essa eterna surdez.

[00:51:09] Eu acho uma imagem muito forte

[00:51:11] e ao mesmo tempo muito didática,

[00:51:13] porque quando ele joga isso pra um delírio,

[00:51:15] é como se ele materializasse

[00:51:17] e aí a genialidade de alguém que sabe

[00:51:19] trabalhar com mitos.

[00:51:21] Porque o mito faz isso,

[00:51:23] o mito pega algo abstrato e

[00:51:25] nos dá uma imagem concreta

[00:51:27] pra isso,

[00:51:29] pra existência desse algo

[00:51:31] abstrato, o sentimento, o pensamento,

[00:51:33] a existência de uma nação, o que quer que seja.

[00:51:35] E ele faz o mesmo pra dizer da

[00:51:37] existência. Então, a existência foi gerada por uma

[00:51:39] natureza, por essa mulher, por essa pandora,

[00:51:41] por essa deusa

[00:51:43] ou por essa criatura

[00:51:47] mitológica, porque na verdade

[00:51:49] a bem da mitologia grega

[00:51:51] ela é uma criatura

[00:51:53] e não propriamente uma

[00:51:55] deusa, mas aqui é apresentada como tal.

[00:51:57] Então ela surge

[00:51:59] justamente pra nos dar a vida

[00:52:01] e dizer que essa vida

[00:52:03] só vale o instante

[00:52:05] vivido, não vale nada.

[00:52:07] Por isso que aí também é uma outra questão bem

[00:52:09] importante quando se fala do trágico.

[00:52:11] Muitas pessoas param na constatação

[00:52:13] de que

[00:52:15] já que tudo vai pro nada, já que é tudo

[00:52:17] acaso, já que nada passa da

[00:52:19] convenção, então a vida não tem valor.

[00:52:21] A vida não é nada.

[00:52:23] E aí é que vem a questão do

[00:52:25] trágico, a questão nitiana, e acho que a questão

[00:52:27] machadiana, não,

[00:52:29] muito pelo contrário.

[00:52:31] É justamente porque

[00:52:33] não há um valor

[00:52:35] externo à vida

[00:52:37] pra dizer o que a vida é

[00:52:39] e o que a vida vale, que a vida vale

[00:52:41] por si mesma.

[00:52:55] Temos a liberdade mais radical

[00:52:57] como diria o Nietzsche, justamente.

[00:52:59] Exatamente.

[00:53:01] Ou como diz o Bataille, que nós viramos

[00:53:03] deuses.

[00:53:05] Em certo sentido sim, porque

[00:53:07] é por isso que eu aprovo tudo.

[00:53:09] Ou seja, tudo que é humano

[00:53:11] é humano, por mais

[00:53:13] odioso, por mais feio,

[00:53:15] por mais horrível que seja

[00:53:17] e que nós por uma

[00:53:19] série de razões

[00:53:21] tenhamos pudor de admitir,

[00:53:23] isso ainda assim

[00:53:25] é vida.

[00:53:27] E isso tem o valor

[00:53:29] como vida.

[00:53:31] Me diz respeito às convenções, elas não valem mais

[00:53:33] com relação a uma suposta verdade

[00:53:35] que elas se comparam, mas valem pelo

[00:53:37] próprio caráter

[00:53:39] criativo delas, pela própria

[00:53:41] potência que elas emanam.

[00:53:43] Então é valorizar

[00:53:45] a vida aqui agora na criação

[00:53:47] constante de ideias, de valores.

[00:53:49] Isso.

[00:53:51] E eu acho que a

[00:53:53] fantástica forma como ele

[00:53:55] articula todo

[00:53:57] esse pensamento, principalmente no

[00:53:59] fato de que a Pandora

[00:54:01] leva o Brás Cubas

[00:54:03] depois de erguê-lo

[00:54:05] como uma pluma entre os dois.

[00:54:07] Essa parte é muito bonita.

[00:54:09] É, pra mostrar pra ele

[00:54:11] o desfile

[00:54:13] dos séculos, do primeiro

[00:54:15] ao último século, quer dizer, claro que

[00:54:17] essa é uma

[00:54:19] enfim, uma fantasia,

[00:54:21] mas já vem

[00:54:23] com trilha sonora aqui.

[00:54:25] Se eu falei, passa o ônibus aqui

[00:54:27] é foda.

[00:54:29] Foi esse som que fez.

[00:54:31] São os séculos chegando.

[00:54:33] Já é pra acompanhar a

[00:54:35] narrativa do mar.

[00:54:49] Posso ler esse trecho então, Marcos?

[00:54:51] Já que você… Claro, claro, exatamente.

[00:54:53] Vamos ver como é que ele apresenta a história,

[00:54:55] como é que o Machado então vê a

[00:54:57] história, que é uma questão também importante.

[00:54:59] Os séculos desse

[00:55:01] fila… Então a Pandora,

[00:55:03] pra contextualizar, levanta o nosso

[00:55:05] Brás pra mostrar pra ele

[00:55:07] o que que é

[00:55:09] a existência, o que que é

[00:55:11] a história, o que que é, digamos,

[00:55:13] a constituição

[00:55:15] dessa linha temporal

[00:55:17] que marca, portanto, a existência humana.

[00:55:19] Os séculos

[00:55:21] desfilavam num turbilhão,

[00:55:23] e não obstante, porque os olhos

[00:55:25] do delírio são outros,

[00:55:27] eu via tudo o que se passava diante de mim.

[00:55:29] Flagellos e

[00:55:31] delícias. São esses dois conceitos

[00:55:33] aqui, comentário meu.

[00:55:35] São esses dois conceitos que vão nortear aqui

[00:55:37] a visão do Machado. Flagellos e delícias.

[00:55:39] Desde essa coisa que se chama glória

[00:55:41] até essa outra que se chama

[00:55:43] miséria. E via

[00:55:45] amor multiplicando a miséria, e via

[00:55:47] a miséria agravando a debilidade.

[00:55:49] Aí vinham a cobiça

[00:55:51] que devora, a cólera que

[00:55:53] inflama, a inveja que baba,

[00:55:55] e a enxada e a pena, úmidas

[00:55:57] de suor. E a ambição, a

[00:55:59] fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza,

[00:56:01] o amor. E todos

[00:56:03] agitavam o homem como

[00:56:05] um chocalho, até destruí-lo

[00:56:07] como um farrapo. Eram as

[00:56:09] formas várias

[00:56:11] de um mal, que ora

[00:56:13] mordia a víscera, ora mordia o pensamento.

[00:56:15] E passeava eternamente

[00:56:17] as suas vestes de alequim

[00:56:19] em derredor da espécie humana.

[00:56:21] A dor cedia alguma vez, mas cedia

[00:56:23] a indiferença, que era

[00:56:25] um sono sem sonhos, ou ao

[00:56:27] prazer, que era uma dor bastarna.

[00:56:29] Então o homem flagelado e rebelde

[00:56:31] corria diante da

[00:56:33] fatalidade das coisas. Essa parte aqui

[00:56:35] é bem importante. O homem

[00:56:37] flagelado e rebelde corria

[00:56:39] diante da fatalidade das coisas.

[00:56:41] Atrás de uma figura nebulosa

[00:56:43] e esquiva, feita de retalhos,

[00:56:45] um retalho de impalpável, outro

[00:56:47] de improvável, outro de invisível,

[00:56:49] cozidos todos a ponto

[00:56:51] precário, com a agulha da imaginação.

[00:56:53] E essa figura, nada menos que

[00:56:55] a quimera da felicidade,

[00:56:57] ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava

[00:56:59] se apanhar pela fralda. E o homem

[00:57:01] assingia o peito e então ela ria

[00:57:03] como um escárnio, e sumia-se

[00:57:05] como uma ilusão.

[00:57:07] E aí depois,

[00:57:09] muito forte isso. Eu vou fazer

[00:57:11] um comentário breve, porque depois da

[00:57:13] sequência, os séculos, enfim, passam

[00:57:15] do primeiro até o último

[00:57:17] e ele percebe que são todos iguais,

[00:57:19] ou seja, todos acabam

[00:57:21] sendo um emarenhado,

[00:57:23] um misturado

[00:57:25] das coisas que já estão aí. Portanto, quando a

[00:57:27] gente fala de acaso,

[00:57:29] é que todos os dados possíveis

[00:57:31] da existência já estão aí.

[00:57:33] E a convenção é

[00:57:35] justamente os arranjos possíveis que eles terão.

[00:57:37] Então, na verdade, tudo parece muito

[00:57:39] novo, mas no fundo nós estamos

[00:57:41] eternamente retornando às

[00:57:43] mesmas coisas, só que com

[00:57:45] arranjos novos, com misturas novas.

[00:57:47] Bom, isso só é um pouco de Nietzsche, é um pouco

[00:57:49] de Deleuze, depois se for o cara a gente volta.

[00:57:51] Agora, em relação a essa passagem, o que vale

[00:57:53] eu acho que frisar é

[00:57:55] a dor nos é dada por indiferença

[00:57:57] e se a gente

[00:57:59] retira algum prazer da vida, esse prazer

[00:58:01] também não é um bem supremo,

[00:58:03] mas ele é uma dor bastarda.

[00:58:05] Quer dizer, é uma

[00:58:07] dor às avessas.

[00:58:09] É uma dor sem

[00:58:11] o princípio da dor,

[00:58:13] um prazer está muito ligado

[00:58:15] a essa ideia de dor. Quer dizer, a gente

[00:58:17] não chegou ainda à Freud

[00:58:19] e o Machado já estava fazendo

[00:58:21] esse tipo de afirmação.

[00:58:23] E aí ele vai dizer que o homem, então,

[00:58:25] passa o tempo todo correndo

[00:58:27] atrás da felicidade

[00:58:29] e que a felicidade é uma

[00:58:31] ilusão.

[00:58:33] Então eu acho essa a definição do homem

[00:58:35] muito importante. Por quê?

[00:58:37] Porque o homem flagelado e rebelde

[00:58:39] corre diante da

[00:58:41] fatalidade das coisas.

[00:58:43] Dialoga com

[00:58:45] a síntese do Fernando Pessoa

[00:58:47] que somos cadáveres

[00:58:49] adiados que procream.

[00:58:51] Perfeito. Parece

[00:58:53] na boca do Ricardo Reis, é isso mesmo.

[00:58:55] Exatamente. Daí juntando

[00:58:57] lá com o Eclesiastes,

[00:58:59] como o Rogério Põe no artigo,

[00:59:01] vivendo nada de novo debaixo

[00:59:03] do sol. Exatamente.

[00:59:05] Então a

[00:59:07] grande questão

[00:59:09] de uma urgência de transformação

[00:59:13] ela surge primeiro da não

[00:59:15] aprovação da existência como tal,

[00:59:17] como nos é dada. Então uma tentativa,

[00:59:19] por exemplo, vamos pegar os

[00:59:21] aspectos morais. O que as pessoas

[00:59:23] nos dizem desde muito pequeno,

[00:59:25] seja na escola, seja na família,

[00:59:27] seja no trabalho, seja em qualquer

[00:59:29] lugar que a gente bote o pé.

[00:59:31] Você precisa se tornar uma pessoa melhor.

[00:59:33] Essa é a grande questão.

[00:59:35] Você precisa se

[00:59:37] transformar numa

[00:59:39] pessoa melhor.

[00:59:41] Nós não vamos nos

[00:59:43] transformar em absolutamente nada,

[00:59:45] não ser em adubo,

[00:59:47] se enterrado ou

[00:59:49] em cinza, se cremado.

[00:59:51] E efetivamente

[00:59:53] não é um melhor

[00:59:55] absoluto que se possa

[00:59:57] extrair

[00:59:59] de fora da condição

[01:00:01] humana. Por isso que quando eu falo

[01:00:03] da relação com a

[01:00:05] educação é sempre nessa perspectiva

[01:00:07] do melhor para mim mesmo.

[01:00:09] Do melhor diante

[01:00:11] das circunstâncias, do melhor

[01:00:13] diante das possibilidades.

[01:00:15] Então se alguém disser assim, você quer que a vida

[01:00:17] seja melhor?

[01:00:19] Eu quero diante

[01:00:21] das circunstâncias, diante do que é

[01:00:23] possível melhorar. Então

[01:00:25] por exemplo, eu não tenho nenhuma

[01:00:27] contrariedade

[01:00:29] aos

[01:00:31] inúmeras bandeiras e inúmeros

[01:00:33] movimentos que querem transformação

[01:00:35] social, porque querem uma vida melhor.

[01:00:37] Pelo contrário, eu endosso todas elas.

[01:00:39] Eu acho que nós queremos

[01:00:41] uma transformação para uma vida melhor.

[01:00:43] Lembrando que transformação seria

[01:00:45] um rearranjo de peças

[01:00:47] do poder,

[01:00:49] porque o que move o homem

[01:00:51] é a vontade de poder, então é a vontade de ter mais

[01:00:53] poder.

[01:00:55] Portanto, a vontade de transformação

[01:00:57] é sempre de quem não tem

[01:00:59] tanto poder quanto gostaria.

[01:01:01] Não conheço pessoas que estão no poder

[01:01:03] com vontade de transformação.

[01:01:05] A não ser que seja para ter mais poder,

[01:01:07] aí sim.

[01:01:09] Mas não necessariamente poder político, né?

[01:01:11] Não, não necessariamente.

[01:01:13] Não necessariamente poder político.

[01:01:15] Claro, poder sexual,

[01:01:17] poder…

[01:01:19] Reconhecimento, principalmente.

[01:01:21] Reconhecimento, de reconhecimento.

[01:01:23] Também, poder no sentido

[01:01:25] desse impulso mesmo de vida.

[01:01:27] E o melhor é sempre o melhor diante das possibilidades.

[01:01:29] Então…

[01:01:31] Quer dizer…

[01:01:33] O que é melhor?

[01:01:35] O prato X ou o prato Y?

[01:01:37] Diante das possibilidades que eu tenho aqui, o prato Y é o melhor.

[01:01:39] Então é isso que vai.

[01:01:41] Porque todas as escolhas de certo modo

[01:01:43] no aspecto

[01:01:45] exterior à própria

[01:01:47] existência, elas não significam nada.

[01:01:49] Elas sempre vão significar circunstancialmente.

[01:01:51] Agora, muitas vezes,

[01:01:53] quando a gente observa as ideologias

[01:01:55] e os discursos

[01:01:57] filosóficos,

[01:01:59] eles são pautados numa indignação,

[01:02:01] eles são pautados numa rebeldia,

[01:02:03] eles são pautados numa vontade

[01:02:05] de transformação da própria existência.

[01:02:07] Ou seja, uma transformação da fatalidade

[01:02:09] das coisas.

[01:02:11] E eu acho que aí é que há um enorme

[01:02:13] equívoco.

[01:02:15] A questão então me parece ser uma transformação

[01:02:17] que é calcada justamente

[01:02:19] na sua vontade de potência,

[01:02:21] ou seja, você criar valores,

[01:02:23] criar ideais e segui-los.

[01:02:25] E outro que é justamente o que é o problemático,

[01:02:27] pelo menos seguindo o Nietzsche,

[01:02:29] de acordo com o que você está falando, ou o que parece,

[01:02:31] que é a vontade de transformar algo

[01:02:33] por se pautar em uma suposta

[01:02:35] verdade que estaria acima da vida

[01:02:37] e a qual você quer fazer a vida

[01:02:39] se é similar, ou se

[01:02:41] dobrar. É isso?

[01:02:43] É isso. Eu estou dizendo isso

[01:02:45] principalmente porque, até anticipando

[01:02:47] algumas críticas que às vezes vêm, que diz o seguinte

[01:02:49] ah, já ouvi isso algumas vezes,

[01:02:51] ah, então se você diz que nós temos que

[01:02:53] aprovar a existência como ela está,

[01:02:55] o que significa que nós temos que aprovar,

[01:02:57] por exemplo,

[01:02:59] sei lá,

[01:03:01] o conflito na faixa de casa,

[01:03:03] ou a… Corrupção,

[01:03:05] tráfico de mulheres,

[01:03:07] Europa. Isso, todas as calamidades

[01:03:09] que nós temos na vida.

[01:03:11] Óbvio que não, óbvio que não.

[01:03:13] A questão é, e para ser aí

[01:03:15] bem, digamos, didático

[01:03:17] quanto a questão histórica.

[01:03:19] Se você tomar o pensamento do iluminista

[01:03:21] ele vai dizer que nós temos que

[01:03:23] progredir indefinidamente.

[01:03:25] Como se

[01:03:27] exterminando um malefício qualquer,

[01:03:29] um aspecto desagradável

[01:03:31] da existência, eu poderia

[01:03:33] cumulativamente e

[01:03:35] preparar isso.

[01:03:37] Isso, isso,

[01:03:39] liberando todos os demais.

[01:03:41] O que na verdade acontece,

[01:03:43] que o Renascimento já apontava muito bem,

[01:03:45] é o seguinte, a fatalidade das coisas

[01:03:47] está aí. O homem vai fazer guerra

[01:03:49] sempre. Agora, se eu puder,

[01:03:51] por exemplo,

[01:03:53] eliminar

[01:03:55] a possibilidade dessa guerra, tanto melhor.

[01:03:57] Agora, eu não vou eliminar,

[01:03:59] por exemplo, a violência. Se eu conseguir

[01:04:01] canalizar a violência para um

[01:04:03] determinado elemento simbólico, e conseguir

[01:04:05] fazer com que ela

[01:04:07] não apareça

[01:04:09] no tecido social,

[01:04:11] que ela fique, por exemplo,

[01:04:13] reservada

[01:04:15] a outras esferas,

[01:04:17] tanto melhor.

[01:04:19] Sim, como a gente escuta, por exemplo.

[01:04:21] É, competitividade, daí a gente vê o

[01:04:23] espetáculo, sei lá, do futebol,

[01:04:25] de várias outras, do videogame,

[01:04:27] do cinema.

[01:04:29] O trabalho que seja.

[01:04:31] A afirmação da vida não é

[01:04:33] contrária à

[01:04:35] eliminação de uma circunstância

[01:04:37] que nos seja, ou nos pareça

[01:04:39] negativa.

[01:04:41] Algo que nos cause dor.

[01:04:43] Só que nós sabemos, por exemplo,

[01:04:45] que todos os remédios, por mais

[01:04:47] que eles

[01:04:49] combatam determinadas

[01:04:51] dores, no final

[01:04:53] todos eles são absolutamente

[01:04:57] indiferentes.

[01:04:59] Porque a própria existência é

[01:05:01] indiferente. Acho que essa é a questão mais importante.

[01:05:03] Alguém diz assim, ah, mas, está vendo,

[01:05:05] a medicina hoje consegue fazer com que

[01:05:07] você viva

[01:05:09] 86 anos e meio

[01:05:11] e não morra, por exemplo, com 48.

[01:05:13] Tanto faz.

[01:05:15] Esse messianismo da

[01:05:17] medicina, inclusive, eu acho que é

[01:05:19] uma questão crucial

[01:05:21] para pensar o mundo contemporâneo.

[01:05:23] Isso é realmente incrível.

[01:05:25] Você vai ver matéria de revista assim,

[01:05:27] nó super remédio, a medicina

[01:05:29] vai te salvar. Você vai

[01:05:31] ser feliz com a medicina.

[01:05:33] Principalmente é essa felicidade

[01:05:35] que se torna um

[01:05:37] mundo ideal transferido

[01:05:39] platonicamente para esse mundo aqui

[01:05:41] como se fosse um

[01:05:43] mundo a ser

[01:05:45] conquistado por detrás de todas as

[01:05:47] calamidades. Eu acho interessante que

[01:05:49] com o Machado de Assis ele se apropria

[01:05:51] do delírio, do estado de

[01:05:53] delírio, que é o título desse

[01:05:55] capítulo, como um filtro, por assim

[01:05:57] dizer,

[01:05:59] através do qual o único filtro

[01:06:01] possível que o seu personagem, o Brás

[01:06:03] Cuba, ele consegue enxergar a

[01:06:05] insignificância e a indiferença

[01:06:07] vertiginosa, por onde

[01:06:09] justamente a vida se intensifica.

[01:06:11] Ou seja,

[01:06:13] ao invés de colocar

[01:06:15] a dor

[01:06:17] como um registro

[01:06:19] que está em oposição à

[01:06:21] alegria, ao amor e à glória,

[01:06:23] não tem mais essa oposição.

[01:06:27] Ele está indiferente à dor

[01:06:29] e ao prazer, porque digamos

[01:06:31] o delírio em si aparece

[01:06:33] indefinido no rosto da Pandora.

[01:06:35] A vontade de potência já inclui

[01:06:37] os dois, esse é o ponto.

[01:06:39] Exatamente. Tem uma frase

[01:06:41] do Nish que eu acho fantástica.

[01:06:43] Ele fala assim, os homens não buscam

[01:06:45] a felicidade, só o inglês o faz.

[01:06:47] O inglês é sacanagem com o

[01:06:49] utilitarismo, a ideia de que o

[01:06:51] que move a vida humana é a busca

[01:06:53] de prazer e que o grande bem seria

[01:06:55] aumentar o prazer para a maioria.

[01:06:57] Então ele está assim

[01:06:59] ele consegue destronar esse negócio

[01:07:01] e derrubar em uma frase.

[01:07:03] Pois é, e a materialização

[01:07:05] da Pandora,

[01:07:07] voltando lá do Machado,

[01:07:09] essa materialização ficcional

[01:07:11] ela corresponde à

[01:07:13] própria materialização do que a gente

[01:07:15] entende por existência, porque toma

[01:07:17] ficção, não como um mero pretexto

[01:07:19] de afirmação ou de negação do real,

[01:07:21] mas antes como aquilo que organiza esse

[01:07:23] real e que localiza a gente nele.

[01:07:25] Esse delírio da Pandora é uma

[01:07:27] forma dele se organizar antes

[01:07:29] de morrer no caso.

[01:07:31] Exatamente.

[01:07:33] Eu acho que para ilustrar um pouco

[01:07:35] disso que a gente tem

[01:07:37] falado, vale

[01:07:39] recorrer a uma crônica do Machado

[01:07:41] que foi muito famosa que é o autor de si mesmo

[01:07:43] em que ele se reporta

[01:07:45] a um acontecimento

[01:07:47] real, verídico

[01:07:49] que se deu

[01:07:51] no longínquo

[01:07:53] século XIX

[01:07:55] em que um garoto

[01:07:57] de dois anos foi abandonado

[01:07:59] a própria sorte num

[01:08:01] galinheiro e encontrado

[01:08:03] morto, bicado pelas

[01:08:05] galinhas.

[01:08:07] Ele foi devorado vivo

[01:08:09] pelas galinhas.

[01:08:11] E os pais

[01:08:13] abandonaram

[01:08:15] lá.

[01:08:17] Ele tinha muito essa preocupação.

[01:08:19] Por que nós nascemos? Ele faz essa

[01:08:21] pergunta em relação à Dona Plácida

[01:08:23] e ele faz essa pergunta e é quase

[01:08:25] praticamente, são histórias diferentes, mas

[01:08:27] vamos dizer assim

[01:08:29] o interesse dele com a

[01:08:31] história, o que ele quer ilustrar

[01:08:33] está muito próximo.

[01:08:35] E esse garoto

[01:08:37] morre, enfim, bicado pelas galinhas

[01:08:39] e ele diz que só, que esse acontecimento

[01:08:41] enfim, não tem importância alguma

[01:08:43] não fosse

[01:08:45] a possibilidade de esclarecer

[01:08:47] um aspecto filosófico, ele diz isso na

[01:08:49] crônica.

[01:08:51] Ou seja, ele não está preocupado com sensacionalismo

[01:08:53] e aí ele coloca

[01:08:55] o garoto de dois anos perguntando

[01:08:57] pro Arthur Schopenhauer

[01:08:59] porque que aconteceu isso com ele.

[01:09:01] E aí o Schopenhauer diz assim

[01:09:03] garoto, a culpa é sua.

[01:09:05] A culpa

[01:09:07] foi você, com a sua

[01:09:09] vontade de nascer,

[01:09:11] que juntou o seu pai e a sua mãe.

[01:09:13] Nossa,

[01:09:15] pior que ele incorporou muito bem, né?

[01:09:17] E aí o garoto

[01:09:19] foi a espécie, o demônio da espécie

[01:09:21] juntando a causa.

[01:09:23] E o garoto antes de

[01:09:25] morrer diz

[01:09:27] se eu soubesse disso, não teria

[01:09:29] nascido. E as últimas palavras

[01:09:31] do garoto é ai ui.

[01:09:33] Ou seja,

[01:09:35] um garoto de dois anos

[01:09:37] veja

[01:09:39] bem, a crueldade da cena.

[01:09:41] O Machado de Assis, agora é o Machado

[01:09:43] mesmo, se não não com o nome dele.

[01:09:45] Ele não tinha também problemas de

[01:09:47] tocar em assuntos polêmicos. Por exemplo, quando ele

[01:09:49] escreve sobre o espiritismo, ele diz

[01:09:51] escreveu um artigo dizendo que

[01:09:53] ele abandonou o

[01:09:55] próprio corpo, foi numa sessão espírita

[01:09:57] e ai ele viu as coisas se sucedendo

[01:09:59] depois voltou pra contar a história.

[01:10:01] Então ele satiriza o espiritismo

[01:10:03] lá no seu nascimento, ainda no século

[01:10:05] 19, quando é importado pro Brasil

[01:10:07] como várias manias francesas, né?

[01:10:09] Seja a ordem em progresso que tá na bandeira,

[01:10:11] seja por exemplo o espiritismo.

[01:10:13] E ele faz essa brincadeira também com essa questão

[01:10:15] que é muito séria, né?

[01:10:17] Um garoto de dois anos é brutalmente

[01:10:19] assassinado por galinhas, porque

[01:10:21] os pais o abandonaram

[01:10:23] a própria sorte.

[01:10:25] E ele termina dessa forma,

[01:10:27] digamos,

[01:10:29] bem humorada, mas também

[01:10:31] direcionada pra poucas

[01:10:33] pessoas. Mas o que ele tá tentando explicar

[01:10:35] é sobre essa vontade, né?

[01:10:37] Que pra Chopin al

[01:10:39] era uma vontade

[01:10:41] transcendente. Então

[01:10:43] a vontade de vida comanda

[01:10:45] as pessoas de tal modo

[01:10:47] que inculte nelas

[01:10:49] o desejo sexual. E pra ele

[01:10:51] amor e desejo sexual era a mesma coisa.

[01:10:53] Então o desejo sexual

[01:10:55] dos pais do garotinho

[01:10:57] surgiu

[01:10:59] pra que ele pudesse vir

[01:11:01] à vida, ou seja, porque a vida queria

[01:11:03] se multiplicar.

[01:11:05] E alguns ainda continuam

[01:11:07] vendo e achando

[01:11:09] uma assimilação do pensamento de Chopin al.

[01:11:11] Mas pra mim há aqui explicitamente uma correção.

[01:11:13] Quando ele vai zombar

[01:11:15] desse aspecto

[01:11:17] de uma vontade

[01:11:19] a gente precisa dizer o seguinte, não, a vida

[01:11:21] é sofrimento, é dor.

[01:11:23] Mas é por acaso

[01:11:25] que ela é. E aí quando ele fala da dona

[01:11:27] plástica é a mesma coisa.

[01:11:29] As pessoas se unem

[01:11:31] absolutamente sem propósito,

[01:11:33] a não ser um impulso,

[01:11:35] uma vontade,

[01:11:37] uma vontade de vida,

[01:11:41] o Freud poderia chamar isso de libido,

[01:11:43] alguns de

[01:11:45] desejo sexual mesmo,

[01:11:47] ou outros de amor, mas enfim,

[01:11:49] a vontade ali de

[01:11:53] algo tão natural

[01:11:55] e baixo,

[01:11:57] como a relação sexual

[01:11:59] sem amor. Tô pegando aqui

[01:12:01] o cunho moral

[01:12:03] de quem analisa a cena

[01:12:05] pra mostrar que sim, a vida é só isso,

[01:12:07] a vida é acaso.

[01:12:09] As pessoas não estavam concebendo

[01:12:11] gerar uma vida, mas simplesmente

[01:12:13] tiveram uma vontade fisiológica,

[01:12:15] portanto uma vontade

[01:12:17] do corpo,

[01:12:19] e da união dessa vontade surgiu

[01:12:21] a vida, e que

[01:12:23] pode ter sido jogada ao acaso

[01:12:25] e destruída

[01:12:27] no meio de tanta dor,

[01:12:29] absolutamente sem nenhum

[01:12:31] fundamento, sem nenhuma razão de ser.

[01:12:33] Então, aí é que vem

[01:12:35] a questão Machado de Ana, que eu acho muito

[01:12:37] importante, que é a mesma de Nietzsche.

[01:12:39] Por que que ele nos dá

[01:12:41] essa vida tão

[01:12:43] absurda, dolorosa,

[01:12:45] tão cruel? Por que ele é tão cruel assim?

[01:12:47] Porque ele tem

[01:12:49] rancor da vida, como dizia o Afrânio Coutinho,

[01:12:51] a gente abriu falando disso,

[01:12:53] é porque ele era um ressentido,

[01:12:55] é porque ele era uma pessoa que odiava a vida,

[01:12:57] muito pelo contrário. Acho que aí

[01:12:59] reside a filosofia do Machado,

[01:13:01] a verdade dele como filósofo.

[01:13:03] Ele não era ressentido, ele nos mostrava

[01:13:05] isso como um exercício

[01:13:07] para ele nos dizer, olha,

[01:13:09] ainda assim,

[01:13:11] nós queremos a vida.

[01:13:13] E não só ainda assim,

[01:13:15] até principalmente porque

[01:13:17] é assim, porque o ponto seria

[01:13:19] agir na vida, ou seja, tornar esse

[01:13:21] acaso mais do que o acaso

[01:13:23] pela criação, aceitando o

[01:13:25] acaso e agindo no acaso,

[01:13:27] criando, ou seja, juntando o acaso

[01:13:29] de acordo com a própria criação e não

[01:13:31] parâmetros exteriores.

[01:13:33] Mas o Nietzsche parece ser

[01:13:35] exatamente esse ponto.

[01:13:37] E daí é um grande problema de hoje

[01:13:39] que nós estamos

[01:13:41] numa

[01:13:43] sociedade ocidental

[01:13:45] brutalmente

[01:13:47] niilista e não

[01:13:49] trágica, porque muitas vezes as pessoas

[01:13:51] podem apontar isso.

[01:13:53] E o Nietzsche já dizia

[01:13:55] isso ali no século 19.

[01:13:57] Olha, Deus está morto,

[01:13:59] acabou a metafísica,

[01:14:01] portanto,

[01:14:03] temos que ter

[01:14:05] muito cuidado com esse

[01:14:07] niilismo, que seria um niilismo

[01:14:09] que, digamos,

[01:14:11] remete tudo

[01:14:15] a uma absoluta falta

[01:14:17] de valor.

[01:14:19] Então, quando a gente fala do nada,

[01:14:21] do acaso, da convenção, enfim, da

[01:14:23] indiferença, da crueldade, em nenhum momento

[01:14:25] eu estou dizendo, por exemplo, que a vida não tem valor.

[01:14:27] A correção

[01:14:29] que eu acho que o Nietzsche faz, que eu acho que é importante

[01:14:31] a gente frisar aqui, porque se não for assim

[01:14:33] não é trágico, é que o valor

[01:14:35] da vida é intrínseco

[01:14:37] à própria vida.

[01:14:39] Ou seja, por isso que, entre aspas,

[01:14:41] aqui, vale tudo na

[01:14:43] vida, né? Ou orácio,

[01:14:45] tudo que é humano

[01:14:47] nada que é humano

[01:14:49] me é estranho, né?

[01:14:51] Se é humano, não me é

[01:14:53] estranho, porque eu sou

[01:14:55] humano e eu sei que tudo já está

[01:14:57] dado

[01:14:59] na condição humana. Então, portanto,

[01:15:01] o valor da vida é

[01:15:03] viver a vida. E não,

[01:15:05] por exemplo,

[01:15:07] retirá-la de valor

[01:15:09] a ponto de ela

[01:15:11] se tornar quase que indiferente.

[01:15:13] Eu acho que, e para ser um pouquinho polêmico

[01:15:15] também, né, no nosso não obstante,

[01:15:17] eu acho que a questão,

[01:15:19] por exemplo, de como se encaminhou

[01:15:21] a morte do Eduardo Campos

[01:15:23] mostra um pouco desse

[01:15:25] nó

[01:15:27] entre

[01:15:29] niilismo

[01:15:31] e aceitação do caráter

[01:15:33] trágico. E convenções também,

[01:15:35] né? Sim, sim,

[01:15:37] sim.

[01:15:39] Principalmente convenções em período eleitoral.

[01:15:41] Mas já encaminhando então

[01:15:43] para o fim, aproveitando esse gancho,

[01:15:45] que a gente está com uma hora e

[01:15:47] quinze aqui de gravação, eu queria

[01:15:49] fazer também uma provocação

[01:15:51] para finalizar,

[01:15:53] para a gente finalizar, que eu acho que

[01:15:55] essa última fala do Roger, de fato,

[01:15:57] como ele mesmo falou, é muito

[01:15:59] importante para se entender

[01:16:01] esse imaginário trágico que

[01:16:03] a gente está atribuindo aqui ao

[01:16:05] Machado de Assis.

[01:16:07] Porque sem esse dado

[01:16:09] trágico que tem a ver com o nada

[01:16:11] ou acaso e a convenção,

[01:16:13] eu acho que o horror da existência,

[01:16:15] ela se restringe

[01:16:17] a uma mera oposição

[01:16:19] ao amor, à alegria,

[01:16:21] à glória,

[01:16:23] e também, portanto,

[01:16:25] ao sofrimento alheio.

[01:16:27] Daí que vem toda essa discussão sobre a morte,

[01:16:29] a tortura, a guerra e

[01:16:31] daí o decorrente

[01:16:33] medo de tudo e de todos,

[01:16:35] de sair de casa, desconfiança e

[01:16:37] intolerância ao que é indiferente,

[01:16:39] ao que é diferente, perdão.

[01:16:41] O que é diferente?

[01:16:43] Então, tipo, eu acho que o mais

[01:16:45] importante no trágico é, digamos,

[01:16:47] realmente essa integração

[01:16:49] de que o horror da existência,

[01:16:51] ela não está descolada

[01:16:53] da alegria e

[01:16:55] do amor e do próprio

[01:16:57] prazer de se viver.

[01:16:59] Eu acho interessante porque esses dias me perguntaram

[01:17:01] ah, o que

[01:17:03] que você acha do horror e tal,

[01:17:05] diante de alguns casos e tal,

[01:17:07] tinha a ver com o filme lá, e de fato eu

[01:17:09] falei que particularmente o que mais

[01:17:11] me horroriza atualmente

[01:17:13] é o tráfico de mulheres

[01:17:15] na Europa. Pra mim isso daí é

[01:17:17] uma coisa muito tocante, sabe? É uma coisa assim

[01:17:19] que realmente me

[01:17:21] comove muito. É uma dor e

[01:17:23] um sofrimento que

[01:17:25] eu imagino que seja

[01:17:27] assim, superável, né? Mas mesmo

[01:17:29] assim,

[01:17:31] não estou defendendo que deveria

[01:17:33] ser assim nem nada. É um assunto polêmico

[01:17:35] e tudo mais.

[01:17:37] É um horror que

[01:17:39] de fato ele

[01:17:41] circunstancialmente

[01:17:43] é melhor que não exista, só que

[01:17:45] é uma coisa extremamente milenar, né?

[01:17:47] A gente for ver sociedade de castas

[01:17:49] e tudo mais. É isso.

[01:17:51] Infelizmente, quer dizer,

[01:17:53] não é uma questão de

[01:17:55] como deveria ser nem nada.

[01:17:57] Eu estou trazendo tudo isso,

[01:17:59] pra finalizar, tentando

[01:18:01] fazer a ponte com a educação,

[01:18:03] no caso. Eu acho que é um bom

[01:18:05] fechamento. Porque assim, se a

[01:18:07] educação, muitos dizem, ela

[01:18:09] está condicionada. A crença numa

[01:18:11] verdade, ou em muitas

[01:18:13] verdades,

[01:18:15] no plural,

[01:18:17] a educação

[01:18:19] que a gente pode tirar

[01:18:21] de uma filosofia trágica, especialmente

[01:18:23] do Machado de Assis,

[01:18:25] que se propõe,

[01:18:27] como a gente viu, a desfazer desse

[01:18:29] sentimento de verdade, de crença,

[01:18:31] seja uma crença ideológica,

[01:18:33] científico ou moral,

[01:18:35] como que haveria a possibilidade

[01:18:37] de alguma educação

[01:18:39] que vem dessa filosofia

[01:18:41] trágica, do Machado de Assis,

[01:18:43] de Nietzsche e por aí vai,

[01:18:45] que ocupa o lugar

[01:18:47] da esperança, do medo,

[01:18:49] ou mesmo da ilusão,

[01:18:51] que consiga inclusive situar

[01:18:53] as pessoas no mundo,

[01:18:55] organizar, compreender,

[01:18:57] fazer com que elas compreendam,

[01:18:59] e também experimentar e

[01:19:01] desejar a vida

[01:19:03] nas piores condições,

[01:19:05] se for assim dizer.

[01:19:07] Eu, a sua colocação,

[01:19:09] acho fundamental,

[01:19:11] um breve comentário,

[01:19:13] quando você fala dessa questão do horror,

[01:19:15] a maior parte dos filmes de horror,

[01:19:17] por exemplo, que é um fenômeno moderno,

[01:19:19] o horror começa

[01:19:21] na literatura

[01:19:23] moderna,

[01:19:25] no século XIX,

[01:19:27] e depois do século XX, isso ganha muita força.

[01:19:29] É ainda uma espécie de naturalismo,

[01:19:31] boa parte do

[01:19:33] horror que a gente encontra

[01:19:35] está ligado ao sobrenatural,

[01:19:37] principalmente nos filmes mais

[01:19:39] comuns, ou é

[01:19:41] uma violência gratuita,

[01:19:43] de uma mente insana

[01:19:45] que sai matando todo mundo,

[01:19:47] ou é um fenômeno

[01:19:49] sobrenatural, como se houvesse,

[01:19:51] por exemplo, alguma coisa

[01:19:55] externa à existência

[01:19:57] que imprimisse,

[01:19:59] digamos, essa dose negativa,

[01:20:01] essa carga negativa à existência.

[01:20:03] Também é uma espécie de

[01:20:05] metafísica, ainda que seja

[01:20:07] uma metafísica, digamos assim, pessimista

[01:20:09] de fato,

[01:20:11] porque vai dizer que a existência é

[01:20:13] uma, quase um geocenismo, então

[01:20:15] a existência

[01:20:17] é algo

[01:20:19] ruim e, portanto,

[01:20:21] nós teríamos que superá-la para

[01:20:23] acender ou se chegar a uma

[01:20:25] condição

[01:20:27] melhor.

[01:20:29] Ou seja, cristianismo.

[01:20:31] Isso, por exemplo.

[01:20:33] O marxismo, né?

[01:20:35] O marxismo.

[01:20:37] Polêmicas, polêmicas.

[01:20:39] Muito diferente.

[01:20:41] Caímos na religião.

[01:20:47] O que eu acho

[01:20:49] importante do

[01:20:51] que você disse,

[01:20:53] no aspecto da educação, e para ser bem

[01:20:55] sintético, a gente avançou bastante

[01:20:57] no tempo, é que

[01:20:59] sim, o grande problema

[01:21:01] da educação hoje é

[01:21:03] essa tentativa, de um lado, de superar

[01:21:05] o dado negativo, como se

[01:21:07] ele fosse superável, como por exemplo,

[01:21:09] se isso fosse uma vontade nossa,

[01:21:11] como se a preguiça fosse

[01:21:13] vencida pelo

[01:21:15] programação,

[01:21:19] uma espécie de autoajuda,

[01:21:21] uma programação mental,

[01:21:23] como se a produção,

[01:21:25] a produtividade

[01:21:27] do trabalho

[01:21:29] ou de outra atividade

[01:21:31] da vida fosse, por exemplo,

[01:21:33] um índice de valor da vida,

[01:21:35] como se o dinheiro ganho pudesse,

[01:21:37] por exemplo,

[01:21:39] mensurar as coisas boas,

[01:21:41] e que, portanto, tudo aquilo que a gente pudesse

[01:21:43] eliminar, seja via remédio, como bem lembrou

[01:21:45] o Daniel, com a

[01:21:47] intervenção dos fármacos,

[01:21:49] seja, por exemplo, via

[01:21:51] qualquer outro tipo de

[01:21:53] intervenção religiosa,

[01:21:55] doutrinária, enfim, aquilo que

[01:21:57] o Beccari chamou de ilusão,

[01:21:59] como se isso, de alguma forma,

[01:22:01] fosse positivo, porque

[01:22:03] nos levaria a uma

[01:22:05] melhoria da própria condição,

[01:22:07] da própria vida. E aí, eu acho que

[01:22:09] retornar, por exemplo, ao renascimento,

[01:22:11] não necessariamente retornar ao renascimento, mas

[01:22:13] dizer, por exemplo, que uma educação hoje

[01:22:15] não precisa ser necessariamente utópica, mas

[01:22:17] ela pode encontrar ecos

[01:22:19] no passado, ou seja, no passado

[01:22:21] muito, muito distante,

[01:22:23] como o passado pré

[01:22:25] histórico,

[01:22:27] por exemplo, antes da

[01:22:29] existência da escrita, em que

[01:22:31] os homens viviam em comunidades, e lá

[01:22:33] cultuavam, por exemplo, a vida,

[01:22:35] ainda que fosse fazendo os seus

[01:22:37] sacrifícios. Então, o sacrifício

[01:22:39] do bode, que provavelmente originou

[01:22:41] o termo trágico

[01:22:43] na etimologia grega,

[01:22:45] era um sacrifício de

[01:22:47] um animal que vive ali,

[01:22:49] um animal que você

[01:22:51] pastoreia, justamente para

[01:22:53] entrar em contato

[01:22:55] com essa força vital e não faltar

[01:22:57] vida.

[01:22:59] Pode parecer uma brutalidade, você citou aí

[01:23:01] um caso importante

[01:23:03] do tráfico de mulheres, obviamente nós somos

[01:23:05] contra, eu acho que

[01:23:07] só se deve pagar dinheiro para as

[01:23:09] mulheres se elas o quiserem,

[01:23:13] e de maneira alguma

[01:23:15] tornar a propriedade de

[01:23:17] de que quer que seja,

[01:23:19] embora você querer também

[01:23:21] alongar, mas sendo polêmico, boa parte

[01:23:23] dos contratos do trabalho que a gente tem,

[01:23:25] ou da fatalidade do mercado

[01:23:27] em relação ao trabalho, é uma forma

[01:23:29] de escravidão. Você não tem um único

[01:23:31] dono, mas você é escravo do mercado,

[01:23:33] se você não tiver nele, você não existe.

[01:23:37] E a diferença é que por uma

[01:23:39] questão de convenção, de

[01:23:41] fato, a questão da sexualidade,

[01:23:43] ou enfim, do estupro,

[01:23:45] e de pagar por isso e tudo, a

[01:23:47] prostituição portanto,

[01:23:49] é muito mais, parece cruel

[01:23:51] e digamos, indigno,

[01:23:53] tira a anulação da dignidade

[01:23:55] do que o mercado,

[01:23:57] mas isso é uma questão convencional,

[01:23:59] do que a escravidão

[01:24:01] que há no mercado, que é

[01:24:03] complicado mesmo a gente falar num assunto como

[01:24:05] esse, mas que se

[01:24:07] compara com aquela crônica do

[01:24:09] Machado de Assis que o Rogério falou

[01:24:11] da ganinha, com a diferença que a gente

[01:24:13] está falando de ganinha, estamos falando de

[01:24:15] homens que submetem,

[01:24:17] que sujeitam mulheres

[01:24:19] de fato, e que de fato

[01:24:21] é de uma

[01:24:23] extrema crueldade só de imaginar

[01:24:25] isso. Agora, de fato,

[01:24:27] a grande questão que

[01:24:29] o ouvinte revoltado diria,

[01:24:31] então como que se aprova isso?

[01:24:35] Mas existem sim que existe esse tipo

[01:24:37] de coisa e tudo mais.

[01:24:39] Então, vou

[01:24:41] voltar ao Nietzsche,

[01:24:43] a fórmula do Nietzsche é

[01:24:45] o trágico é a

[01:24:47] fórmula da

[01:24:49] afirmação máxima,

[01:24:51] da plenitude

[01:24:53] da abundância, um dizer

[01:24:55] sim sem reservas,

[01:24:57] ata mesmo ao sofrimento,

[01:24:59] a própria culpa a tudo

[01:25:01] o que é problemático e

[01:25:03] estranho na existência,

[01:25:05] fecha aspas.

[01:25:07] Por que que eu aprovo isso?

[01:25:09] Porque eu aprovo tudo na existência.

[01:25:11] Porque não dá,

[01:25:13] essa que eu acho que seria a questão, não dá pra

[01:25:15] conceber uma existência

[01:25:17] sindida

[01:25:19] sem esse aspecto ruim.

[01:25:21] Porque ele é ruim

[01:25:23] dentro de uma dada convenção.

[01:25:25] É importante que se diga isso.

[01:25:27] Vamos ser relativistas

[01:25:29] e um pouco canalhas.

[01:25:31] Perguntinhas

[01:25:33] básicas. Na atual

[01:25:35] circunstância da sociedade brasileira, o que é melhor?

[01:25:37] Ser rico ou ser pobre?

[01:25:39] O momento histórico que nós vivemos,

[01:25:41] é melhor ser rico.

[01:25:43] É melhor ser negro ou ser branco?

[01:25:45] Ser branco, totalmente. Ser adulto ou

[01:25:47] ser criança? Adulto.

[01:25:49] Então, ser homem ou ser mulher?

[01:25:51] Homem. Então,

[01:25:53] essas perguntas

[01:25:55] que num momento

[01:25:57] tem respostas óbvias,

[01:25:59] elas nos mostram, por exemplo,

[01:26:01] que o problema maior não é

[01:26:03] o sujeito que está lá

[01:26:05] distante

[01:26:07] escravizando e

[01:26:09] vendendo, traficando mulheres.

[01:26:11] Mas é do nosso lado,

[01:26:13] o nosso vizinho que bate na mulher dele.

[01:26:15] Por isso que é melhor ser homem

[01:26:17] que ser mulher, porque o nosso vizinho, a gente vê lá, ele bate na mulher.

[01:26:19] O mercado de trabalho paga mais

[01:26:21] para o homem do que para a mulher em relação

[01:26:23] a muitos trabalhos.

[01:26:25] E deixando claro rapidamente que essa não é,

[01:26:27] a gente não está defendendo isso.

[01:26:29] Sim, óbvio.

[01:26:31] A gente é maluco.

[01:26:33] É, editado o que a gente está falando.

[01:26:35] Não, o Roger não está falando

[01:26:37] que é melhor de fato ser homem.

[01:26:39] Ele não está falando isso, pelo amor de Deus.

[01:26:41] É, por isso que eu brinquei aqui.

[01:26:43] O que a pessoa responderia?

[01:26:45] Se você fizer essa pergunta para uma criança, é melhor

[01:26:47] ser criança ou ser adulto? Já fiz o teste, a criança

[01:26:49] diz é melhor ser adulto.

[01:26:51] O que ela está querendo dizer é o seguinte, a gente

[01:26:53] sofre mais sendo criança

[01:26:55] do que não sendo.

[01:26:57] E a questão é óbvio que não é melhor

[01:26:59] ser homem do que ser mulher, porque não existe

[01:27:01] esse melhor absoluto.

[01:27:03] É sempre circunstancial. Então,

[01:27:05] nós temos uma sociedade cuja circunstancia é essa.

[01:27:07] Pode ser que daqui a algum tempo

[01:27:09] a pergunta se inverta. O que

[01:27:11] eu quero dizer é que no âmbito da existência,

[01:27:13] se você aprova a existência,

[01:27:15] ou você aprova ela incondicionalmente

[01:27:17] e aí você aprova tudo que existe,

[01:27:19] ou você aprova ela

[01:27:21] com condicionantes. Se você

[01:27:23] impõe condicionantes, a grande

[01:27:25] enigma é

[01:27:27] como é que você

[01:27:29] condiciona algo em relação

[01:27:31] ao qual você não tem o menor controle.

[01:27:33] Então, o que seria a existência? A existência

[01:27:35] é similar a você entrar em um avião.

[01:27:37] Depois que você entrar no avião,

[01:27:39] você não tem controle nenhum sobre o avião.

[01:27:41] Você não tem controle sobre o acidente,

[01:27:43] você não tem controle sobre o manche, você não tem controle sobre o piloto,

[01:27:45] você não tem controle sobre nenhum.

[01:27:47] Se você tiver sorte, o avião pousa direitinho.

[01:27:49] Se você não tiver, quer dizer, também

[01:27:51] você não vai ter muito tempo para

[01:27:53] poder

[01:27:55] pensar sobre isso, porque

[01:27:57] efetivamente a gente é lançado

[01:27:59] a existência, a gente é lançado a vida

[01:28:01] sem o menor controle

[01:28:03] dela. Então, eu dizer

[01:28:05] por exemplo, que eu não aprovo

[01:28:07] que

[01:28:09] na existência

[01:28:11] o homem

[01:28:13] explore outro homem, eu estou dizendo que

[01:28:15] nós todos

[01:28:17] não deveríamos existir,

[01:28:19] porque efetivamente os homens exploram

[01:28:21] outros homens. Agora,

[01:28:23] eu não sou contrário, acho que todos nós aqui também

[01:28:25] é importante frisar isso, que a gente

[01:28:27] acabe, por exemplo,

[01:28:29] com o tráfico de mulheres

[01:28:31] ou que a gente acabe com a violência

[01:28:33] doméstica ou que a gente acabe com a diferença

[01:28:35] de remuneração no salário e que

[01:28:37] os homens e mulheres possam, portanto,

[01:28:41] ter uma vida mais

[01:28:43] prazerosa. É,

[01:28:45] entrar, vamos dizer, eu não sei

[01:28:47] se é possível ter uma vida mais prazerosa

[01:28:49] do que a existência nos dá.

[01:28:51] Eu tenho muito receio, por exemplo, desses argumentos

[01:28:53] estilo Reinaldo Azevedo,

[01:28:55] que diz assim, nunca vivemos

[01:28:57] numa época com tanta gente escolarizada,

[01:28:59] com tanta abundância de comida,

[01:29:01] com tão poucas guerras, com tanta longevidade.

[01:29:05] Eu vou até falar, grande merda,

[01:29:07] que porra isso muda na existência.

[01:29:09] Se a dor, se o meu pé está doendo,

[01:29:11] não muda nada, entendeu?

[01:29:13] Se eu perder

[01:29:15] uma pessoa que eu amo

[01:29:17] e essa pessoa, por exemplo, ter sido

[01:29:19] barbaramente estuprada

[01:29:21] e assassinada

[01:29:23] com, sei lá, 40 anos de idade,

[01:29:25] de que me vale esses dados

[01:29:27] estatísticos em relação ao mundo?

[01:29:29] Quer dizer, quem que é

[01:29:31] o grande Deus, o grande irmão

[01:29:33] ou o grande idiota que acredita

[01:29:35] que tem domínio sobre o mundo?

[01:29:37] É uma puta de uma pretensão mesmo.

[01:29:39] Exatamente. Essa que é a questão

[01:29:41] existencial. Quando a gente aponta

[01:29:43] pra provação da existência,

[01:29:45] no fundo a gente está dizendo

[01:29:47] que nós não temos

[01:29:49] controle absolutamente nenhum

[01:29:51] sobre isso. Porque se eu tivesse,

[01:29:53] o mundo ia ser do meu jeito.

[01:29:55] Mas aí eu seria Deus, né?

[01:29:57] Mas aí eu seria

[01:29:59] Deus. Quer dizer,

[01:30:01] enfim, não existe

[01:30:03] este eu

[01:30:05] que vai transformar o mundo segundo

[01:30:07] a minha vontade.

[01:30:09] Tudo entre aspas aqui. Por isso que

[01:30:11] o Nietzsche postula isso.

[01:30:13] É a afirmação máxima

[01:30:15] da existência,

[01:30:17] da plenitude, até mesmo

[01:30:19] dia do sofrimento. Não porque se goste

[01:30:21] do sofrimento, mas porque

[01:30:23] ele nos é dado junto

[01:30:25] à vida. Eu acho que essa é a questão importante.

[01:30:27] Por isso que o Machado fala do prazer

[01:30:29] como uma dor bastarda. O prazer

[01:30:31] e o sofrimento são

[01:30:33] a mesma coisa.

[01:30:35] Outro ponto importante é também

[01:30:37] não cair na

[01:30:39] falsa,

[01:30:41] suposta ideia

[01:30:43] de que você, porque

[01:30:45] afirma a vida, não agiria sobre ela.

[01:30:47] Ou seja, você ter vontade de ter ideais

[01:30:49] e agir sobre o mundo, não está

[01:30:51] em oposição a afirmar o mundo. Ou seja,

[01:30:53] não é porque você afirma que você vai dizer

[01:30:55] não vou fazer nada. Muito pelo contrário.

[01:30:57] Acho que isso é crucial pra…

[01:30:59] A afirmação

[01:31:01] é uma ação ativa, né?

[01:31:03] Não é a mesma coisa que uma aceitação resignada

[01:31:05] ou lamentosa.

[01:31:07] Concorda com uma ressalva.

[01:31:09] A nossa ação no mundo é sempre

[01:31:11] diferente.

[01:31:13] Indiferente para o mundo.

[01:31:15] Exatamente. Isso me lembra…

[01:31:17] Não para mim.

[01:31:19] Perfeitamente.

[01:31:21] Isso me lembra um conto do Machado de Assis

[01:31:23] rapidamente que chama

[01:31:25] Igreja do Diabo.

[01:31:27] O Rogério falou

[01:31:29] no meu mundo, daí eu seria Deus.

[01:31:31] E nesse conto

[01:31:33] é muito engraçado como

[01:31:35] o Machado de Assis incorpora

[01:31:37] o demônio indo visitar

[01:31:39] e tirar a satisfação com Deus.

[01:31:41] Falando muito bem, você criou

[01:31:43] aqui essa porra, esse mundo e tal.

[01:31:45] Agora eu estou…

[01:31:47] Aliás, é a igreja que ele fala. Você criou a igreja e tal.

[01:31:49] Então agora eu vou…

[01:31:51] Eu venho até aqui reivindicar

[01:31:53] pra criar a minha própria igreja.

[01:31:55] Eu não lembro se é exatamente isso.

[01:31:57] O Rogério me corrige.

[01:31:59] E daí ele cria.

[01:32:01] O Diabo cansou de

[01:32:03] ficar com as almas porque elas

[01:32:05] não conseguem chegar ao céu.

[01:32:07] Eu fico com um monte de alma.

[01:32:09] Eu tenho mais alma do que…

[01:32:11] Tem mais alma no inferno do céu.

[01:32:13] Mas todas vêm porque elas erram o caminho

[01:32:15] da salvação.

[01:32:17] Agora eu quero fundar a minha igreja

[01:32:19] para que todas venham de vontade própria

[01:32:21] até mim.

[01:32:23] E daí ele funda.

[01:32:25] Aliás, Deus aceita.

[01:32:27] Deus fala, vai, faz o que você quiser.

[01:32:29] Vai se você quiser.

[01:32:31] Continue, continue.

[01:32:33] Eu tenho medo de errar.

[01:32:35] Aí ele cria a igreja.

[01:32:37] Quando ele cria,

[01:32:39] ele adquire uma

[01:32:41] caralhada

[01:32:43] com o perdão

[01:32:45] de adeptos.

[01:32:47] Exatamente.

[01:32:49] E ele se torna

[01:32:51] mais predominante, pelo que eu me lembro,

[01:32:53] do que a igreja de Deus.

[01:32:55] Na verdade, o que se torna

[01:32:59] a fala do Diabo é a seguinte.

[01:33:01] Todo mundo sabe que os pecados são muito mais

[01:33:03] miserosos do que as virtudes.

[01:33:05] Então todo mundo pode pecar à vontade.

[01:33:07] Então todo mundo podia ser egoísta,

[01:33:09] podia ser avaro,

[01:33:11] podia ser lúbrico, podia, enfim,

[01:33:13] cometer os pecados à vontade.

[01:33:15] Esses são os mandamentos. O pecado, ele se torna

[01:33:17] a lei. E aí ele faz um sucesso enorme.

[01:33:19] Todo mundo é egoísta,

[01:33:21] todo mundo é pecador, todo mundo

[01:33:23] é vicioso. Ninguém tem

[01:33:25] virtudes nenhuma.

[01:33:29] Até que daí ele

[01:33:31] começa a descobrir que,

[01:33:33] digamos, escondido,

[01:33:35] muitas pessoas

[01:33:37] faziam uma bondade assim, mas sem que

[01:33:39] ninguém veja. Ou seja, o pecado

[01:33:41] na igreja do Diabo.

[01:33:43] Cometia uma generosidade

[01:33:45] ou outra.

[01:33:47] De repente, sabe, rezava um pouco.

[01:33:49] Eu não lembro dos pormenores.

[01:33:51] Isso, jejuava, escondido, dava

[01:33:53] dinheiro para as pessoas

[01:33:55] que estavam precisando.

[01:33:57] E daí ele

[01:33:59] vai lá de novo para Deus, não é isso?

[01:34:01] Já pode tirar satisfações.

[01:34:03] Tirar satisfações. Você tem

[01:34:05] o dedo seu aqui, né?

[01:34:07] Ou você está, digamos, tentando

[01:34:09] enfim, recuperar

[01:34:11] seus fiéis. E o Deus fala que nada.

[01:34:15] Ele fala, não, isso aí

[01:34:17] é o ser humano.

[01:34:19] É a eterna contradição humana.

[01:34:21] Exatamente.

[01:34:23] E aí

[01:34:25] eu queria fechar minha fala respondendo

[01:34:27] perguntas sobre educação, aproveitando o gancho.

[01:34:31] O CBK lembrou de uma passagem

[01:34:33] fundamental. O conto da igreja do Diabo

[01:34:35] é fundamental, porque ele diz lá a fórmula do que é o homem.

[01:34:37] O homem é uma eterna contradição.

[01:34:39] Então é justamente essa pessoa

[01:34:41] que quer erradicar, por exemplo,

[01:34:43] sei lá, uma determinada maldade

[01:34:45] no mundo, ele faz uma outra maldade

[01:34:47] em outra parte, sem nem

[01:34:49] sequer muitas vezes perceber isso

[01:34:51] que ele tem feito.

[01:34:53] Nas franjas, né?

[01:34:55] Então essa contradição humana

[01:34:57] ou um relativismo

[01:34:59] extremo é o que aparece também

[01:35:01] no alienista, em que o médico

[01:35:03] que cura, que define a loucura

[01:35:05] e cura os loucos acaba

[01:35:07] se tornando ele próprio a loucura.

[01:35:09] Então essa contradição humana

[01:35:11] nos mostra que não tem como escapar

[01:35:13] dessa, digamos,

[01:35:15] existência

[01:35:17] feita de claro e escuro,

[01:35:19] de bem e mal, feita de

[01:35:21] aspectos positivos e negativos,

[01:35:23] feita daquilo que o Freud vai chamar de

[01:35:25] instinto de vida, instinto de morte,

[01:35:27] de tudo aquilo que

[01:35:29] compõe a existência como um pacote.

[01:35:31] Por isso que quando você afirma a existência

[01:35:33] você diz que

[01:35:35] o grande valor da vida

[01:35:37] é a própria vida.

[01:35:39] E aí a educação, por exemplo,

[01:35:41] que pode ser feita em relação a isso,

[01:35:43] ou seja, o que essa filosofia então

[01:35:45] nos leva? Nos leva ao pessimismo?

[01:35:47] Não, não nos leva ao pessimismo.

[01:35:49] Nos leva justamente

[01:35:51] essa aceitação

[01:35:55] do que é efêmero,

[01:35:57] do que é fatal, do que é

[01:35:59] passageiro, algo que, por

[01:36:01] exemplo, a cultura do renascimento fez de

[01:36:03] maneira

[01:36:05] brilhante. Ou seja,

[01:36:07] a educação do renascimento

[01:36:09] mostrava justamente esse aspecto.

[01:36:11] Nós temos que viver a vida da melhor

[01:36:13] maneira possível porque a única coisa

[01:36:15] que nós temos efetivamente é a vida.

[01:36:17] E ela dura muito pouco.

[01:36:19] E, além disso, ela é

[01:36:21] repleta de dor,

[01:36:23] de sofrimento,

[01:36:25] de aspectos, como

[01:36:27] diz o Nietzsche, problemático

[01:36:29] e estranho. Então não é tirando

[01:36:31] o problemático e é que eu

[01:36:33] serei feliz.

[01:36:35] Mas é ser feliz justamente

[01:36:37] apesar disso e com tudo isso,

[01:36:39] afirmando, aprovando isso.

[01:36:41] Aquilo que o José vai dizer em outro lugar.

[01:36:43] Tudo vai mal, sejamos felizes.

[01:36:45] Um pouco dessa ideia.

[01:36:47] Eu acho que isso

[01:36:49] fechou de uma maneira fantástica.

[01:36:51] É claro que é foda que eu acabei

[01:36:53] lembrando, no meio dessa conversa, de uma série

[01:36:55] de outros contos que poderiam entrar aqui,

[01:36:57] mas daí a gente não ia acabar mais.

[01:36:59] Mas aí já era, foi só programa dois, cara.

[01:37:01] Pois é, mas tem

[01:37:03] a ideia de canário,

[01:37:05] a ética da ocasião,

[01:37:07] que na verdade é outra coisa, o

[01:37:09] nome do texto, alguma coisa

[01:37:11] da ocasião. Olha, como

[01:37:13] eu falei no livro lá antes, então

[01:37:15] pra voltar ele, quando ele fica

[01:37:17] pronto, a gente pode fazer, provavelmente

[01:37:19] talvez no ano que vem,

[01:37:21] alguma coisa mais distante pra não ficar

[01:37:23] muito próximo, um machado

[01:37:25] dois. E aí a gente poderia fazer ele

[01:37:27] pautado nos contos.

[01:37:29] Já que o trágico aqui foi definido

[01:37:31] hoje em relação à

[01:37:33] sua filosofia, talvez a gente

[01:37:35] pudesse voltar falando desses

[01:37:37] contos e mostrando como ele vai tocando

[01:37:39] nesses aspectos dolorosos

[01:37:41] da existência, como

[01:37:43] como se ele fizesse

[01:37:45] há cem anos

[01:37:47] antes do Rossé, o que o Rossé

[01:37:49] fez na lógica do pior.

[01:37:51] Na lógica do pior, as pessoas perguntam

[01:37:53] mas que título estranho é esse?

[01:37:55] Que lógica é essa? A lógica é você

[01:37:57] pensar o pior possível

[01:37:59] como maneira

[01:38:01] de testar se ainda assim

[01:38:03] você aprova a existência.

[01:38:05] Aí a gente vê que várias pessoas,

[01:38:07] aí os ouvintes podem fazer ainda o teste,

[01:38:09] várias pessoas vão ficando pelo caminho.

[01:38:11] A maior parte opta por alguma ilusão.

[01:38:13] Então nada

[01:38:15] contra as pessoas

[01:38:17] que optam pela ilusão, muito pelo

[01:38:19] contrário, toda a minha compaixão

[01:38:23] e aceitação e

[01:38:25] afirmação. Claro, claro, porque é

[01:38:27] muito compreensível

[01:38:29] que você opte por abraçar alguma

[01:38:31] ilusão qualquer, diante

[01:38:33] das pereza que é

[01:38:35] a existência. Agora é um filósofo

[01:38:37] com o achado

[01:38:39] que vai pensar o conhecimento

[01:38:41] e portanto não está preocupado

[01:38:43] se as pessoas vão ficar

[01:38:45] mais ou menos

[01:38:47] espantadas, chocadas

[01:38:49] ou pressionadas

[01:38:51] até onde o pensamento vai.

[01:38:53] Eu acho que a gente está tendo essa atitude hoje aqui.

[01:38:55] Sabe que

[01:38:57] pensar o pior é justamente

[01:38:59] exercitar a aprovação

[01:39:01] da vida. Porque ainda assim

[01:39:03] existe uma vontade de viver,

[01:39:05] uma alegria de estar vivo que

[01:39:07] supera mesmo os momentos

[01:39:09] mais dolorosos.

[01:39:11] Rogério, muito obrigado

[01:39:13] de novo, por mais essa

[01:39:15] enfim, praticamente a aula

[01:39:17] e conversa

[01:39:19] também extremamente prazerosa.

[01:39:21] Daniel, obrigado de novo

[01:39:23] também.

[01:39:25] Obrigado Rogério, também foi ótimo o papo

[01:39:27] sobre o machado. Obrigado, agradeço

[01:39:29] ao Daniel, ao Marcos

[01:39:31] pela oportunidade, pelo convite

[01:39:33] renovado e continuo a

[01:39:35] exposição. Pra mim é um prazer enorme participar

[01:39:37] e sempre que me chamarem

[01:39:39] estarei presente. Maravilha.

[01:39:41] Obrigado mesmo e obrigado ao Vinci

[01:39:43] por ter ouvido

[01:39:45] mais um

[01:39:47] podcast do Não Obstante

[01:39:49] que assim como a vida

[01:39:51] não tem necessidade alguma de existir

[01:39:53] mas mesmo assim desejamos.

[01:39:55] Votem no Becai.

[01:39:59] Então é isso, todo mundo digam tchau

[01:40:01] rápido. Tchau.

[01:40:03] Tchau.

[01:41:03] Tchau.

[01:41:33] E aí

[01:41:39] e aí

[01:41:41] e aí

[01:41:43] e aí

[01:41:49] e aí

[01:41:51] E daí

[01:41:55] e aí

[01:41:59] e aí

[01:43:03] Your Jeep is filled with crocodile tears

[01:43:06] See you run, now you’re gone

[01:43:33] Your Jeep is filled with crocodile tears

[01:43:36] See you run, now you’re gone

[01:43:47] Toylike people make me boylike

[01:43:50] Toylike people make me boylike

[01:43:53] Boylike, take it easy

[01:44:33] Dream on