#05 Filosofia do Design – uma aposta pós-prometeica?


Resumo

O episódio discute o artigo ‘Um Prometeu Cauteloso’ de Bruno Latour, traduzido por Daniel Portugal, que propõe uma filosofia do design baseada em uma ação pós-prometeica. Os participantes exploram as cinco conotações do termo ‘design’ apresentadas por Latour: modéstia, atenção aos detalhes, articulação de significados e sensibilidades, redesign (reelaboração) e ressonâncias morais. Essas conotações contrastam com a visão prometeica moderna, que busca criar ex nihilo (do nada) com base em verdades universais.

A discussão avança para a crítica de Latour à dicotomia moderna entre ‘questões de fato’ (matters of fact) e ‘questões de interesse’ (matters of concern), argumentando que o design transforma objetos em ‘coisas’ no sentido heideggeriano – agrupamentos de interesses contraditórios. O design, portanto, não é um acréscimo superficial, mas uma atividade que reconhece a dimensão política e moral intrínseca aos artefatos.

A conversa também aborda a influência de Peter Sloterdijk, especialmente sua noção de ‘esferas’ como embalagens simbólico-materiais que constituem a existência humana. Sloterdijk é apresentado como um pensador que literaliza metáforas, como a ideia de que humanos nunca estão ‘nus’ no mundo, mas sempre envoltos em camadas de design. Isso leva à proposição de que ‘Dasein ist Design’ – o ser-no-mundo é sempre mediado por projetos e embalagens.

Por fim, os participantes refletem sobre o desafio final de Latour: a necessidade de desenvolver novas ferramentas de visualização e representação que capturem a natureza controversa e híbrida das ‘questões de interesse’, superando os modelos modernistas ainda predominantes. O episódio conclui com uma crítica ao design thinking e a outras abordagens que, apesar de se apresentarem como pós-modernas, permanecem presas a paradigmas prometeicos.


Indicações

Artigos

  • Um Prometeu Cauteloso (Cautious Prometheus) — Artigo de Bruno Latour, traduzido por Daniel Portugal, que propõe uma filosofia do design baseada em uma ação pós-prometeica, criticando a visão moderna de criação.

Conceitos

  • Matters of Fact vs. Matters of Concern — Dicotomia proposta por Latour entre ‘questões de fato’ (supostamente objetivas) e ‘questões de interesse’ (controversas, híbridas). O design transforma as primeiras nas segundas.
  • Pós-prometeico — Termo cunhado a partir do artigo de Latour para designar uma forma de ação que mantém a vontade de construir, mas abandona a megalomania e o universalismo da visão prometeica moderna.

FilóSofos

  • Bruno Latour — Filósofo e antropólogo francês, conhecido pelos Estudos da Ciência e Tecnologia. Critica a divisão moderna entre fatos e interesses, propondo uma visão baseada em agenciamentos e redes.
  • Peter Sloterdijk — Filósofo alemão citado por Latour como principal pensador de uma filosofia do design. Desenvolve a noção de ‘esferas’ como embalagens que constituem a existência humana.
  • Martin Heidegger — Filósofo alemão cujo conceito de ‘Dasein’ (ser-no-mundo) e de ‘coisa’ como agrupamento são retomados por Latour e Sloterdijk na discussão.

Livros

  • Jamais Fomos Modernos — Livro de Bruno Latour que argumenta que a separação moderna entre natureza e cultura nunca se efetivou, servindo de base para sua crítica.
  • Esferas (trilogia) — Obra de Peter Sloterdijk que estuda a subjetividade humana como ‘bolhas’ e ‘globos’ – embalagens simbólico-materiais que constituem nossa existência.
  • Políticas do Artificial — Livro de Victor Margolin criticado no episódio por defender uma visão humanista e responsável do design, mas que ainda pressupõe uma natureza ‘pura’ a ser preservada.
  • Becoming Human by Design — Livro de Tony Fry mencionado como exemplo da ideia de que nos tornamos humanos através do design, alinhado com a discussão sobre Sloterdijk.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao episódio e apresentação do tema — Marcos Beccari e Daniel Portugal apresentam o episódio, focando na Filosofia do Design. Daniel traduziu o artigo ‘Um Prometeu Cauteloso’ de Bruno Latour, que será o centro da discussão. Eles explicam que o artigo foi uma palestra de 2008 e que a tradução para o português é recente, destacando a importância dos termos e conotações da palavra ‘design’.
  • 00:05:22Quem é Bruno Latour e sua crítica à modernidade — Daniel explica quem é Bruno Latour, filósofo e antropólogo francês, conhecido por seus Estudos da Ciência e Tecnologia. Ele critica a divisão moderna entre ‘fatos’ e ‘interesses’, argumentando que tudo é um agrupamento de questões interconectadas. Seu livro ‘Jamais Fomos Modernos’ é mencionado como base para entender que a separação entre natureza e cultura nunca se efetivou.
  • 00:11:20A figura de Prometeu como metáfora prometeica — Os participantes discutem a figura mitológica de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para dar aos humanos. Prometeu representa a visão prometeica/megalomaníaca de criação a partir do nada, sem considerar consequências. A ideia de um ‘Prometeu cauteloso’ é paradoxal e serve como metáfora para uma filosofia do design pós-prometeica, que não nega a vontade de construir, mas o faz a partir de outro paradigma.
  • 00:17:38As cinco conotações do design segundo Latour — Eles detalham as cinco conotações vantajosas do termo ‘design’ para uma teoria pós-prometeica da ação: 1) Modéstia (não arrogância de um único caminho); 2) Atenção aos detalhes (em oposição ao grandioso); 3) Articulação de significados e sensibilidades (não separação entre função e forma); 4) Redesign/reelaboração (nunca criar ex nihilo); 5) Ressonâncias morais (reconhecimento da dimensão ética e política).
  • 00:43:00Design como redesign e a crítica ao criacionismo — A quarta conotação – redesign – é explorada. Design nunca parte do zero, sempre reelabora algo pré-existente. Isso contrasta com a visão prometeica de criação ex nihilo. Eles mencionam a piada de Latour sobre o ‘design inteligente’ criacionista, que ignora que até Deus, na narrativa cristã, é um redesigner (redimindo o que deu errado), nunca um criador a partir do nada.
  • 00:53:00Dimensão moral do design e crítica ao universalismo — A quinta conotação trata das ressonâncias morais. Quando algo é elaborado pelo design, imediatamente se pode perguntar se foi bem ou mal projetado. Isso contrasta com as ‘questões de fato’ modernas, supostamente além da moral. A discussão critica visões como a de Victor Margolin (‘Políticas do Artificial’), que defende uma responsabilidade ética dos designers, mas ainda pressupõe uma natureza ‘pura’ a ser preservada – uma visão que Latour rejeita.
  • 01:01:32Peter Sloterdijk e a noção de esferas (embalagens) — A discussão avança para a filosofia de Peter Sloterdijk, citado por Latour. Sloterdijk questiona a noção heideggeriana de ‘ser-no-mundo’, propondo que os humanos nunca estão ‘jogados’ nus no mundo, mas sempre ‘embalados’ em esferas simbólico-materiais (desde a bolha materna até os globos sociais). O design, portanto, é entendido como a criação dessas embalagens que constituem nossa existência. ‘Dasein ist Design’ – o ser é sempre mediado por projetos.
  • 01:17:57Desafio final de Latour e conclusões — Os participantes leem e comentam o desafio final de Latour: a necessidade de novas ferramentas de visualização para representar a natureza como trajetória de controvérsias (questões de interesse). Criticam o ‘design thinking’ e outras abordagens que, apesar de se apresentarem como pós-modernas, permanecem em paradigmas modernos. Concluem que uma filosofia do design deve questionar a tradição filosófica ocidental e reconhecer que nossa existência é sempre um artifício, sem oposição entre natural e artificial.

Dados do Episódio

  • Podcast: Não Obstante
  • Autor: Marcos Beccari
  • Categoria: Society & Culture Philosophy
  • Publicado: 2015-03-07T08:06:05Z
  • Duração: 01:34:50

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Você está ouvindo, não obstante, um podcast sobre filosofia, design e outras ficções.

[00:00:30] Começando mais um Não Obstante, eu sou Marcos Beccari, estou novamente na companhia do Daniel Portugal.

[00:00:37] Fala oi Daniel.

[00:00:38] Olá.

[00:00:39] Tudo bom?

[00:00:40] Beleza.

[00:00:41] Hoje somos só nós dois, porque o Daniel é também o convidado, que eu vou entrevistar.

[00:00:48] Eu vou me entrevistar.

[00:00:49] É, ele vai se entrevistar, eu vou ajudar ele a se auto-intervistar.

[00:00:55] E esse programa é o nosso primeiro programa com o tema diretamente ligado à Filosofia

[00:01:01] do Design, certo Daniel?

[00:01:04] Certo.

[00:01:05] Então, sobre o que é que a gente vai falar em Filosofia do Design?

[00:01:10] Bom, o negócio é que eu traduzi recentemente esse artigo do Bruno Latour, que se chama

[00:01:14] Um Prometeo Cauteloso, alguns passos rumo a uma Filosofia do Design, com especial

[00:01:20] atenção a Peter Sloterdijk, que é um filósofo alemão sobre o qual a gente

[00:01:25] vai falar mais aqui durante o programa.

[00:01:27] E esse é um artigo de 2008 do Bruno Latour, na verdade é uma conferência que ele deu

[00:01:32] em um congresso de História do Design.

[00:01:36] E enfim, o texto deu em inglês nessa palestra, fecou esse artigo em inglês e tem tradução

[00:01:42] em vários idiomas, mas até mês passado não existia em português.

[00:01:47] Olha aí.

[00:01:48] O que o Daniel fez, né?

[00:01:51] Exatamente.

[00:01:52] Aí eu estava, ano passado, quando eu dei o curso de Filosofia do Design, eu indiquei

[00:01:56] esse artigo e tal, e não tinha em português, e aí eu fiquei com tudo na cabeça e estava

[00:02:02] querendo traduzir esse artigo, e a minha namorada, Isabela Fraga, ela trabalha

[00:02:08] com revisão de tradução, essas coisas, e aí a gente acabou combinando de traduzir.

[00:02:13] Então traduzi, ela deu uma ajuda, revisou, a gente conversou sobre alguns termos,

[00:02:18] e nesse texto, na verdade, os termos são muito importantes, porque o argumento do Bruno

[00:02:23] Latour, como a gente vai falar em breve, ele se baseia nas prontas conotações do

[00:02:28] próprio termo design, e em inglês design pode ser um verbo, to design, e em português

[00:02:35] não existe como verbo, então essa foi uma das questões da tradução, mas a

[00:02:39] gente volta ao assunto, em breve, para falar antes quem é Bruno Latour, essa apresentação

[00:02:47] do artigo.

[00:02:48] Isso, então, como o Daniel falou, o artigo original é a Cautius Prometeus, né?

[00:02:54] Cautius Prometeus, Prometeus Cautioulos, A Few Steps Toward the Philosophy of Design.

[00:03:03] Isso, o Wisp Special Attention to Peter Sloterdijk.

[00:03:10] Ele foi, na verdade, uma palestra, como o Daniel falou, na tal de Networks of Design,

[00:03:18] que é um encontro da Design History Society, que foi em Fomont Cornwallia.

[00:03:23] Isso, na Inglaterra, Cornwallia é uma região da Inglaterra, né?

[00:03:27] É uma região sul.

[00:03:29] E Fomont é uma cidade, é isso?

[00:03:31] Fomont.

[00:03:33] Acho que sim, não tenho certeza, deve ser.

[00:03:35] Deve ser.

[00:03:37] E foi em 2008, e o artigo que o Daniel traduziu saiu na Agitprop, que é a

[00:03:45] revista brasileira de design.

[00:03:47] A tradução, no caso, exatamente.

[00:03:48] Isso, exatamente.

[00:03:49] E aí eu publiquei também um comentário sobre esse texto lá no nosso blog, na Filosofia

[00:03:55] do Design, também tá lá pra quem quiser ver, esse é um post, e aí lá tem os

[00:03:59] links.

[00:04:00] Tem os links, então, também pra quem quiser ver, tem o link pro artigo traduzido

[00:04:04] no PDF, ou na revista, enfim.

[00:04:07] É, a gente vai deixar os links também aqui no post, e o Daniel preparou até

[00:04:12] um PDF, digamos, se for um layout interessante, um layout diferente.

[00:04:21] Que é melhor pra ler online, porque da revista ele é um texto corrido, às vezes cansa

[00:04:25] um pouco, com um texto tão grande quanto esse, e que tem que prestar atenção também.

[00:04:29] É um texto que não é tão simples quanto parece, às vezes, tem que ter questões.

[00:04:34] As notas rodam a pé, é interessante que você leia quase simultaneamente, e nesse

[00:04:40] layout que o Daniel fez, tá com as notas assim.

[00:04:42] Enfim, a gente deixou o link também, a gente carregou esse PDF pelo Filosofia do Design,

[00:04:48] que é o nosso site.

[00:04:49] Aliás, pra quem não sabe o que é Filosofia do Design, todo mundo, cara, no Anticast

[00:04:55] o pessoal sempre fala, pô, Becker, explica que porra é essa de Filosofia

[00:04:58] do Design, e tal, enfim.

[00:05:00] Então, a oportunidade aí.

[00:05:02] É, hoje é um programa que a gente vai falar um pouco a respeito, mas existe

[00:05:07] um site, olha só, chamado Filosofia do Design, que tem várias posts ali e tal.

[00:05:14] A gente se dedica a algum tempo já a falar sobre isso, tá certo?

[00:05:19] Daniel, quem é Bruno Latour?

[00:05:22] Pois é, Bruno Latour, ele é um filósofo francês, antropólogo, filósofo e tal,

[00:05:27] e na verdade, o principal ramo de estudo deles é o que ele chama de

[00:05:32] Estudos da Ciência e da Tecnologia, que ele abrevia como ECT,

[00:05:37] Estudos da Ciência e Tecnologia, isso é obviamente a abrevação em português.

[00:05:43] E aí, ele trata de questões como a verdade científica, ou seja, a tecnologia,

[00:05:50] qual é a relação da tecnologia com a verdade, ou esse tipo de questão.

[00:05:53] E uma das propostas dele, que é bastante conhecida,

[00:05:59] é essa noção de que, no ponto de vista moderno, há uma divisão entre coisas que a gente

[00:06:05] encara como fatos, que a gente deveria encarar apenas como verdade, algo que estaria dado,

[00:06:11] e outra parte do mundo que seria uma questão de interesse, de convenção,

[00:06:17] de algo a mais que além do fato.

[00:06:21] E ele vai questionar essa divisão, ele vai dizer que isso é uma divisão problemática.

[00:06:27] Exatamente porque ela é moderna, né?

[00:06:29] Isso, então ele tem um livro que é talvez o mais famoso dele, que chama Jamais Fomos Modernos.

[00:06:33] Isso.

[00:06:34] E aí justamente o argumento é que, na verdade, isso é sempre uma tentativa de encobrir algo,

[00:06:38] porque na verdade, tudo que existe no mundo, todo mundo à nossa volta,

[00:06:43] ele sempre está ligado a diversas questões de interesse,

[00:06:47] ele é sempre algo que é formado na interação de nós humanos com objetos, com coisas, com ideias.

[00:06:55] E na interação com discursos, no caso científico,

[00:07:01] que não se isola esse discurso científico dos outros, que são políticos, sociais e tudo mais.

[00:07:07] Sim, exatamente, por isso inclusive que ele vai recuperar, no próprio artigo ele faz isso,

[00:07:11] a noção de coisa do Heidegger, que é essa ideia de que coisa, o termo coisa,

[00:07:16] ele vem de uma espécie de assembleia, de reunião, então a coisa…

[00:07:22] É grupamento.

[00:07:23] É grupamento, exatamente.

[00:07:25] A coisa seria, na verdade, o resultado de um agrupamento, de uma diversidade de interesse,

[00:07:32] de coisas, e é isso que ele está propondo aqui no artigo, em parte.

[00:07:36] Outros livros de destaque do Latour, O Ciência em Ação, tem uma tal de Esperança de Pandora,

[00:07:45] a Esperança de Pandora, só que esse é meio ecológico demais, ele também tem essa preocupação.

[00:07:49] O que eu li foi o Reagregando Social, além do Jamais Fomos Modernos,

[00:07:54] daí explica a teoria dele do ator Heidegger, que na verdade, enfim, a gente não vai cair tanto

[00:08:02] nessa teoria, que é bem complexa, e recentemente ele publicou, em 2013, o Unenquire into Modes of

[00:08:10] Existence, que é uma investigação dos modos de existência, uma antropologia dos modernos,

[00:08:17] ou da modernidade, que não foi traduzido ainda no português.

[00:08:20] Eu, assim, particularmente acho que o Latour é um dos poucos que reconhecem lucidamente que os

[00:08:27] autores que se auto-intitulam como pós-modernos, são os mais modernistas, incondicionalmente,

[00:08:35] e isso porque lá no Jamais Fomos Modernos dele, eu acho isso interessante de falar,

[00:08:41] o argumento básico é que aquilo que a gente chama de modernidade, jamais passou de um

[00:08:47] mundo que, no fim das contas, falhou naquilo que se propôs. Então, um de seus objetivos,

[00:08:51] que não foi alcançado, era de separar ontologicamente as esferas de natureza e cultura,

[00:09:04] colocar de um lado a natureza e de outro a cultura, isso para que o homem possa agir

[00:09:08] sobre as duas coisas, agir tanto sobre a natureza quanto sobre a cultura através da

[00:09:13] cultura. O Bruno Latour mostra de que forma que isso não se efetiva na modernidade,

[00:09:23] sobretudo no século XIX, daí entra o romantismo, por exemplo, justificando que a

[00:09:29] gente não pode se dar o luxo de usar o rótulo de pós-modernos, uma vez que Jamais Fomos

[00:09:36] Modernos, eu acho fantástico essa linha de argumentação dele, embora eu concordo

[00:09:42] totalmente. E no final dos anos 90, porque tudo isso que a gente falou, inclusive Jamais

[00:09:47] Fomos Modernos ou a teoria do ator Reddy e tudo mais, é antes da década de 90,

[00:09:52] que a partir da década de 90 ele começa a analisar aquilo que ele chama de ecologia

[00:09:57] política, principalmente num livro chamado Políticas da Natureza. Eu não li esse livro,

[00:10:04] você chegou a ler? Não, não li também não. Só que eu acho interessante só o título desse

[00:10:12] livro é legal porque ele já funciona como contraponto a um livro que eu detesto chamado

[00:10:17] Políticas do Artificial de Victor Margonim. Tá ligado? Tá ligado, mas também não li.

[00:10:23] Cara, o pior que eu sentei um dia na livraria, e vi esse livro traduzido em português,

[00:10:30] é interessante a tradução. Eu li ele de cabo a rabo lá na livraria. Cara, achei muito chato,

[00:10:36] muito chato. Mais para frente eu explico. Vamos ficar no Latour. E atualmente, só fechando o

[00:10:45] Latour, ele conduz um projeto, mais ou menos, de mapeamento de controvérsias científicas ou

[00:10:52] controvérsias dos discursos, não só científicos, mas políticos também, dando ênfase

[00:10:58] real às controvérsias ambientais e isso que vai culminar nesse livro recente que é investigação

[00:11:05] dos modos de existência. Eu acho que já deu para explicar quem é o Latour. Vamos para o artigo,

[00:11:12] Prometeu Calteroso. Aliás, a gente vai comentar sobre quem é Prometeu também ou não?

[00:11:20] Sem dúvida, acho que no artigo a gente vai acabar caindo nisso. Você quer comentar?

[00:11:25] Prometeu, acho que a maioria sabe, é um titã da mitologia grega mais conhecido porque ele teria

[00:11:32] roubado o fogo divino para dar para o homem. E aí, como sempre nas mitologias, tem várias

[00:11:38] lendas, diversas lendas sobre Prometeu, algumas inclusive contraditórias. Em algumas ele criou

[00:11:44] o homem, em outras ele só roubou o fogo para dar ao homem. De todo modo, ele sempre

[00:11:52] aparece como alguém que beneficia o homem, que dá algo importante para o homem. Mas acho que aqui

[00:12:00] no artigo, uma conotação que o Latour se aproveita desse personagem é que ele aparece

[00:12:07] como criador e um criador que se importa tanto com a sua criação que é capaz até de se

[00:12:14] sacrificar por ela de certa forma. Porque quando ele vai roubar o fogo do céu e dá para o

[00:12:20] homem estar desprotegido, vou contar melhor essa história, em seguida ele sabe de certo modo

[00:12:26] que é capaz de ser descoberto, imagina roubar o fogo dos deuses. E aí ele tem uma punição

[00:12:32] bastante leve, uma puniçãozinha, que é ficar para o resto da eternidade preso acorrentado

[00:12:41] num rochedo, enquanto um abutre come seu fígado, que depois resurge, depois se regenera,

[00:12:49] para ele ficar lá sendo atormentado. Orgonhento eternamente. Exatamente. Essas punições leves

[00:12:57] que cometem alguns personagens da mitologia grega, como também o Tântalo, que fica lá

[00:13:02] preso enquanto com sede, enquanto a água vai subindo, mas nunca chega na altura que ele pode

[00:13:08] ou síssefo, que vai ficar carregando a pedra em cima da montanha e depois lacar, esse tipo

[00:13:13] de coisa. E eu acho que a metáfora desse prometeu, em primeiro lugar, que nem se falou,

[00:13:19] tem a ver com esse auto-sacrificio, com uma ideia meio megalomaniaca. Exatamente. Ele usa

[00:13:28] prometeu como o paradigma, o exemplo, o grande exemplo de alguém que quer construir as coisas

[00:13:37] a partir de uma certa visão. E essa visão, justamente, é a visão megalomaniaca, por exemplo.

[00:13:42] É a visão de que não considera as pequenas coisas, quer fazer alguma coisa e foda-se o resto.

[00:13:48] Revolucionar. Exatamente. Vou revolucionar, vou criar do nada, vou criar algo estranho.

[00:13:53] Estúdio extremo. Exatamente. E a ideia, eu acho, de um prometeu cauteloso, por sua vez,

[00:13:59] aí já não é exatamente prometeu, né? Exatamente. É uma coisa quase contraditória.

[00:14:05] Inclusive, tem uma frase no artigo que é com exclamação no final. É como se tivéssemos

[00:14:12] que imaginar um prometeu roubando cautelosamente o fogo do céu. Exatamente. É uma empreitada

[00:14:20] completamente megalomaniaca, roubar o fogo do céu. Então, se esse cara é cauteloso,

[00:14:24] ele simplesmente não vai roubar o fogo dos deuses. Não tem nada de cauteloso em roubar.

[00:14:30] A ideia de um prometeu cauteloso, contraditória e tudo mais,

[00:14:34] ela serve como metáfora de uma proposta filosófica, de uma filosofia do design não modernista.

[00:14:42] Também nem pós-moderna, óbvio. E que, no caso, o Bruno Latour elege o Peter Sloterdijk,

[00:14:49] que é um dos filósofos que a gente vai comentar logo mais, como sendo o principal,

[00:14:53] para ele, o principal pensador dessa filosofia do design.

[00:14:58] Exatamente. E essa noção de ser uma filosofia necessariamente pós-moderna,

[00:15:05] em outro sentido que não do que a gente está acostumado lidar com o pós-moderna,

[00:15:08] é interessante. Em que medida não é moderno, é além do moderno, de certa forma, mas não é

[00:15:14] o que a gente costuma entender como pós-moderno. Isso porque o pós-moderno normalmente está

[00:15:19] associado a uma desconstrução de tudo. É uma negação do moderno. Exatamente. É uma negação

[00:15:24] mas nesse sentido que você quer sempre desconstruir. É como se você não tivesse,

[00:15:32] você deixasse de lado esse projeto da modernidade, sem dúvida, mas essa vontade

[00:15:40] também moderna de construir. O que o Bruno Latour quer indicar com essa ideia de pós-prometeico

[00:15:45] é que você continua com a vontade de construir o mundo, mas só que você vai construir a partir

[00:15:50] de outra paradigma, a partir de outra perspectiva. Não é exatamente uma negação do moderno,

[00:15:56] mas uma coisa de desvio ou de repente até se aproveitando do moderno, mas vendo outros tipos

[00:16:03] de referenciais. Sim, por um lado eu acho até que teria uma negação do moderno, mas acho que

[00:16:09] é uma negação do moderno que mantém essa vontade de construir um mundo de acordo com,

[00:16:16] de adequar o mundo à humanidade, mas não da maneira moderna, ou seja, não assim vou sair

[00:16:25] quebrando tudo aqui e criar uma mina porque eu só quero extrair um monte de metal e se esse

[00:16:32] negócio acabar com essa parte aqui da Terra não quero nem saber. É como se a forma moderna de

[00:16:41] falar sobre o mundo fosse um pouco anacrônica. Ela não pensa de consequência, como se ela fosse

[00:16:50] uma coisa até ingênua num certo sentido. Isso, que não funciona mais, não faz o menor sentido.

[00:16:56] Não funciona mais, essa megalomania, toda essa ideia de revolução também, ela é claramente

[00:17:02] problemática. A gente vai explicar isso por que, mas vamos para a pauta principal, agora entra

[00:17:09] aquela musiquinha que o Felipe Ari vai colocar agora.

[00:17:11] Essa palestra que deu origem ao artigo, se eu esqueci de falar, ela é meio que dividida em

[00:17:38] duas partes. A rigor é dividida em duas, só que eu acho que a gente pode considerar a última parte,

[00:17:44] que seria umas considerações finais, como uma terceira. Então a primeira parte, ele analisa

[00:17:49] cinco conotações sucessivas, porque uma vem, digamos, em consequência da outra.

[00:17:56] São cinco conotações. É, do conceito de design. Digo sucessivas porque elas, assim,

[00:18:05] a forma pela qual ele explica essas conotações, é quase como se uma englobasse um pouco a outra.

[00:18:13] É, mas acho que é uma questão mais atórica. É, talvez. E a segunda parte, a introdução à

[00:18:20] filosofia do design, do Peter Zoterdijk. E a terceira parte é uma espécie de conclusão,

[00:18:25] considerações finais, sobre como agrupar as coisas através do desenho, esse tal de drought

[00:18:31] together. Quando a gente chegar lá, a gente explica exatamente o que é isso.

[00:18:35] É, só porque essa questão já começa, essa questão dos termos. Draw things together pode

[00:18:40] significar, principalmente, juntar as coisas. É formar um conjunto a partir de elementos.

[00:18:46] É, tipo isso, juntar, draw. Mas quando ele escreve isso no artigo, ele coloca um itálico no draw.

[00:18:53] Draw também pode ser desenhar. E como ele tá falando do design e o draw ele tá remetendo ao design,

[00:18:59] essa ideia de que nós poderíamos juntar coisas. Draw things together pode ser também simplesmente

[00:19:05] entender uma coisa. Ah, juntou várias ideias e aí formou uma noção coerente da coisa. Mas a

[00:19:12] ideia é um pouco fazer isso através do design. Como o design pode nos ajudar a fazer isso.

[00:19:16] Eu achei fantástico a escolha da palavra draw, do desenho. Que ele considera draw como se fosse

[00:19:25] um entendimento literal do que é design. É mais ou menos isso. E daí ele explica o que é draw.

[00:19:31] É formar um conjunto coerente, uma ilusão de unidade a partir de elementos díspares.

[00:19:38] Elementos que não estão juntados antes. E eu acho que isso é fantástico, porque é uma

[00:19:45] ótima definição pra desenho, eu diria. Agora é que você tá empenhado no desenho.

[00:19:51] É, mas voltando aqui, isso que o Daniel tá falando sobre os termos. Inclusive o Daniel já antecipou

[00:19:58] que o Latour utiliza o termo design tanto como substantivo quanto como vermo.

[00:20:03] É, em inglês normalmente você tem esses dois usos.

[00:20:07] A questão é como que você fez essa tradução?

[00:20:12] Pois é, porque o argumento do Latour, o argumento dele se constrói sobre o termo design.

[00:20:19] Ele vai começar dizendo o seguinte. Há um tempo atrás, há umas décadas atrás, o termo design,

[00:20:24] pelo menos na França, quando o Latour era francês, quando criança ele morava na França,

[00:20:31] quando era mais jovem, ainda mora, né? Exatamente, mas assim, ele agora tá pensando,

[00:20:36] tá escrevendo em inglês. Mas o que ele quer dizer é que… Não, eu falei que ele era francês, sim.

[00:20:40] Mas ele quer pensar a conotação que o termo design tinha umas décadas atrás

[00:20:48] de como ela mudou hoje. E aí, umas décadas atrás, o que ele diz é que o design tinha essa

[00:20:53] conotação de alguma coisa superficial, que você acrescentava as coisas que eram realmente

[00:20:58] importantes. Então você tinha um carro, né? A coisa realmente importante era a materialidade do

[00:21:03] carro, como ele funcionava. E aí, acima dessa coisa importante que dizia a respeito à engenharia,

[00:21:09] a mecânica, você acrescentava essa coisa aí, esse detalhe, essa frescureba que era o design.

[00:21:15] Então o design tinha sempre essa conotação de algo a mais, de não apenas, mas também isso,

[00:21:23] de um print quase. Exatamente, tem uma frase que eu acho fantástica, preste atenção não somente

[00:21:29] à função, mas também ao design. Essa construção de não somente, mas também, é justamente

[00:21:36] reforçando essa dicotomia moderna entre a função de um lado, ou a materialidade, os aspectos,

[00:21:45] rígidos e sérios, e de outro lado, os aspectos estéticos simbólicos no caso do design.

[00:21:53] Essa coisa subjetiva, né? Até hoje você escuta uma pessoa falando alguma coisa,

[00:22:00] tipo, mas isso é subjetivo, como se o fato de ser subjetivo fosse um problema.

[00:22:04] Então, ele vai não só criticar essa divisão, né? Não somente, mas também,

[00:22:12] essa construção de frase já deixa claro que de um lado já está separado, não somente,

[00:22:19] mas também. Mas o ponto dele é que essa noção mudou. Atualmente essa já não seria, de acordo

[00:22:27] com ele, a principal conotação do termo design. Embora ainda exista, claramente,

[00:22:32] alguém falando, ah, mas isso é só uma questão de design, de modo geral o design

[00:22:36] tem uma relevância muito maior. Ele fala que o termo se ampliou, e se ampliou de duas maneiras,

[00:22:42] tanto ele passou a abrangir mais coisas, você chama muito mais coisas de design,

[00:22:48] quanto ele passou a ser mais importante. Então, essa separação de, ah, tem lá

[00:23:00] uma coisa importante, e por cima você coloca esse vernezinho, que é o design,

[00:23:03] por favor. Então, assim, qual é a diferença, por exemplo, de um iPhone? Que parte do iPhone

[00:23:08] é de design e outra não, entendeu? A parte programada ela também é feita através de design,

[00:23:13] de certa forma. Não tem uma parte funcional, não tem como separar direito uma parte

[00:23:18] funcional da parte que é design. Ou seja, o espectro, perdão, estou meio gripado hoje,

[00:23:24] viu, gente? O espectro das coisas, né, que antes podiam ser, digamos, designados como design,

[00:23:31] agora se torna, segundo ele, infinitamente maior. O que também indica uma mudança,

[00:23:37] isso eu acho que esse é o ponto do argumento dele. O fato das coisas que a gente chama de

[00:23:43] designs ter um prisma maior, formar um prisma maior, indica também uma mudança na forma

[00:23:50] como lidamos com os objetos e com as ações de maneira geral. Essa transição que ele vai

[00:23:59] fazer de objetos para coisas, né, transição entre objeto e coisas, isso que o Daniel já antecipou,

[00:24:05] né, coisas no sentido de Heidegger, né, é o que tem dado força à noção de design, fazendo

[00:24:11] com que o design se torne uma, finalmente uma questão de interesse. Eu vou ler aqui o parágrafo

[00:24:16] que ele fala disso, que é interessante. Olha, ele diz, um elemento superficial nas mãos de

[00:24:21] profissionais pouco sérios que acrescentavam recursos sob a supervisão de profissionais bem

[00:24:26] brasileiros, engenheiros, cientistas, contadores, o design tem se expandido continuamente, ganhando

[00:24:32] cada vez mais importância para o CERN da produção. E mais, o design se estendeu dos detalhes de

[00:24:38] objetos cotidianos para cidades, paisagens, nações, culturas, corpos, genes e, como ele

[00:24:46] vai argumentar mais à frente, para a própria natureza. Essa é uma questão crucial que a gente vai

[00:24:50] comentar depois. A própria natureza é esse elemento que na modernidade era visto como

[00:24:55] o não design, o oposto do design, aquilo que não tem a mão do homem, ele vai argumentar que a própria

[00:25:01] noção atual de natureza, quando a gente fala, por exemplo, em um parque natural, já é uma parte da

[00:25:08] realidade que foi construída pelo design, né, isso é bem interessante. Ela foi meio que acoplada, né?

[00:25:14] É, quando você define justamente um parque natural dizendo que ali a natureza vai ser preservada,

[00:25:19] você criou a natureza, você criou aquele parque nacional, justamente a parte que você

[00:25:23] criou a natureza foi criada. E por isso que o Latour fala que design, olha só a provocação dele,

[00:25:29] é uma palavra que substituiu a ideia moderna de revolução. Só que talvez esteja me adiantando.

[00:25:36] É, vamos lá então. Acho que vão aos poucos essas cinco conotações, né? Porque então o que ele

[00:25:42] diz é que essa mudança… Daniel, desculpa, eu acho que antes de entrar nas cinco conotações,

[00:25:47] só ainda ficando na questão dos termos, da tradução do design e tal, só para responder

[00:25:53] essa questão, você traduziu então, na verdade, quando ele usa verbo, você colocou como elaborar,

[00:25:58] né? É, eu usei elaborar e aí quando a questão, a palavra design era muito importante,

[00:26:03] eu acrescentei elaborar através do design. Através do design. É, tem que… E daí,

[00:26:07] substantivo, você mantê o design, obviamente, né? É, mantive design, claro. Mas o… Porque a

[00:26:13] questão, talvez o verbo mais óbvio dessa tradução fosse projetar, né, no caso, você

[00:26:18] faz, aí você projeta. Mas o ponto é que, como a gente estava discutindo agora, o termo projetar,

[00:26:24] assim como outros termos como construção, revolução… Faz parte do vocabulário moderno.

[00:26:28] Exatamente. Fazia parte do vocabulário que ele chama de prometeico. Exatamente. E também,

[00:26:33] antes de entrar nas cinco conotações, eu acho interessante dar uma breve explicação do que

[00:26:39] ele chama de questões de fato ou matters of fact, né? E questões de interesse, que é

[00:26:45] matters of concern, né? Exatamente, porque matter of fact, você pode, em inglês,

[00:26:51] ter uma expressão relativamente comum, você pode falar, isso é matter of fact, tipo,

[00:26:55] isso é fato, né, tá dado. É objetivo. Exatamente. Mas ao mesmo tempo, matter,

[00:27:02] matter of fact, o termo matter pode significar matéria também. Então tem esse duplo

[00:27:11] que se encaixa bem aí. Ou seja, matter of fact é uma matéria, ou seja, algo que é visto como se

[00:27:18] fosse uma questão objetiva. Então quando você diz, por exemplo, isso é um fato, ou sei lá,

[00:27:23] isso é uma questão puramente objetiva, é justamente você… É um entro em discussão, né?

[00:27:27] Isso, exatamente. Um entro em discussão, tipo, você apenas constatando o que existe,

[00:27:31] você está então lidando com essa coisa, sobre a qual você falou isso, como se ela

[00:27:36] fosse uma questão de fato, um matter of fact. Ao contrário… É uma contraposição.

[00:27:41] Exatamente, contraposição quando você lida com alguma coisa pensando que ela é algo discutível,

[00:27:46] que ela é resultado de um projeto, então você pode discutir essa coisa, entendeu? Ela é algo

[00:27:52] que surgiu, seja de uma briga de interesses, seja de um projeto específico, etc. Então você

[00:27:59] pode discutir. Então ela é uma questão de preocupação, de debate, né? Então é um matter

[00:28:05] of concern, né? Concern é a ideia de você se preocupar não no sentido de ficar,

[00:28:10] oh, meu Deus, mas estar atento a aquele negócio, né? Uma coisa que importa, né?

[00:28:15] Eu acho que ele usa esses termos, me parece, né? Eu não conheço tanto a obra do Latour,

[00:28:20] mas ele já usou em outros lugares. Sim, sim, sim, mas ele usa também.

[00:28:24] Eu acho que ele usa de uma maneira mais ou menos didática para justamente fazer essa…

[00:28:30] É, para fazer essa discussão, essa distinção, para também explicar, exatamente.

[00:28:34] E de um lado, a questão do fato, de fato, né? O matter of fact,

[00:28:40] ele está de certa forma associado ao pensamento moderno, né?

[00:28:45] Sem dúvida. É, na verdade, é justamente uma divisão, né? Porque no caso do moderno,

[00:28:52] você dividir entre questões de fato e questões que não é bem de interesse, né? Porque a

[00:28:56] ideia de questão de interesse seria uma nova forma de encarar a questão de fato, ou seja,

[00:29:01] de todas as coisas, de modo geral. Na modernidade, o que há é essa ruptura, né?

[00:29:04] Entre de um lado o fato e de outro lado essa coisa que não importa tanto,

[00:29:08] que seria subjetivo, simbólico, estético, assim, que é superficial, de modo geral.

[00:29:13] Então vamos nas cinco anotações já, né? Eu acho que já dá para entrar nelas.

[00:29:32] Sim, é porque aí essa explicação, até agora acho que ficou mais ou menos claro o que é o

[00:29:38] termo prometeico, essa proposta moderna de construção, mas a proposta pós-prometeica

[00:29:43] não fica clara de imediato, né? Porque a gente sabe o que que é, meio difusa. E aí ele tenta

[00:29:47] construir isso, que é toda a ideia da filosofia do design, a partir da connotação do termo

[00:29:52] design. O que ele quer propor é que justamente a mudança e a ampliação do termo design serve

[00:29:59] como uma espécie de medidor, ele diz, né? No qual a gente pode ver essa mudança de

[00:30:04] forma na teoria coletiva da ação, como ele chama, no modo de agirmos sobre o mundo.

[00:30:09] Na verdade eu entendi que essas cinco anotações que ele elenca ali, ele elenca meio que assim,

[00:30:15] não é arbitrariamente, mas sem muito método, tipo, né? Elencando o que ele acha mesmo,

[00:30:22] que na verdade além de ser anotações, são vantagens que ele coloca nesse termo.

[00:30:28] São vantagens porque justamente ele está propondo, ele é adepto da teoria pós-prometeica da ação.

[00:30:35] Exatamente, então são vantagens a uma teoria pós-prometeica da ação.

[00:30:38] São vantagens em relação à teoria prometeica, ou seja, são vantagens da teoria pós-prometeica.

[00:30:44] Isso, na verdade são vantagens para a construção de uma teoria pós-prometeica.

[00:30:49] Não, porque essa já é, ele está usando o termo design para dizer que essa é a teoria,

[00:30:54] é a forma pós-prometeica. Entendi, a partir do termo design.

[00:30:58] Ele está mostrando como essa nova acepção do termo design é diferente da prometeica

[00:31:03] e ela ajuda a gente a entender o que seria essa noção pós-prometeica.

[00:31:08] Por isso são vantajosos. É, exatamente, porque eles são vantajosos.

[00:31:10] Então qual que é a primeira anotação que você colocou lá no post da Filosofia Design

[00:31:17] como humildade, mais ou menos, eu chamaria mais de modéstia, porque enfim,

[00:31:22] é uma coisa meio valorativa, embora modéstia também seja,

[00:31:25] mas porque não é exatamente um valor moral essa primeira anotação, tá certo?

[00:31:30] É uma forma de ação de uma despretenciosa.

[00:31:35] Ah, essa aí mesmo.

[00:31:37] Que, ou seja, de um modo diferente do pensamento moderno,

[00:31:41] que está muito calcado numa ação relacionada a uma construção,

[00:31:46] mesmo quando tem destruição, no caso do romantismo, por exemplo,

[00:31:49] não destruir o passado, é uma destruição tão radical quanto a construção,

[00:31:54] que é a partir do zero, né? Então é uma transformação radical.

[00:31:57] E daí no design ele se apresenta dessa maneira mais modesta do que o projeto moderno.

[00:32:03] O projeto carrega toda essa, esse verbo projeto,

[00:32:09] carrega toda essa pretensão de construir, destruir e transformar radicalmente.

[00:32:15] Então o design vai mais no sentido de reelaborar aos poucos.

[00:32:20] É, não, o reelaborar aos poucos já é outra anotação, na verdade, outra vantagem.

[00:32:27] A primeira da modéstia ou humildade

[00:32:31] é a ideia justamente que você não tenha essa arrogância de um único caminho,

[00:32:35] porque a grande questão é que parece que tem um único caminho no design moderno.

[00:32:39] É como se, assim, você tem um caminho certo

[00:32:42] e que se você seguir aquele caminho, não importa o que está ao redor,

[00:32:46] você faz qualquer coisa.

[00:32:47] Aquele caminho é o certo, se você tiver que destruir o mundo inteiro

[00:32:50] para chegar naquele caminho, está valendo a pena.

[00:32:52] Eu penso numa revolução, sei lá, comunista, você pode matar todo mundo,

[00:32:56] porque você está indo no caminho do bem com o B maiúsculo.

[00:33:00] Então, assim, não importa o que você tenha que fazer.

[00:33:05] Você precisa ser cauteloso, você precisa ser muito modesto.

[00:33:09] É, não tem nenhuma, não tem zero de modéstia.

[00:33:11] Imagina, você vai fazer a revolução e vai criar o bem,

[00:33:14] ou seja, modéstia zero, assim.

[00:33:18] Mesmo no caso do Mao Tse Tung,

[00:33:20] que ele coloca lá uma revolução que deve se auto revolucionar,

[00:33:24] no caso da revolução cultural, que é uma coisa fantástica,

[00:33:28] porque eu acho que é como se fosse o ápice que chega a ser o inverso

[00:33:33] desse projeto moderno de construir e destruir.

[00:33:38] Ou seja, ele faz toda uma revolução para destruir o passado,

[00:33:41] mas também destrói mesmo o que ele está construindo. Fantástico.

[00:33:45] Mas enfim, mais alguma coisa do modéstia?

[00:33:47] Não, acho que é essa questão.

[00:33:49] E aí em seguida, a segunda conotação é de uma atenção aos detalhes.

[00:33:55] A ideia de que você faz, está preocupado com detalhes,

[00:33:58] com pequenas questões, ou seja, está relacionado com o que eu falei antes.

[00:34:02] Enquanto na visão prometeca ou moderna,

[00:34:05] você está preocupado com o grandioso, uma coisa que você está preocupado.

[00:34:10] Com a estrutura, eu diria.

[00:34:11] Como ideia de estrutura.

[00:34:13] É exatamente, mas essa ideia de estrutura,

[00:34:16] essa ideia de estrutura que pressupõe uma correção,

[00:34:19] que pressupõe algum certo, uma coisa que está universal.

[00:34:23] Ou seja, uma essência.

[00:34:25] Uma essência, exatamente, uma espécie de essência.

[00:34:28] Quando você abandona isso, os detalhes se tornam também mais importantes.

[00:34:32] Os detalhes perante essa estrutura moderna,

[00:34:36] eles são como se fossem irrelevantes, é uma consequência secundária.

[00:34:42] Então você vê que tem a ver com essa coisa da modéstia

[00:34:44] e da atenção aos detalhes que são próximos.

[00:34:46] Por isso que eu falei lá que esses termos são sucessivos.

[00:34:50] Eles meio que dependem do anterior.

[00:34:52] Sim, as conotações.

[00:34:54] E ao invés de pensar em termos de rupturas e transformações radicais,

[00:34:58] o design foca justamente nesses detalhes pouco importantes.

[00:35:03] Pouco importantes na noção prometeca.

[00:35:05] Exatamente, então o design eleva esses detalhes pouco importantes

[00:35:10] para a coisa mais importante.

[00:35:11] Exatamente.

[00:35:13] Daí sim de uma maneira cautelosa,

[00:35:17] com precaução e conservação.

[00:35:20] Eu acho interessante uma parte do artigo que ele fala que essa forma de

[00:35:26] agir que é pensando na conservação

[00:35:29] e de uma transformação cautelosa

[00:35:34] aos olhos modernos soa como algo reacionário.

[00:35:39] Soa como algo, enfim, efetivamente conservador.

[00:35:43] E de fato sim, né?

[00:35:46] Só que é uma por isso que é interessante que nessa perspectiva do Latour

[00:35:51] o conservador só faz sentido aos olhos do moderno, né?

[00:35:56] Porque é possível você fazer, mas ter uma postura radical

[00:36:00] e cautelosa ao mesmo tempo.

[00:36:02] Pelo menos esse tipo de conservador, esse tipo de reacionarismo concorda.

[00:36:07] Porque você pode ser reacionário querendo manter o moderno também.

[00:36:11] Daí é sem ação, né?

[00:36:13] É, ou querendo manter a forma de ação prometeca também.

[00:36:17] Exatamente, que daí aquela velha questão que o pessoal fala que

[00:36:24] os radicais de ontem são os reacionários de hoje

[00:36:26] que tentam voltar às revoluções do século XIX.

[00:36:30] Exatamente, é isso mesmo.

[00:36:33] Mas vamos deixar isso de lado e ir para a terceira.

[00:36:35] A terceira é uma atenção aos significados e gostos.

[00:36:40] Essa ideia de que sempre que você faz design

[00:36:42] você está preocupado com a questão simbólica e com a questão estética.

[00:36:45] Que eu chamaria inclusive de articulação de significado.

[00:36:48] Sim, de significado e sensibilidade, digamos.

[00:36:52] Isso, que não é apenas uma atenção

[00:36:54] no sentido, sei lá, linguístico, sabe?

[00:36:57] Tipo, sei lá, estruturalista.

[00:37:01] O que é o significado e o que é o significante?

[00:37:03] Mas justamente no design, eu acho que envolve também já no termo.

[00:37:08] Eu acho que é isso que ele quis demonstrar.

[00:37:10] Essa ideia de articulação de significado.

[00:37:14] Sim, a ideia de que os significados e as sensibilidades

[00:37:17] que se relacionam com a coisa não são apartadas da coisa

[00:37:21] como uma coisa como algo que você não precisa considerar

[00:37:25] quando você considera o CERN dessa coisa, um suposto CERN objetivo.

[00:37:30] É como se as ressonâncias

[00:37:33] simbólicas e estéticas da coisa fossem parte do CERN daquela coisa.

[00:37:37] É meio essa ideia.

[00:37:39] Ou seja, os aspectos materiais ou mesmo reais

[00:37:43] e objetivos e factuais não estão separados.

[00:37:46] Isso, exatamente.

[00:37:47] Dos demais aspectos, no caso simbólicos, semânticos, estéticos, subjetivos.

[00:37:52] Então a ponto do design implicar

[00:37:57] essa transformação de objetos em signos ou mesmo em coisas

[00:38:01] que ele vai falar dos agrupamentos de Heidegger.

[00:38:05] Sim, ao mesmo tempo concordo, mas ao mesmo tempo

[00:38:07] ele não quer fazer essa divisão de transformar o objeto

[00:38:10] não é transformado em signo.

[00:38:13] No final ele fala que objetos sempre foram coisas.

[00:38:15] Exatamente, eu estou tentando

[00:38:19] bem uma discordância só em relação aos termos

[00:38:22] porque você também tem que, há quem fale que essa ideia de transformar

[00:38:25] objetos em signos seria, na verdade, um empobrecimento da experiência.

[00:38:29] Não é um nominalismo, né?

[00:38:31] É, mas há quem veja essa transformação.

[00:38:35] Eu imagino o Baudrillard, por exemplo, talvez, pensa assim.

[00:38:38] Essa ideia de que os objetos se transformaram em signos

[00:38:41] é uma espécie de afastamento da realidade.

[00:38:44] O pluratura não é exatamente isso que ele quer dizer.

[00:38:48] Porque a ideia é que a realidade

[00:38:50] inclui a linguagem.

[00:38:53] A linguagem é parte da realidade.

[00:38:55] Ela transforma a realidade, embora ele não assuma

[00:38:59] essa postura constitucionista radical de como se a realidade

[00:39:02] fosse apenas efeito da linguagem.

[00:39:04] Ele quer uma filosofia, justamente, que englobe essas coisas.

[00:39:15] Aqui no caso do Baudrillard,

[00:39:18] não tem nada a ver aqui com o nosso papo.

[00:39:20] Signo não é exatamente um signo linguístico, sabe?

[00:39:26] Difícil retomar isso, que são níveis que ele constrói.

[00:39:31] Assim, que vem depois de símbolos e depois do aspecto funcional.

[00:39:35] Se fosse uma coisa assim muito

[00:39:39] que realmente vai para o metafísico, entende?

[00:39:43] A questão signica para ele.

[00:39:45] Então realmente é difícil colocar os dois assim, mas enfim.

[00:39:49] Não, sim, eu só quis dizer justamente que não é essa proposta.

[00:39:52] Sim, sim, exatamente.

[00:39:53] E ou seja, os artefatos estão sendo concebidos

[00:39:58] não que eram diferentes antes, mas estão sendo pensados

[00:40:02] agora com conjuntos complexos de questões contraditórias.

[00:40:07] Então, de certa forma, a matéria tem sido absorvida.

[00:40:11] Isso não deve ser entendido literalmente.

[00:40:14] Mas ela foi absorvida pelo significado, assim que ele coloca.

[00:40:17] A matéria é absorvida pelo significado, a função é absorvida pela forma

[00:40:22] absorvida no sentido porque antes eram coisas separadas, separadas forçadamente.

[00:40:27] Então ele fala de uma hermenêutica da materialidade

[00:40:30] ou na verdade ele fala que não é à toa que a hermenêutica tem se preocupado

[00:40:34] cada vez mais com o significado da matéria, do real.

[00:40:40] E há uma espécie de disputa de significados ontológicos na hermenêutica.

[00:40:44] Enfim, o que é a hermenêutica?

[00:40:46] A hermenêutica é o estudo da língua, da linguagem, da interpretação.

[00:40:54] Isso, exatamente.

[00:40:55] Que é Hermes, deus da, enfim, da mitologia, vem de Hermes.

[00:41:00] A hermenêutica é isso.

[00:41:01] E no caso assim, uma tendência que existe

[00:41:06] crescente de fato, enfim, desde o passado do século 20, 19 para o 20,

[00:41:12] é que a interpretação hermenêutica, ela de certa forma se sobrepõe

[00:41:17] à metafísica, à ontologia. Por quê?

[00:41:20] Porque a interpretação do que é real e do que deixa de ser real,

[00:41:25] do que é a existência, o ser, ela na verdade começa a se revelar

[00:41:30] cada vez mais como uma questão só de interpretação,

[00:41:34] e não mais como uma questão de fato nos termos do lator.

[00:41:39] Ou os dois juntos.

[00:41:40] Mas enfim, uma mistura dos dois.

[00:41:42] Exatamente, porque esse terceiro aspecto que a gente está falando

[00:41:45] de articulação dos significados, do design,

[00:41:49] está em sincronia com isso.

[00:41:51] Ou seja, o design ele tem, eu acho, eu sempre digo isso,

[00:41:55] que ele deveria estudar bastante hermenêutica, sabe, ao invés

[00:41:59] inclusive de semiótica.

[00:42:01] Tá, mas vamos entrar nessa parte, vamos passar para a quarta aqui.

[00:42:06] Senão já era, o programa era hermenêutica vs.

[00:42:09] Isso que eu acho foda nesse artigo, só um parêntese, que ele é um,

[00:42:13] ele é muito

[00:42:17] interessante porque ele bate de frente assim com,

[00:42:20] digamos, todo um paradigma do pensamento no campo do design.

[00:42:24] Eu fico imaginando quando ele deu essa palestra

[00:42:27] que era um encontro de design, da história do design,

[00:42:30] ele às vezes fica pedindo desculpa para os historiadores,

[00:42:34] ele dizia, sei, eu sou ignorante aqui, quer dizer, eu sou de fora, não sei o que.

[00:42:39] Mas eu fico imaginando que tudo isso que ele fala,

[00:42:42] os caras devem ter se entreolhado assim, meio que em alguns momentos, sabe?

[00:42:46] Tipo, se estranhado assim, nossa, o que esse cara está falando?

[00:42:49] Mas tudo bem, ele é filósofo, vamos dar um desconto para ele.

[00:42:52] Sabe, esse clima assim.

[00:42:56] Era um fantástico, assim.

[00:42:58] Vamos lá para a quarta.

[00:43:00] A quarta ideia é de que quando você faz design, você está sempre

[00:43:04] fazendo um redesign, você está sempre fazendo um design

[00:43:07] a partir de alguma outra coisa.

[00:43:09] Você nunca está partindo do nada.

[00:43:11] Tanto é que até no processo criativo, de modo geral,

[00:43:14] quando a gente produz alguma coisa, desenvolve um projeto,

[00:43:19] a gente normalmente parte de referência, procura referências usuárias,

[00:43:21] faz pesquisa, todo o processo criativo está normalmente baseado

[00:43:26] não só no briefing, mas também em pesquisa, em referências.

[00:43:32] Então você está sempre, na verdade, fazendo um redesign,

[00:43:35] redesenhando alguma coisa.

[00:43:37] Ou reelaborando, como eu escolhi traduzir.

[00:43:41] Exatamente.

[00:43:42] Então existe uma certa valorização do que já está dado.

[00:43:47] Em contraposição à vontade de prometer que é de construir do nada,

[00:43:50] como você estava falando.

[00:43:51] Exato, é isso que eu ia falar, que isso só se torna uma

[00:43:56] uma conotação vantajosa.

[00:43:58] Em oposição à essa lógica de criar a partir do nada,

[00:44:02] que é aquela expressão criar ex nihilo.

[00:44:06] Não sei se se pronuncia assim.

[00:44:08] Eu realmente não sou nenhuma autoridade na pronúncia do latim, não, mas

[00:44:13] que é do nada em latim, só isso.

[00:44:16] E esse ex nihilo é o referencial do projeto moderno, prometeico.

[00:44:22] Só que também entra.

[00:44:26] É questionável isso, claro, porque, por exemplo,

[00:44:29] se a gente incluir no moderno

[00:44:32] o pensamento do renascimento

[00:44:35] com o humanismo e tudo o mais, o renascimento, pelo menos na história da arte

[00:44:39] e tal, ele é renascimento justamente porque busca

[00:44:43] o que veio antes, que no caso são os gregos.

[00:44:46] Tá certo?

[00:44:47] Ou a.

[00:44:48] Mas é uma busca, mas é uma busca no sentido de uma ideia

[00:44:51] de um resgate de valores universais aí que está a diferença.

[00:44:55] Que é diferente, por exemplo, do renascimento romântico

[00:44:58] que vai buscar as referências justamente bárbaras,

[00:45:01] que as referências bárbaras seriam elenistas no caso.

[00:45:04] Não, o renascimento romântico não, o renascimento romântico

[00:45:07] são as referências bárbaras e não elenistas, né?

[00:45:09] Elenista é o renascimento clássico.

[00:45:11] Ah sim, pode.

[00:45:12] E aí justamente essa ideia de que tem outros referenciais,

[00:45:15] você está buscando outras coisas.

[00:45:16] Já entra quase no barroco, né?

[00:45:18] Sim, mas a ideia é que o renascimento tradicional,

[00:45:23] o renascimento greco-romano, ele está buscando uma coisa que está no passado,

[00:45:27] mas que ele está buscando como assim, resgatamos o universal, entendeu?

[00:45:31] A gente ficou, que nem aquela idade das trevas, tá ligado?

[00:45:34] A gente ficou perdido durante a idade média, mas agora a gente resgatou o universal.

[00:45:39] Agora a gente está de novo aqui na questão de fato.

[00:45:45] O interessante é que eles conseguem resgatar isso,

[00:45:48] só que eles não têm, digamos, registro de como aquilo foi feito.

[00:45:52] Aí que entra a questão de criar a XNHILO, sabe?

[00:45:56] Porque eles sabem que existia alguma coisa antes,

[00:45:59] só que eles não sabiam como fazer aquilo.

[00:46:01] Como que eles faziam aquelas esculturas e tudo mais?

[00:46:04] Aí que o cara, eu esqueci o nome daquele cara,

[00:46:08] que ele inventa a perspectiva, esqueci mesmo.

[00:46:10] Brunelesc? Brunelesc, isso, obrigado.

[00:46:15] Aí que o Brunelesc inventa a perspectiva.

[00:46:16] O Brunelesc, na verdade, é o verdadeiro renascentista, né?

[00:46:20] Ele e naquela época lá, o Fiot,

[00:46:25] esqueci o nome, ou seja, o Leonardo e o Michelangelo

[00:46:31] já são uma outra geração de renascentista.

[00:46:35] Só que justamente o Brunelesc, eles têm essa ideia de criar a XNHILO.

[00:46:41] Isso é interessante, já vou fazer uma ponte aqui.

[00:46:44] Há um post que saiu no Filosofia do Design de um debate que eu tive

[00:46:47] com o Felipe Kaiser, que é sobre justamente Filosofia do Design.

[00:46:52] E ele defende essa criação XNHILO.

[00:46:54] Aí eu acho que o referencial moderno

[00:46:56] para o METEC se torna mais claro nesse sentido.

[00:46:58] E aqui o Latorre está realmente defendendo o contrário.

[00:47:02] Que o design não tem nada a ver, mas nada a ver com uma ação

[00:47:05] que se cria a partir do nada, né? Mas sempre.

[00:47:10] Reelaborando.

[00:47:11] Reelaborando a partir de algo que veio antes, que é reparado,

[00:47:14] reelaborado, nunca de uma maneira

[00:47:18] muito transformadora radicalmente e sempre repensado.

[00:47:22] Ele poderia ter uma ligação também com a sua proposta de que o design

[00:47:25] é uma gambiarra também, se tem essa ressonância também.

[00:47:29] Ou articulação, que também tem uma articulação significativa.

[00:47:31] Gambiarra no sentido de uma criação que está ligada

[00:47:35] a pensar novos meios, mas que isso não inclui,

[00:47:38] não significa necessariamente pensar novos meios no sentido da revolução.

[00:47:41] Os novos meios transformando a coisa,

[00:47:46] criando novas perspectivas dentro da coisa.

[00:47:48] Um pouco assim, você imagina a ideia da gambiarra.

[00:47:52] Bom, e por fim, vamos para o quinto, então?

[00:47:53] Sim, eu só queria, eu não sei se você acha interessante,

[00:47:56] é que nessa parte ele fala, ele faz uma espécie de piada.

[00:48:00] Com o lance do design inteligente.

[00:48:04] Já não lembro o que que é isso, como é que é essa piada?

[00:48:07] Pô, pera aí que eu tenho que abrir aqui o artigo.

[00:48:10] Você acredita que até agora eu não lembro o que que é isso?

[00:48:13] Eu não lembro o que que é isso, como é que é essa piada?

[00:48:17] Pô, pera aí que eu tenho que abrir aqui o artigo.

[00:48:20] Até agora eu não abri o artigo, é que eu fiz anotações.

[00:48:25] Também não estou criado aberto não.

[00:48:27] Então pera aí, página oito, isso.

[00:48:31] Na página oito ele fala assim, é curioso

[00:48:35] como os criacionistas estadunidenses usam o termo design inteligente

[00:48:40] como uma espécie de substituto para Deus o Criador.

[00:48:43] Eles não parecem perceber o enorme abismo que existe entre criar e fazer design.

[00:48:48] Os designers mais inteligentes nunca começam de uma tábua rasa.

[00:48:51] Aí que a piada de Deus o designer

[00:48:54] é na verdade um redesigner de algo que já estava lá.

[00:48:58] Isso é ainda mais verdadeiro para seu filho,

[00:49:00] assim como para o Espírito Santo, já que os dois são enviados

[00:49:04] para redimir aquilo que havia dado errado.

[00:49:09] Se a humanidade foi feita ou deveria dizer elaborada

[00:49:13] a imagem de Deus,

[00:49:15] então ela também deve aprender que as coisas nunca são criadas,

[00:49:18] mas sim cuidadas e modestamente relaboradas.

[00:49:22] É muito bom, essa questão também vai aparecer porque o prometeu.

[00:49:25] Ainda que ela assim, quando ele aparece como criador do homem

[00:49:28] em partir do nada é uma coisa, mas acho que a lenda mais famosa

[00:49:33] é uma que o próprio Platão, na verdade, ele narra no…

[00:49:37] algum diálogo que eu não estou lembrando qual é agora, acho que é no Protágoras,

[00:49:40] que é assim resumindo de maneira tosca, mais ou menos assim.

[00:49:45] Você tem o prometeu e ele tem um irmão que se chama Epimeteu.

[00:49:48] Assim, a piada é pronta, prometeu e epimeteu.

[00:49:52] Mas aí os deuses,

[00:49:55] depois que eles criaram as criaturas, teriam dado aos dois titãs

[00:50:00] a função de distribuir as habilidades.

[00:50:03] Então você tem os seres e tem lá barbatana, dente, garras,

[00:50:08] sei lá, inteligência, agilidade, etc.

[00:50:12] E aí o epimeteu é o irmão burro do prometeu, o irmão retardado.

[00:50:17] E aí o prometeu fala assim, então, o epimeteu, vou deixar você distribuir

[00:50:22] os animais menos importantes.

[00:50:24] E aí quando chegar, você faz primeiro o seu trabalho,

[00:50:27] porque você já tem mais dificuldade, coitado.

[00:50:30] E aí depois, quando chegar, eu volto e faço o homem,

[00:50:33] que é o mais importante, com o que tiver sobrado.

[00:50:37] Aí deixa lá o epimeteu fazendo a distribuição

[00:50:40] e quando ele volta pra fazer o do homem,

[00:50:42] ele fala, então tá epimeteu, o que que sobrou pra eu colocar no homem?

[00:50:45] Aí o prometeu fala, putz, acabou, eu usei tudo.

[00:50:50] Aí o prometeu pensa, putz, fudeu agora, o que vamos fazer?

[00:50:54] Não tem, justamente o homem que seria pra ser a criatura mais importante,

[00:50:57] não tem nada pra ele.

[00:51:00] Essa já é a distorção platônica do mito, né?

[00:51:03] Não, isso já é eu distorcendo o modo que o Platão conta, né?

[00:51:07] Porque obviamente ele não conta assim.

[00:51:09] E na verdade é um outro personagem contando o diálogo platônico,

[00:51:12] também, que é o próprio protágora que conta esse nome.

[00:51:14] Ah, pode crer.

[00:51:15] Então assim, mas não importa, mas aí, imagina, chega lá e não tem, né?

[00:51:20] Aí ele vai e resolve então roubar o fogo divino.

[00:51:24] Isso é interessante porque é como se o fogo divino fosse inteligência, né?

[00:51:28] Então inteligência seria, não é que seja a melhor coisa, né?

[00:51:32] Mas é que dado que não tinha nada, a única.

[00:51:36] Você vai atrás daí no caso da matéria prima, né?

[00:51:39] Por assim dizer, né?

[00:51:41] É, porque não, a inteligência aproxima o homem dos deuses, de certa forma.

[00:51:44] Está roubando algo divino e dando para o humano.

[00:51:47] Então assim, o fogo significa o fogo, provavelmente dito, claro,

[00:51:50] na capacidade de fazer fogo e também a inteligência.

[00:51:55] Então é interessante você pode pensar na inteligência nesse caso

[00:51:57] como se fosse um prêmio de consolação, sabe?

[00:52:00] Também é interessante.

[00:52:03] Mas eu acho que quando ele faz essa analogia com o design inteligente,

[00:52:08] que é, enfim, todo mundo já deve ter ouvido falar, né?

[00:52:10] É, do Richard Dawkins, né?

[00:52:13] Não, sim, essa é o que fazia a comparação só para dizer

[00:52:16] que também nesse caso, então, o Prometeo seria um design.

[00:52:19] Ele está relaborando o homem, né? Que não tinha nada e ele está.

[00:52:22] E essa é a base do design inteligente.

[00:52:24] Eu acho fantástico como um cara como Richard Dawkins

[00:52:27] faz um livro chamado Deus Um Delírio, que se diz ateu,

[00:52:30] mas defende um design inteligente, tá ligado?

[00:52:33] Ou seja, o cara ainda assim é metafísico para caramba.

[00:52:37] Mas enfim, vamos para o quinto e último.

[00:53:00] Então o quinto são as ressonâncias morais do design.

[00:53:04] A ideia é que quando você faz um projeto,

[00:53:07] você está, quando alguma coisa foi elaborada pelo design,

[00:53:10] você está de imediato autorizado a perguntar se ele foi bem ou mal projetado,

[00:53:16] se aquilo é bom, se aquilo é ruim.

[00:53:19] Em contraposição, quando você pensava nas coisas

[00:53:21] como uma questão de fato, como algo que está dado,

[00:53:24] você não tem essa pergunta, né?

[00:53:25] Porque justamente a ideia de considerar algo objetivamente

[00:53:28] seria que essa pergunta não surra, entendeu?

[00:53:30] Você não pode perguntar se, sei lá, a lei da física é boa.

[00:53:34] Que ela é justamente uma lei da natureza.

[00:53:37] Exatamente, ela estaria para além da moral.

[00:53:39] Exato.

[00:53:41] Ou seja, essa parte eu meio que sublinhei como artificialidade

[00:53:45] ou reconheço da dimensão convencional do fazer.

[00:53:48] Sim, também.

[00:53:49] Tem, tem, tem. O livro está ligado diretamente, uma coisa.

[00:53:51] Exatamente, porque quando se projeta segundo supostas verdades universais,

[00:53:57] ele diz isso, né?

[00:53:58] Tende-se a ignorar a dimensão moral.

[00:54:01] Porque daí projetar seria apenas uma consequência.

[00:54:04] Você está apenas seguindo as leis da natureza.

[00:54:07] E é claro que você pode se expandir também para leis,

[00:54:09] por exemplo, uma lei moral universal, uma forma universal de se projetar.

[00:54:14] Sempre esses valores supostamente universais e dados.

[00:54:18] E para deixar claro, o design justamente envolve o reconhecimento contrário

[00:54:23] que não existe nada além dessa dimensão convencional.

[00:54:25] Ou seja, não existe uma dimensão universal

[00:54:29] que é totalmente, enfim, factual como a própria noção de natureza.

[00:54:35] Então acho que dá para a gente fazer uma espécie de retomada geral, sintética.

[00:54:40] O design transforma o objeto em coisas, que talvez a gente esclareça logo mais,

[00:54:45] questiona a oposição entre forma e função, assim como entre real,

[00:54:49] material, factual, verso, simbólico, semântico, subjetivo, estético.

[00:54:55] Ele transforma questões de fato em conglomerados

[00:54:57] de interesses, interesses que são muitas vezes

[00:55:01] contraditórios, conflituosos e até invisíveis.

[00:55:05] Esse ponto é importante porque a oposição fica clara entre

[00:55:09] alguém que vai projetar e imagina pensando

[00:55:11] esse é o jeito certo de fazer o negócio.

[00:55:13] Entendeu? O que outra pessoa pensa não importa, porque é o jeito certo.

[00:55:17] Ou seja, isso está dado, isso é objetivo supostamente.

[00:55:21] Essa seria a ideia moderna.

[00:55:22] Enquanto essa, como você colocou agora de que algo de um projeto

[00:55:26] aparece como resultado de um conflito de interesses,

[00:55:29] a ideia é de que você não tenha essa forma universal de construir.

[00:55:33] Então não significa que tudo a vez que você vai construir um prédio

[00:55:38] você vai fazer uma votação para saber qual é a melhor estrutura.

[00:55:40] Não é bem isso que ele está dizendo.

[00:55:41] Mas é você perceber que aquela construção

[00:55:45] ela está diretamente ligada a certos interesses.

[00:55:49] De repente é interessante para algum que seja construído daquela maneira,

[00:55:52] não para outro. Você vai seguir certas linhas de raciocínio

[00:55:54] ou construído daquela forma ou não.

[00:55:56] Ao mesmo tempo vai afetar de maneiras diversas várias pessoas.

[00:56:01] Então seria isso tudo está entrando no projeto.

[00:56:04] Então com isso entrando no projeto rompe essa ideia do universal dado.

[00:56:08] Nos termos dele ele fala assim vocês designers no caso

[00:56:12] não podem mais se prender a ideia de que existe de um lado

[00:56:16] condicionantes materiais objetivos e de outro condicionante

[00:56:20] simbólicos humanos e subjetivos.

[00:56:23] Então com isso ele demonstra que os próprios artefatos

[00:56:26] ou os produtos que os designers fazem não estão alheios

[00:56:29] a uma dimensão política.

[00:56:31] Isso é exatamente.

[00:56:32] Mas ele fala moral ele está também político sem dúvidas.

[00:56:35] É porque não há objetos simplesmente objetivos.

[00:56:41] O que existe são interesses em disputas nos objetos.

[00:56:46] E aqui que eu acho interessante só fazer um

[00:56:49] sei lá um contraponto com o políticas artificial do Margonim

[00:56:54] porque basicamente eu acho eu falei no começo

[00:56:57] que eu achei chato para caramba esse livro porque ele fala.

[00:57:01] Ele é meio humanista e segue muito o Marcuse e Habermas.

[00:57:06] Vitor Margonim é o teórico do design que tem vários artigos aí

[00:57:11] e justamente preocupado com as consequências maléficas

[00:57:16] principalmente da biotecnologia olha a dimensão que o design chega

[00:57:21] pode chegar quando ele vai inclusive ter design de corpos e tudo mais.

[00:57:26] E daí no política artificial ele sempre defende uma lição de moral

[00:57:29] que é o seguinte não tem problema em fazer

[00:57:33] em deixar o mundo cada vez mais artificial.

[00:57:35] Porém a política artificial

[00:57:39] significa que os designers deveriam tomar posse

[00:57:42] da responsabilidade em relação aos artifícios.

[00:57:45] Ou seja os designers deveriam ser os bastiões

[00:57:50] dos artificial entende a nova república do platão

[00:57:53] só que em vez de filósofos são os designers gostei da propósito.

[00:57:57] Cara é como se fosse uma polícia do artificial.

[00:58:00] Então a gente que está propondo a filosofia do design

[00:58:03] a gente vai ser os reis máximos assim.

[00:58:08] Eu acho

[00:58:11] e eu acho que o contraponto é interessante em relação ao Latour

[00:58:14] que o Latour vai dizer justamente cara quando é que foi diferente.

[00:58:20] Não é agora isso entendeu que as coisas estão se tornando cada vez mais artificiais.

[00:58:24] As coisas nunca foram naturais.

[00:58:26] A gente inventou uma natureza artificialmente.

[00:58:31] Enfim eu acho interessante tem aquele Políticas da Natureza do Latour

[00:58:35] fazer ler ao mesmo tempo do política do artificial.

[00:58:38] Uma proposta que eu faço para alguém fazer uma dissertação uma tese.

[00:58:42] De repente um próximo programa a gente pode fazer isso.

[00:58:44] É nossa mas cara é muito chato esse livro cara.

[00:58:48] Entende o Margonim representa um discurso que é extremamente presente

[00:58:52] quando a gente vai falar de design sustentável e por aí vai

[00:58:56] ou design para o mundo real que a gente precisa ter responsabilidade

[00:59:01] em relação a isso que nós produzimos porque nós designers

[00:59:04] ao mesmo tempo somos os vilões que estamos

[00:59:08] deixando o mundo cada vez mais artificial separando o homem da natureza

[00:59:12] pura e em tocado é em tocada.

[00:59:16] Exatamente a esse ponto eu acho que é crucial porque quando você fala

[00:59:19] numa natureza pura e em tocada o que está fazendo na verdade

[00:59:23] é entrando de novo pela porta dos fundos no referencial moderno

[00:59:27] o que está dizendo é existe sim uma lei universal só que ela não é lei

[00:59:30] universal digamos do bem ou da sei lá de qualquer outra do projeto objetivo

[00:59:35] mas é a lei universal da natureza e aí você criou uma nova lei universal.

[00:59:41] Você não conseguiu se manter sem ela então o que o Latour está propondo

[00:59:44] é não existe lei universal então se você quiser recuperar a lei universal

[00:59:48] supostamente da natureza da natureza em tocada só está caindo de novo

[00:59:52] no modernismo.

[00:59:53] A ideia é reconhecer justamente que tudo inclusive a natureza

[00:59:57] é esse aglomerado que é resultado de embates entre atores

[01:00:04] agentes materialidades discursos etc nunca foi diferente sem dúvida

[01:00:09] mas e que ao mesmo tempo reconhecer isso não é deixar de lado

[01:00:14] a pretensão de por exemplo construir algo de acordo com pretensos.

[01:00:21] Não é deixar de lado a vontade de construir algo apenas construir

[01:00:24] sem querer chegar a uma verdade universal.

[01:00:28] Exatamente porque justamente essa nova forma de criar essa

[01:00:33] mentalidade criadora que reconhece que não existem

[01:00:37] questões universais não existem regras universais.

[01:00:41] Não existe cósmica existe regras universais da natureza.

[01:00:44] É a única e eu acho interessante no argumento do Latour

[01:00:47] é a única que tem condições de lidar com os problemas

[01:00:50] na escala que existem hoje como por exemplo como é que você repensa

[01:00:53] o clima da terra.

[01:00:55] Tem uma frase ótima dele que é a gente

[01:00:57] nenhum revolucionário político jamais pensou em alterar o clima da terra.

[01:01:02] Essa ideia de que justamente quando os problemas se colocam

[01:01:06] os problemas para o design se coloca em uma escala ainda maior

[01:01:09] que é necessário abandonar essa ideia de um referencial universal.

[01:01:27] O que ele pega do Lutter Die que me parece já essencial sabe

[01:01:32] essencial no sentido que a gente está criticando esse vocabulário

[01:01:36] mas é importante mas acho que a gente já está comentando sobre isso aqui.

[01:01:39] Porque a ideia que ele tira daí é justamente essa ideia de que o ser humano

[01:01:44] ele é sempre um ser que se que vive na relação

[01:01:49] com as suas criações ele é sempre um ser que vive na relação

[01:01:53] com um certo que se chama de embalagem.

[01:01:55] Na verdade eu acho que tem muita coisa complexa.

[01:01:59] O termo em inglês é que ele usa envelope que seria tradução literal

[01:02:03] talvez fosse involucro.

[01:02:04] Mas antes quando é que o título dessa parte do artigo é Dasein ist Design

[01:02:09] deve ser meio alemão.

[01:02:11] É mas a ideia é que Dasein é design é um troca gírio

[01:02:14] com obviamente um conceito do Heidegger Dasein que é o estar aí no mundo.

[01:02:19] Então eu acho que é preciso explicar isso tipo o Dasein significa

[01:02:23] para Heidegger o lugar onde a questão do ser surge

[01:02:27] o lugar da manifestação do ser.

[01:02:28] É mas Dasein é assim grosso modo é o homem

[01:02:30] só que não quer usar o termo homem.

[01:02:32] Mas é o homem consciente de sua existência.

[01:02:37] É só um sentido razo ao homem e daí quando o Heidegger

[01:02:41] ele fala que é assim que começa esse capítulo o Dasein está no mundo

[01:02:47] antes de entrar no questionamento do Sloterdijk.

[01:02:51] Eu acho interessante explicar o Heidegger queria dizer que é na relação

[01:02:55] e é na compreensão da minha posição no mundo

[01:02:58] que implica não só a minha consciência do ser mas o próprio ser.

[01:03:02] Então o ser é compreender o ser já sendo.

[01:03:07] Existiu esse gerúndio aí ser ele sempre está no gerúndio

[01:03:11] para o Heidegger.

[01:03:12] O que quer dizer também em parte que você não vai sair daqui da terra

[01:03:16] e alcançar Deus é aqui no mundo mesmo e no tempo que você

[01:03:22] é que você pode ter uma conexão de ser já lançado

[01:03:25] no mundo que te precede e tudo mais.

[01:03:28] Sim e também a questão do gerúndio me parece tem essa ligação

[01:03:31] com assim você está saindo da noção metafísica de essências fixas

[01:03:35] ternas imutáveis para reconhecer justamente o ser no processo.

[01:03:39] Exatamente e nisso eu acho importante frisar que há uma diferença

[01:03:44] com relação à concepção de Sartre sobre o ser

[01:03:47] porque essa precedência de um mundo e de um ser lançado nele

[01:03:51] que antecede o ser isso também está em Sartre.

[01:03:55] Só que ao invés de implicar um ser como projeto de responsabilidade

[01:03:59] livre escolha existencial como Sartre coloca e aí na minha opinião retoma

[01:04:03] metafísica o Heidegger apenas atesta a condição interpretativa do ser

[01:04:09] que daí sim permanece no gerúndio de um enquanto ser.

[01:04:12] Ele só é enquanto ele está sendo entende

[01:04:16] e não pode simplesmente pontuar assim agora eu tenho a responsabilidade

[01:04:21] e agora vou construir edificar a minha posição de ser

[01:04:26] como Sartre coloca se finalmente eu vou me emancipar

[01:04:30] me separar dessa condição alienada em que eu me encontrava.

[01:04:35] Isso é o discurso sartreano.

[01:04:38] Então nessas tríade entre situação compreensão e interpretação

[01:04:43] o sujeito e o mundo eles se implicam mutuamente.

[01:04:47] O sujeito ele se percebe como ser como um ser existente

[01:04:52] na interpretação que ele faz de si mesmo em relação ao mundo

[01:04:55] na interpretação que ele faz de si em relação a que ele se encontra

[01:05:00] e essa interpretação não faz surgir o enquanto ser

[01:05:03] que enquanto seja já havia ela apenas dá uma expressão ao ser

[01:05:07] instaurando o que o Heidegger chama de círculo hermêneutico.

[01:05:10] Cara mas não entrar em questões

[01:05:13] não sair completamente do ativo.

[01:05:15] Eu acho que isso é importante para contextualizar com o Lator

[01:05:19] para tentar filosofar sobre o que é o ser jogado no mundo

[01:05:24] sem definir mais precisamente ou mais literalmente.

[01:05:27] Ele fala que o Sloterdick é sobretudo literal em seu uso de metáforas.

[01:05:31] Os usos de embalagens nos quais os seres humanos são jogados

[01:05:34] seria como tentar mandar um cosmonauta para o espaço sideral

[01:05:37] sem o traje espacial.

[01:05:39] Então a gente também tinha essa ideia de que não existe ser humano pelado.

[01:05:42] Ele fala em seguida ele fala isso.

[01:05:44] Um ser humano nu é tão comum quando um cosmonauta nu

[01:05:48] ou seja assim como cosmonauta para estar no espaço precisa do traje espacial

[01:05:52] a gente para estar aqui como um humano

[01:05:55] para estar nesse lugar sócio simbólico que a gente ocupa

[01:05:59] a gente precisa também de armaduras de vestimenta de embalagens

[01:06:04] sócio simbólicas de embalagem de até materiais também.

[01:06:09] Então mas para entender essa ideia

[01:06:11] quer dizer é claro que essa ideia é simples e tudo mais.

[01:06:14] Só que relacionar ela com o Dazen do Heidegger

[01:06:18] é interessante que o Sloterdick

[01:06:20] ele questiona literalmente qual esse mundo

[01:06:22] que o Heidegger fala em que o ser se encontra já jogado.

[01:06:26] Sim sim.

[01:06:27] Então eu deteria que ele defende que nunca estamos

[01:06:29] puramente jogados no mundo como se fôssemos órfãos

[01:06:33] mas sempre já protegidos por uma embalagem uma espécie de embalagem

[01:06:36] aquilo que na verdade o Sloterdick chama de esferas.

[01:06:39] A gente está sempre embalados.

[01:06:42] É exatamente ser humano significa estar em esferas

[01:06:45] na no primeiro volume das esferas é uma trilogia de livros.

[01:06:50] Ele vai justamente estudar a subjetividade humana como uma bolha

[01:06:53] que seria formada em um primeiro encontro dual

[01:06:58] face a face por exemplo com a mãe seria principalmente o principal.

[01:07:01] Então é nesse ser o que o outro espera dele desejar.

[01:07:07] Mas a grande questão é que não existe nada fora da bolha.

[01:07:10] Não é exatamente nada fora dessa condição fora da bolha

[01:07:13] mas é maior por exemplo uma questão criada socialmente.

[01:07:18] Como é que não existe um indivíduo para além do mundo.

[01:07:21] Esse é o ponto.

[01:07:22] É mesmo na situação mais hostil e desconhecida

[01:07:26] no ambiente que a gente nunca a gente já jogado no meio do mato

[01:07:29] assim e o cara e a gente nunca foi no mato antes vamos supor.

[01:07:33] A gente não está isento de um filtro artificial

[01:07:37] de uma embalagem de uma bolha porque a gente nunca sai de uma caverna

[01:07:41] ao contrário do platão para o grande mundo real.

[01:07:44] E portanto não existe design para o mundo real.

[01:07:50] Mas a gente está sempre transição de uma transição de uma esfera

[01:07:54] outra de uma de uma caverna outra de uma embalagem a outra

[01:07:58] de um enredo um significado uma interpretação a outra interpretação.

[01:08:02] Motivo pelo qual não tem que dizer não tem fora não tem fora dessas esferas.

[01:08:06] Viver no mundo humano é viver lidando com essas esferas desde

[01:08:09] a esfera menorzinha da bolha até esses globos que eles chamam

[01:08:14] os globos são as construções sociais maiores.

[01:08:18] E nesse raciocínio eu acho que essa é a questão para a filosofia do design

[01:08:22] o design de embalagens não literalmente pelo amor de Deus.

[01:08:26] O design dessa simbólico

[01:08:29] dessas esferas desses filtros artificiais ou seja desses significados

[01:08:34] é o que instaura no fim das contas a nossa interpretação

[01:08:38] e por extensão o design acaba instaurando nossa própria

[01:08:41] existência no âmbito ontológico.

[01:08:43] Então o design assim entendido de uma maneira hermenêutica

[01:08:46] como uma articulação de significado e interpretação

[01:08:49] é aquilo que instaura assim o nosso ser.

[01:08:52] Então o que aconteceu no século 20.

[01:08:54] Exatamente é para citar o título de um livro do Tony Fry que eu quero ler

[01:09:00] que é assim Becoming Human by Design

[01:09:02] se tornando humano pelo design é essa proposta aqui também

[01:09:04] o que se faz humano é justamente o design.

[01:09:08] Embora eu não li também esse livro

[01:09:10] eu desconfio que ele seja meio humanista

[01:09:12] que é aquilo que o Sloterdak.

[01:09:14] Não acho que não é bom vou ler antes de comentar

[01:09:16] mas pelo pelo pouco que eu vi aqui me parece que não é muito não

[01:09:19] que ele na verdade está partindo do Heidegger também.

[01:09:23] Ah mas assim o que o pessoal fala é que no século 20

[01:09:29] o modernismo se arruinou e nesse raciocínio do Sloterdak não.

[01:09:33] No século 20 não é que o modernismo se arruinou

[01:09:36] porque na verdade ele sempre foi uma embalagem.

[01:09:38] Exatamente o modernismo é uma embalagem que valoriza os globos

[01:09:41] justamente valoriza essas espéries gigantescas em detrimento

[01:09:46] justamente das bolhas.

[01:09:48] É como se você tivesse que se adequar a esses modelos

[01:09:50] enquanto o pós modernismo por outro lado é a valorização só da bolha

[01:09:53] dizendo eu sou o que importa.

[01:09:55] Então para esse Sloterdak o que aconteceu no século 20

[01:09:58] na verdade foi que o aspecto de embalagem dessa embalagem moderna

[01:10:02] só o aspecto ele se tornou mais visível desnaturalizado

[01:10:06] assim como a compreensão de que não existe um lado de fora das embalagens.

[01:10:11] Eu acho que isso é a forma como ele escapa do pós moderno

[01:10:15] porque se você cria assim inclusive uma embalagem chamada pós moderno

[01:10:20] entendeu você não sai da mesma lógica de criação de embalagem.

[01:10:24] Sem dúvida me parece que além disso que você falou

[01:10:27] uma diferença crucial também é a aceitação

[01:10:30] de continuar no processo criativo.

[01:10:32] Então quer dizer obviamente o pós moderno também

[01:10:35] mas aceitar o desafio de criar de certa forma sem só querer.

[01:10:39] Essa é um pouco a distinção que o Latour tenta fazer

[01:10:42] como se o pós moderno quisesse mais desconstruir

[01:10:44] tivesse essa coisa de vale tudo de certa forma.

[01:10:47] Enquanto enquanto na mentalidade pós-prometeca baseada no design

[01:10:52] não é bem que vale tudo você tem ainda certos rumos

[01:10:55] mas você entende a possibilidade de criar algo

[01:10:59] válido algo interessante que as diretrizes são outras

[01:11:02] para criar esse algo e não que vale tudo.

[01:11:04] Um pouco me parece que essa é uma distinção.

[01:11:06] Daí por exemplo o design moderno ele se torna apenas mais um estilo

[01:11:12] uma forma de conceber objetos e tal mas em meio a outros digamos estilos.

[01:11:20] O Bruno Latour ele fala o seguinte na página 15

[01:11:22] quando eu falo página em relação ao PDF que o Daniel fez.

[01:11:26] Não existe nenhum filósofo contemporâneo mais interessado do que ele

[01:11:32] o Sloterdijk Sloterdijk na materialidade

[01:11:36] na engenharia na biotecnologia no design propriamente dito

[01:11:40] nas artes contemporâneas e na ciência de uma forma mais geral.

[01:11:43] Entretanto quando Sloterdijk lida com materialidades

[01:11:46] não é como se elas fossem um acumulado de questões de fato

[01:11:50] que estabeleceriam indisputáveis necessidades naturais

[01:11:53] como palavras finais em debates sociais ou simbólicos.

[01:11:56] Ao contrário quando ele reforça a materialidade de algo

[01:11:59] ele torna explícita mais uma frágil embalagem na qual estamos enredados.

[01:12:04] Esse enredamento é tão relevante para as embalagens da biotecnologia

[01:12:08] quanto para as estações espaciais.

[01:12:11] Eu diria já eu acrescentando

[01:12:15] esse enredamento é tão constitutivo das nossas crenças.

[01:12:20] É do que é ser humano.

[01:12:23] Exatamente. Então não faz sentido por exemplo para mim

[01:12:26] aquele termo que tem em linhas de pesquisa e tal da tal da cultura material.

[01:12:31] Esse termo para mim já é contrário como se houvesse um outro tipo

[01:12:34] de uma cultura imaterial imaginária ideológica.

[01:12:38] A própria a própria noção de matéria

[01:12:41] é situada culturalmente como que pode haver uma cultura material.

[01:12:46] Eu estou crítico faz sentido mas acho que a origem

[01:12:51] dessa proposta é justamente o contrário valorizar a materialidade

[01:12:54] em oposição a pensar a cultura como algo abstrato.

[01:12:57] Mas você vê que a escolha do nome então pelo menos

[01:13:00] é que nem a crítica que o Latour faz sobre os estudos da ciência

[01:13:05] e da tecnologia que se mantém no dilema

[01:13:09] empírico do qual ele tentou sair.

[01:13:13] Que nem falar ciências sociais ele fala que pena tão sociais do tipo

[01:13:17] como se a sociedade fosse em oposição à materialidade.

[01:13:19] Exato a mesma a mesma lógica do design para o mundo real.

[01:13:23] Agora veja ele fala lá o que Habermas retomou que ele está criticando

[01:13:29] tem uma oposição entre o Sloterdak e o Habermas

[01:13:32] porque eles sempre entram em questões.

[01:13:34] O Latour colocou o que Habermas não consegue perceber

[01:13:37] porém é que quando os humanistas acusam as pessoas de tratar os humanos

[01:13:42] como objetos eles inadvertidamente estão tratando injustamente os objetos

[01:13:47] e nessa mesma lógica eu diria quando você fala de uma cultura material

[01:13:52] você está tratando injustamente os materiais.

[01:14:00] Ou justamente o abstrato no caso.

[01:14:02] Exatamente em oposição.

[01:14:05] Mesmo modo essa é a questão os designers ainda não conseguem

[01:14:08] conceber os objetos

[01:14:10] se não como consequências de necessidades inquestionáveis

[01:14:14] como o material como a ideia de materialidade

[01:14:17] que o modernismo inventou.

[01:14:18] Sim agora a proposta é justamente pensar de outra maneira.

[01:14:21] A gente o Latour ajuda a pensar assim e acho que a gente podia terminar

[01:14:25] né Marcos então e depois a gente faz um programa

[01:14:29] a gente promete sobre a esferologia do Sloterdak.

[01:14:33] Inclusive eu acabei de comprar o segundo volume que a tradução inglesa

[01:14:36] saiu agora.

[01:14:37] Puta merda.

[01:14:39] Terceiro infelizmente só quem lê alemão ou francês.

[01:14:41] Boa sorte.

[01:14:42] França que tudo em francês essa parada vai ser foda não tem como.

[01:14:46] Considerações sinais consideração e chamas tem tem tem alguns trechos

[01:14:56] aqui que ele fala que dá para que eu selecionei que dá para a gente

[01:15:00] comentar pode ser.

[01:15:02] Sim é mas de repente ler como consideração final

[01:15:04] acho que está bom a gente já já fez considerações finais.

[01:15:08] Não sei lá por exemplo na página 17 lá ele fala

[01:15:12] é que daí ele está se referindo que o Sloterdak é acusado pelo

[01:15:16] Haber mas como você vai criar uma nova 1984 sabe.

[01:15:22] Ou seja vou ler aqui é até compreensível que quando Sloterdak

[01:15:25] levantou a questão de como seres humanos poderiam ser elaborados

[01:15:28] através do design ou seja criados artificialmente

[01:15:33] isso tem evocado o antigo fantasma das manipulações eugênicas

[01:15:38] mas as necessidades entre esses dois projetos se mostram completamente

[01:15:41] superficiais sob um exame mais atento.

[01:15:43] É por isso que é tão importante falar em design e não em construção

[01:15:47] fabricação e criação a noção de design como apontei antes

[01:15:51] permite levantar não somente a questão semiótica do significado

[01:15:55] mas também a questão a questão normativa do bom e do mau design.

[01:15:59] Exatamente na moral acho que o admirável mundo novo seria o melhor

[01:16:03] exemplo que você quer dizer ou seja não é não é a ideia de que você

[01:16:07] ao manipular ao expandir o design para tudo inclusive genes e tal

[01:16:11] não significa que você vai então usar esse suposto universal

[01:16:14] para manipular tudo e o mundo virar essa distopia

[01:16:17] que a gente está acostumado como no Gataka também.

[01:16:20] Mas ao contrário que ao fazer isso você justamente consegue pensar

[01:16:23] uma ética por exemplo.

[01:16:24] Então por isso que o Latour é um pensador importantíssimo

[01:16:28] para a bioética por exemplo para pensar.

[01:16:30] Exatamente aí que surge a importância política

[01:16:32] eu diria de uma filosofia do design e política também.

[01:16:37] O que a gente vê hoje é isso que o Latour aponta

[01:16:40] é uma disputa de questões de interesse

[01:16:44] com uma ênfase pós-prometeca ou seja já não tem mais referenciais

[01:16:48] totalizantes e inquestionáveis.

[01:16:50] Embora alguns ainda queiram.

[01:16:52] Então só que esse detalhe ainda essa disputa é feita

[01:16:56] por meio de questões de fato como estratégia predominante

[01:17:00] é uma estratégia argumentativa prometeca portanto sabe.

[01:17:05] Por exemplo quando a gente vê o debate entre Sloterdijk e Habermas

[01:17:09] o Habermas ele está impondo ali questões de fato sem perceber.

[01:17:16] Assim como aquela velha discussão entre o Foucault e o Schonsky

[01:17:21] que o Foucault ele sempre vai por esse argumento

[01:17:24] digamos uma ênfase pós-prometeca e o Schonsky.

[01:17:27] Estou falando daquele debate famoso que tem até no YouTube.

[01:17:31] E o Schonsky está falando não porra a língua está no nosso gênesis

[01:17:36] não sei o que.

[01:17:37] Só que enfim o Latour ele deixa em aberto ao invés de desenvolver esse ponto

[01:17:42] da importância política da filosofia do design

[01:17:45] ele deixa em aberto como um desafio aos designers no final do artigo.

[01:17:49] Então a gente acaba assim também.

[01:17:51] A gente pode acabar assim vamos ler o desafio do Latour

[01:17:53] e a gente termina e deixa pra pensar a lição de casa.

[01:17:57] Desafio do Latour.

[01:17:59] Eu queria então na verdade eu falei pra você antes eu queria responder.

[01:18:03] Mas é outro programa.

[01:18:05] Não eu tentei ser rápido.

[01:18:07] Então vai lá e depois a gente acalma.

[01:18:08] Vamos ler antes.

[01:18:10] Ok. Lê você que eu já li bastante.

[01:18:13] Eis a questão que quero colocar aos designers.

[01:18:17] Onde estão as ferramentas de visualização

[01:18:19] que permitirão representar a natureza

[01:18:21] com o trajetória e controvérsia das questões de interesse.

[01:18:25] É um erro comum e bastante pós moderno

[01:18:27] acreditar que esse objetivo teria sido alcançado.

[01:18:30] Então logo a visão modernista, linear, objetificada e reificada

[01:18:35] se despedaça em pontos de vista múltiplos

[01:18:37] em agrupamentos transitórios e heterogêneos.

[01:18:41] Entretanto derrubar a tirania do ponto de vista moderno

[01:18:44] não levará a lugar nenhum uma vez que jamais fomos modernos.

[01:18:49] A crítica a desconstrução e o iconoclasmo

[01:18:52] uma vez mais não darão fim à busca por um design alternativo.

[01:18:56] São necessárias ferramentas que capturem aquelas práticas

[01:18:59] que sempre foram encobertas nas inovações modernistas.

[01:19:03] Objetos sempre foram projetos.

[01:19:06] Questões de fato sempre foram questões de interesse.

[01:19:09] As ferramentas de que necessitamos para compreender essas práticas ocultas

[01:19:13] nos ensinarão tanto quanto a antiga estética das questões de fato e ainda mais.

[01:19:18] Vale deixar claro.

[01:19:19] Eu não estou defendendo outro K de design para Prometeu.

[01:19:23] O que peço é um meio para agrupar as coisas através de desenho.

[01:19:27] Deuses não humanos imortais inclusos.

[01:19:30] Por que seria esta uma tarefa impossível?

[01:19:32] Por que o poderoso vocabulário visual desenvolvido nas gerações passadas

[01:19:36] de artistas, engenheiros, designers, filósofos, artesãos e ativistas

[01:19:40] das questões de fato não pode ser elaborado

[01:19:44] exito em dizer reestilizado para as questões de interesse.

[01:19:48] E assim termina o artigo.

[01:19:51] Eu acho interessante colocar que ele está deixando claro o seguinte

[01:19:55] que o que está faltando hoje

[01:19:57] são justamente formas de representação e visualidade

[01:20:01] adequadas ao modo de ação pós-prometeca.

[01:20:04] Em outras palavras, daí já sou eu, digamos, traduzindo

[01:20:08] o que ele quis dizer.

[01:20:09] Arquitetos, engenheiros e designers continuam projetando

[01:20:13] ou pelo menos explicando isso que eles estão fazendo

[01:20:16] o que eles estão projetando de maneira moderna ainda,

[01:20:19] gerando muitas vezes uma lacuna representacional

[01:20:22] entre o que se pretende conceber formalmente

[01:20:25] e propriamente a coisa concebida.

[01:20:27] Então, de fato, o modelo prometeca persiste

[01:20:31] e de maneira cada vez mais anacrônica

[01:20:35] nos métodos e procedimentos do design.

[01:20:38] Então, assim, o ponto é que o design não se propõe a realizar

[01:20:42] projetos pós-prometeca.

[01:20:43] Aliás, perdão, o ponto dessa discussão

[01:20:47] é que o design cada vez mais se propõe, sim,

[01:20:50] a realizar projetos pós-prometeca.

[01:20:52] Isso a gente vê crescentemente no campo.

[01:20:54] Não mais esse referencial prometeca.

[01:20:56] Mas ele não percebe

[01:20:58] que todos os seus métodos ainda são prometecos.

[01:21:01] Então a consequência é bem prática.

[01:21:03] A gente vê cada vez cada vez mais uma lacuna entre o projetar

[01:21:07] e a coisa projetada entre o conceber e o que no fim das contas foi feito.

[01:21:12] O que muitas vezes não corresponde a concepção.

[01:21:15] Exatamente.

[01:21:16] Isso geralmente muitas vezes não corresponde em nada.

[01:21:20] E aí a proposta da filosofia do design entra justamente

[01:21:23] que a gente tenta fazer em parte é pensar novas formas

[01:21:27] de pensar o que está fazendo através das humanidades, por exemplo.

[01:21:32] Exatamente. E o Latour argumenta que as nossas técnicas de representação

[01:21:36] e visualização

[01:21:38] elas sempre foram importantes historicamente para o pensamento.

[01:21:43] Mas elas estão num beco sem saída que ele chama de

[01:21:48] um beco sem saída e conoclasta associado ainda ao pensamento moderno.

[01:21:53] E eu acho que é importante deixar claro que esse problema representacional

[01:21:57] não é um privilégio do design enquanto sei lá classe ou profissão.

[01:22:01] Mas parece para mim um dilema moderno e conoclasta

[01:22:05] que ainda está em voga no cenário contemporâneo como um todo.

[01:22:09] Eu lembro que eu conversei sobre isso com o Daniel e ele levantou a questão.

[01:22:13] Mas qual seria a alternativa contrária ao formalismo

[01:22:17] no sentido de modelo universalista?

[01:22:20] Eu disse que é justamente a armadilha é pensar numa alternativa contrária

[01:22:25] porque isso implica que a alternativa contrária é justamente essa que eu apresento.

[01:22:30] Então e às vezes eu receio dizer que ele cai nessa mesma armadilha

[01:22:34] porque assim que ele mesmo mapeia e cai nela.

[01:22:39] Mas tem algumas ferramentas

[01:22:41] e o pessoal Latourianos e alguns estão fazendo

[01:22:46] tentando elaborar as softwares por exemplo que consigam

[01:22:50] representar visualmente essas

[01:22:53] várias controvérsias por exemplo.

[01:22:56] Mas isso já é uma porra os caras os latourianos

[01:23:01] pessoal da sociologia e tal estão fazendo aquilo que os designers deveriam fazer.

[01:23:06] Não é tudo misturado.

[01:23:07] É justamente os latourianos.

[01:23:09] Obviamente é uma nomenclatura genérica mas assim

[01:23:13] e justamente esse tipo de visão do Latour ajuda a agregar

[01:23:18] sociólogos filósofos designers isso que é legal.

[01:23:21] Não sei se você compre um pouco com essa divisão meio

[01:23:24] tudo bem mas a questão é a gente não vê isso no campo do design.

[01:23:28] É houve pouco mas vamos vamos vamos dar tchau para o Vin.

[01:23:32] Tchau.

[01:23:33] Não deixa eu terminar com as relações sinais.

[01:23:35] Então vai lá vai lá eu já dei tchau vou embora.

[01:23:38] Eu diria que ao invés de criar uma alternativa contrária

[01:23:42] é preciso colocar em primeiro lugar que o pós-prometéico

[01:23:46] é um discurso digamos predominante em um nível macro

[01:23:50] e nesse nível macro é onde se insere o design

[01:23:53] que por sua vez ainda pensa em termos prometéicos

[01:23:56] por mais que não perceba isso.

[01:23:58] Então tipo a pergunta que a gente deve fazer é

[01:24:01] existe no design algum esforço no sentido de buscar novos referenciais

[01:24:05] que não sejam os mesmos ainda prometéicos.

[01:24:08] Eu penso que não.

[01:24:09] Como a gente falou sobre isso é eu penso que tem um pouco

[01:24:13] mas obviamente não muito nem muito nem um décimo do que deixaria

[01:24:17] o que existe é do próprio Latour e de alguns outros

[01:24:21] que vêm de fora do campo do design algumas coisas

[01:24:23] relacionadas ao design thinking parece que tem um que disso.

[01:24:26] Então mas mesmo se a gente pensa em propostas

[01:24:28] como design thinking o design emocional

[01:24:31] esse tipo de controvérsia discursiva me parece facilmente identificável.

[01:24:36] Claro que dentro disso tem vários que são só fake.

[01:24:40] E é aí que está e geralmente nesse discurso é justificado

[01:24:43] ainda sob um prisma prometéico.

[01:24:46] Claro que é inovação no design thinking.

[01:24:49] Enfim a gente fez um anti-cache só sobre o design thinking

[01:24:52] que é o dessa lenha lá em cima do design thinking.

[01:24:55] A gente fez um anti-cache só sobre o design thinking

[01:24:58] e isso que o Latour deixa claro no fim do artigo

[01:25:01] que é um erro comum e bastante pós moderno

[01:25:04] acreditar que uma nova visualidade seja possível

[01:25:07] apenas anulando a visão modernista a visão moderna

[01:25:11] linear objetificada reificada que então seria trocada

[01:25:16] por pontos de vistas múltiplos agrupamentos híbridos

[01:25:19] transitórios heterogêneos ou seja tudo aquilo que o design thinking

[01:25:24] que é tipo assim a súmula pós moderna da visualidade.

[01:25:28] Você conhece esse livro?

[01:25:29] Não conheço aquele sobre o fetismo visual que é bem interessante.

[01:25:34] Exatamente eu também vi isso.

[01:25:38] Eu falei do design thinking que é o que eu tenho aqui dele.

[01:25:40] Mas assim ele coloca o design thinking

[01:25:42] coloca exatamente nesses termos.

[01:25:44] Existe uma nova visualidade que é uma nova visualidade

[01:25:48] que é uma nova visualidade que é uma nova visualidade

[01:25:52] uma nova visualidade que anula sei lá o rigoroso

[01:25:58] a parte rigorosa da visão moderna e tal assim quase como uma troca

[01:26:02] e o Latour fala que não isso é um erro comum um erro pós moderno

[01:26:05] ou seja não há nada mais moderno que o romantismo

[01:26:10] que negava o moderno já no século 19 negava o moderno

[01:26:14] nem nada mais funcionalista que o antifuncionalismo

[01:26:17] no caso do design daquelas propostas italianas ditas pós-moderna

[01:26:24] como chama Memphis e nos Estados Unidos também o Robert Venturi

[01:26:30] o Leslie Spohr e tudo mais e nas palavras do Latour

[01:26:33] derrubar a tirania que o Daniel acabou de ler

[01:26:36] derrubar a tirania do ponto de vista moderno

[01:26:39] não levará a lugar nenhum uma vez que jamais fomos modernos

[01:26:42] então a gente permanece no mesmo jogo discursivo moderno.

[01:26:45] Eu na minha opinião acho que o Massimo Canevati também permanece moderno

[01:26:49] assim como o Bauman assim como vários outros ditos pós modernos.

[01:26:54] O Bauman acho que é com certeza o Paul Canevati é mais polêmico

[01:26:59] mas porra é só dizer que ele continua mais polêmico

[01:27:02] um pouco o Bauman né?

[01:27:03] Aí fica bem duvido.

[01:27:05] Então assim agora assim para finalizar eu prometo

[01:27:08] eu diria três coisas assim

[01:27:11] primeiro que uma filosofia do design

[01:27:14] a contribuição principal do artigo do Latour eu acho

[01:27:18] é que uma filosofia do design já deve começar questionando

[01:27:21] ou no mínimo se desviando

[01:27:23] o que é uma tarefa muito difícil da tradição filosófica ocidental.

[01:27:28] Foi isso que eu coloquei naquele post

[01:27:30] que eu também vou deixar aqui linkado no não obstante

[01:27:35] do debate que eu tive com o Felipe Caio sobre o que é filosofia do design.

[01:27:38] Então entre outras coisas

[01:27:42] filosofia do design envolve a compreensão de que a nossa existência

[01:27:46] é um artifício e nunca foi diferente que não existe uma natureza

[01:27:50] em oposição ao artificial e que todos os elementos ontológicos

[01:27:54] são na verdade hermenêuticos ou seja interpretações

[01:27:58] não existe nada além de interpretações ou embalagens dentro de embalagens

[01:28:03] o que há por fora da caverna outra caverna e por aí vai.

[01:28:08] O segundo ponto que eu colocaria que eu colocaria que assim

[01:28:12] o que que interessa aos designers no âmbito prático

[01:28:17] o artigo do Latour ajuda a compreender que é possível

[01:28:20] rematerializar o mundo sem carregar toda essa bagagem modernista

[01:28:25] das questões de cultura material que eu havia criticado um pouco antes.

[01:28:30] Ou seja a gente pode entender o design assim como a ciência e a tecnologia

[01:28:34] sem que isso implique naturalização como uma oposição à natureza

[01:28:39] uma natureza isso o Latour coloca na seguinte palavra

[01:28:45] abricolagem as formas de pensar costumeiramente associados ao design

[01:28:50] dominaram a natureza sim seres humanos têm que ser artificialmente feitos

[01:28:54] e refeitos mas tudo depende do que você entende por artificial

[01:28:57] e mais ainda do que você entende por fazer por fim

[01:29:02] esse prometo é o último eu sei que a Daniela está meio brava

[01:29:05] mas é porque eu já fui embora já eu já tinha comentado com ele

[01:29:09] que eu estava eu tinha preparado uma resposta para esse artigo do Latour

[01:29:14] e eu não publiquei em nenhum lugar essa resposta

[01:29:18] enfim só tem anotações está se coçando tudo bem eu estou exatamente

[01:29:22] então assim com relação a esse desafio que o Bruno Latour

[01:29:25] coloca no final do artigo o que eu apontaria como resposta

[01:29:30] na verdade são basicamente são os resquícios metafísicos

[01:29:35] que ainda custam muito a serem percebidos principalmente no design

[01:29:39] e isso eu argumentei ou tentei argumentar no meu último post

[01:29:42] do filosofia do design que é sobre metafísica dialética

[01:29:46] e niilismo que o título é guarda-chuva invisível de Duchamp

[01:29:51] então lá eu falo que a arte conceitual a desconstrução

[01:29:55] o niilismo e o iconoclasmo o mesmo o pensamento dialético

[01:30:01] né que é predominante na tradição moderna jamais deram fim

[01:30:06] a um paradigma metafísico que na minha opinião é muito anterior

[01:30:11] ao aquilo que a gente denomina de modernismo né

[01:30:15] então esse paradigma metafísico ele assinala o pensamento ocidental

[01:30:21] e tudo isso que eu falei arte conceitual desconstrução niilismo

[01:30:24] não deram fim a isso por mais que se diga o contrário

[01:30:28] eu acho que apenas reforçaram esse paradigma metafísico

[01:30:32] mas daí eu deixo para o ouvinte ler esse meu artigo no qual eu falo

[01:30:36] que Duchamp é um maldito neoplatônio tá certo

[01:30:42] quer comentar alguma coisa aí

[01:30:44] adeus para todos antes que a gente comece outro ano

[01:30:50] é por isso que não te que acho que me proibiram de falar de design

[01:30:55] Valeu, abraço, obrigado e feliz preparado.

[01:30:57] Valeu Daniel.

[01:30:58] Valeu Marcos.

[01:32:19] Valeu Marcos.

[01:32:50] Valeu Marcos.

[01:32:51] Valeu Marcos.

[01:33:19] Valeu Marcos.

[01:33:49] Valeu Marcos.

[01:34:19] Valeu Marcos.

[01:34:49] Valeu Marcos.