#12 – Filosofia e Cultura Pop (com Charles Feitosa)
Resumo
O episódio apresenta a proposta de Charles Feitosa para a filosofia pop, retomando sua distinção entre um “pop 1” (associado à arte pop e a uma atitude crítica e bem-humorada diante do cotidiano) e um “pop 2” (a simplificação rápida e comercial da filosofia, aproximada de formatos de autoajuda). Charles explica que sua preocupação não é “facilitar a qualquer custo”, mas retirar a filosofia de uma torre acadêmica sem perder densidade, tratando o tempo presente e sua cultura de massa.
A conversa explora como a filosofia costuma subordinar a imagem ao conceito — usando obras e alegorias como meros exemplos — e propõe outra relação: conceito em parceria com a imagem, deixando-se guiar por ela. Nesse ponto, Charles relaciona a inspiração na arte pop (como Andy Warhol) à crítica das hierarquias entre “alto” e “baixo”, e ao uso do humor como recurso para “rir e pensar” ao mesmo tempo.
Em seguida, o debate desloca-se para corpo, performance e a herança da dicotomia cartesiana. Charles argumenta que certas tecnologias e narrativas (design do corpo, inteligência artificial e ficções de “upload” da mente) parecem romper a separação mente/corpo, mas frequentemente a reafirmam por inversão: de um lado, a desmaterialização do corpo; de outro, uma fisiologização mensurável e controlável. Filmes como Matrix e Interestelar entram como exemplos de como imagens futuristas podem carregar modelos filosóficos antigos.
Na parte final, o tema do simulacro aparece como chave para pensar cultura contemporânea sem nostalgia apocalíptica. Charles critica leituras conservadoras que lamentam a perda do “original” e defende que a inflação de imagens pode ter ganhos — como novas formas de partilha do saber e deslocamentos de poder — ilustrando com exemplos cotidianos (unicórnio, Dom Quixote/Cervantes) e com a circulação digital de livros. O episódio encerra com indicações de autores contemporâneos, destacando Paul Preciado e Nick Land como caminhos férteis para pensar política, corpo e cultura hoje.
Indicações
Books
- Filosofia com Arte — Livro de Charles Feitosa mencionado na apresentação como parte de sua produção, ligado às suas pesquisas em estética, imagem e performance.
- Simulacros e Simulação — Livro de Jean Baudrillard citado como referência para discutir simulacro, estetização da vida cotidiana e leituras críticas da contemporaneidade.
- Manifesto Contrasexual — Livro de Paul Preciado recomendado explicitamente por Charles como leitura urgente e densa sobre gêneros e política, ligado a uma filosofia que experimenta o contemporâneo.
Movies
- Her — Filme citado como exemplo de narrativa sobre inteligência artificial; Charles o elogia como excepcional, mas observa que ainda pode ficar preso a certas dicotomias.
- Chappie — Filme mencionado na discussão sobre inteligência artificial e ficção científica, como exemplo de narrativas recentes ligadas a mente, máquina e corpo.
- Matrix — Usado como exemplo de ficção científica com estética tecnológica que retoma um modelo filosófico antigo, associado à oposição platônica entre mundo aparente e mundo verdadeiro.
- Interestelar — Citado para discutir limites entre racionalidade científica e uma lógica que Charles descreve como próxima do religioso, quando o filme avança em temas de tempo, espaço e dimensões.
- Playtime — Mencionado como possível exemplo de filme que poderia oferecer perspectivas alternativas para escapar dicotomias, sem depender de alta tecnologia de efeitos especiais.
- A Pele que Habito — Filme lembrado na conversa como obra que pelo menos questiona certos enquadramentos sobre corpo e imaginação.
People
- Paul Preciado — Indicado por Charles como um dos nomes centrais do momento, associando densidade filosófica, urgência política (gênero) e experimentação no próprio corpo.
- Nick Land — Indicado por Charles como autor com trabalhos sobre Nietzsche e a proposta de um “materialismo libidinal”, como outra via para escapar dicotomias.
- François Zourabichvili — Mencionado por Charles como alguém que lhe deu uma dica importante sobre o contexto em que Deleuze usa a expressão “filosofia pop”, ajudando a situar o termo nos anos 60.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Abertura e apresentação dos participantes — O episódio abre com a vinheta do Não Obstante e a apresentação de Marcos Beccari e Rafael Ankara. Em seguida, Charles Feitosa é apresentado, com breve currículo e áreas de pesquisa (estética, corpo, imagem, performance, cultura brasileira e cultura pop). É introduzido o tema central: relações possíveis entre filosofia e cultura pop.
- 00:02:23 — Recado sobre parceria e financiamento — Rafael explica a parceria do Não Obstante com o Filosofia do Design e o Anticast, e como o Patreon sustenta a produção. Marcos reforça o convite para contribuir e assinar o feed do podcast. Após o recado, a conversa segue para a pauta.
- 00:04:17 — O que é filosofia pop: pop 1 e pop 2 — Marcos introduz o termo “filosofia pop” e a distinção feita por Charles entre dois sentidos: um ligado a pensar o tempo presente (incluindo cultura pop) e outro ligado à facilitação/simplificação da filosofia. Charles conta como encontrou a expressão em Deleuze e como precisou contextualizá-la historicamente (pop como arte pop e música alternativa). Ele critica formatos excessivamente rápidos e simplificadores, aproximando-os de autoajuda.
- 00:10:25 — Conceito e imagem: parceria em vez de subordinação — Charles descreve a prática filosófica tradicional de usar imagens como exemplos subordinados ao conceito, empobrecendo a polissemia das obras. Ele propõe uma relação em que o conceito faz parceria com a imagem e se deixa orientar por ela, em vez de impor sentido. A inspiração na arte pop (como Andy Warhol) aparece como um modo de embaralhar hierarquias entre alta e baixa cultura e misturar humor com pensamento crítico.
- 00:14:07 — Sofistas, performatividade e crítica às hegemonias — A conversa aproxima a filosofia pop de aspectos “originários” da filosofia, como a dimensão performática dos sofistas (corpo, encenação, máscaras). Charles propõe a ideia de “transversão” como alternativa a discursos meramente reativos: em vez de só inverter hierarquias (conceito/imagem, pensamento/corpo, masculino/feminino), trata-se de embaralhá-las e criar outras possibilidades. Ele diferencia essa postura de projetos estritamente “contra” (como uma contra-história simples).
- 00:21:03 — Corpo, tecnologia e a dicotomia cartesiana hoje — Marcos levanta a discussão sobre design do corpo, bioengenharia e narrativas de ficção científica que sugerem armazenar mente/consciência em bancos de dados. Charles responde que muitos desses modelos parecem romper a dicotomia mente/corpo, mas acabam reafirmando-a por inversão. Ele também comenta como essa separação atravessa o cotidiano (ex.: oposição entre “coração” e “razão”) e aparece como problema político e pedagógico.
- 00:31:03 — Duas tendências: desmaterialização e fisiologização — Charles descreve duas consequências da matriz cartesiana no contemporâneo: a desmaterialização do corpo (um “eu” imaterial que poderia ser armazenado) e a fisiologização/quantificação do corpo (genes, neurônios, mensuração e controle). Ele menciona alternativas filosóficas que tentam escapar dessas oposições, citando noções como o quiasma de Merleau-Ponty (a reciprocidade entre tocar e ser tocado). O cinema aparece como espaço onde essas tendências são reproduzidas ou problematizadas.
- 00:34:02 — Cinema e modelos antigos em imagens futuristas — O debate cita filmes para mostrar como narrativas tecnológicas podem carregar pressupostos platônicos/cartesianos. Matrix é apresentado como exemplo de alta tecnologia baseada na oposição “mundo falso” versus “mundo verdadeiro”. Interestelar é comentado como um filme que, ao avançar em uma lógica de física e dimensões, cairia em um funcionamento próximo de uma lógica religiosa; Her é elogiado, mas também visto como preso a certas dicotomias.
- 00:42:21 — Depressão, melancolia e patologização contemporânea — Marcos conecta corpo, prazer, tecnologia e estados intermediários de vida/morte, mencionando depressão e zumbis como imagens-limite. Charles pede mais calma na conexão e diferencia depressão (como nome recente) de questões antigas ligadas à melancolia. Ele discute a mudança histórica: de uma leitura de humores e equilíbrio corporal à medicalização contemporânea, e lembra também tradições que associavam melancolia a abertura criativa.
- 00:47:36 — Simulacro: crítica ao saudosismo do “sólido” — Marcos introduz o simulacro a partir de Baudrillard e critica leituras que exigem uma realidade “mais autêntica”, vendo nisso um pressuposto platônico. Charles rejeita a postura nostálgica e conservadora de autores que lamentam a perda do original (incluindo leituras depreciativas sobre o “líquido”), defendendo a necessidade de nuance: há perdas e ganhos. Ele destaca como tecnologias digitais podem ampliar a partilha do saber e deslocar relações de poder.
- 00:53:03 — Exemplos: livraria, unicórnio e Dom Quixote — Charles comenta o fechamento da livraria Da Vinci no Rio e contrasta a lamentação generalizada com um aspecto positivo da circulação digital de livros e do compartilhamento. Para pensar simulacro no cotidiano, ele usa o exemplo do “unicórnio” (imagem cultural forte sem referente real) e de Dom Quixote versus Cervantes (personagem vívido e autor sem imagem clara). O ponto é enfraquecer a autoridade automática do “real” sobre a cópia, sem cair em niilismo.
- 01:05:29 — Pensadores atuais e indicações finais — Marcos pergunta sobre filósofos contemporâneos e o aparente predomínio de leituras pessimistas do presente. Charles afirma ver aberturas em alguns autores e traz indicações menos óbvias: destaca Paul Preciado e seu trabalho sobre gênero e experimentação no próprio corpo, e menciona Nick Land e o “materialismo libidinal”. O episódio termina com agradecimentos, observações sobre a amplitude das perguntas e o lema de não inverter, mas “transverter”.
Dados do Episódio
- Podcast: Não Obstante
- Autor: Marcos Beccari
- Categoria: Society & Culture Philosophy
- Publicado: 2015-09-09T08:33:12Z
- Duração: 01:16:33
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/n%C3%A3o-obstante/5a6c7050-ab31-0132-307f-0b39892d38e0/12-filosofia-e-cultura-pop-com-charles-feitosa/0c7a8ee3-d03b-4218-8dcc-293c610a01c6
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Dados do Podcast
- Nome: Não Obstante
- Tipo: episodic
- Site: http://www.naoobstante.com/
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Transcrição
[00:00:00] Você está ouvindo, não obstante, um podcast sobre filosofia e outras ficções.
[00:00:12] Começando mais um Não Obstante, eu sou Marcos Beccari e hoje eu estou com meu parceiro do
[00:00:35] podcast Rafael Ankara. Olá a vocês. Tudo bom? Tudo já. Obrigado por ter topado. Para entrevistar o
[00:00:44] professor Charles Feitosa que está aí conosco, diga oi Charles. Olá Marcos, oi Rafael. Seja muito
[00:00:52] bem-vindo. Obrigado. A gente vai falar hoje sobre possíveis relações entre a filosofia e a cultura
[00:01:00] Então eu vou fazer uma breve descrição do Charles. Posso te chamar assim?
[00:01:10] Qualquer equívoco que eu comete, é só me corrigir. Então o Charles Feitosa é doutor
[00:01:17] em Filosofia pela Universidade Freiburg. Eu já não sei. Freiburg, no sul da Alemanha. E realizou
[00:01:29] o pós-doutorado em Filosofia na Universidade Potsdam, também na Alemanha. E na Universidade
[00:01:36] de Paris 8, na França. Atualmente é professor e pesquisador no programa de pós-graduação em
[00:01:43] artes cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, na Uni Rio. E é coordenador do
[00:01:50] Pop Lab, que é o laboratório de estudos em Filosofia pop. E autor entre outros livros de
[00:01:58] filosofia com arte, que saiu pela Ídio Ouro em 2004. Suas pesquisas são focadas em estética
[00:02:07] filosófica moderna e contemporânea, atuando principalmente nos temas relacionados ao corpo,
[00:02:13] a imagem, a performance, a cultura brasileira e a cultura pop em geral. Vamos passar rapidamente
[00:02:23] um recado antes de entrar propriamente na pauta. Você pode mandar o recado aí pra gente, Henkara?
[00:02:29] Posso. Então, o Não Obstante é uma parceria entre Filosofia do Design e o Anticast. Isso
[00:02:36] já acontece há uns 5 anos. O Não Obstante está com essa periodicidade toda e esse programa está
[00:02:46] sendo feito graças a essa parceria e pelo Patreon, que é o sistema de financiamento coletivo lá,
[00:02:53] que está mantendo o Anticast. E como funciona o Patreon? A pessoa doa lá um valor a partir de
[00:03:02] um dólar e doa mensalmente e vai recebendo recompensas de acordo com o valor doado. Então,
[00:03:09] tem várias categorias lá, eu dei uma conferida. Se as pessoas gostam da Filosofia do Design,
[00:03:17] dos outros programas que a gente está produzindo por causa disso, colaborem lá a partir de um dólar
[00:03:24] por mês e assim ajuda a gente a ter equipamento novo, a conseguir entrevistas novas, produzir
[00:03:32] coisas novas. Então, é isso aí. Exatamente. Contribua lá com o Patreon do Anticast,
[00:03:38] o link segue na postagem e assim a gente consegue manter e talvez aprimorar a qualidade do Não
[00:03:47] Obstante, esse podcast que você escuta agora e de toda a família do Anticast. Aliás, para quem
[00:03:53] ainda não assinou, assina o Feed do Não Obstante que daí você consegue receber os programas
[00:03:59] diretamente no seu leitor de feeds e enfim, seu smartphone e por aí vai. Tá certo? Então,
[00:04:06] vamos direto para a pauta agora.
[00:04:17] Professor Charles.
[00:04:19] Então, para quem pode falar?
[00:04:21] Afinal, o que é Filosofia Pop?
[00:04:24] Calma, calma. Vamos começar.
[00:04:29] O termo, para quem não sabe, ele parece que não é acadêmico, mas o Charles ele tem insistido no
[00:04:36] caráter, pelo menos parcialmente acadêmico, né? Porque foi o Charles Feitosa que levantou essa
[00:04:44] em 2001, num ensaio intitulado O que é Isto? A Filosofia Pop, embora um filósofo como Deleuze
[00:04:51] já tenha mencionado esse termo algumas vezes, né? Então, nesse ensaio o Charles ele distingue dois
[00:05:00] tipos de filosofia pop, né? Um tipo um que é no sentido de uma filosofia que envolve e reflete o
[00:05:09] seu tempo, inclusive a cultura pop, arte pop, e um pop 2 que estaria relacionado à facilitação
[00:05:16] da filosofia, como se fosse uma conversa para ampliar a repercussão, tipo um trabalho
[00:05:24] desenvolvido pelo Alain de Botton, né? Que é um filósofo francês aí, tem feito, enfim,
[00:05:30] alguns trabalhos como a filosofia do amor e umas coisas assim, tá certo? Então, Charles, eu imagino
[00:05:39] que você já tem explicado diversas vezes sobre isso, mas eu gostaria que você explicasse mais uma
[00:05:46] vez aos nossos ouvintes aqui o que seria essa filosofia pop que você promove e desenvolve.
[00:05:54] É ótimo, obrigado pela pergunta, pela oportunidade, era só essa citação que você fez, é super boa, já é antigo e
[00:06:04] deveria ser revisto e amadurecido, mas de fato lá eu lanço um pouco essa ideia de uma
[00:06:15] genealogia do conceito pop, porque quando eu vi essa expressão filosofia pop em Deleuze,
[00:06:23] eu não inventei o termo, eu roubei de Deleuze. E como ele diz que deve ser feito, mas ele nunca
[00:06:37] explicou direito o que seria, depois eu falo um pouco mais sobre isso, o que ele mencionou,
[00:06:44] mas além disso eu fiquei um pouco irritado, porque na verdade eu sou mais do red metal,
[00:06:51] do progressivo, acabou de morrer um baixista, é um baixista do Iez, do Iez, das bandas e tudo mais,
[00:07:00] escutei, eu fui no show do Rock in Rio e já soube. Você nunca foi afetado ao pop, enfim? Não, e sempre tive o pop como um certo inimigo,
[00:07:10] inclusive o pop, vamos dizer assim, e eu confesso que a minha primeira sensação foi de irritação,
[00:07:20] correndo um pouco atrás, tentando, conversando com algumas pessoas também que estudam Deleuze
[00:07:26] há algum tempo, finalmente eu recebi a dica excelente, foi até de um filósofo francês que escreveu
[00:07:33] vários textos sobre ele, foi aluno, um dos alunos predileitos de Deleuze, o François Zugabici Vili,
[00:07:40] que tem alguns livros traduzidos em português no Brasil, já faleceu, mas enfim, ele me deu a dica,
[00:07:45] o Deleuze disse isso na década de 60, não estava ainda essa história da cultura pop tal como a gente
[00:07:52] hoje associa a Michel Teló, Madonna, essa coisa comercial, simplicada, ele estava pensando, a referência dele era arte pop nos anos 50,
[00:08:03] e disse também que na França, na década de 60, pop era um termo meio genérico para falar da música
[00:08:11] alternativa, inclusive rock também, então precisava dar essa contextualização, e aí eu vi essa teoria
[00:08:17] que existe o pop 2, que é esse pop simplificador, comercial, especialmente na música, uma música
[00:08:26] muito rápida, de forma muito rápida, para consumo, facilmente esquecido, e um pop 1 que seria a arte pop,
[00:08:34] a partir dessa divisão do conceito pop é que eu comecei a pensar dois tipos possíveis de filosofia pop,
[00:08:42] uma filosofia pop 2, que seria também uma excessiva facilitação, simplificação, e aí não é exatamente isso que eu quero fazer,
[00:08:51] eu acho isso também um problema, porque acaba virando um pouco de alta ajuda, existe um livro que eu, no ano passado,
[00:09:00] dois anos atrás, fez bastante sucesso, que chamava Nietzsche para estressados, não sei se vocês chegaram a ver esse tipo,
[00:09:08] e isso aí é um bom exemplo de um livro de filosofia pop 2, entendeu?
[00:09:13] E aeroporto tem bastante, né?
[00:09:15] É, filosofia em 90 minutos é uma outra série que está se metendo, na época até que, em 2001,
[00:09:24] eu até fiz a brincadeira de fazer uma série de filosofia em 90 segundos, eu estaria milionário com isso,
[00:09:32] e para minha surpresa, a cerca de um ano surgiu uma série de filosofia em 90 segundos mesmo,
[00:09:40] por incrível que pareça, já achava absurdo em 90 minutos, então essa ideia do muito rápido demais,
[00:09:47] super simplificado, estaria de acordo com essa tendência pop 2 da nossa cultura de simplificar e de facilitar demais,
[00:10:00] a ideia era facilitar sim, mas não a esse ponto, não a ponto de virar alta ajuda, Nietzsche nunca é alta ajuda para estressado,
[00:10:10] nem colchona para estressado, ao contrário, Nietzsche é para nos estressar e nos mobilizar,
[00:10:16] essa aqui é a ideia da filosofia, então eu fui procurar ver qual era da arte pop que o Deleuze se inspirou,
[00:10:25] ele diz essa expressão três ou quatro vezes, só sem avançar muito, em uma das vezes ele diz assim,
[00:10:32] tem uma outra maneira de articular conceitos de imagens, mas ele não diz qual, então eu fiquei pensando,
[00:10:39] a maneira tradicional da filosofia, associar conceito e imagem, a gente usa a imagem como exemplo do conceito,
[00:10:47] então eu quero discutir a liberdade, aí eu pego um exemplo que pode ser da pintura, da ópera,
[00:10:54] ou mais recentemente do cinema ou até do videogame, não importa quão contemporâneo a obra de arte que você está usando,
[00:11:02] a relação é muito tradicional, como platão, mito da caverna, você usa uma alegoria, uma imagem para defender a sua visão de mundo,
[00:11:12] a sua ontologia, o seu projeto político, quer dizer, você faz a arte, as imagens, a trabalhar,
[00:11:19] é uma espécie de trabalho forçado, porque elas estão sendo obrigadas a trabalhar para o conceito,
[00:11:24] e a minha ideia é que as imagens, as obras de arte, elas têm uma poricemia, uma multiplicidade de um potencial de possibilidades,
[00:11:35] e quando elas são obrigadas a trabalhar para um conceito, elas estão sendo escravizadas, estão sendo empobrecidas,
[00:11:42] então eu imaginei uma filosofia pop seria uma outra maneira de relacionar conceito com imagem, em que conceito faz parceria com a imagem,
[00:11:49] conceito se deixa guiar pela imagem, não impõe o sentido para a imagem, esse seria o básico,
[00:11:56] e aí, para terminar isso, a inspiração do arte pop é que o Andy Warhol e essa galera estavam numa lógica de questionar a hierarquia entre,
[00:12:07] isso eu falo lá no Manifesto, entre alto e baixo na hierarquia, que é muito antiga, da qual a própria filosofia faz parte,
[00:12:18] e o Andy Warhol embaralhava essas coisas, colocava elementos da vida cotidiana, da cultura de massa,
[00:12:26] a gente tem vários exemplos disso, e com isso ele, de uma forma, é um detalhe importante também, muito bem humorado,
[00:12:34] ele fazia uma mistura de uma coisa para rir e para pensar, e ao mesmo tempo questionando essa suposta prioridade de uma alta cultura,
[00:12:45] são esses os elementos que eu tento trazer para a filosofia pop, é de alguma maneira uma facilitação,
[00:12:50] tira a filosofia dessa torre acadêmica inacessível, mistura com questões do cotidiano, com questões da cultura de massa,
[00:13:01] mas permanece sendo algo crítico e denso, e ao mesmo tempo algo que pode ser bem humorado, é esse o contexto da proposta.
[00:13:13] Excelente, quando você fala ainda sobre esse ponto da filosofia pop, de uma certa subsunção das imagens em relação ao conceito,
[00:13:26] e que seria algo negativo em relação a uma filosofia pop, pelo menos de categoria 1 nessa taxonomia,
[00:13:38] eu lembro que, eu só lembrei rapidamente, que o Foucault, quando uma vez ele se referiu à filosofia do Deleuze,
[00:13:47] ele caracterizou a filosofia deleziana como um teatro filosófico, que faz os filósofos voltarem à cena como máscaras de suas próprias máscaras,
[00:13:58] como a máscara de Sócrates esconde um riso sofista, umas coisas assim, eu não lembro direito.
[00:14:07] É um pouco isso, e eu diria até, cara, que talvez não é mesmo a invenção e a ideia da filosofia pop,
[00:14:18] não só que eu roubei isso do Deleuze, quer dizer, eu levei um pouco a frente dessa ideia,
[00:14:23] mas também não é uma invenção no sentido de fazer outra forma, reinventar a filosofia,
[00:14:30] mas eu acho que é para voltar para alguns aspectos originários da filosofia que se perderam,
[00:14:37] eu acho que os sofistas tinham esse caráter, e eles foram muito criticados na época pelo Platão e Aristóteles,
[00:14:45] pelo Platão e Sócrates, por essa dupla, mas eles tinham essa dimensão performática do pensamento,
[00:14:51] envolvia corpo, envolvia encenação, envolvia máscaras, é uma espécie de teatro que eles estavam fazendo,
[00:14:59] uma conjugação das artes cênicas com o pensamento, e a filosofia pop se conecta com eles de alguma maneira,
[00:15:07] e o que é o mais radical ainda, que eu sempre tento defender isso, é que todos os grandes filósofos,
[00:15:15] mesmo que eles tenham tido essa visão um pouco autoritária em relação às imagens,
[00:15:22] essa é uma constante, ou um sincronizmário, mas todos eles estavam tentando pensar o seu tempo,
[00:15:28] pensar a sua época, pensar o seu contexto, então isso da filosofia pop, que a gente quer pensar o contexto brasileiro contemporâneo,
[00:15:39] algo que não é feito pela filosofia no Brasil, isso é retomar o originário da filosofia, todo filósofo existe.
[00:15:47] E você falou dos sofistas e tal, que não é necessariamente uma contra-filosofia e tal,
[00:15:54] então portanto não seria algo assim próximo à contra-história da filosofia que o Michel-Homfrey tem levado a cabo, assim, por exemplo?
[00:16:04] Eu já dei uma olhada na minha opinião.
[00:16:11] Contextualizando só para o ouvinte, o Michel-Homfrey fez uma, estou no tratado, eu acho que tem seis volumes,
[00:16:18] sendo o primeiro deles sobre os sofistas, e mostrando essa contraparte.
[00:16:25] Os autores que não ficaram no mainstream, né?
[00:16:30] Exatamente, foram negligenciados.
[00:16:33] Mas eu até diria que são bons pretensos que há uma outra ideia que eu acho que é mais difícil da filosofia pop,
[00:16:39] mas esse que é um princípio básico enquanto estratégia, a gente acha que tem uma predominância na tradução,
[00:16:48] não importa sobre qual questão, que aponta para determinadas hierarquias,
[00:16:52] que pode ser a hierarquia do conceito sobre imagens, que eu já mencionei,
[00:16:57] mas pode ser a hierarquia do pensamento sobre o corpo, do masculino sobre o feminino,
[00:17:03] dos filósofos platônicos contra os sofistas, dos filósofos homens contra as filósofas, mulheres que foram desprezadas,
[00:17:16] sempre teve essas hegemonias.
[00:17:18] A gente acredita que tem vários movimentos escapados dessa hegemonia,
[00:17:22] mas a maioria deles são movimentos de contra,
[00:17:25] e aí é que eu acho que deixam em frente um pouco.
[00:17:27] Uma tentativa de inverter aquela hegemonia e faz um discurso fazendo elogio,
[00:17:33] já que enfatizou muita razão, vamos enfatizar agora só o corpo, só os afetos que valem,
[00:17:40] e a racionalidade é sempre negativa e destrutiva,
[00:17:44] e a ideia da filosofia pop é que a inversão, o movimento contra, é inspirado no Nietzsche,
[00:17:49] é só reativo, é necessário, é o momento do leão, o ouvinte que também,
[00:17:55] só para contextualizar a famosa imagem do Zarathustra, do Nietzsche,
[00:18:00] é do cabelo, do leão e da criança,
[00:18:05] o cabelo seria aquele animal que suporta tudo, suporta a hegemonia, as hierarquias,
[00:18:10] e o leão é o que se revolta.
[00:18:12] O problema é que esse revoltar não é suficiente,
[00:18:15] você pode ficar preso nesse jogo e afirma um novo deus no lugar do deus anterior,
[00:18:22] e o que a gente está querendo é o que a gente chama de transversão,
[00:18:26] ou seja, transverteza se categoriza entre conceito e imagem, pensamento e corpo,
[00:18:33] razão e apetos, e também entre os filósofos ditos tradicionais e os que foram rejeitados,
[00:18:40] e não simplesmente colocar o que foi rejeitado agora como o que está em evidência,
[00:18:46] mas embaralhar essa lógica toda e tentar fazer uma coisa diferente,
[00:18:50] e aí se você me perguntar o que é transverter, eu não sei,
[00:18:54] mas eu posso dizer o que não é, não é só fazer contra a História da Filosofia,
[00:19:00] ou inversão desses modos,
[00:19:02] mas no caso da História da Filosofia eu acho que seria pensar que não existe
[00:19:08] uma única História da Filosofia possível, mas várias, e que elas não têm que seguir um fio
[00:19:13] cronológico, você poderia pensar que coisas que o jovem Hegel escreveu na verdade foram
[00:19:20] inspiradas pelo Nietzsche, e embaralhar essas carteiras, isso é isso que a gente está procurando,
[00:19:26] então o Michel Anfret está dentro de um movimento que eu acho que prepara de uma maneira a Filosofia
[00:19:32] Pop, mas o que a gente está querendo é uma outra coisa.
[00:19:34] Entendi. Você falou sobre o corpo,
[00:19:38] aliás só para concluir essa questão do Anfret, é que eu vi em algum lugar, enfim,
[00:19:45] eu não sei exatamente onde, que o Anfret ele se colocava de certa forma contra também
[00:19:53] a Filosofia Pop do próprio Deleuze e tal, como se ele fosse uma Filosofia alternativa, sabe?
[00:20:01] É, mas eu acho muito interessante, ao invés justamente de uma resistência,
[00:20:10] de fazer essa frente contrária, uma História da Filosofia como o próprio Deleuze faz,
[00:20:15] não invalidando a do Anfret, que eu acho interessante também, mas o Deleuze ele pega até autores como
[00:20:23] Kant, sei lá, Bergson e tudo mais, e faz uma História da Filosofia totalmente distorcida.
[00:20:29] Isso é muito bacana, isso bem, uma aspecto que eu acho maneiro, ele diz que produz resultados
[00:20:41] disso que são meio monstruosos, porque você olha e fala, pode ser Kant, faz um tempo você olha e fala,
[00:20:47] mas eu estou vendo, é o Kant que está ali, né? É por aí, é nesse hibridismo mesmo que a gente está mostrando.
[00:20:56] Legal, então você tinha comentado sobre a questão do corpo e dos afetos, né? Uma das linhas de pesquisa
[00:21:03] que você se debruça, diz respeito aos estudos da performance, aos discursos do corpo e da imagem,
[00:21:11] né? Nessa linha você reflete sobre o corpo como um catalisador da cena, seja no teatro, na dança ou
[00:21:18] nos rituais cotidianos, né? A gente sabe que o corpo na tradição ocidental sempre foi relegado a uma
[00:21:27] espécie de apêndice secundário ou, enfim, insignificante da alma ou da mente, né? Isso com base na
[00:21:34] metafísica do Platão e da Augustinho, né? A partir da qual a tradição judaico-crista foi construída e
[00:21:42] se influencia principalmente da cisão cartesiana entre corpo e mente, né? Rescogitans e resistência,
[00:21:50] né? E o homem ocidental ele consolidou uma série de empecilhos no trato com as questões do corpo,
[00:21:58] seja os seus sentidos e prazeres, as possibilidades do corpo e os limites. Então é recorrente no
[00:22:07] teatro ocidental, isso eu acho que não é novidade para ninguém, a ideia de que o desejo sexual traz
[00:22:12] consigo consequências negativas diversas, né? Agora o que eu queria perguntar é o seguinte,
[00:22:19] por exemplo, aquilo que informalmente se tem denominado e até formalmente eu já vi alguns
[00:22:27] artigos e pesquisas falando sobre um design de corpos que pode abranger desde tatuagens,
[00:22:34] criaturas plásticas, fisiculturismo até questões de inteligência artificial, bioengenharia e
[00:22:40] manipulação genética. Então o limite desse assunto é apontado, me parece, por diversas
[00:22:46] narrativas cinematográficas recentes, principalmente relacionadas a ficção científica, né? Em que me
[00:22:54] parece que, me parece, né? Isso que eu queria levantar a questão aqui, que essas narrativas só
[00:23:00] são um engodo pelo qual ainda lidamos com o corpo e a sexualidade, com uma ideia de que a mente
[00:23:07] humana vista como um conjunto de memórias e sensações de um eu invisível, de uma alma,
[00:23:13] enfim, de uma consciência, poderia ser armazenada num banco de dados virtual e descarregada em
[00:23:19] qualquer corpo ou ainda descarregada, integrada a uma máquina, né? E os exemplos no cinema e na
[00:23:26] cultura mesmo são vastos. A gente pode pensar no Hare, que é um filme recente, né? Sobre
[00:23:31] inteligência artificial. A gente pode pensar no Chip, é Chip que fala, cara? Chappie, Chappie,
[00:23:43] isso, que é um filme bem recente, é, daquele diretor do Distrito 9, né? Isso, enfim, eu queria
[00:23:52] perguntar, Charles, como você enxerga essa questão? Ou seja, se essas narrativas que vão
[00:23:58] entender, né? Eu tô pegando essa questão de armazenar a mente ou consciência humana num banco
[00:24:07] de dados virtual ou, enfim, descarregar no corpo essas questões da inteligência artificial, por
[00:24:14] exemplo. Você acha que isso reforça ou tá indo para outro caminho em relação a essa cisão cartesiana
[00:24:21] da mente e do corpo? É uma perguntinha simples. Vamos ver, vocês terão mais uma hora e meia só para
[00:24:30] conversar sobre essa. Então, eu vou conseguir responder, mas trazer algumas outras perspectivas,
[00:24:36] né? De fato, eu acho essa questão fundamental, eu trabalho esse problema em diversas frentes,
[00:24:44] nessa conjugação entre artes cênicas, mas também tentando pensar no nosso momento. E uma das minhas
[00:24:53] questões é justamente isso, até para dar uma, é um bom pretexto para tentar dar um exemplo do que eu tô
[00:24:59] chamando de transverter, né? A gente pode dizer que na tradição filosófica, isso Nietzsche aponta muito
[00:25:07] bem, a gente chega a dizer que a filosofia pode ser resumida a uma má interpretação do corpo, a
[00:25:12] história de má interpretações do corpo. O Heidegger, mais tarde, vai dizer que o Nietzsche só inverteu
[00:25:24] isso, né? Ele só fez um elogio do corpo, que tá numa coisa meio fisiológica, biologizante, por isso,
[00:25:34] o Heidegger, o Nietzsche ainda é metafísico, ele só faz um elogio ao corpo simples, tentando
[00:25:40] supor a suspeita levantada com o corpo desde platão e metafísica afora. A ideia que eu sempre penso
[00:25:51] é que a gente tem que conseguir transverter essa lógica, escapar dessa oposição corpimente e
[00:25:57] oposição, e quer dizer, hierarquia, né? A mente, em geral, como sendo mais importante do corpo,
[00:26:05] pra escapar disso a gente tem que evitar. O contrário, que é a supervalorização do corpo,
[00:26:10] principalmente dessa maneira neurocientífica, biologizante, que é um pouco um trem da nossa época,
[00:26:21] e que eu acho que afeta, de alguma maneira, o seu nome, né? Mas escapar dessas duas lógicas é uma outra
[00:26:27] coisa que eu também não sei o que é, mas que tenta evitar essas duas dimensões. Eu me parece, sim,
[00:26:34] respondendo claramente a sua pergunta, que esses modelos, todas essas tecnologias de design no corpo
[00:26:42] parecem estar escapando da dicotomia, mas na verdade eles estão reafirmando de uma maneira invertida,
[00:26:49] retornando essa dicotomia muito mais dominante, muito mais perigosa, mas através da sua inversão.
[00:26:59] É minha hipótese, essa minha hipótese também diz respeito à cultura brasileira, porque é
[00:27:04] contemporânea, porque a gente poderia dizer, eu já organizei vários eventos Knit, que eu vou chegar
[00:27:11] ainda ao cinema, tá? Mas vários eventos sobre Knit em que os pesquisadores chegam lá e começam
[00:27:18] a recuperar, a reproduzir os argumentos do Knit contra a tradição europeia de desprezo,
[00:27:25] do corpo. Eu sempre perguntava pra eles, vocês acham que essa crítica tem a ver com a cultura
[00:27:31] brasileira, onde o corpo é cultuado? Dado o culto ao corpo na nossa cultura, você acha que no Brasil
[00:27:42] nós não somos nilistas, nós não estamos nessa lógica, ou que aqui nós fazemos um tipo de nilismo
[00:27:50] brasileiro? É um nilismo tropicalizado, uma forma, e eu tô pesquisando sobre esse tema, já escrevi
[00:27:58] alguns textos sobre isso, sobre a questão, sobre o nilismo europeu, que Knit chama, nilismo europeu,
[00:28:04] um dos aspectos deles é o desprezo pelo corpo. E a pergunta, se tem um culto ao corpo aqui, isso quer
[00:28:10] dizer que nós escapamos do nilismo, ou que a gente tá fazendo um nilismo brasileiro? Nilismo
[00:28:16] é um sentido, essa aqui é minha hipótese, porque o que tá em questão é qual é o corpo que é
[00:28:21] cultuado, e se esse modo de culto ao corpo, tal como é feito na nossa era contemporânea, não só tá
[00:28:27] acirrando a dicotomia artesiana através do seu contrário. É um pouco a hipótese mesmo que eu tô
[00:28:36] trabalhando. E eu acho que a gente, é bem um acho mesmo, que a gente vive pelo menos duas grandes
[00:28:43] tendências importantes no nosso momento. Uma é uma tendência pra, ambas são resultados, vamos dizer
[00:28:54] assim, ou consequências do modelo cartesiano, e é bom fazer uma nota da PEC, esse modelo cartesiano
[00:29:01] não é um problema meramente acadêmico de prova do ENEM, ou pra entrar num mestrado, isso é uma
[00:29:12] condição que tá nos atravessa cotidianamente, em várias palestras, eu conto toda vez que você
[00:29:19] diz assim, eu tô num dilema entre o que meu coração diz, o que minha razão diz, você tá
[00:29:25] vivenciando a sua existência no modo cartesiano, sem perceber, como se os seus afetos fossem
[00:29:33] completamente estúpidos, nada pensassem, e como se os nossos pensamentos fossem completamente
[00:29:39] impossíveis, cruéis e calculantes, e fossem em dimensões desconectadas, é uma frase muito comum
[00:29:48] que a gente usa, e é, segundo essa lógica, que tá muito infiltrada na nossa vida cotidiana,
[00:29:55] na nossa vida profissional, a nossa pedagogia é baseada numa dicotomia entre corpo e mente,
[00:30:02] é muito problemático o fato de só ter uma, duas horas de educação pro corpo,
[00:30:07] pra uma criança, né, e o resto não é educação pro corpo, o resto é educação só mental,
[00:30:14] depois a gente pudesse desligar o corpo ali, seria o ideal, imagine que é o que eles vão fazer com essa
[00:30:20] lógica, vão cedar as crianças e vão com chips eletro, direto no cérebro, encutir as espinhas,
[00:30:29] a educação é pra mente e não precisa do corpo, tem uma hora que é educação pro corpo e que não é
[00:30:35] pra mente, enfim, tá partindo dessa separação, e algo que é muito comum é o que a gente conhece,
[00:30:40] a gente foi treinado, a gente tá muito arraigado nessa lógica, é muito difícil escapar dela,
[00:30:48] não é um problema meramente erudito, esse que eu quero defender, é um problema político,
[00:30:54] é um problema pedagógico, é um problema existencial, tem a ver com a nossa vida no sentido mais radical,
[00:31:03] então a minha ideia é que tem duas consequências e tendências possíveis, ambas saindo dessa
[00:31:09] dicotomia, ou uma tendência pra uma crescente desmaterialização do corpo, ou seja, uma ideia
[00:31:17] de sempre, a construção, a ideia de que um eu tá, a essência do sujeito não é corpórea, é invisível,
[00:31:28] é imaterial, pode ser quantificada, pode ser armazenada num HD, isso seria essa tendência se
[00:31:36] ver muito, é uma das tendências da arte contemporânea também, que aparece no cinema também, e a outra
[00:31:43] tendência vocês podem dizer que é essa lógica fisiologizante de apostar pra tudo ou nos genes,
[00:31:50] na estrutura genética, ou nas conexões neuronais do cérebro, mas é a aposta num determinado tipo
[00:32:02] de corporeidade que é muito usificável, vamos dizer assim, o corpo também que se deixa medir,
[00:32:07] que se deixa quantificar, que se deixa controlar, que se deixa, não é que a gente poderia fazer um
[00:32:15] verbo pra design, que se deixa ser desenhado, projetado e por aí vai. E a ideia da filosofia
[00:32:24] própria, mas eu acho que da filosofia contemporânea, dos filósofos que interessam como Beleza,
[00:32:29] Aidega, Melo Ponti, Terná, essa galera aí, estão todos tentando escapar essa, tropor alternativas
[00:32:37] a essas de controle, cada um um pouco da sua maneira, né, mas sempre apostando ou na lógica
[00:32:44] do paradoxo, na lógica da habilidade, na lógica do quiasma do Melo Ponti, pra você ouvir isso falar,
[00:32:51] você pode fazer esse exercício em casa, que é colocar uma mão na outra, não dói, e quando a gente
[00:32:57] coloca uma mão na outra, fica bem claro que não dá pra, ou fica obscuro, não dá mais pra você perceber qual
[00:33:06] é a mão que toca, qual é a mão que tá sendo tocada. Quando a gente coloca a mão na outra, rola aí uma
[00:33:12] relação de interação, de co-determinação, em que rola um fluxo, ambas as mãos estão sendo tocadas
[00:33:23] e tocam, e você só pode traduzir em mão sujeita, em mão objeto, mão ativa, em mão passiva, se você fizer um
[00:33:32] um raciocínio a posteriori, essa é mais ou menos a ideia. Então essa ideia do quiasma é um modelo que o Melo Ponti
[00:33:39] vai falar, que é o que tá em jogo, a nossa relação entre visível e invisível, entre corpo e pensamento,
[00:33:46] é uma relação sempre de cor, reciprocidade, tá tudo contaminado pela sua dimensão ou bosta, e de uma forma tão
[00:33:55] estrutural que você não pode separar. Então é o que essa galera do contemporâneo tá fazendo. E aí, pra fechar,
[00:34:02] eu acho que o cinema aponta pra essas, repercute essas tendências, a gente vai ver o cinema contemporâneo
[00:34:10] apontando pra uma cirrâmica, e é engraçado, você tem razão, as vezes até o filme que é o mais moderno,
[00:34:17] em termos de tecnologia, que tá apontando pra uma situação do futuro, a mais ficcional e a mais surpreendente,
[00:34:27] aquele é que tá se baseando em um modelo mais antigo, que é um modelo platônico de cartesiano de separação.
[00:34:34] Um exemplo disso é o Matrix, que é de 99, é mais antigo, mas que foi um grande marco no cinema por causa
[00:34:43] dos efeitos especiais, por conta da própria proposta, mas ele estava baseado numa concepção
[00:34:49] extremamente dicotômica, a ideia de que esse mundo que você tá vendo é falso e tem um mundo verdadeiro
[00:34:57] por trás, isso é platão. Então, é a alta tecnologia de ficção científica, um modelo muito antigo,
[00:35:07] e hoje, existimos quando eles nos selecionam, eu tenho a impressão que eles trabalham com isso,
[00:35:13] quando até não apontam pra uma outra direção que me surpreende, mas é que um pouco a tendência da ciência
[00:35:19] também aponta pra uma coisa que acaba virando meio místico, no sentido de quase, porque vai chegando um pouco
[00:35:27] no seu limite e aí você acaba tendo, você acaba indo tão longe num determinado extremo, ou de objetivação,
[00:35:36] ou de abstração, você acaba caindo em algo que é só pela lógica da fé. Eu vi Interestelar recentemente,
[00:35:46] e ele vai se entrando numa lógica de física, dimensão, tempo e espaço, mas acaba entrando em algo que só faz sentido
[00:35:55] numa lógica religiosa, mas interessante seria pensar em que filmes aparecem indicações de perspectivas que escapam isso,
[00:36:09] e não são necessariamente esses filmes com mais alta tecnologia, esses são os que estão mais privados,
[00:36:16] o próprio Ré, que é um filme lindo, maravilhoso, eu costumo brincar que esse cara, ele levou um pé na bunda de um sistema operacional,
[00:36:25] é um fim da brincada, é um filme excepcional, mas está bastante preso nessa lógica, enquanto que talvez a gente pudesse encontrar
[00:36:42] filmes que não tem toda essa tecnologia de efeitos especiais, perspectivas para quebrar com essas dimensões,
[00:36:53] eu mencionaria o filme do Tarkovsky, por exemplo, mas talvez precisaríamos ir tão longe, como por exemplo o Playtime,
[00:37:01] eu lembrei da Pelle que habita do Almodóvar, pelo menos ele questiona, mas desculpa eu te interrompi,
[00:37:23] mas é isso, no filme do Almodóvar, a imaginação é que está guiando, no Interestelar me parece que é uma racionalidade
[00:37:36] que está guiando a imaginação, e chega a um ponto que não é mais ficção científica, é um filme religioso,
[00:37:45] é um movie religioso Interestelar, vamos dizer assim.
[00:37:51] Ancaras, vocês queriam perguntar alguma coisa ou não?
[00:37:55] Não, você acabou comentando.
[00:37:59] Que ótimo. Você estava falando dessa dualidade, Charles, que são muito difíceis de a gente escapar dela,
[00:38:10] entre justamente a metafísica platônica e essa cisão que vai favorecer o âmbito mental,
[00:38:18] que não é imanente, que não é corporal, e por outro lado uma valorização contrária,
[00:38:28] e daí eu penso, por exemplo, num psicólogo como William Reich, que vai falar da liberação sexual,
[00:38:35] isso nos anos 60, 70, que vai combinar, por exemplo, eu lembro de um caso que estavam fazendo teste,
[00:38:48] se eu não me engano foi o Zizek que falou em algum lugar, o Slavoj Dizek, alguns até chamam ele de filósofo pop.
[00:38:56] Em alguns aspectos, não sei se é um ou dois.
[00:39:02] Pois é, mas enfim, que ele fala que há uns experimentos na indústria pornográfica de você sentir um prazer mais real do que o prazer sexual,
[00:39:13] que é uma espécie de estimulação diretamente no cérebro, que faz uma mulher ou um homem ter orgasmo
[00:39:23] sem precisar de nenhum estímulo imagético, tátil ou corporal, que faz a pessoa, enfim, gozar de uma hora pra outra,
[00:39:34] e daí vem essa promessa de ser, esse enunciado de ser um prazer mais real, já que ele é mais direto e não mediado, ele seria imediato,
[00:39:46] então eu acho que essa é uma questão, entre outras possíveis, que me parece interessante pensar o corpo,
[00:39:56] em que medida esse mais real na verdade não diz respeito ainda a uma crença indireta de que o cérebro é mais real que o nosso corpo
[00:40:04] ou que aquilo que vai diretamente estimular alguma reação fisiológica é mais real do que de repente uma experiência mais ocasional, imagética, afetiva,
[00:40:19] enfim, de que maneira o nosso corpo, como que ele está se integrando à máquina, daí a gente pode pensar no caso dos ciborgues e tal,
[00:40:28] e no limite eu penso inclusive na experiência da morte como uma experiência do corpo, que já não me parece ser, eu posso estar totalmente enganado,
[00:40:39] uma experiência tão religiosa e angustiante quanto se supunha antigamente, eu vejo, por exemplo, nas narrativas dos cinemas,
[00:40:49] nas narrativas coletivas e na pesquisa científica que a preocupação é cada vez mais dirigida aos estados intermediários que se configuram como formas de vida artificial,
[00:41:00] isso a gente vê desde os vampiros da literatura, passando pelos replicantes da ficção científica que são os, como chama, androides,
[00:41:10] ou enfim, no caso da medicina, os pacientes terminais que são mantidos vivos pela tecnologia médica,
[00:41:22] daí eu fico pensando, eu sei que estou fazendo tudo num bojo meio maluco aqui, eu incluiria inclusive umas novas patologias que me parecem,
[00:41:32] você falou em zumbi, me parecem também se enquadrar nesse estado intermediário como uma patologia como a depressão,
[00:41:41] eu sei que é um tema polêmico demais, que a gente começa a ver surgir esses tipos de estados a serem diagnosticados,
[00:41:53] seja no caso da literatura, das narrativas, seja no caso inclusive da medicina, que aparecem esses estados intermediários,
[00:42:04] que enfim, como que a depressão é descreta, você não está nem vivo nem morto, você está meio assim não vivendo a vida e por aí vai,
[00:42:14] você acha que isso tem, você vê isso com bons olhos ou com bons olhos?
[00:42:21] Primeiro tem que dizer que eu acho que dessa vez você foi longe demais mesmo.
[00:42:25] Desculpa.
[00:42:27] Eu acho que você está pensando aí, acho que estão conectadas, mas acho que também eles tem que ir com um pouco mais de calma.
[00:42:36] A depressão, por exemplo, é um nome mais ou menos recente para questões que são muito antigas os seres humanos, com outros nomes, sob outros nomes.
[00:42:50] Na nossa cultura o termo mais originário era melancolia, que tinha, já tinha a ver com essa, embora o significado vai mudando um pouco,
[00:43:03] mas já tinha um pouco a ver com esse estado meio intermediário que está um pouco fora da própria existência de alguma maneira,
[00:43:12] mas eu acho que podemos pensar como que no contemporâneo a melancolia se transformou em algo um pouco diferente que é a depressão, porque não é a mesma coisa,
[00:43:25] mas não é um fenômeno totalmente novo a depressão, talvez outras coisas.
[00:43:31] A questão da novidade dela é ter tratado com patologia curável, entendeu?
[00:43:39] Medicalizar, pode ser por um pouco a ideia de ser medicalizável, por um lado, quimicamente, mas também ter causas puramente químicas.
[00:43:51] É realmente complicado, lá no início a melancolia, o termo vem de uma substância que supostamente seria produzida pelo corpo que é a famosa bilinegra
[00:44:04] e estaria dentro daquela teoria antiga da medicina que a saúde corporal seria um equilíbrio de substâncias produzidas pelo corpo,
[00:44:13] que seria mais a brilha amarela, a bilinegra, enfim, e que a melancolia seria uma doença que seria produzida, seria um efeito quando há um excesso de bilinegra no corpo.
[00:44:26] Então há uma lógica já, meio passando por uma coisa corporal, biológica, e as terapias funcionam um pouco na ideia de purgação.
[00:44:40] Está em algo em reequilíbrio, tem algo em excesso, você tem que fazer aquilo sair.
[00:44:46] Isso é a ideia da catarse, o aristóteles, o efeito catártico da arte é fazer ir para fora o que está em excesso do corpo e isso faz restaurar o equilíbrio dos humores e da saúde.
[00:45:04] As coisas meio que se, nesse aspecto, as coisas estão totalmente novas, alguma dimensão é nova, a gente tem que tentar pensar o que que efetivamente é novo.
[00:45:19] Talvez, não sei, mas talvez seja, eu concordo que você existia também, ao mesmo tempo que isso, existia uma visão positiva desses afetos como sendo também uma possibilidade de abertura para uma dimensão criativa.
[00:45:40] Então, tem um famoso texto que é atribuído ao aristóteles, mas a gente não sabe se foi ele mesmo, pode ter sido um aluno dele, que o gênio é a melancolia, e que ele diz, coloca a pergunta, por que toda pessoa genial é melancólica?
[00:45:55] E tenta desenvolver uma hipótese de que há uma relação entre esse estado, então ele despatologiza, ou ele vai além de uma mera patologização, e vai dizer, isso aí liberta a imaginação de alguma maneira.
[00:46:09] E isso talvez a gente tenha perdido, ele jogou uma coisa só patologizada e perdeu a samba e com idade.
[00:46:20] A última fase disso, de repente, é o giancenismo do século XIX, que vai, justamente, elogiar a melancolia.
[00:46:40] O Platão fala na política que ele adoraria, se fosse possível, descobrir uma espécie de droga, alguma substância, que fizesse as pessoas ter medo.
[00:46:53] E ele diz que seria ótimo se você for político, se for um rei, se você tivesse acesso a uma substância, que fizesse as pessoas ter medo de você, que você governaria de maneira mais fácil.
[00:47:04] E ele diz, a gente ainda não achou essa substância, ele já achou uma substância que faz perder o medo que é o vinho.
[00:47:10] E aí ele faz uma reflexão sobre isso.
[00:47:14] Quer dizer, um pouco essa lógica que a gente vive hoje, uma coisa meio a indústria farmacêutica, uma farmacopolítica, vamos dizer assim, isso não é totalmente novo.
[00:47:27] É um sonho que já é antigo, mas que vai se aperfeiçoando, vai se desdobrando.
[00:47:36] Você falou dessa questão mais política e tal, daí eu quero aproveitar para perguntar sobre a questão do simulacro, para a gente entrar nessa questão de pensar o contemporâneo a partir dessa chave.
[00:47:51] O simulacro, eu estou entendendo aqui como uma simulação de si mesmo.
[00:47:56] Enquanto a simulação é uma imitação de algum modelo, o simulacro representa algo que não possui nenhum equivalente.
[00:48:06] Enfim, são imagens autorreferenciais.
[00:48:11] E daí no livro famoso do Baudrillard, que é um filósofo contemporâneo chamado Simulacros e Simulação,
[00:48:18] ele assinala uma insatisfação com o simulacro dos estilos de vida contemporâneo como se fosse uma estetização cotidiana
[00:48:27] que para ele só expressa um desejo desesperado de camuflar certo vazio existencial que ele tem visto como algo que tem alastrado a sociedade de maneira geral.
[00:48:39] Particularmente eu desconfio que essa avaliação depreciativa do simulacro, que ainda é recorrente na crítica cultural,
[00:48:48] e daí a gente pode pensar em indústria cultural, desde o adorno até, enfim, Bauman, Lipovetsky, Lyotard,
[00:48:56] me parece que essa avaliação depende inteiramente da exigência romântica por uma realidade mais pura ou mais autêntica ou mais feliz, enfim.
[00:49:08] Dizer que está tudo se tornando mais falso, eu acho que é esse o denominador comum desses teóricos que eu falei,
[00:49:18] a vida está se tornando mais falso, isso para mim implica uma exigência de uma contraparte verdadeira, portanto platônica.
[00:49:27] Então, mas essas são questões mais cotidianas, a questão de perguntar assim, porque que uma fotografia seria menos real do que a imagem que a gente vê no cotidiano, né?
[00:49:43] Ou, enfim, a televisão oferece uma variedade gigante de imagens de um dado acontecimento,
[00:49:49] que é muito maior do que aquela que o indivíduo poderia ter visto se tivesse presente no local.
[00:49:54] Então, os meios de comunicação em massa acabam propondo uma imagem que é muito mais diversa e rica e, às vezes, até contundente do que aquela oferecida por qualquer realidade.
[00:50:05] Isso é um das questões do simulacro, mas, por exemplo, a imagem da felicidade prometida por uma marca de refrigerante, ela também é auto-referencial, então ela é um simulacro.
[00:50:17] Enfim, a importância do simulacro me parece ser de anular essa distinção entre original e cópia,
[00:50:25] mas a pergunta que eu queria te fazer é de que maneira você pensa sobre essa questão do simulacro no mundo contemporâneo.
[00:50:32] Você, de fato, estaria inclinado a essa avaliação mais depreciativa, de uma vida mais, enfim, desesperada e vazia ao mesmo tempo, como se fosse uma solidão compartilhada,
[00:50:49] ou não, você vê com bons olhos a questão do simulacro?
[00:50:53] Bom, boas perguntas, hein? A gente tem que fazer uma conversa sobre cada uma dessas perguntas, enfim.
[00:51:02] É, vou tentar te dizer alguns aspectos. Primeiro assim, a pergunta é muito boa, mas eu não colocaria o Lyotard nesse grupo, todos que você citou eu concordo, eles são, na minha opinião,
[00:51:15] eles são nostálgicos, frustrados, que não estão sendo capazes de dar conta das transformações históricas, mas eu não colocaria o Lyotard aí, mas isso seria uma outra questão.
[00:51:30] O outro aspecto é, obviamente, eu não compartilho com essa visão, acho, de visão do Lyotard, mesmo do adorno, extremamente conservador, é uma das possibilidades,
[00:51:40] você tem as psicotomias, tem a possibilidade da solução pela inversão, a gente já mencionou isso, e aí tem uma galera que vê isso, um perigo, e faz o melhor então como era antes.
[00:51:53] É um pouco, me parece que, resumidamente, a gente inclui o Bauman aí também, né? É extremamente conservador, todos esses textos sobre o aspecto líquido da realidade tem um caráter depreciativo, negativo,
[00:52:11] como se sólido fosse o bom, sólido fosse o melhor, né? E a ideia, me parece, é transverter essa oposição entre sólido e líquido, não apostar na mera inversão, nem no resgate nostálgico do sólido,
[00:52:30] como disse assim, tá se desmanchando e eu preciso garantir que não derreta, é um pouco, me parece, o sentido último dessas propostas, mas e aí também não se trata, também não é um alternativo, não é ver com bons olhos nem com maus olhos,
[00:52:45] eles não podem ser nem apocalíptico, nunca dizem que o mundo está nem integrado, você está tudo maravilhoso, tem que fazer nuances, né? E perceber que tem aspectos, oportunidades muito interessantes e tem questões que a gente tem que tomar cuidado,
[00:53:03] um exemplo bem bobo assim, mas que torna forma concreta, recentemente, não sei se vocês souberam, que no Rio de Janeiro foi fechada uma das livrarias mais tradicionais do Rio de Janeiro, que é a da Vinci,
[00:53:17] que foi muito lamentado em todas as redes sociais e apontado como sintoma dessa área da tecnologia e eu tenho que dizer que já indica um pouco a minha resposta à sua pergunta, que eu não lamentei não, lógico que eu lamento, é uma livraria menos, evidente?
[00:53:36] Eu gosto de livros e gosto de livrarias, mas a minha relação com a da Vinci foi, era um lugar na minha graduação que era o único lugar no Rio de Janeiro onde eu podia comprar um livro de filosofia em francês, inglês, no alemão,
[00:53:51] e tinha uma espécie de monopólio, quase uma ditadura, os preços estavam super valorizados, exacerbados, eu gastei o que eu tinha que não tinha lá, dívidas que duraram um ano, e sinceramente, o que eles apontam como as tecnologias que acabam destruindo,
[00:54:16] a digitais que acabam destruindo a cultura do livro, o que eu vejo outro, um aspecto positivo é que eu não sou mais dependente de uma única livraria, se eu preciso de um livro em inglês, em francês, em japonês, existe uma cultura de compartilhamento que é fantástica,
[00:54:34] o meu livro está circulando pela internet, eu acho isso um aspecto muito positivo, as tecnologias digitais que têm a ver com a lógica do simulacro, elas tem, com certeza, elas apontam para uma determinada perda, mas elas apontam para certos ganhos,
[00:54:52] e há uma possibilidade, um aspecto positivo é uma certa partilha do saber que envolve também uma partilha do poder, e isso eu acho um aspecto extremamente positivo da cultura dos simulacros,
[00:55:06] então a oposição real e representação, original e cópia, é também uma dessas dicotomias que, tradicionalmente, tinha a seguinte hierarquia, a original vale mais que a cópia,
[00:55:24] e esses caras aí, o Baudrillard, eles estão todos com medo de uma inversão de que a cópia vai valer mais do que a original, e estão defendendo um resgate do original, mas a ideia é embaralhar isso,
[00:55:37] até o ponto que você não faça mais sentido uma suposta autoridade do real em relação às cópias, isso aí, essa autoridade é enfraquecida, ela é desmanchada, isso pode ser muito positivo,
[00:55:55] e é uma experiência cotidiana, não é também um delírio de um eludito, eu gosto muito de fazer essa brincadeira com os meus estudantes, quando eu falo a palavra unicórnio, você aí ouvinte, eu aporto uma cerveja,
[00:56:08] que todos os ouvintes do podcast devem ter vindo à cabeça, devem ter vindo à mente a imagem de um cavalo branco, maior ou menor, com um chifre na testa,
[00:56:23] e essa imagem é mais ou menos parecida de todo mundo, sendo que ninguém viu na realidade, nisso que a gente chama a realidade real, a verdadeira das coisas,
[00:56:36] no entanto, o unicórnio faz parte da nossa realidade cultural, do simuláculo, ele tem força, um unicórnio talvez tenha mais força de realidade, do que talvez um unitorrinco,
[00:56:50] que eu encontrei um, não vi, sei que existe, mas tá entendendo, a gente tem que repensar essas categorias, e a gente pensa também no próprio outro exemplo que eu gosto de dar, do Don Quixote,
[00:57:05] quando eu falo o Don Quixote, eu digo pra vocês que eu vou numa festa fantasia de Halloween vestido do Quixote, todo mundo mais ou menos imagina, ninguém vai confundir com o Sancho Pança,
[00:57:17] todo mundo sabe que aí a ideia é um cara mais mago, talvez um cavanhaque, meio alto, é mais ou menos a imagem que se fez, se eu falar que tô indo de Sancho Pança, é uma outra figura,
[00:57:29] no entanto, eles são, entre aspas, personagens não reais, mas todo mundo tem uma ideia muito clara deles, e se eu perguntar pro nobre ouvinte, quando eu digo o nome do autor do Don Quixote, que é o Cervantes,
[00:57:43] qual a imagem que vem à cabeça? Não vem nenhuma, né? Não vem nenhuma, ou vem do Don Quixote, porque as pessoas tendem a projetar, mas o curiosíssimo é que ninguém sabe ao certo como o Cervantes parecia,
[00:57:55] porque as imagens se perderam, quer dizer, o cara que supostamente é real, isso não tem menor ideia como ele parece, o cara que supostamente é só ficção, personagem, representação, ele é muito, ele tem muita força,
[00:58:09] inclusive é um conceito que a gente pode usar, isso são as políticas, você tá sendo muito quixotesco, qualquer coisa assim, cara, isso tem efeito, gera efeito, agora você vai dizer que um treta é Cervanteano, a não ser pelo sanduíche do Cervantes,
[00:58:25] tem muito menos força política, só pra dizer que nós vemos uma cultura de simulacro, e isso tem aspectos problemáticos, mas aspectos positivos, e não é nada tão perigoso assim.
[00:58:42] Contrapartida, diga cara, diga.
[00:58:46] Assim, eu mais leigo, tem alguma motivação pra todos esses pensadores irem nessa característica desse medo um pouco de perder isso, tem alguém que pesquisa nesse sentido?
[00:59:02] É difícil você sair da matriz assim, no sentido de conseguir ver esses movimentos em bloco, mas tem algumas possibilidades, mas eu acho que…
[00:59:15] O que eu ia dizer, Charles, só pra complementar, desculpa, é que em contrapartida a gente pode pensar num sociólogo como Michel Maffezoli, em contraposição a esses, sei lá, o Balmain e tal, que ele vê com bons olhos a estetização da vida, né?
[00:59:32] Tem outros, o Váltimo, o Váltimo teve agora na Unirio, fazendo uma palestra e tal, se reconverteu em comunista, mas eu tô falando do Váltimo, vou conversar com esse antigo, e vai dizer exatamente que essa coisa da televisão, da místia de massa, tudo isso, aponta pra algo interessante, que é a destituição do poder de um único real.
[00:59:56] Há uma potência da inflação das imagens dos simulacros, no sentido mesmo de uma liberação em relação a isso, e isso não necessariamente conduz a um niilismo, mas pode conduzir a uma circulação de verdades, outras partilhas do saber, ele vê isso de uma forma muito positiva, e eu tento concordar com ele.
[01:00:22] Assim, não ingenuamente, mas achando que há uma dimensão positiva também. Agora eu diria só que basicamente é difícil dar uma explicação de porque essa galera toda tá com medo.
[01:00:35] Ah não, sim, mas parece que tem um espírito que tava, eu não gosto muito de usar esse termo, tipo um zeitgeist, rolando sobre esses pensamentos, dessa característica de pensamento.
[01:00:48] Eu diria que tem que ver caso a caso, mas não parece no caso do Adorno. O Adorno é um cara que nasceu e vivia numa época de transição, então ele foi educado de uma forma moderna, mas tá vendo surgir essas questões todas no mundo contemporâneo.
[01:01:06] Teve um cara brilhante, mas teve muita dificuldade de avaliar o contemporâneo, uma lógica que não fosse a do moderno, ele acabava usando o filtro do moderno pra fazer a sua crítica.
[01:01:20] Ele fez críticas excelentes, apontou pros perigos da massa, mas foi muito equivocado nas avaliações dele em relação ao jazz, ao próprio cinema, vamos dizer assim, e muito negativista.
[01:01:38] Tem uma coisa que eu acho que é oposto da filosofia pop, ele diz que se você tá se divertindo com alguma coisa, você está aderindo a essa coisa, você é cúmplice.
[01:01:52] A proposta do jazz pop não é essa, a proposta é que você pode se divertir com algo e ser crítico a aquilo, e você pode às vezes não se divertir com algo e defender aquilo.
[01:02:08] Então essas coisas não são necessariamente coladas, é uma outra abordagem desses fenômenos.
[01:02:15] Queria dizer que no caso do Adorno, parece que esse é um cara que tá um pé aqui e um pé lá e tá tendo dificuldade de fazer essa transição.
[01:02:24] E outros podem ser de manutenção de um status quo, porque dentro dessa cultura em que existe o sólido, determinados discursos ainda têm mais validade do que num momento em que as coisas se liquidificam.
[01:02:44] Não sei, tem que avaliar casa a casa, mas a nostalgia, tanto a nostalgia como a tentativa de inversão, e até diria outra postura, não existe verdade alguma, porque é uma oportunidade, é o que a galera tem medo.
[01:03:01] Quando aquele menino alemão virou Papa, o Hansenberger, ele publicou um texto que foi reproduzido em todos os jornais do mundo, inclusive na Folha de São Paulo, já tem algum tempo, e que o título é mais ou menos assim, o verdadeiro inimigo do mundo contemporâneo, não é o terrorismo, mas o relativismo.
[01:03:21] E aí ele defendiu o argumento exatamente isso, que nessa cultura em que não existia mais o sólido, o verdadeiro, tudo tava ali com efeito, e o que acontecia era fim total do bem, do mal, da moral, das religiões e da convivência possível.
[01:03:38] Isso é relativismo, isso é niilismo, porque não existe mais verdade, eu não acredito mais em nada, porque eu não acreditei em nada, ou eu vou destruir, ou eu não me importo com nada, isso de fato é perigoso.
[01:03:51] As alternativas dessa cultura, eu não acredito mais em nada, é um niilismo, é uma possibilidade que aparece nos filmes, que é muito comum na vida cotidiana, essa tentativa de nostalgia, de tentar recuperar o que se perdeu.
[01:04:09] E aí tem uma galera, do mesmo jeito que tem esse bloco aí, tem um bloco que tá trabalhando e foi assim, a gente não sabe, porque a gente não foi treinado, a nossa pedagogia é uma pedagogia dos sólidos e não dos líquidos, mas a gente tem todas as condições de aprender a viver dentro dessa lógica da pluralidade.
[01:04:30] E é um exercício de experimentação, só não é fácil. E aí, tentando responder a sua pergunta, o Heidegger é um inseritempo, Heidegger que tá em má fase, muito desqualificado no momento por conta da publicação dos cadernos negros recentemente, mas acho que isso não desqualifica a filosofia dele como um torno.
[01:04:50] Isso também é um outro tema, mas com a forma de inseritempo, ele diz que uma tendência do ser humano, do Daz, como ele diz, é preferir o que é mais leve, e é mais leve você ter verdades sólidas substanciais autando a sua vida.
[01:05:09] É muito mais difícil e complicado você aceitar essa pluralidade, simulacros, com toda a instabilidade que tá em jogo nisso, né? Isso é bem mais complicado, demanda muito mais energia, e isso é também uma edificação porque é uma tendência de medo.
[01:05:29] Só uma última questão, Charles, pra gente finalizar. Essas questões, daí eu começo a pensar em filósofos mais contemporâneos, quer dizer, mais atuais em relação a todos os que a gente falou, como, por exemplo, sei lá, penso no Peter Sloterdijk, no George O. Gambien, no próprio Didier, que de repente…
[01:05:54] Te interrompe, hermano.
[01:05:56] É, pois é. E eu não vejo, assim, eu também posso estar com um conhecimento muito limitado, enfim, em relação a isso, mas eu não vejo nenhum desses pensadores, a gente tá falando desses que são realmente conhecidos internacionalmente,
[01:06:13] que vão nessa direção de um não… que não vão muito nessa direção de algo assim que vá, digamos, receber bem, com bons olhos, a questão do simulacro e da… mesmo da questão, enfim, vamos falar nos termos do Bauman, dos valores líquidos com bons olhos.
[01:06:37] Claro que cada qual vai à sua maneira, assim. O George O. Gambien, ele vai lá e fala que não há mais possibilidade de subjetivação nos termos fucotianos na contemporaneidade.
[01:06:50] Aí os dizem que ele investe numa questão, enfim, numa questão totalmente emancipadora do comunismo, né?
[01:06:58] Já o Sloterdijk vai no caminho totalmente oposto, que me parece assético, assim, num ascetismo nitiano e tal, mas muito peculiar da parte dele.
[01:07:10] De repente um Bruno Latour, eu fico pensando assim se ele acaba traçando algumas alternativas, mas eu também não consigo ver muita coisa, até porque a preocupação dele é meio, não sei se sociológica ou antropológica, né?
[01:07:24] O que você tem a dizer sobre os pensadores novos, assim, que tão novos também, relativo, né?
[01:07:31] É relativo, né?
[01:07:32] Estão vivos, né? Mas é de fato, isso se chama de contemporâneo e faz raiva e beleza.
[01:07:37] Sim, sim, sim. Nit, inclusive.
[01:07:42] Os contemporâneos mesmos.
[01:07:44] Super contemporâneo.
[01:07:46] Não, isso me interessa bastante, assim.
[01:07:49] Sim, aí a gente tem que também calma pra conversar, porque eu não vejo bem assim, não. Eu vejo que pelo menos…
[01:07:58] Que há uma abertura, sim.
[01:07:59] …o agrandem, pra mim, bem claro essa possibilidade de abertura, no Didier Huberman também.
[01:08:05] No Zizek realmente é ambíguo, vezes às vezes, às vezes não. Ele é um, assim, bem misterioso, de fato eu não consigo localizar.
[01:08:16] Mas tem outras pessoas aí. O Sloterdijk é um cara que eu não vejo com essa definição do ascetismo.
[01:08:23] Eu vejo também, ao contrário, essa história do filósofo no palco, do eu-tauismo, da política das esferas, não sei.
[01:08:35] Vejo como um caminho tentando escapar.
[01:08:38] Interessante, né?
[01:08:39] É um caminho fértil.
[01:08:41] É que eu li recentemente aquele You Must Change Your Life dele, que é sobre Nietzsche.
[01:08:46] Esse eu ainda não li, tô com ele.
[01:08:49] Você leu em inglês?
[01:08:51] Em inglês, mas é, como eu disse, de fato teria que estudar mais.
[01:08:58] É que me parece que, pelo menos no âmbito acadêmico brasileiro, que também é muito fechado, enfim, em algum sentido, ele é visto como ultraconservador.
[01:09:09] Não sei se você já sentiu isso.
[01:09:10] Não, e assim, eu convivi com ele, eu fiz doutorado na Alemanha, e tive a oportunidade de fazer aulas e palestras, e nunca tive essa sensação.
[01:09:22] Pode ser que os textos mais recentes, e aí eu não tô acompanhando esse último movimento, tendo uma dinada conservadora, mas assim, do que eu conheço…
[01:09:33] Eu também acho estranho, porque é que ele já travou uma série de diálogos com o Zizek, né?
[01:09:40] Aí você colocar na dicotomia de um lado o Zizek e o Sloterdak, aí realmente…
[01:09:46] É uma comparação de quem é mais à esquerda.
[01:09:48] É, a diferença com a esquerda pode ser bem conservadora também, né?
[01:09:53] Mas assim, aí a gente pode ficar flutuando muito se não puder conversar a partir de uns textos mais específicos.
[01:10:01] Não, é, eu ia contrapor, porque tipo, desculpa, que o Sloterdak também se opõe ao Habermas, e o Habermas me parece, no caso, o ultraconservador da história.
[01:10:11] Pois é.
[01:10:12] Em relação ao Sloterdak.
[01:10:13] Um ponto a favor do Sloterdak, né?
[01:10:15] Pois é, desculpa, tio.
[01:10:17] Claro, mas o que eu queria dizer é mencionar alguns autores que são pouco conhecidos e que são…
[01:10:23] Tem quem eu chamo de Chuck Norris da Filosofia Contemporânea, que já foi um Nietzsche, mas é o Paul Preciado.
[01:10:31] Não imagina vocês ainda não ter ouvido falar dele, que é esse filósofo espanhol que nasceu Beatriz Preciado e que mudou de sexo.
[01:10:41] Ele se chama agora Paul Preciado, está vivo há cento anos, 40 anos, e acabou de ser lançado um livro.
[01:10:48] Um livro já é um pouco antigo, mas acabou de ser lançado no Brasil, que chama Manifesto Contrasexual, que está discutindo a questão dos gêneros.
[01:10:55] Quer dizer, é um projeto muito… está numa coisa política, gênero, feminismo.
[01:11:01] Que ótimo.
[01:11:02] Ele é um filósofo de alta qualidade, extremamente denso, forte e alguém que está levando muito a sério.
[01:11:12] Até essa coisa do Nietzsche, que nenhum desses caras fez, que é viver e experimentar no próprio corpo o que está falando e o que está pensando.
[01:11:20] Primeiro falou disso, depois fez em si próprio essas experimentações de transformação.
[01:11:27] Que massa.
[01:11:28] Ele é o cara nesse momento e tem mais ou menos 40 anos.
[01:11:34] Caramba.
[01:11:35] É muito recente.
[01:11:36] Como disse, procurem aí na internet.
[01:11:39] O Manifesto Contrasexual já foi publicado, foi editado pelaquela editora do Peter Taupel Barra, no Book of São Paulo.
[01:11:47] É o cara com quem conversar.
[01:11:50] E ali não só é urgente em termos essenciais e políticos, ao mesmo tempo é filosofia pop.
[01:11:57] Eu não queria dar essa etiqueta pra todo mundo, mas no sentido que ao mesmo tempo é radical, é atual e é tenso, é filosófico.
[01:12:07] Não é sociológico, não é, não sei, não é…
[01:12:12] Entropológico.
[01:12:13] Entropológico.
[01:12:14] Ali tem uma pegada de filosofia, dialogando com essas outras disciplinas, claro.
[01:12:19] É um cara espetacular.
[01:12:22] Mas tem outros, não é o único não.
[01:12:25] A gente pode citar um cara que está em Warwick, na Inglaterra, que se chama Nick Land,
[01:12:31] e tem alguns livros sobre Nietzsche, e diz uma teoria chamada materialismo libidinal,
[01:12:39] que é uma outra vertente possível pra tentar escapar dessas dicotomias.
[01:12:45] Eu acho que o problema desse bloco aí que você citou, que é o bloco com medo conservador,
[01:12:52] que é o que está fazendo mais sucesso.
[01:12:55] Principalmente no discurso contra o pós-moderno, que, enfim, ele se associa a isso, ao Papa,
[01:13:03] essa coisa meio religiosa, é de mais fácil assimilação.
[01:13:08] Isso que está tentando escapar é de mais difícil assimilação.
[01:13:14] Ótimas dicas, Charles. Obrigado mesmo.
[01:13:17] E eu quero agradecer mais uma vez, e pedir desculpas também pela amplitude das perguntas.
[01:13:27] Sejam vidas também com a mesma amplitude, quer dizer, para entrar no clima.
[01:13:33] Pois é, eu queria me justificar, de repente, porque eu realmente estava, de certa forma, ansioso,
[01:13:40] eu gosto muito do que eu tenho visto que você tem produzido e tal,
[01:13:47] e realmente eu acho difícil, particularmente, encontrar a gente pra discutir filosofia contemporânea
[01:13:52] e, de fato, as questões contemporâneas.
[01:13:55] Por isso, de repente, eu exagerei na variação de temas, esse empolgô.
[01:14:01] É muita coisa aí, opa.
[01:14:04] É uma coisa, a gente tem que voar e atrasar.
[01:14:07] Exatamente. Ou ficar no…
[01:14:11] Não, alguns saltos, acho que é importante, entendeu?
[01:14:15] Se não, o que a gente tem aqui é na academia, uma discussão lá sobre o parágrafo 23,5 do Kant
[01:14:23] e qualquer tentativa de fazer uma conexão com o mundo contemporâneo,
[01:14:26] de não sei falar sobre isso, não posso falar sobre isso, mas não dá também, não é?
[01:14:31] Mas a ideia não é inverter, transverter.
[01:14:35] Pois é, eu lembrei daquele mito rapidamente do ícaro, que o pai dele aconselhava,
[01:14:44] eu não lembro quem era o pai dele agora, o nome, mas enfim, pra ele não…
[01:14:47] Dedalus.
[01:14:48] Dedalus, exatamente, pra ele não chegar muito perto do sol, nem perto do chão, né, pra ele não entremeio.
[01:14:55] Enfim, obrigado mesmo, Charles, desculpa aí, qualquer coisa.
[01:15:02] Depois, se vocês quiserem que eu sugira nomes pra vocês conversarem também.
[01:15:06] Boa, seria excelente, excelente mesmo.
[01:15:09] Então é isso, né, vamos encerrar aí com uma pérola de sabedoria,
[01:15:14] de repente o Ulisses de Homero ainda está correntado no navio, até hoje, escutando um alucinante canto.
[01:15:22] Será que…
[01:15:25] Será que…
[01:15:27] Fica aí uma pergunta no ar.
[01:15:29] Obrigado mesmo, Charles, e vamos dar tchau aos ouvintes, tchau.
[01:15:34] Tchau.
[01:15:35] Tchau pra tudo, tchau, abraço.
[01:15:59] Legendas pela comunidade Amara.org
[01:16:29] Legendas pela comunidade Amara.org