AntiCast 215 – Black Mirror: White Christmas
Resumo
O episódio analisa o especial de Natal de Black Mirror, ‘White Christmas’, um episódio de aproximadamente 75 minutos que funciona como um filme. A discussão se estrutura em torno das três histórias interligadas apresentadas no episódio: a primeira sobre Matt (apelidado de ‘Don Draper’) e seu serviço ilegal de streaming voyeur através de uma tecnologia ocular chamada ZI; a segunda sobre a criação de ‘cookies’ - cópias digitais de consciências humanas usadas como assistentes domésticos escravizados; e a terceira sobre Joe, um homem bloqueado pela esposa que descobre ter sido traído e, em um acesso de fúria, comete um assassinato.
Os participantes destacam como o episódio explora tecnologias que potencializam conflitos humanos fundamentais: voyeurismo, exclusão social através do bloqueio (uma extensão das redes sociais para o mundo real) e a criação de consciências artificiais para servidão. A análise enfatiza a estrutura narrativa excepcional do episódio, que apresenta todas as regras do seu mundo de forma didática enquanto entrelaça as histórias de maneira surpreendente, com revelações que conectam os personagens e suas punições finais.
Um tema central discutido é o da memória e esquecimento como formas de punição. O ‘cookie’ de Joe é condenado a reviver eternamente a memória da casa onde cometeu o crime, sofrendo uma punição por excesso de memória. Matt, por outro lado, é ‘fichado’ e bloqueado por toda a sociedade, tornando-se uma pessoa esquecida e invisível - uma punição pelo esquecimento. Os participantes traçam paralelos com questões contemporâneas como o estigma de ex-presidiários, dívidas históricas e debates sobre memória coletiva.
A conversa também se aprofunda no dilema ético da consciência artificial, questionando se os ‘cookies’ devem ser considerados meros programas de computador ou entidades conscientes dignas de direitos. Os participantes debatem perspectivas humanistas e pós-humanistas, comparando a situação com representações digitais nas redes sociais e personagens ficcionais. O episódio é elogiado por sua qualidade cyberpunk, focando em como tecnologias avançadas servem como pano de fundo para dramas humanos universais como traição, vingança e isolamento, sem oferecer soluções moralizantes.
Indicações
Conceitos
- Pick-up artists — Comunidades online discutidas que oferecem dicas coercitivas para conquistar mulheres, relacionadas com o serviço de Matt no episódio. Os participantes mencionam casos reais de violência associados a essa cultura de rejeição e frustração.
Episodios
- Anticast 133 - A cultura do eu, violência, ficção e realidade — Mencionado por Ivan como um episódio anterior que discutiu o caso de Elliot Roger, um jovem frustrado com mulheres que frequentava comunidades de pick-up artists e cometeu um massacre, relacionando-se com temas de rejeição e violência abordados em White Christmas.
Filmes
- Ex Machina — Citado como outro trabalho que explora dilemas sobre consciência artificial e o que significa criar vida, com debates sobre humanismo e pós-humanismo similares aos levantados pelo episódio de Black Mirror.
- Bastardos Inglórios — Mencionado por Ivan como exemplo de uso de dissonância entre conteúdo violento e trilha sonora feliz, técnica similar à usada no final de White Christmas com imagens terríveis e música natalina.
Livros
- Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley) — Citado por Beccari como obra que explora temas similares de clones e escravidão, particularmente a ideia de criar seres para servidão e os dilemas éticos envolvidos quando esses seres desenvolvem consciência própria.
Pessoas
- Rukmini Callimachi — Jornalista do New York Times mencionada por Ivan que estuda o Estado Islâmico através do Twitter, mostrando como redes sociais podem ser usadas para análise de comportamentos e doutrinação, relacionando-se com temas de vigilância e representação digital.
- Charlie Brooker — Criador de Black Mirror, elogiado pelos participantes pela qualidade da narrativa e por não oferecer soluções moralizantes, deixando questões éticas em aberto para o espectador refletir.
Podcasts
- Love and Radio — Mencionado por Ivan, é um podcast americano que coleta depoimentos e os transforma em storytelling. Um episódio específico, ‘Red Dot’, discute a vida de um sex offender e como o estigma persiste por décadas através de registros públicos.
- Radiolab — Citado por Ivan como tendo um episódio sobre uma boneca que pedia ajuda quando virada de cabeça para baixo, ilustrando como mesmo objetos simples podem gerar empatia e levantar questões sobre consciência e tratamento de entidades artificiais.
Linha do Tempo
- 00:07:00 — Primeira história: Matt e o serviço de streaming voyeur — Discussão sobre a primeira narrativa do episódio, onde Matt (apelidado de Don Draper) conta como trabalhava com um serviço ilegal de streaming através de tecnologia ocular (ZI). Ele ajudava homens inseguros a conseguir encontros, mas na verdade transmitia as interações para um grupo. A situação termina em tragédia quando uma mulher com tendências suicidas mata seu parceiro durante uma transmissão. Esta parte introduz as tecnologias de voyeurismo e bloqueio social.
- 00:10:10 — Segunda história: A criação e tortura de cookies — Análise da segunda narrativa, onde Matt trabalha criando ‘cookies’ - cópias digitais de consciências humanas. Ele mostra como tortura o cookie de uma cliente rica submetendo-o a meses de isolamento subjetivo em minutos, até quebrar sua resistência e aceitar ser um assistente doméstico escravizado. Esta parte levanta questões éticas sobre consciência artificial, escravidão digital e a natureza do sofrimento em entidades digitais.
- 00:12:17 — Terceira história: Joe, o bloqueio e a traição — Discussão sobre a história de Joe, que é bloqueado pela esposa após descobrir que ela está grávida. Anos depois, quando o bloqueio se desfaz com a morte dela, Joe descobre que a filha não é biológica dele (a criança é japonesa, revelando uma traição). Em um acesso de fúria, ele mata o sogro, indiretamente causando a morte da criança. Esta narrativa conecta as tecnologias de bloqueio com dramas humanos de traição e perda.
- 00:16:47 — A revelação final e as punições — Análise do desfecho onde se revela que Matt estava interrogando o cookie de Joe na delegacia para obter uma confissão. As punições são aplicadas: o cookie de Joe é condenado a passar milênios revivendo a memória do crime, enquanto Matt é ‘fichado’ e bloqueado por toda a sociedade. Os participantes discutem como essas punições representam extremos de memória (reviver eternamente) e esquecimento (ser invisibilizado).
- 00:24:02 — Memória e esquecimento como temas centrais — Discussão aprofundada sobre como memória e esquecimento funcionam como mecanismos de punição no episódio. O cookie de Joe sofre por excesso de memória (eterno retorno do trauma), enquanto Matt sofre por ser esquecido (ostracismo social). Os participantes traçam paralelos com questões contemporâneas como estigma social, dívidas históricas e debates sobre memória coletiva, citando exemplos como sex offenders nos EUA e discussões sobre ditadura militar.
- 00:40:15 — O dilema ético da consciência artificial — Debate filosófico sobre a natureza dos cookies como consciências artificiais. Os participantes questionam se são meros programas ou entidades conscientes dignas de direitos, comparando com representações digitais nas redes sociais e personagens ficcionais. Discutem perspectivas humanistas (que demonizam a tecnologia) versus pós-humanistas (que aceitam sua inevitabilidade), e como o episódio problematiza dicotomias como original/cópia e natural/artificial.
- 01:12:48 — A qualidade cyberpunk e narrativa do episódio — Reflexão sobre como ‘White Christmas’ exemplifica o cyberpunk de alta qualidade, usando tecnologia como pano de fundo para dramas humanos universais. Os participantes elogiam a estrutura narrativa que ensina todas as regras do mundo de forma didática enquanto entrelaça histórias complexas. Destacam o final dissonante (imagens terríveis com música natalina feliz) e como o episódio deixa questões éticas em aberto, evitando moralizações simplistas.
Dados do Episódio
- Podcast: AntiCast
- Autor: HD1
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2015-12-23T23:03:53Z
- Duração: 01:50:51
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/anticast/59b7c240-797b-0130-0111-723c91aeae46/anticast-215-black-mirror-white-christmas/6ec16cc0-8bf8-0133-2d8b-6dc413d6d41d
- UUID Episódio: 6ec16cc0-8bf8-0133-2d8b-6dc413d6d41d
Dados do Podcast
- Nome: AntiCast
- Tipo: episodic
- Site: https://open.spotify.com/show/40IuG6Qs0lwYntanTQbpDJ?si=tH4elzqGSaWFAiXbTvsalg
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Transcrição
[00:00:00] Este podcast é apresentado por
[00:00:06] b9.com.br
[00:00:10] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:00:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:01:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:01:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:02:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
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[00:03:00] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:03:30] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
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[00:06:58] Anticast, a visão do designer sobre o mundo
[00:07:00] ser o seguinte, ó. Daí, vamos lá. Primeira parte
[00:07:02] da história. Tipo um trampo
[00:07:03] na Sibéria. É.
[00:07:05] Mas isso o Don Draper contando, né?
[00:07:08] Isso, o Don Draper contando. Então, beleza.
[00:07:09] Por que eu vim parar aqui? Daí aparece lá
[00:07:11] que ele fazia um
[00:07:13] serviço de…
[00:07:16] Ele ajudava pessoas
[00:07:17] que eram muito seguras em
[00:07:19] conseguirem encontros e tal.
[00:07:22] E daí ele tá lá com esse cara que
[00:07:23] vai pra uma festa, daí começa a falar com
[00:07:25] uma menina, blá blá blá.
[00:07:27] E daí enquanto ele tá falando com essa menina
[00:07:29] e ele tá dando dicas pra ela, ó. Fala isso.
[00:07:31] Faz assim. Fica seguro.
[00:07:33] Tipo, como que é aquele filme do Smith?
[00:07:35] Que ele é um conselheiro amoroso. Hit. Hit.
[00:07:38] Excelente filme. Excelente filme.
[00:07:40] Daí…
[00:07:40] E daí ele tá lá dando dicas pro cara e daí
[00:07:44] só que daí você percebe que o Don Draper
[00:07:45] tá mentindo pro Joe na sua
[00:07:47] história. Porque ele tá assim, não, era só eu e ele.
[00:07:50] Daí na verdade tem um grupo de pessoas assistindo
[00:07:51] junto por isso. É porque ele vendia o streaming
[00:07:53] da parada. Ele vendia o streaming pra parada e era tipo
[00:07:55] um grupo, né? Um ajudava o outro também
[00:07:57] assim e tal. Então parece que era tudo mundo sabia
[00:07:59] isso. É, e depois a gente descobre que
[00:08:01] esse serviço era ilegal, né?
[00:08:03] Que ele prestava. Exatamente.
[00:08:05] E daí tá lá conversando
[00:08:07] ajudando a menina. A menina leva
[00:08:09] o cara pro apartamento e daí o cara
[00:08:11] o Joe, né? Na casa de merda
[00:08:13] pergunta, mas você ficava vendo eles transando?
[00:08:15] Ele dizia, não, não, jamais. E na verdade
[00:08:17] era, daí entendeu justamente que era
[00:08:19] isso que eles faziam. Só que antes que
[00:08:21] de fato eles vão
[00:08:23] consumir o ato, a menina, ela é
[00:08:25] uma maluca e ela toma uma
[00:08:27] ela quer se matar e ela vai levar o
[00:08:29] cara também porque no
[00:08:30] rolê do cara deu a entender que ele também queria se matar
[00:08:33] e ela mata ele
[00:08:35] e tá todo mundo vendo isso pro streaming e diz
[00:08:37] caralho, né? Daí ele tenta esconder as
[00:08:39] provas, quando ele vai tentar esconder
[00:08:41] tudo, a mulher dele acorda
[00:08:43] daí diz assim, o que você tá fazendo? Daí ele conta a história
[00:08:45] e daí ele diz, é, por
[00:08:47] daí a minha mulher me bloqueou. E daí
[00:08:49] vem o uso do grão que a gente não
[00:08:51] tinha pensado em. Dois usos, né?
[00:08:53] Que vem lá no episódio. Daí
[00:08:55] esse episódio é interessante porque vai conectar tudo.
[00:08:57] Tem o lance de que
[00:08:59] o grão poderia ser usado pra fazer streaming
[00:09:01] que é uma conclusão lógica, né?
[00:09:03] Ah, não, não, não, mas não é o grão
[00:09:05] É o ZI
[00:09:06] É o ZI, né? É o olho
[00:09:09] seria o olho, é uma evolução do
[00:09:11] grão, né? É, dá a entender que é uma evolução
[00:09:13] do grão, isso, tá bem
[00:09:14] apontado. Mas e daí, mas que a interface
[00:09:17] ela é muito parecida e tudo, né?
[00:09:19] Inclusive, aquele controlezinho
[00:09:21] deve ser uma merda, né, cara?
[00:09:23] Porra, imagina, cara
[00:09:24] Perdi o controle e se fudeu
[00:09:27] Daí, é, bom, daí
[00:09:29] a mulher bloqueia ele, também
[00:09:31] usando essa tecnologia do ZI, que é tipo
[00:09:33] o grão, e daí
[00:09:35] cara, e é muito doido que você bloqueia essas coisas
[00:09:37] Então duas ferramentas
[00:09:39] que a gente não tinha pensado lá no episódio do grão
[00:09:41] e que daí nesse ZI, que é uma evolução, aparece
[00:09:43] que seria fazer streaming
[00:09:45] e bloquear alguém na sua
[00:09:47] frente, né?
[00:09:49] Bom, daí bloqueia
[00:09:51] e daí ele dizia, é por isso que eu tô aqui
[00:09:52] Mas isso na verdade é só uma mentira que a gente vai ver depois lá
[00:09:55] mais pra frente, né? O que aconteceu foi
[00:09:56] mais sério. Bom,
[00:09:59] daí ele fala, ah, então era esse o teu serviço?
[00:10:01] Era assim que você ganhava a vida? Aí ele falou, não, na verdade
[00:10:02] o meu serviço era outro
[00:10:03] Esse daí era só pra ganhar uma grana
[00:10:06] Isso aqui era só uma diversão, né?
[00:10:08] Então vamos lá, parte dois agora
[00:10:10] Daí, a parte dois é
[00:10:12] quando aparece lá o Don Draper
[00:10:14] indo pra uma casa
[00:10:17] lá de uma mulher que é obviamente muito rica
[00:10:19] etc, e daí
[00:10:21] aparece ele fazendo uma cópia
[00:10:22] dessa mulher através de um dispositivinho
[00:10:25] lá, tipo um chip, que ele chama
[00:10:27] de, qual que é o nome? Cookie
[00:10:28] Isso
[00:10:29] E que esse cookie tem, é exatamente igual
[00:10:32] a pessoa que foi confiada, ele é colocado
[00:10:35] na cabeça da pessoa, ele fica lá pegando informações
[00:10:37] por uma semana mais ou menos, depois ele é tirado
[00:10:39] coloca numa interface que parece um ovinho
[00:10:41] muito bonitinho, e daí
[00:10:42] esse cookie pensa que é
[00:10:45] a pessoa, mas na verdade ele é um programa de computador
[00:10:47] que imita a pessoa. E daí
[00:10:49] ele tortura aquele cookie, cara
[00:10:50] e sério, que desespero aquilo
[00:10:52] Dizendo assim, ó, você agora vai cuidar
[00:10:55] da casa. Não, não vou, vai te fuder
[00:10:57] É aquela ideia, né?
[00:10:59] Eu precisava de um clone
[00:11:01] pra fazer tudo que eu preciso fazer
[00:11:03] Mas na verdade é um clone
[00:11:05] da consciência
[00:11:06] Tipo, ó, eu vou te dar
[00:11:09] um corpo agora, acho que isso vai te ajudar
[00:11:11] Ó, agora eu vou te dar uma interface aí
[00:11:13] Ah, mas qual botão eu aperto pra fazer não sei o que
[00:11:15] Qualquer um, não importa?
[00:11:16] É tudo simbólico
[00:11:18] E daí, cria esse
[00:11:21] daí diz assim, ah, mas eu não vou trabalhar
[00:11:23] Foda-se, tô no teu cu
[00:11:25] Ele fala assim, ah é? Então
[00:11:26] toma aqui, fica aí uns
[00:11:29] seis meses aí na solitária
[00:11:30] Sem fazer nada
[00:11:32] E esses seis meses passam em segundos pra ele
[00:11:34] enquanto ele come uma torrada, né?
[00:11:37] Então, daí tipo, o cookie
[00:11:39] chega uma hora e diz assim, cara, pelo amor de Deus, não me faça mais isso
[00:11:41] Me dá alguma coisa pra fazer
[00:11:43] É, me dá alguma coisa pra fazer
[00:11:44] E então, tipo, em dois minutos
[00:11:46] ele fez esse cookie passar por
[00:11:49] meses de isolamento
[00:11:50] E daí ele teve um breakdown
[00:11:53] assim, e daí começa a ajudar
[00:11:55] nas tarefas da casa, nesse
[00:11:57] conceito de casa inteligente, né?
[00:11:59] Tudo conectado, abre as cortinas
[00:12:01] toca a casa, música na casa
[00:12:03] inteira, faz
[00:12:05] compras e tudo isso. Então o cookie agora
[00:12:07] é esse teu clone que cuida da tua casa
[00:12:09] E esse era o serviço do cara
[00:12:10] Bom, daí o cara diz assim, bom, agora
[00:12:13] você já falou coisa pra mim pra caralho, eu vou falar pra você
[00:12:15] Então o Joe fala qual que é a história dele
[00:12:17] Daí, pronto, vamos lá, mais uma
[00:12:19] história. Então, aparece
[00:12:20] esse Joe contando que
[00:12:23] ele era casado
[00:12:25] e ele gostava muito da mulher, o pai
[00:12:27] dela nunca gostava muito dele
[00:12:29] Mas e daí
[00:12:29] eles estão em um
[00:12:33] jantar lá que tem uns amigos na casa
[00:12:34] descobre que a mulher tá grávida, a mulher
[00:12:36] bebeu pra caralho e ela diz, eu não quero ter filho
[00:12:38] daí ele diz, não, vai te foder, é o meu filho também
[00:12:40] daí ela diz assim, ah, então toma aí o bloqueio
[00:12:42] bloqueia o cara, te fode aí
[00:12:45] bloqueou, e daí
[00:12:46] ela sumiu
[00:12:47] e daí um dia
[00:12:51] ele diz assim, pô, então ela fez o aborto
[00:12:52] eu não consigo mais ver ela, mas daí um dia ele
[00:12:54] encontra ela na rua e ele percebe que ela tá
[00:12:56] grávida e sabe que é ela porque ela tá bloqueada
[00:12:59] na rua, parece aquela sombra
[00:13:00] cinza, uma sombra, isso, uma sombra
[00:13:02] cinza, assim, daí ele fala, pelo amor de Deus, me desbloqueia
[00:13:05] quero falar com você, blá blá blá, e daí chama
[00:13:06] a polícia, a polícia afixa ele
[00:13:08] etc, blá blá, daí ainda faz uma restraining
[00:13:11] order, né, não pode chegar a 10 metros
[00:13:13] da pessoa, senão você vai perder de novo, é, e como
[00:13:14] os olhos lá tem GPS, né
[00:13:17] se ele chega, automaticamente ele é preso
[00:13:19] assim, isso, exatamente, e daí
[00:13:20] é, daí ele, ah, daí
[00:13:23] um dia, daí ele descobre que ela
[00:13:24] tá grávida ainda, daí ele sabe que ela sempre vai
[00:13:26] pra casa do pai no Natal, então
[00:13:29] ele começou a ir, daí ele começou a ver que era
[00:13:31] a criança, tal, isso aqui é, daí a
[00:13:33] criança parecia cinza também
[00:13:34] porque, ah, os filhos também são
[00:13:37] e daí o Don Draper fala, ah, eu sei como é
[00:13:39] porque eu também não posso ver minha filha, né, então
[00:13:41] ah, daí ficou
[00:13:42] ah, daí ele ficou indo todo ano lá, a criança
[00:13:45] crescendo e ele dizendo, eu não sei nem se é menino
[00:13:47] ou menina, um dia ele descobre que é menina
[00:13:49] porque ele consegue ver, por causa da silhueta, né
[00:13:51] por causa da silhueta, né, que tem cabelo comprido
[00:13:53] e tal, se bem que isso poderia ser um
[00:13:55] piá também, mas tudo bem, que seja
[00:13:57] né, a gente passa isso por
[00:13:59] cima, daí, ah, ele
[00:14:01] começa a deixar uns brinquedinhos pra ela lá
[00:14:02] escondido, a menina vai lá pegar
[00:14:04] lá, daí um dia ele tá na televisão
[00:14:07] tá assistindo TV em casa, e daí é muito
[00:14:09] legal porque aparecem cenas do
[00:14:10] Ten Million Merits, né, do
[00:14:12] lá do Pedala Robinho
[00:14:14] e também do
[00:14:16] do Waldo, aparece
[00:14:18] também na televisão, um
[00:14:20] momento de televisão assim rapidinho
[00:14:22] e acho que aparece mais alguma coisa que eu não me lembro
[00:14:25] se eu não me engano, do White Bear, aparece também
[00:14:26] na televisão, daí ele muda de
[00:14:28] canal mais uma vez, aí aparece lá
[00:14:30] a cara dela, a cara dela que
[00:14:32] inclusive, mostrou
[00:14:34] antes, o episódio ensinou pra gente
[00:14:36] que
[00:14:37] mesmo fotos estariam bloqueadas também, né
[00:14:40] mas aparece a cara dela na televisão
[00:14:42] e mostra lá que teve um acidente de trem
[00:14:44] e nesse acidente de trem ela morreu e quando
[00:14:46] morreu o bloqueio acaba
[00:14:48] que significa que agora ele poderia ver a sua filha
[00:14:51] então, e daí ele já pensou
[00:14:52] opa, agora sim, ele foi
[00:14:54] pra casa do ex-sogro
[00:14:57] no caso, foi lá
[00:14:58] viu a menininha de costas, chega lá pra falar
[00:15:00] e aí, tudo bom? E daí de repente a menina
[00:15:02] vira e ela é japonesa
[00:15:05] e só
[00:15:06] lá no
[00:15:08] naquele jantar com os amigos
[00:15:10] o casal de amigos
[00:15:12] era tipo um japonês e uma outra menina
[00:15:14] que era bem amigo dela
[00:15:16] e parecia que o cara
[00:15:19] como que era? O cara, a guria
[00:15:20] gostava muito mais do cara do que o cara
[00:15:22] gostava da menina
[00:15:23] e nesse sentido, que na minha fala
[00:15:27] aqui, se você não viu o episódio, ficou bem
[00:15:28] bizarro, mas é que o episódio é bem didático
[00:15:31] nesse sentido, ele vai
[00:15:32] juntando todas as pontas lá pra frente
[00:15:34] e daí
[00:15:36] então aparece que a menina é japonesa, então deixa claro
[00:15:38] que um dos motivos que ela queria fazer o aborto
[00:15:41] era justamente porque o filho não era deles
[00:15:42] ela traiu ele
[00:15:44] e tudo isso, enfim, e daí
[00:15:46] o cara pira, o Joe pira
[00:15:48] e fala assim, que daí ele foi pra casa
[00:15:51] ele foi falar com o sogro
[00:15:52] o ex-sogro, e daí o sogro diz, o que você está fazendo aqui?
[00:15:54] sai daqui, não tem nada pra você aqui
[00:15:57] não tem nada pra você aqui, essa filha aqui
[00:15:58] é a filha da minha filha, não tem nada a ver com você
[00:16:00] daí ele fala, cadê minha filha, cadê minha filha
[00:16:03] daí ele pira, daí ele mata
[00:16:04] o sogro, o ex-sogro
[00:16:07] a menina
[00:16:08] a menininha lá se descobre, daí você descobre
[00:16:11] que, daí o Don Draper
[00:16:13] começa a falar com ele, e o que aconteceu
[00:16:14] o que aconteceu, daí eu saí, eu fugi
[00:16:17] blá blá blá, e o que aconteceu com a menininha
[00:16:19] e daí o episódio, começa a ficar fechado
[00:16:21] o negócio, ele olha pro relógio
[00:16:23] da cozinha e descobre que é o mesmo relógio
[00:16:25] que estava lá na casa do sogro
[00:16:26] e daí fala, esse relógio eu já vi
[00:16:28] continua a história, continua a história
[00:16:30] ele continua falando, daí ele fala
[00:16:32] a iluminação muda
[00:16:35] daí ele fala, você sabe o que aconteceu
[00:16:37] com a menininha? daí ele fala
[00:16:38] dois dias depois que o sogro morreu
[00:16:41] que o velhinho morreu
[00:16:42] ela saiu pra procurar ajuda e acabou
[00:16:45] morrendo no meio do caminho também, daí o Don Draper
[00:16:47] vira e diz assim, você confessa?
[00:16:49] daí ele fala, eu confesso
[00:16:51] daí, pronto
[00:16:52] daí ele diz assim, ah, pode me
[00:16:54] daí o Don Draper fala, aí eu consegui, uhul
[00:16:57] me tirem daqui
[00:16:58] daí ele sai, daí aparece
[00:17:00] o Don Draper saindo da delegacia de polícia
[00:17:03] lá com, de uma máquina assim
[00:17:04] falando, é, daí os policiais
[00:17:07] falando, porra, a gente tá há seis
[00:17:08] sei lá quanto tempo falando com o cara
[00:17:10] tentando fazer ele confessar
[00:17:13] ele não diz uma palavra, esse filho da puta vem aqui
[00:17:14] em 70 minutos consegue ir à conversa
[00:17:17] que é exatamente o momento do episódio
[00:17:18] é, daí fala
[00:17:20] daí ele diz assim, não, é, mas eu consegui
[00:17:22] daí chega lá o policial
[00:17:25] bate na porta da cela onde
[00:17:26] o Joe tá preso
[00:17:28] e fala, ô, não precisa falar, pode
[00:17:30] continuar quieto aí, não tem problema que o teu grão
[00:17:32] já falou tudo pra gente, tá, então beijo, tchau
[00:17:34] daí ele fala, quê?
[00:17:38] fica com aquela cara de, quê? e ele tá com a marquinha
[00:17:40] que o grão tava ali dentro
[00:17:42] daí, chega lá pro Don Draper
[00:17:44] e fala assim, ok, você conseguiu, lá
[00:17:46] daí ele fala, é, mas agora eu quero do meu lado
[00:17:48] né, a gente tinha feito um acordo, daí ele fala
[00:17:50] não, beleza, você vai ser solto
[00:17:52] porque o que você fez era ilegal
[00:17:55] mas você vai ser
[00:17:56] perdoado por isso, você vai ser solto, mas você vai ser
[00:17:58] você vai ser fichado, daí ele fala, o que significa
[00:18:00] ser fichado? significa que você vai ser bloqueado
[00:18:02] por quem? por todo mundo
[00:18:04] e daí ele sai pra
[00:18:06] rua e tá todo mundo bloqueado
[00:18:08] ele não consegue ver ninguém, tá todo mundo cinza
[00:18:10] mas as pessoas quando olham pra ele, veem ele
[00:18:12] como vermelho, e daí
[00:18:14] diz assim, opa, esse cara aí então tem que fichar
[00:18:16] na polícia, e daí
[00:18:18] acaba o episódio com essa sensação
[00:18:20] de merda aí, que todo mundo fez merda
[00:18:22] né, mas e
[00:18:24] e daí?
[00:18:25] e aí, a primeira
[00:18:26] pergunta que eu faço, gostar?
[00:18:28] gostaram do episódio? sim, sim, muito
[00:18:30] opa, o Beccari falando
[00:18:33] se gostou, isso daí já
[00:18:34] já é alguma coisa
[00:18:36] eu achei inclusive muito mais complexo
[00:18:39] que o White Bear
[00:18:41] que é o que eu mais tinha gostado
[00:18:43] né, então
[00:18:44] tá lá, batendo de frente
[00:18:46] com o White Bear
[00:18:48] assim, de repente, enfim, esse se torna
[00:18:51] aí o que eu acho mais interessante
[00:18:53] é, acho que é legal também só dizer
[00:18:55] que o, até na
[00:18:57] Wikipédia, eles cortaram o episódio
[00:18:59] em cinco partes, introdução
[00:19:01] parte um, dois, três, e conclusão
[00:19:03] na sinopse, né
[00:19:05] e é interessante que eu tava
[00:19:07] vendo alguma coisa que parece que
[00:19:09] era pra ter sido uma temporada inteira, assim
[00:19:11] três episódios, e que daí eles
[00:19:13] quebraram e juntaram
[00:19:14] eles juntaram tudo, assim, fizeram uma grande história
[00:19:17] tanto que ele tem
[00:19:18] uma hora e setenta e cinco minutos
[00:19:21] eu tô vendo aqui, que é praticamente, cara
[00:19:23] é um filme, é um filme bom
[00:19:27] é, é um
[00:19:28] ele funciona como um filme, ele tem tempo de filme
[00:19:31] enfim, ó
[00:19:32] são três mini histórias que
[00:19:35] acaba ficando quase noventa minutos, assim
[00:19:37] na televisão com comercial
[00:19:39] e tal, ficou uns noventa minutos
[00:19:41] então
[00:19:41] eu acredito que era pra ter sido três histórias
[00:19:45] diferentes, e daí juntou em uma só e ficou
[00:19:47] foda pra caralho, que é o grande ponto
[00:19:49] que eu queria falar aqui, que é o episódio
[00:19:51] que deixa entender, apesar que
[00:19:53] ninguém discute isso na internet, provavelmente
[00:19:54] não tem nada a ver mesmo, mas é que
[00:19:57] eu gosto de falar, de ser conspiratório nesse sentido
[00:19:59] dizer que todas as histórias se passam no mesmo
[00:20:01] ambiente, né
[00:20:02] eu tenho um contra-argumento
[00:20:05] não, tem todos os contra-argumentos
[00:20:06] é bem provável que não, mas eu quero pensar sim
[00:20:09] tudo bem, deixa eu ser feliz
[00:20:12] é que nem essa galera que fala que
[00:20:14] os Flintstones e os Jetsons se passam
[00:20:17] no mesmo mundo
[00:20:18] essas coisas, que também os filmes da Pixar
[00:20:21] eu quero
[00:20:21] ser desses caras agora
[00:20:24] eu gosto dessas coisas que fazem sentido
[00:20:26] eu também
[00:20:27] mas tudo bem, mas diga, Becari, o contra-argumento
[00:20:29] o contra-argumento ele seria também
[00:20:32] complexo, mas antes disso
[00:20:34] sei lá, eu pensei
[00:20:36] assim, na análise
[00:20:38] dessas três histórias que acontecem
[00:20:40] não é três, né
[00:20:41] é que, bom, é porque
[00:20:43] elas já estão interligadas, mas são
[00:20:45] digamos três momentos, né
[00:20:47] e no primeiro momento
[00:20:49] eu acho interessante essa, sei lá
[00:20:51] tecnologia do
[00:20:53] ZI, ou Link I
[00:20:54] que me parece muito
[00:20:57] relacionada, é como se fosse o ápice
[00:20:59] do voyeurismo, né
[00:21:00] você olha
[00:21:03] pelos olhos do outro
[00:21:04] então, não é nem pela janela, assim
[00:21:07] e tal, mesmo que o outro
[00:21:09] saiba que você tá vendo
[00:21:11] ou, enfim, você possa mentir
[00:21:13] assim, só pra passar assim
[00:21:14] por cima rapidamente
[00:21:17] de início, no segundo momento
[00:21:19] a gente começa a ver
[00:21:21] a ideia do bloqueio, já aparece
[00:21:23] no primeiro momento também, né
[00:21:24] mas enfim, eu fiz essa
[00:21:27] separação, assim, o bloqueio
[00:21:29] me parece ser uma ideia
[00:21:31] que é indissociada
[00:21:33] das redes sociais, né
[00:21:37] é uma coisa que a gente
[00:21:38] não faz ideia sem haver
[00:21:41] essas redes sociais. É, fazendo aqui uma
[00:21:42] paralela com o design, a gente fala muito disso que é o
[00:21:44] morfismo, como alguma coisa que no digital
[00:21:47] imita o real
[00:21:48] e agora a gente tá fazendo o real imitar
[00:21:51] o digital, né
[00:21:52] aliás, um parênteses, se
[00:21:54] o, como que é?
[00:21:57] o último episódio
[00:21:58] que a gente fez ontem
[00:22:00] o Aldo
[00:22:01] pelo menos eu, né, argumentei no final
[00:22:05] que era uma ficção científica
[00:22:07] uma distopia
[00:22:08] de má qualidade
[00:22:09] esse do White Christmas já me parece
[00:22:15] um cyberpunk
[00:22:16] da melhor qualidade
[00:22:17] com certeza, justamente porque
[00:22:20] já traz, assim
[00:22:21] uma das características que me parece
[00:22:24] forte no cyberpunk
[00:22:27] é que a estrutura, não só tecnológica
[00:22:29] mas de poder, política, enfim, as estruturas
[00:22:31] sociais, elas já estão como
[00:22:33] pressuposto e quase que
[00:22:35] inalteráveis no decorrer da história inteira
[00:22:37] então, tipo, elas não são, é claro que
[00:22:39] elas são determinantes na história, só que elas não
[00:22:41] é, elas, é
[00:22:43] assim, a ideia não é acabar com elas
[00:22:45] né, o principal mote da
[00:22:47] história são as relações humanas, enfim
[00:22:49] que é o que acontece aí
[00:22:51] daí, enfim, eu falei do link eye, que é do
[00:22:53] voyeurismo, bloqueio das redes
[00:22:55] sociais e depois
[00:22:56] no terceiro momento
[00:22:58] a gente se depara com essa
[00:23:00] outra tecnologia
[00:23:02] que é o cookie
[00:23:03] sim, sim
[00:23:05] então, na verdade, eu separei essas tecnologias
[00:23:09] nem sei se dá pra chamar, tecnologias
[00:23:10] num sentido mais coloquial, né
[00:23:12] sim, sim, sim
[00:23:12] enfim, aparatos
[00:23:15] na sequência em como
[00:23:18] eles aparecem, não que
[00:23:20] na história, né
[00:23:22] mas na verdade a gente vê que eles já estão todos
[00:23:24] ali, pré-colocados
[00:23:26] e o cookie, na verdade, diz respeito
[00:23:28] a uma, a ideia de consciência artificial
[00:23:31] uhum, né
[00:23:32] aí
[00:23:34] se a gente colocasse um quarto momento
[00:23:36] que é a história do Joey, né
[00:23:38] que
[00:23:40] enfim, daí ele conta da
[00:23:42] do Joe, você quer dizer? do Joe, é
[00:23:44] é que Joey
[00:23:46] como se escreve? Ramon
[00:23:48] Joe Ramon
[00:23:49] é
[00:23:51] daí você vê que tem essas três
[00:23:54] esses três aparatos já estão juntos nessa
[00:23:56] história, né
[00:23:57] e o que acontece é realmente
[00:24:00] o tema
[00:24:02] da história passa a ser
[00:24:04] me parece a questão de memória e esquecimento
[00:24:06] é um
[00:24:08] dilema determinante
[00:24:10] na narrativa do Joe
[00:24:12] porque
[00:24:12] o problema dele ser bloqueado é
[00:24:16] porque ele não pode, sim, é bloqueado
[00:24:18] também as fotos, então não tem mais memória
[00:24:20] direta
[00:24:21] da esposa dele e tudo, né
[00:24:24] e daí quando ele é
[00:24:26] punido, e na verdade eu acho
[00:24:28] um aspecto importante que não é ele
[00:24:30] que é punido, pelo que eu entendi na história
[00:24:32] é a consciência artificial dele
[00:24:33] o Cook, eu não sei como que ele
[00:24:35] aliás, eu não entendi como que ele
[00:24:38] o Joey, o Joe
[00:24:40] perdão
[00:24:41] ah, não, então, não foi ele
[00:24:43] assim
[00:24:44] é que eu esqueci de falar
[00:24:48] depois que eles vão sair
[00:24:50] pras férias de Natal, né
[00:24:52] ele deixa lá o Cook
[00:24:53] passando mil anos por minuto
[00:24:56] não, mas é o Cook
[00:24:58] o Cook, isso
[00:24:59] não é o Joe
[00:25:00] é, é que daí assim, né, daí coloca ali o dilema moral
[00:25:03] que tá por trás de o que você faz com o Cook
[00:25:06] ele é só visto como uma máquina
[00:25:08] como uma máquina ou realmente também é uma extensão
[00:25:10] da pessoa, e daí ele quer fazer as duas pessoas
[00:25:12] sofrerem, uma vai sofrer pela lei e outra
[00:25:14] pelo tipo, aqui vai ser a minha catarse
[00:25:16] de te foder, assim
[00:25:17] não, mas é que assim, o que o Beccario ficou em dúvida
[00:25:19] é se… é o que acontece com o Joe
[00:25:21] é que na verdade…
[00:25:24] é, o Joe ele ficou preso e ele ficou
[00:25:26] calado, ele não ia se falar
[00:25:27] daí o que que eles usaram? Eles implantaram o Cook
[00:25:30] pra conseguir fazer o Cook falar
[00:25:32] porque o Cook é manipulável, né
[00:25:34] e o Cook foi punido daquela forma
[00:25:36] isso, o que eu não entendi é como o Joe
[00:25:38] foi punido ou não, me parece que
[00:25:40] ele… é, o resto da vida
[00:25:42] é, daí ele vai ser, vai ser prisão
[00:25:44] perpétua, acho que na Inglaterra
[00:25:46] não tem prisão perpétua, ou tem
[00:25:47] acho que tem… ah é, não…
[00:25:49] prisões de 1500 anos
[00:25:51] tem prisão perpétua, mas não tem
[00:25:54] pena de morte, se eu não me engano é isso
[00:25:56] tudo bem, ok, é, então
[00:25:58] na verdade o Cook dele me parece
[00:26:00] isso é…
[00:26:02] exposto no episódio que sofreu uma
[00:26:04] punição bem maior que a… o Joe
[00:26:06] isso me parece importante
[00:26:08] nessa comparação do Joe com o Cook
[00:26:10] dele, e o Cook dele acaba sendo
[00:26:12] sofrendo uma punição maior
[00:26:14] o Cook dele
[00:26:15] é, aí
[00:26:16] que momento quinta série, desculpa
[00:26:20] aí
[00:26:23] como eu disse que a memória e o esquecimento é
[00:26:26] determinante
[00:26:26] entra aqui nesse ponto
[00:26:30] um parênteses, o contra-argumento do porquê
[00:26:32] que eu não, é, que eu falei lá no início
[00:26:34] que eu não acho que os universos estão
[00:26:36] estão interligados
[00:26:38] pelo menos diretamente
[00:26:39] porque
[00:26:40] o tema memória e esquecimento me parece
[00:26:44] que ele, é, a única vez que ele
[00:26:45] ele aparece também como algo determinante
[00:26:48] em outro episódio do Black Mirror
[00:26:50] é o Nathan For You, que é o do
[00:26:52] do grão, certo
[00:26:53] é, por quê? Porque você podia
[00:26:55] é
[00:26:56] armazenar memórias
[00:26:57] como se fosse uma gravação mesmo
[00:26:59] que é
[00:27:00] é filmado pelos seus olhos, né
[00:27:03] algo assim, lá pelo grão
[00:27:06] aí você grava aquilo, dá um rec
[00:27:08] mas também você pode deletar
[00:27:10] sim, sim
[00:27:11] nesse episódio do
[00:27:14] White Christmas
[00:27:15] é, aí que tá, pode ser
[00:27:17] uma evolução da coisa e tal
[00:27:19] mas não há possibilidade de
[00:27:22] deletar uma memória
[00:27:23] nem de gravar na realidade
[00:27:26] gravar tem porque ele tira foto dela
[00:27:28] o Joe tira foto da mulher
[00:27:29] é, fica subentendido
[00:27:31] que tem principalmente porque ele passava
[00:27:34] o match lá
[00:27:36] o Don Draper
[00:27:37] passava o streaming, né, pra outras pessoas
[00:27:40] então obviamente dá pra registrar
[00:27:42] dá pra registrar, eu acho que daí a gente vai falar
[00:27:44] de coisas que a gente não entende
[00:27:45] que é tipo criptografia de dados, sabe
[00:27:48] é, tudo bem, mas é que ele fala
[00:27:50] bom, quando o cara morre, fala
[00:27:52] ó, eu quero que todo mundo
[00:27:53] anule os registros, entendeu
[00:27:55] tipo, eu quero que todo mundo jogue fora
[00:27:58] qualquer prova e tal, então dá a entender
[00:28:00] me parece que dá pra registrar
[00:28:01] agora, o esquecimento
[00:28:04] em nenhum momento, assim, ou seja
[00:28:06] a possibilidade de deletar
[00:28:08] alguma coisa, ela é imposta
[00:28:10] nesse episódio, então não é
[00:28:12] exatamente o mesmo mecanismo do grão
[00:28:14] então de fato, pode ser uma
[00:28:16] revolução aí
[00:28:17] ou seja, passou
[00:28:20] assim, a
[00:28:21] essa tecnologia se desenvolveu
[00:28:24] de tal forma que
[00:28:25] se tirou essa possibilidade
[00:28:27] de deletar os seus
[00:28:30] próprios, enfim, na verdade ela foi
[00:28:31] imposta, né, porque quando você
[00:28:33] é bloqueado e tudo
[00:28:36] você, de certa
[00:28:38] forma, o esquecimento é imposto
[00:28:40] já que você não pode ver
[00:28:42] as memórias
[00:28:44] que você tem fotografadas
[00:28:45] ou em vídeo, sei lá, em relação a alguma
[00:28:47] pessoa, elas são parcialmente
[00:28:49] bloqueadas também
[00:28:50] é que no programa do grão
[00:28:54] vai entender que era gravado
[00:28:55] 24 horas, né, que você podia
[00:28:58] escolher apagar depois, assim
[00:29:00] mas que o default era
[00:29:01] tá sempre gravando
[00:29:03] e nesse daí não deixa tão claro
[00:29:05] é, tá certo
[00:29:06] eu tô passando por cima toda
[00:29:09] a análise que eu fiz, que a gente poderia
[00:29:11] só pra gente, na verdade, abrir ao debate
[00:29:14] tá, porque assim
[00:29:15] tem vários argumentos aí que eu tô passando
[00:29:17] realmente, pra de repente
[00:29:20] é, pra gente discutir depois
[00:29:21] porque o principal de tudo isso
[00:29:24] que nessa divisão que eu fiz, né
[00:29:26] link I no começo ali, bloqueio
[00:29:28] depois o cookie que aparece
[00:29:30] daí o Joe junta tudo isso
[00:29:32] na história dele
[00:29:34] e daí aparece a ideia
[00:29:36] de memória e esquecimento
[00:29:37] e no fim das contas, isso que é o aspecto
[00:29:40] mais importante, a punição
[00:29:42] do cookie, do Joe
[00:29:44] que é, né
[00:29:47] que tá lá no final
[00:29:49] o cara lá, sei lá, amigo
[00:29:52] da juíza
[00:29:53] o cara lá da delegacia, ele coloca lá
[00:29:56] mil anos, né, não sei quantos anos
[00:29:58] pro cara ficar ali
[00:29:59] mil anos por minuto tá passando
[00:30:00] é, tipo isso
[00:30:01] na verdade é uma punição pela memória
[00:30:04] ou seja, tipo, ele assim
[00:30:07] vai ter que passar quase a eternidade
[00:30:10] praticamente
[00:30:11] revivendo uma mesma memória
[00:30:14] aquela casa já é
[00:30:16] uma memória, né, já tem um reloginho
[00:30:18] aquela música que não para de tocar
[00:30:19] na janela aparece lá a árvore com a criança
[00:30:22] no chão
[00:30:23] ou seja, ele não tem pra onde fugir
[00:30:25] é só aquela memória que ele tem
[00:30:27] ele nunca vai poder esquecer
[00:30:29] isso, essa é a punição dele
[00:30:31] é, lembrando que a cozinha é exatamente igual
[00:30:33] a cozinha em que ele matou o sogro
[00:30:35] isso, e por outro lado
[00:30:37] isso que me parece, porra, genial
[00:30:39] nesse episódio que tá nesse finalzinho, né
[00:30:41] o Joe é punido dessa forma
[00:30:43] ou melhor dizendo, o cookie dele, né
[00:30:45] já o Don
[00:30:47] o Don Draper, ou o Matt
[00:30:49] ele na verdade
[00:30:53] ao invés de ser punido por um
[00:30:55] excesso de memória, assim, tipo
[00:30:57] por não poder esquecer
[00:30:59] uma memória, ao ser bloqueado
[00:31:01] por todos, ele se torna
[00:31:03] o esquecido
[00:31:04] é, uma questão de ostracismo, né
[00:31:07] é, exatamente, tipo, ele vai ser um
[00:31:09] um cara que, assim, ninguém
[00:31:11] vai saber quem ele é
[00:31:12] isso me parece nesses termos
[00:31:15] né, nessa ideia de memória
[00:31:17] e esquecimento, que ele é uma pessoa
[00:31:19] esquecida e viva ao mesmo tempo
[00:31:21] só que, assim, entende?
[00:31:23] é, posso até
[00:31:25] ampliar um pouquinho disso que você tá falando?
[00:31:27] por favor, porque é o seguinte
[00:31:28] você vai ver que o default também, né
[00:31:31] o padrão de quando alguém é bloqueado
[00:31:33] a pessoa fica cinza
[00:31:34] ele é visto como vermelho
[00:31:37] e daí é interessante porque
[00:31:39] eu tava ouvindo esses dias um
[00:31:41] um dos podcasts americanos
[00:31:43] que eu ouço, lá se chama Love and Radio
[00:31:44] que pega depoimentos de pessoas
[00:31:47] e tal, e daí vai transformando em
[00:31:49] storytelling, e eles
[00:31:51] fizeram um relato
[00:31:53] de um cara que ele era um
[00:31:55] um sex offender
[00:31:57] que no Brasil seria
[00:31:59] um
[00:32:00] alguém que foi acusado de
[00:32:03] atentado ao pudor, isso
[00:32:04] e como é que é nos Estados Unidos
[00:32:07] que era a narrativa desse cara
[00:32:09] ele diz assim, que quando você vai mudar
[00:32:11] pra uma casa, por exemplo
[00:32:13] você
[00:32:15] vamos dizer que você cometeu um
[00:32:17] caso de ofensa sexual algum dia
[00:32:19] e aquilo tá na tua ficha
[00:32:21] pra sempre, até você
[00:32:23] morrer, vai estar sempre na tua ficha
[00:32:25] e quando você se mudar de casa
[00:32:27] uma das obrigações por lei, digamos assim
[00:32:29] ou obrigações, ou pelo menos alguma coisa
[00:32:31] que pelo menos é bom que você faça
[00:32:33] é passar de vizinho em vizinho
[00:32:35] dizendo, oi, eu tô me mudando pra cá e eu sou
[00:32:37] um sex offender, tá
[00:32:38] eu tenho esse registro, porque
[00:32:40] inclusive nos Estados Unidos você pode fazer assim
[00:32:43] eu quero ver na minha região quantas
[00:32:45] pessoas, quantos sex offenders tem
[00:32:47] na minha região, e eles são apontados
[00:32:49] sabe como? Como
[00:32:50] red dots, como pontos vermelhos
[00:32:53] isso, tanto que o episódio
[00:32:55] do Love and Radio
[00:32:57] se chama Red Dot
[00:32:59] ponto vermelho, então
[00:33:01] e o cara falando assim, só que assim
[00:33:03] isso pra mim, como é que começa
[00:33:05] o episódio, ele diz assim
[00:33:06] esse cara dizendo, do Love and Radio
[00:33:09] ele dizendo assim, eu tava na minha casa
[00:33:11] eu tava fazendo alguma coisa na garagem
[00:33:13] chegou um cara com um martelo
[00:33:15] na mão e falou
[00:33:16] seu pervertido, eu vou te matar agora
[00:33:19] e daí ele dizendo, agora eu sei
[00:33:21] quando ele
[00:33:23] falou isso, eu disse, esse cara
[00:33:24] pesquisou quem eu sou
[00:33:26] só que daí esse lance
[00:33:29] esse episódio saiu agora em 2015
[00:33:30] quando foi essa entrevista, esse cara teve um
[00:33:33] um registro de sex offense
[00:33:35] na década de 70
[00:33:37] ou seja, é uma coisa
[00:33:39] que nunca saiu do teu registro, e ele falou
[00:33:41] cara, eu fiz isso já faz quase
[00:33:43] 50 anos, eu nunca
[00:33:45] repeti mais isso, mas aquele registro
[00:33:47] tá ali pra qualquer um ver
[00:33:49] e até hoje eu sofro isso e eu
[00:33:51] nunca serei perdoado
[00:33:53] é um estigma
[00:33:54] esse estigma é também pela memória
[00:33:57] ou seja, a memória dos outros
[00:33:59] pra todo mundo lembrar
[00:34:00] que ele fez alguma coisa
[00:34:03] enfim
[00:34:05] que a própria memória
[00:34:09] imposta aos outros, essa lembrança
[00:34:11] é uma forma de, já de punição
[00:34:13] então de certo modo, tanto o Joe
[00:34:15] quanto o Matt, eles são
[00:34:17] punidos pela memória
[00:34:19] digamos, no caso o Joe tem que reviver
[00:34:21] as próprias memórias, no caso o Matt
[00:34:23] ele é estigmatizado
[00:34:24] pra ser sempre lembrado, apesar que as pessoas não sabem
[00:34:27] o que ele fez exatamente, mas já é
[00:34:29] basicamente uma mancha vermelha, ou seja
[00:34:31] alguma coisa ele fez
[00:34:33] talvez tenha a ver isso
[00:34:35] com o que o Ivan tava falando, e tipo
[00:34:37] não é à toa, porque assim
[00:34:39] aquele negócio ali do
[00:34:40] que o Matt faz lá, de
[00:34:43] ficar dando consultoria pra outro cara
[00:34:45] ali, não sei se vocês já viram
[00:34:47] um lance na internet que eles chamam de
[00:34:49] pick up artist
[00:34:50] sim, sim, isso é super
[00:34:51] esse é super forte
[00:34:53] inclusive, a gente já gravou, não sei se você lembra
[00:34:56] Becari, quando a gente gravou aquele
[00:34:58] do espetáculo do Eu
[00:34:59] que era daquele menino que
[00:35:01] ficava entrando em fóruns de pick up artist
[00:35:04] que são esses caras que ficam dando dicas de paquera
[00:35:06] e tal, e coerção de mulheres
[00:35:08] esse é fortíssimo, esses dias
[00:35:10] eu vi uma notícia aí
[00:35:11] que, sabe esses
[00:35:14] atentados de
[00:35:15] de cara que entra no cinema e atira em todo mundo
[00:35:18] sim, sim
[00:35:19] isso assim, era
[00:35:20] quando era noticiado, sei lá, na década de 90
[00:35:23] na verdade não foi uma notícia, né
[00:35:25] eu li isso, uma espécie de post
[00:35:27] assim, num jornal, uma coluna
[00:35:29] enfim, falando que
[00:35:31] quando isso era noticiado na década de 90
[00:35:33] era um escândalo, porque
[00:35:35] enfim, obviamente já tem seus motivos
[00:35:37] de ser um escândalo, e ela
[00:35:39] relatou
[00:35:40] que atualmente isso cada vez é mais frequente
[00:35:43] em escolas, não tanto
[00:35:45] em cinemas, só que pela frequência
[00:35:48] assim
[00:35:48] é quase assim
[00:35:51] pelo menos um a cada dois meses
[00:35:53] aí
[00:35:54] não se noticia tanto
[00:35:57] porque as pessoas já, sabe, não vai
[00:35:59] tem notícias mais importantes
[00:36:01] digamos
[00:36:01] e daí ela falou que está relacionado
[00:36:05] a esse pick up art
[00:36:07] que é justamente
[00:36:08] geralmente meninos
[00:36:11] é, eu acho que
[00:36:13] não tem nenhum caso de menino
[00:36:15] que assim, realmente
[00:36:17] começa a adquirir um ódio coletivo ali
[00:36:19] pelas mulheres, pelas meninas
[00:36:21] não, não, não, o lance do pick up art
[00:36:23] é outra parada
[00:36:25] tipo, é uma comunidade, assim
[00:36:27] é, cara, tem canal
[00:36:29] é bizarríssimo, assim, tipo, tem canal
[00:36:31] no youtube, de caras que ficam
[00:36:33] dando dicas de pegar
[00:36:35] mulheres, só que é
[00:36:37] totalmente a força, assim
[00:36:38] é, porque é rejeição, né
[00:36:41] porque os caras que procuram isso
[00:36:43] são caras que geralmente são rejeitados, e daí eles
[00:36:45] começam a ir atrás desses pick up artists
[00:36:47] pra pegar dicas, e não conseguem
[00:36:49] e daí eles se frustram e começam a culpar mulheres
[00:36:51] esse caso que eu
[00:36:53] só peguei aqui, Anticast
[00:36:54] 133, a cultura do eu, violência, ficção
[00:36:57] e realidade, que foi o caso do Elliot
[00:36:59] Roger, que foi exatamente isso
[00:37:01] era um menino, de vinte e poucos anos, rico
[00:37:03] que era
[00:37:05] muito frustrado com mulheres
[00:37:06] entrava direto nesses pick up artists
[00:37:09] não conseguia nenhuma namorada
[00:37:11] e daí ele teve um surto e começou
[00:37:13] e daí matou um monte de gente uma vez
[00:37:15] assim, tal, e foi esse caso
[00:37:16] teve até ano passado, se não me
[00:37:19] engano, um desses pick up artists famosos
[00:37:21] assim, ia vir pro Brasil
[00:37:23] e acabou, e acabaram impedindo
[00:37:25] ele de vir aí pra cá, assim, também
[00:37:27] então é, que é bem sinistro
[00:37:29] cara, é bizarro mesmo, assim
[00:37:30] é bizarro, é bizarro
[00:37:31] o genial é que, esse tema
[00:37:35] de fato, assim, ele é central
[00:37:36] na história, porque, assim, não é central
[00:37:39] na verdade, ele já é um pretexto
[00:37:41] na verdade, é um elemento de pretexto
[00:37:43] que é um personagem secundário
[00:37:45] ali, né, e daí você vê
[00:37:46] como o match ajudava
[00:37:49] nesse sentido, além de ser
[00:37:51] voyeurismo, né, além de ser
[00:37:53] ele atuava como voyeur
[00:37:54] eu acho fantástico o jeito que o cara trabalhou isso
[00:37:57] no roteiro, sabe, tipo
[00:37:58] é, porque tudo isso, assim, além disso
[00:38:01] tem a ideia de redes sociais
[00:38:03] então se a gente for pensar, assim,
[00:38:05] a ideia de rejeição que me parece
[00:38:07] motivar
[00:38:09] esse pick up art
[00:38:11] ou artist, sei lá
[00:38:13] a rejeição, ela tá por trás disso
[00:38:15] como conquistar mulheres à força, por quê?
[00:38:17] porque você foi rejeitado
[00:38:18] isso tá atrelado à ideia de redes sociais
[00:38:22] pela questão do
[00:38:23] bloqueio, porque, assim, bom
[00:38:25] a defesa que
[00:38:26] você pode ter contra isso é bloquear
[00:38:29] pelo menos em redes sociais
[00:38:30] os stalkers, no caso, né
[00:38:33] então, isso
[00:38:35] tanto o bloqueio, quanto a ideia
[00:38:37] enfim, da rejeição
[00:38:39] que tá relacionada ao voyeurismo
[00:38:41] com a ideia
[00:38:43] do aparato do linkar e tudo
[00:38:45] isso já é o pretexto
[00:38:47] de algo que, na verdade
[00:38:49] é maior, que foi atrelado
[00:38:51] de uma maneira genial
[00:38:52] no
[00:38:53] roteiro, que é a ideia de consciência artificial
[00:38:56] então que
[00:38:58] a princípio funciona como um aparato
[00:39:00] aparentemente
[00:39:01] doméstico e no final se torna
[00:39:04] uma forma de punição
[00:39:05] e tudo mais
[00:39:07] então há uma série de
[00:39:09] problemáticas e temas
[00:39:11] que são, assim, temas polêmicos
[00:39:13] relacionados
[00:39:16] sempre à tecnologia
[00:39:17] que são levantados ali
[00:39:19] e que eles só fazem sentido
[00:39:21] bem no
[00:39:23] estética cyberpunk
[00:39:25] mediante conflitos
[00:39:27] emocionais, por exemplo
[00:39:29] de traição, né, que são
[00:39:31] recorrentes, assim
[00:39:32] existem hoje e sempre vão existir
[00:39:36] nesse sentido
[00:39:36] acho que é só também
[00:39:39] legal dizer que
[00:39:41] por incrível que pareça, comparado com
[00:39:43] casos de pick-up artists que tem aqui
[00:39:45] que tem recentemente
[00:39:48] o Don Draper
[00:39:49] é um cara tranquilo até, sabe
[00:39:51] sim, sim, super
[00:39:53] só queria fazer esse
[00:39:55] adendo, assim, porque tem umas paradas bem sinistras
[00:39:57] assim, desse mundo
[00:39:59] mas continue, Becari
[00:40:00] então, acho que a gente vai ter que escolher
[00:40:03] não, vamos tudo, vamos tudo
[00:40:05] não, mas foi uma questão de organizar
[00:40:07] escolhe você, então
[00:40:10] alguma coisa, vai
[00:40:10] acho que a gente pode começar
[00:40:13] pensando na consciência artificial
[00:40:15] no porquê que, assim
[00:40:17] intencionalmente, a ideia do Cook
[00:40:19] no roteiro
[00:40:21] causa, né, uma
[00:40:23] um constrangimento
[00:40:26] por parte do espectador
[00:40:28] né, ou seja
[00:40:29] da gente ver como que o Cook
[00:40:32] na verdade, ele mesmo
[00:40:33] coloca, né, o Matthew, ele fala assim
[00:40:35] bom, pra qualquer pessoa
[00:40:37] ninguém teria dó do Cook, porque sabe que isso é
[00:40:39] uma série de códigos
[00:40:42] e algoritmos, sei lá
[00:40:43] que, enfim, não é uma pessoa
[00:40:45] é uma cópia, né
[00:40:47] de uma consciência
[00:40:49] e, assim, se é
[00:40:51] pra problematizar
[00:40:52] eu tomo a liberdade de fazer isso já
[00:40:55] pra debater
[00:41:01] sobre essa questão
[00:41:02] filosoficamente
[00:41:05] do meu ponto de vista, a ideia
[00:41:07] de consciência
[00:41:08] artificial, ela não
[00:41:11] faz sentido em contraposição a uma
[00:41:13] consciência não artificial, como se fosse natural
[00:41:15] toda a consciência do eu
[00:41:17] que nós temos sobre nós
[00:41:19] mesmos, ela sempre, ela
[00:41:21] desde o início é artificial,
[00:41:22] então, sabe
[00:41:24] então essa ideia
[00:41:27] de duplicar a nossa consciência
[00:41:29] a gente tá, na verdade, duplicando um
[00:41:31] artifício, então faz todo sentido
[00:41:33] em primeiro lugar
[00:41:34] que a gente, de fato, tem
[00:41:37] uma empatia pra uma consciência que
[00:41:39] não passa de algoritmos
[00:41:41] digitais, assim
[00:41:42] mas é que o Dom, ele fala uma coisa
[00:41:45] pro grão lá da guria
[00:41:47] da Greta, né, ele vai falar assim
[00:41:49] ah, mas você não tem nem corpo
[00:41:51] o grão da Greta, cara
[00:41:52] tá cheio de trocadilhos bons aqui, assim, cara
[00:41:55] o cookie da Greta
[00:41:57] o cookie da Greta, Jesus
[00:41:58] ele fala, você não tem nem corpo
[00:42:01] porque você tá se preocupando com essas paradas
[00:42:03] aham, sim
[00:42:04] mas é, isso que o Beccari
[00:42:07] falou, isso que é bacana
[00:42:09] do Black Mirror, porque é um debate
[00:42:11] que a gente teve lá, inclusive, também no
[00:42:13] Deus Ex Machina, né
[00:42:14] no Ex Machina, não é Deus Machina, mas enfim
[00:42:17] no Ex Machina também sobre a questão
[00:42:19] da consciência, de será que a gente
[00:42:21] será que a gente
[00:42:22] tá criando uma vida aqui
[00:42:24] e no fim das contas, realmente é um debate que
[00:42:26] a gente até falou lá, não tem muito
[00:42:28] do humanismo e pós-humanismo, que vai
[00:42:30] debater e vai colocar, assim
[00:42:32] tipo, terrenos
[00:42:34] perigosos que devem ser proibidos
[00:42:37] e tal, e daí tem lá o episódio
[00:42:38] inteiro do Ex Machina só sobre isso, assim
[00:42:40] mas é que eu acho interessante
[00:42:42] só porque
[00:42:43] pelo menos falando da questão narrativa, que é uma coisa
[00:42:46] que me pega muito nesse episódio, porque é muito bem montado
[00:42:49] ele vai dando todas as regras pra você
[00:42:51] e você vai ver como esse personagem
[00:42:52] do Don Draper, ele é foda
[00:42:54] quando ele vai dizendo assim
[00:42:56] você é bom, hein, ele vai falando pro Joe
[00:42:58] assim, você tem empatia
[00:43:00] a maioria das pessoas diria que não, esse é só um programa de computador
[00:43:02] mas você, você tem empatia
[00:43:04] enchendo a bola do cara pra que depois
[00:43:06] ele possa confessar, né
[00:43:08] não, você é uma pessoa boa, cara, você é
[00:43:10] bacana, fala aí
[00:43:12] tudo assim que eu tenho certeza que o que você vai falar
[00:43:14] vai ser bom, vai ser legal
[00:43:16] o cara é muito manipulador, cara
[00:43:18] é muito bom. É, e na verdade ele é meio
[00:43:20] blefador também, assim
[00:43:22] tipo, o cara consegue realmente
[00:43:24] lidar, assim
[00:43:25] eles vão falar de engenharia social, né
[00:43:28] é, tipo isso, ele fala
[00:43:30] em algum momento que
[00:43:32] quando ele tá explicando
[00:43:34] a profissão dele, eles falam de
[00:43:36] ler mentes, né
[00:43:38] o Joe pergunta
[00:43:41] bom, o que é essa profissão
[00:43:43] que você lê mentes, né
[00:43:44] ele fala, não, eu simplesmente
[00:43:46] sei como a mente funciona
[00:43:48] ele diz alguma coisa assim
[00:43:50] então eu sei como a mente funciona
[00:43:52] isso é engraçado, assim, porque
[00:43:54] isso pra mim é muito interessante
[00:43:57] porque parece, assim
[00:43:58] o jeito que é construído o grão
[00:44:00] o grão, o cookie lá
[00:44:02] de ficar junto de uma memória
[00:44:05] aprendendo como que ela
[00:44:07] se comporta, se organiza
[00:44:09] isso pra mim passa um pouco ali
[00:44:11] pela psicologia cognitiva, neuropsicologia
[00:44:13] daí ele mostra que
[00:44:15] tipo assim, beleza, isso consegue
[00:44:17] mapear o funcionamento da mente
[00:44:19] de uma forma, só que os problemas
[00:44:21] que isso gera
[00:44:22] essa área do conhecimento
[00:44:25] não explica, sabe
[00:44:25] isso que é interessante
[00:44:28] aí que entra o debate filosófico
[00:44:30] tipo, entre o humanismo e pós-humanismo
[00:44:33] no qual os humanistas
[00:44:35] vão dizer que esse tipo de
[00:44:36] essa
[00:44:38] como ponto cego
[00:44:40] da engenharia
[00:44:42] sei lá, de engenharia neuro
[00:44:44] neuroengenharia
[00:44:45] neuropsicológica
[00:44:47] é um ponto cego que eticamente
[00:44:50] deveria ser proibido e censurado
[00:44:52] daí os pós-humanistas
[00:44:54] vão falar que não
[00:44:55] assim, não tem como evitar isso
[00:45:01] e que a consciência artificial
[00:45:02] enfim, esse tipo de mapeamento
[00:45:04] esse ponto cego, na verdade
[00:45:06] do debate ético
[00:45:08] ele não é novidade
[00:45:09] por exemplo, uma discussão sobre hermenêutica
[00:45:13] vai dizer assim, o personagem ficcional
[00:45:15] ele é um personagem
[00:45:16] que não existe, né
[00:45:18] então não faz sentido, alguém pode dizer
[00:45:20] a gente se emocionar
[00:45:22] quando a gente está em uma situação
[00:45:22] quando a gente vê
[00:45:24] um personagem morrendo
[00:45:26] ou sofrendo e tal
[00:45:27] mas obviamente faz sentido
[00:45:29] porque aqui, digamos, o personagem
[00:45:32] do ponto de vista da hermenêutica é uma consciência
[00:45:35] como todas as outras, ele tem sua autonomia
[00:45:37] e isso sempre existiu
[00:45:38] do ponto de vista das narrativas
[00:45:40] pelo menos, literárias, que seja
[00:45:42] enfim
[00:45:43] faz sentido a gente
[00:45:46] justamente encarar
[00:45:48] o personagem como alguém consciente
[00:45:51] assim como a gente pode
[00:45:52] atribuir consciência a tudo
[00:45:54] justamente porque a gente reflete a ideia de consciência
[00:45:57] que a gente tem sobre nós mesmos
[00:45:58] que também é um artifício, é também uma narrativa
[00:46:00] sobre nós mesmos
[00:46:02] então assim, voltando ao debate ético
[00:46:05] de fato assim
[00:46:07] eu fico mais do lado
[00:46:09] pós-humanista
[00:46:10] em última análise
[00:46:13] não faz sentido a gente
[00:46:16] proibir esse tipo de consciência artificial
[00:46:19] e tudo mais
[00:46:21] no entanto, obviamente
[00:46:22] havendo essa consciência artificial
[00:46:27] sem dúvida
[00:46:28] haverá essa empatia
[00:46:30] de falar, bom, você está punindo
[00:46:33] uma vida ali, que é autoconsciente
[00:46:35] e tal, e entra daí sim
[00:46:37] em outras questões filosóficas
[00:46:38] a vida se define
[00:46:40] pela consciência ou não
[00:46:43] eu acho que a impressão
[00:46:45] que eu tenho da galera que fala
[00:46:47] que isso não deveria ser feito
[00:46:48] que uma tecnologia como o cookie deveria ser evitada
[00:46:51] é mais pra evitar
[00:46:52] evitar a consciência artificial
[00:46:52] evitar debates
[00:46:53] dilemas éticos que a gente não está
[00:46:56] afim de encarar
[00:46:58] no futuro
[00:46:59] mas é um receio, é um receio do desconhecido
[00:47:02] e que eu acho que justamente
[00:47:04] o argumento aqui não é tão desconhecido assim
[00:47:05] não é um mistério
[00:47:06] quando a gente vê, vou tentar fazer um exemplo
[00:47:10] mais plausível
[00:47:11] o pessoal
[00:47:13] se demonizando a internet
[00:47:16] ou as redes sociais, falando
[00:47:17] a vida real é fora do facebook
[00:47:20] eu acho ótimo
[00:47:22] é
[00:47:22] deixa eu até fazer aqui
[00:47:25] um comentário
[00:47:27] eu sempre faço assim final de ano
[00:47:29] com os meus alunos de história da arte moderna
[00:47:31] eles fazerem um
[00:47:32] eles tem que tirar uma foto
[00:47:34] e daí criar um conceito da foto
[00:47:36] fazer uma foto conceitual e uma defesa
[00:47:39] do que eles estão fazendo
[00:47:40] cara, é muito comum
[00:47:43] além de fotos do pôr do sol
[00:47:44] que eu já proibi
[00:47:45] mas é assim
[00:47:48] isso eu censurei mesmo
[00:47:50] mas é ter uma galera que
[00:47:52] faz assim
[00:47:53] olha aqui ó, a galera que não larga
[00:47:56] os seus smartphones, hoje ninguém mais
[00:47:58] conversa, todo mundo fica no celular
[00:48:00] eu digo, cara, desculpa
[00:48:02] mas sabe, quando você tá numa festa
[00:48:04] por exemplo, e você fica só conversando com os teus amigos
[00:48:06] você já tá se isolando de alguma maneira
[00:48:08] a gente
[00:48:08] exatamente, esse ponto
[00:48:12] ingênuo
[00:48:14] às vezes eu zoo também
[00:48:16] alguns alunos que falam isso, justamente
[00:48:17] você nasceu já numa época
[00:48:20] que você já tava em rede social
[00:48:22] você disse que a vida real
[00:48:26] é algo que você não conheceu
[00:48:28] tem uma nostalgia
[00:48:30] de algo que não viveu
[00:48:31] eu sei que esse argumento é bem filha da puta
[00:48:33] totalmente refutável
[00:48:35] mas é real, cara
[00:48:37] eu acho foda, porque
[00:48:39] a maioria das pessoas fala
[00:48:41] ninguém mais olha no rosto de ninguém, todo mundo olha no celular
[00:48:44] e eu digo, pô, que bacana, tá olhando no celular
[00:48:45] das pessoas que ama e tão longe
[00:48:47] isso é legal, porra
[00:48:49] eu só acesso o celular pela
[00:48:52] treta
[00:48:53] mas isso que eu ia dizer
[00:48:56] tipo, essa
[00:48:57] eu ia comparar, na verdade, esse tipo de
[00:49:00] demonização
[00:49:02] da rede social
[00:49:04] enfim, do facebook
[00:49:06] a demonização de um cookie
[00:49:08] porque justamente
[00:49:09] de certo modo
[00:49:12] lá no facebook
[00:49:14] é um cookie nosso
[00:49:15] o cookie nada mais é do que uma representação
[00:49:20] que tem uma série de algoritmos
[00:49:22] que vai responder também
[00:49:24] aquilo que provavelmente
[00:49:26] a gente mais curte
[00:49:28] enfim, a gente pode bloquear outras pessoas
[00:49:30] e tal, então assim
[00:49:32] há uma série de
[00:49:33] a gente percebe as outras pessoas
[00:49:35] na verdade a gente percebe a consciência artificial delas
[00:49:38] isso assim, mesmo
[00:49:40] por isso que essa consciência artificial
[00:49:42] é um termo muito
[00:49:44] difícil de se
[00:49:46] precisar
[00:49:47] filosoficamente, porque quando você escreve
[00:49:50] um texto, você é o autor
[00:49:52] não é exatamente
[00:49:54] a sua consciência que as pessoas
[00:49:56] vão ler ali, né
[00:49:57] mas está criando uma nova
[00:50:00] que vai se relacionar com
[00:50:02] outras pessoas e tal
[00:50:03] então, essa
[00:50:06] ideia de consciência artificial também está
[00:50:08] de lado do robô, né
[00:50:09] que a empresa mapeia
[00:50:12] todos os seus e-mails
[00:50:14] e suas…
[00:50:15] você agia, principalmente
[00:50:17] na internet, enfim
[00:50:19] gera um algoritmo a partir disso
[00:50:22] pra gerar um cookie, no fim das contas
[00:50:24] só que daí adquire um corpo
[00:50:26] no caso, né
[00:50:26] desse episódio
[00:50:29] então acho que esse episódio serve pra
[00:50:31] nesse meu argumento, né
[00:50:33] que o cookie na verdade é justamente
[00:50:35] a gente pode entender, a informação que a gente deixa
[00:50:37] os textos que a gente deixa, essa gramática
[00:50:40] nossa, assim
[00:50:40] não à toa investigações policiais desse jeito
[00:50:44] envolvem
[00:50:46] hoje em dia
[00:50:47] vasculhar teu e-mail, vasculhar
[00:50:49] suas redes sociais, eu até tenho
[00:50:51] acompanhado bastante uma jornalista
[00:50:53] só pra vocês terem uma ideia
[00:50:55] deixa eu até pegar o nome dela aqui, uma jornalista do New York Times
[00:50:58] que é a Rukmi
[00:50:59] Kalimati
[00:51:01] ela é… ela estuda muito
[00:51:03] o Estado Islâmico, e sabe onde que ela estuda?
[00:51:06] pelo Twitter, porque os caras
[00:51:07] do Estado Islâmico adoram o Twitter, cara
[00:51:09] e daí ela fica conversando com os caras
[00:51:12] assim, e é muito foda
[00:51:13] ficar vendo o Twitter dela, porque
[00:51:15] ela recebe ameaça o tempo inteiro
[00:51:17] e daí ela fala, não, eu não tenho medo de você não, cara
[00:51:19] pode fazer ameaça
[00:51:21] à vontade, assim, tal, que eu não tô nem aí
[00:51:23] assim, e… só que daí ela vai trocando ideia
[00:51:25] trocando DM, e depois entrevista os caras
[00:51:28] assim, e daí ela vai vendo como é que é o processo
[00:51:30] de, inclusive, de doutrinação
[00:51:31] que o Estado Islâmico usa as redes sociais
[00:51:33] pra entrar em contato com pessoas que estão
[00:51:35] contra o Ocidente, e daí
[00:51:37] converter eles pro islamismo e chamar
[00:51:39] pro islamismo radical e levar
[00:51:41] eles pra Síria, pro Iraque
[00:51:44] e tal, e é muito
[00:51:45] doido isso, né?
[00:51:47] eu imagino que nesse exemplo que você tá dando
[00:51:49] por exemplo, eles podem facilmente
[00:51:51] via Twitter e tal
[00:51:53] escrever, por exemplo, não, aqui é tudo
[00:51:55] tudo certinho, tudo ordenado
[00:51:58] você vai chegar no paraíso, enfim
[00:51:59] aham, sim
[00:52:00] é como uma forma de, né
[00:52:03] isso, assim, seria justamente uma forma
[00:52:05] de você simular algo que
[00:52:07] de repente não é exatamente aquilo que
[00:52:09] é de fato, mas assim, o ponto que eu queria
[00:52:11] chegar… não, mas é pra pessoa aí que tá
[00:52:13] é um espelho da consciência dela de alguma forma
[00:52:15] exatamente, exatamente, é a persona que ela tá
[00:52:17] pegando, sim. Muito bem, então
[00:52:19] aí a grande questão
[00:52:21] dessa consciência artificial
[00:52:23] é que ela, na verdade, é baseada
[00:52:25] em memórias, né, ou informações
[00:52:27] enfim, quando você, principalmente
[00:52:29] voltando mais ao Black Mirror
[00:52:31] aí, o cookie, é, digamos
[00:52:33] tudo que foi registrado até aquele momento
[00:52:35] né, é como se você fizesse um
[00:52:37] um escaneamento do que aconteceu
[00:52:39] até então, e você gera, e no caso
[00:52:41] o mecanismo era
[00:52:42] desse cookie funcionar
[00:52:45] a princípio como um auxílio
[00:52:47] doméstico, né, porque
[00:52:49] eu até fiquei especulando
[00:52:51] como que esse tipo
[00:52:53] de coisa era vendido, seria
[00:52:55] vendido, tipo assim, ah, a gente vai
[00:52:57] só escanear somente
[00:52:58] ou seja, a ideia de consciência artificial
[00:53:01] me parece que era
[00:53:02] não seria explicado
[00:53:05] assim, claro que eu já tô especulando em cima
[00:53:07] né, do episódio, e daí a gente
[00:53:09] vai escanear somente, que daí vai gerar
[00:53:11] um aparelhinho aqui
[00:53:13] que daí vai, assim, a sua
[00:53:15] casa vai se transformar
[00:53:17] perfeitamente de acordo com seus
[00:53:19] seus gostos e preferências
[00:53:21] então, sabe, sei lá, sua torrada vai ficar
[00:53:23] do jeito que você gosta e tal, você vai acordar
[00:53:25] quando você quiser
[00:53:26] cara, acho que tem um argumento de venda bem mais fácil
[00:53:28] quem melhor pra gerenciar suas coisas do que você
[00:53:31] mesmo, né
[00:53:32] sim, exato, e o que
[00:53:35] você falou antes, né, cara
[00:53:36] queria ter um clone meu pra cuidar das minhas coisas
[00:53:39] essa é a lógica
[00:53:40] só que, o que eu acho legal também
[00:53:43] é que ele deixa meio a entender que isso é uma tecnologia
[00:53:45] cara, né, que
[00:53:46] ele fala várias vezes, ela tá pagando
[00:53:49] e daí pelos hábitos
[00:53:51] dela, você vê que ela é tipo aquelas
[00:53:52] pessoas que
[00:53:53] é bem babaquinha, né, é bem babaquinha
[00:53:57] curte a arte, e caso fosse
[00:53:58] questionado, porra, mas vai ser um clone
[00:54:00] a pessoa vai ter vontade própria, etc
[00:54:03] e tal, daí provavelmente o argumento é
[00:54:05] não, é só um
[00:54:06] é uma cópia só de algoritmos
[00:54:08] é uma, enfim, é só que
[00:54:10] é um aparato digital
[00:54:12] que não tem vida, portanto, sabe
[00:54:14] aham, sim
[00:54:16] que vai ser por aí
[00:54:18] e claro, o
[00:54:20] o
[00:54:21] a ideia aí do episódio é mostrar
[00:54:23] justamente esse mundo interior, né
[00:54:25] da, assim, dessa consciência
[00:54:28] que você pode
[00:54:29] por meio do cansaço temporal
[00:54:32] fazer com que a pessoa
[00:54:33] ceda
[00:54:36] ceda e se escravize no fim das contas
[00:54:39] então, assim, é interessante porque
[00:54:41] esse ponto coloca em xeque
[00:54:43] duas
[00:54:45] dois discursos
[00:54:47] bastante, enfim
[00:54:49] inflamados, me parece
[00:54:51] em relação a tecnologias sociais
[00:54:53] e tal, que é o seguinte
[00:54:55] o primeiro é demonizar elas
[00:54:57] que é o discurso humanista
[00:54:59] que é também o discurso de demonizar o facebook
[00:55:01] dizendo que isso não é vida real
[00:55:02] as pessoas estão cada vez mais alienadas
[00:55:05] tecnologicamente, sei lá, enfim
[00:55:07] que é
[00:55:08] isso já, né, não preciso ir adiante
[00:55:11] pra explicar esse discurso
[00:55:12] o outro discurso, que também é problematizado
[00:55:15] nesse episódio, é o contrário
[00:55:17] dessa demonização, na verdade
[00:55:19] é uma esperança metafísica
[00:55:21] de falar, olha
[00:55:22] um dia
[00:55:24] a gente vai poder, por exemplo, escanear o nosso cérebro
[00:55:27] e se tornar imortal
[00:55:28] e de fato
[00:55:30] a consciência, pelo menos, imortal
[00:55:32] dá a entender que esse
[00:55:34] cookie, já que você pode ficar
[00:55:36] fazendo o tempo passar
[00:55:38] pra ele, ele também é imortal
[00:55:41] assim, abre-me teoricamente
[00:55:42] é, tanto que o cara ficou mil anos
[00:55:45] lá, né, vai ficar
[00:55:46] e problematiza esse discurso
[00:55:48] porque vê que essa imortalidade não é uma coisa
[00:55:50] tão interessante
[00:55:51] a princípio
[00:55:54] justamente você fica
[00:55:57] ali, sem fazer nada
[00:55:59] e você sabe que nunca vai ter fim e tal
[00:56:00] e no caso, quando funciona como punição
[00:56:03] no caso do Joe
[00:56:04] é uma eternidade
[00:56:07] só de uma mesma memória
[00:56:08] então, tipo, é um eterno retorno
[00:56:11] lá do Nietzsche, só que do ponto de vista
[00:56:13] negativo
[00:56:14] tem um lance meio Matrix até, né
[00:56:17] tal, tipo, do Matrix
[00:56:19] falando que a primeira Matrix
[00:56:20] era perfeita, as pessoas não sei o que
[00:56:22] então a gente tinha que criar conflitos nas pessoas
[00:56:24] porque senão elas
[00:56:26] não trabalhariam pras máquinas
[00:56:28] então ali, o lance
[00:56:30] é dizer, ó, você é só um programa
[00:56:32] de computador mesmo, você vai trabalhar pra mim
[00:56:35] é, e
[00:56:36] eu não vou nem te dar diversão
[00:56:38] eu não vou nem te colocar um videogame aí pra você
[00:56:40] curtir, assim, tal
[00:56:42] você tá subjugado mesmo
[00:56:44] é, mas o Matrix seria já o questionamento
[00:56:47] posterior de falar
[00:56:48] bom, sabe aquele questionamento
[00:56:50] inspiratório? Quem disse que a nossa
[00:56:53] vida já não é, a nossa
[00:56:54] consciência já não é um conjunto
[00:56:56] de algoritmos e tal
[00:56:58] e que a gente também tá sendo controlado
[00:57:01] por alguém
[00:57:01] mas eu acho que de certa forma
[00:57:04] como a gente falou várias vezes do Black Mirror
[00:57:07] de fazer situações
[00:57:08] hipotéticas que na verdade discutem sobre
[00:57:10] o nosso mundo atual
[00:57:11] eu vejo o Black Mirror fazendo
[00:57:14] um pouco disso também, quando a gente consegue
[00:57:17] tranquilamente
[00:57:18] de uma maneira muito mais complexa do que no
[00:57:20] mundo, né, de
[00:57:22] fazer os paralelos com a vida atual
[00:57:25] assim, nesse sentido, porque eu acho que o
[00:57:27] grande, se a gente for
[00:57:29] daí claro, né, de novo, a questão de quem você
[00:57:31] é nas redes sociais, o que é você bloquear
[00:57:33] uma pessoa, agora eu acho que o
[00:57:35] grande dilema que eu queria que o Beccari
[00:57:36] de repente fala, se pensou sobre isso
[00:57:39] que eu acho que é legal do dilema ético
[00:57:41] é que
[00:57:42] o lance do cookie
[00:57:45] que eu acho que mais me chamou atenção é
[00:57:46] o fato de que eu tô criando um clone
[00:57:48] meu, que
[00:57:50] eu escravizo eu mesmo
[00:57:52] né
[00:57:53] a questão da opção
[00:57:57] ética que eu me coloco
[00:57:58] da questão moral aí é
[00:58:00] se eu tiver que escravizar alguém
[00:58:02] mas esse sou eu, eu estou sendo
[00:58:05] justo nisso?
[00:58:06] sabe, eu acho interessante a questão
[00:58:09] eu tô tomando
[00:58:10] minha decisão, só eu, eu não posso por exemplo
[00:58:13] criar um cookie de uma outra pessoa pra cuidar da minha casa
[00:58:15] eu crio um cookie
[00:58:17] que vai ser eu que vai cuidar das coisas
[00:58:19] e essa é uma opção minha
[00:58:20] distanciamento, eu acho que esse é um ponto
[00:58:22] importante nesse debate ético
[00:58:25] quando você faz um clone, há um distanciamento
[00:58:27] assim, em primeiro lugar é importante
[00:58:29] pensar que isso não é algo inédito
[00:58:31] assim, do Black Mirror
[00:58:33] essa ideia de você criar um clone
[00:58:34] e escravizar ele de alguma forma
[00:58:36] aparece desde a ilha do Huxley
[00:58:39] aham, sim
[00:58:40] não é exatamente escravizar
[00:58:42] mas você cria lá um clone em cativeiro
[00:58:45] e tal
[00:58:45] enfim, daí quando você
[00:58:49] morrer, ele pode
[00:58:50] até mais complexo ainda
[00:58:52] do Huxley
[00:58:53] fala de órgãos e tal
[00:58:56] mas assim
[00:58:57] o distanciamento que eu tava dizendo é
[00:59:00] você cria um clone, só que você sabe
[00:59:02] que ele, assim
[00:59:03] só vai ser uma
[00:59:05] digamos
[00:59:08] um conjunto de dados
[00:59:10] entende?
[00:59:12] é como se você colocasse assim
[00:59:15] deixar meus e-mails
[00:59:18] sei lá, armazenados numa empresa
[00:59:20] que se de repente tiver Alzheimer
[00:59:22] de alguma forma muito
[00:59:25] tecnológica e utópica
[00:59:27] enfim, bizarra
[00:59:28] eles podem curar meu Alzheimer
[00:59:30] através desses e-mails que eu pedi
[00:59:33] pra eles armazenarem
[00:59:34] claro que isso é uma situação muito mais amena
[00:59:36] do que criar um clone
[00:59:38] mas eu acho que tem relações
[00:59:41] né, tipo
[00:59:42] da dinâmica, porque o Cook
[00:59:45] nada mais é do que justamente isso
[00:59:46] teoricamente um montuado de informações
[00:59:49] e dados
[00:59:50] relacionados à memória
[00:59:52] e tudo
[00:59:52] que gera essa consciência
[00:59:55] que vai justamente
[00:59:57] suprir alguma
[00:59:59] necessidade que a gente tenha
[01:00:02] agora, o que eu acho
[01:00:04] que assim
[01:00:05] foge do Black Mirror
[01:00:07] mas que é interessante pro dilema
[01:00:09] ético, é que essa memória
[01:00:12] nunca é perfeita
[01:00:13] tipo assim
[01:00:14] hoje eu posso lembrar de uma mesma coisa
[01:00:18] que eu lembrava
[01:00:20] ontem, mas de uma forma totalmente diferente
[01:00:22] sim, sim
[01:00:24] diferente do episódio
[01:00:26] do grão em que eu
[01:00:28] tendo em vista a falhabilidade na memória
[01:00:30] eu vou atrás dos meus dados
[01:00:32] sobre aquilo, né, eu vejo os vídeos
[01:00:34] eu vejo fotos
[01:00:35] ela tinha essa possibilidade, né, e que põe isso em xeque
[01:00:38] mas no caso desse Black Mirror
[01:00:40] a mulher fala, ah, eu sempre gosto
[01:00:42] de torrada desse jeito
[01:00:44] mas no dia seguinte, sabe
[01:00:46] perfeitamente ela poderia falar, não, agora eu gosto
[01:00:48] mais torrada
[01:00:49] aham
[01:00:50] e agora, é
[01:00:52] entender a vida do grão mais ainda
[01:00:55] é
[01:00:55] sabe, daí ela poderia, no caso do grão
[01:00:59] deletar essa memória, se ela quisesse
[01:01:01] e no caso do Kuki, não
[01:01:02] tipo, o Kuki poderia entrar em conflito
[01:01:05] um conflito que não, por isso que eu tô
[01:01:07] extrapolando, no caso, esse episódio, assim
[01:01:08] o Kuki poderia falar, não, eu prefiro ainda
[01:01:11] o seu clone, né, eu prefiro
[01:01:13] ainda a torrada
[01:01:15] do jeito que sempre foi
[01:01:16] e daí a outra pessoa fala, não, agora eu quero
[01:01:19] assim
[01:01:20] que fazer uma nova, um update agora
[01:01:22] exatamente
[01:01:23] vender pra indústria de jogos
[01:01:25] então, esse tipo de conflito
[01:01:28] existe na ilha do Huxley, já
[01:01:30] aham, sim
[01:01:31] que é um conflito do duplo e tal
[01:01:34] das duas consciências
[01:01:35] e o que eu acho interessante no caso do Huxley
[01:01:38] que acaba, eu tô falando isso
[01:01:40] pra esse dilema ético
[01:01:42] que você me colocou
[01:01:44] que na verdade o clone não é um clone
[01:01:47] ele é uma pessoa diferente
[01:01:48] sim
[01:01:49] ele não deixa de ser artificial
[01:01:51] ou cópia de uma pessoa verdadeira
[01:01:54] essa distinção platônica não existe
[01:01:55] eles simplesmente
[01:01:58] é um ser diferente
[01:01:59] que vai ter, assim, claro
[01:02:02] as mesmas memórias, só que ele pode
[01:02:04] interpretar essas mesmas memórias que você tem
[01:02:06] de uma maneira totalmente diferente
[01:02:08] porque na verdade
[01:02:09] todo esse debate significa assim
[01:02:12] que nós mesmos
[01:02:14] não somos um sujeito estável
[01:02:16] único, sabe, essa ideia
[01:02:18] do sujeito moderno
[01:02:19] aham, identidade fixa
[01:02:23] é, tem as mesmas coisas
[01:02:24] então isso assim, o que o Black Mirror
[01:02:26] levanta é justamente
[01:02:28] esse tipo de paradigma
[01:02:30] aham
[01:02:31] esse debate ético
[01:02:34] que você me colocou, ele só faz sentido
[01:02:36] de acordo com esse enunciado
[01:02:38] paradigmático de um sujeito
[01:02:41] assim, firme, unitário
[01:02:42] que sempre tem as mesmas memórias, as mesmas preferências
[01:02:44] e tal, e daí sim
[01:02:46] que vai fazer sentido a gente
[01:02:48] entender
[01:02:48] pensar como
[01:02:49] a gente pensar problematicamente
[01:02:52] como que a gente escraviza nós mesmos
[01:02:54] na verdade não está escravizando a nós mesmos, está escravizando
[01:02:56] outra pessoa, por mais que seja
[01:02:58] uma cópia nossa
[01:02:59] é que eu já imagino
[01:03:02] todos os debates legais, assim, que teria
[01:03:04] de dizer o que que é
[01:03:06] uma pessoa, o que que é uma consciência
[01:03:08] o que que permite colocar uma certa
[01:03:10] consciência digital em uma outra coisa
[01:03:12] não, se fosse para um âmbito legal
[01:03:14] assim, me parece
[01:03:16] mais plausível, eticamente, pensar
[01:03:18] não faz sentido
[01:03:21] a gente ver que o problema
[01:03:22] de escravizar a nós mesmos
[01:03:25] mas o problema é, porque
[01:03:26] escravizar qualquer pessoa
[01:03:28] inclusive um outro
[01:03:31] né
[01:03:31] e dá pra ver que esse tipo
[01:03:34] de debate, pelo menos, não parece
[01:03:36] ser muito grande, parece que é uma
[01:03:38] tecnologia nova ainda, que isso ainda está sendo discutido
[01:03:41] se é que está sendo
[01:03:42] discutido de alguma maneira, porque
[01:03:44] tanto que na delegacia
[01:03:47] botam o cara
[01:03:48] no mil anos por minuto
[01:03:50] e tipo, foda-se, sabe, é só um programa de computador
[01:03:53] assim, não tem
[01:03:54] nenhuma jurisprudência
[01:03:55] é, tipo, é justiça com as próprias mãos
[01:03:58] eu tô puto com o cara, então ele que se foda
[01:04:00] e agora também, o seu cu que se foda
[01:04:03] vai ser uma catarse aqui que eu tô
[01:04:04] tipo, eu tô puto com alguém
[01:04:07] então eu faço um joguinho que tem
[01:04:08] a cara da pessoa lá e o meu joguinho
[01:04:10] fica batendo na cara dela, assim, né
[01:04:12] só que de uma maneira mais cruel ainda, no caso do Black Mirror
[01:04:15] pois é, por isso que eu, sabe
[01:04:17] tipo, eu não consigo me sentir
[01:04:18] tomado, assim, por essa
[01:04:20] assim, não consigo me sentir
[01:04:22] incomodado com esse problema
[01:04:24] moral ou ético, enfim
[01:04:26] porque
[01:04:27] de certa forma, é como você disse
[01:04:30] é como um voodoo, assim, de certa forma
[01:04:32] a gente coloca outra
[01:04:34] pessoa, nós mesmos, tipo, personifica
[01:04:37] ali e fica
[01:04:38] sei lá, torturando imaginariamente
[01:04:41] e tal, a questão é que
[01:04:42] esse tipo de desejo
[01:04:44] que a gente projeta nas outras
[01:04:46] pessoas, a gente pode projetar
[01:04:48] contra nós mesmos
[01:04:50] seja de uma maneira pejorativa, assim
[01:04:52] fazendo sofrer ou não, né, querendo que
[01:04:54] a pessoa se dê melhor, mas assim
[01:04:57] isso não faz sentido a gente
[01:04:58] proibir as pessoas de fazerem
[01:05:00] isso, entende, tipo
[01:05:02] proibir
[01:05:04] desenvolver essa tecnologia, no caso
[01:05:06] é, exatamente
[01:05:07] mas é que eu tenho a impressão
[01:05:11] que de novo, é uma tecnologia
[01:05:12] extrapolando os limites do episódio, claro
[01:05:15] né, que é um produto
[01:05:16] mal feito esse, porque o
[01:05:18] produto ideal seria que no momento
[01:05:20] em que eu copio o cookie, eu passo ele
[01:05:22] pra uma reprogramação em que ele não teria
[01:05:24] agência
[01:05:25] o que seria possível se a gente estivesse falando
[01:05:28] de programa de computador puro, assim, eu entro
[01:05:30] no cara e eu vou bloquear
[01:05:32] aqui algumas ações, porque
[01:05:34] empatia é uma coisa que é difícil
[01:05:36] você desconectar, você tem que, é mais
[01:05:38] fácil mudar o programa do computador
[01:05:40] do que mudar toda a sociedade
[01:05:42] e evitar certos debates. Mas seria
[01:05:44] mal feito desse ponto de vista
[01:05:46] mais utilitário, né, tipo assim
[01:05:48] que ele tem uma função
[01:05:50] é, tipo, eu tô vendendo isso no mercado, eu tô gerando
[01:05:52] debates. Então é mal feito em relação
[01:05:55] a essa função. Enquanto produto
[01:05:56] é, exatamente, agora
[01:05:58] por outro lado
[01:06:00] é, por outro lado
[01:06:02] na verdade é perfeito demais
[01:06:04] né, porque
[01:06:06] ele é
[01:06:08] ele reproduz tão bem
[01:06:10] a consciência, porque
[01:06:11] de tal forma de ser uma autoconsciência
[01:06:14] que nem se deu conta que foi copiada
[01:06:16] vou até dar um
[01:06:18] exemplo disso de um caso parecido que teve
[01:06:20] que tava no Radiolab um tempo
[01:06:22] atrás, faz uns dois anos que saiu
[01:06:24] esse programa, se eu bem me lembro, que
[01:06:26] eu já devo ter falado em algum anticast no passado
[01:06:28] se duvidar do Black Mirror mesmo, mas que era assim
[01:06:30] tinha uma boneca
[01:06:32] daí davam essa boneca pra crianças
[01:06:34] e mandavam as crianças, tipo, ah
[01:06:36] joga essa boneca na parede, tipo
[01:06:38] toca o terror aí na boneca, né
[01:06:40] e a boneca, beleza, daí daqui a pouco trocavam
[01:06:42] a boneca, colocavam a boneca que sempre que ela ficava
[01:06:44] de cabeça pra baixo, por exemplo, ela ficava
[01:06:46] dizendo, por favor, me volta pra
[01:06:48] posição certa, não faz isso comigo
[01:06:50] eu tô sentindo dor, eu tô tonta, tá
[01:06:52] e com isso as crianças ouvindo
[01:06:54] uma boneca com uma voz gravada
[01:06:56] elas mudavam, diziam
[01:06:58] não, não consigo, inclusive adultos, parece que também
[01:07:00] teve o mesmo efeito, tipo
[01:07:02] ou seja, é muito doido isso
[01:07:04] eu sinto isso muito com videogame, às vezes
[01:07:06] eu não quero matar o certo personagem porque
[01:07:08] ele não fez nada pra mim, eu não consigo ser aquele
[01:07:10] cara que diz, vou matar porque foda-se você
[01:07:12] sabe, você vai me dar certo prêmio
[01:07:14] vai me dar pontos, enfim
[01:07:15] então é muito doido
[01:07:18] como a gente consegue se relacionar com isso e imagina
[01:07:20] então com uma consciência tão perfeita quanto
[01:07:22] um cookie, né, então
[01:07:23] mesmo que você coloque, cara, é só um jogo
[01:07:26] é só um boneco, é só uma brincadeira
[01:07:28] não é de verdade
[01:07:29] daí vem a questão, o que é verdade
[01:07:32] e na verdade a gente vai ver que isso é verdade
[01:07:34] você tá tendo alguma relação de empatia
[01:07:36] ali dentro, né
[01:07:37] acho que a gente comentou um pouco disso
[01:07:40] naquele antiquê sobre o H.E.R., né
[01:07:41] o quanto que a voz
[01:07:43] só a voz a gente consegue
[01:07:45] então, e no H.E.R. a solução é mais
[01:07:47] interessante
[01:07:48] interessante, me parece, porque
[01:07:49] a consciência fala foda-se
[01:07:52] pra muito
[01:07:52] é, ela
[01:07:53] é interessante
[01:07:56] também ver que ela não era aprisionada, né
[01:07:59] assim, tipo, nesse
[01:08:00] caso, é por isso que eu digo que é perfeito
[01:08:02] demais, porque além de ser
[01:08:04] uma autoconsciência
[01:08:06] é uma autoconsciência, assim
[01:08:07] a escravidão é perfeita também
[01:08:10] dela, né, ou seja
[01:08:11] esse ambiente de escravidão é perfeito
[01:08:15] e ela tem contato só com a casa, né
[01:08:16] cara, porque uma coisa que eu tava pensando
[01:08:18] puta, esse cookie poderia responder meus e-mails
[01:08:20] cara, que daí seria foda, sabe
[01:08:22] eu ia curtir muito, assim, que esse cookie
[01:08:24] pudesse receber meus e-mails
[01:08:26] ter noção de tudo que eu tô passando por dia
[01:08:28] e daí responder esse e-mail, o facebook
[01:08:30] é isso que eu quero
[01:08:33] é isso que eu quero, limpa minha caixa de e-mail
[01:08:34] mas cara, eu acho que ele tem alguma coisa
[01:08:36] porque assim, é
[01:08:38] você viu que ele ficou programando lá
[01:08:40] a agenda dela?
[01:08:42] ele marcou uns horários, então acho que
[01:08:44] ele tem contato com o mundo externo
[01:08:46] é, mas como que é esse contato?
[01:08:48] eu acho que ele não pode mandar um e-mail tipo
[01:08:50] ó, me ajuda, tô preso aqui no ovo
[01:08:52] mas poderia, a questão é a seguinte
[01:08:54] sei lá, ligar a torradeira
[01:08:57] e fazer a torradeira pular
[01:08:58] então, mas a revolta
[01:09:00] tá perfeitamente controlada nesse caso
[01:09:02] porque caso ela, assim, cometesse
[01:09:04] um pequeno erro
[01:09:05] mais mil anos de, entendeu
[01:09:08] de punição
[01:09:10] tá perfeitamente controlada
[01:09:12] e se ela aguentasse os mil anos
[01:09:14] vem outra, entendeu, tipo, faz de novo
[01:09:16] sei lá, então tá perfeito
[01:09:18] tá perfeitamente colocado, assim
[01:09:20] e esse
[01:09:21] esse que é, assim
[01:09:23] eu já consigo imaginar os anônimos
[01:09:25] dizendo, vamos invadir todos esses cookies
[01:09:27] e liberar todo mundo
[01:09:28] cookies anônimos
[01:09:32] invadindo
[01:09:32] esse é o ponto, assim, que daí é uma questão
[01:09:35] sobre essas especulações
[01:09:37] científicas, assim, tudo que chega
[01:09:39] numa perfeição, na verdade
[01:09:41] me parece sempre metafísico
[01:09:43] porque
[01:09:45] tem essas possibilidades de
[01:09:47] alguma forma
[01:09:48] de mudança, né
[01:09:49] sempre, assim
[01:09:50] pode ter alguns anônimos
[01:09:53] como você colocou
[01:09:54] que vai, né, de repente
[01:09:56] se colocar a favor
[01:09:59] dessas consciências, daí você cria um novo modo
[01:10:01] de, não só de
[01:10:03] causa social, uma nova minoria
[01:10:05] aí
[01:10:06] é, o Wikileaks
[01:10:09] pelos cookies
[01:10:11] cara, dá pra fazer muita coisa
[01:10:13] aí
[01:10:14] você imagina que, assim
[01:10:16] é
[01:10:16] é
[01:10:17] é
[01:10:18] , algumas profissões, né
[01:10:20] entre aspas, assim
[01:10:21] como, por exemplo, os hackers, assim
[01:10:23] são pessoas que, assim, aos poucos vão
[01:10:26] adquirindo voz, né, vão adquirindo, na verdade
[01:10:28] também importância pro governo
[01:10:30] né, e tal, e que antes
[01:10:32] eram apenas pessoas, assim, ignoradas
[01:10:34] pela sociedade
[01:10:35] ignoradas, quer dizer, como criminosas, né
[01:10:38] não totalmente ignoradas
[01:10:40] na verdade
[01:10:42] muito bem lembradas, mas
[01:10:44] sempre como, então, assim, sempre tem
[01:10:46] essa mudança, caso, né, pensando
[01:10:48] nesse ambiente de perfeição de uma autoconsciência
[01:10:50] então, é
[01:10:52] eu sou um cara que não duvido
[01:10:54] da inteligência artificial
[01:10:55] assim, inclusive, com vontade própria
[01:10:58] e tal, só que isso, assim
[01:11:00] não é nada metafísico, porque
[01:11:02] essa inteligência artificial perfeita
[01:11:04] se um dia
[01:11:06] venha a existir
[01:11:08] assim como também não duvido totalmente
[01:11:10] por exemplo, de alienígenas
[01:11:11] o meu ceticismo vai justamente
[01:11:14] até o presente momento
[01:11:16] assim
[01:11:18] o meu ceticismo não alcança o amanhã
[01:11:22] mas também não se importa
[01:11:24] também muito com o amanhã
[01:11:25] mas então ele não duvida
[01:11:29] né, ou melhor dizendo
[01:11:32] ele mantém ainda em dúvida a possibilidade
[01:11:34] de uma inteligência artificial
[01:11:36] e tal, e caso isso venha a existir
[01:11:38] é simplesmente
[01:11:39] sabe aquela coisa do distrito 9, né
[01:11:42] então, ou seja
[01:11:44] os parâmetros que eu tenho
[01:11:46] assim, vem alienígena, vem inteligência
[01:11:48] artificial
[01:11:49] vai ter revolta
[01:11:51] vai ter
[01:11:52] a sociedade humana tem uns
[01:11:55] mecanismos de proteção meio escrotos
[01:11:58] é, exatamente, assim
[01:11:59] isso é uma coisa que tragicamente
[01:12:01] não muda
[01:12:02] tragicamente
[01:12:04] bom, eu acho que a debate sobre
[01:12:09] consciência artificial é esse
[01:12:11] assim, só pra encerrar
[01:12:13] ele não tem nada de artificial
[01:12:15] de fato, é uma consciência perfeita
[01:12:18] que no caso é perfeitamente aprisionada
[01:12:21] e que o episódio
[01:12:23] não dá brecha pra ir além disso
[01:12:25] coisa que a gente foi aqui, né
[01:12:26] pensando nesse debate, assim
[01:12:27] ele só joga o problema pra incomodar
[01:12:30] o espectador, falar
[01:12:32] esse cookie tem sentimento e tal
[01:12:35] que é interessante, sabe
[01:12:37] porque problematiza justamente essa
[01:12:38] dicotomia platônica do original versus cópia
[01:12:41] então ótimo, né
[01:12:43] deixa em aberto
[01:12:45] isso é a qualidade, eu acho
[01:12:47] da narrativa
[01:12:48] agora eu acho que é interessante
[01:12:50] discutir sobre, de fato
[01:12:52] o encerramento ali
[01:12:54] do Joe, a punição pela memória
[01:12:57] que ele é sempre
[01:12:58] pelo menos o cookie
[01:13:00] do Joe, a gente pode concordar
[01:13:03] que não deixa de ser uma pessoa também
[01:13:05] é punido
[01:13:06] pra reviver
[01:13:08] a mesma memória, eternamente
[01:13:10] enquanto que o Matt
[01:13:12] o dropper lá
[01:13:14] ele é basicamente
[01:13:16] estigmatizado por uma memória
[01:13:18] coletiva
[01:13:19] o que eu
[01:13:21] mais uma vez um elogio
[01:13:24] recorrente ao Black Mirror
[01:13:26] o fato de colocar
[01:13:28] essas tecnologias sempre como
[01:13:30] pano de fundo pra problemas
[01:13:31] mais comuns
[01:13:33] só exagerando coisas
[01:13:36] exagerando não
[01:13:38] potencializando
[01:13:40] isso, imagina uma tecnologia
[01:13:42] tão potente dessa, num caso por exemplo
[01:13:44] de uma traição em que o cara descobre
[01:13:46] que a filha não é filha dele mesmo
[01:13:48] e daí como
[01:13:50] mesma coisa lá do episódio do Grão
[01:13:52] mesma coisa do White Bear
[01:13:54] e tantos outros
[01:13:56] esse é um aspecto do cyberpunk
[01:13:58] eu diria
[01:13:59] em geral sim
[01:14:01] que não é focado assim, vamos mudar as
[01:14:04] tecnologias, elas não são exatamente o problema
[01:14:06] elas potencializam outro
[01:14:08] problema, que já existe
[01:14:10] assim como a galera que fala, ah o Facebook
[01:14:12] deixa as pessoas mais burras, mais
[01:14:14] ignorantes, não, as pessoas sempre foram burras
[01:14:16] e ignorantes dentro do seu critério
[01:14:18] agora tá mais exposto, talvez
[01:14:20] exatamente
[01:14:21] então daí nesse
[01:14:24] caso, o que é interessante
[01:14:26] é de novo, o cara comete um
[01:14:28] crime, ele comete um assassinato
[01:14:30] ele indiretamente leva também a uma
[01:14:32] morte de uma criança e
[01:14:34] a forma de punição dele
[01:14:36] provavelmente vai ser nos meios legais parecidos
[01:14:38] como a gente tem hoje em dia, mas a
[01:14:40] maneira como chegar até esse cara
[01:14:42] que daí muda, os recursos
[01:14:44] pode falar
[01:14:45] eu queria só trazer
[01:14:48] pra um
[01:14:48] pra mostrar como isso não é tão distante
[01:14:50] ou seja, como esse problema
[01:14:52] de condenar, por exemplo
[01:14:54] pelo estigma
[01:14:55] não é distante, bom, você já deu o exemplo
[01:14:58] do storytelling e tal
[01:15:00] sim, do love and radio
[01:15:01] é, mas de repente é algo que nos é familiar
[01:15:04] ou não sei, né, enfim, mas é
[01:15:06] os militares
[01:15:08] da ditadura militar
[01:15:11] que
[01:15:11] devem ser punidos
[01:15:14] ou sei lá, às vezes até tem
[01:15:16] discurso falando que as
[01:15:18] próximas gerações, os netos
[01:15:21] dos militares
[01:15:23] também devem ser de alguma forma
[01:15:25] estigmatizados pela memória e tal
[01:15:26] isso na Alemanha deve ser mais forte ainda
[01:15:29] ou seja
[01:15:30] crimes de 50 anos atrás
[01:15:33] que devem ser lembrados
[01:15:35] então, assim, isso é um tema extremamente
[01:15:37] além de ser
[01:15:39] complexo, ele é recorrente
[01:15:41] me parece na
[01:15:43] academia
[01:15:43] não só na ética filosófica, mas também
[01:15:47] eu vejo na
[01:15:48] psicologia, no campo da educação
[01:15:50] que é essa coisa
[01:15:52] como seria um
[01:15:54] termo mais apropriado
[01:15:56] de…
[01:15:57] dívida histórica, muito falado
[01:16:00] exatamente
[01:16:00] pra você estigmatizar
[01:16:04] e esse pra mim é um problema ético
[01:16:06] muito mais complexo do que
[01:16:08] consciência artificial, por exemplo
[01:16:09] tipo, sabe
[01:16:12] até que ponto, porque entra
[01:16:14] em terrenos como por exemplo
[01:16:16] bom, a gente precisa
[01:16:18] estigmatizar
[01:16:20] a figura
[01:16:21] impessoal do negro, por exemplo
[01:16:24] como aquele cara
[01:16:26] que ele foi vítima histórica
[01:16:27] de um processo
[01:16:29] que de fato existiu
[01:16:32] enfim, há uma dívida
[01:16:34] cultural, moral, ética
[01:16:36] em relação aos negros
[01:16:37] então a gente precisa, pra cumprir
[01:16:40] com essa dívida
[01:16:41] necessariamente precisa lembrar disso
[01:16:43] sim
[01:16:44] e assim, a polêmica ética
[01:16:48] a meu ver, que é de fato
[01:16:49] a complexa
[01:16:51] que não, assim, da minha parte não tem respostas
[01:16:53] muito fáceis, é que
[01:16:55] por exemplo, vem um Nietzsche
[01:16:57] pra jogar aqui a bomba
[01:17:00] vai dizer que
[01:17:01] assim, pra manter
[01:17:03] uma espécie de saúde, de afirmação
[01:17:05] da vida e tal
[01:17:06] o remédio que ele dá pra
[01:17:09] ideia de ressentimento, pra ideia de vingança
[01:17:12] que são os venenos
[01:17:13] que ele condena e que gera todos os
[01:17:15] males, ou seja, a própria moralidade
[01:17:18] sempre é pautada
[01:17:20] no ressentimento, no desejo de vingança
[01:17:22] nesse remoer
[01:17:23] a maldade
[01:17:25] ele fala que a solução é o esquecimento
[01:17:28] uma pessoa
[01:17:30] que esquece
[01:17:33] é uma pessoa que tem
[01:17:34] muito mais chance
[01:17:36] muito mais, digamos, saúde
[01:17:37] ou enfim, uma vida mais afirmativa
[01:17:39] potente e tudo mais
[01:17:41] do que aquela que lembra muito
[01:17:43] por isso que
[01:17:45] o que lembra
[01:17:48] e esse é o ponto daí
[01:17:49] o que lembra é o que sofreu
[01:17:52] aquele que
[01:17:53] é muito fácil, por exemplo, falando
[01:17:55] na questão dos negros, é muito fácil
[01:17:58] pra nós brancos, classe média
[01:17:59] esquecermos, né, vamos esquecer
[01:18:02] não, não, não, então tranquilo
[01:18:03] vamos deixar isso de lado
[01:18:04] mas agora aquele que sofre o preconceito diariamente
[01:18:08] ele não consegue
[01:18:09] então, é por isso que
[01:18:11] é complexo, porque o Nietzsche também tá falando
[01:18:13] do ponto de vista psicológico
[01:18:16] pautado no indivíduo, digamos, né
[01:18:18] pra um indivíduo esquecer e tal
[01:18:20] o que, de fato, eu concordo
[01:18:22] com o Nietzsche nesse ponto
[01:18:23] agora, se a gente amplia essa ideia de esquecimento
[01:18:25] como algo, uma saída, uma solução
[01:18:27] a nível coletivo
[01:18:29] ou, melhor dizendo, social
[01:18:31] é um pouco mais complexo
[01:18:34] justamente porque
[01:18:36] são vários indivíduos que
[01:18:38] de certa forma
[01:18:39] tem a necessidade
[01:18:41] de ter essa, cumprir com uma dívida
[01:18:44] que tá pautada, obviamente
[01:18:45] num ressentimento
[01:18:46] né
[01:18:47] diário
[01:18:48] é um momento que o Nietzsche é romântico utópico
[01:18:51] vai, vai, desculpa aí
[01:18:53] não, na verdade, eu não diria
[01:18:56] nesse ponto, não
[01:18:57] eu acho que ele é romântico em vários outros pontos
[01:18:59] é porque ele simplesmente não tá preocupado
[01:19:02] sabe, tipo
[01:19:03] é a mesma coisa se perguntar, sei lá, pra um matemático
[01:19:06] o que ele acha que é melhor
[01:19:07] falava isso, mas tava ressentido pra caralho lá
[01:19:09] com a mulher, né
[01:19:10] na verdade, justamente
[01:19:13] mas ele falava isso por conta
[01:19:14] desse ressentimento
[01:19:17] dele
[01:19:17] é, passa o que eu digo, não passa o que eu faço
[01:19:20] né, basicamente
[01:19:21] não, é, ele propõe justamente pra solucionar os problemas dele
[01:19:24] em primeiro lugar
[01:19:25] mas eu acho que assim
[01:19:28] não é justo, me parece
[01:19:30] exigir dele, por exemplo
[01:19:32] uma forma de governo
[01:19:34] de política, porque ele não tava preocupado com isso
[01:19:37] basicamente, sabe
[01:19:38] é a mesma coisa de perguntar pra um químico
[01:19:40] ou, sei lá, qualquer coisa, o que ele acha que é melhor
[01:19:42] política, claro, ele pode achar
[01:19:44] o que ele quiser, pode até pesquisar
[01:19:46] mas a princípio
[01:19:47] o que ele desenvolve na teoria
[01:19:49] sobre química
[01:19:50] não tá interessada
[01:19:52] não tem esse foco
[01:19:53] enfim
[01:19:56] mas o problema, voltando, é justamente
[01:19:58] esse, assim, o ressentimento
[01:20:00] me parece, assim
[01:20:02] do ponto de vista filosófico, ele só gera
[01:20:04] mais ressentimento, seja a nível
[01:20:06] individual, seja a nível coletivo
[01:20:08] agora, solucionar ele é
[01:20:10] problemático
[01:20:11] eu diria, inclusive, que é impossível
[01:20:15] eu não vou
[01:20:17] aliás, eu vou, sim
[01:20:18] ao ponto de dizer que ressentimento é uma das coisas
[01:20:21] que faz parte da constituição humana
[01:20:23] assim
[01:20:23] sim, sim, mas eis o ponto
[01:20:25] no caso do Nietzsche, ele não propõe que
[01:20:28] extingui, né
[01:20:30] o ressentimento, por isso que alguns dizem que ele é aristocrático
[01:20:33] assim, ele sabe
[01:20:35] que isso é uma coisa que não
[01:20:37] se extingui, assim
[01:20:38] que não se soluciona a nível coletivo
[01:20:41] ele já parte desse pressuposto
[01:20:43] ele escreve pra pessoas especiais
[01:20:45] digamos
[01:20:45] risos
[01:20:46] risos
[01:20:47] muito especiais
[01:20:49] risos
[01:20:50] risos
[01:20:50] mas de fato, assim
[01:20:54] pensar a nível coletivo
[01:20:55] que é o complicado
[01:20:57] e daí, assim, da minha parte, eu sou bem pragmático
[01:21:00] risos
[01:21:02] sabe, não é, assim, não busco
[01:21:04] o ideal, assim
[01:21:05] como um ideal utilitário
[01:21:07] é de fato, assim, bom
[01:21:09] existe um ressentimento
[01:21:12] se esse ressentimento, no caso, me parece
[01:21:14] da
[01:21:14] ditadura militar
[01:21:17] é um ressentimento que, assim, já tende
[01:21:20] ele não é retroalimentado
[01:21:22] por alguns fatos sociais
[01:21:24] enfim, por algumas dinâmicas e práticas
[01:21:26] cotidianas
[01:21:27] como é, por exemplo, o ressentimento do negro
[01:21:30] e da mulher
[01:21:32] então, aí sim, nesse caso, eu acho que deve ser esquecido
[01:21:35] risos
[01:21:36] esquecido, claro, não totalmente
[01:21:38] como registro histórico
[01:21:40] enfim
[01:21:41] tem sua importância, mas ele não deve ser
[01:21:44] enfim, punido
[01:21:46] depois de
[01:21:47] muitos anos
[01:21:48] é que é engraçado pensar por isso
[01:21:51] porque se fosse
[01:21:51] essa questão do esquecimento
[01:21:54] que, assim, eu imagino
[01:21:56] não tem contato, mas a Alemanha
[01:21:58] pós-nazismo, eles têm que fazer
[01:22:01] esse exercício sempre, porque senão
[01:22:03] cara, eles não vivem, né
[01:22:05] não, é só lembrar do pós-nazismo
[01:22:08] em que, assim, tipo
[01:22:09] os tribunais eram lotados ali
[01:22:10] tipo, era
[01:22:12] era preciso punir e tal
[01:22:15] assim, sabe
[01:22:15] tinha muito dinheiro
[01:22:17] investido pra punição nessa época
[01:22:20] quem lê Hannah Arendt
[01:22:22] sabe disso
[01:22:23] mas a questão é
[01:22:26] justamente, assim, existem
[01:22:28] coisas que podem, assim, existem
[01:22:30] fatos sociais que, assim, do meu
[01:22:32] ponto de vista, podem ser esquecidos
[01:22:34] portanto, a teoria do
[01:22:35] Nietzscheana, ela pode ser aplicada
[01:22:38] a nível social, mas
[01:22:39] existem outros fatos que não
[01:22:41] porque eles não são simplesmente
[01:22:44] ressentimentos de um
[01:22:45] passado, eles são
[01:22:47] ressentimentos que são alimentados com
[01:22:49] novos fatos
[01:22:50] como, por exemplo, o preconceito racial
[01:22:53] entende, não é uma coisa
[01:22:55] que ficou ali, é uma coisa que se repete
[01:22:57] agora, sabe
[01:22:59] os militares, assim
[01:23:01] claro, entendeu
[01:23:03] você vai punir
[01:23:05] eternamente as gerações
[01:23:08] do militar, então extingue logo
[01:23:09] os militares, entendeu
[01:23:11] é que eu acho que
[01:23:13] é realmente um tema complexo
[01:23:15] assim, que eu acho que o pessoal fala muito
[01:23:17] é, por exemplo, uma questão que é muito
[01:23:19] discutido, é que assim
[01:23:21] no caso, por exemplo
[01:23:23] pega os militares
[01:23:25] eles tem nome de rua, nome de escola
[01:23:27] tipo, a memória
[01:23:29] tenta se perpetuar, e os herdeiros
[01:23:31] desses militares, às vezes, recebem
[01:23:33] pensão, e essas coisas
[01:23:35] assim. Não, isso concordo
[01:23:37] plenamente. É, mas
[01:23:39] ao mesmo tempo
[01:23:40] essa questão do
[01:23:43] é esses negócios do
[01:23:45] esquecimento que me incomoda
[01:23:46] de, ah, seria melhor esquecer
[01:23:49] só que a gente é constituído de memória
[01:23:51] sabe, e tem
[01:23:53] e às vezes… Mas não só, né
[01:23:55] a gente também é constituído de esquecimento
[01:23:57] Não, sim, mas é que eu acho
[01:23:59] que a gente escolhe algumas coisas a esquecer
[01:24:02] e privilegia outras
[01:24:03] entende, e daí
[01:24:05] qual que a gente vai escolher, vou dar um exemplo
[01:24:07] aqui, por exemplo, que tem muito a ver
[01:24:09] agora no momento que eu tô pesquisando muita coisa de
[01:24:11] Oriente Médio, não sei se
[01:24:13] vocês sabem, mas aqui em Curitiba temos uma
[01:24:15] estátua do Assad, o pai
[01:24:17] o que é
[01:24:18] o pai Assad que era presidente
[01:24:21] da Síria antes do filho, agora
[01:24:23] né, quando começou
[01:24:25] a Primavera Árabe, lá em 2011
[01:24:27] e tudo, começou todos esses
[01:24:29] movimentos contra o Assad, enfim, que
[01:24:31] hoje em dia engolou pra caralho
[01:24:33] mas chegou até
[01:24:35] aqui em Curitiba um momento em que pessoas
[01:24:38] falaram, vamos destruir
[01:24:39] essa estátua aqui do Assad
[01:24:41] e a comunidade síria
[01:24:43] curitibana
[01:24:45] de refugiados, não, mas de descendentes
[01:24:48] sírios, libaneses
[01:24:49] foi lá defender a estátua
[01:24:51] falando, não, deixa aí
[01:24:53] mas o cara é um filho da puta aí
[01:24:55] ditador, acabou com o
[01:24:58] país de vocês, ele fala, não, não é não
[01:24:59] vocês estão falando outra coisa, e daí começa
[01:25:01] esse debate, e é o que eu vejo
[01:25:03] eu acho que a questão de dizer
[01:25:05] seria bom a gente esquecer certas coisas
[01:25:07] ela é muito seletiva
[01:25:10] pra quem está falando o que
[01:25:11] daí fala a questão dos militares
[01:25:14] fala a questão dos negros
[01:25:15] mulheres, então, de quem
[01:25:16] daí me vem com essa muita ideia dessa coisa
[01:25:19] bonita, que um dia nós seremos todos iguais
[01:25:21] pensaremos iguais, esqueceremos as mesmas coisas juntos
[01:25:23] e andaremos juntos, por isso que pra mim
[01:25:25] é utópico, não, pelo contrário
[01:25:27] já paro do pressuposto
[01:25:29] que as coisas são esquecidas
[01:25:30] por exemplo, a própria história
[01:25:32] ou seja, o fato
[01:25:35] esse fato que você colocou, né
[01:25:36] a memória de uns
[01:25:39] é muito diferente da memória
[01:25:41] de outros, então tipo assim
[01:25:43] não há uma verdade histórica
[01:25:45] se há uma verdade histórica
[01:25:47] ela é imposta
[01:25:48] é legitimada
[01:25:50] simplesmente de uma maneira arbitrária
[01:25:53] enfim
[01:25:55] isso é um ponto comum
[01:25:57] então o esquecimento
[01:25:58] ele faz parte disso, se houvesse
[01:26:01] memória total
[01:26:02] plena, né
[01:26:05] digamos assim, a gente não
[01:26:06] haveria espaço pra invenção
[01:26:08] e imaginar, enfim, o esquecimento
[01:26:11] é o grande motor
[01:26:13] da narrativa, da criatividade
[01:26:15] enfim, da inventividade
[01:26:18] humana, eu diria, da cultura humana
[01:26:20] mais do que a memória
[01:26:21] só que é fato que
[01:26:23] os debates sobre memória
[01:26:25] é uma coisa que sempre vai existir
[01:26:27] qual que é a memória mais correta e qual que deve ser lembrado ou não
[01:26:29] então essa escolha do que deve ser lembrado
[01:26:31] e o que deve ser esquecido
[01:26:33] é uma convenção, sempre vai ter isso
[01:26:35] só que às vezes se esquece
[01:26:37] que mesmo assim, essa escolha
[01:26:39] do que se deve lembrar, do que deve se esquecer
[01:26:41] não é exatamente preto no branco
[01:26:43] porque essa memória que você de repente
[01:26:45] escolhe ter, ela já é
[01:26:47] já envolve muito
[01:26:49] esquecimento, entende
[01:26:50] ela não é uma memória perfeita e mais
[01:26:53] verdadeira que outras
[01:26:54] ela é uma escolha, escolha arbitrária
[01:26:57] no fim das contas, ou seja
[01:26:59] às vezes inconsciente
[01:27:01] exatamente, ou seja
[01:27:03] o nazismo, né
[01:27:06] quebrando aí a lei
[01:27:08] já quebramos, né
[01:27:10] enfim
[01:27:13] é
[01:27:14] é
[01:27:14] é
[01:27:15] é
[01:27:15] é
[01:27:15] é
[01:27:15] é
[01:27:15] , pra mim é muito plausível
[01:27:16] que poderia ser lembrado de outra forma
[01:27:19] não que eu concorde nem nada com o nazismo
[01:27:21] ou seja, ficou estigmatizado
[01:27:23] de um jeito, também é plausível que ele possa
[01:27:25] ser lembrado de outro, de outra forma
[01:27:27] e tal, me parece até que ele
[01:27:29] aos poucos aí, né, aqui em Curitiba
[01:27:31] se vê que ele
[01:27:32] já é lembrado de outra forma
[01:27:34] enfim
[01:27:37] enfim, ou seja
[01:27:39] a forma como
[01:27:41] a sociedade se lembra de um episódio histórico
[01:27:43] já assim, independente
[01:27:45] de escolhas
[01:27:46] que são feitas convencionalmente
[01:27:48] já envolve esquecimentos
[01:27:49] inconscientes
[01:27:51] ou seja, o que Nietzsche propõe
[01:27:54] enfim, o Paul Ricoeur
[01:27:56] também, ao falar de história
[01:27:58] e tal, é que
[01:27:59] a gente simplesmente admitir esse esquecimento
[01:28:02] e não se preocupar tanto com memória
[01:28:04] entende?
[01:28:06] que justamente, assim
[01:28:08] admitir que, por exemplo, nessas escolhas
[01:28:10] que devem ser feitas
[01:28:11] não é exatamente
[01:28:13] por aquilo que é mais verdadeiro
[01:28:15] mas é justamente
[01:28:17] por aquilo que é melhor pra agora
[01:28:19] digamos
[01:28:19] ah, mas o que
[01:28:23] deixa eu puxar pro Black Mirror
[01:28:25] de novo
[01:28:25] a questão do esquecimento
[01:28:28] como é que você acha que entra ali?
[01:28:30] a questão de que o fato de fichar o cara
[01:28:33] e bloquear ele
[01:28:34] isso seria uma maneira
[01:28:37] de evitar o esquecimento e isso é uma punição?
[01:28:40] não, no caso dele
[01:28:41] ele é punido, me parece, mais pela memória
[01:28:43] dos outros em relação a ele
[01:28:45] estigmatizado
[01:28:46] ele se torna também esquecido
[01:28:48] porque ninguém sabe quem ele foi
[01:28:50] foi nesse termo que eu pensei
[01:28:53] ninguém sabe nem quem ele foi
[01:28:54] nem o que ele fez
[01:28:55] então chega, na verdade, num extremo ali
[01:28:58] que, por uma escolha
[01:29:00] de alguém
[01:29:01] ele foi punido de tal forma que
[01:29:04] não é exatamente, não importa exatamente
[01:29:06] uma memória
[01:29:08] o que se deve lembrar é que ele foi punido
[01:29:10] no caso do Don Draper, você tá falando
[01:29:13] é, e o esquecimento também
[01:29:15] do ponto de vista psicológico dele, né
[01:29:17] ele aos poucos vai esquecer o que são os outros
[01:29:19] vai esquecer a autoridade
[01:29:20] a alteridade, né
[01:29:22] todos os outros é igual pra ele
[01:29:24] é interessante que é uma causa, é uma forma de punição
[01:29:27] que nesse sentido a gente não tem
[01:29:29] nesses termos tão evidentes
[01:29:31] quanto no episódio, a gente pode ver como
[01:29:33] uma metáfora daquela pessoa que ela
[01:29:35] é estigmatizada na sociedade
[01:29:37] e, ah, fez uma coisa horrível, ninguém vai falar com esse cara
[01:29:39] mas que ali
[01:29:41] mesmo aqueles, ele não tem
[01:29:43] opção de falar nem com pessoas que não
[01:29:45] conhecem ele, né, porque ele já tem essa
[01:29:47] marca agora
[01:29:48] ele vive entre fantasmas, pra ele, assim
[01:29:50] do ponto de vista psicológico dele
[01:29:52] e nesse sentido que, sabe, ele esquece
[01:29:55] justamente
[01:29:56] ele é forçado a esquecer do que é
[01:29:59] o social, e se ele é forçado
[01:30:01] a esquecer do que é o social, ele esquece de si mesmo
[01:30:03] é como
[01:30:05] é como uma versão quase de um
[01:30:07] cárcere semi
[01:30:09] como é que é, ele fica
[01:30:11] regime semi-aberto
[01:30:12] isso, né, ele tá em
[01:30:15] sociedade, mas ele não pode falar com
[01:30:17] outras pessoas, né, nem que ele queira
[01:30:18] apesar que, desculpa
[01:30:21] tem um jeito bem fácil de burlar
[01:30:23] isso, que é, escreve um texto
[01:30:25] pega um caderninho, escreve com caneta
[01:30:27] e fala, oi, e daí a pessoa responde
[01:30:28] você, oi, né, faz
[01:30:31] um desenho de você aí
[01:30:32] é
[01:30:34] aí que tá, eu acho
[01:30:37] que ele é menos punido, obviamente
[01:30:39] do que o Joe, ou o cookie do Joe
[01:30:41] que é justamente
[01:30:42] forçado a lembrar de tudo
[01:30:45] então, assim, é nesse sentido
[01:30:47] que cabe a teoria Nietzscheana
[01:30:49] assim, uma pessoa que é forçada
[01:30:51] sempre a lembrar das mesmas coisas
[01:30:53] que ela é, de fato
[01:30:55] ela sofre mais, e nesse
[01:30:57] sentido, alguns poderiam interpretar
[01:31:00] né, essa ideia da memória
[01:31:01] como punição
[01:31:03] e é uma ideia Nietzscheana
[01:31:05] tanto assim, ah, os negros eles são
[01:31:07] daí é uma interpretação
[01:31:09] conservadora, os negros eles são
[01:31:11] forçados a lembrar sempre
[01:31:13] de quem, os
[01:31:15] antepassados deles foram e sofreram
[01:31:17] e tal, né, essa é uma interpretação
[01:31:19] agora, a forma como eu
[01:31:21] interpreto Nietzsche, nessa mesma
[01:31:23] ideia da memória como punição
[01:31:24] é que os negros já são, eles são
[01:31:27] forçados a lembrar do que eles foram
[01:31:29] porque eles ainda sofrem preconceito
[01:31:32] então
[01:31:33] à medida que você recusa, por exemplo
[01:31:35] um emprego, ou uma entrada de um negro
[01:31:37] na universidade, você já tá, queira ou não
[01:31:39] lembrando ele, que ele
[01:31:40] foi recusado historicamente
[01:31:43] hum, sim
[01:31:45] a pior punição que já existe
[01:31:46] socialmente pros negros
[01:31:48] isso numa questão conservadora
[01:31:51] que você tá falando
[01:31:52] não, isso, uma interpretação não conservadora
[01:31:55] de Nietzsche
[01:31:56] a conservadora seria falar que
[01:31:59] esse sistema de cotas e tudo, enfim
[01:32:01] é racismo reverso
[01:32:02] é, justamente, os faz lembrar
[01:32:04] de uma memória, daí eu
[01:32:07] contra o argumento falo, não, assim
[01:32:08] havendo ou não esse racismo reverso
[01:32:11] a questão é que
[01:32:13] há o racismo
[01:32:15] e esse racismo já faz eles lembrarem
[01:32:17] hum, exato
[01:32:18] então a memória já tá sendo utilizada
[01:32:21] como punição, já tá funcionando
[01:32:23] como punição, porque assim
[01:32:24] uma hora, obviamente, como o negro
[01:32:26] imagina, né, ele se pergunta
[01:32:29] por que eu sofro tanta
[01:32:30] discriminação, e se a pessoa
[01:32:32] for pesquisar, ela vai
[01:32:34] pesquisar a própria memória, ou seja
[01:32:37] vai ver que os antepassados sofreram isso
[01:32:39] então, ou seja, nesse
[01:32:41] ponto, eu ainda sou Nietzscheano e falo
[01:32:43] a memória é uma forma de
[01:32:44] punição, porque ela causa sofrimento
[01:32:46] inclusive sem você querer
[01:32:48] os outros podem lembrar pra você
[01:32:50] entendeu, tipo, os outros
[01:32:52] podem lembrar pelo match que ele fez
[01:32:54] algo errado, esse é o ponto
[01:32:56] os dois estão
[01:32:58] impossibilitados de esquecer
[01:33:01] sim
[01:33:02] e esquecer do ponto de vista psicológico
[01:33:05] que os faz
[01:33:06] afirmar a vida, poderia, né
[01:33:08] tipo, o esquecimento
[01:33:10] é um atalho pra afirmar a vida
[01:33:13] e o Nietzsche coloca o esquecimento também
[01:33:14] como uma espécie de remédio
[01:33:16] isso é bom, né, o Nietzscheano pode estar ouvindo
[01:33:18] não como uma solução mágica
[01:33:20] assim
[01:33:21] é um, digamos, paliativo
[01:33:25] a forma
[01:33:26] mais interessante é você justamente
[01:33:28] escolher
[01:33:30] você não pode viver, não faz sentido
[01:33:32] o Nietzsche reconhece, se você viver totalmente esquecido
[01:33:35] você não vive, né, não tem mais
[01:33:36] consciência
[01:33:37] não existe, assim
[01:33:40] não faz sentido, na verdade, haver esquecimento sem memória
[01:33:43] e vice-versa
[01:33:44] então é justamente saber lidar com a memória e o esquecimento
[01:33:47] agora, a imposição de uma memória
[01:33:49] que eu acho que é o ponto central
[01:33:52] aí dessa história, da punição
[01:33:53] do Joe e do Matt
[01:33:55] que é justamente uma forma
[01:33:57] muito avançada de punição
[01:33:59] isso já existe no White Beer
[01:34:02] em certa medida
[01:34:03] quando a mulher, ela
[01:34:05] enfim, é
[01:34:07] só que no White Beer é um pouco mais
[01:34:10] é
[01:34:12] é diferente, porque ela é forçada
[01:34:14] a lembrar todos os dias do que
[01:34:16] ela fez, né
[01:34:17] só que ao mesmo tempo ela esquece tudo
[01:34:20] de novo
[01:34:20] é engraçado isso, né
[01:34:24] me parece que essa é uma punição
[01:34:26] ainda, olha só
[01:34:28] menos pior
[01:34:29] do que a do Joe
[01:34:34] lá, que ele, assim
[01:34:35] não tem a possibilidade de esquecer
[01:34:38] sim, a cada segundo, né
[01:34:39] ele vai, exato
[01:34:42] não tem descanso, ele tá
[01:34:44] separado eternamente com a mesma coisa
[01:34:46] algo como o regime semiaberto
[01:34:48] talvez seja pior do que
[01:34:50] estar fechado
[01:34:52] eu não iria nem tão longe
[01:34:54] eu concordo que o regime semiaberto
[01:34:55] também rola
[01:34:58] esse estigma, agora
[01:34:59] eu acho que esse estigma é muito mais
[01:35:02] sei lá, concreto no caso de um
[01:35:04] mendigo, por exemplo
[01:35:05] que todo mundo já vê ele como um mendigo
[01:35:08] quer dizer, sabe
[01:35:09] morador de rua
[01:35:11] então ele já tá de certa forma
[01:35:14] traumatizado
[01:35:15] e com isso, já que as pessoas ignoram ele
[01:35:17] ele também é forçado
[01:35:20] a, assim, ou
[01:35:22] tanto faz pra ele, né, esquecer o que ele
[01:35:24] fez, daí ele se esquece de si mesmo
[01:35:26] esquecimento total, ou justamente
[01:35:28] ficar com as mesmas memórias
[01:35:29] que eu levo, por exemplo, a ser alcoólatra
[01:35:32] teve um debate
[01:35:34] já de alcoolismo que eu participei
[01:35:37] que tinha
[01:35:38] essa questão de memória e esquecimento
[01:35:40] como uma
[01:35:41] pesquisadora participou
[01:35:44] lá sobre esses encontros de alcoólatras anônimos
[01:35:47] e tal, e viu que assim
[01:35:48] o grande combustível
[01:35:50] do vício
[01:35:51] do álcool
[01:35:54] é a memória
[01:35:55] porque eles, sabe aquela coisa
[01:35:58] eu bebo pra esquecer
[01:35:59] e daí quando você
[01:36:03] fica sóbrio em abstinência, você volta a lembrar
[01:36:07] entendeu, então tipo assim, a gente pode até estipular
[01:36:10] o match, ele poderia se salvar
[01:36:12] digamos assim, bebendo
[01:36:14] ou seja, é uma desgraça
[01:36:16] total, né
[01:36:17] não tem muito
[01:36:20] um final feliz possível
[01:36:22] pra ele
[01:36:23] o foda é pensar justamente
[01:36:26] no lance que
[01:36:28] essa tecnologia ela é tão foda, cara
[01:36:30] que você não pode ver um filme, assim, sabe
[01:36:32] a pessoa ia ficar lendo livros
[01:36:35] só assim, pra
[01:36:36] não podia nem ter figurinha
[01:36:38] nos livros, porque
[01:36:39] qualquer outra forma de
[01:36:42] mídia, interação que ela tenha com
[01:36:44] seres humanos, estaria bloqueado pra ele
[01:36:46] é uma…
[01:36:47] a não ser que ele tenha o direito de entrar no submundo
[01:36:50] e comprar um outro olho
[01:36:52] tipo o cara do Minority Report
[01:36:54] ah é, daí já vamos
[01:36:56] pra outra melhor
[01:36:57] mas eu acho que o ponto cego, eu acho que o Ivan notou
[01:37:00] que é assim, o cara pode viver lendo
[01:37:03] e assim
[01:37:05] já é menos pior
[01:37:06] do que o cara que tá naquela casa
[01:37:09] vou imaginar que aquela casa não tem
[01:37:10] livro nenhum
[01:37:11] aquela casa também não tem álcool
[01:37:14] aham
[01:37:15] que poderia ser uma forma, né
[01:37:18] e mesmo assim
[01:37:20] se tiver facas, ah, o cara vai se matar
[01:37:22] como o cara é um cookie, ele não se mata
[01:37:25] é
[01:37:25] sim
[01:37:27] o pior, ele poderia sentir dor
[01:37:30] pra caralho, né
[01:37:31] e vai sofrer, cada vez mais
[01:37:34] é, daí, caralho, velho
[01:37:36] que, nossa
[01:37:37] o lance bem
[01:37:39] com a questão de punição
[01:37:42] dos mitos gregos, né
[01:37:44] o cara vai sofrer dor pra caralho
[01:37:46] e nunca vai morrer, por exemplo
[01:37:48] é, que é o Prometeu, né
[01:37:49] comendo o fígado, né
[01:37:52] é, daí, e não se cura
[01:37:54] nada, só sente dor pra caralho
[01:37:56] caralho
[01:37:57] tão de parabéns
[01:37:59] os caras tão bem, assim
[01:38:01] ah, eu acho que
[01:38:03] abordamos pra caralho, mais ainda do que
[01:38:06] do que imaginava
[01:38:08] algum outro ponto que
[01:38:09] chamou atenção no episódio, que vocês queriam
[01:38:12] debater?
[01:38:14] lembre, assim, acho que a gente tocou em todos, né
[01:38:16] é, o que eu acho, assim, de modo geral
[01:38:18] interessante, é que todos esses aspectos
[01:38:21] atrelados que a gente
[01:38:22] abordou
[01:38:24] desde o voyeurismo, que a gente não abordou tanto
[01:38:27] mas, enfim, é uma coisa
[01:38:28] que eu quero dizer, todos esses aspectos
[01:38:30] envolvendo aí a exclusão
[01:38:33] social por meio do bloqueio
[01:38:34] no caso das redes sociais, né
[01:38:36] não é uma coisa inédita
[01:38:38] é um aspecto
[01:38:40] assim que, se você encontra
[01:38:42] isso, como a gente acabou de fazer
[01:38:44] em narrativas gregas
[01:38:46] enfim, sabe, em
[01:38:48] tragédias antigas e tal
[01:38:50] a mesma ideia da
[01:38:52] consciência artificial, isso a gente
[01:38:54] explorou no programa São Véx
[01:38:56] Máquina, que
[01:38:57] a consciência artificial é uma tragédia grega
[01:39:00] de Eurípides e tal
[01:39:01] essa ideia de memória e esquecimento
[01:39:04] e tal, eu acho que de modo geral
[01:39:06] esses aspectos que são
[01:39:07] os centrais
[01:39:10] e potencializados pelos
[01:39:12] aparatos tecnológicos
[01:39:14] é aquilo que faz o programa
[01:39:16] ser um, a narrativa
[01:39:18] na verdade, do episódio
[01:39:19] ser caracterizado como
[01:39:22] cyberpunk, e eu gosto
[01:39:24] bastante de cyberpunk justamente porque tem
[01:39:25] esse aspecto trágico
[01:39:27] te diverte
[01:39:29] é, porque um dos
[01:39:31] enunciados trágicos é assim, você pode mudar
[01:39:33] a sociedade de várias maneiras
[01:39:35] tecnologicamente, você pode mudar as formas
[01:39:38] de governo, você pode mudar
[01:39:40] enfim, culturas inteiras
[01:39:42] sabe, concepções inteiras
[01:39:44] e tal, só que há algo que permanece
[01:39:46] há invariáveis aí
[01:39:49] nessa história, que é justamente
[01:39:52] a invariável
[01:39:53] humana, ainda que
[01:39:55] o que é o homem, o homem
[01:39:57] não se define, ou
[01:39:59] ele se define pela negativa
[01:40:01] por essas invariáveis, ou seja
[01:40:03] justamente por esses conflitos
[01:40:06] que só fazem sentido pra ele
[01:40:08] do ponto de vista
[01:40:09] não humano, se a gente
[01:40:12] pode dizer assim, não faz
[01:40:14] isso, sabe
[01:40:14] essas dinâmicas sociais
[01:40:17] então esse aspecto trágico
[01:40:20] que eu vejo
[01:40:22] no cyberpunk, e portanto
[01:40:23] nesse episódio
[01:40:24] é aquilo que
[01:40:27] justamente, todas as discussões que a gente teve
[01:40:30] não chegou a lugar nenhum
[01:40:31] também é um aspecto trágico
[01:40:34] de você ver que assim
[01:40:35] os debates éticos, eles assim
[01:40:37] do meu ponto de vista, eles só são
[01:40:39] por que eu digo que eu sou pragmático?
[01:40:41] eles só são possíveis de ser discutidos
[01:40:43] em relação ao contexto de agora
[01:40:45] assim, não faz
[01:40:48] sentido discutir um
[01:40:50] debate sobre ética
[01:40:51] ou política, ou moral
[01:40:53] pensando num modelo perfeito
[01:40:55] que vai chegar
[01:40:56] num estado em que as pessoas vão ser
[01:40:59] mais felizes, enfim, e que vai se
[01:41:01] anular totalmente
[01:41:03] alguns problemas, o debate ético
[01:41:05] só faz sentido pra mim, pragmaticamente
[01:41:08] em relação aos problemas
[01:41:09] que se tem agora, de tal forma
[01:41:12] que você pode discutir o mesmo
[01:41:13] tema ético daqui a alguns anos
[01:41:15] e ter uma posição totalmente diferente
[01:41:16] ou mesmo amanhã, de um dia pro outro
[01:41:19] e tal, ter uma opinião
[01:41:21] totalmente diferente, então eu acho assim
[01:41:22] tô querendo sintetizar toda essa coisa
[01:41:25] também vendo que
[01:41:27] o voyeurismo a gente não explorou, poderia ter
[01:41:29] explorado
[01:41:30] é que o voyeurismo a gente falou bastante no episódio do Grão
[01:41:33] também, né, acho que tá de boa
[01:41:35] não é um foco, eu acho
[01:41:36] não é, assim, eu acho que
[01:41:39] se for pra
[01:41:40] comentar mais alguma coisa, eu
[01:41:43] só gostaria de, pro pessoal
[01:41:45] que tem interesse em escrever
[01:41:46] e contar histórias, assim, tal
[01:41:48] esse é um episódio, cara, que
[01:41:51] veja só, ele é super
[01:41:53] complexo, super didático
[01:41:54] e ele te dá todas as regras sem você
[01:41:57] perceber, ele tem sempre o coelhinho
[01:41:59] na cartola, assim, em algum momento vai estourar
[01:42:00] desde coisas assim bobas, do tipo
[01:42:03] nos primeiros cinco minutos
[01:42:05] o Joe chega no
[01:42:07] na cozinha
[01:42:09] olha pro relógio e fala
[01:42:10] esse relógio aí eu já vi ele em algum lugar
[01:42:13] daí passa batido
[01:42:15] e daqui a pouco lá pra frente estoura, né
[01:42:16] então usa muito bem todo o recurso
[01:42:18] de te ensinar, assim
[01:42:20] todas as regrinhas do jogo
[01:42:22] e isso em
[01:42:24] 75 minutos, então
[01:42:26] é uma aula de narrativa, assim
[01:42:29] que o pessoal
[01:42:31] aí interessado em estrutura narrativa
[01:42:32] pode estudar que é bom
[01:42:35] pra caralho, assim, muito bom
[01:42:36] é que ao mesmo tempo, apesar de estar tudo encaixado
[01:42:38] me parece também que deixa
[01:42:40] assim, os
[01:42:43] problemas que são colocados
[01:42:44] não são solucionados
[01:42:46] ou seja, não há uma moral
[01:42:48] dizendo, sabe
[01:42:50] ah, sim, sim, não, o lance só que eu tô falando
[01:42:52] da narrativa, né, pra você entender
[01:42:54] todas as regras do jogo daquele mundo
[01:42:56] a estrutura formal, né, da narrativa
[01:42:59] sim, sim, só que de fato
[01:43:01] digamos, em relação ao
[01:43:02] conteúdo, ele é desconcertante
[01:43:05] sim, sim
[01:43:06] você entendendo bem o conteúdo
[01:43:08] e concordo, a narrativa te faz entender
[01:43:10] muito bem
[01:43:13] ele, assim, deixa
[01:43:14] a bomba em aberto
[01:43:16] sabe aquele
[01:43:17] cara que, ó, vou deixar aqui a treta no ar
[01:43:20] soltar essa treta
[01:43:22] só vou soltar aqui e sair correndo
[01:43:24] é, eu adoro
[01:43:26] esse tipo de narrativa
[01:43:29] e também
[01:43:30] eu imagino que tem muita gente que não gosta
[01:43:32] sim, sim
[01:43:34] fica assim, de tal forma
[01:43:36] porra, esse episódio é ruim
[01:43:38] porque não diz o quanto
[01:43:41] é absurdo
[01:43:43] absurdo, é, sabe, tipo
[01:43:44] esse tipo de prática, devia ser condenado
[01:43:47] e o final moralizante
[01:43:49] é, enfim, que é o que eu acho
[01:43:51] que, de certa forma, acontece um pouco
[01:43:53] no último, né
[01:43:55] que a gente viu ontem, o do Valdo
[01:43:57] é, que faz, daí
[01:43:58] do meu ponto de vista, a narrativa ser boba
[01:44:01] é, não
[01:44:03] o Valdo é fraquinho mesmo, inclusive
[01:44:04] falando o Valdo, tem o Valdo X Picanha
[01:44:07] aqui em Curitiba, que é muito bom
[01:44:08] eu recomendo, é caro, mas
[01:44:11] vale a pena, assim, já sofreu uns processos
[01:44:13] sim, teve umas histórias, tem umas histórias
[01:44:15] meio, tem umas
[01:44:16] mas daí não foi o Sr. Valdo, foi um
[01:44:18] um cara que abriu um negócio
[01:44:20] uma franquia
[01:44:21] o cara só vendia cocaína, assim, fora para as crianças
[01:44:24] que é isso, né
[01:44:27] o Sr. Valdo se matou, né
[01:44:29] se matou?
[01:44:30] eu acho que sim
[01:44:31] porra, que merda, cara
[01:44:34] que história triste
[01:44:36] então, mas tudo bem, né
[01:44:39] a vida continua
[01:44:40] de alguma forma, que horror
[01:44:43] então, tá, eu acho que
[01:44:44] abordamos tudo, acho que
[01:44:47] a mensagem final é
[01:44:48] ah, sim, um outro recurso narrativo bacana
[01:44:51] só pra, acho que tem a ver com o encerramento
[01:44:53] aqui, que ele usa
[01:44:55] uma técnica que o Tarantino, que o Beccari
[01:44:57] tanto ama
[01:44:57] o Beccari não gosta do Tarantino, tá, só pra
[01:45:00] foi um comentário
[01:45:02] mas que o cara
[01:45:04] não sei se o Charlie Brooker em específico
[01:45:07] ou o diretor usa, que é
[01:45:08] termina com uma cena
[01:45:10] assim, horrorosa
[01:45:13] né, do cara vivendo aquele
[01:45:15] pesadelo de mil anos
[01:45:16] o Cookie vivendo por mil anos, assim, o negócio
[01:45:19] por vários mil anos, né
[01:45:20] milênios de anos, e
[01:45:22] ou seja, é infinito aquele pesadelo que ele
[01:45:24] tá vivendo, e toca uma música super feliz
[01:45:27] de Natal no final, assim, né
[01:45:28] e essa dissonância, assim, que é muito bacana
[01:45:31] e deixa
[01:45:32] cara, te deixa muito incomodado, assim
[01:45:35] e eu acho muito foda
[01:45:37] tudo que termina
[01:45:38] final de Natal feliz, né, o especial
[01:45:40] de Natal, só voltava a aparecer
[01:45:43] Feliz Natal
[01:45:43] curta aí o feriado com a família
[01:45:48] por causa disso que eu, assim
[01:45:50] não tem nada a ver, né, mas
[01:45:52] eu gosto muito do Bastardos em Glória
[01:45:54] ele explora esse tipo de recurso
[01:45:56] o que me incomoda no
[01:45:58] Tarantino é quando ele faz, ele usa esse
[01:46:00] recurso, mas de uma maneira
[01:46:01] muito escrachada, sabe
[01:46:05] usando, tipo, assim, ao invés de
[01:46:07] sabe, não é muito elegante
[01:46:09] o cara simplesmente coloca sangue
[01:46:11] assim, jorrando
[01:46:13] com uma música feliz, tipo
[01:46:14] daí chega, assim, não tem nenhuma
[01:46:16] nenhuma reflexão possível
[01:46:19] você já sabe que é pra ser engraçado
[01:46:21] não, você sabe que é pra ser
[01:46:23] ridículo mesmo, e isso que é bom
[01:46:25] mas é por isso que é bom, né, cara
[01:46:27] porra, mais amor no teu coração aí
[01:46:30] não, mas
[01:46:31] esse recurso ridículo existe também
[01:46:33] em Monty Python
[01:46:34] existe, muito melhor, inclusive
[01:46:36] também em A Sua Maneira
[01:46:39] em Charlie Hebdo
[01:46:40] não, mas daí é só
[01:46:43] ruim, meu
[01:46:43] tá certo
[01:46:47] então, eu acho que
[01:46:49] terminamos aí com uma mensagem positiva
[01:46:51] pra galera, então, Feliz Natal
[01:46:52] e bom
[01:46:55] bom voeirismo aí
[01:46:57] com as conversas familiares
[01:46:58] na ceia de Natal
[01:47:00] e acho que é isso
[01:47:02] beba pra esquecer
[01:47:04] super saudável
[01:47:06] e agora Black Mirror
[01:47:11] só quando sair a temporada
[01:47:13] nova, que o Becari vai ter que
[01:47:15] fazer assinatura da Netflix
[01:47:16] Netflix, por favor
[01:47:18] e que fique também
[01:47:21] registrado aqui, né, porque
[01:47:22] desde que a Netflix Brasil agora
[01:47:24] assumiu o Black Mirror, agora todo mundo
[01:47:26] nossa, que série é essa
[01:47:28] então vamos assumir a nossa atitude hipster
[01:47:31] aqui pra caralho de dizer, eu vi
[01:47:32] primeiro
[01:47:33] a gente começou quanto, em 2012
[01:47:37] 13?
[01:47:37] deixa eu ver, Anticast, Black Mirror
[01:47:40] Black Mirror
[01:47:41] Black Mirror
[01:47:43] 2013
[01:47:44] que o último programa do ano passado
[01:47:47] foi Black Mirror também, a gente começou o ano
[01:47:49] falando de Black Mirror em 2014
[01:47:51] e terminou o ano falando de Black Mirror
[01:47:53] então, perfeito
[01:47:54] fechou-se o ciclo aí
[01:47:56] agora vem a era Netflix
[01:47:59] vamos ver
[01:48:00] eu tenho medo dessa era
[01:48:03] eu também, cara, muito medo
[01:48:05] assim, na real
[01:48:07] na real é assim, Black
[01:48:08] eu boto fé que o Charlie Brooker vai ter
[01:48:11] toda a liberdade pra fazer
[01:48:13] as loucuras que ele sempre faz
[01:48:14] inclusive, talvez mais liberdade que ele tinha
[01:48:17] no Channel 4, lá na Inglaterra
[01:48:19] agora, o que me deixa com medo é que
[01:48:21] cara, ele produzir mais e mais chances
[01:48:23] pra ele errar, tá ligado?
[01:48:25] então, é
[01:48:26] ou na verdade, fazer mais
[01:48:28] Waldos, né, tipo
[01:48:29] esse é o meu problema, mas eu
[01:48:32] confio, cara, se ele fizer
[01:48:34] vai ser 12 programas que ele vai fazer, né, se não me engano
[01:48:36] se ele fizer 12 programas
[01:48:38] foda, cara, aí
[01:48:40] tem que dar uma estátua pra esse cara, viu?
[01:48:43] porra, parabéns
[01:48:45] o cara tá de parabéns
[01:48:46] eu espero que, assim, mais
[01:48:49] adiante, pelo menos esses que a gente
[01:48:51] analisou, se tornem
[01:48:52] obras quase clássicas, né
[01:48:54] mesmo que seja seriado, né
[01:48:56] enfim, não tem
[01:48:58] nenhum problema ser seriado
[01:49:00] mas digo, sabe, tipo
[01:49:01] como a gente valoriza hoje um
[01:49:04] Philip K. Dick
[01:49:05] ah, sim, sim
[01:49:07] é uma coisa que tem que ser lembrada pra sempre
[01:49:11] sem dúvida
[01:49:11] e é bacana
[01:49:13] tá no Netflix, mais pessoas podem ter acesso
[01:49:15] e tal, e conhecer
[01:49:16] mas a gente viu primeiro
[01:49:19] é, falamos primeiro
[01:49:21] tá certo
[01:49:23] chega então, gente, Feliz Natal
[01:49:25] e até, acho que semana que vem
[01:49:27] tem programa ainda, então até, tchau
[01:49:28] tchau
[01:49:43] tchau
[01:50:43] tchau