Frontdaciência - T07E27 - Mitos da Economia 1


Resumo

O episódio discute a presença constante do “economês” no noticiário e como temas técnicos (bolsa, câmbio, “crise”) são tratados como informação cotidiana, muitas vezes desconectados da realidade da maioria da população. O convidado critica a seleção de pautas e especialistas, e contrapõe números como salário médio e distribuição de renda ao foco midiático em indicadores financeiros.

A conversa entra na política de reajuste do salário mínimo (inflação + crescimento do PIB), defendendo que ela torna trabalhadores “sócios” do crescimento e impulsiona o mercado interno. Em seguida, diferencia a inflação recente da hiperinflação dos anos 1980/início dos 1990 e explica causas apontadas no programa: inflação importada via câmbio e aumentos de preços em setores com poder de mercado (monopólios/quase monopólios), com exemplo de telecomunicações e a preocupação com privatização da água.

Ao tratar da crise, os participantes atribuem o agravamento a fatores políticos e institucionais: a operação Lava Jato e seus efeitos sobre empresas e investimentos ligados à Petrobrás, a paralisação de obras e o aumento do desemprego, além do comportamento do Congresso no período pós-eleição de 2014. Também aparece a crítica à mudança de narrativa na imprensa sobre a crise internacional.

Por fim, o episódio aborda temas de finanças públicas e tributação: a origem da dívida pública associada a entradas de capital e à esterilização monetária via títulos, a diferença entre juros ao consumidor e a taxa Selic, e o nível elevado de juros bancários no Brasil. No campo tributário, explica a distinção entre impostos indiretos e diretos, discute repasses de impostos ao consumidor/usuário e destaca a isenção de imposto de renda sobre dividendos desde 1995 como uma grande injustiça fiscal.


Linha do Tempo

  • 00:00:00Economia no noticiário e “economês” — A abertura apresenta o objetivo de discutir limites entre ciência e mito, aplicando isso a “mitos da economia” repetidos pela grande mídia. O programa critica a presença diária de indicadores como bolsa (inclusive “bolsa de Tóquio”) como se fossem informação de utilidade geral. Introduz o convidado Ceci Vieira Juruá e questiona o que explica essa onipresença.
  • 00:01:27Desconexão entre economistas e sociedade — O convidado argumenta que muitos economistas midiáticos se apoiam em autores estrangeiros e se preocupam mais com mercado financeiro do que com renda e salário no Brasil. Ele cita o salário médio do trabalhador brasileiro (R 4.000. A conversa conecta essa falta de contexto à aceitação de medidas de redução de renda.
  • 00:03:05Reajuste do mínimo: inflação + PIB — É apresentada a lei de reajuste do salário mínimo (associada ao período Lula e vigente no debate), que soma inflação e crescimento do PIB. O argumento é que isso faz os trabalhadores participarem do crescimento e que o salário mínimo brasileiro ainda é baixo em comparação internacional. Discute-se que houve aumento real e melhora do poder aquisitivo, segundo a conversa.
  • 00:04:28Inflação atual vs hiperinflação histórica — O host relembra a hiperinflação dos anos 1980 e início dos 1990, destacando que o cenário atual é diferente. A discussão questiona a justificativa para cortar mecanismos como o reajuste do mínimo, se não há hiperinflação. O convidado relaciona prioridades do governo ao pagamento da dívida pública e ao ambiente político descrito no programa.
  • 00:08:19Causas da inflação: câmbio e poder de mercado — O convidado descreve a inflação como elevada para os investidores e aponta duas causas principais: repasse de custos via câmbio (insumos importados) e formação de preços em setores dominados por capital estrangeiro. Ele também menciona mercados pouco concorrenciais, onde empresas conseguem reajustar preços com facilidade. O tema é exemplificado com telecomunicações e a noção de monopólio/quase monopólio.
  • 00:10:06Privatização da água e exemplo da Bolívia — A conversa cita energia e telecomunicações e comenta a possibilidade de privatização da água, vista como risco por se tratar de bem essencial. É lembrado um caso na Bolívia, associado ao nome Vivendi, em que a privatização teria provocado forte reação. O argumento reforça a água como item de necessidade básica e tema de segurança nacional.
  • 00:10:45Crise e Lava Jato: efeitos econômicos — Os participantes afirmam que naquele momento (2016) a crise existe, mas não seria fruto apenas de erros do governo Dilma, segundo a leitura do episódio. A Lava Jato é apontada como fator que teria destruído empresas e cadeias de investimento ligadas à Petrobrás, com exemplos como Odebrecht e Camargo Corrêa e a paralisação de projetos. Debate-se a diferença entre punir indivíduos e punir empresas, com comparações a casos como HSBC, Volkswagen e Samarco.
  • 00:15:45Crise internacional e narrativa na mídia — O programa critica o desaparecimento do tema “crise internacional” do noticiário brasileiro após 2014 e menciona países europeus em dificuldades. É citado um exemplo de mudança de discurso atribuída a Miriam Leitão (antes negando crise internacional, depois reconhecendo). A conversa conecta isso à disputa de responsabilização política pelos problemas econômicos.
  • 00:16:42Guido Mantega e superávit primário — O host pergunta sobre a demonização de Guido Mantega e o convidado afirma considerá-lo um excelente ministro. São mencionados crescimento médio e a ocorrência de déficit primário em poucos anos, além da ideia de superávit primário para reservar recursos ao pagamento de juros. A discussão prepara o terreno para explicar dívida pública e fluxos de capital.
  • 00:17:44Entrada de capital e origem da dívida pública — O convidado explica que entradas elevadas de dólares precisam ser convertidas em reais via Banco Central, o que aumenta a base monetária e pode pressionar a inflação. Para “recolher” o real emitido, o Banco Central lançaria títulos, conectando esse mecanismo à formação da dívida pública. A conversa descreve o processo como favorecendo a especulação e chama o país de “cassino” nesse contexto.
  • 00:23:44Juros bancários vs Selic e o “custo do crédito” — Distingue-se a taxa Selic (associada a títulos da dívida) dos juros cobrados por bancos privados a famílias e empresas. São citadas taxas de rotativo de cartão de crédito acima de 400% ao ano e taxas elevadas para crédito às empresas. O episódio menciona o professor Ladislau Dauber (USP) e a ideia de que o sistema financeiro suga parcela relevante da renda das famílias.
  • 00:25:28Impostos indiretos e diretos; ICMS e repasses — O convidado apresenta a distinção entre impostos indiretos (como ICMS) e diretos (como IPTU, ITR e IPVA), explicando o ICMS como incidindo sobre valor agregado. Discute-se a crítica a empresários que tratam impostos como custo inevitável e o tema do repasse ao consumidor/usuário. São citadas situações como a cobrança de IPTU embutida em aluguéis e a observação de que lanchas e jatos não pagariam IPVA, segundo o diálogo.
  • 00:28:18Isenção de IR sobre dividendos — O episódio destaca como injustiça tributária o fato de pessoas começarem a pagar imposto de renda a partir de um nível baixo de renda anual, enquanto dividendos seriam isentos. É mencionada a mudança legislativa de 1995, no governo Fernando Henrique, que isentou dividendos de imposto de renda. O convidado afirma que poucos países teriam essa isenção, citando Brasil e Lituânia.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2016-09-05T07:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:13] No Fronteiras de hoje, nós vamos conversar sobre mitos da economia que aparecem na grande

[00:00:18] mídia e que não são contestados porque não há fóruns e espaços onde essas conversações

[00:00:22] sejam acessíveis.

[00:00:24] Nós vivemos a era em que a economia passou a ser parte do noticiário junto com entretenimento,

[00:00:29] curiosidades, crimes, violência, que são os assuntos preferidos da grande imprensa,

[00:00:33] mas a economia passou a entrar no noticiário, inclusive com algumas coisas muito estranhas,

[00:00:37] por exemplo, para dizer números da bolsa, que não interessam a 99,9% da população

[00:00:41] que está ouvindo aquele programa, mas está lá no noticiário como se fosse uma previsão

[00:00:44] do tempo ou uma informação acerca de um acidente de trânsito em uma estrada.

[00:00:48] Por que essas coisas aparecem lá e, sobretudo, se tem um especialista, tem um assunto técnico-científico

[00:00:54] que está sempre em todos os noticiários, é o economista.

[00:00:57] Eu estava conversando com o Ceci Vieira Juruá, economista, professor aniversário do Brasil,

[00:01:02] aniversário católico de Brasília, trabalhou na área de transporte, também no Ministério

[00:01:06] de Transportes em Brasília, publicou vários artigos, é colunista do portal Carta Maior,

[00:01:12] também do blog do Nacife, e publicou um livro sobre o barulho de uma hora.

[00:01:15] Iniciar perguntando o que tu acha dessa onipresença do economês no noticiário, que é uma coisa

[00:01:21] que não existia quando eu era jovem, e, sobretudo, como divertido tu acha ficar sabendo da bolsa

[00:01:26] de Tóquio no noticiário?

[00:01:27] Olha, se os economistas estivessem mais conectados com as preocupações da sociedade brasileira,

[00:01:36] eu acho que eles poderiam prestar um grande serviço à população dando entrevistas.

[00:01:41] O que acontece é que a maior parte dos economistas que são entrevistados citam autores estrangeiros,

[00:01:49] eles estudaram nos Estados Unidos, eles estão mais preocupados com a bolsa de Tóquio do

[00:01:54] que com o salário do brasileiro.

[00:01:57] Eu me pergunto, quantos economistas sabem, por exemplo, que o salário médio do trabalhador

[00:02:03] brasileiro é R$2.000?

[00:02:05] Do trabalhador brasileiro, o salário médio é R$2.000.

[00:02:11] Eu não sei dos economistas, mas a população definitivamente não sabe disso.

[00:02:14] Aliás, muito gostaria de saber o resto do meu salário.

[00:02:17] Ainda outro dia eu estava numa reunião com os engenheiros do Rio e alguns bons economistas

[00:02:24] e um deles falou que apenas 10% da população brasileira tem uma renda maior do que R$4.000.

[00:02:32] Eles não dizem isso na televisão.

[00:02:34] E aí vem o governo atual dizer que a democracia não cabe no orçamento.

[00:02:39] Quer dizer, como é que a democracia não cabe no orçamento?

[00:02:43] Nós estamos falando aqui do governo atual, governo de intervenção, que assumiu o poder

[00:02:46] a partir da derrubada do governo eleito democraticamente de Dímaro Zeff.

[00:02:51] Na verdade, quando eles dizem que a democracia não cabe no orçamento, eles estão dizendo

[00:02:56] algumas coisas muito duras, preparando o espírito das pessoas para aceitar medidas de redução

[00:03:03] desta renda que já é tão baixa.

[00:03:05] Eles querem acabar com a lei de reajuste do salário mínimo segundo a inflação e aumento

[00:03:12] do produto interno bruto.

[00:03:14] É uma lei de 2007, 2008, que vigora ainda, e que a Dilma assinou assim, foi eleita até

[00:03:21] 2019.

[00:03:22] Quer dizer que o salário mínimo é reajustado segundo a inflação mais o crescimento do

[00:03:30] PIB.

[00:03:31] Ou seja, os trabalhadores de salário mínimo são feitos sócios do crescimento econômico,

[00:03:36] o que é muito justo, porque são eles que constroem o progresso e o crescimento.

[00:03:42] Claro, e outro fator, o salário mínimo no Brasil é muito baixo comparativamente à

[00:03:50] Europa.

[00:03:51] O salário mínimo europeu tem média em torno de 600, 800 euros, o que significa mais de

[00:03:56] 3 mil reais, o nosso está chegando a 900 reais.

[00:04:01] Então quer dizer, um salário que já é baixo em comparação mundial e graças a essa lei

[00:04:07] que é do governo Lula, foi possível aos trabalhadores serem beneficiados com um aumento

[00:04:14] do poder aquisitivo de aproximadamente 70%.

[00:04:18] Então vamos aos mitos, acho que o Rito Colombo já é um ponto bem interessante.

[00:04:21] É um aumento real em cima de uma base que fica estável ou é apenas uma correção do

[00:04:26] que foi perdido com, por exemplo, a inflação?

[00:04:28] Porque uma das alegações do atual governo de intervenção é que, de fato, estamos numa

[00:04:34] crise bárbara.

[00:04:35] O mundo está acabando, o Brasil está desabando, é totalmente desastroso tudo que aconteceu,

[00:04:39] mas agora nós estamos em boas mãos.

[00:04:40] E uma das coisas que tem é uma tal de inflação que retorna.

[00:04:43] Nós, que estamos um pouco mais velhos, vivemos a era da hiperinflação.

[00:04:47] Beca de 80, todo início de 90.

[00:04:50] O preço desses objetos nos mercados era reajustado, às vezes mais de uma vez por dia, uma coisa

[00:04:54] surrealista.

[00:04:55] Não parece, pelo que eu estou notando, nós não estamos num mesmo tipo de situação.

[00:04:58] Não, absolutamente.

[00:05:00] Então, qual é a justificativa para fazer isso se a inflação não é uma super hipermega

[00:05:04] inflação daquela época?

[00:05:06] Como é que é isso aí?

[00:05:07] O governo atual, esse estado de exceção em que nos encontramos, ele considera mais

[00:05:12] importante o pagamento da dívida pública.

[00:05:17] O ano passado ela absorveu 420 bilhões de reais, o governo pagou.

[00:05:22] Quanto é que o governo arrecada por ano?

[00:05:24] Aproximadamente 1 trilhão e 600, 1 trilhão e 800.

[00:05:29] Isso seria a arrecadação total brasileira.

[00:05:31] Dos quais 400 a 500 são arrecadações da União, dos quais aproximadamente 400, 500 são recursos

[00:05:43] da Previdência Social.

[00:05:44] 25%.

[00:05:45] E aí eu acho importante, outro mito é a questão da previdência.

[00:05:49] Nós vamos chegar nele, eu queria completar aquele argumento antes.

[00:05:54] O governo arrecada é isso e você tinha perguntado sobre a inflação, quer dizer, não tem um

[00:06:03] problema…

[00:06:04] Essa lei do Lula, antes disso não tinha um mecanismo semelhante.

[00:06:07] Antes disso você tinha uma correção só pela inflação.

[00:06:10] Essa é a mudança, antes era só a inflação, que ainda são números que frequentemente

[00:06:14] são maquiados, sempre foram, né?

[00:06:16] É.

[00:06:17] E agora a correção é pela inflação, mas…

[00:06:21] o crescimento econômico, isto é, o índice de aumento do PIB.

[00:06:26] Então, você já pode garantir que todo mundo cresça junto e coma do mesmo bolo.

[00:06:31] Claro, claro, quer dizer, combatendo aquela fala do Delfin Neto de que é preciso primeiro

[00:06:39] que o bolo cresça para depois distribuir.

[00:06:41] É, porque não recomendo junto enquanto ele cresce.

[00:06:44] O Lula disse, não, é possível distribuir enquanto está crescendo.

[00:06:50] E isso não prejudicou o mercado de trabalho, não gerou demissão, pelo contrário, os

[00:06:55] efeitos foram altamente benéficos nesses quase dez anos em que a lei está sendo aplicada.

[00:07:03] Qual é a vantagem, quer dizer, esse reajuste do salário mínimo junto com os acréscimos

[00:07:08] do PIB, quer dizer, tornar o trabalhador brasileiro um sócio do crescimento, permitir uma expansão

[00:07:16] do mercado interno, muito importante, porque quem ganha mais, gasta mais e ao gastar mais,

[00:07:25] ele move a economia, ele compra produtos feitos aqui, ele gera empregos, quer dizer, é um

[00:07:31] dinheiro que fica aqui, não faz mal absolutamente.

[00:07:36] E ainda é muito baixo, quer dizer, tão pouco esse aumento de salário prejudica a competitividade

[00:07:43] internacional dos produtos brasileiros e também não prejudica a taxa de lucro das empresas.

[00:07:50] Não é meramente uma correção, porque além de contabilizar a inflação, ele contabiliza

[00:07:54] quanto cresceu.

[00:07:55] Se o país cresceu, todo mundo cresce um pouquinho junto.

[00:07:57] Isto.

[00:07:58] Por que isso não é muito falado, eu nunca vi isso no noticiário.

[00:08:01] Não se ouve.

[00:08:02] Por exemplo, eu escuto a CBN que dá notícia o dia inteiro, quer dizer, a gente é quase

[00:08:06] obrigado a escutar, ela é quase a única, ela jamais fala sobre isso.

[00:08:10] Os economistas da Bandeirânia, as outras redes aí, mas não vou falar…

[00:08:13] Nem Jornal Nacional, então?

[00:08:14] Eu não sei porque eu não assisto, mas assim, as de rádio basicamente ninguém fala nisso.

[00:08:18] Pois é.

[00:08:19] Nós estamos com uma inflação elevada agora?

[00:08:21] Ela é elevada comparativamente ao que os investidores gostariam.

[00:08:26] Eles gostam de uma inflação no máximo em 4%, porque aí eles podem fazer o seu cálculo

[00:08:32] econômico melhor, com mais segurança.

[00:08:35] Agora, essa inflação, isso é muito importante, ninguém diz, ela tem duas causas básicas.

[00:08:42] Por um lado, variações no câmbio.

[00:08:44] Como nós temos um número grande de empresas que utiliza insumos importados, peças, componentes,

[00:08:52] matéria-prima, quando a taxa de câmbio aumenta, os custos aumentam e ela então repassa esse

[00:08:59] aumento de custos para os preços.

[00:09:01] É o que a gente chama a inflação importada.

[00:09:04] E temos também inflação naqueles setores dominados pelo capital estrangeiro que fazem

[00:09:11] o seu cálculo econômico em dólar e quando há uma desvalorização da moeda nacional,

[00:09:17] para manterem o mesmo lucro em dólar, eles precisam aumentar os preços.

[00:09:22] E se eles atuam em mercados que não são competitivos, não são concorrenciais, de maneira que eles

[00:09:29] possam aumentar os preços à vontade, eles aumentam.

[00:09:32] É o caso dos setores que trabalham em um regime de monopólio, por exemplo, telecomunicações,

[00:09:39] net, monopólio ou quase monopólio?

[00:09:41] Aqui no Brasil, pelo menos.

[00:09:42] Aqui no Brasil.

[00:09:43] E não existem aparentemente leis contra o monopólio?

[00:09:46] Mas e nos grandes países?

[00:09:48] Não, não é isso.

[00:09:50] Na verdade, o capitalismo atual é constituído principalmente por grandes conglomerados.

[00:09:56] São grupos econômicos que operam em vários países e que são o único ou no máximo

[00:10:02] um dos dois ou três fornecedores de um determinado serviço.

[00:10:06] Energia, telecomunicações, agora eles vão querer privatizar a água, você já imaginou

[00:10:12] a água na mão do capital estrangeiro?

[00:10:15] A Bolívia quase fez uma revolução, você lembra?

[00:10:18] E deu certo, porque queriam privatizar a água.

[00:10:21] Vivendi.

[00:10:22] Isso que tentou fazer a privatização da Bolívia.

[00:10:24] Exatamente.

[00:10:25] É um risco muito grande, porque a água é um bem de primeira necessidade.

[00:10:29] Para a cozinha, para a higiene pessoal, a água na verdade é quase um produto de segurança

[00:10:35] nacional.

[00:10:36] Desses vários mitos, a gente falando assim, os rancores e o seu discurso, faltando todo

[00:10:40] o imposto da recessão, da inflação, câmbio, da bolsa de valores e da crise.

[00:10:45] Um ano atrás nós conversamos, gravamos dois programas que foram hora aqui, e naquele momento

[00:10:49] não havia essa crise, embora se falasse dela.

[00:10:52] Nós estamos numa crise?

[00:10:53] Agora sim.

[00:10:54] Agora a análise que nós fazemos sobre as causas dessa crise é diferente.

[00:10:59] Quer dizer, essa crise não é decorrente de um fracasso ou de erros do governo Dilma.

[00:11:05] Isso é muito importante dizer.

[00:11:06] De que vem essa crise?

[00:11:08] Em primeiro lugar, a Lava Jato.

[00:11:10] Nós tínhamos um programa de desenvolvimento que estava centrado na Petrobrás e em investimentos

[00:11:18] acoplados à atividade da Petrobrás.

[00:11:21] Isso não é investimentos, não estou fazendo ironia, não é a corrupção que foi revelada

[00:11:27] andou agendo.

[00:11:28] Mas é importante separar essas duas coisas.

[00:11:30] Há investimentos reais, hoje não se fala mais nisso.

[00:11:35] Não se fala porque a Lava Jato destruiu as empresas com as quais a Petrobrás ia trabalhar.

[00:11:41] A Odebrecht, por exemplo, Camarca Correia, são empresas quase centenárias algumas.

[00:11:48] Capitão nacional majoritariamente?

[00:11:50] Ah, sim.

[00:11:51] A Odebrecht era a terceira ou quarta empresa em matéria de lucros anuais, uma multinacional

[00:11:58] atuando em dezenas de países, responsável por uma quantidade imensa de empregos.

[00:12:05] A Odebrecht era uma sócia estratégica do Estado em muitos setores, transporte, comunicações,

[00:12:19] energia e até em defesa e segurança nacional.

[00:12:24] Era uma das empresas mais importantes e mais bem sucedidas do Brasil em nível de mundo.

[00:12:31] Imagina que a Odebrecht ganhou nos Estados Unidos a concorrência para as reformas das

[00:12:37] melhorias no Aeroporto de Miami.

[00:12:39] Há quem diga que por causa disso ela virou a inimiga número um do capital americano.

[00:12:45] Eu nunca vi essa notícia noticiária, é estranho.

[00:12:47] Pois é.

[00:12:48] A segunda empresa mais importante em lucro do Brasil, empresa não financeira, depois

[00:12:54] da JBS, tirando os bancos.

[00:12:56] Então o Bradesco Banco do Brasil é uma empresa não financeira.

[00:12:59] Como é que você para uma empresa como a Odebrecht?

[00:13:04] Isso é muita irresponsabilidade.

[00:13:07] Você já soube de algum caso em que o governo americano, por corrupção, proíba alguma

[00:13:14] empresa de operar?

[00:13:16] Você viveu nos Estados Unidos?

[00:13:17] Existe isso lá?

[00:13:18] Não.

[00:13:19] Na Europa existe.

[00:13:20] Tu prende e pune as pessoas.

[00:13:21] Claro.

[00:13:22] Mas tu não pune a empresa.

[00:13:23] Porque não é a empresa.

[00:13:24] E os empregados são a empresa, entende?

[00:13:26] Não tem uma diferença de procedimento.

[00:13:28] A impressão que passa para certos setores da sociedade é que existe uma perseguição

[00:13:34] ao Odebrecht.

[00:13:35] Você repara que o Odebrecht quer fazer adelação e não deixam.

[00:13:40] Não deixam.

[00:13:41] Isso não significa fazer uma defesa que corrupção é bom e bacana.

[00:13:43] De jeito nenhum.

[00:13:44] Corrupção a um a coisa errada e aí evidentemente tem que ser investigado.

[00:13:47] Somos todos a favor.

[00:13:48] Claro.

[00:13:49] Mas tipo de punição, ele parece estranho nesse caso.

[00:13:52] Eu vou dar um exemplo.

[00:13:53] O Banco Inglês, o HSBC, foi acusado a pôr e comprovaram que ele encobriu vários crimes

[00:14:01] financeiros de lavagem de dinheiro, de tráfico de drogas, crimes pesados.

[00:14:08] O que o governo fez?

[00:14:09] Fiscalizou, viu como é que isso acontecia, proibiu e aplicou uma multa pesadíssima.

[00:14:15] Mas a empresa, o banco continuou a funcionar.

[00:14:18] Ninguém enpeixou.

[00:14:20] Estados Unidos e México.

[00:14:22] Outra coisa.

[00:14:23] Não extinguiram o HSBC?

[00:14:24] Não.

[00:14:25] Imagina se alguém vai fechar o HSBC, que é um dos maiores bancos mundiais.

[00:14:28] A Volkswagen foi acusada nos Estados Unidos de burlar normas antipoluição.

[00:14:35] Ninguém fechou a Volkswagen.

[00:14:37] Aplicaram uma multa, puniram os responsáveis.

[00:14:41] Você não pode deixar a corrupção e crimes dessa natureza como a Samarco, por exemplo.

[00:14:47] Quem é que fechou a Samarco?

[00:14:49] Ela gerou presuídos de bilhões, ela acabou com um rio importantíssimo, ela acabou com

[00:14:55] terras, ela matou gente.

[00:14:57] É o maior desastre da América do Sul.

[00:15:02] Algum procurador da República pediu o fechamento da Samarco e a interrupção da extração

[00:15:11] mineral?

[00:15:12] Então agora, avançando um pouco nesse tema, nos mitos, nós falamos da crise, na verdade

[00:15:16] a crise aqui tem uma componente eventualmente real, que são os erros cometidos na economia.

[00:15:22] Vamos supor que tem.

[00:15:23] Sempre tem, todo governo é.

[00:15:25] Tem a questão do combate que foi travado, no caso, durante esse ano e meio, até o afastamento

[00:15:32] se concretizar, que o Congresso não aprovou praticamente nada do que era encaminhado.

[00:15:37] O Congresso entrou em greve.

[00:15:38] Greve geral do legislativo.

[00:15:41] E uma coisa interessante que desapareceu dos noticiários brasileiros desde a eleição

[00:15:45] em 2014, que foi a crise internacional, que quando tu vê noticiários países quebrando,

[00:15:52] a Grécia apavorada, Portugal afundando, a Espanha em crise, o desemprego num nível

[00:15:58] espantoso na França, até na Alemanha, na Espanha muito alto, e aqui no Brasil não

[00:16:04] se fala em crise internacional, ou seja, o Brasil é uma bolha de prefeição isolada

[00:16:08] do mundo.

[00:16:09] Todos os programas aqui são cuba do único grupo político, ou de uma única pessoa,

[00:16:13] que é uma espécie de encarnação do mundo.

[00:16:14] Isso era até a Dilma sair.

[00:16:16] Agora não tem mais.

[00:16:17] A Miria Leitão, ela dizia que não tinha crise internacional, que todas as culpas eram dos

[00:16:22] governos do PT.

[00:16:25] Ela dizia abertamente.

[00:16:26] Ela dizia abertamente nas entrevistas.

[00:16:27] E agora o que ela está dizendo?

[00:16:28] Eu não tenho…

[00:16:29] Agora não, agora a crise internacional existe.

[00:16:31] E é a única culpada de tudo que está acontecendo.

[00:16:35] Isso é importante para saber, porque se nós temos uma crise governada tão horrível,

[00:16:40] eu vou fazer uma pergunta que tem a ver com isso.

[00:16:42] O mântega é o símbolo da economia da Dilma, no período da Dilma.

[00:16:45] E do Lula.

[00:16:46] E do Lula também.

[00:16:47] Ele foi ministro há mais de dez anos.

[00:16:51] O mântega é demonizado como sendo o maior desastre da história do universo no Brasil.

[00:16:56] Pergunta, qual foi o enorme, gigantesco, espantoso erro de mântega?

[00:17:00] Ou é exatamente o contrário disso?

[00:17:02] Eu acho que o mântega foi um excelente ministro da fazenda.

[00:17:06] Ele cedeu palócio em 2003, 2004, ficou até 2014.

[00:17:12] Ele garantiu uma taxa de crescimento boa de uma média de 3%, 4%.

[00:17:18] Naqueles dez anos em que ele ficou, apenas em dois anos houve um déficit primário.

[00:17:26] Nos demais, o governo conseguiu gastar menos do que a arrecadação, e com isso ele reservou

[00:17:34] dinheiro para pagar os juros da dívida, não integralmente, o tal do superávit primário.

[00:17:41] Porque a gente só vai falar que tem déficit, déficit, déficit, tudo falta dinheiro.

[00:17:44] O negócio do déficit é o seguinte, tem a ver com o capital estrangeiro, Jorge.

[00:17:48] As pessoas não sabem disso, as empresas não falam nisso.

[00:17:52] Quando entra 50, 60 bilhões de dólares no Brasil, aqui o dólar não pode circular como moeda.

[00:18:01] Você é obrigado a trocar esse dólar por real.

[00:18:05] Quem faz essa troca é o Banco Central.

[00:18:08] Há uma taxa atual de 3,3, se entrar em 60 bilhões de dólares, saldo líquido no ano,

[00:18:16] isso representa aproximadamente 200 bilhões de reais.

[00:18:20] Se fizesse uma parte de tudo o que se arrecada num ano aqui.

[00:18:23] Não é um problema, não é o que se arrecada.

[00:18:25] A base monetária do Brasil está por volta de 300, 320 bilhões de reais.

[00:18:34] Se você troca esses dólares que entram por real, você aumenta a base monetária em 50% ou mais.

[00:18:44] Opa, esse dinheiro entrou no Brasil?

[00:18:45] Vários anos, teve um ano que entrou sem bi.

[00:18:48] Acho que foi 2009.

[00:18:50] Esse dinheiro vai fazer o quê? Investir para lucrar?

[00:18:53] Pois é, eles vêm para fazer lucro, se multiplicar.

[00:18:57] E isso nos faz muito mal, o colchão é pequeno para o tamanho do cobertor.

[00:19:02] Se eu tenho uma base monetária de 300 bilhões de reais,

[00:19:07] eu não posso num ano receber mais do que 10% a 20% disso,

[00:19:11] porque senão inflaciona e é uma fonte de inflação permanente.

[00:19:15] Foi o que aconteceu, me parece, em parte na década de 80.

[00:19:19] Para que esse dinheiro não inflacione o ambiente econômico, a economia,

[00:19:24] o que o Banco Central faz?

[00:19:26] Ele pega os dólares, emite real.

[00:19:29] E aí ele vai e lança títulos da dívida do governo para recolher aquele real que ele deu.

[00:19:35] Essa é a origem da dívida pública brasileira.

[00:19:38] Que é um monstro gigante que não pode crescer.

[00:19:40] Não é uma dívida decorrente do fato do governo gastar mais do que ele arrecada.

[00:19:47] Como se alega?

[00:19:47] Aliás, essa é a única ligação?

[00:19:49] Como se alega?

[00:19:50] Nós temos uma legislação absolutamente falha em matéria de política monetária.

[00:19:56] Ou seja, é tudo feito para encobrir a entrada absurda de dinheiro descontrolado da especulação internacional.

[00:20:02] Favorecendo a moeda podre que circula no mercado internacional.

[00:20:06] Ou seja, isso aqui é um cassino.

[00:20:08] É um cassino.

[00:20:09] Somos um cassino, mas eu pensei que esses cassinos eram ilegais no Brasil.

[00:20:12] Só esqueceram de proibir o país inteiro.

[00:20:13] Eles estão querendo até legalizados, que tem gente até já aí com o lugar preparado

[00:20:18] para botar o cassino.

[00:20:19] Se temos um cassino gigante, por que não pequenininhos aqui dentro?

[00:20:20] Pois é.

[00:20:21] As pessoas não sabem disso.

[00:20:23] E não é difícil de explicar isso.

[00:20:25] Eu não vejo ninguém nunca explicando esse tipo de coisa.

[00:20:28] Até dois anos atrás não se falava que tinha uma grande crise, só começou a falar depois.

[00:20:32] De fato, nos últimos anos e meios, digamos até agora, nós estamos falando em meados

[00:20:35] de 2016, uma crise sobreveio.

[00:20:37] Essa crise, ela tem três fontes.

[00:20:40] Ela tem uma fonte, o próprio governo, digamos.

[00:20:43] Pagamentos que atrasaram, por exemplo, com relação ao Plano Safra.

[00:20:48] Então, o governo estava com um déficit crescente, isso é verdade.

[00:20:54] Mas existiu também a questão da Lava Jato, ou seja, os juízes do Paraná, com o justo

[00:21:02] e correto objetivo de combater a corrupção.

[00:21:06] Eles, de uma maneira impensada, irresponsável, leviana, não pouparam as empresas, eles

[00:21:16] não souberam separar a pessoa jurídica da pessoa física.

[00:21:21] Eles tinham que combater as pessoas responsáveis pela corrupção, mas não as empresas.

[00:21:28] As empresas deixaram de ter acesso a crédito, muitas paralisaram as obras, os taleros navais,

[00:21:35] por exemplo.

[00:21:36] Ou a Refinaria de Compérdia, ou Porto Maravilha, uma série de obras paralisadas, e que geraram

[00:21:42] só essa paralisia de certas empresas que trabalhavam para os objetivos da Petrobrás,

[00:21:50] geraram um milhão de desempregados.

[00:21:52] Só disso.

[00:21:54] O nível de desemprego do Brasil, antes dessa crise piorar, ele era relativamente baixo?

[00:21:59] Era por volta de 5%, a taxa normal, se você quiser, entende?

[00:22:03] O nível comparável a alguns países europeus.

[00:22:05] E agora está em 10%, praticamente dobrou.

[00:22:08] E por outro lado, um congresso, manipulado pelo senhor Eduardo Cunha, todos sabem quem

[00:22:14] são, porque isso foi encerrado, e que praticamente fez greve contra o governo, durante o ano

[00:22:20] e meio.

[00:22:22] Não analisava as medidas do governo, não encaminhava propostas do governo, então eu

[00:22:29] diria que esse conjunto de três fatores, quer dizer, houve uma crise política que acabou

[00:22:34] desencadeando uma crise econômica.

[00:22:37] O Mândico foi bem sucedido em algumas coisas, por exemplo, primeira coisa, a política do

[00:22:41] salário mínimo.

[00:22:42] Os empresários diziam, as empresas vão fechar, vai ser…

[00:22:45] Não foi ruim, foi muito bom, sustentou a produção interna, sustentou o crescimento.

[00:22:50] Depois ele conseguiu evitar a especulação cambial, porque você sabe que os especuladores

[00:22:57] internacionais, eles adoram o sobe e desce do valor das moedas, porque como eles muitas

[00:23:03] vezes, eles próprios é que provocam esses movimentos, eles compram na baixa e venda

[00:23:09] na alta.

[00:23:10] O caso famoso na década de 70 é o Jorge Sorge, que realizou um lucro fabuloso, eu

[00:23:15] acho que um bilhão de libras, apostando contra a moeda inglesa.

[00:23:19] Em um livrinho que eu fiz, eu conto a história do Mauá, que defendeu a moeda brasileira

[00:23:26] contra o barão de Rothschild, aliado ao ministro da fazenda, e ganhou.

[00:23:31] No primeiro momento, depois foi destruído.

[00:23:33] Aí foi perseguido.

[00:23:34] Perseguido até o fim.

[00:23:36] Mas todas as pessoas que se opõem à especulação cambial, os especuladores internacionais

[00:23:42] não gostam.

[00:23:44] A taxa de juros é muito mais difícil de controlar.

[00:23:48] Você falou em taxa de juros, a gente tem que fazer a diferença entre os juros cobrados

[00:23:53] pelos bancos privados do cidadão comum, das empresas, das famílias e a taxa de juros

[00:24:01] selic, que é a taxa que o governo paga àqueles que compram títulos da dívida pública.

[00:24:08] O que me espanta é que os comentaristas de rádio, de televisão, eles não falam sobre

[00:24:16] os juros que os bancos particulares cobram das famílias dos indivíduos.

[00:24:22] Você está sabendo que existem taxas maiores do que 400% ao ano, taxa rotativa de cartão

[00:24:30] de crédito.

[00:24:31] Está em 440%, eu acho.

[00:24:32] Tem um lugar do mundo que tem isso?

[00:24:35] Absurdo, não existe.

[00:24:36] Isso é alta de otagem, a taxa normal, a taxa média do crédito bancário às empresas

[00:24:43] está por volta de 50%.

[00:24:46] Isso não existe em país nenhum do mundo.

[00:24:48] O professor Ladislau Dauber, da USP, diz que essa sucção que o sistema financeiro

[00:24:55] realiza sobre a renda das famílias no Brasil gera perdas que podem chegar a 20%, 30% do

[00:25:03] produto nacional.

[00:25:04] Quer dizer, é como se eles fossem um parasita sugando, sugando a seiva, o sangue.

[00:25:12] O uso vinte deve estar apavorado com esse relato, com o recurso, os valores são trazidos

[00:25:17] de um lado ao outro, só que sempre está montado de tal forma que ele não é perceptível

[00:25:21] e os responsáveis por comentá-lo, explicá-lo na grande mídia, que devem ser os nossos

[00:25:25] professores, são encobridores oficiais.

[00:25:28] Já que nós estamos falando de mitos, impostos.

[00:25:32] Existem duas categorias de impostos.

[00:25:34] Os impostos indiretos incidem sobre mercadorias, por exemplo, ICMS, Imposto sobre Circulação

[00:25:44] de Mercadorias e Serviços.

[00:25:46] De acordo com a legislação, a partir de um determinado estágio de produção, todas

[00:25:51] as mercadorias em circulação nos mercados pagam o ICMS sobre o valor agregado, aí

[00:25:58] já é importante.

[00:25:59] O ICMS não é sobre o preço da mercadoria.

[00:26:02] O custo dela.

[00:26:03] Nem custo.

[00:26:04] É sobre o valor agregado em cada etapa de produção.

[00:26:08] Tivendo a farinha de trigo para fazer o pão, você pagou 10, aí depois você gasta mais

[00:26:14] 10 em matéria de luz, telefone, aluguel, salário.

[00:26:20] Quando você vai pagar o ICMS, sobre o custo total de 20, você não vai pagar sobre 20.

[00:26:26] Você só paga sobre os 10, ou seja, o valor agregado na tua unidade de produção.

[00:26:32] É porque a alegação dos empresários que reclamam de tudo é que os impostos oneram

[00:26:37] os custos, mas não é verdade.

[00:26:38] Não, eles oneram o todo.

[00:26:40] Eles não incidem no preço.

[00:26:42] Existem os impostos diretos, que são aqueles que incidem sobre a renda e as propriedades

[00:26:48] das pessoas.

[00:26:49] Por exemplo, quem tem apartamento tem que pagar IPTU, quem tem terras tem que pagar

[00:26:54] ITR, Imposto Territorial Rural.

[00:26:56] Quem tem um carro paga IPVA para automóvel.

[00:26:59] E aí tem uma briga porque parece que as lanchas, os jatos, eles não pagam IPVA.

[00:27:05] É mesmo?

[00:27:06] Porque eu pago IPVA e bem pago.

[00:27:09] Eles são impostos que redistribuem a renda por meio do Estado, ou seja, quem tem muito

[00:27:16] paga muito, o Estado pega essa arrecadação e aplica para a escola e para a saúde de

[00:27:22] quem precisa transporte, escola, saúde pública, serviços básicos.

[00:27:27] Ele tira de quem tem para financiar serviços para quem tem menos.

[00:27:31] Ora, no Brasil, os ricos e os empresários, eles burlam essa legislação, essa filosofia

[00:27:40] e eles transferem o imposto para o usuário do serviço.

[00:27:45] Quem tem apartamento para alugar, por exemplo, ele não poderia, se bem que os financistas

[00:27:53] Mas se você olhar a lei e olhar a filosofia do imposto, ele não poderia fazer com que

[00:27:58] o locatário pague o IPTU, porque o IPTU não é um imposto sobre o aluguel, não é um

[00:28:04] imposto que cabe ao locatário, ele é um imposto que cabe ao proprietário.

[00:28:08] Pois é.

[00:28:09] E muito frequentemente está embutido.

[00:28:11] Exatamente, exatamente.

[00:28:13] E nas empresas também, entende?

[00:28:15] Elas jogam tudo no preço, jogam tudo para a empresa.

[00:28:18] A maior injustiça, Jorge, em matéria tributária, é que se você ganhar no ano 25 mil reais,

[00:28:25] você já começa a pagar imposto de renta.

[00:28:28] Mas se você ganhar 250 mil de dividendos, está isento.

[00:28:33] Dividendo é aquilo que as pessoas recebem como remuneração pelas ações que elas possuem

[00:28:39] de uma sociedade anônima.

[00:28:42] Em 1995, no governo de Fernando Henrique, o Ministério da Fazenda fez uma legislação

[00:28:50] isentando do imposto de renda os beneficiários de dividendos.

[00:28:55] Ninguém fala nisso.

[00:28:56] Ninguém fala nisso.

[00:28:57] É a maior injustiça.

[00:28:59] Tem dois países só que não pagam imposto de renda sobre dividendos, Brasil e Lituânia.

[00:29:06] Lituânia é uma boa companhia.

[00:29:07] Cara, isso é um absurdo.

[00:29:08] Estados Unidos paga.

[00:29:09] Claro.

[00:29:10] E paga bem.

[00:29:12] Os produtos diretos são os redistributivos e os indiretos.

[00:29:14] Todos pagam, seja rico, seja pobre.

[00:29:17] Se você se julgou A, economista, nós discutimos termodinâmica e o princípio da conservação

[00:29:22] de energia.

[00:29:23] Ou seja, dois conceitos relacionados, ou seja, se tirado de um lugar vai ter que colocar

[00:29:27] no outro.

[00:29:28] E como isso se aplica no caso da distribuição de renda e como isso implica a distribuição

[00:29:33] de poder também.

[00:29:34] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES.

[00:29:41] A URGES é uma organização institucional do Instituto de Física da URGES.

[00:29:45] A URGES é uma organização institucional do Instituto de Física da URGES.