#15 - Os Sentidos do Sofrimento (com Paulo Vaz)
Resumo
Neste episódio, Daniel Portugal conversa com o filósofo Paulo Vaz sobre como as culturas constroem sentidos para o sofrimento humano. Vaz parte de duas intuições fundamentais: que uma cultura se define pelo modo como habita o tempo (construindo passado e futuro a partir do presente) e pelo modo como dá sentido ao sofrimento. A discussão traça um percurso histórico, desde as explicações religiosas (sofrimento como castigo divino ou culpa individual) até as modernas (sofrimento como contribuição para um futuro melhor) e as contemporâneas.
Na cultura atual, observa-se uma mudança significativa: a salvação, antes projetada no futuro (céu, sociedade comunista), é deslocada para o presente, com a expectativa de felicidade imediata. Quando essa felicidade não se concretiza, busca-se uma explicação que não recaia sobre o próprio indivíduo (já que os desejos são amplamente legitimados), mas sim sobre um “outro imoral” que causa sofrimento. Isso leva a uma cultura da vitimização, onde figuras como o “preconceituoso” ou o “corrupto” servem para explicar o mal-estar.
O episódio explora categorias concretas que operam nessa lógica, como o conceito de bullying (que se ampliou de agressão física específica para incluir qualquer ofensa moral, permitindo que muitos se identifiquem como vítimas) e as doenças mentais (como a depressão, cuja definição cada vez mais se associa à tristeza e ao sofrimento subjetivo, distanciando-se de desvios comportamentais). A medicalização do sofrimento é analisada como uma resposta técnica preferencial em uma sociedade tecnológica, onde a ciência é vista como instrumental para a felicidade.
Por fim, Vaz reflete sobre a moralidade subjacente a essa cultura aparentemente permissiva. Ele identifica três elementos morais persistentes: 1) a recusa do trágico (a crença de que o sofrimento não deveria existir e é causado pela imoralidade alheia); 2) a centralidade da compaixão como regulador interno dos desejos (o limite é o sofrimento que se causa ao outro); e 3) a dificuldade de compreender o outro que causa mal, reduzindo-o a “malvado” ou a vítima de uma cadeia infinita. A conversa aponta para a secularização de conceitos religiosos, como a substituição da confissão pelo testemunho autobiográfico e da fé pela autoestima.
Indicações
Articles
- Artigo sobre medicamento e doença — Artigo escrito por Paulo Vaz e Daniel Portugal, discutindo a medicalização do sofrimento e a relação entre oferta técnica e percepção da doença.
- Na distância do preconceituoso — Artigo de Paulo Vaz mencionado, que analisa a figura do preconceituoso como explicação para o sofrimento na cultura contemporânea.
Books
- História da Felicidade — Livro de Darrin McMahon mencionado por Daniel, que argumenta que a noção contemporânea de felicidade provém da ideia cristã de salvação.
Movies
- Frozen — Citado como exemplo da narrativa cultural: a personagem Elsa primeiro liberta seus poderes (rejeitando a repressão), mas depois descobre que o limite é o sofrimento que pode causar aos outros, ilustrando a moralidade baseada na compaixão.
People
- Michel Foucault — Foi uma influência central para Paulo Vaz, especialmente suas análises sobre poder, a modernidade como atitude em relação ao presente, e a figura do anormal.
- Friedrich Nietzsche — Influência intelectual destacada, principalmente sua ideia de que o problema do sofrimento não é sua intensidade, mas a falta de sentido.
Linha do Tempo
- 00:02:30 — As intuições fundamentais sobre cultura e tempo — Paulo Vaz apresenta suas duas intuições básicas: uma cultura se define pelo modo como habita o tempo (construindo passado e futuro a partir do presente) e pelo modo como dá sentido ao sofrimento. Ele relaciona essa perspectiva a influências como Foucault, Nietzsche e Freud, destacando que, para a vida humana, é o presente que ‘abre’ o tempo, inventando um passado que o cause e um futuro possível.
- 00:07:08 — Da salvação futura ao risco no presente — Discute-se a transição de noções modernas como progresso, norma e libertação – que projetavam a realização no futuro – para a noção contemporânea de risco. Agora, o presente não se sente limitado, mas precisa ser controlado para evitar catástrofes futuras. Isso representa uma mudança ética profunda, abandonando a ideia marxista/cristã de salvação futura em terra ou no céu.
- 00:10:14 — Da culpa à vitimização: a nova explicação do sofrimento — Vaz explica a passagem de uma cultura onde o sofrimento era explicado pela culpa individual (pecado, falha moral) para uma onde a explicação predominante é a vitimização por um ‘outro imoral’. Como a cultura contemporânea legitima amplamente os desejos e o prazer no presente, não se pode mais culpar o indivíduo por seu sofrimento; busca-se então um agente externo (preconceituoso, corrupto) como causa.
- 00:16:30 — Poder, medo e a figura do anormal — A discussão conecta a análise do sofrimento com teorias do poder. São apresentados três modos históricos de articular poder e medo: fazer temer o próprio poder (espetáculo da punição), disseminar o medo de algo interno ao indivíduo (pecado, desejo perigoso – poder pastoral) e, na contemporaneidade, disseminar o medo do outro malvado externo. A figura do ‘anormal’ (secularização do pecador) é central no segundo modo.
- 00:31:02 — O conceito de bullying e a cultura da vitimização — Analisa-se o conceito de bullying como exemplo paradigmático da necessidade de se pensar como vítima. Originalmente restrito a agressão física repetida com assimetria de poder, o termo se ampliou para incluir agressão moral, permitindo que muitos se identifiquem como vítimas. Isso reflete uma mudança cultural onde o herói não é mais quem supera obstáculos, mas o sobrevivente, aquele que sofreu.
- 00:39:44 — A medicalização do sofrimento e as doenças mentais — Explora-se a expansão das categorias de doença mental (como depressão), onde estatísticas sugerem que grande parte da população será afetada. Contrasta-se com a visão moderna da loucura como desvio comportamental estigmatizante. Hoje, a expectativa social que define o desvio é o ‘direito à felicidade’; a tristeza em si se torna sintoma patológico. A resposta preferencial é técnica (medicamentos), refletindo a crença em soluções tecnológicas para o mal-estar.
- 00:56:00 — Medicamentos, risco e a busca contemporânea — A partir de uma lista dos medicamentos mais vendidos, infere-se os valores da cultura contemporânea: remédios para reduzir colesterol/pressão (controle de risco, busca por longevidade), analgésicos narcóticos e antidepressivos (controle da dor e busca da felicidade). A lógica do risco permite medicar mesmo sem sintomas, vendendo a sensação de segurança. A venda de doenças mentais explora a sensibilidade ao sofrimento.
- 01:02:01 — Síntese e direções futuras da investigação — Vaz reflete sobre o método de sua investigação, que é mais um ‘tateamento’ de problemas conectados do que um sistema fechado. Reitera a articulação entre o modo de habitar o tempo e de dar sentido ao sofrimento. Aponta interesses atuais, como a preeminência do testemunho autobiográfico como forma de verdade sobre o sofrimento e a secularização de conceitos religiosos (ex.: a autoestima como secularização da fé protestante).
Dados do Episódio
- Podcast: Não Obstante
- Autor: Marcos Beccari
- Categoria: Society & Culture Philosophy
- Publicado: 2016-02-18T04:14:15Z
- Duração: 01:08:03
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/n%C3%A3o-obstante/5a6c7050-ab31-0132-307f-0b39892d38e0/15-os-sentidos-do-sofrimento-com-paulo-vaz/d310aea0-e8cd-4ee9-b477-8a9ced5b2f5e
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Dados do Podcast
- Nome: Não Obstante
- Tipo: episodic
- Site: http://www.naoobstante.com/
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Transcrição
[00:00:00] Você está ouvindo, não obstante, um podcast sobre filosofia e outras ficções.
[00:00:12] Olá, estamos começando mais um Não Obstante. Eu sou Daniel Portugal e eu estou aqui hoje com
[00:00:34] Paulo Vaz. Paulo, obrigado por participar do podcast. Você pode dar um oi para os
[00:00:39] outros, se ouvirem sua voz. Tudo bem? Então vou te apresentar rapidamente e aí você fica
[00:00:45] à vontade para acrescentar ou corrigir qualquer coisa. O Paulo é filósofo, é doutor em Comunicação
[00:00:51] e Cultura pela Eco, UFRJ, e tem pós-doc na Universidade de Illinois. Ele atuou como professor
[00:00:58] na Eco, onde inclusive orientou a minha tese de doutorado, as bestas dentro de nós, que a gente
[00:01:05] conhece sobre no Não Obstante 6. E agora, então, vocês sabem que ele também é o culpado aí das
[00:01:11] bestas. Mas, enfim, sem dúvida, foi uma orientação ótima, essencial para o trabalho e, assim, para o
[00:01:19] meu pensamento também sobre ética, que é o que eu tenho desenvolvido atualmente. E o Paulo, ele já
[00:01:25] reflete e pensa sobre ética faz muito tempo e com uma abordagem que eu acho muito interessante,
[00:01:30] que tem como foco principal pensar sobre as formas culturalmente existentes, legitimadas,
[00:01:38] para nós darmos sentido ao nosso sofrimento, pensando que a vida pressupõe sofrimento e o
[00:01:44] importante para a gente é tentar dar sentido para ele. E aí é sobre essa forma de pensar que eu
[00:01:50] queria falar hoje, a gente queria falar hoje aqui no Não Obstante.
[00:02:01] Então, Paulo, será que você poderia começar explicando, de maneira geral, como que você
[00:02:09] começou a pensar sobre esse tema, suas influências filosóficas, de repente? E por que que você acha
[00:02:16] que essa abordagem específica é interessante para pensar sobre a nossa moral, nossa cultura?
[00:02:20] De fato, eu tenho, é como se, com uma visada retrospectiva, quando a gente olha para trás e vê o
[00:02:30] trajeto que a gente vai percorrendo, eu acho que eu tenho duas intuições básicas sobre a cultura,
[00:02:40] sobre o modo de pensar, o mundo. A primeira eu, e as duas são interligadas, espero ser capaz de
[00:02:49] entender porque. A primeira seria que uma cultura se define sobretudo pelo modo como ela habita o
[00:02:58] tempo, habita o tempo no sentido de que nós somos seres que vivemos o tempo todo narrando nossas
[00:03:04] vidas e que, portanto, para nós é decisivo construir o passado e o futuro. E, portanto,
[00:03:10] eu durante, já faz alguns anos, eu tento trabalhar como questão fundamental para compreender a
[00:03:18] importância e a oportunidade da cultura contemporânea, ver o modo como se é possível
[00:03:24] construir uma história do passado que não seja redundante e uma história do futuro que não seja
[00:03:29] paradoxo. Isso é, eu acho que o modo interessante de compreender porque que as mudanças entre a
[00:03:37] cultura moderna, a cultura contemporânea, para o oitão modernidade, pós-modernidade, o mundo um pouco
[00:03:42] é, primeiro, uma história do futuro e, segundo, é a mudança no passado. Se eu for traçar de onde
[00:03:51] vem essa intuição, eu creio que essa intuição vem do Foucault. Eu trabalhei muito com o Foucault ao
[00:03:57] longo da minha vida, de fato o Foucault foi uma espécie de caminho para sair do marxismo. Eu acho
[00:04:06] que o Foucault, mais do Beleza, na década de 80, eles eram móveis de você permanecer sendo
[00:04:11] revolucionário, crítico da cultura, sem ao mesmo tempo ser comunista. Para sair do marxismo é ótimo,
[00:04:21] eles te salvaram. É, realmente um caminho de salvação. E é claro que, então, eu acho que o Foucault tem
[00:04:33] uma coisa que me marcou muito, é o Foucault estudando, tentando definir a modernidade como uma
[00:04:40] atitude que seria própria do iluminismo e definir o iluminismo como uma atitude em relação ao presente.
[00:04:44] E daí acho que vem a intuição, que uma cultura se define pelo modo como ela, como cada presente,
[00:04:50] vai definir para si um passado no futuro. Isso aí orienta a parte da pesquisa no sentido de que dois
[00:04:58] conceitos fundamentais do que eu estudo são os conceitos de risco e trauma.
[00:05:01] Raipi, estou só marcando que esse é um ponto interessante, que é um modo de pensar o tempo
[00:05:06] no qual, na verdade, o que existe é o presente e a partir desse presente que a gente vai então imaginar
[00:05:10] um passado e certas possibilidades de futuro. De modo que o passado não existe dado para gente,
[00:05:17] do mesmo modo ele vai sempre se reconstruindo essa ideia.
[00:05:20] Isso, porque, na verdade, é claro que isso é uma, isso perpassa diversos pensadores modernos,
[00:05:27] a gente encontra isso no Nietzsche, no Foucault, no Benjamin, no Freud, a ideia de que, de fato,
[00:05:33] a diferença dos sistemas físicos, onde, evidentemente, o passado causa o presente,
[00:05:40] que por sua vez vai causar o futuro, para a vida humana, especialmente pelo modo como a gente se pensa,
[00:05:45] se narra, é o presente que abre o tempo, é o presente que vai, então não é o passado que causa o presente,
[00:05:52] é o presente que inventa para cima o passado que o causa. E é o futuro, por sua vez, sempre depende
[00:05:58] daquilo que o presente acredita ser capaz de fazer e ser necessário de fazer no presente.
[00:06:03] Então, o futuro não existe também como um dado e ele é inventado.
[00:06:09] É, só para dar um exemplo, de repente, para as pessoas, imagina que você está feliz, resultante,
[00:06:14] conseguiu alguma coisa, então você tenta, de repente, lembrar do passado como um caminho que
[00:06:19] vai até aquele local, algo que permitiu você alcançar aquele momento e o futuro como algo
[00:06:26] cheio de possibilidade, no qual você vai continuar o caminho. Enquanto em oposição, se você está eventualmente
[00:06:32] triste, sei lá, com a vida destruída, você pode tentar imaginar um passado no qual vai aparecer como
[00:06:40] relevante, como narrado, vai ser momentos em que, sei lá, de trauma ou que destruíram sua vida,
[00:06:46] que não chega lá e o futuro como, sei lá, talvez uma cura, alguma coisa assim. Seria essa ideia, mais ou menos.
[00:06:53] A gente tem essa direção de um lado, de você pensar ao nível existencial, mas nesse caso eu também
[00:07:00] ficando a pensar ao nível cultural. Parte da intuição, por exemplo, é que a noção de risco,
[00:07:08] ela vem substituindo as noções de progresso, norma, liberação, em todas essas noções modernas,
[00:07:17] progresso, liberação, norma, você imaginava um presente que estava limitado e um futuro que seria um lugar,
[00:07:25] se não de realização ou menos de abertura. Eu acho que o que nossa cultura passa a fazer, quando ela cria
[00:07:31] um presente de risco, é sobretudo a ideia de que o presente já não se sente limitado e o que tem que fazer,
[00:07:41] ao contrário, é tentar se controlar para que ele não gere uma capacidade. Então, essa mudança de um futuro
[00:07:48] como lugar de realização, como futuro, como aquilo que deve ser evitado, é certamente uma mudança maior
[00:07:54] no modo como a gente vai pensar a ética e nossas vidas.
[00:07:56] E acompanha a sua salvação, digamos, do marxismo, porque essa ideia marxista é justamente que você vai construir
[00:08:02] uma salvação em terra, vai criar o comunismo e aí vai ficar tudo bem, um futuro feliz,
[00:08:08] enquanto em oposição o pensamento mais comum na cena contemporânea é justamente o que pensa o futuro
[00:08:14] como algo que pode ser destruído e você deve evitar controlando os riscos.
[00:08:21] O que significa dizer que a nossa cultura tem uma peculiaridade fascinante que é de colocar que a salvação está no presente.
[00:08:28] Enquanto na cultura moderna tinha a dimensão de salvação clara, a nossa cultura tem uma dimensão de salvação também,
[00:08:34] só que essa salvação está no próprio presente. Você pode argumentar que toda moral pressupõe,
[00:08:42] em última instância, a desvalorização do presente em prol do futuro, a salvação sempre queria depois.
[00:08:49] A nossa cultura é uma que vai dizer não, olha, a música do Gilberto Gil, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
[00:08:56] Só que ao mesmo tempo você idealiza esse lugar, esse presente, porque você pensa que esse presente de direito
[00:09:03] poderia não ter sofrimento, então desse modo não é que você tenha acabado com a ilusão de afastar o trágico,
[00:09:11] não é que você tenha acabado com a ilusão de salvação, você simplesmente mudou o jogo.
[00:09:16] Você imagina agora que de direito você poderia ser feliz no presente sem limitação alguma,
[00:09:23] o que evidentemente é contraditório.
[00:09:25] Sim, então em relação ao modo de pensar, de explicar o sofrimento, a gente pode pensar que na cultura moderna,
[00:09:32] ou antes, na cultura cristã, o sofrimento já está explicado no sentido que você vai sofrer aqui, mas você vai ser salvo,
[00:09:40] Deus vai te salvar, ou então no cenário moderno você vai sofrer agora, mas está contribuindo para uma sociedade
[00:09:48] jua, está uma sociedade feliz no futuro, e aí isso acaba, esses projetos de salvação do futuro acabam,
[00:09:54] e aí você está tentando pensar hoje, então o que a gente faz com isso.
[00:09:57] E a sua ideia é que, na verdade, a gente pensa ainda em salvação, mas a ideia é assim, eu deveria ser salvo agora
[00:10:03] e se eu não estou salvo, é porque justamente alguma coisa…
[00:10:07] Quando é algo malvado…
[00:10:09] Exatamente, e aí tem essa passagem que eu acho muito interessante no seu pensamento que é,
[00:10:14] você propõe que tem uma passagem então de uma cultura que essa explicação do sofrimento está ligada ao mal
[00:10:23] dentro de você, ou ao algo que você fez, então assim você sofre por sua culpa, você pensa ao PQ e sei lá,
[00:10:29] Deus me vai castigar, ou esse mundo é ruim, e passa justamente para um tipo de explicação que é interessante,
[00:10:35] em que você tem sempre que dizer que você sofre porque alguém te causou mal, então você se vê como vítima.
[00:10:41] Essa é a ideia fundamental, eu só quero então, porque você já resumiu ela de um modo que eu não poderia fazer melhor,
[00:10:48] eu acho que então eu queria retomar, retomar a ideia de fazer uma conexão entre essa ideia que você já está fazendo,
[00:10:53] precisamente, entre a intuição de habitar o tempo e a intuição de uma cultura se definir pelo modo como ela dá sentido ao sofrimento,
[00:11:02] porque aí vem a outra grande, vamos dizer assim, influência intelectual que é o Nietzsche,
[00:11:08] que é o Nietzsche que vai dizer que na verdade o problema do sofrimento não é o quão dolo ele seria,
[00:11:15] mas exatamente a sua falva de sentido ou não, nós seríamos capazes de suportar sofrimento desde que ele tivesse um sentido,
[00:11:21] eu acho que o que está acontecendo hoje, e aí também tem uma coisa que seria um pouco,
[00:11:28] manter um estudo sobre a questão do neguismo e do trágico na cultura,
[00:11:35] da nossa cultura, como você mesmo estava falando,
[00:11:40] quando você imaginava a salvação, você tinha que imaginar que você tinha que se crer capaz de construir no tempo um mundo feliz,
[00:11:48] recentemente eu li um livro que falava sobre qual foi a grande novidade trazida pela noção de pecado no mundo,
[00:11:56] quem tem a ideia de viver habita,
[00:11:58] enquanto antes, por exemplo, os históricos imaginavam que você podia modificar o modo como você vivia a dor,
[00:12:05] os cristãos criaram a ideia de salvação, supunham, portanto, que o futuro dependia de você pela mediação,
[00:12:12] a relação entre moral e comportamento do divino,
[00:12:15] Deus dava muita atenção na nossa vida, portanto, se a gente bem agisse, a gente poderia ser feliz.
[00:12:20] Sim, então, as históricos pensavam que você tinha que controlar o próprio pensamento,
[00:12:24] porque o mundo só poderia te impactar através do pensamento,
[00:12:28] e aí você pensando de tal forma você não seria impactado,
[00:12:31] mas isso significa que você não consegue controlar o que acontece,
[00:12:35] você não consegue controlar o modo como você pensa que acontece.
[00:12:38] Essa separação é a principal, o que faz parte de mim e o que não faz,
[00:12:42] o que não faz, você abandona.
[00:12:44] Você tem uma atitude que, vamos dizer assim, em um certo nível você poderia falar,
[00:12:50] pelo menos, uma espécie de, não é negar o trágico da vida,
[00:12:56] é tentar estabelecer uma outra relação com o trágico da vida.
[00:13:00] Os cristãos criaram essa ideia absolutamente vacilante de que o sofrimento depende do indivíduo,
[00:13:07] o que eu acho que está acontecendo hoje nesse sentido?
[00:13:10] Você imaginava que, graças a influência cristã, as pessoas ficavam dizendo,
[00:13:16] para retomar uma frase do Nietzsche,
[00:13:18] que o sofrimento é castigo, eu sofro por minha culpa,
[00:13:22] isso certamente é angustiante, as pessoas se castigam,
[00:13:26] a culpa faz com que ele devida a ser noxia e sofra mais ainda,
[00:13:31] mas tem uma dimensão positiva que é dar sentido e pensar que você consegue
[00:13:35] evitar o sofrimento, aí a gente chega na cultura contemporânea,
[00:13:40] se você não tem mais salvação, se você tem um outro lado disso,
[00:13:44] que é a liberação sexual de modo mais genérico,
[00:13:49] o direito a ter prazer no presente, que passa a ser um valor maior da nossa cultura,
[00:13:57] se você então pode ter prazer, se é bom ter prazer, se você pode ter prazer do jeito que você quiser,
[00:14:03] você não pode mais colocar a existência do sofrimento
[00:14:07] sobre a responsabilidade do comportamento do indivíduo,
[00:14:11] você então vai colocar a responsabilidade, a tendência a fazer
[00:14:15] você se colocar como vítima de um outro, ou então fazer um argumento
[00:14:19] que a gente teria uma sociedade cada vez mais marcada por um ressentimento,
[00:14:24] por uma acusação do outro,
[00:14:26] é por isso que ao mesmo tempo eu também acho interessante
[00:14:31] imaginar por que você tem tanta notícia sobre corrupção hoje,
[00:14:34] não apenas, certamente, pelo fato de que as pessoas são corruptas,
[00:14:38] mas também porque talvez a ideia de que outros imorais
[00:14:43] possam estar causando o nosso sofrimento,
[00:14:47] é quase como se fosse uma requisição estrutural
[00:14:50] das condições contemporâneas para dar sentido ao sofrimento,
[00:14:53] você precisa sopor um outro imoral,
[00:14:55] porque você não tem mais como sopor a sua própria moralidade.
[00:14:59] E aí, de repente, você pode falar um pouco como se conecta
[00:15:03] com também essa figura, que então aparece como essa figura
[00:15:07] da negatividade ética, aquilo que é o causador do mal,
[00:15:10] ou pelo menos que ameaça com o mal,
[00:15:13] e aí você normalmente faz uma divisão também passando
[00:15:15] pela ideia do anormal que você pega do fulgur,
[00:15:18] e aí como isso também, cada momento,
[00:15:22] essa ideia do anormal, do preconceituoso, do mal,
[00:15:25] ele vai se basear, também, em discursos diferentes,
[00:15:28] você pode pensar isso religiosamente,
[00:15:31] pode pensar isso a partir da medicina,
[00:15:33] pode pensar isso politicamente,
[00:15:34] então, de repente, pensar também essa historinha
[00:15:37] que a gente está traçando aqui,
[00:15:38] de como a gente dá sentido ao sofrimento
[00:15:41] a partir dessas figuras.
[00:15:45] É porque, em último instante,
[00:15:47] se você vai se dizer, sem se for se dizer
[00:15:49] o que acontece na nossa cultura,
[00:15:51] a gente só tem recurso a duas explicações,
[00:15:53] ou é o outro moral que a gente vai sofrer,
[00:15:55] ou é a possibilidade de uma solução técnica
[00:15:58] para o sofrimento,
[00:15:59] que a gente vai controlar,
[00:16:00] especialmente no caso das doenças mentais,
[00:16:02] como a gente escreveu naquele artigo,
[00:16:04] nos artigos que a gente escreveu
[00:16:06] sobre medicamento e doença.
[00:16:07] Sim, eu vou deixar depois o link
[00:16:09] para esses artigos, a gente fala deles.
[00:16:12] Mas aí eu acho que a história,
[00:16:16] Daniel que vem por detrás,
[00:16:17] você pode também colocar isso
[00:16:18] sobre o ponto de vista do fulgur,
[00:16:22] ou falando do poder pastoral,
[00:16:23] então falando da ideia de um certo nexo
[00:16:26] entre poder e medo.
[00:16:30] Para ser muito simplificado,
[00:16:31] a gente poderia dizer que houve três grandes modos
[00:16:35] de articular poder e medo.
[00:16:37] O primeiro é você fazer com que
[00:16:39] os indivíduos temam o próprio poder.
[00:16:43] O poder então tem que fazer
[00:16:44] uma série de cenas, de rituais,
[00:16:46] onde ele mostra que ele é o mais poderoso
[00:16:49] e a qualquer momento pode se abater sobre você.
[00:16:52] Então o poder é de ser menos medo,
[00:16:53] mas de ser menos medo do próprio poder.
[00:16:55] É como desejo, se ele vai te dominar,
[00:16:57] sem controlar.
[00:16:59] Então eu estava falando mais do que o fulgur falava,
[00:17:02] do ritual do sobrício, por exemplo,
[00:17:05] onde você punia a pessoa no sentido
[00:17:07] de fazer um grande espetáculo da punição.
[00:17:09] É assim, tá.
[00:17:11] O poder pode de alguma maneira ser menos medo,
[00:17:13] mas de ser menos medo do próprio poder,
[00:17:15] do próprio poder, do próprio poderoso.
[00:17:18] O que eu acho que acontece com a ideia
[00:17:19] de poder pastoral,
[00:17:20] e por isso que vai ter a ver com o cristianismo,
[00:17:25] é você, o poder passa a disseminar o medo,
[00:17:28] não dele, mas de uma outra coisa que o próprio poder,
[00:17:31] ele é o primeiro modo de que ele dissemina esse medo,
[00:17:33] é o medo de algo que está no interior do indivíduo,
[00:17:36] que aí vai ter as figuras do pecador e do normal.
[00:17:39] Então, na verdade, Vinicius está pensando
[00:17:41] em um poder tipo um governo, assim,
[00:17:43] que está justamente ao punir o indivíduo,
[00:17:47] por exemplo, ele faz com que os outros
[00:17:48] tenham medo dele.
[00:17:49] Se eu fizer alguma coisa errada,
[00:17:50] vão me pegar e vão me machucar.
[00:17:51] Pois é, é como se você imaginasse um primeiro pai
[00:17:53] que fosse o pai cuja autoridade dependia
[00:17:58] da ameaça constante do exercício do seu poder gigantesco
[00:18:04] que ele manifestava de vez em quando.
[00:18:06] Aham.
[00:18:07] Aí depois você vai ter um…
[00:18:08] Pai primeiro, vou lá da ordem primitiva do Freud.
[00:18:12] Aí depois você tem uma outra espécie de poder
[00:18:15] cuja sustentação vai ser disseminar o medo,
[00:18:19] mas o medo de algo que ameaça o indivíduo.
[00:18:21] Então, é como se você constituísse o indivíduo
[00:18:23] como temendo algo e o poder se coloca
[00:18:27] como aquele que vai salvar.
[00:18:29] Então, essa é a primeira vez que a ideia de salvação
[00:18:30] aparece como uma forma do poder se exercer.
[00:18:34] Para ver salvação, essa é uma intuição
[00:18:36] que tanto está em início quanto em pouco,
[00:18:38] a primeira coisa que você tem que fazer
[00:18:39] é criar no indivíduo o medo,
[00:18:42] que é criar a necessidade dele ser salvo.
[00:18:45] Claro, o pecador.
[00:18:46] Exatamente.
[00:18:47] Aí ele tem aquele texto famoso do medo,
[00:18:49] daquela historiadora francesa, o Bélumur,
[00:18:53] que ele vai falar o medo no ocidente,
[00:18:54] que ele vai fazer o argumento de que, na verdade,
[00:18:57] os cristãos temiam mais o inferno
[00:18:59] que uma invasão de vikings.
[00:19:02] E que por isso mesmo a gente tem mais o inferno
[00:19:05] que uma invasão de vikings,
[00:19:05] eles temiam a eles próprios,
[00:19:07] porque evidentemente o pecado,
[00:19:09] a possibilidade de um inferno
[00:19:11] dependia de algo que estava no interior deles.
[00:19:13] É isso, isso é um tema muito atual
[00:19:15] porque a gente pensando em atentados terroristas
[00:19:18] e tal, nossa impossibilidade de compreender,
[00:19:21] por exemplo, um jihadista que se mata,
[00:19:23] é justamente o cara eventualmente
[00:19:25] ele fala, tudo bem, vou me matar aqui,
[00:19:26] vou mais no céu, vai estar tudo tranquilo.
[00:19:29] Enquanto já foi um modo…
[00:19:31] A gente perdeu a certeza do céu
[00:19:34] que para essas pessoas pelo jeito existe.
[00:19:36] O jeito está lá firme.
[00:19:41] E é uma moralidade também,
[00:19:43] também tem uma fé na moralidade,
[00:19:44] elas são maus, se eu matar esse cara mal,
[00:19:46] Deus vai me dar uma virgem.
[00:19:48] Pelo menos o céu lá é mais legal,
[00:19:51] porque nosso famijinho tocando harpa,
[00:19:54] tem várias virgens, agora você é mais interessante.
[00:19:57] Na verdade, tem gente que faz um argumento
[00:20:02] de que esse céu é de uma sociedade extremamente machista.
[00:20:06] Como? Claro, totalmente.
[00:20:09] É a imaginação de um paraíso feito por…
[00:20:14] É um paraíso machista, né?
[00:20:16] Por um bando de adolescentes,
[00:20:18] que imagina qual vai ser a boa vida,
[00:20:20] você tendo dezenas de mulheres, etc.
[00:20:24] É diferente, toda a vida é do paraíso cristão.
[00:20:29] É o Novik, né? Você vai ter a guerra eterna,
[00:20:32] Valhalla…
[00:20:34] É, pois é, também tem outras versões interessantes.
[00:20:39] Mas o que eu acho que acontece na Coréia,
[00:20:44] aí o anormal, pegando o Foucault agora,
[00:20:48] sei que seria uma espécie de secularização do pecador,
[00:20:52] o anormal é também o poder disseminar o medo
[00:20:55] de algo que estava no interior do próprio indivíduo.
[00:20:57] O indivíduo pensava que algo nele,
[00:21:00] na verdade, algo nele, não, o seu desejo,
[00:21:02] que poderia levá-lo à perfeição sexual,
[00:21:05] poderia levá-lo à loucura, poderia levá-lo à criminalidade,
[00:21:09] a não ser mal, a não ser um bom cidadão,
[00:21:13] a ser louco,
[00:21:15] esse desejo era o que o indivíduo devia salvar-se.
[00:21:19] E aí quem ajudava isso era o próprio pastor,
[00:21:23] no caso agora, o pastor laico.
[00:21:25] É, que é interessante essa passagem,
[00:21:27] então, do registro religioso,
[00:21:31] por o laico, principalmente médico,
[00:21:33] mas como essa ideia do desejo sendo mal em você continua valendo.
[00:21:37] Valendo, exatamente.
[00:21:39] Pois é.
[00:21:41] E aí, o que eu acho que talvez aconteça,
[00:21:43] o ódio nessa sociedade nossa que tem,
[00:21:45] para pela primeira vez,
[00:21:47] a legitimar a grande parte dos desejos possíveis,
[00:21:51] só alguns ligados à agressão,
[00:21:53] que se tem de atualizar,
[00:21:57] essa sociedade nossa vai ser uma que não vai colocar mais,
[00:22:01] vai continuar disseminando medo.
[00:22:03] Mas o medo de outra coisa que o próprio poder,
[00:22:05] que só que não é o medo do diálogo interior do indivíduo,
[00:22:07] vai ser o medo do outro.
[00:22:09] Eu acho que o que a nossa cultura vai fazer
[00:22:11] vai ser concentrar o medo em outros malvados
[00:22:15] que podem nos fazer sofrer,
[00:22:17] ou que podem nos deixar sofrer por sua moralidade.
[00:22:21] E um pouco a cedo,
[00:22:23] que eu acho que também surpreende a gente,
[00:22:25] quando a gente vai pensar em cultura contemporânea,
[00:22:27] é o quão as pessoas hoje voltaram a acreditar
[00:22:29] em uma coisa que,
[00:22:31] se você fosse, não importava,
[00:22:33] Nietzschean, ou Marxista, ou Freudiano,
[00:22:35] você não acreditava.
[00:22:37] Você não pensava que a imoralidade era a causa do sofrimento.
[00:22:41] Ao contrário, você pensava que era a crença na moralidade,
[00:22:43] era a estrutura social,
[00:22:45] isso é que causava o sofrimento.
[00:22:47] A gente voltou a acreditar que
[00:22:49] é a imoralidade alheia, nesse caso agora,
[00:22:53] não mais a sua,
[00:22:55] que faz o que gera sofrimento.
[00:22:57] Então a gente pode pensar em três etapas, na verdade.
[00:23:01] De um lado, você primeiro pensa que é a sua imoralidade
[00:23:03] que causa o sofrimento.
[00:23:05] Em seguida, você acha que, na verdade,
[00:23:07] era justamente aquilo que te levava a pensar
[00:23:11] nas próprias ações como imoral,
[00:23:13] ou seja, a sociedade como um todo,
[00:23:15] a repressão, é que era o mal,
[00:23:17] se se livrasse de lá tudo tranquilo.
[00:23:19] Embora esse era um discurso relativamente outro
[00:23:23] no interior da modernidade.
[00:23:25] O discurso moderno ainda podia ser
[00:23:27] o discurso do desejo em você
[00:23:29] que pode ser complicado,
[00:23:31] mas vai emergir na modernidade
[00:23:33] essa espécie de conta discurso dizendo
[00:23:35] não, não é o desejo que é complicado.
[00:23:37] O que é complicado é a moral
[00:23:39] que te faz achar o seu desejo complicado.
[00:23:41] Essa segunda etapa,
[00:23:43] ela também continua viva hoje,
[00:23:45] tem prequesté da opressão, repressão,
[00:23:47] na verdade, foi a regra social
[00:23:49] que Ibe fez a sofrer.
[00:23:53] A gente está escrevendo um artigo
[00:23:55] sobre o Frozen, inclusive,
[00:23:57] e lá no Frozen tem bem essa ideia,
[00:23:59] ela vai fugir da repressão,
[00:24:01] dos poderes de gelo, libera os poderes,
[00:24:03] mas depois o que acontece,
[00:24:05] os poderes começam a ser problemáticos
[00:24:07] porque ela está causando mal ao outro.
[00:24:09] Então, assim, essa seria,
[00:24:11] só porque agora estou ligando
[00:24:13] duas coisas separadas,
[00:24:15] então, um, esse discursinho,
[00:24:17] esse avanço, que primeiro é o mal,
[00:24:19] é o seu desejo, depois a repressão do desejo
[00:24:21] e, enfim, a figura externa,
[00:24:23] o imoral sendo outro monstro
[00:24:25] que vai te atacar,
[00:24:27] o preconceituoso que vai te impedir de ser feliz,
[00:24:29] mas em dois casos é uma pessoa
[00:24:31] ou o imoral preconceituoso.
[00:24:33] E nesse outro caso agora
[00:24:35] é que o que sobra de moralidade,
[00:24:37] porque a nossa cultura hoje
[00:24:39] não é a moral,
[00:24:41] ela é a moral, ainda mais de uma outra forma.
[00:24:43] Então, o que sobra de moral,
[00:24:45] hoje, é, de um lado,
[00:24:47] a compaixão, de outro,
[00:24:49] e talvez esse imperativo
[00:24:51] de não poder causar sofrimento,
[00:24:53] uma sensibilidade extrema ao sofrimento,
[00:24:55] a qualquer tipo de sofrimento.
[00:24:59] Isso talvez fosse a regulação interna
[00:25:01] desse mundo onde você disse,
[00:25:03] exatamente como o caso da Elsa,
[00:25:05] que estava falando.
[00:25:07] A Elsa, ela chega lá,
[00:25:09] e a primeira etapa dela, ela chega e mostra,
[00:25:11] não importa o que os outros vão pensar,
[00:25:13] como ela diz, para mim não tem certo e errado,
[00:25:15] vamos para o mundo,
[00:25:17] vou deixar na cultura, vou deixar,
[00:25:19] vou liberar meus poderes.
[00:25:21] E aí, depois, qual é a restrição possível
[00:25:23] desses poderes?
[00:25:25] É exatamente
[00:25:27] essa dimensão de
[00:25:29] culpa,
[00:25:31] agora não vinculada ao próprio desejo,
[00:25:33] mas vinculada ao sofrimento que você pode
[00:25:35] causar no outro.
[00:25:37] E o que também vai explicar porque que a nossa sociedade dá
[00:25:39] tanto valor à compaixão.
[00:25:41] Porque ela
[00:25:43] parece ser um regulador interno
[00:25:45] a abertura
[00:25:47] das formas de desejar
[00:25:49] e ter prazer que aconteceram
[00:25:51] em nossa cultura.
[00:25:53] Aí outra coisa que eu acho que
[00:25:55] se a gente quisesse mostrar
[00:25:57] essa dimensão de continuidade,
[00:25:59] que eu acho que é uma boa forma de
[00:26:01] colocar como você colocou.
[00:26:03] Não é que nossa cultura seja amoral,
[00:26:05] ela é moral. Então onde está a moralidade
[00:26:07] dela? Eu acho que a primeira moralidade
[00:26:09] dela está nesse lugar, muito claro,
[00:26:11] de continuar
[00:26:13] tendo a ideia de salvação.
[00:26:15] De continuar recusando que o sofrimento
[00:26:17] faz parte da vida.
[00:26:19] Porque quando você diz que você podia ser feliz no presente
[00:26:21] que você não está sendo, está sofrendo,
[00:26:23] você vai dizer, mas é porque o outro
[00:26:25] agiu de modo imoral.
[00:26:27] Sim, tem um livro
[00:26:29] do MacMahon, que é a história da felicidade,
[00:26:31] que ele põe isso assim de um jeito
[00:26:33] interessante, que é dizendo o seguinte, a noção
[00:26:35] atual de felicidade, ela provém
[00:26:37] da noção de salvação cristã.
[00:26:39] Que a gente acha que tende a ser o oposto,
[00:26:42] mas tem um, e é em alguns sentidos,
[00:26:44] mas tem claramente essa dimensão
[00:26:46] ainda, como você colocou agora,
[00:26:48] de salvação, de redenção.
[00:26:50] Se a gente voltasse
[00:26:52] a um tema mais,
[00:26:54] uma frase que me impressionava quando eu era
[00:26:56] antes de eu sair do comunismo,
[00:27:00] antes de você ser salvo,
[00:27:02] era
[00:27:04] uma frase do Lenin que dizia assim,
[00:27:06] olha, os homens durante
[00:27:08] muito tempo ficaram
[00:27:10] pensando no paraíso,
[00:27:12] cabe realizá-lo
[00:27:14] na terra. Isso chamou
[00:27:16] certamente, o caminho,
[00:27:18] que a
[00:27:20] ideia de
[00:27:22] revolução era uma laicitação,
[00:27:24] uma circularização da ideia
[00:27:26] de paraíso cristã. O que eu acho
[00:27:28] que aconteceu foi que aquilo que estava
[00:27:30] no futuro, na construção social,
[00:27:32] agora está no presente,
[00:27:34] no direito à felicidade do indivíduo.
[00:27:36] E ela continua sendo cristã nesse sentido
[00:27:38] de recuso
[00:27:40] muito trágico,
[00:27:42] de suposição de que o sofrimento
[00:27:44] poderia
[00:27:46] não existir. Só existe porque
[00:27:48] tem imoralidade. Não é do próprio
[00:27:50] indivíduo. O indivíduo vai ser sempre inocente
[00:27:52] como qualquer vítima,
[00:27:54] mas a imoralidade é ali.
[00:27:56] Então, esse é o primeiro elemento
[00:27:58] de moral.
[00:28:00] O segundo
[00:28:02] elemento está
[00:28:04] nessa
[00:28:06] necessidade de
[00:28:10] restringir
[00:28:12] ou está na compaixão, está na existência
[00:28:14] da compaixão como o valor
[00:28:16] da nossa cultura. Está nessa ideia
[00:28:18] de que você pode ter prazer como você
[00:28:20] bem quiser, na medida
[00:28:22] mesmo que você leve em conta o
[00:28:24] sofrimento do outro.
[00:28:26] Isso é vasto, pode ser.
[00:28:28] Na medida em que você sabe cuidar da vida,
[00:28:30] que você é uma população mais genélica,
[00:28:32] no que sentido nossa cultura é imoral?
[00:28:34] Eu tinha falado, ah, tem essa ideia
[00:28:36] de salvação ainda presente na recusa
[00:28:38] do trágico, na recusa do sofrimento do presente,
[00:28:40] na acusação constante
[00:28:42] do outro como explicação de
[00:28:44] por que você sofre.
[00:28:46] Está presente na criação
[00:28:48] do malvado,
[00:28:50] no sentido
[00:28:52] que você tem cada vez hoje menos
[00:28:54] capacidade de compreender
[00:28:56] por que os outros são capazes
[00:28:58] de fazer as coisas que eles fazem.
[00:29:00] Se você acha que o outro,
[00:29:02] quando ele causou mal,
[00:29:04] você vai ter a tendência de não querer
[00:29:06] compreendê-lo de modo inimigo,
[00:29:08] de não querer pensá-lo.
[00:29:10] Ou no máximo querer pensá-lo como vítima de algum outro
[00:29:12] que causou mal eternamente,
[00:29:14] num dupe infinito.
[00:29:16] Pois é, razoável.
[00:29:20] A tendência que a gente estava discutindo aqui,
[00:29:22] é claro que é possível
[00:29:24] compreender como essas pessoas,
[00:29:26] como um atentado terrorista é possível.
[00:29:28] Você pode ter uma ética do sacrifício,
[00:29:30] uma ética de prensa,
[00:29:32] mas as pessoas preferem não fazer isso,
[00:29:34] preferem pensar que os terroristas são…
[00:29:36] Ou são malvados,
[00:29:38] ou foram…
[00:29:40] Levaram surra na infância,
[00:29:42] ficaram…
[00:29:44] problemáticos,
[00:29:46] então tem alguma disfunção qualquer.
[00:29:48] São sociopatas.
[00:29:52] A partir de uma experiência
[00:29:54] de sociopatia na infância.
[00:29:56] Então isso é realmente
[00:29:58] uma outra coisa
[00:30:00] muito complicada da nossa cultura.
[00:30:02] E eu acho que o terceiro elemento
[00:30:04] de moralidade forte é essa dimensão
[00:30:06] da compaixão,
[00:30:08] que é pesada.
[00:30:10] Sim, que é claramente
[00:30:12] uma continuação da compaixão cristana,
[00:30:14] mas que sai da questão
[00:30:16] de uma moral mais baseada em regras
[00:30:18] e esse sentimentalismo
[00:30:20] é que aflora.
[00:30:22] Mas é um sentimentalismo
[00:30:24] do compassivo,
[00:30:26] do bem comum.
[00:30:28] É exatamente como você disse.
[00:30:30] Você tinha uma cultura antes que talvez
[00:30:32] a relação com outro era regida por regras.
[00:30:34] Agora a relação com outro
[00:30:36] não é mais regida por regras.
[00:30:38] Você pode tudo em relação a seu prazer.
[00:30:40] A relação com outro só pode ser regida
[00:30:42] pelo sofrimento que você vai lhe causar.
[00:30:44] Então o limite interno é o limite
[00:30:46] da sua sensibilidade ao sofrimento alheio.
[00:30:48] No que você estava falando agora a pouco,
[00:30:50] uma figura no caso
[00:30:52] de que o sofrimento tem que ser causado
[00:30:54] por alguém.
[00:30:56] Então você pensa que o outro
[00:30:58] sofreu no loop infinito.
[00:31:00] Uma categoria interessante para pensar isso
[00:31:02] é de bullying, que você estudou bastante.
[00:31:06] Isso explica um pouco porque
[00:31:08] é a noção de bullying.
[00:31:10] É engraçado que do nada
[00:31:12] começa a ter uma epidemia de bullying.
[00:31:14] Tudo é bullying.
[00:31:16] Várias celebridades
[00:31:18] vêm à frente e falam que sofrem bullying.
[00:31:20] Você já disse isso naquele artigo
[00:31:22] do preconceituoso.
[00:31:24] Como é que é o nome dele?
[00:31:26] Na distância do preconceituoso.
[00:31:28] A versão mais legal dele
[00:31:30] não está na galáxia.
[00:31:32] É uma versão mais completa, mais bem cuidada.
[00:31:34] Eu vou colocar o link também na postagem.
[00:31:36] Esse artigo é muito interessante.
[00:31:38] É só o bullying.
[00:31:40] É só rapidinho.
[00:31:42] Porque a curiosidade…
[00:31:44] Porque veja só,
[00:31:46] a gente está dizendo assim,
[00:31:48] que a gente sofre.
[00:31:50] Porque a gente age mal de vez em quando.
[00:31:54] A gente tem que dizer que foi vítima antes.
[00:31:56] Então a questão é,
[00:31:58] quais são os eventos que podem
[00:32:00] nos fazer vítimas?
[00:32:02] Você tinha primeiro
[00:32:04] a tendência de querer
[00:32:06] colocar…
[00:32:12] Você não pode escolher como exemplo maior
[00:32:14] a pedofilia,
[00:32:17] para restringir muito fortemente o número de pessoas
[00:32:19] que terão sido vítimas dela.
[00:32:23] É muito mais difícil de ter.
[00:32:25] Você não pode escolher também…
[00:32:29] Embora a gente tenha visto
[00:32:31] alguns dias atrás aquele documentário
[00:32:33] muito doido, que tem uma epidemia
[00:32:35] de pedofilia,
[00:32:37] e que os Estados Unidos…
[00:32:39] A cidade inteira ficou…
[00:32:41] A cidade inteira ficou maluca achando que todas
[00:32:43] as crianças tinham sido abusadas.
[00:32:45] Não, por exemplo,
[00:32:47] estruturalmente é mais
[00:32:49] complicado.
[00:32:51] Por exemplo, que a categoria de bullying eu acho que é central,
[00:32:53] porque ela vai ter uma dimensão
[00:32:57] interessante de poder atingir a todos.
[00:32:59] O bullying surge
[00:33:01] literalmente na década… literalmente mesmo.
[00:33:03] Porque é uma categoria criada por
[00:33:05] um pesquisador sueco,
[00:33:07] eu acho, na década de 70.
[00:33:09] E bullying é, na verdade,
[00:33:11] alguma coisa como Skolmobil,
[00:33:13] é a ideia de que uma…
[00:33:15] Eu obviamente não sei pronunciar
[00:33:17] a frase, o termo,
[00:33:19] mas a ideia é que,
[00:33:21] na verdade, você tinha um bando de crianças,
[00:33:23] um grupo de crianças de uma turma, por exemplo,
[00:33:25] que se reunia e ia fazer um
[00:33:27] indivíduo sofrer. É como se fosse a massa
[00:33:29] fazer um indivíduo sofrer.
[00:33:31] Aí você tentava diferenciar isso
[00:33:33] da agressão de dois modos,
[00:33:35] mas você pensava sempre a agressão física, era porque
[00:33:37] na verdade havia uma dissimetria de poder e um
[00:33:39] dei uma…
[00:33:41] Na questão de ser uma dissimetria de poder,
[00:33:43] a agressão é repetida.
[00:33:45] Agora você pode ver que isso, por mais que
[00:33:47] seja… possa incluir muita gente,
[00:33:49] porque muita gente pode ter sido vítima de violência
[00:33:51] na escola, ainda não é suficiente.
[00:33:55] A grande transição que o conceito de bullying
[00:33:57] sofreu, passou, foi na década de 80,
[00:33:59] que aí você passou a considerar bullying
[00:34:01] não apenas agressão física,
[00:34:03] mas também agressão moral.
[00:34:05] E aí, então,
[00:34:07] como agressão moral depois pode ser qualquer coisa,
[00:34:09] todo mundo vai poder dizer que
[00:34:11] quando você pensar, exatamente.
[00:34:13] E aí,
[00:34:15] todo mundo até vai ser bom
[00:34:17] ter sido vítima de bullying,
[00:34:19] vai ser bom ter sido vítima,
[00:34:21] que é essa coisa também muito curiosa,
[00:34:23] que a gente vai abrir os jornais
[00:34:25] e ver agora todo quanto a celebridade
[00:34:27] de ter sido vítima de bullying.
[00:34:29] E aí você se pergunta,
[00:34:31] mas por que uma celebridade tem que ser vítima de bullying?
[00:34:33] Não era melhor que ela fosse um ser capaz
[00:34:35] de superar obstáculos?
[00:34:37] Alguém que lutou e foi capaz
[00:34:39] de enfrentar resistência, de superar?
[00:34:41] Agora não, você tem a tendência
[00:34:43] a falar que não, o indivíduo sofreu,
[00:34:45] foi vítima, etc.
[00:34:47] Essa é uma coisa que é curiosa
[00:34:49] de imaginar, tanto para
[00:34:51] estender a ideia de que todo mundo
[00:34:53] pode ter sido traumatizado na infância,
[00:34:55] quanto
[00:34:57] também se imaginar essa situação social
[00:34:59] nova onde o é bom herói
[00:35:01] não é mais o
[00:35:03] ser que realiza coisas no mundo,
[00:35:05] o mundo é aquele que sofreu.
[00:35:07] Então é uma categoria importante.
[00:35:09] O que aconteceu com o herói
[00:35:11] na nossa cultura?
[00:35:13] Quem é o herói?
[00:35:15] Cada vez mais o herói é o sobrevivente.
[00:35:17] O herói é como uma figura valorizada,
[00:35:19] figurante.
[00:35:21] Só para voltar
[00:35:23] a pensar assim
[00:35:25] o modo que você está pensando,
[00:35:27] essas categorias, a ideia aqui,
[00:35:29] porque às vezes isso leva para uma discussão
[00:35:31] realmente inútil do nosso ponto de vista,
[00:35:33] você quer assim, ah, mas então
[00:35:35] não existe bullying, com a depressão
[00:35:37] a gente fala sobre depressão,
[00:35:39] você está dizendo que não existe,
[00:35:41] depressão existe, mas só para evitar
[00:35:43] esse tipo de mal-entendido, a ideia aqui
[00:35:45] é que esses conceitos ou essas
[00:35:47] categorias, elas
[00:35:49] servem para a gente pensar a nossa vida
[00:35:51] de uma certa maneira.
[00:35:53] Então não é tanto a discussão se bullying existe
[00:35:55] ou não existe, porque isso depende do que
[00:35:57] que você categoriza como bullying.
[00:35:59] E aí o ponto é sempre que você vai
[00:36:01] pensar retrospectivamente na sua vida
[00:36:03] a partir dessa categoria de bullying,
[00:36:05] tentando ver, ah, se eu sofro atualmente
[00:36:07] será que não é porque eu tenho medo de alguma coisa,
[00:36:09] será que não é porque alguém me maltratou
[00:36:11] e aí cavando isso, você encontra,
[00:36:13] procurando você acha.
[00:36:15] Pois é, e a ideia
[00:36:17] na verdade, ou seja,
[00:36:19] você falou uma coisa que é super importante,
[00:36:21] não está em jogo a realidade do sofrimento,
[00:36:23] está em jogo a ideia de que esses conceitos
[00:36:25] eles são bons para o indivíduo se pensar.
[00:36:27] Sim, é porque exatamente a separação
[00:36:29] do sofrimento, que obviamente é real,
[00:36:31] não está em jogo isso, mas justamente como que
[00:36:33] ele explica esse sofrimento dele.
[00:36:35] E na verdade o sofrimento que é real,
[00:36:37] tipicamente não é o sofrimento experimentado
[00:36:39] na hora do bullying.
[00:36:41] Sim, sim, é sem dúvida isso, é depois.
[00:36:43] É o sofrimento tudo depois, quando a pessoa está
[00:36:45] se pensando e vai tentar encontrar uma causa
[00:36:47] do seu sofrimento.
[00:36:49] O lugar também que a gente está preocupado em pensar
[00:36:51] não é o momento do bullying,
[00:36:53] é o momento em que o indivíduo está
[00:36:55] sofrendo, não sabe porquê,
[00:36:57] ele vai ter que encontrar uma razão para o seu sofrimento.
[00:36:59] E aí outra coisa que também tem que ser
[00:37:01] interessante de ver, é que na verdade quando você vai discutir
[00:37:03] o conceito de bullying, você mostra que houve
[00:37:05] esse alacramento conceitual
[00:37:07] absolutamente fascinante, porque anteriormente
[00:37:09] eu sei que isso queria desenhar um caso
[00:37:11] bem específico, era o garoto ou a garota
[00:37:13] que ficava apanhando
[00:37:15] de outro do oriental.
[00:37:17] Hoje
[00:37:19] não é mais isso, o bullying
[00:37:21] não é mais essa, porque tem uma coisa
[00:37:23] que também é importante se discutir sempre,
[00:37:25] é que
[00:37:27] pode haver uma perda quando você alarga
[00:37:29] um conceito como esse,
[00:37:31] que permite a fitimização.
[00:37:33] A perda é que
[00:37:35] certos sofrimentos, efetivamente
[00:37:37] bastante concretos
[00:37:39] e violentos,
[00:37:41] são tornados equivalentes
[00:37:43] a um sofrimento
[00:37:45] cuja gravidade
[00:37:47] fica
[00:37:49] em questão, pelo menos.
[00:37:51] Você não dá pra dizer
[00:37:53] o que é grave ou não
[00:37:55] em si,
[00:37:57] é sempre grave pra alguém.
[00:37:59] É assim, não.
[00:38:01] Ela tem esse problema, você pode estar
[00:38:03] analisando a própria experiência do sofrimento.
[00:38:07] O exemplo que tinha assim,
[00:38:09] uma coisa, você
[00:38:11] sofre bullying por adolescente,
[00:38:13] por sua opção sexual.
[00:38:17] Outra coisa talvez mais complicada é o que a
[00:38:20] Kristen Thurston,
[00:38:22] eu acho o nome dela.
[00:38:24] Sei qual é o sobrenome certo.
[00:38:26] Ela disse que sofreu bullying
[00:38:28] porque ela
[00:38:30] tinha pelo debaixo do braço.
[00:38:36] Não é a mesma coisa, né?
[00:38:38] Não dá.
[00:38:44] Você sofre bullying
[00:38:46] porque tem um bando de gente irritado
[00:38:48] com a sua escolha sexual,
[00:38:50] bando de gente assustado
[00:38:52] com a sua escolha sexual.
[00:38:54] Essas pessoas podem
[00:38:56] associar as coisas extremamente agressivas
[00:38:58] e isso faz uma diferença gigantesca.
[00:39:04] Outra categoria que tem que ser ampliada
[00:39:06] bastante, pensando já que você
[00:39:08] começou com essa questão, que é justamente
[00:39:10] pensar então a moral, a partir de algumas
[00:39:12] categorias que indicam sofrimento e que elas
[00:39:14] passam de algo restrito pra se tornar
[00:39:16] uma coisa usual. A gente pode então se referir
[00:39:18] a essas coisas pra no dia a dia
[00:39:20] lidar com nossos sofrimentos.
[00:39:22] Outra categoria dessa é a depressão
[00:39:24] e de modo geral as doenças mentais
[00:39:26] que viraram a coisa mais cotidiana
[00:39:28] do universo, a ponto de
[00:39:30] supostamente mais
[00:39:32] metade da população, de acordo com
[00:39:34] estatísticas recentes.
[00:39:36] Em algum momento da vida
[00:39:38] se supõe que mais 50%
[00:39:40] das pessoas vai ter alguma
[00:39:42] doença mental.
[00:39:44] Porque é bizarro, né?
[00:39:46] Pois é, mas quando você pensa
[00:39:48] na ideia de anormal, de louco
[00:39:50] e a função disso na mobilidade, era sempre
[00:39:52] de uma minoria que tava lá
[00:39:54] com uma espécie de função
[00:39:56] de assustar todos. Ela não precisava
[00:39:58] ser majoritária, ao contrário, ela tinha que
[00:40:00] ser minoritária pra indicar os
[00:40:02] punidos, pra indicar
[00:40:04] o que irá acontecer
[00:40:06] aos indivíduos se eles vão pelo mau caminho.
[00:40:10] E hoje não.
[00:40:12] Ou seja, a ideia
[00:40:14] de loucura antes, ela era
[00:40:18] duplamente estigmatizante.
[00:40:20] Tanto porque quando alguém tava louco
[00:40:22] você supunha que na origem da sua loucura
[00:40:24] estavam desvios
[00:40:26] sexuais
[00:40:28] e práticas criminosas
[00:40:30] na origem dessa loucura,
[00:40:32] quanto
[00:40:34] o tratamento
[00:40:36] era você ser encarcerado, né?
[00:40:38] Sim, quase. Você ia ao tratamento
[00:40:40] normalmente…
[00:40:42] Pra um hospício.
[00:40:44] É, num hospício e que normalmente você não saía
[00:40:46] você ficava ali pro resto da vida.
[00:40:48] Então era uma coisa que era profundamente
[00:40:50] estigmatizante.
[00:40:52] Era profundo gay
[00:40:54] que, portanto, gerava uma grande
[00:40:56] onda de angústia. O que acontece hoje
[00:40:58] então, portanto, pra quem tava com essa
[00:41:00] experiência da loucura
[00:41:02] e do seu tratamento na modernidade,
[00:41:04] até o final do século 60,
[00:41:06] é muito surpreendente se olhar
[00:41:08] uma estatística como essa, uma estatística
[00:41:10] que diz que 50…
[00:41:12] ou a formulação
[00:41:14] mais… ou outra formulação usual
[00:41:16] que um quarto da população
[00:41:18] do mundo, essa é uma
[00:41:20] estatística da OMS,
[00:41:22] tem um problema de transtorno
[00:41:24] mental a cada ano,
[00:41:26] um quarto da população.
[00:41:28] É inacreditável.
[00:41:30] Aí você tem que imaginar porque que isso pode
[00:41:32] estar acontecendo. A gente aí tem
[00:41:34] só
[00:41:36] duas explicações
[00:41:38] possíveis.
[00:41:40] Não tem mais explicações possíveis,
[00:41:42] mas é uma explicação que a gente acha mais interessante.
[00:41:46] É, primeiro, que a ciência tem que
[00:41:48] imaginar que as pessoas estão
[00:41:50] cada vez mais sendo sensíveis
[00:41:52] ao seu sofrimento,
[00:41:54] cada vez mais
[00:41:56] atentas
[00:41:58] à possibilidade
[00:42:00] do mal-estar ser uma
[00:42:02] doença.
[00:42:04] E
[00:42:06] uma outra crença
[00:42:08] associada a essa
[00:42:10] de que o bom modo de lidar
[00:42:12] com a doença é um modo técnico,
[00:42:14] é um modo tecnológico. A gente não pode se esquecer
[00:42:16] que o medicamento é
[00:42:18] um objeto técnico.
[00:42:20] Porque
[00:42:22] eu acho que parte da explicação é assim,
[00:42:24] uma sociedade onde todo mundo vive
[00:42:26] o tempo todo usando computador,
[00:42:28] smartphone, televisão, etc.,
[00:42:30] ou que, portanto,
[00:42:32] tem a vida perpassada por
[00:42:34] tecnologias,
[00:42:36] nós seremos capazes, então,
[00:42:38] de achar bom, não uma resposta simbólica,
[00:42:40] não um tratamento simbólico
[00:42:42] para o seu mal-estar,
[00:42:44] mas sim uma solução técnica.
[00:42:46] Sim, até em nível teórico,
[00:42:48] não tem um monte de gente que resolve dizer assim
[00:42:50] que agora vai descobrir, vai poder analisar
[00:42:52] a mente, porque isso se parece com um computador
[00:42:54] de estilo Daniel
[00:42:56] Dennett, Steven Pinker, assim.
[00:42:58] Não, teoria.
[00:43:00] Two thumbs up.
[00:43:02] Ah, falei.
[00:43:04] De um lado, essas pessoas são interessantes
[00:43:06] no sentido de apostar
[00:43:08] num humanismo, de outro, elas acabam
[00:43:10] o risco que esses pensadores têm
[00:43:12] é de reduzir tanto a questão do humano
[00:43:14] que você perde de vista
[00:43:16] o questionamento.
[00:43:18] Que aquilo deles inicialmente tornava
[00:43:20] eles interessantes.
[00:43:22] Entendeu? Interessante você
[00:43:24] tentar
[00:43:26] se o humanismo é uma forma
[00:43:28] de pensar que simplifica
[00:43:30] a questão da existência,
[00:43:32] então pelo menos o questionar o humanismo
[00:43:34] pode ser interessante, mas as pessoas
[00:43:36] simplificam muito.
[00:43:38] É a contraparte teórica dessa mudança,
[00:43:40] porque de uma vez você simplifica dizendo
[00:43:42] tem a alma, tem que se preocupar com a alma,
[00:43:44] salvá-la, e agora é o contrário,
[00:43:46] tem que se preocupar com o funcionamento
[00:43:48] do corpo enquanto máquina, e se ele está
[00:43:50] disfuncional, por isso que você sofre,
[00:43:52] então procure uma ajuda técnica,
[00:43:55] uma terapia técnica, ou principalmente,
[00:43:57] que é o melhor de tudo, medicamento.
[00:44:01] Eu acho que
[00:44:03] se eu me lembro
[00:44:05] do artigo da gente,
[00:44:07] eu acho que a gente
[00:44:09] aceitava aquela frase
[00:44:11] muito discutida hoje,
[00:44:13] que é a
[00:44:15] cada vez mais as pessoas
[00:44:17] são capazes de ironizar
[00:44:19] hoje
[00:44:21] você inventa a doença
[00:44:25] para atender o medicamento,
[00:44:27] ou que é preciso primeiro,
[00:44:29] quando você quer vender o medicamento é preciso primeiro
[00:44:31] vender a doença,
[00:44:33] ou então outra frase que é um pouquinho mais
[00:44:35] sofisticada, quer dizer, com alguma
[00:44:37] ironia, que uma sociedade
[00:44:39] que tem
[00:44:41] muito perito,
[00:44:43] muito especialista
[00:44:45] em saúde dos indivíduos,
[00:44:47] vai ser uma sociedade que vai ter muita doença.
[00:44:49] Porque vai ter muita gente
[00:44:51] dependendo de haver doença para tratar.
[00:44:57] Certamente
[00:44:59] essas frases são
[00:45:01] boas, são boas de pensar,
[00:45:03] mas elas deixam de lado uma questão
[00:45:05] que eu acho que era essencial quando eu comecei
[00:45:07] a pensar esse fenômeno, que é
[00:45:09] tá bom, é preciso vender
[00:45:11] a doença, mas
[00:45:13] por que as pessoas vão querer se conceber como doente?
[00:45:15] Que doença é
[00:45:17] limitação existencial,
[00:45:19] proximidade da morte, no caso da loucura
[00:45:21] antes era
[00:45:23] proximidade de uma forma de
[00:45:25] tratamento absolutamente
[00:45:27] horrorosa,
[00:45:29] porque inútil
[00:45:31] que é apenas encarcerada.
[00:45:33] Então, assim, como é que você vai querer fazer
[00:45:35] para conhecer um indivíduo que é bom se conceber
[00:45:37] como doente, se doença é
[00:45:39] limitação e proximidade da morte?
[00:45:41] Aí eu acho
[00:45:43] que a resposta
[00:45:45] que a gente tem que tentar trabalhar
[00:45:47] é cada vez mais essa,
[00:45:49] de imaginar, de novo,
[00:45:51] uma questão fundamental doente
[00:45:53] que existe hoje
[00:45:55] o predomínio de uma resposta
[00:45:57] técnica ao sofrimento,
[00:45:59] que é
[00:46:01] principalmente
[00:46:03] em termos de doença.
[00:46:05] Sim, e lembrando sempre
[00:46:07] só de novo, porque às vezes
[00:46:09] acho que tantas pessoas tendem
[00:46:11] ir para esse caminho interpretativo,
[00:46:13] quando é que você está questionando
[00:46:15] a doença, que é uma separação entre
[00:46:17] uma forma de algo existir,
[00:46:19] de você sofrer, de você se sentir mal,
[00:46:21] então tem uma separação
[00:46:23] desse sentimento imediato
[00:46:25] e a forma como você dá sentido a isso,
[00:46:27] e portanto se chama de doente,
[00:46:29] se pensa como podendo
[00:46:31] receber esses tratamentos, etc.
[00:46:33] E aí é descolando esses dois polos
[00:46:35] e portanto não questionando o que é,
[00:46:37] você está inventando a doença, nada disso,
[00:46:39] mas porque se pensar,
[00:46:41] pensar nesse mal-estar, pensar nesse estado,
[00:46:43] a partir da categoria
[00:46:45] de doença, te ajuda a dar sentido
[00:46:47] a esse sofrimento, pensando por exemplo
[00:46:49] que se você é doente alguém vai te curar,
[00:46:51] a cura existe, a cura é possível,
[00:46:53] o medicamento.
[00:46:55] A sua tristeza, a depressão,
[00:46:57] e a depressão tem medicamento.
[00:46:59] Eu acho que é preciso lembrar para as pessoas,
[00:47:01] fazer uma frase que para mim,
[00:47:03] só recentemente, mas é uma frase que eu acho que é importante,
[00:47:05] não é
[00:47:07] necessário, não é obrigatório
[00:47:09] a relação que nós estabelecemos
[00:47:11] com o nosso sofrimento e nossa morte
[00:47:13] seja uma relação médica.
[00:47:15] Sim, claro.
[00:47:17] Hoje é tão naturalizado, né,
[00:47:19] que a gente esquece disso.
[00:47:21] As pessoas já viveram sem ter medicina,
[00:47:23] as pessoas já viveram
[00:47:25] a resposta maior,
[00:47:27] mais constante
[00:47:29] na cultura ocidental, foi uma resposta
[00:47:31] simbólico, religiosa.
[00:47:33] Então assim, não, tá bom,
[00:47:35] que a pessoa que é preciso
[00:47:37] desnaturalizar essa categoria,
[00:47:39] esse modo de pensar o seu mal-estar
[00:47:41] como doença,
[00:47:43] esse é apenas um modo de pensar, você poderia
[00:47:45] ter outro.
[00:47:47] Não quer dizer que as pessoas
[00:47:49] não sofram, a gente tá querendo
[00:47:51] dizer duas coisas diferentes, a gente tá querendo dizer
[00:47:53] primeiro que talvez a nossa cultura
[00:47:55] pela própria oferta
[00:47:57] de dispositivos técnicos
[00:47:59] e pelo valor dado
[00:48:01] à felicidade, nós somos muito
[00:48:03] sensíveis a qualquer sofrimento
[00:48:05] enquanto em outras culturas talvez
[00:48:07] o limiar pra você
[00:48:09] transformar algo,
[00:48:11] transformar um sofrimento, um objeto
[00:48:13] de atenção, fosse mais elevado.
[00:48:17] Eu acho que nossa cultura hoje
[00:48:19] com o mal-estar
[00:48:21] já leva, já faz
[00:48:23] que você vá ao médico
[00:48:25] e vai procurar uma coisa assim. Isso e isso
[00:48:27] eu acho que cada vez
[00:48:29] mais as pessoas frequentam o médico,
[00:48:31] cada vez mais atrás
[00:48:33] de respostas
[00:48:35] médicas,
[00:48:37] porque que estão mais sensíveis
[00:48:39] aos seus sofrimentos achando que eles deveniam
[00:48:41] não existir, que eles não fazem parte da vida desse sentido.
[00:48:43] A segunda coisa
[00:48:45] é literalmente essa,
[00:48:47] é a crença de que
[00:48:49] o bom é uma relação
[00:48:51] técnica.
[00:48:53] Isso também é importante notar que
[00:48:55] nem na própria medicina
[00:48:57] isso dominava, especialmente no caso
[00:48:59] de dança mental, o que predominava
[00:49:01] é uma
[00:49:03] resposta técnica ao sofrimento.
[00:49:05] E outra coisa que eu acho que
[00:49:07] a gente pode pensar, que faz parte
[00:49:09] da ideia, porque
[00:49:11] tem tanta gente hoje se concebendo como
[00:49:13] doente, que é
[00:49:17] você imaginar
[00:49:19] que a loucura
[00:49:21] ela pode ser definida
[00:49:23] mistratamente, pelo menos
[00:49:25] num nível de abstração capaz de imprimir
[00:49:27] tanta concepção moderna quanto a contemporânea
[00:49:31] que a loucura é desvia em relação
[00:49:33] a uma expectativa social.
[00:49:35] A diferença de doença
[00:49:37] orgânica, que tem uma contrapartida
[00:49:39] anatômica, tipicamente,
[00:49:41] no caso de
[00:49:43] da loucura, não, você tem uma
[00:49:45] expectativa, você tem um desvio
[00:49:47] em relação a uma expectativa.
[00:49:49] Eu acho que o que acontece
[00:49:51] na modernidade é que a expectativa social
[00:49:53] é sobretudo de um comportamento
[00:49:55] normal,
[00:49:57] era
[00:49:59] um bom comportamento do cidadão.
[00:50:01] Então, portanto, é por isso mesmo que a loucura
[00:50:03] estava associada a desvios
[00:50:05] sexuais e
[00:50:07] criminais.
[00:50:09] É, como não seguiu as regras, então ou é louco
[00:50:11] ou é criminoso, ou é pervertido.
[00:50:13] E esse,
[00:50:15] moderamente louco, que essa
[00:50:17] legalização loucucônea, ele tem uma frase ótima na história
[00:50:19] da sexualidade, que ele vai dizer que
[00:50:21] o perverso sexual era
[00:50:23] vizinho do criminoso e aparentado
[00:50:25] ao louco, então eles são
[00:50:28] a mesma pessoa, com diferentes
[00:50:30] disfarças, ou então fazem parte
[00:50:32] da família.
[00:50:34] Eu acho
[00:50:36] que a expectativa social hoje, a partir
[00:50:38] da qual a gente vai definir loucura,
[00:50:40] isso eu não sei o que fala, é um bando de
[00:50:42] gente que fala, a gente
[00:50:44] que está fazendo a revisão da
[00:50:46] leitura dos textos para tentar entender isso,
[00:50:48] a expectativa social hoje, a partir
[00:50:50] da qual se define o desvio é
[00:50:52] o direito à felicidade.
[00:50:54] Então será transtorno,
[00:50:56] para a doença mental, ausa,
[00:50:58] a tristeza. Enquanto antes,
[00:51:00] por definição, a tristeza
[00:51:02] não fazia parte daquilo
[00:51:04] que definia a doença mental.
[00:51:06] Era apenas um sintoma mais,
[00:51:08] o que definia a doença mental era uma forma
[00:51:10] de desvio de comportamento,
[00:51:12] seja
[00:51:14] pelo delírio, seja
[00:51:16] pela incapacidade de
[00:51:18] controlar, controlar os
[00:51:20] impulsores.
[00:51:22] Eu estava olhando algum tempo atrás
[00:51:24] um livro que citava
[00:51:26] a frase de algum médico
[00:51:28] famoso, cientista,
[00:51:30] médico famoso do século 19,
[00:51:32] que eu esqueci o nome, e espostamente
[00:51:34] ele teria dito assim,
[00:51:36] se a pessoa sofre mais ou menos,
[00:51:38] isso deveria interessar a academia de
[00:51:40] ciências?
[00:51:42] Isso era um absurdo.
[00:51:44] Enquanto hoje, é justamente
[00:51:46] o que mais interessa, porque a ideia
[00:51:48] toda é que a ciência não é uma verdade
[00:51:50] em si, a qual a gente
[00:51:52] deve deixar de lado
[00:51:54] nossa busca por
[00:51:56] satisfação pessoal para criar
[00:51:58] a ciência, mas ao contrário
[00:52:00] ela é um saber instrumental,
[00:52:02] que deve melhorar a vida, tornar
[00:52:04] as pessoas mais felizes, e aí tudo
[00:52:06] torna instrumento para a felicidade
[00:52:08] que aparece com isso.
[00:52:10] E cada vez mais você imagina
[00:52:12] uma ciência a serviço
[00:52:16] de um indivíduo que vai poder se exprimir,
[00:52:18] se pensar, experimentar.
[00:52:20] Você se lembra?
[00:52:22] Eu cheguei a comentar isso
[00:52:24] no grupo de pesquisa
[00:52:26] da qual você faz parte,
[00:52:28] quando dá todas as quintas-feiras.
[00:52:30] Quando dá todas as quintas-feiras
[00:52:32] é ótimo.
[00:52:34] É porque hoje
[00:52:36] isso designa já
[00:52:38] o desejo de que a gente se encontrasse
[00:52:40] regularmente, semanalmente.
[00:52:42] Nem sempre dá.
[00:52:44] Pois é.
[00:52:46] Mas era o caso
[00:52:48] que eu achava esse tão significativo
[00:52:50] na mudança,
[00:52:52] eram pediatras,
[00:52:54] se não me engano,
[00:52:56] defendendo que se desse hormônio
[00:52:58] para adolescentes
[00:53:00] para postergar,
[00:53:02] para adiar o aparecimento
[00:53:04] da escolha sexual.
[00:53:06] Porque o que você queria fazer era
[00:53:08] permitir que os indivíduos ficassem
[00:53:10] cada vez mais, durante mais tempo
[00:53:12] experimentando com o gênero, para depois
[00:53:14] eles se definirem se fosse o caso.
[00:53:16] Se você imagina, se a gente compara
[00:53:18] essa frase da ciência
[00:53:20] que, obviamente, está a serviço
[00:53:22] da felicidade do indivíduo
[00:53:24] com aquilo que você quis fazer
[00:53:26] com aquele
[00:53:28] matemático absolutamente brilhante
[00:53:30] que inventou
[00:53:32] o computador.
[00:53:34] Roland Turing, que era assim
[00:53:36] o gênio da raça
[00:53:38] que você quis fazer com que ele tomasse
[00:53:40] injeção de hormônio para ele se endireitar,
[00:53:42] para ele virar máscola.
[00:53:44] É assim, a oposição.
[00:53:46] É a oposição.
[00:53:48] Hoje você quer que a ciência funcione
[00:53:50] para que o indivíduo
[00:53:52] possa ser feliz e possa experimentar
[00:53:54] o máximo que puder na sua vida.
[00:53:56] E agora você está querendo fazer
[00:53:58] enquanto antes você fazia uma ciência
[00:54:00] que tentava normalizar
[00:54:02] os indivíduos, torná-los bons
[00:54:04] cidadãos, para que eles
[00:54:06] se comportassem de acordo com o lugar.
[00:54:08] Nisso é interessante
[00:54:10] também a colagem
[00:54:12] da ideia de saúde
[00:54:14] e da felicidade.
[00:54:16] O importante é a saúde
[00:54:18] pensada como um corpo
[00:54:20] que de acordo com uma suposta verdade
[00:54:22] universal está bem
[00:54:24] ou pelo menos funcionando como deveria.
[00:54:26] E uma saúde
[00:54:28] que na verdade é muito curiosa,
[00:54:30] porque ela é meio junto com a felicidade
[00:54:32] de tal modo que você pode dizer, por exemplo,
[00:54:34] que a felicidade te torna mais saudável
[00:54:36] e ao mesmo tempo
[00:54:38] ser mais saudável te torna mais feliz.
[00:54:40] E por outro lado,
[00:54:42] se você é infeliz, você é doente.
[00:54:48] Ser feliz te torna mais saudável.
[00:54:50] As pessoas mais felizes trabalham melhor,
[00:54:52] curtem mais a vida.
[00:54:54] E ao mesmo tempo
[00:54:56] se você é saudável, você é feliz.
[00:54:58] É muito louco isso.
[00:55:00] Totalmente circular, a lógica.
[00:55:02] Tem-te alguma vez
[00:55:04] que na época que
[00:55:06] estava estudando com o Artigo
[00:55:08] era
[00:55:10] eu me deparei com uma pesquisa
[00:55:12] sobre os cinco medicamentos mais receitados
[00:55:14] nos Estados Unidos.
[00:55:16] Os cinco tipos de medicamentos mais receitados.
[00:55:18] E eu achei isso em 2013.
[00:55:20] Eu achei tão interessante o resultado
[00:55:22] porque era a confirmação
[00:55:24] da mudança cultural.
[00:55:26] Só porquê?
[00:55:28] Porque estava, eu acho que era o 16º lugar,
[00:55:30] estava
[00:55:32] o
[00:55:34] remédio para prevenir
[00:55:36] a gravidez.
[00:55:38] A pirulante concepcional, conhecida.
[00:55:40] E em 18º, talvez,
[00:55:42] estavam os antibióticos.
[00:55:44] Estava a penicilina, que foi o quê?
[00:55:46] Aquilo que, esses dois medicamentos, foram aqueles que mais
[00:55:48] transformaram a cultura.
[00:55:50] E o outro fazendo com que
[00:55:52] as pessoas pudessem experimentar
[00:55:54] umas suas práticas sexuais.
[00:55:56] Agora, os cinco que mais
[00:55:58] vendem agora, atualmente, são
[00:56:00] o primeiro, eu acho que era um
[00:56:02] remédio para reduzir o colesterol em 2013.
[00:56:05] Receitas de medicamentos que
[00:56:07] reduzem o nível de colesterol.
[00:56:09] Eram mais outros dois,
[00:56:11] quarto e quinto, eu acho,
[00:56:13] para reduzir
[00:56:15] a pressão.
[00:56:17] Então, para evitar a doença,
[00:56:19] algum tipo de acidente
[00:56:21] cardiovascular.
[00:56:23] E foram esses três, portanto,
[00:56:25] que garantem o indivíduo que ele vivia mais tempo.
[00:56:27] Você tinha
[00:56:29] em segundo lugar, os medicamentos
[00:56:31] narcóticos, o analgésico
[00:56:33] narcótico,
[00:56:35] e os remédios medicamentos
[00:56:37] com antidepressão.
[00:56:39] Eu achei isso tão assim,
[00:56:41] claro, que assim, o que as pessoas
[00:56:43] querem hoje? Tentar viver
[00:56:45] muito tempo, através do objeto
[00:56:47] técnico, e tentar ser feliz.
[00:56:51] É, nesse sentido de felicidade.
[00:56:53] Pois é, nesse sentido
[00:56:55] de felicidade, nesse sentido de reduzir.
[00:56:57] Eu acho que nem precisava
[00:56:59] comentar muito sobre a cultura, porque
[00:57:01] está livre, está estampado,
[00:57:03] que hoje o que importa
[00:57:05] é evitar
[00:57:07] o sofrimento,
[00:57:09] e esse sofrimento eu acho que está cada vez mais
[00:57:11] sensível, e evitar
[00:57:13] morrer cedo.
[00:57:15] É, e com isso a gente volta
[00:57:17] ao tema inicial do risco,
[00:57:19] que você mencionou, que é também
[00:57:21] esse tipo de remédio estatina,
[00:57:23] o remédio contra essas doenças
[00:57:25] crônicas, ou outras, enfim,
[00:57:27] vão se basear muito nessa lógica do risco.
[00:57:29] Então é um remédio antes de ter qualquer sintoma,
[00:57:31] porque isso diminui o risco de você
[00:57:33] ficar doente, como se você pudesse controlar.
[00:57:35] Os remédios começam a se tornar
[00:57:37] uma possibilidade de controlar
[00:57:39] o futuro.
[00:57:41] Isso é significativo, porque quando a gente fica,
[00:57:43] na verdade,
[00:57:45] doce,
[00:57:47] quando você parte daquela ideia,
[00:57:49] de que para vender a mesma medicamento
[00:57:51] que é preciso vender a doença,
[00:57:53] para mim tinha duas questões que precisavam
[00:57:55] de ser pensadas, a primeira era essa,
[00:57:57] que querem se conceder como doentes,
[00:57:59] e a segunda é, que doenças
[00:58:01] podem ser vendidas?
[00:58:03] O primeiro tipo de doença que pode ser vendida
[00:58:05] são as que me respeitam ao nosso sofrimento,
[00:58:07] porque depende de uma definição
[00:58:09] de qual sofrimento é doentio suficiente
[00:58:11] para ser tratado.
[00:58:13] É, doença de mentais, de modo geral, né?
[00:58:15] Exatamente.
[00:58:17] Pois é, mas você vai também
[00:58:19] definir a doença mental cada vez mais
[00:58:21] como vinculada ao próprio sofrimento.
[00:58:23] Sofrimento, sim.
[00:58:25] E, por outro lado,
[00:58:27] são, pelo advento
[00:58:29] da noção do papel de risco,
[00:58:31] que modificou profundamente a medicina,
[00:58:33] e que vai então para ver como seja possível
[00:58:35] você medicar-se
[00:58:37] para reduzir o risco.
[00:58:39] E por que uma doença aí pode ser vendida?
[00:58:41] Porque, na verdade,
[00:58:43] não existe definição
[00:58:45] cientificamente dada,
[00:58:47] uma vez por todas, de um nível de segurança
[00:58:49] aceitável para o indivíduo.
[00:58:51] Assim como, ou seja,
[00:58:53] como se cada um tivesse que responder.
[00:58:55] O quanto de segurança
[00:58:57] é suficiente para você?
[00:58:59] Ao menos, o quanto de segurança
[00:59:01] pode ser tomar remédio,
[00:59:03] mesmo que tenha um risco praticamente zero,
[00:59:05] tomar remédio o tempo todo, mesmo assim.
[00:59:07] Então,
[00:59:09] trabalhando na sensação de insegurança,
[00:59:11] você pode fazer com que os indivíduos
[00:59:13] queiram consumir mais medicamento,
[00:59:15] e trabalhando
[00:59:17] na sensibilidade
[00:59:19] em relação ao sofrimento,
[00:59:21] e os indivíduos também queiram consumir medicamento.
[00:59:23] Essas seriam os dois tipos de doença
[00:59:25] que podem ser vendidas.
[00:59:27] É, e também aqui,
[00:59:29] só de novo voltando a
[00:59:31] como a gente está pensando isso teoricamente,
[00:59:33] para também não ficar parecendo
[00:59:35] que a gente está pensando assim, ah, então tem uma indústria
[00:59:37] do mal que está criando uma sociedade,
[00:59:39] mas assim, sem dúvida,
[00:59:41] certos a gente vão se aproveitar
[00:59:43] de como a cultura
[00:59:45] está pensando no sofrimento para ganhar com isso.
[00:59:47] Isso é bem claro que ocorre.
[00:59:49] Você pensar que inclusive
[00:59:51] o orçamento
[00:59:53] de marketing das indústrias farmacêuticas
[00:59:55] é algo assim, astronômico
[00:59:57] e que envolve em práticas, né,
[00:59:59] como vocês podem ler no artigo lá, nem sempre,
[01:00:01] muito claras.
[01:00:19] Então, só para a gente fechar rapidamente,
[01:00:21] a gente, ao longo aqui do programa,
[01:00:23] a gente acabou conectando
[01:00:25] diversas categorias, como
[01:00:27] risco,
[01:00:29] bullying, depressão,
[01:00:31] vítima,
[01:00:33] preconceitoso, enfim,
[01:00:35] a gente tentou pegar essas categorias
[01:00:37] que se tornam as categorias
[01:00:39] mais comuns, a partir das quais a gente
[01:00:41] no dia a dia pensa no nosso
[01:00:43] sofrimento, porque a vida é boa, é ruim,
[01:00:45] e tentou entender como é que elas aparecem,
[01:00:47] como que elas estão diferentes,
[01:00:49] como é que elas são diferentes, como é que elas diferem
[01:00:51] de outros modos que já existiram
[01:00:53] na nossa cultura para pensar o sofrimento.
[01:00:57] E aí, de repente, não sei se você queria pegar
[01:00:59] e tentar sintetizar, ou sei lá,
[01:01:01] algumas considerações finais sobre esse tema,
[01:01:03] como é que essas categorias se unem,
[01:01:05] enfim, algum fechamento.
[01:01:09] Na verdade, é até legal
[01:01:11] ficar falando
[01:01:13] com você, Álvaro, nessa entrevista,
[01:01:15] eu percebo que o que eu faço
[01:01:17] é uma exploração meio cego,
[01:01:19] então se me pedem para sintetizar às vezes
[01:01:21] é difícil, você vai um mil e pouco
[01:01:23] tateando para tentar entender
[01:01:25] uma coisa que não é totalizável.
[01:01:29] A gente está aqui pensando qual é o sentido
[01:01:31] que a nossa cultura dá para o sofrimento,
[01:01:33] e a gente precisa se perguntar,
[01:01:35] qual é a moral da nossa cultura?
[01:01:37] E em que sentido? Qual é a moral?
[01:01:39] Em que sentido nós ainda somos morais?
[01:01:41] Em que sentido nós ainda somos morais?
[01:01:43] Onde, mesmo apesar de todas essas mudanças
[01:01:45] bastante interessantes,
[01:01:47] no modo como cada um pode viver a sua vida,
[01:01:49] pode viver o seu prazer,
[01:01:51] na valorização do presente
[01:01:53] e tudo isso, mesmo assim,
[01:01:55] ainda há moralidade,
[01:01:57] é tentar combater essa moralidade
[01:01:59] que a gente tenta pensar.
[01:02:01] A dificuldade é que, na verdade,
[01:02:03] isso é uma prática que você vai um pouco
[01:02:05] você vê um tal fenômeno
[01:02:07] emergindo aqui,
[01:02:09] você vê um fenômeno emergindo lá,
[01:02:11] a consistência é muito mais
[01:02:13] a consistência de um problema
[01:02:15] do que de um método, claro,
[01:02:17] de interrogação.
[01:02:19] Por exemplo, é porque
[01:02:21] uma vez eu estava lá atento
[01:02:23] com a questão da doença mental,
[01:02:25] depois aparece o problema do bullying,
[01:02:27] claro que eu vou poder conectar uma coisa e outra,
[01:02:29] porque vai ter a ver com eu explicar o sofrimento,
[01:02:31] vai ser uma questão de como é possível
[01:02:33] cada vez mais você
[01:02:35] articular hoje,
[01:02:38] passar de presente na forma da vítima
[01:02:40] de você ter sofrido pela ação de um outro imoral,
[01:02:42] nesse caso, um outro preconceituoso,
[01:02:46] mas, mais uma vez, isso é sempre uma
[01:02:48] eu acho que funciona mais como
[01:02:50] como
[01:02:52] tatiamento,
[01:02:54] é por isso que quando eu fico tentando mesmo fazer
[01:02:56] uma espécie de
[01:02:58] síntese, eu fico falar, tem essas duas intuições
[01:03:00] fundamentais, modo de habitar o tempo
[01:03:02] e modo de dar sentido ao
[01:03:04] sofrimento.
[01:03:06] São duas categorias articuladas,
[01:03:08] o modo de habitar o tempo depende do modo
[01:03:10] de dar sentido ao sofrimento, porque ele existe
[01:03:12] como ele pode não existir.
[01:03:16] Isso acaba unindo essas categorias,
[01:03:18] porque são todas elas modos oferecidos
[01:03:20] pela nossa cultura de pensar
[01:03:22] o sofrimento ou pensar
[01:03:24] como a gente se constituiu dessa forma,
[01:03:26] sofrendo dessa forma, tentando as
[01:03:28] características e o que é possível no futuro.
[01:03:32] E também tem uma coisa
[01:03:34] que é legal, é sempre imaginar que
[01:03:36] o modo como a gente vai aprendendo
[01:03:38] sobre esse sofrimento, na nossa cultura,
[01:03:40] depende um pouco também
[01:03:42] de um modo como ele é exposto no espaço público.
[01:03:46] É bem interessante pensar que isso tudo
[01:03:48] se dá a partir
[01:03:50] de uma socialização
[01:03:52] dos indivíduos, onde eles vão ser ensinados
[01:03:54] isso aqui é
[01:03:56] isso é, eu vou aprender hoje sobrensa mental,
[01:03:58] muito menos recorrendo a um médico,
[01:04:00] muito mais lendo revistas
[01:04:02] ou ouvindo falar outras pessoas.
[01:04:06] É o lugar da verdade também,
[01:04:08] essa é o ponto, essa conexão da verdade
[01:04:10] como aquilo que sustenta a possibilidade
[01:04:12] de pensar em você como algo definido.
[01:04:14] Eu sei que a verdade
[01:04:16] do meu sofrimento é essa,
[01:04:18] é ser doente mental.
[01:04:20] O que eu acho que na verdade agora,
[01:04:22] se você fosse perguntar,
[01:04:24] então tem essas duas intuições
[01:04:26] que se articulam
[01:04:28] e tem uma investigação
[01:04:30] se dando a cada momento.
[01:04:32] Eu acho que no último ano,
[01:04:34] eu fiquei bastante, eu estou cada vez
[01:04:36] continuando interessado na ideia
[01:04:38] primeiro de
[01:04:40] por que as pessoas hoje,
[01:04:42] o modo hoje de expor o sofrimento
[01:04:44] é cada vez mais um testemunho
[01:04:46] no autobiográfico.
[01:04:48] E o que isso implica em termos de verdade?
[01:04:50] E como você pode se distanciar
[01:04:52] de um testemunho biográfico?
[01:04:54] Porque é admitido, praticamente é admitido
[01:04:56] você ter sido vítima?
[01:04:58] Difícilmente é admitido você poder dar disso.
[01:05:00] Então eu fico
[01:05:02] interessado em ver como que
[01:05:04] você está
[01:05:08] disseminando uma certa relação
[01:05:10] com o sofrimento através do testemunho
[01:05:12] autobiográfico e não apenas, por exemplo,
[01:05:14] da disseminação de verdades científicas.
[01:05:16] Tem uma dimensão hoje de verdade
[01:05:18] da experiência que é
[01:05:20] importante, a verdade da experiência individual,
[01:05:22] a verdade do indivíduo,
[01:05:24] a verdade do testemunho, que é legal de pensar.
[01:05:26] Essa é uma coisa para me interessar.
[01:05:28] Assim como uma outra coisa que eu acho
[01:05:30] é…
[01:05:32] Eu fico
[01:05:34] talvez, certamente
[01:05:36] por ser marcado com o fulcão e o planeta
[01:05:38] sobretudo,
[01:05:40] eu fico muito interessado
[01:05:42] nas formas de secularização do religioso.
[01:05:44] E recentemente, você sabe,
[01:05:46] eu fico tentando imaginar
[01:05:48] como é possível você
[01:05:50] associar essa preeminência
[01:05:52] do testemunho, de certo modo,
[01:05:54] a preeminência da cultura norte-americana,
[01:05:56] porque a religião católica
[01:05:58] forçava a confissão.
[01:06:00] E cada vez mais
[01:06:02] você tem a religião
[01:06:04] protestante, ou uma dimensão
[01:06:06] do protestantismo, vai ser
[01:06:08] o privilégio
[01:06:10] do testemunho de conversão.
[01:06:12] Então, eu estou muito interessado em pensar
[01:06:14] como que se dá agora esse
[01:06:16] privilégio do testemunho, qual é a origem
[01:06:18] religiosa do
[01:06:20] testemunho, assim como
[01:06:22] eu acho que você tem, talvez,
[01:06:24] vale a pena um dia tentar entender
[01:06:26] mais uma vez em relação à
[01:06:28] questão da violência mental,
[01:06:30] que sempre é interessante pra mim.
[01:06:34] Eu fico muito interessado em entender
[01:06:36] a categoria de, como a ideia
[01:06:38] de, o conceito
[01:06:40] de autoestima pode ser a secularização
[01:06:42] da ideia de fé
[01:06:44] do protestantismo.
[01:06:46] Isso…
[01:06:48] Entendi.
[01:06:50] Você dá pano pra manga pra um próximo
[01:06:52] novo estante.
[01:06:54] É, um novo estante.
[01:06:56] Eu passei pra um novo estante, e ele diz assim,
[01:06:58] hmmm, tentar usar não consigo,
[01:07:00] mas dizer pra onde eu tô, pra onde eu tô.
[01:07:04] Não, mas você deu umas guias também
[01:07:06] pra pessoa entender o que que está sendo
[01:07:08] proposto.
[01:07:10] Então, valeu, Paulo, muito obrigado.
[01:07:12] Foi um prazer.
[01:07:14] Tá bom, abraço.
[01:07:16] Valeu.
[01:07:50] Obrigado.