#17 - O olhar contemporâneo de Peter Sloterdijk (com Rodrigo Petrônio)


Resumo

O episódio #17 do podcast Não Obstante, com o professor Rodrigo Petrônio, dedica-se a explorar o pensamento do filósofo alemão Peter Sloterdijk. A conversa inicia-se com uma apresentação da trajetória acadêmica de Petrônio e seu interesse pela obra de Sloterdijk, destacando a dificuldade de enquadrá-lo ideologicamente, especialmente em relação a polêmicas recentes sobre a crise migratória europeia.

Petrônio estrutura a discussão em torno de duas categorias angulares para compreender Sloterdijk: a forma (ligada a uma abordagem fenomenológica que valoriza a manifestação dos fenômenos) e a relação (base de uma ontologia relacional onde a coexistência precede a existência). Ele explora como conceitos como ‘ontologia da díade’, ‘esferas’ (bolhas, globos, espumas) e ‘cinismo universal difuso’ são centrais para entender a crítica cultural e a análise da contemporaneidade proposta por Sloterdijk.

A discussão avança para temas como a psicodinâmica do ‘timos’ (em oposição à primazia da libido), apresentada na obra ‘Ira e Tempo’, a ideia de que ‘a religião não existe’ enquanto essência, sendo antes um conjunto de práticas ascéticas, e a influência do gnosticismo no pensamento sloterdijkiano. Os participantes também debatem os limites do método fenomenológico de suspensão do juízo (epoché), que pode levar a uma certa frustração pela falta de posicionamentos normativos mais claros do autor frente às crises atuais.

Por fim, Petrônio oferece um panorama de leitura da obra de Sloterdijk, sugerindo títulos introdutórios como ‘No Mesmo Barco’ e ‘O Sol e a Morte’, e aponta que o maior legado do filósofo talvez seja seu pensamento relacional e não holístico, que convida a analisar os fenômenos sociais e políticos a partir das relações, sem pressupor uma totalidade harmoniosa ou um telos predeterminado, mantendo-se afastado do ressentimento.


Indicações

Autores

  • Georg Wilhelm Friedrich Hegel — Mencionado diversas vezes como influência subjacente em Sloterdijk, especialmente na dialética, na teoria do reconhecimento e na fenomenologia do espírito, embora Sloterdijk rejeite seu teleologismo.
  • Friedrich Nietzsche — Apontado como uma das principais fontes de Sloterdijk, especialmente em seu anarquismo ontológico, sua crítica ao niilismo e seu estilo literário-filosófico.
  • Martin Heidegger — Considerado base fundamental para Sloterdijk, particularmente sua fenomenologia e suas reflexões ontológicas sobre o ser-no-mundo e a relacionalidade.
  • Gilles Deleuze — Citado como um pensador com afinidades com Sloterdijk, especialmente na ontologia da potência (contra a ontologia da carência) e no pensamento rizomático/não-holístico.
  • Bruno Latour — Apresentado como um pensador contemporâneo que dialoga com Sloterdijk, especialmente na teoria ator-rede e no ‘giro ontológico’, pensando os modos de existência.
  • Gabriel Tarde — Sociólogo pouco conhecido citado como possível influência para ‘Ira e Tempo’, através de sua obra sobre ‘psíquica’ ou economia psíquica.
  • Jakob von Uexküll — Biólogo mencionado como influente para Sloterdijk através do conceito de ‘Umwelt’ (meio circundante), que pensa a relação coevolutiva entre organismo e meio.
  • Hans Jonas — Filósofo citado por seu trabalho em mapear as manifestações do gnosticismo no pensamento contemporâneo, contexto no qual Sloterdijk também é situado.

Conceitos

  • Ontologia da Díade — Conceito central em Sloterdijk que postula a relação (interior-exterior, sistema-meio) como fundamento ontológico, onde a coexistência precede a existência.
  • Cinismo Universal Difuso — Diagnóstico sloterdijkiano da contemporaneidade, onde a crítica se banalizou e se tornou ineficaz por ser óbvia e onipresente, inviabilizando a ação transformadora.
  • Antropotécnicas — Termo usado por Sloterdijk para designar as técnicas e práticas através das quais o ser humano se exercita, se disciplina e se transforma a si mesmo.
  • Revolução Anacorética — Processo histórico analisado por Sloterdijk no qual o isolamento ascético (de anacoretas e monges) permitiu a abertura de novos espaços imaginários e a ‘colonização do além’.

Livros

  • Crítica da Razão Cínica — Obra de estreia de Sloterdijk que o lançou à fama, analisando a história do cinismo desde a antiguidade até sua forma atual de ‘cinismo universal difuso’ no capitalismo.
  • Esferas (trilogia) — Considerada a obra magna de Sloterdijk, uma macro-história da humanidade através da metáfora das esferas (bolhas, globos, espumas), explorando ontologia, antropologia e história cultural.
  • Ira e Tempo — Livro no qual Sloterdijk desenvolve uma psicodinâmica política focada no ‘timos’ (reconhecimento, honra), em contraste com as teorias centradas na libido.
  • Você Deve Mudar Sua Vida — Obra sobre antropotécnicas, onde Sloterdijk analisa as práticas de exercício e ascetismo que moldam o ser humano, argumentando que ‘a religião não existe’ como essência, apenas como práticas.
  • No Mesmo Barco — Coleção de ensaios vista como um esboço do projeto das ‘Esferas’, dividindo a história política em paleopolítica, política imperial e hiperpolítica.
  • O Sol e a Morte — Longa entrevista biográfica com Sloterdijk, abordando suas influências, o tempo que morou na Índia e suas visões sobre filosofia e modernidade.
  • Estranhamento do Mundo — Análise de Sloterdijk sobre o pensamento gnóstico antigo e as ‘revoluções anacoréticas’ do ascetismo, ligando-o a Foucault e às tecnologias do eu.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Abertura e apresentação do convidado Rodrigo Petrônio — Marcos Beccari e Daniel Portugal apresentam o podcast e o convidado, professor Rodrigo Petrônio, especialista na obra de Peter Sloterdijk. São destacadas a formação e as áreas de atuação de Petrônio, incluindo seu doutorado sobre mesologia e seu mestrado sobre Sloterdijk. O tema central do episódio é anunciado: a importância do pensamento de Sloterdijk na filosofia contemporânea.
  • 00:04:33Introdução a Peter Sloterdijk e questão política inicial — Marcos faz uma breve introdução biográfica de Sloterdijk e menciona, de forma antecipada, a controvérsia atual em torno do filósofo, associado por alguns setores à ultradireita alemã devido a declarações sobre a crise migratória. Ele ressalva que o foco da conversa será na obra, mas que o contexto político pode ser retomado posteriormente. A primeira pergunta direciona-se às duas categorias angulares (forma e relação) propostas por Petrônio para entender Sloterdijk.
  • 00:08:01Trajetória de interesse e dificuldade de enquadramento ideológico — Rodrigo Petrônio conta como começou a se interessar pela obra de Sloterdijk, a partir de textos sobre gnosticismo, e discute a dificuldade de classificá-lo ideologicamente. Ele o descreve como um ‘anarquista ontológico’, escorregadio, que propõe uma ‘esquerda celeste’ mas também faz críticas contundentes que geram polêmicas. Petrônio enfatiza o método fenomenológico da suspensão (epoché) como uma ferramenta central que leva a uma indecidibilidade, complicando juízos de valor definitivos.
  • 00:15:26Explicação das categorias forma (fenomenologia) e relação (ontologia) — Petrônio desenvolve as duas categorias. A ‘forma’ remete à abordagem fenomenológica, presente desde ‘Crítica da Razão Cínica’, que analisa como a consciência se manifesta formal e historicamente. A ‘ontologia relacional’ é um termo que ele cunhou para descrever o núcleo do pensamento sloterdijkiano, onde a relação (a díade, o interior-exterior) é primordial. Ele discute como conceitos como ‘double bind’ e ‘esferas’ exemplificam esse pensamento relacional, mas também aponta uma crítica possível: a permanência de uma estrutura dualista (orgânico/inorgânico) que teorias contemporâneas de sistemas não-lineares buscam borrar.
  • 00:30:57Sloterdijk como não holístico e a questão do Télos — Os participantes discutem como Sloterdijk não é um pensador holístico, pois não pressupõe uma totalidade ou uma ordem pré-dada. Para ele, o universo é um vazio, um vácuo, e a cultura/história é um modo de a vida (bios) domesticar esse exterior hostil e sem sentido. Isso contrasta com tradições filosóficas que postulam um télos (fim) para o homem. A conversa vincula isso ao ‘giro ontológico’ contemporâneo e a pensadores como Bruno Latour.
  • 00:36:22Ira e Tempo, Timos e a crítica à primazia da libido — A discussão se volta para o livro ‘Ira e Tempo’, onde Sloterdijk propõe uma psicodinâmica focada no ‘timos’ (reconhecimento, honra) em vez da libido. Petrônio conecta isso à economia do excesso de Bataille e a uma ontologia da potência (em oposição a uma ontologia da carência, que associaria à tradição psicanalítica lacaniana). Sloterdijk é situado como um crítico da ideia do homem como ser desejante/faltante, valorizando antes as dimensões de potência e reconhecimento.
  • 00:42:34A religião como prática e a revolução anacorética — Explora-se a afirmação sloterdijkiana de que ‘a religião não existe’. Petrônio explica que, para Sloterdijk, a religião não é uma essência universal, mas um conjunto de práticas ascéticas (tecnologias do eu) que serviram a funções adaptativas. Ele relaciona isso às ‘revoluções anacoréticas’ analisadas em ‘Estranhamento do Mundo’, onde o isolamento do sujeito (como no ascetismo cristão) abriu novos ‘continentes imaginários’ e permitiu a ‘colonização do além’, como na Divina Comédia.
  • 00:50:08Diálogo com a biologia e crítica ao gene-centrismo — A conversa aborda a relação de Sloterdijk com teorias biológicas. Petrônio menciona a influência do biólogo Jakob von Uexküll e seu conceito de ‘Umwelt’ (meio circundante), que supera visões darwinistas mais rígidas ao pensar em coevolução entre sistema e meio, sem predominância de um sobre o outro. Isso serve de base para uma crítica ao ‘gene-centrismo’ de autores como Dawkins, visto como uma nova metafísica que postula uma narrativa totalizante (o gene) como determinante.
  • 00:56:21Limites da suspensão fenomenológica e falta de posicionamento — Marcos e Daniel expressam uma certa frustração com a relutância de Sloterdijk em tomar posições normativas mais claras, especialmente nos finais de obras como ‘Ira e Tempo’ e ‘Esferas 3’. Eles sentem que, após críticas afiadas (por exemplo, ao marxismo e à psicanálise), falta uma proposta forte. Petrônio concorda, atribuindo isso ao método fenomenológico da epoché, que mantém o juízo em suspensão. Ele contrasta com a postura mais propositiva de um Deleuze, mas também vê riscos nela.
  • 01:07:48Panorama de leitura e obras fundamentais de Sloterdijk — Rodrigo Petrônio oferece um guia para quem quer começar a ler Sloterdijk. Sugere ‘No Mesmo Barco’ como esboço do projeto das ‘Esferas’, ‘O Sol e a Morte’ (entrevista biográfica) para uma visão geral, ‘Crítica da Razão Cínica’ para teoria crítica, ‘Ira e Tempo’ para política e ‘Você Deve Mudar Sua Vida’ para antropotécnicas. Para as ‘Esferas’, recomenda os volumes 1 e 3, sendo o 2 mais extenso e focado no período medieval/pré-moderno.
  • 01:13:01Sloterdijk como pensador gnóstico — Petrônio explora a tese de que Sloterdijk é um pensador gnóstico, no sentido antigo do termo. Explica que o gnosticismo pressupõe uma identidade entre Deus e pensamento, uma cosmologia de um universo anorgânico, hostil e sem sentido, onde o homem é um estrangeiro. Vê ecos disso em Sloterdijk: a ideia de um universo vazio, a ausência de telos, e a valorização do conhecimento como modo de acesso a uma realidade para além das aparências. Liga essa percepção a influências como Hegel e Heidegger, também lidos como gnósticos.
  • 01:18:08Relevância de Sloterdijk para as crises atuais e considerações finais — Questionado sobre a contribuição de Sloterdijk para entender crises contemporâneas (como a migratória), Petrônio reconhece não ter acompanhado as declarações polêmicas específicas, mas defende a necessidade de contextualizá-las. O legado principal que ele vê é o pensamento relacional e não-holístico, que permite analisar problemas (como os ecológicos) sem cair na ilusão de uma totalidade harmoniosa. Ele finaliza refletindo sobre o anarquismo de Sloterdijk e sua fuga constante do ressentimento, característica que considera valiosa no debate público atual.

Dados do Episódio

  • Podcast: Não Obstante
  • Autor: Marcos Beccari
  • Categoria: Society & Culture Philosophy
  • Publicado: 2016-05-25T07:45:48Z
  • Duração: 01:33:13

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Você está ouvindo, não obstante, um podcast sobre filosofia e outras ficções.

[00:00:29] Começando mais um Não Obstante, eu sou Marcos Beccari e estou na companhia de Daniel Portugal,

[00:00:35] diga oi, que me acompanha hoje para conversar com o professor Rodrigo Petrônio, diga oi,

[00:00:41] Rodrigo.

[00:00:42] Olá, tudo bem?

[00:00:43] Marcos, Daniel.

[00:00:44] Tudo bom.

[00:00:45] E a gente vai conversar sobre a importância do pensamento de Peters-Lotterdijk na filosofia

[00:00:51] contemporânea.

[00:00:52] Eu vou então apresentar rapidinho o professor Rodrigo Petrônio, se eu cometer algum erro

[00:00:58] aqui, você pode me corrigir, ou complementar, enfim.

[00:01:03] Rodrigo é doutor em literatura comparada pela Werd, com tese sobre mesologia, que é

[00:01:10] uma teoria geral dos meios situada na fronteira entre cosmologia, filosofia, arte e antropologia.

[00:01:18] Correto?

[00:01:19] Correto.

[00:01:20] Desenvolveu o doutorado Sanduiche como bolsista CAPS na Stanford University sob orientação

[00:01:29] de Hans Gunbrecht, ele é formado em letras clássicas na USP, tem dois mestrados, um

[00:01:38] em ciência da religião na PUC de São Paulo, que é inclusive sobre o filósofo contemporâneo

[00:01:44] Peters-Lotterdijk, e outro em literatura comparada na Werd, sobre arte e filosofia na renascência.

[00:01:52] Atualmente é professor da pós-graduação dos cursos de argumento e roteiro e de história

[00:01:58] da arte na FAAP, em São Paulo.

[00:02:01] Ele atua no mercado editorial há 20 anos, é colunista da revista Filosofia e colaborador

[00:02:09] regular dos jornais Valor Econômico, Estado de São Paulo e o Globo.

[00:02:14] É autor, organizador e editor de dezenas de obras, recebeu prêmios nacionais e internacionais

[00:02:21] nas categorias de poesia, prosa de ficção e ensaio.

[00:02:25] Tá certo, Rodrigo?

[00:02:27] Tá certo.

[00:02:28] Então eu queria aproveitar e dizer que é uma grande honra, eu já acompanho o trabalho

[00:02:33] do Rodrigo há algum tempo, é uma alegria bem grande ter ele aqui com a gente no Não

[00:02:41] Obstante.

[00:02:42] Eu que agradeço vocês pelo convite e muito obrigado.

[00:02:45] Legal, vamos lá então conversar.

[00:02:48] Antes da gente entrar na pauta, só dois recados, um é que o que a gente sempre diz, o Não

[00:02:55] Obstante é patrocinado pelo Patreon do Anticash, que é um sistema de doação virtual, no qual

[00:03:02] as pessoas determinam valor a partir de um dólar a ser doado mensalmente e recebem recompensas

[00:03:07] de acordo com o valor doado.

[00:03:09] Então se você gosta do nosso trabalho aqui com o Não Obstante e mesmo com os outros

[00:03:15] podcasts da família Anticash, contribua com o Patreon, cujo link segue na postagem e

[00:03:22] assim a gente consegue aumentar cada vez mais a qualidade do Não Obstante.

[00:03:27] Outro recado rápido é que, eu não poderia deixar de fazer um merchandising aqui, acaba

[00:03:33] de sair meu livro pela Editora 2AB, que é, o nome é Articulações Simbólicas e uma

[00:03:40] nova filosofia do design.

[00:03:42] É a minha tese de doutorado, que foi orientada pelo Rogério de Almeida, tem o prefácio

[00:03:47] do Daniel.

[00:03:48] O livro é muito bom gente, comprem porque vale a pena ler.

[00:03:54] Daniel ganhou muito bem pra fazer o prefácio.

[00:03:57] Opa, milhoente, ganhei milhoente.

[00:04:01] Menciono também que a capa de um colega meu chamado Vicente Pessoa, que fez também a

[00:04:06] narração do meu book trailer, que é um vídeo sobre o meu livro, que a gente vai deixar

[00:04:10] também no post.

[00:04:11] E a edição desse vídeo é do Pedro Maciel e o sound designer do Felipe Aires, que já

[00:04:17] é conhecido aqui, que faz a edição do Não Obstante, tá certo?

[00:04:21] O livro já se encontra à venda e o envio vai ser feito a partir de 30 de maio, mas

[00:04:28] você já pode comprar e o link segue na postagem.

[00:04:32] Então vamos pra pauta.

[00:04:33] Vou fazer uma breve introdução, o Rodrigo, ele pode, certamente ele vai complementar

[00:04:52] isso, mas o Peter Sotterdijk nasceu em Karschhul, né, é uma cidade alemã, em 1947, onde ele

[00:05:02] vive até hoje é professor de filosofia de teoria da mídia, é considerado um dos principais

[00:05:08] escritores vivos da língua alemã e, assim, o que particularmente mais me chama a atenção

[00:05:15] é o seu aspecto transdisciplinar, no sentido de atravessar saberes distintos como a arte,

[00:05:22] a ciência, a filosofia, isso pra falar na tria de Deleuzean, né, mas enfim, atravessando

[00:05:29] várias outras disciplinas.

[00:05:31] E antes de fazer a pergunta que eu tinha preparado aqui, um coisa que me chamou a atenção atualmente

[00:05:37] é que ele tem sido algum tempo classificado como, enfim, partidário de uma ultradireita

[00:05:47] alemã, isso por conta da crise migratória, enfim, e dos posicionamentos que são feitos

[00:05:54] ali em oposição a Merkel e os democratas, enfim, da qual ela faz parte.

[00:06:01] Eu não quero entrar nesse assunto, até porque eu sei que essa não é a sua especialidade,

[00:06:06] enfim, você não acompanha de perto isso, né, mas, enfim, só pra deixar claro que

[00:06:12] o que a gente vai falar aqui também vai ser mais focado na obra, mas que também, assim,

[00:06:17] em algum momento a gente pode tentar contextualizar essa questão do Sloterdijk em relação a

[00:06:29] essa crise.

[00:06:30] Eu tô antecipando isso, mas porque talvez isso apareça lá pro final, quando a gente

[00:06:35] já vai ter visto a obra dele, já vai ter discutido sobre a obra e pensar nas consequências,

[00:06:42] enfim, em relação ao horizonte político atual.

[00:06:46] Bom, a primeira pergunta que eu queria fazer é que, num artigo que você publicou recentemente

[00:06:53] na revista Fronteiras do Pensamento, você afirma que é, se eu não me engano, uma edição

[00:06:59] especial sobre o Sloterdijk.

[00:07:00] É uma edição deste ano, né, dos conferencistas desse ano, e daí ele vai vir pro Brasil,

[00:07:07] ele é um dos conferencistas, daí eu escrevi um pequeno artigo de apresentação dele.

[00:07:12] Isso, aí nesse artigo você afirma que a obra do Sloterdijk pode ser compreendida,

[00:07:19] o que eu achei ótimo, assim, bem, enfim, uma divisão bem didática, né, a partir

[00:07:24] de duas categorias angulares, que é a forma, e se eu entendi bem, diz respeito à fenomenologia,

[00:07:31] e a relação, né, que por sua vez diz respeito a uma ontologia relacional, né.

[00:07:39] Eu queria que você nos explicasse um pouco sobre essas duas questões, assim, resumidamente,

[00:07:46] enfim, fica à vontade, como se você quiser explicar sobre essas duas questões.

[00:07:50] Tá legal.

[00:07:51] É, de repente, antes, fala um pouquinho também como é que você começou a se interessar

[00:07:56] pela obra do Sloterdijk.

[00:07:57] Ah, sim, sim, posso falar, sim.

[00:07:59] Beleza.

[00:07:59] Muito bom, isso.

[00:08:00] Ótimo.

[00:08:01] Então, quanto à questão política, né, eu me ative muito, há alguns anos, a obra

[00:08:06] do Sloterdijk, ao estudar a obra, né.

[00:08:08] É lógico que é um autor vivo, eu tento acompanhar o máximo possível.

[00:08:11] Ele é um polemista, né, então ele gera algumas situações polêmicas.

[00:08:16] Essa questão específica da relação, as declarações dele sobre política migratória

[00:08:22] e os refugiados, etc., isso eu não acompanhei exatamente isso, eu não tenho como opinar

[00:08:27] com muita causa sobre isso.

[00:08:30] O que eu chamo a atenção é só porque é uma questão ideológica bastante meio delicada

[00:08:35] em relações do Sloterdijk, porque a gente poderia dizer que ele é uma espécie de anarquista,

[00:08:40] eu chamaria ele de um anarquista ontológico, no sentido de Nietzsche.

[00:08:44] Então, é muito difícil enquadrá-lo, eu percorri, eu já tentei enquadrá-lo ideologicamente,

[00:08:49] às vezes é muito escorregadio, porque, por exemplo, no final das Esferas 2, ele faz

[00:08:54] uma proposição de um mundo que ele chama de uma esquerda celeste.

[00:08:57] A esquerda celeste seria aquela que nós conseguiríamos olhar o globo do ponto de vista de fora,

[00:09:03] tem a ver com esses diversos mecanismos antropotécnicos que ele diz, então, no fundo,

[00:09:08] a percepção da terra do lado de fora poderia pensar também numa nova esquerda.

[00:09:14] Então, ele é um propositor também de uma nova esquerda global, ao mesmo tempo em que

[00:09:19] ele tem algumas questões polêmicas ligadas à biotecnologia, o livro dele famoso sobre

[00:09:25] o Heger, sobre o Parque Humano, que, no fundo, quase ele diz ali que no fundo do capitalismo

[00:09:30] ele é o grande herdeiro da eugenia nazista, que a eugenia não terminou com a vitória

[00:09:39] com a derrota dos alemães, mas que, no fundo, ela está sendo encabeçada agora pelas diversas

[00:09:44] clínicas de sequenciamento genético, então, a gente tem aí uma eugenia planetária, etc.

[00:09:51] E isso, como ele é um fenomenólogo, aí já entra um pouco na segunda questão.

[00:09:56] É uma outra dificuldade de definir isso ideologicamente, é que do ponto de vista fenomenológico,

[00:10:02] como uma das ferramentas centrais dele é a epoque, a suspensão, e manter o tempo todo

[00:10:09] o objeto em suspensão, chegamos a um princípio de uma indecidibilidade, no sentido do derridar,

[00:10:18] ele dialoga bastante com o derridar.

[00:10:20] É suspensão de juízo também.

[00:10:23] É uma das bases do Russell, do método fenomenológico, embora eu acho que termos fenomenológico,

[00:10:29] ele até recue ao Hegel a fenomenologia do espírito, embora ele não o diga, mas eu

[00:10:35] tenho estudado muito o Hegel, eu tenho notado muitas coincidências, então isso traz uma

[00:10:42] certa dificuldade, mas eu acho interessante, a gente pode desenvolver depois, depois das

[00:10:47] questões, falar um pouco das questões ideológicas, voltar que eu acho isso importante.

[00:10:51] Do meu ponto de vista, eu sou totalmente a favor de que a Europa aceite os refugiados

[00:10:59] e políticas migratórias, até de flexibilização de fronteiras, mas eu acho que isso também

[00:11:05] é uma coisa que tem que ser vista de um ponto de vista dilemático, não é tão fácil

[00:11:10] quanto nós imaginamos, olhando a distância, um milhão de refugiados entrando na Europa,

[00:11:17] mas é preciso também tomar decisões, é preciso encarnar certas figuras, como dizia

[00:11:23] o Hegel, e tomar certas decisões, que são decisões políticas também.

[00:11:27] A gente pode, eu não tenho nenhum prurido em criticar o Svoterdijk, como eu tenho feito

[00:11:32] em críticas até o método dele, a obra dele, para poder me distanciar em alguns aspectos

[00:11:37] da obra dele, que eu acho sensacional, eu acho brilhante sobre diversos aspectos.

[00:11:43] Então assim, do ponto de vista de como eu cheguei, foi uma aproximação um pouco tortuosa,

[00:11:50] eu estava estudando há alguns anos, antes do mestrado, eu estudava alguma coisa ligada

[00:11:57] à agnose ou ao gnosticismo na literatura, e é o William Blake, uma retomada da tradição

[00:12:03] gnóstica na literatura moderna, e eu me deparei com um texto do Svoterdijk sobre a agnose,

[00:12:09] sobre o gnosticismo antigo, a tradição do pensamento antigo.

[00:12:13] Que interessante, qual texto é esse do Svoterdijk?

[00:12:18] Olha, eu até esqueci o nome, mas no fundo eu acho que é uma variação de um livro

[00:12:22] dele chamado Estranhamento do Mundo.

[00:12:24] Estranhamento do Mundo é um livro que está no CERN, da análise do pensamento gnóstico

[00:12:30] antigo, ele chama de Revolução Anacorética, Revolução dos Anacoristas, e até da Asquesis,

[00:12:36] do papel do ascetismo no pensamento antigo, que está muito ligado até ao Foucault,

[00:12:41] principalmente no final, as tecnologias parrèsias, as tecnologias asquesis, da disciplina, dos

[00:12:50] modos disciplinares, e o Svoterdijk é um leitor do Foucault, embora o critique em alguns

[00:12:54] pontos.

[00:12:55] Então, eu li aquilo e deixei de lado, e aí eu me lembro em 1999, que foi a polêmica

[00:13:07] dele com o Habermas, que é do Regras para o Parque, eu lembro que eu li, acompanhei

[00:13:12] pelo jornal, e assim, não tinha me caído a ficha, ainda não tinha percebido muito

[00:13:18] bem a obra dele na sua angulação maior, num ponto de vista mais abrangente.

[00:13:24] E aí, então, depois de um determinado momento, eu reli o Regras, li alguns ensaios pequenos

[00:13:30] dele, como No Mesmo Barco, que é um livrinho de ensaios que eu acho muito investigante,

[00:13:36] e aí decidi entrar no Esferas, daí no Esferas eu me senti em casa, assim, eu percebi que

[00:13:40] eu realmente, eu achava muito interessante aquele modo de pensar, e que no fundo articulava

[00:13:47] muitas coisas que eu já vinha tateando, acho que desde a adolescência, literatura,

[00:13:51] arte, filosofia e tal, ele tem um modo desconstruído, de ir levando o ensaiístico,

[00:13:57] no melhor sentido da palavra, de não fechar os temas, de não ter uma tese a defender,

[00:14:02] mas apenas problemas a levantar, e aquilo foi me fascinando, e daí quando eu percebia

[00:14:07] que eu discordava do ponto de vista dos conceitos, eu concordava do ponto de vista do estilo,

[00:14:11] ou seja, era uma leitura que eu gostava como literatura, isso é que me deixou, que me

[00:14:16] continuou me fascinando no Sloterdijk, que eu acho que é a grande fascinação do Nietzsche,

[00:14:21] do Montaigne, de alguns escritores que são, de alguns filósofos que são escritores,

[00:14:26] não é o próprio Platão, Platão é um escritor especial, e daí me parece que me

[00:14:32] abriu um grande horizonte a partir do Esferas, e aí eu entrei então e fui, eu já li, acho

[00:14:40] toda a obra dele, quase toda, tudo assim que eu tenho acesso, mas me concentrei no mestrado,

[00:14:48] eu decidi fazer um mestrado na área de ciência da religião, que é uma área bastante transdisciplinar,

[00:14:54] hoje em dia eu tô mais próximo da antropologia, acho que a antropologia é um campo que eu tenho

[00:15:02] achado muito fecundo pra articular, no fundo o que eu gosto é de articulação de pensamento,

[00:15:09] eu não gosto de trabalhar muito isoladamente, quando eu tava estudando literatura eu tava sempre

[00:15:13] buscando um pé na filosofia, então é isso que me interessa, e acho que a obra dele nesse sentido

[00:15:20] que chamou muito a atenção, né. Agora, quanta pergunta do Marcos, né, do relação a fenomenologia,

[00:15:26] forma, isso, eu cheguei nesses conceitos depois de quebrar bastante pedra, porque embora,

[00:15:32] eu acho que eles são provisórios, essa demarcação que eu fiz, ela é muito simplificadora, por quê?

[00:15:38] Porque, veja só, o Critica da razão cínica, que é o primeiro livro do Zoterdai, de 83,

[00:15:43] que na verdade foi um best seller, foi o livro que o lançou, ali no fundo há uma parte central,

[00:15:50] que é a parte fenomenológica, que ele tá trabalhando fenomenologicamente o cinismo no ocidente,

[00:15:56] então ele vem lá do diógenes de sinope, do fenômeno do cinismo na antiguidade, até o que ele

[00:16:02] chama de transferência, né, quando o poder da crítica cínica, né, em proto-anarquismo antigo,

[00:16:10] que foram os cínicos, ele começa a ser vampirizado, ou ele começa a ser encavalado pela lógica dos

[00:16:16] senhores, então os senhores é que assumem para si a lógica do cinismo combativo, né, e começa a ver

[00:16:23] uma ambivalência da crítica, que isso vai gerar uma ruína da crítica, que é a ruína da crítica

[00:16:30] que vivemos hoje em dia no capitalismo globalizado, e que para ele é definido como um cinismo universal

[00:16:38] difuso, né, essa que é a definição que ele dá da nossa época, então ali, o primeiro livro dele,

[00:16:44] então a perspectiva já é fenomenológica, porque no fundo ele tá fazendo uma teoria das formas,

[00:16:49] das formas e da consciência, ele tá pensando como a consciência se manifesta formalmente,

[00:16:55] historicamente, né, aí o resíduo hegeliano, historicamente, em diversas figuras, em diversas

[00:17:02] manifestações, o que o distingue do Hegel, basicamente, é que é a questão do telos,

[00:17:08] eu acho que não existe um telos ou uma teleologia tão clara no Sloterdijk como existe no Hegel, né,

[00:17:14] mas… Não tem fim da história. Oi? Não tem fim da história. Não tem fim da história, né, porque a

[00:17:22] história pode até se dissolver em novas figuras, né, o Sloterdijk, aí os marxistas podem o acusar,

[00:17:30] porque ele é um leitor e um interlocutor do fucuiano, mas pra ele a história seria o fim de certas

[00:17:39] figuras, de certas figuras da história, porque no fundo o dever do hominidio, né, ele tá sempre

[00:17:44] pensando em longas durações, em um processo de hominização, que esse que era o meu tema do meu

[00:17:49] mestrado era o conceito de hominização, ou seja, de longas narrativas de longa duração, no fundo,

[00:17:55] a história ainda tá pra ser reconstruída, só que dentro de novos ângulos, né, talvez de multipolarizações

[00:18:03] ou de multiperspectivas de um horizonte tecnológico, né, das sociedades pós-industriais agora. Então,

[00:18:11] ou seja, então, no crítica da razão cínica, eu acho que já tem esse enquadramento fenomenológico.

[00:18:16] Aos poucos ele vai desentranhando, uma linha muito, um alinhamento muito grande dos

[00:18:22] Rotterdijk seria Nietzsche e Heidegger, né, então, também, então, e no certo sentido Heidegger

[00:18:30] ele é um fenomenólogo, né, não tem como negar o papel da fenomenologia, mesmo no Heidegger,

[00:18:36] mesmo no segundo Heidegger, a fenomenologia tá sempre presente, seja como o problema ontológico

[00:18:44] surge, ressurge, né, ele desentranha isso do Hegel, do Hussle, desculpa, o Hussle renegou o Heidegger,

[00:18:51] mas eu acho que essa articulação, fenomenologia, ontologia, que eu acho que existe no Hegel,

[00:18:59] que não existe no Hussle, mas existe, por exemplo, no Bachelard, que é um fenomenólogo com o qual

[00:19:06] os Rotterdijk dialogam muito, e que existe no Heidegger, e essa ontologia, né, perspectivista,

[00:19:15] ou anarquista, que existe no Nietzsche, eu acho que essa é uma certa linha angular, por meio da qual

[00:19:24] nós podemos ler boa parte dos Rotterdijk, mas eu não acho que essa seja possível, eu acho que é uma

[00:19:29] linha nestra, mas ela não dá conta de tudo, se nós pegarmos o Ir e tempo, por exemplo, é uma visão

[00:19:35] tecnológica da constituição do Timos, né, e das potências da Ira, como a Ira, ela foi sempre canalizada,

[00:19:45] ela teve uma função civilizatória, no sentido de construção civilizatória, no sentido mais ambíguo

[00:19:52] e benjaminiano que a gente pode pensar, né, mas teve uma função nuclear, né, para a constituição do

[00:19:59] mundo moderno, e como essa sublimação, ou a desinibição da Ira, que é um conceito que ele usa,

[00:20:07] como isso está ligado à constituição política moderna, né, modos pelos quais a gente usa a Ira,

[00:20:13] então mesmo assim eu acho que há um resíduo fenomenológico como método, né, hoje em dia tem muita gente

[00:20:19] que critica a fenomenologia, hoje em dia não, já desde o século 20, né, mas eu, de fato, eu acho um método,

[00:20:26] um modo de pensamento que eu acho que não está totalmente esgotado, ele pode ser…

[00:20:32] Não, assim, até porque a crítica às vezes é justamente na parte da fenomenologia em que você,

[00:20:38] tudo bem, tem a suspensão, mas você está olhando para o sujeito trascendental, né, mas se você tirar

[00:20:42] essa parte, né, quase ainda metafísica, você tem a fenomenologia e um método que é super relevante,

[00:20:50] né, não é necessário você ficar olhando sempre o sujeito trascendental, que é um método do rússico,

[00:20:56] que é justamente… Esse impasse está até no Hussle, né, porque no Hussle ele começa, no fundo,

[00:21:04] ele vai chegar ao ideálise no trascendental para poder resolver algumas antinomias internas,

[00:21:10] mas isso é difícil, porque essa questão do trascendental para ele nunca é posta de um modo

[00:21:18] assim suficiente, né, ele usa o trascendental como um modo de superar os empiristas, né, para ele a

[00:21:25] percepção dos empiristas é muito problemática. Os empiristas também são muito importantes no

[00:21:33] começo da obra do Hussle. Mas o trascendental aparece em Heidegger, né, ainda que com outro nome, né?

[00:21:40] O Vicente Ferreira da Silva, que é o grande filósofo brasileiro, cuja obra eu organizei, ele cria um

[00:21:47] termo para traduzir o Heidegger, que é da transdescendência, é um trascendental para baixo,

[00:21:53] um trascendental rumo a finitude, né, a delicção, a morte, né, o ser para a morte, então é um

[00:21:59] trascendental invertido no Heidegger, que eu acho… O Heidegger é enorme, né, um pensador enorme,

[00:22:05] então também todas as variantes do Heidegger pelo Agamben, até mesmo pelo Badiou, né, da recepção

[00:22:12] atual do Heidegger e por outros pensadores, o próprio Sloterdijk, né, então o próprio Derrida,

[00:22:19] né, então é um autor muito fecundo. Agora ali também tem problemas ali também, né?

[00:22:25] Então agora, só pra… Você me permite, Rodrigo, só pra esquematizar e de repente tornar um pouco

[00:22:32] mais, enfim, assimilável. A ideia da forma que tem a ver com a fenomenologia é que não há… Daí eu

[00:22:40] vou falar que você disse, é mais ou menos por aí, tá? É que não há como separar a substância dos

[00:22:48] fenômenos, seja vivos ou não vivos, dos seus modos de atualização, dos seus modos de vir a ser,

[00:22:54] né? Então, tipo, a gente só pode compreender os fenômenos a partir das suas manifestações formais.

[00:23:01] E isso, assim, pela minha leitura, tem um pouquinho a ver com o Espinosa, assim, em relação a

[00:23:13] manifestações formais, que tem uma unicidade, enfim, que não separa substâncias, né? Ou em níveis

[00:23:23] hierárquicos de substância e tal. E com relação à ontologia relacional, né, me parece que aquela…

[00:23:31] Você coloca nos seguintes termos, que eu acho que é bem esclarecedor, que a coexistência precede a

[00:23:38] existência, exatamente. Isso tá lá no esfera Zoom. É, esfera Zoom, eu falo isso, é bem esfera Zoom.

[00:23:44] Então, o que que é essa coexistência que… Não tem mais fronteiras, né, entre os modos de existir,

[00:23:52] daí, portanto, me parece que até essa ontologia relacional, ela deriva lá da fenomenologia da

[00:24:00] unicidade, assim. Deixa eu só, rapidinho, Rodrigo, antes de você responder, porque a gente já vai entrar

[00:24:05] nas questões, só pra terminar o tema da classificação da obra, de repente, a fenomenologia

[00:24:10] ou esses diálogos do Jotardai com outras abordagens, ou o que que ele, como você poderia classificar a

[00:24:19] obra dele e tal. Uma coisa que me interessa bastante é pensar o que ele propõe no Iri Tempo. É uma

[00:24:25] psicodinâmica que, em vez de se focar na libido, né, se foca no tímus. E é isso, como é que você,

[00:24:32] vai ver essa parte da obra, ela tá dentro das propostas que você mencionou, seria uma outra parte?

[00:24:40] Sim. Tá, perfeito. Então, o que o Marcos mencionou, né, são grandes as perguntas, né, tem que…

[00:24:48] Sim, é. Mas, assim, a ontologia relacional é um termo que eu comecei a cunhar pra descrever a obra

[00:24:55] dos Loterdaik. Ele usa esse termo, acho que, uma vez, no Esferas, até onde eu me lembre, uma ou duas,

[00:25:01] eu acho que no Esferas 1 e no Esferas 3. Mas ele não define, ele chega a definir, mais ou menos,

[00:25:08] o projeto de esferas nesse sentido. Mas é que, como ele sai, no fundo, de uma proposição do Heidegger,

[00:25:15] já da faculdade do Heidegger, e ele sai, na verdade, de um conceito, ele extrai as esferas de um

[00:25:22] Heideggeriano do Mietzei, que é o Ser-Kon, que é de exaltar a relacionalidade acima da Sempranara,

[00:25:32] jogar as luzes, sobretudo, na questão da relação, e não tanto do Dasein, né, embora o Dasein já seja,

[00:25:40] o Ser aí já é relacional. Então, eu tentei, o que eu tenho procurado, o que eu percebi, é que toda obra

[00:25:49] da Heidegger tem algum componente relacional, por exemplo, no crítica da razão cínica, a gente tem a dupla

[00:25:57] vinculação, ou seja, a ideia do double bind, que é a descrição dele do cinismo. O double bind, o que que é o cinismo?

[00:26:04] O cinismo é uma dupla vinculação, uma mensagem duplamente vinculada, com valências negativas e positivas simultaneamente.

[00:26:13] Então, no fundo, há ali uma questão relacional também, ou seja, a própria descrição do cinismo é uma descrição

[00:26:19] relacional, fundada sob uma bivalência. No Esferas, ele chama de, o que é a Esfera? É o que chama de ontologia da Díade,

[00:26:29] que é uma ontologia da relacionalidade, ou seja, da estrutura interior-exterior, do ponto de vista ontológico.

[00:26:38] Nisso, ele está muito próximo do Hegel. Se a gente for retroagir, o que o Hegel está pensando, por exemplo, no

[00:26:47] o que seria o idealismo absoluto, é aquele capaz de articular o espírito subjetivo e a objetivação, o objetivo.

[00:26:56] Então, essa dupla valência, essa dupla articulação, é o que, para mim, dá muito horizonte da obra do Sloterdijk,

[00:27:04] e que eu acho que é um horizonte que até hoje em dia eu estou tentando criticar, porque eu acho que ele acaba ficando muito preso

[00:27:11] a uma estrutura dualista, embora, no fundo, ele não seja um pensador exatamente dualista, mas essa relação…

[00:27:20] Então, ele extrai essa relação dual também, da teoria do Ljumma, na teoria dos sistemas, e que estaria ligado…

[00:27:28] A esfera seria uma fronteira indecidível, um lugar de intervalo. Esse lugar de intervalo é bastante importante

[00:27:37] do ponto de vista das teorias da complexidade que tem se desenvolvido hoje em dia. Mas eu acho que o Sloterdijk,

[00:27:42] às vezes, ele sinaliza, ele aloca muito facilmente, assim, interno e externo, dentro do que ele chama de

[00:27:50] estruturas orgânicas e inorgânicas, ou o que ele chama de puro exterior, o exterior e o interior.

[00:27:57] E eu não sei se eu estou tentando tomar esse ponto como um ponto crítico, de sair disso, porque na teoria das ciências

[00:28:05] hoje contemporâneas, essa relação entre inorgânica e orgânica, essa fronteira, ela está se dissolvendo.

[00:28:11] Eu acho que ele ainda está muito colado numa visão da biologia do Jacques Monod, de uma biologia, assim,

[00:28:19] que não entrou ainda de modo muito decisivo em algumas questões de teorias de sistemas não lineares,

[00:28:30] ou seja, de borrar as fronteiras entre o que seria o orgânico e o inorgânico. Então esse é um ponto,

[00:28:37] não sei se… Bom, depois a gente pode voltar.

[00:28:40] Depois a gente volta, que eu até tenho várias perguntas aí.

[00:28:43] Pois é, eu também. Ele não menciona Mohan, mas enfim, vamos deixar pra depois.

[00:28:48] E aí, de repente, a gente entra nos férias mais… Vai falando mais a fundo, né? Você começa lá no útero.

[00:28:53] Acho que isso é difícil. O Sloterdijk também é um dissidente da teoria crítica, né?

[00:28:59] Assim, ele vem, ele é um crítico do Adorno, etc., mas ele saiu, né? Começou os seus primeiros anos

[00:29:07] lá na teoria crítica e saiu. Então é difícil, sim, por exemplo, a última coisa que o Sloterdijk é,

[00:29:13] por exemplo, é um pintador holístico, porque pra ele não tem o nível, não existe a totalidade,

[00:29:18] porque os fenômenos produzem multiplicidades espaços, pra dizer, com o Bachelard que ele cita.

[00:29:24] As multiplicidades e os lugares, eles são sempre multiplicidades que às vezes são incomensuráveis

[00:29:31] entre si. Então não existe um grande todo, né? O grande todo é o sonho da metafísica, né?

[00:29:37] É que é pressuposto…

[00:29:39] É uma grande totalidade. Nesse sentido, Hegel ainda é um grande pensador metafísico.

[00:29:43] O Sloterdijk passa pela fenomenologia justamente pra dinamitar, pelo Heidegger, né?

[00:29:48] Justamente pra dinamitar essa possibilidade metafísica desse grande guarda-chuva, desse grande todo, né?

[00:29:54] Então é difícil, assim, ancorar, porque, por exemplo, já me falaram, ah, o Teilhard de Chardin.

[00:29:59] O Sloterdijk não tem absolutamente nada a ver com o Teilhard de Chardin. Não tem telos,

[00:30:05] não tem uma grande salvação futura, não existe unidade, não existe o Rollos, não é holístico.

[00:30:12] Não tem equilíbrio, né?

[00:30:15] Não é holístico, é policentrístico, é policentrado. Tanto que esferas 3, que é o que eu prefiro,

[00:30:22] o volume das esferas que eu mais gosto, ali é uma pluralidade contínua, né?

[00:30:27] Então, assim, é um homem construindo suas espumas, né? E as espumas co-construindo o ser humano.

[00:30:34] Não há estabilidade, não há centro, há só bordas, franjas, margens, né?

[00:30:40] Então é um princípio de negatividade aí, né?

[00:30:45] Talvez seja esse resíduo, ainda que ele manteve íntegro da teoria crítica.

[00:30:50] Então, eu acho que isso serve como uma ponte pra que o Daniel perguntou sobre o Iri Tempo, né, Daniel?

[00:30:57] Sim, desde de repente só eu dar uma resumida pra ficar mais claro o que a gente está discutindo,

[00:31:01] porque às vezes a gente está num nível muito abstrato.

[00:31:06] Então, essa questão que a gente está falando do Telos, por exemplo, de ser ou não holístico,

[00:31:09] só pra situar pro ouvinte, é que tradicionalmente na filosofia,

[00:31:14] você tem uma tendência a pensar que existe, por exemplo, uma ordem, sei lá,

[00:31:17] seja uma ordem do cosmos, seja o espírito, seja qualquer coisa,

[00:31:20] e que existe um fim também pro homem dentro dessa ordem.

[00:31:23] Então, você tem um pensador holístico, você vai pressupor que tem esse todo,

[00:31:26] uma ordem dada, e vai tentar encontrar, por exemplo, o lugar do homem.

[00:31:30] E esse lugar do homem indica também um Telos, ou seja, um fim do homem.

[00:31:33] Então, sei lá, o fim do homem é usar sua razão de tal forma,

[00:31:37] né, como isso já apareceu muito na filosofia.

[00:31:40] É uma função, né?

[00:31:41] E aí, então, você tem um fim determinado.

[00:31:43] O que vários pensadores nos últimos séculos têm tentado fazer de maneiras diferentes

[00:31:49] é lidar com o pensamento pra fora desse sistema, né?

[00:31:55] Então, você vai imaginar que não tem um todo já dado.

[00:31:57] E como é possível pensar, existe um lugar do homem, por exemplo, fora de um todo,

[00:32:03] e se não tem uma ordem, o homem não tem lugar, e se tem lugar qual é,

[00:32:07] e se não tem lugar, cai esse onde.

[00:32:10] Então, não importa nada, ou se importa o que que importa,

[00:32:12] são essas questões que, por exemplo, o Nietzsche já tá lidando com elas,

[00:32:16] e o Zoterdijk está seguindo nesse debate, só pra situar, assim, rapidamente.

[00:32:22] É, não, desculpa se eu fui meio…

[00:32:23] Não, não, imagina, não, não, foi super claro, é só porque a gente tenta dar uma…

[00:32:27] Eu acho que o pensamento ontológico, né, e que, no fundo, a ontologia tem voltado

[00:32:32] com muita força, o chamado ontological turn, né, na filosofia, na antropologia, né?

[00:32:38] O próprio Bruno Latour, né, que é amigo do Zoterdijk,

[00:32:42] ele, no fundo, é um pensamento ontológico, né, noção de rede, né,

[00:32:46] ou agora dos modos de existência, né, um livro importante do Latour,

[00:32:50] tem a ver exatamente com esses modos de existência fáticos, né, que são reais,

[00:32:55] que são irredutíveis, não é possível, eles não podem ser assimilados ao sistema.

[00:33:01] Então, quando eu digo que a ontologia é forte nos Zoterdijk,

[00:33:05] quando a gente fala de ontologia da Diad, quer dizer exatamente que não é possível

[00:33:09] você quer definir o que é humano antes da relação, não existe um humano antes

[00:33:14] da técnica, não existe um humano antes dos artefatos técnicos,

[00:33:19] não existe um roteiro antes de usar um óculos, entende, porque o óculos e o Rodrigo

[00:33:23] é uma estrutura relacional, e assim, então, por isso que o Zoterdijk é um pensador

[00:33:28] muito importante pro transumanismo, né, ou pro pós-umanismo, meta-umanismo,

[00:33:33] como que iramos chamar, que, dentro do ponto de vista relacional,

[00:33:38] essas estruturas, elas estão sempre em coevolução, né, em codeterminação,

[00:33:44] umas em relação às outras, né, esse é um ponto que eu acho importante,

[00:33:49] né, assim, de, e por isso não existe exatamente telos, porque não existe

[00:33:54] uma harmonia pré-estabelecida, né, o Zoterdijk, o universo é um vazio,

[00:33:59] um vácuo, né, e o modo pelo qual o humano e o bios, né, porque ele não é um pensador

[00:34:05] do humano, ele é um pensador do bios, acho que a gente pode até dizer que

[00:34:10] existe ali uma meta-biologia, uma pensamento para além da biologia,

[00:34:14] uma das matrizes que ele oferece, o bios, a vida, está ligado ao puro interior,

[00:34:20] ao interior ontológico, só que o bios, ele é jogado num mundo que é vazio,

[00:34:25] não tem Deus, não existe desígnio, não existe telos, não existe nada,

[00:34:29] então o bios, ele está o tempo todo, o projeto, o que a gente chama de cultura,

[00:34:35] né, humana, ou a história da vida no planeta, é um modo pelo qual a vida,

[00:34:39] ela nega esse sem sentido e domestica esse exterior, trazendo esse exterior

[00:34:44] para dentro de si, então são os de, o que a gente chama de cultura,

[00:34:48] seriam centenas e milhares de modos de domesticação dessa vida em relação

[00:34:53] a esse puro exterior, que ele é avesso, que ele é inimigo, na verdade,

[00:35:00] o lugar do Sloterdijk, acho que o lugar da vida para o Sloterdijk no mundo

[00:35:04] é um lugar hostil.

[00:35:05] E aí, se a gente cai numa questão também interessante, que me parece que

[00:35:09] ele trata dela no livro Você Tem Que Mudar Sua Vida e o Master Life,

[00:35:16] que é justamente essa ideia de que tradicionalmente você tem uma cultura

[00:35:20] que nega a novidade, nega o novo, é uma forma de proteção contra essa hostilidade,

[00:35:25] como você estava já comentando, mas que a gente teria passado numa grande

[00:35:29] mudança cultural, seria justamente uma cultura que admira, que afirma o novo,

[00:35:35] de certa forma, então seria interessante já ir para esse lado, talvez, se puder.

[00:35:39] Claro, questão mesmo do Tu Deves Mudar Sua Vida, né, acho que aí é uma vinculação

[00:35:45] nitiana daquela noção do nihilismo ativo, né, no fundo, o nihilismo,

[00:35:50] o Sloterdijk chega a dizer isso, que o nihilismo é um falso problema,

[00:35:53] porque o nihilismo talvez seja só a nadificação dos valores antigos

[00:35:59] e a transformação em novos valores, né, então a gente pode pensar em que o nihilismo

[00:36:05] ele também é uma forma de negativar os valores antigos e de engendrar novos

[00:36:10] valores, que daí pode gerar novos direitos, novas formas de vida, etc.

[00:36:17] Do ponto de vista do Iritempel, né, que o Daniel tinha mencionado, eu acho que ali

[00:36:22] há uma questão forte ali dos Sloterdijk, ele dialoga com o Bataille, né, de Potlach,

[00:36:32] que é de uma economia, que seria a economia do excesso, a economia das sobras, né,

[00:36:42] que ele vai trabalhar isso um pouco no Esferas 3 também.

[00:36:45] É só pra indicar pro ouvinte o livro do Bataille que trata disso, é o livro excelente,

[00:36:51] genial, que é a parte maldita, a gente deixa um link também ali, tem um texto sobre,

[00:36:57] a gente peste resenha sobre o livro, a gente deixa um…

[00:37:00] Geral, ele é acompanhado, esse livro é acompanhado daquele ensaio, a noção de despesa, né,

[00:37:04] e o Bataille, na verdade, é um pensador genial, né, assim, brilhante, círculo do Kojev,

[00:37:11] é um Hegeliano, mas está pensando a sexualidade de um ponto de vista extremamente interessante,

[00:37:17] mas ali eu acho que há um ponto ali do Sloterdijk, que é de pensar novas formas de, novos modos

[00:37:26] de encarar a política, né, e a gente tem essa noção, a própria palavra política vem de Polis,

[00:37:33] e a noção de Polis, ela é muito tardia na história humana, né, é uma noção grega,

[00:37:40] por exemplo, no mesmo barco, o primeiro ensaio, ele vai tratar do que ele chama de paleopolítica,

[00:37:47] é o que ele chama de jangadas sociais, são os homens, os grupos, pequenos grupos do paleolítico,

[00:37:53] isso é uma política também, que é uma política esferológica, ou seja, uma política de horda,

[00:38:00] a política de pequenos grupos que conseguem produzir uma coesão ontológica, uma coesão entre si,

[00:38:05] eu acho que ali no Iritempel ele também está pensando a partir dos gregos, né, mas ele está tentando

[00:38:12] reenquadrar um pouco o que seria o sentido político a partir dessa chamada psicopolítica, né,

[00:38:19] há um antecedente dele, que é um livro pouco conhecido de um autor menos conhecido ainda,

[00:38:25] é o livro do Gabriel Tardis, que é um gênio, eu adoro o Gabriel Tardis, eu estou estudando com cuidado,

[00:38:31] é o livro do Gabriel Tardis de psíquica, que ele chama de uma economia psíquica,

[00:38:37] ou de psicologia econômica, então ele vai desenvolver uma certa economia, que não é libidinal

[00:38:45] exatamente, mas vincular a economia a padrões psíquicos, então o Google diz, vai que ele é um leitor

[00:38:52] do Tardis, eu tenho quase certeza, eu ainda não chequei isso, mas eu acho que o Iritempel está

[00:38:58] dialogando com essa obra do Tardis, né. E essa obra vem antes do Iritempel? Bem antes. É muito antes, o Tardis é o final de 1949, o início do vídeo.

[00:39:07] O Tardis tem aquela coisa conhecida da imitação e tal, mas eu realmente não sabia que tinha essa psicologia econômica.

[00:39:14] É isso, e peraí que grande essa obra, em dois volumes, dois tomes, tem uma obra grande o Tardis,

[00:39:21] eu acabo ficando marginal por conta do Durkheim, né, o Durkheim é o grande bastião de fundador da sociologia, o Tardis,

[00:39:28] seja só, tem pensadores atuais, eu acho que o Gabriel, o Latour, o Sloterdijk, ou então a noção de cosmopolítica

[00:39:37] da Isabel Stengherz, filósofa belga, que eu gosto muito, né, eu acho que são filósofos que se conversam, pensadores que se conversam.

[00:39:45] Mas assim, a gente pode dizer que essa dinâmica libidinal, ou não, enfim, de uma psicologia, de uma psicodinâmica política,

[00:39:55] ela é um modo mais sistemático de falar do ascetismo?

[00:40:03] É, mas justamente aí que eu acho que seria não libidinal necessariamente, porque acho que a questão toda é justamente uma psicodinâmica

[00:40:10] que não caia, que essa grande crítica do ZDM parece, pelo menos na minha leitura, do livro,

[00:40:15] uma das grandes, assim, dizer que no ocidente tradicionalmente a gente pensou o homem humano como um ser desejante,

[00:40:23] esqueceu justamente do Timósele, né, então ficou uma falta de crítica à tradição psicanalítica,

[00:40:29] por exemplo, dizendo que o Adder, o Adder que seria o único, né, aquele protesto masculino e tal,

[00:40:35] que ficou ali para escanteio, né, porque a psicanálise estava na tradição cristã, tradição platônica,

[00:40:41] que o homem é esse ser que falta, esse ser desejante, e não está pensando justamente na dimensão do excesso, da potência.

[00:40:48] Essa seria uma terceira via, né, em relação a tipo…

[00:40:52] A questão que ele coloca no Esfera 3 é o que ele define duas ontologias, ele fala uma ontologia da carência e uma ontologia da potência,

[00:41:00] e ativadamente se vincula essa segunda ontologia da potência, então esse é o ponto, por exemplo,

[00:41:06] que o Zizek, os lacanianos torcem o nariz para o Zotardá que também, ele não trabalha com a noção de falta,

[00:41:13] no sentido dele estaria muito mais próximo do Deleuze, do Guatari, do que dessa tradição lacaniana,

[00:41:22] que é para o qual a noção de falta está totalmente ligada à noção de desejo, de lei,

[00:41:28] fundamental, estruturante. Para ele, ele faz uma crítica disso.

[00:41:32] Então eu acho que o Timos, como o Daniel mencionou, o Timos é o reconhecimento, né, em grego.

[00:41:39] Então o que ele percebe é que existe uma lógica do reconhecimento,

[00:41:43] e de novo isso está lá no Hegel, né, por isso que eu estou querendo assistir um pouco no Hegel,

[00:41:49] a Teoria do Reconhecimento do Hegel, mas a Teoria do Reconhecimento é antiga,

[00:41:54] está lá no Aquiles, né, etc., nos heróis gregos.

[00:41:57] Para o Sloterdijk, o modo pelo qual se produz o reconhecimento não é necessariamente libidinal,

[00:42:02] é isso que o Daniel quer dizer, né. O que ele percebe muito, às vezes, é o de deslocamento,

[00:42:08] por exemplo, no Estranhamento do Mundo, ele vai analisar como a subjetividade foi alterada

[00:42:15] na Antiguidade com o ascetismo. Então isso no Esferas 2 também, no começo do Esferas 2,

[00:42:22] ele vai bater nessa tecla do ascetismo. Por quê? Porque, e também num livro que ele escreveu

[00:42:27] com o Tomás Machos sobre a Gnose, né, que é a revolução da alma.

[00:42:31] É, e também no Você Precisa Mudar Sua Vida.

[00:42:34] Você Precisa Mudar Sua Vida. Para o Sloterdijk, é uma revolução dos meios, quando o isolamento

[00:42:42] do sujeito, ele não é um isolamento, porque se existe apenas relação, que tudo é diádico,

[00:42:49] que tudo é relacional, o isolamento de um sujeito, por exemplo, num deserto, ele é a possibilidade

[00:42:56] de abertura de novos continentes. São continentes imaginários. Então toda a cartografia do além,

[00:43:03] que foi criada pela Idade Média, né, toda…

[00:43:05] É, que é ótimo para essa terrestre.

[00:43:07] Exatamente.

[00:43:08] Ou o mapa do Paraiso.

[00:43:10] Já Clegoff dizia que na Idade Média o além começou a ser colonizado. A colonização do além,

[00:43:19] para o Sloterdijk, tem a ver com uma revolução anacorética, que é uma revolução, que a gente

[00:43:23] pode dizer que é do desejo, só que não é uma minimização do desejo, mas é simplesmente

[00:43:28] uma transferência, que é o conceito de transferência que ele trabalha nas esferas.

[00:43:31] O desejo, ele deixa de cumprir o seu lugar de bolha, de lugar situado, de pequeno grupo,

[00:43:38] e ele começa a ser transferido para os globos, ou seja, para os grandes projetos imperiais,

[00:43:46] seja esses grandes projetos imperiais, do nível do simbólico, do imaginário, de construção

[00:43:51] de uma cidade, cidade de Deus, ou da construção de grandes agentes metaempíricos, das religiões,

[00:43:59] ou de colonizar o além, como na Divina Comédia. O que é a Divina Comédia?

[00:44:03] Uma grande colonização do além.

[00:44:05] Então, mas isso só se deu por conta das quesas, da disciplina, e por conta do isolamento

[00:44:11] de alguns, da possibilidade de isolamento gerado com as novas tecnologias do cristianismo,

[00:44:17] que são as tecnologias do eu.

[00:44:19] E que coincide com o ascetismo, que a gente pode pensar como se fosse, portanto, numa configuração

[00:44:26] apenas do Timos, uma configuração, enfim, entre outras possíveis, mas que por acaso veio a predominar.

[00:44:37] E aí, só para fechar isso, então, o que eu coloco como fenomenológico é mais esse traço,

[00:44:42] digamos, transversal, essa abordagem transversal, seja no estranhamento do mundo, seja no ir e

[00:44:49] tempo. Tem um livrinho dele chamado A Loucura de Deus, que é a noção de violência e de loucura,

[00:44:56] enfim, loucura, no sentido quase assim meio paródico mesmo, nos três religiões abraâmicas,

[00:45:03] que é o cristianismo, o islamismo e o judaísmo. Então, a abordagem é transversal, ou no Revolução

[00:45:10] Global da Alma, a abordagem é transversal, acho que sempre é uma abordagem fenomenológica nesse sentido,

[00:45:15] que valoriza a forma do fenômeno e a sua aparição, e também a sua dialética de aparição e

[00:45:23] oclusão, de tudo aquilo que aparece, na verdade, está constituindo um negativo dele próprio.

[00:45:28] Mas nesse sentido que você estava falando agora, é interessante também ver como essa da religião,

[00:45:36] a gente acabou entrando nesse tema, mas é interessante ver justamente como a religião aparece

[00:45:41] formalmente na polêmica, a frase polêmica dele, você precisa mudar sua vida, quer dizer que a

[00:45:50] religião não existe, porque ela justamente não seria nada mais do que uma prática específica,

[00:45:57] um modo justamente de organizar essas energias estimóticas, libidinais, e é portanto um campo de prática,

[00:46:05] um campo de asquezes, justamente como você estava, de ascetismo, de uma forma de disciplina.

[00:46:12] Isso, de repente, você puder comentar esse, porque isso engloba o que você estava falando,

[00:46:17] principalmente essa abordagem formal. Exato, o José Leque ele é muito intuitivo, ele tem umas intuições

[00:46:25] bem bacanas, porque isso é um debate feroz na ciência da religião, porque mesmo os ateus,

[00:46:32] quando eles criticam a religião, eles criticam a religião do ponto de vista do singular e de

[00:46:37] uma universalidade, é como se a religião existisse no singular e fosse um fenômeno universal,

[00:46:44] a religião, uma essência, sendo que no fundo tem várias teorias darwinistas agora que têm

[00:46:50] a noção de byproduct, que é de subproduto, então elas se aproximam dessa frase do Sloterdijk no

[00:46:56] seguinte sentido, a religião não existe de fato, mas ela é uma espécie de subproduto de funções

[00:47:02] adaptativas do hominidio, dos homens de nós, dos homo sapiens, e que nós chamamos de religião,

[00:47:08] mas que aos poucos ela pode ser erradicada da vida do ser humano sem nenhum comprometimento,

[00:47:13] porque no fundo ela já serviu já como uma função adaptativa, ela já teve a sua função

[00:47:21] adaptativa, então nesse sentido que não existe a religião como um universal, como uma substância,

[00:47:26] como uma essência. Mas essa leitura darwinista, por exemplo, você acha que ela estaria próxima

[00:47:39] dos Sloterdijk? Você acha que elas poderiam se harmonizar? Dá para se harmonizar sim, porque se

[00:47:46] ele pensa que a religião é sempre o modo, é aquilo que eu chamo para dar sentido a determinadas

[00:47:54] práticas, mas no fundo o que subjaza ali de importante a prática, então é como se o sentido

[00:48:01] da religião também pudesse ser superado no seu sentido histórico. O que eu estou dizendo é só

[00:48:05] que a religião não está do lado dos ateístas, como o Dawkins, o Hitchens, os Brides, mas é um tempo todo

[00:48:17] querendo esvaziar uma religião universal, as partes do princípio de que a religião existe,

[00:48:21] eu acho que o Sloterdijk já está pensando nessa visão já darwinista também de uma religião que é um

[00:48:29] subproduto, que ela pode ser erradicada, mas ela pode renascer sob outras formas, porque daí de novo

[00:48:35] a gente vai estar chamando de religião aquilo que não é religião, aquilo que é um meio pelo

[00:48:41] qual a espécie está se valendo para poder seguir adiante. Essa leitura que me

[00:48:49] incomoda nela é justamente a pressuposição de que por trás existe essa essa ordem da espécie que

[00:48:55] portanto vai evoluindo de acordo com uma lógica interna que é a da seleção e portanto deveria

[00:49:02] que os fenômenos é essa ordem que já está previamente dada. Mas essa é uma leitura de

[00:49:10] darwin, não é darwin mesmo. Mas mal ou bem se tem, se você quer uma coisa da espécie que está de acordo

[00:49:17] com uma seleção, eu não sei como que o Rodrigo está lendo isso, eu já pergunto justamente, mas se

[00:49:23] supondo que se leia dessa forma, me parece que o Sloterdijk estaria criticando essa lógica,

[00:49:31] de fugir como você mesmo colocou antes, de pensar a partir de uma ordem já dada mesmo que

[00:49:38] seja uma ordem da biologia, do natural. Sim, sim, daí ele, porque eu estava só confrontando para pensar

[00:49:46] que essa noção da religião não existe, isso é advogado também por algumas teorias neo-da-vis.

[00:49:53] Só que o Sloterdijk do ponto de vista da filosofia, a filosofia precisa problematizar isso,

[00:50:00] não existe uma grande ordem darwinista, a seleção natural não pode ser usada. Tanto que um autor bem

[00:50:08] importante para ele, que é um autor que eu tenho estudado também, que é um autor genial, que é o

[00:50:13] Jacob von Exkill, o biólogo, um biólogo existencial, trabalha com o conceito de Umwelt. O Deleuze cita

[00:50:22] o Exkill e o Umwelt… O Sloterdijk também cita esse termo. O Sloterdijk também cita esse termo.

[00:50:30] Às vezes ele não cita o Exkill, ele só usa o termo, o meio circundante, então é uma tentativa do Exkill

[00:50:37] no começo do século 20 de superar algumas questões do Darwinismo e de dar uma maior ênfase ao meio,

[00:50:45] e não é a relação sistema-meio, que para o Sloterdijk é a diade, essa diade não há uma anterioridade,

[00:50:53] uma predominância do sistema em relação ao meio. Acho que eles tentam pensar exatamente como formas

[00:50:59] coevolutivas. Então não é exatamente que o meio simplesmente selecionou uma forma de vida,

[00:51:08] não é um sistema vivo. Meio também serve para transformar essa forma de vida à medida em que

[00:51:15] o sistema e o meio são codeterminantes. Tanto o meio quanto a forma só podem existir nessa

[00:51:26] relação, como você falou antes, o princípio é a relação e não o meio que determina o objeto.

[00:51:31] Eu acho que está o Exkill com o Velt, o próprio Latour, a teoria das redes do Latour, dos modos de

[00:51:38] existência é uma privilegiada do meio em relação ao sistema, ou seja, tirar um pouco esse imperialismo

[00:51:45] do sistema, que no fundo é uma tradição mais hard do Darwinismo, e até mesmo o Richard Dawkins,

[00:51:54] esses pensadores que a gente pode chamar de genecentristas valorizam muito o gene, sendo

[00:52:02] que o gene é uma narrativa, quase. O gene também é uma construção imaginária. Se for retroagir,

[00:52:14] o problema fica mais grave, porque o Darwin não era geneticista, o Darwin era um morfologista.

[00:52:19] A gente joga fora o próprio Chomsky.

[00:52:25] Isso é realmente impressionante, porque essa crítica eu acho essencial, porque justamente

[00:52:32] o discurso é esse, a gente que estava pensando em genes, a gente saiu da totalidade, mas é outra,

[00:52:39] só criou outra alternativa, é a mesma lógica. O discurso do ponto de vista do Sloterdijk,

[00:52:45] eles teriam um discurso metafísico, ou do Vátimo, um discurso metafísico.

[00:52:51] Eu acho que para fechar a coisa da religião, é só mesmo a noção da religião, acho que o Vátimo

[00:52:59] fala bem da diferença entre o cristianismo e a cristandade. A religião tem formas históricas,

[00:53:06] e talvez até o ateísmo seja uma forma de pensar religião para além das formas históricas de todas

[00:53:16] as religiões. Então, talvez seja um pouco essa visão do Sloterdijk, desvaziar essa essência e

[00:53:25] esvaziar as formas históricas positivas, normativas, das diversas religiões.

[00:53:30] Eu acho que para a gente, não sei se você quer fazer mais alguma pergunta, Daniel.

[00:53:35] Eu queria, de repente, só fazer um comentário para completar também isso, que é só para marcar

[00:53:41] também que o Sloterdijk, ao falar isso, ele não está de modo algum falando que a religião é má,

[00:53:47] por exemplo, justamente porque ele não está assumindo uma postura moral de antemão. Então,

[00:53:52] ele justamente pensando nas possibilidades, as ques, ele está dizendo, por exemplo, tem os monges,

[00:53:57] Média e Média se autentitulavam os atletas de Cristo, e olha só como isso que eles vinham como

[00:54:03] uma religião, era, de certo modo, uma prática que os permitia criar, exatamente. É uma tecnologia,

[00:54:09] pensando no design. Isso que permite criar experiências, modos de vida, mapeamento do céu, etc.

[00:54:23] É uma criação. É tudo meio que relacionado a um VELT lá, que é como se fosse a embalagem das coisas,

[00:54:31] você cria uma embalagem para lidar com o mundo, como se fosse um filtro. Isso, mas há alguns filtros

[00:54:38] que são criativos, porque outra coisa que eu talvez queria retomar, não sei se você já estiver

[00:54:44] pensando em outra questão, a gente pode deixar para lá, mas uma hora o Rodrigo mencionou que a

[00:54:49] unilismo seria uma falsa questão, mas ao mesmo tempo eu entendo que o unilismo não é necessariamente

[00:54:58] um problema, ele pode ser um momento no qual certas crenças desaparecem para criação de outras,

[00:55:04] mas eu fico, sei lá, uma leitura do último homem, do Nietzsche, ou alguma coisa assim, que em medida

[00:55:11] também não poderia existir justamente uma forma de sociabilidade, ou de integração, de prática,

[00:55:17] que é, de certa maneira, quase uma antiprática, com só um certo grupo, e aí me parece que essa,

[00:55:24] isso é uma pergunta de novo, me parece vagamente, eu queria saber se você concordaria com essa

[00:55:29] leitura, se, por exemplo, a ideia do cinismo difuso não seria justamente uma espécie de cultura do último

[00:55:36] homem, no qual esse unilismo floresce, o unilismo negativo, e não aparece só como uma fase, digamos,

[00:55:43] de universitária, para um unilismo que pode ser potente, que está sempre criando novo, então

[00:55:49] esse seria um debate que me interessa, eu queria ver como é que você… Pode ser, é muito bom. Então,

[00:55:54] isso recai de novo nessa dificuldade do método fenomenológico, de não haver um juízo de valor,

[00:56:00] então eu acho que, em tudo que eu li do Sloterdijk, é muito difícil ele falar, por exemplo, que a gente

[00:56:07] está numa época de uma certa forma negativa, ou ele não emite juízo de valor, é uma coisa

[00:56:14] escamoteante o tempo todo, que ele mantém sempre na suspensão. Agora, o que eu acho é que pode,

[00:56:21] sim, é lógico que dá pra pensar do ponto de vista valorativo, de juízo, como o último homem, aliás,

[00:56:27] talvez ele tenha falado alguma coisa parecida, sim, como a razão cínica, porque o cinismo universal

[00:56:37] difuso é aquilo que inviabiliza a crítica, justamente porque todo mundo critica, todo mundo,

[00:56:43] hoje em dia, é um grande crítico social, as redes sociais, o tempo todo, todo mundo é de esquerda,

[00:56:49] todo mundo está falando de tudo, mas daí é uma inviabilidade, até o próprio Safato, ele coloca uma frase

[00:56:55] interessante que ele diz que o cinismo é quando a crítica, como que é, a crítica é a inviabilização

[00:57:07] da crítica pela transparência, quando ela se torna óbvia, então ele é tão óbvio, tudo é tão

[00:57:14] evidente que a crítica se torna inviável, então não tenho dúvida que esse seja um momento agônico,

[00:57:21] um momento de esvaziamento crítico, eu acho que o Sloterdijk também pensa nisso,

[00:57:26] só que aí, de novo, o que eu estou tentando recuar um pouco ao Hegel é de pensar, bom, isso é a forma

[00:57:33] manifesta, agora a manifestação do fenômeno do esgotamento, ela está engendrando em si alguma

[00:57:40] coisa que está oculta, então isso que eu vejo muito o Sloterdijk, ele está sempre pensando

[00:57:48] na fenomenologia da aparição e da oclusão, que isso está no Hegel, está no Heidegger,

[00:57:54] está no método fenomenológico, em que ponto, o que será talvez o que o cinismo universal difuso

[00:58:03] está engendrando uma negatividade dele mesmo, que vai aparecer em breve, que é a negatividade que

[00:58:10] ele vai surgir para desmontar isso, são novos microfascismos, novas formas de gregarias, novas

[00:58:17] formas de relacionalização, daí a gente de novo fica na epoquia, fica nessa suspensão do juízo,

[00:58:24] não tem muito como definir, talvez eu acho que seja até um lado meio frágil do Sloterdijk.

[00:58:29] Eu ia comentar que isso me incomoda, principalmente quando eu li o Iri Tempo, eu achei fantástico,

[00:58:39] o último capítulo, que é uma espécie de conclusão, que é onde se espera que ele se posicione em

[00:58:47] relação à sociedade atual, eu achei muito fraco, é como se todo o resto do livro aumentar as

[00:58:56] expectativas, ele propõe, se eu bem me lembro, que a gente deve chegar num ponto de equilíbrio,

[00:59:05] e algumas coisas assim que eu fiquei abismado, sabe?

[00:59:07] Não, ali, o Feras 3, que é o meu favorito, eu achei que o final também é bastante frustrado,

[00:59:17] e se apoia no Kenneth Gilbert, aquele teórico da economia, da Fluent Societies, Sociedades da

[00:59:27] Abundância, e ele vai seguindo Gilbert, assim como se não houvesse nenhuma aporia em você sustentar

[00:59:34] a sociedade da abundância, num mundo que pode continuar tendo o maior nível de exploração e

[00:59:39] de escravidão da história humana, assim, em breve, né? Então eu acho que há um problema desse método

[00:59:47] fenomenológico, que eu acho que é um problema no Hegel, que não existe tanto, não existe nesse

[00:59:52] sentido no Hegel, por isso que eu tenho retornado um pouco ao Hegel, porque eu acho que ao afirmar

[00:59:57] uma ontologia da potência, o Sloterdijk, ele esvazia um pouco o princípio da negatividade,

[01:00:03] eu acho que ele pensa apenas como se fossem fáceis entre a manifestação e a oclusão,

[01:00:08] o ocultamento de formas, então ele é muito bom para pensar a forma, só que, como diz o Hegel,

[01:00:17] a gente precisa ter uma forma encarnada também, né? Você está em algum lugar, você precisa se definir,

[01:00:24] o espírito é aquele que precisa se concretizar em alguma figura, então, quando você não se concretiza em

[01:00:29] nenhuma, viram nesse fumato, uma coisa complicada, eu concordo contigo, e aí eu não estou nem afim

[01:00:36] de defender o Sloterdijk, porque eu acho que ele é um grande pensador que precisa, em primeiro lugar,

[01:00:40] ser compreendido, porque no fundo, chegou no momento. É, porque leitura rasa é muito sempre fácil.

[01:00:46] Por referências, mas muito, muito pouco ainda, né? Acho que de estudos mais específicos que eu

[01:00:53] faço, é eu e o Juliano Garcia Peçanha, meu amigo aqui, e aí uma ou outra dissertação, ou tese,

[01:00:59] ou esferas, que é a obra central, ainda não foi publicada, então eu fico defendendo, entre aspas,

[01:01:06] os Sloterdijk, só para não afastar os leitores, porque eu acho que é um autor que precisa muito ser

[01:01:11] lido, né? O Agambe é até uma moda, né, do Agambe, outros pensadores, a filosofia analítica nem se fala,

[01:01:19] o mundo é analítico, né, os departamentos de filosofia, então o Sloterdijk é um ponto fora da curva,

[01:01:29] eu acho assim, que até dentro da Alemanha ele divide muito, né, tem aqueles que o execram,

[01:01:37] e aqueles que acham que ele é o maior filósofo vivo depois de Nietzsche, assim, o negócio nesse nível,

[01:01:42] então ele também divide muito as opiniões, e eu acho que isso é saudável, é bacana. Por exemplo,

[01:01:48] o que mencionou, é preciso ver essa questão, porque às vezes eu acho que ele fala muito do ponto de

[01:01:52] vestir um alemão, é um alemão olhando para o resto do mundo, tem um princípio muito neocolonial ali

[01:01:58] também, sabe, por mais que ele tenha feito um enorme esforço para perspectivar isso.

[01:02:05] E ao mesmo tempo fica a impressão que não é isso também, que ele não critica nada e tal,

[01:02:12] no Irei Tempo mesmo, assim como no Crítica da Razão Cínica, ele é muito afiado nas críticas,

[01:02:20] no decorrer do livro inteiro, ele faz críticas ao marxismo e à psicanálise, que eu assim nunca

[01:02:27] vi críticas mais profundas, né, o que me frustra basicamente é que no final, sabe, com tanta crítica

[01:02:38] ele não toma um partido muito preciso. Justamente porque fica essa tentativa de manter a suspensão,

[01:02:49] né, só que ali acho que talvez não seja o momento. Mas só voltando à questão que eu tinha colocado,

[01:02:56] que gerou toda essa discussão, porque o que me interessa muito na verdade, assim, nos meus

[01:03:03] pesquisas, é a questão do valor, né, assim, a minha pesquisa é muito um estudo da moral,

[01:03:07] que eu tenho feito a tempo já. E aí esse tipo de crítica que eu tava mencionando, como dizendo,

[01:03:14] ah, é um niilismo e tal, eu tava partindo realmente de uma perspectiva nitiana e pensando não tanto

[01:03:20] em julgamento moral, né, tentando fazer essa separação, quanto esse julgamento de pensar mesmo

[01:03:25] que tem uma potência para formar moral. Então pensando o niilismo assim bem, aí o Nietzsche

[01:03:32] é um termo fisiológico que é sempre um tanto traiçoeiro, né, então eu evito usar, mas que essa ideia é justamente remeter

[01:03:40] ao fisiológico pensado como forças, né, não tanto como corpo, né, mas é então pensar só o niilismo

[01:03:49] como uma fraqueza mesmo, como um momento em que, enfim, estão se esgotando e aí talvez uma opção

[01:03:58] para o programa que você colocou seria justamente essa ideia do Nietzsche da, sei lá, do superação,

[01:04:05] enfim, do fato de que vem outra coisa e vai tomar ali, né, vai destruir aquilo e gerar outra coisa.

[01:04:10] É uma prerrogativa da potência, né? É, é isso. Então era também pensar nesse sentido, na minha

[01:04:17] perspectiva, pelo menos, pode ser uma visão que ao mesmo tempo é a moral e não fica em cima do

[01:04:23] totalmente, pelo menos em algum sentido, né, em parte fica mesmo.

[01:04:27] Não, claro, na verdade, aí que tá, essa cobrança não existe, quer dizer, essa cobrança não deveria existir,

[01:04:35] é que para mim particularmente é o seguinte, como ele é muito irônico e critica os outros, sabe,

[01:04:42] se ele não fosse tanto assim, não haveria essa cobrança da minha parte, sabe? Tipo, eu tô tentando

[01:04:49] ser sincero, inclusive. Não, mas isso é bom, já que essa cobrança é excelente, né, isso aí.

[01:04:56] Não, pois é, mas aí como ele é muito irônico, eu gosto dessa ironia, mas daí isso, assim, a gente tá,

[01:05:02] eu estou habituado, assim, já que a pessoa critica tanto, sei lá, psicanálise, etc., daí a gente já fala,

[01:05:10] não, tudo bem, então vamos lá, o que que você tem a propor, né? É uma proposta forte, né, no fundo é,

[01:05:14] ele fica refendo a grande questão da fenomenologia, a descrição, né, é um método descricionista,

[01:05:20] e ele fica refendo esse método, né, então eu acho que é, eu entendo o que o Marcos tá falando,

[01:05:26] e acho que a leitura pode gerar isso mesmo, né, de uma certa decepção diante, por isso que às vezes

[01:05:33] eu recuo um pouco do Sloterdijk para o Deleuze, eu gosto muito do Deleuze, é um autor que eu já leio

[01:05:39] há muito tempo, né, e no Deleuze eu sinto que isso não é mais fraco, é mais, assim, é mais mitigado,

[01:05:48] ou seja, o Deleuze ele tem mais, ele é mais propositivo, né, você tem lá as linhas de fuga, né,

[01:05:54] você tem a noção da molecularidade, tem a noção dos corpos, das máquinas de guerra, etc.,

[01:06:02] noções fortes, né, chega a ser quase um problema oposto, né, porque de tanto ele ser propositivo,

[01:06:10] ele deixa algumas propostas em abertas, ele não define direito e deixa jogado mesmo.

[01:06:16] Acaba também advogando também uma positividade, uma potência, assim, né, pode ter uma interpretação

[01:06:22] meio juvenil, assim, né, pois é, ele gosta muito de investigar o anarquismo filosófico e tal,

[01:06:31] da época dele, é uma coisa, e ele não vai a fundo, às vezes, assim, isso que eu sinto falta nele.

[01:06:36] Mas voltando ao Sloterdic, eu acho que pra finalizar até, o que eu sugiro da gente fazer é, assim,

[01:06:44] primeiro, um panorama bem esquemático mesmo, assim, pro cara que quer começar a ler o Sloterdic,

[01:06:50] a gente não vai comentar sobre as obras, vai, sei lá, fazer um, eu queria que você sugirisse, Rodrigo.

[01:06:56] Sim, um panorama de leitura, claro.

[01:06:58] É, um caminho, né.

[01:07:01] É, e depois, de repente, falar um pouco só das esferas, né, que…

[01:07:05] Pois é.

[01:07:06] Falar um pouco mais, com um pouco mais de cuidado, que você acha, Rodrigo, dá pra…

[01:07:08] Tá, pode ser, tranquilo.

[01:07:10] É, e daí, na verdade, eu acho que já dá pra juntar com isso tudo, falando também em…

[01:07:16] Aqui a importância do pensamento do Sloterdic, o Rodrigo, ele já, eu acho que já deixou bem claro,

[01:07:22] né, do que ele acha, assim, mas eu queria que ele falasse ainda um pouco sobre como ele…

[01:07:28] Como que isso pode ser… Como que o pensamento do Sloterdic pode, assim, ser frutífero em algum sentido

[01:07:36] pra pensar o horizonte político atual, seja no Brasil, seja na Europa, enfim.

[01:07:44] Então vamos lá. Então, primeiro a parte esquemática, né.

[01:07:48] Aí depende do interesse dos leitores, né, mas eu diria que quem quer, pra mim, as esferas é a obra central.

[01:07:56] Por mais que ela seja muito extensa e difícil, eu acho que ali a… E o próprio Sloterdic acha que é o Opus Magna, enfim,

[01:08:04] que é o legado dele, está nas esferas.

[01:08:06] Quem quiser começar, eu sugiro que leia um livro chamado No Mesmo Barco, que é um livrinho que tem tradução,

[01:08:12] que tem três ensaios. O primeiro é a Paleopolítica, Política Imperial e Hiperpolítica.

[01:08:20] Na verdade, esse livro é um broquí, é uma espécie de esboço de todo projeto de esferas.

[01:08:25] A Paleopolítica diz respeito às bolhas, a Política Imperial diz respeito aos globos, que são as esferas dois,

[01:08:31] e a Hiperpolítica seria a Morfologia, né, que ele é um morfologista, a forma está sempre impreeminente,

[01:08:40] seria das espumas. Então eu aconselharia de entrar, né, na verdade esse livro foi escrito,

[01:08:45] eu acho que o Sloterdic já estava trabalhando nas esferas, até em termos de datas, assim,

[01:08:50] e ele foi escrito, ele estava pensando, ele estava pensando já no projeto, então acho que vale a pena.

[01:08:56] Quem quiser, eu acho, eu gosto muito das esferas um e das esferas três.

[01:09:00] As esferas dois, ele é maior até em termos de tamanho e de extensão.

[01:09:04] É gigantesco esse livro.

[01:09:06] Oi?

[01:09:07] É gigantesco esse livro.

[01:09:09] É gigantesco, né, e também ele recobre um período que não é cronológico, né, é morfológico, não é cronológico a organização,

[01:09:17] mas ele recobre principalmente um período que seria período medieval, período pré-moderno, né,

[01:09:23] mas um pré-moderno que começa, na verdade, com os gregos, começa com a filosofia e com as religiões de salvação.

[01:09:31] Então eu acho que talvez para o interesse do leitor ele seja mais interessante o um e o três.

[01:09:37] Tem um livro dele bastante bom para se entrar no pensamento do Sloterdic, que é um livro chamado O Sol e a Morte,

[01:09:45] que é uma longa entrevista que ele fez a um estudioso alemão, Heinrich.

[01:09:53] Então essa longa entrevista virou um livro, então ali ele fala até do ponto de vista biográfico quais foram as influências dele,

[01:10:00] fala do tempo que ele morou na Índia quando ele era jovem, como isso relativizou a visão que ele tem da filosofia,

[01:10:08] a visão que ele tem da modernidade, como isso foi importante, essa perspectivação.

[01:10:13] E ali eu acho que é um bom caminho também para entrar no Sloterdic como um todo.

[01:10:17] Do ponto de vista eu acho que da teoria crítica ou de crítica cultural, eu acho que daí vale a pena o crítica da razão cínica, né,

[01:10:27] como ali uma obra, um empreendimento de crítica cultural eu acho, de teoria e crítica cultural, para quem se interessa por isso.

[01:10:37] Do ponto de vista de política, eu acho que daí seria o Ir e o Tempo, né, a noção de psicopolítica, do Timmels, etc.

[01:10:50] E um livro dele chamado Mobilização Infinita, que está com essa, na verdade tem essa tradução na tradução de português de Portugal.

[01:11:00] Mas no fundo o nome do livro é Eurotalismo, que ele fala da relação da Europa com o Oriente, né,

[01:11:08] e como ele desenvolve um conceito de política cinética, ou seja, política do movimento.

[01:11:13] Então isso é muito interessante para pensar movimentos sociais, ou então, sei lá, modos novos de organização da política,

[01:11:21] nas sociedades de informação, das novas tecnologias, etc.

[01:11:26] Eu teria um outro momento ali, um outro grupo que é ligado a questões também,

[01:11:36] eu acho que seria um grupo ligado a teorias antropológicas, ou a uma visão antropológica.

[01:11:44] Isso já está totalmente nos esferas, mas eu acho que é um caminho forte dos loterdaques, o diálogo com a antropologia,

[01:11:51] aliás, é o que tem me interessado hoje em dia, a partir dos loterdaques de outros filósofos, é de retomar questões antropológicas.

[01:11:58] Que aí eu acho que é onde tu deve mudar tua vida, né.

[01:12:01] Acho que ali há a questão da antropotécnica, da tecnologia plasmando o indivíduo, etc.

[01:12:10] Eu acho que ali, nesses caminhos, já está demarcado um bom começo.

[01:12:18] Tem livros um pouquinho menores, experimentos consigo mesmo, fora das experiências de drogas,

[01:12:25] e na questão das religiões, eu acho que principalmente esse livrinho, que eu acho um livrinho sensacional,

[01:12:32] que é o estranhamento do mundo, e para quem lê alemão, o revolução global da alma,

[01:12:38] que acho que não tem tradução para nenhuma língua ainda, eu acho, que é com Thomas Macho,

[01:12:43] que aí tem a ver com a gnose, né, é uma história do gnosticismo, na verdade.

[01:12:50] Eu acho que os loterdaques, eu tenho certeza que ele é um pensador gnóstico, ele se considera gnóstico,

[01:12:56] no sentido antigo, né, nos gnósticos antigos.

[01:13:01] Então é isso, em termos estimáticos, né, tudo bem?

[01:13:04] Interessante, tudo bem, então eu acho que você pode, de repente, desenvolver essa ideia de que ele seria um pensador gnóstico,

[01:13:10] porque isso é bem interessante, na verdade.

[01:13:12] O gnosticismo é uma cosmologia, ele pressupõe uma cosmologia, uma ética, dos textos chamados textos gnósticos da antiguidade.

[01:13:20] Eles foram descobertos, a maior parte da biblioteca de gnóstica foi descoberta em 1945,

[01:13:26] chamada biblioteca de Nagahamadi, e aí houve essa revolução no pensamento teológico,

[01:13:31] que é o impacto desses textos gnósticos.

[01:13:34] Os gnósticos, eles têm, é uma flutuação textual muito grande, então você tem, desde o corpo zermético,

[01:13:40] que é o que a gente pode chamar de um gnosticismo panteísta, até os gnósticos dualistas,

[01:13:46] ou seja, de alguns tratados gnósticos dualistas.

[01:13:48] Mas só porque assim, foi uma desculpa interromper, mas só porque assim, no senso comum, pelo menos,

[01:13:52] A ideia de gnose é de um conhecimento que você acessa o divino, de conhecer o divino,

[01:13:57] tanto que aqui há gnóstico, você acredita que não é possível conhecer Deus, o divino.

[01:14:03] Isso realmente nesse sentido, ou você está falando de um corpo de conhecimento que não necessariamente tem uma ligação com essa noção?

[01:14:11] Corpos de conhecimento, eu acho que tem um conteúdo teológico subliminar forte na obra do Sloterdijk,

[01:14:17] mas teológico nesse sentido gnóstico. O que eu quero dizer é o seguinte,

[01:14:21] eu acho que uma definição para o gnóstico é a identidade, uma identidade absoluta entre Deus e pensamento.

[01:14:29] Então, o modo de acessar Deus é o modo de conhecer.

[01:14:33] Pensamento, sim.

[01:14:34] Pensamento, só que isso no Sloterdijk talvez.

[01:14:37] Se eu entender que o modo de conhecimento vai me levar ao Marquês de Sade,

[01:14:41] eu sou um gnóstico e eu estou acessando Deus da natureza via Marquês de Sade.

[01:14:46] Ou seja, eu estou destruindo todas as tábulas de valor, porque no fundo o modo de acessar Deus e pensamento é o mesmo.

[01:14:53] Por exemplo, o Hegel é um grande gnóstico, acho que é o maior de todos os gnósticos.

[01:14:59] Justamente porque ele identifica o espírito, o mundo é uma figura da realização do espírito, mas o espírito é acessado pela consciência.

[01:15:10] Então, o real e o pensamento, o real e o conceito são o mesmo.

[01:15:15] O real e o pensamento são o mesmo.

[01:15:17] Então, por isso que há tanto no Hegel essa ideia do fim da religião, a morte da arte, a morte da história,

[01:15:25] que ele está pensando exatamente nesse longo processo de esvaziamento das figuras externas,

[01:15:32] ou das figuras de adereço, ou das representações.

[01:15:36] Então, nesse sentido que eu acho que o Sloterdijk acho que é possível embasar até,

[01:15:41] em algum momento ele deve até falar, porque é ruim a pessoa se autonomear assim,

[01:15:46] mas em algum momento ele deve falar que ele é um herdeiro dos gnósticos,

[01:15:50] porque há também uma cosmologia nos gnósticos que é a cosmologia de um universo anorgânico.

[01:15:55] Ou seja, a noção de que é um pessimismo muito forte, de que no fundo nós estamos aqui num teatro de marionetes,

[01:16:02] nós somos cativos, o universo no fundo é uma grande cadeia, é uma prisão,

[01:16:07] e no fundo o universo ele é inimigo, ele é sem sentido, ele é burro.

[01:16:13] Aliás, os gnósticos diziam que Deus é estúpido, e justamente por isso que existe o mal.

[01:16:18] E todos aqueles que adoram Deus adoram um ser estúpido, que é um ser precário, é um ser falível,

[01:16:24] e justamente eles acreditam numa substância divina que está para além de Deus e que está fora da participação do mundo.

[01:16:31] Então, se diz muito, se fala muito que os gnósticos seriam dualistas radicais,

[01:16:35] uma matriz do gnosticismo antigo.

[01:16:38] Eu acho que isso se aloca muito nesse apreço que o Zolotardyck tem pelos gnósticos,

[01:16:43] que ele demonstra isso no Estranhamento do Mundo.

[01:16:46] O tema do estrangeiro, do Camus, é um tema gnóstico.

[01:16:49] Os existencialistas, desde Pascal, Kierkegaard, o próprio Heidegger é lido como um gnóstico,

[01:16:55] o Hans Jonas chega a fazer um mapeamento do gnosticismo no mundo contemporâneo,

[01:17:00] e o Hans Jonas é um filósofo da biologia,

[01:17:03] mas ele se interessou pelo gnosticismo como uma matriz de pensamento que tinha sido perdida

[01:17:08] e que acabou voltando a partir do século XVII, XVIII.

[01:17:12] Então, todas essas concepções de dualismo forte,

[01:17:16] ou de concepções anorgânicas,

[01:17:23] ou seja, o mundo é um vazio, não existe desígnio, Deus não está presente no mundo, não existe telos,

[01:17:30] são concepções de uma certa forma gnósticas, mas isso é um assunto meio longo.

[01:17:34] Tem textos também gnósticos e um texto panteísta.

[01:17:40] Eu tenho suposição de que o Espinosa já está contido lá no Corpus Hermetico,

[01:17:45] e no entanto o Espinosa lhe advoga também de um universo positivo,

[01:17:49] de uma pura produção divina em tudo.

[01:17:54] Sim, mas é um deus com transtorno imanente.

[01:18:00] Bom, só para encerrar, como que você enxerga,

[01:18:08] se é que você enxerga uma possível contribuição da leitura ou do pensamento do Sloterdijk

[01:18:16] para a gente compreender, enfim, as crises atuais, né?

[01:18:23] Crises atuais, né? Crises já é quase um nome, enfim, sei lá, prosague.

[01:18:30] Gente com caminhos, né?

[01:18:32] É, mas enfim, você acha que ele…

[01:18:36] Porque assim, eu acho que muitos ouvintes podem pensar, tudo bem,

[01:18:41] a gente discutiu uma série de questões filosóficas que não tem pé no chão e tal,

[01:18:46] enfim, estou imaginando aqui em relação ao ouvinte.

[01:18:51] E o que é isso no fim das contas?

[01:18:53] Claro que essa percepção já teria uma série de críticas,

[01:18:58] no sentido de que nem seria um ouvinte do não obstante, né?

[01:19:03] Mas assim, como que seria, enfim, isso, de certa forma,

[01:19:09] ter algum pé, entre aspas, na realidade contemporânea e tal?

[01:19:15] Vocês conseguem pensar nesse tipo de coisa?

[01:19:19] Com relação a condutas e tal, de repente é o caso de retomar a polêmica que eu coloquei no início.

[01:19:28] Por exemplo, aí que tá, eu não consigo, do pouco que eu conheço Sloterdijk,

[01:19:34] do pouco que eu li Sloterdijk, compreender as declarações que ele tem dado

[01:19:40] em relação a, não consigo fazer nenhuma conexão em relação a essas,

[01:19:46] as declarações sobre a crise migratória na Alemanha.

[01:19:51] A gente vê que o partido que tem se criado, a alternativa para a Alemanha,

[01:19:59] tem tomado o Sloterdijk como um porta-voz principal, assim,

[01:20:04] em relação ao que ele tem falado sobre isso.

[01:20:07] Isso em oposição às condutas da Angela Merkel, em relação à abertura migratória e tal.

[01:20:15] Você consegue ver ou você também não consegue ver?

[01:20:18] Eu tenho um pouco de dificuldade, tanto que eu não acompanhei, né?

[01:20:22] Não sei se eu cheguei a mencionar agora no começo do programa, né?

[01:20:25] Mas eu não conheço esse texto dele, essa declaração, eu vou buscar,

[01:20:28] porque eu fiquei muito tempo, agora eu tô dedicado a outros estudos, etc.

[01:20:33] Então, eu fiquei muito tempo envolvido na obra do Sloterdijk,

[01:20:36] li muitos artigos, coisas soltas dele assim, né?

[01:20:39] Porque é um autor vivo e atuante, era daquele programa com arteto filosófico, né?

[01:20:44] Seja um carmeu midiático e tal.

[01:20:47] Mas eu tentei sair um pouco dessa questão, acho que artigos de opinião, de jornal,

[01:20:53] às vezes tem uma circunscrição muito específica, que é uma questão,

[01:20:57] daí precisaria descer um pouco para entender em que circunstâncias aquilo tá sendo dito,

[01:21:02] o que tá sendo dito, por que, com a motivação,

[01:21:05] tá respondendo a um outro intelectual, tá respondendo a uma coisa específica.

[01:21:09] Então, eu não saberia dizer exatamente sobre isso.

[01:21:12] O que eu penso é…

[01:21:15] Eu sou totalmente a favor dessas políticas migratórias,

[01:21:18] eu acho que eu cheguei a falar aqui no começo.

[01:21:21] A gente mencionou.

[01:21:23] E a questão não é nem se a favor ou contra, né?

[01:21:26] É só a gente tentar pensar nisso do ponto de vista humano.

[01:21:29] E do ponto de vista até do próprio cinismo europeu,

[01:21:32] de quantos territórios eles não invadiram ao longo de tanto século.

[01:21:37] Então, assim, é muito bom enquanto você tem imigrantes trabalhando de faxineiro para vocês,

[01:21:42] daí quando isso começa a sair do controle, etc.

[01:21:46] E tudo isso tem que ser visto com calma.

[01:21:49] São dois pontos, né?

[01:21:51] O que a filosofia dos Lothardach pode gerar

[01:21:54] para o pensamento contemporâneo, para ver crises?

[01:21:57] E a gente poderia pensar também no enquadramento ideológico dos Lothardach,

[01:22:01] que é isso que a gente pode pensar, né?

[01:22:04] São dois pontos, é isso?

[01:22:06] É, aí que tá.

[01:22:08] O que eu fico também pensando é que, assim,

[01:22:10] se a gente discutiu agora pouco,

[01:22:12] que ele não toma partidos muito precisos nos livros dele,

[01:22:16] seria uma discussão meio inócula.

[01:22:19] O Marcos, mas isso é importante,

[01:22:21] porque já pensou, ele passa os livros,

[01:22:24] ele sustenta em epoquê,

[01:22:27] em suspensão,

[01:22:29] e aí nos artigos de jornal,

[01:22:31] da opiniões desastradas,

[01:22:33] acaba sendo uma coisa complicada, né?

[01:22:36] Também por conta do quão filosófico, né?

[01:22:39] Pois é.

[01:22:44] Na verdade, assim, nos humanos a gente não é…

[01:22:47] Não existe uma régua, assim, não tem como…

[01:22:51] Ninguém é coerente consigo mesmo,

[01:22:53] a não ser os mentirosos, né?

[01:22:55] Ninguém pode ser coerente o tempo todo.

[01:22:57] Mas isso do filósofo,

[01:22:59] a gente acaba exigindo um certo grau de coerência,

[01:23:01] talvez…

[01:23:03] Não sei se os filósofos querem também esse tipo…

[01:23:05] O próprio Nietzsche dizia que se contradiza, etc.

[01:23:09] Coisas totalmente contraditórias, ele diz uma coisa, né?

[01:23:13] Tem um especialista, acho que é o Kaufmann,

[01:23:15] que chegou a analisar toda a obra do Nietzsche,

[01:23:17] e percebeu que pra cada ponto que ele afirma uma coisa,

[01:23:20] ele tem uma negação daquela mesma coisa em outro momento, né?

[01:23:23] E é isso que é, é uma turbina de contradições, né?

[01:23:27] Isso é a mesma filosofia do Nietzsche, assim.

[01:23:29] Então, assim, o que eu diria pra ser mais preciso,

[01:23:32] eu precisaria ler exatamente o que o Sloterdijk diz

[01:23:35] e ver exatamente qual é a postura dele pra emitir uma opinião sobre isso,

[01:23:39] sobre a questão migratória.

[01:23:41] Do ponto de vista da filosofia dele pra questões atuais,

[01:23:45] eu acho que é o maior legado, o maior…

[01:23:49] A maior herança que eu acho que ele pode dar,

[01:23:52] eu acho que é justamente esse tipo de pensamento relacional.

[01:23:56] É um pensamento relacional e não holístico.

[01:23:59] Eu acho que isso é que é a questão.

[01:24:01] Muitos problemas de crises, por exemplo, ecológicos,

[01:24:04] o Sloterdijk é muito simpatizante das questões ecológicas.

[01:24:08] Os ecologistas ou o discurso ecológico,

[01:24:12] muitas vezes ele é visto muito do ponto de vista holístico,

[01:24:15] como se fosse possível fazer um grande mapeamento

[01:24:17] de todas as redes e entender um funcionamento simbiótico

[01:24:20] de todas as coisas.

[01:24:22] Na verdade, as coisas estão em relação,

[01:24:25] mas elas não compõem uma grande totalidade.

[01:24:28] Não é possível acessar essa totalidade.

[01:24:31] Eu acho que esse é um ponto que ele é grande,

[01:24:35] mas que pode servir como…

[01:24:37] Eu acho que é uma herança do Sloterdijk pra gente pensar,

[01:24:39] ou seja, ver um fenômeno político, social, cultural,

[01:24:45] propostas políticas, movimentos sociais,

[01:24:47] de tentar pensar na relação,

[01:24:50] mas sem pensar numa superação dialética disso

[01:24:54] ou em alguma certa, não sei, uma forma holística

[01:24:57] de que isso existe em todo nessas relações.

[01:25:00] Acho que essa é uma possibilidade.

[01:25:02] É um caminho nitiano.

[01:25:04] É precário.

[01:25:05] Tem que investir na potência,

[01:25:07] mas essa potência é sempre precária.

[01:25:09] Ela está sempre em devir, sempre se transformando.

[01:25:12] Também a beleza, etc.

[01:25:14] Eu tenho acompanhado.

[01:25:16] Eu acho que é aquilo que eu cheguei a mencionar no começo,

[01:25:19] e eu tendo mapeado bem a obra do Sloterdijk,

[01:25:23] eu o vejo muito como anarquista.

[01:25:25] E como todo anarquista,

[01:25:27] o anarquista tende à extrema esquerda e tende à extrema direita.

[01:25:30] Isso que é fogo.

[01:25:32] É, mas eu estou abandonando aos poucos a minha formação anarquista,

[01:25:38] porque eu tenho percebido que o anarquismo

[01:25:40] pode ser muito ambivalente,

[01:25:42] mais ambivalente do que eu gostaria que ele fosse.

[01:25:44] É interessante essa noção.

[01:25:47] Ao negar tudo, ao desativar todas as formas,

[01:25:50] ao ter uma potência crítica X, Y, etc.,

[01:25:54] você pode estar a serviço de forças obscuras.

[01:25:58] Forças irracionais, assim, bestiais até.

[01:26:01] Então, não sei, talvez…

[01:26:04] Mas é um anarquismo próximo do Firebend, por exemplo, ou não?

[01:26:08] O Firebend é um anarquismo epistemológico.

[01:26:11] Eu acho que é um anarquismo mais alocado.

[01:26:13] O que eu penso mais em anarquismo é pensar…

[01:26:15] Eu acho que o Nietzsche é um pensador anarquista.

[01:26:18] Ah, eu não diria isso não, hein?

[01:26:20] Não?

[01:26:22] Porque tem uma…

[01:26:25] Eu acho que é uma aristocracia do Nietzsche,

[01:26:27] mas a aristocracia é afirmada a partir do ponto de vista

[01:26:30] também das forças cósmicas.

[01:26:33] Não, sim, eu entendo.

[01:26:35] Eu estou discordando frontalmente,

[01:26:37] mas acho que um ponto que você estava pegando antes,

[01:26:41] quando você falou isso, que eu achei ótimo,

[01:26:43] essa ideia de que é um anarquista,

[01:26:45] ele acaba assumindo posições radicais mesmo sem querer,

[01:26:48] isso me parece que o Nietzsche percebeu, eu acho.

[01:26:51] Às vezes ele afirma e fala que a falta de governo, por exemplo,

[01:26:55] é uma espécie de fraqueza.

[01:26:57] Olha só, ele está afirmando…

[01:27:00] No fundo, ele não é que ele é anti-herárquico,

[01:27:02] ele está afirmando uma nova forma de hierarquismo.

[01:27:04] Não nova espécie.

[01:27:06] É uma hierarquia que não vai passar pelo ressentimento e pela vingança.

[01:27:10] Exato, é isso aí.

[01:27:12] Do herói, do herói trágico, do pobre, da virtude.

[01:27:16] Eu não sei, de repente o Deleuze,

[01:27:20] o Deleuze é um anarquista brilhante,

[01:27:22] um autor que é um dos meus autores do coração,

[01:27:25] eu acho o Deleuze brilhante em vários pontos.

[01:27:28] Em alguns pontos acaba sendo um pouco idealista,

[01:27:32] enfim, eu acho que pode engendrar.

[01:27:34] A gente não consegue parar nas revoluções moleculares,

[01:27:38] mas o Deleuze sabe disso também.

[01:27:40] Não pode pentear a filosofia dele.

[01:27:42] Eu estou procurando aqui um último livro que eu vi,

[01:27:47] acho que foi ano passado, do Sloterdijk,

[01:27:50] só que eu não vi ninguém que leu,

[01:27:52] queria só saber se você leu.

[01:27:53] Eu não estou achando o maldito nome,

[01:27:55] que eu lembro que era alguma coisa como as Crianças Malditas do Ocidente.

[01:28:00] Ah, tá, acho que eu sei.

[01:28:02] Eu só não li, não.

[01:28:04] Tá, mas você viu isso de alguma forma.

[01:28:10] Alguma coisa envolvendo Crianças Malditas,

[01:28:12] o título eu não estou achando.

[01:28:14] Você sonhou com isso aí, Marco.

[01:28:16] Pode ser também.

[01:28:18] Eu acho que tem a ver com essa noção da infantilização da sociedade.

[01:28:25] E no fundo, de novo, pra ele não é positivo, não é negativo,

[01:28:28] é uma forma da adolescência.

[01:28:31] Isso ele coloca em outro momento,

[01:28:33] acho que no Esferas 3 ele fala que nós estamos nos tornando cada vez mais adolescentes.

[01:28:38] Só que o humano, o Homo sapiens, ele é um adolescente.

[01:28:42] O fenômeno da neotenia que ele analisa é o nascimento prematuro.

[01:28:47] Então, assim como os chimpanzés eles gestavam por 12 meses,

[01:28:52] o sapiens é uma excrescência do chimpanzé,

[01:28:56] porque ele começou a gestar por 9 meses.

[01:28:58] Ele teve um nascimento prematuro, por isso que ele é mais fraco.

[01:29:01] Então, se eu falar que ele usa um argumento antropogênico

[01:29:05] pra dizer que nós somos, a espécie humana é adolescente em relação aos primatas.

[01:29:10] Então, se a gente está vivendo uma cultura da adolescência,

[01:29:14] talvez nós estejamos chegando mais próximos a uma certa modo,

[01:29:21] uma certa constituição que não é essencial, mas que é da espécie,

[01:29:26] que nos caracteriza como espécies também.

[01:29:29] Então, tem esses cortes, né?

[01:29:31] A gente pensa, e aí de novo o regime moral está suspenso aí,

[01:29:35] porque ele não está falando assim,

[01:29:38] ai que droga esse mundo que nós vivemos de adolescentes,

[01:29:42] não tem uma potência na adolescência que é interessante,

[01:29:46] que tem que ser levado em conta.

[01:29:49] É descritivo, né?

[01:29:51] É, não é ressentido com o mundo, né?

[01:29:53] Isso eu acho ótimo nessas críticas.

[01:29:56] Então, acho que a grande questão é essa, Daniel,

[01:29:58] é ter fugido do ressentimento a qualquer ponto.

[01:30:01] Isso é uma percepção, eu acho, muito fina.

[01:30:04] Eu acho que ele faz isso bem.

[01:30:06] Ele se mantém o tempo todo na suspensão do juízo,

[01:30:10] mas eu acho que a grande questão é fugir do ressentimento.

[01:30:14] Tem três mais discursos em sentidos de todos os lados.

[01:30:18] Sim, sim, totalmente.

[01:30:21] A direita, a esquerda, o centro, né?

[01:30:26] Eu achei aqui agora o nome, finalmente.

[01:30:29] Isso aqui é alemão.

[01:30:31] Isso é um saco, né? Eu não sei falar alemão.

[01:30:34] Que é…

[01:30:36] De…

[01:30:37] Schrenkling Kinder…

[01:30:39] Mas tem uma entrevista que ele fala

[01:30:42] sobre isso.

[01:30:44] De repente, não sei se eu ponho no post,

[01:30:46] que ele fala sobre isso.

[01:30:48] Deixa eu tentar traduzir isso aqui do alemão.

[01:30:50] Aqui, ó.

[01:30:52] The terrible children of the modern age.

[01:30:55] Então, as crianças malditas.

[01:30:57] Terrible.

[01:30:59] As crianças terríveis dos novos tempos, né?

[01:31:01] É.

[01:31:03] Ou da idade moderna, enfim.

[01:31:05] Isso foi o último livro dele,

[01:31:07] lançado em 2014.

[01:31:09] Ele é uma máquina de escrever.

[01:31:11] É uma coisa impressionante, né?

[01:31:13] Pois é.

[01:31:15] Como filósofo, realmente.

[01:31:17] É impressionante.

[01:31:19] Bom, acho que é isso. Quer perguntar alguma coisa mais?

[01:31:21] Também acho que a gente já…

[01:31:23] Já tomou o tempo do Rodrigo.

[01:31:25] Não, foi um prazer.

[01:31:27] Muito obrigado, Rodrigo.

[01:31:29] Foi ótima essa conversa.

[01:31:31] Espero que tenha rendido bem para os ouvintes também, enfim.

[01:31:34] Sem dúvida.

[01:31:36] Eu fiquei muito feliz com o programa.

[01:31:38] Espero poder…

[01:31:40] Já estou…

[01:31:42] Antecipando.

[01:31:44] Espero poder convidá-lo novamente.

[01:31:46] Eu vou vir aqui de novo com prazer.

[01:31:48] Então é isso, né?

[01:31:50] Quer falar mais alguma coisa, Rodrigo?

[01:31:52] Um merchan pessoal, assim?

[01:31:54] Um site, como que as pessoas podem se encontrar?

[01:31:56] Do curso de filosofia,

[01:31:58] eu tenho grupos livres aqui de filosofia

[01:32:00] aqui em São Paulo, né?

[01:32:02] E…

[01:32:04] Para quem quiser entrar em contato,

[01:32:06] o que eu puder ajudar,

[01:32:08] de orientações,

[01:32:10] tenho bastante livro em PDF,

[01:32:12] então quem quiser entrar em contato,

[01:32:14] o meu email é

[01:32:16] rodrigopetroneo.com

[01:32:18] rodrigopetroneo.com

[01:32:20] Que generoso.

[01:32:22] rodrigopetroneo.com

[01:32:24] A gente deixa no link também.

[01:32:26] Legal.

[01:32:28] Então é isso. Muito obrigado,

[01:32:30] Rodrigo, foi excelente aqui.

[01:32:32] E vamos dar um tchau com o time, então.

[01:32:34] Tchau, tchau!

[01:33:04] Legendas pela comunidade Amara.org