T07E02 Relatividade Geral I


Resumo

Este episódio do Fronteiras da Ciência traça a jornada intelectual de Albert Einstein na formulação da Teoria Geral da Relatividade. A discussão começa com o anúncio da detecção das ondas gravitacionais em 2016, que serve como ponto de partida para explorar uma das previsões mais notáveis da teoria.

Os participantes detalham o processo de desenvolvimento da teoria, começando pela intuição de Einstein em 1907 sobre o princípio de equivalência – a ideia de que um observador em queda livre não sente seu próprio peso. Eles explicam como essa percepção, que Einstein considerou ‘a melhor ideia da sua vida’, sugeriu que a gravidade poderia ser tratada como uma força fictícia, semelhante às forças centrífugas, e como isso abriu caminho para uma descrição geométrica da gravitação.

O episódio acompanha os anos de luta de Einstein, incluindo sua colaboração com o matemático Marcel Grossman, que introduziu a geometria riemanniana dos espaços curvos como ferramenta matemática. É narrada a fase do ‘Entwurf’ (esboço) – uma teoria incompleta e não totalmente covariante – e a tensão criada pela entrada do matemático David Hilbert na corrida para formular uma teoria covariante da gravitação.

A culminação da história ocorre em novembro de 1915, durante uma série de palestras na Academia Prussiana de Ciências. Em um frenesi de trabalho conhecido como ‘Revolução de Novembro’, Einstein abandonou sua abordagem física intuitiva e mergulhou na matemática tensorial. Semana após semana, ele apresentou novos avanços, culminando no cálculo correto da precessão do periélio de Mercúrio (43 segundos de arco por século) e na previsão do dobro do desvio da luz pelo Sol (1,7 segundos de arco), corrigindo seu erro anterior. A teoria final, apresentada em 25 de novembro, não surgiu para resolver uma crise experimental óbvia, mas como uma busca de unificação baseada em princípios físicos profundos.


Indicações

Conceitos

  • Princípio da Equivalência — Ideia central de Einstein de que, localmente, os efeitos de um campo gravitacional são indistinguíveis dos efeitos de uma aceleração. Um observador em queda livre não sente a gravidade.
  • Precessão do Periélio de Mercúrio — Uma pequena rotação da órbita elíptica de Mercúrio ao redor do Sol que não era totalmente explicada pela física newtoniana. O cálculo correto desse valor (43 segundos de arco por século) foi uma das grandes confirmações da Relatividade Geral em 1915.

Eventos

  • Eclipse solar de 1914 — Tentativa fracassada de Erwin Freundlich de medir o desvio da luz pelo Sol, que foi interrompida por sua prisão como suposto espião no início da Primeira Guerra Mundial.
  • Revolução de Novembro (1915) — Período frenético de quatro semanas em que Einstein, dando palestras na Academia Prussiana, abandonou sua abordagem física, mergulhou na matemática tensorial e finalmente derivou as equações corretas da Relatividade Geral.

Livros

  • Gravitação em Espaço-Tempo de Remo Ruffini — Citado no início, o prefácio deste livro discute como a intuição de Einstein permitiu um salto conceitual que economizou décadas no desenvolvimento da Relatividade Geral.

Pessoas

  • Albert Einstein — O físico cuja intuição e trabalho levou à formulação da Teoria da Relatividade Restrita e Geral. Sua ‘melhor ideia’ foi o princípio de equivalência.
  • Marcel Grossman — Matemático amigo de Einstein que o introduziu à geometria riemanniana, ferramenta essencial para a formulação matemática da Relatividade Geral.
  • David Hilbert — Proeminente matemático que, inspirado pelas palestras de Einstein, entrou na corrida para derivar as equações da gravitação, criando uma tensão produtiva no final de 1915.
  • Erwin Freundlich — Jovem astrônomo que se empolgou com a previsão inicial de Einstein sobre o desvio da luz e tentou medi-la em 1914, sendo preso no início da Primeira Guerra Mundial.
  • Johann Georg von Soldner — Astrônomo alemão que em 1801 calculou o desvio da luz pelo Sol usando a física newtoniana, tratando a luz como uma partícula com massa, chegando a um valor que era metade do correto da Relatividade Geral.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução: Ondas gravitacionais e a Teoria da Relatividade Geral — O programa começa mencionando o anúncio da detecção das ondas gravitacionais em fevereiro de 2016, um triunfo da Teoria Geral da Relatividade de Einstein. Apresenta-se o objetivo de simplificar e discutir a importância dessa teoria. Os participantes são apresentados: Dmitry Radzimyshev (convidado especialista), Jorge Kieffel, Marco Idiarte e Gérard Sonenzon.
  • 00:01:00A intuição de Einstein e o salto conceitual — Dmitry é questionado sobre como simplificar a Relatividade Geral. Ele cita o prefácio do livro de Remo Ruffini, que argumenta que o salto para a teoria foi baseado na forte intuição de Einstein. Sem ela, levaria talvez 20 anos a mais para se chegar a uma teoria relativística da gravitação. A discussão destaca a diferença entre teorias de campo (como o eletromagnetismo) e teorias de ação à distância (como a de Newton).
  • 00:02:00O princípio da equivalência e a ideia central — A conversa se volta para a noção central que sempre reaparecia no pensamento de Einstein: o que acontece quando se está caindo em um campo gravitacional. Isso é identificado como o princípio da equivalência. Explica-se que, localmente, em uma região pequena, estar em queda livre em um campo gravitacional é indistinguível de estar em um referencial inercial no espaço sideral sem gravidade. Esta foi a ‘melhor ideia’ de Einstein.
  • 00:05:00Massa inercial vs. gravitacional e a universalidade — Os participantes diferenciam massa inercial (da segunda lei de Newton) e massa gravitacional (que sente o campo). Newton já observou que são iguais, uma ‘coincidência’ na mecânica clássica. Essa igualdade faz com que a massa desapareça da equação do movimento em um campo gravitacional, tornando a aceleração da gravidade universal – independente do corpo. Esta propriedade sugere que a gravidade pode não ser uma propriedade dos corpos, mas do espaço-tempo.
  • 00:08:00A curvatura da luz e o experimento mental do elevador — É descrito um experimento mental: um raio de laser entra em um elevador em aceleração. Para um observador dentro, a trajetória da luz aparece curva. Pelo princípio de equivalência, o mesmo efeito deve ocorrer se o elevador estiver parado em um campo gravitacional forte. Portanto, a teoria prevê que a luz se curva na presença de massa. É mencionado que, em 1801, o astrônomo Söldner já havia calculado um desvio usando física newtoniana, tratando a luz como partícula com massa.
  • 00:10:20De 1907 a 1911: Os primeiros cálculos e um erro pela metade — Einstein, em 1911, usa suas ideias para calcular o desvio da luz pelo Sol. Ele chega a um valor de 0,83 segundos de arco. Este valor, que ele não sabia na época, era exatamente a metade do valor correto e coincidia com o cálculo newtoniano de Söldner. O jovem astrônomo Erwin Freundlich se empolga e planeja medir o efeito durante um eclipse solar.
  • 00:13:40A história pitoresca de Freundlich e o eclipse de 1914 — Narra-se a história de Freundlich, que em 1913 encontra Einstein durante sua lua de mel em Zurique (para desgosto de sua esposa). Freundlich parte para a Crimeia em 1914 para observar o eclipse, mas é preso na fronteira russo-alemã no início da Primeira Guerra Mundial, sendo acusado de espionagem. Isso, ironicamente, foi uma sorte para Einstein, pois a medição teria mostrado sua previsão errada (pela metade), dando-lhe tempo para corrigir a teoria.
  • 00:16:20A colaboração com Grossman e a teoria do ‘Entwurf’ — Em 1912, Einstein recorre ao amigo matemático Marcel Grossman para colocar suas ideias físicas em uma base matemática sólida. Grossman introduz a geometria riemanniana de espaços curvos. Juntos, publicam em 1913 a teoria do ‘Entwurf’ (Esboço), que era insegura e não totalmente covariante (não estendia o princípio de relatividade a todos os referenciais). A teoria também não previa corretamente a precessão do periélio de Mercúrio.
  • 00:19:20O dilema com David Hilbert e a corrida final — Einstein dá palestras em Göttingen em 1915, onde o grande matemático David Hilbert se apaixona pelo problema. Hilbert começa a trabalhar em uma solução axiomática, trocando cartas com Einstein sobre seus progressos. Enquanto isso, Einstein percebe os furos da teoria ‘Entwurf’. Ele se sente pressionado, com Hilbert avançando na matemática enquanto ele próprio está preso.
  • 00:22:40A Revolução de Novembro de 1915 — Convidado para dar quatro palestras na Academia Prussiana em novembro, Einstein abandona sua abordagem física intuitiva e mergulha de cabeça na abordagem matemática tensorial. Em um frenesi de trabalho semana a semana, ele reconstrói a teoria. Em 18 de novembro, apresenta o cálculo correto da precessão do periélio de Mercúrio (43”/século) e o desvio da luz (1.7”), o dobro de seu valor anterior. Em 25 de novembro, apresenta a síntese final: as equações da Relatividade Geral.
  • 00:28:00Conclusão: Um caminho inverso no método científico — Discute-se como a Relatividade Geral não seguiu o caminho tradicional do método científico (problema experimental nova teoria). Einstein partiu de princípios físicos profundos (equivalência, relatividade) para construir uma teoria que depois fez previsões testáveis. A crise que motivou Einstein era mais interna, uma busca por unificação e coerência, enquanto ele se distanciava do desenvolvimento da mecânica quântica. O programa se encerra agradecendo aos participantes.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2016-03-07T13:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:13] 11 de fevereiro deste ano, 2016, foi anunciada a primeira detecção, sem sombra de dúvida,

[00:00:19] das ondas gravitacionais.

[00:00:21] O interessante é que, junto com essa notícia científica estrondosa, em quase todos os

[00:00:26] lugares que vocês olhavam, vocês olhavam a foto do Einstein.

[00:00:29] Por que? Porque a detecção dessas ondas gravitacionais foi mais um dos grandes êxitos

[00:00:34] dessa teoria, chamada Teoria Geral da Relatividade.

[00:00:37] A ideia do programa de hoje é a gente discutir um pouco, tentar simplificar essa teoria para

[00:00:42] que consiga entender um pouco da importância dessa medida.

[00:00:45] Então, o convidado de hoje é o Dmitry Radzimyshev, que é professor do Departamento de Física

[00:00:49] da URIX, o pessoal do programa, o Jorge Kieffel, da Biofísica, e o Marco Idiarte e o Gérard

[00:00:54] Sonenzon, da Física da URIX.

[00:00:56] Então, eu vou começar a fazer essa pergunta difícil para ti, Dmitry.

[00:01:00] Consegue simplificar a Teoria da Relatividade Geral?

[00:01:02] Olha, no prefácio do livro do Remo Ruffini, de Gravitação em Espaço-Tempo, ele diz que,

[00:01:09] na realidade, o salto que se deu com a descoberta da relatividade foi muito baseado na intuição

[00:01:14] forte de Einstein.

[00:01:15] Quer dizer, depois da relatividade restrita, ele diz que levaríamos uns 20 anos mais para

[00:01:20] chegar, logicamente, à construção de uma teoria relativística para a gravitação.

[00:01:24] Por quê?

[00:01:25] Porque o vomitante a esse desenvolvimento, naquele período, estava se estudando teorias

[00:01:29] relativísticas de campo.

[00:01:31] A gravitação não era uma teoria de campo, como se diz, ou seja, a relação de causa

[00:01:35] e efeito não era propagada por ondas.

[00:01:37] Essa é a diferença de teoria de campo e uma teoria, por exemplo, de ação à distância.

[00:01:41] De ação à distância, tipo…

[00:01:42] Tipo a teoria de Newton.

[00:01:43] Newton, por exemplo.

[00:01:44] Exatamente.

[00:01:45] Então, segundo Ruffini, o salto de um tempo que se deu se economizou 20 anos, porque Einstein

[00:01:48] tinha essa grande intuição, e ele baseou no início, assim, em argumentos meio vagos

[00:01:53] e meio frágeis, no entanto, se provou que era a teoria correta.

[00:01:57] Parece que tudo meio que depende dessa noção de o que que acontece quando você está caindo

[00:02:02] dentro de um campo gravitacional, não é isso?

[00:02:04] Isso parece que era uma coisa que sempre voltava, e até para mim, é até meio…

[00:02:08] Esse é o princípio da equivalência.

[00:02:09] Da equivalência, né?

[00:02:10] Vamos, vamos, vamos passar, tá?

[00:02:11] O mundo tem até…

[00:02:12] Começa, isso não é distrito.

[00:02:13] Não, mas é só dizer, o que que acontece com a física quando você está despencando

[00:02:17] num campo gravitacional homogêneo, né?

[00:02:19] Como é que ele conseguiu tirar tudo daí?

[00:02:21] É espantoso.

[00:02:22] É, em 1905, então, como você falou, assim, é a data da Relatividade Restrita, que na

[00:02:27] publicação do artigo de Netodinâmica dos Corpos em Movimento, onde Einstein descreve

[00:02:31] as bases fundamentais e conceituais da Relatividade Restrita, e aí, nos anos seguintes, ele se

[00:02:38] envolveu muito com a mecânica quântica que estava sendo desenvolvida, tanto é que, uns

[00:02:43] dois anos depois, ele publicou um artigo sobre calor específico dos sólidos, então a mente

[00:02:48] dele estava, assim, completamente tomada de diferentes assuntos.

[00:02:52] Então, a Relatividade estava em segundo plano, até que, em 1907, o Stark, era editor do

[00:02:58] Yardbook, um anuário lá de física, convidou ele para escrever um artigo de revisão sobre

[00:03:03] Relatividade.

[00:03:04] E aí ele aceitou o convite e aí ele resolveu fazer uma coisa um pouco mais elaborada, né?

[00:03:08] Ele disse, bom, eu vou tentar atacar o problema da gravitação que ficou de fora da Relatividade

[00:03:13] Restrita.

[00:03:14] Como estender a Relatividade Restrita para sistemas acelerados?

[00:03:17] O que a gente conhece, acho, nos livros introdutórios sobre Relatividade, é sempre a questão do

[00:03:22] referencial, o que que um observador vê quando o outro observador está a velocidade constante,

[00:03:27] etc.

[00:03:28] Um referencial inercial, que é um referencial não acelerado, portanto, com velocidade constante

[00:03:33] e os não inerciais são os acelerados.

[00:03:35] É, então, na realidade, como a Relatividade Restrita está fundamentada, isso é o primeiro

[00:03:39] postulado da Relatividade Restrita, é que as leis da física são equivalentes para

[00:03:43] todos os referenciais inerciais, então eles ganham um papel destacado, um privilégio estar

[00:03:47] referencial inercial, é um sistema onde tu não tem as chamadas forças fictícias, que

[00:03:52] são forças vindas da não inercialidade do referencial, muito bem.

[00:03:57] Então, essa, como ele não sabia como construir a coisa, ele pediu um tempo para o Stark,

[00:04:01] ele disse, eu vou escrever devagar esse artigo, porque ele ainda era funcionário do escritório

[00:04:05] de patentes e registros, estava pensando em problemas ligados à quantização, e aí

[00:04:09] ele tomou aquele ano para desenvolver esse artigo em duas partes, então a primeira parte

[00:04:14] foi, bem dizer, uma revisão, e a segunda parte, ele começou a tentar trabalhar na extensão

[00:04:18] do princípio de relatividade para a gravitação, e isso se diz, isso ele contou numa palestra

[00:04:24] em Kyoto, essa palestra de Kyoto é de 1922, é muito esclarecedora, porque ele contou

[00:04:29] os bastidores de muitas ideias dele, então ele conta que por volta de novembro de 1907,

[00:04:34] ele estava no escritório de patentes e registros, estava fazendo seu trabalho e pensando no

[00:04:38] problema, e aí ocorreu para ele, de repente, que um observador, ou seja, uma pessoa em

[00:04:42] queda livre, não ia sentir o próprio peso, ele pensou, se alguém caísse do telhado

[00:04:46] aqui dessa sala, não ia sentir o peso enquanto caísse, e ele diz que isso foi a melhor ideia

[00:04:51] da vida dele, tanto é que é celebrado com uma grande ideia que ele teve, eu não entendo

[00:04:56] por que essa é essa ideia do Einstein, porque o princípio de equivalência se fala desde

[00:04:59] a época de Newton, equivalência entre a massa inercial, a massa gravitacional, só

[00:05:05] que para a mecânica clássica, isso é basicamente uma coincidência, que essas duas massas correspondiam,

[00:05:11] exatamente, o Newton já conhecia, então a gente já explicou, o que é o princípio

[00:05:14] de equivalência, de que estar num campo gravitacional, ou estar acelerado na mesma

[00:05:20] direção desse campo, é indistinguível para o observador, então vamos por partes, realmente

[00:05:26] isso que você falou, hoje em dia é chamado de, o Ruffini, por exemplo, no livro dele,

[00:05:29] ele chama de princípio de equivalência Newtoniano, porque o Newton foi o primeiro a observar a

[00:05:33] igualdade entre as massas inercial e gravitacional, o que são essas massas?

[00:05:37] Massa inercial é a massa que aparece na segunda lei de Newton, força igual à massa

[00:05:41] de aceleração, mas a massa gravitacional é a massa, que em princípio é uma outra

[00:05:45] massa que sente o campo gravitacional, porém, o Newton observou que essas duas massas são

[00:05:49] indistinguíveis, consequentemente elas desaparecem da equação de movimento, então isso é

[00:05:53] uma coisa curiosa, porque por um lado, a força gravitacional depende da massa, é o peso,

[00:05:59] pega um corpo, uma certa massa, ele pega um outro corpo, uma outra massa, vão ter pesos

[00:06:02] diferentes, mas quando eles são submetidos a se movimentar livremente no campo gravitacional,

[00:06:07] não depende da massa deles, alguns autores chamam de universalidade, então aparentemente

[00:06:12] o movimento não é ditado pela própria massa, é por uma outra característica que talvez

[00:06:16] esteja ligada ao próprio corpo.

[00:06:17] Não é uma propriedade do corpo.

[00:06:18] Do corpo, é uma propriedade independente do corpo.

[00:06:20] Por isso que na equipe o campo é uma boa solução, a ideia do espaço tempo.

[00:06:24] Aí que tá, mais tarde os relativistas, quando desenvolvem a relativa geral, eles vão poder

[00:06:28] abrir mão do conceito de força, assim como tem no eletromagnetismo, a força elétrica,

[00:06:32] a força magnética, esse tipo de conceito pode ser eliminado e tu pode trabalhar simplesmente

[00:06:37] com a geometria, quer dizer, aí é uma propriedade do espaço estar curvado, mas eu só vou falar

[00:06:42] detrás.

[00:06:43] Mas eu queria que tu botasse a grande ideia do Einstein, pelo que eu entendi isso já

[00:06:45] estava na dinâmica, então o que é que mudou?

[00:06:48] Hoje é chamado assim, como os livros de relatividade classificam esses princípios de equivalência,

[00:06:53] um é o chamado princípio de equivalência fraco, que é simplesmente essa igualdade

[00:06:56] das massas inercial e gravitacional, outra coisa é a possibilidade de você anular o

[00:07:01] campo gravitacional quando tu tá num referencial em queda livre, esse é o chamado princípio

[00:07:05] de equivalência forte, que isso foi descoberto no Einstein, e mais, nessa ideia do Einstein,

[00:07:10] se a gente levar adiante, por exemplo, imagina um elevador fechado, se eles tiverem queda

[00:07:13] livre no campo gravitacional, tu não vai sentir o teu próprio peso e todos os objetos

[00:07:17] ao teu redor também não vão sentir, então tu vai estar flutuando dentro desse elevador,

[00:07:21] a mesma coisa seria se esse elevador estivesse num espaço sideral longe do campo gravitacional,

[00:07:26] mas tem que ser bem claro que isso só vale numa região muito pequena do espaço, porque

[00:07:29] em princípio se regiões maiores do espaço, o campo gravitacional seria diferente, aí

[00:07:33] tu poderia perceber isso, mas tem que ser numa região muito pequena, uma outra situação

[00:07:37] seria a seguinte, dentro do elevador tu abre um furinho, e alguém lá de fora joga um

[00:07:41] laser para dentro desse furinho, do ponto de vista do observador externo, ele vai ver

[00:07:45] um raio de laser, uma linha reta, agora imagine que esse elevador subitamente começa a acelerar

[00:07:50] para cima, então esse raio de laser que entrou por um lado da parede, ele vai se propagar

[00:07:54] até chegar no outro lado da parede, ele vai incidir num ponto abaixo do ponto original,

[00:08:00] então para o observador interno ele vai ver que a luz se curvou, se ele pudesse traçar

[00:08:04] toda a trajetória da luz dentro do elevador que acelerou para cima, ele vai ver que ela

[00:08:08] se curvou para baixo, e isso foi um efeito puramente da aceleração dele, aí vem o

[00:08:13] princípio de equivalência do Weissinger, se ele tivesse acelerado ou se ele estivesse

[00:08:16] num campo gravitacional o efeito seria o mesmo, então ele podia estar parado com esse elevador

[00:08:20] no próximo a uma estrela, e aí entra um faixa de luz lá dentro, o faixa seria curvado também,

[00:08:25] isso é descoberto no Weissinger.

[00:08:26] Eu queria que eu tivesse uma teoria onde a massa não faz a luz andar de forma curvada,

[00:08:31] porque a teoria da relatividade geral não existisse, não fosse verdadeira.

[00:08:34] Não, mas a luz se curva até na mecânica Newtoniana, não é exclusiva da velocidade.

[00:08:39] Talvez você lembrar uma coisa, que nós estávamos fazendo a revisão da relatividade restrita,

[00:08:43] tem dois princípios, a relatividade, que é esse da universalidade das leis, e a constância

[00:08:48] da velocidade da luz.

[00:08:49] Exato, aí tu não enxergaria esse efeito de curvatura porque tu estava no referencial

[00:08:52] inercial, esse efeito da curvatura é por um referencial não inercial que é acelerado.

[00:08:56] Até para lembrar, esse negócio de constância da luz é o que muda tudo, é a coisa mais

[00:08:59] estranha na realidade restrita, ele prevê, por exemplo, a dilatação do tempo, ele prevê

[00:09:04] achatamento da dimensão linear, aquelas coisas esquisitas que acontecem, que perdem um buraco

[00:09:08] negro.

[00:09:09] Isso é tudo em consequência da constância, se tu impõe que uma certa velocidade é constante

[00:09:14] para todos os observadores, tem que abrir mão da universalidade do tempo.

[00:09:17] E do espaço.

[00:09:18] E do espaço, eles não podem ser mais coisas absolutas, eles são relativos.

[00:09:22] Mas eu vou voltar para uma questão que estava falando sobre Newton, em 1801, um astrônomo

[00:09:27] alemão chamado Söldner, ele tinha feito um cálculo, o que ele supôs que era um cálculo

[00:09:31] correto, de que o que aconteceria se um raio de luz passasse perto do Sol?

[00:09:35] Ele faz um cálculo considerando que o raio de luz tem massa, como se fosse uma partícula,

[00:09:40] e aí ele chega numa curvatura, e o cálculo dele é baseado em física Newtoniana, gravitação

[00:09:45] Newtoniana.

[00:09:46] De onde ele tirou a ideia que a luz era uma partícula macia?

[00:09:48] Era uma partícula.

[00:09:49] Era a ideia do Newton.

[00:09:50] Exato.

[00:09:52] Nesse conceito, nada quântico.

[00:09:54] É uma coisa, ele até no artigo dele, ele diz assim, olha, todo mundo vai aceitar essa

[00:09:57] minha ideia.

[00:09:58] Não, acho que ele parte da ideia de que se tu pegar uma massa de teste, ela é atraída

[00:10:03] e tem um desvio, aí tu pode tomar o limite que essa massa vai indo a zero, e tu nota

[00:10:08] que esse desvio, ele converge com um valor bem definido, e esse é o limite indo com

[00:10:13] a massa a zero.

[00:10:14] É, então isso não seria uma ideia nova, mas o Einstein não conhecia na época mesmo.

[00:10:18] Muito bem, então vamos voltar para o 1907, então ele está com esse dilema de tentar

[00:10:22] fazer uma extensão da relatividade restrita para a gravitação, ele se dá conta dessa

[00:10:26] propriedade curiosa de que um referencial em queda livre cancela o tempo gravitacional

[00:10:32] localmente, numa região muito pequena, e isso sugere para ele uma coisa que é bem

[00:10:37] conhecida na mecânica, ligada a forças de tipo corioles, forças centrífugas.

[00:10:43] Essas são forças que são também universais, porque as acelerações de corpos não dependem

[00:10:48] da massa do corpo, por exemplo, se tu tem uma caneta ou uma massa de ar em rotação

[00:10:53] na terra, elas vão sentir a mesma força de corioles.

[00:10:56] E essa é uma força chamada de fictícia, porque basta tu fazer uma troca de coordenadas

[00:11:01] com um referencial inercial em repouso, e essa força some.

[00:11:04] Então Einstein se dá conta que na gravidade tem essa propriedade que se tu está num referencial

[00:11:09] parado no campo gravitacional, tu sente o peso.

[00:11:11] Agora tu faz uma troca de coordenadas com um referencial que está caindo junto com o

[00:11:15] campo gravitacional, um referencial inercial local, um referencial em queda livre, a gravitação

[00:11:19] localmente desaparece.

[00:11:21] Então isso sugere para ele que existe um limite em que a gravitação se comporta exatamente

[00:11:25] como uma força fictícia, uma região muito pequena no espaço, e essa propriedade independe

[00:11:29] da massa dos corpos.

[00:11:30] E nessa situação as leis da relatividade restrita são válidas, porque para dois observadores

[00:11:35] em queda livre, eles vão poder usar a relatividade restrita, então para eles tudo é inercial

[00:11:39] de novo.

[00:11:40] O desdobramento futuro dessa ideia é imenso, então ele termina o artigo com essa ideia,

[00:11:46] mas ele ainda não tem a relatividade geral, então isso é 1907.

[00:11:50] Bom, aí adiante ele está envolvido com a teoria quântica e algumas coisas ligadas

[00:11:54] à teoria de emissão, e aí por volta de 1911 ele faz o primeiro cálculo dele usando

[00:12:01] essas ideias para o desvio da luz, aí ele se dá conta que a luz pode ser desviada passando

[00:12:05] perto do sol, e ele chega num número preciso para qual é o grau angular de desvio, ele

[00:12:10] chega a 0,83 segundos de arco, é um desvio bem pequeno, mas mensurável.

[00:12:15] Mas não era o que o real tinha, era metade do certo?

[00:12:20] É exatamente a metade, ele não sabia, mas esse é exatamente o valor Newtoniano que

[00:12:25] Sol tinha calculado, nesse período então ele fica feliz com esse cálculo, e ele sugere

[00:12:30] no artigo que os astrônomos peguem essa previsão dele e meçam isso, aí ele sugiriu eclipse

[00:12:37] Acontece o seguinte, tem um jovem astrônomo chamado Erwin Freundlich que recém se formou

[00:12:43] e lê o artigo do Einstein e fica empolgado, e aí toma para si a responsabilidade de tentar

[00:12:48] medir essa coisa, e aí ele escreve para o Einstein, o Einstein começa a escrever de

[00:12:52] volta e começa a trocar umas correspondências, aí o Freundlich sugere que talvez pudesse

[00:12:57] fazer a medida não com eclipse, mas talvez com júpiter, poderia ser mais fácil para

[00:13:01] medir isso, aí Einstein diz para ele, não, mas a massa de júpiter é infelizmente muito

[00:13:04] pequena, então tem que ser o Sol e infelizmente vai ter que ser um eclipse solar

[00:13:08] Total

[00:13:09] Total, porque aí poderia se enxergar as estrelas atrás do Sol quando seriam observadas, mas

[00:13:14] tem um fato pitoresco que nesse período, em 1913, o Freundlich se casa, e aí ele manda

[00:13:19] uma carta para o Einstein dizendo assim, olha eu vou me casar, a gente planeja a lua de mel

[00:13:24] passando perto onde você mora, quem sabe a gente podia se encontrar durante a nossa

[00:13:27] lua de mel, aí a história é contada depois pela esposa do Freundlich, que ela diz assim

[00:13:32] que eles chegam à estação de Zurich, em agosto de 1913, aí está lá o Einstein

[00:13:37] na estação, com aquele chapéu de palha e um rechonchu do Fritz Haber, que era o diretor

[00:13:42] do Instituto de Química, para receber eles na estação e a programação do dia, a primeira

[00:13:46] coisa é assistir uma palestra do Einstein, poxa, os caras estão em lua de mel, né?

[00:13:49] Acho que o casamento não durou muito, né?

[00:13:51] Isso é contado pela esposa, né?

[00:13:53] Contado pela esposa durante o processo de demócio

[00:13:56] E aí eles assistem a palestra e durante a palestra o Einstein faz várias referências

[00:14:02] ao Freundlich, que é uma pessoa que segundo ele vai medir o efeito do zil da luz, né?

[00:14:07] E aí o Freundlich fica todo empolgado, jovem, né?

[00:14:09] E aí a esposa do Freundlich conta que eles fazem um passeio lá para as montanhas, um

[00:14:14] mirante, e aí o Freundlich deixa ela observando o mirante e ele sai para caminhar com o Einstein

[00:14:19] pelo bosque, né?

[00:14:20] O resto ela não conta mais, mas só pelo tom de ter comentado essas coisas parece que

[00:14:25] foi meio estranho essa viagem.

[00:14:27] Enfim, aí foi nesse período que eles aceitam, em 1913, um ano antes da eclipse solar da

[00:14:32] Climéia, né?

[00:14:33] E do início da Primeira Guerra Mundial.

[00:14:34] Exatamente.

[00:14:35] Que salvou…

[00:14:36] Que salvou…

[00:14:37] Bom, então…

[00:14:38] Que salvou…

[00:14:39] Que salvou que ia aparecer e não ia bater com a previsão.

[00:14:41] Exatamente.

[00:14:42] E aí a coisa meio estranha é que em 1914, então, quando finalmente o Freundlich chega

[00:14:46] na Climéia, a Alemanha tinha declarado guerra à Rússia, eles são apreendidos na fronteira.

[00:14:51] Pegou com incidência de semana, assim?

[00:14:52] É.

[00:14:53] Na mesma semana.

[00:14:54] Foi exatamente, porque são de semanas.

[00:14:55] Como é que ele ia explicar para guardas russos que ele chega com equipamento de precisão

[00:14:59] para medir propriedades do universo?

[00:15:01] E não é espionagem.

[00:15:02] E não é espionagem.

[00:15:03] E ele foi preso.

[00:15:04] Ficou várias semanas preso.

[00:15:06] E ele só foi libertado, tempos depois, de uma troca de prisioneiros entre Alemanha

[00:15:10] e Rússia.

[00:15:11] Aí o Einstein até se sente um pouco aliviado, porque tinha uma segunda equipe que estava

[00:15:14] indo para a Climéia, mas que não estava em guerra com a Rússia, que era uma equipe

[00:15:18] americana.

[00:15:19] Conseguiu fazer a montagem para medir o eclipse, só que dublou naquele dia.

[00:15:22] A segunda equipe também fracassou, mas a equipe que tinha o apoio do Einstein foi presa.

[00:15:26] Então, isso passou em branco.

[00:15:28] Mas é importante dizer por que foi sorte dele.

[00:15:30] É, porque na realidade a previsão do Einstein dava exatamente a metade da medida dele.

[00:15:35] A teoria dele estava errada.

[00:15:37] A teoria relativística da gravitação estava ainda cambalhando nesse período.

[00:15:41] É um erro de previsão.

[00:15:42] Então, se ele tivesse feito experimento, ia provar que estava errado e ia desanimar

[00:15:46] todo mundo.

[00:15:47] Na verdade, graças à Primeira Guerra Mundial, ele teve tempo de revisar e encontrar o erro.

[00:15:52] Essas coisas a gente nunca sabe, né?

[00:15:54] Às vezes você acha mais que as pessoas vão atrás e acham.

[00:15:57] E se é um fator exatamente dois, não iria desmotivar ninguém.

[00:16:00] Não é exatamente dois, mas eu sei que em função desse acerto, dessa previsão, o

[00:16:05] Einstein virou a maior celebridade pop antes dos Beatles.

[00:16:08] Tão importante que, imagino que não teria acontecido antes, seria um desastre.

[00:16:12] Como eu estou falando, ele estava tateando no escuro.

[00:16:16] Nesse meio tempo, ele foi desenvolvendo a teoria um pouco mais completa.

[00:16:21] Chega em 1912 e chama um amigo dele, o Marcel Grossman.

[00:16:27] Como ele era matemático, era um bom matemático, o Einstein recorreu a ele para tentar pegar

[00:16:32] essa ideia física dele, que ele já tinha feito alguns cálculos, e botar isso numa

[00:16:35] base formal mais sólida.

[00:16:37] Ele perguntou para o Grossman qual seria essa base formal que ele precisava.

[00:16:41] Aí o Grossman disse para ele assim, me dá um tempo, vou precisar um pouco mais e vou

[00:16:45] tentar levar adiante essa sua ideia.

[00:16:47] E aí então ele volta para o Einstein com a ideia da geometria rimaneana, de espaços

[00:16:51] curvos.

[00:16:52] O Riemann foi aluno de Gauss.

[00:16:54] Gauss foi o primeiro a chegar em uma forma para curvatura, uma espécie de tensor de

[00:17:00] curvatura, que foi generalizado pelo Riemann.

[00:17:03] E aí tem o famoso caderno de Zurich, que é um caderno que Einstein começou a desenvolver

[00:17:07] formalmente a teoria da relatividade geral.

[00:17:09] Uma coisa interessante, porque tinha dois desenvolvimentos.

[00:17:12] Um que era o estilo de Einstein, que era baseado só em abordagem física, e em paralelo, quase

[00:17:18] que dialogando com a primeira parte, uma abordagem que era puramente usando essa matemática

[00:17:22] rimaneana.

[00:17:23] Então, na abordagem física, Einstein tentava sempre se amarrar com três princípios.

[00:17:27] Que a nova teoria tinha que ter um limite, quando o campo gravitacional fosse fraco,

[00:17:32] devia recair na gravitação Newtoniana.

[00:17:34] A segunda abordagem que a nova teoria tinha que ter era preservar a física clássica,

[00:17:39] que é basicamente as leis de conservação de energia e momento.

[00:17:41] E a terceira propriedade da abordagem física é que ela tinha que incluir o princípio de

[00:17:45] equivalência.

[00:17:46] Então, ele ia meio que no caderno dele, dialogando com essas duas abordagens.

[00:17:49] Aí ele pegava o desenvolvimento com essa nova geometria, com tensores, essa coisa que

[00:17:54] ele estava aprendendo a calcular, fazia a checagem com a abordagem física e, seguidamente,

[00:17:59] não dava certo.

[00:18:00] Porque Einstein cometia erros de cálculo.

[00:18:02] Então, eu sei que eles andaram com essa abordagem por algum tempo, até que em 1913

[00:18:07] ele e Grossmann publicam um artigo que tem um título, que é um esboço de uma teoria

[00:18:11] generalizada da relatividade e da teoria da gravitação, que no alemão foi chamada

[00:18:15] de Entwurf.

[00:18:16] No alemão significa esboço.

[00:18:18] Então, ser um esboço já mostra que ele está inseguro com essa nova teoria.

[00:18:21] E aí ele começa a fazer alguns estudos com essa teoria do Entwurf.

[00:18:25] E algumas coisas que um outro amigo dele, o Michel Besson, suspeitava que a teoria não

[00:18:30] fosse completamente co-variante.

[00:18:32] O que significa isso?

[00:18:34] Significa que referenciais acelerados não obedeceriam o princípio de relatividade.

[00:18:39] Ou seja, dois observadores acelerados não poderiam ter as mesmas leis a física.

[00:18:44] Ou seja, não é o movimento relativo deles que importa, mas a aceleração, a mesma

[00:18:48] aceleração que os dois possam ter.

[00:18:50] É, na realidade, Einstein até escreve numa carta, com essa teoria do Entwurf, que ele

[00:18:54] ainda não tinha certeza se era totalmente co-variante ou não.

[00:18:58] Ele achava que talvez a gravitação seja uma interação que não permite o princípio

[00:19:03] de relatividade.

[00:19:04] Ou apenas uma aproximação desse princípio.

[00:19:07] Esse princípio só seria verdadeiro para referenciais não acelerados.

[00:19:10] Então ele já está conformado, mas ele está acreditando que o poder de previsão dessa

[00:19:14] teoria está correto.

[00:19:15] Aí acontece o seguinte, com essa teoria cambaleante do Entwurf, ele é convidado para ir para

[00:19:19] a Universidade de Göttingen para dar uma série de palestras.

[00:19:22] Então durante uma semana inteira ele dá palestras de duas horas.

[00:19:26] Isso é um momento de prazer pessoal, científico e acadêmico para Einstein, porque ele comenta

[00:19:31] depois com Zanger, uma carta, que ele ficou maravilhado com a aceitação que a relatividade

[00:19:37] teve da sua nova teoria da gravitação pelos matemáticos.

[00:19:39] Eles entenderam completamente o que eu estava querendo dizer.

[00:19:41] Na platéia tinha uma pessoa importante, que era o David Hilbert, obviamente um dos maiores

[00:19:46] matemáticos do mundo na época.

[00:19:48] E o Hilbert acaba se apaixonando completamente pela ideia.

[00:19:51] Isso foi o grande dilema do Einstein a partir daí.

[00:19:55] E Hilbert conversa com Einstein e diz que ele quer começar a estudar esse assunto, porque

[00:20:00] Hilbert é matemático, então toda essa formação tensorial para ele não era uma coisa muito

[00:20:05] complicada.

[00:20:06] Aliás, era para ele até mais natural do que o próprio Einstein.

[00:20:08] E até ele comenta uma coisa engraçada, porque ele dizia que a física era um assunto muito

[00:20:12] complicado para ser deixado só para os físicos.

[00:20:15] Então o que acontece?

[00:20:16] De junho até outubro, observe que agora eu parei de falar em anos, eu estou falando em

[00:20:20] meses, então de junho para outubro Einstein e Hilbert começam a trocar cartas.

[00:20:24] Cartas perturbadoras para o Einstein, porque o Hilbert vai relatando os progressos que ele

[00:20:28] está tendo.

[00:20:29] E o Einstein está preso ainda com a velha teoria do Entwold.

[00:20:32] Ele começa a ver que tem furos, a teoria não é completamente covariante, ou seja,

[00:20:36] o princípio de relatividade não pode ser generalizado.

[00:20:39] E mais, ele consegue uma coisa que é mais perturbadora, ele consegue mostrar que a teoria

[00:20:44] dele não prevê o movimento anônimo de Mercúrio, que é a famosa precessão do periélio de

[00:20:49] Mercúrio.

[00:20:50] Por exemplo, Mercúrio orbitando o Sol faz uma trajetória elíptica, estática, estável.

[00:20:55] A gente sempre pensa nessa elipse, sempre do mesmo jeito no espaço.

[00:20:58] Só que essa elipse pode girar junto.

[00:21:01] O enxuário dela vai precessionando.

[00:21:03] Então ele não passa sempre no mesmo ponto.

[00:21:06] É o ponto do periélio que é o ponto mais próximo ao Sol.

[00:21:09] Ele vai orbitando junto.

[00:21:12] E aí se tu pegar as teorias de Newtonianos, mesmo introduzindo os cálculos de perturbação

[00:21:16] que já tinham se desenvolvido na água, ele não prevê tudo.

[00:21:19] Mas na época não se considerava isso como um furo da teoria Newtoniana.

[00:21:24] Não era considerado uma evidência de que se precisasse de uma nova teoria.

[00:21:28] As pessoas procuravam um planeta que tivesse entre Mercúrio e o Sol e tudo que ele cairia.

[00:21:32] Essa é uma outra explicação, mas a teoria veio e cubeu tudo isso.

[00:21:36] Mas era só o Einstein que considerava isso como uma evidência.

[00:21:39] Sim, sim, é a posterior, mas olhando de trás a frente é perfeito porque tu explica tudo.

[00:21:44] Era que isso podia ser previsto, esse número.

[00:21:46] Esse número é 0,43 segundos de arco por século.

[00:21:50] Que é bastante…

[00:21:51] Na época era uma fanção medir um transexual.

[00:21:53] Medir uma coisa dessas.

[00:21:54] Então ele esperava que isso sairia naturalmente da teoria dele.

[00:21:56] Aí quando ele fez o cálculo ficou decepcionado, que não deu certo.

[00:21:59] Aí ele está assim, entre dois focos.

[00:22:01] Porque na realidade a teoria dele está ruindo nas mãos dele.

[00:22:05] E tem o eminente matemático, o Hilbert, que está mandando cartas para ele.

[00:22:08] Está tendo avanços com os cálculos, usando tensores.

[00:22:11] E aparentemente está chegando próximo da teoria geral.

[00:22:14] Isso é outubro.

[00:22:16] Na sequência, outubro para novembro, ele recebe um convite para dar uma série de palestras.

[00:22:20] Todas as quintas-feiras, durante um mês, na Academia Cruciana de Ciências.

[00:22:24] Que ele já era membro.

[00:22:25] Então era um momento de grande deleite entre os acadêmicos.

[00:22:28] Porque era escolhido um tema e todos os demais assistiam as palestras desse acadêmico.

[00:22:32] Então eles deram um mês para Einstein falar sobre relatividade.

[00:22:34] E aí acontece uma coisa frenética.

[00:22:36] Por isso que é a chamada Revolução de Novembro.

[00:22:38] Einstein começa do zero.

[00:22:40] Ele finalmente abandona a abordagem física.

[00:22:42] Física e intuitiva.

[00:22:46] Física e intuitiva.

[00:22:47] E aí ele mergulha num campo que ele não conhece muito bem.

[00:22:49] Que ele está aprendendo, mas que ele usa.

[00:22:51] Que é puramente matemático.

[00:22:53] Ele achava que não existia um grande brilho em fazer a parte matemática.

[00:22:57] A coisa mais nobre eram os princípios físicos.

[00:23:00] Ele agora, nessa virada para chegar na Relatória Geral, ele abre mão disso.

[00:23:04] Ele tem que mergulhar na matemática e começa a calcular coisas.

[00:23:07] É como se ele concedeu uma primazia para a matemática.

[00:23:10] Mas como o Dirac sempre considerou.

[00:23:12] Mas ele levou um tempo para chegar lá.

[00:23:14] Ele levou um tempo.

[00:23:15] E sem falar que nesse meio tempo, o primeiro casamento dele estava indo para o Brejo.

[00:23:19] Ele estava se separando.

[00:23:20] E como ele tinha todo esse drama pessoal.

[00:23:22] Ele estava afastado da família.

[00:23:24] E muito embora ele estava morando num apartamento que era muito confortável.

[00:23:27] Espaçoso e pouco mobiliado.

[00:23:29] Que ele alogou para trabalhar durante esse período na nova formação matemática dele.

[00:23:33] Enquanto você desse a separação.

[00:23:36] Bom, então ele dá as quatro palestras.

[00:23:38] Agora não é mais um avanço mês a mês.

[00:23:41] Agora é semana a semana.

[00:23:42] Então a primeira palestra é de 4 de novembro.

[00:23:45] Então se vocês não se importarem eu vou ler a abertura dele.

[00:23:48] Ele diz assim.

[00:24:09] Quando ele volta para a abordagem matemática.

[00:24:11] Ele viu que o Grosvenor estava muito perto da solução que podia levar até o IA Geral.

[00:24:15] E aí quando finalmente ele termina essa palestra.

[00:24:17] Na primeira semana de novembro, dia 4 de novembro.

[00:24:19] Ele manda uma cópia da palestra para o Hilbert.

[00:24:22] Ele começa a contra-atacar.

[00:24:23] O Hilbert estava só mandando cartas dizendo que estava avançando.

[00:24:26] Mesmo assim, como ele está inseguro.

[00:24:28] Ele escreve uma observação que ele estaria curioso.

[00:24:32] Para saber se o Hilbert aceitaria essa nova solução com facilidade.

[00:24:36] Na semana seguinte, 11 de novembro, sete dias depois.

[00:24:39] Na segunda palestra, Einstein então representa já o primeiro passo matemático quase avançado.

[00:24:45] Ele mostra já a formulação tensorial, característica da relatividade geral.

[00:24:49] Isso é uma coisa que ele fez naquela semana.

[00:24:51] Lembrem que em outubro ele descobre que o Antwerp não dá certo.

[00:24:55] E aí ele volta para o caderno de Zurich e esquece a abordagem física.

[00:24:58] E fica só na abordagem matemática.

[00:25:00] Então ele mergulha nas equações e tenta procurar uma covariança geral.

[00:25:03] Ou seja, estender matematicamente o princípio de relatividade para todos os observadores.

[00:25:07] E aí o que acontece?

[00:25:09] Ele manda uma cópia dessa segunda palestra para o Hilbert.

[00:25:12] Só que no mesmo dia, ele recebe uma carta do Hilbert.

[00:25:14] O Hilbert diz assim, eu estou pronto para fornecer uma solução axiomática para o seu grande problema.

[00:25:20] E ainda convida o Einstein para ir para Gatting, para ficar hospedado na casa dele.

[00:25:25] Para ele ter o prazer de expor a teoria pessoalmente para ele.

[00:25:28] Não se sabe bem a reação do Einstein, mas deve ter sido uma grande frustração.

[00:25:33] Mas hoje, em retrospecto, o que o Hilbert desenvolveu era uma teoria equivalente?

[00:25:39] Era uma teoria…

[00:25:40] É, exatamente.

[00:25:41] Ele chegou numa solução covariante.

[00:25:43] Mas é que Einstein chegou um pouquinho antes.

[00:25:45] Uma semana antes.

[00:25:46] E o alcance da desenvolvimento do Hilbert não era tão amplo nos termos físicos.

[00:25:50] Era mais uma dedução matemática em cima daquele modelo.

[00:25:53] Exatamente.

[00:25:54] É o princípio de covariança geral.

[00:25:56] Então, no fundo, a parte matemática ele conseguia.

[00:25:58] Mas faltaria ainda o know-how físico.

[00:26:00] Então, na palestra de 18 de novembro…

[00:26:02] De novo, agora uma semana depois.

[00:26:04] Einstein, nessa uma semana, recalculou com a nova teoria dele.

[00:26:08] Agora, com a formação tensorial.

[00:26:10] Ele calculou o problema do periélio de Mercúrio.

[00:26:12] Essa dióxia a gente conhece hoje como a teoria de relatividade geral.

[00:26:15] Preciso explicar para os ouvintes que normalmente quando a gente dá uma palestra sobre um assunto

[00:26:19] qual foi convidado, a gente não resolve os problemas finais dela, tipo na semana anterior.

[00:26:23] A gente prepara o que já está publicado, bem garantido.

[00:26:26] Mais ou menos. Às vezes a gente vai num congresso.

[00:26:29] No congresso, sim.

[00:26:30] E o trabalho está sendo feito enquanto o palestrante anterior está falando.

[00:26:34] Mas nesse caso foi realmente tempo real.

[00:26:36] É quase tempo real.

[00:26:37] Mas lembre que é o caderno de Zurich.

[00:26:39] O caderno de Zurich tinha as duas abordagens.

[00:26:41] É que ele estava dando mais ênfase para aquela que ele considerava física.

[00:26:44] A matemática ele deixou para o segundo plano.

[00:26:46] Quando a física não deu certo, ele concentrou todos os esforços na matemática.

[00:26:49] Então, 18 de novembro de 1915, ele apresenta o cálculo da precessão do periélio.

[00:26:54] E bate em cima, 43 segundos de arco por cento.

[00:26:57] Aí ele manda uma carta para Ernest, dizendo que quando ele chegou nesse número,

[00:27:01] ele pensou que iria ter um troço.

[00:27:03] A alegria dele foi imensa.

[00:27:05] Finalmente estava certo o caminho que ele tinha escolhido.

[00:27:07] E na mesma palestra ele apresenta o cálculo de desvio da luz.

[00:27:10] 1,7 segundos de arco.

[00:27:11] O dobro que ele tinha calculado.

[00:27:13] Corrigiu.

[00:27:14] Que essa é a previsão que vai ser testada em 19.

[00:27:17] Em 19, exatamente.

[00:27:18] Inclusive medido no Brasil também.

[00:27:20] Marcialmente.

[00:27:21] Aí nessa nova palestra ele apresenta isso aqui.

[00:27:23] Ele manda uma carta para Hilbert.

[00:27:25] Aí em 18 de novembro ele recebe a resposta.

[00:27:27] Hilbert dão-nos parabéns.

[00:27:29] Então ele reconhece que Einstein chegou primeiro.

[00:27:31] Agora isso não impediu de tempos depois o Hilbert publicar a teoria dele.

[00:27:34] Com o modesto título de fundamentos da física.

[00:27:37] Mas, realmente, nessa corrida o Einstein venceu.

[00:27:39] Aí, 25 de novembro, de novo, uma quinta-feira, uma semana depois,

[00:27:42] que ele conseguiu calcular o periélio de mercúrio,

[00:27:45] ele finalmente apresenta a síntese, que é a sua teoria final.

[00:27:49] É a equação que hoje a gente conhece como a relativa geral.

[00:27:52] Quer dizer, na semana anterior ele deu os resultados,

[00:27:55] mas não apresentou nada de concreto sobre como é que…

[00:27:57] Ele foi mostrando assim, foi um desenvolvimento.

[00:28:00] Mas aí, na última semana, ele sintetizou tudo.

[00:28:03] Uma coisa que é interessante na teoria de relatidade

[00:28:06] é que ela não segue aquele caminho que normalmente se atribui ao método científico.

[00:28:10] Existem problemas experimentais e aí vão procurar uma nova teoria que explique isso.

[00:28:16] A relatidade ela fez exatamente o contrário.

[00:28:18] O Einstein, tentando encaixar alguns princípios físicos

[00:28:21] sem, basicamente, nenhum resultado que dissesse que a teoria da gravitação Newtoniana tivesse errada,

[00:28:26] ele fez essa nova teoria.

[00:28:28] Tinha o periélio de mercúrio, mas não era considerado como um problema na época.

[00:28:32] Sim, era um problema de precisão.

[00:28:34] É, e que talvez tivesse uma solução alternativa dentro da teoria Newtoniana.

[00:28:38] Então, o Einstein seguiu esse caminho invertido.

[00:28:41] Vamos primeiro propor uma teoria e que vai ser depois…

[00:28:46] Esse caminho é meio caracterizado por unificações.

[00:28:50] Ele tem uma série de fenômenos que estão explicados.

[00:28:53] Quer dizer que não existia uma teoria de crise, como se faz normalmente.

[00:28:57] Vamos procurar um novo paradigma para solucionar essa crise.

[00:29:02] É, uma tentativa de unificação.

[00:29:04] Ele tem uma teoria que explica bem alguns fenômenos,

[00:29:06] tem uma outra teoria que explica bem alguns fenômenos,

[00:29:09] mas elas, de alguma forma, não estão encaixando.

[00:29:11] O ponto que você falou da crise, eu acho que a crise era mais o próprio Einstein.

[00:29:14] Como eu falei logo no início, ele estava se debatendo com a mecânica quântica que estava nascendo,

[00:29:19] e ele começou, com o passar do tempo, a não gostar mais como a comunidade científica

[00:29:23] estava conduzindo a explicação dos fenômenos quânticos.

[00:29:26] Então, ele começou a se afastar um pouco, mas isso vai se acentuar mais tarde na vida dele,

[00:29:30] quando finalmente ele se afasta completamente do desenvolvimento da mecânica quântica.

[00:29:34] Eu acho que isso deu espaço para ele…

[00:29:36] É, porque ele trabalhava em todas as frentes.

[00:29:38] Se você for olhar a história de publicações dele,

[00:29:40] ele publica em praticamente todas as áreas de pesquisa relevantes.

[00:29:43] Então, ele tem coisas em maneira condensada, mecânica estatística,

[00:29:47] ele tem o guia da radiação, mesmo o início da mecânica quântica.

[00:29:51] Ele tem trabalhos, bom, na relatividade em si.

[00:29:53] Quem ataca em tantas frentes, ele não pode mergulhar tão profundo como ele mergulhou na relatividade geral,

[00:29:58] quando ele abriu espaço para só estudar esse assunto.

[00:30:01] Tá bom, então esse foi o programa Fronteiras da Ciência.

[00:30:03] Hoje a gente discutiu um pouco do histórico da relatividade geral de Einstein.

[00:30:07] E o convidado de hoje foi o Dmitry Radimichev, que é aqui do Departamento de Física da URGES,

[00:30:13] e o pessoal do programa, o Jorge Kielfeld, da Biofísica,

[00:30:16] e o Marco de Arte e o Jéfer Soranzon, da Física da URGES.