T06E43 Pirula e a pílula milagrosa (Fosfoetanolamina)


Resumo

O episódio discute o caso da fosfoetanolamina, uma substância sintetizada por um professor da USP de São Carlos e distribuída por anos como uma suposta cura para o câncer sem passar pelos protocolos adequados de teste e validação científica. Os participantes, incluindo o biólogo Pirula, analisam como a situação evoluiu para uma “judicialização da ciência”, com um juiz ordenando a produção da droga, e os perigos éticos dessa abordagem.

A conversa detalha a falta de evidências robustas sobre a eficácia e segurança da fosfoetanolamina. São citados apenas cinco artigos científicos preliminares, todos em fase in vitro ou em animais, insuficientes para qualquer conclusão sobre uso em humanos. Pirula relata a reação violenta do público ao seu vídeo crítico sobre o caso, que misturava desespero de pacientes, desinformação midiática e uma compreensão deficiente do método científico.

Os participantes explicam as etapas rigorosas necessárias para o desenvolvimento de um medicamento: testes de toxicidade, teratogenicidade e mutagenicidade em animais, seguidas por fases clínicas em humanos (Fase 1, 2, 3 e 4), realizadas em ambiente controlado. Eles contrastam isso com a distribuição amadora e antiética da “fosfo”, que se configura como crime de curanderismo, e alertam para os riscos de abandonar tratamentos comprovados por causa de falsas esperanças.

O episódio também aborda fenômenos como o efeito placebo, a dificuldade de combater relatos anedóticos e como a cobertura midiática sensacionalista agravou o problema. São feitos paralelos históricos com casos como o da talidomida e do Vioxx para ilustrar a importância dos protocolos de segurança. A conclusão é de que, independente do resultado futuro dos testes (que devem ser feitos corretamente), o caso criou um precedente perigoso de desrespeito ao processo científico, alimentado pelo desconhecimento e pelo sofrimento humano.


Indicações

Casos-Historicos

  • Talidomida — Medicamento dos anos 50 para enjoos na gravidez que causou malformações graves em fetos (ateratogênese), levando ao endurecimento das leis de teste de medicamentos.
  • Vioxx — Anti-inflamatório comercializado que foi retirado do mercado após revelar-se causador de mortes por problemas cardiovasculares, tendo envolvido fraude na ocultação de dados.

Conceitos

  • Efeito Placebo — Fenômeno onde a crença no tratamento pode levar a melhoras subjetivas ou mesmo fisiológicas, discutido como uma possível explicação para relatos de melhora com a fosfoetanolamina. É mencionado que animais também podem sofrer esse efeito.
  • Curanderismo — Crime previsto no Código Civil Brasileiro, no qual se enquadra a distribuição de tratamentos sem comprovação científica e sem o devido acompanhamento e consentimento informado.

Pessoas

  • Professor da USP de São Carlos — Pesquisador que sintetizou e distribuiu a fosfoetanolamina por anos sem os devidos testes clínicos e protocolos éticos.
  • Médico Meneguello — Único médico na equipe do professor, responsável por testes in vitro que observaram mecanismo de apoptose, mas sem publicar resultados completos de testes em humanos.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao tema da fosfoetanolamina e judicialização da ciência — Apresentação do programa e do convidado Pirula. O tema central é a fosfoetanolamina, uma droga não testada que foi judicialmente obrigada a ser produzida. Discute-se a diferença entre uma ‘droga’ e um ‘remédio’ e a importância dos testes científicos.
  • 00:01:09Relato do Pirula sobre seu vídeo e as repercussões públicas — Pirula conta que fez um vídeo crítico sobre a fosfoetanolamina, focando na falta de evidências para a cura do câncer. Ele relata ter recebido tanto elogios quanto ataques violentos, incluindo desejos de morte, de pessoas desesperadas ou que acreditavam no tratamento. Também recebeu mensagens de apoio de pacientes de câncer cansados de ‘tratamentos milagrosos’.
  • 00:06:15Problemas fundamentais: dose, forma de aplicação e mecanismo de ação — A discussão aborda a total falta de conhecimento sobre dosagem, a melhor via de administração (oral, intravenosa, etc.) e se o composto chega intacto ao local de ação. É destacado que matar células cancerígenas em uma placa de Petri é trivial; o desafio é o que acontece em um organismo complexo, com todas as variáveis envolvidas.
  • 00:11:01Desmistificando a burocracia: a dúvida científica real — Os participantes esclarecem que a exigência por testes rigorosos não é mera burocracia ou defesa da indústria farmacêutica, mas sim a expressão de uma dúvida científica legítima: não se sabe se a fosfoetanolamina funciona, se é inerte ou se é tóxica. A ciência exige evidências publicadas e revisadas, não apenas a palavra de um pesquisador.
  • 00:14:27As etapas do desenvolvimento de um medicamento — Explicação detalhada do longo caminho desde a pesquisa básica até um medicamento. Envolve testes de segurança em animais (toxicidade, teratogenicidade) antes mesmo de testar a eficácia. Depois, as fases clínicas em humanos, começando com grupos pequenos e controlados. De cada 100 substâncias promissoras, menos de 1 vira um medicamento.
  • 00:17:11Consequências perigosas: abandono de tratamento e irresponsabilidade — São apontados dois grandes problemas: 1) a falsa expectativa pode levar pacientes a abandonar tratamentos comprovados; 2) a distribuição irregular cria um vazio de responsabilidade. Quem responde se o paciente morre? Em testes clínicos formais, a equipe assume essa responsabilidade e faz acompanhamento rigoroso.
  • 00:20:28O papel do efeito placebo e a impossibilidade de provar com anedotas — Discute-se que a melhora relatada por alguns pacientes pode ser devido ao efeito placebo, que também ocorre em animais. Evidências anedóticas não provam eficácia. A substância pode ser inerte, tóxica ou, de fato, eficaz para alguns cânceres, mas sem testes controlados é impossível saber. A mente humana pode influenciar respostas fisiológicas, especialmente em casos menos graves.
  • 00:23:27Lições de casos históricos: Talidomida e Vioxx — São citados os casos da talidomida (que causou malformações em fetos) e do anti-inflamatório Vioxx (retirado do mercado por causar mortes) para ilustrar a importância dos testes de segurança mesmo após a comercialização. A talidomida, em especial, teve sua liberação atrasada nos EUA por uma funcionária desconfiada, salvando muitas pessoas.
  • 00:28:52Considerações finais: o precedente perigoso e a esperança pelo caminho correto — Conclui-se que, independente do resultado dos testes futuros, o caso criou um precedente perigoso onde o boato e a pressão judicial podem substituir a ciência. Espera-se que a fosfoetanolamina seja testada corretamente para tirar a dúvida. O maior medo é a multiplicação de ‘óleos de cobra’ aprovados por liminares, com graves consequências para a saúde pública.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2015-12-20T16:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:13] O programa de hoje vai ser sobre a fosfoetanolamina e o convidado é o Pirula, doutor em Biologia.

[00:00:20] E aqui no programa a gente vai ter o Jorge Kylfell, da Biofísica, eu, o Marco Edjart

[00:00:24] e o Jefferson Aranzon, da Física da UNIX.

[00:00:26] A gente vai fazer esse programa sobre essa coisa muito séria, a denominação agora

[00:00:30] é a judicialização da ciência, a judicialização da medicina, porque aconteceu uma situação

[00:00:36] onde uma droga não testada foi aprovada por um juiz e aí laboratórios foram forçados

[00:00:43] a produzir essa droga.

[00:00:44] Não é a posição do nosso programa de dizer se a droga funciona ou não, mas a gente

[00:00:48] vai conversar sobre o que significa testar uma droga, o que significa produzir uma droga

[00:00:53] pra ser usada como remédio.

[00:00:54] Então por enquanto é uma droga, não é um remédio.

[00:00:56] E eu vou perguntar pro Pirula, já que o Pirula fez um vídeo, e tu falaste das repercussões

[00:01:04] do tipo de resposta que tu teve aos vídeos, eu queria que tu fizesse um pequeno relato

[00:01:08] do que aconteceu.

[00:01:09] O que aconteceu foi assim, eu fiz um vídeo explicando mais ou menos a questão da fosfoetanolamina,

[00:01:13] eu contei os artigos que já foram publicados usando esse composto como uma cura de câncer,

[00:01:19] porque você tem esse composto usado pra várias outras coisas, é um composto conhecido

[00:01:23] há muitas décadas.

[00:01:24] Mas eu foquei mais nessa questão da cura do câncer, que era a proposta que esse professor

[00:01:29] lá da USP de São Carlos estava propondo.

[00:01:31] Fiz essa explicação e obviamente no final do meu vídeo eu sempre dou a minha opinião.

[00:01:35] E eu falei da maneira como a coisa me pareceu que tinha sido feita de uma maneira criminosa.

[00:01:39] Eu até peguei muito pesado eu acho, mas eu não mudei a minha opinião em nada, porque

[00:01:44] inclusive brinca com as esperanças das pessoas, com a vontade das pessoas de se curar dessa

[00:01:49] doença horrorosa, não só dessa, são várias doenças no câncer, são várias doenças.

[00:01:53] E isso é uma coisa que me deixou muito preocupado.

[00:01:56] Primeiro, o silêncio da USP mesmo como instituição, que durante anos esse professor distribuiu

[00:02:02] esse composto pras pessoas que não estavam em teste, observação, nada, simplesmente

[00:02:06] ele distribuiu pras pessoas porque elas foram lá pedir.

[00:02:09] Claro, teve todo um embrólio antes com o hospital que é autorizado a fazer esses testes, e

[00:02:14] aí quando foi proibido fazer os testes ou quando cancelaram o programa, o próprio

[00:02:18] hospital falou pra ir na USP pegar o composto, não quer dizer, foi tudo errado.

[00:02:21] Só que depois disso houve uma certa mobilização do grupo de pesquisa desse professor querendo

[00:02:28] terminar essas pesquisas, sendo que a meu ver essas pesquisas ainda estão em fase muito

[00:02:33] preliminar, porque você fez cinco artigos basicamente, devem ter feito mais pesquisas

[00:02:38] mas ainda não estão publicadas, e foram todas em testes in vitro, não eram organismos

[00:02:43] inteiros, tanto células de camundongos ratos, quanto células humanas, e também foi testado

[00:02:47] um pouco em camundongos, mas em seres humanos os testes que foram feitos primariamente segundo

[00:02:53] esse professor não foram publicados, então a ciência funciona dessa forma, se você

[00:02:58] não coloca uma evidência clara do que você está dizendo, a gente não tem como simplesmente

[00:03:02] acreditar, o tal do médico mostrou todos os pacientes que ele por vontade própria tratou

[00:03:08] com esse composto, e aquela coisa é acreditar na palavra dele, e acreditar na palavra dele

[00:03:12] não é uma coisa que a ciência sabe fazer, se ele tem tanta convicção disso que aconteceu,

[00:03:16] que esse composto realmente curou essas pessoas ou melhorou a situação delas, ele teria

[00:03:21] que publicar esse artigo, enumerar direitinho quais eram os procedimentos, o acompanhamento

[00:03:26] de cada uma dessas pessoas, isolar as variáveis e aí publicar, se você sair muito bem dessa

[00:03:32] sabatina que a comunidade científica vai fazer isso, aí você pode dizer que aquilo

[00:03:36] que você fez tem alguma lógica, se você não coloca suas ideias para esse crutínio

[00:03:41] público, científico, ou para a comunidade científica destrói a sua ideia, é porque

[00:03:46] ela não tem fundamento, mas infelizmente como eu falei essas coisas de uma maneira meio

[00:03:51] veemente, o público negro tem certa dificuldade de entender essas coisas, no nosso péssimo

[00:03:56] ensino de ciência no Brasil, e na nossa dificuldade de entender para que servem as instituições,

[00:04:01] porque isso não é um problema só da ciência, isso serve para a política, serve para a

[00:04:04] economia, e aí eu fui muito mal recebido nas minhas críticas, óbvio, teve muitos elogios,

[00:04:10] e eu acredito que a maioria das pessoas gostou do que eu disse, mas teve muita gente me xingando,

[00:04:16] dizendo que eu não prestava, dizendo que eu tinha que morrer de câncer logo, que eu

[00:04:20] não sabia o que eu estava fazendo, porque o professor era um herói, estava tentando

[00:04:24] lutar contra a ditadura da indústria farmacêutica, não sei o quê, aquele monte de coisa que

[00:04:30] ninguém nunca se importou e passou a se importar e ser expert em cinco minutos.

[00:04:35] Tu conseguisse saber mais sobre essas pessoas que te escreviam, elas só te xingavam ou

[00:04:40] tinham coisas a mais dizendo que eram familiares de pacientes, por que que eles te xingavam?

[00:04:45] Algumas pessoas chegaram a falar isso, ah, eu tenho um parente meu que está tomando

[00:04:50] a fosfo e que está melhorando, e agora ele não pode mais acessar a fosfo que foi proibida,

[00:04:56] então agora estamos desesperados, e você pirulhão imbecil.

[00:04:59] Teve muita gente falando que conheceu pessoas que estavam tomando fosfo, ou pessoas dizendo

[00:05:05] que queriam essa fosfo para poder tratar ou o seu próprio câncer ou o câncer de

[00:05:10] algum parente, então são pessoas que estavam desesperadas, nesse caso eu entendo perfeitamente

[00:05:15] essa reação delas, porque realmente é um tema muito sensível, mas eu também queria

[00:05:19] ressaltar que eu recebi muitas mensagens de pessoas que estavam tratando de câncer

[00:05:24] e me elogiaram pelo vídeo, falaram assim, desde que eu comecei o meu tratamento contra

[00:05:28] essa doença maldita, eu perdi as contas de quantos tratamentos milagrosos vieram me apresentar,

[00:05:34] quantos não deram certo, quantos não funcionaram, então eu fico muito feliz que você esteja

[00:05:38] ajudando as pessoas a pôr a mão na cabeça, sabe, então eu fiquei bastante feliz com

[00:05:41] esse tipo de comentário, ou pessoas falando que o parente tinha câncer e faleceu porque

[00:05:47] tomou também alguma coisa qualquer que alguém tinha sugerido, inclusive um ou dois casos,

[00:05:52] pessoas que falaram que o parente tomou a fosfo e o parente morreu do mesmo jeito de

[00:05:56] câncer.

[00:05:57] Esse é todo o problema, a gente está montando um caso em cima de anedotas e não tem os

[00:06:03] dados.

[00:06:04] Se você aplica em células uma placa de Petri, funciona, se você aplicar um lança-chamas

[00:06:08] também mata células de câncer, mas o problema é o que acontece quando tem um corpo em volta

[00:06:13] dessas células.

[00:06:14] Muitas variáveis.

[00:06:15] Eu acho que fosse você que levantou as pirulas sobre essa questão do, não se sabe nem a

[00:06:19] dose, né?

[00:06:20] De acordo com esse professor, eles lá no hospital de Jaú, eles testaram a dose que

[00:06:24] era calculada pelo peso da pessoa, qualquer remédio.

[00:06:27] Não, por exemplo, eu dou um exemplo do paracetamol.

[00:06:29] Ele é hepatotóxico.

[00:06:30] Eu acho que em vários países proibiram o paracetamol.

[00:06:32] É uma droga simplesinha que trata uma coisa lundana, dor de cabeça, coisa assim, no entanto

[00:06:37] você tem que saber a dose, senão você tem um problema sério.

[00:06:40] Exatamente.

[00:06:41] Eu, sinceramente, além de você ter esse problema da dose, que realmente é uma coisa que depende

[00:06:46] muito do composto pra composto.

[00:06:48] Tudo bem, eles falavam que esse composto não é maléfico pro corpo humano, eu não vou

[00:06:52] nem questionar isso daí.

[00:06:53] Digamos que ele realmente não seja maléfico, que ele seja eliminado.

[00:06:56] Você sabe como ele é eliminado pelo rim?

[00:06:58] Você sabe se o rim tem alguma lesão a longo prazo por tomar esse composto?

[00:07:02] Outra coisa, inclusive o farmacólogo que comentou no vídeo, eu achei muito interessante,

[00:07:06] ele falou assim, você tem todo um estudo feito em cada uma das drogas sobre qual é

[00:07:11] a melhor maneira de aplicação, se é oral, via oral, se é em via capsulada ou em via

[00:07:16] líquida, se é em comprimidos, se é intravenoso, se é intramuscular, se é a supositória.

[00:07:24] Às vezes você tem uma série de aplicações e cada um desses compostos tem uma melhor

[00:07:29] atuação dependendo de qual é a maneira.

[00:07:31] Utópico, né?

[00:07:32] Pomadas, essas coisas.

[00:07:33] E eu não sei se isso foi discutido, provavelmente os caras falaram, olha, é a maneira mais fácil

[00:07:37] de dar em cápsula pela boca mesmo, e aí você não sabe nem se esse composto é digerido

[00:07:42] pelo estômago, você não sabe se ele chega inteiro realmente a atuar nas células.

[00:07:47] A gente não sabe, é uma coisa que precisa ser mais bem estudada, os estudos que foram

[00:07:51] feitos não provam absolutamente nada com relação a isso.

[00:07:53] O estudo lá do médico, que é o único médico que tá na equipe deles lá, que é o Meneguello,

[00:07:57] ele falou que em placas de pétria, ou seja, em estudos em vitro, eles conseguiram observar

[00:08:02] o mecanismo lá de apoptose mitocondrial, que era feito com a ativação desse composto

[00:08:07] aí.

[00:08:08] Agora, nos estudos nos ratinhos não tá escrito lá como é que foi feito isso, não tá dizendo

[00:08:12] que o ratinho melhorou.

[00:08:13] Pode ser que tenha funcionado, entendeu?

[00:08:15] Essa que é a questão que o pessoal não entendeu.

[00:08:16] Eu não falei em nenhum momento que esse composto não funciona, eu só falei que a gente não

[00:08:20] tem como saber vários fatores que podem ter dado essa melhora em determinados animais

[00:08:25] ou não, em determinadas culturas ou não.

[00:08:27] E precisa ser confirmado ainda o resultado, né?

[00:08:29] Precisa ser confirmado, só que o pessoal não quis esperar, em parte por causa dessa

[00:08:33] lambança desse hospital aí, do Instituto de Química lá da USP, lá de São Carlos,

[00:08:38] que não tomaram as devidas precauções contra esse fremezinho emocional que foi feito.

[00:08:43] Isso aí não tô nem falando agora desse mês não, tô falando de todos esses anos

[00:08:46] em que a droga foi distribuída, sem nenhum tipo de rigor de inspeção sanitária ou

[00:08:50] de pesquisa, nada disso.

[00:08:52] Primeiro ponto.

[00:08:53] Segundo ponto, também é o fato desse médico e de, sei lá, outros médicos, inclusive

[00:08:58] do Círio Libanês que eles estavam falando, de ter prescrito esse composto sem ter avisado

[00:09:03] pras pessoas, pelo menos sem ter anotado os resultados, porque essa que é a questão

[00:09:07] é um composto experimental, então tudo bem.

[00:09:09] A lei permite que se você não tiver nenhum outro tipo de alternativa, nenhum outro tipo

[00:09:13] de tratamento, se você tiver no bico do corvo, como a gente fala, você pode usar tratamentos

[00:09:18] alternativos do jeito que você quiser.

[00:09:19] Mas aí é essencial que tu acompanhe o uso pra ver se a pessoa teve uma melhora ou não.

[00:09:24] Exato, é isso que é o fundamental, você precisa ter um acompanhamento, esse acompanhamento

[00:09:29] tem que ser anotado, tem que ser guardado as provas, as evidências, tudo isso daí,

[00:09:34] e depois tem que ser publicado, sabe, e você tem que deixar muito claro pra pessoa, olha,

[00:09:38] esse composto não tem comprovação científica.

[00:09:40] Teve um caso agora em Londres, por exemplo, de um tratamento que tava sendo desenvolvido

[00:09:44] em Vitro ainda, em Camundongos, contra uma leucemia rara aí, uma coisa meio complicada,

[00:09:49] e eles estavam fazendo esses testes e estava sendo muito promissor esses testes, mas ainda

[00:09:52] faltava, sei lá, uns oito anos pra conseguir ter a comprovação toda necessária.

[00:09:57] Uma família entrou em contato com essa equipe de pesquisa que estava desenvolvendo essa droga,

[00:10:01] a gente tava falando de uma equipe de pesquisa, né, não era uma droga, era um tratamento,

[00:10:04] e eles falaram assim, olha, por uma questão de zero alternativa, o médico já tinha

[00:10:09] falado, essa menina vai morrer, uma menina de, sei lá, cinco anos de idade, nem isso,

[00:10:12] eles falaram assim, tá bom, vamos fazer um teste, essa menina não tem nada a perder,

[00:10:15] a justiça estava ciente disso, então todo mundo ciente, era uma equipe de pesquisa,

[00:10:19] eles falavam, olha, vamos testar, e a menina melhorou, ótimo, só que isso foi feito dentro

[00:10:24] do ambiente científico, isso foi feito de uma maneira controlada, isso foi feito do

[00:10:27] jeito certo, ou seja, a menina melhorou, poderia ter piorado, mas era um risco que a menina

[00:10:31] correu, ela assumiu esse risco, a equipe médica também assumiu, e ela melhorou, ótimo,

[00:10:35] isso é um dado que vai ser publicado devidamente com relação a esse tratamento pra leucemia,

[00:10:39] e foi feito do jeito certo, ou seja, uma exceção que se abre pra pessoas desesperadas em casos

[00:10:44] finais, e o tratamento já estava se mostrando promissor, e já estava no estágio muito

[00:10:48] mais avançado de pesquisa do que esse estágio que está a fosfetrolamina aqui, não é uma

[00:10:52] distribuição aleatória de pílulas pras pessoas desesperadas que vão lá, entendeu?

[00:10:56] É importante ressaltar também que não é que nós somos uns burocratas da ciência

[00:11:01] que sabemos que a droga funciona, mas queremos exigir todos os passos pra gente se satisfazer

[00:11:07] na nossa burocracia.

[00:11:08] Ou que estamos defendendo alguma indústria farmacêutica.

[00:11:10] A questão é que, pra muitos de nós cientistas, existe a dúvida se realmente ela funciona

[00:11:16] ou se são apenas rumores, boatos…

[00:11:19] Eu acho que tem que analisar esse problema por dois ângulos.

[00:11:21] Tem um problema da percepção pública, que a gente sabe que ela é fortemente influenciada

[00:11:25] pelo desconhecimento, inclusive científico, que eu acho que aqui não é um problema só

[00:11:28] no Brasil, nesse particular de entender como se decide se um medicamento pode ou não,

[00:11:33] ou deve ou não ser utilizado, e como, isso aí é um problema mundial, mas também tem

[00:11:37] acrescido uma camada de desinformação pela forma como o tema foi tratado na mídia,

[00:11:42] o que também nos surpreende, em parte por despreparo do pessoal, em parte por uma ânsia

[00:11:47] pelo sensacional, e alguns vícios de origem que acabam favorecendo um relato distorcido

[00:11:53] que eles até é irresponsável, isso somar esse desconhecimento científico com a desinformação

[00:11:57] promovida pelo enfoque midiático nesse tema.

[00:12:00] E ao lado humano das pessoas envolvidas que estão ali lutando, desesperadas pela vida,

[00:12:04] então tem todos os elementos, claro, para favorecer a cultura do boato, então tudo

[00:12:09] que é falado vira uma história, cresce, tem vida própria.

[00:12:12] E uma teoria da conspiração, falando, nossa, vocês estão querendo silenciar a voz da

[00:12:18] verdade.

[00:12:19] Isso, primeiro, o que aconteceu na prática, pelo que eu entendi, essa pessoa que tem artigos

[00:12:24] publicados sobre o assunto, eu só encontrei quatro, encontrou cinco, tá?

[00:12:29] É, tem uns cinco.

[00:12:30] Cinco, cinco, não existe nenhum medicamento no universo que tenha sido aprovado com cinco

[00:12:34] artigos, isso não existe.

[00:12:35] Em cinco das mesmas pessoas?

[00:12:36] Isso, e todas elas, e aí entra o segundo ponto da explicação, que é a compreensão

[00:12:41] das pessoas assim que a ciência é dividida em etapas, quase que uma divisão de papéis

[00:12:45] entre a pesquisa básica, a pesquisa aplicada e depois uma pesquisa tecnológica que é

[00:12:49] voltada para o mundo real, para a aplicação mesmo.

[00:12:52] Por exemplo, essa substância que é muito parecida com os lipides que a gente tem na

[00:12:55] membrana.

[00:12:56] Exato.

[00:12:57] Só que ele descobriu como sintetizar.

[00:12:58] Não, ele descobriu um método específico de sintetizar, me mostraram a tabela de várias

[00:13:04] patentes existentes para esse composto, a fóssil de etanolamina.

[00:13:07] Cada uma delas usa um tipo de átomo como fixador, acho que eu não sei, a minha química

[00:13:13] é muito mental.

[00:13:14] É um estabilizador.

[00:13:15] Mas assim, alguns usam cobre, uns usam titânio, sabe aquele átomo que fica lá que une a

[00:13:19] grande molécula, é ferro, geralmente é um metal, e cada uma dessas patentes evidencia

[00:13:25] um processo diferente de fixação da molécula, então você tem várias patentes desse composto,

[00:13:31] eles estão usando um procedimento diferente, mas o composto não é novo.

[00:13:34] Sabe se esse professor apresentado sempre tem a patente da versão dele?

[00:13:37] Então, aí tem algumas coisas que eu averiguei, obviamente que as minhas fontes pediram para

[00:13:42] não ser citadas, mas elas me apresentaram evidências cabais dessas coisas.

[00:13:47] Mas tem duas solicitações de patentes, uma para o composto e uma para o processo, só

[00:13:51] que não foi finalizado esse processo de aprovação da patente.

[00:13:54] É, para o composto você não vai conseguir.

[00:13:56] Mas o processo talvez ele consiga, agora está sendo jogada essa questão da patente,

[00:14:00] aquela questão da Fiocruz, que ele não quis aceitar a ajuda da Fiocruz, porque eles queriam

[00:14:03] a patente e tal, é uma coisa muito mal contada, porque a patente ainda não está, é uma

[00:14:08] solicitação.

[00:14:09] Ele queria entrar na legislação, se você já tem uma solicitação prévia, você não

[00:14:13] pode solicitar de novo, enfim, não sei como é que funciona.

[00:14:16] Se você tem uma molécula e um bom processo de produzir ela, não te prova que você

[00:14:18] tem um medicamento.

[00:14:19] Ter a patente dela também não, a patente é o que você quiser.

[00:14:22] O fato é o seguinte, como esse composto, ele só fez alguns estudos do que se chama

[00:14:27] precisa preliminar, que fica entre a básica e a inicial da aplicada, ou seja, ele testa

[00:14:32] se ele é tóxico para células do tipo cancerosa em cultura de células e injeta, não sei

[00:14:37] nem se é modelo de câncer os clamodôns que ele usou.

[00:14:39] É, os ratos que eles usaram nessa pesquisa eu não sei.

[00:14:41] Mas de qualquer maneira, mesmo que você faça no modus, isso não é suficiente, nem

[00:14:45] sequer para encerrar a discussão no nível básico.

[00:14:47] Da libra adiante, você vai ter que fazer uma outra coisa, que é o estudo mais caro,

[00:14:50] por isso que eu digo que os cinco artigos que você vai fazer, você tem que estudar

[00:14:54] Antes de fazer o teste em humanos, todos os quesitos de segurança, por exemplo, se aplicado

[00:14:59] em tais e tais concentrações de tal forma, de forma crônica durante tanto tempo, ele

[00:15:03] é tóxico para o fígado, ele é feto semonervoso, ele é teratogênico, no caso uma mulher grávida,

[00:15:09] ele é mutagênico, enfim, mutagenicidade, teratogenicidade, toxicidade, tudo isso aí

[00:15:15] se faz em animais.

[00:15:16] Isso tudo ainda sem discutir se funciona ou não.

[00:15:19] É, exatamente.

[00:15:20] Isso se faz antes.

[00:15:21] Quando esses testes existem, você pode iniciar a chamada fase 1 do teste em humanos, que

[00:15:25] é um grupo pequeno de voluntários em situações parecidos com a dessa menina que você mencionou.

[00:15:29] Num ambiente totalmente controlado, com profissionais de várias áreas trabalhando junto, aí você

[00:15:34] pode fazer um pequeno teste inicial que não garante grande coisa, inclusive não certifica

[00:15:38] que a droga vai ser funcional sempre.

[00:15:40] Ela pode inclusive funcionar com 5 ou 6, num teste com 20 ou 30, ficar promissor, mas

[00:15:45] ainda assim não servir lá adiante.

[00:15:47] Por isso que as pessoas não entendem que de cada 100 substâncias interessantes, 10

[00:15:51] são de fato levadas até essa etapa e uma ou menos acaba de fato virando uma proposta

[00:15:57] que eventualmente vai virar um medicamento.

[00:15:59] É menos até do que 1%.

[00:16:00] Então a fosfetrolamina, na verdade ela tem um terceiro problema que ela se enquadra na

[00:16:04] categoria dos quimioterápicos para câncer, que é uma área que está começando a ser

[00:16:09] abalada pelas novas descobertas na área do câncer.

[00:16:12] As imunoherapias.

[00:16:13] Exatamente, que o que parece ser a forma mais adequada e eficiente de tratar os cânceres

[00:16:17] de uma forma geral é uma combinação daquelas vacinas gênicas, ou seja, se trabalha na

[00:16:22] parte do tratamento do câncer em si e do sistema imunitário do paciente.

[00:16:27] Então quando fizer as duas coisas juntas de forma adequada, você tem uma eficiência

[00:16:30] tal que as tais quimioterapias que todo mundo conhece, que é o que é mais usado, que deixam

[00:16:34] o cara destruído, perde cabelo, desdêntese com a mal, faz enjoado, muitos desistem, elas

[00:16:40] podem vir a ser até aposentadas com o tempo, com o tempo, ainda não.

[00:16:44] Seria então mais um quimioterápico, mais um quimioterápico que não passou sequer,

[00:16:48] vamos dizer assim, da pré-escola.

[00:16:50] O cara não fez mais do que esses 4, 5 artigos e começou a distribuir para fazer testes

[00:16:54] em humanos direto de forma ilegal, ilegal e anti-ética, ou seja, ele estava experimentando

[00:16:59] em Nánie Manóvel.

[00:17:00] Não, não, foi até pior, porque esses 5 artigos que ele tem publicado são extremamente

[00:17:03] recentes.

[00:17:04] O cara distribuiu esse composto desde a década de 90.

[00:17:06] Esses artigos são de 2012, 2013.

[00:17:09] Mas tem outros dois problemas que vocês não mencionaram.

[00:17:11] Um é que esse tipo de notícia cria uma falsa expectativa tanto no paciente quanto na família

[00:17:17] e faz com que essas pessoas possam abandonar os tratamentos que já se mostraram eficientes.

[00:17:22] Ele preda a estimação do desejo humano.

[00:17:24] Esse é um problema.

[00:17:25] O segundo problema é que quando uma pessoa participa de um teste clínico, existe uma

[00:17:31] responsabilidade pela equipe que está fazendo esse teste, não só de acompanhar, mas de

[00:17:36] se responsabilizar pelos pacientes por um eventual produto desse tratamento que não

[00:17:41] dá certo.

[00:17:42] Agora, fazendo desse jeito, se as pessoas podem aparecer na frente do laboratório e

[00:17:46] pedir a droga, quem é responsável se não dá certo?

[00:17:49] O paciente?

[00:17:50] O SUS?

[00:17:51] O juiz que decidiu?

[00:17:52] Antes de entrar nesse detalhe, ele falou o seguinte, ele fez esses experimentos de forma

[00:17:57] amadora, conduzindo eles por baixo dos panos, distribuindo a droga para ver o que acontecia.

[00:18:01] Na verdade, ele está incorrendo no que se chama crime de curanderismo, que está no

[00:18:05] Código Civil Brasileiro, porque quando ele não está recebido nada, é que tem embasamento.

[00:18:08] Se ele me apresentar pelo menos um termo de consentimento informado de uma dessas pessoas

[00:18:13] que tomam a droga, ainda vai ter como se defender, mas é o que tu faz quando tu trabalha em

[00:18:16] humanos tanto na fase 1, 2, 3 ou 4, que vem tudo isso antes de sair para o mercado.

[00:18:21] Você for olhar todas as aparições e os vídeos desse médico que alegou ter dado isso

[00:18:25] aí para os pacientes dele, você vê que o modo dele, eu posso estar enganado, mas

[00:18:31] eu acho que ele até quer que isso aconteça.

[00:18:33] Se der algum problema para ele, vira Marte, ele vira tipo, ah, está vendo, estou sendo

[00:18:37] preso, blá, blá, blá.

[00:18:39] Esse composto a fosfo é uma droga que tem potencial de ser usado, e junto com ela deve

[00:18:44] ter milhares de drogas em todos os laboratórios do mundo, no Brasil deve ter…

[00:18:49] Em diferentes fases de testes.

[00:18:50] Talvez até em estágios mais adiantados e mais famosos.

[00:18:52] Agora imagina se um programa de TV agora vai de laboratório em laboratório e fazer

[00:18:57] uma propaganda sobre cada uma dessas drogas.

[00:19:00] Mesmo que isso aconteça, Marte.

[00:19:02] Uma coisa maior desse caso da fosfo é que não é que ela surgiu como as pessoas falando

[00:19:07] olha, um pesquisador está fazendo isso, não sei o quê.

[00:19:10] Ela surgiu assim, sei lá, 50 mil cápsulas são distribuídas todos os meses, centenas

[00:19:15] de pessoas, há anos, então as pessoas já estão tomando esse composto, já estão,

[00:19:22] então a grande questão, que é o grande problema que levou para a parte emocional isso daí,

[00:19:26] é isso.

[00:19:27] Não é tipo um composto que está sendo desenvolvido por uma pesquisadora da URI, que

[00:19:31] é a suspensão de uma prática que estava sendo feita antes sem nenhuma base.

[00:19:35] Exato, é aí que a imprensa entrou, a maneira como você aborda esse caso é que vai fazer

[00:19:40] a diferença de como que a opinião pública vai responder.

[00:19:43] Enquanto uma história, uma história humana, aí já fica tudo melecado, tudo confuso.

[00:19:46] Exato, se é um composto que ninguém nunca tomou, quem tomou foi meia dúvida de Camundongo,

[00:19:51] ninguém vai ligar.

[00:19:52] Você não tem aquela coisa do testemunho, você não tem aquela coisa da pessoa falar

[00:19:55] eu tomei e eu me curei.

[00:19:57] O problema é que as pessoas que não se curaram não podem mais falar.

[00:20:00] Exato.

[00:20:01] Por exemplo, eu li nos comentários inúmeros e bem agressivos da tua matéria, que tem pessoas

[00:20:07] que alegam estar fazendo tratamento, ter feito tratamento e sentindo melhor e tal, e começa

[00:20:11] todo aquele amontoado de relatos anedóticos, e aí eu fico pensando, deve ter talvez algum

[00:20:16] desses pacientes ouvindo esse programa pronto para mandar cartas para a nossa mãe, e ele

[00:20:20] vai dizer assim, então o que foi que eu senti, por que que eu senti melhor, e aí nós temos

[00:20:23] que entrar nessa área de coisas que você também abordasse no programa, que esse composto

[00:20:28] pode ser três coisas, ele pode ser absolutamente inerte e não fazer nada, quimicamente, bioquimicamente,

[00:20:33] ele pode ser tóxico e isso vai aparecer examinando o efeito de uma população maior, porque ele

[00:20:39] não é tóxico do tipo mais agressivo que todo mundo que tomou morreu, isso já sabemos

[00:20:43] que ele não é, mas ele pode ser tóxico em um grau mais leve e portanto ele é daninho,

[00:20:47] e ele pode inclusive ser um medicamento que seja interessante para tratar, pelo menos

[00:20:51] alguns tipos de câncer, só que ele não foi testado e não tem como afirmar nada sobre

[00:20:55] isso e evidência anedótica não prova nada, então no caso dele não fazer nada, ele ser

[00:20:59] inerte, que na verdade é a minha aposta, existe uma coisa chamada efeito placebo, então

[00:21:03] a pessoa está aqui me ouvindo e dizendo, por que que eu me senti bem, se tu vai sentir bem

[00:21:06] tomando açúcar, se tu não souber que é açúcar e achar que aquele pozinho é a substância

[00:21:11] que te foi dada, porque tu não tem como saber, e porque a mente humana é complexa, ela manipula

[00:21:16] através do desejo de outro sistema imunitário, a própria reação do organismo, não que

[00:21:20] haja cura de qualquer coisa através da mente humana, mas a mente humana consegue fazer

[00:21:24] pequenos milagres nessa área, quando a situação não é muito grave, agora na situação grave

[00:21:28] de um câncer real diagnosticado e tal, você se coloca numa situação de alto risco.

[00:21:33] É, mas aí dois pontos que eu queria falar, com relação ao placebo, o que o pessoal alega

[00:21:37] muito é que se o ratinho melhorou, o ratinho não sofre do efeito placebo, para começar

[00:21:41] aqui o ratinho muito provavelmente sofre do efeito placebo também, mamíferos em geral

[00:21:45] possuem um córtex que percebe a diferença de tratamento, por exemplo, que ele pode receber,

[00:21:50] percebe uma série de coisas, tanto é que o ideal é você isolar, inclusive fazer duplo cego, ou, por exemplo,

[00:21:55] misturar o composto na água, porque aí o rato não está sendo tratado de forma especial,

[00:21:59] nem o controle e nem o grupo do tratamento.

[00:22:01] Isso se não tiver um gosto notável, se não, também não dá.

[00:22:04] Isso, o ratinho também pode sentir efeito placebo, eu não estou nem questionando a pesquisa do cara,

[00:22:08] pode ser que realmente esses ratinhos tenham sido tratados e tenham melhorado.

[00:22:12] A questão é tudo que vem depois que não foi feito, então daí pode fazer o salto animal

[00:22:15] para o humano, tem muitas coisas, e aí entra aquele outro debate que é a questão da experimentação

[00:22:19] com animais, ou seja, as pessoas dizem, por que testar com animais se eles não são como nós?

[00:22:22] Na verdade, os animais são quase em tudo, exceto nas coisas mais sutis e iguais a nós,

[00:22:28] nós somos descendentes e antepassados comuns, nós compartilhamos quase toda a bioquímica básica

[00:22:32] das células, muito da fisiologia, sendo mamíferos, tal.

[00:22:35] Tanto é que a gente não testa em ilula, a gente não testa em parata, a gente testa em mamífero,

[00:22:41] testa numa coisa assim, né, tipo, até tem algumas coisas que você testa em peixe, mas…

[00:22:45] Então, quando tu tem animais, assim, essa informação é preliminar sempre, mas ela é bastante informativa,

[00:22:50] então você tem essa coisa do princípio da unicidade, da filogenia biológica, que permite a gente fazer

[00:22:55] testes em animais e aprender com eles coisas que tu não teria como fazer em humanos, porque seria antiético.

[00:22:59] A gente tem que lembrar que existe ciência veterinária, muitas vezes a gente quer tratar exatamente o bicho.

[00:23:04] Exato.

[00:23:05] Então, você tem um composto que foi testado em ratinhos, em cachorro, em gato, em cavalo,

[00:23:10] já é um remédio que pode ser utilizado quando você precisa tratar um animal.

[00:23:13] Ele pode acabar sendo só isso, um remediamento bom para animais e não para humanos.

[00:23:17] O fato de você ter uma prova no animal é só o começo de uma longa jornada.

[00:23:21] Aqui nós temos, então, um grupo de pesquisadores que tomou atalhos, atalhos que são antiéticos desde muito tempo.

[00:23:27] Esses testes em humanos, a fase 1, 2, 3 e 4, eles não eram sempre assim, antes era mais abreviado o negócio,

[00:23:33] mas assim tinha, pelo menos, duas etapas.

[00:23:35] O caso mais famoso é o da talidomida, que no fim dos anos 50 foi desenvolvido como medicamento para a dor do parto,

[00:23:40] a dor da gravidez, e aí ele foi testado

[00:23:43] em animais, depois em humanos, e viu que não era perigoso, na pequena população de humanos funcionou,

[00:23:48] não deu nenhum efeito colateral e se comercializou.

[00:23:50] O que as pessoas entendem é que, na verdade, quando você comercializa o medicamento, ainda está numa fase de teste.

[00:23:54] Nunca termina os testes, porque aí você começa a atingir um público grande,

[00:23:58] na hora de milhões de pacientes que você jamais poderia fazer em um experimento normal,

[00:24:02] e aí você tem chance de atingir aquelas poucas pessoas que são casos mais particulares dentro de uma população,

[00:24:06] os pequenos desvios de uma população.

[00:24:08] Você começa a aumentar a bula.

[00:24:09] Você começa a pegar a biodiversidade humana e encontrar aqueles casos lá onde o remédio não é bom.

[00:24:14] Então, se tem um medicamento que pode ser mal, letal, para uma pessoa em um milhão,

[00:24:18] ele não pode ser comercializado, ponto!

[00:24:21] Porque a chance de ser uma pessoa em um milhão e pegar…

[00:24:23] Isso não é exatamente verdade, porque, por exemplo, os antibióticos são pessoas extremamente alérgicas, antibióticos…

[00:24:28] Tudo depende de quantas pessoas se beneficiam disso, você tem que pesar para o seu benefício.

[00:24:32] Bom, mas então, vamos ver o caso da talidomida.

[00:24:34] Foi um remédio de enorme sucesso, na verdade, foram milhões de usuários, porque ele falhou que nem uma onda,

[00:24:38] e o resultado foi horrível, em um percentual respeitável desse total, que sofreram ateratogênese,

[00:24:43] que modificou o desenvolvimento do feto e secaram as crianças sem bracinhos.

[00:24:47] E esse é um caso particular, que a partir dali, a legislação endureceu mais,

[00:24:51] porque, na verdade, você começou a compreender esse fato de que, quando você comercializa, você também está testando.

[00:24:55] Já não é o caso que aconteceu com aquele antiflamatório, o Vioxx.

[00:24:58] Ele foi comercializado, então, teoricamente, era garantido, era seguro e eficiente,

[00:25:02] não havia contaprova, tendo passado as quatro fases de teste,

[00:25:05] e, na verdade, começou a aparecer e a espocar em relatos de mortes.

[00:25:09] No caso da talidomida, tem uma outra semelhança, que nos Estados Unidos, o uso dela foi atrasado,

[00:25:15] porque tinha uma funcionária do Instituto Americano, que regulamenta esse tipo de remédio,

[00:25:19] que desconfiou de alguns resultados, parecia mostrar alguns problemas,

[00:25:24] e ela, deliberadamente, atrasou a liberação, e teve todo um movimento de pressão,

[00:25:29] parecido com esse aqui, não, queremos esse remédio já, queremos consumi-lo.

[00:25:33] Esses meses, acho que foram nove, oito, nove meses, que salvou muita gente.

[00:25:38] Então, no caso do Vioxx, a coisa foi um pouco mais feia, quando acendeu o alerta vermelho,

[00:25:43] que tem algo errado, vamos perder a comercialização, se descobriu, então, que, na verdade, havia uma fraude,

[00:25:48] eles esconderam alguns efeitos negativos, e aí é um crime, né?

[00:25:51] Aí é crime mesmo, deliberado.

[00:25:53] Nesse caso aqui, também tem um crime sendo praticado, mas ainda numa escala bem menor,

[00:25:57] a gente está praticando o crime de curanderismo, tecnicamente falando.

[00:26:00] Na verdade, e aí foi uma alegação do próprio professor no Congresso,

[00:26:04] a legislação brasileira, quando ele começou a pesquisa com esse negócio, era mais branda também.

[00:26:08] Então, a gente tem que levar em conta que também tem um problema de legislação no Brasil,

[00:26:11] que, em 1990, quando ele fez o primeiro pedido para teste em humanos,

[00:26:16] sem ter passado por nenhum teste em animais, na época,

[00:26:19] ele só tinha feito o teste de toxicidade letal, um só também,

[00:26:23] mas, naquela época, o Brasil permitia essas coisas,

[00:26:25] você passava só pela Secretaria de Saúde, e acabou.

[00:26:29] Então, você tinha uma permissividade que permitiu, por exemplo,

[00:26:31] que esse professor começasse a distribuir esse composto lá no Hospital de Jaú.

[00:26:36] Então, você também tem uma falha da legislação brasileira,

[00:26:38] e aí ela foi mudada com o tempo.

[00:26:40] Isso até pode, em parte, mas tem que ver outro fato, naquela época,

[00:26:43] praticamente não existia nenhuma indústria brasileira de medicamentos.

[00:26:46] As poucas importantes têm surgido nos últimos 10, 15 anos,

[00:26:49] e estão lutando, inclusive, porque essa fase de teste é extremamente complexa,

[00:26:52] a aplicação dessa legislação, sendo que a prática não consegue fazer os testes adequadamente,

[00:26:58] e tanta exigência é feita, que ele acaba não sendo feito,

[00:27:00] e aí algum medicamento estrangeiro toma dianteira,

[00:27:03] que, na verdade, é bom que tem uma legislação rigorosa,

[00:27:05] mas não que ela seja impeditiva e bloqueante da pesquisa.

[00:27:07] É importante isso que o Jorge está falando,

[00:27:09] a gente não está querendo dizer aqui que o processo de testes de medicamentos no Brasil é santinho.

[00:27:14] Ele é muito burocrático.

[00:27:16] A questão é, a gente chama de um processo de burocrático

[00:27:20] quando ele está atrasando o trabalho do laboratório,

[00:27:23] o que a gente não chama de burocrático quando se propõe pular essas etapas.

[00:27:28] E o pessoal que está aí defendendo a fósforo,

[00:27:30] eles estão alegando exatamente isso,

[00:27:32] eles estão alegando que a burocracia impedia eles de continuar,

[00:27:35] sendo que, na verdade, eles nem chegaram numa fase de solicitação

[00:27:40] para fazer essa burocracia,

[00:27:41] eles estão falando isso da burocracia na má fé

[00:27:44] e apelando para a ignorância do povo no que diz respeito aos procedimentos corretos,

[00:27:49] e aí estão jogando isso aí em cima da conta da Anvisa.

[00:27:51] Mas eles nem chegaram na fase de burocracia.

[00:27:53] Tem outro problema que aparece,

[00:27:55] se a gente pula etapas,

[00:27:57] como é que tu justifica que todo mundo também não possa pular etapas?

[00:28:01] Quem é que vai impedir qualquer picareta de apresentar uma solução milagrosa

[00:28:05] e que não possa seguir o mesmo caminho?

[00:28:07] Eu não preciso mostrar a eficiência desse remédio,

[00:28:09] porque já aconteceu esse outro caso antes.

[00:28:11] E você já aprendeu agora o caminho das pedras tecnicamente, o que você faz?

[00:28:16] Você desenvolve um composto qualquer,

[00:28:17] distribui esse composto para uma galera por algum tempo,

[00:28:20] quando uma porcentagem grande dessas pessoas falar que foi curada,

[00:28:23] você faz um dramalhão, faz um chororô,

[00:28:25] faz meia dúzia de matérias horrorosas,

[00:28:28] e pronto, você ganha uma sessão no Senado e 10 milhões de reais.

[00:28:31] Mas assim, como é que você vai discutir a científicidade de uma coisa dessa

[00:28:33] num país onde, por exemplo, é legal e tem o repressivo do Conselho Médico,

[00:28:37] na questão do neuapatia, inclusive, que também não tem fundamento científico,

[00:28:40] mas que é baseado, no fato, em feito passebo,

[00:28:44] mas assim, pelo menos é só água,

[00:28:47] nesse caso que é um pouco mais complexo.

[00:28:49] Eu acho que a gente está terminando as considerações finais.

[00:28:52] É, eu só quero dizer que o resultado do teste é irrelevante.

[00:28:56] Se a droga se mostrar eficiente, vai ser usada.

[00:28:59] Se ela se mostrar ineficiente, ela vai ser usada.

[00:29:01] Ou seja, as pessoas, o fato de já existirem algumas anedotas,

[00:29:06] justifica que essa droga nunca mais vai sair da lista de pseudo remédios,

[00:29:10] assim como a homeopatia, não importa a quantidade de evidências contrárias,

[00:29:15] as pessoas não deixam de seguir o tratamento.

[00:29:17] Eu escrevi o que ficou muito bom dizendo, esta simpatia.

[00:29:20] Eu realmente espero que a Fosfo seja promissora

[00:29:24] e que ela realmente ajude, não no cura ou no controle de cânceres.

[00:29:27] Eu quero que isso aconteça, só que que isso seja feito do jeito certo,

[00:29:31] para que a gente não tenha essa dúvida,

[00:29:34] de que é meramente uma sorte ou um acaso.

[00:29:37] Por exemplo, o que você pode fazer quando um juiz que realmente se arvorou

[00:29:40] o papel de cientista martelando em cima de um assunto,

[00:29:43] não ter a menor ideia, baseado no fato consumado?

[00:29:47] Esse é o meu medo, imagina, todos os remédios que estão em fase de testes,

[00:29:50] de repente ganham uma liminar e todos os laboratórios de pesquisa

[00:29:53] tem que começar a produzir remédio para um monte de gente,

[00:29:55] porque o juiz se deu contato, mas tem aquele remédio,

[00:29:57] parece que foi bem no primeiro teste, vamos liberar ele para a população.

[00:30:01] Vamos acabar vendendo óleo de cobra aí.

[00:30:03] Não, e aí você vai ter a multiplicação de processos reversos,

[00:30:05] todo mundo processando depois os laboratórios,

[00:30:08] porque tomou o remédio, morreu a vovó, morreu o tio,

[00:30:10] e aquilo que você falou, quem vai ser responsabilizado por isso?

[00:30:13] Se bem que isso aí, as empresas já estão montadas, elas sabem como lidar.

[00:30:16] Em toda uma estrutura, o problema é o contrário,

[00:30:19] o estrutura não consegue segurar o descontrole do que é o boato, na verdade.

[00:30:23] Nós estamos diante de um fenômeno de boato,

[00:30:24] que está mais predando em cima da percepção pública,

[00:30:27] e isso é muito preocupante.

[00:30:28] E do sofrimento das pessoas.

[00:30:29] Principalmente, é o desconhecimento com a desinformação, com o desespero, tudo misturado.

[00:30:33] Hoje tivemos aqui como convidado o Piro Ula,

[00:30:35] e a gente discutiu a fosfoetanolamina,

[00:30:39] e o pessoal do programa aqui, o Jorge Kielfeld da biofísica,

[00:30:42] eu Marco de Arte e o Jefferson Anzol da Física da ONU.

[00:30:46] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URBIS.

[00:30:51] Direção Técnica de Francisco Guazelli.