T06E12 De Poincaré a Perelman


Resumo

Este episódio do Fronteiras da Ciência traça a jornada centenária da conjectura de Poincaré, um dos problemas mais famosos da matemática. O convidado Alexandre Baraviera, do Departamento de Matemática, inicia apresentando Henri Poincaré, o matemático francês do final do século XIX e início do XX que formulou a conjectura. Poincaré é descrito como um “gênio universal” que contribuiu para diversas áreas, desde o problema dos três corpos até antecipações da relatividade especial, sendo também um dos fundadores da topologia.

A conjectura em si é explicada em termos acessíveis: trata-se de classificar objetos tridimensionais (variedades) que são “simplesmente conexos” (onde qualquer curva fechada pode ser continuamente deformada em um ponto). Poincaré conjecturou que qualquer variedade tridimensional simplesmente conexa é topologicamente equivalente a uma esfera tridimensional. A discussão avança pelo século XX, destacando como o problema foi atacado em diferentes dimensões: Stephen Smale provou a conjectura para dimensões 5 ou maiores nos anos 1960 (ganhando a Medalha Fields), e Michael Freedman fez o mesmo para a dimensão 4 nos anos 1980, também com uma Medalha Fields.

O episódio então se concentra na dimensão 3, a original e mais difícil. É explicado o trabalho de William Thurston, que nos anos 1970 formulou uma conjectura muito mais abrangente (a Geometrização) que, se provada, implicaria a conjectura de Poincaré. A peça final do quebra-cabeça veio com a introdução do “fluxo de Ricci” por Richard Hamilton nos anos 1980, uma equação diferencial parcial não-linear que atua como um “alisador” de formas. No entanto, controlar esse fluxo e evitar singularidades era um obstáculo enorme.

A narrativa culmina com Grigori Perelman, o matemático russo recluso que, entre 2002 e 2003, publicou três preprints no arXiv demonstrando não apenas a conjectura de Poincaré, mas a conjectura de Geometrização de Thurston. Seu trabalho, profundamente técnico, dominou o fluxo de Ricci. A comunidade matemática, após minuciosa análise, validou sua prova. Perelman recebeu a Medalha Fields em 2006 e o Prêmio do Milênio de US$ 1 milhão em 2010, recusando ambos. O episódio explora o caráter singular de Perelman, seu afastamento da academia convencional e o impacto de seu feito, que garantiu seu lugar na história da matemática.


Indicações

Conceitos_Matematicos

  • Topologia — Ramo da matemática que estuda as propriedades dos objetos que permanecem inalteradas sob deformações contínuas (sem rasgar ou colar). A conjectura de Poincaré é um problema central da topologia.
  • Fluxo de Ricci — Equação diferencial parcial não-linear introduzida por Richard Hamilton. Atua como um “alisador” de formas geométricas e foi a ferramenta central usada por Perelman em sua demonstração.

Pessoas

  • Henri Poincaré — Matemático francês, gênio universal do final do século XIX/início do XX, fundador da topologia e formulador da famosa conjectura. Contribuiu também para o problema dos três corpos e antecipou aspectos da relatividade especial.
  • Stephen Smale — Matemático que provou a conjectura de Poincaré para dimensões maiores ou iguais a 5 nos anos 1960, usando métodos topológicos, e ganhou a Medalha Fields por isso.
  • William Thurston — Matemático que formulou a Conjectura de Geometrização nos anos 1970, uma classificação poderosa de variedades 3D que continha a conjectura de Poincaré como caso especial. Ganhou a Medalha Fields em 1982.
  • Michael Freedman — Matemático que provou a conjectura de Poincaré para a dimensão 4 nos anos 1980, utilizando técnicas envolvendo operadores. Ganhou a Medalha Fields em 1986.
  • Richard Hamilton — Matemático que introduziu o “fluxo de Ricci” no início dos anos 1980, a ferramenta-chave de equações diferenciais parciais que Perelman usaria para resolver o problema na dimensão 3.
  • Grigori Perelman — Matemático russo recluso que, entre 2002 e 2003, demonstrou a conjectura de Geometrização de Thurston (e portanto a de Poincaré) usando o fluxo de Ricci. Recusou a Medalha Fields (2006) e o Prêmio do Milênio de US$ 1 milhão (2010).

Problemas_Matematicos

  • Problema dos Três Corpos — Problema clássico da mecânica celeste sobre a descrição de longo prazo de três corpos em interação gravitacional. Poincaré fez uma contribuição seminal, mostrando sua dificuldade e ganhando um prêmio por isso.
  • Problemas do Milênio — Conjunto de sete problemas matemáticos de grande importância estabelecidos pelo Instituto Clay em 2000, cada um com um prêmio de US$ 1 milhão. A conjectura de Poincaré era um deles e foi o primeiro a ser resolvido.
  • Equações de Navier-Stokes — Equações diferenciais parciais não-lineares fundamentais para a mecânica dos fluidos. São mencionadas como outro Problema do Milênio ainda em aberto, e especula-se que Perelman possa estar trabalhando nelas.

Linha do Tempo

  • 00:00:37Introdução a Henri Poincaré e seu legado — Alexandre Baraviera apresenta Henri Poincaré como um matemático francês do final do século XIX/início do XX, um “gênio universal” que atuou em diversas áreas. É mencionado seu trabalho no problema dos três corpos, sua antecipação de conceitos da relatividade especial (o grupo de Poincaré) e seu papel como um dos fundadores da topologia. A anedota sobre ele comprar toda uma edição de uma revista para corrigir um erro é contada.
  • 00:06:57Enunciado e explicação da Conjectura de Poincaré — A conjectura é formulada: um objeto tridimensional (variedade) que é simplesmente conexo (qualquer curva fechada nele pode ser deformada em um ponto) pode ser deformado, sem rasgar ou colar, em uma esfera tridimensional. São dados exemplos intuitivos com superfícies bidimensionais (esfera, rosquinha/toro) para ilustrar os conceitos de deformação contínua e conexidade simples.
  • 00:09:04Progresso no século XX: Smale, Freedman e Thurston — A história avança com as soluções parciais. Stephen Smale prova a conjectura para dimensões 5 e maiores nos anos 1960, usando métodos topológicos clássicos, e ganha a Medalha Fields. Michael Freedman resolve o caso da dimensão 4 nos anos 1980, usando técnicas diferentes (operadores), também ganhando a Medalha Fields. William Thurston formula sua poderosa Conjectura de Geometrização nos anos 1970, que classifica variedades 3D e tem a conjectura de Poincaré como um caso especial.
  • 00:17:59A chave: O Fluxo de Ricci de Hamilton — É introduzido o trabalho de Richard Hamilton no início dos anos 1980. Ele propôs usar o “fluxo de Ricci”, uma equação diferencial parcial não-linear complexa, como uma ferramenta para deformar suavemente uma variedade. A ideia era que este fluxo, se bem controlado, poderia alisar qualquer variedade 3D simplesmente conexa até torná-la uma esfera, provando assim a conjectura. O grande desafio era lidar com as singularidades que surgiam durante o fluxo.
  • 00:19:36A demonstração de Grigori Perelman — Após um hiato de publicações, Grigori Perelman, um matemático russo já reconhecido por trabalhos anteriores, posta três preprints no arXiv em 2002-2003. Nestes trabalhos densos, ele domina o fluxo de Ricci, controlando as singularidades e demonstrando não apenas a conjectura de Poincaré, mas a conjectura de Geometrização de Thurston. A comunidade matemática mundial dedica anos para verificar minuciosamente suas provas.
  • 00:22:49Reconhecimento e o comportamento singular de Perelman — Apesar de não ter submetido seus trabalhos a revistas formais, a prova é aceita. Perelman é agraciado com a Medalha Fields em 2006 e com o Prêmio do Milênio de US$ 1 milhão em 2010, recusando ambos. O episódio discute seu caráter recluso, sua recusa em se tornar uma figura pública ou um crítico do sistema acadêmico, e o profundo respeito que sua mente brilhante merece, assegurando seu lugar na história da matemática.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2015-05-18T15:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:13] No programa de hoje a gente recebe a visita do Alexandre Baraviera, do Departamento de

[00:00:17] Matemática, que vai nos contar um pouco a história de uma famosa conjectura em matemática

[00:00:21] que iludiu os matemáticos por muito tempo, até que se conseguiu, alguns anos atrás,

[00:00:26] uma demonstração.

[00:00:27] Então, para conversar com ele, estou eu, Jeffrey Sorenson, do Departamento de Física,

[00:00:31] da UICS, e também o Jorge Kielfer, do Departamento de Biofísica, também da UICS.

[00:00:36] Alexandre, quem foi Põe Carreiro?

[00:00:37] Basicamente, Põe Carreiro foi um matemático francês no final do século XIX, viveu até

[00:00:41] o início do século XX, e é uma dessas figuras centrais, uma pessoa profunda e que atuou

[00:00:47] em diversas áreas aqui mesmo, ou muito reconhecido como talvez um desses últimos, talvez o

[00:00:51] último, grande gênio universal.

[00:00:53] Põe Carreiro é um sujeito que atuou nos diversos campos da matemática da época dele, mas

[00:00:57] ao mesmo tempo, Põe Carreiro era uma figura que estava, por exemplo, ligada ao sinômio

[00:01:01] Anobirô de longitudes lá em Paris, ou seja, a fazer medições de comprimento, definir

[00:01:06] padrões de distância e coisas assim.

[00:01:08] Teve um papel como engenheiro de Minas, ele tinha formação nessa área, participou de

[00:01:11] investigações de acidentes em Minas, na França, ou seja, uma personalidade que tinha

[00:01:15] um conhecimento matemático de um lado puro, abstrato, bastante profundo, e ao mesmo tempo

[00:01:19] tinha os pés no chão.

[00:01:20] Que período foi esse, mais ou menos?

[00:01:22] No final do século XIX, Põe Carreiro nasce mais ou menos, eu não sei as datas exatas,

[00:01:26] mas alguma coisa como 1850, 1840, e falece em 1912, se não me engano.

[00:01:30] Ele roubou bem a bela época.

[00:01:32] Exatamente.

[00:01:33] E nesse período, bom, ele então fez grandes contribuições a diversos ramos da matemática,

[00:01:37] por exemplo, uma coisa que é extremamente famosa e conhecida, associada ao nome do Põe

[00:01:40] Carreiro, é o chamado problema dos três corpos, que é a questão de você ter, por exemplo,

[00:01:44] três corpos em interação gravitacional, como o Sol, a Terra e a Lua, e fazer descrições

[00:01:48] de longo prazo das trajetórias.

[00:01:50] Põe Carreiro fez um trabalho que na época era basicamente por um prêmio que foi oferecido

[00:01:53] pelo Rei da Suécia.

[00:01:54] Então, Põe Carreiro não resolveu o problema, mas ele fez uma contribuição que os matemáticos

[00:01:59] que estavam julgando concordaram que claramente era a maior contribuição que havia na direção

[00:02:04] de uma solução do problema.

[00:02:05] O que o Põe Carreiro na verdade fez é mostrar, ele conseguia entender de fato como o problema

[00:02:10] era difícil.

[00:02:11] Ele conseguiu perceber onde estavam algumas grandes dificuldades de se resolver o problema

[00:02:15] dos três corpos, e isso abre caminho, isso é uma pequena nota que fica aqui, um nome

[00:02:19] que vai reaparecer na nossa conversa, que o Põe Carreiro fez, ele não consegue entender

[00:02:23] completamente, mas ele deixa algo esboçado, que muitos anos depois seria o que o Steve

[00:02:27] Smale faria com um exemplo muito bonito em sistema dinâmico, que é chamado de Ferradura

[00:02:32] de Smale.

[00:02:33] O Põe Carreiro então, voltando a nossa figura central no momento, o Põe Carreiro estava

[00:02:35] enxergando matemática que ia começar a acontecer dali 50 anos, então ele estava abrindo caminhos

[00:02:40] de uma maneira sensacional, e essa história do prêmio é curiosa, porque ele então ganha

[00:02:44] o prêmio, e qual ganhar o prêmio é uma das coisas, ele ganha um prêmio em dinheiro,

[00:02:47] e o trabalho dele era publicado no Acta Matemática, que até hoje é uma das grandes revistas

[00:02:51] de matemática, e aparentemente depois o Põe Carreiro descobre um erro no trabalho,

[00:02:55] e usa o dinheiro para comprar toda a edição do Acta, para evitar que o erro fosse bisseminado,

[00:03:00] e resubmete uma versão corrigida, que é essa então que acaba aparecendo, mas nisso o dinheiro

[00:03:04] já tinha sido raído.

[00:03:05] Publicar uma erra rápida não estava em constituição?

[00:03:08] Acho que a coisa talvez fosse um pouco mais séria, eu nunca soube exatamente qual é o

[00:03:11] sentimento.

[00:03:12] Pode ser que não queria passar vergonha também?

[00:03:13] Provavelmente.

[00:03:14] Infelizmente, eu imagino que a Acta Matemática não se vendia em banca, então não tinha que

[00:03:17] comprar tantas edições assim.

[00:03:19] Esse prêmio da Suécia por acaso na produção do Abel?

[00:03:22] Não, esse prêmio foi oferecido pelo rei, que foi convencido pelo Mittag Leffert a oferecer

[00:03:26] uma premiação em dinheiro para uma contribuição na direção do problema dos três corpos,

[00:03:31] que é um grande problema.

[00:03:32] Ah, é específico?

[00:03:33] Foi específico.

[00:03:34] Mas então Põe Carreiro dá contribuições nessa área, ele é basicamente um dos fundadores

[00:03:37] da teoria de sistema dinâmico, da teoria matemática, outra coisa que ele estava fazendo

[00:03:40] na época, por conta das interações dele com o escritório, com a parte de verificação

[00:03:45] de comprimento e definição de padrões, ele acaba entrando no problema de como você

[00:03:49] sincronizar relógios, e ao fazer isso, ele acaba chegando a muito aquilo que o Einstein

[00:03:53] chegaria depois.

[00:03:54] Então, vocês certamente sabem que o grupo de transformações que aparece nas equações

[00:03:58] de Einstein, a maneira de você transformar o tempo e o comprimento de um sistema para

[00:04:03] o outro, é chamado de grupo de Põe Carreiro, porque o Põe Carreiro, aquelas transformações

[00:04:07] que são as transformações de Lorez, elas obedecem uma estrutura de grupo e esse grupo

[00:04:09] é chamado de grupo de Põe Carreiro.

[00:04:10] O Põe Carreiro também chegou nesse objeto, ele não deu o passo final que o Einstein acabou

[00:04:14] dando, mas inegavelmente ele estava caminhando naquela direcção.

[00:04:16] É, por isso que se costuma dizer que a relatividade especial, se o Einstein não tivesse feito,

[00:04:21] ela teria aparecido em poucos anos, porque faltava realmente muito pouco.

[00:04:24] Já, claro, a relatividade geral, aí sim, provavelmente não teria sido tão fácil.

[00:04:29] O Mincobsky e o Saturno já estavam chegando pertinho.

[00:04:32] Mas não como um problema físico.

[00:04:33] Exatamente.

[00:04:34] E isso também o Põe Carreiro talvez não fosse ter, esse insight físico.

[00:04:38] Não, claramente não tinha.

[00:04:39] Aparentemente as manifestações do Põe Carreiro na direção de as primeiras ideias de relatividade

[00:04:42] são bem negativas, inclusive.

[00:04:44] Ele foi dos que não levou muito a sério e claramente ele sabia toda a matemática da

[00:04:50] coisa.

[00:04:51] Seguramente muito mais do que o Einstein.

[00:04:52] Ele foi da minha dúzia que entendeu o paper, mas ele não gostou muito daquilo, não.

[00:04:57] A gente fala justamente, acho que em 1912, de fato as manifestações dele sobre as

[00:05:01] coisas do Einstein não são as mais fundamentais.

[00:05:03] A inspiração básica da relatividade vem da teoria da electromagnética, então realmente

[00:05:08] vem do contexto físico.

[00:05:09] O Põe Carreiro então começa a investigar, uma das muitas coisas que ele investigou,

[00:05:13] ele começa a investigar como classificar objetos, por exemplo, bidimensionais, então

[00:05:16] superfícies.

[00:05:17] E ele começa então a tentar extrapolar isso para objetos, então que são tridimensionais

[00:05:21] ou dimensão 4 ou 5, enfim, dimensões mais altas.

[00:05:24] E é nesse contexto que acaba surgindo.

[00:05:27] Então ele acaba dando o que é o passo inencial na direção de uma teoria que chama-se topologia.

[00:05:31] Topologia basicamente em matemática significa você tentar entender a propriedade de objetos

[00:05:36] que permanecem quando você deforma um objeto.

[00:05:38] Então quando você pega, por exemplo, uma rosquinha, ela tem um furo, se você pensa

[00:05:42] que essa rosquinha é uma de borracha, você pode esticar, você puxa para cá e para lá,

[00:05:46] mas se você não rasgar, se você não provocar um rompimento, ou seja, uma descontinuidade,

[00:05:50] você sempre vai ter um objeto que tem um furo.

[00:05:51] Por exemplo, uma rosquinha topologicamente é igual a uma caneca.

[00:05:54] A rosquinha é topologicamente igual a uma caneca, você poderia começar a afundar

[00:05:57] um pedacinho da sua rosquinha, vai afundando, afundando, vai criando então o local da caneca

[00:06:01] onde você armazena o líquido e o buraco é exatamente a alça que você tem.

[00:06:05] Aliás, a classificação é baseada em número de buracos, que é o genus?

[00:06:07] Número de alças, exatamente, você prova que basicamente qualquer objeto, nome técnico

[00:06:12] é variedade, nem é o caso aqui de Filisso, mas qualquer objeto bidimensional, ele é essencialmente

[00:06:17] a superfície, a casca da isfera e com um certo número de alças que você coloque

[00:06:21] a cada alça exatamente correspondente ao buraco.

[00:06:23] Eu acho que o exemplo talvez mais simples para entender o conceito de topologia é o alfabeto.

[00:06:28] Então a gente pode pegar letras e existem letras que se forem deformadas, elas recaem

[00:06:31] uma na outra.

[00:06:32] Se eu pego F, eu consigo transformar no T, consigo transformar no Y, então topologicamente

[00:06:37] eles estão na mesma classe e já se eu pego um D, não tem como eu deformá-lo para chegar

[00:06:43] num F porque eu preciso cortar.

[00:06:45] Exatamente, exatamente, você não pode cortar, não pode romper, não pode colar as coisas

[00:06:49] e isso vai ser uma aplicação, uma transformação descontiva.

[00:06:52] Então Poincare, nesse contexto, acaba fazendo uma afirmação entre 1904, que é a famosa

[00:06:57] conjectura que diz o seguinte, olha, se você pegar um objeto, uma variedade tridimensional

[00:07:01] simplesmente conexa, uma variedade a gente pode pensar em algumas peças, um objeto tridimensional,

[00:07:05] então simplesmente conexo, o que vem assim simplesmente conexo?

[00:07:08] Simplesmente conexo é quando você coloca, por exemplo, se você pensar numa curva fechada,

[00:07:12] numa linhazinha que se fecha, um elástico que se fecha nele mesmo, um lacinho, em cima

[00:07:17] do teu objeto, você pode deformá-lo continuamente num ponto.

[00:07:20] Então por exemplo, para vocês terem uma ideia bem concreta, a superfície de uma esfera,

[00:07:24] se você colocar qualquer arco, qualquer laço fechado em cima da superfície da esfera,

[00:07:28] você pode deformá-lo num ponto.

[00:07:29] Ou se você fizer a mesma coisa no plano, do mesmo jeito você pode deformá-lo num ponto.

[00:07:33] Agora imagina que você tem a sua rosquinha, a câmara de ar de um pneu, por exemplo.

[00:07:37] Você pode colocar uma linha que dá a volta pela câmara de ar, de maneira que se você

[00:07:40] tentar deformá-la num ponto, você vai ter que estrangular a sua câmara de ar, ou impedir

[00:07:45] a passagem do ar num certo ponto.

[00:07:47] É no caso da rosca, algumas…

[00:07:49] Algumas podem, exatamente, você tem certas curvinhas fechadas que você pode fazer em

[00:07:54] cima da tua rosca, do teu pneu, por exemplo, que você pode deformar num ponto.

[00:07:58] Mas existem aquelas que dão a volta ali passando pelo buraco, que não vão ser deformadas

[00:08:03] no ponto.

[00:08:04] De forma que então, por exemplo, a nossa rosquinha, o tórico, os matemáticos gostam

[00:08:07] de chamar, não é um objeto simplesmente conexo.

[00:08:09] Então o que o Poincaré diz é que se você pegar um objeto tridimensional que é simplesmente

[00:08:13] conexo, ele poderia ser deformado nessa esfera tridimensional, da mesma forma que a gente

[00:08:18] pode deformar então a rosquinha numa caneca, deformar de maneira contínua, sem fazer rompimentos.

[00:08:24] Então essa é a conjectura de Poincaré, começou a ser investigada por muita gente,

[00:08:28] porque, bom, basicamente ela está relacionada ao problema de você classificar e entender

[00:08:32] como é que são objetos.

[00:08:33] Da mesma forma que o Poincaré tinha classificado razoavelmente em objetos bidimensionais,

[00:08:37] fazer a mesma coisa para objetos tridimensionais, tetradimensionais e assim vai.

[00:08:40] Então esse é o grande problema.

[00:08:41] Então o problema em dimensão 3 ou maior, então ficou a pergunta no ar, aí então

[00:08:46] a gente pode, diversas pessoas fizeram tentativas de contribuição de provar isso daí, o problema

[00:08:50] foi crescendo em importância, a topologia foi crescendo ao longo do século XX, foi

[00:08:55] se tornando uma desfina cada vez mais importante, com mais técnicas, mais métodos, e esse

[00:08:59] problema continuava lá, bem duro, até que nos anos 60, então a gente volta a esse nome

[00:09:04] que eu já havia mencionado, que é o Steve Smale, o Smale consegue provar que a conjectura

[00:09:08] de Poincaré é verdadeira para todo objeto de dimensão maior ou igual que 5, usando

[00:09:12] métodos assim, bem realmente topológicos, métodos de você pegar até um certo objeto,

[00:09:16] você corta um pedaço, deforma, coloca em outro, técnicas que são padrão que foram

[00:09:20] se desenvolvendo ao longo dos anos na topologia.

[00:09:22] Então não chegou a se ter o desenvolvimento de novas técnicas para essa demonstração

[00:09:26] particular?

[00:09:27] O Smale teve que fazer uns, ele criou avanços assim, profundos que foram a obra dele, que

[00:09:33] são coisas técnicas na topologia, e ele acabou ganhando a medalha Fields em 66 justamente

[00:09:37] por conta desse avanço, então ele introduziu métodos certamente novos na demonstração,

[00:09:42] mas eu digo, a linha de raciocínio que estava sendo utilizada era uma linha que estava sendo

[00:09:45] seguida pela topologia até então, que é mais ou menos essa história que vocês estão

[00:09:48] pensando, de você pegar, pensando em dimensão 2, de pegar rosquinha e deformando na caneta.

[00:09:53] Então tem uma maneira de fazer esse dimensão qualquer, que tem técnicas de você pegar

[00:09:57] lá, tira um pedaço da superfície, encaixa com outro, faz isso, faz aquilo, tem uma maneira

[00:10:01] mágica de você fazer isso e você conseguir mostrar que entrou um certo objeto e de fato

[00:10:04] equivale a outro.

[00:10:05] Eu queria que tu mencionasse um pouco a existência de uma premiação para quem conseguisse demonstrar

[00:10:10] a conjectura.

[00:10:11] A premiação é bem mais recente, na verdade a premiação foi estabelecida em 2000 pelo

[00:10:15] Instituto do Milênio, então eles consideraram colocar uma conjectura de Põe Cahê como

[00:10:20] um dos 7 problemas do Milênio, então os problemas são em geral problemas bastante

[00:10:24] difíceis, problemas matemáticos de altíssima relevância e a conjectura de Põe Cahê foi

[00:10:28] incluída entre eles.

[00:10:29] Eu quero exatamente provar a conjectura de Põe Cahê em dimensão 3, a conjectura original.

[00:10:32] Deixa eu voltar um pouquinho mais atrás, então, depois desses vários exemplos, assim,

[00:10:36] se eu tivesse a fazer um resumo numa frase, uma das duas, da conjectura, assim, mas sem

[00:10:40] entrar em muito tecnicismo, sem entrar em reenunciar ela.

[00:10:43] Um objeto de dimensão 3, que é simplesmente conexo, pode ser deformado na esfera de dimensão

[00:10:48] 3.

[00:10:50] Sim, sim, é isso.

[00:10:52] Ele pode ser deformado e acaba na esfera.

[00:10:55] Certo.

[00:10:56] Se tu pegar um cubo, tu alisa ele.

[00:10:57] E o conexo tem o significado dessa tecnologia?

[00:11:01] Simplesmente conexo é exatamente isso que eu disse, quando você pega uma curvinha fechada

[00:11:04] no teu objeto, você pode deformá-la num ponto.

[00:11:07] Ah, então tá, uma coisa bidimensional, extrapolada, ou não?

[00:11:11] Todas as curvas fechadas podem ser, não uma, qualquer, todas.

[00:11:16] Então, em cima de um cubo, tu pode ver qualquer círculo, curva fechada que tu desenhar, tu

[00:11:21] encolhe ele e ele vai pra um ponto.

[00:11:23] Na rosquinha…

[00:11:24] Dá pra imaginar isso, puxando o foco pra longe, tu vê que é pontual, ele tá longe.

[00:11:28] Não, não, mas é…

[00:11:29] Não é tão simples.

[00:11:30] Um exemplo simples de uma coisa que não é simplesmente conexa, você pega a superfície

[00:11:33] de um plano, como a nossa mesa aqui, e a gente retira um ponto.

[00:11:36] E você faz agora uma linha que tá passando em volta desse ponto, um caminho fechado,

[00:11:41] e você quer deformar essa coisa num ponto que tá lá no cantinho da mesa.

[00:11:44] No momento que você começar a deformar a sua superfície, ela vai bater naquele buraco

[00:11:46] e não tem como passar por ali, ela fica enroscada, o elástico vai ficar preso.

[00:11:49] Ele impede, o genos dele impede de…

[00:11:51] Ele não vai poder ser deformado num ponto, então isso não é simplesmente conexo.

[00:11:55] Mas agora vamos começar a fazer a mesma brincadeira com o objeto de dimensão 3, tá?

[00:11:59] Pegamos o espaço, o R3, se a gente recheir um ponto, agora você pega um laço, uma curva

[00:12:04] fechada, você pode deformá-la num ponto só porque o pontinho tá lá parado, você

[00:12:08] pode passar por cima ou por baixo, por onde você quiser, então você tem um objeto que

[00:12:11] é simbólico.

[00:12:12] Então, teve essa demonstração pelo Esmeio, para dimensões mais altas, e depois, o que

[00:12:17] aconteceu?

[00:12:18] Depois.

[00:12:19] Aí a história continua basicamente nos anos 70, então tem um personagem importantíssimo

[00:12:23] na história da matemática, não tem como não mencioná-lo, que é o Whedon Thunston.

[00:12:28] O Thunston deu contribuições a diversos campos da matemática, teoria de foliações,

[00:12:32] a topologia, um cara absurdamente profundo e muito produtivo dos anos 70, e que ganha

[00:12:38] medalha F2 em 82 pelas contribuições que fez, e uma das coisas que o Thunston fez,

[00:12:42] um dos muitos milagres do Thunston, ele avançou muito profundamente na compreensão de objetos

[00:12:47] de variedades de dimensão 3 em particular, e anunciou uma conjectura, é uma conjectura

[00:12:52] realmente de caráter bem mais técnico que a de Poincare, para ser anunciada, mas no

[00:12:55] fundo o que o Thunston estava dizendo era praticamente um passo na direção de classificar

[00:12:59] a superfície do objeto de dimensão 3, ou seja, a conjectura do Thunston é um objeto

[00:13:03] de dimensão 3 sob determinadas condições, ele cai numa de certas categorias, ele diz

[00:13:08] exatamente, olha o cara, ou é isso, isso, isso, e fez uma pequena listinha, que são

[00:13:13] 8 possibilidades, sendo que uma delas, se o objeto é simplesmente conexo, acaba sendo

[00:13:18] exatamente a conjectura de Poincare, ou seja, o Thunston fez uma conjectura bem sofisticada,

[00:13:23] bem detalhada, que ajudaria a avançar muito a classificação de objetos de dimensionais,

[00:13:28] de variedades de dimensão 3, e que como caso particular, a conjectura de Thunston contém

[00:13:33] a conjectura de Poincare para dimensão 3, então o Thunston, por tudo que ele fez em

[00:13:37] matemática, acaba ganhando a medalha field em 82, e aí, nos anos 70, mais ou menos,

[00:13:41] um sujeito chamado Friedman, ele avança muito na compreensão de objetos de dimensão 4,

[00:13:47] e é interessante porque o Friedman começa a usar ferramentas que já eram bem diferentes

[00:13:50] das que o Smeil tinha utilizado, então o Smeil tinha seguido um caminho que era bem um caminho

[00:13:54] topológico padrão, de deformar um pedacinho, vai pra cá, vai pra lá, o Friedman ele acaba

[00:13:59] ganhando a medalha field em 86, e o que o Friedman faz é que ele começa a estudar diversos

[00:14:04] operadores, coisas que estão ligadas, que são inspirados fortemente, como a equação

[00:14:08] de Dirac e coisas desse gênero, que são objetos tipicamente tetradimensionais, então

[00:14:12] o Friedman começa a usar esses operadores em um monte, e ele começa a criar um maquinário

[00:14:16] de classificação desses objetos, então o Friedman, com esse avanço profundo, primeiro

[00:14:20] ele modifica o tipo de técnica a ser utilizado, ele passa a usar operadores diferenciais,

[00:14:24] isso já é uma técnica bem fora do padrão, que era o padrão topológico até então,

[00:14:28] mas usando esse tipo de tecnologia, ele, entre outros avanços, acaba conseguindo a conjectura

[00:14:33] de um objeto encarregado em dimensão 4, ou seja, um objeto de dimensão 4, que é simplesmente

[00:14:37] conexo, é deformado na esfera de dimensão 4, então o Friedman, por conta de tudo isso,

[00:14:41] ganha a medalha field em 86.

[00:14:43] E por que ele está contando assim, esse problema, pelo menos uma das medidas da complexidade

[00:14:47] dele, é o fato de que ele foi sendo resolvido por frações, por partes, tipo uma peça

[00:14:52] por cada vez, um nível de cada vez.

[00:14:54] E com técnicas distintas, as técnicas pra dimensão, pra dimensão 2 a coisa é mais

[00:14:58] ou menos simples, são técnicas mais ou menos algébricas, aí se você vai pra dimensão

[00:15:03] 2, maior ou igual que 5, são técnicas bem topológicas, e aí em dimensão 4 são técnicas

[00:15:08] basicamente que tem a ver com operadores de variedades de dimensão 4, e finalmente a

[00:15:12] gente vai chegar no caso da dimensão 3, que é uma técnica que tem a ver com equações

[00:15:16] de diferenciais parciais não lineares, então.

[00:15:18] Chegamos no pere, uma coisa é…

[00:15:19] O pere é um personagem à parte.

[00:15:20] Realmente, um personagem, a gente tá falando de caras assim, brilhantes né, Poincaré,

[00:15:25] Esmeio, Friedman, Thurston, todos os ganhadores da medalha field, com exceção do Poincaré,

[00:15:31] porque não tinha medalha na época, senão possivelmente ganharia também.

[00:15:33] Chegamos então no pereman, que é uma figura realmente bastante singular, em diversos sentidos.

[00:15:38] O pereman nasce, isso é curioso, em 66, que é o ano em que o Esmeio ganha a medalha

[00:15:42] field, pelas suas contribuições, em particular a conjectura de Poincaré, e o pereman cresce

[00:15:47] lá no lentinho soviético ali, eles já identificavam caras com grande talento matemático, já

[00:15:52] tinham escolas especiais e começavam a botar o cara em contato com matemáticos de altíssimo

[00:15:56] nível desde a escola, de forma que quando esses caras entravam na universidade eles

[00:16:00] já eram alunos, quase que um aluno de mestrado em termos de conhecimento matemático, o pereman

[00:16:05] começa a publicar jovem, de olê, alguma coisa como 20 ou 21 anos ele já tem alguma

[00:16:09] publicação, isso começa em algum momento dos anos 80, 86, talvez 87, a mãe dele era

[00:16:16] matemática?

[00:16:17] Não sei, então em 90 ele defende a tese de doutorado dele e vai passar uma temporada

[00:16:20] nos Estados Unidos, então ele visita grandes centros americanos lá, ele vai a Berkeley,

[00:16:24] vai a Princeton, vai a lugares de altíssimo nível, estava produzindo uma matemática

[00:16:28] refinadíssima, ele prova uma conjectura em 93 ou 94 que chama-se conjectura da alma,

[00:16:33] soul conjecture, que é uma conjectura super importante em geometria diferencial, então

[00:16:37] ele já era um cara jovem, estava realmente mostrando um talento absurdo, tem convites

[00:16:43] para ficar nos Estados Unidos, mas não fica, resolve em 95, 96, acho que volta para São

[00:16:47] Petersburgo e lá fica, e aí ele vai, e é curioso que você olha as publicações dele,

[00:16:51] ele vai publicando até mais ou menos 96, 97, então ele começa a publicar ali pelo

[00:16:56] sei lá, 86, 87, algo assim, vai até 97, não é uma lista tão grande de publicações,

[00:17:02] são sei lá, cerca de 15 ou 16 artigos, é uma lista boa, mas tem caras até muito mais,

[00:17:08] digamos assim, produtivos, talvez por matemático até já não vai, o numérico dele é bom,

[00:17:19] mas por outro lado tem gente muito mais, em termos numéricos, muito maior do que ele,

[00:17:24] mas se você começa a olhar o que impressiona é o número de citações, porque a qualidade

[00:17:28] dos trabalhos era profunda, realmente muito grande a qualidade, os trabalhos eram fenomenais

[00:17:32] e aí mais ou menos em 97 tem uma parada, o cara desaparece do mapa, assim, não tem

[00:17:37] mais publicação nenhuma, até que em 2002, ou seja, cinco anos depois, em 2002 e 2003

[00:17:42] aparecem três artigos, três preprints no archive, esses preprints então são contribuições

[00:17:48] exatamente na direção de fazer algo que, isso é um pequeno pedaço de história que

[00:17:51] eu acabei esquecendo, mas conto aqui rapidamente, no início dos anos 80, não sei se é um

[00:17:55] pouco por influência do Friedman ou talvez por outros motivos, um sujeito chamado Hamilton

[00:17:59] introduz um objeto que chama-se fluxo de hit, que é um fluxo, é uma equação diferencial

[00:18:03] parcial não linear, uma coisa bem complicada de escrever tecnicamente, mas que na prática

[00:18:08] é como se ela fizesse o seguinte, ela pega uma superfície e dependendo da curvatura

[00:18:11] da superfície ele começa a deformar a superfície, então o que acontece é que, bom, onde a superfície

[00:18:16] está amarrotada para dentro, ele começa a empurrar lá para fora, onde ela está amarrotada

[00:18:19] para fora, começa a empurrar para dentro, então é uma espécie de martelinho de ouro,

[00:18:22] é um alisador. Então o Hamilton introduziu esse objeto, esse fluxo, quando a gente passou

[00:18:28] a definir essas parciais no início dos anos 80, e as pessoas, o próprio Hamilton, eles

[00:18:32] detectaram que isso talvez pudesse ser um caminho para você pegar então um objeto tridimensional

[00:18:36] nas condições que o Põe Carreir definiu e verificasse esse fluxo, que deformaria esse

[00:18:41] teu objeto até ele virar realmente a esfera, se isso acontecesse você estaria provando

[00:18:44] que a tua esfera pode, teu objeto original pode de fato ser deformado continuamente

[00:18:48] na esfera. Não é força bruta, mas é martelinho. É um martelinho de ouro, mas um martelinho

[00:18:53] de altíssimo nível, com um EDP não linear, o problema é justamente lidar com esses objetos

[00:18:57] ser super sofisticado, é muito difícil, as EDPs não lineares elas não tem praticamente

[00:19:01] uma teoria geral, quer dizer, você tem que lidar caso a caso, então você tem que desenvolver

[00:19:05] métodos para aquela equação específica, então você não tem nenhuma garantia de

[00:19:09] que, por exemplo, o teu fluxo vai funcionar durante um tempo suficiente para que ele deforme

[00:19:13] um objeto no outro. De repente a equação pode desenvolver certas singularidades, certas

[00:19:18] explosões, certas maluquices, que acontecem em tempo finito, então de repente antes de

[00:19:21] ele chegar e deformar no que você gostaria, a equação perdeu o sentido por algum motivo.

[00:19:26] Justamente por isso que o Hamilton propõe essas equações lá em 182 mais ou menos,

[00:19:31] em 2002, ou seja, 20 anos passados, todas as contribuições que aconteceram no meio,

[00:19:36] é que o Pérremon consegue então finalmente mostrar que efetivamente aquele fluxo dessas

[00:19:39] equações de fato deformaria o objeto tridimensional inicial numa superfície, numa esfera de dimensão

[00:19:45] 3. Então são três trabalhos, não são nem trabalhos tão longos assim, mas são trabalhos

[00:19:49] muito profundos, muito densos, que foram para o arcaívo.

[00:19:52] Mas ele colocou no arcaívo como uma opção de divulgação ou ele optou por não publicar

[00:19:57] formalmente as revistas ou os artigos?

[00:19:59] Em matemática o que acontece é o seguinte, é que essas publicações demoram muito, bem

[00:20:03] mais que em física, bem outro dia eu briguei com um referi que estava me pressionando para

[00:20:07] mandar resultar em menos de duas semanas uma revisão. Eu falei, olha, meu querido,

[00:20:09] você quer que eu revise ou você quer que eu publica outro? Se você quer publicar,

[00:20:12] você publica, porque se eu quiser revisar eu vou demorar. Em matemática é assim, às

[00:20:15] vezes o paper demora dois anos de uma revisão, depois mais um ano ou dois na fila para ser

[00:20:19] publicado, então as pessoas em geral quando terminam de ter um artigo pronto, elas mandam

[00:20:24] para o arcaívo e deixam lá.

[00:20:25] A gente em física manda também, mesmo não tendo esse problema da demora.

[00:20:29] Pois é, então o que acontece é que para tornar a comunicação um pouco mais rápida

[00:20:33] é bem padrão que as pessoas mandem para o arcaívo porque até o artigo aparecer

[00:20:36] em uma versão final, mas você pode remover, de fato, ainda mais um artigo dessa importância,

[00:20:39] você poderia gravar coisa de quatro ou cinco anos tranquilamente.

[00:20:41] Isso garante uma primazia.

[00:20:43] Garante uma prioridade, exatamente, e ao mesmo tempo as pessoas podem continuar trabalhando

[00:20:47] naquele assunto.

[00:20:48] E também se não dar um retorno, dependem de um feedback, uma ajuda, isso pode resolver

[00:20:52] as últimas arestas.

[00:20:53] Exatamente, exatamente, então é padrão, então agiliza um pouco a comunicação entre

[00:20:57] todo mundo, então acho que ele colocou lá como qualquer um farinha e aí que a história

[00:21:00] então começa a tomar características um pouco distintas do padrão, porque o que seria

[00:21:05] natural nessa situação é que ele obviamente submete esses artigos de maneira regular

[00:21:09] a uma revista e isso, bom, rapidamente se detectou que o que o Perlman tinha feito era

[00:21:14] provar de fato a conjectura do Thurston, que era muito mais forte que a de Poincaré,

[00:21:19] e em particular implicava a conjectura de Poincaré, mas então ele de fato provou a

[00:21:23] conjectura do Thurston, ele provou algo muito, muito profundo, e se provasse só Poincaré

[00:21:28] já seria.

[00:21:29] Mas aí começa toda uma celeuma em cima daquilo, milhões de pessoas começam, não milhões,

[00:21:34] enfim, uma comunidade matemática que não chega a nem um décimo disso, começa a ler

[00:21:39] esses artigos com muita atenção, até concluir que, olha, de fato esses caras têm, esse

[00:21:44] sujeito aí, esse Perlman, tem efetivamente uma demonstração da conjectura do Thurston.

[00:21:49] Só que aí começa aquela, o barulho, o ruído é muito grande, todo mundo começa a falar

[00:21:53] nele, no nome dele, nesse momento ele então evapora, começa a não dar mais declarações,

[00:21:57] ele sai da grade de não ser encontrado, exatamente aí disse que, olha, não tinha

[00:22:02] nenhuma intenção de submeter aquilo formalmente em uma revista, então, eu não sei, aí é

[00:22:06] um problema que é uma questão muito mais psicológica do que qualquer outra coisa, de

[00:22:09] entender, será que se de repente a gente tivesse deixado ele quieto, ninguém fizesse barulho

[00:22:12] para ele, eu mandaria em uma revista normalmente, não sei dizer, não tenho a menor ideia.

[00:22:17] O fato concreto é que então acontece algo realmente que é inédito, porque um sujeito

[00:22:21] que não publicou formalmente seus resultados em uma revista, ele acaba ganhando em 2006

[00:22:26] a medalha Fields, porque, bom, todo o processo de revisão que tinha sido feito, porque óbvio

[00:22:30] que todo mundo olhou aquela prova e esmiuçou em detalhes, livros foram inscritos para esmiuçar

[00:22:35] demonstração deles e botar detalhes que não estavam inscritos nos artigos originais,

[00:22:40] e então as pessoas, a comunidade matemática reconheceu que ele era um cara fenomenal,

[00:22:45] que tinha dado uma contribuição inestimável, então ele ganha a medalha Fields em 2006,

[00:22:49] a medalha Fields que ele fez questão de não pegar e disse que não queria, entre outras

[00:22:53] coisas.

[00:22:54] Entre outras coisas.

[00:22:55] E um cara, um sujeito recluso, que o seu governo interior é professor de escola secundária,

[00:22:59] parece?

[00:23:00] Mas ele saiu, ele renunciou a posição dele no Instituto, acho que no Staclof, enfim…

[00:23:04] E reclusou vários convites em universidades de primeira grandeza, nas Estados Unidos e

[00:23:10] na Inglaterra.

[00:23:11] É verdade isso, não é folclore?

[00:23:13] É verdade, não é folclore.

[00:23:14] Ele vive em São Petersburgo, eu acho, parece que vive com a mãe, alguma coisa do gênero.

[00:23:19] Então ele foge do cânone aí, porque eu acho que, até onde eu sei, é o primeiro caso

[00:23:25] de um sujeito que ganha uma premiação com a medalha Fields, por algo que, de fato,

[00:23:30] pelo padrão da ciência, não foi publicado, ele colocou no arcaívo.

[00:23:33] É a primeira vez que o arcaívo foi levado completamente a sério.

[00:23:35] Eu já leio por um outro ângulo, eu acho que o arcaívo é uma coisa que precisa ser potenciada

[00:23:39] com um novo ângulo de publicação.

[00:23:42] Claro, com o cuidado da diferença importante, que é o fato da revisão não completada.

[00:23:46] Exato.

[00:23:47] Ele não está ainda chancelado pelos pares.

[00:23:48] Mas está, digamos, no entapre-intermediagem.

[00:23:51] Exato.

[00:23:52] É, e tem muita maluquice.

[00:23:53] É verdade.

[00:23:54] Mas isso também tem maluquice publicável.

[00:23:56] Tem, tem.

[00:23:57] Eu recebo diariamente a lista de artigos que saem na minha área, tudo normal, mas tem

[00:24:02] algumas subdivisões lá do arcaívo.

[00:24:04] Como vocês estão me dizendo, o arcaívo, embora ele não tenha um processo de revisão

[00:24:09] por pares, mas por outro lado, no caso desse trabalho especificamente, que era uma coisa

[00:24:12] de importância imensa, então é claro que esse trabalho foi mais esmiuçado que 99%

[00:24:18] dos trabalhos de matemática.

[00:24:19] E teve cem de pares.

[00:24:20] Exatamente.

[00:24:21] Uma conta de gigante de referência e caras assim, do mais alto nível, passaram o pentefino

[00:24:24] nesse trabalho e concluíram, olha, realmente esse cidadão é o cara que conseguiu provar

[00:24:28] com ele.

[00:24:29] Não é uma revista se ofereceu para ele publicar.

[00:24:30] Aqui tem a autorização do autor, né?

[00:24:31] Se você não souber, tem que acionar um termo.

[00:24:32] Esse é o problema.

[00:24:33] Esse é o problema.

[00:24:34] Eu acho que qualquer revista publicaria, mas…

[00:24:37] Está disputando.

[00:24:38] Ele nunca…

[00:24:39] E é estranho, porque se tu pega bases de dados, como o Web of Science, eles não contam citações

[00:24:46] aos ativos no arcaívo.

[00:24:47] Não.

[00:24:48] A principal base que os matemáticos gostam de usar, uma das principais, é o Mathematical

[00:24:52] Reviews.

[00:24:53] Olha no Mathematical Reviews, o Peremann, entre aspas, morre em 97, quando ele publica

[00:24:56] seu último artigo de maneira irregular.

[00:24:58] As obras-firmas que ele fez depois, comprovando a conjectura de Põe Carreiro, não estão

[00:25:03] contabilizadas.

[00:25:04] E esses três ativos foram os últimos que ele publicou?

[00:25:06] São os últimos.

[00:25:07] Pelo menos, se olha no arcaívo, depois não tem absolutamente mais nada ligado ao nome

[00:25:10] dele.

[00:25:11] Ele está trabalhando com outra coisa, né?

[00:25:12] De novo, precisa da ânsia.

[00:25:13] E vem uma das críticas ao sistema atual do produtivismo de ciência, até.

[00:25:18] Tem um problema que você precisa pensar tempo mesmo, tem que gastar lá, anos.

[00:25:22] Com a Conjectura, um dia eu encontrei, talvez o Equipédia tenha alguma declaração de

[00:25:25] alguém que teria conversado com o Peremann, e dito que ele estava pensando muito na equação

[00:25:30] de Navier-Stokes, ou coisa do gênero, ou seja, de fato, é curioso porque, bom, talvez

[00:25:35] ele queira acabar com todos os problemas do milênio e não ganhar um milhão, porque

[00:25:39] um dos outros problemas do milênio, no Instituto Milênio, é, precisamente, entender melhor

[00:25:45] e caracterizar certas coisas da equação de Navier-Stokes, que é uma equação usada

[00:25:48] para a Mecanica de Fluido, e é uma EDP, também, não minear, super complicada, e

[00:25:53] quem sabe o Peremann, que parece que já entendeu muito bem uma certa EDP, não minear, bem

[00:25:57] complicada, consegue entender outra.

[00:25:58] Então, se ele conseguir ganhar mais um milhão e conseguir pegar, não pegar mais um milhão,

[00:26:02] seria sensacional, porque, então, contando a história para quem não sabe, em 2010,

[00:26:07] o Comitê, ele ganhou a medalha Fildes em 1996, não pegou, que dá um prêmio em dinheiro

[00:26:11] que ele não quis, que é um prêmio pequeno, ele não quis o prêmio, não quis a medalha,

[00:26:15] fez questão de dizer para as pessoas do Comitê Internacional que ele não iria lá pegar

[00:26:19] a medalha, que não queria que levassem para ele, nem nada.

[00:26:21] Aí, em 2010, depois de um, tem um Comitê que tem que autorizar isso, o Instituto do

[00:26:27] Milênio, então, reconheceu que o prêmio de um milhão, pela prova da Conjeitura de

[00:26:31] Poincaré, pertencia ao Peran.

[00:26:33] Então, concedeu um milhão para ele, que ele também não fez nenhuma questão, o prêmio

[00:26:37] de um milhão não foi parar no Instituto Henri Poincaré, lá, em Paris, e foi utilizado

[00:26:41] para criar uma dotação, para manter um pesquisador visitante, coisas desse gênero.

[00:26:45] Sim, a Perman, o Cher, uma coisa assim.

[00:26:48] É, provavelmente, provavelmente.

[00:26:49] Então, como eu disse, se por aventura o Perman agora está trabalhando com a questão de

[00:26:53] Naveira e Stokes, então, quem sabe, daqui a alguns anos, ele consegue também resolver,

[00:26:56] fazer um avanço não trivial nessa direção, e talvez ganhar mais um prêmio do Milênio,

[00:27:01] e vai poder recusar o segundo milhão de sua vida.

[00:27:03] Porque, dos sete, só a Conjeitura de Poincaré que foi demonstrada, os outros seis estão

[00:27:07] abertos.

[00:27:08] Os outros seis estão abertos.

[00:27:09] Só se ele criar um segundo milhão, ele vai superar até o que recusou um Nobel, o Camino.

[00:27:15] O Camino ou o Sartre, não sei qual os dois.

[00:27:17] Mas aí, de recusar dois, ele já é mais ninja.

[00:27:20] O curioso é que a recusa do prêmio que ele estava reclamando de todo esse assédio, na

[00:27:26] verdade, é o que atrai mais assédio, que foi exatamente o argumento que se usou com

[00:27:30] o Dirac.

[00:27:31] Vai dizer, não, não, se você vai lá e aceita o Nobel, porque se não vai chamar mais

[00:27:35] atenção, vão querer falar mais ainda contigo.

[00:27:37] Ele deu declarações do tipo, coisas do que ele sabia, que olha, o reconhecimento de

[00:27:42] que ele era o autor do resultado, para ele já era suficiente como reconhecimento e coisas

[00:27:46] desse tipo.

[00:27:47] Então…

[00:27:48] É interessante que ele também não transforma isso numa plataforma para fazer um discurso

[00:27:51] assim, de crítica ao sistema, que poderia.

[00:27:53] Muita gente está esperando isso até, né?

[00:27:55] Porque é uma crítica interessante a vários aspectos do sistema em que ele foge.

[00:27:58] Ou seja, ele foge do sistema de contabilização, do produtivismo, ele foge da publicação

[00:28:03] no chancelado, no editor comercial, quer dizer, e não transforma assim um discurso também.

[00:28:09] É, isso é um pouco…

[00:28:11] Ele não virou porta-voz de nenhum movimento.

[00:28:13] Não, ele nem criou o movimento dele.

[00:28:15] Não, não, eu acho que ele até tem uma declaração.

[00:28:17] Talvez ele é simplesmente maluco, vamos dizer assim, é uma coisa pessoal, é uma coisa

[00:28:20] idiosincrática.

[00:28:21] Exatamente, ele tem alguma declaração que é mais ou menos nessa linha de dizer que olha,

[00:28:24] eu acho curioso que as pessoas que estão aí, que fazem qualquer coisa para o resultado,

[00:28:28] que pisam no pescoço dos outros para publicar isso e aquilo, sejam consideradas normais

[00:28:31] dentro do sistema e o cara comeu som lunático.

[00:28:34] Então eu acho que a declaração é suficientemente lúcida para garantir que ele é muita coisa

[00:28:40] menos louco.

[00:28:41] É, porque todas essas preocupações são preocupações de curto prazo.

[00:28:44] O nome dele está na história e isso é o que vai ficar.

[00:28:47] Exatamente, vai ser um cara que vai ser mencionado daqui a 100 anos, vai ser mencionado que olha,

[00:28:50] quem provou a código da gente com a carreira é o Perl, é o ministro do século XXI.

[00:28:53] Isso aí é um dos marcos da matemática da nossa época.

[00:28:56] Lamentavelmente esse tipo de, digamos, de inovação, digamos, de forma de fazer ciência

[00:29:00] que vai contra a corrente, vai continuar sendo restreita às áreas teóricas e conceituais

[00:29:06] onde não precisa de financiamento, de apoio.

[00:29:09] O cara pode ser um professor no interior, ficar trabalhando naquilo pacientemente e fazer.

[00:29:13] Ele não vai poder fazer física de partículas ou bioquímica ou neurociências dessa forma.

[00:29:17] Lamentavelmente.

[00:29:18] Mas eu só queria, acho que ressaltar um fato.

[00:29:21] Eu tenho um respeito muito profundo pelo Perl e eu acho que quando eu fiz a palestra sobre

[00:29:25] ele lá na Matemática da Minha Cultura, eu fiz questão de ressaltar.

[00:29:28] As pessoas às vezes olham para um caso desse e tentam guardar o folclórico, né?

[00:29:31] O lado, ah, não recusou a medalha filtrante.

[00:29:33] Mas é isso aí só por isso, né?

[00:29:34] E olha, o sujeito é um gigante.

[00:29:36] Então tem que ser muito respeitado quanto é uma das mentes mais profundas da nossa época

[00:29:40] e que certamente vai ser lembrado daqui a 100 ou 200 anos ao compasso que outros aí não vão

[00:29:44] chegarem no chinelo.

[00:29:45] Então eu acho que tem que ter um respeito muito profundo com figuras dessas e estar puras, intelectual.

[00:29:50] Então esse foi o Fronteiras da Ciência.

[00:29:51] No Fronteiras da Ciência a gente conversou sobre a história da conjectura de Poincaré

[00:29:55] desde o seu enunciado há mais de 100 anos até a demonstração recente.

[00:29:59] Pelo Perlman.

[00:30:00] Pelo Perlman.

[00:30:01] Falando sobre isso, estiveram aqui o Alexandre Balea Vieira do Instituto de Matemática da

[00:30:05] URGES, o Jorge Kielfeld do Departamento de Biofísica e o Jeffrey Sorenzon do Departamento de Física.

[00:30:21] Obrigado.

[00:30:22] Obrigado.

[00:30:23] Obrigado.