T06E25 Hipatia de Alexandria e Agora
Resumo
O episódio explora a figura de Hipátia de Alexandria, matemática e filósofa neoplatônica do século V, dentro do contexto histórico e cultural da Biblioteca de Alexandria. Os participantes discutem a fundação e importância da biblioteca como centro de conhecimento, reunindo tradições científicas gregas, astronomia mesopotâmica e filologia, e seu papel na preservação e desenvolvimento do pensamento antigo.
É analisado o cenário político e religioso da Antiguidade Tardia, marcado pela ascensão do cristianismo e a criminalização progressiva das religiões pagãs e das práticas intelectuais associadas a elas. A conversa aborda as figuras dos bispos Teófilo e Cirilo de Alexandria, seu conflito com a elite greco-romana e o prefeito Orestes, aluno de Hipátia, culminando no brutal assassinato da filósofa por uma milícia cristã em 415 d.C.
O programa também dedica uma parte significativa à análise do filme ‘Ágora’, de Alejandro Amenábar, que retrata esses eventos. São discutidas as licenças artísticas e imprecisões históricas do filme, bem como seus méritos em representar visualmente os conflitos religiosos e a atmosfera de efervescência e violência em Alexandria. A discussão conecta o destino de Hipátia e da biblioteca com o fim de uma era de investigação intelectual e o início de um período de obscurantismo e perseguição ao conhecimento.
Indicações
Conceitos-Historicos
- Biblioteca de Alexandria — Instituição fundada no século III a.C. que reuniu o conhecimento do mundo antigo, com acervo que pode ter chegado a 700 mil exemplares. Centro de pesquisa em astronomia, geometria, matemática e filologia, foi destruída em uma série de incêndios ao longo dos séculos.
- Septuaginta — A primeira tradução da Bíblia Hebraica (Velho Testamento) para o grego, encomendada por um imperador e realizada por 70 sábios judeus em Alexandria. Foi fundamental para a difusão da Bíblia na Europa.
Filmes
- Ágora (Alexandria) — Filme de Alejandro Amenábar, estrelado por Rachel Weisz, que retrata a vida de Hipátia e os conflitos religiosos em Alexandria. É elogiado por sua beleza visual e por representar metafórica e esteticamente o colapso da cultura clássica, embora contenha algumas imprecisões históricas.
Livros
- Elementos de Euclides — Obra fundamental da matemática, editada e organizada por Teon, pai de Hipátia. Foi o livro de matemática mais usado nas escolas por 1500 anos, sendo um dos textos mais publicados da história, depois da Bíblia.
Pessoas
- Plotino — Filósofo neoplatônico do século III, nascido no Egito e formado em Alexandria. Sua doutrina mística, que buscava a unidade (o ‘Uno’) e via o mundo material como degradado, foi a base filosófica do círculo de Hipátia e influenciou posteriormente a teologia cristã patrística.
- Cirilo de Alexandria — Bispo de Alexandria e sobrinho de Teófilo. Intensificou a perseguição ao paganismo e à elite intelectual greco-romana. É historicamente associado ao assassinato de Hipátia por milícias cristãs sob sua influência.
Linha do Tempo
- 00:00:41 — Contexto histórico de Alexandria na Antiguidade — Francisco Marshall inicia contextualizando Alexandria como um encontro de tradições científicas e culturais do mundo antigo. Ele explica que a filosofia grega, herdeira da astronomia mesopotâmica, evoluiu com figuras como Tales e Pitágoras, estabelecendo um paradigma de investigação sistemática. Alexandria, fundada no século III a.C., herdou e transformou esse programa filosófico, tornando-se um centro de acervo e pesquisa com a famosa biblioteca.
- 00:06:41 — A Biblioteca de Alexandria e seu funcionamento — É discutida a fundação da biblioteca por Ptolomeu II Filadelfo e suas regras de aquisição, como a cópia obrigatória de livros de navios que atracavam no porto. Explica-se a diferença entre os formatos de papiro (usado em Alexandria) e pergaminho (desenvolvido em Pérgamo). A conversa também aborda a escala colossal da coleção, que pode ter chegado a 700 mil exemplares, e a estrutura associada que incluía o Museu (Casa das Musas), funcionando como um centro de pesquisa e ensino.
- 00:13:27 — Os incêndios da biblioteca e o contexto do filme Ágora — Os participantes listam os vários incêndios que destruíram partes da biblioteca, incluindo os causados por Júlio César e pelo imperador Aureliano. É explicado que, na época de Hipátia (século V), a biblioteca principal já não existia, restando um anexo no Templo de Serapis. O filme ‘Ágora’ é mencionado por fazer uma fusão artística, mostrando a destruição desse templo em 391 d.C. como a destruição da grande biblioteca.
- 00:14:34 — A radicalização cristã no Império Romano — É corrigido o equívoco comum de que o cristianismo se tornou a religião oficial do império com Teodósio. Na verdade, o processo começou com Constantino, que criminalizou as ‘superstições’ pagãs. Teodósio I intensificou essa perseguição, proibindo festivais e destruindo templos. Essa política criou o caldo de cultura para o conflito em Alexandria, onde bispos militantes como Teófilo e seu sobrinho Cirilo buscavam hegemonia política e religiosa.
- 00:20:40 — Hipátia, o neoplatonismo e o conflito político — Descreve-se Hipátia como uma matemática e filósofa neoplatônica, filha do diretor da biblioteca, Teon. Ela não era docente oficial, mas ensinava em círculos privados para uma elite, incluindo figuras cristãs como o prefeito Orestes e Sinésio de Cirene. Seu neoplatonismo, baseado em Plotino, via o mundo material como degradado, entrando em conflito com a visão de mundo cristã. Sua influência e a de seu círculo a colocaram no centro da disputa de poder entre a elite greco-romana e o bispo Cirilo.
- 00:25:59 — O assassinato de Hipátia e suas consequências — Relata-se o brutal assassinato de Hipátia em 415 d.C. por uma milícia cristã (parabolani) leal ao bispo Cirilo. Ela foi raptada, esfolada com conchas, esquartejada e seus restos incinerados. Este evento é apresentado como um marco simbólico do fim da cultura clássica e da investigação intelectual livre, representando a vitória do obscurantismo e da perseguição religiosa sobre a ciência e a filosofia pagãs.
- 00:26:44 — Análise do filme Ágora e suas representações — Os participantes analisam o filme ‘Ágora’ de Alejandro Amenábar. Elogiam sua beleza visual, influenciada pela pintura de Lawrence Alma-Tadema, e sua representação metafórica dos conflitos entre judeus, cristãos e pagãos em Alexandria. Reconhecem imprecisões históricas, como mostrar Hipátia fazendo experimentos (algo que os neoplatônicos não faziam), mas valorizam o filme por capturar a essência do drama histórico e a luta entre a curiosidade científica e o fanatismo religioso.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2015-08-17T13:00:00Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/t06e25-hipatia-de-alexandria-e-agora/90aaab70-2777-0133-b262-0d11918ab357
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Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
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Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos
[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.
[00:00:13] No programa de hoje, a gente vai discutir Alexandrinha, essa figura extraordinária
[00:00:19] do mundo antigo, a Ipatia, e o filme Agora, do Almenabá.
[00:00:23] A gente tem como convidado aqui o Francisco Marshall, que é professor do Departamento
[00:00:28] de História da URIX, e o pessoal do programa hoje vai ser o Sol Jorge Kieffel, do Departamento
[00:00:34] de Biofísica, e eu, Marco, e de Arte, do Departamento de Física.
[00:00:37] Eu pediria para o Chico contextualizar um pouco o que foi Alexandrinha na Antiguidade.
[00:00:41] Em particular do século V, né, Fio?
[00:00:44] Bom, em Alexandrinha há um encontro de tradições científicas e culturais do mundo antigo.
[00:00:49] A filosofia surge na Grécia como herdeira da astronomia mesopotâmica, babilônica sobretudo.
[00:00:54] A filosofia evolui a partir de Thales e Pitágoras, com o seu apogeu no saco quinto, com Anaxágoras,
[00:01:01] como ao mesmo tempo reflexão cosmológica, ética, e com espírito de enquete, de investigação
[00:01:07] científica, observação sistemática, cálculo, que permitiu a Thales prever o famoso eclipse
[00:01:14] de 19 de maio de 595 a.C., e que estabeleceu um paradigma, o conhecimento filosófico desenvolvido
[00:01:22] junto com a investigação sistemática do cosmos por dois caminhos, a matemática,
[00:01:28] amparada na geometria, e a astronomia.
[00:01:30] Alexandrinha, quando é criada no início do século III a.C., Faró, que é um rei glicomacedônico,
[00:01:37] Ptoloméu II, Filadelfo, ela herda esse programa filosófico e transforma isso num dos dois
[00:01:43] programas centrais daquela instituição dupla de acervo e pesquisa.
[00:01:48] A Biblioteca…
[00:01:49] A Alexandrinha já era uma cidade egípcia, né?
[00:01:51] A Alexandrinha foi fundada por Alexandre Magno 40 anos, 50 anos antes disso, quando ele passou
[00:01:56] no Egito em 331, se consagra Faró, na oráculo de Sivá, mas antes disso ele funda uma das
[00:02:02] várias Alexandrias, ele fundou dezenas de Alexandrias na sua expansão até o Oriente.
[00:02:07] Mas essa foi mais prestigiosa porque estava colocada no cileiro do Mediterrâneo, um lugar
[00:02:11] riquíssimo, sobretudo porque ela se tornou grande orgulho, a joia dos Ptolomeus, esses
[00:02:16] reis gregos que dominam o Egito até a queda da Elizabeth Taylor em 30 a.C.
[00:02:21] Também conhecido como Cléopatra, a gente prefere pensar com Elizabeth Taylor que parece
[00:02:24] que era mais bonita.
[00:02:25] É mais icônico também.
[00:02:26] Mas então a Alexandrinha, o que ela se tornou não foi uma ideia do Alexandre inicialmente?
[00:02:31] O Alexandre, o empregou o que pôde do tesouro que ele colocou em circulação para financiar
[00:02:39] arte, cultura, arquitetura, cidades e ciência, então ele já tinha esse desígnio, mas quem
[00:02:43] fundou a Biblioteca não foi ele, foi esse Faró, que era neto de um general camarada
[00:02:49] dele que se criou o Ptolomeu II, e depois continuaram porque viram que isso aí era
[00:02:54] um trunfo que singularizava a dinastia dos Ptolomeus.
[00:02:58] Tinha trair a gente, as intelectuais de todo o mundo que circulavam por aí.
[00:03:01] Ao mesmo tempo, estabeleceram uma cosmopolise, ou seja, diluíram as barreiras políticas
[00:03:06] e permitiram a circulação de indivíduos e populações.
[00:03:10] E livros.
[00:03:11] E livros, sobretudo acervos, patrimônios, ideias, então claro isso levou à migração
[00:03:15] de intelectuais, cientistas, gente que trabalhava no sistema econômico da ciência, da cultura,
[00:03:21] a principal função aí era de copistas dos livros, trabalho arduo, e nesse trabalho
[00:03:26] de copista, então, floresceu um novo campo que é do filólogo.
[00:03:29] O ato de colacionar os textos, colocar lado a lado as diferentes versões, estabelecer
[00:03:33] os textos canônicos dos grandes autores, de Almearo aos poetas alexandrinos, que são
[00:03:38] organizados na Biblioteca, então a partir disso a Biblioteca tem esses dois eixos curriculares,
[00:03:43] Astronomia, Geometria e Matemática, e Filologia, e a Filologia implica também o conhecimento
[00:03:49] da literatura, que é musical e coreográfica, então boa parte dessa atividade era no teatro
[00:03:54] ou no odeão posteriormente, na época romana, acompanhado de performance, que é um encontro
[00:03:59] entre matemática e literatura.
[00:04:02] Isso tudo aconteceu por um amor à cultura por parte desses governantes, ou eles entendiam
[00:04:08] que tinha uma razão estratégica, que seria uma das formas de ter poder?
[00:04:12] São navegadores que exploram rotas com o amparo da astronomia, então aí é uma finalidade
[00:04:18] prática desse conhecimento, que desde a expansão fenícia cresce em importância, mas não
[00:04:25] é o motor desses farozes, eles realmente tem uma questão de prestígio, de singularidade,
[00:04:31] uma concorrência, onde claro, a gente veio a surgir Alexandria, logo depois Pérgamo,
[00:04:36] Antioquia também cresce enormemente em ambição cultural, literária, a principal referência
[00:04:43] era a Atenas, se a Atenas perde esse prestígio, porque era uma cidade autora, mas que não
[00:04:48] tinha uma pujança econômica capaz de sustentar, uma biblioteca, pesquisa, pessoal.
[00:04:54] Ou seja, o legado cultural do Alexandre ficou político, talvez é que levou essa batança
[00:04:58] inclusive da família e essas coisas típicas desse período.
[00:05:00] Mas o político foi a globalização implantada, então é nessa época que migra para Alexandria
[00:05:06] uma comunidade de intelectuais judeus, que assim, é o principal componente de enriquecimento
[00:05:12] desse universo.
[00:05:13] Isso é importante.
[00:05:14] E que estão também relacionados ao drama de Ipatian, um dos componentes.
[00:05:19] Aliás, duas coisas importantes, uma é sobre esses judeus que tu menciona, eles são tão
[00:05:24] importantes que fica encomendado por um imperador uma tradução pro grego da Bíblia Hebraica,
[00:05:28] ou seja, do Velho Testamento, que é feito por 70 sábios judeus, que se transformou
[00:05:33] na famosa versão da Septuaginta, que é a primeira versão, que foi aqui e difundiu
[00:05:39] a Bíblia de fato na Europa.
[00:05:41] Sim, a Bíblia não sobreviveu em Hebraica, ela foi retraduzida do grego pro hebraico
[00:05:45] a partir da Septuaginta.
[00:05:46] Mas a segunda coisa importante é que já naquela época do pátio do Alexandre depois,
[00:05:51] a Alexandria já era um polo comercial para o pergaminho, que era o principal meio de
[00:05:55] escritura.
[00:05:56] Não, pro papiros.
[00:05:57] O pergaminho surge em Pérgamo, quando o Ptoloméu VII, que era o primeiro pátio,
[00:06:03] embarga a exportação do papiros pra sufocar o crescimento da biblioteca de Pérgamo.
[00:06:09] Pérgamo pega esse couro, a princípio é o velo de um viadinho selvagem, depois usa
[00:06:15] o couro de outros animais, esticado, seco ao sol, e que cria um outro formato de livro,
[00:06:19] que é com folhas, que vem a ser o folio, onde é possível ler e anotar com o livro
[00:06:25] estático, ao passo que em Alexandria prevaleceu o formato papiros, que tem que ser desenrolado,
[00:06:30] portanto, lido, cooperativa, socialmente.
[00:06:33] E sem anotar em cima, porque estraga.
[00:06:35] É, a biblioteca é fundada em aproximadamente 290, 280, por idade um pouco imprecisa.
[00:06:41] Que tinha essa regra, ou seja, cada barco que aportasse naquele porto, que não era impossível,
[00:06:46] que genera uma rota importantíssima, tinha que ou doar livros, ou inclusive emprestar
[00:06:50] os que têm cópias raras, e não podia ser enquanto não copiasse os materiais de fama
[00:06:53] que as bibliotecas cresceu.
[00:06:55] Mas essa é a famosa biblioteca de Alexandria, que é cantada em pros e versos na cultura
[00:06:58] ocidental, que veio ficar famosa pelo menos no nosso meio aqui, com uma das representações
[00:07:03] que ela teve na série Cosmos, com o Calcei, mostrando então ela representando toda a
[00:07:06] cultura grega ocidental, que acaba se perdendo numa sequência de incêndios, que na verdade
[00:07:11] não é um só, né?
[00:07:12] São vários.
[00:07:13] Inclusive o Júlio César, nos anos 40, 50 a.C., destrói a cidade, destrói a biblioteca
[00:07:18] por acidente ao botar fogo no porto.
[00:07:19] O importante é como o paradigma astronômico ali se transformou.
[00:07:23] Claro, a astronomia depende de um acúmulo sistemático, enciclopédico, de referências,
[00:07:29] mas ali houve aquilo que contraria uma tese da história da ciência, de que a sociedade
[00:07:34] escravista inime a inovação científica e tecnológica.
[00:07:38] Em Alexandria a gente vê ao contrário, a escravista, como todo mundo greco-romano,
[00:07:42] todo mundo mediterrâneo, na idade do ferro, é crescentemente escravista, mas o pensamento
[00:07:47] experimental ali floresceu.
[00:07:49] Isso significou, com Heratóscenes, por exemplo, no século II, a se calcular a circunferência
[00:07:55] da Terra, que ele arbitrou por um método completamente empírico, contratou um geômetra, que na ocasião
[00:08:00] é alguém que sabe medir a Terra com passos, jardas, para calcular a projeção da sombra
[00:08:05] entre Mêntes e a costa, que hoje eu caio, e a costa do Mediterrâneo, e ele, com base
[00:08:10] nessa projeção de sombra, fez uma triangulação usando o teorema de Thales e calculou que
[00:08:15] naquele ponto a circunferência da Terra é 40 mil quilômetros, e de fato é 40 mil
[00:08:20] e oito quilômetros, praticamente no acerto, na mosca, ou como Aristarco de Samos, que
[00:08:27] até hoje surpreende, quem desconhece essa realização, que é discutida no filme Hipátia
[00:08:32] de Alexandria, quando ele formula um sistema heliocêntrico.
[00:08:35] Ele é superado pelo sistema de hiptolomeu e superado por uma questão cultural e política
[00:08:41] do Império Romano.
[00:08:42] A Alexandria, de Hipátia de Alexandria, é
[00:08:44] epitolomaica, eles tratam o sistema de Aristarco como uma heresia científica, mas ele ainda
[00:08:50] é documentado, é comentado.
[00:08:52] Então havia isso ali, esse encontro de geometria, matemática e astronomia, e a própria Hipátia,
[00:08:58] caminhando para o nosso objeto central, era, antes de mais nada, matemática.
[00:09:03] Ela realizou uma série de comentários sobre obras matemáticas canônicas, escreveu tratados,
[00:09:09] comentando obras, ao que tudo indica, não produziu nada original, não avançou em nenhum
[00:09:14] fato relevante, em um paradigma novo, mas tinha um poder didático imenso, uma presença
[00:09:20] que impressionava os contemporâneos, o que nós percebemos, porque nas várias fontes
[00:09:24] reverbera essa impressão de encanto didático com ela.
[00:09:28] A biblioteca tinha o que modernamente a gente chama de uma universidade associada, o que
[00:09:34] tinha a volta da biblioteca?
[00:09:36] Era um complexo, a biblioteca era o lugar onde estavam depositados em prateleiras, estojos
[00:09:42] com os pergaminhos, com os pateiros, com os rolos, em volta de um bílico, que é aquela
[00:09:48] madeira que está ao centro, enfim.
[00:09:50] Ali havia uma coleção de ambição universal, nas boas bibliotecas americanas.
[00:09:55] Mas associado a isso, tinha salas de aula, o equivalente são os salas.
[00:09:59] Ali havia já cenários de leitura e discussão na própria biblioteca, mas junto à biblioteca
[00:10:04] havia o museu, que não era guarda de acervo, como o nosso museu moderno, de Audrovande
[00:10:08] em diante.
[00:10:09] É o museu casa das musas, ou seja, conexão com o conhecimento, e logo debate com o conhecimento.
[00:10:15] Como esses dois espaços exauriram a sua capacidade física, passou-se a usar a partir do século
[00:10:21] segundo um templo de serapes, o serapeu, como um anexo da biblioteca também.
[00:10:27] Que aparece no filme do amenado.
[00:10:29] Comunais coleções de livros, a gente está falando aqui de coleções realmente descomunais
[00:10:33] para os padrões demográficos e autorais da época.
[00:10:36] Estamos falando de uma coleção que pode ter chegado no seu apogeu a 700 mil exemplares,
[00:10:43] não títulos.
[00:10:44] Havia muitos títulos, com milhares de cópias destinados, enfim, uma leitura ampla.
[00:10:48] É, cada papel dá mais ou menos umas 10, 12 páginas de um livro de hoje.
[00:10:52] Então a especulação científica, de natureza filológica, ou astronômico, geométrica,
[00:10:57] matemática, se dava no museu, claro, circulando entre biblioteca, o serapeu e o museu.
[00:11:03] E a parte disso, como era uma cidade próspera, também em ambientes privados, teatros, como
[00:11:09] é o caso da própria Ipatia, que não era uma docente do colégio, do corpo de professores
[00:11:15] da biblioteca.
[00:11:16] Embora seja filha do Teon, que é o último grande diretor da biblioteca, um grande matemático
[00:11:22] também, mas as fontes mostram que ela ensinava na sua casa ou em outros ambientes da cidade
[00:11:28] de Alexandria.
[00:11:30] E rapidamente ela era uma escola, um círculo privado de filosofia.
[00:11:32] E os clientes eram jovens que vinham do mundo inteiro, ou da região.
[00:11:36] De Atenas, de Constantinopla, de Roma, de Ríbia, que era uma região importante.
[00:11:40] De Antioquia, de Levante.
[00:11:42] Mas tem que falar um pouco mais sobre o Teon, o Teon como comentarista, que eles eram basicamente
[00:11:46] exegetes, eles comentavam textos e traduziam e arrumavam as edições.
[00:11:49] Ele foi o cara que editou e legou para nós a edição mais usada, durante 1500 anos,
[00:11:54] das obras de Euclides, que é um dos livros mais publicados.
[00:11:57] Depois da Bíblia, depois da literatura clássica, que forçou o seu livro de matemática em
[00:12:03] todas as escolas até o século XIX.
[00:12:05] E ainda é muito bom.
[00:12:06] Tem todos aqueles furismas e axiomas, como ainda a reta dos pontos, da linha, é tudo
[00:12:11] organizado assim.
[00:12:12] E esse trabalho de Euclides, que é a extensão, 13 volumes, o Teon organizou e a versão que
[00:12:16] se usa é a dele.
[00:12:17] E Euclides fez essa obra em Alexandria.
[00:12:19] Ele foi mais um, assim como Galeno, na Medicina, e o trabalho do Teon ele era diretor, um dos
[00:12:24] úteis diretores, do Museu, que quando falou é a Casa das Musas, o local da inspiração,
[00:12:29] mas é um nome para uma universidade, vamos dizer assim, da época, centro de interação,
[00:12:33] de pesquisa, enfim, um pouco de tudo.
[00:12:35] Tu encontra na reverência que a biblioteca do Museu era a maior, que foi queimada no
[00:12:39] incêndio, teve dois grandes incêndios, um antes do, eu não sei qual era o imperador
[00:12:45] de Euclides, eu não sei, teve um ataque.
[00:12:47] Foi o Aureliano.
[00:12:48] A Aureliano, que queimou toda a cidade, e depois o Julio César acidentalmente ao Botafogo
[00:12:51] no porto, no ano 55, queimou também tudo, depois teve mais, teve cinco grandes incêndios.
[00:12:57] O primeiro do César, depois da Aureliano, são os mais importantes.
[00:13:01] De forma que essa biblioteca do tempo de Serapis era considerada biblioteca filha, ela era
[00:13:05] menor, eles falavam que tinha até 50 mil volumes, 71 mil volumes.
[00:13:08] No filme é mostrado ela como uma biblioteca, mas já bem menor que a original, na série
[00:13:14] Cosmos é mostrada uma biblioteca bastante mais volumosa, mas na verdade quando o filme
[00:13:19] O que acontece entre 391 e 415, virado do século IV para o século V, praticamente
[00:13:27] não tem a biblioteca principal, tem o tempo de Serapis sim, que é destruído precisamente
[00:13:31] num episódio em 391, que está mostrado no filme, mas ali foi uma fusão, uma licença
[00:13:36] artística que foi colocada, de fazer a distribuição do tempo com a distribuição da biblioteca
[00:13:40] de Alexandria.
[00:13:41] Por que deveria haver esses livros?
[00:13:42] Não sei se ali ou ali perto, mas é uma coisa, é um blend de licença artística, ficou
[00:13:47] muito legal.
[00:13:48] É como uma imagem histórica, é importante porque ilustra que na época de Teodósio
[00:13:53] I, que vem a ser o avô do Teodósio II, que é o imperador a época da morte do embate
[00:14:00] em 415, mas em 391 é o Teodósio I, pai do Anorius e Arcádios, então é com eles que
[00:14:05] se faz a divisão do Império do Oriente e do Ocidente, e o Oriente veio com o Arcádio.
[00:14:09] É um momento muito importante nessa história, a gente se divide todo o império.
[00:14:12] O Teodósio é quem realmente intensifica a perseguição e a destruição do patrimônio
[00:14:18] greco-romano, a destruição dos templos, o encerramento dos festivais, que eram cristãos,
[00:14:26] militantes.
[00:14:27] A gente tem que contar que o Império Romano virou cristão, com Constantino, né?
[00:14:34] Nunca o cristianismo foi adotado como a religião oficial do Império Romano, aí tem um erro
[00:14:39] histórico muito comum, um sofismo histórico, que atribui a esse período do Teodósio a
[00:14:44] adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano.
[00:14:47] Isso nunca ocorreu, nunca ocorreu, nem por edito, nem por diplomacia, nem aparece na retórica
[00:14:52] do Império, mas o que ocorreu foi uma defesa assumida por Constantino e simultânea uma
[00:14:58] criminalização do que eles chamavam as superstições, que envolvia todas as religiões não cristãs.
[00:15:04] Inclusive a judaica, que era bastante…
[00:15:06] E no caso do Egito, um imbrólio de crenças híbridas, mais antiga de crenças de Osíris,
[00:15:12] até uma recente, que é o culto de Serapis, que é uma fusão de culto de Zeus.
[00:15:16] Os zoroastrismos, tem várias religiões da época.
[00:15:19] Então há esse crescimento que começa com Constantino e que é uma parte documentada
[00:15:23] no Códex Justinianeus, no livro 16, onde tem passo a passo a criminalização da atividade
[00:15:29] ritual, primeiro da esfera pública para privada, depois em momento algum é possível
[00:15:35] o culto, até que em 539 o Justiniano lança o último Egito condenatório em que é proibido
[00:15:42] pensar e sonhar com os deuses antigos.
[00:15:45] Chama boa, polícia do pensamento.
[00:15:48] Esse mesmo Justiniano, dez anos antes, havia fechado a biblioteca de Atenas, que tinha
[00:15:53] então sete sábios, eles emigram, juntam o que sobrou da biblioteca no naveu, passam
[00:16:01] um pequeno período em Chipre, mas são ali também perseguidos, e por fim se radicam
[00:16:06] em Haram, que é uma comunidade, uma cidadezinha muito antiga, nas margens de Eufraques, onde
[00:16:11] estabeleceram o grande centro acadêmico do medieval islâmico.
[00:16:15] Então ali, sim, Euclides foi ensinado, ali Arquimedes foi ensinado, ali Platão foi ensinado
[00:16:21] e Galeno foi ensinado, porque os árabes aprofundaram o trabalho do Galeno, então a vantagem acadêmica
[00:16:28] que os árabes adquirem na Idade Média veio desse legado, não de Alexandria, mas da transposição
[00:16:34] da biblioteca de Platão basicamente, biblioteca de academia, para a cidade de Haram.
[00:16:39] Haram é onde hoje em dia?
[00:16:41] Haram, tem esse mesmo nome.
[00:16:42] Não, mas qual é o…
[00:16:43] Síria.
[00:16:44] É da Síria.
[00:16:45] Essa é a academia de Atenas e a mesa é fundada por Platão, que durou 600 anos também.
[00:16:51] Não, mais de mil anos.
[00:16:52] Mais de mil anos, não vem da praia?
[00:16:53] Sim, foi em 3 anos, em volta de 390 anos.
[00:16:55] E vai até o ano 500 e tem quase 600 anos.
[00:16:58] Durou mais do que a de Alexandria, que durou na prática 700 anos.
[00:17:01] Estão falando de projetos maiores do que a National Library, por enquanto.
[00:17:05] É, projetos que rivalizam com a história das nossas universidades modernas.
[00:17:08] Isso, exatamente.
[00:17:09] A gente fala de mil anos.
[00:17:11] Tal e tal.
[00:17:12] Farbando em 356.
[00:17:13] Bolonha em 1093.
[00:17:14] Coimbra um pouco mais antiga.
[00:17:15] Tem todo mundo que disputa.
[00:17:16] É um debate antigo.
[00:17:17] São anos de 900 anos.
[00:17:18] Mais ou menos o mesmo arco, não?
[00:17:19] Histórico.
[00:17:20] Espero que não signifique que estamos chegando perto do fim, mas de agora há alguns sintomas
[00:17:21] que estamos chegando perto do fim, mas de agora há alguns sintomas
[00:17:22] que estamos chegando perto do fim, mas de agora há alguns sintomas
[00:17:24] Que não significa que estamos chegando perto do fim, mas de agora há alguns sintomas.
[00:17:28] Só intolerância religiosa já temos.
[00:17:31] Universidade temos.
[00:17:32] Alguns já estão complicando.
[00:17:33] Queria saber um pouco do drama da biblioteca.
[00:17:37] Assim, o caldo que leva esse drama é o crescimento de um misticismo muito forte nos cristãos
[00:17:44] do Egito, que divergem do cristianismo de Constantinopla, mas que desde cedo tem uma
[00:17:50] atitude muito forte.
[00:17:51] É ali que surge o masticismo no Santo Antônio.
[00:17:54] A história do celibato começa por ali também, que até então não existia.
[00:17:59] Essa noção de recolhimento de um cristianismo efetivamente militante é forte na Síria
[00:18:04] e no Egito.
[00:18:06] E que, claro, faz dali uma região especialmente traumática para a história cultural da
[00:18:12] Antiguidade Tardia.
[00:18:13] Porque também o Egito era o depositar das tradições mais antigas que vinham do Egito
[00:18:18] faraônico, que se tornaram um monumento na época helenística.
[00:18:22] Os fatores que ali conflituavam estavam num grau máximo.
[00:18:26] A tradição científica, a presença religiosa tradicional grega-romana e esses fundamentalistas
[00:18:31] cristãos.
[00:18:32] A época de Hipátia, o protagonismo de um bispo, que é teófilo, esse teófilo era
[00:18:38] um grande militante contra o paganismo.
[00:18:40] Nessa época era uma retórica de conflito, de debate muito forte, muito intensa.
[00:18:45] É um lugar que a ciência também era considerada parte do pacote do paganismo também.
[00:18:50] Claro.
[00:18:51] Porque a ciência era uma alternativa ao conhecimento religioso, né?
[00:18:55] Logo ele podia ser considerado…
[00:18:57] Essa é uma leitura dos fatos.
[00:18:59] E também do ponto de vista político quem praticava essa ciência era a aristocracia
[00:19:03] grega-romana.
[00:19:04] Então uma aristocracia de língua e cultura grega.
[00:19:08] Então tem um componente social também e que exercia liderança na cidade.
[00:19:13] Hoje a Boulay, que é o conselho, nomeava os principais oficiais, compunha com a elite
[00:19:20] imperial a essa época em Constantinopla.
[00:19:23] Mas o Constantino já iniciou uma política dotando os bispos de poder.
[00:19:27] Ele usou a estrutura fisicopal como um amparo administrativo para o Império Romano, em
[00:19:32] boa medida.
[00:19:33] Exatamente contra essas aristocracias locais.
[00:19:35] Então um colapso do modo de cidade, do modo da cidade antiga.
[00:19:39] E esses bispos as chefiavam o exército?
[00:19:42] Bom, alguns tinham autoridades sobre o exército imperial romano delegado pelo imperador.
[00:19:47] Outros tinham grupos de militantes como o caso do Teófilo, que montrou um grupo,
[00:19:52] os parabolani, que é um grupo de ativistas, cristãos, como se fosse uma milícia.
[00:19:58] Mas não eram uniformizados, não eram armados.
[00:20:01] Não, era uma milícia civil, não era o exército romano.
[00:20:05] Pelo contrário, estavam sendo muitas vezes controlados pelo exército romano.
[00:20:10] Mas com uma certa tolerância, porque eram cristãos.
[00:20:13] E nessa época a diretriz imperial de Constantinopla é essa.
[00:20:18] Usar a força do Império contra a superstição antiga, como assim chamava.
[00:20:23] Então esse é o calto.
[00:20:24] E esse Teófilo intensifica o combate ao paganismo antigo em Alexandria, o que significava atacar
[00:20:29] também o teatro, a música, a vida cultural que havia nessa cidade.
[00:20:35] O momento em que nasce a Hipátia, nasce possivelmente em 370 d.C.
[00:20:40] Portanto, sete anos depois da morte do último imperador pagão, Juliano,
[00:20:45] quando o Império Romano já é um império dirigido por cristãos fundamentalistas,
[00:20:49] progressivamente combativos, claro, provocando…
[00:20:53] Processo de radicalização.
[00:20:54] De radicalização, que se estende até o século VI com Justiniano.
[00:20:59] Mas ali é o turning point, em 394, que o teodósio proíbe as Olimpíadas.
[00:21:04] Então, com isso, ele se assa inclusive o calendário tradicional grego, saqueio.
[00:21:09] Claro, Delfos já havia sido saqueado várias vezes, mas o restante que havia sobrado,
[00:21:14] os grandes santuários, Delos, Corinto, Nemeia e Olímpia em particular,
[00:21:18] são transformados em ruínas dentro do Império Romano.
[00:21:22] Alexandria sobrevive pelo prestígio que tinha, pela força imensa desse acervo que ela adquiriu.
[00:21:28] E Atenas, claro, pela tradição, que ainda era a Sorbonne do mundo antigo.
[00:21:32] Então, uma boa formação começava para Atenas e que se concluía em Alexandria.
[00:21:36] E esse bispo Teófilo teve um sobrinho que seguiu o mesmo programa,
[00:21:42] a mesma cena, que é o Cirilo de Alexandria.
[00:21:44] Esse cirilo intensifica, ele agrava a perseguição.
[00:21:48] E nesse cenário entra em disputa frontal com o prefeito de Alexandria,
[00:21:53] o prefeito Orestes, que é nomeado por Constantinopelo e que é um aristocrata
[00:21:57] de educação greco-romana sofisticado do círculo de Ipatia.
[00:22:02] Era aluno dela.
[00:22:03] Aluno dela, como muitos outros.
[00:22:05] Ela tinha alunos cristãos.
[00:22:07] O próprio Orestes se transformou em cristão, mas o mais famoso era Sinésio,
[00:22:11] que era amigo pessoal do Orestes.
[00:22:12] Sinésio de Sirene, que era um aluno grande.
[00:22:14] Foi bispo de Alíbia, né?
[00:22:15] É, de Sirene.
[00:22:16] Não acompanhou o Cirilo nesse radicalismo, ou seja, manteve uma atitude de tolerância, de compassividade.
[00:22:21] Ipatia era educada no misticismo neoplatônico.
[00:22:24] Tem como doutrina as teses de Plotinus, um filósofo nascido no Egito,
[00:22:29] formado em Alexandria e que depois percorreu o Oriente,
[00:22:33] bom tempo, absorveu boa parte das doutrinas orientais,
[00:22:37] especialmente do Budismo,
[00:22:38] converteu isso em mística filosófica de inspiração platônica,
[00:22:42] mas com outro modelo de realização da unidade que ele buscava
[00:22:46] e que termina sua vida em Roma, com enorme prestígio.
[00:22:50] Ele escreve no início do século III.
[00:22:52] Até a meia do século III ele está ativo, está 250, 260, por aí.
[00:22:55] O seu grande herdeiro, que é Porfirio, escreveu a biografia dele e transmitiu esse legado
[00:23:00] no qual há uma visão de busca da unidade,
[00:23:03] top hen, ou uno,
[00:23:05] e construção de um sistema que resolve o problema maior do platonismo,
[00:23:09] que é como as ideias se comunicam com o mundo empírico, com o mundo material.
[00:23:12] Logo, esse mundo material, o mundo corpório, é degradado,
[00:23:16] é poluição, é efêmera, é transitória, é passional.
[00:23:19] Há uma polarização, que é platônica, entre ideia e corpo, entre espírito e matéria,
[00:23:24] que está nesse sistema, que é um sistema extremamente místico
[00:23:27] e que entra em conflito com o cristianismo
[00:23:29] e entra em conflito perplexo com o que eles acusavam, então,
[00:23:33] como o materialismo dos cristãos,
[00:23:35] que os cristãos eram apegados ao corpo.
[00:23:37] Tinha a ideia do Jesus final, então há uma mudança da cultura funerária,
[00:23:41] que a inumação passa a ser adotada,
[00:23:44] ela já vinha sendo adotada por uma elite romana, por um outro fator,
[00:23:48] retrústico, mas nesse momento cresce,
[00:23:50] mas esses filósofos não entendiam o apego dos cristãos ao corpo,
[00:23:53] eles chamam a noção de pureza, de ideias,
[00:23:56] mas esse legado da platônica foi transmitido para a teologia patrística,
[00:24:00] então há um diálogo entre o Plotino e, sobretudo, Origenes, Eusébio e, depois, Agostinho,
[00:24:06] que constroem os ideais teológicos da patrística com inspiração platônica,
[00:24:10] e aí que situa a ipátia,
[00:24:12] ela transita num ambiente místico,
[00:24:14] místico, em que há um termo que o cristianismo soube adotar,
[00:24:19] mas que o Cirilo recusou, porque havia um debate político,
[00:24:23] um debate político imediato,
[00:24:25] que era quem dominava aquela cidade complexa numa luta de facções,
[00:24:29] com judeus, elite greco-romana e militantes cristãos,
[00:24:32] e, ao par disso, uma população tradicional,
[00:24:34] nutrida por uma superstição egípcia, greco-romana.
[00:24:37] Está muito bem mostrado no filme do Homem Nábar, que chama Águara,
[00:24:40] que do Brasil é chamado Alexandria,
[00:24:42] que é estrelado pela Raquel Weiss,
[00:24:45] então nós temos aqui uma ipátia, além de tudo,
[00:24:48] uma linda protagonista, maravilhosa e jovem,
[00:24:51] mas era o que é muito interessante no filme, que é belíssimo visualmente,
[00:24:55] e muito interessante o termo de roteiro,
[00:24:57] embora talvez não tão preciso historicamente,
[00:24:59] porque não importa, porque a licença poética é possível sempre,
[00:25:02] ele mostra exatamente esses conflitos que tu mostrava,
[00:25:05] cada pouco se rebenta um negócio,
[00:25:07] é uma população atacando e atrocidando outros,
[00:25:10] é uma agressividade, é uma efervescência constante.
[00:25:13] No filme tinha essa clara disputa entre a ciência e o obscurantismo.
[00:25:17] Isso é uma ênfase.
[00:25:19] Essa ênfase aqui na verdade não tem muito fundamento histórico.
[00:25:23] É, não, exatamente, mas o que eu entendo,
[00:25:25] o que o Chico estava falando, que é uma coisa muito mais complexa,
[00:25:28] uma luta muito mais…
[00:25:29] Há um episódio específico aí,
[00:25:31] uma idiosincrasia da história do cristianismo,
[00:25:34] que é o fato desses dois vestos, Teófilo e Cirilo,
[00:25:37] terem assumido uma postura similar dos fundamentalistas contemporâneos,
[00:25:41] de combate realmente, milícias, então…
[00:25:45] E de desejo, de poder político.
[00:25:47] De poder político, de domínio, de hegemonia.
[00:25:50] E aí o fato idioma, que se tornou uma das maiores vergonhas
[00:25:53] da história do cristianismo, talvez superada só pela condenação
[00:25:56] do Jordano Bruno em 1600,
[00:25:59] que foi a execução da hepátia com requintes de crueldade,
[00:26:02] ela é raptada quando passeava pelas ruas de Alexandria
[00:26:06] por esses milicianos enfurecidos,
[00:26:08] é levada por uma igreja, e nessa igreja ela é esfolada,
[00:26:12] esquartejada, e depois…
[00:26:14] Esfolada com conchas, com conchas,
[00:26:16] eles arrancaram a perna dela viva primeiro e depois…
[00:26:19] E os restos dela incinerados num outro templo afastado da cidade.
[00:26:23] O detalhe desse relato já é da época dela,
[00:26:25] ou seja, provavelmente foi isso que aconteceu mesmo.
[00:26:27] No filme mostra, por exemplo, grupos judeus atacando cristãos,
[00:26:30] cristãos atacando gregos, gregos atacando,
[00:26:32] então se organizando e retalhando em sequência,
[00:26:35] e ele mostra essa forma belíssima, estética,
[00:26:37] isso foi filmado em Malta, que é interessante,
[00:26:39] porque pega muito aquela luminosidade dessa região,
[00:26:41] que é muito particular, o filme é belíssimo, imperdível…
[00:26:44] É, do ponto de vista do desenho plástico,
[00:26:46] ele usa como referência as imagens o pintor Flamengo,
[00:26:49] naturalizado em inglês, Lawrence Almatademan.
[00:26:51] Então as cenas do interior são praticamente iguais…
[00:26:54] Os quadros, a numerosidade.
[00:26:55] Às quadros em que ele mostra bibliotecas, cônciles,
[00:26:57] e esse foi um guru junto com Waterhouse,
[00:27:00] do neopaganismo na segunda metade do século XIX.
[00:27:03] E ele usa exatamente a luz Almatademan,
[00:27:05] que é essa luz mediterrânica, aberta,
[00:27:07] então muito…
[00:27:08] Mas o Homem Nábar admite, inclusive,
[00:27:09] que também teve influência do Carl Sagan
[00:27:11] nessa reconceição da biblioteca,
[00:27:12] e ele tenta botar na perspectiva cósmica,
[00:27:14] porque ele começa a cena, assim, do espaço, a terra girando,
[00:27:17] e os gritos de massacres sucessivos desses grupos se matando e tal,
[00:27:20] e vai chegando umas formiguinhas filmadas de cima, né?
[00:27:24] Agora é importante adivinhar o seguinte,
[00:27:26] a ciência e com ela o paganismo greco-romano,
[00:27:30] não morreram de morte morrida,
[00:27:32] morreram de morte matada.
[00:27:33] Eles foram criminalizados, perseguidos,
[00:27:36] perseguidos com sentença de morte.
[00:27:38] Então, assim que surge um criptopaganismo,
[00:27:41] como resultado disso,
[00:27:42] que vai amalgamar, vai produzir uma junção,
[00:27:45] um acúmulo de todas as místicas antigas,
[00:27:47] órficas, pitagóricas, caldáicas, astrológicas,
[00:27:50] que evolui com uma tradição hermética oculta na Idade Média
[00:27:53] e volta a florescer na Renascença,
[00:27:55] por outro lado, também,
[00:27:56] há um recolhimento da esfera pública da ciência,
[00:27:59] e na Europa, um colapso dessa esfera,
[00:28:01] um colapso da leitura.
[00:28:02] E também a destruição do conhecimento.
[00:28:04] A destruição do conhecimento.
[00:28:05] O currículo é perdido.
[00:28:07] A ideia clássica é abandonada.
[00:28:09] Certas irreversibilidades, né?
[00:28:10] Uma vez que você tem um volume de alguma coisa,
[00:28:13] um único volume de alguma coisa,
[00:28:14] e você destrói ele, não existe mais.
[00:28:16] No filme, ele ajuda a fim da biblioteca com o fim dela,
[00:28:19] eu vejo como duas metáforas simultâneas,
[00:28:21] o fim da cultura clássica, o apagamento dela,
[00:28:23] a tentativa ostensível de fazer,
[00:28:24] e com a morte dela, de forma raivosa,
[00:28:27] o fim de uma atitude indagatória, curiosa,
[00:28:30] que está na raiz da ciência,
[00:28:31] embora ela não fosse empirista, não é?
[00:28:33] No filme, ela é até mostrada um pouco,
[00:28:35] fazendo experimentos, mas isso é um dos absurdos.
[00:28:37] Os naplatônicos não faziam isso, era tudo…
[00:28:39] De alguma forma, ela tinha tudo errado, né?
[00:28:41] Ela fazia ciência, ela era mulher, ela…
[00:28:43] Tudo errado.
[00:28:44] Isso é considerado o início da Idade Média.
[00:28:46] A mulher voltou ao lugar dela, né?
[00:28:48] Bom, aqui é um vetor próprio da Idade do Ferro,
[00:28:51] passagem da Idade do Bronze para o Ferro,
[00:28:53] tem como principal condição isso,
[00:28:55] a democratização do acesso às armas,
[00:28:58] e logo a luta, a guerra civil,
[00:29:01] que produz a política, ou seja,
[00:29:03] a república, a democracia,
[00:29:04] mas também significa o colapso progressivo
[00:29:07] da condição feminina,
[00:29:08] que o cristianismo trata de consumar
[00:29:10] demonizando a sexualidade, demonizando
[00:29:12] a condição feminina em si,
[00:29:14] e não mais só o papel social da mulher,
[00:29:16] e nisso a hipátia é um último espasmo,
[00:29:19] quase insólito, do que foi uma presença
[00:29:22] possível, não frequente, mas possível,
[00:29:24] da mulher no cenário público e intelectual,
[00:29:27] e também acadêmico do universo graco-romano.
[00:29:30] Então, esse foi o programa Fronteiras da Ciência,
[00:29:32] hoje a gente discutiu um pouco sobre Alexandria,
[00:29:34] sobre essa figura extraordinária do mundo antigo,
[00:29:37] a hipátia, o filme…
[00:29:39] Que é um excelente filme que recomendamos.
[00:29:41] O cenário da Antiguidade e Tardia,
[00:29:42] o colapso da cultura antiga.
[00:29:44] É importante dizer que esse filme,
[00:29:45] que apesar de ser um filme com algumas
[00:29:46] imprecisões históricas, ele reúne
[00:29:48] com metáforas estéticas e culturais
[00:29:50] elementos centrais da nossa cultura,
[00:29:52] e eu considero um dos meus, certamente,
[00:29:53] dez dos melhores filmes que eu conheço.
[00:29:55] Tivemos como convidado o Francisco Marshall,
[00:29:57] do Departamento de História aqui da URIGS,
[00:29:59] o Jorge Keufel, do Departamento de Biofísica,
[00:30:01] e eu, Marco, de Arte, do Departamento de Física da URIGS.