Frontdaciência - T08E23 - Ivan Izquierdo II - O que é a memória?


Resumo

Neste episódio do Fronteiras da Ciência, os apresentadores Jorge Quilfield e Carolina Brito conversam com o renomado neurocientista Ivan Izquierdo sobre a natureza da memória. A discussão começa com uma definição clássica: memória como a aquisição, consolidação e evocação de informações, mas rapidamente avança para os mecanismos neurobiológicos subjacentes.

Izquierdo explica como a técnica da optogenética, desenvolvida por Karl Deisseroth, revolucionou o campo ao permitir estimular neurônios específicos com luz e identificar circuitos neurais envolvidos na memória. Ele detalha como as memórias de longa duração dependem da síntese de proteínas e como os neurônios modificam suas conexões através de mudanças na expressão proteica, não através da criação de novos neurônios.

A conversa aborda patologias da memória como a doença de Alzheimer e outras demências, diferenciando-as do envelhecimento normal. Izquierdo discute tratamentos como a terapia de extinção para estresse pós-traumático e enfatiza que não existem drogas confiáveis para melhorar a memória - o melhor exercício é a leitura e o uso constante do cérebro. Estudos epidemiológicos mostram que professores e músicos tendem a manter melhor a memória na velhice.

Finalmente, o episódio desmistifica conceitos populares como o uso de apenas 10% do cérebro e discute as limitações da psicanálise frente aos avanços da neurociência. Izquierdo reflete sobre o estado atual do campo, destacando que ainda há muito a descobrir sobre os mecanismos moleculares da memória, enquanto aborda questões éticas sobre possíveis usos distorcidos desse conhecimento.


Indicações

Conceitos

  • Terapia de extinção — Abordagem terapêutica para estresse pós-traumático que envolve expor pacientes a estímulos relacionados ao trauma sem o componente traumático original, criando novas associações.

Pessoas

  • William James — Fundador da psicologia moderna citado por Izquierdo como alguém que definia memória como uma entidade invisível observável apenas através de mudanças comportamentais.
  • Karl Deisseroth — Cientista que desenvolveu a técnica da optogenética em 2005, revolucionando o estudo da memória ao permitir estimular neurônios específicos com luz.
  • Jorge Luis Borges — Escritor mencionado por conta de uma história sobre seu pai questionando se lembramos das coisas em si ou da última vez que nos lembramos delas.

Técnicas

  • Optogenética — Técnica revolucionária desenvolvida em 2005 que permite estimular neurônios específicos com luz através da implantação de DNA sensível, identificando circuitos neurais envolvidos na memória.

Linha do Tempo

  • 00:01:27Definição de memória e abordagem histórica — Ivan Izquierdo apresenta a definição clássica de memória como aquisição, consolidação e evocação de informações. Ele menciona William James, fundador da psicologia moderna, que via a memória como uma entidade invisível observável apenas através de mudanças comportamentais. A discussão estabelece as bases conceituais para entender a memória como um processo neurobiológico.
  • 00:02:25Revolução da optogenética na neurociência — Izquierdo explica como a optogenética, desenvolvida por Karl Deisseroth em 2005, transformou o estudo da memória. Esta técnica permite estimular neurônios específicos com luz através da implantação de DNA sensível à luz, identificando circuitos neurais envolvidos em memórias específicas. A optogenética tornou possível ‘ver’ literalmente onde as memórias são processadas no cérebro.
  • 00:05:50Síntese proteica e formação de memórias — O neurocientista detalha como memórias de longa duração exigem síntese de proteínas nos neurônios. Experimentos com inibidores de síntese proteica demonstraram que bloquear esta produção em áreas cerebrais específicas impede a formação de memórias. As proteínas atuam como ‘pontes’ que estabelecem conexões neurais duradouras, modificando neurônios existentes em vez de criar novos.
  • 00:08:31Memória como reconstrução e importância do esquecimento — A discussão aborda como a evocação da memória não é como recuperar um arquivo intacto, mas sim um processo de reconstrução a partir de regras básicas. Izquierdo cita uma história de Borges sobre lembrarmos da última vez que nos lembramos de algo. O esquecimento é apresentado como uma regra necessária da memória, permitindo generalizações úteis para a sobrevivência.
  • 00:09:55Doenças da memória: Alzheimer e demências — Izquierdo diferencia o envelhecimento normal de patologias como a doença de Alzheimer, explicando que demência significa literalmente ‘perda da mente’. Ele discute como o Alzheimer frequentemente se associa com outras condições como lesões vasculares, criando quadros mistos. A conversa também aborda os efeitos prejudiciais do álcool e drogas como a cocaína nos neurônios.
  • 00:12:29Estresse pós-traumático e terapia de extinção — O episódio aborda o estresse pós-traumático como um problema de memória onde lembranças traumáticas se tornam hiper-consolidadas. Izquierdo descreve a terapia de extinção, que envolve expor pacientes a estímulos relacionados ao trauma sem o componente traumático original, criando novas associações. Esta abordagem terapêutica é mais eficaz do que intervenções farmacológicas atuais.
  • 00:14:20Exercitando a memória: leitura e profissões — Izquierdo enfatiza que a melhor forma de manter a memória é usá-la constantemente, especialmente através da leitura. Ele cita estudos epidemiológicos mostrando que professores e músicos - profissões que exigem uso intensivo da memória - mantêm melhor função cognitiva na velhice. A leitura é particularmente benéfica por envolver múltiplos sistemas sensoriais e cognitivos.
  • 00:15:33Educação e desenvolvimento cerebral — O neurocientista critica a ideia moderna de que não se deve decorar nada, argumentando que certos aprendizados como tabuada e letras de música exigem memorização. Ele discute como o currículo educacional deveria considerar os estágios de desenvolvimento cerebral, ensinando conceitos no momento certo quando o cérebro está maduro para assimilá-los, em vez de forçar aprendizagens prematuras.
  • 00:24:22Desmistificando mitos sobre o cérebro — Izquierdo desmente o mito popular de que usamos apenas 10% do cérebro, explicando que não há como medir ‘capacidade cerebral’ de forma significativa. Ele também aborda diferenças cerebrais entre gêneros, notando que cérebros femininos são proporcionalmente maiores em relação à massa corporal. A inteligência não correlaciona linearmente com número de neurônios, como evidenciado pela comparação entre elefantes e cães.
  • 00:25:50Neurociência versus psicanálise — O neurocientista argumenta que a psicanálise foi ultrapassada pela neurociência como ferramenta para entender a mente. Enquanto conceitos psicanalíticos como o inconsciente não têm representação anatômica ou fisiológica verificável, a neurociência estuda realidades mensuráveis como neurônios e circuitos neurais. Embora elementos da psicanálise tenham influenciado a cultura, a terapia cognitivo-comportamental tornou-se mais prevalente na prática clínica.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2017-08-07T13:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência da Rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:08] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:11] No programa de hoje nós vamos continuar, nós conversamos com o professor Ivã Esquerdo

[00:00:15] sobre memória.

[00:00:16] Na programada anterior nós discutimos e conversamos bastante sobre as suas reminiscências, sua

[00:00:20] trajetória, os achados importantes, mas nesse programa vamos nos concentrar um pouco mais

[00:00:24] sobre os mecanismos propriamente ditos da memória e algumas curiosidades e temas importantes,

[00:00:29] ninguém melhor do que o professor Ivã Esquerdo para nos contar sobre os trabalhos.

[00:00:33] Apenas relembrando, o professor Ivã Esquerdo é argentino radicado no Brasil, naturalizado

[00:00:39] brasileiro, que teve sua trajetória inclusive com uma docência e pesquisa lá na Argentina,

[00:00:45] tanto em Buenos Aires quanto em Córdoba, com pós-doutorado na Universidade da Califórnia,

[00:00:48] em Los Angeles, tendo vindo, então, isso, anos 70 para o Brasil, ficado um tempo em

[00:00:52] São Paulo, mas basicamente se fixando na Universidade Federal Grande do Sul, na Urix,

[00:00:57] onde esteve durante 30 anos e formou a maior parte dos seus mais de 100 doutores e mestres

[00:01:02] e com as oposidadorias em 2003, 2004, então, se transfere para a PUC, onde participou da

[00:01:07] criação do Instituto do Cervo, com quase 700 artigos publicados, um índice H de 73,

[00:01:13] membro de várias academias de ciência e homenajado de diferentes formas, a gente

[00:01:17] conversou sobre isso no programa anterior e agora nós queremos focar um pouco mais

[00:01:20] na questão da própria memória e começar uma pergunta mais simples de todas, uma definição

[00:01:25] linda do senhor mesmo, o que é memória?

[00:01:27] A memória costuma-se definir como a aquisição, consolidação e evocação de informações,

[00:01:35] a palavra informações é basicamente inespecífica, né?

[00:01:38] Bem problemática, o que será isso?

[00:01:40] Eu gosto sempre de lembrar do William James, que é o fundador da psicologia moderna, que

[00:01:45] ele dizia assim, que memória é uma entidade invisível, a gente não pode pesar ela

[00:01:49] numa balança, não pode medir o pH dela.

[00:01:51] Não, mas hoje em dia pode medir com relatos bioquímicos ou eletrofisiológicos, bastante

[00:01:56] bem.

[00:01:57] Mas a importância comportamental da psicologia, William James dizia assim, o que a gente observa

[00:02:02] é a mudança no comportamento do animal e supõe que a memória é um mediador interno

[00:02:05] invisível disso.

[00:02:06] Continua valendo, né?

[00:02:07] Porque no fundo, no fundo…

[00:02:08] Continua valendo.

[00:02:09] Talvez mais agora, apoiado em outras bases, por exemplo, agora sabemos que tem células

[00:02:14] nervosas, tem neurônios, que levam as memórias, onde está radical a memória.

[00:02:20] Isso é feito a partir da introdução de uma metodologia nova, no ano 2005, que se

[00:02:25] chama optogenética.

[00:02:26] Por optogenética é possível estimular diretamente neurônios e mudar o DNA desses neurônios.

[00:02:33] E, por exemplo, implantar um DNA de outra memória, que aqui esse neurônio normalmente

[00:02:38] leva, ou bloquear a expressão do DNA desses neurônios.

[00:02:41] Sabemos que a memória depende do que está contido na informação modificada pela experiência

[00:02:46] do DNA desses neurônios.

[00:02:48] Então isso aí mudou tudo.

[00:02:50] O neurônio pode ser estimulado por luz, em forma direta, ou seja, não eletricamente.

[00:02:54] Coloca um fiche de luz.

[00:02:55] Como é isso?

[00:02:56] É um fibro óptico?

[00:02:57] Primeiro se implanta DNA que registra cores.

[00:03:00] Quando o neurônio está estimulado pelo DNA esse responde a cores com mudança de sua

[00:03:04] atividade.

[00:03:05] Depois passa-se a estimular o neurônio fisiologicamente, através das vias naturais, com estímulos

[00:03:10] visuais, auditivos, etc., ou eletrofisiologicamente, com eletróidos.

[00:03:15] E os neurônios que carregam memória para algo que tinha acontecido antes, memória

[00:03:19] que se pensa que deve estar mais ou menos vinculado em proteínas de algum tipo, que não

[00:03:24] sabem muito de equação.

[00:03:25] O neurônio estimulado com luz, uma luz que esse corante registra, vai responder, como

[00:03:30] se fosse estimulado fisiologicamente.

[00:03:32] E esse neurônio, por exemplo, é um neurônio utilizado para lembrar de um lugar, ou esse

[00:03:36] lado que odeia o dor, esse neurônio vai responder a luz como se fosse a ativação de sua

[00:03:42] vida nervosa, a qual ele pertence.

[00:03:43] Essa técnica mudou a vida de todos, a optogenética.

[00:03:47] Essa técnica foi introduzida por um cara que se chama Carl Dyseroth, que agora tem

[00:03:50] 45 anos, que imagina a zona.

[00:03:52] Esse cara eu acho que se não tira o Prêmio Nobel deste ano, deveria tirar o ano que vem.

[00:03:56] A técnica era introduzida em 2005, e ele realmente cultivou e apoiou o estudo em muitos

[00:04:02] laboratórios, de muitas formas de aprendizado, e viu esses fenômenos a repetir, e a se conhecer

[00:04:07] exatamente que neurônio participa em tal via.

[00:04:10] E isso é feito em vivo?

[00:04:11] Em vivo, é fantástico.

[00:04:12] Para implantar o DNA novo, utiliza-se habitualmente ou a aplicação direta do DNA na vizinhança

[00:04:18] dos neurônios que tem que guardar o que é esse DNA atrás, ou vírus que vão a esses

[00:04:24] neurônios e levam o DNA novo a esses neurônios.

[00:04:27] A gente usa o vírus como um Uber, e como eles são seletivos para esse tipo de neurônio,

[00:04:31] é uma coisa louca.

[00:04:32] Então ele vai e deposita o DNA onde deve ser.

[00:04:34] E o DNA, dependendo do pedaço que se implante, ele é capaz de reconhecer o DNA residente

[00:04:40] e vai localizar junto com ele, vai no mesmo lugar.

[00:04:43] O que a Optogenetica trouxe para nós é essa ferramenta para poder finalmente enxergar,

[00:04:47] literalmente enxergar, os neurônios, o caminho para onde estão passando as memórias.

[00:04:51] Ou seja, onde está a memória?

[00:04:52] No cérebro?

[00:04:53] Sim, está sem dúvida no cérebro e está em alguma propriedade bioquímica de neurônios

[00:04:58] que eleva.

[00:04:59] Agora isso não tem mais dúvidas.

[00:05:00] E as fagotórias que conectam eles nos diferentes caminhos, e os relatórios que Pavlov dizia.

[00:05:05] Eu queria que você pudesse olhar dentro da cabeça e ver os pensamentos, as memórias lá…

[00:05:09] Agora estamos quase fazendo isso.

[00:05:11] As técnicas de imaginamento também são interessantes nesse sentido.

[00:05:14] Eu gosto de pensar que a memória tem quatro dimensões que tem que trabalhar simultaneamente,

[00:05:18] por isso que as neurociências são multidisciplinares.

[00:05:20] Você tem a própria memória, que é uma expressão de comportamento, que é psicologia,

[00:05:25] você tem a base anatômica dele no encéfalo, as áreas do cupocampo, amígdala, córtex,

[00:05:31] você tem a neuroquímica dentro desses neurônios, a bioquímica toda, e tem a atividade elétrica

[00:05:35] que conecta e faz isso serrável.

[00:05:37] E todas elas exigem diferentes abordagens, mas convergem.

[00:05:40] O seu trabalho, por exemplo, mostrou a parte neuroquímica do que acontece quando a memória

[00:05:44] se forma e quando é evocada.

[00:05:47] Por exemplo, uma das características de memórias que elas necessariamente quando

[00:05:50] se formam exigem sínteses de proteínas.

[00:05:52] A memória de longa duração.

[00:05:55] Para durar ela tem que ter sínteses de proteínas, que é o natural, se tu imagina que um caminho

[00:05:59] tem que ser estabelecido e, portanto, tem que se construir as pontes.

[00:06:03] A descoberta da síntese proteica na memória, quem foi que fez isso?

[00:06:06] Isso foram vários.

[00:06:07] Inicialmente, lá nos anos 60, era ainda 70, inibidores da síntese proteica que ainda

[00:06:13] se usa, então se injeta o inibidor da síntese proteica numa área que a gente pensa por

[00:06:17] outro motivo, que deve ser a que leva essa memória.

[00:06:20] Então se inibir a síntese proteica nessa região com uma droga, a várias, você pode

[00:06:26] inibir a memória.

[00:06:27] Isso demonstra que a memória depende da síntese proteica.

[00:06:30] Eu queria entender uma coisa, por exemplo assim, ao longo da minha vida eu vou adquirindo

[00:06:33] memórias, então o cérebro é plástico, ele vai se adaptando, vai absorvendo, e o que

[00:06:39] eu não consigo entender é o seguinte, eu sempre ouvi dizer que o neurônio não se,

[00:06:43] tu não consegue reproduzir o neurônio, né?

[00:06:47] Mas agora se sabe que sim.

[00:06:49] Mas é a minoria, não é?

[00:06:50] É pequeno.

[00:06:51] Mas a formação da memória é a construção de novos neurônios?

[00:06:54] Não, isso acredita-se que não.

[00:06:57] Como é que tu vai modificando as conexões?

[00:07:01] A proteína que guarda essa memória, seja modificada nesse neurônio porque se produz

[00:07:08] mais, se produz menos.

[00:07:10] Ah, então não é um neurônio que muda, é só uma proteína que vai ser…

[00:07:13] É um neurônio que muda, muda porque sua proteína muda.

[00:07:16] Então ele vai se expressar de maneira diferente.

[00:07:19] Qualquer coisa que tu quer mudar numa célula, você já não sabe como não se conecta.

[00:07:22] Tem que passar pela síntese proteica.

[00:07:24] Porque proteínas fazem tudo dentro das células, né?

[00:07:26] Então elas estão importantes.

[00:07:27] As enzimas são proteínas, todas as enzimas.

[00:07:29] Mas quando eu falo da formação da memória, que eu vou fazendo, mudando o meu cérebro

[00:07:33] ao longo das minhas experiências, existe um limite pra isso?

[00:07:37] Eu posso dizer que eu tenho um buffer, não sei que nem no computador,

[00:07:40] eu cheguei num limite máximo.

[00:07:42] Deve ter, mas estamos muitíssimo longe disso ainda, mas deve ter.

[00:07:46] Acho que nenhuma espécie chegou ainda a bater no teto, não.

[00:07:50] Porque, por exemplo, se eu imagino que o meu cérebro é finito,

[00:07:53] eu só estou armazenando essa coisa ao longo da…

[00:07:55] É, mas não é infinito, é limitado.

[00:07:57] Não, é finito.

[00:07:58] Não, é infinito.

[00:07:59] É finito, está dentro das cátulas crânicas.

[00:08:02] Claro, em algum momento…

[00:08:03] Aparentemente muito grande, né?

[00:08:05] Em termos de informação.

[00:08:06] A informação que é armazenada também não é precisa como de um computador.

[00:08:10] Eu acho que o problema de chamar de memória é a memória do computador,

[00:08:13] porque ela é totalmente diferente da nossa.

[00:08:15] Ela é muito exata, ela é uma variante psiquótica da memória episódica,

[00:08:19] onde você lembra os detalhes do episódio.

[00:08:20] Sim, é verdade.

[00:08:21] Tu lembra cada detalhe em cada lugar.

[00:08:22] Nós, na verdade, já começamos esquecendo quase tudo,

[00:08:25] e ainda vamos esquecendo mais ainda até tirar as regras.

[00:08:27] E no fim aparece, aparentemente, é isso que a reconstrução nos ensina.

[00:08:31] Quando tu evoca memória, no fundo, tu não evoca uma coisa como puxar algo de um arquivo.

[00:08:35] Tu pega essas regras base e reconstrói.

[00:08:37] Tanto que tu parei reconstruir errado, como mutações.

[00:08:40] Isso o Borde conta uma coisa…

[00:08:42] Borde, o escritor, conta uma coisa que o pai dele perguntou para ele uma vez

[00:08:46] e isso marcou toda a vida.

[00:08:47] Quando nos lembramos de uma coisa, Jorge,

[00:08:49] nos lembramos da coisa em si, ou da última vez que nos lembramos dessa coisa.

[00:08:53] E ele diz que nunca pode responder.

[00:08:55] E isso é realmente a base da reconstrução, de postular a reconstrução.

[00:08:59] E, de certa forma, para a sobrevivência é importante.

[00:09:02] Se a gente fosse lembrar de cada detalhe que a gente viveu, seria uma coisa…

[00:09:06] Do que tu ia precisar de muito tempo para lembrar cada detalhe,

[00:09:08] porque a vocação é linear, é simples, é grosseira.

[00:09:12] Então, na verdade, a gente generaliza mais do que obsessivamente retém.

[00:09:16] Um esquecimento, de certo modo, é a regra da memória, não é, Mestre?

[00:09:19] Sim, porque esse esquecimento não haveria literalmente lugar,

[00:09:22] DNA disponível, ou células disponíveis.

[00:09:25] E isso é outra coisa que faz repensar para muitos,

[00:09:28] para gerontólogos e geriatras.

[00:09:31] Faz pensar muito.

[00:09:33] Os velhos têm aparentemente menos memória,

[00:09:36] ou é que têm tantas memórias que não sabem qual procurar cada vez?

[00:09:39] Pode ter um problema de velocidade do disco.

[00:09:41] Um problema de velocidade, exatamente.

[00:09:44] Então, pode ser que por isso que a gente chama a perda de memória,

[00:09:47] na verdade, é o acesso a ela que a gente…

[00:09:49] O acesso a ela é o que só podemos medir e o acesso a ela.

[00:09:52] Existem patologias bem claras onde tu perde a capacidade de formar novas memórias,

[00:09:55] Alzheimer, as doenças…

[00:09:57] A infalta, neurônios, a mágica…

[00:10:00] Pois é, qual é a diferença entre uma doença desse tipo e a demência, por exemplo?

[00:10:04] A nenhuma. A doença de Alzheimer é uma das demências.

[00:10:07] Demência vem do grego de, partícula privativa, mens, a mente.

[00:10:12] Então perde a mente e se chama demência.

[00:10:15] Então são tipos diferentes.

[00:10:17] Tipos diferentes. A mais comum é a do Alzheimer.

[00:10:20] Antigamente se pensava que era uma das formas raras da obra,

[00:10:23] mas não se sabe que provavelmente é a mais comum.

[00:10:25] Só que se associa muitas vezes com outras

[00:10:27] e dá quadros mistos que são indiferenciáveis uma coisa da outra no final.

[00:10:30] Por exemplo, se associa muitas vezes com lesões vasculares do cérebro,

[00:10:34] esse junto com o Alzheimer dá lugar a um quadro demenciado mais profundo.

[00:10:38] Os caras que bebem muito…

[00:10:40] Os caras que bebem muito…

[00:10:42] O álcool mata neurônios.

[00:10:44] Literalmente.

[00:10:46] Drogas ilícitas como cocaína…

[00:10:50] Depende da droga e depende da dose também.

[00:10:52] A cocaína também é sumamente prejudicial.

[00:10:54] A cocaína é por outros mecanismos completamente diferentes.

[00:10:57] A cocaína estimula os neurônios noradrenérgicos e dopaminéricos,

[00:11:01] aqueles que viveram como neurotransmissor, noradrenalina e dopamina.

[00:11:04] A cocaína estimula tanto que geralmente é um líquido humano.

[00:11:07] Então é isso.

[00:11:08] Em doses pequenas é bom estimular essas vias,

[00:11:11] a via da noradrenalina, a via dopamina,

[00:11:13] para que a memória desse produto é estimulante da formação…

[00:11:15] Acho que é um nível.

[00:11:17] Quando o nível ultrapassa um valor que não temos como medir,

[00:11:21] nem sabemos quando vai chegar, nunca, para paciente.

[00:11:23] Ah, é uma overestimulação, então.

[00:11:25] É uma overestimulação.

[00:11:26] Então, essa é uma coisa que eu ouço também,

[00:11:28] sequidamente dizer que, por exemplo, a Ritalina,

[00:11:30] ela atuaria de maneira similar à cocaína.

[00:11:33] Sim, atua de certa forma similar.

[00:11:36] Neste laboratório, uma das especialidades de estudar a Ritalina

[00:11:39] tem sido nos últimos anos.

[00:11:40] E sim, agora tem dois efeitos.

[00:11:42] Em doses relativamente moderadas, como a cocaína,

[00:11:46] como a adrenalina, como a noradrenalina, estimula.

[00:11:49] E em doses que ultrapassam certo nível, mata o neurônio e…

[00:11:53] Isso, não consegue nem mais acessar.

[00:11:54] É o mesmo perfil dos hormônios do estresse.

[00:11:56] Um pouquinho de estresse ajuda, por exemplo, em estudar com uma prova.

[00:11:58] É o que chamamos de…

[00:12:00] Muito, tu fica desorganizado.

[00:12:01] Existe uma música que é a música de ansiedade.

[00:12:04] Detener-te em meus braços.

[00:12:05] Existe a ansiedade de ter em meus braços.

[00:12:08] Que boa.

[00:12:09] O outro estava esperando uma coisa muito boa.

[00:12:11] Ter a pessoa amada no braço.

[00:12:12] Imagina só.

[00:12:13] E tem a ansiedade que se converte em estresse,

[00:12:15] pela qual as pessoas se suicidam.

[00:12:17] Ou padecem de estresse postraumático.

[00:12:19] Claro, paralisa, na verdade.

[00:12:21] Paralisa.

[00:12:22] Então, tem os dois estrelos, as demências e as pernas de memória,

[00:12:25] que é a perda.

[00:12:26] A perda.

[00:12:27] E tem o estresse postraumático, que é a memória…

[00:12:29] Forte debaixo.

[00:12:30] Que monopoliza.

[00:12:31] E aí?

[00:12:32] Esse é um problema sério, não é?

[00:12:33] Na verdade, é uma demanda grande que tem para a neurociência tratar isso.

[00:12:37] Como é que a gente está?

[00:12:38] Como é que você avalia o estado atual da arte?

[00:12:39] Por exemplo, o tratamento clínico para estresse postraumático?

[00:12:42] Dentro do que a gente conhece, o tratamento é um som,

[00:12:45] que é a inibição da evocação, chamada extinção.

[00:12:47] A repetição daquilo que queremos que o indivíduo vai esquecer,

[00:12:51] mas sem o reforço que faz com que isso permaneça.

[00:12:54] A repetição, por exemplo, de passar um cara que ficou traumatizado

[00:12:57] quando estava caminhando por Manhattan

[00:12:59] e viu os aviões batendo nas torres.

[00:13:01] Ficou traumatizado para toda a vida.

[00:13:02] Muita gente ficou.

[00:13:03] Agora, o psiquiatra que vai fazer nesse caso,

[00:13:05] vai pôr o cara, por exemplo, a fotos ou a comentários disso,

[00:13:09] mas sem os aviões batendo nas torres,

[00:13:11] até que o cara comece a fazer uma nova acusação.

[00:13:13] Podemos falar dos incidentes de 9 de setembro de 2001,

[00:13:17] ou ver fotos disso aí, ou filmes disso aí,

[00:13:20] até, mas sem os incidentes acontecendo.

[00:13:23] E isso aí cria um novo estímulo que se associa ao mesmo do anterior.

[00:13:26] Na verdade, então, tu apaga a memória entre aspas.

[00:13:29] Uma nova que sobrepulja o anterior.

[00:13:32] Não está envolvendo remédio, então, é terapia?

[00:13:34] Terapia, sim.

[00:13:36] Por isso ela passou na frente de todas as demais terapias.

[00:13:39] Mas se eu pudesse fazer uma análise cerebral,

[00:13:42] eu veria realmente o cérebro modificando, quer dizer, plasticamente.

[00:13:46] Modifica a conexão, porque faz com que o neurônio,

[00:13:49] que antes era muito forte e batia o tempo todo,

[00:13:51] fica mais fraco nas redes aquaportenses.

[00:13:54] Mas a extinção tem uns limites, né?

[00:13:56] Paritamente ela não dura para sempre, né?

[00:13:58] Não.

[00:13:59] E isso é um problema, porque isso é um tratamento que dura um ano ou dois.

[00:14:02] Bem feita com reforços periódicos, pode durar bastante, né?

[00:14:05] O senhor estava dizendo que essa área da neurociência

[00:14:08] é uma área de pessoas muito longevas, né?

[00:14:11] E eu gostaria de saber se existe um estudo epidemiológico

[00:14:14] que mostre que algumas áreas de profissão

[00:14:17] permitem que a pessoa tenha guarda de memória por mais tempo.

[00:14:20] Como é que tu pode fazer para estimular

[00:14:23] ou para melhorar a questão da perda de memória?

[00:14:25] Usando.

[00:14:26] Tipo, a função faz o órgão e é o que define a coisa.

[00:14:28] Usando, a memória é aquela coisa que demonstra que a função faz o órgão.

[00:14:32] Ele repete essa memória e vê, lê outra vez aquilo que já sabe,

[00:14:35] vai terminar não esquecendo mais, ou lembrando muito bem pelo menos.

[00:14:39] Tem que usar o cérebro.

[00:14:40] Tem que usar o cérebro.

[00:14:41] E usar o cérebro de fazer memória.

[00:14:43] E o melhor tratamento para isso é a simples leitura.

[00:14:46] Na leitura a gente utiliza muitíssimo cérebro,

[00:14:49] porque a leitura envolve a reutilização de todos os sentidos.

[00:14:54] As coisas que aprendemos, se não é pela vista, é pela vista e o ouvido,

[00:14:58] pelo gosto, pelo tacto.

[00:15:01] É aprendido pelo sentido, basicamente.

[00:15:03] Entre todas as vias sensoriais,

[00:15:05] a gente, lendo, vai lembrar de tudo isso e vai fazer funcionar de novo.

[00:15:09] A gente está lendo uma novela sobre um valoroso cavaleiro

[00:15:13] que salva uma dama que estava numa torre,

[00:15:16] além de ver a dama, vê a torre e vê o cavaleiro.

[00:15:20] Eu estava lendo um artigo que o senhor escreveu na revista Pátio,

[00:15:24] que é uma revista de divulgação para educadores.

[00:15:26] Adoro essa revista.

[00:15:27] Onde o senhor dizia que hoje em dia existe essa ideia

[00:15:31] de que não deve-se decorar as coisas,

[00:15:33] mas que na verdade o senhor acha que sim, que tem uma parte…

[00:15:36] É uma parte que só se aprende decorando a letra da música.

[00:15:39] Como você vai lembrar de uma canção se não decora?

[00:15:42] Não existe.

[00:15:43] Não existe.

[00:15:44] Vamos raciocinar a música.

[00:15:48] Tem aprendizados que só decoram.

[00:15:50] Sim, só decoram.

[00:15:52] Uma letra de uma música pode raciocinar o que quiser,

[00:15:54] que não vai aprender.

[00:15:55] Agora, se decora, vai aprender.

[00:15:57] A tabuada não tem como aprender.

[00:16:00] Dois por três são seis.

[00:16:02] E nessa mesma linha de divulgação para educadores,

[00:16:05] o senhor comenta que a formação do cérebro não é imediatamente.

[00:16:10] A pessoa vai crescendo e vai formando algumas áreas,

[00:16:12] e algumas, por exemplo, ligadas à lógica.

[00:16:16] E eu fiquei me perguntando se, por exemplo,

[00:16:18] se eu ensino uma criança na idade de dois anos,

[00:16:21] digamos dois anos de idade,

[00:16:22] quando não está tudo pronto para aprender matemática ainda,

[00:16:24] e se eu começo a ensiná-la a tentar fazer dois mais dois,

[00:16:28] ela não vai aprender, provavelmente.

[00:16:30] Provavelmente não.

[00:16:31] Isso vai ser prejudicial ou vai ser só inútil?

[00:16:33] Vai ser inútil.

[00:16:34] Mas o tempo não é inútil.

[00:16:37] O tempo se utiliza…

[00:16:38] Cada milessegundo do tempo utilizamos para fazer coisas.

[00:16:42] Basicamente para aprender e para lembrar coisas.

[00:16:45] E se perdermos esse tempo, não vamos ter ele de novo.

[00:16:48] Não vamos pegar a criança outra vez vinte anos mais tarde

[00:16:51] ou três anos mais tarde numa fase que vai estar tão maduro

[00:16:54] para conseguir essa coisa.

[00:16:55] Então você diz que vale mais a pena investir nas etapas certas.

[00:16:59] Nas etapas certas.

[00:17:00] Gostaria de aprender a investir.

[00:17:02] E será que existe hoje…

[00:17:04] No Brasil eu acredito que não.

[00:17:06] Que o nosso currículo não leva em conta os conhecimentos da neurociência.

[00:17:11] Mas existe algum país onde isso…

[00:17:13] Onde mais existe isso e mais se usa é Estados Unidos.

[00:17:17] Mas é Inglaterra também.

[00:17:20] Os países de língua e igreja em geral são bons para ensino e para aprender coisas.

[00:17:26] Austrália, Canadá.

[00:17:28] Tem uma tradição nesse sentido muito grande.

[00:17:30] Tem muitos escritores que foram gente de estudo, que valoravam o estudo.

[00:17:34] Toda vez é isso.

[00:17:35] É, tem vários fatores.

[00:17:37] Tem muito conhecimento novo na área de neurociência.

[00:17:39] Uma área que cresceu muito nas últimas décadas.

[00:17:42] E parece que a gente não agrega isso.

[00:17:45] O Brasil é muito conservador.

[00:17:47] O Brasil aprende uma coisa e não quer sair disso nem a pau.

[00:17:51] E fica remoendo a mesma coisa.

[00:17:54] Mas o mundo já avançou.

[00:17:56] Fica guardado nos seus mitos de conhecimento.

[00:18:00] Quando a Karolina falou da história da memória e do uso.

[00:18:03] Isso é uma coisa importante.

[00:18:04] Aparentemente a maior forma de garantir uma boa memória é usar bastante.

[00:18:07] Usar muito.

[00:18:08] Inclusive com a idade.

[00:18:09] Se você não tiver nenhum fisiológico, está garantido.

[00:18:12] Tem enormes exemplos de pessoas extraordinariamente velhas.

[00:18:16] Mais de 100 anos.

[00:18:17] O Nehmeyer, por exemplo.

[00:18:18] Lúcio do hotel final.

[00:18:20] Tem uma questão que as pessoas também esperam resolver as coisas de forma fácil.

[00:18:24] Nós somos uma cultura hipermisticamente.

[00:18:27] Queremos a droga que nos deixe melhorar.

[00:18:29] A Ritalina é um pouco abusada.

[00:18:31] Dessa forma, não é?

[00:18:32] Por isso, sim.

[00:18:33] Mas para a memória.

[00:18:34] É sempre bom dizer.

[00:18:35] Tem alguma droga que você possa tomar que melhore a sua memória?

[00:18:39] Não, tem…

[00:18:41] Que pior é só sabermos.

[00:18:42] Está cheio.

[00:18:43] Que pior é só sabermos.

[00:18:44] Não.

[00:18:45] Neste momento não tem nenhuma que seja confiável.

[00:18:48] A Ritalina pode ter um efeito favorável.

[00:18:49] Como tem, eventualmente, dois embaixo da cocaína.

[00:18:52] Ou uma inyeção de adrenalina teria.

[00:18:54] Mas é de curto prazo, no caso.

[00:18:56] É só de curto prazo também.

[00:18:58] Não tem.

[00:18:59] Não tem nem nada.

[00:19:00] O que tem, sim, é o exercício.

[00:19:01] O exercício da memória através da leitura.

[00:19:04] Isso, sim.

[00:19:05] A leitura e interação social também.

[00:19:06] Acho que é outro elemento.

[00:19:07] Tem um estudo disso muito bom.

[00:19:08] Que eu não me lembro onde está publicado.

[00:19:10] Foi feito…

[00:19:11] Tem dois estudos, na verdade.

[00:19:12] Um feito no Hospital Francês de Buenos Aires.

[00:19:15] E outro feito em Paris.

[00:19:16] No hospital que é meio a mais do Hospital Francês de Buenos Aires.

[00:19:20] Na Salpetria.

[00:19:22] Os estudos mostram isso.

[00:19:23] Análise de uma série de coisas.

[00:19:25] De doenças, demências, memória.

[00:19:27] Em populações grandes.

[00:19:29] Dividem as cidades, por exemplo, de Paris.

[00:19:31] Ou a cidade de Buenos Aires.

[00:19:32] Como um queijo em muitos lugares.

[00:19:34] Então a equipe de fulano vai almejar este bairro.

[00:19:37] Outro a este, outro a este.

[00:19:38] Assim pegam.

[00:19:39] Fazendo um corte, assim.

[00:19:40] Como se fosse uma torta cortada em pedacinhos.

[00:19:43] De fato, os estatísticos chamam de torta.

[00:19:45] Chamam pain.

[00:19:47] Diferentes regiões com todo tipo de população.

[00:19:50] Então tem populações ricas, pobres.

[00:19:52] Gordas, magras, altas, baixas.

[00:19:54] Mulheres, homens.

[00:19:55] Em um número parecido.

[00:19:57] De um determinado pedaço da torta.

[00:19:59] Agora foram ver aí quem são que têm melhor memória.

[00:20:02] Ou menos de menos que isso.

[00:20:03] Geralmente, as pessoas que têm profissões.

[00:20:05] Que eles decidem ler muito.

[00:20:07] Que são, basicamente, só duas profissões.

[00:20:09] Os professores de diversas categorias.

[00:20:11] E os músicos.

[00:20:12] Então esses têm que, né?

[00:20:14] Tem que exercitar.

[00:20:15] E exercita porque vivem disso.

[00:20:17] É o todo para eles.

[00:20:18] Estou a dizer que tem tudo epidemiológico, né?

[00:20:20] Tem um trabalho mais físico.

[00:20:21] Até Barçao e outros.

[00:20:22] Tem pouco tempo para fazer isso.

[00:20:24] Leitura tem que ser sistematizada.

[00:20:26] Quando aprendemos a ler, aprendemos uma série de coisas.

[00:20:29] Truques e regras.

[00:20:30] E existe alguma língua que prioritiga os japoneses

[00:20:34] tenham memória mais longeira?

[00:20:36] Talvez os japoneses.

[00:20:38] E os cinês mandarins, pelo menos.

[00:20:40] Agora aí bate a coisa contra o nacionalismo dos japoneses.

[00:20:43] E dos chineses.

[00:20:44] Isso sustenta um baixo.

[00:20:47] É mais difícil.

[00:20:48] Eles têm que lembrar mais letras.

[00:20:50] Tem que lembrar mais letras.

[00:20:51] São milhares de cronogramas.

[00:20:54] Eu tenho uma curiosidade também com relação.

[00:20:56] Eu tenho ouvido muito falar sobre as bactérias intestinais.

[00:21:00] As gut bacteria.

[00:21:01] Eu tenho ouvido vários artigos sobre isso.

[00:21:03] Que elas têm influência em diversos aspectos do nosso corpo.

[00:21:06] Inclusive, pode mudar nosso humor, por exemplo.

[00:21:09] Tem algum estudo que relaciona essas bactérias intestinais com a memória?

[00:21:13] Não.

[00:21:14] Não.

[00:21:15] Que eu conheça nada a sério.

[00:21:16] O sistema imunitário, sim.

[00:21:17] O sistema imunitário, sim.

[00:21:18] É um sistema de memória.

[00:21:20] Eu sei que eles podem controlar a obesidade.

[00:21:23] É bem impressionante.

[00:21:25] Porque tem um artigo na Scientific America

[00:21:28] que chamava as gut bacteria de o segundo cérebro.

[00:21:32] Fiquei pensando.

[00:21:33] Isso é bem Scientific America.

[00:21:36] Eles exageraram um pouco nas analogias.

[00:21:38] A gente está chegando no final do programa,

[00:21:40] mas ainda temos as perguntas mais gerais

[00:21:43] que as pessoas podem pensar.

[00:21:44] As pessoas gostam de pensar um pouco…

[00:21:45] Você mesmo falasse da história da ficção científica, não é?

[00:21:50] Sim.

[00:21:51] Você está falando muito.

[00:21:52] Por exemplo, o que você acha que é possível no cenário possível?

[00:21:56] Por exemplo, baixar um cérebro como você baixa um arquivo da internet.

[00:21:59] Ou transferir uma mente para uma máquina.

[00:22:02] De momento, eu não vejo nenhuma possibilidade de fazer nada nem parecido com isso.

[00:22:07] Eu também não.

[00:22:08] Mas é bom perguntar porque tem gente que acha que é para amanhã isso.

[00:22:12] Não, não é para amanhã.

[00:22:13] Talvez um século próximo.

[00:22:15] Mas não vai ser este.

[00:22:16] Que já leva 17 anos que ainda nada disso foi sequer pensado.

[00:22:21] Não.

[00:22:22] Porque é interessante a questão de que a gente sabe bastante da memória.

[00:22:26] Já se sabe bastante, mas tem muitos lacunas ainda.

[00:22:29] Muitíssimo.

[00:22:30] De tudo, na verdade.

[00:22:31] Não é só de memória.

[00:22:32] Enfim.

[00:22:33] E eu fico pensando com essa analogia que a gente faz com a inteligência artificial.

[00:22:36] O fato de chamar a memória de computador de memória já é problemático.

[00:22:40] Eu estou com uma curiosidade no seu currículo lá.

[00:22:43] Com essas dois filmes feitos por dois esquerdos.

[00:22:45] Milonga, em 2009.

[00:22:47] E Mesa dos Sonhos, em 2010.

[00:22:49] Eu não tive a oportunidade de ver.

[00:22:51] São dois filmes feitos por um cineasta, um amigo nosso.

[00:22:54] Eu acho que era um personagem válido para filmes.

[00:22:56] Um amigo de um antigo analista muito bom que tinha aqui que faleceu há poucos anos.

[00:23:00] José Uteirao.

[00:23:01] Ele fez os dois filmes.

[00:23:03] E eles versam sobre memória?

[00:23:04] Porque eu estava vendo a Mesa dos Sonhos.

[00:23:06] Me lembra a Mesa dos Sonhos dos Hombros da Sur.

[00:23:09] Do filme do Vino Solara.

[00:23:12] Tem algo a ver?

[00:23:13] Sim, claro que sim.

[00:23:14] Eu tenho mais uma pergunta sobre mais um mito.

[00:23:16] Diz-se que a gente usa 10% da capacidade cerebral.

[00:23:19] Isso é uma verdadeira mentira.

[00:23:20] Alguém soltou isso a correr e percorreu o mundo.

[00:23:23] Mas é mentira.

[00:23:24] A gente tem como medir a capacidade mental.

[00:23:26] Não tem como medir.

[00:23:27] Não tem como medir mal os números de neurônios que tem.

[00:23:31] Mas tem mais células da aglia que de neurônios.

[00:23:34] E, no entanto, quem pensa nos cérebros são neurônios.

[00:23:37] A aglia está ajudando metabolicamente o neurônio.

[00:23:40] Mas a quantidade não é qualidade.

[00:23:42] A quantidade não é qualidade, mas é 80% para 100%.

[00:23:45] Mas tem uma proporção de número de neurônios?

[00:23:48] Digamos que a gente chama de inteligência, entre aspas, de um animal.

[00:23:51] Ah, eu gostei, mas é muito grosseira.

[00:23:53] Por exemplo, o elefante tem um número grande de neurônios.

[00:23:56] É um animal inteligente, sem dúvida.

[00:23:58] Mas não é mais inteligente que o cachorro.

[00:24:00] Que tem bem menos, no caso.

[00:24:02] Que tem muitíssimo menos.

[00:24:04] Então não é linear a questão.

[00:24:06] Acho que a inteligência está relacionada com a massa do cérebro total.

[00:24:09] Mas também a relação dela com o tamanho do corpo.

[00:24:11] Claro.

[00:24:12] Nós temos um dos maiores cérebros em proporção do corpo.

[00:24:14] E pesa só 2% da massa do corpo.

[00:24:16] E faz tudo isso.

[00:24:18] É bem complexa, então, a questão.

[00:24:20] Mas o fato é que não se sabe e você dorme.

[00:24:22] Por exemplo, a mulher tem menos neurônios.

[00:24:24] Cerebro menor e menos neurônios.

[00:24:26] Sim, mas eu acho que são mais inteligentes.

[00:24:28] E a razão de elas serem é porque o corpo é menor na média.

[00:24:31] Só porque ele é proporcional à massa do corpo.

[00:24:33] Não tem nada a ver com…

[00:24:34] Ai, adorei isso.

[00:24:35] Eu concordo com as mulheres.

[00:24:37] A pessoa que eu conheço com mais sacação da realidade.

[00:24:40] Toca isso.

[00:24:41] E além do que elas vivem mais.

[00:24:43] O que prova mais uma vez.

[00:24:44] Vive mais, é.

[00:24:45] Porque a gente é meio tapado.

[00:24:46] Mas deixa pra lá.

[00:24:48] Você fez uma pergunta meio polêmica.

[00:24:50] Que o senhor teria dito que a psicanálise foi ultrapassada pela neurociência.

[00:24:54] Para averiguar coisas novas sobre o cérebro?

[00:24:56] Sim.

[00:24:57] Não é uma ciência psicológica.

[00:24:59] Uma coisa que nem os mais acendrados psicologistas

[00:25:03] ou usariam dizer que é uma ciência.

[00:25:04] Não é.

[00:25:05] Eu, uma arma terapêutica, diria muito deles.

[00:25:08] E é uma forma de conhecer a mente, diria outro deles.

[00:25:11] Agora, é uma forma de conhecer a mente através de analogias.

[00:25:14] Ou supamente subjetiva, em geral.

[00:25:16] Que se baseia em construções claramente ultrapassadas há mais de 100 anos.

[00:25:21] Por exemplo, o ID.

[00:25:23] O inconsciente.

[00:25:24] Os complexos diversos.

[00:25:26] Isso aí não tem uma representação anatômica, fisiológica e real.

[00:25:30] As coisas que a neurociência trata, sim.

[00:25:33] São as coisas que têm uma representação anatômica, fisiológica e real.

[00:25:36] É verdade.

[00:25:37] Esses conselhos surgiram antes da maior parte dos trabalhos de biologia e de neurociência.

[00:25:41] A neurociência começou depois que morreu Freud, na verdade.

[00:25:44] Mas, puramente, existe essa sociedade internacional de neuro psicanálise?

[00:25:47] Onde está o Joseph Ledoux?

[00:25:49] Sim.

[00:25:50] Gente importante.

[00:25:51] Não sei se o Candel também apoia, mas…

[00:25:52] Pode ser.

[00:25:53] Que, digamos, está tentando resgatar o que é resgatável das…

[00:25:56] Muita coisa é resgatável.

[00:25:57] Muita coisa não se usa.

[00:25:58] Muitas coisas do psicanálise entraram na nossa cultura ocidental.

[00:26:01] Muitas coisas.

[00:26:02] Muitíssimas.

[00:26:03] Agora, quem que represente entelequias ou represente realidades…

[00:26:08] Bom, não representa realidades.

[00:26:11] Um neurônio sim representa uma realidade.

[00:26:13] 80 milhões de neurônios, 80 milhões de realidades interligadas.

[00:26:18] Agora, um conceito…

[00:26:20] O inconsciente, por exemplo.

[00:26:22] O que seria o inconsciente?

[00:26:24] Isso foi medido?

[00:26:25] O inconsciente pode…

[00:26:28] Ou o inconsciente, que já implica em um sustentivo, em um objeto de alguma maneira…

[00:26:33] Não existe.

[00:26:35] Agora, existe a forma inconsciente de recordar coisas, ou de guardar coisas…

[00:26:42] Que hoje em dia se chamam mais memórias…

[00:26:45] O resto da humanidade, ou que pessoas que não praticam psicanálise…

[00:26:48] Ou que não acreditam, ou que não gostam…

[00:26:51] O pessoal que faz neurociência, ou medicina em geral, ou psicologia em geral…

[00:26:55] Do qual é inclusivo, da forma terapêutica…

[00:26:57] A psicologia já não é isso que era mais importante.

[00:26:59] O mais importante é a terapia cognitivo-comportamental.

[00:27:01] Isso de muitas formas.

[00:27:03] O número de pacientes atendidos…

[00:27:05] É outra coisa.

[00:27:06] O mundo virou um pouco mais materialista sem nenhuma dúvida.

[00:27:10] Depende mais de…

[00:27:11] Não há dúvida disso.

[00:27:12] Depende mais do que se sabe sobre forma e função dos diversos tecidos de órgãos.

[00:27:18] Depende mais disso.

[00:27:20] Melhoramos a expectativa de vida do mundo.

[00:27:24] Melhoramos, nada menos que isso.

[00:27:25] No início de um século atrás, nos primeiros anos do século XX…

[00:27:30] Os seres humanos viviam 20 e poucos anos.

[00:27:33] Agora, no Brasil, que não é o país melhor alimentado…

[00:27:38] 70 e cerca, média.

[00:27:40] A diferença é gigantesca.

[00:27:42] Em poucas décadas.

[00:27:43] Em pouquíssimas décadas.

[00:27:44] Sim, meus avós não chegaram aos 70.

[00:27:46] Não, claro.

[00:27:47] Os avós.

[00:27:48] E era uma gente que considerava que vivia muito para a época.

[00:27:51] Não, não.

[00:27:52] Eu vou chegar aos 80 daqui a poucos meses.

[00:27:55] E é uma barbaridade.

[00:27:56] Eu não sei nem como chegar aí para chegar.

[00:27:58] Enfim, com a cabeça bem ainda.

[00:28:00] Dá para manter uma conversa, dá para…

[00:28:02] Uma memória.

[00:28:03] Memória.

[00:28:04] Mas o senhor usou bastante, né?

[00:28:06] Sim, eu uso o tempo todo.

[00:28:09] Mércio, o que você considera a grande pergunta da neurociência hoje?

[00:28:13] Não sei se tem a grande, mas tem muitas grandes.

[00:28:15] Por exemplo, tem sobre o funcionamento neuronal respondido de uma maneira mais inesperada, né?

[00:28:20] Que os, assim chamados, mistérios do funcionamento neuronal, neurônio por neurônio,

[00:28:26] tenham sido esclarecidos, ou estejam sendo esclarecidos pela optogenética,

[00:28:30] ninguém teria sonhado com isso no início do ano 2005.

[00:28:33] Aí apareceu 10 ou 12 outras pessoas.

[00:28:36] E as técnicas de imaginamento para examinar o encéfilo humano, assim, em atividade,

[00:28:40] estão também sacudindo.

[00:28:41] Ainda estão na infância, mas…

[00:28:43] Está na infância, mas está indo, né?

[00:28:45] Está avançando rápido.

[00:28:47] Por exemplo, as memórias já sabemos onde estão e como se guardam, mais ou menos.

[00:28:52] Falta saber isso bem e determinar em uma molécula ou conjunto de moléculas

[00:28:56] que coisas que levam a memória mesmo, não sei.

[00:28:58] Isso ainda está muitíssimo defraudo ainda, né?

[00:29:02] Falta muito…

[00:29:03] E eu levo uma outra pergunta.

[00:29:04] O conhecimento disso não abre um risco de um uso distorcido?

[00:29:08] Por exemplo, para manipular mentes, como você pergunta.

[00:29:10] Todo conhecimento abre um risco distorcido.

[00:29:12] Todo conhecimento.

[00:29:13] Como é que a gente impede isso de ser mal usado?

[00:29:16] Amorado é uma coisa externa, o conhecimento.

[00:29:18] Mas enfim, entendo nesses outros assuntos, eu queria agradecer, então…

[00:29:21] Eu quero agradecer a vocês porque me refrescaram muitas coisas na cabeça.

[00:29:25] Não, foi muito divertido.

[00:29:26] E essa integração.

[00:29:27] E eu vou conversar com vocês também.

[00:29:28] Essa troca, eu tenho certeza que os ouvintes vão gostar muito.

[00:29:30] Então eu queria agradecer, Mestre, então, a sua paciência com a gente e tal.

[00:29:34] Ora, tu que tem duas filhas, tu não acha que as mulheres são mais sacadoras que…

[00:29:39] Eu não tenho dúvida nenhuma.

[00:29:40] Eu não tenho dúvida nenhuma.

[00:29:41] Elas mesmas sacam sempre.

[00:29:42] Sacam sempre.

[00:29:43] Não, eu não tenho chance em casa com três mulheres.

[00:29:45] Não, não.

[00:29:46] Três.

[00:29:47] Três juntas.

[00:29:48] Mas eu sou feliz.

[00:29:49] Isso que importa.

[00:29:50] Então, o programa de hoje nós começamos com o Solivã Esquerdo.

[00:29:51] A segunda parte é um programa sobre memória.

[00:29:53] Estivemos aqui conversando com a Carolina Brito, do Instituto de Física da URGES.

[00:29:56] E eu, Jorge Quilfield, do Departamento de Biofísica, do IB da URGES.

[00:30:00] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES.

[00:30:10] O programa de hoje nós começamos com o Solivã Esquerdo.