AntiCast 192 – Helenismo, Arte, Cópia e Nudez
Resumo
O episódio explora o conceito de helenismo, entendido como a transição e fusão da cultura grega clássica para a cultura romana incipiente. O convidado, Beccari, foca sua pesquisa no eixo greco-romano, argumentando que este período representa um declínio da Antiguidade Clássica ateniense e o surgimento de uma nova atitude perante o conhecimento e a arte.
A discussão central gira em torno do conceito romano de ‘ars’ (arte), contrastando-o com o grego ‘tecné’. Enquanto ‘tecné’ remete à técnica e ao trato direto com a matéria, ‘ars’ deriva de ‘artra’ (articulação). Esta mudança semântica reflete uma mudança paradigmática: a arte romana é vista como articulação, cópia e repetição ritualística, que dissolve a distinção platônica entre original e cópia. A historieta de Mamúrio Vetúrio, o ferreiro que copia perfeitamente um escudo sagrado, ilustra como a cópia pode coincidir com e até anular o original.
Essa noção de ‘ars’ está ligada ao ‘decorum’ romano (adequação à ocasião) e ao conceito sofista de ‘kairós’ (momento oportuno), herdado de pensadores como Górgias. A erótica romana, exemplificada na ‘Ars Amatória’ de Ovídio, é apresentada como uma arte de improvisação e adequação, um jogo de veneração e veneno (Vênus), distante da busca por uma essência do belo. A estética helenística e romana é contrastada com a grega clássica, privilegiando a veste e o movimento (como na escultura de Laocoonte) sobre a nudez estática, que para os gregos representava a essência.
Por fim, o episódio conecta essas ideias helenísticas e romanas com o contemporâneo, sugerindo que a atitude de assimilação ritualística, de simulação sem crença em um mito central (rito sem mito), e de articulação de símbolos diversos é próxima do que hoje entendemos como design e da experiência pós-moderna. A conclusão aponta para uma ‘ética da ocasião’, onde a coerência cede lugar à adaptação e à articulação de experiências simbólicas variadas.
Indicações
Conceitos
- Kairós — Conceito grego discutido, originalmente um tipo de tempo ou destino, que na sofística (como em Górgias) significa ‘momento oportuno’ ou ‘ocasião’, fundamental para entender a arte e a retórica romana (decorum).
- Evocatio — Prática ritual romana de assimilar e incorporar deuses, mitos e rituais de outras culturas conquistadas, exemplificando a abertura e a atitude de ‘rito sem mito’ central da cultura helenística romana.
Livros
- Vidas Paralelas — Obra de Plutarco mencionada como fonte da história do rei Numa Pompílio e do ferreiro Mamúrio Vetúrio, que ilustra o conceito de cópia na arte romana.
- Ars Amatória — Livro de Ovídio discutido como um manual de sedução que exemplifica a erótica romana, focada na ocasião, improvisação e no jogo de veneração/veneno (Vênus).
Pessoas
- Mário Perniola — Autor citado por Beccari como base de sua tese, que foca em ‘estética ritual’ e traça paralelos entre o helenismo e o período barroco.
- Górgias — Filósofo sofista discutido por sua visão de que o belo depende da ocasião (Kairós), em oposição à busca socrática/platônica por uma essência universal do belo.
- Cícero — Importante tradutor e adaptador da cultura grega para o latim, responsável por cunhar o termo ‘decorum’ a partir do conceito grego de adequação à ocasião.
- Diógenes — Filósofo cínico mencionado como exemplo das correntes filosóficas helenísticas (como cinismo, epicurismo, ceticismo) que privilegiavam uma sabedoria de vida prática sobre a busca metafísica pela verdade.
Linha do Tempo
- 00:09:17 — Definindo o helenismo no eixo greco-romano — Beccari explica seu foco de pesquisa no helenismo como transição da cultura grega para o Império Romano, antecedido pelo período de Alexandre, o Grande. Discute-se o declínio político de Atenas e Esparta concomitantemente a uma intensa produção cultural. O helenismo é apresentado não apenas como período histórico, mas como uma atitude ou método de produção de conhecimento.
- 00:16:02 — Ars romana versus Tecné grega e a estética ritual — Introduz-se a pesquisa de Beccari sobre ‘Ars, Estética e Design’, relacionando a arte helenística/romana com o design contemporâneo e o barroco. A palavra latina ‘ars’ (arte) é contrastada com a grega ‘tecné’ (técnica). ‘Ars’ deriva de ‘artra’ (articulação), indicando uma concepção de arte como articulação, diferente da técnica grega ou da imitação platônica.
- 00:27:04 — O mito fundador de Roma e a cópia perfeita de Mamúrio Vetúrio — Através do relato de Plutarco sobre o rei Numa Pompílio, conta-se a lenda da fundação de Roma por estrangeiros, que contratam rituais de várias culturas. Para combater uma peste, Numa promove um concurso para copiar um escudo sagrado. O ferreiro Mamúrio Vetúrio cria uma cópia tão perfeita que anula a distinção entre original e cópia, simbolizando a arte romana como cópia que dissolve o original.
- 00:38:31 — Górgias, o belo como ocasião (Kairós) e o Decorum romano — Discute-se a visão sofista, representada por Górgias, que contrapõe Sócrates/Platão. Para Górgias, o belo não é uma essência universal, mas depende da ocasião (Kairós). Cícero traduz essa ideia para o latim como ‘decorum’ - a virtude do orador em se adequar ao público e à ocasião. Esta noção está na base da ‘ars’ romana, ligada à retórica e à persuasão.
- 00:49:59 — Ars Amatória de Ovídio e a erótica romana — Analisa-se a ‘Ars Amatória’ de Ovídio como manual de sedução que exemplifica a arte romana. A erótica apresentada é um jogo de improvisação, adequação e veneração (Vênus associada a veneno), onde o maior desafio é conquistar repetidamente a mesma pessoa. Inclui a homossexualidade/pederastia como ritual de iniciação. Contrasta com a nudez essencial grega, privilegiando o véu e a sugestão.
- 01:07:24 — Rito sem mito, assimilação cultural e design contemporâneo — Conclui-se que a cultura romana helenística opera por ‘evocatio’ - assimilação de rituais e mitos alheios, resultando em um ‘rito sem mito’ central. A ênfase está na performance ritual em si, não na crença em uma mitologia subjacente. Beccari propõe que esta atitude de articulação simbólica, simulação e adaptação à ocasião é a base do design moderno e da experiência pós-moderna, onde se pratica rituais (como Natal) sem uma adesão essencialista aos seus significados originais.
Dados do Episódio
- Podcast: AntiCast
- Autor: HD1
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2015-07-23T02:09:53Z
- Duração: 01:39:04
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/anticast/59b7c240-797b-0130-0111-723c91aeae46/anticast-192-helenismo-arte-c%C3%B3pia-e-nudez/6edcf310-bc09-0134-10a8-25324e2a541d
- UUID Episódio: 6edcf310-bc09-0134-10a8-25324e2a541d
Dados do Podcast
- Nome: AntiCast
- Tipo: episodic
- Site: https://open.spotify.com/show/40IuG6Qs0lwYntanTQbpDJ?si=tH4elzqGSaWFAiXbTvsalg
- UUID: 59b7c240-797b-0130-0111-723c91aeae46
Transcrição
[00:00:00] Este podcast é apresentado por
[00:00:06] b9.com.br
[00:00:10] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:00:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:01:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:01:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:02:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:02:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:03:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:03:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:04:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:04:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:05:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:05:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:06:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:06:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:07:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:07:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:08:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:08:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:01] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:02] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:03] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:04] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:05] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:06] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:07] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:08] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:09] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:10] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:11] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:12] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:13] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:14] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:15] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:16] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:09:17] vai fragilizar a ponto justamente
[00:09:18] dele ser
[00:09:19] anexado ao que vai ser chamado depois de Império Romano
[00:09:23] mas eu acredito
[00:09:25] que não é exatamente
[00:09:26] isso que está interessando a tua tese
[00:09:28] o que você está interessado em estudar
[00:09:31] em helenismo para explicar
[00:09:32] para a gente hoje
[00:09:33] na verdade
[00:09:35] de fato eu tenho
[00:09:38] uma restrição
[00:09:41] por assim dizer
[00:09:41] ou um foco, melhor dizendo
[00:09:44] no helenismo no sentido
[00:09:46] primeiro greco-romano
[00:09:48] porque
[00:09:48] eu vejo que alguns
[00:09:52] historiadores especialistas e tal
[00:09:54] falam em helenismo
[00:09:55] saindo desse eixo
[00:09:58] entre Grécia e Roma
[00:10:00] como você disse o helenismo
[00:10:02] é uma transição
[00:10:04] a gente pode
[00:10:05] definir dessa forma, uma transição
[00:10:08] da cultura grega
[00:10:09] para o Império Romano
[00:10:12] o antecedio ao Império Romano
[00:10:14] e também vem
[00:10:16] mais ou menos depois da guerra
[00:10:17] do Peloponeso
[00:10:18] entre Aspenas e Esparta
[00:10:22] e na verdade
[00:10:24] é um declínio
[00:10:26] daquela
[00:10:27] da Antiguidade Clássica
[00:10:29] como a gente entende
[00:10:30] que é justamente
[00:10:32] protagonizada por Atenas
[00:10:35] e a Antiguidade Clássica
[00:10:38] Ateniense, porque daí a gente entra
[00:10:39] na Antiguidade Clássica Romana
[00:10:41] é, então
[00:10:43] tem essa transição operada
[00:10:45] por
[00:10:46] Alexandre Magno
[00:10:47] que é da Macedônia
[00:10:51] e tal, ele gostava muito
[00:10:53] de Aristóteles, se eu não me engano
[00:10:54] ele foi aluno de Aristóteles
[00:10:56] isso, exatamente
[00:10:57] e daí no caso
[00:11:00] enfim, ele fez assim
[00:11:03] deliberadamente, por assim dizer
[00:11:05] a fusão
[00:11:07] com outras culturas, principalmente
[00:11:08] persas
[00:11:09] se eu não me engano ele tem alguma coisa dos soldados
[00:11:13] é bom que o Ivan vai
[00:11:14] cara, até
[00:11:16] o pior é que eu vou até soltar aqui
[00:11:18] que me chamaram pra um
[00:11:20] podcast grande aí
[00:11:21] não vou nem falar porque realmente foi chato que eu fiz
[00:11:24] eu não quero deixar negócio
[00:11:25] os caras até me chamaram pra fazer um programa sobre Alexandre o Grande
[00:11:28] e daí eu disse, cara, eu não
[00:11:30] não foi um Nerdcast, tá, relaxa
[00:11:32] galera
[00:11:32] então não foi, e assim
[00:11:36] os caras até, eu disse, ó, só postar o horário
[00:11:39] e daí conseguiram todo mundo marcar naquele dia
[00:11:41] daí chegou no dia, eu disse, cara
[00:11:42] eu nem entendo muito desse assunto e eu não vou poder
[00:11:44] desculpa aí, então não foi mal
[00:11:46] aí
[00:11:46] mas é, então é assim, eu não entendo muito
[00:11:50] desse assunto, eu até tava falando pro
[00:11:52] do Beccari um tempo atrás que o meu sonho
[00:11:54] de terminar o doutorado era poder finalmente fazer um curso
[00:11:56] de história da Grécia Antiga, assim
[00:11:58] que eu tô querendo que tem no iTunes U
[00:12:00] né, mas
[00:12:02] o que eu sei é basicamente isso
[00:12:04] que eu falei, assim, sabe, as reformas
[00:12:06] alexandrinas e que
[00:12:08] você tem uma ascensão
[00:12:10] cultural muito grande, de
[00:12:12] produção cultural muito intensa nesse período da Grécia
[00:12:14] ao ponto em que a estrutura
[00:12:16] política tá se
[00:12:18] minando, né. Exatamente
[00:12:19] e principalmente em Atenas
[00:12:21] e mesmo em Esparta, né, as maiores
[00:12:24] cidades gregas, elas
[00:12:26] vão, digamos, agonizando
[00:12:28] nesse período, né. É, daí você tem
[00:12:30] a formação da Alexandria, né, como
[00:12:32] outros grandes cidades culturais também
[00:12:34] que vai ser muito importante. É, isso tem a ver
[00:12:36] com a expansão, tipo, do Império
[00:12:38] ali pra, ou mais
[00:12:40] pro Oriente. Do Império Romano?
[00:12:42] Isso. O Império Romano ainda não
[00:12:44] é coisa. Aí que tá, o Império Romano não tá formado
[00:12:46] ainda. Ah, não, mas
[00:12:48] tipo, o Alexandre, ele já começa
[00:12:50] a expandir, tipo, ele chega até perto lá onde
[00:12:52] é a Síria hoje. Isso.
[00:12:54] Isso, mas daí é Império
[00:12:56] da Macedônia, né.
[00:12:59] Digamos que não existe ainda
[00:13:00] aquele Império Romano fodão, assim,
[00:13:02] tá, ou não existe nem Império ainda.
[00:13:05] Roma, ela vai
[00:13:06] se criar nesse
[00:13:08] período helenístico, mas assim,
[00:13:10] enquanto cidade. Exato.
[00:13:12] E não enquanto Império.
[00:13:14] O Império vai demorar bastante ainda.
[00:13:17] Enfim, o que eu tava dizendo
[00:13:18] é que eu, assim,
[00:13:20] me restringo a essa, digamos,
[00:13:22] a questão filosófica
[00:13:24] do eixo greco-romano, por assim
[00:13:26] dizer. Eixo, eu quero dizer,
[00:13:28] nesse caminho da cultura
[00:13:30] grega pra romana,
[00:13:32] né.
[00:13:34] Ainda não constituído enquanto
[00:13:36] a cultura romana
[00:13:38] efetivamente imperiosa,
[00:13:40] né, por assim dizer,
[00:13:42] que vai vir, vai se consolidar depois
[00:13:44] com o Império. Então, mas assim,
[00:13:46] helenismo de modo geral,
[00:13:48] eu já vi historiador, sei lá,
[00:13:50] falando do helenismo, sabe, tipo,
[00:13:52] entrando na Índia, na África.
[00:13:55] Então, assim, a gente tá
[00:13:56] muito restrito aqui, né.
[00:13:59] É, eu acho
[00:14:00] que uma maneira legal de entender helenismo
[00:14:02] dessa maneira é como uma…
[00:14:05] a cultura grega
[00:14:07] em si, né, desse último período
[00:14:08] justamente que é o grande período
[00:14:10] assim, grego, que a filosofia
[00:14:12] já tá bem desenvolvida,
[00:14:14] as artes já tão no seu ápice
[00:14:16] também, né.
[00:14:18] As discussões sobre estética, ética
[00:14:20] já tão bem colocadas, democracia
[00:14:22] já tá sendo discutida de uma maneira bem diferente do que é hoje,
[00:14:24] né, nem se compara.
[00:14:26] Mas é…
[00:14:27] o que é mais interessante é que
[00:14:30] entender o helenismo talvez como uma atitude
[00:14:32] perante o conhecimento, né, como um método
[00:14:34] de produção de conhecimento em várias
[00:14:36] áreas. E
[00:14:38] tem uma coisa interessante que eu já vi
[00:14:40] uma vez, tive uma discussão uma vez com
[00:14:42] uma amiga minha que também é
[00:14:44] doutoranda em psicologia e tal
[00:14:46] e que ela estuda também
[00:14:48] bastante helenismo e ela dizia,
[00:14:50] ela falou uma coisa assim interessante que eu não me lembro de onde que ela tirou
[00:14:52] esse, de que autor que ela tirou isso,
[00:14:54] mas que ela falou assim que a gente
[00:14:56] hoje só dá importância pra Grécia porque
[00:14:57] o Império Romano adotou a cultura
[00:15:00] helênica, né, e usa esse termo, helênico
[00:15:02] mesmo. Sim, eu concordo.
[00:15:03] Porque o Império Romano que dá as bases
[00:15:06] depois pra toda a organização
[00:15:08] política social da Europa, né,
[00:15:09] e é de base grega, então
[00:15:11] não fossem essa…
[00:15:14] a adoção da cultura grega, essa
[00:15:15] abertura dos romanos
[00:15:17] perante a herança grega,
[00:15:20] talvez a gente nem discutisse Grécia hoje
[00:15:21] da maneira como discutimos hoje.
[00:15:23] E também é devedora
[00:15:25] a seleção
[00:15:29] dessa cultura grega feita
[00:15:32] na Idade Média, depois
[00:15:34] a redescoberta do
[00:15:36] helenismo no Renascimento,
[00:15:38] né, e por aí vai.
[00:15:41] Mas no…
[00:15:42] Por via romana, né, isso que eu quis dizer.
[00:15:44] Sim, sim, sim. Não, isso eu concordo
[00:15:46] plenamente.
[00:15:47] Na minha tese de doutorado,
[00:15:49] na verdade, é muito
[00:15:52] pouco que eu pego do helenismo,
[00:15:54] assim, eu utilizo principalmente
[00:15:55] um autor chamado Mário Perniola
[00:15:58] que vai focar nos rituais,
[00:16:00] naquilo que ele chama de estética ritual.
[00:16:02] Então, na verdade, eu tô
[00:16:04] focado mais em estética
[00:16:06] no âmbito filosófico
[00:16:08] do helenismo, assim, né.
[00:16:09] E daí, ao mesmo tempo,
[00:16:11] eu pesquisei
[00:16:13] na minha tese o período barroco, também.
[00:16:16] O próprio
[00:16:17] Perniola faz esse paralelo, né, ele encontra
[00:16:19] digamos uma afinidade
[00:16:23] estética entre o helenismo
[00:16:25] e o barroco. Só explicando
[00:16:28] pra galera burra, né,
[00:16:29] o barroco
[00:16:30] é aquele momento, né.
[00:16:34] Momento babaca.
[00:16:35] É, exato.
[00:16:37] É que tem sempre o cara que manda assim, gente,
[00:16:39] eu não tô entendendo as referências que vocês estão
[00:16:41] jogando aí, tá? A hora que começou a
[00:16:43] falar, eu…
[00:16:44] Não, e também pode ter aquele historiador
[00:16:46] babaca que vai falar, meu, como assim,
[00:16:49] cara?
[00:16:50] Porra, tem um barroco…
[00:16:52] É, briga com o Perniola daí, porra.
[00:16:54] Barroco e helenismo, cara, o que que você tá falando?
[00:16:57] Bota de rodapé, então.
[00:16:59] É, briga com o Perniola daí, tá?
[00:17:01] Mas é só explicar, o barroco é aquele
[00:17:03] momento, principalmente,
[00:17:05] bastante marcado na história da arte, né, já que
[00:17:07] eu tô falando de estética, que marca ali
[00:17:09] o século XVII europeu, nos 1600,
[00:17:12] que é uma…
[00:17:13] uma evolução
[00:17:15] de todo o Renascimento,
[00:17:17] né, todo o Renascimento que começa desde
[00:17:19] 1300, entra no Alto Renascimento
[00:17:21] de 1500, ali daí com Michelangelo,
[00:17:24] as tartarugas ninjas,
[00:17:25] né, todas, assim,
[00:17:26] e que depois evolui pra
[00:17:29] um maneirismo, e
[00:17:31] depois pra o barroco, né?
[00:17:34] Tá alinhado
[00:17:35] com a Contra-Reforma, né?
[00:17:36] Com uma atitude de propaganda
[00:17:39] da Igreja Católica também, né, de
[00:17:41] é…
[00:17:42] a fortalecer a sua imagem através
[00:17:44] do campo artístico, então
[00:17:47] daí é de… você tem…
[00:17:49] é literalmente uma máquina de propaganda,
[00:17:51] você pode falar, assim, do século XVII
[00:17:52] que a Igreja tá fazendo através do barroco,
[00:17:55] e que, basicamente, o que
[00:17:56] marca o barroco nesse sentido vai ser
[00:17:58] uma… a gente
[00:18:00] geralmente define, assim, barroco muito rápido como
[00:18:02] formas mais teatrais,
[00:18:05] enquanto que o Renascimento
[00:18:07] ele já é mais equilibrado,
[00:18:09] né, as obras científicas são mais equilibradas,
[00:18:11] o barroco já busca movimento,
[00:18:12] já busca teatralidade,
[00:18:14] contraste luz e sombra,
[00:18:16] muito adornado, né,
[00:18:18] muita decoração, assim, tal.
[00:18:21] Então, você tem essa…
[00:18:24] é interessante
[00:18:25] que nesse ponto você pode ver tranquilamente
[00:18:26] aí uma descendência, porque se o
[00:18:28] barroco é uma evolução do Renascimento,
[00:18:31] o Renascimento é justamente o Renascimento
[00:18:32] da cultura helênica, né, então…
[00:18:34] não se consegue fazer um paralelo nesse ponto.
[00:18:36] É, eu sintetizaria,
[00:18:39] pelo menos no âmbito do pensamento filosófico
[00:18:41] barroco, que o barroco,
[00:18:42] o barroco é o Renascimento
[00:18:44] de tudo aquilo que o Renascimento ignorou.
[00:18:49] Tipo assim, o Renascimento…
[00:18:50] Os outsiders do Renascimento.
[00:18:52] É, ele ignorou, por exemplo, o epicurismo,
[00:18:55] ignorou o ceticismo
[00:18:56] pirrônico, ignorou…
[00:18:58] Não, vamos lá, vamos começar pelos palavrões.
[00:19:00] O que é o ceticismo, vai?
[00:19:02] Não, então, deixa só, assim, contextualizar
[00:19:05] ainda, que assim,
[00:19:07] eu tô com um projeto de pesquisa
[00:19:09] chamado
[00:19:10] Ars, Estética e Design.
[00:19:12] Esse projeto de pesquisa, o Ars, é a palavra
[00:19:15] latina, romana, né,
[00:19:17] pra arte.
[00:19:19] E daí, é uma pesquisa que
[00:19:20] é sobre a dimensão
[00:19:23] estética do design relacionada,
[00:19:25] né, eu parto da hipótese
[00:19:27] de que a
[00:19:29] Ars helenística, né,
[00:19:31] a arte
[00:19:32] incipiente
[00:19:35] romana, ela
[00:19:37] tem a ver com aquilo que a gente
[00:19:39] chama hoje de design.
[00:19:40] E também com aquilo que a gente
[00:19:42] chama de barroco, né,
[00:19:44] do período barroco. Então,
[00:19:46] é uma coisa que eu comecei no doutorado, só que
[00:19:48] eu não me aprofundei.
[00:19:50] Essa pesquisa eu tô desenvolvendo
[00:19:52] na Federal, né, no Departamento de Design,
[00:19:55] mas tá
[00:19:55] incluída num grupo de
[00:19:58] pesquisa chamado NAVES,
[00:20:00] que é Núcleo de Artes Visuais,
[00:20:02] que é inter…
[00:20:03] Interdisciplinar. Não, interinstitucional.
[00:20:07] Ah,
[00:20:08] sabe?
[00:20:09] Outras…
[00:20:09] Outras…
[00:20:10] Exatamente. Então, tem a Federal,
[00:20:13] e basicamente as outras
[00:20:15] faculdades de arte
[00:20:17] aqui, né. Então, assim,
[00:20:19] antes de entrar na questão filosófica,
[00:20:22] assim, propriamente,
[00:20:23] por exemplo, o epicurismo,
[00:20:25] eu acho que vale, é interessante contextualizar
[00:20:27] assim, de imediato,
[00:20:29] uma questão estética mesmo, assim.
[00:20:31] Por exemplo, escultórica.
[00:20:33] Se você for pegar
[00:20:34] a escultura
[00:20:36] que caracteriza
[00:20:40] a estética
[00:20:42] clássica grega, a gente vai ver
[00:20:44] que, por exemplo, na escola neoártica,
[00:20:46] que é uma escola do período helenístico
[00:20:48] que tenta ainda seguir
[00:20:50] os cânones estéticos gregos.
[00:20:52] Você vai ver que são estátuas, geralmente,
[00:20:54] muito estáveis,
[00:20:56] são pessoas que estão em pé.
[00:20:58] No começo, essas estátuas tinham
[00:21:00] a cabeça e os ombros
[00:21:02] maiores, desproporcionais,
[00:21:04] porque eram pra ser vistas de baixo
[00:21:06] pra cima, né. Aquela coisa
[00:21:08] de, como chama?
[00:21:09] De provocar
[00:21:11] intimidação, por assim dizer, né.
[00:21:13] Estátuas de deuses, né, e tudo mais.
[00:21:15] Ou de heróis, enfim.
[00:21:17] E são, assim,
[00:21:19] além de estáveis,
[00:21:21] o que quero dizer estáveis? A postura
[00:21:23] mesmo da pessoa, né.
[00:21:25] Isso eu tô pensando também porque eu tenho estudado
[00:21:27] a estética helenística
[00:21:28] do ponto de vista do desenho figurativo,
[00:21:31] sabe, do figurativismo, né,
[00:21:33] da representação figurativa. Então, são
[00:21:35] expressões, assim,
[00:21:37] bastante impositivas,
[00:21:39] se a gente pode dizer dessa forma.
[00:21:42] Ou seja, porque
[00:21:43] tem pouco movimento.
[00:21:45] Então, se você for pegar em comparação com aquele,
[00:21:47] por exemplo, o Laconte,
[00:21:49] sabe? Que foi…
[00:21:50] Sim, o Laconte, né, do…
[00:21:52] Isso, e seus filhos.
[00:21:55] Isso. Se vocês procurarem
[00:21:57] Laconte… Aliás,
[00:21:59] cara, vai ser a arte
[00:22:01] do programa, tá bom? Ok.
[00:22:02] O Laconte. Daí
[00:22:04] o pessoal vê aí, tá bom? Aí com dois
[00:22:07] ossos, Laconte.
[00:22:08] Isso. Que foi
[00:22:10] produzido, putz, agora eu não lembro
[00:22:12] exatamente a…
[00:22:14] a escola,
[00:22:16] aliás, a cidade que foi produzida.
[00:22:18] Você sabe, Ivan?
[00:22:20] Não, cara. Mas a
[00:22:22] Wikipédia tá aí, né?
[00:22:23] Então, vamos lá.
[00:22:26] O Laconte…
[00:22:29] Laconte era filho da…
[00:22:31] Uma das expressões da helenística
[00:22:34] pra Laconte e seus filhos sendo
[00:22:36] atacados, obra de várias verdades,
[00:22:38] foi se descoberto no século XVI,
[00:22:41] não sei.
[00:22:43] Ó, aqui tá
[00:22:44] atribuído a Agessander
[00:22:46] de Hodes
[00:22:48] e Polidoros.
[00:22:51] Então, é que
[00:22:52] eu não sei…
[00:22:53] Algum historiador aí vai me
[00:22:56] corrigir se eu tiver errado, mas ela é feita
[00:22:58] na ilha de Hodes, então.
[00:23:01] Que é uma ilha
[00:23:02] onde ferveceu…
[00:23:04] Ferveceu é o neologismo, né?
[00:23:06] Não, não, não.
[00:23:08] Aonde, enfim,
[00:23:10] se praticava muito
[00:23:12] a arte
[00:23:14] escultórica, essas oficinas e tudo mais.
[00:23:17] Então, a gente vai se comparar,
[00:23:18] por exemplo, a essa
[00:23:19] essa estátua
[00:23:22] Laconte ou mesmo
[00:23:24] a famosa da Niké,
[00:23:27] que é aquela deusa que tem as asas
[00:23:28] só que não tem a cabeça.
[00:23:31] Deusa da Nike.
[00:23:32] Isso, exatamente.
[00:23:33] A Nike, isso.
[00:23:35] A gente vai ver que tem muito mais movimento
[00:23:38] dramaticidade, porque daí
[00:23:40] a gente dá importância
[00:23:42] a torções do corpo
[00:23:44] humano do que no grego,
[00:23:46] do que na escultórica clássica
[00:23:48] grega, né? Então, isso já
[00:23:50] indica, me parece,
[00:23:51] uma diferença muito
[00:23:54] grande em relação à cultura
[00:23:55] clássica
[00:23:58] ateniense, né, grega,
[00:23:59] e a
[00:24:01] cultura helenística, né?
[00:24:05] Então, assim, por exemplo,
[00:24:06] o grego em si,
[00:24:08] a palavra pra arte é tecné,
[00:24:11] né? Que, assim,
[00:24:12] literalmente, a gente poderia se traduzir
[00:24:14] por técnica, né?
[00:24:16] Tecton era o carpinteiro.
[00:24:19] E o que que é
[00:24:20] o carpinteiro? É aquele que
[00:24:22] mexia com o rilé, que é
[00:24:24] madeira, né? Então,
[00:24:26] o tecné é justamente o trato
[00:24:28] material, né? Porque madeira,
[00:24:30] rilé, também significa matéria,
[00:24:32] né? Enfim.
[00:24:35] Então, é você
[00:24:36] trabalhar de
[00:24:38] diretamente com a matéria. E daí, quando
[00:24:40] na tradução pro latim, né,
[00:24:42] que é feita por Cícero,
[00:24:45] que é um dos grandes, né,
[00:24:46] divulgadores aí,
[00:24:48] tradutores, digamos assim, adaptadores
[00:24:50] do grego
[00:24:52] pro latim,
[00:24:53] ele vai falar que, ao invés de
[00:24:56] tecné, é claro que vai
[00:24:58] ter a palavra tecnus, né?
[00:25:00] Mas ele vai falar da
[00:25:02] ars. Eu acho que essa é a palavra
[00:25:04] chave aqui pra gente do latim, que é a arte,
[00:25:06] né? Só que ars, ao invés,
[00:25:08] ao invés de remeter a tecné grega
[00:25:10] diretamente, remete a outro
[00:25:12] termo grego, que é artra.
[00:25:15] Artra, em grego,
[00:25:16] significa articulação.
[00:25:19] E articulação,
[00:25:21] de artra, deriva
[00:25:22] o grego artos, que é justamente
[00:25:24] junções, como por exemplo
[00:25:26] pulso, era chamado de,
[00:25:28] pulso, joelho, né? Era chamado de
[00:25:30] artos. E articulos,
[00:25:32] em grego, significa o lugar
[00:25:34] em que se dá essa junção, ou
[00:25:36] encaixe, por assim dizer.
[00:25:38] Então, ars é propriamente,
[00:25:40] no latim agora, né? É o
[00:25:42] verbo articular,
[00:25:44] articulação, né?
[00:25:46] Quer dizer, é um substantivo, na verdade,
[00:25:47] mas é o substantivo de articulação
[00:25:50] que vem do verbo artra
[00:25:52] em grego, né?
[00:25:54] E daí eu fiquei… E essa
[00:25:55] diferença entre ars e tecné
[00:25:57] me parece interessante do ponto de vista
[00:25:59] estético, porque ela já muda
[00:26:01] muito daquilo que a gente tem
[00:26:04] de concepção sobre arte,
[00:26:05] a ponto de…
[00:26:08] Inclusive uma mudança
[00:26:10] paradigmática em relação aos
[00:26:12] artistas de que falava
[00:26:14] Platão, por exemplo, que ele expulsava
[00:26:16] da república
[00:26:18] e tal, porque eles
[00:26:20] copiavam lá o modelo
[00:26:22] e tal. A ars latina,
[00:26:24] ela meio que acaba
[00:26:26] com essa discussão platônica.
[00:26:28] Então, assim,
[00:26:30] como que o perniola,
[00:26:32] pelo menos, contextualiza
[00:26:33] o surgimento dessa
[00:26:35] ideia de articulação relacionada
[00:26:38] a ars latina, né?
[00:26:40] Ele recorre a Plutarco.
[00:26:42] Plutarco é um romano que escreveu…
[00:26:46] Foi uma espécie de historiador romano,
[00:26:48] tá certo? Que escreveu
[00:26:50] sobre as vidas dos reis
[00:26:52] e também de outros
[00:26:53] personagens importantes
[00:26:55] na história de Roma.
[00:26:57] Em português chama Vidas Paralelas,
[00:27:00] o livro de Plutarco, né?
[00:27:02] Mas, enfim,
[00:27:04] originalmente é Vidas, se eu não me engano,
[00:27:06] ou Lives, enfim.
[00:27:08] Tem mais do nome em português.
[00:27:09] É, é que Vidas também tem
[00:27:12] o do Vasari, né?
[00:27:14] Acho que é uma tradição romana comum,
[00:27:16] assim, isso.
[00:27:18] Só que daí é Renascimento, não é isso?
[00:27:20] Isso, sim, sim.
[00:27:21] Enfim, daí o Plutarco tem
[00:27:24] um desses livros, né?
[00:27:26] Das vidas paralelas, é sobre
[00:27:28] Numa Pompilius,
[00:27:30] que foi o segundo
[00:27:31] rei de Roma, né?
[00:27:34] Não sei se é rei o nome,
[00:27:36] é um imperador.
[00:27:38] Não, imperador não, porque ainda não tem.
[00:27:40] É, tem os momentos lá.
[00:27:41] O cara que é o dono da porra toda.
[00:27:44] Exatamente.
[00:27:45] E, porra, o segundo ainda é muito incipiente, né?
[00:27:48] Porque o primeiro foi propriamente
[00:27:50] Rômulo, né?
[00:27:53] Lembrando, né?
[00:27:54] A fundação de Roma, pra quem não sabe,
[00:27:56] é foda porque eu vou falando disso como se…
[00:27:58] Vai, vai, não, relaxa.
[00:28:01] Quem não entendeu,
[00:28:03] abre o Wikipedia aí e vai acompanhando.
[00:28:05] A fundação de Roma,
[00:28:06] de uma…
[00:28:08] É um grosseiro e vou resumir mesmo.
[00:28:10] Ela, na verdade, Roma é uma cidade
[00:28:13] de estrangeiros.
[00:28:15] Basicamente.
[00:28:16] Tipo assim, isso é próprio
[00:28:18] da cultura helenística.
[00:28:20] Claro que tem as lendas, né?
[00:28:22] Da Loba e que, enfim, Rômulo e Remo
[00:28:25] vieram da mesma… São gêmeos
[00:28:27] e tudo mais, mas a questão é o seguinte.
[00:28:30] Era um ponto de encontro de estrangeiros,
[00:28:33] então todos ali não tinham pátria.
[00:28:35] E eles não sabiam,
[00:28:37] portanto,
[00:28:38] não tinha, assim, definido uma forma
[00:28:40] romana, né? Já que estavam
[00:28:42] fundando Roma, de fundar
[00:28:44] uma cidade. Então eles tinham que fazer
[00:28:46] uma… Eles tinham que
[00:28:48] emprestar, digamos assim,
[00:28:50] algum ritual, alguma cerimônia
[00:28:52] de fundação de cidades.
[00:28:54] Então eles, por exemplo,
[00:28:56] contratam…
[00:28:59] Como chama?
[00:29:00] É…
[00:29:00] É uma espécie de padre, mas não é padre,
[00:29:06] são sacerdotes.
[00:29:08] Sacerdotes, isso. Sacerdotes etruscos
[00:29:10] e persas, mas principalmente
[00:29:12] etruscos, pra fundar Roma.
[00:29:14] Então eles emprestam
[00:29:15] rituais de várias culturas
[00:29:18] pra fundar a cidade de Roma,
[00:29:20] onde não há uma cultura
[00:29:22] original, tá? Então isso
[00:29:24] já é bem interessante
[00:29:25] no aspecto de…
[00:29:27] da fundação de Roma. Tipo, eles contrataram
[00:29:30] um roteirista e um, sei lá,
[00:29:32] um dramaturgo pra…
[00:29:34] Exatamente, exatamente.
[00:29:35] Faz um… Eu quero um lance
[00:29:36] foda aqui, eu quero um show.
[00:29:38] É, exatamente.
[00:29:40] Daí, sabe, só que acontece que
[00:29:42] não é exatamente uma fundação
[00:29:44] etrusca.
[00:29:46] Porque havia outros ritos
[00:29:48] e rituais de outras
[00:29:50] culturas envolvidas. Então era tudo misturado.
[00:29:53] Né? Tipo,
[00:29:54] era uma coisa assim, meio que alguém
[00:29:56] falava em nome de um deus, outro falava em nome
[00:29:58] de outro.
[00:29:59] E tá tudo joia. Exatamente.
[00:30:02] Pelo menos, sabe, o importante era
[00:30:04] certificar que tava
[00:30:06] fundando a cidade.
[00:30:08] De algum modo. Então, voltando
[00:30:10] ao Plutarco lá, o Numa Pompilius,
[00:30:13] né? O Plutarco
[00:30:14] conta que
[00:30:15] na época
[00:30:19] que o Numa
[00:30:20] assumiu,
[00:30:22] a cidade de Roma, ela foi
[00:30:24] digamos, impregnada por uma
[00:30:26] peste. Uma espécie de peste negra.
[00:30:28] E as pessoas estavam morrendo e tal.
[00:30:30] Então foi alastrada por uma
[00:30:32] enfim, uma doença
[00:30:34] em cadeia, né?
[00:30:35] E daí, diz a lenda
[00:30:37] que caiu do céu um escudo.
[00:30:40] Escudo esse que serve pra quê?
[00:30:42] Serve pra se proteger da peste, né?
[00:30:45] Aí o Numa, ele
[00:30:46] digamos, fez uma espécie de
[00:30:48] concurso, falando
[00:30:49] direcionado aos ferreiros
[00:30:52] da cidade de Roma.
[00:30:54] Falando, ó, quem
[00:30:55] conseguir forjar
[00:30:57] um escudo mais idêntico
[00:31:00] a esse que caiu do céu
[00:31:02] vai ganhar
[00:31:04] alguma coisa, que eu não sei o que, eu não lembro.
[00:31:07] Enfim, e daí
[00:31:09] quem ganhou esse concurso é um cara
[00:31:10] chamado Mamúrio Vetúrio.
[00:31:13] Que na verdade é o primeiro
[00:31:14] artista que se fala na história de Roma.
[00:31:18] Ele é o ferreiro que consegue
[00:31:21] digamos, fazer uma cópia tão
[00:31:23] perfeita desse
[00:31:24] escudo que caiu do céu
[00:31:26] que não tinha como
[00:31:29] distinguir, nem o próprio Numa
[00:31:30] que detinha
[00:31:33] o escudo, não conseguia distinguir
[00:31:35] o original da imitação.
[00:31:37] Então, o Numa
[00:31:39] ele falou pra ele fazer
[00:31:40] 11 cópias, pra somar 12
[00:31:43] escudos
[00:31:44] pra, enfim,
[00:31:47] pra, digamos, potencializar o escudo
[00:31:49] e com isso veio
[00:31:51] a tal das marmuralhas
[00:31:53] que são as festas
[00:31:55] romanas em que
[00:31:56] tinha todo mês, né?
[00:31:59] Lembrando que o calendário romano é praticamente
[00:32:01] o que a gente segue hoje, com a diferença
[00:32:03] que o primeiro mês romano
[00:32:05] é março, né?
[00:32:07] E o nosso é janeiro.
[00:32:09] Mas em cada mês, sendo 12 escudos
[00:32:12] faziam uma festa na qual o escudo
[00:32:14] era mostrado pra cidade
[00:32:16] inteira, né?
[00:32:18] Tipo, qualquer um podia roubar o escudo.
[00:32:20] Qual que era a ideia disso?
[00:32:22] Porque você não sabia qual que era o verdadeiro.
[00:32:26] Então, o primeiro artista
[00:32:28] era um grande copião.
[00:32:30] Bem grosseiramente.
[00:32:31] Ele é um pouco mais que isso.
[00:32:33] De fato, sim, você tem razão.
[00:32:35] Ele é um copião.
[00:32:36] Só que ele…
[00:32:37] Ele copia de uma forma tão perfeita
[00:32:40] que ele elimina
[00:32:41] o original.
[00:32:43] Então, ele anula com isso
[00:32:45] a relação grega, platônica
[00:32:47] pelo menos, entre
[00:32:49] um modelo original
[00:32:51] e uma cópia falsa.
[00:32:55] Entendeu?
[00:32:56] Tipo assim,
[00:32:58] porra, o que que você faz?
[00:33:00] Imagina você, você ganha um escudo
[00:33:01] dos deuses, tá certo?
[00:33:06] Como que você faz
[00:33:07] pra esconder ele dos povos inimigos, né?
[00:33:10] Você tem que agir como um ladrão.
[00:33:12] Você tem que, digamos, tirar ele
[00:33:13] da vista das pessoas.
[00:33:15] Você tem que esconder, enterrar ele.
[00:33:17] O Numa Pompilius, ele faz
[00:33:19] uma manobra totalmente inversa essa.
[00:33:22] Ele exibe
[00:33:23] publicamente o escudo.
[00:33:26] De tal maneira assim, ó.
[00:33:27] Qualquer um pode vir aqui pegar no escudo
[00:33:29] e roubar ele e levar pra casa.
[00:33:32] A gente tem um mamúrio aqui.
[00:33:34] Alguém poderia, inclusive,
[00:33:36] tipo, pegar o original
[00:33:38] de repente e roubar, assim.
[00:33:40] Não importa.
[00:33:41] Ou seja, a cópia, ela
[00:33:43] passa a funcionar como um original.
[00:33:47] Ou seja,
[00:33:48] na verdade, melhor dizendo,
[00:33:50] a cópia coincide com o original.
[00:33:53] É, ele meio que
[00:33:54] desmaterializa o objeto
[00:33:56] e transforma num, sei lá,
[00:33:58] uma coisa etérea.
[00:33:59] Então toda essa historinha serve pra quê?
[00:34:01] Pra gente entender Ars.
[00:34:03] Ars.
[00:34:06] Ars romana é isso.
[00:34:08] É essa arte como repetição.
[00:34:10] Como cópia.
[00:34:11] Só que não é uma cópia no sentido de…
[00:34:15] Pejorativa, né?
[00:34:18] É, que é o sentido que o Aristóteles
[00:34:20] dava… Aristóteles e mais Platão,
[00:34:23] na verdade,
[00:34:24] ao Mimesis, né?
[00:34:25] A mimética grega. Ou seja, a imitação
[00:34:28] como aquilo de…
[00:34:30] Pra você acessar uma essência
[00:34:32] e por aí vai.
[00:34:34] Ou pra você distorcer a essência, né?
[00:34:36] No sentido platônico.
[00:34:37] Não, a imitação, ela coincide
[00:34:39] com o ato de criação
[00:34:40] artística.
[00:34:43] Então, é essa articulação
[00:34:46] que não tem mais a ver
[00:34:48] com a técnica grega
[00:34:49] e não tem mais a ver com a imitação
[00:34:51] falsa de um modelo original.
[00:34:54] Ah, mas o Aristóteles,
[00:34:56] você falou do Aristóteles,
[00:34:57] isso já não tá no Aristóteles?
[00:34:59] Porque o Aristóteles vai…
[00:35:00] Explicando a minha pergunta aí pros ouvintes.
[00:35:04] Platão vai
[00:35:05] criticar a questão da Mimesis,
[00:35:07] da cópia, justamente porque
[00:35:09] ele diz que a cópia…
[00:35:11] Existe uma essência no mundo ideal
[00:35:13] e que através da cópia material
[00:35:15] a gente vai se afastando cada vez mais dessa essência
[00:35:17] que tá lá no mundo das ideias.
[00:35:20] Aristóteles
[00:35:21] discute isso e diz que não,
[00:35:23] você tem… Justamente através da cópia,
[00:35:25] do trabalho com a matéria, é que
[00:35:26] nós atingimos a essência, né?
[00:35:29] Exatamente.
[00:35:31] Quando você me fala isso,
[00:35:33] me soa que é…
[00:35:35] de uma influência aristotélica
[00:35:37] no sentido de que
[00:35:38] a cópia e original
[00:35:40] não é boa nem ruim,
[00:35:43] ela faz parte da experiência humana
[00:35:45] e a gente tá aqui dentro dela.
[00:35:47] Não, então é um pouco diferente
[00:35:49] porque assim,
[00:35:51] Aristóteles ao…
[00:35:52] De fato, é diferente de Platão,
[00:35:55] na poética aristotélica
[00:35:57] ele vai dizer que
[00:35:58] a Mimesis é uma forma de acessar
[00:36:01] a essência das coisas,
[00:36:03] certo? Acessar no sentido de assimilar,
[00:36:05] de você
[00:36:07] ver, enfim, né?
[00:36:09] Aquilo que em grego chama
[00:36:10] que é resplandecer.
[00:36:14] Então, por exemplo, os heróis
[00:36:15] homéricos de Homero,
[00:36:17] né? Eles
[00:36:19] resplandeciam as virtudes
[00:36:21] porque, ou seja,
[00:36:23] eles são aquilo que
[00:36:25] essencialmente eles são.
[00:36:27] Então eles não copiavam ninguém.
[00:36:29] Você pode tentar
[00:36:31] copiá-los, mas se essa
[00:36:33] não for a sua essência,
[00:36:35] você, entendeu? O máximo que você pode
[00:36:37] fazer é assimilar.
[00:36:39] Mas você ainda vai ser inferior.
[00:36:41] Então, Aristóteles, assim,
[00:36:43] com a Mimes Aristotélica,
[00:36:46] ele ainda coloca,
[00:36:47] ainda que de uma maneira muito avessa,
[00:36:49] de fato, ele mantém
[00:36:51] a distinção
[00:36:54] entre original e cópia.
[00:36:56] Entendeu? Tipo…
[00:36:57] Afinal de contas, ainda busca-se uma
[00:36:59] essência, de alguma maneira. Exatamente.
[00:37:01] Ele mantém a distinção, mesmo
[00:37:03] que de uma maneira inversa,
[00:37:05] no sentido… Inversa do que? Do platônico,
[00:37:07] né? Porque
[00:37:08] o Platão, de fato,
[00:37:11] coloca assim, uma coisa não pode
[00:37:13] conviver com a outra. Não pode, assim,
[00:37:15] são inconciliáveis.
[00:37:17] O Aristóteles
[00:37:18] faz uma conciliação e daí
[00:37:21] que vem a dialética, né? Aristóteles é muito
[00:37:23] mais dialético que Platão, né?
[00:37:26] Dialético no sentido
[00:37:27] de criar uma síntese, né?
[00:37:30] Síntese entre,
[00:37:31] no caso, entre
[00:37:33] você tem uma essência e
[00:37:35] com a assimilação dela,
[00:37:37] você dá voz a outra essência,
[00:37:39] que é a sua própria, por assim dizer.
[00:37:41] Certo? Isso é a mimética
[00:37:43] aristotélica.
[00:37:45] Só que, por exemplo,
[00:37:46] um sofista
[00:37:49] como Gorgias,
[00:37:51] que o Platão
[00:37:53] odiava, me parece
[00:37:55] que a
[00:37:56] concepção de Gorgias
[00:37:59] sobre a mimética
[00:38:01] tem mais a ver com a arte romana,
[00:38:03] no sentido de Cícero,
[00:38:05] que ele atribuiu
[00:38:07] a essa palavra, do que Aristóteles.
[00:38:10] E isso, a gente
[00:38:11] sabe, né? Aristóteles
[00:38:13] e toda a tradição platônica eram
[00:38:14] antissofistas, né? E qual que é a
[00:38:17] questão? Porque a gente
[00:38:19] sabe, por exemplo, no Gorgias
[00:38:21] de Platão… Eu só preciso
[00:38:23] avisar para o ouvinte, o sofista
[00:38:25] é aquele que diz, não existe verdade,
[00:38:27] não existe essência,
[00:38:28] tudo depende, é tudo relativo…
[00:38:31] Se me contratar, eu falo
[00:38:33] o que você quiser. É, basicamente, você,
[00:38:35] meu amigo, que está ouvindo e dizendo que
[00:38:37] esse papo de essência é uma bobagem,
[00:38:39] tá?
[00:38:40] Você é um sofista, você é um sofista,
[00:38:43] tá? Inclusive,
[00:38:45] uma faculdade de filosofia, isso é um
[00:38:47] xingamento muito elegante, assim, né?
[00:38:49] Você é um sofista.
[00:38:52] Ou então você
[00:38:53] fala, eu vejo que a sua fala
[00:38:55] tem tons de sofismo.
[00:38:56] Ou seja, você fala demais, você
[00:38:59] é muito bom em falar até, pode ser,
[00:39:01] mas você não diz nada.
[00:39:02] Não chega a lugar nenhum.
[00:39:05] Uma curiosidade é que o sofista,
[00:39:07] como o Isócrates, por exemplo,
[00:39:09] ele não se considerava sofista, né?
[00:39:11] Ele falava que o Platão
[00:39:12] e o Aristóteles…
[00:39:14] Ele falava que ele era filósofo
[00:39:16] e Platão, Aristóteles e Sócrates
[00:39:18] eram sofistas.
[00:39:22] Excelente.
[00:39:23] Enfim, mas voltando
[00:39:24] a Gorgias, tem um livro de Platão chamado
[00:39:26] Gorgias, em que Sócrates
[00:39:28] é o diálogo entre Sócrates e Gorgias
[00:39:30] e Sócrates pergunta para o Gorgias,
[00:39:32] Gorgias, o que é o belo?
[00:39:35] E o Gorgias fala…
[00:39:38] E aí toca um pagode no filme, no filme.
[00:39:41] Tá de boa.
[00:39:42] Aí o Gorgias fala, eu sou o Eto.
[00:39:45] Aí o Gorgias responde,
[00:39:46] meu caro Sócrates,
[00:39:48] belo é uma bela jovem.
[00:39:53] É uma bela mulher, né?
[00:39:54] Mas uma mulher jovem.
[00:39:56] Aí o Sócrates fala, mas vejam só
[00:39:58] que imbecil.
[00:40:03] Enfim, por que imbecil, né?
[00:40:05] Porque ele…
[00:40:06] É, quer dizer, então, que toda
[00:40:08] mulher jovem é bela.
[00:40:10] E não existe mais nenhum belo.
[00:40:12] Quer dizer, ou seja, é um problema da generalidade, né?
[00:40:15] Você tá generalizando
[00:40:17] e dizendo que toda mulher é bela
[00:40:19] e tal. E daí o Gorgias
[00:40:21] quer dizer, daí agora não tá
[00:40:23] mais no livro de Platão, eu que tô dizendo.
[00:40:25] Que é muito melhor.
[00:40:26] É, que na verdade
[00:40:29] tá nos livros do
[00:40:30] Elogio à Helena
[00:40:31] do Gorgias mesmo, né?
[00:40:35] Vai pra literatura sofista, de fato.
[00:40:38] Que o que o Gorgias queria dizer
[00:40:39] com uma bela mulher é o seguinte.
[00:40:41] O belo é uma bela mulher
[00:40:43] pra uma determinada pessoa em determinada
[00:40:45] ocasião.
[00:40:47] Ou seja, o belo é aquilo
[00:40:49] que aparece em determinada ocasião.
[00:40:52] Ou seja, é o contrário
[00:40:53] da generalidade.
[00:40:55] Não existe um belo
[00:40:57] essencial, universal
[00:40:59] e metafísico,
[00:41:01] categórico e por aí vai.
[00:41:03] O único belo que existe,
[00:41:05] é a ocasião.
[00:41:07] Aquilo que o Gorgias vai chamar de Kairós.
[00:41:09] Agora, Kairós, em grego,
[00:41:12] originalmente
[00:41:13] significa uma espécie de destino.
[00:41:16] Tá certo?
[00:41:17] Ou destinação, melhor dizendo.
[00:41:19] Isso, é até um livro do Padre Marcelo.
[00:41:21] Isso, também.
[00:41:22] Mas isso por quê? Tá relacionado a…
[00:41:25] Enfim, a…
[00:41:27] A mitologia.
[00:41:28] Que basicamente Kairós é
[00:41:30] uma noção de tempo
[00:41:33] que se contrapõe a Kronos.
[00:41:35] Que Kronos é o tempo cronológico,
[00:41:37] justamente, o linear.
[00:41:39] E Kairós é como
[00:41:40] destino mesmo, mas é como
[00:41:43] um tempo mágico.
[00:41:44] Exatamente, um tempo mágico. Só que no caso
[00:41:46] do Gorgias, que é sofista,
[00:41:49] portanto cético acima de tudo,
[00:41:51] Kairós
[00:41:53] pra ele significa o quê? Momento oportuno.
[00:41:56] Ou seja,
[00:41:57] ocasião.
[00:41:59] Voltou a ética da ocasião.
[00:42:01] Eu falo
[00:42:02] que o pessoal
[00:42:05] fica, ah, volta o Beccari aí.
[00:42:06] E eu digo, gente, o Beccari, pra qualquer
[00:42:09] assunto que você quiser, o Beccari vai
[00:42:11] falar ocasião,
[00:42:12] vai falar, é, tudo é opinião.
[00:42:16] E não tem
[00:42:16] discussão.
[00:42:18] Portanto, vou dar preferência aos sofistas.
[00:42:21] Você é um sofista nato.
[00:42:23] Muito refinado, mas é um
[00:42:25] sofista. Então, e no caso
[00:42:27] o belo que
[00:42:28] resplandece, né, tu prepon,
[00:42:31] que é justamente
[00:42:32] o belo grego, ele não
[00:42:34] existe sem o Kairós, que significa
[00:42:37] sem a ocasião oportuna.
[00:42:39] Daí que o Cícero vai transformar
[00:42:41] o, aquilo que,
[00:42:43] o tu prepon, o grego, que é o resplandecer,
[00:42:45] naquilo que ele chama de, em latim,
[00:42:47] de decorum.
[00:42:49] O que é decorum?
[00:42:51] Decorum é você saber se adequar
[00:42:53] às ocasiões.
[00:42:55] O Cícero é um orador, né,
[00:42:57] ele tem aquele tratado de oratória
[00:42:58] famoso. Ele fala que, por exemplo,
[00:43:00] decorum é uma espécie de
[00:43:02] virtude, só que não no sentido,
[00:43:04] metafísico, obviamente, né,
[00:43:06] do orador,
[00:43:08] que sabe se adaptar
[00:43:10] a diferentes audiências,
[00:43:12] por exemplo. Aquele orador
[00:43:14] que não fala a mesma coisa pra
[00:43:16] todos os públicos. Por quê? Porque
[00:43:18] justamente a oratória,
[00:43:20] né, que tem a ver com a
[00:43:22] retórica e com a
[00:43:25] persuasão,
[00:43:26] ela, em
[00:43:28] larga medida, saber
[00:43:30] se adequar
[00:43:31] ao seu interlocutor.
[00:43:34] Saber com quem você tá
[00:43:36] falando, saber quais são as palavras
[00:43:38] adequadas, saber, enfim,
[00:43:40] no fim das contas,
[00:43:42] se adequar à ocasião em que
[00:43:44] você se encontra.
[00:43:46] Portanto, o bellum, aquilo que
[00:43:48] resplandece, é justamente
[00:43:50] kairós.
[00:43:52] Decorum é você saber
[00:43:54] identificar, digamos assim,
[00:43:57] saber fazer uma retenção
[00:43:58] da ocasião
[00:44:00] pra produzir coisas belas,
[00:44:02] no sentido retórico, sofístico.
[00:44:04] Certo.
[00:44:06] Entendeu? E daí, isso tem a ver,
[00:44:08] portanto, não sei se vocês estão conseguindo
[00:44:10] pra gente voltar no assunto, né,
[00:44:12] a ars romana é muito parecida
[00:44:14] com o decorum romano
[00:44:16] latino. Sim, sim, é isso
[00:44:18] que eu ia apontar, que
[00:44:20] de tudo que você tá me falando, me parece
[00:44:22] digamos, bastante pertinente
[00:44:24] pros nossos tempos, né, parece
[00:44:26] que nesse momento pós-moderno,
[00:44:28] eu vou usar esse termo porque eu acho que se encaixa muito bem
[00:44:30] nesse sentido. Ótimo.
[00:44:32] É, que
[00:44:34] justamente a pós-modernidade vai dizer que não existe
[00:44:36] mais verdades, as grandes metafísicas,
[00:44:39] narrativas metafísicas
[00:44:40] acabaram, né, não tem mais metanarrativas
[00:44:42] em geral, o Lyotard já falava
[00:44:44] isso, né, na década de 70.
[00:44:48] E daí
[00:44:48] justamente vem, muita gente vai
[00:44:50] dizer que o pós-moderno é
[00:44:52] essencialmente sofista,
[00:44:54] né, não sei se dá pra dizer isso
[00:44:56] de alguma maneira, mas
[00:44:58] o que também ia
[00:45:00] chamando atenção no que você estava me dizendo é que
[00:45:02] apesar do ars romano,
[00:45:04] ter essa
[00:45:05] semelhança com essa questão da
[00:45:08] ocasião, por exemplo, que você está me dizendo,
[00:45:10] de uma característica sofista,
[00:45:14] querendo ou não,
[00:45:15] quando a gente vai ver a discussão
[00:45:16] falando aqui de arte,
[00:45:18] mas de… arte medieval
[00:45:20] é um pouco difícil, né, mas pelo menos de toda
[00:45:22] a tradição que vai começar ali do Renascimento
[00:45:24] e até
[00:45:26] passando, inclusive, pelo Barroco
[00:45:28] e por aí vai,
[00:45:31] no Neoclássico
[00:45:32] mais tarde, no Romantismo e tudo,
[00:45:34] a discussão pela essência, ela sempre teve
[00:45:36] muito presente, até hoje, se você perguntar pra qualquer
[00:45:38] pessoa na rua, dizer assim
[00:45:40] meu querido, o que é arte? Ah, é uma
[00:45:42] expressão de uma coisa
[00:45:44] do artista, muito
[00:45:46] pessoal, sabe,
[00:45:48] buscando uma essência,
[00:45:50] muita gente vai, eu faço esse exercício
[00:45:52] em sala de aula, eu pergunto o que é arte, né, pros
[00:45:54] alunos, assim, e daí muita gente vai dizer
[00:45:56] é a verdade, né, é uma verdade.
[00:46:00] É…
[00:46:00] É o que faz o ser humano estar…
[00:46:02] É, mas uma busca por uma essência, querendo ou não,
[00:46:04] essa busca por essência, ela
[00:46:06] permeia de qualquer forma e, querendo ou não,
[00:46:08] é uma tradição que
[00:46:09] não é necessariamente essa que você está me dizendo.
[00:46:12] Exatamente. Eu concordo
[00:46:14] que isso nunca
[00:46:16] vai deixar de ter resíduos,
[00:46:18] e nunca deixou de ter resíduos em diversas
[00:46:20] épocas, inclusive
[00:46:21] no Barroco, por exemplo,
[00:46:24] que eu estava dizendo que é tudo menos
[00:46:26] platônico, né, é tudo menos
[00:46:28] enfim, renascentista,
[00:46:30] mas assim,
[00:46:32] por exemplo,
[00:46:33] no
[00:46:34] , é, Barroco,
[00:46:36] a gente tem tanto um Descartes
[00:46:37] que vai, digamos, recorrer
[00:46:40] a esse raciocínio
[00:46:42] que você está me dizendo, né, tipo, da essência
[00:46:43] ser, é…
[00:46:46] Algo mais… Buscada.
[00:46:48] É, algo mais relacionado à verdade,
[00:46:50] embora ele não vai usar o termo de
[00:46:52] essência, né, ele vai, inclusive,
[00:46:53] ser cético, né,
[00:46:56] o método cético, a dúvida
[00:46:58] em direção à verdade,
[00:47:00] né, a verdade do que?
[00:47:02] Da alma, né, a dúvida como sendo um…
[00:47:04] Bom, foda-se.
[00:47:06] Sendo um calção
[00:47:07] pra verdade, por assim dizer.
[00:47:09] Mas assim, ele é um dos
[00:47:12] pensadores barrocos que não
[00:47:13] representam aquilo que a gente poderia
[00:47:15] chamar de espírito
[00:47:17] barroco, ou melhor dizendo, de uma
[00:47:19] é…
[00:47:21] de um mito central barroco.
[00:47:24] Por assim dizer, né,
[00:47:25] pensando na mitanálise
[00:47:27] e por aí vai, ou seja, qual que é
[00:47:30] a…
[00:47:31] a postura
[00:47:33] recorrente e ritual
[00:47:35] que tá
[00:47:37] sendo difundida. Porque
[00:47:39] ao mesmo tempo que você tem o Descartes, tem
[00:47:41] ali, é…
[00:47:44] sei lá, pensando em
[00:47:46] artistas, é…
[00:47:48] o próprio Caravaggio,
[00:47:50] que era um puta de um
[00:47:51] bon vivant, sei lá,
[00:47:54] sabe, que tava cagando
[00:47:56] pra religião, né,
[00:47:58] que vai lá desenhar a Maria
[00:47:59] a partir das prostitutas, quer dizer,
[00:48:02] é…
[00:48:03] É o próprio Bernini também, né?
[00:48:05] Exatamente.
[00:48:05] As suas estátuas extremamente sexualizadas também.
[00:48:09] Então, daí que a gente começa, assim,
[00:48:11] a identificar um espírito de época. Por exemplo,
[00:48:13] ao contrário de Leonardo e de Michelangelo,
[00:48:16] que apesar de terem lá
[00:48:17] suas reservas em relação à religião,
[00:48:19] eles eram religiosos,
[00:48:21] né, eles não eram exatamente
[00:48:23] adeptos fiéis
[00:48:24] ao catolicismo ali,
[00:48:27] né, mas eles
[00:48:29] tinham lá sua crença que tava
[00:48:31] relacionada a uma verdade,
[00:48:33] uma verdade humanista, né.
[00:48:36] No barroco,
[00:48:37] a gente vê Caravaggio,
[00:48:39] Velázquez e por aí vai,
[00:48:41] já começa a desaparecer isso,
[00:48:43] né, já começa a
[00:48:45] a entrar
[00:48:47] outros discursos que estão
[00:48:49] mais em voga.
[00:48:51] Só que, veja, não é preto no branco,
[00:48:53] obviamente, né, não é uma coisa
[00:48:55] que substitui totalmente outra.
[00:48:58] Tanto que no
[00:48:59] helenismo, você vai ter,
[00:49:00] digamos, voltando ao helenismo, né,
[00:49:03] no caso
[00:49:04] de Alexandre,
[00:49:06] ele vai querer o quê? Simplesmente
[00:49:09] ele
[00:49:09] retomar a cultura grega
[00:49:13] clássica. Então, isso
[00:49:15] que a gente tá falando de Ars, né, que tem
[00:49:17] mais a ver com
[00:49:18] a fundação
[00:49:21] de Roma, com
[00:49:22] a língua latina,
[00:49:25] convivia, por assim dizer, na mesma época
[00:49:27] em que tentava-se
[00:49:29] recuperar
[00:49:31] recuperar
[00:49:31] a
[00:49:32] a
[00:49:33] , a todo custo, a cultura grega
[00:49:35] que tava politicamente
[00:49:37] em declínio, entendeu?
[00:49:39] Então, assim, voltando a
[00:49:41] questão, bom, a relação entre Ars
[00:49:43] e Decorum, que é a
[00:49:45] retórica, ela tá
[00:49:46] clara, né, mais ou menos
[00:49:49] assim. Sim, sim. Agora, por exemplo,
[00:49:51] se a gente for pra questão da
[00:49:53] do Eros, da erótica
[00:49:55] romana, latina-romana,
[00:49:57] né, a gente tem um livro
[00:49:59] chamado Ars Amatória,
[00:50:00] do Ovidium, não sei se vocês já ouviram
[00:50:03] falar. Aham, o Ovidium é
[00:50:05] um teatrólogo bastante,
[00:50:07] escreveu bastante peças
[00:50:08] gregas, né, famosas.
[00:50:11] Exatamente, exatamente.
[00:50:12] Só que ele era romano, né,
[00:50:14] e nesse Ars Amatória… Ovidium era romano?
[00:50:17] Eu falei merda, então.
[00:50:19] Cara, eu não sei,
[00:50:21] agora… Não, não, eu acho que ele é romano,
[00:50:23] sim, é que
[00:50:24] como ele escreveu peças, eu acabo
[00:50:27] pensando nele como grego, mas
[00:50:29] não, ele é romano, tá certo. Falei merda,
[00:50:31] então, sem simplificar.
[00:50:33] É, ele é
[00:50:34] Itália, é, romano. É, romano.
[00:50:37] É que eu vi aqui
[00:50:39] na Wikipédia. Pois bem,
[00:50:41] ele tem vários livros que são tratados
[00:50:43] de sabedoria de vida. Ah, aqui, ó,
[00:50:45] é autor de uma peça, Wikipédia, né,
[00:50:47] é autor de uma peça
[00:50:49] de uma tragédia perdida, Medéia.
[00:50:51] Ah, então daí, Medéia, que é um
[00:50:53] mito grego. Isso. Então, daí por isso
[00:50:55] acabamos, enfim. Exatamente.
[00:50:57] Então, ele é um dos
[00:50:58] caras que vai retomar parcialmente
[00:51:01] a cultura grega.
[00:51:03] E é isso que é interessante relacionado
[00:51:05] a sua pergunta, Ivan.
[00:51:07] Não é uma recusa total,
[00:51:09] assim, no sentido, não, vamos fundar
[00:51:11] do zero, ex nihilo,
[00:51:13] a cultura
[00:51:15] grega. Vamos recusar Platão,
[00:51:17] Aristóteles e a mitologia
[00:51:19] grega e fazer tudo de novo.
[00:51:21] Não, daí que vem a ênfase
[00:51:23] na arte romana, na arte como repetição.
[00:51:25] Então, você cria uma cultura
[00:51:27] nova
[00:51:27] na imitação de outras.
[00:51:32] Que não vai, e
[00:51:33] a cópia, ela não se torna pior
[00:51:35] ou inferior,
[00:51:37] né, mais falsa
[00:51:39] do que a original que foi copiada.
[00:51:41] Né, essa
[00:51:42] cópia artística
[00:51:45] que, na verdade, no âmbito
[00:51:47] religioso, é evocátil,
[00:51:49] a evocação
[00:51:50] de outros rituais,
[00:51:53] vai
[00:51:53] consolidar
[00:51:56] uma criação
[00:51:59] tão original quanto,
[00:52:01] ou mais ainda original, enfim.
[00:52:02] Só que a questão é, não existe mais
[00:52:04] relação entre o original, né, o original é uma
[00:52:06] palavra que não faz sentido
[00:52:07] na realidade. Pois bem,
[00:52:10] na Ars Amatória,
[00:52:12] o vídeo, ele,
[00:52:14] na verdade, o que é a Ars Amatória?
[00:52:16] É como, é o manual da sedução.
[00:52:20] Tipo, como você seduzir uma mulher.
[00:52:24] É isso, basicamente.
[00:52:26] E tem um monte de passagens
[00:52:28] ali que, obviamente, hoje seriam
[00:52:31] machistas,
[00:52:32] assim, né? Não, o vídeo é machista
[00:52:34] pra caralho, assim, sabe?
[00:52:35] Eu lembro que, uma vez, eu comprei o…
[00:52:38] Eu, a minha esposa, na verdade,
[00:52:40] a Anne, comprou uma, um livro que era
[00:52:42] tipo, sei lá, passagens famosas
[00:52:44] de amor, um negócio assim, sabe?
[00:52:45] E daí, tinha um monte do vídeo, assim,
[00:52:48] e a gente lia e dizia, cara,
[00:52:50] isso tá estranho, sabe?
[00:52:52] Não, mas é isso mesmo. Porque era assim,
[00:52:54] tipo, uma mulher que se preze e usa
[00:52:56] luvas brancas, um negócio assim. É, por aí.
[00:52:58] Cara, e se diz assim, velho,
[00:53:00] é muito, é escroto,
[00:53:02] sim, sabe?
[00:53:03] É isso, por aí. Então, o vídeo
[00:53:06] falava, entre outras coisas, que, por exemplo,
[00:53:08] a mulher, quando
[00:53:09] diz, é…
[00:53:12] diz não, ela quer dizer talvez.
[00:53:14] Aham.
[00:53:16] E quando diz talvez,
[00:53:17] ela quer dizer sim. Só que ela nunca vai
[00:53:20] dizer sim. Enfim, são coisas
[00:53:21] extremamente sexistas e tal.
[00:53:24] Mas, né, a gente tá contextualizando
[00:53:26] ali, porra,
[00:53:27] a Roma, daqui
[00:53:29] alguns anos, aí
[00:53:31] pra frente, vai virar,
[00:53:32] vai virar cristianismo, né?
[00:53:33] Aham, sim. E não à toa
[00:53:36] tem muita gente que ainda fala isso, né?
[00:53:38] A mulher, quando fala não, quer dizer
[00:53:40] talvez. Isso aí é normal.
[00:53:42] Normal no sentido que é bastante
[00:53:44] recorrente.
[00:53:46] O discurso ainda é
[00:53:48] utilizado. Pra gente ver que as coisas
[00:53:50] nunca desaparecem. Não, e pra ver como
[00:53:52] é…
[00:53:54] Fica, né? É difícil
[00:53:55] tirar isso mesmo, assim.
[00:53:58] Quando a gente vai falar justamente dessa questão
[00:53:59] da mulher,
[00:54:02] vista como X ou Y,
[00:54:04] isso aí é uma construção que, puta,
[00:54:06] vem lá de trás, assim.
[00:54:07] É muito forte, né?
[00:54:10] Aham, sim, sim.
[00:54:11] E nessa Ars Amatoria, o que interessa
[00:54:14] aqui pra gente é o seguinte, a noção de Vênus.
[00:54:17] E quando
[00:54:17] ele tá falando de Vênus em Ars Amatoria,
[00:54:20] ele não tá se referindo à deusa
[00:54:21] Vênus, que na mitologia romana
[00:54:24] é quase, é como
[00:54:26] se fosse equivalente a Afrodite, né?
[00:54:28] É Afrodite grega.
[00:54:30] Não, o vídeo tá falando de Vênus,
[00:54:32] numa noção impessoal, como se fosse
[00:54:34] um tipo de mulher.
[00:54:36] Ou, melhor dizendo, um tipo de
[00:54:38] relação que o homem deve
[00:54:40] se construir com a mulher. Então, nesse
[00:54:42] sentido, Vênus tem a ver com
[00:54:43] veneratio, que é veneração.
[00:54:48] Vênia,
[00:54:48] que eu não lembro exatamente
[00:54:49] alguma coisa como
[00:54:51] aceitação, se eu não me engano.
[00:54:53] Cadê o Alexander pra ajudar a gente, né?
[00:54:56] O Alexander Stahlhofer agora estaria ajudando
[00:54:58] aqui pra caralho. Ele fala latim?
[00:54:59] Fala tudo. Filho da puta, sabe tudo.
[00:55:02] Fala tudo. Filho da puta, não.
[00:55:04] Desculpa aí, cara.
[00:55:06] Daí tem venerium, que é
[00:55:08] também relacionado à veneração.
[00:55:10] Ou, enfim.
[00:55:13] Não, foda-se o latim.
[00:55:14] Eu não sei falar latim.
[00:55:17] E principalmente
[00:55:18] venenum.
[00:55:19] É veneno. Então, é basicamente
[00:55:22] o seguinte. Venerar
[00:55:23] é uma relação
[00:55:26] de veneração,
[00:55:28] mas relacionada a veneno também.
[00:55:29] É como se venerar um veneno.
[00:55:32] Assim dizer. Então, tipo assim,
[00:55:34] você sabe
[00:55:35] que você pode se fuder nessa história
[00:55:38] do erotismo, que é basicamente
[00:55:40] uma…
[00:55:41] Tem a ver com decorum, né? Você se adequar
[00:55:43] à ocasião e nunca ir, digamos,
[00:55:46] abusar da mulher, assim, tipo
[00:55:47] investir. Assim, não.
[00:55:49] Agora, se declarar totalmente.
[00:55:52] Mas, por outro lado,
[00:55:54] também, se você ficar na sua, não vai
[00:55:55] acontecer nada, né?
[00:55:56] Então, você…
[00:55:58] Essa é a arza amatória.
[00:56:00] É uma espécie de…
[00:56:02] É algo que você vai se aproximando da mulher, né?
[00:56:05] E que, assim,
[00:56:06] esse jogo de aproximação,
[00:56:09] de gestos, de, na verdade,
[00:56:11] precaução,
[00:56:13] né? Daí que vem
[00:56:14] a veneração, né? Você venera
[00:56:17] no sentido de não
[00:56:18] tocar muito na coisa,
[00:56:21] de não se apropriar dela,
[00:56:23] sabendo que ela é venenosa,
[00:56:25] por assim dizer.
[00:56:26] É interessante você dizer isso porque
[00:56:28] eu lembro quando eu tava lendo
[00:56:31] o…
[00:56:31] o livro do
[00:56:33] Eco, se eu não me engano,
[00:56:35] do História da Beleza.
[00:56:37] Não sei se foi o dele, cara. Posso estar enganado.
[00:56:40] Mas que ele vai falar da questão da
[00:56:41] beleza medieval, né?
[00:56:43] E parece que me encaixa muito bem,
[00:56:45] se encaixa muito bem isso no que você tá falando, porque
[00:56:46] o modelo de mulher medieval, né?
[00:56:49] Do que se espera de uma mulher na Idade Média,
[00:56:52] são dois, né?
[00:56:53] Ou é a santa, né?
[00:56:55] A virgem, ou é a prostituta.
[00:56:59] Ou seja,
[00:57:00] e daí,
[00:57:01] exatamente, foi no Eco mesmo
[00:57:03] na questão da criação do amor romântico,
[00:57:05] principalmente, né?
[00:57:07] A mulher que ela é aquela intocada,
[00:57:09] essa é a virgem, essa que nunca
[00:57:11] sai de casa e que
[00:57:13] precisa do homem que se
[00:57:15] mostra como
[00:57:16] de grande valor pra merecer o amor dela,
[00:57:19] né?
[00:57:20] O amor romântico, a gente vai dizer
[00:57:23] que é uma grande quebra de padrões sociais na época,
[00:57:26] né? Porque até então
[00:57:27] o casamento é visto apenas como uma forma de
[00:57:29] contrato social, mas…
[00:57:31] E, de repente, você começa a ter a discussão
[00:57:33] do amor verdadeiro, né?
[00:57:37] Então, pra época…
[00:57:37] Não, em Oviso não existe isso.
[00:57:39] Não, eu sei, eu sei. Justamente, isso aí é
[00:57:41] a marcação do século XI, XII,
[00:57:44] mais ou menos, assim, do amor verdadeiro.
[00:57:46] Mas o que tá me chamando a atenção
[00:57:47] é que você já tem aí, pelo menos,
[00:57:49] um, digamos, um antecedente
[00:57:51] histórico, pra dizer assim,
[00:57:53] pra dizer do que é uma mulher pura,
[00:57:55] digamos assim, e dos perigos
[00:57:57] da paixão, digamos assim, né?
[00:57:59] Então, é que…
[00:58:00] Parece que vai cair muito bem pro cristianismo mais tarde.
[00:58:04] Sem dúvida. É, daí eu não saberia
[00:58:06] te dizer com
[00:58:06] clareza, assim, essa ligação.
[00:58:10] Porque no Oviso, essa
[00:58:11] duplicidade, né?
[00:58:14] Essa dicotomia entre uma mulher pura
[00:58:16] e uma não pura, né?
[00:58:17] Ela não existe.
[00:58:19] Sim, sim. Mas existe a potencialidade.
[00:58:22] É isso que eu quero dizer.
[00:58:24] Não, a mulher, ela é sempre pura
[00:58:25] pra Oviso.
[00:58:27] Entendeu? Não tem a… Mesmo, digamos, a prostituta,
[00:58:30] o Oviso vai dizer que ela também
[00:58:32] é pura.
[00:58:33] Aliás, o Oviso, ele, apesar de ser
[00:58:36] aquilo que hoje a gente chama machista, né?
[00:58:38] Ele inclui
[00:58:40] na arzematória a
[00:58:42] homossexualidade.
[00:58:44] Na verdade, aquilo que…
[00:58:45] A pederastia, melhor dizendo.
[00:58:48] Bom, pederastia, pra quem não sabe,
[00:58:50] é…
[00:58:51] Na Grécia Antiga, principalmente,
[00:58:54] no helenismo também, né?
[00:58:57] Existe um ritual,
[00:58:58] assim, de você…
[00:59:00] ingressar
[00:59:02] numa sociedade, sei lá, de filósofos
[00:59:05] ou de…
[00:59:06] sei lá, de algum grupo, né?
[00:59:09] Mas um grupo, assim, nobre
[00:59:10] que você é jovem,
[00:59:12] os caras são velhos,
[00:59:14] aí os caras te comem, basicamente.
[00:59:19] E daí essa…
[00:59:20] Que tem muito a ver com a tal da filia também, né?
[00:59:23] Ou da homoafetividade.
[00:59:25] Isso, exatamente.
[00:59:26] Exatamente.
[00:59:27] Mas, assim, não é uma coisa, assim,
[00:59:30] como a gente entende hoje,
[00:59:33] sei lá, sabe,
[00:59:34] todo mundo é de todo mundo e tal.
[00:59:36] É que hoje ele ganhou esse termo de pederastia
[00:59:39] como oba-oba, né?
[00:59:41] É, mas não, era uma coisa extremamente…
[00:59:43] Então…
[00:59:44] Era uma questão ritualística quase, né?
[00:59:46] Então, exatamente, era uma questão extremamente
[00:59:49] controlada, sabe?
[00:59:52] Assim, não é liberdade,
[00:59:53] não é uma coisa dionisíaca, assim.
[00:59:56] É você, assim, tipo…
[00:59:58] É como se…
[00:59:59] É uma cerimônia, né?
[01:00:00] É uma cerimônia, né?
[01:00:00] É uma cerimônia, né?
[01:00:00] É uma cerimônia, entendeu?
[01:00:01] É que é tão difícil
[01:00:03] tratar desse tema sem ser quinta série,
[01:00:06] mas, tipo, é que nem a questão medieval
[01:00:08] lá do…
[01:00:09] Quando batem a espada no ombro do cavaleiro.
[01:00:12] Basicamente.
[01:00:12] Tem esse sentido.
[01:00:14] Basicamente.
[01:00:15] Então, a Arza Amatória, ela também vai falar
[01:00:17] dessa relação dos mais velhos com os mais jovens,
[01:00:20] indicando aí a homossexualidade, né?
[01:00:22] Então, ela fala tanto da mulher…
[01:00:24] Porque, assim, pra quem não
[01:00:26] tá entendendo isso, a gente tem que entender
[01:00:28] que os gregos, os homens gregos,
[01:00:30] eles tinham esposas, né?
[01:00:32] Eles, enfim,
[01:00:34] se relacionavam com mulheres e, ao mesmo
[01:00:36] tempo,
[01:00:37] eles também se relacionavam com homens.
[01:00:40] Sim, sim.
[01:00:40] É, a norma é
[01:00:43] bissexualidade, especialmente entre filósofos, né?
[01:00:47] Exatamente.
[01:00:47] Entre os mestres e os seus aprendizes, por exemplo.
[01:00:51] E daí, na Arza Amatória,
[01:00:52] a gente tem essa relação, que o que
[01:00:54] que eu tô querendo ressaltar aqui?
[01:00:55] Que é você…
[01:00:57] A Arza Amatória, ela implica um tipo de provocação,
[01:01:00] que tem a ver com
[01:01:01] saber se adequar ao momento
[01:01:04] oportuno.
[01:01:06] Saber se adequar
[01:01:07] aos gestos
[01:01:09] que são indicados,
[01:01:12] mas nunca explicitados.
[01:01:15] E daí você
[01:01:15] devolve, né? Você
[01:01:17] indica outros gestos, mas sem
[01:01:20] explicitar. Ou seja, é esse jogo
[01:01:22] do quê? De decorum,
[01:01:24] de kairós,
[01:01:25] da ocasião,
[01:01:27] e que, na verdade,
[01:01:29] é…
[01:01:30] Basicamente, assim,
[01:01:31] culmina na noção grega de…
[01:01:35] Ah, isso que é
[01:01:36] vênia, que eu não sabia.
[01:01:38] Que é véu.
[01:01:39] Aham.
[01:01:41] O véu é basicamente o quê?
[01:01:45] É aquilo que, assim,
[01:01:47] revela o que tá por trás dele,
[01:01:50] tem uma espécie de transparência,
[01:01:53] só que não mostra.
[01:01:54] Isso é o erotismo romano.
[01:01:56] Romano.
[01:01:57] Não é uma pornografia,
[01:02:00] nudez total, né?
[01:02:02] Como era, por exemplo,
[01:02:04] na Grécia. A maior parte das estátuas
[01:02:06] gregas, no sentido
[01:02:08] mais clássico
[01:02:10] pré-socrático, assim,
[01:02:13] e mesmo no
[01:02:14] neoático helenístico, né?
[01:02:16] São estátuas nuas.
[01:02:19] No mínimo com algum
[01:02:20] apetrecho ou outro, assim,
[01:02:22] acessórios e tal. E daí, assim,
[01:02:24] no período helenístico, a gente começa a ver
[01:02:26] cada vez mais vestes.
[01:02:28] E aquele planejamento,
[01:02:30] molhado nas esculturas.
[01:02:32] Que é, enfim,
[01:02:34] o tecido ali mostrando algumas
[01:02:36] formas do corpo, mas que,
[01:02:38] na verdade, ele se funde com o corpo
[01:02:40] porque se ele mostrasse explicitamente o corpo
[01:02:42] não seria
[01:02:43] muito bem visto,
[01:02:46] não seria belo. Então, veja,
[01:02:48] para os gregos, a nudez
[01:02:50] é o quê? É sinônimo,
[01:02:53] os gregos clássicos,
[01:02:55] é sinônimo de
[01:02:56] essência da pessoa.
[01:02:58] Se a pessoa está nua,
[01:03:00] ela está revelada em sua essência.
[01:03:02] Mas isso mais na figura feminina, né?
[01:03:04] Porque o masculino nu é
[01:03:06] bastante apreciado, já, nesse caso.
[01:03:09] Ou não? Não, eu estou falando dos gregos.
[01:03:11] Tanto o feminino como o masculino,
[01:03:13] assim, nos Jogos Olímpicos,
[01:03:14] por exemplo, as pessoas tinham
[01:03:16] que praticar nus, né?
[01:03:18] As estátuas também.
[01:03:21] Não, mas é porque
[01:03:22] pelo menos quando você vai ver a arte
[01:03:24] tatuária grega clássica, você vai ver
[01:03:26] uma predominância de nus
[01:03:28] masculinos bastante expulsos.
[01:03:30] Enquanto que as mulheres, sim,
[01:03:33] elas sempre têm o véu.
[01:03:34] Elas mostram o seio, por exemplo,
[01:03:36] mas a genitália nunca aparece.
[01:03:37] É, a genitália, sem dúvida, mas mesmo a genitália
[01:03:40] masculina, às vezes, também é ocultada, né?
[01:03:43] Aí tem um problema histórico
[01:03:45] aí de saber se foram
[01:03:46] originalmente ocultados ou não.
[01:03:48] É, ou posteriormente.
[01:03:50] É, porque eu estou pensando aqui no discóbulo, por exemplo.
[01:03:52] O discóbulo é totalmente nu.
[01:03:54] Você vai ter aquelas estátuas
[01:03:56] do período arcaico, daí,
[01:03:58] anterior, são aqueles
[01:04:00] jovens, não estou lembrando o nome deles agora,
[01:04:03] cara, começa com
[01:04:04] K, não vou lembrar agora,
[01:04:06] mas é que também
[01:04:07] nus, totais, assim.
[01:04:09] A questão é a seguinte…
[01:04:11] A predominância do nu masculino e da feminina, nem tanto.
[01:04:15] Existe
[01:04:15] a nudez, tanto
[01:04:18] na Grécia Antiga, quanto na
[01:04:20] escultura
[01:04:20] helenística, né? Só que a
[01:04:24] escultura helenística, ela dá mais
[01:04:25] ênfase na veste
[01:04:27] do que…
[01:04:30] Assim, também tem nudez
[01:04:32] na escultura helenística? Tem.
[01:04:34] O exemplo disso é o Laconte, né?
[01:04:37] Mas
[01:04:38] o próprio
[01:04:40] corpo nu,
[01:04:43] por estar em movimento,
[01:04:45] ele é quase como uma veste.
[01:04:48] Esse é pelo menos
[01:04:49] o argumento do Perniola, em sua análise
[01:04:51] estética, né? Ele vai dizer
[01:04:53] que existe uma estética da
[01:04:55] veste, no período helenístico, em
[01:04:56] contraposição a uma estética do nu
[01:04:58] na escultórica
[01:05:00] grega clássica.
[01:05:02] Mas não quer dizer que seja só nu.
[01:05:05] Novamente, né? A gente
[01:05:06] não… Não é uma coisa literal
[01:05:08] esses termos, né?
[01:05:12] Na
[01:05:13] estética da veste,
[01:05:17] o pano, ele…
[01:05:19] E, na verdade, o movimento,
[01:05:20] enquanto invólucro, enquanto
[01:05:22] aquilo que esconde alguma coisa,
[01:05:24] que nunca deve ser revelada
[01:05:27] explicitamente,
[01:05:28] é mais importante.
[01:05:30] Então, o próprio corpo, ele tá lá,
[01:05:32] né? Sempre em movimento.
[01:05:34] Que tem a ver, claro, com alguns aspectos
[01:05:36] figurativos
[01:05:37] da…
[01:05:38] da escultórica helenística.
[01:05:42] Agora, o que importa
[01:05:44] aqui na arza amatória do
[01:05:45] vídeo, me parece,
[01:05:48] é essa questão de saber improvisar.
[01:05:50] É a arte de amar,
[01:05:52] né? Literalmente. Arte amatória.
[01:05:55] Que é essa coisa de você
[01:05:56] saber improvisar. E ele vai falar, por exemplo,
[01:05:58] a melhor coisa na arza
[01:06:00] amatória, o mais difícil,
[01:06:03] o maior desafio,
[01:06:04] não é você conquistar o maior
[01:06:06] número de mulheres.
[01:06:08] É você conquistar a
[01:06:10] mesma mulher.
[01:06:11] Sempre.
[01:06:14] Meu Deus.
[01:06:16] Por aí vai. Então, veja,
[01:06:18] só pra explicar meu raciocínio,
[01:06:20] eu falei de arz, lá do
[01:06:22] Mamuro Veturo, e a historinha
[01:06:23] dos escudos,
[01:06:26] né? De Numa, que ele vai lá,
[01:06:28] e copia, né? E tudo,
[01:06:30] ele dissolve o original,
[01:06:32] né? Pela cópia.
[01:06:34] Então, o decorum
[01:06:36] também não tem uma noção de original,
[01:06:38] no caso, qual que é o belo original, como
[01:06:40] queria Sócrates, né? Não existe esse
[01:06:42] belo original. O belo depende
[01:06:44] da ocasião, né? Então,
[01:06:46] é a oratória, a melhor
[01:06:48] ideia, a melhor, digamos,
[01:06:50] desempenho e performance, tem a ver com a
[01:06:52] ocasião. Você pode ser
[01:06:54] super habilidoso, mas a ocasião tá por
[01:06:56] cima. E a erótica,
[01:06:58] da arza amatória, mesma coisa.
[01:07:01] Você vai ter êxito
[01:07:02] na arte de amar,
[01:07:04] se você souber improvisar,
[01:07:06] o que significa lidar, né?
[01:07:08] Digamos, dançar com a ocasião.
[01:07:10] Ou seja, e no, por fim
[01:07:12] das contas, aquilo que eu mencionei,
[01:07:14] a evocatio romana, os
[01:07:16] ritos romanos e tudo mais,
[01:07:18] eram uma característica,
[01:07:20] eles detinham uma característica que
[01:07:22] o Perneola chama
[01:07:24] de rito sem mito.
[01:07:26] Daí você vai falar,
[01:07:27] bom, quer dizer que eles não tinham mito?
[01:07:29] Eles faziam rituais sem mito,
[01:07:31] sem ter uma mitologia? Não.
[01:07:33] Eles tinham uma mitologia romana,
[01:07:35] na qual os sacerdotes estudavam
[01:07:37] bastante, seguiam, digamos, de uma maneira
[01:07:39] bem assética, mas a maior
[01:07:41] parte dos rituais romanos,
[01:07:43] por serem extremamente populares,
[01:07:46] as pessoas estavam cagando
[01:07:47] pra mitologia.
[01:07:49] Tipo assim, não tinham mito central.
[01:07:52] Assimilava-se
[01:07:53] rituais de outras culturas,
[01:07:55] portanto, envolvendo outros mitos,
[01:07:57] outros deuses
[01:08:00] e tudo mais.
[01:08:01] E o mais importante não era
[01:08:03] qual deus você estava venerando,
[01:08:06] ou sabe, tipo,
[01:08:07] o que você estava fazendo ali. O mais importante
[01:08:09] era estar ali, entendeu?
[01:08:12] Era venerar alguma coisa.
[01:08:13] É, ou seja, é o aspecto
[01:08:16] mais mundano
[01:08:17] da cerimônia.
[01:08:20] A cerimônia, ela importa por
[01:08:21] aquilo que ela é. Tipo assim, a cerimônia
[01:08:23] de iniciação, por exemplo.
[01:08:26] Você vai se iniciar,
[01:08:27] como, sei lá, um filósofo
[01:08:29] e tal. Você não
[01:08:31] está se importando tanto com
[01:08:33] o que vem pela frente, ou enfim,
[01:08:35] com os desafios. O mais legal é
[01:08:37] a iniciação, entendeu?
[01:08:40] É você estar lá…
[01:08:41] Talvez usando os termos aqui de
[01:08:43] estudo cultural, né? Talvez a performance
[01:08:46] de estar lá.
[01:08:47] Exatamente. É, o momento, né?
[01:08:49] Junto com as pessoas e tal. O que está
[01:08:51] intimamente ligado com o erotismo.
[01:08:54] Percebem? Tipo, você
[01:08:55] está conseguindo, assim,
[01:08:57] agir de maneira certa, entre aspas,
[01:09:00] nesses rituais.
[01:09:02] Entende? Tanto que
[01:09:03] nos rituais, assim, ritual de…
[01:09:06] Os rituais romanos
[01:09:07] da Saturnáneas
[01:09:09] ou dos Dionisíacos
[01:09:11] não eram basicamente
[01:09:13] orgias.
[01:09:15] Existem, assim,
[01:09:17] rituais com o mesmo nome.
[01:09:20] Por exemplo,
[01:09:21] para Saturno,
[01:09:24] né? Que é o equivalente
[01:09:26] a Dioniso.
[01:09:29] Saturno não é o equivalente
[01:09:30] a Dioniso. Não.
[01:09:33] Saturno é Cronos.
[01:09:35] Ah, foi mal.
[01:09:36] Não, não. Não me foda, porra.
[01:09:39] Desculpa.
[01:09:41] O Dioniso, ele…
[01:09:44] O Dioniso é…
[01:09:45] Porra, é o…
[01:09:46] Baco.
[01:09:50] Desculpa.
[01:09:52] Mas, enfim, os bacanais mesmo,
[01:09:54] enfim, é…
[01:09:55] Bacanais e Saturnáneas, né?
[01:09:57] Eu sempre…
[01:09:58] Não, relaxa.
[01:09:59] As bacanais, eles não eram sempre
[01:10:02] Dionisíacos, quer dizer,
[01:10:04] não eram sempre, assim…
[01:10:07] Não era uma suruba livre.
[01:10:09] Não era pura fruição,
[01:10:10] não sei.
[01:10:11] Tinha uma regra.
[01:10:13] É, aí que tá. Às vezes, culminava nisso.
[01:10:15] É verdade, assim, você tem relatos disso.
[01:10:18] Saía do controle.
[01:10:19] Então, a maior parte das vezes, não.
[01:10:21] Então, era uma coisa muito rigorosa.
[01:10:23] As regras eram rigorosas.
[01:10:24] O mais importante é seguir a regra.
[01:10:25] Mas não necessariamente existe
[01:10:27] a consciência
[01:10:29] de um mito que seja
[01:10:31] por trás, até porque ele talvez
[01:10:33] ou não existisse ou não seria importante.
[01:10:36] É, e a configuração
[01:10:38] da mitologia romana, por
[01:10:39] consequente,
[01:10:41] ela é também
[01:10:43] muito mais aberta e
[01:10:45] ambígua, digamos assim,
[01:10:47] do que a grega.
[01:10:49] É, e isso é uma coisa que é importante
[01:10:51] também dizer em questão de termos históricos,
[01:10:53] por exemplo, que Roma, tanto a República
[01:10:55] quanto o Império, depois, enfim,
[01:10:57] essa história que a gente fala de mitologia romana,
[01:11:00] na verdade,
[01:11:02] não existe uma mitologia romana
[01:11:03] de dizer que
[01:11:05] todos os romanos são…
[01:11:07] Porque, pô, só o tamanho do Império.
[01:11:10] Inclusive, o Império Romano,
[01:11:11] ele é muito aberto a várias religiões
[01:11:13] e o Império Romano em si, ele é caracterizado
[01:11:16] justamente por uma miscelânea
[01:11:17] de várias religiões,
[01:11:19] muito diferentes entre si.
[01:11:20] Tudo isso está centralizado em qual noção?
[01:11:23] Evocátio.
[01:11:24] Ou seja, na medida…
[01:11:25] Na medida que o Império Romano vai
[01:11:27] crescendo, a evocátio é o quê?
[01:11:30] Vai absorvendo,
[01:11:32] absorvendo mesmo, numa coisa assim,
[01:11:33] bem literal,
[01:11:35] os mitos e rituais
[01:11:38] estrangeiros.
[01:11:40] Então, eles absorvem…
[01:11:41] Eles são muito tolerantes, né?
[01:11:44] E isso que ajuda, inclusive…
[01:11:46] Não, tolerantes entre aspas.
[01:11:47] Não, é tolerantes…
[01:11:49] Porque eles não dominam mesmo, né?
[01:11:50] Não, calma. A própria
[01:11:52] dominação romana tem que ser colocada em contexto,
[01:11:54] porque boa parte
[01:11:57] da estratégia romana de assimilação
[01:11:58] de territórios era justamente
[01:12:01] ser tolerante com a religião
[01:12:03] diferente do outro.
[01:12:04] A indústria cultural, quase.
[01:12:06] Eles tinham que fazer assimilação, mas assim…
[01:12:08] E claro, muitas vezes era pela força,
[01:12:11] sem dúvida, mas é…
[01:12:13] É que a questão do…
[01:12:15] Uma vez eu estava vendo um curso sobre
[01:12:16] história romana também, era…
[01:12:18] Algum curso também lá de Yale,
[01:12:21] se não me engano, lá.
[01:12:21] Alguma coisa assim.
[01:12:22] É, do…
[01:12:24] E daí eles falavam…
[01:12:27] O professor lá justamente dizia assim que…
[01:12:29] Olha, você tem que pensar que Roma,
[01:12:32] para crescer daquele jeito,
[01:12:33] ela tinha que abraçar muito bem
[01:12:35] a cultura dos outros, e quando
[01:12:37] era feita a força, isso não era
[01:12:39] muito comum, e ele estava falando…
[01:12:41] Não era efetivo, né?
[01:12:43] Isso, não era efetivo, até…
[01:12:45] E ele estava falando isso justamente para
[01:12:47] quebrar aquele mito de que
[01:12:49] os bárbaros invadiram Roma e destruíram tudo
[01:12:51] do dia para a noite.
[01:12:53] Isso aí foi um processo de 200 anos,
[01:12:54] pelo menos que demorou,
[01:12:56] e essa tolerância de Roma, ele vai dizer
[01:12:59] que daí é importante de ser
[01:13:01] entendida,
[01:13:02] porque primeiro mostra
[01:13:05] como a perseguição aos cristãos
[01:13:07] é uma coisa
[01:13:08] diferente, o que está acontecendo ali,
[01:13:12] e que você não pode…
[01:13:14] O Império Romano com aquele
[01:13:15] tamanho, não dá para dizer
[01:13:16] mitologia romana.
[01:13:18] Não existe isso, necessariamente.
[01:13:21] Você tem ali uma religião que é das
[01:13:23] maiores classes, assim,
[01:13:24] mas é como pagãos, e até o Alexander
[01:13:26] falou no programa de cristianismo
[01:13:28] primitivo que nós tivemos aqui,
[01:13:31] que o pagão romano
[01:13:33] como um todo,
[01:13:35] ele não faz parte de
[01:13:36] uma religião única que tem seus deuses,
[01:13:39] ele vai incorporando deuses dos outros,
[01:13:41] que é uma coisa muito fácil para o pagão
[01:13:42] nesse sentido. Tanto que o Alexander
[01:13:44] falou que, assim, no início do cristianismo
[01:13:46] era comum você ter pagãos
[01:13:48] que tinham uma estatuazinha de Cristo lá no
[01:13:50] meio, assim, dos deuses deles, fazer o referendo.
[01:13:52] Exato, né? É o
[01:13:54] Ricardo Reis do Fernando Pessoa, né?
[01:13:57] Aham, é.
[01:13:59] O Ricardo Reis do Fernando Pessoa
[01:14:01] era pagão e incluía
[01:14:03] entre os
[01:14:03] entre os deuses, né?
[01:14:06] O deus cristão. Isso.
[01:14:10] Mas veja,
[01:14:11] a questão
[01:14:12] do rito sem mito,
[01:14:14] quer dizer, na mitologia romana
[01:14:16] você tem deuses que
[01:14:18] você não sabe ao certo, tem versões
[01:14:20] que é um deus homem, masculino,
[01:14:23] e tem outras versões,
[01:14:24] que é feminino, entendeu?
[01:14:26] Tipo assim, e mesmo
[01:14:28] os deuses que
[01:14:30] na Grécia tem uma identidade muito sólida,
[01:14:33] como
[01:14:33] sei lá, Afrodite
[01:14:36] e tal, quando vai pra Vênus
[01:14:38] o negócio complica, porque Vênus
[01:14:40] romana
[01:14:41] ela é tanto
[01:14:43] uma Afrodite
[01:14:46] casta, por assim dizer,
[01:14:48] pura, quanto ao mesmo
[01:14:50] tempo a libidinosa.
[01:14:52] Libidinosa não é o termo, qual que é o contrário
[01:14:54] de casta?
[01:14:56] Ah, quem gosta
[01:14:58] ainda, né? Que curte a vida.
[01:15:00] Sabe viver bem?
[01:15:02] Meio bobageira, assim.
[01:15:04] Usando outra mitologia.
[01:15:06] É que tem uma palavra precisa, enfim.
[01:15:08] Então, você vê que essa ambiguidade
[01:15:10] da mitologia romana, e é isso
[01:15:12] que eu tô enfatizando desde o início, assim.
[01:15:15] Ela tem
[01:15:16] a ver com o rito
[01:15:18] sem mito, com a erótica,
[01:15:21] né? Que as coisas podem
[01:15:22] significar, tudo pode significar ao mesmo
[01:15:24] tempo, qualquer coisa pode significar
[01:15:26] qualquer outra coisa.
[01:15:27] Sim, sim, sim.
[01:15:29] Então, tipo, os deuses caem nisso, assim.
[01:15:32] Os rituais caem nisso.
[01:15:34] A arte
[01:15:36] cai nisso. A arte é
[01:15:38] como ritual. Por quê? Porque ela se
[01:15:39] apropria, assimila algo
[01:15:42] pra criar uma coisa
[01:15:43] original. Mas assim,
[01:15:46] que não se distingue como sendo
[01:15:47] melhor ou pior do que
[01:15:49] aquilo que foi copiado.
[01:15:50] Sim. Então, tipo assim,
[01:15:52] nesse bojo,
[01:15:54] percebam que até agora eu não entrei na filosofia
[01:15:56] propriamente. A gente tem
[01:15:58] o epicurismo, o estoicismo,
[01:16:01] o ceticismo pirrônico,
[01:16:03] e
[01:16:03] tem o hedonismo,
[01:16:07] e tem mais alguns aí.
[01:16:10] Que são
[01:16:10] as filosofias que, vamos dizer, perderam na
[01:16:12] batalha, assim. Exatamente.
[01:16:15] Da escolástica mais tarde.
[01:16:16] Qual que é o denominador comum
[01:16:18] de todas elas? O mais importante é uma
[01:16:20] sabedoria de vida.
[01:16:23] Assim, saber viver.
[01:16:24] Ver bem, e não
[01:16:25] tanto a questão filosófica
[01:16:28] platônica de encontrar a verdade
[01:16:30] e, digamos,
[01:16:32] inclusive, colocar sua vida em jogo
[01:16:33] por causa dessa verdade, por aí vai.
[01:16:36] Então, assim,
[01:16:38] a noção de apatéia grega
[01:16:40] significa
[01:16:41] essa indiferença ao mundo público,
[01:16:44] por exemplo.
[01:16:45] Que é comum tanto ao estoicismo quanto ao
[01:16:48] epicurismo.
[01:16:50] No caso do…
[01:16:52] A ataraxia, outro ponto,
[01:16:54] o que é ataraxia?
[01:16:55] É você ter uma imperturbabilidade
[01:16:58] da alma
[01:16:58] através da moderação dos prazeres.
[01:17:02] Isso é mais epicurista, na verdade.
[01:17:04] Não, e só pra reforçar o que eu falo
[01:17:06] que o Beccari fica batendo as mesmas teclas
[01:17:08] de maneiras muito elegantes e diferentes,
[01:17:10] né? Isso,
[01:17:11] meus queridos, ele, por trás
[01:17:14] de tudo isso, ele tá querendo dizer
[01:17:15] do tal do sentimento trágico,
[01:17:18] né? De que vai contra
[01:17:20] uma idealização de mundo que tá muito presente
[01:17:22] na tradição platônica.
[01:17:24] Por exemplo, né?
[01:17:25] Porque vai aceitar
[01:17:27] as mazelas da vida como
[01:17:29] nem como mazelas, mas como
[01:17:31] parte da sua experiência, justamente, né?
[01:17:33] É porque a experiência
[01:17:35] ateniense, por exemplo,
[01:17:38] é essa escola que
[01:17:40] tava faltando entre naquelas que eu tava
[01:17:41] listando, o cinismo. Então, o ceticismo,
[01:17:44] cinismo, epicurismo
[01:17:46] e estoicismo, basicamente.
[01:17:47] O hedonismo mais
[01:17:49] serenaico também entra
[01:17:51] como uma outra tradição.
[01:17:52] Mas, ou seja, a experiência é
[01:17:54] a cidade de Atenas
[01:17:56] tá agonizando
[01:17:58] aqui.
[01:18:00] As leis instituídas
[01:18:04] e a moral instituída, ela não
[01:18:06] coincide com aquilo que acontece
[01:18:08] no cotidiano.
[01:18:11] É uma coisa totalmente
[01:18:12] estranha já, né? Você pode até
[01:18:14] ver, olha, só forçando a barra,
[01:18:16] sabe quando você fala que quando você
[01:18:18] tem um momento de crise social,
[01:18:20] política, econômica, enfim,
[01:18:22] o pensamento conservador
[01:18:24] começa a vir mais forte, né?
[01:18:26] Você pode até ver que, de repente,
[01:18:28] os esforços platônicos, assim,
[01:18:31] nesse sentido, são, de certa maneira,
[01:18:33] uma maneira de tentar resgatar
[01:18:34] isso, né?
[01:18:36] Eu diria, na minha opinião, que o
[01:18:38] estoicismo vai por essa direção,
[01:18:41] porque eles vão
[01:18:42] se abster
[01:18:46] da vida pública, coisa que
[01:18:48] era importante pra Platão e tudo mais, né?
[01:18:51] Só que eles vão se abster no sentido,
[01:18:52] no sentido ascético, ou seja,
[01:18:54] pra se preparar pra morte, né?
[01:18:56] Então, eles ainda têm, eles mantêm
[01:18:58] um ideal de passagem
[01:19:01] da morte, por exemplo, né?
[01:19:03] Então, assim, diferente do epicurismo,
[01:19:05] do cinismo e do ceticismo,
[01:19:07] a morte
[01:19:08] não é uma preocupação, né?
[01:19:10] Então, você tem várias
[01:19:12] coisas. Na Atenas, enquanto
[01:19:14] alguns eruditos
[01:19:16] e sábios ainda
[01:19:18] ensinavam Platão,
[01:19:20] como Plotino, ou mesmo
[01:19:22] aquela menina lá, esqueci o nome…
[01:19:24] Hepátia. Hepátia e tal,
[01:19:26] você tinha em Atenas, pelo menos,
[01:19:28] o Diógenes.
[01:19:31] O que é o Diógenes?
[01:19:32] O Diógenes é um cara que vive no barril…
[01:19:35] É, o Chaves. Chaves,
[01:19:36] exatamente. E que anda
[01:19:38] de dia… Ele anda
[01:19:40] de dia na cidade com uma
[01:19:42] lanterna na mão. As pessoas perguntam
[01:19:44] porra, o que você tá fazendo de dia com uma
[01:19:46] lanterna, né? Daí ele fala,
[01:19:48] eu tô procurando o homem de Platão.
[01:19:52] O último
[01:19:53] homem justo.
[01:19:57] Nossa, e o Diógenes era
[01:19:59] cínico, né? Ou seja, aquele
[01:20:01] cara que se masturbava na rua,
[01:20:03] sabe? É…
[01:20:05] O Diógenes era punk de verdade.
[01:20:07] Ele era punk.
[01:20:10] Eu… Ah, pode falar,
[01:20:11] pode falar. Não, o que eu ia dizer é que, assim,
[01:20:14] esse contexto, esse cenário
[01:20:16] é interessante porque ele
[01:20:17] antecede a criação de… Antecede, assim,
[01:20:20] acontecendo ao mesmo tempo,
[01:20:21] mas também antecede um pouco…
[01:20:22] A questão romana.
[01:20:25] E os romanos, eles vão pegar muito
[01:20:27] muito… Essa ênfase
[01:20:29] sofista, como eu já disse, mas também
[01:20:31] epicurista, né?
[01:20:33] Algumas vertentes
[01:20:35] vai pro estoicismo também,
[01:20:37] mas, enfim, me parece que
[01:20:38] inicialmente, na cidade
[01:20:41] labirinto, que era Roma, que não tinha
[01:20:43] muita ordem, né? As ruas, elas
[01:20:45] não eram organizadas e tal.
[01:20:48] Ou seja, não era uma pólis grega, quer dizer,
[01:20:51] é uma coisa muito mais
[01:20:52] epicurista, assim, tipo, o importante é você
[01:20:55] ter um jardim privado
[01:20:56] no qual você vai cultivar
[01:20:59] seus prazeres moderadamente
[01:21:00] que o importante
[01:21:03] é, né, você
[01:21:04] se adequar à ocasião, assim, continuar a jogar
[01:21:07] o jogo, mesmo que
[01:21:08] na rua, na cidade
[01:21:11] esteja tudo em chamas.
[01:21:13] Sabe, não se importa, essa é a questão
[01:21:15] da…
[01:21:15] Isso é interessante,
[01:21:19] até puxando uma coisa que você falou antes, eu tenho
[01:21:20] algumas coisas pra falar sobre isso, que é
[01:21:22] a questão da veste, por exemplo, né?
[01:21:25] A própria veste como sendo parte
[01:21:26] da personalidade da pessoa que está sendo
[01:21:29] representada na estátua,
[01:21:30] você vai ver que os romanos vão adotar bem isso,
[01:21:33] porque os romanos não produzem nus,
[01:21:35] né? O nu romano,
[01:21:37] ele é muito
[01:21:37] raro de se encontrar. Você vai ver
[01:21:41] justamente a vestimenta sendo representada
[01:21:43] até como perpetuação da memória pelos grandes
[01:21:45] feitos de pessoas, né?
[01:21:47] E daí aparece sempre,
[01:21:49] existe uma versão ao nu puro,
[01:21:51] grego clássico, nesse sentido,
[01:21:52] que vai vir disso.
[01:21:54] Agora, uma outra coisa que eu queria falar, já puxando
[01:21:56] a questão erótica, que eu acho que a gente já pode ir pro
[01:21:58] fechamento, e quando eu falo fechamento
[01:22:01] geralmente tem mais uma hora, né? Mas eu espero que
[01:22:03] essa vez a gente consiga.
[01:22:04] Porque até ontem eu dei o curso
[01:22:06] de História e Arte para Criativos,
[01:22:09] eu dei pro Hangout, e
[01:22:11] eu sempre começo a discussão
[01:22:13] do que é o criativo,
[01:22:15] né? E eu evoco
[01:22:17] nesse momento lá o
[01:22:18] James Hillman, o psicólogo
[01:22:21] que a gente já falou aqui algumas vezes,
[01:22:22] Anticast, tem dois programas dedicados a ele, inclusive.
[01:22:25] Procurem aí, Anticast
[01:22:26] James Hillman,
[01:22:28] que ele vai falar da questão da criatividade como
[01:22:30] ele faz essa brincadeira de palavras, né?
[01:22:32] Da atividade de criar, né?
[01:22:34] Criatividade como atividade de criar, imaginação
[01:22:36] como a imagem posta em ação.
[01:22:38] E ele usa como mito base
[01:22:40] da fundamentação
[01:22:42] da criatividade e da imaginação
[01:22:44] justamente o mito de Eros e Psiquê,
[01:22:47] que é uma coisa que você não citou, mas acho que
[01:22:48] tem muito a ver com o que você está falando.
[01:22:50] Quando Psiquê,
[01:22:52] que é uma mulher muito bonita,
[01:22:54] irrita a Hera por algum motivo, que a Hera está sempre
[01:22:56] irritada,
[01:22:58] que é a esposa
[01:23:00] de Zeus, o deus dos deuses,
[01:23:02] e daí Psiquê está lá acorrentada
[01:23:04] numa rocha por castigo de Hera
[01:23:06] e ela tem que
[01:23:08] ser flechada
[01:23:09] por Eros, que é tipo o cupido,
[01:23:13] para se apaixonar por uma besta
[01:23:14] do mar, né? Então ela está lá no rochedo
[01:23:17] e Eros, quando vai soltar
[01:23:18] a flecha, ele se machuca com a própria flecha
[01:23:21] e acaba se apaixonando por Psiquê, né?
[01:23:22] E Psiquê, que em grego é alma.
[01:23:25] E daí eu tenho um texto aqui do
[01:23:28] Carlos Bernardi, que é um texto chamado
[01:23:30] Apresentando James Hillman, é bem fácil de achar
[01:23:32] na internet também, é Apresentando James Hillman
[01:23:34] Carlos Bernardi. E tem um trecho
[01:23:36] que eu acho muito legal, que eu acho que pode falar
[01:23:38] isso, da explicação da relação
[01:23:40] de Eros e Psiquê com a questão da criatividade,
[01:23:42] que eu acredito que entra nesse ponto que você está dizendo,
[01:23:45] com arte e tudo, né?
[01:23:46] Ele fala, em linhas gerais, o mito
[01:23:49] se refere ao despertar
[01:23:50] da alma Psiquê, através
[01:23:52] do amor, reconhecendo
[01:23:54] a alma como um fator interno
[01:23:56] que leva às profundezas aludidas
[01:23:58] por Heráclito. Através da
[01:24:00] atenção amorosa dada ao
[01:24:02] psiquismo, como aqui ocorre
[01:24:04] no processo psicoterápico,
[01:24:06] a alma começa a desenvolver-se e
[01:24:08] revelar-se. Para Hillman, é um mito
[01:24:10] fundamental da criatividade psicológica.
[01:24:13] O mito narra o que acontece
[01:24:14] entre as pessoas e dentro das pessoas.
[01:24:17] Mostra também que o desenvolvimento de Psique
[01:24:18] não ocorre num mar de rosas.
[01:24:20] Acho que esse é o ponto legal.
[01:24:22] Sofrimento, tortura, depressão, tentativas
[01:24:24] de suicídio, desânimo,
[01:24:26] são vivências fundamentais de todo
[01:24:28] o processo. Eros, o amor, é
[01:24:30] retratado como um grande torturador
[01:24:32] e não como um querubim bondoso.
[01:24:35] É um processo difícil e cheio
[01:24:36] de obstáculos.
[01:24:38] E eu acho legal esse trecho aqui, justamente
[01:24:40] para ver essa… porque a gente pensa
[01:24:42] na questão do amor verdadeiro, hoje em dia,
[01:24:45] como essa coisa bela,
[01:24:46] idealizada, que a gente daí joga
[01:24:48] justamente para uma idealização da mulher,
[01:24:50] uma idealização do homem, e aí
[01:24:52] ele vai indo. Mas a verdade, justamente,
[01:24:54] é de uma tradição, de certa forma,
[01:24:56] platônica, de uma estrutura platônica, no sentido de dizer
[01:24:59] de uma essência do amor,
[01:25:00] de uma pessoa verdadeira.
[01:25:02] É que o Riemann aí, quer dizer, você já está em outro,
[01:25:05] mas ele está se apropriando
[01:25:07] de uma, digamos,
[01:25:09] versão de Eros e Psique,
[01:25:11] quer dizer, que é grega,
[01:25:12] que já não é aquela de Ovidio.
[01:25:15] Não, sim, sim.
[01:25:16] Ovidio, na verdade, nem fala de deuses.
[01:25:18] O Vênus dele é outra coisa.
[01:25:21] Então,
[01:25:22] mesmo Eros e Psique,
[01:25:26] eu nem sei qual que é o equivalente
[01:25:29] deles no romano.
[01:25:31] Agora, o que me parece
[01:25:33] interessante nisso, por exemplo, você falou
[01:25:35] das vestes, né?
[01:25:36] Que a vestimenta é uma coisa. Só que, veja,
[01:25:40] o cristianismo,
[01:25:41] posteriormente, ele vai
[01:25:43] adotar uma
[01:25:45] outra estética da veste.
[01:25:48] Que, assim, por exemplo,
[01:25:50] se os romanos,
[01:25:51] como eu estava dizendo, né, o helenístico,
[01:25:53] o helenismo,
[01:25:54] não diferenciavam o corpo da veste,
[01:25:58] era uma coisa só,
[01:25:59] entende? Para os cristãos,
[01:26:02] uma vertente, pelo menos,
[01:26:06] por exemplo, em Salmos, na Bíblia,
[01:26:09] aparece,
[01:26:09] o próprio Deus aparece como
[01:26:11] uma pessoa vestida,
[01:26:13] num manto de luz,
[01:26:15] não sei o quê. Por quê?
[01:26:17] Porque seria insuportável
[01:26:20] ao homem vê-lo diretamente,
[01:26:21] né?
[01:26:23] Então, tipo, veja como
[01:26:25] o cristianismo, ele é platônico,
[01:26:28] só que ele se apropria de uma
[01:26:29] questão romana,
[01:26:32] como essa da veste,
[01:26:33] só que transforma ela em platônica. Por quê?
[01:26:35] Porque a veste, no caso,
[01:26:37] ela funciona como uma dissociabilidade
[01:26:40] entre o corpo e a alma.
[01:26:42] E o corpo e a alma,
[01:26:44] psiquei eros.
[01:26:45] Tá certo?
[01:26:47] Ou seja,
[01:26:49] eros,
[01:26:50] no sentido cristão,
[01:26:51] se é que você pode dizer isso,
[01:26:54] é mal.
[01:26:56] Tipo assim, o eros são as tentações.
[01:27:00] O que importa mesmo é psiquei,
[01:27:03] que é a alma, tá certo?
[01:27:06] Agora, a erótica
[01:27:08] romana,
[01:27:09] pelo contrário, é o elogio do eros.
[01:27:13] A alma,
[01:27:14] ela deve ser, digamos,
[01:27:16] venerada,
[01:27:18] ou, enfim, tomada como um veneno.
[01:27:19] Se, para o cristianismo,
[01:27:21] o eros é o veneno,
[01:27:23] para os romanos helenísticos,
[01:27:26] o veneno é a alma.
[01:27:29] Entendeu?
[01:27:30] Então, é difícil,
[01:27:32] como o Ankara falou,
[01:27:34] colocar em termos de quinta série.
[01:27:38] No sentido de explicar,
[01:27:40] qualquer um pode chegar e argumentar,
[01:27:43] não, mas o cristianismo, ele pegou muita coisa
[01:27:45] do romano,
[01:27:47] mas ele também é platônico.
[01:27:48] Enfim, a questão
[01:27:50] que me parece aqui interessante
[01:27:52] é a gente ver quais são as ênfases.
[01:27:55] E isso, obviamente, é totalmente discutível.
[01:27:58] Mas a ênfase que eu vejo
[01:28:00] tem a ver com essa questão da ars,
[01:28:02] que significa articulação.
[01:28:04] Articulação do quê?
[01:28:05] Articulação dos elementos que estão disponíveis
[01:28:08] e que, enfim,
[01:28:10] você não vai,
[01:28:11] só vai imitar.
[01:28:14] Surge daí, por exemplo, a noção de simulacro.
[01:28:16] Sabe?
[01:28:18] O simulacro é o quê?
[01:28:20] É uma cópia que não tem modelo.
[01:28:24] É a simulação de si mesmo.
[01:28:27] Ele não é nem representação
[01:28:28] de um modelo,
[01:28:30] nem simulação.
[01:28:32] Porque simulação também é o quê?
[01:28:34] É você saber que existe um modelo ainda,
[01:28:36] que está sendo simulado.
[01:28:38] A simulação é cultivada
[01:28:39] no helenismo,
[01:28:43] e como você falou,
[01:28:43] no Império Romano também,
[01:28:46] na Evocatio Romano, melhor dizendo,
[01:28:48] como uma forma de assimilação,
[01:28:50] então você simula
[01:28:52] para assimilar.
[01:28:54] Então, essa assimilação,
[01:28:57] por fim, eu acho que é isso
[01:28:58] que eu tenho pesquisado,
[01:29:01] ela me parece muito
[01:29:02] próxima, não só ao barroco,
[01:29:04] que de repente a gente faz um
[01:29:05] programa sobre o barroco,
[01:29:08] mas aquilo que a gente chama de design hoje.
[01:29:11] Por que as mulheres
[01:29:12] usam salto alto?
[01:29:15] Por que a gente
[01:29:16] enterra os mortos?
[01:29:17] Ah, se a gente quiser,
[01:29:19] vai ter uma explicação.
[01:29:20] Ah, por causa das tradições
[01:29:23] e não sei o quê.
[01:29:24] Porque a gente comemora o Natal,
[01:29:26] tem Papai Noel.
[01:29:27] Exatamente.
[01:29:29] Fala uma coisa, bate três vezes na madeira.
[01:29:32] Cara, é perfeito.
[01:29:33] Pede negócio, dá três pulinhos.
[01:29:36] Então, tipo, ninguém acredita nisso, entende?
[01:29:39] Quer dizer, não é
[01:29:40] nenhum acreditar, nem um não,
[01:29:41] nem um desacreditar.
[01:29:43] Isso é helenístico,
[01:29:46] me parece.
[01:29:46] Tipo,
[01:29:47] você comemora o Natal sabendo que aquilo
[01:29:50] é uma piada. Você não é cristão,
[01:29:52] mas comemora o Natal.
[01:29:53] Não, até porque o cristão,
[01:29:56] digamos, tem muito
[01:29:57] evangélico, por exemplo, que nem comemora o Natal
[01:30:00] justamente porque sabe que é uma vesta pagã.
[01:30:02] Então, mas daí já é,
[01:30:04] mas daí já não é helenístico, né?
[01:30:06] Não, sim, sim.
[01:30:07] Agora, a gente vai no velório.
[01:30:09] A gente tá falando justamente
[01:30:12] das pessoas em geral
[01:30:13] que comemora o Natal,
[01:30:16] compra presente, sabe?
[01:30:18] E não tá nem aí pra que que serve.
[01:30:20] Não se incomoda, por exemplo,
[01:30:22] quando alguém diz que o dia dos namorados
[01:30:24] foi uma data fabricada pela
[01:30:25] indústria. Exatamente.
[01:30:27] Porque o gostoso é justamente
[01:30:30] comprar um presente, ganhar outro
[01:30:32] e dane-se, né? E poder dizer
[01:30:33] tem namorado, não tem namorado.
[01:30:35] Retomando aquilo que você falou,
[01:30:37] não quer dizer que
[01:30:39] no helenismo não haviam platônicos,
[01:30:42] eruditos, como hoje
[01:30:44] há, como você falou,
[01:30:46] evangélicos que não, sei lá,
[01:30:47] evangélicos não, né?
[01:30:49] Enfim, judeus,
[01:30:50] por exemplo, que não comemoram o Natal,
[01:30:52] existem cristãos
[01:30:54] que levam a sério o Natal,
[01:30:56] quer dizer, né?
[01:30:57] Que vão lá na missa, pro galo e tal.
[01:31:00] Só que assim, me parece
[01:31:02] isso é uma coisa não verificável,
[01:31:04] de fato.
[01:31:05] Que a maior parte das pessoas não.
[01:31:08] Que a maior parte das pessoas
[01:31:10] não é nem aquele
[01:31:12] cara que vai recusar o Natal,
[01:31:14] nem aquele cara que vai levar a sério.
[01:31:17] Mas é aquele cara
[01:31:18] que vai comemorar.
[01:31:20] Isso, qualquer motivo
[01:31:22] que tem aí, pra que que existe? Não sei,
[01:31:24] mas pode ser.
[01:31:25] Porque é um ritual, porque é uma
[01:31:28] tradição e tal.
[01:31:31] Agora,
[01:31:31] a questão é a seguinte, tipo, isso,
[01:31:34] essa consciência,
[01:31:36] você pode falar, ah, isso aí é indústria cultural,
[01:31:38] isso aí é alienação do campeão.
[01:31:41] Adorno de novo, terceiro
[01:31:42] programa seguido.
[01:31:46] Terceiro programa
[01:31:46] seguido já virando no túmulo
[01:31:48] de novo. Não, mas assim,
[01:31:50] independente dessas causas, sabe,
[01:31:52] eu não duvido que seja isso. Indústria cultural,
[01:31:55] e o cacete, sabe,
[01:31:56] o que quiser chamar.
[01:31:58] Pode ser também. Então, exatamente,
[01:32:00] mas as pessoas, elas
[01:32:01] ritualizam, usam
[01:32:04] salto alto, compram um carro do ano,
[01:32:08] enfim,
[01:32:10] adotam um estilo de vida,
[01:32:12] se tornam, inclusive,
[01:32:14] sabe, ao mesmo tempo,
[01:32:16] hedonistas durante a semana,
[01:32:18] e no fim de semana,
[01:32:20] zen budista.
[01:32:22] Então, tipo, tudo isso
[01:32:24] é uma forma, me parece, de
[01:32:26] ars romana.
[01:32:28] Porque, sabe, cadê a
[01:32:30] coerência? Quem se importa com coerência?
[01:32:34] Entendeu?
[01:32:35] Tipo assim,
[01:32:36] é você se adaptar às ocasiões e sentir
[01:32:38] e, assim, tudo isso é design.
[01:32:40] Claro que daí, pra argumentar
[01:32:42] isso, né, a minha tese, o nome dela é
[01:32:44] articulações simbólicas, ou seja,
[01:32:46] design é articulação simbólica.
[01:32:50] Articulação simbólica
[01:32:51] em que sentido?
[01:32:52] Da ars romana, por exemplo.
[01:32:55] Você vai
[01:32:56] articular uma série
[01:32:58] de símbolos, né, uma série de
[01:33:01] experiências simbólicas,
[01:33:02] mediações simbólicas e tal,
[01:33:05] pra você ser zen budista num dia,
[01:33:07] no outro dia você ser punk,
[01:33:09] no outro dia você, enfim,
[01:33:11] você ser o que quer
[01:33:12] que seja, entendeu?
[01:33:14] Sem levar nada muito a sério,
[01:33:17] ou
[01:33:17] levar a sério,
[01:33:20] nos momentos oportunos.
[01:33:23] E em outros momentos não levar
[01:33:25] tanto a sério, sabe?
[01:33:27] É que nem, tipo assim, quando eu vou num jantar
[01:33:29] de família, vocês acham que eu converso sobre o trágico?
[01:33:31] Não.
[01:33:32] Então o becário é incoerente, né?
[01:33:36] Não, você é
[01:33:37] super coerente porque você não para de falar
[01:33:39] essa porra de ética da ocasião.
[01:33:42] Pois é.
[01:33:43] Ou seja, tipo, a questão é essa, né?
[01:33:46] Eu gosto de filosofia,
[01:33:47] eu não vou falar com todo mundo sobre filosofia,
[01:33:49] né?
[01:33:50] Aliás, não tem muita gente pra falar
[01:33:52] sobre filosofia.
[01:33:55] Tem aqui um anti-cash, graças a Deus, né?
[01:33:59] Porque a maioria das pessoas,
[01:34:02] com meus alunos, com os outros professores,
[01:34:04] enfim,
[01:34:05] eu não posso falar de filosofia,
[01:34:07] que é uma coisa que eu gosto.
[01:34:08] Não é que eu não posso, veja bem, né?
[01:34:10] É uma questão de se adequar, eu poderia ser
[01:34:12] o chato erudito, filha da puta,
[01:34:15] e o cara falar, ah, eu tô com fome.
[01:34:16] Aí eu falo, mas o que é fome?
[01:34:18] O que é fome?
[01:34:20] Eu imagino você fazendo isso.
[01:34:23] Não, isso seria Sócrates.
[01:34:27] Enfim.
[01:34:29] Eu tô tendendo cada vez mais,
[01:34:31] eu acho, a ser um
[01:34:34] diógeno, sei lá.
[01:34:35] Não, só não vá se masturbar em público.
[01:34:38] Por favor.
[01:34:40] Isso aí…
[01:34:41] Não esteja perto de mim.
[01:34:42] Mas isso seria levar o cinismo muito a sério também, né?
[01:34:45] Aham.
[01:34:46] Que não seria nada oportuno.
[01:34:48] Tá certo.
[01:34:50] Então, ok.
[01:34:52] Chega, né? Chega.
[01:34:54] Eu não sei nem que nome que vai ter esse programa.
[01:34:56] Aí depois.
[01:34:58] Vai ser só imagem, não vai ter nome.
[01:35:00] Isso. Isso é pra
[01:35:01] fazer o pessoal que tava com saudade
[01:35:04] do Becari matar a saudade de vez, né?
[01:35:07] Então, obrigado.
[01:35:08] Seja bem-vindo de volta, Becari.
[01:35:11] Espero tê-lo aqui mais vezes,
[01:35:12] aí em breve.
[01:35:14] Então, vamos ver
[01:35:16] se a gente consegue falar alguma coisa mais leve
[01:35:18] da próxima vez.
[01:35:20] Só deixar uma dica pro pessoal.
[01:35:22] Ah, vai.
[01:35:23] Tem um livro no Prelo, ali na 2AB.
[01:35:26] Olha aí.
[01:35:27] Ah, sério?
[01:35:28] Olha, muito bom, muito bom.
[01:35:33] Mas daí a gente deixa em aberto.
[01:35:34] Ah, é excelente.
[01:35:37] Então,
[01:35:38] fica aí,
[01:35:39] fica aí ansioso pelo novo livro do Becari.
[01:35:42] Eu também tô sabendo agora.
[01:35:44] Isso aí, então, que maravilha.
[01:35:46] Tem a ver, vai ter a ver com
[01:35:48] um dos pontos do livro,
[01:35:50] que é o que discutimos hoje.
[01:35:51] Ah, maravilha. Então, é isso.
[01:35:54] Eu acho que continuamos na semana que vem
[01:35:56] a putaria generalizada aqui, né?
[01:35:58] Isso aí.
[01:35:59] Então, um beijo pra vocês, ouvintes, e até semana que vem.
[01:36:02] Tchau.
[01:36:02] Tchau.
[01:36:20] Tchau.
[01:36:20] Tchau.
[01:36:21] Tchau.
[01:36:21] Tchau.
[01:36:22] Tchau.
[01:36:23] Tchau.
[01:36:23] Tchau.
[01:36:23] Tchau.
[01:36:23] Tchau.
[01:36:23] Tchau.
[01:36:24] Tchau.
[01:36:24] Tchau.
[01:36:24] Tchau.
[01:36:24] Tchau.
[01:36:24] Tchau.
[01:36:24] Tchau.
[01:36:25] Tchau.
[01:36:25] E agora temos até a página própria do iTunes,
[01:36:27] graças ao seu Ancara e as suas habilidades
[01:36:30] aí,
[01:36:31] fantásticas.
[01:36:32] Me faltou adjetivos.
[01:36:34] Vamos lá.
[01:36:36] Os seus nomes aí,
[01:36:37] da galera que contribui a partir de
[01:36:39] 25 dólares, né? Então, vocês têm
[01:36:42] o direito de terem seus nomes aqui mencionados.
[01:36:44] Vocês são
[01:36:45] a X.
[01:36:47] Sagara, o Diego Ferreira,
[01:36:49] Thiago Luiz Silva
[01:36:50] Deixa eu ver aqui, me perdi nos nomes
[01:36:53] Caio, ou sei lá
[01:36:55] Caio apenas, Guilherme Sena
[01:36:58] Então vocês aí estão dando
[01:36:59] 25 dólares por mês, muito obrigado
[01:37:02] Vocês são lindos
[01:37:03] E agora a galera da categoria Gerlito
[01:37:06] Que são os melhores seres humanos que existem no mundo
[01:37:08] Vocês são
[01:37:09] Rodrigo Cruz, Alexander Guirius
[01:37:11] Marcelo Pinheiro, Fernando Henrique Pires
[01:37:14] Rei Sussman
[01:37:15] O Homem Sussi, eu nunca me canso dessa piada
[01:37:17] O Hiromi Honda
[01:37:19] Murilo Kenshimizo, Felipe Santos
[01:37:22] E Felipe Sottoni
[01:37:23] Vocês são demais
[01:37:25] E eu
[01:37:27] Inclusive, eu acho que é importante dizer que essa galera aí
[01:37:30] Que tá contribuindo com 50 dólares
[01:37:31] Tem uns aqui que daqui a pouco vão, eu vou ter que cumprir
[01:37:33] Minha promessa de transformar vocês em um personagem de livro
[01:37:36] Então vocês vão ter que
[01:37:38] Depois me dizer
[01:37:39] O que vocês querem ser nesse livro
[01:37:41] Porque eu quero só fazer, eu quero seguir o desafio
[01:37:44] De você falar, Ivan
[01:37:45] Eu quero ser, sei lá, um psicopata
[01:37:48] Ladrão
[01:37:49] Traficante, eu não sei
[01:37:51] Você vai me mandar um perfil
[01:37:53] E eu vou transformar você num personagem
[01:37:55] E eu vou me fuder
[01:37:56] Mas a brincadeira tá aí, né
[01:37:59] Aí tá, beleza
[01:38:00] E como frase da semana
[01:38:02] Eu vou pegar aqui, eu vou pegar a primeira coisa que tá na minha frente
[01:38:05] Pra ler
[01:38:06] Então eu tô pegando aqui
[01:38:08] A primeira coisa que tá na minha frente é uma conta de telefone
[01:38:11] E aqui eles estão me dizendo que
[01:38:13] VC
[01:38:14] Se chama chamada para telefone celular
[01:38:18] Fora de telefone celular
[01:38:18] Fora da área 43
[01:38:19] E é isso
[01:38:20] Fica aí
[01:38:21] Esse pensamento pra semana
[01:38:24] Não façam chamadas de telefone celular
[01:38:28] Fora da área 43
[01:38:29] Um beijo e até semana que vem
[01:38:48] FIM
[01:39:02] FIM
[01:39:04] FIM
[01:39:06] FIM
[01:39:10] FIM
[01:39:12] FIM
[01:39:14] FIM
[01:39:16] FIM