AntiCast 262 – Entrevista com Laerte: desenho, política e linguagem
Resumo
Nesta entrevista do Anticast, Ivan Mizanzuki recebe a renomada quadrinista, chargista e ilustradora Laerte, acompanhado por Rafael Salimena, Bruno Bredes Mariano e Liber Paz. O ponto de partida é o lançamento do livro “Modelo Vivo” pela editora Boitempo, que reúne republicações de histórias antigas e, principalmente, uma novidade: desenhos de modelo vivo, uma prática que Laerte nunca havia publicado. Ela explica que esses desenhos, feitos em oficinas com Rafael Coutinho, representam um lado mais urgente e sintético de seu traço, em contraste com as histórias mais elaboradas do passado.
A conversa avança para a atuação política de Laerte, especialmente no contexto do golpe parlamentar que destituiu a presidenta Dilma Rousseff em 2016. Laerte compara o momento atual com a ditadura militar, destacando as diferenças na sociedade e na mídia, e analisa a complexidade atual do trabalho do chargista, onde não basta apontar para um “inimigo” óbvio como na época da censura. Ela e os outros participantes discutem os desafios de criar humor e charges em um ambiente polarizado, onde a sutileza pode ser mal interpretada ou mesmo sequestrada por grupos com visões opostas, que alteram os balões das charges para inverter seu sentido.
Laerte reflete sobre sua própria evolução artística, explicando que por volta de 2004/2005 sentiu que o ciclo de trabalho com personagens fixos e piadas estava se esgotando, levando-a a uma busca por experimentações gráficas e narrativas. Ela menciona influências de quadrinhos experimentais dos anos 60/70 e fala sobre charges que brincam com a leitura (como uma que pode ser lida de cabeça para baixo), explorando os limites da linguagem dos quadrinhos. Apesar de algumas reações negativas do público que espera apenas piadas, ela valoriza o espaço que a Folha de S.Paulo lhe dá para essas experimentações.
O papo também aborda a relação entre humor, política e censura, tanto a oficial do passado quanto as pressões atuais de “linchamento” nas redes sociais. Laerte defende a necessidade de um olhar crítico constante e debate, alertando para a tentação de censurar presente em vários espectros políticos. Ela compartilha episódios de sua carreira, como a participação na revista Chiclete com Banana e na escrita da TV Colosso ao lado de Glauco e Angeli, lembrando o clima de abertura e experimentação dos anos 80.
Por fim, Laerte fala sobre sua relação com a política partidária. Ela revela que nunca foi filiada ao PT (era do PCB na época da fundação do partido), mas vota em pessoas de diversos partidos. Analisa o assédio judicial e midiático contra Lula e o PT como uma tentativa de destruir sua capacidade eleitoral. Encerra agradecendo o convite e reforçando que, apesar das dificuldades, o desenho ainda é sua principal forma de expressão e prazer, e que o livro “Modelo Vivo” a inspira a produzir mais.
Indicações
Canais
- Kitnet HQ — Canal do YouTube do participante Liber Paz, feito em parceria com Scama, onde produzem e discutem quadrinhos. Foi divulgado durante a introdução do episódio.
Livros
- Modelo Vivo — Livro de Laerte lançado pela Boitempo, contendo republicações de histórias antigas e a novidade de desenhos de modelo vivo, uma prática inédita em sua obra publicada.
- Vizinhos — História em quadrinhos de Laerte publicada na coleção Cachalote, mencionada como sua história mais longa e última história inédita por um tempo, impressa em preto sobre papel vermelho.
Pessoas
- Glauco — Chargista contemporâneo de Laerte, lembrado por ter quebrado padrões no humor político no início dos anos 80, com charges ousadas durante a abertura política.
- Angeli — Quadrinista parceiro de Laerte na geração dos anos 80, criador da revista Chiclete com Banana e conhecido por suas narrativas e representações agudas da sociedade urbana de São Paulo.
- Gary Trudeau (Doonesbury) — Cartunista americano citado por Laerte como exemplo de autor que mantém personagens fixos por décadas, mas com eles envelhecendo e evoluindo, como numa novela.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução e apresentação do livro Modelo Vivo — Ivan Mizanzuki apresenta o episódio e a convidada especial Laerte, que está lançando o livro “Modelo Vivo” pela Boitempo. Ele explica que o livro contém material inédito, incluindo desenhos de modelo vivo, e apresenta os outros participantes da entrevista: Rafael Salimena, Bruno Bredes Mariano e Liber Paz.
- 00:18:20 — O que é o livro Modelo Vivo e os desenhos de modelo vivo — Laerte explica que “Modelo Vivo” tem republicações de histórias antigas e a novidade dos desenhos de modelo vivo, que ela nunca havia publicado. Ela descreve que esses desenhos são feitos em poses rápidas, criando uma urgência que beneficia o traço. Os participantes comentam o contraste entre esses desenhos mais sintéticos e as histórias mais elaboradas do passado.
- 00:25:34 — Trajetória política: do golpe de 64 ao de 2016 — Laerte compara sua atuação política durante a ditadura militar com o momento atual do golpe parlamentar de 2016. Ela analisa as diferenças na sociedade e na mídia, e como a complexidade atual exige mais reflexão do chargista. Na ditadura, o maniqueísmo (bem vs. mal) tornava o trabalho mais “fácil”; hoje, a fragmentação e a existência de chargistas que apoiaram o impeachment tornam o cenário mais desafiador.
- 00:33:05 — Desafios da charge: sutileza vs. clareza no contexto atual — Rafael Salimena pergunta sobre a tensão entre sutileza e clareza no trabalho do chargista hoje. Ele comenta que, às vezes, prioriza o posicionamento político em detrimento do artístico para evitar más interpretações. Laerte concorda, dizendo que também se questiona e que às vezes precisa usar títulos nas charges da Folha para localizar o tema, algo que não gosta, mas sente necessário no momento político.
- 00:36:45 — Apropriação indevida de charges e a cultura dos memes — Discutem casos em que charges de Laerte e Salimena foram “sequestradas” por grupos de direita, que alteraram os balões para inverter o sentido. Falam sobre a dificuldade de blindar o trabalho nessa era de memes e a má-fé por trás dessas apropriações. Também comentam leituras equivocadas que podem vir até de aliados, como o caso de Jaguar ser acusado de racismo em uma capa.
- 00:42:55 — A história “Vizinhos” e a representação de tipos — Bruno pergunta sobre a história “Vizinhos” e se o personagem careta representa um tipo comum. Laerte fala sobre sua luta contra os clichês na representação e como, às vezes, marcar um personagem com uma característica atípica (como ser careta) pode trazer mais realidade. Ela também comenta a escolha das cores (preto sobre papel vermelho) para a edição.
- 00:46:24 — Transição artística: dos personagens à experimentação — Liber pergunta sobre a transição de Laerte do trabalho com personagens fixos para experimentações gráficas mais livres, como os modelos vivos. Laerte explica que por volta de 2004/2005 sentiu que estava se repetindo e foi buscar, por instinto, caminhos de sua juventude (antes da profissionalização), quando desenhava com um traço menos característico do humor. Essa busca a levou a experimentações narrativas e gráficas.
- 00:52:59 — Experimentações narrativas e a recepção do público — Discutem experimentações específicas de Laerte, como uma charge que pode ser lida de cabeça para baixo. Laerte fala sobre sua paixão pelos aspectos mecânicos e poéticos da linguagem dos quadrinhos, influenciada por experimentações dos anos 60/70. Eles comentam a recepção do público, que às vezes reage mal por esperar uma piada e encontrar uma poesia, mas também notam que a Folha de S.Paulo tem dado apoio a esse trabalho.
- 01:00:49 — O clima dos anos 80 e a geração Chiclete com Banana — Ivan pergunta sobre o clima da cena de quadrinhos dos anos 80, com a abertura política e a revista Chiclete com Banana. Laerte relembra a importância de Glauco, que quebrou padrões com um humor mais ousado, e de Angeli, que começou a fazer narrativas longas. Ela fala da química do grupo “Os Três Amigos” (com Glauco e Angeli) e da experiência de escrever para a TV Colosso.
- 01:15:49 — Posicionamento político e visão sobre o PT — Laerte responde sobre sua relação com o PT. Ela revela que nunca foi petista (era do PCB na época da fundação do partido) e que sempre votou mais em pessoas do que em partidos. Analisa os governos do PT como centro-esquerda, com políticas sociais importantes, mas não um governo de esquerda pleno. Ela vê o assédio judicial e midiático contra Lula como uma tentativa clara de destruir sua capacidade eleitoral.
Dados do Episódio
- Podcast: AntiCast
- Autor: HD1
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2016-11-17T02:26:14Z
- Duração: 01:24:34
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/anticast/59b7c240-797b-0130-0111-723c91aeae46/anticast-262-entrevista-com-laerte-desenho-pol%C3%ADtica-e-linguagem/3ba82e30-8e9b-0134-90a4-3327a14bcdba
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Dados do Podcast
- Nome: AntiCast
- Tipo: episodic
- Site: https://open.spotify.com/show/40IuG6Qs0lwYntanTQbpDJ?si=tH4elzqGSaWFAiXbTvsalg
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Transcrição
[00:00:00] E aí, pessoal, aqui é Ivan Mizanzuki, esse é o Anticast número 262, entrevista com Laerte,
[00:00:22] a quadrinista, a chargista, ilustradora, enfim, maravilhosa, que finalmente temos a
[00:00:28] honra de entrevistar aqui no Anticast, porque ela está lançando o livro novo pela Boitempo,
[00:00:35] pelo selo de quadrinhos da Boitempo, na verdade, a editora Boitempo, e o livro se chama Modelo
[00:00:40] Vivo, a gente vai falar bastante sobre esse livro, bem diferente do que ela já lançou,
[00:00:44] e daí vamos falar um pouquinho sobre a atuação dela, política principalmente, como é que ela
[00:00:50] tem pensado política ultimamente, como é que isso reflete na sua obra, então, de novo,
[00:00:58] foi uma grande honra tê-la aqui, caraca, eu vou contar a historinha depois de como entrei em contato
[00:01:03] com ela e tal, e espero que vocês gostem. Para me acompanhar na entrevista, a gente teve que
[00:01:09] gravar num horário super chato, assim, foi bem complicado, mas é porque é o horário que ela
[00:01:13] pôde, então, tivemos aqui a presença do Rafael Salimena, essa galera que teve possibilidade de
[00:01:19] vir aqui gravar nesse horário, né, foi o Rafael Salimena, o Linha do Trem, o Bruno Bredes Mariano,
[00:01:24] já participou do Anticast nas antigas e tal, já fazia as capas do Anticast antigamente,
[00:01:28] um excelente ilustrador, quadrinista, designer também, e o Liber Paz, que é também professor
[00:01:34] de vegetário, quadrinista, tudo isso, então, só um time foda, e o Liber Paz, ele pediu também
[00:01:42] para divulgar o canal dele do YouTube, o Kitnet HQ, que é um canal que ele faz lá com o Scama,
[00:01:49] que também já participou do Anticast, que também é um pesquisador de quadrinhos, e eles fazem
[00:01:54] quadrinhos lá no YouTube e tal, então, o link está na postagem, para quem quiser ver, eu recomendo,
[00:01:59] lá tem grandes dicas, o Liber é um baita sommelier de quadrinhos aí, então, vocês vão curtir
[00:02:06] bastante, então, o link tanto para o canal do Liber, quanto o portfólio do Bredes e o site do
[00:02:12] Salimena, está na postagem, não deixem de dar uma olhada, antes de começar o programa, a gente vai
[00:02:17] dar aqueles recadinhos de sempre, mas eu recomendo que você ouça também, dessa vez, porque tem um
[00:02:23] trailer novo do Projeto Manos aí, hein, olha aí, então, ouça aí que você vai ouvir, vamos lá,
[00:02:30] então, ouça que você vai ouvir, é excelente, mas vamos lá, então, os recadinhos de sempre,
[00:02:35] lembrando que eu estou com dois cursos com inscrições abertas, o primeiro é o que começa dia 4 de
[00:02:43] dezembro e vai até janeiro, uma oficina bem longa, que é a oficina de criação de narrativas longas,
[00:02:49] então, é para você aí, caro escritor iniciante, que tem uma ideia na gaveta, que quer ter ritmo de
[00:02:57] escrita e estrutura e quer acompanhamento, então, a gente vai se encontrar a cada duas semanas,
[00:03:03] a cada três semanas, dependendo do dia, a programação vai estar no link para vocês darem uma olhada
[00:03:08] exato, mas vai ser justamente para a gente se encontrar a cada, de tempos em tempos, duas
[00:03:14] semanas, três semanas, para ver assim, ó gente, essa semana vamos fazer tal coisa, tá, então,
[00:03:20] começa aqui, pensa assim, e ao final da oficina, em janeiro, é para você ter a sua novela ou romance
[00:03:27] escrita, pronto ali, para ser apreciado por todos nós e você poder mandar para as editoras e
[00:03:33] publicá-las, né, eu vou participar da brincadeira também, que tem uma ideia minha na gaveta, que eu
[00:03:38] vou tirar finalmente, para poder participar da brincadeira, então, vamos todo mundo conversar
[00:03:42] e escrever junto, vai ser bem legal, e outra oficina que eu tô ministrando também, que vai ser só em
[00:03:48] dezembro, vai ser, vai ser dois encontros, o primeiro encontro no dia 11 de dezembro, é a oficina de
[00:03:54] entrevistas, né, extraia o máximo dos seus entrevistados, que são as entrevistas que eu,
[00:04:01] é o modelo, eu vou ensinar o modelo de entrevista que eu uso no projeto humanos, que muita gente me
[00:04:07] pergunta, como é que eu faço entrevista, como é que eu me preparo e tudo isso, então, vai ser
[00:04:12] justamente para isso, tá, inclusive, daí, essas entrevistas, esse modelo de entrevistas é interessante
[00:04:20] para o trailer do projeto humanos, que eu vou passar daqui a pouquinho, tem a ver, eu já explico, certo,
[00:04:25] então, se você quiser saber, já fica de olho, outro recadinho que a gente tem que falar, seja
[00:04:31] a partir da quantia que você puder, assim, por mês, seja um dólar pelo Patreon, ou cinco reais pelo
[00:04:39] PagSeguro, qualquer quantia que você puder nos oferecer, para a gente continuar aqui o
[00:04:44] Anticast, o Projeto Humanos e todos os outros podcasts da casa, como o Salva o Melhor Juízo, que
[00:04:48] é de direito, o Visualmente, que é de design, cinema e, enfim, artes visuais em geral, eles estão
[00:04:54] bastante, não obstante Filosofia do Beccari, três páginas do Fábio Fernandes, que essa semana teve
[00:05:03] um probleminha ali também, não conseguimos lançar episódio a tempo, mas logo, logo tá aí, a gente vai
[00:05:08] se acertando, mas a cada 15 dias tá no feed também, o É Pau É Pedra, que é feito pelos nossos patrões
[00:05:14] e patroas, e também, obviamente, o Feito Por Elas, que é comandado lá pela Isabel Wittmann e
[00:05:20] que é sobre cinema produzido por mulheres, então, se você quiser contribuir para que a gente continue
[00:05:25] os nossos podcasts, 2016 foi um ano muito legal para a gente poder colocar todos os projetos aí em andamento,
[00:05:30] juntar todo mundo na mesma casa, a gente quer continuar fazendo isso ano que vem, mas precisamos da ajuda
[00:05:35] de vocês, então, por favor, contribua lá pelo PagSeguro ou pelo Patreon, e com isso, você também
[00:05:42] pode participar da Cracóvia do Anticast, que é o nosso grupo fechado no Facebook, só para patrões,
[00:05:49] e, enfim, é o melhor lugar da internet, eu até peço desculpa para o pessoal da Cracóvia porque eu tô meio
[00:05:54] sumido, mas é que final de semestre ele tá pegando na universidade, e daí, no pouco tempo que eu tenho
[00:06:00] livre, tá difícil de administrar, mas logo eu tô entrando em férias, e daí eu vou poder participar
[00:06:06] mais ali das brincadeiras que os nossos patrões colocam, né, então, isso seja patrão, e como eu
[00:06:12] já falei, projeto humanos, olha só, eu vou lançar essa nova temporada agora, ela vai estrear já semana
[00:06:19] que vem, então, esse programa está saindo dia 17 de novembro de 2016, já no dia 22 de novembro você
[00:06:29] já vai ter nova temporada do projeto humanos, serão, se eu bem me lembro, cinco ou seis episódios,
[00:06:35] acho que seis episódios, então vai até o final do ano, até dezembro, até a última semana de dezembro,
[00:06:39] e eu tô muito orgulhoso dessa temporada porque eu não gravei nenhum episódio, e isso foi legal, no início
[00:06:48] do ano quem ouviu o podcast desde o início deve lembrar que eu fiz uma chamada para, se você quiser
[00:06:53] usar, na verdade, final do ano passado, se você quiser participar de um treinamento para o projeto
[00:06:58] humanos e tal, preenche lá um formulário, foram mais de 130 inscrições que tivemos, tô lembrando
[00:07:06] essa aqui, mas foi por aí, 120, 130, daí tivemos semanas de treinamento e finalmente agora o pessoal
[00:07:15] produziu esses episódios já faz um bom tempo, caiu, reduziu para seis pessoas, aquelas mais de 100
[00:07:21] pessoas, seis sobraram, então queria agradecer muito ali todos que participaram, que foi o Pedro
[00:07:28] Carre, o Pablo de Assis, a Joviana Marques, o Diogo Braga, o Gustavo de Lourenço e a Isabela Cabral,
[00:07:36] vocês seis fizeram episódios excelentes, eu tô muito orgulhoso, tô muito feliz de poder ter
[00:07:43] ajudado vocês, as técnicas de storytelling, de entrevistas, de gravação, gente, os episódios estão
[00:07:50] fantásticos e foi meio que sem querer, mas eu notei que quando eles me mandaram os episódios, todos
[00:07:58] eles tinham uma temática quase similar, que é a questão do herói, então esse é o tema da terceira
[00:08:05] temporada, esses seis episódios e de verdade eu tô muito feliz com a produção deles de novo, porque
[00:08:12] são histórias que eu fiquei de cabelo em pé em alguns momentos, fiquei super tenso em outros, me
[00:08:17] emocionei pra caramba, então essa galera vai poder fazer uma coisa que eu tinha muita vontade, que era
[00:08:22] fazer histórias por todo o Brasil, eu moro em Curitiba, então às vezes eu tô reduzido, tô limitado a
[00:08:28] estar aqui na minha cidade e aqui tem gente do Brasil todo, o Pedro Ferrari é de Brasília, o Pablo
[00:08:34] de Curitiba também, mas as juvianas juiz de fora, o Diogo Braga atualmente está morando em Belo
[00:08:39] Horizonte, Gustavo de Lourenço é de São Paulo, a Isabela Cabral é do Rio, então vamos ter várias
[00:08:46] vozes aí e contando histórias muito interessantes, não deixem de acompanhar o Projeto Humanos a
[00:08:52] terceira temporada, eu fiz esse trailerzinho curtinho, cinco minutos, para que vocês possam ter um
[00:08:58] gostinho do que vai vir por aí, então assine o feed do Projeto Humanos, espero que curtam a
[00:09:04] terceira temporada e depois dêem os seus parabéns ali, para a galera que produziu que de fato isso
[00:09:12] significa que daqui pra frente a gente pode fazer temporadas mais complexas do Projeto Humanos, ter
[00:09:17] maior periodicidade e fora tudo isso eu ainda estou fazendo planejamento, estou na pré-produção
[00:09:26] da temporada, de uma quarta temporada do Projeto Humanos, que vai ser daquelas bem densas, uma
[00:09:32] história única só e por vários episódios, a gente vai fazer isso, enquanto isso, esses seis aí
[00:09:37] selecionados vão estar produzindo suas histórias também, eles já fazem parte do Projeto Humanos
[00:09:41] então, sejam todos bem-vindos e enfim, eu já falei demais, curtam aí o trailer e em seguida
[00:09:50] fiquem com o programa, espero que gostem, grande laerte aí, então agora o trailer e em seguida o episódio
[00:10:03] independente do que você acredita sobre o mundo, parece que há um sentimento quase generalizado
[00:10:08] de que esses são tempos difíceis, e nessas horas de clique em clique ou de canal em canal, nós
[00:10:16] buscamos por histórias que nos inspirem e nos façam acreditar que talvez as coisas possam melhorar
[00:10:22] um dia, estamos à procura de um personagem, esse personagem é um herói
[00:10:38] não tinha terrorismo, tinha nada, terroristas eram eles, contra o povo brasileiro
[00:10:46] você lembra alguma última coisa que você falou com o voo antes dele ir embora?
[00:10:51] eu lembro, eu falei com ele, não vai lá fora, isso aí é cachorro que deve estar acontecendo nas
[00:11:00] pijamas, ainda assim, a Ana tinha quatro anos, ela ainda puxou o pijama dele para ele não ir
[00:11:08] e eu falei não vai, ele falou, não vou só ver o que está acontecendo
[00:11:16] e foi para ficar, e foi para ficar mesmo
[00:11:25] eles existem, seja numa luta armada, num sacrifício, numa entrega ou superação pessoal, eles estão por aí
[00:11:32] são nossos pais, amigos, irmãos?
[00:11:36] eu só sei que era uma cidade, aquela época era uma cidade faroeste, né?
[00:11:42] todo mundo andava armado, o Luís Carlos tinha um amigo muito gozado, era um amigo inseparado desde infância
[00:11:52] chamado Nissor, também já falecido, encontramos lá com o Nissor, e eu fiquei lá uma semana na casa do Luís Carlos
[00:12:01] e um belo dia, jovem, meio irresponsável, eu devia ter uns 21 anos por aí
[00:12:11] eu saí com o Luís Carlos na cidade, o Luís Carlos era advogado na cidade, entramos num bar
[00:12:18] e ele virou para mim e falou, eu quero ver se você tem coragem mesmo, está vendo aquele cara lá?
[00:12:25] aquele cara, o cara mais bravo aqui da cidade, todo mundo caga de medo dele
[00:12:33] a coisa que o cara tem mais raiva que se faça com ele é colocar a mão no chapéu dele
[00:12:41] então quero ver se você tem coragem de chegar lá, tirar o chapéu da cabeça dele e sair
[00:12:47] e eu falei, isso é para agora
[00:12:51] nesses tempos que às vezes podem parecer sombrios, os heróis são aqueles que nos dão esperança
[00:12:57] que funcionam como uma luz, que guia o que devemos fazer e pensar
[00:13:02] a história do Paraná vai ser contada sempre com esse capítulo, ouve no 29 de abril
[00:13:11] talvez um dia mude em aquele nome daquela praça, de nosso Senhor do Salado para a praça 29 de abril
[00:13:19] foi brutal, foi o uso da força descomedida, contraria todos os cadernos de segurança
[00:13:29] eu sou um homem de segurança pública, eu tenho formação de segurança pública
[00:13:33] eu viajei já vários países, vendo isso, Noruega, Alemanha, Espanha, enfim
[00:13:44] não cabe no país democrático, isso cabe nas ditaduras, né?
[00:13:51] países totalitários, né?
[00:13:54] aqui não
[00:14:07] porque o ambiente estatalara, o que ele traz para o paciente que está lá dentro
[00:14:10] mesmo que ele tenha uma unha encravada, é que é um espaço onde as pessoas morrem
[00:14:14] está ali, próximo da morte, e quando morre alguém, todo mundo fica muito tenso
[00:14:24] durante a semana, cinco dias de aula, acho que três eu chegava alcoholizado
[00:14:28] alcoholizado no sentido de chegar bêbado para participar da aula
[00:14:32] e eu tinha incentivo para beber porque eu discutia mais na sala de aula, eu me abria mais para alguns assuntos
[00:14:39] eu levava a garrafa de 51 com limão e açúcar dentro da mochila, chegava na sala de aula
[00:14:45] tinha uma sala vazia, a gente cortava as coisas, eu juntava mais uns dois
[00:14:49] a gente bebia, eu sempre bebia um pouco mais, e ia para a aula de história
[00:14:54] ia para a aula de geografia, discutir geopolítica, Segunda Guerra Mundial
[00:14:58] e os meninos falavam, Samuel, começa a debater com o professor de geografia
[00:15:02] porque você deixa ele tão nervoso que ele fica suando, a camisa dele fica toda molhada da aula contigo
[00:15:10] O que faz um herói?
[00:15:13] Terceira temporada do Projeto Humanos, que estreia no dia 22 de novembro
[00:15:26] Começando mais um Anticast, hoje estamos aqui com uma convidada muito especial
[00:15:31] mas antes da gente introduzi-la, vamos falar dos nossos convidados que vão me ajudar na entrevista
[00:15:37] Então estamos aqui com o nosso querido Liber Paz, tudo bom Liber?
[00:15:41] Oi gente, tudo bem? Tudo ótimo, então seja bem-vindo aí
[00:15:45] Temos também aqui o nosso querido Rafael Salimena, o linha do trem, tudo bom Salimena?
[00:15:50] Opa, beleza galera, obrigado pelo convite, pela oportunidade de estar aqui hoje
[00:15:54] Maravilha, e também temos aqui alguém retornando à casa, o Bruno Mariano, o Breds também
[00:16:00] que já fez as capas do Anticast tanto tempo atrás, então seja bem-vindo de novo Breds
[00:16:05] Opa, bom dia, boa tarde, boa noite
[00:16:09] Então com esse time aqui já dá pra saber que o tema está aqui em quadrinhos e assuntos relacionados
[00:16:16] e o que tem tudo a ver com a nossa convidada de hoje que é a Laerte
[00:16:20] Então Laerte, seja muito bem-vindo aqui, é uma honra enorme tê-la, muito obrigado por ter aceitado o convite
[00:16:25] Eu que estou agradecido pelo convite, vamos lá?
[00:16:31] E esses queridos que vão perguntar, saudações gerais
[00:16:38] Maravilha, então até contando um pouquinho da história de por que a gente está fazendo esse programa
[00:16:44] até pra todo mundo aqui já entrar no clima, eu tenho contato lá com o pessoal da Boitempo, a Gisele
[00:16:50] principalmente quem entra em contato, um abraço pra Gisele, e ela mandou pra mim um e-mail a semana passada
[00:16:56] Dizendo, oh, a Laerte está lançando um livro novo, será que vocês não teriam interesse em divulgar?
[00:17:01] Eu disse, po, maravilha, porque quando teve a Gibi Com algumas semanas atrás, acho que faz um mês
[00:17:08] aqui em Curitiba, que foi evento de quadrinhos, eu encontrei a Laerte também e tirei uma selfie
[00:17:13] que a minha esposa queria muito, que é assim, tira uma selfie com a Laerte, pelo amor de Deus, daí eu fui lá e tirei
[00:17:18] Daí eu já disse, po, Laerte, quero te entrevistar um dia, tem um podcast e tal, e daí já passou o número do telefone
[00:17:25] Daí eu, po, fiquei tudo orgulhoso, nossa, tem o número da Laerte agora no meu celular, sabe?
[00:17:30] Então, me senti super importante e trocamos uma ideia lá, foi super legal e daí já juntou as duas coisas
[00:17:36] Fazia tempo que eu queria fazer esse programa contigo, então acho que aproveitar aí do lançamento do seu livro
[00:17:41] Tá ótimo, e a gente vai bater esse papo também sobre carreira, política e esse livro novo
[00:17:46] Então, e eu não posso deixar de mencionar que tinha duas meninas que eu convidei aqui pra participar
[00:17:53] Aqui é a Cris Petter, colorista, e a Isabel Wittmann, que também participa aqui
[00:17:59] As duas mandaram um beijo enorme pra você também, queriam muito participar, mas estavam ocupadas hoje
[00:18:03] Então fica aqui o registro do beijo que elas mandaram pra você
[00:18:08] Oba, registro de um beijo
[00:18:12] Isso, então, Laerte, eu acho que já queria começar então perguntando sobre o que é o seu livro novo
[00:18:20] Porque tem material inédito lá dentro, então a gente queria ter uma ideia do que ele tem diferente do que você já publicou
[00:18:27] Ele tem de diferente os desenhos de modelo vivo, isso é a diferença
[00:18:34] Tem uma história que é inédita, uma historinha de duas páginas
[00:18:38] E tem também uma história que é quase inédita, porque ela saiu num fanzine que eu lancei há muito tempo
[00:18:47] E as outras são repubblicações de histórias que saíram em diversos lugares
[00:18:56] Geraldão, no Clássico Madana, na própria Piratas do Tietê, ou na Circo
[00:19:04] Então, entre repubblicações inéditas, tem esses desenhos de modelo vivo, que é uma coisa que eu nunca tinha publicado
[00:19:15] O Brad está com uma cópia do modelo vivo
[00:19:20] Brad, você já conheceu o trabalho da Laerte vendo o livro, qual foi a impressão dessas questões?
[00:19:26] A minha curiosidade é de saber se a gente está vendo um lado da Laerte que a gente nunca tinha visto antes
[00:19:33] Eu vou começar aqui, que talvez já dê pra ter uma ideia disso
[00:19:38] Eu vou citar a orelha da capa aqui
[00:19:41] Então está escrito assim
[00:19:43] Desenhar a gente é uma das maneiras mais fecundas de fazer desenhos
[00:19:46] Porque nos usamos inteiramente na ação de desenhar
[00:19:50] Fiz isso menos do que gostaria, sempre foi renovador, sempre me reequilibrou
[00:19:54] Daí, talvez a Laerte pode confirmar, mas eu achei interessante
[00:20:00] Parece um compilado de vários desenhos, várias histórias da sua carreira
[00:20:09] E ao mesmo tempo tem essa expressão, talvez eu possa considerar mais natural
[00:20:14] Ou sem um roteiro por trás tão explícito assim
[00:20:19] O entendimento do desenho vai vir depois só pelo leitor
[00:20:23] Daí é interessante, eu até queria perguntar, por que teve essa escolha dessa divisão?
[00:20:30] De ter essas histórias e deixar elas intercaladas com esses desenhos de modelo vivo
[00:20:36] Eu quis acrescentar algo diferente mesmo
[00:20:41] E me ocorreu esses desenhos de modelo vivo
[00:20:44] Propus isso pro Toninho, o Toninho queria fazer um livro
[00:20:48] Queria lançar um livro meu, basicamente com repubblicações
[00:20:53] Porque eu não tenho feito coisas inéditas, quase tudo que eu faço é pra publicar
[00:21:00] Então eu não tinha nada na gaveta, não sei uma história de duas pá
[00:21:03] Então os desenhos entraram como uma informação nova
[00:21:08] Que pra mim também foi uma novidade, sabe?
[00:21:12] A ideia de publicá-los
[00:21:15] Porque eu sempre fiz esses desenhos pra mim mesmo
[00:21:19] Pra ficar, pra meu estudo, pra meu registro, pra meu exercício
[00:21:26] E eu nunca tinha pensado em publicar, agora eu pensei
[00:21:31] Eles são resultados de uma oficina que você acabou fazendo junto com o Rafael Cotinho, né?
[00:21:36] Eu e o Rafael fizemos até agora duas oficinas
[00:21:43] E foi muito bom, sabe?
[00:21:47] Porque não é exatamente um curso que a gente dê
[00:21:51] A gente junta as pessoas e abre um espaço
[00:21:55] E promove, dirige uma atividade de desenho e de discussão sobre os desenhos
[00:22:02] Troca de ideias sobre o que foi produzido ali, né?
[00:22:07] Junto com os modelos também
[00:22:10] É um momento muito rico, assim
[00:22:14] Até em questão de estilo, pelo menos chamou a atenção assim da capa
[00:22:20] Que é o que eu tô vendo aqui
[00:22:22] Me lembrou alguma coisa mais de arte moderna, mais contemporânea talvez
[00:22:28] Eu sou professor história da arte, então não consigo não ver esse estilo
[00:22:32] Que já contrasta com o que você produz nas suas charges
[00:22:36] O desenho de modelo tem me deixado…
[00:22:41] Como são poses muito rápidas
[00:22:43] A gente em geral propõe poses rápidas de dois minutos
[00:22:48] Depois uma pose mais demorada de cinco minutos
[00:22:51] É sempre um trabalho que prima pela urgência, assim vamos dizer
[00:22:59] O que coloca o traço sob uma pressão que eu acho muito benéfica
[00:23:06] Eu acho muito positiva essa coisa de você precisar resolver questões gráficas
[00:23:12] E questões de representação com seu traço de uma forma quase sumária
[00:23:18] Isso pra mim é um negócio muito enriquecedor
[00:23:22] Eu tenho desenhado… Essas histórias que estão ali são relativamente antigas
[00:23:27] Dos anos 90, anos 2000, do começo dos anos 2000
[00:23:35] Então tem ali um traço bastante carregado no sentido de elaboração
[00:23:45] De ficar desenhando, apagando, reconstruindo e tudo
[00:23:50] Então esses desenhos de modelo vivo tem uma espécie de outra face
[00:23:56] Uma outra face minha enquanto pessoa que desenha
[00:24:03] Aquarela que você usou mais?
[00:24:06] Eu tenho tentado fazer de alguma forma uma simbiose
[00:24:10] Uma sintonia com as tiras que eu desenho na folha
[00:24:14] Nenhuma dessas histórias mais recentes de 2005 pra cá está nesse livro
[00:24:23] E a aquarela, a técnica que você está usando mais?
[00:24:27] Como você se dá com essa técnica?
[00:24:29] Eu uso esse de tudo ali
[00:24:31] Eu uso pastel oleoso, pastel seco, pincéis grossos
[00:24:39] Lápis também, grafite, aquarela
[00:24:44] Dá pra ver nos desenhos, especialmente nos coloridos
[00:24:48] Uma mistura grande de técnicas
[00:24:53] Em outros desenhos não, já são só desenhos
[00:24:59] Tem uma que é uma monotipia
[00:25:06] A gente fez durante um tempo um curso de monotipia com o Alexandre
[00:25:12] Esqueci o sobrenome dele, olha que feio
[00:25:15] Mas a gente fez e produzimos algumas monotipias
[00:25:22] E aqui tem um exemplo dela no fim da história dos palhaços mudos
[00:25:27] Eu queria então, já que você está falando dessa tua história
[00:25:34] Do que você vem produzindo e de coisas não tão antigas assim
[00:25:39] Mas é uma pergunta que eu te fiz até durante a GhibiCon
[00:25:43] E que daí eu acho que a gente pode engatar pra desenvolver aqui
[00:25:47] O fato de você estar lançando esse livro pela boa e tempo
[00:25:51] Acho que é bastante simbólico, né?
[00:25:53] É uma editora com um posicionamento político muito claro
[00:25:56] Lança uma série de livros de literatura da esquerda principalmente
[00:26:02] Eu participei de um livro chamado Porque Veritamos Golpes
[00:26:06] Exato, exatamente
[00:26:08] E você se tornou uma das vozes mais ativas no meio artístico
[00:26:11] De denunciar o golpe que estava em andamento, que ocorreu
[00:26:16] E sua visão política, enfim
[00:26:18] E uma coisa que eu te perguntei na GhibiCon
[00:26:20] E que eu acho que seria legal dividir aqui pra todo mundo
[00:26:23] É tendo em vista que você começou sua carreira na década de 70
[00:26:28] Como é que você vê a produção e o seu engajamento político de lá pra cá?
[00:26:32] O que mudou?
[00:26:34] A gente está num momento que você está mais se incomodando com política?
[00:26:38] Ou já teve outros momentos? Quais diferenças, semelhanças?
[00:26:41] Fala um pouquinho em geral
[00:26:45] Bom, você está me pedindo quase uma tese
[00:26:49] Eu vou te explorar aqui hoje
[00:26:52] São momentos diferentes
[00:26:54] Acho que nós estamos vivendo a vigência de um golpe
[00:26:58] Um golpe parlamentar
[00:27:00] Que é uma modalidade relativamente moderna de golpe
[00:27:04] Ao contrário do golpe mano-militário
[00:27:08] Como foi em 64 e como foi em muitos lugares do mundo
[00:27:12] Golpes aplicados com o exército
[00:27:16] E em sintonia com setores da sociedade civil
[00:27:24] O fato de não ter tido a participação das forças armadas até agora
[00:27:32] Não diminui a natureza, não muda a natureza do evento que é
[00:27:38] É um golpe que foi a destituição de uma presidenta eleita
[00:27:44] Sem nenhuma justificativa
[00:27:48] Enfim, é um impeachment de tapetão
[00:27:55] Agora, as sociedades são muito diferentes
[00:27:58] A sociedade brasileira de 64 e a sociedade brasileira de 2016
[00:28:02] São muito diferentes
[00:28:04] Nós hoje temos um grau de mobilização, de agito
[00:28:10] E de…
[00:28:14] Como se chama, de effervescência, de preocupações
[00:28:18] Que é disseminada, é muito grande
[00:28:24] E que não se restringe às forças de esquerda
[00:28:27] Como a gente muito bem percebeu
[00:28:30] E a mídia também guarda algumas diferenças
[00:28:35] Se bem que não tantas
[00:28:36] Ela se alinhou com o golpe em 64 de uma forma muito semelhante à que se alinha atual
[00:28:45] Mas o fato é que a sociedade com que esse golpe está lidando também é outra
[00:28:50] E eu acredito que vai ter mais…
[00:28:55] Vai ter problemas daqui para frente para se viabilizar um governo golpista
[00:29:02] Tanto é que eu acho que eles estão com alguma pressa em liquidar
[00:29:07] O que eles querem liquidar que é basicamente o PT e o Lula
[00:29:12] Então, tendo esses alvos como principais
[00:29:17] Eles deixariam a esquerda meio fragmentada, meio esfarelada
[00:29:24] E eu acho que isso que é o objetivo, o objetivo principal
[00:29:32] Agora você me perguntou também sobre a participação dos sarjistas nisso, ou eu entendi mal?
[00:29:39] Sem não disso mesmo, principalmente a sua experiência
[00:29:42] Como é que você, tendo uma das vozes mais ativas em questão a isso
[00:29:46] Como é que vem a sua atuação se é o momento que você está mais incomodada?
[00:29:51] Eu estou incomodada, mas também há muitas diferenças
[00:29:55] Na época de 64 eu estava começando a minha vida de expressão gráfica e profissional também
[00:30:08] E as coisas eram muito mais simples naquela época
[00:30:11] Havia uma ditadura que representava as forças do mal
[00:30:17] E havia o arco das pessoas que estavam afim de redemocratização
[00:30:24] E essas eram as pessoas do bem
[00:30:27] Isso torna a atividade de desenho de humor uma coisa meio fácil, entre aspas
[00:30:36] Porque não há questões muito mais sérias do que você ficar fazendo denúncias
[00:30:42] E principalmente tentando driblar a censura que naquela época era muito forte
[00:30:48] E não tinha muita discussão a respeito de lados
[00:30:53] Quando começa a se tornar mais complexa a situação
[00:30:59] Foi justamente o momento em que muitos cartunistas deixaram a profissão
[00:31:05] Porque já não era uma coisa tão simples assim
[00:31:09] Isso aconteceu lá pelo meio da década de 70 já
[00:31:14] Foi um processo político em que o governo abriu, entre aspas também
[00:31:22] Permitiu criação de outros partidos
[00:31:27] A ideia toda era permanecer no controle o maior tempo possível
[00:31:33] E eles sabiam que estavam perdendo a maioria no parlamento
[00:31:40] Tavam perdendo também a moral de botar tanque na rua
[00:31:44] Estavam perdendo terreno, perdendo voz e comando
[00:31:49] Bom, hoje é muito diferente
[00:31:53] Eu sei de muitos cartunistas que apoiaram o impeachment
[00:31:58] Achando que era isso mesmo que tinha que acontecer
[00:32:02] Hoje eu acho que a situação é muito mais diversificada e tudo
[00:32:09] O que torna a produção também algo mais complexo
[00:32:14] Não basta mais você apontar o dedo numa direção mais ou menos óbvia
[00:32:21] E fazer um desenho, fazer uma piada, fazer uma coisa assim
[00:32:27] É preciso mais reflexão
[00:32:31] E é o que eu estou fazendo
[00:32:33] Como eu estou também envolvido com outras questões
[00:32:36] Como as bandejas LGBT vão simplificar assim
[00:32:41] Então a minha militância também está mais complexa por isso
[00:32:46] Mas isso é bom, não é uma complexidade que me paralise
[00:32:55] E nem é uma coisa que me dê desgosto
[00:32:59] São desafios interessantes
[00:33:03] Alguém queria fazer uma pergunta?
[00:33:05] Eu posso encaixar uma pergunta aí?
[00:33:07] É o seguinte, Laert, eu sempre achei que a sutileza
[00:33:11] Era meio que a base do bom trabalho em tiras, cartuns, charges e tal
[00:33:15] Aquela coisa de ser sutil, deixar o público somar dois mais dois
[00:33:18] Você dar um tapa de luvo no que você quer criticar e tal
[00:33:21] E antigamente nosso trabalho era meio que fazer um comentário
[00:33:24] Sobre uma informação que a gente pressupõe que o público já tinha
[00:33:27] Só que hoje, atualmente, muitas vezes a tira é usada como uma informação em si
[00:33:32] No Facebook e tal, as pessoas compartilham aquilo junto com algum comentário
[00:33:36] Que pode até estar servindo a um discurso oposto ao nosso
[00:33:39] Se a gente estiver sendo muito sutil
[00:33:41] Então eu passei, pelo menos no meu trabalho, às vezes sacrificar a sutileza
[00:33:45] E consequentemente até o humor em nome da clareza
[00:33:48] É uma coisa que me incomoda porque eu me vejo priorizando o posicionamento
[00:33:52] E o detrimento do artístico, às vezes
[00:33:54] Só que mesmo você continua, porque eu acho que a situação atual pede esse tipo de medida
[00:33:58] Eu queria saber se mesmo com toda a sua experiência
[00:34:01] Você ainda se questiona nesse sentido hoje em dia
[00:34:04] Ah, me questiono sim
[00:34:07] Aliás, o seu trabalho, Rafael, é muito bom nesse sentido
[00:34:10] Eu entendo isso que você está dizendo
[00:34:13] Às vezes eu identifico isso no seu trabalho
[00:34:16] Porque o modo como você constrói suas histórias é pela via da sutileza em geral
[00:34:23] Mas eu vejo que às vezes você também se preocupa com isso
[00:34:28] Como nem toda múltipla interpretação interessa
[00:34:35] Eu gosto quando as pessoas entendem de várias formas possíveis
[00:34:39] Acho isso uma coisa importante e muito interessante
[00:34:45] Mas ao mesmo tempo às vezes é preciso marcar um pouco mais
[00:34:54] Eu tenho sentido isso na charge que eu faço na página 2 da Folha
[00:34:58] Porque ali as coisas são muito sintéticas
[00:35:02] E às vezes eu vejo a necessidade de botar uma coisa que eu não gosto de botar
[00:35:07] Que é título
[00:35:09] Que é para localizar o tema ou o assunto que você está falando
[00:35:15] Eu acho mais chato, mas às vezes é necessário
[00:35:19] Eu não gosto muito de nem fazer charge, para falar a verdade
[00:35:23] Eu me sinto meio cagando regra
[00:35:27] Parece que o tempo atual empurra a gente para isso
[00:35:32] Antes de artista a gente acaba tendo que exercer a posição como cidadão
[00:35:38] Já que a gente tem esse espaço, que a gente pode formar opinião
[00:35:41] Expor o que a gente está pensando
[00:35:44] Às vezes eu sinto isso com uma responsabilidade meio pesada
[00:35:49] Sim
[00:35:50] Demais
[00:35:51] Total, imagina
[00:35:54] Antigamente os chargistas eram editorialistas
[00:35:58] Na verdade o espaço da charge era considerado um espaço como uma coluna
[00:36:04] Uma coluna de comentários políticos
[00:36:06] Ali era um comentário político feito com essas ferramentas
[00:36:10] Que é do desenho, o desenho do humor, a piada e tudo
[00:36:16] Ainda é assim, mas eu não me sinto confortável nessa função
[00:36:25] Nossa, imagina, isso é um peso enorme
[00:36:29] Ainda mais que você está avisado por vários setores políticos de militância diferentes
[00:36:35] Deve ser muito complicado não apanhar dessa galera
[00:36:40] Não me leve ao pânico
[00:36:45] Eu não estou avisado a nada
[00:36:51] Inclusive comparando o trabalho dos dois, do Salimena com o Alaerte
[00:36:57] Tem aquela charge da Alaerte que é maravilhosa
[00:37:00] Que tem o tiro a dentes para morrer
[00:37:03] Tem o cara gritando vai para Cuba
[00:37:06] Essa charge foi a primeira vez em que meu trabalho foi amplamente sequestrado pela direita
[00:37:14] E pirateado
[00:37:17] Houve uma reinterpretação da fala vai para Cuba
[00:37:21] Colocando aquela fala no lugar daquela fala coisas ditas pela esquerda
[00:37:30] Como se o tiro a dentes fosse um herói desse liberalismo de direita
[00:37:36] Que conseguiu dar o golpe
[00:37:40] E o Salimena tem a charge dele em que aparece o Martin Luther King dizendo
[00:37:47] Eu tenho um sonho e alguém dizendo mimimi
[00:37:52] Na platéia
[00:37:55] Essa é uma aventura sensacional
[00:37:58] Deu uma puta confusão
[00:38:01] O Salimena também teve essa charge sequestrada?
[00:38:06] Eu tenho várias
[00:38:09] Mas essa do Salimena é menos sequestrada
[00:38:12] O que é uma boa qualidade
[00:38:15] É difícil fazer uma releitura dela
[00:38:18] Exato, tem que blindar o seu trabalho de um jeito que não consiga mudar o balão e alterar o que você está fazendo
[00:38:25] E essa do brasileiro médio cara do mimimi é incrível
[00:38:29] A gente está vivendo na época dessa linguagem de memes
[00:38:36] É fácil umas pessoas pegarem e montarem uma contrafação e jogarem na rede
[00:38:43] Faz o tempo inteiro
[00:38:45] Tira a minha página de direita, instituto liberal
[00:38:48] Os caras usando aquela tiraminha do Pikachu para justificar não pagar o imposto
[00:38:54] Vocês não sentem assim quando vocês estão concebendo essas tiras
[00:38:58] Que vocês também tem que lidar com uma incapacidade cognitiva
[00:39:03] Ou uma falta de know-how de algumas pessoas que é
[00:39:05] Porque como a Layerte falou
[00:39:08] Pegaram a tira do Tiradentes, mudaram o texto, se apropriaram
[00:39:12] E é uma apropriação que às vezes me parece birrenta
[00:39:15] Parece reação de criança de quinta B
[00:39:18] É falta de contexto
[00:39:21] É um mal-caratismo
[00:39:23] Significa no limite que a pessoa está te corrigindo
[00:39:27] Ela está dizendo que você está errada em fazer daquele jeito
[00:39:32] E está te dando uma aulinha
[00:39:34] É uma coisa extremamente arrogante
[00:39:36] E tem tudo a ver com esse método fascista de gestão dos diálogos
[00:39:42] Você não pode dizer nada que você está errado
[00:39:44] E daí vai ver filho da puta corrigir você
[00:39:49] E é quase uma violação do nosso trabalho
[00:39:53] O cara pode fazer o trabalho dele falando contra
[00:39:56] Mas ele usa o seu traço, usa o que você fez
[00:39:59] Para falar o oposto que você está fazendo
[00:40:01] É terrível, mas não tem que fazer
[00:40:04] Que nem professor que pega o seu trabalho, a sua redação
[00:40:10] E fica arriscando, corrigindo
[00:40:13] É tipo isso
[00:40:16] Pior que ainda se corrigisse alguma coisa
[00:40:18] Alguma informação que tivesse fundamento
[00:40:20] Mas é isso que eu falo
[00:40:22] O cara coloca algo lá que é totalmente furado
[00:40:25] Não tem fundamento, não tem uma base
[00:40:29] O cara parece que demonstra falta de informação em vez de…
[00:40:33] O que você perguntou
[00:40:35] Eu não acho que seja uma dificuldade de cognição nem nada
[00:40:38] É o que lá a gente falou, é má fé mesmo
[00:40:42] Tem a coisa da dificuldade de cognição
[00:40:46] O que existe por aí de leituras apressadas
[00:40:50] De tweetadas ou de textos que você põe
[00:40:53] E aí as pessoas vão te acusando disso e daquilo
[00:40:56] Não está no gibi
[00:40:57] O Jaguar mesmo foi vítima de um ataque desses
[00:41:02] Recentemente que ele fez uma capa do Le Monde Diplomatique
[00:41:05] Em que ele desenhou, não sei se vocês viram isso
[00:41:09] O Jaguar desenha um trabalhador nu
[00:41:12] Falando assim, há dias melhores virão para os patrões
[00:41:16] Que é uma crítica à política trabalhista que vem por aí
[00:41:21] E que era a reportagem central do Le Monde Diplomatique
[00:41:26] Como esse homem que ele desenhou é negro
[00:41:29] E como ele desenhou com aquele traço de jaguar
[00:41:32] Que é um traço que cultiva o grotesco
[00:41:38] A coisa bruta
[00:41:42] Ele foi acusado de racismo
[00:41:45] Quando não é, não tem nada de racismo ali
[00:41:49] Agora isso é uma leitura equivocada
[00:41:54] Esse tipo de leitura equivocada ainda abre espaço
[00:41:58] Para você ser atingido por fogo amigo
[00:42:00] Às vezes você faz um negócio e acaba despertando
[00:42:03] A ira de alguém que deveria ser seu aliado
[00:42:06] E você não tinha nenhuma ideia que ia ter aquele tipo de leitura
[00:42:11] Então você tem que começar a prever leituras
[00:42:14] O papel da esquerda é problematizar
[00:42:19] Isso vai acontecer, cada vez vai acontecer mais
[00:42:25] O que eu estava referindo, que eu falava que era só amar a fé
[00:42:28] É quando essa galera realmente se apropria do discurso
[00:42:31] Para falar o oposto
[00:42:33] Eu não acho que alguém consiga entender isso só pelo que eu estou fazendo
[00:42:37] A pessoa tem que ter uma fé para falar que essa tira não está falando isso
[00:42:43] Está falando o oposto dela, era nesse sentido que eu estava
[00:42:46] Só para justificar
[00:42:48] Eu tenho uma pergunta
[00:42:55] Eu tirei uns três livrinhos para ler de ontem para hoje
[00:42:58] E um deles é o Vizinhos
[00:43:00] Daquela coleção mil da Cachalote
[00:43:03] A gente está falando de tipos aqui
[00:43:06] A gente está falando de cognições e tipos
[00:43:08] Eu acho muito engraçado o protagonista
[00:43:10] Não sei se dá para chamar ele de protagonista dessa história
[00:43:13] Que é um tipo careca
[00:43:15] Tem dois
[00:43:17] Mas eu acertei que quem ocupa mais espaço e conduz a trama
[00:43:21] É o amiguinho careca
[00:43:23] É o central
[00:43:25] Você acha que ele representa um tipo comum?
[00:43:29] Até para você explicar melhor essa obra
[00:43:31] Do que eu falei aqui
[00:43:33] Você acha que ele representa um tipo comum?
[00:43:37] Você estava com uma intenção dessa?
[00:43:39] De representar um certo tipo?
[00:43:41] Esse é um problema que eu tenho
[00:43:43] De fazer representações clichê da realidade
[00:43:46] Eu não gosto disso
[00:43:48] Mas eu vivo caindo nessa armadilha
[00:43:50] Então eu quero contar uma história
[00:43:53] Que se passa numa situação X
[00:43:56] Tem um sujeito que mora no apartamento
[00:43:59] E está incomodado com o tomador de conta
[00:44:02] Que também vende maconha
[00:44:04] E o que tem aí é uma luta de classes
[00:44:09] Sim
[00:44:11] Eu quis deixar esse cara o mais real possível
[00:44:17] E quando a gente representa uma coisa real
[00:44:21] Muitas vezes o atípico é que traz o tom de realidade para aquilo
[00:44:28] Se aquela pessoa usasse um chapéu coco
[00:44:32] Ou se aquela pessoa não tivesse um braço
[00:44:39] Sabe, marcá-lo com alguma atipicidade
[00:44:45] Que tornasse ele menos clichê, menos padrão
[00:44:50] Padrão, mas eu acabo fazendo muito isso
[00:44:53] Isso é uma das queixas que eu tenho em relação ao meu próprio trabalho
[00:44:58] Então nessa história eu acabei levando nessa batida
[00:45:04] Ele é um careca com barba
[00:45:07] E que mora no apartamento
[00:45:09] É um homem de classe média
[00:45:11] Mora sozinho
[00:45:14] É a sua história mais longa, o Vizinhos, não é?
[00:45:18] É sua história mais longa, o Vizinhos?
[00:45:21] É a minha história mais longa, sim
[00:45:24] E a minha última história inédita, eu acho
[00:45:28] E por que você escolheu o vermelho e preto para essa história?
[00:45:32] Que ela é impressa em preto no papel vermelho
[00:45:35] Eu demorei bastante para chegar nesse traço
[00:45:38] Eu fiz várias versões, joguei algumas fora
[00:45:42] Acabei optando por um traço a lápis
[00:45:46] Que é o que está
[00:45:48] Meu filho escolheu a cor vermelha de papel
[00:45:50] Por quê? Por quê?
[00:45:52] Porque, em primeiro lugar, toda coleção é com papel colorido
[00:45:56] Cada edição, cada história é com papel de uma cor
[00:46:04] E no meu caso ele escolheu esse vermelho
[00:46:06] Que eu achei uma interpretação bem audaciosa
[00:46:09] Uma escolha bastante ousada
[00:46:13] Mas eu achei que ficou muito bom
[00:46:15] Gostei bastante do resultado
[00:46:18] Eu também
[00:46:19] Eu também
[00:46:20] Eu adoro
[00:46:21] Certeza
[00:46:22] Posso fazer uma pergunta?
[00:46:24] Voltando, Olaerti
[00:46:27] Essa questão dos clichés
[00:46:30] Eu já ouvi você falar que deixou um pouco de lado os personagens
[00:46:36] Porque eles limitavam, as pessoas começavam a esperar coisas deles
[00:46:40] E você tinha que seguir um certo ritmo
[00:46:44] Sempre na ativa
[00:46:46] Que iriam mostrar essas características
[00:46:49] Daí agora a gente vê essa experimentação
[00:46:53] Por exemplo, na Miu
[00:46:55] Uma história mais longa
[00:46:57] Que você ainda está identificando alguns clichés
[00:47:00] Daí agora, e numa última publicação
[00:47:02] A gente vê os modelos vivos
[00:47:04] Que não tem nenhum roteiro apoiando o entendimento
[00:47:11] Exato, são imagens sem história
[00:47:13] Que são únicas
[00:47:15] Qual seria o próximo passo agora?
[00:47:18] É que eu fico imaginando mesmo
[00:47:22] Tantas experimentações, entende?
[00:47:25] E eu acho legal
[00:47:27] Inclusive é legal identificar isso nesse livro
[00:47:31] Como tem um panorama geral do seu trabalho
[00:47:35] E daí você intercala com esses modelos vivos
[00:47:38] Você percebe, eu consigo ver um pouco essa mudança de expressão mesmo
[00:47:43] De como se expressar
[00:47:45] Não sei se vem de um momento mesmo
[00:47:47] Acho que você tinha até identificado
[00:47:50] Só queria que você falasse um pouco sobre isso
[00:47:53] Sobre essas transições
[00:47:55] E como você pontua elas também
[00:47:58] Quando você escolhe mudar essa chave
[00:48:03] Eu não tenho um sistema de escolher novos caminhos
[00:48:08] Foi meio uma louca
[00:48:10] Eu cheguei a conclusão de que já havia um ciclo completo
[00:48:20] E que eu estava me repetindo
[00:48:22] Com a história de personagens
[00:48:25] E roteiros de piada
[00:48:28] Mais ou menos por instinto
[00:48:31] Que eu cheguei a essa conclusão
[00:48:33] E eu comecei uma busca também por instinto
[00:48:37] Como eu acredito que a profissionalização dentro da área de humor
[00:48:45] Leva a gente a determinados vícios de traços
[00:48:51] Acho que a minha busca me levou também naturalmente
[00:48:57] Ao ponto anterior à minha profissionalização
[00:49:00] Lá quando eu tinha 19, 20 anos
[00:49:03] E o que eu desenhava
[00:49:07] Eu fui buscar lá atrás
[00:49:09] Essas linhas de procedimento
[00:49:14] Recentemente eu achei um cartoon que eu publiquei no Pasquim
[00:49:19] Em 1970, eu tinha 19 anos
[00:49:23] E é um cartoon legal, bonitinho e tudo
[00:49:27] Eu até postei isso no meu Facebook
[00:49:31] No Instagram também
[00:49:34] O que me chamou a atenção ali
[00:49:37] Foi o modo como eu estava fazendo humor
[00:49:40] Mas eu estava fazendo com um traço absolutamente não característico de humor
[00:49:47] Eu não estava usando narigões, olhões
[00:49:50] Não era um desenho que tenta cortejar a risada da pessoa que está lendo, entendeu?
[00:49:57] É um desenho quase naturalista
[00:50:01] Não é naturalista, mas não
[00:50:04] E é um desenho que eu praticava naquela época
[00:50:10] Então essa busca foi por esse caminho
[00:50:17] Por causa disso, porque representava um momento de muita liberdade e experimentação
[00:50:23] Então não é que eu esteja querendo ficar mais jovem
[00:50:27] Ou reviver a minha juventud, adoraria, mas isso é impossível
[00:50:31] Então o que eu fui atrás foi de caminhos
[00:50:35] De rotas e procedimentos
[00:50:38] E aí eu venho vindo nessa batida desde 2005
[00:50:44] Desde 2004, 2005
[00:50:47] Parei de usar os bonecos de humor
[00:50:54] E comecei a representar as coisas de outro modo
[00:50:59] Eu sou uma cria total dessa fase sua, Laerte
[00:51:04] A época que eu comecei a fazer tiros foi em 2006
[00:51:08] Acho que você estava no auge daquela sua fase mais surreal
[00:51:13] Eu abracei aquilo com tudo porque eu não me identificava com desenhar aqueles bonecões de narigão
[00:51:19] Aquele traço de humor é o meu característico
[00:51:22] A quem faça isso muito bem, quando eu digo que para mim não funcionou
[00:51:29] Eu faço questão de frisar que para muita gente funciona
[00:51:33] E não é um problema isso, não é um erro
[00:51:36] Não é sinal de nada errado
[00:51:39] Uma pessoa usar personagens, construir piadas
[00:51:43] Isso é legal
[00:51:46] Tanta gente fez isso durante tanto tempo e bem
[00:51:51] Tem um exemplo de um autor que eu gosto muito, o Gary Trudeau
[00:51:57] Que chama Doonesbury, a tira dele
[00:52:00] E ela existe há décadas, desde os anos 70
[00:52:05] São os mesmos personagens, só que são personagens que envelhecem
[00:52:09] Então, aí há um arsenal, um elenco de personagens com características
[00:52:18] E são personagens que têm filhos, então são personagens novos e tudo
[00:52:24] É quase uma novela, uma soap opera
[00:52:31] Uma espécie de malhação
[00:52:36] Inclusive eu lembro, acho que era 2012
[00:52:40] O Breds tinha me mandado uma tirinha da Laert
[00:52:45] E ele falando assim, cara, olha o que a Laert está fazendo aqui de experimentação gráfica
[00:52:50] Não sei se você lembra, Breds
[00:52:53] Tinha um fluxo de leitura completamente diferente
[00:52:57] Fala um pouquinho disso, Breds
[00:52:59] Porque eu queria depois que a Laert comentasse um pouquinho sobre essas próprias experimentações narrativas também
[00:53:05] Mas como é que era a tirinha? Você lembra mais ou menos?
[00:53:08] Lembro, Tornacat
[00:53:09] Eu já abri ela aqui, você já separei para falar dela
[00:53:11] Inclusive, então ótimo
[00:53:14] Então eu lembro que eu falei com você porque eu estava vendo algumas experimentações de quadrinhos da Obapo
[00:53:20] Uma oficina de quadrinhos lá da França
[00:53:23] Tem gente que foi publicado aqui, tipo Klofer
[00:53:26] E eles colocam algumas contraintes para forçar um pouco os limites dos quadrinhos
[00:53:31] Então em vez de você ter liberdade e associar a criatividade a isso, é o contrário
[00:53:35] Eles põem, por exemplo, história sem balão, monte uma história
[00:53:39] Ou história se funciona de trás para frente, monte uma história com isso
[00:53:42] E daí eles montam durante a oficina, é bem interessante
[00:53:45] Quando eu descobri essa charge, justamente nesse momento
[00:53:48] Eu não sei se você chegou a fazer essa charge nessa época
[00:53:52] Mas é uma que chama, ela começa de cima em dois sentidos
[00:53:58] Em cima é terapia de progressão
[00:54:02] E embaixo é terapia de regressão
[00:54:04] E daí tem dois personagens, o personagem de cima é um personagem mais jovem
[00:54:08] Ele vai entrando, ele vai andando, entra numa porta
[00:54:12] Não encontra o personagem mais velho que se você ler na ponta-cabeça
[00:54:16] Isso é uma página do folhatim, né?
[00:54:18] É uma terapia de regressão e terapia de progressão
[00:54:22] Isso, daí a narrativa, a experimentação de narrativa
[00:54:26] Que me deixou bem espantado assim da construção
[00:54:30] E daí tem desde de cor
[00:54:32] A página tem que ser vista de cabeça para baixo, não é também?
[00:54:35] Isso, ela tem sentido dos dois lados
[00:54:39] Daí eu lembro que eu pontuei bem com o Ivan
[00:54:43] Olha as experimentações que o Light faz
[00:54:46] Eu sinto falta nessa parte bem técnica mesmo dos quadrinhos
[00:54:50] Longe de roteiro que a gente está cheio de quadrinhos bons
[00:54:56] Mas bem técnica assim eu falo
[00:54:58] Nossa, o Light é demais mesmo
[00:55:00] Olha esse tipo de…
[00:55:02] Eu peço pro Ivan deixar um link aí para o pessoal conferir
[00:55:05] Mas é bem legal, vou mandar no Skype também
[00:55:07] Manda para mim depois
[00:55:08] E daí eu queria saber justamente isso, Light
[00:55:10] Como é que você pensa, como é que são essas experimentações
[00:55:14] E quais são os limites que a gente já falou um pouquinho
[00:55:17] Sobre esses personagens de narrativa
[00:55:20] Esse tipo de experimentação, de pesquisa e recursos poéticos
[00:55:30] É uma coisa que havia muito no final dos anos 60
[00:55:34] Os franceses faziam muito
[00:55:36] Você mencionou a UBAPO
[00:55:38] Eu conheci o pessoal da UBAPO, essa linha de trabalho
[00:55:43] Com a Maria Clara
[00:55:44] Não sei se você conhece a Maria Clara Carneiro
[00:55:48] Sim, uma das grandes pesquisadoras do quadrinho que a gente tem
[00:55:51] Pois é, ela que me contou essa coisa de UBAPO
[00:55:53] É um negócio que eu fazia
[00:55:55] O que eu sempre gostei de fazer
[00:55:57] No final dos anos 60, nos anos 70
[00:56:01] Tinha muitos quadrinhos que chegavam pela revista Grilo
[00:56:05] Que eram muito experimentais, eram muito loucos
[00:56:10] O pessoal do underground americano, a revista Zep
[00:56:14] Experimentava bastante
[00:56:17] Então tinha muitas histórias com esse tipo de recurso
[00:56:23] Ler de trás para frente, ler de ponta cabeça
[00:56:29] Coisas que apareciam e que você não tinha percebido
[00:56:34] Mas elas já estavam ali
[00:56:36] E que também não é tanta novidade
[00:56:39] Tem uma história que é famosa na história do quadrinhos
[00:56:44] Que chama ler… como é que chama aquele negócio?
[00:56:47] É uma página que você…
[00:56:48] Como é que é?
[00:56:50] Oud Muffalo e Lady Loggins, não é?
[00:56:53] É isso
[00:56:54] Você lê ela e daí você vira ela de ponta cabeça
[00:56:57] E é a continuação e final da história
[00:57:00] É uma espécie de palindro
[00:57:03] Eu gosto muito de palindromo também
[00:57:05] Que é aquela coisa de…
[00:57:07] Você ler a frase de trás para frente
[00:57:11] Então me agrada muito essa parte mecânica
[00:57:15] Da linguagem falada e escrita e também da linguagem do quadrinho
[00:57:23] Que não é uma mecânica que tira a vida do trabalho
[00:57:30] No contrário, ela acrescenta um aspecto poético muito rico
[00:57:35] E isso me agrada bastante
[00:57:37] Então é um tipo de coisa que a linguagem do humor
[00:57:43] Tal como eu vinha usando
[00:57:45] Não é que impede, mas limita bastante
[00:57:49] Porque você acaba caindo num universo de piadas
[00:57:53] E de construções de discurso
[00:57:55] Que é repetido, né?
[00:57:59] Lá é…
[00:58:01] Desculpa
[00:58:02] E como é que é experimentar essas coisas
[00:58:05] Em locais tão acostumados ao quadrinho comercial
[00:58:09] Que é o caso daquela página de tiras, da Folha e tal
[00:58:12] Eu sei que antigamente tinha muita gente
[00:58:14] Você levava muita porrada por conta de experimentar isso ali, né?
[00:58:18] Só que com o tempo eu acho que isso foi sendo trabalhado na cabeça do público também
[00:58:23] Eu acho que hoje as pessoas estão mais receptivas a esse tipo de coisa naquele espaço
[00:58:27] O que você acha disso?
[00:58:28] Espero que sim, porque eu passei a ser hostilizada também
[00:58:34] Por causa da minha posição política
[00:58:37] Muita gente acabou pedindo minha cabeça lá pra Folha, né?
[00:58:42] Tira esse babaca daí, esquerdista, petralha, sei lá, mas o quê
[00:58:49] Isso tem
[00:58:51] A Folha nesse sentido me apoia bastante
[00:58:56] Lá é um bom lugar pra se trabalhar
[00:58:59] Porque tem essa coisa de diversidade
[00:59:05] E tem também uma garantia
[00:59:07] Pelo menos no que me diz respeito
[00:59:10] O jornal sempre me deu muito apoio, assim
[00:59:16] Não que eles fossem atender a pedido de leitor assim
[00:59:21] Dessa maneira tão ligeira, né?
[00:59:25] Sim
[00:59:26] Mas você nunca sentiu repercussão sobre essas experimentações?
[00:59:30] Ah sim, muita gente ficou
[00:59:33] Ficou possessa justamente por causa disso
[00:59:36] Porque a posição da pessoa que lê é essa
[00:59:39] Eu abro o jornal para ver uma piada
[00:59:42] Então a pessoa já começa a ver a piada antes de ver a piada
[00:59:47] Ela tem uma pré-leitura, né?
[00:59:50] E aí ela chega no lugar da piada
[00:59:53] Em vez de piada ela tem uma poesia, por exemplo
[00:59:56] Ela fica frustrada e pede as contas
[01:00:00] Acho que um caso de piada assim
[01:00:03] Que a pessoa vai esperando uma piada
[01:00:06] É o caso que é conhecido do João Montanaro, né?
[01:00:09] Da estilografia japonesa da onda lá
[01:00:12] Que eu esqueci o nome do autor original
[01:00:14] Que daí ele fez na época da…
[01:00:16] Do tsunami
[01:00:18] Isso, e daí é exatamente isso
[01:00:21] Como você estava falando
[01:00:23] A pessoa espera ver uma piada na charge
[01:00:25] Mas a charge tem vários contextos
[01:00:28] É um espaço para o autor falar mais ou menos
[01:00:31] Exatamente
[01:00:33] Aquela charge do Montanaro é muito boa
[01:00:36] É muito boa porque ela trata um assunto dramático de uma forma dramática
[01:00:41] Acontece que todo mundo achou que ele estava fazendo pouco caso
[01:00:45] Eu acho que é um erro de leitura
[01:00:47] Eu discuti com uma das pessoas que escreveu
[01:00:52] Por algum motivo caiu para mim no Facebook
[01:00:55] E eu comecei a trocar ideia com ela
[01:00:57] Era uma senhora que tinha aparência no Japão
[01:00:59] E estava realmente preocupada e muito aflita, né?
[01:01:02] Então ela achou a charge agressiva e como se chama
[01:01:07] Disrespeitosa
[01:01:09] E eu conversei com ela
[01:01:11] Conversei com ela e através dessa conversa
[01:01:14] Ela achou que eu podia ter razão
[01:01:17] Ela achou que ela podia ter feito uma leitura precipitada
[01:01:21] Eu acho que fez
[01:01:25] Mas em geral não existe esse momento de sereina troca de ideias
[01:01:32] Nós estamos vivendo a época justamente que a sereina troca de ideias
[01:01:37] Foi banida do mapa
[01:01:40] Nós estamos vivendo a época das tuitadas ferozes
[01:01:47] Mas escuta, mas sério
[01:01:49] Eu sei com a vivência toda que você tem
[01:01:51] Teve uma época de sereina troca de ideias?
[01:01:58] Boa pergunta hein
[01:02:00] Excelente pergunta
[01:02:03] Não, eu acho que teve uma época de troca de ideias menos ferozes
[01:02:09] Eu acho que teve
[01:02:11] Porque eu estava lendo esses dias aí para o trabalho
[01:02:14] Aquele livro A Guerra dos Givis do Gonçalo Júnior
[01:02:16] E ele mostra, tradução dos quadrinhos
[01:02:19] E tem as manchetes que tinha do Dantas contra o Roberto Marinho
[01:02:24] Do Samuel Wehner contra o Roberto Marinho
[01:02:26] Cara, a gente vê, fala de jornalismo tendencioso hoje
[01:02:30] Naquela época era incrível
[01:02:32] Os caras literalmente se xingavam na primeira página
[01:02:34] Chamavam pelo nome
[01:02:36] O senhor Roberto Marinho, canalha
[01:02:38] Era manchete
[01:02:40] E isso no jornal, na época que o Jibir circulava
[01:02:44] Tinha 20 milhões de exemplares vendidos por mês aqui no Brasil
[01:02:48] Aqueles anos lá os 50
[01:02:50] E daí eu me lembro disso
[01:02:52] Você fala dessa questão do debate mais cordial
[01:02:57] Eu tenho minhas dúvidas
[01:02:59] Se a gente vai achar um período que teve um debate cordial
[01:03:02] Aquele pedido do Wesley, né?
[01:03:04] Do Roda Viva
[01:03:06] Eu entendo
[01:03:08] E acho que você tem razão
[01:03:10] De fato é difícil a gente pensar
[01:03:13] Mas eu acho que houve épocas em que o linchamento não era uma coisa tão automática
[01:03:20] Talvez também porque não existisse um equipamento como a internet
[01:03:25] Que possibilita essa coisa relâmpago assim
[01:03:29] Você posta algo
[01:03:32] E dali a meia hora já tem uma multidão de pessoas querendo arrancar sua pele
[01:03:39] Isso acontece
[01:03:42] E antigamente não tinha isso
[01:03:45] E eu acho também que a pequenez das causas é assombrosa
[01:03:51] Quando um homem foi acusado de explorando de forma racista o seu filho no carnaval
[01:04:00] Não sei se vocês lembram desse caso
[01:04:03] Ele se vestiu de Aladdin
[01:04:07] A mulher dele de Yasmin
[01:04:10] E ele vestiu o filho dele, que é negro, adotivo
[01:04:15] Como Abu, o macaquinho
[01:04:18] Sim
[01:04:20] E esse cara foi acusado impiedosamente de ser um racista
[01:04:27] Não sei se teve que se mudar, eu não acompanhei bem isso aí
[01:04:31] Mas ele passou um aperto muito grande porque não tinha como se explicar
[01:04:35] Ele tentou se explicar, mas não tem mais
[01:04:39] Não tem mais esse espaço da explicação
[01:04:44] Independente dele ter cometido racismo, sem querer ou não
[01:04:48] Não está em tempo de resposta
[01:04:51] Esse é o ponto
[01:04:54] Quando viu já foi
[01:04:57] Volte meia também resgata uns tweets antigos meus
[01:05:01] Eu vou ignorar para não ter problema
[01:05:04] E principalmente o meu twitter tudo petralha ele também
[01:05:10] O meu site antigo eu tirei do ar
[01:05:15] Porque de vez em quando tem umas páginas que pegam
[01:05:19] Tipo a Maria Nanquim, que é uma querida amiga nossa
[01:05:23] Que pega o trampo de um quadrinista e coloca lá na página para relembrar
[01:05:27] Mas aí tem outras páginas
[01:05:29] Inclusive Laertes já me deu expor nos comentários do meu blog
[01:05:34] Eu sei, era aquele da mulher gorda
[01:05:36] Era horrível aquilo que ele fez
[01:05:39] Horrível aquilo, era deprimente
[01:05:41] Eu tenho uma vergonha de ter feito um tipo de trabalho daquele terrível
[01:05:44] E foi lá, acho que me abriu os olhos sobre essas coisas
[01:05:46] Falei, cara, você está fazendo um trampo preconceituoso
[01:05:49] Por que cacete
[01:05:51] Naquela época, cara, ficava, você botava no Orkut lá
[01:05:54] E quanto mais like, que eu nem lembro o que era no Orkut
[01:05:57] Mais feliz a gente ficava, opa, está dando sucesso
[01:06:00] Está fazendo sucesso com o público e tal
[01:06:02] E aí foi quando eu comecei a questionar esse tipo de coisa
[01:06:05] Hoje eu tenho muita vergonha do que eu fazia dez anos atrás
[01:06:08] E isso estaria sendo retomado na internet a cada dia
[01:06:12] Se eu não tivesse tirado de lá, sabe
[01:06:14] Acho que em geral mudou muito esse jeito de ver o humor
[01:06:18] A gente aprendeu bastante a empatia, a respeitar diferenças
[01:06:22] A ver o que a gente estava fazendo podia ser prejudicial para as pessoas
[01:06:25] E foi lá…
[01:06:27] Me abriu os olhos para isso da primeira vez
[01:06:29] De qualquer maneira, eu acho que é preciso sempre a gente tomar cuidado
[01:06:34] Eu acho que o humor não é uma linguagem neutra
[01:06:38] E nem dá para ficar reivindicando aquela imparcialidade
[01:06:43] É apenas uma piada
[01:06:44] Não é, isso é impossível
[01:06:46] Mas ao mesmo tempo é preciso a gente estar sempre atenta
[01:06:50] Para o que está acontecendo em cada questão
[01:06:53] Não dá para você ficar tirando regras gerais
[01:06:56] Você parte para a censura
[01:06:58] E a censura é justamente a ausência do debate
[01:07:02] Tem muita gente em ambos os lados que é louca para censurar
[01:07:09] E a gente precisa ter um cuidado com isso
[01:07:13] A tentação de censurar precisa ser mantida sob controle
[01:07:19] E a maneira de mantê-la sob controle é manter o olhar crítico
[01:07:25] E é por isso que eu falo para todo mundo
[01:07:27] A gente é de esquerda, mas vamos lá
[01:07:30] Quem quer ver a direita tem um monte de lugar na internet para ver também
[01:07:33] Fiquem à vontade
[01:07:37] O debate é super interessante
[01:07:38] Mas aqui a gente vai ficar mais para a esquerda mesmo
[01:07:42] Laerte, eu não vou te deixar ir embora
[01:07:45] Eu tenho duas perguntas para fazer para você ainda
[01:07:48] Eu sei que você deve estar com o tempo aí em cima
[01:07:50] Mas me permita abusar de você um pouquinho mais?
[01:07:55] Vamos lá
[01:07:56] É uma coisa de infância minha
[01:08:00] Porque eu fui criança, cresci na década de 80
[01:08:04] E eu tinha um padrasto que era…
[01:08:08] Desculpa, o nervosismo está grande aqui
[01:08:11] Eu tinha um padrasto que ele era publicitário
[01:08:15] E ele comprava muito chiclete com banana e outras revistas
[01:08:21] Quantos quadrinhos da época
[01:08:23] Depois eu fui descobrir que era a subcultura da época
[01:08:26] Que era bem underground
[01:08:27] E para mim foi parte da minha infância aquilo
[01:08:30] Aqueles quadrinhos me fascinavam
[01:08:32] E você fez parte dessa geração de quadrinhos dos anos 80
[01:08:36] Acredito que foi uma das fases mais interessantes de você
[01:08:39] E eu queria saber como é que era o clima lá
[01:08:43] Porque vocês estavam vivenciando uma abertura política
[01:08:46] O pessoal estava se soltando mais
[01:08:48] Como é que era o clima desse espaço
[01:08:51] Que você dividia lá com o Glauco, com o Angeli
[01:08:54] Como é que eram as conversas
[01:08:56] É uma época que dá saudades
[01:08:58] Não tem muito como eu pensar nisso sem usar um olhar retrospectivo
[01:09:04] Quer dizer, o que eu penso sobre aquela época
[01:09:08] É resultado de tudo que eu vivi desde aquela época também
[01:09:12] E a avaliação que eu faço hoje
[01:09:15] O que eu faço hoje é que a gente saiu de uma situação de ditadura e censura
[01:09:24] Onde o desenho também era penalizado
[01:09:27] Porque como eu te disse
[01:09:28] A gente tinha uma maneira meio maniqueísta de tratar com as coisas
[01:09:32] Tinha o bem, tinha o mal
[01:09:34] Qualquer piada tinha que necessário
[01:09:37] Qualquer cartoon tinha que ter necessariamente
[01:09:40] Ou um militar, ou um torturador
[01:09:43] Ou um cartola capitalista
[01:09:46] Ou um mendigo
[01:09:48] Um mendigo com a barriga roncando
[01:09:51] E o fato é que ali em torno dos anos 80
[01:09:57] Do começo dos anos 80, fim dos anos 70, começo dos anos 80
[01:10:01] Apareceu o Glauco, por exemplo
[01:10:03] O Glauco foi um sinal de mudança bastante importante
[01:10:09] Ele fez um cartoon que era o torturador
[01:10:13] O famoso torturador passando assim
[01:10:16] E o torturado que estava pendurado na parede
[01:10:19] Cutucando a bunda dele com o pezinho falando
[01:10:22] Ê bundão hein
[01:10:23] Era inimaginável alguém fazer isso
[01:10:30] Mas tinha a ver também com o trabalho do enfio
[01:10:33] Então o Glauco fez uma espécie de síntese naquele momento
[01:10:38] E indicou uma coisa possível
[01:10:42] Eu acho que nessa época começou a florescer também
[01:10:47] O desejo de fazer outros tipos de linguagem
[01:10:50] Como por exemplo o Angelique
[01:10:52] Começou a fazer quadrinhos
[01:10:54] Locamente né
[01:10:56] O Chiclés com banana nasce nessa época nas páginas da folha
[01:11:00] O Tudo Blue e uns personagens assim que ele tinha
[01:11:04] E começou a produzir narrativas
[01:11:06] Em vez de charges e cartões
[01:11:09] E isso abriu o campo pra muitas revistas que apareceram
[01:11:18] A editora Circo que se marcou pela produção de quadrinhos
[01:11:22] Começou a sua vida publicando coletâneas de charges
[01:11:25] Charges do Chico, charges da Judy Weber
[01:11:29] E aí as tiras do Angelique
[01:11:32] E deu tão certo a coletânea de tiras do Angelique
[01:11:37] Que ele abriu a revista
[01:11:39] Chiclés com banana
[01:11:41] Então nessa época a gente experimentava doidamente
[01:11:49] Na área de construções humorísticas
[01:11:55] Saindo da linguagem de falar de política
[01:12:01] Estritamente política né
[01:12:03] Então foi uma época que a gente começou a falar da sociedade que a gente vivia
[01:12:08] O Angelique gostava muito
[01:12:09] O Angelique sempre foi muito bom né
[01:12:11] Acho que foi sempre a pessoa mais fecunda nesse modo de representar a sociedade
[01:12:20] Os personagens deles são leituras muito agudas dessa coisa urbana de São Paulo principalmente
[01:12:30] Bom é como eu vejo hoje assim
[01:12:34] E a gente trabalhar, os três amigos foi por exemplo
[01:12:38] Acho que foi o supassumo dessa parceria e desse modo de fazer né
[01:12:45] A gente trabalhava em conjunto assim
[01:12:49] Foi uma química que aconteceu entre a gente muito boa
[01:12:54] E ficamos alguns anos fazendo isso
[01:12:57] Fazendo histórias onde os personagens eram
[01:13:01] Como chama isso? Alter ego né?
[01:13:04] Alter ego da gente
[01:13:06] E também é a mesma década que você vai trabalhar com a TV pirata também
[01:13:10] Você fez minha infância praticamente
[01:13:14] E ainda tenho que te agradecer pela TV Colosso
[01:13:17] Ou seja, cara você é demais assim
[01:13:20] Teve sempre na minha vida assim mesmo sem ter acho que o devido destaque
[01:13:27] A TV Colosso a virtude acho que é do Ferré
[01:13:31] Ferré que era do grupo de teatro de bonecos sem modos
[01:13:35] E que fez o programa da TV Colosso
[01:13:41] E ele chamou a gente, a gente que eu digo nós
[01:13:44] Que fazemos tiras de quadrinhos porque ele queria imprimir esse tipo de linguagem ali
[01:13:50] Nos esquetes dos cachorros
[01:13:54] Ele queria que fosse uma coisa assim tão rápida e eficiente quanto uma tira
[01:14:00] Ele chamou eu, o Glauco, o Geli, o Luiz G
[01:14:03] E a gente ficou Fernando Gonzalez
[01:14:06] E a gente ficou escrevendo roteiro pra TV Colosso durante um tempo
[01:14:11] Foi divertido? Foi uma época da saudades ou passou e foi legal na época?
[01:14:18] Eu acho que foi legal na época
[01:14:21] Também tinha algum estresse sabe
[01:14:25] Primeiro porque a gente não trabalhava da forma clássica dos seriados e das coisas americanas
[01:14:32] A gente não produzia uma bateria de programas que ficavam
[01:14:37] A gente não preproduzia uma bateria de programas assim
[01:14:42] A gente fazia todo dia
[01:14:44] E ia ao ar todo dia também
[01:14:48] Então era meio da mão pra boca assim
[01:14:50] E isso comia todo o espaço que a gente pudesse ter
[01:14:54] De discussão, de reflexão, de avaliação
[01:14:58] Eu nunca assisti TV Colosso
[01:15:00] Não é? Não acredito
[01:15:04] Eu fiquei escrevendo durante 3 anos
[01:15:08] Que durou, não sei
[01:15:10] Eu nunca assisti
[01:15:11] Olha, era bem bom viu
[01:15:13] Era muito bom
[01:15:14] Que bom
[01:15:15] Era excelente
[01:15:16] Você é uma ótima escritora, devia ver as vezes
[01:15:21] Aí é uma outra coisa que eu acho que é meio psicopatia a mim
[01:15:26] Eu não gosto muito de ver o que eu faço não, depois que eu fiz
[01:15:29] Eu também não ouço os anti-catch
[01:15:32] Eu já encontrei esse ponto de vista em outros autores e autoras
[01:15:36] Não é muito raro de achar
[01:15:38] Uma pessoa faz um negócio, meio que entrega no mundo
[01:15:42] E tudo bem
[01:15:46] Laert, minha última pergunta pra você então
[01:15:49] Porque você participou da questão da abertura política do Brasil como artista
[01:15:57] Eu estava vendo aqui pela internet também
[01:15:59] Você ajudou inclusive na divulgação, quando o MDB estava se formando também
[01:16:07] E de lá do MDB que veio todos os partidos de esquerda que apareceram
[01:16:11] E, notavelmente, o PT que apareceu
[01:16:13] Queria saber se com todos os escândalos, por mais que você tenha denunciado o golpe, enfim
[01:16:19] Mas com todos os problemas da política que apareceram depois que o PT surgiu, assumiu o poder
[01:16:24] Você se decepcionou em alguma coisa?
[01:16:26] Como é que está a ter o humor hoje em relação ao PT principalmente?
[01:16:29] Eu nunca fui petista
[01:16:31] Mas como o PT foi fundado em 80
[01:16:35] Eu era do Partidão, o PCB
[01:16:39] E pessoalmente eu via a fundação do PT na época
[01:16:45] Eu via como alguém que estava caindo
[01:16:49] Como se eles estivessem caindo na armadilha do Golberi
[01:16:52] Que era aquele negócio de vamos fundar partido aí, pode fundar partido
[01:16:56] E eu compreendi isso como uma maneira, aliás, muito bem sucedida
[01:17:02] De romper a unidade das oposições que estava expressa no MDB
[01:17:08] O MDB vinha crescendo de eleição para eleição
[01:17:11] Então mais uma eleição acabava o governo
[01:17:14] É exagero da minha parte, mas estrategicamente era isso
[01:17:18] Então para fragmentar a oposição permitia a abertura de novos partidos
[01:17:26] Os movimentos do ABC em 78, 79
[01:17:31] Plasmaram um grupo de gente, em geral, de esquerda
[01:17:40] Que acabou constituindo o PT
[01:17:43] Hoje eu não sei direito
[01:17:46] Na época eu via com olhos críticos
[01:17:48] Achava que eles estavam fazendo o jogo da divisão
[01:17:53] Hoje eu não sei direito avaliar isso assim
[01:17:57] Mas eu nunca fui petista
[01:17:59] Durante muito tempo, até agora, eu voto
[01:18:03] O meu voto é mais em pessoas do que em partidos
[01:18:07] Então eu já voltei em gente do PSOL, gente do PT
[01:18:11] Já voltei em gente do PSDB, já voltei no Covas
[01:18:14] Então o que está acontecendo hoje com o PT eu vejo com bastante tranquilidade
[01:18:23] Eu acho que está vendo um assédio
[01:18:25] Eu acho que é mais do que claro que há um objetivo
[01:18:30] Nessas movimentações da procuradoria, da Lava Jato
[01:18:37] No impeachment mesmo, nas investigações
[01:18:42] Tem toda uma linha que denuncia uma intenção ali
[01:18:48] E essa intenção é prender o Lula
[01:18:51] Eu acho que é destruir a capacidade competitiva do Lula
[01:18:58] Que é incrivelmente forte
[01:19:01] A essa altura do campeonato, com anos e anos de malhação diária na imprensa
[01:19:07] Ele ainda é a pessoa mais apontada como preferência pro voto
[01:19:16] Então eu acho que eles chegaram à conclusão de que não tem jeito
[01:19:20] De não ser destruindo mesmo, se possível, prendendo
[01:19:25] Então eu acho que é isso que está acontecendo
[01:19:29] E eu me solidarizo com essa situação, com o Lula
[01:19:34] Com as pessoas que estão sendo perseguidas
[01:19:39] Agora eu não sou do PT
[01:19:42] Eu me considero de esquerda, eu me considero socialista
[01:19:48] Mas não sou do PT, também não sou do PSOL
[01:19:51] A pergunta foi mais pensando no PT como um governo de esquerda que subiu ao poder
[01:20:00] Assumiu a presidência, fez uma série de reformas
[01:20:03] Se é um governo de esquerda, sabe?
[01:20:06] Eu acho que é um governo com alguns vetores de esquerda
[01:20:10] Que foram muito importantes e responsáveis por políticas muito bem sucedidas
[01:20:18] Agora, não sei, você fazendo uma análise, uma macro análise dos governos do PT
[01:20:25] É difícil você chegar à conclusão que aquilo foi um governo de esquerda
[01:20:29] É centro-esquerda e olha lá
[01:20:31] É centro-esquerda
[01:20:37] Eu não sei também se eles queriam se caracterizar como um governo de esquerda
[01:20:43] Acho que eles tentaram manter uma pose, um eleitorado de esquerda fiel
[01:20:52] Mas as políticas foram para muitos lados
[01:20:56] Então, Laert, eu só tenho que agradecer pelo tempo que dispôs pra gente
[01:21:04] Eu não sei se o Salimeno, o Libero, o Bredis tem algum último comentário a fazer
[01:21:10] Não, só agradecer também, queria agradecer a presença aqui, queria agradecer você ter me convidado
[01:21:15] Agradeço o convite e a presença de vocês, que eu curto bastante
[01:21:20] Eu também, cara, estou muito feliz por estar aqui, muito obrigado pelo convite
[01:21:25] Foi ótimo, Laert, geralmente nos encontros de quadrinhos é difícil até chegar perto
[01:21:30] Fica aquela multidão em volta, não consegue nem falar um coisa, foi ótimo trocar uma ideia aqui
[01:21:35] É com certeza um privilégio de poder falar e perguntar o que eu quiser ainda
[01:21:39] Não dava vontade de fazer mais perguntas ainda, gente
[01:21:44] Eu preciso me arrumar pra extrair aqui
[01:21:49] Não, sem problema, então só dando aquele recadão rápido, gente
[01:21:53] Livro novo da Laert já está nas livrarias, modelo vivo
[01:21:56] Lançou pela coleção barricada que é o selo de quadrinhos da Boitempo
[01:22:00] Corram aí pra inclusive ter esse registro de uma outra Laert
[01:22:05] Mas com desenhos que você vai ser difícil de encontrar em outros lugares
[01:22:11] Estou muito a fim de ver, Gisele da Boitempo, por favor, me mande uma cópia, eu quero
[01:22:17] E, Laert, vou te dar aqui o espaço pra você fazer o seu jabá
[01:22:23] Não que você precise, né?
[01:22:25] Mas faz aí, dá sua palavra final pro público e agradeço novamente ter vindo
[01:22:31] Eu, bom, agradeço o convite que vocês me fizeram, que você e Ivoa me fez
[01:22:36] E esse time de conversadores
[01:22:41] Eu às vezes fico achando que eu não tenho muito o que dizer
[01:22:46] Mas eu gosto de bater papo
[01:22:51] E apesar de ter tido cada vez mais dificuldade com a expressão que é principal pra mim, que é desenhar
[01:23:02] Ainda é uma coisa que me representa, que me dá prazer também
[01:23:10] Apesar de, bom, não sei, a gente vai mudando com o tempo
[01:23:14] Então esse livro é uma expressão legal do que eu tenho vivido
[01:23:21] E, de certa forma, me deu vontade de fazer outros também
[01:23:25] Tá bom? Muito obrigada
[01:23:28] Então, por favor, Laert, queremos mais e, se possível, escreva uma autobiografia também
[01:23:33] Que eu tô querendo muito saber mais aí da sua vida, certo?
[01:23:38] Ok
[01:23:40] Muito obrigado, vamos dar aquele tchau coletivo
[01:23:43] Então, tchau, tchau
[01:24:10] Transcrição e Legendas pela comunidade Amara.org