Frontdaciência - T07E39 - Crises Econômicas II


Resumo

O episódio inicia com uma discussão sobre a inflação, definindo-a como um aumento generalizado e persistente de preços, causado principalmente pelo descontrole monetário, que frequentemente decorre de desequilíbrios fiscais. O professor Marcelo Portugal explica como a inflação gera ineficiências na economia, especialmente quando é alta e crescente, citando exemplos históricos do Brasil, como a hiperinflação no final do governo Sarney, que chegou a quase 90% ao mês. São mencionados os custos de transação, como o “shoe leather cost”, e a dificuldade de planejamento para empresas e famílias.

A conversa então se volta para uma análise comparativa das políticas econômicas dos governos Lula e Dilma. É destacado que o governo Lula entregou um superávit primário de 150 bilhões de reais, enquanto o governo Dilma transformou isso em um déficit primário de 154 bilhões. O aumento generalizado de gastos públicos, incluindo programas como Ciência Sem Fronteiras, FIES e subsídios a empresários via BNDES (a “Bolsa Empresário”), é apontado como a principal mudança de estratégia, de um governo menos estatizante para um de viés desenvolvimentista que não gerou o crescimento esperado.

O papel do cenário internacional é discutido, reconhecendo que o governo Lula se beneficiou do boom das commodities e administrou bem a crise de 2008, enquanto a presidente Dilma continuou a agir como se houvesse uma crise global aguda após 2011, quando a economia mundial já se recuperava. A crise brasileira é caracterizada como gerada internamente, agravada por erros de política e por uma conjuntura externa menos favorável, mas não catastrófica.

Para o curto prazo, a solução proposta é o ajuste fiscal, transformando o grande déficit primário em superávit, um processo que poderia levar cerca de dois anos. Para o médio e longo prazo, as medidas centrais são o investimento massivo na educação básica (alfabetização, português, inglês e raciocínio lógico), a melhoria da segurança jurídica e dos direitos de propriedade, e o fortalecimento da ligação entre universidades e empresas para transferência de tecnologia, seguindo o exemplo de países como a Coreia do Sul.

Por fim, é feita uma previsão sobre a taxa de juros (Selic), com a expectativa de que ela começaria a cair em breve (outubro, novembro ou janeiro de 2017) e poderia chegar a cerca de 12% ao final do ano seguinte, desde que o processo fosse conduzido gradualmente pelo Banco Central, diferentemente da tentativa por decreto feita no governo Dilma. O episódio encerra com uma reflexão sobre as perspectivas políticas para 2018.


Indicações

Conceitos

  • Shoe Leather Cost — Termo cunhado por economistas americanos para descrever o custo de ineficiência gerado pela inflação, referindo-se ao tempo e esforço gastos para pesquisar preços que mudam constantemente.

People

  • Antonio Palocci — Mencionado como um ótimo ministro da Fazenda (médico, não economista) durante o governo Lula, que continuou políticas consideradas acertadas.

Programas_Governamentais

  • Ciência Sem Fronteiras — Programa do governo Dilma que enviava estudantes de graduação para o exterior. Foi citado como um exemplo de gasto público, custando 3,7 bilhões de reais no ano anterior à gravação.
  • FIES — Fundo de Financiamento Estudantil. O custo anual do programa saltou de 1 bilhão de reais para 14 bilhões durante o governo Dilma, sendo apontado como parte do aumento de gastos.
  • Bolsa Família — Programa de transferência de renda. Foi mencionado que seu custo anual era de cerca de 27 bilhões de reais, valor similar ao subsídio dado a grandes empresários via BNDES (a “Bolsa Empresário”).

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao tema das crises econômicas e convidado — Apresentação do programa e do tema do dia: crises econômicas. O convidado é o professor Marcelo Portugal, do Programa de Pós-graduação em Economia da UFRGS. Os apresentadores são Carolina Brito, Marco de Arte e Jorge Kill. A primeira pergunta aborda a inflação, suas causas e por que é um problema.
  • 00:01:07Definição, causas e problemas da inflação — Marcelo Portugal define inflação como aumento generalizado e persistente de preços, explicando os problemas de medição. A causa fundamental é o descontrole monetário, frequentemente ligado a desequilíbrios fiscais. A inflação é ruim porque gera ineficiências, especialmente quando é alta e crescente, dificultando o planejamento econômico de empresas e famílias.
  • 00:05:44Exemplos de ineficiência: custo da sola de sapato — É introduzido o conceito de “shoe leather cost” (custo da sola de sapato) para ilustrar as ineficiências da inflação. Em um ambiente de preços instáveis, pessoas e empresas gastam tempo e recursos procurando pelos melhores preços, uma atividade improdutiva. Discute-se também a existência de um nível ótimo de inflação, em torno de 2% a 4,5% ao ano.
  • 00:07:37Remédios para crise e debate político — A conversa avança para os possíveis remédios para crises econômicas e como o debate é contaminado por preferências políticas. É mencionada a necessidade de austeridade no curto prazo para corrigir o déficit público brasileiro, que chegou a 154 bilhões de reais.
  • 00:08:49Comparação entre as políticas de Lula e Dilma — Inicia-se uma análise detalhada da diferença entre os governos Lula e Dilma. Enquanto Lula entregou um superávit primário de 150 bilhões, Dilma transformou isso em um déficit de 154 bilhões. A estratégia de Dilma foi baseada em um Estado mais intervencionista e em aumento generalizado de gastos, que não resultou em crescimento.
  • 00:11:12Exemplos de gastos públicos no governo Dilma — São citados exemplos específicos de aumento de gastos: Ciência Sem Fronteiras (3,7 bilhões), FIES (de 1 para 14 bilhões) e a “Bolsa Empresário” via BNDES (28 bilhões, valor comparável à Bolsa Família). Esses gastos são apontados como parte da mudança de estratégia desenvolvimentista.
  • 00:14:29Papel do cenário internacional e sorte de Lula — Discute-se o papel do cenário internacional. Reconhece-se que Lula teve sorte com o boom das commodities e administrou bem a crise de 2008. Já Dilma enfrentou uma conjuntura pior, mas a crise brasileira é vista como principalmente gerada por erros internos de política, não por uma tragédia externa.
  • 00:17:17O que fazer para o Brasil crescer no longo prazo — A discussão se volta para soluções de longo prazo. O foco deve ser aumentar o PIB per capita. As prioridades são: investir pesadamente em educação básica (alfabetização, português, inglês, matemática), melhorar a segurança jurídica e os direitos de propriedade, e criar uma ligação mais forte entre universidade e empresa para inovação.
  • 00:24:29Soluções de curto prazo: ajuste fiscal — Para o curto prazo, a solução urgente é o ajuste fiscal: transformar o déficit primário de 154 bilhões em superávit. Esse processo, se bem conduzido, poderia levar cerca de dois anos. Espera-se que 2017 seja um ano um pouco melhor, pois é difícil a economia encolher ainda mais após duas quedas consecutivas.
  • 00:26:43Previsões para a taxa de juros (Selic) — É discutida a taxa de juros (Selic). A previsão é que ela comece a cair em breve (outubro, novembro ou janeiro de 2017) e continue em uma trajetória de baixa. Espera-se que chegue a cerca de 12% no fim de 2017. O processo deve ser gradual, conduzido pelo Banco Central, diferentemente da tentativa por decreto no governo Dilma.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2016-11-28T07:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência da rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:12] Então no programa de hoje a gente vai discutir as questões das crises econômicas.

[00:00:16] O convidado é o Marcelo Portugal, que é professor do Programa de Pós-graduação em Economia

[00:00:20] aqui na URGS.

[00:00:21] O pessoal do programa de hoje é a Carolina Brito e eu, Marco de Arte do Departamento

[00:00:26] de Biofísica e o Jorge Kill, do Departamento de Biofísica da URG.

[00:00:29] Eu queria falar sobre a inflação, quem viveu no Brasil na época de Sarnei, por exemplo,

[00:00:36] eu me lembro, eu era pequenininha, devo dizer, eu era bem pequenininha, mas me lembro dos

[00:00:41] planos de controle da inflação porque ela era realmente galopante, era 140 por mês

[00:00:45] e ninguém mais, acho que é um grande medo no Brasil.

[00:00:47] Então a inflação é um problema, acho que todo mundo concorda.

[00:00:50] Mas eu queria saber, que mecanismos geram a inflação e por que ela é tão ruim?

[00:00:55] Eu tenho um problema concreto de como é que a gente mede, que é um problema que os

[00:01:00] físicos têm.

[00:01:01] Como é que a gente mede a inflação?

[00:01:02] A gente, em geral, define a inflação como sendo um aumento generalizado e persistente

[00:01:07] de todos os preços na economia, só que isso a gente não consegue medir.

[00:01:11] Então o que a gente faz é que a gente seleciona, a gente faz uma amostragem e mede só alguns.

[00:01:16] Então já tem um problema de medida.

[00:01:18] Tem uma segunda parte da tua pergunta, que é o que causa e se existe um nível ótimo.

[00:01:25] Então eu vou te dizer assim, o que causa?

[00:01:27] O que causa a inflação é descontrole monetário, é o que ele estava dizendo aqui.

[00:01:32] O fato de você ter uma quantidade de dinheiro muito grande em relação ao valor das coisas.

[00:01:39] Então se você tem muito dinheiro para comprar em relação a mesma quantidade de coisas,

[00:01:44] o valor nominal dos bens sobe, ou seja, o valor real deles cai.

[00:01:50] Meio oferta e procura.

[00:01:51] Isso, é meio oferta e procura.

[00:01:53] Só que é oferta e procura no sentido de que é oferta de dinheiro e os bens que estão

[00:01:58] disponíveis para serem comprados.

[00:02:00] Então é isso que no final causa.

[00:02:02] Por que as pessoas conectam isso com a questão fiscal?

[00:02:06] É porque, em geral, o que leva a descontrole monetário é um descontrole fiscal.

[00:02:11] Você é tentado a cobrir o déficit público ou com moeda ou com coisas que são quase moedas,

[00:02:16] aí você aumenta a quantidade de liquidez na economia e, portanto, o valor das coisas sobe.

[00:02:20] Então esse é o mecanismo geral.

[00:02:23] Por que é ruim?

[00:02:24] É ruim porque ela gera enormes ineficiências, em especial quando ela é muito grande, quando

[00:02:30] ela é pequena.

[00:02:31] A gente convive.

[00:02:32] Isso é que nem aquela dorzinha que você tem que você não vai no médico.

[00:02:35] Porque você convive com ela.

[00:02:37] O problema é quando ela é muito alta e, principalmente, quando ela é crescente.

[00:02:40] O que a gente tinha na época lá, se você desenhar um gráfico da taxa de inflação

[00:02:45] brasileira, ela era lá 1%, 2% ao mês, depois ela passa para 4% ao mês, depois ela passa

[00:02:51] para 10% ao mês, depois ela passa para 20% ao mês, depois para 30%, para 40%.

[00:02:56] No fim do Sarnay, o último mês do Sarnay, ela deu quase 90%, 89%.

[00:03:00] Ao mês.

[00:03:01] Ao mês.

[00:03:02] Eu lembro bem disso.

[00:03:03] Ao mês.

[00:03:04] Eu quase falei isso.

[00:03:05] Qual é o problema de você ter uma inflação desse tipo?

[00:03:08] É que isso gera uma ineficiência brutal.

[00:03:10] Por exemplo, não sei se vocês lembram como eram os supermercados antigamente.

[00:03:14] Os carinhas trocando.

[00:03:15] Os carinhas…

[00:03:16] A marcação diária.

[00:03:17] Você imagina o seguinte.

[00:03:18] Isso é uma atividade totalmente improdutiva.

[00:03:20] Você alocar um indivíduo para ficar com aquela maquininha ali, é algo que é improdutivo.

[00:03:25] Uma empresa que vai produzir automóveis.

[00:03:28] Vai comprar o aço, o pneu, a borracha, não sei o que, para fazer o automóvel para depois

[00:03:33] vender.

[00:03:34] Só que ela vai comprar essas coisas hoje, vai produzir o carro amanhã para vender

[00:03:40] depois da manhã.

[00:03:41] Ela compra no mês 1, produz no mês 2 e vende no mês 3.

[00:03:46] Não é nem assim.

[00:03:47] Às vezes o período de produção é maior.

[00:03:49] Você imagina a confusão que é para planejar esse troço.

[00:03:53] Porque eu comprei as coisas por um preço, quando eu vou produzir o preço delas é totalmente

[00:03:57] diferente e quando eu vou vender o preço é totalmente diferente.

[00:04:01] Pensa nas pessoas.

[00:04:03] Sem falar que tu perde credibilidade, tem várias outras…

[00:04:06] Mas isso quando ele é um valor escandaloso.

[00:04:09] Não dava para planejar, não dava para desenvolver, as indústrias não conseguiam…

[00:04:11] Perfeito.

[00:04:12] Tem que ficar 6, 8%, 10% ao ano já é um valor semi escandaloso.

[00:04:19] O que seria bom assim?

[00:04:20] Pois é, porque…

[00:04:21] Eu olhei uma palestra tua no YouTube da Fundação de Economia Estatística, em 2015, e tu acertasse…

[00:04:28] Porque eu sempre fico olhando, será que os economistas acertam coisa?

[00:04:31] Graças a Deus que você viu a única que eu acertei.

[00:04:33] Tu errasse na política, mas tu acertasse o valor da inflação em 6 meses depois.

[00:04:39] E essa minha questão, as pessoas não conseguem fazer esse tipo, ou tu acertou por sorte?

[00:04:44] Não, a gente consegue, a gente tem lá os modelos…

[00:04:47] O que eu dou aula de verdade, a minha especialidade é econometria, que é uma forma de você

[00:04:52] tentar medir essas coisas, possível é, mas o problema da economia é como se fosse um

[00:04:57] sistema de física que volta e meia tá lá o pêndulo, aí de vez em quando vem um cara

[00:05:01] e dá um peteleco no pêndulo.

[00:05:02] Tem mais variáveis que de fato o modelo considera, e elas quando entram de sola, não é?

[00:05:08] Não é difícil, então quando a situação é normal, vamos dizer assim, é mais fácil

[00:05:12] de você fazer a previsão, por isso que eu disse, o pior da inflação não é quando

[00:05:17] ela existe, quando ela existe é ruim, mas o pior é quando ela é crescente, porque

[00:05:21] a gente não sabe qual é a taxa na qual ela é crescente, então ela pode passar de 10

[00:05:27] pra 20, ou de 10 pra 25, ou de 10 pra 85, ou de 10 pra 12, e essa incerteza, esse não

[00:05:35] saber é que gera a ineficiência.

[00:05:37] Deixa eu só dar um exemplo bem assim, mundando, bem normal, os americanos, eles cunharam um

[00:05:44] termo pro custo, né, pra ineficiência que a inflação gera, que eles chamam de shoe

[00:05:50] leather cost, né, o custo da sola de sapato, porque eles assim, imagina você, tá, você

[00:05:55] quer comprar um carro, bom, no mundo onde tudo é estável, você olha a tabela de preços

[00:06:02] e tá resolvido o problema, você escolhe qual é o carro que você quer, agora no mundo

[00:06:06] com inflação é uma meleca, porque você olha a tabela de preços hoje, amanhã é

[00:06:09] outra, depois é outra, depois é outra, depois é outra, então antigamente quando não tinha

[00:06:13] internet, o que que você tinha que fazer?

[00:06:15] Você tinha que ir fisicamente num supermercado ver o preço das coisas, e no outro supermercado

[00:06:20] ver o preço das coisas, e isso é o que a gente fazia, isso é o shoe leather cost,

[00:06:23] é o custo, você perde tempo pesquisando qual é o lugar mais barato, isso é uma ineficiência,

[00:06:31] se os preços estão mudando a todo momento pela inflação, e eles não mudam de forma

[00:06:35] sincronizada, você imagina o volume de ineficiência que existe tanto para as famílias quanto

[00:06:41] para as empresas de ficar correndo atrás de qual é o preço mais barato.

[00:06:45] Não existe uma ineficiência intrínseca, o Federal Reserve também fala que o target

[00:06:49] de inflação ideal deles é 2%, 4% é tipo que o, digamos, a maioria do setor financista

[00:06:55] e outros trabalham…

[00:06:56] 4,5% é o nosso, 4,5% é o nosso, ou seja, o exemplo do que se fala de emprego, não

[00:07:03] também não dá pra imaginar, digamos, a inflação zero, ele é digamos um fator intrínseco,

[00:07:07] isso sempre vai acontecer porque são muitas as variáveis.

[00:07:09] Inclusive por erro de medida, porque a gente não consegue medir corretamente, então tem

[00:07:13] gente que argumenta que, e tem um erro de medida, tem gente que argumenta que como os preços

[00:07:18] são muito rígidos para baixo, tá certo, o jeito de você mudar os preços relativos

[00:07:23] dos bens é deixar que alguns subam enquanto outros fiquem constantes, você ter uma inflaçãozinha

[00:07:28] de 2% ao ano, 2,5% ao ano, é meio que inevitável.

[00:07:32] O que eu queria falar pra fechar agora seria como é que a gente cura, qual é o remédio

[00:07:37] pra inflação, qual é o remédio pra crise, porque também existe um debate político.

[00:07:42] Será que é possível prever algo assim?

[00:07:43] Não, mas a economia, eu não sei se é uma parte intrínseca da economia à discussão

[00:07:48] política, mas todo mundo entende economia no Brasil, todo mundo entende futebol, né,

[00:07:54] e obviamente tá muito contaminado com as preferências políticas da pessoa.

[00:07:58] E isso que a gente vê também na questão de quais são os remédios que se aplicam

[00:08:04] a certas crises, certos bumps no caminho da economia dos países.

[00:08:08] Por exemplo, a austeridade, todo mundo fala muito mal da austeridade, essa é a solução.

[00:08:13] Eu acho que em parte, no curto prazo, alguma austeridade vai ser necessária.

[00:08:19] A gente vai pegar o déficit de 150 bilhões, o déficit primário, gerando receitas e despesas

[00:08:25] financeiras.

[00:08:26] Nos últimos 12 meses, até agosto, foi 154 bilhões, então tá grande demais, nós vamos

[00:08:31] ter que diminuir.

[00:08:32] Aí tem dois problemas, vamos diminuir quanto, de 150 pra 50, o que se diz, e parece ser

[00:08:37] razoável nas simulações que a gente faz, é que tem que virar um superávit primário

[00:08:41] de 150 bilhões.

[00:08:44] Como era no fim do governo Lula, quem estragou as contas do Brasil foi o presidente Dilma,

[00:08:49] quando o presidente Lula entrega o governo pra ela, ele entrega com um superávit primário

[00:08:53] de 150 bilhões.

[00:08:54] Ela é quem transformou os 150 bilhões em menos, os mais 150 em menos de 150 bilhões.

[00:09:03] Ele teve na maior parte, quem estraga as contas públicas do Brasil é a Dilma, não é o Lula.

[00:09:08] Ele é um economista, que é um economista.

[00:09:11] Olha que os melhores ministros da fazenda, em geral, não são economistas.

[00:09:15] O Palocci, que era médico, foi um ótimo ministro da fazenda.

[00:09:19] Aliás, há quem diga que é melhor manter os economistas longe da administração.

[00:09:22] Eu concordo.

[00:09:23] Em China e Coreia, nunca tiveram economistas mandando economia.

[00:09:26] Olha o sucesso.

[00:09:27] Então, já que a gente entrou nessa, eu não queria dar os nomes aos boas, mas já que

[00:09:31] a gente entrou na discussão política direta, houve uma mudança, qual foi a mudança, qual

[00:09:36] é a diferença entre Lula e Dilma, eu queria saber isso e queria saber também a questão

[00:09:41] de disputa aí, qual é a influência do que aconteceu no mercado global.

[00:09:46] Pra mim, a diferença entre Lula e Dilma é uma diferença de estratégia.

[00:09:51] No caso da Dilma, ela tinha uma visão de fazer o país crescer a partir de uma ação

[00:09:58] mais forte do Estado, algo que não existia no governo Lula.

[00:10:01] Quer dizer, o governo Lula era um governo muito menos estatizante do que o governo Dilma.

[00:10:06] Statizante ou desenvolvimentista?

[00:10:08] A ideia de desenvolvimento através…

[00:10:11] Desenvolvimentistas, como você está dizendo, mas desenvolvimento através do Estado.

[00:10:16] Se eu olhar o desempenho da economia no governo Lula, PIB, no governo Lula, no último governo

[00:10:23] Lula, nos quatro últimos anos, o PIB cresceu 4,5%.

[00:10:26] Se eu olhar o governo Dilma, dá 2%.

[00:10:29] Ela adotou uma estratégia errada.

[00:10:31] Pesada, né?

[00:10:32] Pesada.

[00:10:33] Qual foi a estratégia errada?

[00:10:34] Foi de aumentar em muito a quantidade de gasto público.

[00:10:36] Foi isso que fez a gente sair de mais 150 bi no fim dezembro de 2010, tinha 150 bi de

[00:10:43] superávit primário.

[00:10:44] Para menos 154 bi, que é o que a gente tem…

[00:10:47] Uma pessoa de fora, assim, que vara de fora…

[00:10:49] Então esse foi o principal mudança.

[00:10:50] Onde é que foi o gasto?

[00:10:51] Esse gasto foi o quê?

[00:10:52] Ah, foi em tudo.

[00:10:53] Olha, foi super generalizado.

[00:10:54] Primeiro aumentou o nosso salário.

[00:10:55] Se você fizer a conta em termos reais, nós tivemos ganhos reais de salário.

[00:11:00] Mas não foi o setor público também, não?

[00:11:02] O privado também.

[00:11:03] Mas foi maior agora do que no governo Lula.

[00:11:05] Mas teve outras coisas.

[00:11:06] Vai somando.

[00:11:07] Você sabe quanto é que custa o Ciência Sem Fronteiras?

[00:11:12] 3,7 bilhões de reais.

[00:11:15] 3,7 bilhões de reais custou o ano passado.

[00:11:17] 3,7 bilhões…

[00:11:18] Eu sei se é a Ciência Sem Fronteiras de verdade ou…

[00:11:20] Não, é esse que leva os garotos da graduação para…

[00:11:23] Mas só dos garotos?

[00:11:24] Porque depois…

[00:11:25] Não, só esses.

[00:11:26] É que houve uma mudança também de nomenclatura e tudo virou Ciência Sem Fronteiras em um

[00:11:29] certo momento.

[00:11:30] Estou falando do…

[00:11:31] Só os garotos.

[00:11:32] O novo.

[00:11:33] O novo.

[00:11:34] Os garotos que vão lá.

[00:11:35] Tudo bem.

[00:11:36] Eu acho que é ótimo mandar os garotos e o posterior.

[00:11:37] Eu acho que é fantástico.

[00:11:38] Se eu pudesse ter feito isso aos 18 anos e achar fantástico…

[00:11:42] Mas fazer com dinheiro público me parece um pouco de exagero.

[00:11:45] Pego o Fies, que é esse financiamento que você dá para as pessoas de baixa renda fazer

[00:11:51] graduação.

[00:11:52] Por enquanto você está me falando tudo de educação.

[00:11:53] Eu estou gostando.

[00:11:54] Sim, mas se eu somar esses exemplos ali são três, quatro e cada um.

[00:11:56] Não chega aos R$150.

[00:11:57] Ah não, mas se eu for somando…

[00:11:58] Esse exemplo…

[00:11:59] Tem os PACs também, né?

[00:12:00] Não, espera aí.

[00:12:01] Vou chegar lá.

[00:12:02] O Fies.

[00:12:03] O Fies é o seguinte.

[00:12:04] O cara se matricula numa universidade privada e ele pega o dinheiro do governo emprestado

[00:12:10] para pagar a universidade privada.

[00:12:11] Depois ele dá um semi calote no governo porque ele paga uma taxa menor e o governo subsidia

[00:12:15] ele lá.

[00:12:16] Isso custava, já existia antes, chamava crédito educativo, custava R$1 bilhão por ano.

[00:12:22] Na Dilma passou a R$14 bilhões por ano.

[00:12:25] Depois tem a Bolsa Empresário.

[00:12:26] O que é a Bolsa Empresário?

[00:12:28] Que é similar à Bolsa Família.

[00:12:30] Bolsa Empresário quer dizer o seguinte.

[00:12:31] O empresário vai lá no BNDES, grande empresário, porque não é pequeno, tem um plano aqui

[00:12:36] fantástico, eu vou fazer isso, eu preciso de dinheiro emprestado, mas eu preciso de

[00:12:39] dinheiro emprestado a um juro bem baixinho.

[00:12:41] Aí o governo empresta pra ele a um juro muito mais baixo do que os R$14,25 da Selic.

[00:12:46] Quem é que cobre a diferença?

[00:12:47] Porque o dinheiro vale R$14,25.

[00:12:48] O BNDES empresta pro cara a R$4,25.

[00:12:51] Quem é que paga os 10?

[00:12:53] O Tesouro Nacional.

[00:12:54] Então quanto é que custa anualmente pro Tesouro Nacional?

[00:12:58] R$28 bilhões.

[00:12:59] Aí você vai somando.

[00:13:00] Aí você vai somando tudo e vai chegar lá, né?

[00:13:03] É.

[00:13:04] Tem um culpado.

[00:13:05] As coisas são redistributivas e tem coisas que não são, você vai fazer do financiamento

[00:13:09] com o juro baixo pro setor empresarial, que influi muito do PAC, né?

[00:13:14] Não, isso é de escolar do PAC.

[00:13:16] Só pra dar um número, tá?

[00:13:17] A Bolsa Família é algo em torno de R$27 bilhões, é quase a mesma coisa.

[00:13:21] A gente gasta na Bolsa Empresária a mesma coisa que a gente gasta na Bolsa Família.

[00:13:24] Só que com a diferença que a Bolsa Família tem 11 milhões de pessoas que são os mais

[00:13:28] pobres da população e o outro tem um grupo pequeno de empresários que são os mais ricos

[00:13:32] da população.

[00:13:33] É assimétrico, eu também concordo.

[00:13:34] Eu queria saber essa pergunta, o que que estava na cabeça dela?

[00:13:37] Estava na cabeça dela que se ela gastasse muito dinheiro, todo mundo ia produzir mais

[00:13:41] e a economia ia crescer.

[00:13:42] Porque ela tem uma cabeça desenvolvimentista dos anos 50 que acha que o Estado gastando

[00:13:47] a economia vai atrás.

[00:13:49] Isso não acontece.

[00:13:50] Não aconteceu nem aqui, nem aqui.

[00:13:51] Houve uma mudança cultural na visão dos empresários aqui, que já estão muito também

[00:13:55] envoltaçam por outro tipo de…

[00:13:57] E tem a dificuldade adicional que no Brasil existe uma classe rentista muito importante,

[00:14:01] né?

[00:14:02] Mas tudo isso existia no governo Lula.

[00:14:04] No governo Lula o país crescia quatro por cento, quatro por cento.

[00:14:07] Mas no governo Lula disse também…

[00:14:08] E se compôs com a crise internacional, ou seja, esses gastos convieram juntamente com

[00:14:12] a crise internacional.

[00:14:13] E aí é difícil dizer quem contribuiu tanto.

[00:14:17] Eu sei que tem uma importância, mas não é o único fator.

[00:14:20] Mas eu gostaria justamente, com relação a cenário internacional, disse também bastante

[00:14:24] que o Lula teve uma certa sorte, porque as commodities brasileiras explodiram na Coreia

[00:14:29] porque a China começou a consumir demais.

[00:14:30] E não tinha crise internacional.

[00:14:31] E depois…

[00:14:32] Isso é verdade.

[00:14:33] Curiosamente, o Lula atravessou 2008, na Brasil, quase sem sentir a crise aqui.

[00:14:39] Por favor, durinhe a duroça.

[00:14:40] Isso.

[00:14:41] E depois a coisa estourou, no começo do primeiro governo Dilma.

[00:14:45] Então, quer dizer que a gente enxerga um cenário internacional também que de alguma

[00:14:49] maneira nos atinge, né?

[00:14:50] O cenário internacional, ele nos atingiu de duas formas.

[00:14:53] Ele nos atingiu de uma forma muito concentrada em 2008, 2009, e em especial no Brasil em

[00:14:59] 2009.

[00:15:00] A crise foi negativa no Brasil em 2009, e o governo Lula adotou medidas corretas, compensatórias

[00:15:05] para evitar a crise, e em 2010 a gente recupera.

[00:15:09] A crise aguda, o problema agudo, acabou ali.

[00:15:13] Só que a presidente Dilma, ela continuou, depois de 2011, a imaginar que existia uma

[00:15:19] crise global, que não existia mais.

[00:15:21] A economia americana, a economia mundial, para a gente pegar o número, continua crescendo

[00:15:26] 2,5%, 3% depois da crise.

[00:15:29] É bem verdade que antes da crise, ela crescia 4, 5%, mas não é zero.

[00:15:34] Mas a gordura deles é infinita comparado com a nossa.

[00:15:36] O que eu estou dizendo é o seguinte, a nossa crise foi gerada por nós mesmos.

[00:15:39] A crise externa nos atrapalhou, o Lula deu sorte.

[00:15:43] Isso é verdade.

[00:15:44] O presidente é um pouco que nem goleiro, né?

[00:15:46] Se ele já estiver debaixo de uma trávia, são 7 metros por 3 metros ali, é muito grande.

[00:15:52] Sim, o cara pode aproveitar ou se beijar com a crise.

[00:15:53] O goleiro tem que ter uma certa sorte para a bola bater na trávia, o cara chutar forte.

[00:15:58] Não é só técnico.

[00:15:59] Não é só técnico.

[00:16:00] O presidente Lula realmente teve sorte, mas não foi só sorte.

[00:16:03] Não, ele aproveitou o momento.

[00:16:04] Ele aproveitou o momento, ele fez as coisas certas, etc.

[00:16:07] Ele fez um bom governo.

[00:16:09] Sim, até essa questão do Lula sozinho, provavelmente não fez isso.

[00:16:14] Não, tinha o grupo.

[00:16:15] É assim como a Dilma sozinha também não fez.

[00:16:19] Mas o técnico faz a diferença no sentido, primeiro de escolher as pessoas e depois de

[00:16:23] dar a direção.

[00:16:24] Então assim, o Lula escolheu o Paloce e depois o Mântega, que continuou a política do Paloce,

[00:16:30] que fez o país andar para frente.

[00:16:33] A presidente Dilma, é verdade que ela teve uma conjuntura internacional pior, mas não

[00:16:38] foi uma tragédia.

[00:16:39] Quer dizer, os preços de commodities caíram, mas não caíram a zero.

[00:16:42] O que acontecia é que antes eles estavam estupidamente altos e depois ficaram altos.

[00:16:46] Houve uma mudança de mentalidade na passagem do Lula para Dilma.

[00:16:51] Foi uma mudança que demorou uns seis meses.

[00:16:53] Você começa a ver a Dilma botando os pés pelas mãos e a partir de agosto de 2011,

[00:16:57] ela fica um tempo ainda presa no Lula e vai se soltando as amarras aos poucos e aí começa

[00:17:02] a botar o pé pelas mãos.

[00:17:03] O que acontece é que os erros que ela faz em 2011, 2012, 2013, começam a aparecer

[00:17:09] em 2013, 2014 e 2015.

[00:17:11] Mas foi isso.

[00:17:12] Bom, e o Brasil?

[00:17:13] Deixa eu voltar para a outra parte, o que a gente tem que fazer para melhorar.

[00:17:17] Então a pergunta é a seguinte, a gente quer fazer o PIB, a gente quer ficar rico.

[00:17:20] No fundo é isso, a gente quer ser os Estados Unidos, a gente quer várias coisas.

[00:17:24] Sempre foi isso.

[00:17:25] E não somos ainda 97,9% na economia.

[00:17:28] Não, mas no total.

[00:17:30] É, no total.

[00:17:31] A gente quer o PIB per cápito alto.

[00:17:32] É claro.

[00:17:33] Porque esse é o que conta.

[00:17:34] Não adianta você ter um PIB enorme e ter 200 milhões de pessoas.

[00:17:37] Mas é meio caminho andado.

[00:17:39] Não, é meio caminho andado.

[00:17:40] O tamanho do território que nos dá o nosso PIB alto não é exatamente a nossa eficiente.

[00:17:43] Se a gente comparar o Brasil e a Coreia que foi mencionado aqui, na década de 70 o nosso

[00:17:49] PIB per cápito era similar ao da Coreia.

[00:17:52] Hoje o deles é o dobro do nosso.

[00:17:54] Então eles fizeram alguma coisa de certo que a gente não fez.

[00:17:57] É lógico que o tamanho, e nota, a Coreia é um país dividido, tem guerros, outros

[00:18:00] caras lá querem dinamitar eles.

[00:18:03] Mas o que acontece?

[00:18:04] Eles têm um Estado menor, eles investem pesadamente em educação infantil, eles investem pesadamente

[00:18:10] em ciência e tecnologia.

[00:18:12] O que faz o país crescer?

[00:18:13] A gente precisa de gente, capital e tecnologia, e regras e instituições que permitam a sociedade

[00:18:19] prosperar.

[00:18:20] Nesses casos aqui, o que eu acho que o Brasil mais precisa?

[00:18:23] Gente a gente tem.

[00:18:24] Embora a taxa de fecundidade esteja caindo, não caiu a nível.

[00:18:27] A gente tem gente no sentido de número de indivíduos, mas não com o conteúdo correto.

[00:18:31] Isso, que é a produtividade, que é outra coisa.

[00:18:33] Isso, que é a educação.

[00:18:34] Isso, que é a educação.

[00:18:35] Então a gente tem gente.

[00:18:36] Esse não é um problema.

[00:18:37] Esse é um problema para os caras lá na Suécia.

[00:18:40] Nem gente tem.

[00:18:41] É isso que eu tenho, aqueles impostos é lógico.

[00:18:43] Isso, eles não têm.

[00:18:44] Então a gente tem gente.

[00:18:45] O que a gente não tem é produtividade.

[00:18:47] Um quarto da população brasileira é analfabeto funcional.

[00:18:51] Isso é um problema.

[00:18:52] A gente tem que fazer as pessoas saberem ler e escrever.

[00:18:53] Tem que ter comunicação, expressão e raciocínio lógico.

[00:18:56] Ou seja, tem que saber ler e escrever em português e em inglês, porque vamos combinar

[00:19:00] hoje em dia o mundo é assim, e matemática.

[00:19:03] O cara tem que ter raciocínio lógico, saber resolver problemas.

[00:19:05] Isso, não temos dúvida que é uma fala mais verso que isso, porque ciência e tecnologia

[00:19:09] são investimentos como nunca.

[00:19:11] Não, mas não na gente, porra.

[00:19:12] É isso que eu estou dizendo.

[00:19:13] Não tem que investir basicamente na gente.

[00:19:16] Tem que investir a maior parte na criança.

[00:19:19] Faltou a parte da educação.

[00:19:20] Tem que botar na criança, tá certo?

[00:19:23] Então a gente fez uma mudança durante o governo Fernando Henrique, que foi muito

[00:19:26] importante, que foi escolarizar as crianças.

[00:19:29] Então antes do governo Fernando Henrique, a taxa de escolarização das crianças entre

[00:19:33] 7, 14 anos era risível.

[00:19:36] Durante o governo Fernando Henrique, isso foi a 94, 95, quase todo mundo.

[00:19:41] Nunca vai ser sempre que tem alguém que está fora, mas foi quase todo mundo.

[00:19:44] Só que a escola continua ruim, então a criança vai à escola, e a escola é bom porque ela

[00:19:48] aprende alguma coisa, mas ela ainda aprende muito pouco.

[00:19:51] Sim, a gente cresceu, precisou baixar o nível, mas agora precisaria melhorar o nível.

[00:19:55] Então você tem que fazer as crianças saberem ler e escrever em português e em inglês

[00:20:00] e saber resolver problemas, saber raciocínio lógico.

[00:20:04] Isso dá um, que foi o que a Coreia fez, isso dá um incentivo para crescimento, porque

[00:20:09] esse cara se torna um trabalhador produtivo no futuro.

[00:20:11] Isso na verdade é uma coisa que se reconhece, a gente sabe isso há muito tempo já, não

[00:20:16] fizemos nada, respeito.

[00:20:17] Mas é que politicamente é muito difícil fazer, porque isso implica chegar para os

[00:20:20] professores primários e começar a cobrar resultado deles.

[00:20:25] Aí quando você cobra resultado de um professor primário, que aliás, mesmo nós aqui, né?

[00:20:30] Quando cobra um resultado da gente, quer dizer, não, não, mas a educação é diferente,

[00:20:33] não pode cobrar resultado.

[00:20:34] Sim, mas aí tem a questão do cobrar resultado, mas ele também entrou numa escola primária

[00:20:41] municipal, estadual aqui, e cobrar resultados numa situação meio esquisita.

[00:20:46] Eu vejo que não bastaria injetar dinheiro de maneira maluca, mas acho que um investimento

[00:20:51] maior seria importante, né?

[00:20:53] Se a gente comparar internacionalmente, a gente não gasta pouco com a educação em

[00:20:59] termos percentuais do PIB, é lógico que como a Alemanha, os Estados Unidos têm um

[00:21:03] PIB muito maior, a gente nunca vai gastar em valor o que a Alemanha gasta, mas por razão

[00:21:07] que eles têm mais.

[00:21:08] Mas podemos chegar aos 10% que, inclusive, estão previdos e prometidos, são sempre empurrados

[00:21:12] com a variga, né?

[00:21:13] A gente gasta demais, a gente gasta com a educação algo, como proporção do PIB, algo

[00:21:17] similar, mas a gente não tem o mesmo retorno.

[00:21:20] Eu acho que tem muito espaço, e eu tô falando da educação básica, tá, vamo pra gente

[00:21:24] entender, eu tô falando de primeiro e segundo grau, tô falando de criança de 7 a 14 anos.

[00:21:28] As crianças têm que saber ler e escrever, é lógico que é um problema, as escolas

[00:21:32] são ruins.

[00:21:33] Tem problemas qualitativos, mas quantitativos é…

[00:21:36] Tem que melhorar também a qualidade, esse é um dos elementos importantes pra fazer

[00:21:40] crescimento econômico.

[00:21:41] Mas isso é médio e longo prazo, né?

[00:21:42] Isso é médio e longo prazo, mas tudo aqui que eu tô falando é médio e longo prazo.

[00:21:44] Curto prazo é melhorar a situação do setor público, é diminuir o déficit público.

[00:21:49] Curto prazo é isso que tem que fazer.

[00:21:50] Agora, médio e longo prazo, tem que melhorar a educação básica, tem que melhorar regras,

[00:21:56] tem que melhorar o direito de propriedade, porque ninguém investe se não tiver certeza

[00:21:59] de que o negócio é dele.

[00:22:01] Segurança jurídica.

[00:22:02] Segurança jurídica, sobre o direito de propriedade.

[00:22:05] Tem que fazer uma ligação maior entre a universidade e as empresas, pra a tecnologia passar pro

[00:22:11] outro lado e vir do outro lado pra cá.

[00:22:13] É uma luta inglória.

[00:22:14] Na universidade onde eu estudei, lá na Inglaterra, existia, no departamento de engenharia, um

[00:22:19] science park lá, que eu estudei, eu morava numa cidade que é meio a Detroit lá da Inglaterra,

[00:22:24] que é onde tá toda a indústria, chama Coventry, que é onde tá toda a indústria, tava, agora

[00:22:29] já não tá tanto, mas tá quase toda a indústria automobilística inglesa, então a Land Rover

[00:22:34] é lá, a Jaguar fica lá, essas fábricas todas tradicionais inglesas, a origem é lá.

[00:22:40] Então tinha uma ligação no departamento de engenharia, o cara lá, eu tinha um amigo

[00:22:43] que estudava amortecedor, um cara de engenharia mecânica, como é que o amortecedor, aquilo

[00:22:48] era a tese doutorado dele, ao mesmo tempo gerava um paper científico e ao mesmo tempo

[00:22:53] era uma patente que ia ser usada por um cara que ia fazer o amortecedor lá, do jeito

[00:22:57] XG de São José.

[00:22:58] Eu estive no MIT, há pouco tempo atrás de postdoc, e o MIT é assim, o MIT e os investidores

[00:23:04] estão lá ouvindo seminários.

[00:23:07] Esse é outro assunto que mereceria um debate longo, até porque, na verdade, as ideias

[00:23:11] nós temos, nós somos muito resourceful e tal, também não tem onde investir, né?

[00:23:14] Mas aí, por exemplo…

[00:23:15] Que fazer a empresa nacional é complicado, né?

[00:23:17] Essa discussão envolve, por exemplo, o seguinte, tá, se a gente fizer isso, o salário nosso

[00:23:21] é todo igual, ou o cara que tá envolvido nesse projeto aí vai ganhar um salário extra

[00:23:26] maior do que os outros professores que não tão envolvidos?

[00:23:28] Isso já tá resolvido.

[00:23:30] A lei de inovação e o novo marco legal já estão bem resolvidos.

[00:23:34] Na prática, eu não sei, eu não entendo, mas na prática, eu acho que hoje, na URGS,

[00:23:39] isso ia dar um bafafá danado.

[00:23:42] Já deu, mas há um acordo, na verdade a gente viu a apresentação, já tá provado, já

[00:23:47] já tá funcionando, o problema é que não tem muita gente fazendo e, mais, a gente não

[00:23:50] tem as pessoas que se dedicam a esse investimento, não tem onde desenvolver esses produtos.

[00:23:55] E acabam ou abrindo iniciativas em empresas que acabam sendo compradas por outras estrangeiras

[00:24:00] ou não conseguem montar, porque tem as burocracias aqui, todas as dificuldades de construir empresas

[00:24:05] nacionais, né?

[00:24:06] Esse é um outro problema.

[00:24:07] Não, não tem nem política de desenvolvimento industrial na prática há anos, né?

[00:24:11] Isso é um outro debate, né?

[00:24:14] E é complicado, porque a lei de inovação não resolve todos os problemas do universo,

[00:24:17] porque não tem outro lado.

[00:24:18] Essa é a minha visão.

[00:24:19] Nós já estamos há 15 anos nessa história.

[00:24:22] Mas então, vamos terminar com essa…

[00:24:25] Então, essas são as regras para o longo prazo, para o curto prazo seria então…

[00:24:29] Eu acho que é melhorar a situação fiscal do país, né?

[00:24:31] É pegar esses menos 154 bilhões de déficit primário que a gente tem, somando as três

[00:24:37] esferas, União, Estados e municípios, e tem que transformar isso num superávit primário.

[00:24:41] E qual é o prazo?

[00:24:42] Se tudo funcionasse direito, vamos pensar assim, fazer o exercício que você fez, se tudo

[00:24:48] funcionasse direito, se o congresso funcionasse direito, se as coisas fossem tocadas, qual

[00:24:53] seria o prazo mais ou menos que uma coisa dessas resolvido?

[00:24:56] Eu acho que em dois anos, dois anos e pouco, a gente voltaria.

[00:25:00] Voltaria.

[00:25:01] Mas eu tenho uma dúvida.

[00:25:03] Eu acho que assim, o ano que vem já vai ser um ano um pouco melhor.

[00:25:06] É mesmo?

[00:25:07] Acho que vai ser um ano um pouco melhor.

[00:25:09] Porque também é assim, essa é fácil de prever, tá?

[00:25:12] Tá rolando.

[00:25:13] É difícil ficar pior do que já tá.

[00:25:15] A gente fala isso, mas é sempre difícil ficar pior.

[00:25:18] Porque isso não é que nem temperatura, o buraco pode ser pior.

[00:25:21] Eu já soupei isso, eu acho que você não pode ficar pior.

[00:25:23] Então assim, o PIB brasileiro caiu 3,8% o ano passado.

[00:25:27] Esse ano vai cair perto de 3.

[00:25:30] No primeiro semestre, comparado com o primeiro semestre do ano passado, caiu 4,9.

[00:25:35] Então o segundo semestre vai ser um pouco melhor.

[00:25:37] Na média do ano, vai cair uns três.

[00:25:39] Então se eu botar os dois juntos, já dá sete por compor, né?

[00:25:41] Três sobre os três e oito lá.

[00:25:44] Nós estamos falando que vai cair 7,1% de PIB.

[00:25:47] Mas tá desacelerando, né?

[00:25:48] É.

[00:25:49] Então assim, é difícil a gente imaginar que vai ter um outro ano em que a gente vai encolher de novo, entendeu?

[00:25:56] E eu acho difícil.

[00:25:57] Então o ano que vem já vai ser um pouco melhor.

[00:25:58] Mas acho que pra 18, 19, a gente tem uma possibilidade.

[00:26:01] E eu tô chamando isso de curto prazo, né?

[00:26:04] A gente tem uma possibilidade de tirar o pé da lama e…

[00:26:06] Sim, antes disso não tem mágica.

[00:26:08] E vamos ter uma grande discussão, que não tem nada a ver com o nosso tema aqui, do que vai acontecer em 18, né?

[00:26:14] Porque 18 vai ser um ano muito emocionante.

[00:26:17] Mas eu tenho uma última dúvida aqui.

[00:26:19] Vai ter todas as alternativas possíveis, né?

[00:26:22] Quer dizer, o binômio que a gente vinha tendo anteriormente, que virou um trinômio lá com a entrada da Marina,

[00:26:28] dessa vez vai ser um polinômio, porque vai ter candidato pra todo tipo.

[00:26:33] E houver eleições, né?

[00:26:34] É, não, eleição vai ter, mas vai ter tanto candidato que eu vou te dizer.

[00:26:37] Eu não sei.

[00:26:38] Mas, assim, além desses medidas de curto prazo, não se faz nada com a taxa Selic?

[00:26:43] Ela tá boa assim?

[00:26:44] Não, eu acho que a taxa Selic tem que cair e vai cair, não tenho a menor dúvida.

[00:26:47] Vai cair porque eu me lembro que quando tentaram diminuir ela, deu a maior encrenca.

[00:26:50] Isso, mas é que a presidente Dilma tentou fazer por decreto, diminuir na marra.

[00:26:55] Isso não vai acontecer.

[00:26:56] Então ela pegou a taxa e jogou a 7,25, que é um valor que…

[00:27:00] Foi aqui que começou a encrenca também, aliás, foi na mesma época.

[00:27:03] Isso aí contra o que é razoável e gera outros problemas.

[00:27:07] Mas também…

[00:27:08] O banco central vai cair…

[00:27:09] Mas também a briga com os especuladores, não é verdade?

[00:27:10] Isso é um fato, eu não tô sendo panfletado.

[00:27:13] Eu não acho que ela compra a briga, ela simplesmente baixa e as pessoas que especulavam…

[00:27:18] Ficam tristes.

[00:27:19] Passam a especular com outra coisa.

[00:27:20] Não, elas não ficam tristes.

[00:27:21] Elas passam a especular com outras coisas.

[00:27:22] Elas passam a especular com dólar, com imóveis.

[00:27:25] Então, ela deixa de ganhar o dinheiro com o título público e aí explode o preço dos imóveis.

[00:27:30] Explode a taxa…

[00:27:31] Os especuladores gostam…

[00:27:32] Qual seria a forma de diminuir ela?

[00:27:34] Porque a gente não vê isso aí.

[00:27:35] Não, se a gente desenhar um gráfico, eu posso mandar pra vocês, desde 1999,

[00:27:40] quando entra o segundo mandato do Fernando Henrique, até o final do Lula,

[00:27:45] a taxa de juros no Brasil é cadente.

[00:27:48] Ela, em 1999, tava em 45% ao ano.

[00:27:53] No fim do governo Lula tava, sei lá, não me lembro, 10% ao ano.

[00:27:57] Ela é cadente ao longo de toda a experiência.

[00:27:59] Então, nós vímos fazendo a coisinha certa.

[00:28:01] Chegou a quase 50% naquela época.

[00:28:03] Nós vímos fazendo a coisa certa, de puxar o juro pra baixo.

[00:28:05] Só que, aos poucos, a presidente Dilma resolveu acelerar esse processo quando não podia.

[00:28:09] E aí botou o pé pelas mãos.

[00:28:11] Hoje, essa tendência se reverteu.

[00:28:15] A gente já tem o juro real subindo de novo.

[00:28:17] O que a gente tem que fazer é puxar ele pra baixo.

[00:28:18] Isso vai acontecer.

[00:28:19] Mas é correto diminuir.

[00:28:20] Vai ser necessário.

[00:28:21] Não tenho a menor dúvida.

[00:28:22] E eu tenho certeza que isso vai acontecer.

[00:28:25] A discussão é só se vai acontecer.

[00:28:26] Se o juro vai começar a cair em novembro, em outubro, em dezembro ou em janeiro.

[00:28:31] Pode apostar que vai cair.

[00:28:33] Agora, a discussão é, vai ser em outubro, em novembro ou em janeiro?

[00:28:37] Porque tem reunião no final de outubro, no final de novembro.

[00:28:40] Dezembro não tem.

[00:28:41] Dezembro não tem.

[00:28:42] Vai ter janeiro.

[00:28:43] Então, a pergunta é, vai ser em qual dos três?

[00:28:44] Mas que vai cair, vai.

[00:28:45] Eu não tenho a menor dúvida.

[00:28:46] E vai cair várias seguidas.

[00:28:48] Depois que começar, ela vai cair na seguinte, na seguinte.

[00:28:52] Porque a gente, em geral, bolsa central reduz, reduz.

[00:28:55] Essa também é barulhada.

[00:28:56] Tá por estimar onde pode chegar no fim do ano que vem?

[00:28:58] A gente vai ter que terminar.

[00:28:59] Não, não tá pra cobrar ali.

[00:29:03] Eu acho que vai chegar num número perto de 12.

[00:29:07] 11, 12.

[00:29:08] Não vai abaixo de 10.

[00:29:10] Acho que por enquanto não.

[00:29:12] E um ano não tem como.

[00:29:13] E um ano não vai.

[00:29:14] Porque nós estamos saindo de 14.

[00:29:15] Vai cair uns três.

[00:29:16] Tá, que já é bem razoável.

[00:29:17] Que já é bem razoável.

[00:29:18] E lá no limite, cinco anos.

[00:29:20] Eu acho que cai a cinco, nome não, não.

[00:29:23] Porque sem imaginar que a inflação no Brasil é quatro e meio.

[00:29:25] É, tá, é verdade.

[00:29:26] Então tem que ser alguma coisa acima de quatro e meio.

[00:29:28] Bota um Juro Real de cinco.

[00:29:30] Sete, oito.

[00:29:31] Vai se chegar uma Selic de oito.

[00:29:33] Que é onde tentou chegar por decreto.

[00:29:34] Que é onde tentou se chegar por decreto e não se chegou.

[00:29:37] Tá, então, então.

[00:29:38] Legal, legal.

[00:29:39] Então esse foi o programa Fronteiras da Ciência.

[00:29:41] O João discutiu sobre uma série de coisas, inclusive.

[00:29:44] Uma série interminável de coisas.

[00:29:46] Mas o ponto central teria sido as crises econômicas.

[00:29:49] O nosso convidado é o Marcelo Portugal,

[00:29:52] que é professor do programa de pós-graduação de economia

[00:29:54] aqui da Faculdade de Economia da URGES.

[00:29:56] O pessoal do programa é a Carolina Brito,

[00:29:58] marca de arte do Departamento de Física.

[00:30:00] E o Jorge Aquilo foi do Departamento de Biofísica da URGES.

[00:30:03] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES.