AntiCast 304 – Queermuseu: Arte e Moral


Resumo

O episódio discute a polêmica em torno da exposição “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, realizada no Santander Cultural de Porto Alegre em agosto de 2017 e fechada precocemente após uma campanha de pressão liderada pelo Movimento Brasil Livre (MBL). Os participantes – o host Ivames Azuki, os artistas e teóricos Marcos Beccari e Gustavo Dias, e a artista e estudante Clarice Senna – analisam o conteúdo da mostra, que reunia 270 obras de 85 artistas com temáticas LGBTQIA+ e de gênero, e rebatem as acusações de apologia à pedofilia e zoofilia que viralizaram nas redes sociais.

A conversa detalha obras específicas que foram alvo de críticas, como “Cena de Interior” de Adriana Varejão e as fotos do projeto “Criança Viada”, contextualizando-as dentro da história da arte e da teoria queer. Os participantes concordam que a reação foi desproporcional e baseada em uma leitura distorcida e moralista das obras, destacando que o próprio Ministério Público não encontrou violações ao Estatuto da Criança e do Adolescente. A análise critica fortemente a atitude do Santander em ceder à pressão e fechar a exposição, caracterizando-a como um ato de censura.

O debate se expande para uma crítica ao MBL, entendido não como um movimento espontâneo, mas como um sintoma de uma agenda política conservadora e de think tanks liberais que buscam deslegitimar o financiamento público da cultura. Discute-se o papel da Lei Rouanet, explicando seu mecanismo de renúncia fiscal e sua importância vital para a produção cultural brasileira, rebatendo o argumento falacioso de que os recursos poderiam ser direcionados para outras áreas.

Por fim, o episódio traça um paralelo histórico entre a polêmica do Queermuseu e outros momentos de censura e reação conservadora na arte, desde o Salão dos Recusados dos impressionistas até as performances do grupo Fluxus e a pintura realista de Gustave Courbet. A conclusão enfatiza que a arte, por seu caráter simbólico e político, sempre será um campo de disputa, e que a reação violenta do MBL revela um “recalque” frente à diversidade e à contestação de normas sociais heteronormativas.


Indicações

Artistas

  • Adriana Varejão — Artista brasileira cuja obra ‘Cena de Interior’ (1994) foi uma das mais atacadas na polêmica, erroneamente acusada de apologia à zoofilia.
  • Lygia Clark — Artista brasileira mencionada porque uma de suas obras foi usada em um vídeo fake do deputado Carlos Bolsonaro para acusar a exposição de fazer ‘experiências táteis’ com crianças.
  • Gustave Courbet — Pintor realista francês do século XIX citado por Gustavo Dias como fundador da arte moderna, cuja obra ‘L’Atelier du peintre’ foi recusada pelo salão por colocar um tema cotidiano em uma tela de grande formato, reservado para temas históricos.
  • Criança Viada — Projeto artístico/blog que reunia fotos de infância de pessoas LGBTQIA+, citado como exemplo de como uma obra de acolhimento foi deturpada como apologia à pedofilia.

Books

  • Modos de Ver — Livro de John Berger citado por Beccari, que analisa como a arte ocidental, especialmente a nudez feminina, espelha um ‘modo de ver’ masculino e patriarcal.

Movimentos

  • Guerrilla Girls — Coletivo de artistas feministas que nos anos 80 denunciavam a sub-representação das mulheres nos museus, citado como precedente histórico da crítica à visão masculina na arte.
  • Fluxus — Movimento de arte conceitual dos anos 60/70 citado por Beccari, exemplificado pela performance de John Layton, que mastigou e fermentou um livro de crítica de arte.

Teóricos

  • Judith Butler — Teórica da performance de gênero e uma das fundadoras da teoria queer, mencionada como referência fundamental para a curadoria da exposição.
  • Paul (Beatriz) Preciado — Teórico/a queer e da filosofia do corpo, citado como uma das referências mais diretas para a transexualidade dentro da teoria que embasou a exposição.
  • Berenice Bento — Teórica brasileira e pesquisadora dos estudos de gênero e transexualidade, também mencionada como referência para a curadoria do Queermuseu.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução à polêmica do Queermuseu — Ivames Azuki apresenta o episódio e o tema central: a exposição Queermuseu no Santander Cultural de Porto Alegre, fechada após pressão do MBL. Ele apresenta os participantes – Marcos Beccari, Gustavo Dias e Clarice Senna – e adianta que ninguém do programa é a favor de pedofilia, mas que a crítica se baseia em uma deturpação hipócrita das obras. O promotor responsável já havia averiguado que não havia violação ao estatuto da criança.
  • 00:08:54Primeiras impressões sobre a exposição — Gustavo Dias e Clarice Senna, que visitaram a exposição, dão suas primeiras impressões. Gustavo destaca a coragem do curador Gaudêncio Fidelis em abordar o tema queer, mas avalia que a mostra era uma “bomba-relógio” por unir arte, gênero e sexualidade em um espaço institucional. Clarice discorda em parte, apontando que o recorte oficial da mostra era mais conservador do que a exposição real, que tinha uma visão bastante masculina e muita representação fálica.
  • 00:23:06Análise das obras mais polêmicas — Os participantes analisam as obras que mais causaram polêmica, como “Cena de Interior” de Adriana Varejão (acusada de zoofilia) e as imagens do projeto “Criança Viada” (acusadas de pedofilia). Eles explicam o contexto dessas obras: a pintura da Varejão é uma referência à pintura de costumes do século XIX, e o “Criança Viada” era um blog que reunia fotos de infância enviadas voluntariamente por pessoas LGBTQIA+. A crítica é vista como um reflexo do preconceito de quem a faz.
  • 00:38:01A censura e o papel do Santander e do MBL — Discute-se quem foi o maior responsável pelo fechamento da exposição. Ivames e Gustavo apontam o Santander por ceder à pressão, um ato de censura. Clarice e Gustavo também criticam a falta de preparo do curador e da instituição para a reação previsível. A conversa então se volta para a estratégia do MBL, vista como uma ação articulada e não espontânea, com vínculos com a prefeitura de Porto Alegre, que usa o moralismo para uma agenda política mais ampla de estado mínimo.
  • 01:00:04A falsa simetria e a defesa da arte — Em resposta a uma pergunta de um ouvinte sobre se defenderiam uma exposição com violência contra mulheres, Clarice e Beccari refutam a falsa simetria. Eles argumentam que a religião cristã, uma instituição de poder histórica, não se compara à violência real sofrida por mulheres e minorias. A arte mexe no campo simbólico e sua função é colocar coisas em debate. A reação violenta do MBL é um sintoma do desespero em defender uma ‘família tradicional’ que nunca existiu.
  • 01:30:00A Lei Rouanet e o financiamento da cultura — O episódio explica o funcionamento da Lei Rouanet, em resposta aos ataques do MBL sobre o uso de ‘dinheiro público’. É esclarecido que se trata de renúncia fiscal, um mecanismo vital para a cultura brasileira. Discute-se os abusos da lei (como shows de grandes artistas), mas defende-se sua essência para viabilizar a produção artística independente. O ataque à Rouanet é entendido como parte de uma agenda política que visa acabar com o financiamento público.
  • 02:08:07Polêmicas históricas na arte e conclusões — Os participantes compartilham suas polêmicas favoritas na história da arte, como a degustação do livro de Clement Greenberg por John Layton, a censura à exposição de Márcia X, a Sagração da Primavera de Stravinsky e o realismo de Gustave Courbet. A conclusão é que a arte sempre provocou reações. Beccari defende que a melhor resposta ao conservadorismo é produzir mais arte. O episódio termina com agradecimentos e divulgações dos trabalhos dos participantes.

Dados do Episódio

  • Podcast: AntiCast
  • Autor: HD1
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2017-09-13T23:47:12Z
  • Duração: 02:48:08

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] E aí, pessoal, aqui é o Ivames Azuki, esse é o Anticast número 304 Queer Museu Arte

[00:00:18] Imoral.

[00:00:19] Então, vamos falar sobre a tal polêmica que rolou lá do Santander Cultural em Porto

[00:00:25] Alegre neste final de semana, né?

[00:00:29] Foi no dia 10 de setembro, pelo menos, que eu fiquei ouvindo, mas a gente, enfim, tem

[00:00:34] um monte de matéria aí no link explicando a treta toda, a gente vai dar uma geralzona

[00:00:38] também.

[00:00:39] E pra participar do programa, fui eu, o Beccari, o Gustavo Dias, aí, duas figuras que estão

[00:00:47] sempre aí nos Anticasts de Arte, porque são excelentes pintores e teóricos da arte,

[00:00:52] e a convidada Clarice Senna, de Porto Alegre, que visitou a exposição, ela também é

[00:00:58] artista, ela está fazendo bacharelada em História da Arte, então, enfim, foi uma

[00:01:05] discussão aí bem legal, três horas de discussão pra gente poder esmiuçar vários dos pontos

[00:01:12] aqui.

[00:01:13] Então, assim, vamos lá, alguns recadinhos antes, tá, pra explicar.

[00:01:19] A Clarice não estava com áudio 100%, então o áudio dela, sempre que ela fala, tem um

[00:01:25] chiadinho, eu tentei melhorar o máximo possível aqui na edição.

[00:01:29] O Gustavo também tava com o seu microfone, tava com um microfone diferente, e daí não

[00:01:37] tava 100% também, mas dá pra ouvir de boa, não é nada, assim, que afete tanto, e, assim,

[00:01:44] a gente não chegou a deixar, a falar tão explicitamente, mas eu vou aproveitar a introdução

[00:01:50] pra falar muito claro, ninguém aqui é a favor de pedofilia ou zoofilia ou acabar com

[00:01:57] a infância das criancinhas ou qualquer coisa do tipo, tá, o problema é outro, o problema

[00:02:04] é que justamente estão deturpando todo o sentido da exposição e de uma forma absurdamente

[00:02:11] hipócrita, o ponto principal talvez é que nessas obras não tinha nada que fosse contra

[00:02:18] o estatuto da criança adolescente, como os próprios promotores do Ministério Público

[00:02:22] do Rio Grande do Sul averiguaram quando visitaram a exposição nessa última segunda-feira,

[00:02:26] dia 11 ou 12, na terça-feira, então, bom, sei lá, vai que na cabeça do MBL os promotores

[00:02:37] são petistas, são comunistas, sei lá, né, daí, paciência, daí, nesse mundo eu já

[00:02:45] não sei mais o que pensar, mas eu acho que é sempre bom lembrar que um dos membros fundadores

[00:02:50] do MBL, do Movimento Brasil Livre, né, ele era da banda Bond do Rolê, que tá longe

[00:02:57] de ser uma banda que possui letras que prezam pela moral cristã e, inclusive, uma das reclamações

[00:03:03] que eles fizeram é que, ó, mas a exposição tem imagens de Jesus e não sei quê, imagens

[00:03:10] Bom, tem clipe do Bond do Rolê em que, entre aspas, desrespeita a imagem de Cristo, porque

[00:03:17] já que isso é proibido, então, né, eu gostaria de saber o que o pessoal do MBL pensa sobre

[00:03:22] um dos próprios fundadores, e, ah não, mas o problema foi financiamento público, a

[00:03:28] gente vai discutir isso bastante também, mas também é bom lembrar o Bond do Rolê

[00:03:32] tocou em festival de música que tinha financiamento público, eu vou deixar os links pra isso

[00:03:39] na postagem, tá, porque de repente você quer se informar melhor também, acho que

[00:03:44] é bom, apesar que a gente tá falando coisas que pra pessoas que deveriam ouvir não são

[00:03:51] as pessoas que estão interessadas em fatos, mas tudo bem, né, a gente tá fazendo o nosso

[00:03:56] papel aqui dentro, então a gente vai falar sobre arte, tabus, modernismo, teoria da arte,

[00:04:02] política, conservadorismo, financiamento público por eventos culturais e vai longe

[00:04:07] Então, como falei, três horas de discussão, fala de polêmicas da arte e tal, tão super

[00:04:11] bacana, então, antes de começar o programa, só dando aquele recadinho de sempre também,

[00:04:15] seja patrão do Anticast, se você gosta do nosso trabalho, se você quer contribuir de

[00:04:18] alguma forma, acesse Anticast.com.br, lá em cima tem o botão Seja Patrão, e daí você

[00:04:23] tem lá as modalidades de como você pode contribuir mensalmente pra que a gente possa

[00:04:27] continuar fazendo os nossos podcasts, o Anticast, o Não Obstante, o Bekary, o Visualmente,

[00:04:34] que é sobre design, publicidade, comunicação, o Não Obstante do Bekary, ele é de filosofia,

[00:04:40] o Visualmente, quem toca é o Almir, o Ricardo e o Ankara, o Feito por Elas, que é sobre

[00:04:46] cinema produzido por mulheres, o Projeto Humanos, que volta, que estou na produção aí, a gente

[00:04:51] tá nesse ato aí, mas já tá engatilhado aqui pra quando rolar, o Salva o Melhor Juiz

[00:04:58] do Thiago Hansen, que é sobre direito, teoria do direito, história do direito, enfim,

[00:05:03] um programa melhor que o outro, e obviamente o É Pau, É Pedra também, que é o podcast

[00:05:07] produzido pelos nossos patrões, que se encontram todos lá na Cracóvia, o nosso grupinho

[00:05:12] fechado no Facebook, que você tem acesso quando vira patrão, então, pra saber mais

[00:05:16] sobre isso, acesse Anticast.com.br e clique lá em Seja Patrão.

[00:05:21] É isso, a introdução já tá gigantesca, e o programa tá maior ainda, eu espero que

[00:05:24] vocês gostem, e qualquer coisa manda ali um comentário, ou enfim, reza, é o que resta

[00:05:30] hoje pra nós, se você é cristão, é o que nos resta, ou sei lá, seria bom aprender

[00:05:37] um pouco de arte também, enfim, mas a gente vai discutir tudo isso, e é isso, fique agora

[00:05:42] com o programa.

[00:05:48] Começando mais um Anticast aqui pra chutar cachorro morto e falar sobre toda a polêmica

[00:05:54] que rolou lá do Santander Cultural, e estamos aqui com o nosso time de artes, que há muito

[00:06:01] tempo não se juntava, estamos aqui, nosso querido Marcos Beccari, pintor aí, internacionalmente

[00:06:08] reconhecido agora, tudo bom Beccari, que saudade.

[00:06:13] Tudo bem, boa noite a todos, obrigado pelo convite, tava com saudade mesmo, eu queria

[00:06:18] já antecipar que infelizmente eu tô por fora desse assunto, então tô aqui só pra matar saudade

[00:06:25] mesmo.

[00:06:26] Tá, beleza, mas sem problema, porque o assunto vai passar rápido, acredito eu, e daí então

[00:06:33] além do Beccari, temos aqui o nosso outro especialista em arte, que também há muito

[00:06:36] tempo não participava, Gustavo Dias, tudo bom Gustavo, como é que você tá querido?

[00:06:40] É verdade, tudo bem, obrigado também pelo convite, queria só fazer uma observação,

[00:06:45] a última vez que eu tive um ano atrás, eu acho, o Beccari era assim, era uma coutelista

[00:06:52] promissor, uma promessa na quarela brasileira, depois ele já tem um reconhecimento aí que

[00:06:59] tem, é incrível, mas obrigado Gustavo.

[00:07:02] É isso aí, lembra quando ele era um mero aluno ali no Mimeses, né Gustavo?

[00:07:08] Exato.

[00:07:10] Então, beleza, e temos aqui uma convidada extra ante o Nutcast, é a Clarice Sena, tudo

[00:07:16] bom Clarice?

[00:07:17] Eu vou pedir pra que você já seja presente também, fala aí pra galera como é que você

[00:07:21] faz a vida e seja bem-vinda.

[00:07:22] Opa, obrigada, eu faço bacharel em história da arte aqui na URX, e trabalho bastante

[00:07:31] com colagem e com ilustração, aqui em Porto Alegre, e é mais ou menos isso.

[00:07:38] Ah, beleza, mas o trabalho da Clarice em colagem é muito bacana, vou deixar o link

[00:07:43] na postagem pra todo mundo ver.

[00:07:45] Como você definiria seu estilo aí, Clarice?

[00:07:50] Olha, eu definiria por coisas que pessoas disseram pra mim, e geralmente vêm as palavras

[00:07:57] psicodélico e intimista, mas vamos manter a humildade, mas é mais difícil.

[00:08:04] Maravilha.

[00:08:05] Qual que é o teu site com suas obras?

[00:08:09] Eu tenho um BNZ, e você pode acessar o bnz.net barra Zena com dois Zs.

[00:08:17] Zena com dois Zs, então beleza.

[00:08:21] O link tá na postagem também pra quem quiser ver, mas de qualquer forma é só pro pessoal

[00:08:27] dar uma olhadinha depois.

[00:08:29] Pode também mandar todos os seus links aí, Clarice, que daí a gente vai linkar tudo que

[00:08:34] precisar.

[00:08:36] Gente, acho que é bom, então, dizer a Clarice é de Porto Alegre, onde toda a confusão

[00:08:41] aconteceu, o Gustavo tá morando em Porto Alegre também, né?

[00:08:44] Então, a Clarice foi pra exposição, certo, Clarice?

[00:08:50] Certo.

[00:08:51] Certo, e o Gustavo também visitou, correto, Gustavo?

[00:08:54] Eu estive, eu estive.

[00:08:57] Alguém aí foi no dia da abertura?

[00:09:01] Não, eu fui depois.

[00:09:02] Foi depois?

[00:09:03] Eu fui depois.

[00:09:04] Foi depois.

[00:09:05] Vamos lá, então, Clarice, você lembra quando que abriu e quando que você foi?

[00:09:12] Abriu, acho que no meio de agosto, se eu não me engano, e acho que eu fui uma semana

[00:09:19] depois, mais ou menos, não muito depois disso, até porque a própria exposição

[00:09:25] já começou polêmica, porque um grupo de artistas aqui da cidade fez uma intervenção,

[00:09:33] uma performance, digamos assim, na abertura da exposição, em que eles jogaram do alto

[00:09:39] do prédio, assim, do Santander Cultural, ele tem dois andares, e eles jogaram dentro

[00:09:44] da exposição vários papéis falando sobre estatísticas da comunidade LGBT e que aconteciam

[00:09:52] muitas agressões, acontecem agressões no país, gente morrendo e tal, e que era de certa

[00:09:58] hipócrita, está fazendo uma exposição sobre isso, enquanto as pessoas estavam morrendo

[00:10:03] lá fora.

[00:10:04] Então, já começou nesse clima, e muito por causa disso, fiquei interessada em ir.

[00:10:14] Então, ou seja, já começou, mas assim, começou com a polêmica de artista com artista,

[00:10:19] que é uma segunda-feira normal, assim, então, não tem nada de novo aqui, assim.

[00:10:27] Eu estava falando com o Gustavô, hoje mais cedo, a gente estava combinando de vir gravar,

[00:10:32] e o Gustavô fez alguns comentários interessantes, então, Gustavô, queria que você falasse

[00:10:36] assim, você que é um artista e tem também, eu sei que… Alia, só uma curiosidade, a

[00:10:44] Clarice gosta de arte moderna e contemporânea?

[00:10:47] Sim, bastante.

[00:10:49] Porque o Beccari não gosta e o Gustavô também não, então vai ser legal.

[00:10:55] Não é bem assim, não é bem assim.

[00:10:59] São eles que não gostam da gente.

[00:11:01] Exatamente.

[00:11:07] Bom, para ser o mais breve possível, eu não tenho nada contra a arte moderna, abstrata,

[00:11:14] eu tenho até amigos que são, né?

[00:11:17] Eu tenho até amigos.

[00:11:22] Mas na realidade é só que eu não trabalho com isso, e na verdade eu acho que o que eu

[00:11:29] sou contra, precisamente, é quando não se aceita coisas ultrapassadas como o realismo,

[00:11:38] né?

[00:11:39] Eu acho que eu devia ter espaço para tudo.

[00:11:41] Certo.

[00:11:42] Você quer expor no museu de arte moderna, então, basicamente, é Beccari.

[00:11:46] Não, não é um sonho de infância.

[00:11:50] Tá certo.

[00:11:51] Mas eu não negaria.

[00:11:52] Você seria o único que seria compreensível lá dentro, provavelmente, né?

[00:11:56] Então faz sentido.

[00:11:58] Tá, vamos lá.

[00:11:59] Brincadeiras à parte, Gustavô, eu considero que você desse, assim, um geralzão da sua

[00:12:06] avaliação da exposição, independente das polêmicas, né?

[00:12:11] Você como artista, como teórico, o que você achou da exposição quando você viu?

[00:12:19] Não, então, essa exposição começou dia 18 de agosto, Ivan, e ela tá fechando agora, né?

[00:12:24] E iria ficar até 18 de outubro.

[00:12:27] Então ela tá até 8 de outubro.

[00:12:29] Então ela tá fechando quase um mês antes, né?

[00:12:31] O que eu acho, assim, antes de tudo, eu acho que isso, pra abordar na melhor forma a exposição,

[00:12:40] Ivan, eu acho que teria que ser alguém, assim, que tenha um conhecimento mais profundo da

[00:12:45] teoria queer.

[00:12:46] No meu caso, eu não tenho esse conhecimento, né?

[00:12:49] Claro que a gente conhece um pouco, se informa minimamente, mas eu não tenho a profundidade

[00:12:55] do conhecimento da teoria.

[00:12:59] De qualquer forma, essa abordagem, eu acho que ela tem que vir, assim, com muita cautela,

[00:13:06] muita calma, especialmente muita seriedade, muita responsabilidade.

[00:13:11] Porque é uma discussão delicada que envolve direito de outras pessoas, de minorias já excluídas,

[00:13:19] histórica e tradicionalmente, envolve opressão de gênero, relações de afetividade,

[00:13:26] quer dizer, se trata ali da circunscrição do direito de liberdade das pessoas, né?

[00:13:33] Então, tudo isso tem que ser discutido, assim, com muita seriedade.

[00:13:36] Eu desde já repudio aquela infinidade de comentários nas redes sociais, né?

[00:13:45] Que são, assim, irresponsáveis, levianos, que as pessoas respondem a partir da sua compreensão

[00:13:50] de pós-verdade do assunto, movida por afetos imediatos, pelo que foi escrito antes.

[00:13:57] Acho isso uma total falta de respeito.

[00:13:59] Não gostaria, claro, que nós não discutiremos aqui nesse nível, né?

[00:14:04] Tendo em vista justamente essa questão que é muito delicada.

[00:14:08] E ali, assim, eu fiz a cagada de ler os comentários.

[00:14:15] Não tudo, claro, impossível, humanamente impossível.

[00:14:19] Até porque metade daquele eu acredito que seja um robô.

[00:14:22] Automáticos, né? Não são pessoas escrevendo pela velocidade.

[00:14:26] Mas, enfim, eles são o que eu acho que é mais interessante, mais importante a se discutir.

[00:14:32] A mostra em si…

[00:14:34] Eu fui, visitei a mostra, participei também de uma palestra da artista Ana Norogrando,

[00:14:40] onde estavam presentes lá o curador, que é o Gauden Sofidelis.

[00:14:44] Acho que ele teve muita coragem de abordar esse tema.

[00:14:49] É uma coisa que ninguém quer mexer.

[00:14:52] É muito difícil o tema em si e ainda mais organizar uma exposição daquele porte,

[00:14:57] uma exposição gigantesca, né?

[00:14:59] Tinha 270 obras e 85 artistas envolvidos.

[00:15:03] E ele fez isso.

[00:15:04] Só que, assim, a exposição é uma bomba-relógio, porque ela dá um curto circuito.

[00:15:12] Ela faz ao mesmo tempo que está trabalhando com arte, que é a expressão pública e política.

[00:15:18] A arte é política.

[00:15:20] Por mais alienado que o artista deseje, sonhe ser trancado no seu ateliê produzindo,

[00:15:26] ele é política, tanto mais num espaço institucional legitimado e legitimador como Santander Cultural.

[00:15:34] Para quem não conhece aqui em Porto Alegre, o Santander fica na Praça da Alfândega.

[00:15:38] É o miolo do centro histórico da cidade.

[00:15:41] Quer dizer, ela está no centro, no coração do centro.

[00:15:44] Então, o que se expõe ali é imediatamente político.

[00:15:47] E o curto circuito se dá, porque ali o Gaudencio, o curador, uniu a arte a gênero e sexualidade.

[00:15:54] Isso é o oposto.

[00:15:55] Quer dizer, questões de fora o íntimo, questões que envolvem a subjetividade das pessoas, etc.

[00:16:00] Quando você junta tudo isso, você tem ali uma bomba-relógio esperando para explodir.

[00:16:05] Perfeito.

[00:16:06] Eu vou até segurar um pouquinho o teu comentário, Gustavo,

[00:16:09] porque eu sei que te perguntei sobre a tua avaliação da exposição.

[00:16:13] Acho que antes você deu um gancho legal de que é primeiro contextualizar a própria exposição.

[00:16:21] Eu vou mandar para vocês aqui um link que até agradeço o meu seguidor, o Cauê Mópezil.

[00:16:31] O que aconteceu?

[00:16:33] Quando começou a estourar toda a confusão,

[00:16:36] a primeira coisa que eu queria saber era, eu quero ver o catálogo.

[00:16:40] Porque eu não tenho como formar uma opinião sobre qualquer coisa.

[00:16:45] Tava todo aquele fervor de zoofilia, pedofilia, não sei o quê.

[00:16:50] Eu não tinha como tirar qualquer conclusão sem ver o catálogo.

[00:16:54] O catálogo, até o momento que eu vi, não é acessível digitalmente.

[00:16:59] Acho que algumas pessoas conseguiram comprar e parece até se esgotou.

[00:17:02] A gente vai ver sobre isso depois.

[00:17:04] É de graça.

[00:17:05] É de graça?

[00:17:06] Porque eu estou tão rápida.

[00:17:07] Então foi.

[00:17:08] Eu fui tentar pegar hoje de manhã e estava esgotada.

[00:17:11] Então agora virou item de raridade.

[00:17:14] Mas o Cauê Mópezil, ele que manja dos Paranauê, porque isso aí foi por editar o público,

[00:17:22] lei Rouanet, que a gente vai falar depois sobre isso.

[00:17:24] Mas eu já adianto que é uma coisa normal, de novo, é uma segunda-feira comum para exposições desse porte.

[00:17:33] E isso aí são arquivos públicos.

[00:17:36] E daí ele mandou lá para mim a sinopse relação preliminar de obras e também mandou…

[00:17:42] Esse é o link que eu mandei para vocês aí.

[00:17:44] Está na postagem para quem quiser ver.

[00:17:47] E também tem um estudo preliminar de cenografia que eu posso mandar para vocês daqui a pouquinho.

[00:17:51] Já pego o link aqui.

[00:17:53] Mas nessa relação de obras preliminares, é basicamente o projeto que ele estava mandando,

[00:17:59] dizendo assim, qual que vai ser a ideia?

[00:18:01] E o Gustavo citou que foram 270 obras expostas.

[00:18:05] Isso aqui é um documento PDF de 21 páginas, sendo que cita 20 obras.

[00:18:11] Entre elas, algumas que foram as mais polêmicas.

[00:18:14] Só uma parte, né?

[00:18:16] É, só uma parte.

[00:18:17] Mas nessa primeira página tem a sinopse.

[00:18:19] Então acho que é legal dar uma lida para o pessoal sacar, se vocês quiserem acompanhando enquanto eu vou lendo aqui.

[00:18:26] O nome da exposição, Queermuseu.

[00:18:30] Queer, que daí vem toda essa temática da teoria Queer, que está ligado com questões de gênero.

[00:18:38] Que Queer em inglês é o estranho, né?

[00:18:40] E Queer daí, principalmente questões de transexualidade entram aqui bastante e novas definições de gênero.

[00:18:46] Então o subtítulo é Cartografias à Diferença na Arte Brasileira.

[00:18:50] Aí, título, Queermuseu, isso aí e tudo.

[00:18:53] Local Santander Cultural, Curadoria Gaudêncio Fidelis, período 2017.

[00:18:56] Então, sinopse, que é o que importa.

[00:18:58] Queermuseu é uma exposição que busca explorar a diversidade na arte e na cultura contemporânea

[00:19:03] através de um conjunto de obras que percorrem um arco histórico de meados do século XIX até a contemporaneidade.

[00:19:09] Abolindo a cronologia, adotando uma série de mecanismos de justa posição que possibilitam o confronto entre obras de períodos diversos,

[00:19:16] Queermuseu busca uma equivalência entre a realidade das obras e aquela da vida contemporânea através de uma abordagem sobre diversas questões de gênero.

[00:19:24] Exposições possibilitam que experienciemos os diversos paralelos entre a arte, seu potencial criativo e o universo da cultura.

[00:19:31] Dentro deste universo, as obras de arte nos mostram que a diversidade expressa na constituição da diferença com a alteridade

[00:19:38] surge refletida na estruturação do cânone artístico e como ele é estabelecido pela academia e pelo museu.

[00:19:44] Desta forma, Queermuseu é um museu provisional, um entre aspas museu sem paredes, para citar André Malraux,

[00:19:52] onde a inclusão é exercida para além dos parâmetros restritivos do cânone artístico, geralmente excludente e discricionário.

[00:20:00] Para essa plataforma curatorial, a escolha das obras será realizada levando-se enquanto aos aspectos artísticos, culturais e históricos do objeto,

[00:20:09] buscando assinalar sua contribuição para o espectador contemporâneo.

[00:20:13] Aqui continua mais uns dois parágrafos do meu tamanho, aqui meio grande, mas o geral é que assim, nada de diferente nessa sinopse aqui também,

[00:20:22] é uma típica sinopse de projeto de exposição.

[00:20:28] Então assim, de novo, está tudo dentro dos conformes, sem problema nenhum, e daí acontece a exposição,

[00:20:37] daí rola toda a comoção, que a gente vai falar daqui a pouquinho sobre ela, o desenvolvimento do MBL,

[00:20:43] e agora vai ter obras para citar algumas que estão aqui.

[00:20:48] Tem Flávio Cerqueira, Alair Gomes, Reinaldo Fonseca, Adriana Varejão, que a obra dela deu um fusuê do cacete,

[00:21:00] Nelson Faedriche, Sandro K, Ligia Clark, Flávio Morchi, Romulo Vieira Conceição, Silvia Giordani, são nomes grandes assim.

[00:21:14] Fala aí, Gustavo.

[00:21:16] É que são muitos artistas que o Gaudencio mistura ali até um pouco descontextualizadamente, talvez,

[00:21:24] são artistas do passado, são artistas históricos, mortos, com artistas agora contemporâneos, produzindo aqui em Porto Alegre, como o Sandro K, etc.

[00:21:35] A mostra em si é muito complexa de se analisar.

[00:21:40] Ela inclusive, acho que talvez, claro que merece uma análise, uma grande exposição, é a maior exposição já feita no Santander cultural aqui de Porto Alegre,

[00:21:49] mas seria muito difícil a gente fazer todos os dados para fazer uma análise assim, bem feita dela.

[00:21:58] Talvez ela não fosse, nem na minha opinião pessoal, o que a gente conhece, as questões de gênero e um pouquinho da teoria de Butler, que é a teoria TIR,

[00:22:11] eu acho que a exposição até peca um pouco em vários aspectos.

[00:22:15] O fato é, ela também não tem uma contundência tamanha.

[00:22:20] Eu fui assistir a exposição, a Clarice, acho que talvez tenha a mesma opinião.

[00:22:25] A gente não se pensava que pudesse ter um impacto tão grande assim, quer dizer, de reação.

[00:22:33] Eu nunca esperaria uma reação daquela exposição, quase como anestesia, nada ali me chamou atenção, nem me chocou, nem achei que tivesse grandes conteúdos ali.

[00:22:43] O que realmente eu acho que deveria ser colocado em pauta, Ivan, até para a gente aproveitar o momento, é a polêmica gerada.

[00:22:51] Sim, sim, mas é que eu queria a opinião de vocês como apreciadores mesmo, porque pelo que você está me falando, Gustavo,

[00:22:59] não era uma exposição que, meu Deus do céu, tirem as crianças da sala e serão chocantes.

[00:23:06] De maneira nenhuma.

[00:23:08] Para você ter uma ideia, acho bom falar isso, porque a obra que aparentemente não é mais citada em comentários nas redes sociais e a que mais causou polêmica,

[00:23:16] foi uma obra da Adriana Varejão chamada Sena de Interior.

[00:23:19] Depois acho que dá para botar a imagem na descrição, está na página 17 do catálogo que você nos mandou aqui.

[00:23:28] É uma imagem de uma tela, um olho sobre tela bem pequenininho, ele tem um por um em 20, pintado em 1994,

[00:23:36] que ela faz ali referência à pintura oriental de costumes de interiores, etc.

[00:23:43] Então tem vários personagens dentro de uma sala, a pintura apagada, estava até meio num canto um pouco escuro,

[00:23:50] até num espaço meio pouco privilegiado, que tem várias cenas ali de sexo, abordando vários tipos de sexualidade, inclusive de perversões, etc.

[00:23:59] E uma das cenas ali são duas pessoas que estão currando um animal que sequer dá para ver o que é.

[00:24:05] Não sei se é uma capra, se é um cachorro, não dá para ver. Eu estive lá e não consegui identificar.

[00:24:09] Quer dizer, é um desenho esquemático quase infantil que é típico da pintura da Varejão na década de 90,

[00:24:16] e é isso que foi a grande obra que eles acham faz alusão à pedofilia e apologia.

[00:24:22] A pedofilia seria aquela que tem as crianças, criança viada, que não me lembro o nome, que não está aqui nesse sinopse.

[00:24:32] Basicamente, essas duas obras que causaram a maior parte dos comentários, a obra que ficou ali é a obra do…

[00:24:42] Como é que é, Clarice, o nome da menina?

[00:24:45] Maria Luisa da Criança Viada?

[00:24:50] Ah, da Criança Viada. Eu não vou lembrar nesse momento.

[00:24:54] Tá, a gente vai procurando, mas assim, Clarice, eu queria também a tua opinião.

[00:24:59] Tipo, concordo com o Gustavo? Alguma coisa chamou a tua atenção? Foi também uma que você passou meio batida?

[00:25:07] Eu discordo em alguns pontos bastante, acho que na verdade.

[00:25:13] Primeiro que não sei se tu vai disponibilizar esse catálogo, mini-catálogo que tu mandou pra gente no post.

[00:25:21] Dessas 21 páginas, o recorte, digamos assim, que tem aqui como seleção de obras,

[00:25:30] mas dá pra dizer que comparado com o que tem de fato na exposição, isso aqui está bem moralista e…

[00:25:39] Mais conservador, né?

[00:25:42] É, super conservador. Se eu olhasse esse recorte aqui e alguém me dissesse, ah, é daquela exposição lá,

[00:25:50] eu ficaria… Tipo, eu identifico as obras que estão aqui, mas o que tinha lá na exposição,

[00:25:56] tinha, assim, inclusive foi uma coisa que me incomodou, uma infinita quantidade de representação ufálica,

[00:26:06] e é complicado quando… Também não tenho embasamento pra falar sobre teoria queer,

[00:26:14] mas uma coisa que é da minha opinião e que eu ouvi outras pessoas falarem também,

[00:26:19] foi falta de representatividade feminina lá dentro, falta de… Sobre o universo…

[00:26:26] Tá falando sobre LGBTQ, e tinha pouco de lésbicas ou de bissexuais,

[00:26:32] era uma visão bastante masculina, do universo masculino que tinha na exposição.

[00:26:37] Então, não tá nem aqui nesse recorte que foi enviado pro Ministério da Cultura,

[00:26:45] e lá dentro era uma coisa bem mais explícita, assim.

[00:26:50] Então, acho que não me chamou a atenção, Clarice, porque, não sei se você já viu o meu trabalho,

[00:26:55] o meu trabalho é basicamente pornografia, então, de fato, de repente não me tocou,

[00:27:00] porque pênis e etc. é o que não falta na minha produção, então eu achei normal, assim, a exposição.

[00:27:07] Agora você vê como a Clarice tá apontando, e dentro da…

[00:27:11] internamente a exposição já tem alguns problemas ali de contextualização teórica mesmo, né?

[00:27:17] Sei lá, falta de representatividade… Eu também achei que fosse assim…

[00:27:23] Não achei que foi exatamente uma exposição de LGBT, acho que ele foi puxada pra outro lado.

[00:27:28] Tinha coisas ali, sei lá, fora de um contexto.

[00:27:32] Sim. E só pra dar uns nomes aqui, a tal da imagem da criança travesti,

[00:27:40] travesti de lambada e deusa das águas de Bia Leite, 2013.

[00:27:45] Isso, Bia.

[00:27:47] Que daí são basicamente duas crianças, isso aí também rodou bastante, né?

[00:27:50] Que daí são duas crianças aí com os inscritos em cima.

[00:27:52] Isso, eu vi.

[00:27:53] Criança viada travestida lambada e a outra criança viada deusa das águas, né?

[00:27:57] Meio pop-art, né?

[00:27:58] É, meio pop-art, meio divertido.

[00:28:00] Não, gente, mas o louco é a história disso aí, porque é muito complexo, isso era um blog.

[00:28:05] Você conhece bem a história, Clarice?

[00:28:07] A história em si não, mas eu adorava esse, era um Tumblr, né? Criança viada.

[00:28:14] Era ótimo, era só fotos de crianças e numas poses meio engraçadas, assim, que seriam crianças viadas.

[00:28:25] Mas as pessoas mandavam, que é o lance assim, né?

[00:28:29] Ela recolhia imagens de quem se dispusesse a mandar, fotos da sua infância, né?

[00:28:35] E daí era um jogo assim, você é gay, você é gay desde a infância, é assim, então criança viada.

[00:28:41] Porque já nasceu, enfim, com aquilo ali.

[00:28:44] E daí as pessoas se sentiam, achavam ótimo, porque viam um espaço de acolhimento.

[00:28:49] Então mandavam suas fotos voluntariamente e o blog ficou por…

[00:28:53] Ele está no ar ainda, eu acessei aqui, mas parece que não está mais funcionando.

[00:28:57] E daí alguém fez a referência naquela obra ali, que inclusive é assim abstrata.

[00:29:06] Depender dali, incentivo a pedofilia, nessa atitude tem uma perversão assim inominável.

[00:29:16] Se fosse criança heterossexual, ninguém ia achar que estava iniciando sexualmente as crianças, creio eu.

[00:29:24] Então, agora criança viada parece…

[00:29:28] É aquela velha história, diz mais sobre a pessoa que está criticando do que da obra em si, sabe?

[00:29:34] Como sempre, né?

[00:29:36] Como sempre.

[00:29:38] Daí veja, hoje mesmo eu tive duas aulas de teoria do design.

[00:29:43] Curiosamente ele estava dando aula sobre Bauhaus e daí estava falando sobre o fechamento da Bauhaus pelo regime nazista.

[00:29:50] E daí caia na questão das exposições de arte degenerada.

[00:29:55] E como o modernismo sempre incomodou nessa questão de quebrar as noções clássicas.

[00:30:01] Então assim, história da arte 101, pra quem nunca ouviu falar.

[00:30:06] Até o século 19 tinha regras.

[00:30:09] Tipo, quer ser pintor é assim que pinta.

[00:30:13] E daí chegou uns malucos e falaram, não, não quero fazer isso.

[00:30:17] Esses são os modernistas e daí foderam o rolê todo.

[00:30:22] Os modernistas já estão no século 19 também.

[00:30:25] Sécculo 19, exato.

[00:30:27] Final do século 19 que daí eles começam a quebrar tudo.

[00:30:29] Daí vem lá a famosa história.

[00:30:32] Eu até criei uma thread no Twitter assim.

[00:30:34] Vamos aqui contar histórias de polêmicas no mundo da arte.

[00:30:38] Uma das minhas prediletas envolve, considerada a primeira vanguarda, que são os impressionistas.

[00:30:45] Quando na França o pessoal lá manda suas obras para exposição, algumas obras são rejeitadas.

[00:30:51] Criam o Salão dos Rejeitados, que eu acho que é um nome maravilhoso.

[00:30:55] Eu sempre falo para os meus alunos, é como se a gente pegasse todos os projetos que vocês reprovaram.

[00:30:58] A gente faz uma exposição do tipo, os trabalhos que fracassaram.

[00:31:02] E daí todo mundo para ver o teu fracasso público ali.

[00:31:06] E daí tem um crítico de arte já da época que vai lá e vai fazer uma resenha pra zoar a exposição.

[00:31:14] Daí ele encaqueta com…

[00:31:16] É o Salão dos Recusados?

[00:31:18] Isso, Salão dos Recusados.

[00:31:20] Final do século XIX.

[00:31:22] Que são essas obras que não entram na exposição.

[00:31:26] Cezanne, Monet.

[00:31:28] Exato, exato.

[00:31:30] E daí tem aquela famosa pintura do Monet, que é Impressões ao Pôr do Sol.

[00:31:35] Que para os termos clássicos, onde tudo tinha a regra e você tentava representar a natureza da forma mais fiel possível.

[00:31:43] É que ela é uma obra que é um garrancho em termos clássicos.

[00:31:47] Porque ela é pintada super rápido, com aquela pincelada rápida típica dos impressionistas.

[00:31:52] E você não tem nenhuma distinção clara da linha do horizonte, entre o céu e o lago que tem ali.

[00:31:58] E daí esse crítico de arte vai lá e vê o nome Impressão ao Pôr do Sol.

[00:32:03] E eu estava relendo a crítica dele.

[00:32:05] Cara, é muito engraçado porque é um francês do século XIX tirando o sarro.

[00:32:09] Qual que é o nome dele?

[00:32:12] Não vou lembrar agora o nome dele exatamente, mas eu posso procurar aqui rapidinho.

[00:32:16] Não vou lembrar de cabeça.

[00:32:19] Tem que procurar no Google.

[00:32:21] Mas eu estava lendo hoje de manhã.

[00:32:23] E a crítica que ele faz é mais ou menos assim.

[00:32:25] Quando eu li o nome Impressão ao Pôr do Sol, eu disse de fato, isso aqui é uma impressão.

[00:32:30] Isso aqui ficaria ótimo como um papel de parede.

[00:32:33] O que era uma ofensa gigantesca para você fazer para um pintor num salão.

[00:32:39] Então ele diz assim, quando eu vi o Nobre Impressões ao Pôr do Sol, de fato, isso aqui é uma impressão.

[00:32:45] Porque isso aqui não é uma pintura.

[00:32:47] Isso aqui seria um papel de parede.

[00:32:49] E daí a galerinha ali do Monet falou, tá aí pau no teu cu, somos impressionistas.

[00:32:55] Somos impressionistas, a gente pinta impressões mesmo.

[00:32:58] E esse nome pegou.

[00:32:59] Então essa ideia de você criar um grupo de pessoas que questionam alguma técnica clássica,

[00:33:06] que vai contra os padrões clássicos.

[00:33:08] Você cria lá o seu manifesto, então qualquer.

[00:33:12] E você cria sua vanguarda.

[00:33:14] E pronto, isso aí é o fenômeno que vai mapear toda a primeira metade do século XX,

[00:33:18] virar do século XIX para XX até a sua primeira metade.

[00:33:21] Isso é o tal da arte moderna e que daí choca.

[00:33:23] Todo mundo aí tem os dadaístas famosos e tal, né?

[00:33:26] Duchenne, isso aí é…

[00:33:28] Então o que eu quero, por que eu estou contando essa historinha?

[00:33:31] Porque assim, de lá para cá, o que não falta é discussão e briga sobre coisas que aconteceram esse final de semana.

[00:33:39] Então tanto que eu estava falando com o Gustavo hoje de manhã dizendo que o Gustavo hoje não vai falar sobre isso.

[00:33:43] A primeira parte do programa vai ser falar da exposição.

[00:33:46] E o resto vai ser chutar cachorro morto.

[00:33:48] Porque essa é uma discussão que a gente já está cansado.

[00:33:50] Para quem está no meio artístico, isso aí não tem novidade nenhuma.

[00:33:56] O que foi de novidade, que eu acho que daí é o ponto que o Gustavo puxa, que eu acho que daí sim vale a gente discutir,

[00:34:02] é justamente ver essa movimentação de uma crítica tão reacionária e conservadora.

[00:34:10] De dizer, de olhar numa obra e ali imbuir de coisas que não tem.

[00:34:17] Até o promotor responsável pela vara da infância em Porto Alegre foi lá hoje e fez uma avaliação e disse

[00:34:26] não tem nada de pedofilia aqui dentro.

[00:34:28] Isso aqui é expressão artística.

[00:34:30] Então aqui não tem nada que tenha isso.

[00:34:32] Agora, uma coisa que eu queria perguntar para o Gustavo e para a Clarice, que vocês que foram lá,

[00:34:38] tinha indicação etária para a obra, para a exposição?

[00:34:42] Não tinha, não tinha.

[00:34:44] O museu depois se retrata disso, não é, Clarice?

[00:34:46] Eu também não lembro de ver, embora houvessem mediadores.

[00:34:50] Mas era só isso, indicação etária não.

[00:34:54] É porque é absurdo, não é, Clarice?

[00:34:57] Você não acha?

[00:34:58] Porque, veja, aqui, cara, é um atraso, é um recuo de consciência tão grande, digamos, daquela imensa população

[00:35:08] que fez os comentários no Facebook, etc., mas que não foi na exposição, porque é essa mesmo setor reacionário

[00:35:16] não frequenta exposições, isso que é reacionário desse jeito, que eu não sei exatamente como eles pensam,

[00:35:22] eles imaginam assim, que eles vão numa exposição, o Santander Cultural é imenso, tem um pé direito de pelo menos 20 metros,

[00:35:29] então ele é gigante, tem 270 obras, é um negócio que as crianças, quando entram naquele saguão, já sai correndo,

[00:35:36] sabe aquele lugar que você quer andar de skate, que dá vontade de andar de skate?

[00:35:40] Aí os pais acham que então a criança vai ver uma telinha lá no escuro, lá no canto, certo, onde tem uns bichinhos ali

[00:35:49] e daí tem umas criancinhas, umas pessoinhas ali correndo, copulando ali com o animal e daí foi saber que vão sair pegando o totó,

[00:35:57] não é assim que funciona, é um desconhecimento primário, um da arte, a gente vai ter que tocar nesse assunto,

[00:36:07] como o Ivan disse, pode chutar cachorro morto, então, da concepção de função de arte,

[00:36:13] eu acho que as pessoas parecem que têm uma ideia de que a arte deva servir como um educador,

[00:36:19] para instruir as pessoas, para ensinar, não funciona assim, isso não existe, talvez existiu lá até o December,

[00:36:26] que o Ivan acabou de explicar, mas dentro do modernismo para frente, qualquer função artística foi posta em cheque.

[00:36:34] Outra coisa é também um desconhecimento, isso sim eu acho perigoso, de como funciona minimamente a criatividade infantil,

[00:36:43] as crianças quando veem uma imagem que elas não compreendem, elas simplesmente registram aquilo como uma coisa que elas não compreendem,

[00:36:51] que depois que elas guardam para se elas elaboram aquilo, refletem e mais tarde perguntam,

[00:36:57] ou simplesmente guardam aquilo e depois em algum momento elas sabem que vão compreender aquilo,

[00:37:03] registrado como um fato desconhecido, não é uma imagem que vai fazer as pessoas virarem pedófila, que faz apologia,

[00:37:11] isso é um cinismo, obviamente, se não uma perversão de fato, na leitura dessas obras, na leitura artística,

[00:37:21] que aí o fundo disso é que eu acho que tem que ser discutido, porque esse cinismo articulado, organizado e estruturado em torno de movimentos,

[00:37:30] como o MBL, etc, é isso que eu acho que é a grande questão que a exposição detona e acho que talvez fosse para isso mesmo,

[00:37:40] claro que uma exposição Queer numa sala de Comporto Alegre iria detonar debate, era isso que o Gaudens queria fazer, o curador, né?

[00:37:48] Não imagino que ele, acho que ele não queria, não imaginou que tomasse essas proporções, mas essas são as suas proporções reais que tomaram.

[00:37:57] Vou falando aos poucos, se não eu acabo monopolizando aqui.

[00:38:01] Fica à vontade. E que é uma coisa também que a gente nota, se a gente vai ver os grandes, vai lá, os grandes bafafás que tiveram nos últimos 100 anos pelo menos,

[00:38:13] falando até só de Brasil em relação a exposições artísticas que deram todo esse fuzuê, geralmente estão ligados com sexualidade,

[00:38:23] e especificamente sexualidade feminina e LGBT.

[00:38:27] Então eu imagino que o Gaudens sabia disso e nesse ponto é que eu me perguntei se ele não teria feito educação etária, porque seria uma forma de se proteger.

[00:38:46] Mas também não vejo problema não ter, porque assim, olhando as obras, de novo, não vejo, porque assim, cara, se você vai para o Louvre, você vai ver obras mais explícias do que isso.

[00:38:57] E obras bem naturalistas, assim, não vai ser nada abstrato, nada experimental, vai ser assim, é senhorinha dando para um bode e é isso aí, velho.

[00:39:09] E foi pintado por Ticiano, sei lá.

[00:39:13] Então não vejo, o Caravaggio já pintou zoofilia também, se vai ser falar disso.

[00:39:23] Então assim, eu não vejo esse problema, mas é Bosch.

[00:39:27] Então, porra, se vai ver Bosch, então fodeu, né?

[00:39:31] É uma faixa etária para alienígenas, né?

[00:39:34] É, exato.

[00:39:36] Essa criança vai ser lá querendo ouvir Pink Floyd tomar LSD, assim, sabe?

[00:39:41] Então, eu acho também, me parece que aquela discussão de tipo, quando será que videogame deixa as pessoas mais violentas, vai bater nesse ponto que, cara, a gente não avança, né?

[00:39:56] E assim, eu já queria até falar porque quando o Santander fecha a exposição, cara, para mim, o maior cagada possível, quem fez foi o Santander.

[00:40:09] A minha opinião é que não foi o MBL, porque quer protestar contra a obra de arte? Você pode.

[00:40:16] Quer protestar contra a exposição? Pode.

[00:40:18] Por não gostar da obra? Pode.

[00:40:19] Pode amar, pode querer, pode defender? Pode.

[00:40:22] Ainda mais uma exposição dessa.

[00:40:24] Agora, quando um museu, quando uma galeria, ela fecha as suas portas por conta de pressão popular, aí eu acho foda.

[00:40:33] Eu não sei qual que é ou o que você acha, Clarice.

[00:40:36] Quem que fez a maior cagada nessa história toda?

[00:40:42] Quem fez a maior cagada?

[00:40:44] Tem muita gente, amigos meus, que me olham mal por causa disso.

[00:40:49] Porque eu tenho uma certa implicância com o curador e eu não sei se a gente pode entrar nisso porque é uma coisa mais específica, assim.

[00:40:59] Mas de coisas que a gente vê dele, não sei o que o Gustavo acha, ele é meio responsável.

[00:41:08] E eu não digo por, ah, o cara trouxe uma exposição sobre o queer e tal, então fica uma responsabilidade meio compartilhada.

[00:41:19] Porque assim, era meio óbvio que os fascistas iam aparecer, que gente, pessoas iam ficar irritadas com isso.

[00:41:29] Então, o Santander tinha que estar preparado para lidar com isso, o Gaudencio também.

[00:41:35] Enfim, tinha que ter um preparo antes.

[00:41:39] Essa pressão ia acontecer, talvez não tanto quanto, não se me imaginava que fosse tanto, mas de certa forma ela viria.

[00:41:46] Porque, bom, Porto Alegre é super conservadora, as pessoas, sei lá, as coisas não andam, faz tempo que as coisas não andam por aqui.

[00:41:56] Então tinha que ter um preparo antes disso, a meu ver, não sei o que o Gustavo acha.

[00:42:04] É que é bem complexo, mas assim, claro que o erro aí maior estágio, eu concordo com o Ivan.

[00:42:14] No Santander ter fechado a situação porque isso é censura.

[00:42:18] Agora, o problema de tudo, não sei se perceberam, mas é que se trata de um banco.

[00:42:24] É o gestor do capital internacional, o que poderíamos esperar de um banco?

[00:42:32] Claro que o Santander não queria essa polêmica, hoje de manhã saiu na mídia oficial aqui em Porto Alegre que ele teria perdido 20 mil contas.

[00:42:41] Eu não acho que seja verdade, mas está escrito.

[00:42:45] Eu li muitas ameaças de pessoas dizendo que iriam cancelar sua conta no Santander.

[00:42:52] Caso é que eu acho assim, é que a gente primeiro que não pode ficar refém de um banco.

[00:42:59] Um banco tem um espaço cultural, não só uma obrigação, mas uma temeridade que um banco fique ao encargo de ter um povo legitimador como o Santander tem.

[00:43:12] Não o Santander Cultural, porque são grandes posições que lidam com o Rei Ronen, então são valores muito grandes envolvidos.

[00:43:20] Enquanto instituição, ela institucionaliza.

[00:43:23] Ela diz, chancela o que é eu que não é arte, o que não está lá não é arte.

[00:43:28] Isso já eu acho que é um problema sério, que a gente tem que encarar, porém também muito complexo.

[00:43:33] Agora a reação dessas reações que está sendo associada ao MBL, é isso que é um problema.

[00:43:42] Porque de fato eu acho que a partir do momento que houve reação, talvez o Santander pensou assim, não.

[00:43:49] Se essas pessoas aqui, que são as pessoas de bem do ponto de vista do próprio Santander, estão reclamando, os correntistas do banco estão reclamando, vamos tirar.

[00:44:00] Elas vão ficar felizes, outros também não vão reclamar, porque afinal de que se trata.

[00:44:05] E daí só que foi um tiro no pé, evidentemente, ela certamente não esperava essa reação toda que houve.

[00:44:12] Mas a reação do MBL é que foi, eu acho de fato, se houve uma cagada realmente não é só a instituição que deve ser responsabilizada.

[00:44:23] Mas essa atitude irresponsável, se articulada, eu não sei, parece que foi, articulada por pessoas influentes, não foi um movimento tão espontâneo quanto quer parecer.

[00:44:37] Acho que tem pessoas de peso envolvidas em todas as instâncias.

[00:44:42] Também saiu na mídia que alguém do MBL é um consultor do prefeito aqui de Porto Alegre, que é o Marquisan.

[00:44:50] São pessoas que sabem o que estão fazendo.

[00:44:55] Esses seriam, assim, os responsáveis, digamos, a quem se deve debitar essa polêmica toda.

[00:45:04] Beccari, você quer fazer algum comentário? Quer apontar o culpado também?

[00:45:12] Veja, eu, de novo, não visitei exposição nem nada, então eu estou pautando única e exclusivamente no que vocês estão dizendo.

[00:45:21] Então é um juízo já muito restrito.

[00:45:26] Mas a questão de culpado eu não costumo ficar procurando culpados.

[00:45:32] Eu acho que quem se ferrou mais nessa história, não no sentido de ser inocente,

[00:45:39] mas quem, enfim, se prejudicou mais foi o próprio banco de fato.

[00:45:43] Foi a instituição aí que tentou agradar gregos e troianos e tal e acabou saindo no prejuízo.

[00:45:51] Agora, a Clarice comentou do curador.

[00:45:59] Isso, eu não conheço o trabalho dele, mas pelo que eu li, enquanto vocês estavam falando, eu estava lendo a proposta.

[00:46:07] Eu continuei lendo aqui o documento e eu achei assim, apesar de ser muito ampla pelo conjunto elencado ali, a curadoria em si é ampla.

[00:46:18] É consistente, sabe? Se eu tivesse algum poder sobre isso, eu aprovaria.

[00:46:26] Está pautado na teoria Queer, embora ele não cite a Butler, ele fala do Paul ou Beatriz Preciado, Berenice Bento, que são os teóricos mais Queer mesmo.

[00:46:40] A Butler, pelo que eu lembro, não tem um livro, pelo menos, direcionado à transexualidade como, por exemplo, o Paul ou a Beatriz Preciado tem.

[00:46:55] Então, eu concordo com vocês, aparenta ser uma mostra conservadora e tal.

[00:47:07] Só que eu acho interessante, no fim das contas, é que apesar de vocês comentarem que a gente vai chegar num ponto de chutar cachorro morto para definir o que é arte e tal,

[00:47:23] eu acho que não é de arte que se trata toda essa polêmica, sabe?

[00:47:27] É claro que está todo mundo agora se perguntando o que é arte, enfim, de novo.

[00:47:35] Não estou dizendo que a gente vai discutir se aquilo é ou não arte, mas eu acho que a arte é usada como pretexto para discutir outras coisas.

[00:47:47] Sim, que foi o que os modernistas fizeram, basicamente.

[00:47:53] Já tinha ali um começo no século 18 de politizar mais a arte e os modernistas transformaram tudo isso a ponto de a definição hoje do que é arte é essencialmente política.

[00:48:10] Eu acho que sim, é política no sentido que está em disputa, mas eu acho que essa polêmica não envolve a definição de arte.

[00:48:21] Quem fica preocupado com a definição de arte é todo mundo de fora, nós inclusive.

[00:48:27] Então vamos levantar de novo o que é arte.

[00:48:30] Mas eu duvido que o curador, o Gaudencio, o Banco e o pessoal do MBL, que me parecem que são esses três os protagonistas da polêmica, digamos assim,

[00:48:40] eles não estão cagando para definição de arte.

[00:48:44] Claro, eles vão falar, não, arte é isso, a arte é uma forma de assegurar os bons costumes, sei lá.

[00:48:52] Mas, ou seja, joga uma definição de arte, usa a palavra arte, etc. e tal, para falar de outra coisa.

[00:49:00] No caso, os bons costumes, entendeu?

[00:49:03] Então, por isso que quando eu vi essa polêmica explodir aí, é claro, as pessoas vieram me perguntar o que eu achei.

[00:49:12] Eu não tenho como me alienar totalmente, infelizmente, em relação a essas questões.

[00:49:20] Mas quando as pessoas vieram me perguntar, etc. e tal, para mim eu tive a impressão,

[00:49:26] foi a mesma impressão que eu tive quando o pessoal começou a falar que nazismo é de esquerda.

[00:49:31] De novo isso, entendeu?

[00:49:35] E curiosamente é sempre as mesmas pessoas, é o MBL.

[00:49:41] Então daí a gente pode questionar que se são sempre as mesmas pessoas, trazendo assuntos repetitivos,

[00:49:48] parece que alguém lá fica recuperando nos anais da história o que o pessoal do século XIX está discutindo.

[00:49:57] Ah, legal, vamos discutir isso aqui.

[00:50:01] Daí a gente pode perguntar, bom, então de uma forma ou de outra, pela polêmica essas pessoas estão ganhando repercussão.

[00:50:10] O que daí eu acho triste, nesse sentido, a gente de uma forma ou outra está dando voz.

[00:50:17] Indiretamente que seja, esse tipo de, pela polêmica, há um posicionamento mais conservador.

[00:50:25] Então quando me perguntaram sobre isso na sala de aula, eu falei, ah gente, pelo amor de Deus, né?

[00:50:31] A gente não está mais no colegio de aula para discutir essas coisas.

[00:50:35] Se a gente discutir isso, a gente vai começar a discutir MBL, etc. e daí o pessoal vai começar a brigar aqui no meio, entendeu?

[00:50:43] Mas enfim, essa é a primeira questão que eu acho interessante.

[00:50:49] Outra questão que me parece interessante é que, de novo, não é nada inovadora.

[00:50:54] Essa proposta, apesar de consistente, como eu achei, ela, pelo menos desde a década de 70, a gente consegue encontrar propostas quase idênticas a essa.

[00:51:08] Isso, por exemplo, a Clarisse comentou que ela achou, quando ela foi na exposição,

[00:51:15] que o modo de ver, a perspectiva que estava em jogo era muito masculina, não é isso, Clarisse?

[00:51:22] Então, quando você falou nisso, eu lembrei de um autor chamado John Berger,

[00:51:28] que é um teórico, historiador e crítico de arte, que escreveu um livro chamado Modos de Ver,

[00:51:36] no qual ele fala, de repente se conhece até melhor que eu, Clarisse.

[00:51:45] Ele fala basicamente que dá nudez na arte em específico e, portanto, se fala da nudez na história da arte.

[00:51:57] Obviamente é a nudez feminina, e daí a tese dele é que a arte ocidental, desde pelo menos o renascimento,

[00:52:06] tem espaltado no modo de ver masculino, justamente porque a nudez é predominantemente feminina

[00:52:12] e compôs motivos, perspectivas, enfim, pretextos masculinos, que remontam a um estereótipo do homem patriarcal, etc.

[00:52:26] Na mesma época, melhor dizendo, que ele publicou esse livro, Modos de Ver, tinha um movimento chamado Guerrilha Girls,

[00:52:36] que era do Match Museum, como que é o nome certo disso? Só um pouquinho.

[00:52:46] Bom, não vou lembrar. Enfim, dos museus de arte moderna e tudo mais, que eram um grupo de mulheres que publicavam um monte de manifestos e cartazes,

[00:53:03] e o cartaz que eu acho que ficou mais conhecido é um que elas perguntam, as mulheres têm que estar nuas para entrar no museu,

[00:53:09] e aí tem uma colagem lá com a figura de uma mulher nua com a cabeça de gorila, e aí embaixo está escrito uma frase assim,

[00:53:20] menos de 5% dos artistas da sessão de arte moderna são mulheres, mais de 85% dos nus são femininos,

[00:53:28] ou seja, elas estão confirmando basicamente a tese do Berger, embora não era uma tese do Berger, ele só escreveu o livro,

[00:53:37] mas era uma percepção amplamente difundida na década de 80, e também contestando não só como as mulheres são retratadas na obra de arte,

[00:53:48] mas principalmente a participação feminina no meio artístico, como pintoras, escultoras, inclusive críticas, historiadoras e tudo mais.

[00:53:58] Então, eu estou dizendo isso só para mostrar que a coisa não é nova no Brasil, né?

[00:54:04] Esse motivo, pelo menos da discussão do feminismo, não tanto do queer, a gente já tem na chamada contra-arte,

[00:54:15] ou arte de guerrilha, de artistas como Antônio Emanuel, Arthur Bárrio e Cildo Meirelles, ligados indiretamente,

[00:54:24] que seja com a Ligia Clark, que faz parte desse catálogo, pelo que o Ivan mandou do documento, né?

[00:54:32] Então, assim, é uma coisa que no Brasil pelo menos já tem desde a década de 70, fora do Brasil a gente tem a Júlia Cristeva na Arte Abjeta

[00:54:44] teorizando como crítica de arte sobre justamente a necessidade de trazer um trauma à tona como, por exemplo, a sexualidade e as questões de gênero.

[00:54:57] E isso ela não estava falando tanto da Butler, até porque eu não sei se ela conhecia, mas ela diretamente fala do Foucault.

[00:55:07] E daí artistas da Arte Abjeta que seguem esse manifesto da Cristeva, o John Miller, Mike Kelly, que na década de 70, 80 já expunham bonecas infláveis,

[00:55:21] cheias de merda, fotografias de pessoas transando com animais, crianças assistindo a filmes pornográficos e tal.

[00:55:34] Essa coisa de colocar um texto, digamos, polêmico sobre uma pintura, uma arte, como é o caso daquela pintura que o Ivan falou que é a mais conhecida, né?

[00:55:46] Das crianças viadas, não é isso? Ou criança viada, enfim. É uma coisa que me lembra muito a Barbara Kruger, né?

[00:55:55] Os fototestos dela. E o motivo principal, o assunto principal do trabalho da Barbara Kruger, que é da década de 80, não só, né?

[00:56:05] Mas predominantemente é sobre o corpo, sobre questões de gênero, sobre sexualidade.

[00:56:14] Enfim, eu estou falando tudo isso para só reafirmar como, de novo, isso não é uma novidade.

[00:56:21] Se você faz uma exposição da Barbara Kruger no lugar dessa, talvez geraria mais polêmica ainda, e a Barbara Kruger da década de 80, né?

[00:56:30] E você vê, ah, mas é porque ela seria antiga, quer dizer, antiga, né? Antiga, é relativo.

[00:56:38] Mas todo mundo iria respeitar a Barbara Kruger porque ela é da década de 80.

[00:56:44] Mas essa exposição tem artistas do século XIX ali, né?

[00:56:50] Para ver que não fomos, não seremos nós que vamos chutar cachorro morto, hein, Ivan?

[00:56:55] É o NBL que chutou cachorro morto.

[00:56:58] Sim, sim. Então, eu acho que a estratégia deles, inclusive, é essa, é chutar cachorro morto para gerar polêmica.

[00:57:07] Mas o objetivo central é divulgar uma, para não dizer ideologia, essa palavra gasta, né?

[00:57:15] Mas para divulgar justamente um ponto de vista sobre o mundo que, assim como eles chutam cachorro morto,

[00:57:23] é uma coisa que, justamente por ser ultrapassada, por ser cada vez mais questionada e tudo mais,

[00:57:30] parece que necessita de uma urgência e de uma resistência cada vez mais inclusive burra mesmo, né?

[00:57:40] Exatamente.

[00:57:41] Mas simplificada.

[00:57:42] Esse é o ponto.

[00:57:44] Esse é o ponto, eu concordo, acho que é isso daí.

[00:57:47] Mas desculpa de cortar.

[00:57:49] Não, era só isso, Gustavo, pode mandar.

[00:57:52] Senão monopolizo também.

[00:57:56] Imendando aí o que o Beccario fala, eu acho que é isso daí mesmo.

[00:58:02] Quer dizer, isso é o obsceno.

[00:58:04] Isso é uma violência.

[00:58:06] O fato de que as reações estúfulas que a gente presenciou do NBL e de associados, simpatizantes, sei se é de logo for,

[00:58:18] parece, são ideológicas porque pervertem a realidade do que realmente são.

[00:58:24] Ou seja, por trás disso tem os think tanks, que nós estamos por dentro, sabemos como funciona mais ou menos isso,

[00:58:33] tem uma pauta, uma agenda que eles têm, que eles chamam até até o nome, um amigo meu hoje estava me explicando isso daí,

[00:58:42] que é uma teoria, enfim, é um liberalismo estranho, que eles têm pautas sociais, políticas e moralistas, obviamente.

[00:58:53] Então, são instituições como o Mises, que agora todo mundo conhece, está na boca do povo,

[00:59:00] que fundamenta esses pensamentos, toda essa ideologia,

[00:59:06] e depois usa isso como instrumento de manipulação dessas pessoas que, enfim, ou são elas conscientes disso ou não são conscientes,

[00:59:16] mas se travessam, elas se apropriam pelo moralismo que tem ali.

[00:59:20] Eu acho que, como o Ricardo falou ali da pesquisa, se a representatividade das mulheres já é pequena no museu,

[00:59:29] enquanto artistas, enquanto autoras, imagina a comunidade de LGBTTS e queer,

[00:59:38] tanto de autores menores ainda quanto de temática, quando isso é tematizado e quando isso há um espaço,

[00:59:46] há um curador, por mais que se haja críticas, que teve a coragem de colocar isso em pauta,

[00:59:53] de escrever um projeto sobre isso, de pensar essa questão, escreve um trabalho sobre isso,

[00:59:58] organiza esses artistas, quando isso é, quando lhes é dado espaço, ele é vedado.

[01:00:04] Eu acho que essa reação obscena, isso sim, do MBL, levanta duas coisas que eu acho que é importante falar,

[01:00:15] porque vocês que não estão aqui em Porto Alegre, gente, vocês não viram o que é,

[01:00:21] só citando alguns exemplos, por exemplo, eles hoje, eu fui na manifestação agora à tarde,

[01:00:26] que teve em favor da exposição contra a atitude ditatorial do Museu do Santander de fechar,

[01:00:33] contra as reações exageradas do MBL, tinha hoje, será que de 400, vocês esteve lá, Clarice?

[01:00:40] Estive lá, estive lá.

[01:00:42] Achou que era mais de 400 pessoas, né?

[01:00:45] Acho que sim.

[01:00:47] E tinha gente rezando lá.

[01:00:53] Sério, um berço rezando?

[01:00:56] Me lembra essa atitude, me lembra aquilo que a gente lia na história do CCC,

[01:01:01] Comando de Caça dos Comunistas, que entraram em peças, inclusive aqui em Porto Alegre,

[01:01:05] se não me engano, invadiram a roda viva, peça do Chico Buarque e espancaram os atores,

[01:01:09] onde Cacilda Becker foi espancada no palco, era um comando de caça.

[01:01:13] O Comunista, que era um grupo meio paramilitar, meio uma coisa assim,

[01:01:18] que invadia os teatros espancados, artistas que eles achavam de esquerda, que eles achavam, enfim.

[01:01:23] Essa atitude do MBL me lembra muito isso, me lembra o que eu estava lendo esses dias,

[01:01:28] a Fogueira das Vaidades.

[01:01:31] Sabanarola, sim, sim.

[01:01:33] Eram três fogueiras organizadas, pelo menos como comentou o Sabanarola,

[01:01:37] que era um florentino do século, virada do século XV para o XVI,

[01:01:41] e que organizou vários fogos, de fato, nessas fogueiras,

[01:01:46] não me lembro se em Roma ou em Florença, em Roma, né?

[01:01:50] Foi a Florença, em Florença.

[01:01:53] Onde inclusive o Sandro Botticelli queimou os trabalhos ali.

[01:01:58] Então eles recolhiam tudo que era representativo do luxo,

[01:02:02] luxúria do corpo, do pecado, do demônio, e queimavam ali.

[01:02:07] Imagina o Sandro Botticelli, o pintor humanista,

[01:02:10] da nata da intelectualidade humanista florentina,

[01:02:14] queimar trabalhos.

[01:02:16] O próprio Michelangelo teria ficado…

[01:02:19] Ele disse que foi influenciado, que até o final da vida

[01:02:22] ele ainda ouvia a voz terrível de Sabanarola.

[01:02:25] O Sabanarola, para quem não nunca ouviu falar,

[01:02:29] mas assiste Game of Thrones, deve lembrar lá do passarinho,

[01:02:34] que era tipo um padre, um negócio assim,

[01:02:39] que andava descalço e dominou lá o reino de Westeros.

[01:02:45] Aquele cara foi inspirado no Sabanarola.

[01:02:47] É tipo isso.

[01:02:49] E é o que me lembra esses movimentos,

[01:02:52] pelo retrógrado deles, pelo conservadorismo,

[01:02:56] e pela tentativa de militância política ultraconservadora,

[01:03:01] travestida de uma pseudo-teoria econômica,

[01:03:05] enfim, que no fundo é um moralismo abjeto.

[01:03:09] E por fim, acho que também,

[01:03:11] o que mais me chamou atenção dessas reações

[01:03:16] foi um vídeo que eu vi, não sei de quem era,

[01:03:18] um senhor qualquer, e fez um vídeo,

[01:03:20] filmou ele mesmo na frente do Santander,

[01:03:22] falando mal da exposição, deu lá um discurso,

[01:03:24] teve muitas curtidas, milhares,

[01:03:29] e ele diz assim, deu um discurso lá e diz que, enfim,

[01:03:32] que nós temos que fugir, que destruir

[01:03:35] e acabar com essa ditadura do politicamente correto.

[01:03:38] Mas que caralho!

[01:03:41] Cara, eu não entendo.

[01:03:43] Eu também quero acabar com isso.

[01:03:45] Eu também, todos queremos.

[01:03:47] Que por isso é tudo esse, que as palavras dele são as nossas.

[01:03:51] Outra coisa, por exemplo, para vocês terem ideia,

[01:03:53] do que o Embell estava fazendo dentro da exposição,

[01:03:56] enquanto ela ainda estava aberta,

[01:03:58] é que eles entraram lá e eles faziam patrulha.

[01:04:02] Tipo, se entrava uma criança lá,

[01:04:04] eles faziam cerquinha diante da obra de Adriana Varejão.

[01:04:07] Entende?

[01:04:09] Rezavam um terço lá dentro da exposição.

[01:04:11] Tipo, sabe, jogando água benta.

[01:04:13] Eles fizeram isso, é fato, é uma coisa.

[01:04:16] Esse é um nível de coisas que denota,

[01:04:18] e aí eu acho que esse seria o grande caminho dessa discussão,

[01:04:22] dois pontos.

[01:04:24] Posso falar ou já estou falando demais?

[01:04:26] Pode falar, pode falar.

[01:04:28] Que é o seguinte.

[01:04:30] Primeiro, o recalque.

[01:04:32] Que é um recalque que é o seguinte.

[01:04:34] Não é só no ponto de vista sexual,

[01:04:36] mas um recalque dessa reação, que eu vejo bem presente,

[01:04:40] por conta da fragilidade

[01:04:46] justamente do sistema que eles querem defender.

[01:04:52] Deixa eu tentar falar de outra forma,

[01:04:54] talvez mais em fática e mais…

[01:04:56] Eu acho que eu entendi, Gustavo.

[01:04:58] Você me permite…

[01:05:00] Quer dizer, entendi,

[01:05:02] porque o que eu estou pensando de estudo

[01:05:05] é que há um desespero.

[01:05:07] Justamente, eu não sei se é isso que você quer dizer com recalque,

[01:05:11] mas eu vejo que há um desespero muito grande

[01:05:14] para a ponta de fazerem tudo isso que você disse que fizeram.

[01:05:18] Ou seja, sei lá, patrulhar,

[01:05:21] contratar alguém lá para se queimar na frente.

[01:05:27] E, bom, eu não queria te interromper, Gustavo, mas é…

[01:05:30] É essa atitude desesperada,

[01:05:32] que é atitude patética, cheia de patos,

[01:05:34] que eu vi no discurso desse que eu mencionei desse vídeo

[01:05:37] e que se vê em toda essa reação.

[01:05:40] Que é o quê?

[01:05:42] É uma grande verdade que está absolutamente exposta,

[01:05:46] que ela é evidente,

[01:05:48] que ela expressa manifestamente da forma mais óbvia o tempo todo.

[01:05:53] É que, conservadores, por favor,

[01:05:56] se tiverem problema cardíaco, saiam da sala.

[01:06:00] A família tradicional brasileira não existe.

[01:06:04] Não!

[01:06:06] Essa é a verdade óbvia que eles querem negar,

[01:06:10] e esse é o recalque,

[01:06:12] porque quando tenta se negar algo que está tão óbvio e na cara de todos,

[01:06:17] você só pode reagir através de uma atitude patética,

[01:06:21] como foram as atitudes de reação do MBL e contra a exposição do Prill Museum.

[01:06:26] Que família tradicional estamos discutindo?

[01:06:29] Quando que no país colonial, colonizado há 500 anos atrás,

[01:06:32] teve família tradicional?

[01:06:34] Qual família?

[01:06:36] As naus dos degredados que vieram em 1500

[01:06:39] e que chegaram aqui e estupraram as índias

[01:06:41] e que mais tarde estupraram as negras?

[01:06:43] Que família que restou para se defender?

[01:06:45] Mais tarde o que?

[01:06:46] Na República do Café com Leite?

[01:06:48] Que daí a única família que tinha um status quo de família,

[01:06:52] que era as pessoas de bem,

[01:06:54] eram as famílias de fazendeiros, de café e cultores,

[01:06:57] que ficavam ali e dominavam as fazendas

[01:07:01] e o restante não tinha família estruturada, portanto não era representativo?

[01:07:05] É o que família?

[01:07:06] A família da República,

[01:07:07] que era aquela que tinha imediatamente poder político

[01:07:09] e o resto não tinha família?

[01:07:11] Gustavo, é a família… não, é a família da…

[01:07:14] depois de 64, né?

[01:07:16] Imagina, justamente a família contemporânea,

[01:07:19] que eu não conheço uma pessoa que tenha uma família tradicional.

[01:07:23] Pode ser que poste uma foto?

[01:07:25] Não, mas na ditadura os militares garantiam a existência.

[01:07:31] Daí que vai…

[01:07:32] Tem problema, o pai do meu filho…

[01:07:34] Lá que era bom.

[01:07:35] Aquela época era bom.

[01:07:36] Há dissensões, há perigas internas, um é filho, é adotado.

[01:07:39] Não tem família tradicional.

[01:07:41] Isso que eles querem defender, que é uma quimera,

[01:07:43] e que é isso que eu acho que deveria falar muito,

[01:07:45] é um recalque que é terrível,

[01:07:47] porque quando tem uma exposição como essa,

[01:07:50] como às vezes não precisa nem de tanto motivo assim,

[01:07:53] há uma concatenação dos óbvios,

[01:07:55] como que se esse recalque fosse presente,

[01:07:58] fosse iliterizado de uma hora para outra.

[01:08:00] Então uma exposição como essa,

[01:08:02] que foge um pouquinho da normalidade,

[01:08:04] que toca ali, mesmo que de leve,

[01:08:06] eu insisto, Clarice, eu discorde,

[01:08:08] você acha que é de leve, ela toca,

[01:08:10] ela acende, cria uma ressonância de sentido

[01:08:13] que dispõe todas essas subjectividades

[01:08:17] como um exército.

[01:08:19] E daí eles vão…

[01:08:20] Daí por isso que patrulham de forma tão agressiva,

[01:08:23] são milhares de comentários assim por horas,

[01:08:27] poucas horas com milhares de comentários nas redes sociais.

[01:08:29] Por pessoas que não entendem nada de arte,

[01:08:32] mas tudo bem, enfim.

[01:08:36] Gustavo, eu vou te interromper um pouquinho,

[01:08:39] porque eu queria…

[01:08:41] Vai me excluir do podcast.

[01:08:43] Oi?

[01:08:44] Vai me excluir do podcast.

[01:08:46] Não, não, não.

[01:08:47] Eu gostaria de dar boa noite.

[01:08:51] Não, não.

[01:08:52] Eu vou interromper só um pouquinho,

[01:08:54] porque eu quero pegar um gancho do que você falou,

[01:08:56] porque você está falando dos milhares de comentários,

[01:08:59] e para ver como isso não é uma coisa sem querer,

[01:09:03] que acontece espontânea, como vamos dizer.

[01:09:05] Porque o EMBL vai falar que não fez nada, na verdade,

[01:09:08] que isso aí foi espontâneo,

[01:09:10] foi uma galera que começou a se incomodar,

[01:09:13] e daí eles estão chamando isso que na verdade foi boicote.

[01:09:16] Porra, se fosse boicote, não vai.

[01:09:19] Recomendo a galera não vai.

[01:09:21] Eles fazem confusão de palavras, mas tudo bem.

[01:09:24] Aliás, tudo bem e nada, mas enfim.

[01:09:27] Mas você vê como o nível de insanidade chega.

[01:09:30] O caríssimo deputado Carlos Bolsonaro faz um tweet hoje.

[01:09:40] A gente está gravando isso aqui na terça-feira, dia 12 de setembro.

[01:09:44] Não faltava mais nada.

[01:09:45] Lá vem, lá vem.

[01:09:46] Ele faz um tweet.

[01:09:47] Mas vale a pena mesmo?

[01:09:48] Vale, vale. Não, para por quê?

[01:09:50] Isso aqui é história, estamos registrando.

[01:09:52] Você segue o Bolsonaro?

[01:09:53] Claro que não, claro que não.

[01:09:55] Mas detalhe, isso aqui é o Carlos Bolsonaro,

[01:09:58] para deixar claro que é o filho, é o Bolsonaro.

[01:10:02] Tanto faz, né?

[01:10:04] Tanto faz.

[01:10:06] Ele é vereador, perdão.

[01:10:08] E daí ele faz assim.

[01:10:10] Caso Santander, fato novo, crianças eram vendadas

[01:10:14] e tocavam nas genitálias uma das outras

[01:10:16] para terem a percepção de gênero do coleguinha.

[01:10:19] E daí um vídeo que ele tem ali de 30 segundos

[01:10:23] é um vídeo que aparece aquela obra da Alicia Clark

[01:10:26] com pessoas todas com rosto, com o corpo todo vendo.

[01:10:31] Enfim, tem aí no…

[01:10:33] Não tem nada de nele, né?

[01:10:35] Não tem nada.

[01:10:36] Mas ele fala que aquilo lá era uma experiência tátil.

[01:10:40] E ainda fala assim, isso foi feito com dinheiro público.

[01:10:43] Não se calhe.

[01:10:44] E daí uma galera falou assim, não dá para acreditar.

[01:10:47] E daí a galera recomendou assim, não dá mesmo, porque é mentira.

[01:10:52] E daí o pessoal falou, não, gente, isso aí é uma obra da Alicia Clark.

[01:10:55] Para de mentir, Bolsonaro, né?

[01:10:57] E a galera fica louca.

[01:10:59] Só que daí nisso tem uma galera que fica vagabundo,

[01:11:01] estão querendo destruir nossas famílias,

[01:11:03] não podemos escalar, vagabundos.

[01:11:05] Esse é o recalque.

[01:11:06] Esse é o problema.

[01:11:07] Daí até o arroba acas181871, esse cara merece um prêmio,

[01:11:14] que ele fala, ele comentou, não minta, é feio,

[01:11:17] essa imagem de uma obra de 1967 da Alicia Clark.

[01:11:21] Aliás, junto com o L85, ela forma o que há de melhor em arte.

[01:11:24] E daí bota lá a imagem da obra.

[01:11:26] Só que as pessoas, esse que é o ponto,

[01:11:28] essas pessoas não estão a fim de ver fatos, entende?

[01:11:31] Elas estão a fim de viver numa realidade alternativa

[01:11:35] em que isso acontece maluquice.

[01:11:37] Mas vamos lá.

[01:11:39] Mesmo a pessoa que ouve isso, tem algumas obras,

[01:11:43] porque agora eu vou começar a fazer um pouco do papel

[01:11:45] do advogado do diabo, porque eu quero ir para um ponto de discussão,

[01:11:48] que é o seguinte, daí eu vou jogar essa pergunta para clarece.

[01:11:52] Teve um cara no Twitter, o arroba Carlos Arremedo.

[01:11:57] Ele chegou para mim e quando estava comentando

[01:12:00] alguns dos tuítes que eu fiz sobre o assunto,

[01:12:02] ele fez uma pergunta que é a seguinte,

[01:12:05] como seria se fossem artes, assim, só contextualizando,

[01:12:08] porque tem algumas obras lá que vai ter uma ofensa,

[01:12:15] entre aspas, às ícones cristãos.

[01:12:18] Então tem lá, por exemplo, uma de Cristo com vários braços,

[01:12:23] é uma mistura de Cristo com… não sei e tal.

[01:12:27] Bom, você já sabe para onde está indo.

[01:12:30] E daí o Carlos Arremedo aqui fala,

[01:12:32] como seria se fossem artes com violência contra mulheres e minorias?

[01:12:37] Você ia defender a exposição? Dúvida honesta.

[01:12:40] Porque ele está querendo dizer que, olha,

[01:12:42] tem certas obras aqui que ofendem valores que eu acredito,

[01:12:47] não sei se ele acredita, mas que… ícones cristãos, por exemplo.

[01:12:52] Então, clarece, vou fazer essa pergunta para você,

[01:12:55] porque você é a mulher aqui hoje

[01:12:57] e eu acho que você vai poder responder isso muito melhor

[01:13:00] do que os três homens aqui que é.

[01:13:02] Vou repetindo então.

[01:13:04] Como seria se fossem artes com violência contra mulheres e minorias?

[01:13:08] Você ia defender a exposição?

[01:13:10] Não, não.

[01:13:13] Óbvio que não.

[01:13:15] Mas é arte, clarece.

[01:13:18] Oi, Ivan, depois eu me inscrevo aí para responder.

[01:13:21] Sem problema. Fala aí, clarece.

[01:13:23] Pegou essa senha para ti.

[01:13:27] Mas é que sacanagem eu quero comparar símbolos…

[01:13:32] Tipo, pensa contra os símbolos cristãos.

[01:13:36] Porque vai lá, violência contra a mulher.

[01:13:39] Aí você defenderia, tipo, muito obrigado por relativizar as coisas,

[01:13:43] colocar… não faz o menor sentido, sabe?

[01:13:48] Porque, porra, violência contra mulheres,

[01:13:52] mulheres que, óbvio, estão em posições muito altas,

[01:13:57] são muito poderosas,

[01:13:59] sempre podem se defender, não tem nenhum problema.

[01:14:02] A gente não é minoria, a gente não é desrespeitada,

[01:14:06] a gente nunca é maltratada, não.

[01:14:08] A gente manda no mundo, né?

[01:14:11] Ao contrário da nossa…

[01:14:13] Da religião cristã.

[01:14:15] É, a religião cristã, que é muito boazinha,

[01:14:18] nunca queimou ninguém, nunca matou ninguém,

[01:14:21] não tem representante pedófilo,

[01:14:24] não tem uma série de problemas, né?

[01:14:27] Não tem, não tem.

[01:14:28] Que o tempo inteiro ela é fragilizada, né?

[01:14:31] O tempo inteiro ela, a religião cristã,

[01:14:33] ela está ameaçando desaparecer do mundo.

[01:14:37] Faz mil e quinhentos anos que ela está sendo perseguida.

[01:14:41] Exatamente. Então, ela é coitada, ela é a vítima.

[01:14:47] E outra, né, Clarice?

[01:14:49] Assim que eu li…

[01:14:50] Eu nem respondi estúdio por preguiça,

[01:14:52] mas, assim, eu não sei,

[01:14:55] mas qualquer série aí que você liga,

[01:14:57] qualquer filme, já tem violência contra mulher direto,

[01:15:00] e vocês se incomodam toda hora

[01:15:02] e são chamados de mimisentas aí.

[01:15:04] Porra, cara.

[01:15:07] Por isso que eu falo,

[01:15:08] se a galera fica falando de politicamente correto e mimimi,

[01:15:11] quem faz mais mimimi são eles, cara,

[01:15:14] com coisas que, tipo, sério,

[01:15:17] se você acredita em Deus, acredita em Jesus,

[01:15:19] eu acho que ele tem coisas mais importantes

[01:15:21] para se preocupar do que uma imagem feita dele.

[01:15:27] Jesus dava rolê com uma galera aí

[01:15:30] que a comunidade cristã não curte muito, né?

[01:15:34] De vez em quando eu falo aquela brincadeira, né?

[01:15:36] Se o Jesus estivesse vivo,

[01:15:38] ou se ele voltar, né, pode acontecer, não sabendo,

[01:15:41] pô, ele ia andar com a galera alternativa,

[01:15:44] maconheiro, prostituta, não ia?

[01:15:47] Vocês acham que ele ia ser uma pessoa de bem?

[01:15:50] Mas desde que Jesus até voltou, mas ele morreu porque, sei lá…

[01:15:54] Foi assassinado na favela.

[01:15:56] É, exatamente, pode ter acontecido.

[01:16:00] E aí, Beccari, você queria complementar também?

[01:16:03] É, apesar que a Clarice, ela respondeu muito bem.

[01:16:09] É uma comparação totalmente, assim, não faz o menor sentido

[01:16:14] para a igreja cristã, ou, sei lá, no caso dele,

[01:16:18] a crença dele, não sei o quê, assim, com a mulher.

[01:16:21] Ele não é a religião cristã, a Clarice é a mulher.

[01:16:26] É essa a diferença, assim.

[01:16:28] Se esse rapaz aí morrer, a religião cristã não vai morrer.

[01:16:32] E assim, a religião cristã, ela sofreu ataques

[01:16:36] desde quase o início da sua existência, está certo?

[01:16:39] Ela sempre foi atacada e nunca foi abalada por isso.

[01:16:42] As mulheres, da mesma forma, sempre foram atacadas

[01:16:46] desde o início da sua existência na cultura ocidental, pelo menos.

[01:16:52] E nunca conseguiram justamente alguma coisa com isso.

[01:16:59] Então, esse é o primeiro ponto que eu acho que a questão é…

[01:17:05] É anacrônico.

[01:17:07] Não só anacrônico, mas ela é desmedida, sabe?

[01:17:10] É falsa simetria.

[01:17:12] Exatamente, são duas medidas que não fazem o menor sentido.

[01:17:17] E o segundo ponto que eu queria dizer é que, no início eu falei

[01:17:21] que eu não tenho nada contra, brinquei, com a arte abstrata.

[01:17:27] Até tenho amigo que tem, que são.

[01:17:30] A arte moderna, etc.

[01:17:34] Mas justamente o meu ponto é, eu sou absolutamente contra

[01:17:40] quem gosta muito, por exemplo, da arte realista

[01:17:44] e acha que a arte abstrata e moderna deveria ser extinguída.

[01:17:48] E a gente tem vários teóricos, inclusive conservadores,

[01:17:53] que pensam assim.

[01:17:55] Ou seja, eles justamente querem colocar uma, que é basicamente

[01:17:58] o que o nazismo fez, já que é para ressuscitar os mortos.

[01:18:04] Eles basicamente queriam excluir toda essa arte degenerada

[01:18:11] nos termos deles, para manter a verdadeira arte, que é a arte clássica,

[01:18:16] a arte, enfim, realista, com os parâmetros mais clássicos,

[01:18:21] acadêmicos que haveriam.

[01:18:24] Isso é uma forma de institucionalizar a arte.

[01:18:27] E a questão, eu acho que a preocupação do pessoal do MBL,

[01:18:32] concordo com o Gustavo, há um desespero, há uma, enfim, uma.

[01:18:40] É que o Gustavo chamou de recalque.

[01:18:44] Eu não sei que você é recalque, eu acho que eles estão arredi-los mesmo.

[01:18:49] Porque a noção de família brasileira, por exemplo,

[01:18:51] é uma coisa que, de fato, não faz o menor sentido mais.

[01:18:54] Então, assim, e é por isso que eles estão desesperados.

[01:18:58] Eu prefiro chamar assim.

[01:19:00] E daí, ao invés de mudar as definições da arte,

[01:19:03] eles buscam justamente institucionalizar.

[01:19:06] E eu vejo uma diferença entre as duas coisas.

[01:19:09] Por exemplo, quando o nosso amigo Bolsonaro, como o Ivan estava dizendo,

[01:19:14] menciona a obra da Lígia Clark, ele falou alguma coisa,

[01:19:20] e aí você me corrige.

[01:19:22] Que, ah, me senti bastante tocado com a obra.

[01:19:26] O que ele disse?

[01:19:28] Não, ele não falou nada disso.

[01:19:30] O pessoal que ficou falando, ah, você está errado.

[01:19:33] Ele falou que isso aí são, aqui ó, literalmente o tweet dele.

[01:19:42] Caso Santander, fato novo, crianças eram vendadas e tocavas nas genitálias

[01:19:46] uma das outras para terem a percepção de gênero do coleguinha.

[01:19:49] É isso.

[01:19:50] Esse é o tweet dele.

[01:19:51] É só isso.

[01:19:52] E daí ele bota uma foto da Lígia Clark no meio do vídeo de 30 segundos.

[01:19:56] Então, qual é o comentário que ele faz dessa…

[01:19:58] Não, não faz nada, é só isso.

[01:20:00] O comentário que tem é que é um vídeo de 30 segundos,

[01:20:03] que aparece uma matéria que ele não dá a fonte.

[01:20:06] Eu chuto que seja um desses sites fake news, tipo Jornalivre, que é do MBL.

[01:20:10] Daí tem a foto da obra da Lígia Clark.

[01:20:15] E daí no finalzinho ele fala assim, agora taxa onde homofóbico e intolerante

[01:20:20] quem está denunciando esse absurdo financiado com o seu dinheiro.

[01:20:23] E não se cale.

[01:20:26] É isso que fala.

[01:20:27] É só uma questão que eu acho que…

[01:20:29] Desculpa, Beccari.

[01:20:30] Não, a Lei Ronege vai falar para o final.

[01:20:33] Vai, Beccari, continua.

[01:20:36] O que eu ia concluir é que justamente

[01:20:43] o fato dele se impressionar, enfim, das pessoas serem tão contra

[01:20:47] e querem patrulhar tudo isso e tudo mais, não é tanto de mudar

[01:20:51] a definição de arte, porque se eles basicamente reagem dessa forma,

[01:20:56] eles basicamente cumprem com um dos objetivos, certamente, que a gente pode dizer,

[01:21:01] desses artistas que eram causais, não tanto talvez, mas um mínimo de reação.

[01:21:08] Sim.

[01:21:09] Tá certo.

[01:21:10] Então, ou seja, eles acabam confirmando de um tanto epistemologicamente

[01:21:15] o que os artistas se propunham.

[01:21:18] Esse é o ponto.

[01:21:19] Agora, a questão é que quando eles querem justamente censurar, enfim,

[01:21:26] impedir que isso aconteça, que esse tipo de arte não seja circulado, etc.

[01:21:35] Aí é uma questão de institucionalização.

[01:21:37] Então, por exemplo, quando está falando realismo, que eu não tenho nada contra e tal,

[01:21:41] o que me incomoda nessa questão do realismo versus arte moderna e arte abstrata,

[01:21:49] arte contemporânea, é porque justamente o realismo não tem mais espaço.

[01:21:53] E eu concordo, às vezes, que ele não deveria ter tanto espaço se, por exemplo,

[01:21:57] ele continuar com esse olhar masculino de que fala o John Berger.

[01:22:02] E aí tudo bem.

[01:22:03] Mas basicamente ele não tem muito espaço por uma questão de institucionalização.

[01:22:07] Quando, por exemplo, vocês falam assim, eles não entendem o que é arte.

[01:22:13] Exato.

[01:22:14] Então, não é que isso me incomoda.

[01:22:18] O que eu fico pensando é que eles diriam a mesma coisa.

[01:22:23] Sim, sim.

[01:22:24] Entendeu?

[01:22:25] Michael, eles obrigam para a gente.

[01:22:29] Beccari, você adiantou uma parte que eu queria discutir,

[01:22:32] mas só para te complementar, daí você continua.

[01:22:35] Porque eu acho que isso é um problema sério que o mundo artístico contemporâneo hoje sofre,

[01:22:41] que é o grande público não…

[01:22:43] A ideia da arte moderna, alguns queriam que fosse de democratização da arte, de acesso a ela.

[01:22:51] Essa é pelo menos a das vanguardas.

[01:22:53] Isso, das vanguardas.

[01:22:54] E qual que foi o problema?

[01:22:55] Porque as primeiras vanguardas vinha com uma ideia de trazer uma arte, entre aspas, mais popular.

[01:23:02] Só que com o tempo que foi passando, já faz mais de 100 anos que esses movimentos aconteceram,

[01:23:08] ela foi se fechando em si mesma.

[01:23:11] E hoje em dia um museu de arte moderna contemporânea é incompreensível para o grande público.

[01:23:15] É elitista.

[01:23:16] É elitista, extremamente elitista.

[01:23:18] É elitista.

[01:23:20] Então, quanto a isso, é para entrar nesse ponto?

[01:23:25] Pode, pode falar.

[01:23:29] De fato, a questão que o próprio Peter Berger reconhece, que é o cara da teoria das vanguardas,

[01:23:34] que vai dizer que acabou as vanguardas,

[01:23:38] é justamente porque ele acha que esse sonho, esse projeto vanguardista,

[01:23:43] não só de democratizar a arte, mas os termos são reaproximar, reconciliar a arte com a vida.

[01:23:51] Esse projeto fracassou, segundo ele.

[01:23:56] E a maneira como eu leio isso é o seguinte, tipo, as críticas modernistas e vanguardistas

[01:24:04] contra a arte acadêmica, naturalista, realista, enfim, clássica,

[01:24:12] essas críticas, essas reações, enfim, essa questão mais polêmica,

[01:24:17] ela foi institucionalizada por aquilo que alguns chamariam de arte como instituição,

[01:24:24] como é o caso do, ai, qual que é o nome dele, Arthur Danto.

[01:24:30] E por que isso acontece?

[01:24:31] Porque assim, entre a década de 50 e 60 foram implementados os primeiros programas

[01:24:38] de mestrado e doutorado em Belas Artes, nos Estados Unidos e na Europa, pelo menos.

[01:24:43] E a partir de então, a maior parte dos artistas que vão compor a chamada Neo Vanguarda,

[01:24:50] eles atuavam como professores.

[01:24:52] Então, aí, quer ou não, a questão do mestrado e doutorado,

[01:24:59] dessa coisa acadêmica e quase científica, às vezes, de tratar a arte

[01:25:06] e os próprios professores atuando como artistas,

[01:25:09] quer ou não, mesmo que a intenção não seja essa, acaba elitizando, porque a linguagem é outra.

[01:25:14] A linguagem, a gente sabe, né, Ivan?

[01:25:18] Não tem jeito da academia que ainda segue os mesmos pressupostos, sei lá, do século 15, no mínimo,

[01:25:26] ou 16, melhor dizer, que é elitista, quer ou não.

[01:25:31] E daí, com isso, assim, se criava uma arte elitista de resistência.

[01:25:36] Isso, no Brasil, quem fala muito disso é o professor Arthur Freitas,

[01:25:41] no livro dele, enfim, nos textos dele.

[01:25:45] E ao mesmo tempo, a atenção da mídia, ela se transferia para grandes exposições,

[01:25:53] leilões e produções excêntricas.

[01:25:56] O exemplo mais conhecido talvez seja o Andy Warhol,

[01:26:01] mas assim, o mais milionário de todos é um cara chamado Jeff Koons,

[01:26:05] que tem uma grife de arte multimilionária.

[01:26:08] Então, a partir de então, o mercado artístico, ele passou a ser tratado não só em termos de prestígio,

[01:26:13] mas também de carteira de investimento, que vai levar, por exemplo, bancos.

[01:26:19] Isso, assim, na década de 80, foi o grande boom dessa história.

[01:26:24] A arte novo-aiorquina, ela movimentava basicamente Wall Street.

[01:26:30] Acabou estabelecendo o vínculo direto entre crítica, gestão profissional,

[01:26:39] e a gestão profissional é tipo empresário mesmo, que não tem nada a ver com nada.

[01:26:44] Mas a crítica, os professores de arte, gestão profissional e os artistas,

[01:26:50] aliás, o artista em si acaba sendo o mais insignificante dessa história.

[01:26:54] Não, o professor de arte também, o professor de arte principalmente, que sou eu.

[01:26:59] A não ser quando ele atua como crítico.

[01:27:02] Porque ele que vai ser a autoridade, entendeu?

[01:27:07] Ele que vai dar valor para a obra, né?

[01:27:10] Exatamente, exatamente.

[01:27:12] E junto com esse paralelo, o interesse do grande público acabou aumentando,

[01:27:18] paradoxalmente, na mesma medida que a sua incompreensão.

[01:27:22] Então vamos lá, primeiro, aumentou?

[01:27:25] Ah, mas será que aumentou?

[01:27:27] Será que as pessoas gostam tanto de arte hoje quanto já gostaram antes?

[01:27:32] Veja, no século XIX, na época dos salões e tal, o interesse era muito restrito, muito restrito.

[01:27:40] Foi ficando cada vez mais restrito no final do século XIX.

[01:27:43] O Salão dos Recusados, que o Ivan citou, ele ficou conhecido junto com as críticas que foram feitas contra ele,

[01:27:51] como o Ivan também comentou, mas por ter mais público, mais que o triplo de público do que os salões oficiais.

[01:28:00] Sim, porque era onde era retratada a vida urbana.

[01:28:04] Exatamente, era uma coisa mais próxima.

[01:28:06] Aí que surge um pouco antes essa ideia vanguardista de democratizar a arte, que é vanguarda em si, do champ, etc.

[01:28:16] Já é século XX.

[01:28:18] Isso, já é uma galera de terceira geração.

[01:28:21] Exatamente.

[01:28:23] Então aí que você começa a ver que naquela época não tinha interesse algum do grande público.

[01:28:31] Hoje em dia a gente tem, de fato, a gente pode chamar de pop stars.

[01:28:36] É melhor nem mencionar o nome do nosso amigo, que parece, o nome dele soa como cabrito.

[01:28:46] A gente fez um programa inteiro.

[01:28:49] Exatamente.

[01:28:51] Mas, ou seja, o que eu quero dizer com tudo isso, existe uma institucionalização, não é de hoje,

[01:28:57] tem vários críticos e autores, historiadores, que se pautam única e exclusivamente nesse critério.

[01:29:04] O que é institucionalização?

[01:29:06] Uma coisa bem formal mesmo, meio Focotiano talvez, mas enfim.

[01:29:10] A arte é o que a instituição diz que é arte, o que esse grupo feito de determinados atores diz que é arte.

[01:29:17] E é isso. Eu não concordo com isso.

[01:29:19] Eu concordo.

[01:29:21] Bordiana veia, Teoria dos Campos é foda.

[01:29:25] Muito bem.

[01:29:27] Mas o que eu ia dizer é que essa institucionalização, e é um pouco por isso que eu não concordo, mas não só,

[01:29:34] ela serve mais para não alterar o que é feito em termos de produção artística,

[01:29:43] mas para alterar justamente essas discussões que usam a arte como pretexto, como é o caso dessa polêmica.

[01:29:49] Perfeito.

[01:29:51] De falar, olha só o que a arte é capaz de fazer, vamos redefinir a arte, sei lá o que.

[01:29:56] No fim das contas, o que está em jogo aí, e isso não é segredo para ninguém,

[01:30:00] é os bons valores, a família brasileira, enfim, essa degeneração toda das novas gerações e tudo mais.

[01:30:13] E essa institucionalização, como eu estava dizendo, ela vai se preocupar em definir o que é arte,

[01:30:21] mas os artistas, eu posso estar totalmente, enfim, eu acho que vocês todos vão concordar de mim, vão discordar de mim.

[01:30:28] Os artistas todos estão mais interessados em fazer arte do que em definir o que é arte.

[01:30:33] Vou entrar nessa…

[01:30:35] Eu estou generalizando, estou generalizando.

[01:30:37] Eu estou generalizando, tem artistas, alguns sei lá, desocupados como eu que além de ficar estudando,

[01:30:47] o cara fica em cima do muro como eu.

[01:30:51] Mas assim, no meu caso, por exemplo, o que eu estudo não tem nada a ver com o que eu faço.

[01:30:55] Eu não faço nenhuma, eu até prefiro, para manter uma certa sanidade, fazer a arte sem pensar nessas questões,

[01:31:06] porque isso tudo, no fim das contas, e daí só nisso que eu concordo talvez com o Bourdieu e o pessoal,

[01:31:12] é uma questão de luta de classes, institucionalização e tudo mais.

[01:31:18] Só para finalizar, eu sei que estão me prolongando para caramba,

[01:31:21] mas para ficar mais claro, não ficar abstrato isso que eu estou chamando de institucionalização,

[01:31:27] vocês estavam falando de alguns, enfim, autores lá da fogueira e tal, do Renascimento.

[01:31:35] Enquanto vocês estavam falando isso, eu lembrei de uma questão que não tem nada a ver com arte,

[01:31:42] mas que eu acho que tem um pouco a ver com essa ideia de institucionalização e essa coisa toda.

[01:31:46] Eu sei que vai parecer bem bizarro, mas eu vou chegar no meu ponto.

[01:31:51] No início da Idade Média, antes, inclusive de Santo Agostinho, então antes do século X e tudo mais,

[01:32:00] mas no século, não vou lembrar qual século que é, mas os primeiros, já que a gente está falando de igreja cristã também,

[01:32:09] os primeiros monges cristãos, tipo Copta e outros segmentos aí, outras monastérios possíveis,

[01:32:17] eles tinham chamado Canto Chão. Não sei se já ouviram falar de Canto Chão.

[01:32:23] Assim, o que eles faziam nos monastérios na maior parte do dia? Eles faziam tudo menos rezar.

[01:32:30] Eles faziam tudo menos ler a Bíblia. Por quê? Porque eles tinham mais coisas mais importantes para fazer,

[01:32:35] como cozinhar, limpar, plantar, trabalhar, enfim, né?

[01:32:41] Pois é, eles tinham que manter a casa, né?

[01:32:47] E só quando eles não ficavam tão cansados, quando sobrava tempo, eles rezavam.

[01:32:55] Mas enquanto eles ficavam trabalhando, o trabalho era repetitivo, você tem que varrer chão,

[01:33:00] principalmente a ideia de varrer chão, mas plantar e ficar batendo no chão e tudo mais.

[01:33:05] Isso já era assim, imagina você estar fazendo isso o dia inteiro, um trabalho repetitivo com o grupo,

[01:33:12] com os seus companheiros monges ali. O que vocês vão fazer? A gente vai cantar.

[01:33:17] A gente vai trabalhar cantando. Aí eles começaram a cantar, né?

[01:33:22] Cantar os salmos, mas também cantar outras coisas, não é só os salmos da Bíblia,

[01:33:26] justamente para o trabalho não ficar tão entediante.

[01:33:29] No início do século oito, um papa chamado Gregório, que é o cara conhecido por ter criado o canto Gregoriano,

[01:33:39] ele resolve institucionalizar o canto chão. O que significa institucionalizar o canto chão?

[01:33:47] Dizer, olha, vocês que criaram esse negócio de canto chão não sabem cantar.

[01:33:52] Vocês sabem ler partitura, por exemplo? Não sabem.

[01:33:58] Então, assim, a partir de agora só vai ser permitido cantar nessa nossa igreja do século oito.

[01:34:07] A igreja atual não estava tão consolidada como vai ficar logo depois.

[01:34:14] Só vai ser permitido cantar nessa nossa igreja, quem souber ler partitura,

[01:34:19] quem souber que tem três escalas possíveis no mínimo de voz, quem enfim cantar e óbvio, só homens.

[01:34:26] Antes disso, quem cantava o canto chão eram homens, mulheres, crianças,

[01:34:33] pessoas inclusive que não tinham nada a ver com a igreja ou com os monastérios,

[01:34:39] porque justamente ouviam eles cantando e assimilavam essas músicas.

[01:34:44] A partir do canto Gregoriano, todas as pessoas que não sabiam ler partitura,

[01:34:52] e enfim, não fossem homens, etc. e tal, eram descomungados.

[01:34:58] Claro que isso não ficou para sempre, depois foi reformado no decorrer dos séculos.

[01:35:03] Mas isso é um exemplo só para dizer do que eu estou chamando de institucionalização.

[01:35:07] A gente falar, ó, agora vocês que até agora estavam fazendo arte, vocês não são mais artistas,

[01:35:14] porque vocês não sabem teoria da arte, vocês não sabem história da arte, vocês não sabem qualquer porra desse sentido.

[01:35:20] Então vocês, embora vocês façam algo que vocês chamam de arte, vocês não são artistas,

[01:35:25] porque é nós que vamos instituir o que é arte a partir de agora.

[01:35:29] Então isso é só para esclarecer o que eu estou chamando de institucionalização,

[01:35:32] que eu acho que é uma disputa que está acontecendo assim.

[01:35:36] O MBL tem essa ideia não de institucionalizar tanto a arte, mas institucionalizar a vida e os costumes, incluindo a arte.

[01:35:48] Mas que isso já foi feito pelos vanguardistas, pelos próprios neo vanguardistas, pelos próprios artistas.

[01:35:56] Então isso é uma coisa que sempre existe.

[01:35:59] Sim, é histórico e por isso que eu vejo um viés de recalque, porque ele retorna todo o poder para existir,

[01:36:08] para se justificar, para se consolidar, ele precisa normatizar.

[01:36:11] Precisa exercer sobre alguém ou alguma coisa a sua força e daí só assim que ele é poder.

[01:36:18] Por isso que essas instituições foram questionadas ao longo do século de 17, 18, 19 e entraram em completo colapso ao longo do século 20,

[01:36:29] na arte especialmente, todas as instituições do que era arte, que é o que vocês estão falando aí.

[01:36:34] Agora essa atitude reacionária do MBL justamente reproduz esse comportamento, que é uma tentativa de exercício do poder.

[01:36:42] Porque quando eles dizem isso é lixo, isso não é arte, essa era a tônica de todos os comentários e discursos deles,

[01:36:49] eles estão pressupondo a ideia de que haja uma coisa chamada arte e de que essa coisa seja definida previamente, por quem? Por eles.

[01:36:57] E quem está dizendo que não é arte é eles, portanto eles sabem, eles estão possuidores, detentores do conceito do que é arte.

[01:37:04] E isso é claro que é uma opressão. Justamente por conta dessa opressão normativa e que nas relações de gênero se torna heteronormativa,

[01:37:16] é que existem exposições como essa do Queer Museum, que eles estão atacando.

[01:37:21] Termina aí, Gustavo.

[01:37:24] É que eu queria daí passar para outro, ligar com outro assunto, não sei se tu quer…

[01:37:28] Então eu queria fazer um ampassão em alguns temas, aqui provavelmente um deles vai bater no que você está querendo,

[01:37:36] mas só para aproveitar esse tópico, porque teve um comentário no Facebook de um cara chamado Ian Felipe Cavalcanti,

[01:37:45] e eu só queria responder ele para aproveitar a oportunidade que bate nisso que a gente está falando.

[01:37:51] Se a gente está pensando em arte como esse espaço de disputa de ideologias e ideais, enfim,

[01:37:58] ele falou assim,

[01:38:22] Eu só queria…

[01:38:24] Não entendi.

[01:38:25] Então, porque assim, só repetindo, ele falou assim,

[01:38:33] Como você sabe, nos últimos dias tem sido muito discutido nos Estados Unidos a retirada de algumas estátuas de colonizadores

[01:38:41] que eles ajudaram na expansão dos Estados Unidos, entretanto eles fizeram de muitos negros e índios escravos,

[01:38:48] neste caso você acha que deveria haver essa censura?

[01:38:51] Eu perdi o começo.

[01:38:52] Só para comentar muito rápido isso aqui que ele está falando, eu não quero nem me encender muito nesse assunto,

[01:38:57] porque é outra parada, mas aqui tem a ver.

[01:39:00] Primeiro, o que eu saiba, eles não estavam tirando estátuas de colonizadores,

[01:39:04] eles estavam tirando estátuas do Robert E. Lee e outros generais do Sul da Guerra da Secessão.

[01:39:10] Essas estátuas tem toda uma história de que elas foram colocadas em praças públicas em certos períodos

[01:39:17] em que os Estados Unidos teve ondas conservadoras que vão e vem,

[01:39:21] então elas não são necessariamente espontâneas no sentido de homenagear o passado,

[01:39:28] elas foram lá através de uma agenda política colocadas.

[01:39:32] Independente disso, vamos imaginar colocar no mesmo balaio colonizadores, escravagistas e pessoas que têm essa ideia,

[01:39:40] se eu acho que ela tem que ter estátuas, nomes de rua, nomes de praça, não.

[01:39:44] Eu acho que tem que tirar tudo isso, porque ainda bem nós avançamos no futuro,

[01:39:48] e se você quiser saber a história, você pode ir para qualquer biblioteca, procurar no Google,

[01:39:53] você ficar à vontade, agora você ter uma estátua de um escravagista no meio da sua praça,

[01:39:59] ou ter o nome de um ditador militar como o nome de uma avenida, isso eu acho uma vergonha,

[01:40:06] então eu sou super a favor de mudar tudo isso.

[01:40:10] É que o Ian perguntou para mim, então eu só estou respondendo muito rápido.

[01:40:15] Agora, o ponto que eu acho que deu é interessante, eu vou deixar alguns links na postagem para a galera,

[01:40:22] porque o Gustavo citou antes, a gente estava falando do OMBL,

[01:40:26] eu vou deixar uma matéria aqui que saiu no Zero Hora, mas que é só para assinantes,

[01:40:32] então eu encontrei em outro link aqui, que é um fórum maluco, onde tem essa matéria também,

[01:40:37] que é basicamente a influência do OMBL no governo Marquesan, que é atualmente o prefeito de Porto Alegre,

[01:40:44] então assim, tem pessoas da prefeitura, da atual gestão de Porto Alegre que são muito próximas ao OMBL,

[01:40:54] citando aqui uma mensagem que eu recebi de um ouvinte, ele falou assim,

[01:41:00] Os detalhes que sei ouvir por aqui são os seguintes, quem começou a pressão em relação a essa exposição

[01:41:07] por meio das redes sociais, principalmente o Facebook,

[01:41:10] já aviso que eu não tive como verificar isso, estou só relatando o que estou recebendo de mensagem.

[01:41:16] O primeiro de Facebook foi a Paula Cassol e o secretário de serviços urbanos da prefeitura de Porto Alegre,

[01:41:22] o Ramiro Rosário, os dois publicamente ligados ao OMBL.

[01:41:26] Se não me engano, o Ramiro é presidente do OMBL aqui em Porto Alegre.

[01:41:29] Até onde sei, tiveram ajuda também do deputado Marcel Van Hattem,

[01:41:33] que tu encontra no Facebook onde ele fez o chamamento público e no Twitter.

[01:41:38] E se tu procurar a zero hora, faz há pouco tempo, reportagem sobre a influência do grupo na prefeitura de Porto Alegre,

[01:41:44] que hoje é do PSDB. Acho que era isso, detalhe, até onde sei, nem o prefeito e o governador fizeram qualquer declaração sobre o ocorrido.

[01:41:53] Clarice, eu ouvi muita gente citando esse tal de esse deputado Marcel Van Hattem.

[01:42:00] Quem é esse na fila do pão? Eu não tenho ideia.

[01:42:04] Na fila do pão? Ele é o famoso seu encontro na rua, eu bato. Brincadeira, não.

[01:42:11] Sem violência, sem violência, sem processos, sem processos. Não, é uma ameaça.

[01:42:18] Eu sou inofensiva, quase.

[01:42:23] Assim, pra explicar quem é o Van Hattem, eu não saberia explicar, mas na minha cabeça eu ouço o nome e a associação direta.

[01:42:33] Ah, um cara de direita, fascistinha, essas coisas.

[01:42:38] Mas estando ligada à prefeitura de Porto Alegre, qualquer um, que a gente nem chama o Marquezã de Marquezã, a gente chama ele de Júnior,

[01:42:47] porque é o político de família, assim, capitanias hereditárias, sabe? Não, acabou, não, acabou.

[01:42:57] Então é mais ou menos nessa linha.

[01:43:01] O Gustavo conhece esse tal de Van Hattem, essa relação com a IBL e a prefeitura?

[01:43:08] Não, não conheço. Eu estou há pouco tempo aqui, ainda não tenho interação total, mas eu estou vendo aqui no site dele.

[01:43:16] Ele era do PP, se elegeu pelo PP aos 18 anos, tem um partidão da porra, né?

[01:43:22] Partidão da porra.

[01:43:26] Desse conservador, né? E da juventude, que é a coisa mais triste que pode existir no mundo, é uma juventude conservadora,

[01:43:37] porque ela está conservando valores que não são dela, são dos pais. Sabe o filhinho do pai, filhinho da mamãe?

[01:43:43] Que não foi capaz de ter autonomia suficiente para criar seus próprios valores e defendê-los.

[01:43:48] É a juventude que ainda precisa do pai, né? Ainda não matou simbolicamente o pai.

[01:43:55] Simbolicamente, vamos ler Freud, tá, gente? Só pra deixar claro.

[01:44:03] Aliás, esse campo do simbólico é justamente do que se trata a arte, né?

[01:44:09] Quando eu recebi aquela pergunta, há um tempo atrás, alguém fez que se fossem ícones do não sei o quê, né?

[01:44:19] Se fosse o oposto.

[01:44:23] Porque tinha uma obra lá do Fernando Baril, que era um Cristo com Shiva associado.

[01:44:29] Mas eu pergunto primeiro, o que é uma ofensa?

[01:44:32] Que ícones, que tipo de ícones desse imaginário podem ser tão frágeis,

[01:44:38] a ponto de correrem algum risco mediante uma pintura óleo sobre tela?

[01:44:45] Que tipo de crença, como a cristã, enfim, qualquer que seja, é tão frágil a ponto de quando ela é colocada em debate,

[01:44:53] ela não resiste e reage à própria, ao próprio debate.

[01:44:57] A arte é o terreno do simbólico, que é o mesmo da representação.

[01:45:01] Por isso que ela normalmente, ela tradicionalmente entra em conflito com a iconografia religiosa.

[01:45:07] Não só cristã, mas de qualquer outra religião, né?

[01:45:11] Porque ambas, ambos mexem, a arte e a religião mexem com o campo do simbólico, da representação.

[01:45:17] Mas é justamente esse o fundamento maior, eu acho, que é os grandes significados dessa exposição do Peer Museum, né?

[01:45:26] Peer Museum, que é o seguinte, as coisas ali são pinturas.

[01:45:32] O que gerou a polêmica em relação a pedofilia, zoofilia, são pinturas, pinturas são representações.

[01:45:39] Aí de novo, por isso que eu acho que a mexe com a ideia do recalque, né?

[01:45:43] Porque que uma coisa que é uma mera representação, no caso, representações pictóricas, pouco significativas,

[01:45:51] vou dizer assim, a obra da Adriana Parejão é de Lu, aquilo ali já não está, mas nem a obra da Adriana Parejão é outra coisa hoje,

[01:45:57] que é muito mais interessante do que aquilo ali que foi apresentado.

[01:46:00] Por que que obras velhas, de cunho modernista, né?

[01:46:04] Porque são explorações ali, pictóricas, no campo da bidimensão pictórica ainda.

[01:46:11] Por que que isso mexe tanto com as crenças, né?

[01:46:17] Por que que isso pode ter um teor tão ofensivo assim?

[01:46:21] Primeira coisa que eu perguntaria, né?

[01:46:23] O que é uma ofensa e que tipo de crença são essas que não podem ser tocadas?

[01:46:28] A arte, se tem alguma função, os artistas colocaram essa função em cheque.

[01:46:34] Mas ela efetivamente faz uma coisa que é a sua tarefa.

[01:46:38] A tarefa da arte é justamente colocar as coisas em debate, porque ela está mexendo no campo simbólico.

[01:46:44] Ela está mexendo no campo, nesse entrelaçamento complexo da representação.

[01:46:48] Então quando eu pinto um corpo humano, seja de que jeito for, eu estou colocando aquilo em debate.

[01:46:54] Porque a arte tem um sentido metafórico, é uma figura.

[01:46:57] Em arte a gente chama o corpo humano de figura humana.

[01:47:00] Por que não é o corpo humano?

[01:47:03] A Mona Lisa não é a Lisa de Okonda, é uma tela que um italiano pintou e etc.

[01:47:10] É diferente a representação da coisa.

[01:47:12] Mas ao artista não cabe justamente representar as coisas, dele não é o terreno da representação.

[01:47:20] Quando essa exposição mexe com reacionarismos, ela também tem o efeito inverso.

[01:47:28] Como a gente viu hoje, eu e a Clarice viemos lá na Praça da Alfândega.

[01:47:31] Tinha 400, 500 pessoas reagindo contra a reação.

[01:47:36] Essas pessoas que aderem a crítica ao Santander são as pessoas mais sensíveis para isso.

[01:47:46] Justamente aquelas que não só se sentem afetadas direto e indiretamente,

[01:47:50] mas que conseguem ter a autoridade suficiente para entender que aquela exposição era a defesa de pontos de vista de minorias que já são excluídas.

[01:47:59] E por isso merecem apoio, merecem adesão.

[01:48:03] Aí, por exemplo, eu pergunto assim, porque uma das críticas, mais uma das críticas enfundadas contra a exposição,

[01:48:11] é que era utilizou dinheiro público, um milhão de reais do governo.

[01:48:14] Isso.

[01:48:15] Isso é outra ignorância. Primeiro, foram 800 mil reais via Lerroné.

[01:48:19] Não é o Estado que paga, é o próprio Santander que financia a exposição via renúncia fiscal.

[01:48:25] Então aí já vê que a pessoa não sabe exatamente, não entende o regime de operação artística no país, mas tudo bem.

[01:48:33] Ora, quando eu tenho, por exemplo, aqui na minha casa um problema de elétrica,

[01:48:38] eu chamo um engenheiro elétrico, um eletricista, e eu ouço o que ele diz, porque ele é quem entende disso, certo?

[01:48:45] Eu pago para ele, ele vem aqui e diz, ó, tem que fazer isso, isso, isso.

[01:48:48] Eu vou lá e digo, cala a boca, você não entende nada disso?

[01:48:51] O que você fala não é eletricista.

[01:48:53] Pois é, o governo paga porque é uma atividade cadastrada no governo federal,

[01:48:58] existe um edital que a Lerroné, o Gaudencio apresentou o projeto para o governo federal,

[01:49:04] é um governo que o MBL deve amar, porque é do PMDB, então é o próprio governo dele que chancelou a exposição, ok?

[01:49:14] E daí eles falam, os artistas falam dos seus afetos, colocam em debate as questões que eles,

[01:49:21] na sua sensibilidade, fazendo seu métier, aquilo que são pagos para fazer,

[01:49:26] e daí vem o MBL e diz que isso não é arte, não quer ouvir?

[01:49:30] Entende como há um problema de ingerência?

[01:49:32] O MBL, voltando àquele outro assunto anterior no MBL, não só quer se instituir à custa do exercício da força

[01:49:39] sobre as definições do que é arte ou não,

[01:49:43] mas também ele quer se determinar o que deveria ser exposto ou não,

[01:49:50] o que deveria ser o papel do artista ou não,

[01:49:52] e está tutelando quais ideias as pessoas que são artistas, que trabalham com isso,

[01:49:58] deveriam ter sobre essas coisas, sobre a sexualidade.

[01:50:01] Isso é o exercício mais pleno e pavoroso da heteronormatividade,

[01:50:06] que ela só pode existir, a heteronormatividade, a partir da opressão aos outros tipos de gênero diferentes,

[01:50:15] ao transgênero, etc, etc.

[01:50:18] Então assim, eu vou pegar esse gancho do Gustavo também, que essa é a…

[01:50:27] De Juané.

[01:50:28] De Juané, que é o ponto.

[01:50:30] Tá, peraí, calma, calma.

[01:50:31] Fala aí, Clarice. Não, fica à vontade.

[01:50:33] A Clarice está louca para falar mal.

[01:50:35] Não, por favor, manda ver.

[01:50:37] Deixa ela falar.

[01:50:38] Já falei antes de gravação, Clarice, eu interrompo porque a gente fala demais mesmo, fica à vontade.

[01:50:42] Antes de entrarmos no assunto de Juané, voltando bastante, mas de certa forma relacionando tudo,

[01:50:50] eu pesquei uma frase do Gustavo bem no começo da nossa conversa,

[01:50:57] que ele disse que a gente não pode ficar refém dos bancos.

[01:51:02] E isso toca exatamente no que o Beccari estava falando antes, que é a institucionalização.

[01:51:09] A gente acaba refém dos bancos, dessas instituições,

[01:51:13] porque são elas que acabam ditando o que vai ser a arte e o que não é.

[01:51:18] Exato.

[01:51:19] E eu acho que além dos discursos que estão ali dentro do museu,

[01:51:25] que acaba sendo esse campo de disputa do simbólico e de muito mais,

[01:51:30] o MBL vem de certa forma contra uma ideia muito maior, que é a do direito à arte e à cultura.

[01:51:40] E a partir disso eu acho que é legal a gente entrar na Juané,

[01:51:46] porque a gente não tem muito dessa noção que a arte e a cultura são direitos nossos.

[01:51:54] São direitos nossos, são coisas que nós temos direito.

[01:51:59] Então, esse dinheiro, o cara chega e fala assim,

[01:52:02] ah, porque isso está sendo feito, essa coisa horrorosa com o dinheiro público, que é o seu dinheiro.

[01:52:10] Sim, é o meu dinheiro, não é o dinheiro do governo, não é o dinheiro do partido,

[01:52:16] não é o dinheiro de uma ideologia tal, é o meu dinheiro, é da união, é do país.

[01:52:23] Ela pode ser usada para o meu interesse, para o teu interesse,

[01:52:26] para uma coisa para qual eu discordo ou para me representar, a minha minoria, sabe?

[01:52:32] É uma coisa de todos nós.

[01:52:34] E ela é usada, no caso, na Juané para financiar a cultura e a arte, que são direitos nossos.

[01:52:41] É tudo nosso no fim.

[01:52:43] Então, o cara vem, muita gente vem e diz, ah, isso foi feito com o dinheiro público, olha que coisa horrorosa.

[01:52:49] Bom, tem coisas que eu sou totalmente contra,

[01:52:54] então são financiadas com o dinheiro que é meu e tudo bem,

[01:52:57] porque a gente precisa ter esse tipo de discussão numa sociedade como a nossa.

[01:53:04] Porque simplesmente a gente vive em sociedade.

[01:53:06] Exatamente.

[01:53:08] Exato.

[01:53:10] Às vezes algumas pessoas esquecem disso.

[01:53:15] Então, sobre a lei, Juané, gente, eu vou deixar um link aqui no post de um braincast,

[01:53:23] podcast do Benove, que a gente já morou lá um tempo,

[01:53:27] sobre lei Juané.

[01:53:29] Eles fazem uma explicação muito legal de lá, super didática, de como funciona.

[01:53:33] Mas assim, em dois segundos, como é que funciona a lei Juané?

[01:53:37] Lei Juané é um edital público, dentre vários, ela é de nível federal,

[01:53:41] em que, basicamente, você apresenta um projeto, pode ser de cinema, de quadrinhos, videogame, teatro.

[01:53:52] Em questão cultural em geral, inclusive não existiria cinema brasileiro sem esses editais de incentivo.

[01:54:02] Esses editais aí você dá um valor para o teu projeto.

[01:54:06] Se você dizer assim, eu quero fazer um filme, o meu filme vai custar um milhão de reais.

[01:54:10] Não significa que quando for aprovado, porque tem gente que é especializada em fazer projeto disso,

[01:54:16] não é uma coisa que você faz aí sentar no teu computador em 10 minutos,

[01:54:20] são projetos complicados de fazer, são bem complexos.

[01:54:23] Por isso que tem pessoas que ganham dinheiro só fazendo projetos para isso.

[01:54:27] Às vezes eu quero, se eu quiser fazer um projeto, por exemplo,

[01:54:30] eu vou contratar alguém que monte o projeto para mim,

[01:54:33] porque essa pessoa vai entender todos os trâmites burocráticos.

[01:54:36] Daí, sendo aprovado o meu projeto, a lei Juané é um edital, tem vários outros.

[01:54:42] Esse projeto sendo aprovado não significa que eu tenho lá o meu um milhão de reais para fazer o meu filme.

[01:54:47] Significa que eu tenho que conseguir esse um milhão de reais agora

[01:54:50] indo para empresas que vão fazer o quê?

[01:54:54] Elas vão fazer a tal da renúncia fiscal.

[01:54:56] Ela pagaria, vou fazer em valores fechados aqui, ela pagaria 100 mil de imposto no ano.

[01:55:04] Ela vai pegar uma parte desse imposto, que já seria pago para imposto de qualquer forma,

[01:55:09] mas ela vai colocar esse recurso agora no meu projeto.

[01:55:14] Daí tem lá uma percentage que eu não sei de cabeça,

[01:55:17] mas daí cada empresa pode renunciar um tanto porcento da sua receita de imposto para algum projeto cultural.

[01:55:25] Isso é normal no Brasil. Não existiria arte no Brasil sem isso.

[01:55:30] O mais importante, Ivã, a contrapartida da empresa…

[01:55:33] Quer dizer, contrapartida.

[01:55:35] Enfim, esse é um problema que eu vejo na lei, Juané.

[01:55:38] É que ela ganha divulgação.

[01:55:40] Ela necessariamente precisa ter…

[01:55:42] Ela faz propaganda com isso.

[01:55:44] Se quebra, ela ganha propaganda.

[01:55:46] É uma coisa que favorece essa minha crítica, de modo geral, às empresas.

[01:55:52] Seria um dinheiro morto para elas.

[01:55:54] Então, mas eu favoreço porque elas ganham publicidade com esse dinheiro, entendeu?

[01:56:00] Com isso que elas ganham propaganda de graça, no fim das contas.

[01:56:05] Resultado final é esse.

[01:56:08] Exato. E assim, não é só no Brasil.

[01:56:11] Na Europa, a maior parte do cinema europeu é através de leis de incentivo de cultura.

[01:56:17] O único país em questão de cinema que não é assim é os Estados Unidos.

[01:56:21] Porque os Estados Unidos têm uma indústria fodida de cinema que dá prejuízo para caralho também.

[01:56:27] E os caras, o que alimenta as instituições blockbusters.

[01:56:30] É isso. Então, cinema independente lá…

[01:56:33] Tem também leis de incentivo lá também, nível federal, municipal, estadual.

[01:56:38] Então, não é muito diferente daqui em alguns estados.

[01:56:41] Só que nos Estados Unidos a gente tem um modelo que é mais presente em nossas cabeças.

[01:56:45] Eu coloquei ali dois links, se você puder jogar bondade depois de jogar,

[01:56:49] que são dois artigos que eu escrevi no Acrasias.

[01:56:52] Faz um tempo já, mas teve uma enorme onda de reverberações e tal sobre a lei Rouanet

[01:56:58] e a cultura dos editais no Brasil.

[01:57:00] Joguei os links ali se tu quiser depois pôr na…

[01:57:02] Claro, já estão na postagem também.

[01:57:06] Queremos depois mandar um texto também.

[01:57:09] Claro, pode mandar, sem problema.

[01:57:12] Clarice, também se quiser mandar texto, fica à vontade.

[01:57:16] Vai textão aí.

[01:57:17] Vai textão.

[01:57:19] Eu só quero dizer dessa questão da lei de Rouanet o seguinte,

[01:57:22] que isso é uma coisa normal, funciona assim há muito tempo.

[01:57:25] E se não fosse isso, não existiria arte brasileira em qualquer meio.

[01:57:30] Tem videogame, história em quadrinho, livros que são publicados só por leis de incentivo.

[01:57:35] Então, assim, não é uma coisa que é coisa de comunista.

[01:57:39] Tem muitos abus da lei Rouanet, que eu acho absurdo, por exemplo,

[01:57:44] Ivete Sangado, Cláudia Leite, Luan Santana.

[01:57:47] Círculo de Solet, pra mim foi uma vergonha aquilo que foi feito.

[01:57:51] Carlinhos Brown.

[01:57:52] Carlinhos Brown.

[01:57:53] Não, mas aquele Círculo de Solet me deixa irritado, Becari.

[01:57:55] Porque foi assim, quem trouxe foi o Bradesco por lei Rouanet.

[01:58:00] O Bradesco é um banco, caralho.

[01:58:02] Eles podiam trazer.

[01:58:03] E o ingresso custava 400 reais.

[01:58:06] E o Círculo de Solet podia facilmente vir sozinho pra alocar no Brasil.

[01:58:11] Podia também, podia.

[01:58:13] Isso aí tem uma caralhada de erros nessa lei, em outras leis também.

[01:58:19] Mas é importante porque tem peças de teatro que você foi na sua vida,

[01:58:24] meu cara ouvinte, que não existiria sem leis de incentivo, sejam elas quais forem.

[01:58:28] Então…

[01:58:29] Provavelmente todas as peças de teatro que você gestionou, meu cara ouvinte,

[01:58:33] foram graças a lei Rouanet.

[01:58:35] Sim, sim.

[01:58:36] Então, até os abusos de novo.

[01:58:39] Qualquer filme da Globo Filmes, muitas vezes está em lei de incentivo.

[01:58:43] E a Globo não precisa disso.

[01:58:45] Então, de novo, tem abusos, mas tem muito artista que vive disso.

[01:58:49] Eu conheço autores, meio que eu conheço mais assim, da literatura,

[01:58:54] que todo ano eles têm que ganhar um edital pra ter dinheiro naquele ano.

[01:58:59] Sim, porque ele ganha um edital dizendo,

[01:59:01] eu vou passar esse ano inteiro escrevendo o meu próximo romance.

[01:59:04] E é assim que você cria escritores.

[01:59:06] Então, precisa disso.

[01:59:08] Dito isso, qual que é o lance que o MBL tanto força além da moralidade?

[01:59:14] Porque as entrevistas que eu li do MBL tentando se defender,

[01:59:18] primeiro foi assim, não, gente, a gente não fez uma repressão,

[01:59:21] a gente fez um boicote.

[01:59:22] Não, vocês fizeram repressão.

[01:59:24] Fizeram repressão e forçaram a situação.

[01:59:26] E o Santander bundeou e disse que vai devolver o dinheiro da exposição, inclusive.

[01:59:31] Que eu acho, assim, de novo, eu acho isso vergonhoso, o Santander fazer isso.

[01:59:36] Mas tudo bem, é banco, é cusão, foda-se.

[01:59:39] O pior é que eu tenho conta lá, é uma merda, assim.

[01:59:41] E o pior é que eu gosto do serviço deles.

[01:59:44] Mas é foda, me deixa triste, assim.

[01:59:46] Mas tudo bem.

[01:59:47] Tirando isso, o que que o MBL, qual que é a outra narrativa?

[01:59:51] Porque quando você começa a dizer, olha, não tinha pedofilia, não tinha zoofilia,

[01:59:55] vocês fizeram censura, daí o que que eles começam a falar?

[01:59:59] Não, mas foi com dinheiro público.

[02:00:01] Meu amigo, você só vai dizer se foi com dinheiro público se você é contra imposto no Brasil,

[02:00:06] coisa que o MBL, pelo jeito, obviamente, é.

[02:00:09] Porque eles querem um estado que não cobre tanto imposto,

[02:00:12] porque eles acham que esse dinheiro de imposto podia ter ido para o hospital.

[02:00:15] Não iria, esse é o ponto, é renúncia fiscal, ele é de renúncia fiscal.

[02:00:19] Então acaba com a arte no Brasil, acaba com cultura.

[02:00:22] É um discurso populista, só para apelar para aquele cara que não entende porra nenhuma disso,

[02:00:28] porque é um assunto difícil, é um assunto que nem todo mundo tem acesso mesmo, é complicado,

[02:00:32] mas que apela para aquele cidadão que de fato trabalha pra caralho o ano inteiro

[02:00:37] e paga 40% de imposto, 30% de imposto no ano, e acha isso um absurdo.

[02:00:41] E tá certo, o dinheiro do imposto é mal gerido no Brasil pra caralho.

[02:00:45] Agora, vender a ideia de que olha só, o dinheiro da exposição poderia ir para o hospital

[02:00:52] é muita canalice do MBL, é canalha isso.

[02:00:57] E esses caras estão elegendo políticos, é uma vergonha, é uma desinformação e é intencional.

[02:01:05] Os caras, eles são canalhas de propósito.

[02:01:07] Fala o mesmo, foda-se.

[02:01:09] Que cara…

[02:01:11] Posso fazer o advogado do diabo então?

[02:01:13] Vai, manda ver.

[02:01:15] Eu concordo com tudo que você disse.

[02:01:19] Eu acho importante que tenha a lei Rouanet, etc.

[02:01:23] Eu fico pensando, principalmente o cara do MBL, ou sei lá o quê, escola sem partida, etc.

[02:01:31] Ouvindo quando você diz que é desinformação e tudo mais.

[02:01:35] Eles diriam basicamente assim, ah, nos Estados Unidos funcionam.

[02:01:39] Não sei se a gente já deve ter ouvido com certeza esse argumento.

[02:01:43] A arte funciona nos Estados Unidos e no Brasil, que é essa merda,

[02:01:49] a gente precisa de uma lei Rouanet para o artista viver.

[02:01:53] Daí eles vão, aí que tá, na cabeça deles o que eu quero dizer é que tudo é muito lógico.

[02:01:59] Tudo faz muito sentido.

[02:02:01] Por que no Brasil artista não consegue viver sem a lei Rouanet?

[02:02:07] Porque eles fazem essas coisas degeneradas.

[02:02:15] Ou seja, a questão é toda muito bem articulada.

[02:02:19] O discurso todo assim, eles vão falar que a lei Rouanet tem que acabar, assim como os impostos também tem que acabar.

[02:02:27] Sim, sim.

[02:02:29] Então, assim, de novo, eu concordo com tudo que você diz,

[02:02:33] mas o fato é que para uma discussão ser interessante, na minha opinião,

[02:02:39] eu sempre me incomodo quando a gente começa a subestimar muito o interlocutor, sabe?

[02:02:47] Você sabe, né? Você me conhece, né?

[02:02:49] Sim, não, mas é que no caso do MBL, existe ali, o Gustavo antes usou o termo think tank,

[02:02:59] tem think tanks por trás do MBL com interesses bem específicos, sabe?

[02:03:05] Sim, sem dúvida.

[02:03:07] Então não é, porque quando eu digo que eles estão fazendo isso de desinformação de propósito,

[02:03:11] é porque estão, não é muito…

[02:03:13] Não, eles estão promovendo desinformação, mas não é que eles estão desinformados.

[02:03:17] Não, eles têm uma agenda, eles têm uma agenda, só que para essa agenda funcionar…

[02:03:23] Tudo é muito calculado na minha opinião, entendeu?

[02:03:25] Sim, sim, eu concordo, perfeitamente.

[02:03:27] Então, eles não são desinformados, então, entendeu?

[02:03:29] Eles querem…

[02:03:31] Não, eles promovem desinformação, é isso que eu estou querendo dizer.

[02:03:35] Quando você joga uma questão de lei Rouanet para ele, eles vão dizer assim,

[02:03:39] não, o imposto é roubo, o imposto é errado.

[02:03:41] Esse dinheiro de impostos tem que ir para o hospital, para a escola, que é um discurso populista fácil.

[02:03:45] É toda lógica lá que eu estava dizendo, que é uma lógica que, de fato, ela tem sentido.

[02:03:51] Se você sofre se prender, é essa lógica.

[02:03:53] Sim, claro, só que ela não…

[02:03:55] Só que na prática, ela não funciona, porque é mais complicado.

[02:03:59] Então, esse é o meu ponto.

[02:04:01] Eles sabem como as coisas funcionam, eles discordam e eles começam a minar essas ideias, fazendo essas ações.

[02:04:07] Então hoje, por exemplo, a manifestação que o Gustavo foi,

[02:04:11] a Clarice também, também foi hoje.

[02:04:13] Sim.

[02:04:15] Que daí tinha lá as 400 pessoas e tal.

[02:04:17] Os relatos que eu ouvi dela.

[02:04:19] Foi durante a tarde inteira, tinha gente lá de boa, daqui a pouco começava a aparecer lá um pessoal rezando.

[02:04:23] E daí, no final do dia, apareceu uma galera do MBL, entre eles um famosinho,

[02:04:27] que eu não vou citar o nome, porque eu não quero dar palco para o maluco,

[02:04:29] mas é que é famoso por levar a sua câmera e ficar provocando a galera.

[02:04:33] E daí, daqui a pouco, apareceu a Guarda Militar,

[02:04:37] quando apareceu a Guarda Militar, o pessoal do MBL foi correndo para trás da Guarda Militar,

[02:04:41] a Guarda Militar começou a jogar bomba na galera,

[02:04:43] porque o MBL fica lá incitando…

[02:04:45] De novo, quem vê os vídeos sabe como é que é essas manifestações.

[02:04:49] Eles fazem isso para depois ter um vídeo dizendo, olha só, esses esquerdistas me bateram.

[02:04:53] Esses esquerdistas estão batendo em mim, tive que fugir atrás da polícia.

[02:04:57] Ainda bem que a polícia veio aqui me proteger.

[02:04:59] Obrigado, policial, por proteger o cidadão de bem.

[02:05:01] É isso.

[02:05:03] Essa narrativa que está sendo construída e milhões de pessoas estão caindo nela.

[02:05:07] Sim.

[02:05:09] Mas nesse ponto, eu concordo…

[02:05:11] Quer dizer, não sei se o Gustavo queria dizer isso,

[02:05:13] mas que essa narrativa, ela existe de todos…

[02:05:17] A arte não faz sentido sem narrativas desse tipo.

[02:05:21] Sim, sim.

[02:05:23] Por exemplo, as vanguardas, os modernistas,

[02:05:27] a narrativa que eles constroem de…

[02:05:31] A narrativa que eles constroem de, sei lá,

[02:05:33] reaproximar a arte da vida, de democratizar a arte,

[02:05:37] ela só faz sentido a partir do momento que eles constroem um pano de fundo

[02:05:43] de que existe uma tradição normativa a ser combatida.

[02:05:47] Isso é um dos discursos mais canalhas que eu acho dos vanguardistas

[02:05:55] e que perdura até hoje entre os contemporâneos.

[02:05:59] Que geralmente é contra o realismo.

[02:06:01] Existe toda uma tradição normativa, não sei o quê.

[02:06:05] E daí dividem o mundo em dois, basicamente.

[02:06:07] Aqueles que pararam no tempo e que gostam de realismo, dessas coisas ultrapassadas,

[02:06:13] e aqueles que não gostam e os artistas degenerados que querem só aparecer.

[02:06:21] Enfim, ou o contrário, que é o caso da vanguarda.

[02:06:25] A gente está fazendo uma ruptura, e essa noção da ruptura

[02:06:29] só faz sentido com esse pano de fundo de uma tradição normativa.

[02:06:33] Veja.

[02:06:35] Exatamente.

[02:06:37] Nunca houve uma tradição normativa.

[02:06:41] Exatamente.

[02:06:43] Eu diria até que lá fora, se houve, ela foi muito restrito.

[02:06:47] No sentido, o grande público estava cagando.

[02:06:51] A arte não se resumia nisso.

[02:06:53] Claro, o que ficou na história, talvez sim.

[02:06:55] Mas aí que está.

[02:06:59] Essa tradição normativa, no Brasil e fora do Brasil, ela é inventada.

[02:07:03] De tal forma que, quando o pessoal do MBL vai contra uma exposição como essa,

[02:07:11] ela também inventa numa narrativa totalmente coesa, totalmente lógica, totalmente, enfim,

[02:07:17] inclusive consistente, envolvendo, por exemplo, a lei do Alvarado,

[02:07:21] envolvendo, por exemplo, além da lei Rouanet, envolvendo o absurdo que é o país, etc.

[02:07:27] e tal, o quanto que a gente paga imposto e tudo mais,

[02:07:31] para dizer olha a que ponto chegamos e vamos ser a vanguarda.

[02:07:35] Assim, quando a juventude desse país já cansou da esquerda e por aí vai.

[02:07:43] Isso é um discurso vanguardista, está entendendo?

[02:07:47] É sempre um discurso vanguardista.

[02:07:50] E a questão é que sempre cai nisso.

[02:07:53] Eu não sei se a Clarice ou o Gustavo querem falar da lei Rouanet, mas alguma coisa,

[02:07:59] senão eu já trago outra questão.

[02:08:02] Eu também não.

[02:08:04] Então vai, pode falar, Beccari.

[02:08:07] Então, quer dizer que, justamente, assim como nunca houve uma tradição, quer dizer,

[02:08:12] dizer que nunca houve é mentira também, mas é meio força de linguagem.

[02:08:17] Houve, sim, tradição normativa.

[02:08:19] Talvez não com a força que se constrói narrativamente sobre ela.

[02:08:24] Mas a lei Rouanet, por exemplo, ela tem uma força simbólica muito forte.

[02:08:33] No entanto, ela não resume o que é arte no país.

[02:08:36] Eu estava lembrando, enquanto vocês estavam falando de lei Rouanet e tal,

[02:08:40] de quando surgiu essa lei Rouanet e tudo mais, que foi depois do Festival de Músicas da década.

[02:08:46] Noventa, né?

[02:08:47] Isso.

[02:08:48] Eu fiquei lembrando de um cara como, por exemplo, Geraldo Vandré, que é um músico,

[02:08:54] que ele perdia vários festivais que ele participava e ele sempre gritava contra o público

[02:08:59] que vaiava a ele que a vida não se resume aos festivais.

[02:09:05] E ele era criticado porque a música dele não era compreendida e não sei o quê, não sei o quê.

[02:09:10] E assim, tudo bem, ele tem uma história triste.

[02:09:14] Mas tem vários outros artistas que ganharam notoriedade por meio desses festivais

[02:09:18] e que hoje vivem de edital também, de lei Rouanet.

[02:09:22] Mas eu estava dizendo, a vida é como o Geraldo Vandré falava, né?

[02:09:26] A vida não se resume aos festivais, não se resume aos editais, né?

[02:09:30] A lei Rouanet.

[02:09:34] E eu não estou dizendo que não deveria existir isso.

[02:09:38] Estou dizendo basicamente que o que contribui para que um discurso, por exemplo, do MBL,

[02:09:45] faça sentido é imaginar que toda a arte é aquilo que aparece no museu.

[02:09:51] E a gente sabe hoje em dia cada vez mais que artistas que ganham dinheiro, inclusive no Brasil,

[02:09:58] mas principalmente fora, são aqueles que basicamente vivem de vendas de internet.

[02:10:05] E esses artistas que vivem de vendas de internet, vou citar a Gianni Savilli, por exemplo,

[02:10:12] que só faz pornografia degenerada.

[02:10:17] Ela, entendeu?

[02:10:19] Eu também, eu sou fãs aço, realista nessa tradição normativa,

[02:10:24] só que ao mesmo tempo preocupada com questões de gênero, questões queer, questões da obesidade.

[02:10:29] Então, ou seja, de novo, a gente está chutando cachorro morto, mas o MBL ao criticar essa exposição

[02:10:41] e ao criticar ao mesmo tempo a lei Rouanet, eles estão chutando cachorro morto.

[02:10:45] O que eu quero dizer, sabe, volto naquele meu espírito de que não vale a pena discutir sobre isso.

[02:10:55] É tipo assim, vamos discutir sobre o nazismo ser de esquerda.

[02:11:01] Puta que o pariu, entendeu?

[02:11:05] Sabe, a gente está dando importância para um discurso do MBL.

[02:11:09] Porra, gente, o que a gente está fazendo?

[02:11:14] Saca, vale a pena.

[02:11:16] Bem vindo da internet, né cara?

[02:11:19] Entendeu?

[02:11:21] Eu posso ser muito ingênuo, sei lá o que, e vocês podem discordar totalmente de mim.

[02:11:27] Mas eu acho que a melhor estratégia para contrária a esse cálculo todo,

[02:11:34] que está ganhando cada vez mais força de um discurso, enfim, conservador, como do MBL, é o desprezo total.

[02:11:45] Bekary, eu até concordo, o problema é que esses caras não se deixam ser esquecidos, essa é a merda.

[02:11:54] Fala aí, Gustavo.

[02:11:57] Eu acho que já, de repente, um caminho para o encerramento, né?

[02:12:01] É, eu vou fazer uma pergunta final, mas sim, já estamos indo para o final, claro.

[02:12:06] Quer perguntar?

[02:12:08] Não, não, não, vai lá, a minha pergunta final é mais light.

[02:12:13] Eu concordo com o Bekary, mas não sei até que ponto ignorar o MBL e seus expedientes seria uma forma de também subestimá-los.

[02:12:29] Porque eu acho que assim, de uma certa forma, o que ainda não foi falado é que a exposição Queer Museu foi vitoriosa

[02:12:39] a um objetivo dos artistas, com as suas obras, principalmente do Gaudencio que fez essa articulação,

[02:12:46] era justamente levantar em debate.

[02:12:48] E está sendo posto em debate essas questões que de outra forma não fariam.

[02:12:51] É sempre o caso lá, né?

[02:12:53] O Salão dos Recusados teve maior audiência do que o Salão Francês Oficial, de que vocês falaram.

[02:12:58] Agora, é que o mundo não é linear.

[02:13:05] E o que parece ser um discurso apenas moralista, que é claro que é patético, que é tolo,

[02:13:12] um discurso que a gente lê assim, nós aqui pelo menos lemos e achamos uma coisa tola,

[02:13:17] no fundo eu acho ele profundamente perigoso porque ele é sintomático.

[02:13:22] O MBL, ele em si é um movimento evidentemente ridículo, só que ele é sintomático.

[02:13:26] De uma organização muito maior que está por detrás disso.

[02:13:30] E que tem dinheiro.

[02:13:32] Que tem dinheiro, tem financiadores, até hoje esse amigo me contou do histórico

[02:13:37] que começa já no período post-Tatcher na Inglaterra, centros de pesquisa, etc.,

[02:13:43] a financiar um outro tipo de pensamento, de ideologia.

[02:13:47] Pelo menos o Von Misse está…

[02:13:51] Ele está…

[02:13:53] Que é uma pauta liberal de estado mínimo.

[02:13:56] No entanto, a atitude que o MBL teve hoje, que sempre tem,

[02:14:00] é bem exatamente o que eles querem dizer no fundo, que é essa pauta do estado mínimo.

[02:14:05] Então, estado não tem que pagar, não tem que desistir o dinheiro para artista vagabunda

[02:14:09] da mais artista que defende pedofilia.

[02:14:11] Não deveria ter esse imposto.

[02:14:13] Exatamente, quer dizer, o estado mínimo que não te cobra nada.

[02:14:17] Que o livre mercado é que regula tudo.

[02:14:19] No entanto, o estado deve existir numa instância,

[02:14:22] a instância da força que deve estar ao lado deles.

[02:14:24] Então, é o sintomático eles correrem, como sempre, atrás da choque,

[02:14:29] como eles fizeram hoje.

[02:14:31] Corre atrás da polícia e daí diz assim,

[02:14:33] obrigado guarda por desistir e nós somos favoráveis ao guarda,

[02:14:36] não somos favoráveis à campanha do armamento,

[02:14:39] ou seja, contra o desarmamento, etc.

[02:14:42] Eles têm uma pauta muito truculenta por trás, brutal,

[02:14:47] certo? E são grupos financiados.

[02:14:50] Não é como eles querem aparentar, né?

[02:14:53] Mas um grupo de espontâneos, certo?

[02:14:57] Na internet, que não é nada espontâneo, é um movimento articulado, etc.

[02:15:01] Por isso que a gente tem que falar.

[02:15:03] É chato, mas temos que discutir e levantar a tampa

[02:15:08] para ver o que é que tem dentro.

[02:15:10] Não, eu deixo só, assim, não vou discordar do Gustavo,

[02:15:14] vou só esclarecer que eu falei desprezar,

[02:15:17] que eu acho que é diferente de ignorar.

[02:15:21] Assim, eles são perigosos e tal, mas como você disse,

[02:15:24] eles querem o confronto, eles fazem tudo para isso,

[02:15:28] mesmo que seja atrás da polícia, por trás de um batalhão, sei lá o quê.

[02:15:34] E quando basicamente a gente responde à altura,

[02:15:36] tentando inclusive fazer com que eles compreendam, etc.

[02:15:40] A gente está basicamente cumprindo com esse desejo de confronto.

[02:15:43] Quando se desprezar, enfim, desprezar algum discurso como esse,

[02:15:51] é justamente desprezar o desejo de confronto, mas não ignorar,

[02:15:55] por exemplo, que é um discurso perigoso,

[02:15:58] que é um discurso que cada vez se dissemina na sociedade e tudo mais.

[02:16:02] A exemplo, pensando em artistas mesmo,

[02:16:05] um cara como Lucian Freud, que eu acho que é mais conhecido, não sei, enfim,

[02:16:11] que trabalhava com a figura humana, que trabalhava com a nudez,

[02:16:15] que também já pintou transexuais, mas ele é bem antigo,

[02:16:21] quer dizer, bem antigo, tem que evitar falar isso, é relativo.

[02:16:25] Ele, sei lá, me ajuda aí, Gustavo, depois de 50, 60.

[02:16:29] Ele morreu há pouco.

[02:16:31] Mas é que ele tem uma longa trajetória, enfim.

[02:16:36] Isso. Ele é um cara que não ignorou,

[02:16:41] mas ele desprezou as neo vanguardas contemporâneas a ele.

[02:16:45] Ele desprezou, por exemplo, a arte conceitual, o expressionismo abstrato,

[02:16:52] do, qual que é o nome, do maluco?

[02:16:56] Polak.

[02:16:57] Polak, exatamente, foda-se, entendeu?

[02:16:59] Eu vou fazer a arte realista aqui.

[02:17:02] Mas atualmente, ou quase na mesma época, na verdade,

[02:17:04] a gente tem o Gerhard Richter, que também ignorou, não ignorou de novo,

[02:17:09] ele desprezou, porque ignorar para mim significa o seguinte,

[02:17:13] fingir que não existe.

[02:17:16] O Lucian Freud não fingia que as neo vanguardas não existiam.

[02:17:19] O Richter não fingia que a arte conceitual estava ganhando toda a força.

[02:17:23] O Richter, inclusive, que é norte-americano,

[02:17:26] aliás, perdão, ele é alemão,

[02:17:29] mas ele sabia muito bem do expressionismo abstrato.

[02:17:33] Só que ele resolveu seguir um caminho que é, pode ser considerado de resistência,

[02:17:38] pode ser considerado de uma outra proposta,

[02:17:41] que não é diretamente de confrontar, justamente,

[02:17:44] as neo vanguardas que desejavam a todo custo o confronto.

[02:17:49] Ou seja, tentando traduzir, quer dizer, voltar para a polêmica aqui.

[02:17:57] Eu acho que, assim, eu, enquanto artista, pelo menos,

[02:18:00] penso que a melhor forma de responder a essa questão

[02:18:06] é justamente fazendo mais arte degenerada, entendeu?

[02:18:12] Pôr em ato as forças contraditorias, né?

[02:18:14] Exatamente, exatamente.

[02:18:16] Mas, sabe, quando eles vão falar o que vocês acham,

[02:18:19] o que vocês têm a dizer?

[02:18:21] Para você eu não tenho nada a dizer.

[02:18:24] É uma atitude meio babaca.

[02:18:27] É foda, assim, é.

[02:18:29] Entendeu?

[02:18:31] Porra, é que nem, sabe, lá na USP, no doutorado de educação,

[02:18:37] tinha um professor que eu gostava muito, que era o Marcos Ferreira Santos.

[02:18:41] Enfim, saudade dele.

[02:18:44] E ele era um cara que é pai de santo,

[02:18:47] o cara, né, professor de mitologia e tudo,

[02:18:50] e ele ia dar aula com tambor na mão.

[02:18:53] Nossa, ele quase, ele diz, né, porque ele já,

[02:18:56] ele está se aposentando esse ano,

[02:18:58] que no começo da carreira dele, que ele fazia a mesma coisa,

[02:19:01] ele quase foi expulso da universidade.

[02:19:04] Porque, pô, o que você vai fazer com tambor aqui, né?

[02:19:08] Você precisa de tambor para dar aula,

[02:19:11] ou, assim, é preciso fazer uma faculdade para aprender a tocar tambor.

[02:19:16] E ele nunca, assim, tipo, se mobilizou minimamente

[02:19:25] para contrariar essas pessoas.

[02:19:28] Ele basicamente continuava tocando tambor.

[02:19:32] Aí que tá, a partir do momento que vem…

[02:19:35] Desculpa, Beccari, é que se você está imaginando, cara ouvinte,

[02:19:39] um riponga que só fica fumando maconha o dia inteiro,

[02:19:42] cara, você não tem ideia do crânio que é Max Ferreira Santos.

[02:19:46] Não, super erudito.

[02:19:48] Extremamente erudito.

[02:19:50] Sabe, fala mil línguas.

[02:19:51] Sabe, então não é assim…

[02:19:53] Você não chega nos pés, cara.

[02:19:56] Para ele, ele tá levando tambor, ele tá pensando num nível,

[02:19:59] assim, de linguagem muito louco, sabe?

[02:20:02] Então, o cara era foda.

[02:20:04] Então, bela lembrança.

[02:20:06] Então, é, e ele promoveu, assim, uma mudança,

[02:20:09] inclusive, assim, a cadeira de estudos de cultura afroameríndia.

[02:20:17] Foi ele que iniciou ali a linha de pesquisa nisso também,

[02:20:21] estudos sobre gênero e transexualismo,

[02:20:24] também ele que tá na frente disso.

[02:20:27] Ou seja, ele conseguiu mover um monte de coisa

[02:20:31] que, assim, ao contrário da maioria dos professores,

[02:20:34] não só dali, mas eu acho que de toda a gente,

[02:20:36] ficam só sentados debatendo, assim,

[02:20:38] dando discurso para uma multidão e não sei o quê,

[02:20:40] e não fazem, sabe?

[02:20:41] Não trabalham.

[02:20:42] Não vão lá, sabe?

[02:20:43] Levam tambor, sim, para mostrar, olha,

[02:20:45] isso aqui é a matriz africana mesmo, entendeu?

[02:20:48] É daqui que a gente tem que entender os mitos.

[02:20:53] É assim que opera a prática, na minha opinião.

[02:20:56] É assim que se opera a arte.

[02:20:59] Sim.

[02:21:00] E, entendeu?

[02:21:01] E tudo isso que a gente tem que entender,

[02:21:04] e, entendeu?

[02:21:06] E tudo bem, existem outros campos?

[02:21:07] Existe o campo da institucionalização,

[02:21:09] do discurso das narrativas históricas e por aí vai.

[02:21:12] Só que, como dizia Geraldo Vandré,

[02:21:14] a vida não se resume aos festivais,

[02:21:16] a arte não se resume a esses discursos.

[02:21:18] Perfeito.

[02:21:21] Muito bom, então.

[02:21:23] Tava com saudades dos discursos inflamados do Beccari.

[02:21:28] Gente, tamo com duas horas e quinze de programa,

[02:21:31] eu acho que já podemos ir para o encerramento.

[02:21:33] Eu queria encerrar de uma maneira mais leve,

[02:21:36] que é que vocês citassem uma polêmica preferida de vocês

[02:21:40] em questão de história da arte.

[02:21:42] Alguma exposição, alguma obra.

[02:21:46] O Gustavo caiu, eu vou tentar colocá-lo aqui de novo.

[02:21:49] Ele ficou muito bravo com o que eu acabei de falar.

[02:21:54] Pelo puto, eu vou seguir o conselho do Beccari e vou desprezar.

[02:21:58] O Gustavo ficou offline,

[02:22:00] eu torço que a internet dele não tenha nenhum problema,

[02:22:02] mas enquanto isso, quem quer começar?

[02:22:04] Clarice ou Beccari?

[02:22:06] Alguém quer citar alguma…

[02:22:08] A gente não deixa ela falar.

[02:22:10] Então, desculpa.

[02:22:12] Clarice, tem alguma polêmica artística

[02:22:15] que você gosta de lembrar,

[02:22:17] que é uma das mais divertidas?

[02:22:19] Eu tô pensando.

[02:22:21] Me pegou desprevenida agora.

[02:22:23] É tipo eu na manifestação hoje de tarde,

[02:22:27] vem o cara da TV, me entrevistar,

[02:22:29] e eu acho que, meu Deus do céu,

[02:22:31] o que vai acontecer?

[02:22:33] O Beccari tem alguma de cabeça,

[02:22:35] enquanto a Clarice…

[02:22:37] Tenho, tenho.

[02:22:39] Então, vamos lá.

[02:22:41] Clarice, vai tentando elencar,

[02:22:43] enquanto o Beccari fala da sua polêmica.

[02:22:45] Quando você falou,

[02:22:47] eu pensei já no clichê,

[02:22:49] mas eu não vou falar desse clichê.

[02:22:51] O clichê é o merda de artista.

[02:22:53] Do Piero Manzoni.

[02:22:55] O Piero Manzoni

[02:22:57] enumerou e assinou 90 latas

[02:23:00] contendo suas próprias fezes.

[02:23:02] Enfim, é o clichê.

[02:23:04] O Gustavo falou.

[02:23:06] Não, Gustavo,

[02:23:08] já tô colocando ele de volta aqui.

[02:23:10] Mas tá.

[02:23:12] Já tô colocando ele no palco.

[02:23:14] Então, o que eu acho mais interessante

[02:23:16] dessas polêmicas de artista

[02:23:18] é de um cara chamado,

[02:23:20] de um artista chamado John Layton,

[02:23:22] que dava aula numa faculdade

[02:23:26] e fazia parte do grupo Fluxus,

[02:23:30] de arte conceitual,

[02:23:32] do qual pertenciam a Yoko Ono,

[02:23:36] vários outros.

[02:23:38] O Fluxus é conhecido, né?

[02:23:40] Pois bem.

[02:23:42] É conhecido porque tem arte contemporânea.

[02:23:44] Mas assim, o pessoal pode conhecer,

[02:23:46] era o grupo da Yoko Ono,

[02:23:48] que ela não precisa de introdução.

[02:23:50] Então, em 1966,

[02:23:52] auge da arte conceitual.

[02:23:54] Enfim, não sei se é o auge mesmo,

[02:23:56] mas era importante,

[02:23:58] tava despontando ali.

[02:24:00] Ele retira da biblioteca da escola dele,

[02:24:02] da faculdade onde ele lecionava,

[02:24:04] uma cópia do livro

[02:24:06] Arte e Cultura

[02:24:08] de Clement Greenberg.

[02:24:10] Se vocês conhecem esse livro.

[02:24:12] Não conhece.

[02:24:14] Ficou bem famoso nessa época.

[02:24:16] Ele foi um artista,

[02:24:18] ele ficou bem famoso nessa época.

[02:24:20] Se eu não me engano,

[02:24:22] foi alguns anos

[02:24:24] antes de 1966,

[02:24:26] que ele foi publicado.

[02:24:28] Eu não vou falar desse livro,

[02:24:30] senão eu vou me estender demais.

[02:24:34] É um livro de formalismo,

[02:24:36] o Clement Greenberg,

[02:24:38] eu falei que não ia falar,

[02:24:40] o Greenberg é um dos responsáveis

[02:24:42] por ter lançado

[02:24:44] e patrocinado

[02:24:46] ele como crítico,

[02:24:48] o Pollock.

[02:24:52] Nesse livro deu todos os critérios

[02:24:54] para dizer o porquê que o Pollock é genial.

[02:24:56] Bom, incomodado com isso,

[02:24:58] o John Layton

[02:25:00] alugou esse livro aí

[02:25:02] e ele convida os alunos

[02:25:04] e colegas dele na faculdade

[02:25:06] para sessões de degustação.

[02:25:10] O que são essas sessões

[02:25:12] de degustação?

[02:25:14] Um dos alunos e alunas

[02:25:16] e professores também que estavam lá

[02:25:18] e colegas artistas do grupo Fluxus

[02:25:20] deveria arrancar

[02:25:22] uma página do livro,

[02:25:24] mastigá-lo durante alguns 15 minutos,

[02:25:26] mastigá-los bem

[02:25:28] e cuspir o resultado

[02:25:30] em alguns recipientes.

[02:25:34] Na sequência,

[02:25:36] depois de ter feito várias,

[02:25:38] até pegar todas as páginas do livro,

[02:25:40] até não restar nada do livro,

[02:25:42] o John Layton

[02:25:44] pegou alguns produtos químicos

[02:25:46] de fermentação,

[02:25:48] acrescentou esses recipientes

[02:25:50] com essa mistura

[02:25:56] da degustação

[02:25:58] e esperou vários meses

[02:26:00] para as páginas se decomporem totalmente.

[02:26:08] Inclusive, mais de um ano

[02:26:10] ele recebia várias advertências

[02:26:12] da biblioteca.

[02:26:16] Acabou o prazo da devolução

[02:26:18] do livro.

[02:26:22] Faz tempo, ele quase estava

[02:26:24] sendo cobrado com multas

[02:26:26] e tudo mais. Em um belo dia,

[02:26:28] ele chegou na biblioteca

[02:26:30] e entregou esses recipientes.

[02:26:32] Olha, está aqui o livro.

[02:26:36] Desculpa a demora.

[02:26:40] E daí, assim,

[02:26:42] no dia seguinte, ele foi demitido

[02:26:44] da faculdade.

[02:26:48] Foi mau o comportamento.

[02:26:52] E assim, no mesmo mês,

[02:26:54] essa maleta que ele entregou

[02:26:56] na biblioteca, contendo tudo

[02:26:58] que sobrou dessa performance,

[02:27:00] sei lá se isso pode ser chamada

[02:27:02] de performance,

[02:27:04] no mesmo mês isso se tornou parte

[02:27:06] do acervo permanente do MoMA.

[02:27:08] Caralho!

[02:27:10] O link que está até hoje

[02:27:12] lá, o nome

[02:27:14] dessa obra é

[02:27:16] Art & Culture,

[02:27:18] que é o nome do livro do

[02:27:20] Clement Greenberg.

[02:27:22] Eu achei que o nome era Que Delícia!

[02:27:28] É parte do acervo permanente,

[02:27:30] do Museu de Arte Moderna.

[02:27:32] Então, eu acho que é

[02:27:34] bem representativo.

[02:27:38] E por que que eu tenho

[02:27:40] uma certa incapacidade,

[02:27:42] eu diria, intelectual

[02:27:44] de entender a arte

[02:27:46] conceitual, pelo menos?

[02:27:50] Compreensível, Beccari.

[02:27:54] Clarice, antes de eu

[02:27:56] ligar, antes de eu querer que você fale,

[02:27:58] eu vou tentar ligar

[02:28:00] para todo mundo de novo para ver se o Gustavo entra ali.

[02:28:02] Eu vou desligar e ligar de novo.

[02:28:04] Só um minutinho.

[02:28:06] Foi mal, desculpa.

[02:28:08] Então, tá.

[02:28:10] Acho que pensou que você tinha esquecido.

[02:28:12] Seguido o meu conselho

[02:28:14] e desprezado do tudo que eu digo.

[02:28:18] Clarice,

[02:28:20] conseguiu pensar em algum?

[02:28:22] Eu lembrei

[02:28:24] de um que não é

[02:28:26] meu favorito, mas que eu

[02:28:28] acho que super vale a

[02:28:30] pena falar disso, até pelo tema

[02:28:32] que a gente está, que a gente

[02:28:34] discutiu hoje.

[02:28:36] Bom, as pessoas podem procurar,

[02:28:38] porque é meio recente, assim.

[02:28:40] E é sobre a polêmica

[02:28:42] da exposição da Marcia X,

[02:28:44] que foi censurada

[02:28:46] uns anos atrás, quando ela

[02:28:48] foi expor no…

[02:28:50] Se eu não me engano, era o Centro Cultural

[02:28:52] do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

[02:28:56] Enfim, a exposição foi censurada

[02:28:58] porque tinha

[02:29:00] obras que eram

[02:29:02] desenhando

[02:29:04] pênis com

[02:29:06] as contas de terços.

[02:29:08] Sim.

[02:29:10] Sim.

[02:29:12] E rolou uma polêmica

[02:29:14] parecida com a

[02:29:16] exposição aqui do Cream Museum,

[02:29:18] porque tinha uma das obras

[02:29:20] que eram com hostias,

[02:29:22] não consagradas,

[02:29:24] que tinham escrito nelas

[02:29:26] partes do corpo, mas

[02:29:28] tipo, não eram braças e

[02:29:30] pernas na área.

[02:29:32] Anos, vagina, essas coisas.

[02:29:34] E muita gente

[02:29:36] fez um paralelo entre as duas

[02:29:38] e relacionando isso com

[02:29:40] a censura. Então eu acho que é interessante

[02:29:42] citar aqui pra

[02:29:44] as pessoas procurarem sobre isso.

[02:29:46] E até porque a Marcia é uma artista

[02:29:48] mulher, né?

[02:29:50] Não, excelente.

[02:29:54] Ok, então…

[02:29:56] Só uma coisa, até o Filipe Figueiredo

[02:29:58] que comentou no Twitter.

[02:30:00] Como é que você consegue hostias?

[02:30:02] Na verdade é bem

[02:30:04] simples conseguir. O complicado

[02:30:06] é fazer hostias consagradas.

[02:30:08] Isso é mais complicado.

[02:30:10] Aí é o problema.

[02:30:12] Isso aí você não vai ter acesso muito fácil.

[02:30:14] Gustavo caiu de novo.

[02:30:16] Então…

[02:30:18] Eu vou falar você, Ivan.

[02:30:20] Vou falar eu.

[02:30:22] Cara, eu não

[02:30:24] sou especialista em

[02:30:26] música, né?

[02:30:28] Mas eu gosto muito da história

[02:30:30] se não me engano do Stravinsky

[02:30:32] Consagração da Primavera

[02:30:34] 1913, se não me engano

[02:30:36] ele ia apresentar essa peça.

[02:30:38] E era uma peça que tinha uma série de experimentações

[02:30:40] inclusive

[02:30:42] de balé que tava acompanhando

[02:30:44] e ela tinha uma série de experimentações sonoras.

[02:30:46] Daí reza a

[02:30:48] lenda. Ninguém tem certeza

[02:30:50] disso, né? Porque não filmaram

[02:30:52] nem nada. Mas reza a lenda

[02:30:54] que chegou uma hora que ninguém tava

[02:30:56] entendendo o som mais, o que tava rolando

[02:30:58] e a galera começou a entrar em

[02:31:00] pânico enquanto a galera tava tocando

[02:31:02] e a dança acontecendo e tava todo mundo

[02:31:04] muito louco e ninguém entendendo direito.

[02:31:06] E daí

[02:31:08] começou uma maluquice assim de tipo

[02:31:10] gente querendo sair do teatro e gritando

[02:31:12] e berrando e cara

[02:31:14] por causa do Stravinsky, sabe? Então

[02:31:16] eu

[02:31:18] de novo, isso aí é meio que ela tem

[02:31:20] um tom de lenda assim hoje porque ninguém sabe

[02:31:22] se foi de fato tão maluco assim, mas

[02:31:24] algumas versões

[02:31:26] da lenda vão falar que inclusive, porra, foi

[02:31:28] rolou treta

[02:31:30] falaram que nunca mais ia poder tocar a obra

[02:31:32] e tocou, claro, né?

[02:31:34] Mas, enfim

[02:31:36] só pra mostrar que

[02:31:38] você vê que até com música clássica, né? Que todo mundo

[02:31:40] acha que é o ó do bora-bora-bora

[02:31:42] já deu umas tretas sinistras também

[02:31:44] de tipo, não, isso aqui não pode tocar nem fudendo, né?

[02:31:48] O exemplo mais conhecido disso é o

[02:31:50] John Cage mesmo, né? O John Cage.

[02:31:52] Que também é do

[02:31:54] Fluxus, né?

[02:31:56] Ah, ele era do Fluxus, eu não sabia.

[02:31:58] Não, cara, o Fluxus

[02:32:00] é meu grupo preferido, só que ao

[02:32:02] contrário.

[02:32:04] Mas ao mesmo tempo é meu

[02:32:06] preferido, entendeu?

[02:32:08] Mas, enfim, aqui

[02:32:10] alguém tinha me marcado

[02:32:12] nessa parada do Stravinsky, eu

[02:32:14] tô tentando achar pra ter certeza que era ele mesmo

[02:32:16] que posso ter falado bobagem. Como eu falei, não é

[02:32:18] a minha especialidade.

[02:32:20] É, mas é a Sagração da Primavera do Stravinsky

[02:32:22] que daí a parte do

[02:32:24] balé que o Nijinsky

[02:32:26] que fez daí, que chocou Paris com a sua

[02:32:28] dança Andedan.

[02:32:30] E eu agradeço

[02:32:32] a Arroba Nadine

[02:32:34] que me deu essa dica, que ela é

[02:32:36] historiadora da dança também. Então,

[02:32:38] daí ela falou que teve essa história

[02:32:40] que tipo, a galera que tava assistindo não conseguiu entender

[02:32:42] os movimentos, a música tava

[02:32:44] muito louca, e daí começaram a entrar

[02:32:46] a achar que todo mundo tava ficando louco, vomitando

[02:32:48] e passando mal, e tipo

[02:32:50] sai correndo e tem um furdunço

[02:32:52] do cacete, assim.

[02:32:54] Então eu gosto de

[02:32:56] imaginar que isso tudo é real e de fato

[02:32:58] aconteceu, né? Certo.

[02:33:00] Então essa é uma das histórias mais divertidas que eu gosto.

[02:33:02] Sim, mas a outra que eu gosto muito é

[02:33:04] dos Impressionistas que eu já citei antes, né?

[02:33:06] Eu teria falado ela, eu seria meio predileta.

[02:33:08] Mas vai aí, Gustavo.

[02:33:10] Alguma obra que chocou.

[02:33:12] Eu vou citar uma experiência

[02:33:14] antes do Impressionismo,

[02:33:16] mas também que foi

[02:33:18] fundadora, né?

[02:33:20] Do Impressionismo,

[02:33:22] que foi o movimento imediatamente

[02:33:24] anterior, que é o Realismo.

[02:33:26] O Realismo, ele surge assim em

[02:33:28] 1836, se eu não me falo,

[02:33:30] é uma hora quando um pintor

[02:33:32] de esquerda comunista,

[02:33:34] Jean-Pierre Courbet,

[02:33:36] foi esposa,

[02:33:38] naquela época, o que

[02:33:40] existia era o Salão, né? O grande

[02:33:42] Salão parisiense

[02:33:44] era como se fosse uma

[02:33:46] documenta de Cássio da época, o que entrava

[02:33:48] ali era…

[02:33:50] Não sei se a comparação com a

[02:33:52] documenta foi pertinente, mas enfim.

[02:33:54] Ah, mas é isso mesmo.

[02:33:56] Na literatura tinha o Flaubert também nessa mesma

[02:33:58] época. E daí o que

[02:34:00] aconteceu? O Gustavo

[02:34:02] Courbet, ele mandou obras e

[02:34:04] venceu e entram as obras, entraram

[02:34:06] no Salão, sempre entrava ele,

[02:34:08] normalmente ele ganhava também, né? Eram muitas

[02:34:10] obras, muitas, centenas, centenas,

[02:34:12] então os artistas quase todos entravam.

[02:34:14] Mas uma obra dele não entrou.

[02:34:16] A origem do mundo.

[02:34:18] Ainda não era esse, era o

[02:34:20] Atelier do Artista.

[02:34:22] Era o Bonjoo?

[02:34:24] O Gustavo Courbet?

[02:34:26] Não, não.

[02:34:28] Era uma que era…

[02:34:30] É o interior do ateliê dele que tem um monte de gente

[02:34:32] e ele pintando no meio, no centro.

[02:34:34] Tem uma mulher nua,

[02:34:36] em pé, com um modelo, e daí montes

[02:34:38] de gente dentro do ateliê.

[02:34:40] O que tinha de absurdo

[02:34:42] na época nessa obra?

[02:34:44] É porque

[02:34:46] as dimensões da obra.

[02:34:48] Ela era extremamente grande.

[02:34:50] E na época, uma regra

[02:34:52] de ouro da academia era que

[02:34:54] dimensões

[02:34:56] grandes para uma

[02:34:58] obra apenas temas

[02:35:00] históricos, épicos ou religiosos.

[02:35:02] Moralistas, morais, né?

[02:35:04] Era um grande… Não pode

[02:35:06] ter ela em óleo também, só que

[02:35:08] se tivesse uma medida lá

[02:35:10] que era considerada muito grande, a partir

[02:35:12] de quatro metros, ela só poderia,

[02:35:14] só caberia ali temas

[02:35:16] religiosos ou históricos.

[02:35:18] E o Gustavo

[02:35:20] Courbet coloca

[02:35:22] um tema naquele

[02:35:24] formato, dada a

[02:35:26] grande arte,

[02:35:28] é um tema do cotidiano,

[02:35:30] que é ele com os seus amigos

[02:35:32] no ateliê.

[02:35:34] Exatamente, o tema doméstico.

[02:35:36] Aparecem pessoas que foram importantes para eles,

[02:35:38] amigos, o próprio poeta Baudelaire,

[02:35:40] que foi amigo dele, um ingrediente de influência,

[02:35:42] está representado ali, etc.

[02:35:44] E isso funda, quer dizer,

[02:35:46] o Gustavo Courbet

[02:35:48] coloca dentro como temática,

[02:35:50] tematiza elementos

[02:35:52] da vida cotidiana, do real prosaico

[02:35:54] da vida, ou seja,

[02:35:56] da realidade, por isso o realismo

[02:35:58] institui essa nova escola que fica

[02:36:00] conhecida como realismo.

[02:36:02] Não sei muita polêmica, porque a

[02:36:04] obra foi

[02:36:06] recusada pelo salão, ele

[02:36:08] pegou todas as obras que tinha ganhado,

[02:36:10] que entraram no salão, ele entrou no

[02:36:12] salão, tirou as obras dele, juntou

[02:36:14] essa, que é a

[02:36:16] o artelé do artista,

[02:36:18] e mais umas produções, e abriu

[02:36:20] o primeiro salão dos recusados.

[02:36:22] Algumas décadas

[02:36:24] impressionistas fizeram o mesmo

[02:36:26] com o salão de refusinos.

[02:36:28] O Courbet foi o primeiro a fazer isso.

[02:36:30] E o que eu acho que é muito importante

[02:36:32] na atitude do Courbet, porque ali

[02:36:34] é o fundador

[02:36:36] da arte moderna

[02:36:38] por esse eleis, que é o artista

[02:36:40] não mais pautado por regras

[02:36:42] e padronizações acadêmicas,

[02:36:44] e colocando na arte expressando

[02:36:46] os conteúdos da sua vida,

[02:36:48] os conteúdos do Bojo,

[02:36:50] ligado diretamente à vida, é o amigo dele

[02:36:52] que o cumprimenta na tarde,

[02:36:54] é a origem do mundo, etc.

[02:36:56] O que eu vejo, inclusive, que tem uma relação

[02:36:58] com o hoje, e é uma interlação eterna,

[02:37:00] vocês sabem, vou abrir um parênteses aqui,

[02:37:02] uma amiga escreveu

[02:37:04] no Facebook, que postou

[02:37:06] a origem do mundo do

[02:37:08] Courbet, e o Facebook cortou

[02:37:10] ela, bloqueou a coisa.

[02:37:12] Aham, sim.

[02:37:14] Mais uma segunda-feira,

[02:37:16] depois de quase 300 anos,

[02:37:18] a mesma obra,

[02:37:20] entende como é?

[02:37:22] O que acontece, a reação

[02:37:24] do

[02:37:26] Courbet no Queer Museum,

[02:37:28] eu acho que é o retorno recalcado

[02:37:30] dessa mesma tentativa de padronização

[02:37:32] moralista, por trás

[02:37:34] da qual, é claro, existe

[02:37:36] uma agenda política, perversa, etc.

[02:37:38] Por isso que eu acho que é a

[02:37:40] grande polêmica

[02:37:42] artística, pra mim, mais fundante

[02:37:44] do momento contemporâneo.

[02:37:46] O do Courbet, eu sabia quando ele

[02:37:48] fez o Bonjour Monsieur Courbet,

[02:37:50] que é ele andando numa estradinha,

[02:37:52] encontrando dois senhores também,

[02:37:54] e a Sociedade Francesa

[02:37:56] se escandalizou porque ele se retratou

[02:37:58] usando roupas informais.

[02:38:00] Como assim um artista

[02:38:02] da sua elegância se

[02:38:04] retrata dessa forma?

[02:38:06] Então, cara, muito…

[02:38:08] Mas assim, brincadeiras a partes

[02:38:10] também, né, gente? O mundo da arte é cheio

[02:38:12] dessas tretas, eu gosto sempre de falar

[02:38:14] pros meus alunos como…

[02:38:16] Se a gente quiser

[02:38:18] fazer um programa só desses

[02:38:20] tretos, tem um monte.

[02:38:22] Eu tenho

[02:38:24] estudado bastante isso, o Gustavo é

[02:38:26] um poço também.

[02:38:28] Você sabe, desde

[02:38:30] o Renascimento, Idade Média…

[02:38:32] O Renascimento…

[02:38:34] Isso aí vai longe.

[02:38:36] Inclusive, bem postado.

[02:38:38] Alguns comentários finais aqui

[02:38:40] pra eu encerrar como host.

[02:38:42] Não chamem a atitude do MBR de

[02:38:44] medieval, porque se tinha uma coisa que os artistas

[02:38:46] medievales gostavam era de putaria, cara.

[02:38:48] O que tem de imagem de putaria

[02:38:50] ali naquelas iluminuras

[02:38:52] não é brincadeira.

[02:38:54] Segundo,

[02:38:56] analistas,

[02:38:58] historiadores, críticos de arte ficaram debatendo

[02:39:00] por séculos se a Mona Lisa tinha

[02:39:02] o cabelo preso ou não,

[02:39:04] porque uma mulher

[02:39:06] casada, ser representada com o cabelo solto

[02:39:08] seria um

[02:39:10] estranho.

[02:39:12] Porque mulher de respeito,

[02:39:14] na época, pra usar

[02:39:16] um termo horroroso,

[02:39:18] mulher de respeito era

[02:39:20] a retratada de cabelos presos.

[02:39:22] Ela recatada aí do lado.

[02:39:24] Então tem que ter cabelo preso.

[02:39:26] É como se vê nos quadros do

[02:39:28] Vermeer.

[02:39:30] Ou do Jan van Eyck,

[02:39:32] o casal Arnolfini.

[02:39:34] Você vai ver lá os chifrinhos,

[02:39:36] que era uma moda da época.

[02:39:38] Então ela tá com os cabelos soltos,

[02:39:40] com aquele véuzinho bem michuruca.

[02:39:42] Isso é escandaloso, porque seria ela

[02:39:44] mostrando toda essa sensualidade.

[02:39:46] E pra terminar de vez, aqui

[02:39:48] um pensamento pra galera.

[02:39:50] Eu ainda sou da opinião que a culpa

[02:39:52] de tudo isso é dos românticos.

[02:39:54] Fora que começaram as escenas de estrangeirar

[02:39:56] tudo.

[02:39:58] Eu também acho.

[02:40:02] Clarice, você também concorda?

[02:40:04] Eu diria que é o movimento

[02:40:06] lar por lar.

[02:40:08] Eu queria depois fazer

[02:40:10] uma propaganda, Ivan.

[02:40:12] Clarice, vamos

[02:40:14] colocar a culpa nos românticos?

[02:40:16] Não.

[02:40:20] Eu acho

[02:40:22] que é uma afronta tão bonita

[02:40:24] o Goya fazer. Quer saber? Eu vou pintar

[02:40:26] pesadelo agora, cara.

[02:40:28] Vou se foder tudo.

[02:40:30] Pra quem quer, pra mim,

[02:40:32] vai se foder.

[02:40:36] Vou pintar nas paredes da minha casa.

[02:40:38] Isso eu acho

[02:40:40] demais.

[02:40:42] Vai longe.

[02:40:44] Não, mas daí

[02:40:46] os cargarem muito depois.

[02:40:48] O Goya é final de 18.

[02:40:50] Tá falando da pintura.

[02:40:52] É só dizer que eu vou estar aí,

[02:40:54] viu, Ivan e

[02:40:56] Bekary? Vocês reservem

[02:40:58] uma xícara de café pra mim, por favor.

[02:41:00] Eu vou estar em Curitiba nos dias 12, 13 e 14

[02:41:02] dando workshop e figura contemporânea.

[02:41:04] Legal.

[02:41:06] Nem sei se podia fazer o merchandising.

[02:41:08] Claro. Agora é o momento pra isso.

[02:41:10] Tempo inteiro falando

[02:41:12] de Santander.

[02:41:18] Isso me dá link, por favor.

[02:41:20] Na conversa ali tem

[02:41:22] um site que tem todas

[02:41:24] as informações. Vai estar ali na descrição.

[02:41:26] É o workshop 12,

[02:41:28] 13 e 14 de outubro. Ainda tem

[02:41:30] inscrições abertas e ele vai

[02:41:32] ser em parte no Solar do Barão, que é

[02:41:34] o Museu da Gravura em Curitiba, em

[02:41:36] parte no Mimeses Conexões Artísticas,

[02:41:38] que fica no São Francisco.

[02:41:40] Beleza. Maravilha. Já está

[02:41:42] no link.

[02:41:44] Está no post o link.

[02:41:46] Algum outro jabá aí, Gustavo?

[02:41:50] Não sei, amanhã eu estou indo pra São Paulo.

[02:41:52] Vou começar uma oficina lá também

[02:41:54] no Sesc Pompeia. Quem for de

[02:41:56] São Paulo, eu acho que parece que já está

[02:41:58] lotado, mas teria uma lista de espera.

[02:42:00] Não sei se alguém tiver interesse

[02:42:02] em votar e durante dois meses

[02:42:04] indo e voltando a São Paulo. Então

[02:42:06] para os amigos de lá e conhecidos de lá

[02:42:08] também que querem um café, eu vou ter

[02:42:10] tempo lá de sobra aí

[02:42:12] nesses dois próximos meses.

[02:42:14] Quem quiser acompanhar tem o blog

[02:42:16] ou o site, não sei.

[02:42:18] É o site gustavodias.com

[02:42:20] Eu tenho concentrado ali os textos.

[02:42:22] A gente tem um trabalho de reflexão

[02:42:24] além do trabalho plástico, tem

[02:42:26] uma reflexão mais ou menos sistemática.

[02:42:28] Você divulga os workshops

[02:42:30] também.

[02:42:32] Beleza.

[02:42:34] Todos esses links estão na postagem. Então

[02:42:36] muito obrigado, Gustavo.

[02:42:38] Bekary, seu jabá.

[02:42:40] Não tenho, né?

[02:42:42] Fala das tuas obras,

[02:42:44] porra. Teus cursos, como é que está isso aí?

[02:42:46] É que me dá até

[02:42:48] vergonha de falar porque ultimamente

[02:42:50] eu tenho sido muito relapso.

[02:42:52] Eu tenho me dedicado mais pra

[02:42:54] outras coisas. Infelizmente

[02:42:56] eu gostaria de me dedicar mais.

[02:42:58] Ou seja, por exemplo, cursos eu

[02:43:00] não tenho nada agendado.

[02:43:02] Tô recusando o convite, infelizmente

[02:43:04] também.

[02:43:06] Eu tirei do ar a minha loja

[02:43:08] de aquarela

[02:43:10] porque eu não tava dando conta

[02:43:12] de operar

[02:43:14] as vendas. Talvez um dia

[02:43:16] eu pague um secretário, uma

[02:43:18] secretária.

[02:43:20] Cara, tá chique demais, cara.

[02:43:22] Meu Deus.

[02:43:28] Eu pretendo retomar tudo isso a partir

[02:43:30] do ano que vem, esse ano que é o

[02:43:32] fim do meu estágio probatório.

[02:43:40] Ter falado, né? Mas

[02:43:42] eu pretendo retomar.

[02:43:44] Fui

[02:43:46] recentemente elencado como

[02:43:48] o country

[02:43:50] head, né?

[02:43:52] O representante da IWS

[02:43:54] no Brasil,

[02:43:56] a Sociedade Internacional de Aquarela.

[02:43:58] Eita, chique demais!

[02:44:00] Puta que pariu!

[02:44:02] Obrigado!

[02:44:04] Mas então, eu tô dizendo isso porque

[02:44:06] também com vergonha, porque eu deveria ter

[02:44:08] estar fazendo alguma coisa pra isso.

[02:44:10] Representar

[02:44:12] a classe de alguma forma.

[02:44:14] Bem, cara, se o seu

[02:44:16] espere, você começa a falar, não, eu sou um artista recluso,

[02:44:18] sabe? Eu tenho que ter um momento.

[02:44:20] A musa tem que vir,

[02:44:22] e tal.

[02:44:24] Enfim, é.

[02:44:26] Enfim,

[02:44:28] agradeço também o pessoal que tem

[02:44:30] chamado de lá de fora,

[02:44:32] e são brasileiros, né?

[02:44:34] Mas que chamam pra Alemanha,

[02:44:36] pra Áustria, e principalmente

[02:44:38] pros Estados Unidos, que

[02:44:40] tem chamado não só

[02:44:42] pra cursos, né? Mas

[02:44:44] me pediu pra enviar aquarelos,

[02:44:46] eu tenho enviado esses aquarelos

[02:44:48] pro pessoal distribuindo galerias

[02:44:50] e tal. Isso tem sido

[02:44:52] bem interessante. Enfim, como eu tava dizendo,

[02:44:54] o meu trabalho até agora,

[02:44:56] no momento, ele é só

[02:44:58] Instagram.

[02:45:00] Infelizmente,

[02:45:02] isso por pura incapacidade

[02:45:06] de tempo,

[02:45:08] que expressão horrível,

[02:45:10] né?

[02:45:12] De construir uma coisa mais séria.

[02:45:14] Mas algum dia

[02:45:16] eu pretendo fazer a coisa mais séria. O Provo

[02:45:18] Gustavo já me deu uma letra aí

[02:45:20] de, oh, Beca, começa a levar sério,

[02:45:22] sabe? Pensa num ateliê,

[02:45:24] que tá com uma reprodução legal,

[02:45:26] não sei o quê.

[02:45:28] Enfim, eu não esqueci,

[02:45:30] Gustavo, eu vou

[02:45:32] estar na minha cabeça, assim,

[02:45:34] no travesseiro.

[02:45:36] Maravilha. Os links pro Instagram

[02:45:38] do Beccari também estão online,

[02:45:40] inclusive o

[02:45:42] Beccari não tá mais com Twitter, né? Então

[02:45:44] eu tenho, eu vou linkar no seu nome

[02:45:46] o seu Instagram, tá bom?

[02:45:48] Só pra facilitar.

[02:45:50] Gustavo também não tem Twitter, né?

[02:45:52] Não. Tá, então Gustavo

[02:45:54] vai ficar sem nada.

[02:45:56] Pronto. Clarice,

[02:45:58] muito obrigado por ter vindo.

[02:46:00] Faça seu jabá,

[02:46:02] fica à vontade aí agora.

[02:46:04] Pode repetir do que falou no início, falar mais coisa,

[02:46:06] fica à vontade.

[02:46:08] Primeiro, muito obrigada por me chamar.

[02:46:10] Também

[02:46:12] quero agradecer ao Felipe,

[02:46:14] docinho.

[02:46:16] Eu chamo ele de Macedônia,

[02:46:18] por causa do Felipe da Macedônia.

[02:46:20] Isso é uma coisa, tipo, eu chamo ele de Macedônia

[02:46:22] e as pessoas não entendem, então eu estou deixando o público

[02:46:24] agora. Muito obrigada, Felipe,

[02:46:26] pelo contato.

[02:46:28] Quero mandar um grande

[02:46:30] abraço pro meu grande amigo

[02:46:32] William, que tem dado

[02:46:34] suporte nesse momento aí de

[02:46:36] polêmica extrema.

[02:46:38] E acredito que

[02:46:40] links para acessar a minha pessoa

[02:46:42] estarão no post.

[02:46:44] Tenho o meu portfólio no VNs,

[02:46:46] tenho o Twitter

[02:46:48] e é isso.

[02:46:50] Beleza, então o

[02:46:52] bihance.net barra Zena,

[02:46:54] com dois Zs, então já está ali.

[02:46:56] E também o seu Twitter, que é o

[02:46:58] tropicanoya, que é um nome maravilhoso.

[02:47:00] Parabéns.

[02:47:02] Obrigada, obrigado.

[02:47:04] E é isso, gente.

[02:47:06] Acho que chega quase três horas

[02:47:08] de programa, mas é…

[02:47:10] Pega dois

[02:47:12] historiadores da arte, quem é?

[02:47:14] Mas Beccari e Gustavo,

[02:47:16] que são dois malucos também,

[02:47:18] pintor que curte teoria e história

[02:47:20] da arte, não tinha como

[02:47:22] não ser isso. Agradeço quem ficou

[02:47:24] até o final. Só queria tornar público,

[02:47:26] que depois de,

[02:47:28] se eu não me engano, cinco anos,

[02:47:30] eu encontrei o Ivano Chopin.

[02:47:32] Verdade!

[02:47:34] Verdade!

[02:47:36] Meu Deus, agora

[02:47:38] vamos ter mais uma hora de

[02:47:40] discutir.

[02:47:42] Algumas quadras de distância.

[02:47:44] É.

[02:47:46] Não, é ridículo. A gente

[02:47:48] é vizinho praticamente, a gente nunca se vê.

[02:47:50] É um absurdo.

[02:47:52] Eu tenho que mudar isso.

[02:47:54] Mas tá sério, gente, é isso. Chega.

[02:47:56] Um beijo, tchau. Dei tchau, galera.

[02:47:58] Até mais, tchau.