Frontdaciência - T07E11 - Jornada nas Estrelas (Star Trek): 50 anos


Resumo

O episódio é uma homenagem aos 50 anos da série Star Trek (Jornada nas Estrelas), que estreou em 8 de setembro de 1966. Os participantes discutem como a série, criada por Gene Roddenberry, começou com a ambição de usar um futuro ficcional para discutir questões sociais do presente, como o primeiro beijo inter-racial na TV americana. Apesar de uma percepção inicial de fracasso, novos estudos baseados em documentos de Roddenberry revelam que a série original tinha audiência respeitável na NBC, mas foi prejudicada por conflitos criativos e horários ruins.

A conversa traça a trajetória da franquia após o cancelamento da série original. As reprises nos anos 70, impulsionadas pelo interesse no programa espacial real, levaram a um fenômeno de culto. Isso resultou em uma série animada, filmes com o elenco original e, posteriormente, nas séries derivadas: ‘Star Trek: The Next Generation’ (considerada por muitos a melhor), ‘Deep Space Nine’ (pioneira em narrativas seriadas e conflitos entre personagens), ‘Voyager’ (que tentou resgatar o espírito de aventura da original) e ‘Enterprise’ (a primeira a ser cancelada desde a original).

Os participantes analisam as características de cada série derivada. ‘Deep Space Nine’ é destacada por sua narrativa serializada e por contornar a regra de Roddenberry de não haver conflitos entre humanos da Frota Estelar, usando personagens alienígenas como protagonistas. ‘Voyager’, apesar de uma premissa promissora (uma nave perdida no quadrante Delta), acabou sendo uma continuação convencional de ‘The Next Generation’ e sofreu com a baixa penetração da rede UPN.

O episódio também aborda a produção de fãs na internet, como ‘Star Trek Continues’ (que recria fielmente a estética da série original) e ‘Axanar’ (que foi processada pela Paramount por sua alta qualidade). Por fim, discute-se o anúncio de uma nova série para 2017, com a expectativa de que, sob o comando de Brian Fuller (roteirista veterano de ‘Deep Space Nine’ e ‘Voyager’), possa combinar sensibilidade moderna com respeito às raízes da franquia.


Indicações

Livros

  • Livro de Mark Hushman sobre a criação de Star Trek — Mencionado por Salvador Nogueira, é uma pesquisa em três volumes baseada em documentos de Gene Roddenberry que descontrói a ideia de que a série original foi um fracasso de audiência.
  • Almanaque da Jornada nas Estrelas — Livro escrito por Salvador Nogueira e Suzana Alexandria, mencionado como um guia abrangente com 50 capítulos cobrindo todas as temporadas, séries e filmes da franquia.

Pessoas

  • Gene Roddenberry — Criador de Star Trek, descrito como ambicioso, teimoso e com o objetivo de usar a ficção científica para criticar a sociedade, à maneira de Jonathan Swift.
  • Brian Fuller — Roteirista anunciado como showrunner da nova série de 2017. É visto com otimismo por ter escrito para ‘Deep Space Nine’ e ‘Voyager’, trazendo experiência com a franquia.

Series

  • Star Trek Continues — Produção de fãs na internet que recria fielmente a estética e os personagens da série original, com episódios que poderiam ser aceitos como parte do cânone oficial.
  • Axanar — Outra produção de fãs de alta qualidade que, segundo o episódio, ficou tão boa que a Paramount moveu um processo por violação de direitos autorais.
  • Babylon Five — Série contemporânea a ‘Deep Space Nine’, também ambientada em uma estação espacial. Houve alegações de ideias roubadas, mas as séries são consideradas diferentes.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução e homenagem aos 50 anos de Star Trek — O programa apresenta uma homenagem ao seriado Star Trek, que completou 50 anos em 2016. Discute-se como a série motivou fãs e influenciou carreiras científicas e tecnológicas. O convidado especial é Salvador Nogueira, jornalista e co-autor de um almanaque sobre a série.
  • 00:01:01O mito do fracasso inicial e os conflitos com a NBC — Salvador Nogueira descontrói a ideia de que Star Trek foi um grande fracasso desde o início. Baseado em pesquisas recentes de Mark Hushman, ele explica que a série tinha boa audiência na primeira temporada na NBC. A queda veio com mudanças para horários ruins (sexta-feira à noite) e devido a conflitos entre o criador Gene Roddenberry, teimoso e ambicioso, e a rede televisiva.
  • 00:03:57A ambição social de Roddenberry e o primeiro beijo inter-racial — Discute-se a ambição de Roddenberry de ser um ‘Jonathan Swift moderno’, usando a ficção científica para criticar a sociedade. Um exemplo marcante foi o primeiro beijo entre uma pessoa negra (Tenente Uhura) e um branco (Capitão Kirk) na TV americana, filmado de forma a minimizar controvérsias nos anos 60.
  • 00:05:23Conceito, criação e o fenômeno das reprises — Salvador detalha o conceito original de Roddenberry: uma ficção científica séria e futurista ambientada no século 23. Após o cancelamento com 79 episódios, as reprises em horários melhores a partir de 1970, somadas ao entusiasmo com a chegada do homem à Lua, causaram uma explosão de interesse e transformaram a série em um fenômeno de culto.
  • 00:08:01A ressurreição: animação, filmes e ‘The Next Generation’ — A NBC tentou ressuscitar a série primeiro com uma animação (onde Leonard Nimoy exigiu o retorno de todo o elenco). Após o sucesso de ‘Star Wars’, a franquia migrou para o cinema. O sucesso dos filmes levou a Paramount a criar uma nova série de TV, resultando em ‘Star Trek: The Next Generation’, um enorme sucesso que popularizou a franquia para o público geral.
  • 00:10:17O surgimento de ‘Deep Space Nine’ e sua narrativa serial — Para substituir ‘The Next Generation’, foi criada ‘Deep Space Nine’, ambientada em uma estação espacial. A série é elogiada por sua narrativa serializada e por contornar a regra de Roddenberry de não haver conflitos entre humanos, usando alienígenas como protagonistas (como o Ferengi Quark e a Bajoriana Kira). É considerada precursora do estilo narrativo moderno.
  • 00:19:01‘Voyager’: premissa promissora e problemas de distribuição — ‘Voyager’ tinha uma premissa forte (uma nave perdida no quadrante Delta com uma tripulação mista de Frota Estelar e rebeldes Maquis), mas acabou sendo uma continuação convencional de ‘The Next Generation’. Além disso, sofreu por ser o carro-chefe da rede UPN, que tinha baixa penetração nacional, limitando sua audiência.
  • 00:24:54O declínio e cancelamento de ‘Enterprise’ — A série ‘Enterprise’ (um prequel) foi lançada muito rapidamente após ‘Voyager’ e continuou a tendência de queda de audiência das séries modernas. Foi a primeira série desde a original a ser cancelada, encerrando seu ciclo na TV após quatro temporadas, pouco antes do fim da rede UPN.
  • 00:26:11Produções de fãs: ‘Star Trek Continues’ e ‘Axanar’ — São discutidas produções de fãs de alta qualidade, como ‘Star Trek Continues’, que recria fielmente a estética e os personagens da série original com atores profissionais, e ‘Axanar’, que foi tão bem produzida que a Paramount moveu um processo por violação de direitos autorais.
  • 00:29:08Expectativas para a nova série de Star Trek (2017) — Comenta-se o anúncio de uma nova série para 2017. A contratação de Alex Kurtzman (do reboot cinematográfico) traz uma sensibilidade moderna, mas a adição de Brian Fuller (ex-roteirista de ‘Deep Space Nine’ e ‘Voyager’) como showrunner gera esperança de um produto que respeite as raízes da franquia.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2016-05-16T13:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:13] No programa Fronteiras da Ciência de hoje, a gente vai fazer uma homenagem ao seriado

[00:00:17] Star Trek, que estreou dia 8 de setembro de 1966 e motivou muitos fãs de ciência e,

[00:00:25] até hoje, ele é bastante interessante, principalmente no mundo nerd.

[00:00:28] Motivou não só fãs, mas pessoas que seguiram carreiras científicas e tecnológicas por

[00:00:33] causa da construção de naves espaciais, com todo mundo nessa mesa e praticamente

[00:00:38] todo mundo na NASA, que nos coloca em boa companhia.

[00:00:40] Isso, exatamente.

[00:00:41] Então, para conversar sobre Star Trek, a gente convidou o Salvador Nogueira, que ele

[00:00:46] é jornalista e escritor.

[00:00:47] Ele escreveu o almanac da jornada nas estrelas junto com o Suzana Alexandria, o pessoal do

[00:00:52] programa, o Jorge Kylfell, da biofísica, eu, o Marco de Arte e o Jefferson Anzon, da

[00:00:56] física da Urix.

[00:00:57] Então, eu queria começar dando as boas-vindas para o Salvador e tu contasse um pouco como

[00:01:01] é que tu percebe o começo da série, porque, por exemplo, na minha opinião, a série foi

[00:01:05] um grande fracasso.

[00:01:06] Eu acho que a história de jornada nas estrelas, a história de Star Trek como queiram, hoje

[00:01:10] em dia eles estão tentando fazer o rebranding no Brasil para chamar tudo de Star Trek.

[00:01:14] Mas, enfim, essa percepção de que Star Trek começou como um fracasso, tá sendo um pouco

[00:01:19] desconstruída.

[00:01:20] Muito recentemente saiu um livro fantástico de um escritor chamado Mark Hushman, que ele

[00:01:25] teve acesso a todos os documentos, toda a papelada deixada pelo Gene Roddenberry, criador

[00:01:30] de Star Trek, e esse escritor pegou todos os memorandos antigos da série, escreveu

[00:01:35] três volumes contando toda a trajetória da criação da série.

[00:01:39] Durante muito tempo, os fãs acreditaram que Jornada nas Estrelas tinha sido cancelada

[00:01:44] nos Estados Unidos depois da terceira temporada e já tinha sido ameaçada de cancelamento

[00:01:48] nas temporadas anteriores, basicamente por esses deficientes de audiência.

[00:01:53] Precisa lembrar que tinha três grandes redes de televisão nos Estados Unidos naquela época.

[00:01:57] Jornada nas Estrelas era exibido pela NBC, mas durante boa parte da primeira temporada

[00:02:01] era a série que saía em primeiro lugar no seu horário, em muitos dos programas ela

[00:02:05] ficou em segundo lugar e quase nunca ela ficou na terceira posição.

[00:02:09] Então, quer dizer, era uma série que tinha uma audiência bem bacana na primeira temporada,

[00:02:13] na segunda temporada teve uma ligeira queda porque eles trocaram para sexta-feira, que

[00:02:18] é um dia ruim, e na terceira temporada aí sim destruíram a audiência porque jogaram

[00:02:23] para sexta-feira às 10h da noite, imagina um programa de televisão de ficção científica

[00:02:26] voltado para o público jovem que vai ser exibido sexta-feira às 10h da noite.

[00:02:30] Nos anos 60.

[00:02:31] Nos anos 60, não tinha ninguém em casa para assistir esse programa nessa hora.

[00:02:34] Tu achas que isso aconteceu por algum problema dentro da NBC?

[00:02:38] O consenso que tinha que a NBC tinha que matar o programa.

[00:02:42] Isso.

[00:02:43] O que o Mark Hushman apurou com os documentos do Rodenberry é que a NBC tinha um extremo

[00:02:47] desconforto com Jornada nas Estrelas por conta de conflitos com o Rodenberry, que era um

[00:02:52] que era muito cabeça dura, a NBC mandava notas para alterações nos roteiros, muitas

[00:02:57] vezes elas não eram seguidas, elas eram contrariadas, elas eram contornadas, então

[00:03:02] existia um conflito muito grande, mas não faz bem para você conseguir que uma rede

[00:03:07] de televisão banque, o seu programa, se você ficar tratando quem decide como idiota

[00:03:11] completo.

[00:03:12] Então acha que esses conflitos que apareciam era mais por causa do Rodenberry ou era porque

[00:03:18] a série introduziu alguns conceitos talvez um tanto liberais?

[00:03:21] Sem dúvida que foi isso.

[00:03:24] A questão é a seguinte, o Rodenberry tinha uma ambição criativa que ele não estava

[00:03:29] afim de comprometer, ele queria ser um Jonathan Swift dos tempos modernos, Jonathan Swift

[00:03:33] para quem não sabe foi o cara que escreveu As Viagens de Gulliver, que é uma grande série

[00:03:37] de metáforas para criticar a sociedade do seu tempo.

[00:03:40] E o Rodenberry queria fazer exatamente a mesma coisa com Jornada nas Estrelas, ele queria

[00:03:44] usar aquele template do futuro para poder discutir questões do presente de uma forma

[00:03:49] que não fosse censurada pelas redes de televisão.

[00:03:53] Só que óbvio, nem sempre elas eram tão sutispe.

[00:03:57] Não custa lembrar que Jornada nas Estrelas foi responsável pelo primeiro beijo entre

[00:04:01] uma negra e um branco na televisão americana.

[00:04:04] Se bem que você é um beijo meio disfarçado, né?

[00:04:06] É um beijo divorçado, eles não estão fazendo de livre espontânea a vontade, de

[00:04:10] o que tiram pouco, valor dramático do negócio.

[00:04:13] E também na hora de filmar ele foi filmado de uma forma para não ofender, veja você,

[00:04:17] a sensibilidade dos racistas do sul dos Estados Unidos que podiam ficar incomodados com aquilo

[00:04:24] nos anos 60.

[00:04:25] Apesar desses senões, a gente tem que admirar a coragem de você insistir em fazer esse

[00:04:30] tipo de coisa.

[00:04:31] Sim, mas deixa eu falar, eu falei do começo do fracasso, porque pelos números foi um

[00:04:35] seriado que não foi muito premiado e durou só três anos, isso é raro, né?

[00:04:38] Tem que ser muito ruim para durar só três anos de televisão americana.

[00:04:41] Hoje em dia?

[00:04:42] É, mas isso é hoje em dia, naquela época.

[00:04:45] E a gente tem que ver que hoje existe todo um espectro de programação, por exemplo,

[00:04:50] você pode ser um programa barato de TV a cabo e durar para sempre, mas é porque você

[00:04:55] só tem três redes de televisão e você só tem aquele local para exibir, você não

[00:05:00] tem TV a cabo, você não tem internet, você não tem mais nada e você está numa concorrência

[00:05:05] ferrenha pela audiência, na televisão aberta americana até hoje, a imensa maioria dos

[00:05:10] programas é cancelada depois de dez episódios.

[00:05:13] Mas nos conta um pouquinho assim a história da série, não teve só a série original,

[00:05:18] ela teve várias séries, quantos episódios tem, alguns dados para nos situar um pouco.

[00:05:23] O que aconteceu foi o seguinte, primeiro tinha esse cara chamado Gene Roddenberry que

[00:05:27] queria contar histórias num framework de futuro, histórias de ficção científica

[00:05:31] sérias, uma coisa que ainda não se fazia na televisão da época, o limite que você

[00:05:35] tinha era alguma coisa do tipo além da imaginação, que eram antologias de histórias que misturavam

[00:05:40] um pouco de ficção, um pouco de fantasia, um pouco de terror, mas ele queria fazer

[00:05:44] uma ficção científica futurista que pudesse ser levada a séria, não como o Perdidos

[00:05:49] no Espaço que era quase uma sátira, mas uma ficção séria mesmo e ele propôs esse

[00:05:52] formato que é basicamente uma espaçonave tripulada por humanos num futuro 200, 300

[00:05:58] anos mais para frente, depois ficou definido que ia ser ambientada no século 23 e que

[00:06:03] mostrasse as aventuras de um grupo de humanos representantes de uma federação que consiste

[00:06:08] em vários planetas explorando o espaço, investigando o desconhecido e com isso desafiando

[00:06:14] a própria condição humana, tentando entender como nós somos a partir do que nós encontramos

[00:06:19] lá fora. Bom, esse era o conceito, a grande dificuldade na época foi ele mostrar que

[00:06:23] aquilo era viável de se fazer, que dava para você fazer com um orçamento de televisão,

[00:06:28] ele propôs a ideia de desenvolvimento de mundos paralelos para que a Enterprise visitasse

[00:06:33] sempre planetas meio parecidos com a Terra e assim não tivesse tanto custo para criar

[00:06:37] cenários e adereços e essa série durou três temporadas e no que ela foi cancelada

[00:06:43] ela já tinha uma quantidade de episódios para que ela entrasse em reprises, se você

[00:06:47] faz uma série que tem 10 episódios e é cancelada, ninguém vai reprisar aquele troço,

[00:06:51] agora se você já tem 79 episódios como foi o caso da série original, você começa

[00:06:55] a reprisar esses episódios na televisão e quando eles começaram a reprisar eles em

[00:06:59] outros horários, horários melhores, mais acessíveis, a partir de 1970, o que a gente

[00:07:04] viu foi uma explosão de interesse em Star Trek, também é importante dizer que foi

[00:07:09] um momento em que a realidade começava a aparecer e querer chegar perto do que Jornada nas Estrelas

[00:07:15] estava falando, porque aquela altura a gente já tinha visto o homem pisar na lua, existia

[00:07:19] todo um entusiasmo com relação ao programa espacial e Star Trek de repente se tornou

[00:07:24] uma espécie de um fenômeno oculto.

[00:07:26] E também tinha aparecido o 2001 que revolucionou a linguagem visual toda da área, né?

[00:07:32] 2001 inclusive foi exibido na mesma época da segunda temporada de Jornada das Estrelas,

[00:07:36] 1968.

[00:07:37] Quase imediatamente depois do cancelamento a NBC se arrependeu, porque ela descobriu

[00:07:41] que uma análise demográfica daquela audiência via que apesar da audiência de Jornada nas

[00:07:46] Estrelas estar caindo, ela atingia exatamente o público que o anunciante queria, que era

[00:07:50] o jovem do sexo masculino entre 25 e 35 anos, que era o público mais ambicionado pelos

[00:07:56] anunciantes de televisão, então imediatamente percebeu que tinha feito uma besteira, tentou

[00:08:01] ressuscitar a série primeiro com uma série de desenhos animados que foram exibidos sábado

[00:08:05] de manhã, teve 22 episódios, o Gene Rottenberg foi chamado de volta, os atores originais

[00:08:10] também foram gravar as vozes.

[00:08:12] Agora, a animação era bem tosca, ela chegou a ganhar um M de melhor série infantil,

[00:08:18] mas de infantil ela não tinha nada, ela era basicamente uma versão de desenho animado

[00:08:21] da série antiga.

[00:08:23] Tem uma historinha de bastidor que de início eles queriam trazer só o Kirk, o Spock e

[00:08:28] o ator do Spock, Leonard Nimoy, ele brigou e ele falou eu não volto se não voltarem

[00:08:32] os demais, e aí a Paramount teve que trazer todo mundo de volta, o único que não voltou

[00:08:37] como personagem que era o Chekov, o Walter Koenig, ele contribuiu com a série escrevendo

[00:08:42] um dos roteiros da série, mas enfim, essa série durou entre 73 e 74 e depois disso

[00:08:48] começaram as discussões para ressuscitar realmente a série, primeiro com uma nova

[00:08:52] série de televisão com o mesmo elenco e depois que o George Lucas arrebentou com a

[00:08:57] boca do balão com Star Wars, eles disseram não, isso aqui é um projeto de cinema e

[00:09:00] daí nasceu o primeiro filme de Jornada nas Estrelas em 79 com esse elenco original.

[00:09:06] A partir daí, com o sucesso do primeiro filme, começaram a sair vários filmes subsequentes

[00:09:10] com a mesma tripulação e ao mesmo tempo a Paramount, que era o estúdio responsável

[00:09:14] pelo programa, falou poxa, a gente precisa ganhar dinheiro na televisão também e tiveram

[00:09:18] a ideia de fazer uma nova série, só que não dava para pegar os atores originais que

[00:09:22] à essa altura eles estavam no cinema, estavam muito caros, então eles decidiram, chamaram

[00:09:25] Roddenberry e falaram, crie uma nova série de Star Trek e aí nasceu o conceito das séries

[00:09:31] derivadas de Jornada nas Estrelas, essa primeira se chamava Jornada das Estrelas a Nova Geração,

[00:09:36] Star Trek The Next Generation e foi um sucesso absurdo de audiência.

[00:09:41] É, na minha opinião ainda a melhor de todas elas, que eu não sei o que tu acha.

[00:09:44] Como construção narrativa e como inovação, eu também prefiro a Nova Geração, mas acima de tudo,

[00:09:51] foi a série de Jornada das Estrelas que passou a ser um lugar comum das pessoas em geral,

[00:09:56] quer dizer, furou aquela restrição que normalmente boa parte do público tem com a ficção científica

[00:10:01] e quando eles pensaram, bom, essa série vai ter que acabar uma hora, porque os atores

[00:10:05] vão ficando cada vez mais caros, não foi por falta de audiência, ela poderia ter continuado

[00:10:09] por muito mais temporadas, mas o custo com mais a ficar maior e os caras falam, poxa,

[00:10:13] a gente já sabe que fazer uma outra série de Jornada das Estrelas funciona, então

[00:10:17] o que nós vamos fazer?

[00:10:18] Esses caras estão ficando mais caros, levar eles para o cinema, substituir os velhinhos

[00:10:21] lá da série original que já não estão aguentando, aí a gente cria uma outra série

[00:10:26] para substituir essa, e foi isso que eles fizeram, aí criaram Deep Space Nine, que

[00:10:30] é um conceito diferente, é uma série que em vez de ser numa espaçonave é numa estação

[00:10:34] espacial na fronteira do espaço conhecido.

[00:10:36] O grande problema com Deep Space Nine era o fato de que não tinha as viagens, logo não

[00:10:41] tinha a grande variabilidade de seres, mas eles tentaram compensar isso botando um buraco

[00:10:45] de minhoca do lado da estação, assim você podia ter contato com alienígenas diferentes.

[00:10:50] Esse tipo era diferente, era para ser uma história onde você podia construir mais

[00:10:53] a fundo os personagens e contar histórias mais no nível de uma Space Opera, uma novela

[00:10:58] sequenciada.

[00:10:59] É, mas era mais relações dos habitantes da estação espacial.

[00:11:03] Eu acho até que começou um pouco mais devagar, mas eu sou até parcial para dizer, se tem

[00:11:07] uma série de Jornada das Estrelas que a narrativa resiste ao teste do tempo e ela até prefigura

[00:11:13] Alguns dos estilos que iam imperar na televisão mais adiante é justamente Deep Space Nine

[00:11:19] com essa história de uma narrativa serial que você tem uma continuidade maior entre

[00:11:23] os episódios e eu acho assim, ela foi uma grande celebração daquele universo que estava

[00:11:27] construindo.

[00:11:28] A série original criou os alicerces, ela criou a estrutura do universo.

[00:11:32] A nova geração explorou aquele universo de uma maneira incrível, em quase 200 episódios

[00:11:38] explorou a nossa região da galáxia e Deep Space Nine foi a hora de colher os frutos

[00:11:43] disso.

[00:11:43] Então você tem algumas culturas que já estão extremamente desenvolvidas como a dos Klingons,

[00:11:48] algumas que mereciam estar mais desenvolvidas como a dos Ferengue e você introduz alguns

[00:11:53] elementos novos como os cardacianos, os bajorianos, tinham sido mencionados perifericamente na

[00:11:59] nova geração e você coloca eles no centro do palco e de repente você tem ali uma grande

[00:12:04] celebração que é o universo de Jornada das Estrelas.

[00:12:08] A Deep Space Nine foi uma das precursoras desse estilo narrativo que hoje predomina

[00:12:13] em praticamente todas as séries de televisão.

[00:12:14] Mas ela não funcionou bem desde o início, né, acho que ela pegou um momento mais adiante.

[00:12:20] Talvez seja essa a diferença, eu peguei só as primeiras temporadas e não assisti as

[00:12:23] últimas temporadas.

[00:12:24] O começo da série foi meio devagar, mas ainda assim eu acho que ela tinha um valor

[00:12:29] incrível que era da exploração do universo interno dos personagens.

[00:12:34] Gene Roddenberry, quando ele criou a série original ele só queria fazer uma série futurista.

[00:12:38] Quando ele chegou na nova geração ele estava mais velho, ele já estava mais amadurecido

[00:12:42] com relação à própria criação dele e ele se convenceu de que Jornada das Estrelas

[00:12:46] era uma história sobre seres humanos atingindo algum tipo de nirvana humanista, em que não

[00:12:53] existem conflitos entre os tripulantes da frota estelar, todos eles vivem muito bem

[00:12:58] obrigado, todos eles vão explorar o universo juntos, irmanados, aquele espírito que já

[00:13:02] existia na série original mas de uma forma muito mais suave.

[00:13:06] Você não tinha mais aquelas discussões entre o Mako e o Spock que ficaram tradicionais

[00:13:10] na série original, você não tinha conflito entre os personagens, era uma regra do jogo.

[00:13:15] Se você vai escrever para Jornada das Estrelas, não existe conflito entre os personagens

[00:13:18] principais.

[00:13:19] Isso para os roteiristas era de arrancar os cabelos, como é que eu vou fazer 45 minutos

[00:13:24] de drama se eu não posso deixar os personagens discutirem uns com os outros?

[00:13:28] E muita gente sofria com isso e queria derrubar essa regra.

[00:13:31] Na hora que eles foram criar Deep Space Nine, como é que eles contornaram essa regra?

[00:13:35] O único jeito de a gente contornar a regra, respeitando o fato de que esse é o universo

[00:13:40] do Roddenberry, ele criou, foi trazer personagens alienígenas para serem alguns dos protagonistas.

[00:13:46] Personagens que não estão na frota estelar.

[00:13:48] Então você pega o Quark, que é um trambiqueiro Ferengue, que é o bartender da estação

[00:13:53] espacial, a Major Kira, que é uma bajoriana local, que era basicamente uma terrorista

[00:13:58] enquanto os Cardassianos tinham invadido o planeta dela e agora estava tentando reconstruir

[00:14:02] o planeta.

[00:14:03] Então você pega esses alienígenas, mistura eles com a frota estelar e aí você pode ter

[00:14:07] conflito.

[00:14:08] Então desde o início, apesar de Deep Space Nine começar devagar do ponto de vista de

[00:14:11] enredos, ela já tinha essa semente dramática que era você poder ter conflitos entre os

[00:14:17] personagens principais.

[00:14:18] Isso aí ao longo do tempo se torna uma das marcas da série e funciona maravilhosamente

[00:14:23] porque aí de certa forma até realça o fato de que os humanos supostamente deveriam

[00:14:28] ter uma sensibilidade mais desenvolvida e faz uma crítica disso.

[00:14:32] Olha, é muito fácil você ter uma sensibilidade desenvolvida quando todos os problemas humanos

[00:14:36] foram resolvidos.

[00:14:37] Se acabou com a pobreza, se acabou com a fome, com as necessidades, aí tudo bem, tudo maravilhoso.

[00:14:42] Agora quando de repente estoura uma guerra interestelar e começa a faltar coisa, o ser

[00:14:46] humano rapidamente reverte seu estado original.

[00:14:49] Mas eu concordo com vocês, tem gente que adora, tem gente que odeia.

[00:14:53] Porque eu fico, o que eu chamo dos episódios Bonanza, para mim episódio Bonanza é assim,

[00:14:58] é um episódio onde tu contrata um escritor para fazer um pequeno drama, um pequeno conflito

[00:15:03] que apareceu em Bonanza, só que ele veste as pessoas de outra coisa e é ou em New York

[00:15:09] com policiais dos anos 70 ou é alguma coisa no espaço com caras com roupas espaciais.

[00:15:15] Mas é o mesmo episódio com a mesma coisa.

[00:15:17] E essa é a sensação que eu tinha quando eu estava assistindo Deep Space Nine, que

[00:15:20] era assim, aquelas mesmas discussões de pai e filho, filho que está chateado com o pai

[00:15:25] ou então o carinho que está roubando cerveja, sabe?

[00:15:29] Ele também inaugurou uma coisa nova na televisão, que são as séries na área de ficção científica.

[00:15:33] Porque até surgiu original, lá de 66, ficção científica na TV era uma porcaria.

[00:15:39] Era filme de monstro de olhos bugalhado e terror, assim terror, terrir mais do que terror.

[00:15:44] Tinha no cinema coisas boas, tinha por exemplo o Planeta Proibido, que aliás, como alguns

[00:15:49] autores dizem, podia ser perfeitamente um episódio de jornal nas estrelas, tinha vários

[00:15:54] elementos parecidos.

[00:15:55] Só para terminar de contar aqui, quando eu vi essa história, digamos, a novela seriada

[00:15:58] que é o Deep Space Nine, paralelamente surgiu o Babylon Five, que é um seriado parecido

[00:16:03] a algumas coisas e completamente diferente em outras.

[00:16:05] Eu pessoalmente não gosto tanto, mas inclusive há denúncias, se falava muito que era uma

[00:16:09] ideia em parte roubada, porque ele tentou levar essa série para outra rede, a rede diz que

[00:16:14] não e depois apareceu o Babylon Five, mas enfim, se olha tudo bem.

[00:16:17] É o contrário, é o contrário.

[00:16:18] Jay Michael Straczynski, que foi o cara que escreveu Babylon Five, usou os produtores

[00:16:23] mas usou a paramontia de ouvir a ideia dele, ele está a entender para os criadores de

[00:16:28] Deep Space Nine que eles deviam seguir mais ou menos aquele caminho, mas assim, se você

[00:16:32] olhar as duas séries hoje, elas são completamente diferentes, você vai fazer uma série sobre

[00:16:36] espaço, você vai ter três opções, ou vai ser um planeta, ou vai ser uma nave, ou vai

[00:16:40] ser uma estação espacial, não tem muito como fugir disso.

[00:16:43] Eu estou olhando aqui o IMDB para ver o sucesso da série com os números, né?

[00:16:47] O Babylon Five foram cinco anos e só ganhou um M, o Deep Space Nine foram sete temporadas

[00:16:53] e ganhou 18 M’s.

[00:16:54] É, mas o Jornada das Estrelas, tirando talvez a série original e a nova geração, fica

[00:16:59] assim, a série original, o Leonard Newman conseguiu uma indicação como melhor ator

[00:17:04] para o M.

[00:17:05] Mas não levou, né?

[00:17:06] A nova geração na sua última temporada, mais comum homenagem, recebeu uma indicação

[00:17:09] de melhor série ao M, nenhum dos dois ganhou, agora, Deep Space Nine para frente, você

[00:17:15] Qualquer coisa que vem com a marca Star Trek junto, vem com caminhão de dinheiro para

[00:17:19] você fazer um produto bem acabado.

[00:17:22] Então, assim, do ponto de vista de efeitos visuais, música, cenário, maquiagem, Star

[00:17:27] Trek dava um baile em qualquer coisa, mas não acho que premiação seja critério.

[00:17:31] Deep Space Nine só ganhou também nos critérios técnicos, então ganha melhor penteado.

[00:17:36] As duas séries são muito boas, Deep Space Nine tinha uma vantagem de já estar num

[00:17:40] universo estabelecido e ter um público estabelecido, então para você ter uma ideia, até hoje

[00:17:44] o episódio de maior audiência da era moderna de Jornada nas Estrelas, ou seja, da nova

[00:17:50] geração para frente, foi o piloto de Deep Space Nine, que estava naquela época da efervescência

[00:17:55] da nova geração, que o saía como um subproduto da nova geração, a abertura do episódio

[00:18:00] era naquele ambiente da batalha de Wolf 359, que foi aquela batalha incrível entre a Federação

[00:18:05] e os Borgs no terceiro ano da nova geração, foi o momento em que realmente a série floresceu

[00:18:10] Além do teto, digamos, do público nerd e atingir o público mainstream, então o lançamento

[00:18:15] Deep Space Nine provavelmente foi o maior evento de Jornada nas Estrelas na televisão

[00:18:20] até hoje.

[00:18:21] É claro que dali para frente o caminho foi para baixo, o que a gente viu foi ao longo

[00:18:25] de Deep Space Nine, depois de Voyager, que foi uma série que tentou resgatar um pouco

[00:18:30] o formato da nova geração, já que Deep Space Nine, como ia ser exibido em parte simultaneamente

[00:18:35] a nova geração, ele precisava ser diferente.

[00:18:38] Começou da segunda metade da NetGenerate, começou paralelamente a ter o Deep Space

[00:18:42] Nine.

[00:18:43] Exato, no sexto ano da nova geração estreou Deep Space Nine, eles ficaram dois anos em

[00:18:47] paralelo, aí a nova geração saiu, e quando a nova geração saiu, a essa altura os executivos

[00:18:52] da Paramount, sempre com os olhos arregalados, falaram, poxa, está dando certo esse negócio

[00:18:55] de duas séries ao mesmo tempo, assim que sair a nova geração, a gente já põe outra

[00:18:59] no lugar, e aí botaram Voyager.

[00:19:01] Isso de certa forma foi uma das outras dificuldades de aceitação de Deep Space Nine, porque ela

[00:19:05] nunca teve a chance de ser a série de Jornada das Estrelas no ar, ela sempre teve a concorrência

[00:19:10] ou da nova geração, que era desleal, porque o nível de popularidade era absurdo, ou

[00:19:14] de Voyager, que apesar de ser menos popular e ser uma coisa nova, tinha o mesmo formato

[00:19:20] da nova geração, uma espaçonave da frota estar lá viajando e explorando novos mundos.

[00:19:26] Até me permite discordar aqui Salvador, eu acho que a Voyager na verdade é mais um

[00:19:28] resgate da velha série, porque onde eles estão indo pela primeira vez em qualquer

[00:19:32] lugar, encontrando tudo desconhecido, e ela foi pensada como sendo um reboot da série

[00:19:36] antiga, para dar as coisas de aventura, só que tirando o machismo original, botando uma

[00:19:41] mulher como capitã e tal.

[00:19:43] Porque tu diz reboot?

[00:19:44] Não um reboot, mas retomar a história da aventura, do nosso período.

[00:19:48] Ela é, em certo sentido, um resgate da premissa da série original, mas ela estilisticamente

[00:19:54] é uma continuação direta da nova geração.

[00:19:57] Porque a mesma produção compartilhou o cérebro de cenário.

[00:20:00] E uma das coisas mais frustrantes de Voyager, é que apesar de ter provavelmente a melhor

[00:20:04] das premissas, uma espaçonave atirada a 70 mil anos-luz de distância, longe até de

[00:20:09] comunicação com o comando da Proto Estelar, ou seja, ela está sozinha, numa região completamente

[00:20:14] hostil e desconhecida da galáxia.

[00:20:17] Você imagina que numa situação dessa, as regras que normalmente se aplicariam, a história

[00:20:22] da primeira diretriz, aquela coisa que Proto Estelar não pode interferir no desenvolvimento

[00:20:27] de civilizações menos avançadas, que é super saudável.

[00:20:30] Super saudável, mas só foi aplicado no Next Generation, na prática, né?

[00:20:33] Porque a original lá era um festival de quebra de regras.

[00:20:36] Lembre-se também que quando a Voyager se perde no quadrante Delta, ela se perde junto

[00:20:40] com uma outra espaçonave de rebeldes, os Maquis, que estavam combatendo os Cardassianos,

[00:20:46] é toda uma história que estava sendo retratada em Deep Space Nine, e eles são ex-oficiais

[00:20:51] da Proto Estelar, que decidiram se rebelar contra a Proto Estelar quando a federação

[00:20:55] virou as costas por uma certa colônias humanas que ficaram do lado Cardassiano da fronteira

[00:21:00] depois de uma guerra entre a federação e Cardassianos.

[00:21:03] E esses caras se rebelaram e começaram a lutar contra os Cardassianos lá e eram tratados

[00:21:07] tanto pelos Cardassianos, quanto pela federação, como foras da lei, como rebeldes e terroristas.

[00:21:13] Os Maquis, como os Maquis do Deslizão.

[00:21:14] E aí essas duas situações estão perdidas, uma da Proto Estelar e outra dos Maquis,

[00:21:18] e as duas tripulações precisam se misturar.

[00:21:19] Essa foi a estratégia de novo, para não violar as regras do Roddenberry, mas permitir

[00:21:24] um conflito entre os personagens, então você tem todo esse caldeirão de premix, e de repente

[00:21:29] ela acabou saindo uma série super convencional, super continuação da nova geração.

[00:21:33] Continuação visual, talvez, de algumas coisas, mas ao mesmo tempo ele resgata um pouco do

[00:21:37] avanteurismo da primeira série, o que ela teve de ruim é que ela foi o carro chefe

[00:21:40] dessa nova rede que a Paramount lançou, a UPN, que não tinha distribuição nacional,

[00:21:46] então ele acabou ficando com índices contaminados por esse fato.

[00:21:49] Inclusive ela não foi exibida no Brasil durante muitos anos por causa disso, o mesmo programa

[00:21:52] que apareceu com os desenhos animados, que também só foi apresentado dez anos depois

[00:21:56] no Brasil.

[00:21:57] Não, e é engraçado que a série animada de Jornada das Estrelas, ela é um pouco controvérsica,

[00:22:01] porque o próprio Roddenberry anos depois falou, não, desconsiderem isso do cânone,

[00:22:05] da história oficial da série, isso aqui não conta, mas se você olhar, são extremamente

[00:22:09] bem produzidos.

[00:22:10] Não, as histórias são muito boas, várias cabeleções formando e virando histórias

[00:22:13] da next generation.

[00:22:14] E quantos anos teve depois entre o encerramento do Voyager e o início do Enterprise?

[00:22:19] Nada, aliás, esse era uma das angústias, e talvez explique por que nós estamos há

[00:22:23] dez anos sem uma série de Jornada das Estrelas no ar.

[00:22:26] Voyager foi usada para lançar uma rede de televisão própria da Paramount, um projeto

[00:22:31] que eles já tinham lá nos anos 70, antes de virar filme, aquele projeto de fazer uma

[00:22:35] nova série com o elenco original da Jornada das Estrelas, também é, de 75, que só 20

[00:22:40] anos depois conseguiram.

[00:22:41] Eles começaram a pensar isso, a primeira ideia que eles tiveram para ressuscitar a série

[00:22:45] original de Jornada das Estrelas, eles já queriam lançar uma rede de televisão, na

[00:22:48] quela época ela seria a quarta rede americana, desistiram porque acharam que não tinha

[00:22:52] mercado e lançaram a UPN em 95 com o Voyager, que seria essa rede da Paramount, lançaram

[00:22:58] e aí ela já era a sexta rede.

[00:23:00] Então quer dizer, a concorrência era muito maior, você tinha uma dificuldade muito maior

[00:23:04] para você seduzir afiliadas, ou seja, estações locais de TV, se juntassem a rede para você

[00:23:10] expandir o mercado, então Voyager, apesar de ter sido um sucesso de audiência no lançamento,

[00:23:15] ainda sofria e sofreu cada vez mais ao longo das suas temporadas com a baixa penetração

[00:23:21] que essa rede da Paramount, a UPN, tinha no território americano, então tinha muitas

[00:23:26] cidades americanas que simplesmente não tinham onde assistir o programa, porque não

[00:23:30] passava.

[00:23:31] Então existia esse problema, que era um problema que a nova geração de Deep Space Nine não

[00:23:34] enfrentaram.

[00:23:35] Elas foram produzidas de um jeito completamente diferente, que nos Estados Unidos se chama

[00:23:39] Syndication, basicamente o estúdio faz a série e ele vende individualmente para cada

[00:23:44] estação local.

[00:23:45] Ele falou, você passa aí na hora que você achar melhor, e na nova geração eles fizeram

[00:23:49] uma coisa ainda mais sedutora para as afiliadas, que era o seguinte, você vai passar a nova

[00:23:54] geração de graça, a única diferença é você vai me dar dois comerciais da transmissão.

[00:23:59] Quer dizer, a Paramount apostou no próprio programa, falou, se esse programa der um sucesso

[00:24:03] de audiência, o comercial vai valer para caramba, a gente vai encher o rabo de dinheiro.

[00:24:06] Deu tão certo que eles fizeram o Deep Space Nine no mesmo modelo, quando chegou em Voyager

[00:24:10] eles falaram, não, vamos lançar uma rede de televisão, aí lançaram a rede de televisão,

[00:24:13] mas a rede de televisão trepidou desde o lançamento e foi caindo com o passar do tempo.

[00:24:19] Então Voyager foi perdendo parte da audiência, não só por causa da concorrência, não

[00:24:23] só porque os fãs estavam se desligando da série depois de assistir 20 temporadas de

[00:24:27] Jornada nas Estrelas Seguidas, mas também porque a rede não estava funcionando.

[00:24:31] E aí quando terminou Voyager, os produtores, Rick Berman, Brandon Braga, falaram para a

[00:24:37] Paramount, vamos dar uns dois anos para lançar outra série, vamos deixar o público ficar

[00:24:41] com vontade de novo, a gente está vendo que os índices estão declinando, o público

[00:24:45] não está demandando mais, não, nós precisamos de alguma coisa para substituir porque Voyager

[00:24:49] vai acabar, nós precisamos de alguma coisa na programação, insistiram, insistiram,

[00:24:53] insistiram e resolveram fazer a Enterprise.

[00:24:54] No mesmo ano, em 2000.

[00:24:56] O que aconteceu foi que a trajetória de queda continuou exatamente do jeito que estava indo,

[00:25:00] aliás tem um gráfico que mostra os índices de audiência da era moderna, digamos, de

[00:25:04] Jornada nas Estrelas, ou seja, da nova geração em diante.

[00:25:07] Você vê o primeiro ano da nova geração muito bom, o segundo ano muito bom, no terceiro

[00:25:10] ano a Voyager começa a subir, até o sexto ela está subindo, no sétimo ela começa

[00:25:13] a cair, aí entra a Dix9, começa a cair também, vai caindo devagarzinho, uma queda suave,

[00:25:19] aí entra a Voyager, começa a cair também na mesma curva, exatamente na mesma curva,

[00:25:23] entra a Enterprise e faz a mesma coisa, continuou na mesma tendência, era a franquia que estava

[00:25:27] com dificuldade, não era o conceito, era aquela série, essa é melhor, aquela é pior,

[00:25:33] resultado.

[00:25:34] E a Enterprise foi a primeira série de Jornada nas Estrelas, desde a original, a ser efetivamente

[00:25:38] cancelada, no terceiro ano a UPN já não queria mais, no quarto ano que foi meio goela

[00:25:43] abaixo, porque a Paramount falou, não, vamos até o quarto ano para a gente ter uma quantidade

[00:25:47] de episódios bacanas para botar em syndication, para depois ganhar dinheiro com a série,

[00:25:51] em repriso.

[00:25:52] Então foi até o quarto ano, no quarto ano foi cancelada, sem muita cerimônia, e curiosamente

[00:25:56] um ano depois que eles cancelaram a Enterprise a UPN também acabou, eles acabaram fundindo

[00:26:01] a UPN com a WB, que era sua concuente direta ali, e formaram um canal hoje chamado, uma

[00:26:07] rede chamada CW.

[00:26:08] E aí vamos falar desse último, o Star Trek Renegade.

[00:26:11] Renegade não é uma produção oficial da Paramount, é um projeto de fã, só que é

[00:26:15] um projeto de fã que envolve diversos atores que participaram de Jornada nas Estrelas ao

[00:26:20] longo dos anos.

[00:26:21] É o Chekov, né?

[00:26:22] Tem o Tim Russ, que fez o Tuvok, que é o diretor desse piloto, você tem o Walter

[00:26:27] Koenig, que fez o Chekov na série original.

[00:26:29] Isso é uma coisa da internet, né, quando os fãs pegam e filmam algo quase tão bom

[00:26:33] quanto a original.

[00:26:34] Mas essa não é a única, né?

[00:26:36] Chegando nesse nível, e olha, eu nem destacaria o Renegade.

[00:26:39] Se eu tivesse que recomendar uma produção de fã, seria uma chamada Star Trek Continuous.

[00:26:43] É curioso isso, né, você ver os fãs acabando por produzir episódios com quase tanta qualidade,

[00:26:50] em alguns casos até, rivalizando mesmo com a qualidade dos episódios oficiais.

[00:26:55] Existe uma produção agora chamada Axanar, que está sendo processada pela Paramount

[00:27:00] por violação de direitos atoriais, porque ficou tão bom, mas tão bom, mas tão bom,

[00:27:04] que eles resolveram se incomodar.

[00:27:06] Que resolveram vender, né, porque a Paramount tem tolerado esses fãs desde que não cobrasse,

[00:27:11] eles até fizeram um contrato.

[00:27:12] Queria entender um pouco o Star Trek Continuous esse.

[00:27:14] Passa na televisão, ou ele é uma coisa de internet?

[00:27:16] Não, é internet.

[00:27:17] Não, é internet.

[00:27:18] Eles fazem mais ou menos uns três episódios por ano, e claro, naquele ritmo artesanal.

[00:27:23] E é a proposta como se fosse o quarto ano da série original.

[00:27:26] Então o formato é aquele antigão, quatro por três, os cenários são rigorosamente os

[00:27:31] mesmos.

[00:27:32] Eles têm atores profissionais envolvidos na produção, o nível de fidelidade que eles

[00:27:37] têm com relação a valores de produção.

[00:27:39] Então, por exemplo, a iluminação é extremamente fiel à da série original.

[00:27:43] Isso faz muita diferença.

[00:27:45] Captação de áudio, música, roteiro, que sempre foi um ponto fraco das produções

[00:27:49] de fãs.

[00:27:50] Nesse caso, os roteiros são bem fiéis ao estilo e ao conteúdo, à fórmula.

[00:27:56] Se você me disser assim, ah não, vamos aceitar isso aqui como parte do cânone de

[00:27:59] Jornada das Estrelas?

[00:28:00] Eu topava.

[00:28:01] São os personagens os mesmos ou são personagens os mesmos?

[00:28:04] São os mesmos.

[00:28:05] São outros atores fazendo…

[00:28:06] A primeira reação é, poxa, como é que eu vou aceitar aqueles personagens com outros

[00:28:09] atores?

[00:28:10] Isso dura mais ou menos cinco minutos.

[00:28:11] Os caras fazem tão bem o negócio e têm uma atuação boa que muitas vezes é o cara

[00:28:15] que construiu a ponte na garagem que vai ser o capitão.

[00:28:18] Aliás, é o caso da primeira delas.

[00:28:20] Agora, nesse caso, o cara que interpreta, o Kirk, ele tem o biotipo do William Shatner

[00:28:27] e ele reproduz de maneira inacreditável os maneirismos do Shatner como o capitão

[00:28:32] Kirk.

[00:28:33] Eu queria só antecipar um pouco do livro Estel que está saindo, o que vai sair.

[00:28:36] O que a gente buscou eu e a Susana é assim, se a gente pudesse escrever um livro que todo

[00:28:42] fã de Jornada das Estrelas só precisasse comprar esse, qual o livro seria?

[00:28:46] Então a gente dividiu em 50 capítulos, então um capítulo por temporada, com guia de episódios

[00:28:51] de todas as temporadas, de todas as séries, todos os filmes, então é realmente um apanhado

[00:28:56] bastante abrangente e vai contar cinco décadas de história da franquia com todas as suas

[00:29:02] nuances.

[00:29:03] Só uma coisa que faltou então da sequência de séries, o que a gente pode esperar desse

[00:29:08] anúncio que saiu agora da próxima série?

[00:29:10] Eu estou bastante empolgado pelo seguinte, primeiro eles anunciaram Alex Kurtzman, que

[00:29:14] foi um dos caras que ajudaram a rebutar Star Trek para o cinema com J.J.

[00:29:19] Abrams.

[00:29:20] Isso não me animou muito, mas eu pelo menos enxergo nele um cara que tem a sensibilidade

[00:29:24] moderna, porque não adianta nada você fazer uma série que só os fãs vão amar, porque

[00:29:28] os fãs sozinhos não sustentam a audiência necessária para o sucesso.

[00:29:32] Mas ao mesmo tempo eles acabam de anunciar que o Brian Fuller foi contratado para ser

[00:29:37] o showrunner, para ser o chefe dos roteiristas dessa nova série, o co-criador dessa série.

[00:29:42] Quem é esse Brian Fuller?

[00:29:43] É um cara que escreveu para Deep Space Nine, escreveu para Voyage, ou seja, ele tem uma

[00:29:46] história pregressa com Star Trek, então acho que a gente vai ter o melhor dos dois

[00:29:50] mundos.

[00:29:51] Ele tem uma sensibilidade mais moderna, mas ao mesmo tempo vai ter alguém que respeita

[00:29:55] as raízes de Jornada nas Estrelas.

[00:29:57] A gente não sabe muito mais do que vai ser uma nova nave com uma nova tripulação explorando

[00:30:02] novos mundos.

[00:30:03] Tá bom então.

[00:30:04] Hoje é um programa em homenagem aos 50 anos de Star Trek, o nosso convidado é o Salvador

[00:30:09] Nogueira, que é jornalista científico e escritor, e o pessoal do programa é o Jorge

[00:30:13] Kieffel, da biofísica, e o Mark de Arte, e o Jefferson Aranzon, da física da ONS.

[00:30:19] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URIUS.

[00:30:24] Direção Técnica de Francisco Guazelli.