AntiCast 189 – O Cristianismo e a Homossexualidade


Resumo

O episódio discute a relação entre cristianismo e homossexualidade, com a participação de Regina, integrante da Católicas pelo Direito de Decidir, e Cristiano, protestante de linha progressista. A conversa aborda a interpretação bíblica, especialmente as passagens do Antigo e Novo Testamento, e como diferentes correntes teológicas entendem a sexualidade e a diversidade.

Regina compartilha sua trajetória acadêmica e ativista, explicando o trabalho da Católicas pelo Direito de Decidir, que busca conciliar fé católica com feminismo e direitos sexuais. Ela também comenta questões como celibato obrigatório, sacerdócio feminino e a histórica relativização do aborto dentro da tradição católica.

Ivan relata a polêmica em torno de seu texto sobre uma transexual crucificada na Parada LGBT, que gerou reações de cristãos conservadores. O debate se aprofunda na análise de Levítico e na necessidade de contextualização histórica dos textos bíblicos, com Cristiano argumentando contra leituras literais e fundamentalistas.

A discussão se expande para temas como intolerância religiosa no Brasil, sincretismo e a crescente onda conservadora. Regina reflete sobre a dificuldade de convivência respeitosa entre diferentes religiões, especialmente com as de matriz africana, enquanto Cristiano compartilha experiências pessoais sobre preconceito dentro e fora das igrejas.

Por fim, os participantes enfatizam a importância de uma fé que acolha a diversidade, baseada no amor ao próximo, e criticam discursos de ódio que usam a religião para justificar exclusão. Regina destaca a atuação do Papa Francisco e a necessidade de continuar lutando por um catolicismo mais inclusivo.


Indicações

Books

  • Missão Integral — Livro do pastor Ricardo Gondim mencionado por Cristiano, que discute a identidade evangélica brasileira e critica o misticismo e a leitura literal da Bíblia no protestantismo nacional.

Organizations

  • Católicas pelo Direito de Decidir — Organização que busca afirmar que é possível ser católica e feminista, defendendo direitos sexuais e reprodutivos a partir de argumentos teológicos. Regina é integrante e explica sua atuação durante o episódio.

People

  • André Buscoff — Especialista em teologia queer mencionado por Regina, que trabalha com questões de gênero e sexualidade a partir de uma perspectiva teológica inclusiva.

Linha do Tempo

  • 00:08:30Apresentação de Regina e sua trajetória acadêmica — Regina fala sobre sua formação em serviço social e ciências da religião, mestrado e doutorado com foco em sociologia das organizações e gênero. Ela comenta seu trabalho no SESEP e o interesse em entender as relações desiguais entre homens e mulheres, que a levou a estudar violência de padres contra mulheres.
  • 00:11:00Explicação sobre Católicas pelo Direito de Decidir — Regina descreve a organização Católicas pelo Direito de Decidir, que defende a possibilidade de ser católica e feminista. Ela explica que buscam argumentos teológicos para uma vivência positiva da sexualidade, dissociada da ideia de pecado, e lutam por direitos sexuais e reprodutivos, enfrentando oposição de bancadas religiosas no Congresso.
  • 00:15:00Posicionamentos religiosos dos participantes — Ivan se apresenta como mestre em ciências da religião sem prática religiosa, Ancara como em cima do muro, e Cristiano como cristão protestante ligado à teologia latino-americana, discordando da maioria dos posicionamentos de evangélicos preeminentes, especialmente da frente parlamentar evangélica.
  • 00:18:00Celibato e sacerdócio feminino na Igreja Católica — Regina discute a historicidade do celibato obrigatório, instituído no século XI, e questiona sua obrigatoriedade. Ela também aborda a exclusão das mulheres do sacerdócio, citando interpretações que contestam a ausência de mulheres na Última Ceia. Comenta ainda a severidade canônica contra padres que casam versus aqueles que cometem abuso sexual.
  • 00:29:00Aborto e variações doutrinárias na história católica — Regina explica que a condenação absoluta do aborto como homicídio só se consolidou na Igreja Católica em 1860, e que antes havia relativização. Ela menciona estudos medievais que mostram penas menores para aborto comparado a adultério, destacando que não se trata de um dogma, mas de uma disciplina passível de discussão.
  • 00:38:00Polêmica do texto de Ivan sobre a transexual crucificada — Ivan relata a publicação de seu texto ‘A imagem mais cristã do século 21’, que relaciona a crucificação de uma transexual na Parada LGBT com a figura de Cristo marginalizado. Ele comenta as reações negativas de cristãos conservadores, que usaram passagens bíblicas para condenar a homossexualidade, defendendo uma leitura contextualizada.
  • 00:42:00Debate sobre homossexualidade e interpretação bíblica — Regina critica a leitura fundamentalista da Bíblia, argumentando que os textos foram escritos em contextos específicos e que o mandamento maior é o amor ao próximo. Ela defende que a transexual na cruz simboliza o sofrimento de um grupo marginalizado, não um desrespeito religioso, e menciona a baixa expectativa de vida de travestis no Brasil.
  • 00:47:00Perspectiva protestante progressista de Cristiano — Cristiano afirma que o símbolo da cruz transcende o cristianismo e que a transexual crucificada representa um sofrimento injusto. Ele critica a leitura literal do Antigo Testamento, apontando contradições como proibições de raspar a barba ou misturar tecidos, e defende uma interpretação paulina e contextualizada.
  • 00:54:00Levítico e a hierarquização de pecados — Ivan simula o papel de um ‘crente chato’, questionando como conciliar a lei do amor com a condenação da homossexualidade em Levítico. Regina responde que a Bíblia não deve ser lida literalmente, citando passagens extremas como arrancar o olho, e defende que a sexualidade é boa em si, independente da orientação.
  • 01:09:00Conservadorismo e intolerância religiosa no Brasil — Regina analisa a ideia de democracia racial e sincretismo no Brasil, destacando que a convivência religiosa é hierarquizada e marcada por intolerância, especialmente contra religiões afro-brasileiras. Ela menciona casos de violência e a histórica repressão a terreiros, mesmo durante a ditadura.
  • 01:24:00Considerações finais e contatos — Regina enfatiza a importância de não se considerar dono da verdade e de respeitar a multiplicidade de caminhos na fé e na sexualidade, desde que não cause dano. Ela convida a conhecer o site das Católicas pelo Direito de Decidir e comenta os avanços e limitações do Papa Francisco. Cristiano e Ivan fazem seus jabás.

Dados do Episódio

  • Podcast: AntiCast
  • Autor: HD1
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2015-07-02T02:18:10Z
  • Duração: 01:32:22

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este podcast é apresentado por

[00:00:06] b9.com.br

[00:00:10] Anticast, a visão do designer sobre o mundo

[00:00:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo

[00:01:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo

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[00:08:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo

[00:08:30] uma vida mais de comunidade entre eles, não era uma coisa muito de assistência,

[00:08:36] era mais de convivência.

[00:08:38] E, bom, terminando o serviço social, eu fui trabalhar num centro de educação popular,

[00:08:44] o SESEP, um centro que fica aqui em São Paulo,

[00:08:48] e fui para o caminho das ciências da religião.

[00:08:52] Então eu fiz depois o mestrado e o doutorado nessa área,

[00:08:55] e, sobretudo, enfocando a questão da sociologia e da sociologia das organizações.

[00:09:04] Quem que foi o seu orientador lá na PUC de São Paulo?

[00:09:08] Na PUC? A Maria José Rosado Nunes.

[00:09:11] No mestrado e no doutorado?

[00:09:13] Tanto no mestrado como no doutorado, é.

[00:09:15] Ela trabalha com gênero, porque aí, bom, eu estive no SESEP vários anos,

[00:09:20] e depois comecei a sentir que tinha um peso.

[00:09:25] Nas relações diferenciadas entre homens e mulheres, né?

[00:09:29] E que mesmo onde eu trabalhava, acabava que os homens tinham

[00:09:34] muito mais possibilidade de definição, de dar diretrizes, do que as mulheres.

[00:09:40] E as mulheres eram as que faziam o trabalho mais concreto, mais detalhado,

[00:09:46] de certa forma, mais exaustivo.

[00:09:50] E aí isso me deu muita vontade naquele tempo, eu nem conhecia a palavra gênero,

[00:09:55] mas me deu muita vontade.

[00:09:55] Me deu muita vontade de entender por que as relações eram assim, tão diferentes,

[00:10:01] como é que isso acontecia.

[00:10:03] Então, no mestrado, eu estudei relações entre homens e mulheres em ONGs.

[00:10:08] Então, uma era confissional e a outra não.

[00:10:11] E procurando ver aí a diferença entre as duas.

[00:10:14] E depois eu fui para o doutorado, já vinculada ao grupo de católicas pelo direito de decidir,

[00:10:21] que estava nascendo aqui em São Paulo, em 93.

[00:10:25] E aí eu estudei a questão de violência de padres contra mulheres.

[00:10:36] Então, foi já chegando nos anos 2000, esse tema estava estourando,

[00:10:41] a pedofilia de batina que se dizia nos Estados Unidos.

[00:10:45] Aqui no Brasil era mais discreta, a coisa ainda não era muito identificada.

[00:10:50] Mas eu fui trabalhar na pesquisa nessa área.

[00:10:55] Quer dizer, como é que acontecia esse relacionamento sexual violento.

[00:11:02] Não eram as relações de afetividade, eram as relações sexuais, mas que implicavam em violência.

[00:11:09] E também, há quatro anos atrás, eu dou aula numa universidade, no curso de serviço social.

[00:11:19] Ah, legal.

[00:11:19] Com ética.

[00:11:22] E você, Regina?

[00:11:23] Só para explicar também para os ouvintes.

[00:11:25] Eu acabei chegando no teu contato, primeiro porque eu entrei em contato com a Zeca, professora da PUC de São Paulo,

[00:11:32] porque ela lida essas questões de religiosidade e gênero, que era o tema aqui da conversa de hoje.

[00:11:39] Daí ela me passou o contato da Yuri, que é da Católicas pelo Direito de Decidir,

[00:11:44] e daí a Yuri me recomendou você aqui para a conversa.

[00:11:48] E eu achei bastante interessante a proposta da Católicas pelo Direito de Decidir,

[00:11:54] que é uma ONG.

[00:11:55] Você poderia explicar também um pouquinho para a gente sobre qual que é a proposta dela?

[00:12:00] A gente se organiza como ONG, mas mais que tudo, é a ideia de criar,

[00:12:06] de estar criando uma corrente de pensamento, um movimento, onde o que a gente faz?

[00:12:13] A gente procura afirmar que não é impossível você ser católica e feminista ao mesmo tempo.

[00:12:19] E que dentro do próprio princípio, dos princípios teológicos,

[00:12:25] do cristianismo, e mais especificamente do catolicismo,

[00:12:29] existem argumentos que nos permitem viver com muito mais tranquilidade,

[00:12:37] de uma forma muito mais saudável, as questões relacionadas à corporeidade, à sexualidade.

[00:12:44] E que sexo pode ser dissociado da ideia de pecado,

[00:12:48] que no cristianismo foi, dentro de uma visão mais oficial,

[00:12:55] ou tradicional, é visto de uma maneira muito assim, como algo que é perigoso,

[00:13:00] algo que é ruim, algo que é condenável, não é?

[00:13:03] Então, o que a gente faz é buscar o próprio pensamento teológico do cristianismo,

[00:13:10] onde estão os argumentos, e eles existem, não é?

[00:13:13] Existe uma produção teológica difusa, porque não é só de um único lugar,

[00:13:19] mas em diferentes países, existem teólogos trabalhando a sexualidade.

[00:13:25] E a gente diz assim, positivamente.

[00:13:28] Muitas vezes a religião aparece como aquela que intervém como um interdito,

[00:13:36] uma negação da vivência da sexualidade como algo prazeroso, bom, que torna feliz.

[00:13:46] Então, a gente vai tentar mostrar que não é por aí, que Deus não fez a gente,

[00:13:55] do jeito que fez, para poder viver também as relações de amor e de prazer.

[00:14:02] As católicas pegam muito isso procurando defender direitos sexuais e direitos reprodutivos

[00:14:09] e, na sociedade atual, a dificuldade para o acesso a esses direitos

[00:14:15] muitas vezes tem a ver com questões religiosas.

[00:14:20] Basta olhar o que acontece no Congresso Nacional

[00:14:24] quando você vê bancadas religiosas, evangélicas, católicas, espíritas

[00:14:29] que se juntam para e contra os direitos das pessoas LGBT, das mulheres, enfim,

[00:14:38] de tudo aquilo que às vezes é diferente da norma estabelecida.

[00:14:42] Sim. Então, já também para estabelecer aqui para o ouvinte alguns posicionamentos,

[00:14:48] acho que é bom sempre relembrar,

[00:14:51] eu sou o formado, o mestre em ciências da religião

[00:14:56] que não possui uma prática religiosa de qualquer forma,

[00:15:01] o Ankara acredito que está meio em cima do muro também,

[00:15:04] e o seu cristiano é…

[00:15:09] Como você se define, cristiano? Só para a gente…

[00:15:11] Cara, antes de mais nada, quem se define se limita, né?

[00:15:14] Ah, meu Deus!

[00:15:16] Esse papinho de Facebook!

[00:15:18] Não, cara, eu sou cristão protestante,

[00:15:21] só que eu sou ligado à mentalidade da teologia latino-americana,

[00:15:25] da missão integral,

[00:15:27] então, de certa forma, é interessante ressaltar o fato

[00:15:30] de que a maioria dos posicionamentos dos evangélicos mais preeminentes

[00:15:36] na nossa sociedade, sobretudo os políticos,

[00:15:38] vão de total choque com o que eu penso.

[00:15:43] Então, algumas pessoas até acham que o nome Crentaços é uma sacanagem

[00:15:48] para tentar desmerecer a posição do…

[00:15:51] dos evangélicos, mas não, somos crentes de verdade.

[00:15:53] Somos evangélicos, só que, efetivamente,

[00:15:56] a gente discorda da maioria dos pontos que são levantados,

[00:15:59] sobretudo a frente parlamentar evangélica lá, né?

[00:16:03] Como a Regina falou, que também é composta por outras pessoas

[00:16:06] de outras religiões, mas fatalmente, e para a minha vergonha,

[00:16:10] ela é composta sobretudo de evangélicos, né?

[00:16:14] Sim, mas como a Regina falou também, tem um grupo de católicos ali, né?

[00:16:18] Que, pelo menos assim,

[00:16:21] não tem essa expressividade aí que a gente vê

[00:16:23] tão forte quanto nos evangélicos, Regina?

[00:16:25] Ou você identifica?

[00:16:27] Não, eu acho que é interessante a gente mostrar isso,

[00:16:32] que o catolicismo é que se apresenta muito como uma religião universal.

[00:16:37] E mostrar que essa universalidade não é tanto assim,

[00:16:43] porque a gente, quer dizer, existe uma pluralidade de pensamento.

[00:16:48] Não existe uma voz única, né?

[00:16:51] É como nas igrejas evangélicas, tampouco existe

[00:16:54] uma única forma de viver a prática evangélica.

[00:16:59] No catolicismo também não.

[00:17:00] Então, existem vozes dissonantes, né?

[00:17:03] Nós, como católicas, somos uma delas, né?

[00:17:07] A gente tem também os padres casados,

[00:17:11] que tem um movimento no mundo inteiro, aqui no Brasil também.

[00:17:15] Tem um grupo chamado Somos Igreja,

[00:17:17] que se organiza mais na Europa, aqui no Brasil,

[00:17:20] acho que no Brasil.

[00:17:21] Tem, não chegou a conseguir se organizar.

[00:17:23] Mas que são grupos que propõem questões diferentes

[00:17:29] do pensamento oficial da igreja,

[00:17:31] sem afetar os dogmas, digamos, né?

[00:17:35] Porque muitas vezes a gente pensa que certas interdições ou proibições

[00:17:40] são dogmas da igreja.

[00:17:42] E não são, né?

[00:17:43] São questões de disciplinaridade que devem ser mesmo discutidas.

[00:17:49] Sim.

[00:17:49] Então, é um pouco por aí.

[00:17:51] Regina, eu já quero, então, começar,

[00:17:55] antes da gente entrar na pauta mesmo da questão da homossexualidade,

[00:17:58] eu gostaria de entrar numa questão que você puxou aí,

[00:18:03] por exemplo, de padres casados.

[00:18:05] Porque o que me chama…

[00:18:08] Eu vou falar agora como um leigo em questões de organização cristã no geral, tá?

[00:18:14] Mas a impressão que eu tenho é que a igreja católica

[00:18:19] possui um tipo de…

[00:18:19] possui um controle maior justamente porque ela tem uma instituição, né?

[00:18:23] Que é o Vaticano, no caso, que diz, olha, os padres têm que fazer assim.

[00:18:28] Diferente já, por exemplo, dessa coisa um pouco mais esparramada

[00:18:32] que tem no movimento evangélico,

[00:18:33] que torna a coisa um pouco muito mais plural, inclusive, né?

[00:18:37] Agora, nessa questão de organização institucional,

[00:18:40] como é que funciona, por exemplo, quando um padre vai discutir

[00:18:43] sobre ele quer casar ou mesmo, assim, a possibilidade de mulheres

[00:18:47] fazerem uma missa?

[00:18:49] É, como é que…

[00:18:50] A igreja não vai lá, a igreja católica romana já não vai lá e veta o cara, expulsa?

[00:18:56] Como é que funciona isso?

[00:18:57] É, então, primeira coisa, o celibato obrigatório é uma coisa que foi instituída na igreja

[00:19:03] a partir do século XI.

[00:19:06] Quer dizer, antes disso não era assim, né?

[00:19:08] Tanto que a gente vê, se pega do ponto de vista bíblico e se fala da sogra de Pedro, né?

[00:19:16] Se ele tinha sogra é porque ele tinha mulher, né?

[00:19:19] E, então, quando, na prática dos discípulos e tal,

[00:19:24] não havia o celibato como algo obrigatório.

[00:19:28] Então, isso é um primeiro dado que eu acho que é importante

[00:19:30] pra gente ver que é fruto de uma construção histórica

[00:19:33] que passa por interesses que têm a ver com poder,

[00:19:37] que têm a ver com poder econômico, com interesses de diferentes naturezas.

[00:19:45] E como é que a igreja…

[00:19:46] Mas a igreja continua, a igreja católica,

[00:19:49] afirmando que o celibato,

[00:19:52] apesar da flexibilidade do papo em relação a outros aspectos,

[00:19:56] mas o celibato como algo que deve ser obrigatório.

[00:19:59] A gente o que questiona nem é o celibato, mas é a obrigatoriedade.

[00:20:04] Quer dizer, quem quiser ser celibatário, nenhum problema,

[00:20:06] mas não fazer disso uma limitação, um condicionante

[00:20:12] pra que alguém possa atuar como sacerdote.

[00:20:17] E, por outro lado, na questão das mãos,

[00:20:19] mulheres e do não acesso ao sacerdócio,

[00:20:23] também o que a gente vê é…

[00:20:25] Bom, o sacerdócio, no pensamento católico,

[00:20:32] ele foi instituído no momento da última ceia.

[00:20:37] Então, é a ideia da Eucaristia.

[00:20:39] E que aí quem se encontravam eram os discípulos, os homens.

[00:20:46] Quer dizer, essa é a razão que se argumenta

[00:20:48] para que só…

[00:20:49] que só os homens tenham acesso a fazer a consagração,

[00:20:55] que é o momento da Eucaristia.

[00:20:58] No entanto, paralelo a isso, a gente sabe que há estudos de exegetas,

[00:21:04] de historiadores que mostram que, nesse tempo de Jesus,

[00:21:08] as famílias judias comiam juntos, juntas, com as mulheres, com as crianças.

[00:21:15] Então, não é nada provável que numa ceia estivessem só homens.

[00:21:19] Existe até, simbolicamente, quadros, eu tenho um comigo aqui,

[00:21:24] onde aparece a última ceia com a presença de mulheres, de crianças e de homens.

[00:21:30] E com um dinamismo diferente dessa imagem que a gente tem tradicionalmente.

[00:21:37] Então, quer dizer, há razões que podem justificar uma prática diferente

[00:21:43] daquilo que a doutrina oficialmente apresenta.

[00:21:47] Sim.

[00:21:47] Nunca…

[00:21:48] Que…

[00:21:49] Não, se perguntava, então, como são as reações, né?

[00:21:53] É duro de ver, mas assim, se a gente for ver no código de direito canônico,

[00:22:00] é tratado com muito mais severidade um padre que deixa o sacerdócio para se casar

[00:22:10] do que aquele que, por exemplo, comete abuso sexual.

[00:22:17] O que comete abuso sexual contra uma mulher.

[00:22:20] O que comete abuso, ele é chamado, ele é…

[00:22:25] Se procura uma reconciliação, que ele chegue a buscar o perdão, que ele não faça mais.

[00:22:34] E aquele que resolve se casar, ele é excomungado.

[00:22:39] Ele tem que sair da igreja, ele não é, não se aceita que ele possa viver o casamento.

[00:22:46] Muitos vivem a relação afetiva sexual clandestinamente, né?

[00:22:52] A gente sabe que há pesquisas que indicam que mais de 50% do sacerdócio católico vive,

[00:23:00] tem relações sexuais ativas, né?

[00:23:04] Mais de 50%?

[00:23:05] É.

[00:23:06] Por exemplo, nos Estados Unidos tem o Parker, eu não tenho o nome dele inteiro aqui.

[00:23:13] Ele fez uma pesquisa onde ele mostra

[00:23:15] que mais de 50% da população de padres tem relações heterossexuais.

[00:23:24] E uma porcentagem menor, relações homossexuais.

[00:23:28] Aqui a gente tem um outro dado que a gente tem, é dos padres espanhóis.

[00:23:36] Que o Pepe Rodrigues, que é um jornalista, fez uma pesquisa onde ele mostra também,

[00:23:43] quer dizer,

[00:23:44] que o celibato não é cumprido, né?

[00:23:48] Aqui, o Gino Nazine, aqui no Brasil, ele fez também um estudo de doutorado antes de mim,

[00:23:56] que se chama Um Espinho na Carne, onde ele faz uma pesquisa com os padres que vão pra Itaici,

[00:24:03] nas reuniões, e aparece claramente a vivência ativa da sexualidade.

[00:24:12] Então, o que a gente vê é assim,

[00:24:14] que você não pode falar, mas pode fazer.

[00:24:18] Quer dizer, as pessoas, a maioria dos padres tem uma vivência ativa sexual, né?

[00:24:24] Sim.

[00:24:25] Só que tem que ficar aí na surdina da clandestinidade.

[00:24:29] É, o que assim, quando a gente vai ver historicamente, não é uma surpresa absurda,

[00:24:34] porque o Papa Borges tá aí pra nos lembrar como a igreja já fez no passado.

[00:24:40] É…

[00:24:41] Agora, o que espanta é realmente ver…

[00:24:42] É…

[00:24:43] Agora é realmente ver que aquelas meninas que são apaixonadas pelo Padre Fábio de Mello,

[00:24:47] então talvez tenham uma chance, né?

[00:24:50] Porque se mais 50% tá assim…

[00:24:54] Caramba!

[00:24:56] É, mas só que aí, as meninas ou mulheres que se relacionam, são aquelas que ficam por baixo do pano,

[00:25:04] porque a ideia, a gente sempre ouviu falar, a mulher de padre mula sem cabeça, não é isso?

[00:25:10] Aham, sim.

[00:25:11] Quer dizer, a mulher é a que fica escondida, é a que…

[00:25:15] Tanto que em Roma tem um movimento de mulheres, de padres que já foram no Vaticano,

[00:25:22] que já foram fazer reivindicações, né?

[00:25:26] Olha…

[00:25:27] De filhos, né?

[00:25:28] Eu lembro que uma vez eu tive contato com um movimento que reivindicava esse reconhecimento da paternidade

[00:25:34] por parte de filhos de padres, assim.

[00:25:37] É, exatamente.

[00:25:39] Na Irlanda tem até um livro que fala sobre isso.

[00:25:43] Ou seja, acho que também, daí nesse sentido, de certa maneira, algumas vertentes protestantes,

[00:25:51] elas foram mais progressistas nessa questão, né?

[00:25:54] Tanto na questão do papel da mulher pra celebração de culto, quanto até, obviamente, a parte de casamento, né?

[00:26:01] O Cristiano, por exemplo, sabe citar aí algumas igrejas protestantes que a mulher pode ministrar culto,

[00:26:08] e também casamento, sem problema.

[00:26:11] Na verdade, cara, a questão do casamento pro sacerdote já é clássico, né?

[00:26:16] Já é desde a Reforma, lá o próprio Lutero, que é um…

[00:26:18] Talvez o Mickey Mouse da Reforma, assim, né?

[00:26:20] Visto que ele não é o único, mas é a figura que representa a Reforma.

[00:26:25] Ele mesmo casou, né? Com a Rombora, lá, e viveu a vida dele.

[00:26:29] Ele até se expressou muito nos textos dele, falando que o casamento era efetivamente um laboratório da santidade e tudo mais.

[00:26:36] Mas mulheres em sacerdócio sempre foram um tabu também, cara.

[00:26:41] Mesmo dentro do protestantismo.

[00:26:42] É mesmo.

[00:26:43] Hoje, né?

[00:26:44] É.

[00:26:45] Não é assim tão típico.

[00:26:47] Apesar de a gente ter algumas expressões…

[00:26:50] O senhor não entende hoje em dia a Igreja Luterana e…

[00:26:53] Eu não sei se…

[00:26:54] Não dá pra dizer, assim, a Igreja Luterana como a gente fala a Igreja Católica,

[00:26:57] ainda que não dê nem pra falar a Igreja Católica,

[00:27:00] visto que ela é tão plural, né? Como a Regina comentou.

[00:27:03] É…

[00:27:04] Mas algumas expressões luteranas…

[00:27:05] É…

[00:27:06] E algumas outras expressões da fé protestante já manifestam essa possibilidade.

[00:27:12] Uma mulher ser sacerdote e tudo mais.

[00:27:14] Mas dentro das…

[00:27:15] Sobretudo no protestantismo brasileiro, é um problema muito grave essa questão da mulher.

[00:27:21] Visto que o movimento evangelístico que veio pra cá,

[00:27:27] ele é um movimento evangelístico que realmente trouxe também uma cultura que era uma cultura machista lá, né?

[00:27:35] Sobretudo nos Estados Unidos.

[00:27:37] Aqui no Brasil, que é uma igreja sobretudo pobre, negra e feminina,

[00:27:42] a gente tem homens brancos de classe média pregando.

[00:27:45] Sim, sim.

[00:27:47] Mas é que daí eu lembro lá do caso da menina pastora berrando, por exemplo, no YouTube.

[00:27:51] Mas é diferente, cara. Aquilo lá é…

[00:27:54] É que aquele evento onde ela tá, que é aqui em Camboriú, né? Aqui perto do Paraná.

[00:28:00] Aquilo ali é um freak show evangélico, cara. Aquilo não… sabe?

[00:28:03] Não… não…

[00:28:04] É, né? Nota-se.

[00:28:06] Percebe-se, né?

[00:28:07] Aham, sim, sim. Mas tudo bem, então.

[00:28:10] Daí, bom, Regina, também uma outra questão, assim, porque eu acho que é interessante justamente você como católica falar,

[00:28:17] porque protestante é assim, né? Faz qualquer coisa. É água de salsicha, né? Tem tudo que é lugar, assim e tal.

[00:28:23] Agora, na questão católica mesmo, Regina, justamente tem todo aquele peso da tradição, assim, né?

[00:28:29] Que a gente fala bastante sobre a questão do pensamento conservador, enfim,

[00:28:33] as linhas conservadoras de pensamento, apesar que hoje o Papa Francisco, ele é até mais aberto, como você bem falou,

[00:28:39] mas até pouco tempo a gente teve o Ratzinger, por exemplo, que era um padre da…

[00:28:43] Velha Guarda.

[00:28:44] Da Velha Guarda, né? O Papa da Velha Guarda, bem conservador.

[00:28:47] E como você, como católica, se vê numa situação de, de repente, tá fazendo parte da Católicas pelo Direito de Decidir,

[00:28:57] debatendo temas como o aborto, por exemplo?

[00:29:00] Como é que você vê teologicamente ou religiosamente a questão do aborto na Igreja Católica?

[00:29:08] Olha, é aquilo que eu te dizia que há argumentos contrários, né?

[00:29:15] De diferentes correntes teológicas. Então, porque a gente sabe assim, a Bíblia,

[00:29:23] a Bíblia não é um livro pra ser vivido tal e qual.

[00:29:27] Ela não é um livro pra prescrever comportamentos.

[00:29:28] Ela não é um livro pra prescrever comportamentos.

[00:29:29] Ela não é um livro pra prescrever comportamentos.

[00:29:30] Ela é algo que ilumina, que tá sujeito a diferentes interpretações, enfim.

[00:29:36] E o magistério, que no catolicismo é importante, né?

[00:29:41] Os papas, os bispos, os padres têm uma história e têm posicionamentos nessa história que não foram sempre os mesmos.

[00:29:51] Então, por exemplo, uma questão interessante, que é pouco conhecida, é que até o ano de 1860,

[00:29:59] um pouco mais de 100 anos atrás, não havia um consenso sobre a condenação do aborto por parte do catolicismo,

[00:30:09] a condenação por parte da prática do aborto.

[00:30:13] Não era algo visto como bom, era algo visto como pecado, isso sempre foi e ainda é,

[00:30:21] mas mais do que pecado, não necessariamente era tratado como um pecado.

[00:30:28] Tratado como um homicídio, né?

[00:30:31] E a condenação a aborto não era absoluta.

[00:30:34] Então, tem estudos de penitenciário, de livros de penitência do período da Idade Média,

[00:30:42] que mostram como era mais grave a punição, que era passar não sei quantos dias a pão e água,

[00:30:49] era muito mais grave em casos de adultério do que em casos de prática ao aborto.

[00:30:56] Então, nesse sentido, isso mostra como a culpabilidade frente ao aborto era relativizada.

[00:31:05] Só em 1860 é que o Papa lança uma declaração no sentido de dizer que o aborto é condenável

[00:31:18] e é entendido como um homicídio e desde o momento da concepção.

[00:31:24] Quando isso acontece, há a reação de colégios episcopais.

[00:31:28] Então, um grupo de bispos foi da Bélgica, que teve dificuldade de aceitar isso,

[00:31:34] e aí a gente percebe como que, historicamente, esse tema não é consensual.

[00:31:42] Até no tempo de São Tomás, de Aquinas, qual era a afirmação que é um teólogo, digamos assim, influente,

[00:31:54] dentro do pensamento cristão, haviam discussões para dizer, olha, não,

[00:32:00] o aborto é considerado um homicídio, um rompimento da vida,

[00:32:08] se ele acontecer depois de 40 dias após a concepção, ou depois de 80 dias após a concepção.

[00:32:17] Então, não havia acordos, houve época que essa ideia foi mais forte,

[00:32:23] houve épocas que isso foi se transformando.

[00:32:26] A gente tem um estudo de uma teóloga que ela vai mostrando como na história isso foi sendo diferente.

[00:32:37] Ela chama da história não contada, quer dizer, como a gente só conhece a história oficial

[00:32:44] e a partir do momento em que a igreja decreta um pensamento oficial

[00:32:51] e transmite como se fosse um dogma.

[00:32:55] Uma outra questão é que é isso também.

[00:32:58] Dogma, no catolicismo, são questões que precisam, para ser considerado dogma,

[00:33:05] precisa de uma situação muito especial.

[00:33:08] Então, por exemplo, que tem a ver com a fé também.

[00:33:11] Quando se diz Maria subiu ao céu.

[00:33:13] É uma questão dogmática que tem que ser entendida assim.

[00:33:17] A questão do aborto, ela está dentro de questões,

[00:33:20] de legislação.

[00:33:22] Então, na verdade, não é dogma.

[00:33:25] E com curiosidade, como é que se debatia aborto na Idade Média, por exemplo?

[00:33:31] Porque a gente pensa hoje em aborto, pensa em clínicas de aborto clandestinas ou oficiais, enfim.

[00:33:37] Mas existem registros de práticas de aborto medievais, por exemplo?

[00:33:44] Olha, eu não posso te dizer diretamente de uma prática que eu saiba.

[00:33:49] Mas, evidentemente, existia.

[00:33:52] E existia e vai continuar sempre existindo.

[00:33:55] Assim como a gente vê práticas até do infanticídio, por exemplo.

[00:34:00] As comunidades indígenas que têm crenças de que se uma criança nasce com um defeito físico,

[00:34:08] então é melhor que ela não sobreviva,

[00:34:11] porque ela vai ficar para o resto da vida com uma situação de dependência.

[00:34:16] Ou porque depois que ela morrer,

[00:34:18] ela vai continuar com essa deficiência.

[00:34:24] Então, o que a gente sabe é que sempre o aborto não é algo da modernidade.

[00:34:33] Agora, como era feito, você vê até hoje,

[00:34:36] que a gente vive numa sociedade moderna,

[00:34:39] ainda tem muitas mulheres que praticam aborto com agulhas de tricô,

[00:34:46] com objetos pontiagudos.

[00:34:48] É medicamento, né?

[00:34:50] É.

[00:34:51] Ainda quando é medicamento, é o melhor, né?

[00:34:53] É, o menos grave, né?

[00:34:55] O menos traumático.

[00:34:56] É.

[00:34:57] E aí provoca o aborto e depois a mulher vai para o hospital, né?

[00:35:01] Ou eu acho que as formas…

[00:35:03] O conhecimento das ervas, né?

[00:35:06] Sim, sim.

[00:35:07] Que as mulheres, a gente vê até no interior, na roça,

[00:35:11] as mulheres falam assim,

[00:35:12] não, eu não abortei, eu tomei um chá.

[00:35:15] É, tomei um chá de…

[00:35:16] A culpabilidade de ter abortado é tão grande

[00:35:19] que não quer nem entender isso como aborto.

[00:35:22] Sim.

[00:35:23] Mas, por exemplo, na Bíblia não diz em algum momento

[00:35:28] ou em vários da questão da preservação da vida

[00:35:31] e esse tipo de prática não vai contra justamente a própria religião?

[00:35:38] Independente de ser dogmática ou não, não está no texto isso?

[00:35:41] Não, mas então o que significa preservar a vida, né?

[00:35:44] É.

[00:35:45] O que significa?

[00:35:46] Porque, por exemplo, a gente tem guerras santas

[00:35:49] onde a vida também não é preservada.

[00:35:51] Sim.

[00:35:52] Você tem a ideia…

[00:35:54] O martírio, né?

[00:35:56] O martírio que dentro do cristianismo é tão forte,

[00:35:59] os primeiros cristãos, o ataque às arenas de leão e tudo.

[00:36:04] Quer dizer, cadê a vida aí?

[00:36:06] Não estava sendo preservada.

[00:36:08] Então o que a gente observa é que a defesa da vida

[00:36:13] ela virou um clichê,

[00:36:14] um discurso muito abstrato,

[00:36:18] porque também a vida de quem?

[00:36:20] A vida das mulheres, né?

[00:36:22] E pensar apenas em questão de vida biológica também tem esse ponto, né?

[00:36:27] Exatamente.

[00:36:28] Também não compreender o peso das relações, né?

[00:36:32] E depois também acho que não dá para igualar

[00:36:36] quando se fala assim, olha, defesa da vida de uma criança

[00:36:42] e está se falando de um embrião de duas ou três semanas.

[00:36:46] Não dá para pensar que é tudo a mesma coisa,

[00:36:50] que um embrião, que um feto e uma criança nascida são a mesma coisa, né?

[00:36:55] Perfeito.

[00:36:56] Bom, então acho que aqui já dá para então,

[00:37:01] avançando para o tópico, para o tema principal,

[00:37:05] e eu já agradeço a Regina por explanação disso,

[00:37:08] porque eu já imaginava justamente que tinha

[00:37:10] esse debate na própria igreja católica,

[00:37:13] e eu acho muito bacana isso aqui estar sendo disseminado,

[00:37:16] porque ainda mais a Regina como assistente social,

[00:37:19] acredito que esse tema do aborto,

[00:37:21] ainda mais na questão das mulheres, da preservação da saúde das mulheres,

[00:37:24] te toca de uma maneira muito especial também, né Regina?

[00:37:27] É uma questão de saúde pública mesmo.

[00:37:29] Sim, sim, sem dúvida.

[00:37:31] Então acho bem legal já mostrar para a galera que isso existe

[00:37:36] numa própria instituição de dois mil anos,

[00:37:39] como a igreja católica,

[00:37:41] e que o debate está andando, vamos ver para onde vai,

[00:37:44] mas eu quero cair no tal do ponto

[00:37:47] que tomou conta as redes sociais na semana passada,

[00:37:51] que foi a questão da legalização do casamento nos Estados Unidos.

[00:37:55] As questões legais a gente não vai entrar muito aqui,

[00:37:59] porque pelo menos o meu interesse aqui realmente

[00:38:02] é tentar debater isso na questão religiosa,

[00:38:05] e eu vou tentar, eu quero fazer uma pequena explanação aqui,

[00:38:08] porque eu juro que foi sem querer assim,

[00:38:11] que semana passada, para quem não sabe,

[00:38:13] acho que até Regina é bom explicar para você,

[00:38:15] e para os ouvintes aí que não estão sabendo,

[00:38:17] semana passada eu publiquei um texto no B9,

[00:38:20] no qual eu peguei aquela imagem lá da transexual crucificada na marcha LGBT,

[00:38:27] e eu coloquei já um título para o texto,

[00:38:30] que foi bem provocativo de propósito,

[00:38:33] chamado a imagem mais cristã do século 21,

[00:38:36] e daí eu fiz toda uma relação justamente da imagem do sacrifício,

[00:38:42] da questão da marginalidade, da figura de Cristo,

[00:38:44] como uma pessoa que era da marginalidade daquele momento em Roma,

[00:38:49] que ele é um discurso que vai mais para os oprimidos

[00:38:53] do que para o poder vigente,

[00:38:56] enfim, fiz toda uma relação também, expliquei lá,

[00:38:59] além do grande inquisidor Dostoiévski,

[00:39:01] quem quiser, o link do texto está na postagem,

[00:39:03] quem quiser, o link do texto está na postagem,

[00:39:04] quem quiser, o link do texto está na postagem,

[00:39:05] quem quiser, o link do texto está na postagem,

[00:39:06] para quem quiser saber,

[00:39:08] e assim, teve uma repercussão muito legal do meu texto,

[00:39:11] e dois, três dias depois, teve lá a comemoração nos Estados Unidos

[00:39:14] da questão da legalização do casamento gay,

[00:39:16] então tipo, parece que foi realmente, as estrelas se alinharam,

[00:39:20] caso pensado, pontual, e eu juro que não foi,

[00:39:25] se eu fosse religioso, até diria que eu recebi um chamado,

[00:39:28] porque realmente veio de cabeça, veio muita inspiração na hora,

[00:39:33] e eu comecei a escrever, porque,

[00:39:34] algumas semanas antes eu estava dando aula de,

[00:39:36] eu sou professor de história da arte,

[00:39:38] e eu estava dando aula justamente de idade média,

[00:39:42] e iconografia cristã, enfim,

[00:39:45] e daí eu achei muito bacana tentar explorar esse texto

[00:39:48] de um tom mais provocador mesmo,

[00:39:50] assim como o texto de internet, que eu acho bacana,

[00:39:53] e assim, muita gente elogiando o texto e tal,

[00:39:56] mas teve também uma galera que ficou possessa comigo,

[00:40:00] teve até um pessoal que debateu de uma maneira bacana,

[00:40:02] enfim, mas é,

[00:40:03] mas é minoria,

[00:40:05] é, sempre a minoria,

[00:40:07] mas assim, muita gente dizendo assim,

[00:40:09] olha, vocês vão para o inferno por causa disso,

[00:40:13] leia a bíblia antes de falar besteira e tal,

[00:40:16] bom, e basicamente o argumento que era colocado era o seguinte,

[00:40:19] da questão do, o que eu coloco lá,

[00:40:22] que a figura de Cristo, ela condiz teologicamente

[00:40:27] com a própria noção da transexual crucificada,

[00:40:33] conceitualmente faz sentido,

[00:40:35] é, pelo menos assim, dentro do meu,

[00:40:38] da proposta que eu fiz ali no texto,

[00:40:40] é, agora, a questão que ficaram colocando para mim,

[00:40:45] muitos, muita galera do cristianismo mais conservador,

[00:40:49] é dizendo, olha, muito legal teu texto,

[00:40:51] só que você falou um monte de besteira teológica ali,

[00:40:53] que não faz sentido,

[00:40:54] porque Cristo jamais aceitaria um homossexual,

[00:40:59] como não pecador, por exemplo, né,

[00:41:02] ele aceitaria o homossexual,

[00:41:04] mas ele diria, olha, vai e não peque mais,

[00:41:06] assim como ele falou com Maria Madalena, por exemplo,

[00:41:08] o que já é interessante, porque que eu saiba essa discussão

[00:41:11] de que Maria Madalena era prostituta, não é bem assim,

[00:41:13] né, mas é, eu acho que até a Regina pode falar um pouquinho melhor sobre isso,

[00:41:17] é, mas aí, enfim, basicamente o que foi discutido na questão foi,

[00:41:21] a discussão que foi colocada é que, olha,

[00:41:24] Cristo, ele, o que eu fazia,

[00:41:27] o argumento que eu colocava no texto é o seguinte,

[00:41:29] olha, que existe uma diferença,

[00:41:31] que eu noto no teor do texto,

[00:41:33] e daí sou eu, Ivan, falando,

[00:41:35] eu noto uma diferença de teor de texto

[00:41:37] entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento,

[00:41:40] principalmente na questão de como trabalhar com leis,

[00:41:42] que eu acho que o Novo Testamento,

[00:41:44] ele é mais libertário,

[00:41:46] ele é mais, ele mais se aproxima

[00:41:49] de uma população carente,

[00:41:52] de uma população marginalizada,

[00:41:54] e colocando ali o LGBT,

[00:41:57] eu colocaria nessa categoria,

[00:41:59] e sendo assim Cristo,

[00:42:01] Cristo acolhe essas pessoas justamente pelo fato

[00:42:03] de elas serem oprimidas por fora,

[00:42:05] é, que tem uma discussão daí com teologia da libertação,

[00:42:08] enfim, mas que não é muito o meu ponto.

[00:42:11] A questão que daí estão colocando é a seguinte,

[00:42:13] que teologicamente não tem como escapar,

[00:42:17] que a Bíblia diz, Cristo, ele, tudo bem,

[00:42:20] ele vem com essa mensagem de amor,

[00:42:22] só que ele não nega o Antigo Testamento,

[00:42:24] e no Antigo Testamento deixa muito claro,

[00:42:26] especialmente em Levítico,

[00:42:28] que não adianta,

[00:42:30] homossexualidade é pecado.

[00:42:33] Então, o cristão aceita o homossexual,

[00:42:36] mas ele tem que se redimir,

[00:42:38] ele tem que parar com essa vida.

[00:42:40] Regina, quando você ouve essas coisas,

[00:42:43] como é que você,

[00:42:45] discutindo questões de gênero

[00:42:47] e representação em geral,

[00:42:50] você lida com essas questões?

[00:42:54] Olha, pra mim a primeira coisa é assim,

[00:42:56] com que olhos a gente vê a Bíblia?

[00:42:58] Então, eu acho que há uma tendência fundamentalista

[00:43:04] de tentar entender as coisas de uma forma literal.

[00:43:09] Então, por exemplo, procurar na Bíblia

[00:43:11] orientações para os dias de hoje.

[00:43:14] Isso significa não compreender,

[00:43:17] quer dizer, que a Bíblia é composta

[00:43:21] de uma série de livros,

[00:43:23] que são cartas,

[00:43:25] escritas em épocas diferentes,

[00:43:27] com objetivos diferentes,

[00:43:29] para destinatários diferentes

[00:43:32] e por pessoas diferentes.

[00:43:34] Quer dizer, não tem essa visão mágica de Deus,

[00:43:37] escreveu ali, aquilo é palavra de Deus,

[00:43:40] nesse sentido, não é isso.

[00:43:42] Na verdade, você tem no Antigo Testamento

[00:43:44] a história de um povo, povo hebreu,

[00:43:46] que sofreu exílio

[00:43:48] e como é que foi caminhando.

[00:43:50] E tem no Novo Testamento,

[00:43:52] isso que você dizia que o Novo Testamento

[00:43:54] é mais livre, eu acho que de fato,

[00:43:56] é a época que, quer dizer,

[00:43:58] é um livro, um conjunto de textos

[00:44:01] que mostra que o fundamental

[00:44:03] é o amor ao outro,

[00:44:05] a ideia do mandamento maior,

[00:44:07] o amor ao próximo,

[00:44:09] e o amor a Deus,

[00:44:11] que tudo se resume a isso.

[00:44:15] Então, eu achei super estranho

[00:44:18] quando teve esse monte de reação

[00:44:21] contra a trans que estava na cruz,

[00:44:24] e eu conheço de perto aquela onda,

[00:44:26] conheço o Marcelo,

[00:44:28] que é da organização que trabalha

[00:44:31] e que propôs isso sobre o caminhão,

[00:44:34] e ele é da teologia,

[00:44:36] ele fez teologia também,

[00:44:38] e a ideia central qual foi?

[00:44:40] Olha, hoje, quem é, qual é um dos setores,

[00:44:45] ou se não o setor,

[00:44:47] mais sofrido,

[00:44:51] que tem mais dificuldade para sobreviver,

[00:44:54] que está mais à margem

[00:44:56] dos processos e dos direitos

[00:44:58] do que as travestis,

[00:45:01] e a população transexual.

[00:45:03] Então, eu acho que a ideia da cruz,

[00:45:06] qual é a ideia do sofrimento?

[00:45:08] Cruz é sofrimento, é sacrifício.

[00:45:12] Então, quando você coloca

[00:45:14] uma transexual,

[00:45:16] uma travesti na cruz,

[00:45:18] você está querendo dizer,

[00:45:20] olha, ela está sendo crucificada

[00:45:22] por uma sociedade,

[00:45:24] que não compreende,

[00:45:26] que não lhe dá o direito de viver,

[00:45:29] não lhe respeita, enfim,

[00:45:32] que afeta uma série de coisas.

[00:45:35] Então, eu não consigo ver nisso

[00:45:37] nenhum desrespeito

[00:45:39] ao símbolo religioso.

[00:45:41] Eu acho que é muito diferente

[00:45:43] do que já aconteceu

[00:45:45] em outras marchas públicas,

[00:45:47] que é um uso erótico da cruz,

[00:45:51] insinuações, isso é outra coisa.

[00:45:53] Mas eu acho que o que teve

[00:45:55] na parada foi,

[00:45:58] não foi um mau uso,

[00:46:01] foi o uso de um símbolo religioso

[00:46:04] querendo transmitir

[00:46:06] que a população travesti

[00:46:08] está sendo crucificada.

[00:46:10] E isso é verdade, basta ver

[00:46:12] o número de pessoas que morrem,

[00:46:14] que é muito alto no Brasil.

[00:46:16] Então, a expectativa de vida

[00:46:18] de um travesti é 32 anos.

[00:46:21] É muito baixo.

[00:46:24] É terrível.

[00:46:26] Quando conhece uma ou outra,

[00:46:28] a gente vai vendo qual é o caminho.

[00:46:30] Porque não consegue estudar,

[00:46:32] não consegue trabalhar,

[00:46:33] tem problema em casa.

[00:46:35] E não consegue ter acesso

[00:46:36] a serviços básicos que a gente tem.

[00:46:38] Por exemplo, se ela tem um trabalho

[00:46:40] e quer financiar uma casa,

[00:46:42] simplesmente não consegue.

[00:46:44] Ou então alugar.

[00:46:46] Essa questão da identidade,

[00:46:48] ela realmente fica muito à margem

[00:46:50] da sociedade.

[00:46:52] Eu acho que é, de fato,

[00:46:54] mais do que as mulheres.

[00:46:56] A gente fala das mulheres biológicas,

[00:46:58] mas acho que as travestis

[00:47:00] é dose.

[00:47:02] É algo que está ali na vida,

[00:47:04] que não dá para ser diferente.

[00:47:06] Que a pessoa se descobre assim,

[00:47:08] se sente assim.

[00:47:10] Sim.

[00:47:12] O Cristiano, inclusive,

[00:47:14] foi um dos primeiros que leu meu texto.

[00:47:16] Obrigado, Cristiano.

[00:47:18] Até te coloquei nos créditos ali.

[00:47:19] Valeu.

[00:47:20] E eu acredito também

[00:47:22] que você já deve ter entrado

[00:47:24] em debates sobre isso

[00:47:26] em algum momento também.

[00:47:28] Como foi a tua experiência também?

[00:47:30] Porque você, como protestante,

[00:47:32] com certeza está em mais contato

[00:47:34] com uma galera que é um pouco mais

[00:47:36] conservadora nesse sentido.

[00:47:38] Como é que você lidou com essa situação?

[00:47:40] E quais são os contra-argumentos

[00:47:42] bíblicos que você pode dar para uma pessoa,

[00:47:44] por exemplo, que vai lá se basear

[00:47:46] no Levítico e etc.

[00:47:48] Nessa distinção do Antigo Testamento

[00:47:50] para o Novo Testamento?

[00:47:52] Nesse aspecto,

[00:47:54] nessa análise bíblica do problema,

[00:47:56] é muito complicado, sabe, Ivan?

[00:47:58] Porque o Brasil é composto, sobretudo,

[00:48:00] de analfabetos funcionais.

[00:48:02] Isso, como a gente pode ver

[00:48:04] nas igrejas neopentecostais, por exemplo,

[00:48:06] ela está infestada

[00:48:08] desse tipo de gente.

[00:48:10] Não falo isso pejorativamente,

[00:48:12] mas a maneira como o pastor neopentecostal

[00:48:14] se porta é justamente

[00:48:16] a atrair esse tipo de gente,

[00:48:17] pessoas que não têm nem capacidade

[00:48:19] de interpretar o texto.

[00:48:21] Quando você pega o texto bíblico do Antigo Testamento

[00:48:23] e não dá para você pegar um texto

[00:48:25] isolado e falar assim, ah,

[00:48:27] pegar um texto lá, na mesma

[00:48:29] frase onde você

[00:48:31] encontra que

[00:48:33] a homossexualidade é

[00:48:35] pecado, você vai encontrar outras tantas coisas

[00:48:37] que a gente faz cotidianamente, como raspar a barba,

[00:48:39] como misturar

[00:48:41] carne com leite,

[00:48:43] ou usar uma roupa com dois tecidos

[00:48:45] diferentes. Então eu acho que

[00:48:47] usar o Antigo Testamento como argumento

[00:48:49] para ir contra

[00:48:51] a homossexualidade em si

[00:48:53] é um pouco problemático. É uma coisa que eu sempre

[00:48:55] digo para os amigos aqui. Eu me converti ao cristianismo

[00:48:57] e não ao judaísmo. Se eu fosse judeu,

[00:48:59] talvez eu pudesse usar o Antigo Testamento,

[00:49:01] mas eu sou cristão. Então, sobretudo,

[00:49:03] apesar de eu não negar o Antigo Testamento,

[00:49:05] mas em outro aspecto, a partir

[00:49:07] de uma análise quase

[00:49:09] paulina, assim, do que o apóstolo Paulo

[00:49:11] vai pensar

[00:49:13] sobre o Antigo Testamento, é dessa maneira

[00:49:15] que eu vou entender o Antigo Testamento.

[00:49:17] Sobre, especificamente, a questão da

[00:49:19] travesti pendurada

[00:49:21] na cruz,

[00:49:23] na

[00:49:25] parada do orgulho gay,

[00:49:27] eu, particularmente, achei

[00:49:29] sensacional

[00:49:31] a parada.

[00:49:33] Porque, assim, eu acho

[00:49:35] que o símbolo do Cristo pendurado

[00:49:37] na cruz, ele é maior do que o cristianismo.

[00:49:39] Tá ligado?

[00:49:41] Porque, por exemplo, você mesmo que não é

[00:49:43] uma pessoa que, como você mesmo falou, não é cristão,

[00:49:45] quando você vê o símbolo de uma pessoa

[00:49:47] pendurada na cruz, isso já te remete

[00:49:49] a uma série de ideias, uma série de…

[00:49:51] sabe, é um ícone muito maior

[00:49:53] do que as práticas do cristianismo,

[00:49:55] seja o cristianismo católico, seja o cristianismo protestante,

[00:49:57] seja o que for. E quando você, como foi

[00:49:59] falado aí, quando eu vejo uma travesti

[00:50:01] pendurada numa cruz, quando eu vejo, né,

[00:50:03] e é mais grave uma travesti,

[00:50:05] uma pessoa que tá numa situação, pelo menos

[00:50:07] a partir do meu ponto de vista esquerdista

[00:50:09] da vida, uma pessoa que tá

[00:50:11] fragilizada na sociedade,

[00:50:13] né, como o cara aí falou,

[00:50:15] tem uma série de limitações,

[00:50:17] por exemplo, eu fiquei sabendo semana

[00:50:19] passada que tem uma travesti trabalhando

[00:50:21] na empresa onde eu trabalho no

[00:50:23] call center. E quando a gente descobriu

[00:50:25] isso, quando eu descobri isso,

[00:50:27] como que eu descobri isso? Porque eu vi

[00:50:29] quatro caras na frente do computador

[00:50:31] dando risada e falando, olha isso, olha isso,

[00:50:33] porque ela não pôde usar o nome

[00:50:35] social dela.

[00:50:37] Então, eu não sei qual é o nome social, eu não tive

[00:50:39] contato com essa travesti, com essa

[00:50:41] trans, desculpa,

[00:50:43] mas tava lá, Bruno, o nome do cara, sei lá,

[00:50:45] um nome masculino qualquer, não lembro se é

[00:50:47] Bruno, mas, Bruno, por exemplo,

[00:50:49] mas é a figura de uma mulher.

[00:50:51] E isso virou motivo de chacota.

[00:50:53] Quanto tempo essa travesti,

[00:50:55] essa trans fica aí na empresa?

[00:50:57] Sendo sacaneada o tempo inteiro, sendo,

[00:50:59] sabe, eu já tive a oportunidade de ir no banco

[00:51:01] uma vez, porra, é um banco do Brasil, cara.

[00:51:03] Tá, você tá ali na fila, entrar

[00:51:05] uma trans, né, na fila

[00:51:07] atrás de mim, assim, e você

[00:51:09] visivelmente, aliás, na minha frente, desculpa,

[00:51:11] e visivelmente você vê que o Caixa

[00:51:13] não tratou ela do jeito que ele me tratou,

[00:51:15] entendeu? Sim. Então, quando eu

[00:51:17] vejo a trans pendurada na cruz,

[00:51:19] o símbolo disso

[00:51:21] é muito maior do que a prática cristã.

[00:51:23] Então, quando eu vejo um cristão, eu falo, ah, estão

[00:51:25] roubando o meu símbolo cristão.

[00:51:27] Não, não tá roubando, o símbolo já é,

[00:51:29] o símbolo do Cristo pendurado

[00:51:31] na cruz é da humanidade,

[00:51:33] sabe, é o símbolo de uma pessoa que tá sofrendo

[00:51:35] injustamente por uma causa maior do que

[00:51:37] ela mesma. Então, na

[00:51:39] maioria das vezes, a maioria dos cristãos que vieram

[00:51:41] chorar comigo, falaram, ah, você é um herede,

[00:51:43] você vai pro inferno, blá, blá, blá.

[00:51:45] Eu falo, cara, é isso, o símbolo

[00:51:47] do Cristo na cruz é maior do que

[00:51:49] a prática cristã. Então, sabe,

[00:51:51] eu não posso chegar pra um ateu que eventualmente

[00:51:53] tenha um quadro da Santa Ceia

[00:51:55] na casa dele, porque acha, porque

[00:51:57] pelo valor estético que ele julga

[00:51:59] ter, e falar, não, você não pode ter,

[00:52:01] só pode ter se for cristão, porque isso é um

[00:52:03] absurdo, porque senão a gente vai entrar assim, ah, então eu não posso

[00:52:05] ouvir Clara Nunes porque eu não sou da Umbanda, sei lá.

[00:52:07] Não tem

[00:52:09] nenhuma lógica esse tipo de argumento, né.

[00:52:11] Então, assim, é muito

[00:52:13] mais, entrar no mérito teológico

[00:52:15] da coisa é muito mais

[00:52:17] desgastante, porque

[00:52:19] você não precisa, você não precisa saber nada de teologia

[00:52:21] pra dizer, o argumento

[00:52:23] falar, ah, travesti na cruz é um erro,

[00:52:25] é um absurdo, porque se eu botar o Neymar

[00:52:27] na cruz, já botaram, quantos

[00:52:29] símbolos de Jesus na cruz simbólico

[00:52:31] você já viu na tua vida? Sim, sim.

[00:52:33] Uma porrada, né, cara. Então,

[00:52:35] eu acho que daí a gente

[00:52:37] só desvenda o quão

[00:52:39] preconceituoso a gente é, porque se for o Neymar,

[00:52:41] se for, sei lá quem, outro jogador,

[00:52:43] beleza. Agora, se for uma

[00:52:45] travesti, não. Travesti,

[00:52:47] travesti não anda, travesti não pode

[00:52:49] ser cristão, qualquer coisa do gênero, assim.

[00:52:51] Ou trans, né. É que

[00:52:53] já deixa eu pedir desculpa pro ouvinte,

[00:52:55] porque o termo trans e travesti

[00:52:57] e todo aquele espectro de gêneros é sempre

[00:52:59] É, a gente vai falar

[00:53:01] bobagem, né. É sempre complicado

[00:53:03] da gente se

[00:53:05] localizar exatamente, então já

[00:53:07] peço desculpa a qualquer

[00:53:09] vacilo aqui que tenha.

[00:53:11] Perdão pelo vacilo. É, perdão pelo vacilo.

[00:53:13] Bom, mas eu

[00:53:15] quero fazer o papel

[00:53:17] aqui do crente chato então, tá bom?

[00:53:19] Que é o seguinte, eu vou partir

[00:53:21] de um princípio muito doido

[00:53:23] que, sei lá, que

[00:53:25] independente dos erros

[00:53:27] de tradução, independente das

[00:53:29] escolhas dos livros que foram colocados na

[00:53:31] Bíblia, parará, Deus

[00:53:33] guiou a palavra para

[00:53:35] estar na Bíblia. Deus

[00:53:37] é infalível,

[00:53:39] ele não

[00:53:41] cometeria erros, então

[00:53:43] eu como crente, independente da igreja

[00:53:45] que eu estou, eu acredito naquela versão da Bíblia

[00:53:47] que eu tenho, e o texto pra mim é muito

[00:53:49] claro. Eu leio lá Levítico, fala

[00:53:51] não, vai se deitar com

[00:53:53] outro homem, como se deitaria com uma mulher,

[00:53:55] porque isso é repugnante.

[00:53:57] É, e daí

[00:53:59] de repente eu vejo no Novo Testamento uma

[00:54:01] outra linguagem, só que mesmo que essa

[00:54:03] linguagem seja a lei do amor,

[00:54:05] essa, Jesus

[00:54:07] mesmo era um que seguia as

[00:54:09] leis hebraicas.

[00:54:11] Então eu assumo que ele não

[00:54:13] recusa o Antigo Testamento, ele não

[00:54:15] revê o Antigo Testamento, ele pode

[00:54:17] não ter tido nenhum contato com o homossexual,

[00:54:19] contudo, ele manteve

[00:54:21] a lei, e

[00:54:23] assim como um teólogo,

[00:54:25] eu como estudante do texto,

[00:54:27] eu vou dizer, olha,

[00:54:29] aqui está bem claro, não tem solução.

[00:54:31] Como

[00:54:33] que resolve isso

[00:54:35] na prática cristã?

[00:54:37] A gente aceita

[00:54:39] que tipo, sei lá, Levítico também

[00:54:41] fala que não pode comer carne de porco, então

[00:54:43] a gente está comendo carne de porco, então a gente fala, ah, mas isso aqui é um pecado

[00:54:45] menor, e daí a gente faz uma

[00:54:47] hierarquia aqui de pecados que podem e que não podem,

[00:54:49] todo mundo é pecador,

[00:54:51] como é que funciona

[00:54:53] isso assim? Daí eu queria saber a

[00:54:55] visão da Regina, que já

[00:54:57] trabalha com isso há um tempo também, então.

[00:54:59] Eu acho

[00:55:01] que também tem trechos na

[00:55:03] Bíblia que diz assim,

[00:55:05] você, se o teu olho

[00:55:07] serve para

[00:55:09] uma, eu não lembro exatamente o

[00:55:11] texto, mas para cometer algum

[00:55:13] pecado, alguma coisa assim, arranca

[00:55:15] esse olho, né? Nem por

[00:55:17] isso a gente arranca o olho.

[00:55:19] Ou corta

[00:55:21] a tua mão para não cometer

[00:55:23] tal coisa. Então, para mim, essa

[00:55:25] é a questão

[00:55:27] de entender o texto

[00:55:29] de uma forma literal, quer dizer,

[00:55:31] está escrito aquilo,

[00:55:33] está escrito que um homem não se deite

[00:55:35] com outro homem, mas tem,

[00:55:37] eu acho que isso tem

[00:55:39] um contexto, eu não sou exegeta

[00:55:41] para poder explicar exatamente,

[00:55:43] só que eu acho que a

[00:55:45] religião, as nossas

[00:55:47] ideias não são só

[00:55:49] o livro, quer dizer, o livro traz

[00:55:51] uma tradição, mas é muito mais

[00:55:53] do que isso. Eu acho que

[00:55:55] tem uma coisa assim, se não

[00:55:57] existe

[00:55:59] respeito, eu não gosto

[00:56:01] da ideia de compaixão

[00:56:03] no sentido de piedade

[00:56:05] ou de misericórdia, não é isso,

[00:56:07] eu acho que é,

[00:56:09] dentro da religião a gente não fala

[00:56:11] muito em direito, né? Porque as

[00:56:13] religiões não são democráticas em geral,

[00:56:15] então não cabe a noção de direito.

[00:56:17] Mas se não existe a compreensão

[00:56:19] do outro, o amor

[00:56:21] pela diferença que as

[00:56:23] pessoas podem ter,

[00:56:25] quer dizer, eu acho que então o que fica?

[00:56:27] Ninguém,

[00:56:29] há pensamentos

[00:56:31] teológicos que afirmam

[00:56:33] que quando

[00:56:35] Deus

[00:56:37] criou o homem

[00:56:39] e a mulher, quando criou a

[00:56:41] possibilidade da sexualidade,

[00:56:43] Deus viu que

[00:56:45] isso era bom, então há quem

[00:56:47] afirme que o que era bom

[00:56:49] é a vivência sexual

[00:56:51] e não necessariamente

[00:56:53] a hétero ou

[00:56:55] a homossexualidade,

[00:56:57] né? Quer dizer, então a gente tem

[00:56:59] questões culturais

[00:57:01] aí no meio, porque

[00:57:03] se a gente for ver, bom,

[00:57:05] a gente sabe da história da Grécia

[00:57:07] antiga, que os homens só viviam

[00:57:09] com, só faziam

[00:57:11] sexo com outros homens,

[00:57:13] né? E aprendizes

[00:57:15] e que isso tinha um significado,

[00:57:17] então isso

[00:57:19] tudo tá dentro de uma cultura,

[00:57:21] tá dentro de uma época.

[00:57:23] Eu acho que esse tipo de argumento

[00:57:25] pra querer

[00:57:27] desqualificar

[00:57:29] uma identidade,

[00:57:31] a identidade que uma pessoa

[00:57:33] sente, né? Quando

[00:57:35] ela ou tem atração sexual

[00:57:37] pela pessoa do mesmo sexo,

[00:57:39] ou ela se sente,

[00:57:41] se percebe

[00:57:43] como alguém

[00:57:45] que

[00:57:47] de gênero diferente

[00:57:49] daquele que foi atribuído

[00:57:51] e ela vai

[00:57:53] afirmando isso

[00:57:55] e dentro do

[00:57:57] ou a partir de um argumento

[00:57:59] religioso ou bíblico não se

[00:58:01] respeita isso, essa

[00:58:03] religião tá se posicionando de forma

[00:58:05] muito limitada. Agora, eu acho

[00:58:07] que tem, quer dizer, eu não tenho

[00:58:09] domínio

[00:58:11] total disso, mas eu sei

[00:58:13] que há, sobretudo no

[00:58:15] protestantismo, nos Estados

[00:58:17] Unidos, pensamentos

[00:58:19] teológicos

[00:58:21] organizados pra mostrar que

[00:58:23] a noção de

[00:58:25] que a sexualidade é algo bom

[00:58:27] é algo bom, seja na homossexualidade

[00:58:29] seja na

[00:58:31] heterossexualidade.

[00:58:33] A gente até tentou trazer

[00:58:35] um especialista aqui de

[00:58:37] Queer Theology,

[00:58:39] teologia Queer, né?

[00:58:41] Que é justamente esse grupo que está provavelmente se referindo,

[00:58:43] né Regina?

[00:58:45] André Buscoff.

[00:58:47] Ok, você pode citar.

[00:58:49] Acho que era ele mesmo.

[00:58:51] Ele avança na

[00:58:53] teologia Queer e mostrando

[00:58:55] que, e tem o pensamento

[00:58:57] da teoria Queer também, que mostra

[00:58:59] que as identidades

[00:59:01] de gênero

[00:59:03] são variáveis, né? Por isso

[00:59:05] há pessoas que são transexuais

[00:59:07] que transitam de um

[00:59:09] gênero pro outro. E eu acho

[00:59:11] que daqui a não sei quantos anos

[00:59:13] a gente vai olhar pra trás e vai dizer assim

[00:59:15] ai que absurdo, né? Como

[00:59:17] a gente era limitado

[00:59:19] pensando que

[00:59:23] essa ideia da complementariedade

[00:59:25] do homem e da mulher

[00:59:27] que só pode ser assim, né?

[00:59:29] Eu acho que

[00:59:31] eu penso que se a gente fosse

[00:59:33] criada sem condicionamento

[00:59:35] do pensamento

[00:59:37] heterossexual, eu acho

[00:59:39] que as pessoas seriam

[00:59:41] pelo menos bissexuais.

[00:59:43] Eu acho que a tendência seria essa.

[00:59:45] Porque você ama

[00:59:47] e descobre outra pessoa, né?

[00:59:49] E como você sente

[00:59:51] o corpo, é como você sente o corpo.

[00:59:53] Não dá pra condicionar isso.

[00:59:55] Claro. Eu lembro até, eu vi

[00:59:57] um tweet essa semana

[00:59:59] do Easy Nobre, né? Que é

[01:00:01] uma celebridade da internet.

[01:00:03] E ele falando assim, ele mostrando

[01:00:05] uma foto de um movimento

[01:00:07] que tinha nos Estados Unidos na década de 60.

[01:00:09] Eu não lembro em que

[01:00:11] estado, provavelmente deve ser algum daqueles estados do sul

[01:00:13] em que pessoas

[01:00:15] protestando contra

[01:00:17] a lei que permitia

[01:00:19] casamento interracial.

[01:00:21] E daí um monte de

[01:00:23] homem branco

[01:00:25] levantando as suas plaquinhas dizendo

[01:00:27] ó, Jesus abomina

[01:00:29] casamento entre brancos e negros.

[01:00:31] E você

[01:00:33] pensou, daí o tweet do Easy

[01:00:35] falava, ó, você que tá indo contra

[01:00:37] casamento gay, você no futuro vai ser visto

[01:00:39] assim, ó.

[01:00:43] Que é uma coisa muito doida, né? Realmente pensar

[01:00:45] que 50 anos atrás tinha

[01:00:47] gente nos Estados Unidos, e provavelmente até

[01:00:49] hoje, não só nos Estados Unidos,

[01:00:51] com certeza no Brasil também tem,

[01:00:53] pessoas que dizem, não, ó, religiosamente

[01:00:55] está errado um

[01:00:57] branco casar com um negro,

[01:00:59] né? Que é

[01:01:01] absurdo, né? Então…

[01:01:03] Hoje, por exemplo, como é que a gente entende

[01:01:05] a escravidão, né? É um

[01:01:07] absurdo, é inaceitável.

[01:01:09] Embora exista até trabalho escravo,

[01:01:11] tráfico de pessoas e tudo isso.

[01:01:13] Mas aquela escravidão

[01:01:15] que vinha calcada na raça,

[01:01:17] trazer os negros, é

[01:01:19] algo que é

[01:01:21] impossível de imaginar, né?

[01:01:23] Sim. Existia até um debate

[01:01:25] teológico no final do século XV,

[01:01:27] né? Sobre se índios tinham alma.

[01:01:29] Porque se não tivessem, podiam escravizar

[01:01:31] sem problema.

[01:01:33] Tá livre, né?

[01:01:35] Sim.

[01:01:37] No futuro a gente vai ter

[01:01:39] comentários assim mesmo.

[01:01:41] Assim espero, né?

[01:01:43] Porque… Bom,

[01:01:45] mas assim, ó…

[01:01:47] Vou tentar fazer de novo o papel do crente

[01:01:49] chato, então, tá?

[01:01:51] Eu…

[01:01:53] Veja, uma coisa…

[01:01:55] Aliás, deixa esse

[01:01:57] crente chato de lado. Eu vou fazer a minha análise.

[01:01:59] Melhor.

[01:02:01] Assim, eu, por exemplo,

[01:02:03] estudando… Caso vai

[01:02:05] estudar o texto bíblico,

[01:02:07] eu vou fazer primeiro uma contextualização.

[01:02:09] Eu faria isso, né?

[01:02:11] E o exercício teológico, basicamente, é isso.

[01:02:13] Entender, não à toa,

[01:02:15] o próprio Alex, que foi

[01:02:17] convidado aqui pro programa hoje e não pôde participar,

[01:02:19] é um cara que sabe falar,

[01:02:21] sei lá, 30 versões de grego diferente.

[01:02:23] Lê… Se duvidar,

[01:02:25] lê Encópita, o cara.

[01:02:27] Lê Aramaico.

[01:02:29] Aramaico fluente. É meu amigo, hein?

[01:02:31] É nosso amigo também, tá bom?

[01:02:33] É… Hebraico,

[01:02:35] enfim. E daí você lê o texto

[01:02:37] na língua original,

[01:02:39] entende quais são as formas de tradução,

[01:02:41] porque tem várias…

[01:02:43] Principalmente esses termos,

[01:02:45] que são referentes à homossexualidade,

[01:02:47] tem inúmeras interpretações, dependendo

[01:02:49] do contexto em que está sendo vivido,

[01:02:51] o que aquela palavra significa naquele momento,

[01:02:53] naquela conotação.

[01:02:55] Então é assim, eu, ok,

[01:02:57] por exemplo, se eu fosse

[01:02:59] praticar a Queer Theology,

[01:03:01] a primeira coisa que eu faria

[01:03:03] seria justamente me debruçar no texto original

[01:03:05] pra entender todas as possibilidades

[01:03:07] de interpretação daquele texto na sua língua original.

[01:03:09] Agora, o argumento que sempre vem

[01:03:11] colocado quando a gente vai fazer esse tipo de argumento

[01:03:13] é assim, não, mas a palavra de Deus, ela

[01:03:15] é infalível.

[01:03:17] Você, não importa

[01:03:19] a língua que vai estar, especialmente

[01:03:21] nas linhas protestantes, quando Lutero

[01:03:23] vai lá e diz assim, ó, toque essa Bíblia em

[01:03:25] alemão aqui pra vocês lerem à vontade

[01:03:27] e interpretem do jeito que quiserem,

[01:03:29] um abraço.

[01:03:31] Daí ele diz assim,

[01:03:33] não, a língua de Deus,

[01:03:35] a palavra de Deus é infalível.

[01:03:37] Então, Cristiano, como é que

[01:03:39] você… O que que esses protestantes aí

[01:03:41] estão na cabeça quando começam a achar que texto

[01:03:43] não tem contexto? Que mal lhe pergunte.

[01:03:45] Cara, eu acho que eles devem ter

[01:03:47] massa fecal no cérebro, cara, só pode ser.

[01:03:49] Que horror.

[01:03:51] Porque assim, eu não sei, eu não

[01:03:53] sou teólogo de formação, tá? Eu sou

[01:03:55] acadêmico de filosofia, sou um

[01:03:57] coitado. Mas,

[01:03:59] você não precisa ser muito inteligente pra

[01:04:01] compreender isso, cara. Você não precisa, porque assim,

[01:04:03] vamos entrar num mérito metafísico da

[01:04:05] coisa, vamos falar, Deus está falando com você

[01:04:07] a partir do texto bíblico. E eu

[01:04:09] acredito, eu, enquanto protestante, acredito

[01:04:11] efetivamente que Deus fala comigo

[01:04:13] através do texto bíblico. Mas ele

[01:04:15] fala comigo através da interpretação do texto.

[01:04:17] O texto

[01:04:19] em si, a cultura…

[01:04:21] Aqui tem um problema muito grave, cara.

[01:04:23] A nossa cultura protestante

[01:04:25] aqui do Brasil,

[01:04:27] tem um texto, tem um livro do

[01:04:29] pastor Ricardo Gondim, chamado

[01:04:31] Missão Integral, em busca

[01:04:33] de um… Deixa eu só ler aqui.

[01:04:35] Em busca de uma identidade evangélica. E ele fala muito

[01:04:37] dessa questão. Como a gente

[01:04:39] herdou um misticismo

[01:04:41] muito louco, assim, que sabe

[01:04:43] que não é um misticismo propriamente

[01:04:45] protestante. Às vezes

[01:04:47] a gente tem algumas coisas do tipo achar

[01:04:49] que, sabe, tem crente que pega a Bíblia

[01:04:51] e passa a Bíblia na janela,

[01:04:53] passa a Bíblia na porta pro diabos não

[01:04:55] entrar em casa.

[01:04:57] Funciona? Porque eu tô

[01:04:59] precisando aqui em casa. Eu posso…

[01:05:01] Eu tenho algumas Bíblias aqui, posso

[01:05:03] levar pra gente fazer um teste.

[01:05:05] Só que assim,

[01:05:07] a santidade da Bíblia não

[01:05:09] tá no papel, não tá na coisa.

[01:05:11] Tá na ideia por trás. Porque assim, se a gente

[01:05:13] pensar em termos morais

[01:05:15] do negócio, em termos éticos, sei lá,

[01:05:17] a Bíblia não é

[01:05:19] uma lista de coisas que pode e que não pode fazer.

[01:05:21] A Bíblia é um livro com conceitos.

[01:05:23] E a partir desses conceitos, você teoricamente

[01:05:25] converte a sua vida, eis

[01:05:27] o termo conversão, então não é um

[01:05:29] kamehameha que

[01:05:31] um pastor manda em você. Mas é uma nova

[01:05:33] maneira de compreender a vida. Isso sim é

[01:05:35] conversão. E essa nova maneira de

[01:05:37] compreender a vida

[01:05:39] é estar

[01:05:41] em concordância

[01:05:43] com a perspectiva do que Cristo fez

[01:05:45] na terra, baseado no texto

[01:05:47] dos quatro evangelhos.

[01:05:49] Então pra mim, se converter,

[01:05:51] ter me convertido, é olhar

[01:05:53] pros quatro evangelhos, ver

[01:05:55] o que Jesus fazia naquele contexto, naquela

[01:05:57] história, naquele momento histórico,

[01:05:59] e refazer isso a partir

[01:06:01] da minha vivência aqui na terra.

[01:06:03] Nesse momento histórico aqui em Curitiba

[01:06:05] século 21 e por aí vai.

[01:06:07] Se eu pegar e começar

[01:06:09] a entrar nesse método de literalizar

[01:06:11] o negócio, então por exemplo,

[01:06:13] é uma coisa que o próprio

[01:06:15] pastor Ricardo fala no livro,

[01:06:17] que o protestante ele tem aquela

[01:06:19] que a identidade do protestante

[01:06:21] brasileiro, ela é uma contra-identidade católica.

[01:06:23] Então tudo que o católico faz, não

[01:06:25] presta. Isso gerou um problema muito grave.

[01:06:27] Tudo de bom que tinha na igreja católica, a gente

[01:06:29] tem que não fazer, tem que fazer o contrário.

[01:06:31] Só que daí tem uma bobagem muito grande.

[01:06:33] Por exemplo, então o evangélico não pode usar cueca,

[01:06:35] porque o padre usa, certo?

[01:06:37] O evangélico não pode usar

[01:06:39] geladeira, porque a Bíblia não fala

[01:06:41] se pode ou não pode usar a geladeira.

[01:06:43] Então quer dizer, trata-se de uma

[01:06:45] questão muito mais de interpretação

[01:06:47] do texto bíblico

[01:06:49] do que efetivamente da religião.

[01:06:51] Por mais que você, eu acredito

[01:06:53] que você pode até ter

[01:06:55] a

[01:06:57] doutrina mais

[01:06:59] estapafúrdia que você quiser na tua igreja.

[01:07:01] Desde que

[01:07:03] ela seja fundamentada em alguma

[01:07:05] coisa que seja, que eu possa ler

[01:07:07] e falar, de fato, não concordo, mas

[01:07:09] a partir da tua interpretação está certo.

[01:07:11] E algumas interpretações que eu vejo

[01:07:13] por aí, que é uma grande

[01:07:15] crítica que os protestantes fazem aos católicos,

[01:07:17] ah, mas vocês têm

[01:07:19] a palavra do Papa e o Papa

[01:07:21] muda de opinião, então quer dizer,

[01:07:23] mas é a mesma coisa que os crentes fazem.

[01:07:25] O cara lê a Bíblia, mas o pastor

[01:07:27] fala assim, ah não, mas os gays, a gente tem que

[01:07:29] tacar pedra na cabeça de quem é gay, tem que

[01:07:31] sei lá, matar os

[01:07:33] caras. Vi vários caras falando que

[01:07:35] gay tem que morrer pra ir pro inferno e tal.

[01:07:37] Quer dizer,

[01:07:39] sempre que eu ouço essa eu digo,

[01:07:41] é muito cristão da sua parte.

[01:07:43] Jesus, Jesus, ele só não aplaudiu

[01:07:45] porque…

[01:07:49] Raspou na heresia agora.

[01:07:51] Cara, sério, não me

[01:07:53] entra na cabeça alguém ser cristão

[01:07:55] e desejar um ódio tão grande

[01:07:57] a alguém assim, cara, de verdade. Eu não sei se é porque

[01:07:59] eu

[01:08:01] entendo o cristianismo, veja,

[01:08:03] eu já falei várias vezes, eu estudei em

[01:08:05] colégio católico a vida inteira, sabe,

[01:08:07] assim, eu realmente não

[01:08:09] virei católico por

[01:08:11] acidente, assim, porque

[01:08:13] tudo

[01:08:15] era pra eu ser, entende?

[01:08:17] Só que assim, tem uma coisa que eu

[01:08:19] aprendi da freirinha lá na aula

[01:08:21] de religião, era justamente uma questão,

[01:08:23] olha, amor ao próximo, né,

[01:08:25] tipo, independente de gostar,

[01:08:27] tipo, é o mínimo, eu acho interessante

[01:08:29] a proposta, né. E daí

[01:08:31] eu acho muito doido quando alguém, assim,

[01:08:33] vai pro culto, vai pra missa, não sei o que,

[01:08:35] e sai de lá matando,

[01:08:37] assim, bravejando contra

[01:08:39] qualquer coisa que seja.

[01:08:41] E

[01:08:43] infelizmente isso a gente vê

[01:08:45] muito presente, especialmente

[01:08:47] nos nossos representantes em

[01:08:49] Brasília, né. E daí

[01:08:51] eu queria

[01:08:53] já pegar esse gancho pra fazer

[01:08:55] uma, já encaminhando aqui pro final do programa,

[01:08:57] pra Regina,

[01:08:59] que com certeza lida aí com esses

[01:09:01] assuntos já faz um bom tempo,

[01:09:03] até por causa da sua formação como

[01:09:05] assistente social,

[01:09:07] me diga uma coisa, Regina,

[01:09:09] assim, me dava uma impressão,

[01:09:11] eu vou falar uma impressão

[01:09:13] minha, em geral, do Brasil.

[01:09:15] Até um tempo atrás, eu lembro quando eu era

[01:09:17] adolescente, assim, e daí

[01:09:19] o Brasil sempre foi esse país que

[01:09:21] tipo, aceita as diferenças,

[01:09:23] todo mundo se ama,

[01:09:25] sincretismo

[01:09:27] religioso, eu sempre brinco,

[01:09:29] até falei isso no texto, a minha família

[01:09:31] é típica família brasileira, que é

[01:09:33] católica, não praticante, que vai em

[01:09:35] centro espírita e faz oferenda

[01:09:37] pra ir manjar no final do ano, né.

[01:09:39] Então essa questão de diferença, assim, sempre

[01:09:41] puta, muito bacana, todo mundo aí

[01:09:43] conversando e se misturando, isso é muito legal,

[01:09:45] mas, eu já ouvi

[01:09:47] e daí de repente começa a aparecer essa onda

[01:09:49] conservadora, assim,

[01:09:51] a ponto de, por exemplo, aparecer ali

[01:09:53] um, sei lá, um feliciano da vida

[01:09:55] dizendo coisas do tipo

[01:09:57] não, mas eu não sou contra homossexuais,

[01:09:59] a prática deles é pecaminosa,

[01:10:01] nós vamos aceitar homossexuais na nossa igreja,

[01:10:03] mas ele tem

[01:10:05] que aceitar que isso é pecado, enfim.

[01:10:07] E daí eu já ouvi

[01:10:09] análises dizendo, olha, o Brasil sempre

[01:10:11] foi um país muito conservador,

[01:10:13] esse papo de que a gente é liberal

[01:10:15] é uma mentira, uma mentira

[01:10:17] que vem de muito tempo já e que

[01:10:19] finalmente está sendo desmascarada.

[01:10:21] Qual que é a tua visão

[01:10:23] sobre isso, Regina? Você como católica

[01:10:25] que participa justamente de movimentos

[01:10:27] como a sua própria ONG.

[01:10:29] Olha, eu acho

[01:10:31] que o Brasil

[01:10:33] tem uma tendência

[01:10:35] a ter,

[01:10:37] a mascarar

[01:10:39] determinadas

[01:10:41] situações. Por exemplo,

[01:10:43] a questão da democracia racial

[01:10:45] é a mesma coisa.

[01:10:47] A gente diz, ai, o Brasil

[01:10:49] é um país que não

[01:10:51] é racista, que não é,

[01:10:53] quer dizer,

[01:10:55] não é como os Estados Unidos

[01:10:57] que declara

[01:10:59] que teve uma outra história.

[01:11:01] Mas a gente sabe

[01:11:03] que a questão racial está aí.

[01:11:05] Tanto que tem políticas afirmativas

[01:11:07] nesse momento para tentar

[01:11:09] minimizar. Então, eu acho

[01:11:11] que o problema da intolerância religiosa

[01:11:13] passa um pouco por aí também.

[01:11:15] Você tem, de um

[01:11:17] lado, quer dizer, a ideia

[01:11:19] de que o Brasil é um país

[01:11:21] cristão,

[01:11:23] há um tempo atrás sobretudo

[01:11:25] católico, hoje eu acho que o catolicismo

[01:11:27] acho não, ele

[01:11:29] perde espaço, ele é

[01:11:31] obrigado a conviver com outras

[01:11:33] expressões do cristianismo,

[01:11:35] mas que,

[01:11:37] de fato, é intolerante

[01:11:39] e essa intolerância

[01:11:41] religiosa, ela se dá

[01:11:43] com as religiões

[01:11:45] afro-brasileiras.

[01:11:47] Eu acho que ao mesmo tempo que a gente tem

[01:11:49] uma múltipla filiação, quer dizer,

[01:11:51] você tem a pessoa que vai no centro

[01:11:53] de umbanda

[01:11:55] ou que frequenta o espiritismo,

[01:11:57] vai no candomblé e também

[01:11:59] é católico e também é

[01:12:01] evangélico é mais difícil.

[01:12:03] Os evangélicos vão se

[01:12:05] contrapor de uma forma

[01:12:07] muito mais intensa, mas você tem

[01:12:09] essa filiação

[01:12:11] múltipla e, ao mesmo

[01:12:13] tempo, isso convive com uma

[01:12:15] intolerância religiosa.

[01:12:17] Eu acho que o Brasil é

[01:12:19] isso, é um campo religioso

[01:12:21] vasto,

[01:12:23] diferenciado,

[01:12:25] onde, de fato,

[01:12:27] convivem diferentes expressões,

[01:12:29] mas não dá para dizer que essa

[01:12:31] convivência é tranquila,

[01:12:33] que ela não é hierarquizada.

[01:12:35] Ela é, porque

[01:12:37] os terreiros de

[01:12:39] umbanda

[01:12:41] sofreram

[01:12:43] policiamento em cima

[01:12:45] e ainda tem. A gente teve

[01:12:47] o caso da menina apedrejada

[01:12:49] do candomblé há pouco tempo.

[01:12:51] Então eu acho que, de fato,

[01:12:53] um dos

[01:12:55] problemas graves que a gente tem

[01:12:57] é a intolerância religiosa.

[01:12:59] Mas isso sempre existiu e

[01:13:01] agora está aparecendo ou é um fenômeno

[01:13:03] recente? Como é que você avalia?

[01:13:05] Na história do país,

[01:13:07] isso já existia, porque

[01:13:09] agora ainda, quer dizer,

[01:13:11] você tem um caminho

[01:13:13] de

[01:13:15] legalização, digamos.

[01:13:17] Antes, quem é que podia

[01:13:19] abrir um terreiro?

[01:13:21] Era mais complicado. A polícia

[01:13:23] dava uma batida lá

[01:13:25] e acabava com tudo.

[01:13:27] Na ditadura era até proibido,

[01:13:29] por exemplo, de umbanda.

[01:13:31] Então isso, na nossa

[01:13:33] história, é um riqueiro.

[01:13:35] Mas, por outro lado, não deixa de ser

[01:13:37] verdade a ideia do

[01:13:39] sincretismo, a ideia de que

[01:13:41] o que os escravos

[01:13:43] negros, quando vieram, como é que eles

[01:13:45] puderam conservar

[01:13:47] a sua prática religiosa,

[01:13:49] alterando o nome

[01:13:51] dos santos católicos

[01:13:53] com os seus próprios santos,

[01:13:55] enfim. Eu acho que isso

[01:13:57] convive, mas convivência

[01:13:59] não é sinônimo de

[01:14:01] que há uma convivência

[01:14:03] pacífica e respeitosa.

[01:14:05] Quer dizer, ainda a ideia

[01:14:07] de que há uma única

[01:14:09] verdade religiosa, ela

[01:14:11] é prevalecente.

[01:14:13] Porque se a gente não consegue

[01:14:15] entender que

[01:14:17] os caminhos da religião

[01:14:19] ou das religiões são

[01:14:21] variados e todos

[01:14:23] nos fazem tentar

[01:14:25] compreender ou interpretar

[01:14:27] o começo do mundo,

[01:14:29] a criação e

[01:14:31] mesmo o que a gente vive hoje,

[01:14:33] que todos são

[01:14:35] mitos

[01:14:37] que trazem verdades

[01:14:39] no coletivo, a gente nunca

[01:14:41] vai conseguir, de fato,

[01:14:43] o respeito às diferentes religiões,

[01:14:45] práticas ecumênicas,

[01:14:47] isso fica, ainda está

[01:14:49] longe pra gente.

[01:14:51] Sim. Eu até

[01:14:53] me lembrei agora

[01:14:55] do período que eu estava estudando

[01:14:57] na ciência religião, lá na PUC de São Paulo,

[01:14:59] 2007, 2008,

[01:15:01] eu lembro que tinha um colega que estava falando

[01:15:03] fazendo, eu não vou lembrar o nome dele agora,

[01:15:05] mas ele estava fazendo uma pesquisa justamente sobre a Igreja Universal

[01:15:07] e sobre

[01:15:09] a proposta do Edir Macedo, dentro da Igreja,

[01:15:11] a proposta teológica, e ele falando

[01:15:13] assim, olha, porque o Edir Macedo

[01:15:15] ele é um grande empreendedor,

[01:15:17] olha o termo empreendedorismo,

[01:15:19] sabe?

[01:15:21] Porque veja só que

[01:15:23] fantástico que ele consegue fazer, você vai ver

[01:15:25] a proposta e todos os

[01:15:27] planos de negócios da Igreja Universal funcionam como

[01:15:29] uma empresa mesmo,

[01:15:31] independente de estar certo teologicamente

[01:15:33] ou não, a questão da análise dele

[01:15:35] era mais empresarial mesmo,

[01:15:37] e ele diz assim, e olha só que fantástico

[01:15:39] o universo que ele cria, porque ele consegue

[01:15:41] usar, se apropriar

[01:15:43] do argumento cristão,

[01:15:45] o cristianismo como sendo

[01:15:47] essa forma identitária brasileira

[01:15:49] muito forte por muito tempo,

[01:15:51] como bem a Regina falou, tem um tempo atrás

[01:15:53] dizia-se que a religião oficial do brasileiro

[01:15:55] era cristão católico, e hoje em dia

[01:15:57] graças a Deus isso já saiu,

[01:15:59] não se diz mais isso,

[01:16:01] sem dúvida há uma presença de católicos

[01:16:03] muito forte, mas o protestantismo está

[01:16:05] forte, além de outras religiões também já estão sendo

[01:16:07] mais respeitadas, não existe mais essa noção de religião

[01:16:09] oficial, mas ele diz assim,

[01:16:11] não apenas ele se apropria do

[01:16:13] discurso cristão, mas ele também cria

[01:16:15] um inimigo, e que é

[01:16:17] ele incorpora em si noções

[01:16:19] do espiritismo e da umbanda

[01:16:21] só que como um inimigo, então por exemplo

[01:16:23] se você está indo mal na sua empresa

[01:16:25] eles estão fazendo trabalho para você,

[01:16:27] estão fazendo trabalho contra você, e daí eu adorava

[01:16:29] assistir os programas lá né,

[01:16:31] que daí aparecia na televisão lá, o cara diz assim,

[01:16:33] o negócio está mal, daí o cara ia lá no cemitério

[01:16:35] daí estava lá uma faixinha com o nome do cara

[01:16:37] isso aqui é trabalho,

[01:16:39] isso aqui é trabalho contra o cara

[01:16:41] daí meu pai sempre fazia os melhores

[01:16:43] comentários quando via isso, ele dizia assim, é claro

[01:16:45] é por isso que a empresa do cara está indo mal,

[01:16:47] não é por causa da taxa de imposto gigantesca

[01:16:49] não é por causa

[01:16:51] de funcionário vagabundo

[01:16:53] porque ele está perdendo tempo indo lá no cemitério

[01:16:55] procurar trabalho

[01:16:57] o problema é porque fizeram trabalho

[01:16:59] contra o cara, tá certo

[01:17:01] mas é muito interessante como justamente

[01:17:03] esse sincretismo religioso

[01:17:05] por um lado é muito interessante

[01:17:07] para o fenômeno brasileiro, mas também

[01:17:09] por outro lado também pode criar essas coisas assim

[01:17:11] que criam tensões, um sincretismo

[01:17:13] de uma maneira quase perversa

[01:17:15] de dizer, esse aqui é um inimigo

[01:17:17] porque está tão presente o espiritismo

[01:17:19] e a umbanda e os rituais

[01:17:21] afro-brasileiros em geral

[01:17:23] que de repente ele tem que ser

[01:17:25] dialogado dentro de uma tradição cristã

[01:17:27] um pouco mais conservadora

[01:17:29] que daí vai dizer, olha, sim isso aqui

[01:17:31] existe e isso aqui é ruim

[01:17:33] e não é bom não

[01:17:35] e complicado né, reforça daí

[01:17:37] aspectos muito perigosos

[01:17:39] da sociedade, principalmente quando essa galera está em massa

[01:17:41] em Brasília

[01:17:43] o Cristiano aí

[01:17:45] já viu algumas belezas

[01:17:47] nesse sentido, provavelmente também

[01:17:49] cara, várias né, porque

[01:17:51] a minha família ela é parte

[01:17:53] católica e parte da umbanda, então

[01:17:55] quando eu era criança eu ia muito na umbanda

[01:17:57] com a minha avó em festa, essas coisas

[01:17:59] tanto que eu estava conversando com uma amiga

[01:18:01] esses dias e eu falei um negócio

[01:18:03] que depois eu falei, caraca, olha aí como

[01:18:05] mantém a influência

[01:18:07] ela mostrou uma fotografia, um desenho

[01:18:09] de uma sereia negra

[01:18:11] e ela, uma menina que era negra, ela falou assim

[01:18:13] nossa, olha que estranho, uma sereia negra

[01:18:15] eu falei, não, não, estranho é uma sereia branca

[01:18:17] porque as histórias que a minha avó me contava

[01:18:19] da Yamanjá

[01:18:21] sabe, era sempre eu remetia

[01:18:23] quando a gente ia no

[01:18:25] no templo, no

[01:18:27] eu via uma mulher negra recebendo

[01:18:29] a Yamanjá, recebendo sei lá o que

[01:18:31] e daí eu já associava a figura dela

[01:18:33] a construção dos mitos

[01:18:35] exatamente, entendeu

[01:18:37] e daí assim, quando eu

[01:18:39] cresço, vou para a igreja protestante

[01:18:41] eu aprendo que é tudo coisa do diabo

[01:18:43] né, gente

[01:18:45] será que é?

[01:18:47] tem um período ali, sabe

[01:18:49] tem um batismo de

[01:18:51] um batismo idiota que você passa

[01:18:53] um tempo ali achando que tudo é do satanás

[01:18:55] e daqui a pouco eu começo a

[01:18:57] repensar a fé e falo

[01:18:59] não, pera aí cara, pode até ser que seja

[01:19:01] mas se for está muito mal

[01:19:03] explicado isso aí, vamos pensar

[01:19:05] começo a me envolver

[01:19:07] com amigos que são

[01:19:09] de outras religiões e tudo mais

[01:19:11] e isso, quando eu começo a conhecer pessoas

[01:19:13] sobretudo pessoas

[01:19:15] que são de religiões mais

[01:19:17] afro-brasileira

[01:19:19] quando eu me aproximo é meio que um choque

[01:19:21] e é um choque para eles e é um choque para mim

[01:19:23] porque eu não sabia até esse momento

[01:19:25] que era tão odiosa

[01:19:27] essa relação entre

[01:19:29] o pessoal da Umbanda, do Canoblé

[01:19:31] dessas religiões todas e os evangélicos

[01:19:33] cara, é engraçado

[01:19:35] só te interrompendo rapidinho

[01:19:37] é porque isso é perceptivo

[01:19:39] em umas questões

[01:19:41] cotidianas, assim, esses dias eu estava passando

[01:19:43] numa rua aqui em Curitiba

[01:19:45] que tem um terreiro de Umbanda numa casa muito bonita

[01:19:47] assim, que é numa rua só de casas

[01:19:49] cara, sério

[01:19:51] todas as casas em volta

[01:19:53] tipo, casas super bonitas assim

[01:19:55] estavam para alugar ou à venda

[01:19:57] caramba

[01:19:59] tipo, na região, tipo fica perto da casa do Ivan

[01:20:01] é isso aí

[01:20:03] um bairro nobre de Curitiba

[01:20:05] e é engraçado porque assim

[01:20:07] tem igrejas

[01:20:09] evangélicas em

[01:20:11] diversos lugares, aqui perto de casa tem um

[01:20:13] e cara, as pessoas não deixam

[01:20:15] de alugar os imóveis em volta

[01:20:17] por causa disso

[01:20:19] pode até valorizar o imóvel

[01:20:21] tem a questão do barulho

[01:20:23] e etc, beleza, se for essa

[01:20:25] questão ok, mas

[01:20:27] você começa a perceber que

[01:20:29] não são só essas questões

[01:20:31] daí você vê quanto está introjetado

[01:20:33] essa questão

[01:20:35] de religiões de matriz africana

[01:20:37] como

[01:20:39] até de uma questão de desconhecido

[01:20:41] como é

[01:20:43] introjetado na gente essa questão de

[01:20:45] negativo, né, de como é negativo

[01:20:47] as práticas deles

[01:20:49] e isso acaba se

[01:20:51] se acaba se tornando visível

[01:20:53] quase, né

[01:20:55] quase não

[01:20:57] só complica daí toda a questão justamente de

[01:20:59] representação social racial, por exemplo

[01:21:01] assim, e

[01:21:03] bom, isso dá um programa

[01:21:05] inteiro, só a longe, assim

[01:21:07] mas é, eu acho que

[01:21:09] só pra terminar, eu acho que

[01:21:11] pelo menos um comentário meu

[01:21:13] é, eu reforço

[01:21:15] a noção que pelo menos

[01:21:17] eu leio, eu adoro ler a Bíblia

[01:21:19] como texto literário, né, eu acho que é

[01:21:21] tem o livro de

[01:21:23] eu já falei isso no meu texto e repito todas as vezes

[01:21:25] o livro de Jó pra mim é um poema belíssimo

[01:21:27] Apocalipse eu acho

[01:21:29] show de bola, o Evangelho

[01:21:31] de João, Evangelho de João, o melhor de todos

[01:21:33] então tipo, o próprio Gênesis

[01:21:35] também eu acho que tem coisas muito legais

[01:21:37] assim, tem uma poesia do texto, tem umas

[01:21:39] questões de tradução que são muito

[01:21:41] legais de se pesquisar

[01:21:43] e assim, se eu fosse cristão

[01:21:45] cara, a primeira coisa que eu ia ver, assim

[01:21:47] da onde que tá vindo esse texto, como é que se

[01:21:49] contextualiza naquela época, o que que significa

[01:21:51] por exemplo, a questão, a própria questão do

[01:21:53] até um menino lá

[01:21:55] não vou lembrar o teu nome, cara, se você tá ouvindo

[01:21:57] desculpa, mas comentou no meu texto dizendo assim

[01:21:59] olha, mas no Levítico lá

[01:22:01] fala que não pode comer carne de porco, mas

[01:22:03] isso é uma recomendação da época

[01:22:05] sabe, que carne de porco

[01:22:07] não era bem higienizada, diferente

[01:22:09] de hoje em dia, daí eu falando, bom

[01:22:11] então eu posso também ler a prática homossexual sim

[01:22:13] porque, ainda mais

[01:22:15] ainda mais num povo

[01:22:17] porque, com perdão na palavra

[01:22:19] mas judeus sempre se fudeu, né, assim

[01:22:21] então sempre tava fugindo, sempre tava

[01:22:23] difícil manter uma

[01:22:25] unidade ali dentro, então realmente

[01:22:27] se de repente você tivesse uma liberdade

[01:22:29] de práticas homossexuais

[01:22:31] no texto

[01:22:33] existe uma preocupação tão

[01:22:35] grande de produzir herdeiros

[01:22:37] pra que se continue uma

[01:22:39] cultura, numa época que a taxa de mortalidade

[01:22:41] infantil é gigantesca

[01:22:43] que é óbvio que essa prática vai ser

[01:22:45] abominada, né

[01:22:47] não pode ter, porque você tem que ter filho pra caramba

[01:22:49] cara, tipo, para com isso, né

[01:22:51] você precisa perpetuar a nossa cultura

[01:22:53] e

[01:22:55] avançamos, né, mudamos as coisas

[01:22:57] então, eu acho

[01:22:59] que seria, é muito interessante que a gente

[01:23:01] refaça uma análise

[01:23:03] do texto bíblico

[01:23:05] principalmente se for pra rever

[01:23:07] as questões

[01:23:09] que estão em pauta hoje em dia

[01:23:11] acima de tudo

[01:23:13] defendo ainda a ideia de que Cristo foi

[01:23:15] um punk gigantesco

[01:23:17] ali, né, de…

[01:23:19] anarquista, quebrando todas as

[01:23:21] normas sociais do Estado

[01:23:23] nesse sentido

[01:23:25] e trazendo uma mensagem que é muito interessante, que é

[01:23:27] pô, vamos curtir a galera em volta

[01:23:29] né, e é

[01:23:31] e eu reforço

[01:23:33] isso porque, antes

[01:23:35] fosse só uma velha guarda que tá lá

[01:23:37] em Brasília, que agora tá ganhando força

[01:23:39] é uma e outra igreja, mas

[01:23:41] é, o número de vídeos

[01:23:43] de pastor jovem, maluco

[01:23:45] que tá aparecendo no meu Facebook, não é

[01:23:47] pouco, é, de

[01:23:49] esses dias eu vi um vídeo de um pastor, devia ter

[01:23:51] sei lá, seus 30 anos, assim

[01:23:53] era bem jovem, é, e ele se vestia

[01:23:55] como jovem, tem ó, todo um

[01:23:57] todo um molejo, também, na fala

[01:23:59] assim, até sei qual pastor é

[01:24:01] cara, eu não vou nem saber se é o mesmo

[01:24:03] porque eu não sei, juro que eu não sei o nome do cara

[01:24:05] mas eu sei que o cara falou, não sei o que, tipo

[01:24:07] não, porque tava tendo uma manifestação de

[01:24:09] umbandas, lá, não sei o que, daí

[01:24:11] juntei uma galera e

[01:24:13] fomos lá tocar o terror, quebramos

[01:24:15] tudo, e daí eu digo, cara

[01:24:17] você tá cometendo um crime

[01:24:19] que loucura, é

[01:24:21] então, eu acho importante só que

[01:24:23] a gente reveja isso, justamente

[01:24:25] é, pense-se

[01:24:27] isso tem a ver com a sua religião, nesse sentido

[01:24:29] se você é religioso, né

[01:24:31] é, e, bom

[01:24:33] pra terminar, eu vou pedir pra Regina

[01:24:35] fazer aí uma última palavra

[01:24:37] é, porque primeiro

[01:24:39] pensei que você ia falar, vou pedir pra Regina

[01:24:41] fazer uma oração, então, uma oração, não

[01:24:43] se quiser também

[01:24:45] fica à vontade, né, mas é

[01:24:47] mas Regina, queria, acima de tudo queria te agradecer

[01:24:49] também, porque dispôs seu tempo pra vir aqui

[01:24:51] adorei o papo, o seu conhecimento é

[01:24:53] maravilhoso, é

[01:24:55] e eu gostaria que você falasse um pouquinho

[01:24:57] também, pra quem quiser saber mais sobre o seu trabalho

[01:24:59] e o último comentário aí que você quiser

[01:25:01] fique à vontade, o tempo, a palavra

[01:25:03] agora é sua. Obrigada, Ivan

[01:25:05] eu que agradeço a oportunidade

[01:25:07] da gente conversar, eu

[01:25:09] o que tava pensando enquanto tava ouvindo

[01:25:11] vocês, era assim, porque

[01:25:13] que a gente tem tanta resistência

[01:25:15] a entender

[01:25:17] que, por exemplo, fazendo uma

[01:25:19] comparação no catolicismo

[01:25:21] a gente vai falar que

[01:25:23] a Eucaristia é um sacramento

[01:25:25] não é, e vai dizer

[01:25:27] hum

[01:25:29] que, bom, merece todo

[01:25:31] respeito e sem dúvida merece

[01:25:33] que não cabe

[01:25:35] questionar, por exemplo, a ideia do corpo

[01:25:37] do sangue de Cristo, que aquilo

[01:25:39] não é pão e vinho

[01:25:41] e vai dizer, a gente nunca

[01:25:43] chama isso de mito, né

[01:25:45] a gente chama isso de

[01:25:47] um sacramento

[01:25:49] uma revelação e tal

[01:25:51] porque que da mesma forma a gente

[01:25:53] não consegue pensar

[01:25:55] que um ofertório, digamos

[01:25:57] uma coisa feita

[01:25:59] pelo candomblé

[01:26:01] ou pelo uma outra

[01:26:03] religião afro que faz

[01:26:05] o que a gente normalmente chama de macumba

[01:26:07] tem que ser desqualificado

[01:26:09] e não pode ser compreendido

[01:26:11] também como uma expressão

[01:26:13] mitológica de uma religião

[01:26:15] quer dizer, é tão mito como é

[01:26:17] a Eucaristia

[01:26:19] são formas de se relacionar

[01:26:21] então eu

[01:26:23] eu acho que é isso, quer dizer

[01:26:25] pra mim o segredo de uma

[01:26:27] boa convivência é

[01:26:29] de fato que ninguém

[01:26:31] se sinta como dono da verdade

[01:26:33] e que a gente pense

[01:26:35] que há uma multiplicidade

[01:26:37] de caminhos, né, não só da

[01:26:39] vivência da fé, mas da vivência

[01:26:41] de tudo, da vivência da sexualidade

[01:26:43] da vivência das relações

[01:26:45] entre as pessoas, e que acho que o grande

[01:26:47] critério é não fazer mal

[01:26:49] pro outro, quer dizer, aquilo que

[01:26:51] não causa dano pras outras

[01:26:53] pessoas e que não causa dano

[01:26:55] pra mim também, acho

[01:26:57] que tem toda a aprovação

[01:26:59] pra ser vivido, acho que se a gente

[01:27:01] conseguir abrir a cabeça

[01:27:03] assim, a gente vai ser

[01:27:05] muito mais feliz em todas as

[01:27:07] esferas da vida

[01:27:09] a organização que eu

[01:27:11] trabalho, não é

[01:27:13] propriamente trabalho, quer dizer, na verdade

[01:27:15] a gente é parte e

[01:27:17] se chama

[01:27:19] Católicas pelo Direito Decidir

[01:27:21] tem um site

[01:27:25] catolicas.org

[01:27:27] eu convido vocês a

[01:27:29] na medida do

[01:27:31] possível a conhecer

[01:27:33] a gente procura se posicionar

[01:27:35] frente a essas temáticas

[01:27:37] que tocam a religião, a

[01:27:39] sexualidade, e procura

[01:27:41] construir

[01:27:43] um catolicismo

[01:27:45] mais palatável

[01:27:47] visível, né, e mais livre

[01:27:49] também

[01:27:51] tá gostando do último papa?

[01:27:53] do novo papa?

[01:27:55] então, o último papa tem coisas muito boas

[01:27:57] em relação a

[01:27:59] ao questionamento que ele faz

[01:28:01] a cúria romana, as questões

[01:28:03] ligadas a

[01:28:05] o tratamento do dinheiro

[01:28:07] a corrupção, né

[01:28:09] e mesmo assim ele valoriza

[01:28:11] a simplicidade

[01:28:13] ele é um cara que tem mostrado

[01:28:15] coisas que põem a igreja

[01:28:17] num outro lugar, mas eu acho

[01:28:19] que também a gente não pode

[01:28:21] se confundir

[01:28:23] e pensar que isso

[01:28:25] significa uma mudança

[01:28:27] doutrinária de temas como

[01:28:29] esse que a gente tá discutindo

[01:28:31] ele vem afirmando ao mesmo

[01:28:33] tempo que o lugar das mulheres

[01:28:35] não é o lugar do sacerdócio

[01:28:37] que isso não vai mudar

[01:28:39] ele

[01:28:41] ele fala de não

[01:28:43] atirar pedras, né

[01:28:45] que não vai ser o primeiro

[01:28:47] a tirar pedra na questão, quando se trata

[01:28:49] da questão da homossexualidade

[01:28:51] mas ele ainda não chega

[01:28:53] a reconhecer que

[01:28:55] a prática homossexual

[01:28:57] tem tanta dignidade como a

[01:28:59] da homossexualidade

[01:29:01] eu acho que tem questões doutrinárias

[01:29:03] que são muito difíceis de mudar

[01:29:05] no pensamento católico

[01:29:07] mas de todo jeito o papo é um respiro

[01:29:09] e se a gente for ver as questões

[01:29:11] da justiça social

[01:29:13] a nova encíclica agora

[01:29:15] a preocupação do meio ambiente

[01:29:17] é algo pra ser valorizado

[01:29:19] sem dúvida, né

[01:29:21] eu acho que ele dá

[01:29:23] um plus pra gente

[01:29:25] já é bem melhor do que o Ratzinger, né

[01:29:27] ai meu deus, não sei contar, né

[01:29:29] Regina, muito obrigado

[01:29:31] você é uma querida

[01:29:33] o link pro Católicas pelo Direito de Decidir

[01:29:35] está na postagem

[01:29:37] Cristiano, faz aí seu jabá também

[01:29:39] é, meu jabá é acessem

[01:29:41] o crentassos.com.br

[01:29:43] lá você vai ver o vlog na minha fecal opinião

[01:29:45] vai escutar o pó de crente, vai escutar o Teologia de Boteco

[01:29:47] e vai escutar as outras coisas que a gente vai inventar

[01:29:49] e vamos colocar lá daqui a pouco

[01:29:51] tem Patreon agora também, né

[01:29:53] tem Patreon, pode doar até um milhão de dólares

[01:29:55] olha aí

[01:29:57] por mês

[01:29:59] vejam o vídeo do Patreon

[01:30:01] em especial a cena final, que se você não se comover

[01:30:03] é porque você não tem coração

[01:30:05] maravilha

[01:30:07] queria agradecer novamente então o Cristiano

[01:30:09] Regina e o Ancara que estão sempre do meu lado

[01:30:11] então, muito obrigado

[01:30:13] gente, e o papo é esse

[01:30:15] deixe aí seu comentário, sua opinião, meta suas pedras

[01:30:17] a gente está aqui pra isso mesmo

[01:30:19] então, um beijo e até semana que vem

[01:30:21] tchau

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