AntiCast 318 – Kurt Vonnegut: Guerras, Sarcasmo e Alienígenas


Resumo

O episódio é uma discussão aprofundada sobre o autor norte-americano Kurt Vonnegut, conduzida por Ivan Mizanzuki com a participação de Bolívar Escobar e da tradutora Livia Köppel. A conversa começa com a motivação para o programa: o relançamento do livro ‘Cama de Gato’ pela editora Aleph, traduzido por Livia. Ivan se coloca como um leitor iniciante de Vonnegut, enquanto Bolívar e Livia compartilham seu entusiasmo e conhecimento sobre o autor.

Os participantes exploram a biografia de Vonnegut, incluindo seu serviço na Segunda Guerra Mundial e sua experiência como sobrevivente do bombardeio de Dresden, que influenciou profundamente sua obra mais famosa, ‘Matadouro 5’. Eles discutem como Vonnegut usa elementos de ficção científica, sarcasmo e ironia para fazer críticas sociais afiadas, abordando temas como guerra, religião, política e a condição humana. O estilo literário único de Vonnegut, caracterizado por uma escrita coloquial, capítulos curtos e uma narrativa que frequentemente quebra a quarta parede, é destacado como um de seus maiores atrativos.

A análise se estende a várias obras de Vonnegut, com foco especial em ‘Cama de Gato’. Os participantes descrevem a trama do livro, que segue um escritor investigando o inventor da bomba atômica e acaba descobrindo uma arma apocalíptica chamada ‘Gelo Nove’ e uma religião fictícia chamada Bokononismo. Eles destacam como o livro é uma sátira mordaz do militarismo, da corrida armamentista e da religião organizada. Livia detalha seu processo de tradução do livro, enfatizando os desafios de capturar o tom coloquial e humorístico de Vonnegut em português.

A discussão também aborda a recepção e o legado de Vonnegut, incluindo sua relutância em ser classificado como escritor de ficção científica, seu status como ícone da contracultura e suas opiniões políticas socialistas. Os participantes mencionam adaptações cinematográficas de suas obras e expressam esperança por mais traduções de seus livros para o português. O episódio termina com os convidados compartilhando informações sobre seus projetos futuros e incentivando os ouvintes a explorar a obra de Vonnegut.


Indicações

Books

  • Cama de Gato (Cat’s Cradle) — Livro de Kurt Vonnegut recentemente relançado no Brasil pela editora Aleph, com tradução de Livia Köppel. É uma sátira sobre militarismo, corrida armamentista e religião, onde um escritor investiga o inventor da bomba atômica e descobre uma arma apocalíptica chamada ‘Gelo Nove’ e uma religião fictícia, o Bokononismo.
  • Matadouro 5 (Slaughterhouse-Five) — Considerada a obra mais famosa de Vonnegut, baseada em suas experiências como prisioneiro de guerra durante o bombardeio de Dresden. Aborda temas de trauma de guerra e transtorno de estresse pós-traumático (PTSD) através de elementos de ficção científica, como viagens no tempo e abduções alienígenas.
  • Sereias de Titã (The Sirens of Titan) — Livro de ficção científica de Vonnegut que envolve colonização em Marte, guerra entre planetas e viagens no tempo. Bolívar o descreve como seu favorito e traça paralelos com o estilo de Douglas Adams em ‘O Guia do Mochileiro das Galáxias’.
  • Moby Dick — Clássico de Herman Melville mencionado como uma influência e referência direta na abertura de ‘Cama de Gato’, onde Vonnegut parodia a famosa frase inicial ‘Call me Ishmael’ com ‘Call me Jonah’.

People

  • Chuck Palahniuk — Autor de ‘Clube da Luta’, citado por Ivan como um dos seus escritores prediletos e fortemente influenciado por Kurt Vonnegut, especialmente na construção de narrativas com escaladas de absurdo e crítica social.
  • Mark Twain — Referenciado como o escritor favorito de Kurt Vonnegut. Livia menciona que está trabalhando na tradução da autobiografia de Mark Twain, que será publicada no ano seguinte.

Podcasts

  • Projeto Humanos — Podcast de Ivan Mizanzuki mencionado no início do episódio. Ele comenta que está dedicando tempo para finalizar uma nova temporada do projeto, que deve ser lançada em fevereiro ou março.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao episódio e motivação — Ivan Mizanzuki apresenta o episódio 318 do AntiCast, dedicado a Kurt Vonnegut. Ele explica que o programa foi motivado pelo relançamento de ‘Cama de Gato’ pela editora Aleph e apresenta os participantes: Bolívar Escobar e a tradutora Livia Köppel. Ivan se declara um leitor iniciante de Vonnegut, destacando sua influência sobre Chuck Palahniuk, e assume o papel de fazer perguntas para aprender com os convidados.
  • 00:10:36Primeiras impressões e estilo literário de Vonnegut — Bolívar compartilha sua experiência de ‘amor à primeira leitura’ com Vonnegut, começando por ‘Matadouro 5’. Ele descreve o estilo do autor como engraçado, brincalhão e propositalmente ingênuo, com uma linguagem acessível que prende o leitor. Livia complementa, falando sobre como ficou viciada em Vonnegut, relendo seus livros para capturar nuances e referências. Eles discutem a técnica narrativa de Vonnegut de quebrar a quarta parede e estabelecer uma conversa direta com o leitor.
  • 00:17:11Análise da abertura de ‘Cama de Gato’ e processo de tradução — Ivan lê a primeira frase de ‘Cama de Gato’ (‘Me chame de Jonah’) e a analisa, destacando sua referência a ‘Moby Dick’ e seu tom coloquial que estabelece imediatamente uma conexão com o leitor. Livia explica suas escolhas de tradução, optando por ‘me chame’ em vez da forma mais formal ‘chame-me’ para manter o estilo descontraído de Vonnegut. Ela também menciona um famoso texto de Vonnegut onde ele critica o uso do ponto e vírgula, ilustrando sua aversão à linguagem pomposa.
  • 00:23:04Biografia de Kurt Vonnegut — Os participantes traçam um panorama da vida de Vonnegut: nascido em 1922, serviu na Segunda Guerra Mundial e foi prisioneiro em Dresden, experiência que fundamentou ‘Matadouro 5’. Antes do sucesso literário, teve diversos empregos para sustentar a família, que cresceu com a adoção dos sobrinhos após a morte da irmã. Seu grande sucesso veio relativamente tarde, com ‘Matadouro 5’ em 1969. Eles também discutem seu ceticismo em relação à cultura americana e seu sentimento de não pertencimento, refletido no título de seu livro de ensaios ‘O Homem Sem Pátria’.
  • 00:30:20Análise de ‘Matadouro 5’ e temas da guerra — Livia resume a trama de ‘Matadouro 5’, focando no protagonista Billy Pilgrim, um soldado ingênuo enviado para a Segunda Guerra. Ela destaca como o livro aborda o transtorno de estresse pós-traumático (PTSD) antes do termo ser amplamente reconhecido, usando elementos de ficção científica como abduções alienígenas e viagens no tempo como metáforas para o trauma. Bolívar e Livia compartilham detalhes vívidos da experiência real de Vonnegut em Dresden, incluindo o episódio da chaleira e a descrição da cidade destruída como uma ‘superfície lunar’.
  • 00:39:48Discussão sobre ‘Cama de Gato’ e o Bokononismo — O foco se volta para ‘Cama de Gato’. Livia lê a sinopse do livro e Ivan compartilha trechos iniciais, destacando a dedicatória ‘Nada neste livro é verdadeiro’ e a citação sobre os ‘fomas’ (mentiras inofensivas) do Bokononismo. Eles explicam que a história segue um escritor investigando o inventor da bomba atômica e descobrindo a arma ‘Gelo Nove’ e a religião fictícia Bokononismo. O livro é descrito como uma sátira mordaz do militarismo, da corrida armamentista e da religião organizada.
  • 00:47:43Vonnegut e o gênero da ficção científica — Os participantes debatem se Vonnegut pode ser classificado como escritor de ficção científica. Eles concordam que, embora use elementos sci-fi (como alienígenas em ‘Matadouro 5’ ou colonização de Marte em ‘Sirens of Titan’), sua obra transcende o gênero. Livia argumenta que ele ‘traz o fantástico para o cotidiano’ de maneira descontraída, enquanto Bolívar sugere que sua classificação como ‘pós-modernista’ pode ser mais adequada. Eles notam que Vonnegut possivelmente resistia ao rótulo de ‘ficção científica’ devido ao preconceito literário contra o gênero em sua época.
  • 00:57:00Posições políticas e legado de Vonnegut — A conversa aborda as inclinações socialistas e anarquistas de Vonnegut, conforme categorizado na Wikipedia. Bolívar menciona que Vonnegut se declarava socialista em ‘O Homem Sem Pátria’ e era crítico das desigualdades nos EUA. Eles discutem como ‘Matadouro 5’ foi banido em algumas bibliotecas por ser considerado antipatriótico, por retratar o bombardeio aliado em Dresden. A influência de Vonnegut em autores como Chuck Palahniuk e seu status como ícone da contracultura são destacados.
  • 01:05:49Processo de tradução de ‘Cama de Gato’ e futuro das obras de Vonnegut no Brasil — Livia detalha como propôs o projeto de tradução de ‘Cama de Gato’ para a editora Aleph, movida por seu vício na obra de Vonnegut e pelo desejo de torná-la acessível aos leitores brasileiros. Ela descreve o processo como ‘apaixonante’, permitindo-lhe descobrir referências e nuances antes despercebidas. Ivan e Bolívar expressam preocupação com a disponibilidade limitada das obras de Vonnegut em português. Livia revela que a Aleph planeja lançar mais dois livros do autor no ano seguinte e comenta sobre outras editoras interessadas, embora sem dar detalhes.
  • 01:28:42Reflexões finais e encerramento — Bolívar reflete sobre a dimensão trágica e autorreflexiva do Bokononismo em ‘Cama de Gato’, uma religião que se apresenta abertamente como uma ‘mentira inofensiva’. Ele traça paralelos com movimentos contemporâneos que brincam com a noção de crença. Livia e Ivan concordam que a genialidade de Vonnegut está em sua capacidade de subverter sistemas (guerra, religião) com humor e acessibilidade. Os participantes fazem seus ‘jabás’ finais: Livia anuncia traduções futuras de Jack London e Mark Twain; Bolívar convida para seu grupo de estudos de humor em Curitiba. O episódio termina com um agradecimento geral e um incentivo para que os ouvintes explorem a obra de Vonnegut.

Dados do Episódio

  • Podcast: AntiCast
  • Autor: HD1
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2017-12-21T01:19:23Z
  • Duração: 01:42:52

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] E aí pessoal, aqui é Ivan Mizazuki e esse é o Anticast número 318, o Kurt Vonnegut.

[00:00:18] Vamos então fazer esse programa sobre esse grande escritor norte-americano do século

[00:00:23] 20 que faleceu em 2007.

[00:00:27] Ele tem uma influência enorme em cima de um dos escritores que eu mais amo, que é o Chuck Palahniuk,

[00:00:32] que a gente já fez um Anticast sobre ele também, o autor do Clube da Luta.

[00:00:36] Mas o Kurt Vonnegut, então, por que estamos fazendo um programa sobre ele, afinal de contas?

[00:00:41] Porque está sendo lançado o livro dele novamente aqui no Brasil pela editora Aleph,

[00:00:46] que está lançando o Cama de Gato.

[00:00:49] A gente vai falar um pouquinho sobre ele.

[00:00:52] E quem participou do programa foi eu, o Bolívar Escobar, que fazia muito tempo que não participava aqui do Anticast,

[00:00:58] e também a tradutora do livro do Vonnegut, a Livia Köppel, ou Koepel, como a gente vai falar daqui a pouquinho também.

[00:01:07] O Kurt Vonnegut, se você gosta de uma literatura que tem a famosa crítica social foda,

[00:01:15] usando elementos de ficção científica, temas de guerra e um sarcasmo e ironia muito deliciosos,

[00:01:24] este é o autor para você conhecer.

[00:01:27] A gente vai aqui dar uma babada de ovo foda nele.

[00:01:31] Eu que nem conheço direito o autor, já estou apaixonado por ele.

[00:01:35] Então, vamos lá. Antes de começar o programa, alguns recadinhos.

[00:01:39] Primeiro é o seguinte, gente. Eu não sei, mas talvez este seja o último programa do ano.

[00:01:47] Então, eu não sei se semana que vem eu vou conseguir gravar outro programa.

[00:01:51] O que eu sei é que eu já estou de férias da universidade, mas agora eu estou dedicando bastante tempo

[00:02:01] em continuar o que eu não terminei da nova temporada do Projeto Humanos, que é bastante coisa.

[00:02:08] Como a gente teve aquela pausa, eu ia lançar ela em agosto e deu problema e agora acho que já se resolveu,

[00:02:18] mas acabou que eu não terminei os episódios que precisava.

[00:02:25] Basicamente isso, tem bastante coisa para fazer ainda.

[00:02:28] Eu aproveitei para me aprofundar em algumas questões que eu não tinha conseguido ainda explorar sobre a história.

[00:02:35] Então, a boa parte, se tem uma parte boa nisso tudo, é justamente que agora a temporada vai ser mais completa

[00:02:43] do que seria antes e deve sair em fevereiro ou março e eu estou trabalhando nela agora.

[00:02:48] Então, tendo em vista que eu estou 100% focado agora no Projeto Humanos, eu não sei se eu vou conseguir gravar

[00:02:56] o programa na semana que vem, na última semana de dezembro e final de ano.

[00:03:02] Então, o pessoal vai estar viajando, não sei se vai ter gente para gravar comigo, não sei se vai ter tema interessante para fazer isso.

[00:03:07] Então, já estou avisando, se não tiver programa na semana que vem, relaxa, em janeiro a gente volta com certeza

[00:03:13] e desculpa quem queria, a dica de anime não vai ser dessa vez, tão cedo pelo menos.

[00:03:21] Bom, então esse é um recadinho, o segundo recadinho é cursos de storytelling e entrevistas.

[00:03:28] Então, eu estou para lançar uma nova turma dos meus cursos de storytelling e cursos de técnicas de entrevistas.

[00:03:38] Se você tiver interesse em fazer algum desses cursos, dá uma olhadinha no post, tem lá um formulário para você colocar o seu nome

[00:03:46] e daí se você colocar o seu nome eu vou te mandar com antecedência um link para inscrição com desconto de 30%

[00:03:56] no curso online ou de storytelling ou de entrevistas, depende do que você quer, de técnicas de entrevistas.

[00:04:04] Tanto storytelling quanto técnicas de entrevistas tem a ver com o meu trabalho do projeto humanos com as técnicas que eu utilizo lá.

[00:04:12] Então, esses cursos são online, só repetindo, geralmente no final de semana e é isso.

[00:04:18] Então, se tiver interesse preenche lá e daí você vai ser avisado, provavelmente esses cursos vão acontecer final de janeiro,

[00:04:25] por aí, tá? Então, já fica de olho.

[00:04:29] E, além disso, aquele recadinho de sempre, seja patrão do Anticast a partir de R1,00 pelo Patreon,

[00:04:39] R$5,00 pelo PagSeguro, se você quiser saber como virar patrão é só entrar em www.anticast.com.br,

[00:04:47] seja patrão. Lembrando que todo apoio é super bem-vindo para que nós continuemos fazendo nossos podcasts aqui.

[00:04:55] Então, todos os podcasts da casa do Anticast só acontecem graças às doações de vocês,

[00:05:01] inclusive o projeto humanos que eu estou fazendo agora.

[00:05:05] Eu falei que já ia ter uma nova plataforma também para doação em breve.

[00:05:11] Eu achei que ia conseguir fazer essa semana e eu me enrolei, então não consegui ainda finalizar tudo certinho,

[00:05:18] mas eu já adianto, vai ser pelo Catarse.

[00:05:21] O Catarse está abrindo sua nova campanha, já fiquem de olho.

[00:05:26] Inclusive quem queria, quem tanto pedia para a, queria, Ivan queria muito ajudar e queria ajudar através de boleto,

[00:05:33] será que rola de abrir alguma coisa assim, uma modalidade, então estou abrindo agora, vai ser pelo Catarse.

[00:05:39] Queria agradecer bastante ao pessoal do Catarse que ajudou nisso e ajudou a montar a plataforma.

[00:05:46] Os caras são super bacanas também, o Diego e o Geraldo me ajudaram bastante.

[00:05:51] Logo, logo vocês vão ficar sabendo. Gente, é isso.

[00:05:54] Talvez role alguma transmissão, alguma live de algumas horas para comemorar o lançamento do Catarse em breve.

[00:06:02] Então, quando isso acontecer, fiquem de olho nas nossas redes sociais.

[00:06:06] Se você está na Cracovia, você também vai ficar sabendo bem rápido.

[00:06:10] Cracovia, que é o nosso grupo fechado no Facebook, que você entra quando vira patrão.

[00:06:14] E é isso, já falei demais, fiquem agora com o programa.

[00:06:21] Começando mais um Anticast, hoje falar de literatura de novo.

[00:06:26] Fazia já um tempinho que a gente não fazia isso e estamos aqui com um…

[00:06:30] Fazia tempo que Bolívar Escobar não participava aqui do Anticast.

[00:06:35] Bolívar, seja muito bem-vindo você com esse nome sempre sensacional.

[00:06:39] Oi, muito bom estar aqui. Fazia tempo que eu não participava de nada, na verdade.

[00:06:47] Eu andei meio recluso, afastado por causa do mestrado.

[00:06:50] Nós estamos aqui, feliz por estar aqui hoje falando sobre Vonegut.

[00:06:57] O Bolívar está vivendo a famosa fase do…

[00:07:01] Tô no mestrado, minha vida acaba. Normal.

[00:07:05] Todos passamos por isso, o Bolívar.

[00:07:08] Até fevereiro eu vou estar nessa ainda, então ainda tem mais um pouquinho pela frente.

[00:07:14] Maravilha. Então, e acompanhando aqui eu e o Bolívar, temos aqui uma convidada nova.

[00:07:21] Eu vou tentar falar o nome certo, Livia Köpel. É isso?

[00:07:26] É isso aí. Eu pelo menos pronuncio assim, né?

[00:07:29] Mas todo mundo fala Koepel com alguma coisa assim.

[00:07:32] Fala Koepel, ou fala Krepel, ou falar várias variações do nome, eu já estou acostumada.

[00:07:37] Maravilha. Então, Livia, fala aí para a gente, como é a tua primeira vez aqui,

[00:07:42] gostaria que você falasse aqui para a gente quem você é, o que você faz da vida

[00:07:46] e por que você está aqui hoje, afinal de contas?

[00:07:50] Então, primeiro agradeço o convite de participar do Anticast.

[00:07:55] Bom, meu nome é Livia, eu tenho 33 anos, eu sou formada em letras e acho que eu estou aqui

[00:08:02] porque eu sou uma entusiasta de Vonnegut, né? Você me chamou porque eu fui a tradutora

[00:08:07] do Cana de Gato, mas eu não sou nenhuma especialista no Vonnegut, mas eu sou uma entusiasta,

[00:08:12] uma leitura voraz, autor. E o que mais que eu posso dizer a respeito de mim?

[00:08:18] Eu acho que esse currículo já está ótimo, assim.

[00:08:22] Tá bom, né? Não sei se falar mais nada, eu sou uma entusiasta.

[00:08:25] Traduzir um Vonnegut aí também já está fantástico aí, né?

[00:08:29] A gente vai falar sobre esse processo de tradução depois também.

[00:08:33] E, gente, eu vou já estabelecer aqui o seguinte, por que eu estou fazendo esse programa?

[00:08:38] Primeiro, não estou recebendo nada da Aleph, que é ela que está lançando aqui

[00:08:43] o Cana de Gato do Vonnegut, mas então eu vou fazer o meu testimonial primeiro

[00:08:49] e daí eu vou lançar para o Bolívar também, porque o Bolívar foi um cara que…

[00:08:55] Acho que ano passado, ou um tempo atrás, o Bolívar chegou pra mim

[00:09:00] e falou que tinha que fazer um dia um programa sobre o Vonnegut.

[00:09:03] E eu falei para o Bolívar o que eu sabia do Vonnegut, que era o seguinte.

[00:09:07] Cara, eu sei que o Vonnegut foi uma das maiores inspirações

[00:09:10] para um dos meus escritores prediletos, que é o Chuck Palahniuk,

[00:09:13] o autor do Clube da Luta, que eu sempre falo.

[00:09:17] Então, assim, eu li trechos do Matadouro V, que é o livro mais famoso do Vonnegut.

[00:09:25] Eu peguei agora o Cana de Gato e comecei a ler e estou longe de terminar,

[00:09:31] porque eu estou fazendo um milhão de coisas.

[00:09:33] Só que, assim, tudo que eu leio sobre o Vonnegut e ao redor, tipo, textos sobre o Vonnegut,

[00:09:38] sobre o que ele fez, sobre quem ele era, eu acho esse cara fascinante.

[00:09:41] Então eu já aviso, eu não sou leitor de Vonnegut.

[00:09:44] Vonnegut é um dos caras que eu mais tenho vontade de ler.

[00:09:47] E hoje eu estou fazendo aqui o papel do ouvinte que nunca ouviu falar de Vonnegut

[00:09:52] e vocês têm que convencer, porque é bom para caramba.

[00:09:55] É difícil.

[00:09:59] Eu já imagino, mas de qualquer maneira eu vou fazer mais o papel aqui do Orelha,

[00:10:04] que não sabe do assunto e vai fazendo as perguntas.

[00:10:06] Então a primeira coisa que eu queria perguntar então para o Bolívar,

[00:10:11] que foi o primeiro que me falou assim,

[00:10:13] Ivan, um dia tinha que fazer um programa sobre o Vonnegut.

[00:10:15] Cara, por que o teu interesse do Vonnegut, o que você já leu?

[00:10:19] Enfim, o que te chama a atenção nele?

[00:10:22] E Lívia, aqui é bate-papo, então se você quiser interromper o Bolívar a qualquer momento,

[00:10:27] porque ele está falando merda ou porque você acha que tem que complementar.

[00:10:30] Eu acho mais fácil ele me interromper.

[00:10:32] Não, fica à vontade.

[00:10:34] Manda aí, Bolívar.

[00:10:36] Pois é, então, Ivan, eu acho que se existe amor à primeira vista,

[00:10:40] acho que lendo o Vonnegut eu descobri que existe amor à primeira leitura.

[00:10:44] Porque eu encontrei o nome do Kurt Vonnegut numa dessas listas de internet,

[00:10:50] assim, ótimos livros de ficção científica, alguma coisa assim.

[00:10:54] E aí tinha lá alguma coisa sobre o, acho que era sobre o Sirens of Titan,

[00:11:01] um dos livros do Vonnegut.

[00:11:03] E aí eu acabei pesquisando sobre a vida do autor e eu fui,

[00:11:06] eu comecei pelo Matador 5 também.

[00:11:08] Eu lembro que na época eu comprei esse da LPM Pocket.

[00:11:16] Ficou aquela capa medonha, né?

[00:11:18] Nossa, capa linda, aqueles cinco em bevel do Photoshop.

[00:11:25] E aí, de repente, eu sentei para ler o livro e quando eu levantei eu já tinha terminado.

[00:11:29] Foi um negócio bizarro, foi uma leitura muito sinistra que voou.

[00:11:34] E aí eu meio que, acho que um raio me atingiu assim, sabe?

[00:11:38] Eu comecei a recomendar esse livro para todo mundo.

[00:11:40] Eu falei, tipo, emprestava, falava, não leia isso, leia agora, não sei o quê.

[00:11:45] Leia agora? Na minha frente? Eu quero ver você lendo.

[00:11:48] Eu não vou embora quando você não terminar.

[00:11:51] E aí eu fui atrás dos outros, né?

[00:11:54] Então agora eu estava até comentando com a Lívia que eu estou no meu décimo Vonnegut já, né?

[00:11:58] Eu fiz uma regrinha faz alguns anos de ler um só por ano,

[00:12:03] se não eu só ia ficar lendo isso.

[00:12:05] Porque além da temática que sempre envolve ficção sinistra alienígena, coisas desse gênero,

[00:12:13] o Vonnegut escreve de um jeito muito engraçado.

[00:12:16] Aquela vez que eu recomendei para você, acho que foi porque eu estava mais interessado

[00:12:21] que você tivesse contato com o estilo dele do que com o conteúdo em si, sabe?

[00:12:26] Sim.

[00:12:27] Ele usa uma linguagem muito interessante, uma forma de escrever muito brincalhona

[00:12:35] e muito, parece até propositalmente ingênuo, a forma como ele escreve.

[00:12:41] É uma ótima forma de definir mesmo, o jeito que ele escreve.

[00:12:45] Isso assim, pelo pouco que eu li dele de trechos, de novo é um dos motivos de que eu quero tanto um dia

[00:12:53] parar e ler mesmo com calma.

[00:12:55] Eu sei que vai ser uma leitura rápida, mas já é um autor que pelo estilo de escrita dele

[00:13:01] já tem aquele estilo mais conciso, frases mais secas, sarcástico, aquele narrador que não é muito confiável.

[00:13:10] Ou seja, tudo que eu gosto é literatura, sabe?

[00:13:13] Eu sempre falo, quando vou falar de literatura contemporânea,

[00:13:18] cara, se está o século XXI, XXI, alguém ainda usando narrador em terceira pessoa,

[00:13:25] onisciente, onipresente, que sabe de tudo, sabe de todos, não brinca um pouco com linguagem,

[00:13:33] eu já fico, não é o meu cup of tea.

[00:13:40] E o Vonnegut eu já achei muito legal, porque uma coisa que eu pelo menos faço

[00:13:46] quando vou numa livraria e algum livro me interessa é sempre ler a primeira página,

[00:13:51] ver como que o cara já está me convidando para a leitura.

[00:13:55] E todas as primeiras páginas que eu li do Vonnegut, cara, era sempre eu dava risada,

[00:13:59] eu achava muito boa, como ele sabe fazer, ele puxar já a tua atenção no tipo,

[00:14:04] opa, esse cara aqui é interessante, eu vou querer ver ele depois.

[00:14:08] É, ele se prepara que ele é um vício literário, assim.

[00:14:12] Eu estava falando para o Bolívar que eu fiquei completamente viciada no Vonnegut,

[00:14:16] eu só queria ler Vonnegut e reler também ao mesmo tempo,

[00:14:20] porque era tão bom que parecia que ler uma vez o livro não bastava, eu precisava reler,

[00:14:24] porque sempre tinha alguma coisa lá escondidinha que eu não tinha pego, uma referência, um trocadilho, sabe?

[00:14:31] Então é um vício mesmo, você fica obcecado, você quer ler o tempo inteiro, você quer reler,

[00:14:35] você quer saber quem que inspirou ele, quem que ele gostava de ler, sabe?

[00:14:40] É muito louco.

[00:14:42] Sim.

[00:14:43] Fui pensando nisso e aí a questão como o Vonnegut se posiciona como narrador,

[00:14:48] que eu comecei a pensar, vocês não acham que a ideia do livro é uma parada meio bizarra?

[00:14:54] Desenha um livro.

[00:14:56] O livro é como se, tipo, imagina se não existisse livro,

[00:15:01] tu ia ter que sentar na frente do autor e ficar ouvindo ele falar,

[00:15:04] até ele terminar a história que ele tem pra contar, sem poder…

[00:15:07] Tipo os gregos antigos, né?

[00:15:09] Só que sem poder responder a ele, sem poder interagir, porque com o livro não interage, tu só lê.

[00:15:14] E eu acho que o Vonnegut se posiciona como narrador tendo ideia disso,

[00:15:19] porque ele quebra a narrativa dele sempre falando, tipo,

[00:15:22] ah, então é o seguinte, ou lá no meio do texto tem um, viu só isso que ele fez?

[00:15:27] Eu vou explicar porque que ele fez isso.

[00:15:29] Ele, tipo, ele tá ali meio que ciente de que ele é um narrador

[00:15:34] e que ele tá contando uma história pra ti meio que casualmente, assim, sabe?

[00:15:39] É, é bem… e às vezes ele estertizou, né?

[00:15:42] Porque ele bota um desenho lá e explica, né?

[00:15:45] Deixa eu te explicar como funciona.

[00:15:47] Ele põe um desenho lá totalmente, sim, óbvio.

[00:15:51] No Matador 5 tem muitos desses desenhos e no Café da Manhã dos Campeões,

[00:15:56] acho que é o que ele mais faz isso, assim.

[00:15:58] Porque ele tá explicando alguma coisa, daí do nada ele para e desenha

[00:16:02] um desenho que nem precisava, assim.

[00:16:04] Tipo, quando ele tá descrevendo uma privada, por exemplo, né?

[00:16:07] Ele vai e desenha uma privada também.

[00:16:10] Isso é muito bom, assim, essa proximidade.

[00:16:13] É tipo o que a gente acha que é super inovador hoje no cinema

[00:16:17] quando o ator vira pra câmera e quebra a quarta parede, né?

[00:16:22] Que começa a falar com você.

[00:16:25] Que na verdade é uma coisa já antiga pra caramba, assim, né?

[00:16:28] Mas sempre que acontece, assim, no House of Cards, por exemplo,

[00:16:32] os personagens…

[00:16:34] Eu lembro da última temporada, desculpa quem não viu ainda aí, mas quando…

[00:16:38] Ah, eu assisti.

[00:16:42] A Claire Underwood, ela começa a virar pra câmera também

[00:16:47] e ela diz assim, vocês acham que eu nunca notei que vocês estão aí?

[00:16:50] Deu de caralho, velho, que legal.

[00:16:52] Alguma coisa vai mudar na próxima temporada.

[00:16:55] Isso, exatamente, né?

[00:16:57] E daí o Kevin Spacey fez merda pra caralho aí

[00:17:00] e merecidamente saiu também do Netflix.

[00:17:03] Vai ficar bem mais interessante agora, inclusive.

[00:17:05] Com certeza.

[00:17:07] Eu já quero dar um exemplo disso que vocês estão falando, né?

[00:17:11] De novo, pelas frases de abertura, assim, de livros.

[00:17:14] E eu estou aqui com o Cama de Gato na mão.

[00:17:17] E eu quero falar mais um pouquinho sobre o estilo do Vonego,

[00:17:20] que depois eu quero falar sobre ele e tal.

[00:17:23] Mas aqui, na tradução da Lívia,

[00:17:26] começa o capítulo 1, o dia em que o mundo parou.

[00:17:31] E daí começa com, me chame de Jonah.

[00:17:34] Meus pais me chamavam assim, ou quase assim.

[00:17:37] Eles me chamavam de John.

[00:17:39] Só essa frase já tem tanta coisa boa ali por trás.

[00:17:44] Então olha só que interessante, né?

[00:17:47] Primeiro, como me chame de Jonah,

[00:17:50] ele aqui claramente está fazendo uma referência Moby Dick

[00:17:53] do Herman Melville.

[00:17:54] Com certeza.

[00:17:55] Que começa com me chame de Ismael,

[00:17:57] que é uma das aberturas mais famosas da literatura,

[00:18:02] porque você vai ter esse narrador falando com o leitor,

[00:18:06] dizendo, me chame de Ismael.

[00:18:08] E isso, pra época, foi um choque pros leitores,

[00:18:11] porque caralho, velho, o personagem aqui…

[00:18:14] Está começando assim, né?

[00:18:16] Já começa desse jeito.

[00:18:17] Então eu estou ouvindo a história do narrador falando comigo,

[00:18:20] como o Bolívar falou com uma conversa, né?

[00:18:22] Mas daí ele já fala, me chame de Jonah.

[00:18:26] Meus pais me chamavam assim.

[00:18:28] Daí você vê que ele já começa a trabalhar com aquele negócio

[00:18:31] que o Bakhtin chamava muito da alteridade, né?

[00:18:34] O que o cara está pensando enquanto está me ouvindo.

[00:18:37] E ele já está se revendo e se repensando.

[00:18:39] Não, espera aí, não é bem assim.

[00:18:41] Depois o cara vai me pegar na minha mentira ou alguma coisa desse jeito.

[00:18:43] Que ele fala, meus pais me chamavam assim.

[00:18:46] Tá, ou quase assim.

[00:18:47] Eles me chamavam de Jon.

[00:18:48] E daí o nome dele é Jon, só que ele se chama de Jonah.

[00:18:51] E daí fala, Jonah, Jon, se eu fosse um ser…

[00:18:54] Ele está muito louco, né?

[00:18:55] Ele já começa ali, tipo, nesse primeiro parágrafo,

[00:18:59] que é de duas linhas, de três frases.

[00:19:01] Ele já fala assim, opa, esse é um narrador aqui

[00:19:04] que já está tentando mostrar.

[00:19:06] Ele já tem uma preocupação em montar uma imagem sobre si mesmo.

[00:19:10] E, cara, só nessa frase que já me pegou, eu já disse como é genial isso.

[00:19:14] E, Lívia, eu já queria te perguntar sobre isso,

[00:19:17] se quiser comentar mais coisas sobre essa frase.

[00:19:19] Porque uma das coisas que a gente tem em português ainda,

[00:19:23] da norma culta, é nunca usar pronome no início da frase, né?

[00:19:28] Então, me chame, me ligue, qualquer coisa assim.

[00:19:31] Geralmente a gente fala que na norma culta seria chame-me.

[00:19:34] É, exatamente.

[00:19:35] Você chegou a pensar nessa…

[00:19:37] É pronome isso, né?

[00:19:38] Não estou errado.

[00:19:39] Então, é que o Vonnegut tem isso mesmo,

[00:19:42] mas o Vonnegut, ele tem esse estilo tão coloquial, assim,

[00:19:45] nada nele é pomposo, é empolado, assim, sabe?

[00:19:48] É como se ele estivesse contando pra você numa mesa de bar, sei lá.

[00:19:52] Pelo menos a impressão que eu tenho dos livros dele

[00:19:54] é como se fosse uma conversa informal, sabe?

[00:19:56] Então, assim, eu optei dessa forma porque chame-me.

[00:20:00] Eu achei, talvez, um pouco empolado demais pro estilo do autor, sabe?

[00:20:04] Com certeza, com certeza.

[00:20:06] Na hora.

[00:20:07] Putz, será que eu…

[00:20:08] E também tem essa coisa que você falou da referência Moby Dick, né?

[00:20:11] Que é tão clara, né?

[00:20:12] Que é tão clara que é…

[00:20:14] É uma homenagem mesmo.

[00:20:15] Você vê que é uma homenagem.

[00:20:16] Provavelmente ele era fã do Moby Dick, mas…

[00:20:19] Mas, assim, eu pensei, se eu colocar chame-me,

[00:20:21] talvez fique um pouco empolado demais,

[00:20:22] fuja um pouco do estilo de escrita do autor, sabe?

[00:20:26] Como ele é super coloquial, aí eu pensei, me chame mesmo.

[00:20:31] Eu acho que está certo.

[00:20:32] O Vonnegut, ele até tem um texto famoso dele

[00:20:37] sobre o ponto e vírgula.

[00:20:38] Não sei se vocês já chegaram a ver esse texto.

[00:20:41] Acho que eu li alguma coisa a respeito, né?

[00:20:43] Ele fala mal do ponto e vírgula, né?

[00:20:45] Se eu não me engano, ele é um dos textos que foi incluso

[00:20:48] no O Homem Sem Pátria, né?

[00:20:50] O último livro dele que saiu em 2005, eu acho.

[00:20:53] Um pouco antes dele.

[00:20:54] O de ensaios, né?

[00:20:55] O da Rocco, acho que era, né?

[00:20:56] Esse livro.

[00:20:57] Isso, que tem várias crônicas.

[00:20:59] E aí eu acho que uma delas é sobre o ponto e vírgula

[00:21:02] e ele fala mal mesmo.

[00:21:03] Ele fala que o ponto e vírgula é um negócio

[00:21:05] que não serve pra nada e só serve pra demonstrar

[00:21:09] que tu tem um diploma.

[00:21:13] Ele fala uma coisa assim, eu acho, né?

[00:21:15] Ele fala que se você usar demais,

[00:21:16] essa história vai pegar pneumonia.

[00:21:20] E aí é legal que no fim do texto ele usa o ponto e vírgula.

[00:21:23] E aí ele usa lá o ponto e vírgula uma hora, né?

[00:21:26] E daí no fim do texto ele fala,

[00:21:27] você percebeu que eu usei o ponto e vírgula?

[00:21:29] Eu botei lá, mas era só pra me mostrar mesmo.

[00:21:33] Que fantástico.

[00:21:35] Ele é muito engraçado.

[00:21:37] Então, gente.

[00:21:41] Isso já dá uma ideia também sobre Vonnegut.

[00:21:45] Outra coisa também que acho legal citar

[00:21:47] é como, pelo menos aqui no Cama de Gato,

[00:21:49] ele faz esses capítulos bem curtinhos,

[00:21:51] se eu não me engano, no Matador 5 ele também tem isso.

[00:21:54] Me parece que é uma coisa bem do século XX também,

[00:21:58] da literatura moderna.

[00:22:00] E daí a gente vê como Machadias Cisa era foda, né?

[00:22:03] Porque fazia isso já no século XIX,

[00:22:05] então já aponta os novos caminhos da literatura, enfim.

[00:22:09] Mas, enfim, só pra mostrar como ele é uma literatura muito ágil,

[00:22:15] muito seca e muito sarcástica e muito bacana.

[00:22:19] Então, de novo, eu vejo aqui a influência

[00:22:23] que ele vai colocar no Chuck Palahniuk,

[00:22:25] que eu amo tanto também, né?

[00:22:27] Então, mas eu queria saber quem é Kurt Vonnegut,

[00:22:30] o que ele fez da vida, como é que ele começou,

[00:22:34] quem que sabe da sua história Bolívar, talvez, sabe responder essa?

[00:22:39] Vamos tentar montar aqui uma imagem do Kurt Vonnegut.

[00:22:45] Eu dei uma pesquisadinha também, a gente pode ir complementando, sei lá.

[00:22:48] Porque eu até comprei aquela biografia dele já faz alguns anos,

[00:22:52] o And So It Goes, que é super maravilhosa, super amarga.

[00:22:57] Mas vai falando aí, Bolívar, eu vou complementando também com o que eu souber, sei lá.

[00:23:02] Legal, manda ver.

[00:23:04] O Kurt Vonnegut, ele é americano, né?

[00:23:07] Nascido ali nos anos 20, eu acho.

[00:23:11] É, acho que foi lá pra 22, né?

[00:23:13] Isso, nascido em 1922, o Vonnegut ele era o filho,

[00:23:18] mas ele era o filho do meio, entre três irmãos.

[00:23:23] Tinha o Bernard, né?

[00:23:25] E tinha uma outra irmã, que depois ele adotou os filhos dela, uma coisa assim, né?

[00:23:29] Isso, ele era o mais novo.

[00:23:31] E aí o Vonnegut, ele começou a cursar química, eu acho, na universidade.

[00:23:39] E ele teve muitos empregos antes de virar escritor, né?

[00:23:42] Ele, tipo, trabalhou como relações públicas numa empresa grande lá americana.

[00:23:50] E depois muita coisa e ele acabou indo pra…

[00:23:53] Vendedor de carros usados também, né?

[00:23:55] Eu achei esse detalhe muito Vonnegutiano, né?

[00:23:57] Sim, é bem autobiográfico no café da manhã dos campeões, isso, né?

[00:24:03] Que tem o personagem.

[00:24:05] E aí ele sempre tentava escrever.

[00:24:08] Eu não lembro como que ele começou a carreira de escritor dele,

[00:24:11] mas ele trabalhou como jornalista um tempo também, né?

[00:24:14] Então parece que eu tava dando uma pesquisadinha, né?

[00:24:18] Porque eu falei, deixa eu aproveitar e fazer um pouco a lição de casa.

[00:24:21] Deixa eu dar uma pesquisada antes pra não falar bobagem.

[00:24:23] Fiquei preocupada com isso.

[00:24:25] Aí eu tava lendo que teve…

[00:24:27] Que ele nunca conseguiu se dedicar verdadeiramente à literatura, assim, de corpo e alma.

[00:24:32] Porque ele, como a maior parte dos escritores,

[00:24:34] sempre teve que pegar um monte de emprego pra conseguir pagar as contas de casa, né?

[00:24:38] Então aí ele conseguiu mesmo se dedicar,

[00:24:41] depois que ofereceram uma vaga de trabalho pra ele na Universidade de Iowa como professor.

[00:24:48] E aí sim ele publicou o Matador 5, e aí as coisas começaram a decolar.

[00:24:53] Até então ele tinha que pegar esse monte de emprego

[00:24:56] pra sustentar a família que de três filhos virou pra seis, né?

[00:25:00] Porque ele tinha três filhos,

[00:25:02] depois ele adotou mais três filhos que eram os sobrinhos dele da irmã que morreu, né?

[00:25:07] Então ele não conseguia pagar as contas.

[00:25:09] Então ele escreveu acho que três livros, né, Bolívar?

[00:25:12] Não lembro agora, acho que foi três até sair o Matador 5.

[00:25:17] Mas os três também ele não conseguiu se dedicar 100% escrita, né?

[00:25:20] Porque ele sempre tinha que ter um outro emprego.

[00:25:23] Isso. E isso já é na vida pós-guerra dele, né?

[00:25:28] Ele lutou na Segunda Guerra,

[00:25:31] e foi aí que ele tirou toda a história do Matador 5

[00:25:35] foi da experiência que ele teve como soldado na Segunda Guerra, né?

[00:25:39] Ele foi um dos sobreviventes do bombardeio de Dresden, Alemanha,

[00:25:44] e historicamente foi o bombardeio que mais causou mortes, né?

[00:25:49] Mais do que as bombas atômicas.

[00:25:51] E depois que ele voltou, então ele quis escrever um livro sobre a guerra.

[00:25:56] Isso até ele fala no Matador 5, né?

[00:26:00] E a tese dele era escrever um livro que tentasse passar algum entendimento

[00:26:07] sobre o que é o tal do transtorno pós-traumático, né?

[00:26:11] Retornar a uma guerra que nem foi a Guerra Mundial,

[00:26:15] e tentar colocar isso em uma lata, né?

[00:26:18] Escrever o que viveu lá.

[00:26:20] O importante é que numa época em que o PTSD, né, estresse pós-traumático,

[00:26:25] sequer era ainda uma coisa que as pessoas…

[00:26:28] Diagnosticado, né? Acho que nem tinham diagnosticado isso ainda, né?

[00:26:31] Não, isso aí vai ser diagnosticado, se eu bem me lembro,

[00:26:34] depois da Guerra do Vietnã, e olha lá ainda, assim.

[00:26:37] Então acho que só depois mesmo que ela vai começar a ser tratada

[00:26:42] como uma condição que tem que ser olhada com mais atenção,

[00:26:46] acho que vai ser depois da Guerra do Iraque, já é década de 90 ou tal.

[00:26:51] Posso estar enganado, mas o que eu me lembro assim é de que o PTSD

[00:26:55] vai ser uma coisa que o exército americano vai tomar mais atenção,

[00:26:59] já vai ser segunda metade do século XX, né?

[00:27:03] Aliás, se eu não me engano, no último quarto do século XX.

[00:27:07] Mas enfim, continue, Bolívar.

[00:27:10] Isso, e aí hoje o Matador V é visto com esses olhos, né,

[00:27:14] como um livro sobre isso, porque ele tem alguns temas ali

[00:27:18] que indicam claramente que o personagem tem transtorno de estresse pós-traumático,

[00:27:24] mas isso está muito nas entrelinhas, assim.

[00:27:27] Por exemplo, o fato dele imaginar ou não imaginar

[00:27:31] que ele foi abduzido por extraterrestres,

[00:27:35] tratado como uma forma de escapar do mundo real, né?

[00:27:39] Sim.

[00:27:40] E o mundo para ele, um refúgio.

[00:27:43] Só desculpa, que eu estou vendo aqui a lista dos livros que ele escreveu,

[00:27:50] e eu acho que o Matador V é uma coisa importante que a gente vai ter que se indicar,

[00:27:53] porque sempre que se procura Kurt Vonnegut, o Matador V é tipo,

[00:27:57] ah, esse é o livro para…

[00:27:59] É o mais famoso dele, né?

[00:28:00] É o mais famoso.

[00:28:01] Só com esse livro que a coisa começou a andar mesmo para ele, né?

[00:28:03] Isso.

[00:28:04] Então assim, ele nasce em 22,

[00:28:07] então aos 30 anos ele faz o Player Piano,

[00:28:12] 52 aos 30 anos, daí 59 Sirens of Titan.

[00:28:18] Sim.

[00:28:19] É o meu favoritão.

[00:28:22] Nasceu demais isso aí.

[00:28:24] 61 Mother Night, 63 Cats Cradle,

[00:28:28] Cama de Gato, que acabou de ser traduzido,

[00:28:31] 65 God Bless You, Mr. Rosewater,

[00:28:36] e daí seu sexto livro em 69 Slaughterhouse V, que é o Matador V.

[00:28:42] Ou seja, ele vai fazer sucesso aos 45 anos de idade no seu sexto livro.

[00:28:49] Acreditem-se aos sonhos, gente.

[00:28:51] Isso que é importante.

[00:28:52] Acho que é assim.

[00:28:53] Pois é.

[00:28:54] E aí, o próximo que ele faz depois, que é o Café da Manhã dos Campeões,

[00:28:58] ele conta que esse é um livro que ele se deu de presente aos 50 anos, né?

[00:29:03] Por quê?

[00:29:04] É engraçado que é um livro que não fez muito sucesso, né?

[00:29:07] Que eu gosto dos melhores livros e não fez muito sucesso até.

[00:29:11] Pois é.

[00:29:12] Eu não sei por que ele quis fazer isso, Ivan,

[00:29:15] e não sei identificar no livro assim,

[00:29:17] porque ele é um livro, ele segue muito a lógica dos outros também,

[00:29:21] as temáticas são muito parecidas,

[00:29:24] mas ele se coloca como personagem nesse livro, né?

[00:29:27] Ele fala, ele está lá nas cenas e o pai dele aparece também,

[00:29:30] a mãe dele é mencionada.

[00:29:32] Então acho que tem muita coisa ali meio que pessoal, assim, da vida dele, sabe?

[00:29:39] Colocar a vida dele como um cenário também para as coisas.

[00:29:43] Sim.

[00:29:45] Mas aí, acho que assim, a gente pode depois falar outras coisas,

[00:29:49] mas acho que é bom agora a gente começar a se dedicar um pouquinho nas obras, né?

[00:29:54] Porque, claro, a gente está assistindo aqui que o tema da guerra,

[00:29:58] que essa autobiográfica é sempre bastante importante,

[00:30:01] mas acho que é legal falar um pouquinho dessas obras.

[00:30:03] Então, dessas primeiras, antes do Matador V.

[00:30:07] Vamos começar com o Matador V?

[00:30:09] Acho que, já que é o mais famoso, a gente poderia falar logo dele.

[00:30:13] Qual que é a história do Matador V? Daí, Lívia, pode falar aí,

[00:30:17] ou qual que é o sinopse do Matador V, que é o livro mais famoso dele?

[00:30:20] Então, o Matador V, basicamente, parte da premissa da Segunda Guerra Mundial,

[00:30:26] dessa experiência que ele teve lá em Dresden,

[00:30:28] para contar a história desse soldado extremamente ingênuo e inocente,

[00:30:34] chega a ser irritante até às vezes das peripécias dele na guerra.

[00:30:38] O Bolívia, eu também imagino que em vários momentos você tem vontade de abraçar o Billy Pilgrim,

[00:30:42] mas tem vontade de dar um pedala na cabeça dele.

[00:30:45] Ele é muito perdido, coitado.

[00:30:47] É muito perdido, ele é muito inocente.

[00:30:49] Como o próprio Vonnegut diz, você abre o Matador V,

[00:30:54] o nome do livro é Matador V ou a Cruzada das Crianças.

[00:30:58] Ou seja, o Billy Pilgrim é uma criança que foi mandada para a guerra.

[00:31:02] É uma criança inocente, nunca havia matado ninguém,

[00:31:06] não sabia nada da vida, nem do amor de nada,

[00:31:09] e aí ele é mandado para a Segunda Guerra,

[00:31:11] uma das guerras mais cruéis e terríveis que a humanidade já teve.

[00:31:15] Então, parte dessa premissa.

[00:31:17] Só que aí, como o Bolívia falou,

[00:31:19] essa coisa maluca que o Vonnegut tende sempre extrair de uma experiência real,

[00:31:25] coisas meio extraordinárias, no caso o transtorno,

[00:31:31] mas também tem essa coisa de trazer a ficção científica para a própria história da pessoa.

[00:31:36] Então tem essa coisa de alienígenas, tem esses lápis temporais,

[00:31:40] essas viagens que o Billy Pilgrim faz,

[00:31:43] que basicamente é a história de um jovem soldado que vai para a guerra,

[00:31:46] mas não é só isso.

[00:31:48] Eu não sei se estou sendo muito clara,

[00:31:50] mas é um jovem soldado que vai para a guerra, passa nas agrudas da guerra,

[00:31:55] só que ao mesmo tempo tem experiências em outro planeta,

[00:31:58] com alienígenas, com lápis temporais.

[00:32:02] É uma coisa muito maluca, difícil de definir numa sinófise comum.

[00:32:07] Os melhores livros são assim.

[00:32:09] E principalmente quando tem esses novos meio misteriosos,

[00:32:12] tipo o Matador V, o que significa isso?

[00:32:15] Pois é.

[00:32:17] E o mais engraçado desse livro, que eu acho,

[00:32:19] é o fato dele ter pego essa experiência dele pessoal no Matador V,

[00:32:24] que foi onde eles ficaram abrigados.

[00:32:27] Porque o Kurt Vonnegut foi capturado junto com um grupo de americanos

[00:32:32] e aí foram mandados para Dresden.

[00:32:34] E lá eles ficaram trabalhando numa fábrica de xarope de malte

[00:32:38] para mulheres grávidas.

[00:32:39] Com Vonnegutiano isso não é, né?

[00:32:42] Eles foram trabalhar nessa fábrica e ficaram lá junto com os alemães.

[00:32:47] E ninguém achava nessa cidade, que era uma cidade com quase zero importância militar,

[00:32:53] que era uma cidade super artística, chamavam de a Florença do Elba,

[00:32:58] uma cidade bonita, tinha fábricas de alimentos, não tinha importância militar.

[00:33:02] Ninguém achava que a cidade ia ser bombardeada.

[00:33:04] Então eles estavam lá como prisioneiros de guerra,

[00:33:07] fazendo serviços para os alemães quando a cidade foi bombardeada.

[00:33:12] E eles se abrigaram nesse matador, que era um matador subterrâneo.

[00:33:16] Eu estava até olhando na biografia do Kurt Vonnegut.

[00:33:20] Se eu estiver fugindo um pouco do tema, você me avisa.

[00:33:24] Fica à vontade, tá ótimo.

[00:33:26] Aí ele fala que eles estavam lá quando teve o bombardeio

[00:33:29] e eles estavam refugiados nesse matador entre várias carcaças de animais mortos.

[00:33:35] E aí quando eles saem do matador, a cidade está completamente destruída,

[00:33:40] está em caos absoluto, reinando.

[00:33:43] É uma cidade de superfície lunar quando eles saem.

[00:33:46] É verdade, é uma excelente definição.

[00:33:50] E aí ele sai.

[00:33:52] Ontem eu estava dando uma olhada na biografia que ele fala, que ele encontrou.

[00:33:56] Aí os alemães estavam putos da vida, cheios de ódio, de ressentimento.

[00:34:01] Estavam chocados ainda.

[00:34:03] Então começaram a mandar os americanos, prisioneiros de guerra,

[00:34:05] escavar os corpos e ir juntando todos os corpos.

[00:34:08] E aí eles encontraram um bonde.

[00:34:11] E as pessoas do bonde estavam perfeitas.

[00:34:14] Parecia que elas tinham sofrido um ataque cardíaco conjunto, ele fala no livro.

[00:34:19] De tão perfeitas que elas estavam.

[00:34:21] E aí várias coisas.

[00:34:23] Ele vai descrevendo, tem o episódio da chaleira, que aconteceu de verdade,

[00:34:28] que narra no Matador 5.

[00:34:32] O episódio da chaleira, lembra que ele conta lá no Matador 5,

[00:34:35] daquele soldado mais velho, que é pego roubando uma chaleira?

[00:34:39] Agora estamos tudo curiosos.

[00:34:41] Fala aí pra gente como é que era.

[00:34:44] Tem um momento lá no livro que eles estão escavando os corpos.

[00:34:48] E aí, conforme eles vão escavar nos corpos,

[00:34:51] eles encontram objetos de valor e alguns soldados com a mãozinha leve

[00:34:56] vão lá e pegam uma coisinha ou outra.

[00:34:58] E um dos soldados pega uma chaleira.

[00:35:00] E era um soldado super bonzinho, era um cara mais velho,

[00:35:04] cheio de bons, de ética.

[00:35:07] Ele é retratado no livro.

[00:35:09] O Billy Pilgrim descreve esse personagem como um cara cheio de ética,

[00:35:14] um cara mais velho, meio paternal, com todos os outros soldados.

[00:35:17] Esse cara pega uma chaleira.

[00:35:19] E os alemães estão tão furibundos que eles usam esse cara como exemplo,

[00:35:23] enforcam ele.

[00:35:26] Terrível a situação.

[00:35:28] Horrível, né?

[00:35:30] Porque eles queriam se vingar de alguém, né?

[00:35:33] Ele se coloca como personagem nesse livro também.

[00:35:37] Eu sei agora que tem um momento que ele está descrevendo,

[00:35:39] quando ele já está lá como prisioneiro,

[00:35:42] que ele ouve um soldado reclamando que está tendo uma congestão,

[00:35:46] uma desinteria ali.

[00:35:47] Ele está agachado lá num canto, cagando.

[00:35:51] E aí o Vonnegut diz que ele ouve o soldado reclamar e gritar muito de dor.

[00:35:55] E daí ele termina falando, esse soldado era eu.

[00:35:58] É verdade.

[00:35:59] Caralho.

[00:36:02] O Billy Pilgrim, que é o personagem principal,

[00:36:05] ele está ali na guerra, mas ele é uma projeção,

[00:36:08] ele é esse alter ego do Vonnegut.

[00:36:12] E nesse único momento que ele fala que ele estava lá.

[00:36:15] Só para indicar, eu estava ali, eu estava passando mal mesmo.

[00:36:19] Estava numa situação bem difícil, mas eu estava lá.

[00:36:24] E do nada isso é o mais legal, porque ele fornece essas informações autobiográficas do nada.

[00:36:30] Você está lendo o livro, você não imagina que aquilo vai surgir,

[00:36:32] e do nada surge isso.

[00:36:34] É uma das surpresas que o Vonnegut costuma nos brindar.

[00:36:37] No meio do livro você não espera que tenha um detalhe autobiográfico.

[00:36:40] E ele vai lá e assume que esse detalhe é autobiográfico.

[00:36:43] Que ele é marido.

[00:36:45] Uma coisa que eu acho curiosa é que pelo nome o Vonnegut ele é descendente de alemães.

[00:36:51] E ele vai lutar.

[00:36:53] Ele chega a falar sobre isso, eu descendente de alemães lutando contra alemães?

[00:36:57] Ele chega a falar alguma coisa assim?

[00:37:00] Eu acho que ele fala, Ivan.

[00:37:02] Se eu não me engano, ele menciona isso no início do livro dele.

[00:37:07] Ou é no Modern Night, que é outro livro sobre a Segunda Guerra também.

[00:37:11] Modern Night, que ele escreveu depois.

[00:37:15] Foi antes do Matador.

[00:37:19] Alguma coisa a respeito do Vonnegut se sentiu uma criatura sem raízes.

[00:37:23] Tanto que ele até tem um livro de ensaios, O Homem Sem Pátria,

[00:37:27] que ele não se considerava, embora ele tivesse uma família bem tradicional alemã,

[00:37:31] porque a mãe era de origem alemã e o pai também era.

[00:37:34] E era uma família tradicional lá de Indianápolis.

[00:37:37] Ele se considerava um cara sem pátria.

[00:37:40] Porque ele não se sentia suficientemente próximo à cultura alemã,

[00:37:45] mas ao mesmo tempo ele também se sentia extremamente cético com relação à cultura americana.

[00:37:49] E muito crítico, né?

[00:37:51] Então ele se sentia meio sem pátria.

[00:37:53] Meio sem raízes.

[00:37:55] Me parece que ele sintetiza e cria uma coisa própria dele,

[00:38:04] mas parece que ele está sintetizando ali um pouco do que o Heimei fez

[00:38:09] e também da própria cultura beat, da beatnik que estava acontecendo ali também.

[00:38:15] Ele chega a conversar com o pessoal da cultura beat também naquele momento?

[00:38:20] Dizem que ele é…

[00:38:22] Eu não sei se eu estou falando bobagem, mas ele era considerado um ícone da contracultura, né, Bolívia?

[00:38:27] Eu nunca, pelo menos nada que eu li, ele mencionava os beatniks ou a cultura dessa época.

[00:38:35] Você chegou a ler alguma coisa que falasse isso?

[00:38:37] Olha, as únicas referências que eu lembro que o Vonnegut menciona é o Mark Twain.

[00:38:43] Mark Twain, que é definitivo, ele adorava.

[00:38:46] Sim, eu acho que é o escritor favorito dele, dá para arriscar esse palpite, né?

[00:38:50] E outra referência curiosa que o Vonnegut dá é que, para ele,

[00:38:54] o maior escritor da língua inglesa é o cara que traduziu a Bíblia pela primeira vez.

[00:39:00] Ah, verdade, ele fala isso, né?

[00:39:03] Eu acho que em que livro que ele menciona isso?

[00:39:06] Ele fala assim, não procure grandes escritores,

[00:39:08] abra a Bíblia e veja quem traduziu que esse cara fez um trabalho fenomenal.

[00:39:14] E entre nós é um puta livro de ficção maravilhoso, né?

[00:39:17] Sim, eu sempre falo também para a galera, gente, mesmo que você não seja cristão,

[00:39:21] leia a Bíblia porque é um puta livro foda, assim.

[00:39:24] Está tudo lá, tem várias pornografias, tem fantasia, tem tudo que você pode imaginar.

[00:39:30] Tem de tudo.

[00:39:31] Tem de tudo.

[00:39:33] Você fala isso e eu realmente comecei a prestar atenção nisso,

[00:39:37] que não deve ter sido fácil mesmo, né?

[00:39:40] Não, com certeza.

[00:39:42] E até agora a pergunta para a Lívia, assim,

[00:39:45] dá para começar a falar já sobre o Cama de Gato?

[00:39:48] Eu posso?

[00:39:49] Então, assim, só quero, antes da gente chegar, focar no Cama de Gato,

[00:39:53] eu só queria confirmar um negócio, desses livros, assim,

[00:39:58] porque o Matador 5 de 1969 é o seu grande clássico,

[00:40:02] daí depois ele vai ter outros, enfim, mas eu só queria,

[00:40:06] porque eu queria confirmar que me parece,

[00:40:09] eu quero saber se ele é um cara monotemático até esse momento.

[00:40:12] Monotemático?

[00:40:14] Monotemático porque Cat’s Cradle, que é o Cama de Gato, é sobre guerra,

[00:40:18] mas olha o que vem, o Matador 5 também é, isso, os seus seis primeiros livros.

[00:40:24] Queria saber se é de Segunda Guerra também eles, então vamos lá.

[00:40:28] Player Piano, Sirens of Titan, Mother Night, Cat’s Cradle,

[00:40:32] God Bless You, Mr. Rosewater.

[00:40:35] São eles que são sobre guerra ainda ou não?

[00:40:39] Então, desses, o único que eu não li é o Rosewater, né?

[00:40:42] Os outros são bem variados entre si, né, Bolívaro?

[00:40:46] Isso, eu não li o Player Piano desses aí,

[00:40:49] mas eu acho que não é uma questão de monotema, Ivan,

[00:40:52] é uma questão de, tipo, tentar passar algumas preocupações

[00:40:57] que o Vonnegut tem, eu vou falar preocupações mesmo,

[00:41:01] através desses temas que são mais familiares para ele, né?

[00:41:04] Então, no Matador 5, me parece que a preocupação dele é com

[00:41:09] esse estado de espírito do personagem principal.

[00:41:12] A primeira frase do livro é, escute, Billy Pilgrim se soltou no tempo.

[00:41:17] Ele abre o livro assim, pra já dar uma ideia dessa condição do personagem,

[00:41:22] dessa não linearidade da vida dele.

[00:41:26] E nos outros livros, por exemplo, no próprio Cama de Gato,

[00:41:30] a preocupação do Vonnegut é com a possibilidade do ser humano

[00:41:35] acabar com o mundo sem querer, assim,

[00:41:38] por causa da nossa tecnologia bélica.

[00:41:41] É, aquela crítica à corrida armamentista, né, ao militarismo,

[00:41:45] à religião também, né?

[00:41:47] Isso, no Modern Night, que é um livro muito bom, que eu gosto,

[00:41:50] a lição, a frase, tipo, tema definidora,

[00:41:54] que é até uma frase famosa do Vonnegut, é,

[00:41:58] nós somos aquilo que nós fingimos ser.

[00:42:01] Então, nós temos que tomar muito cuidado com aquilo que estamos fingindo ser.

[00:42:04] É uma puta frase essa.

[00:42:07] E o livro, ele é chocante porque ele conta a história de um espião, né,

[00:42:12] americano, que foi mandado pra Alemanha nazista pra ser, tipo, um undercover,

[00:42:17] pra ser um soldado nazista paisano, pra ser um, tipo,

[00:42:21] pra assumir a identidade de um soldado nazista.

[00:42:24] Só que ele meio que perde o contato com o general,

[00:42:28] com o major, mandou ele pra lá.

[00:42:30] Ele não consegue voltar depois, tipo,

[00:42:32] ele não consegue ninguém pra provar pra ele que ele não é um nazista.

[00:42:35] E ele começa a desenvolver uma vida lá também, né?

[00:42:38] Ele se casa, se apaixona, tem amigos.

[00:42:41] E ele acaba arranjando um emprego de radialista, tipo,

[00:42:45] e o trabalho dele é mandar mensagens nazistas, assim,

[00:42:49] tipo, é propagar o nazismo pelo rádio, né?

[00:42:52] E ele não consegue sair dessa situação,

[00:42:55] porque aí depois o livro tem alguns plot twists ali,

[00:42:59] uns momentos Shyamalan, assim, de revelações.

[00:43:03] A preocupação dele é com essa questão da identidade, assim, né?

[00:43:07] Tipo, quem que ele é de fato quando ele tá lá assumindo esse trabalho dele?

[00:43:12] Então, assim, pelo que eu tô entendendo,

[00:43:15] eu acho que monotemático não era a palavra que eu queria,

[00:43:17] vou inventar uma aqui, monocenarico,

[00:43:20] alguma coisa assim que…

[00:43:22] Eu acho que até não, sabe por quê?

[00:43:24] Porque você falou que era o Player Piano, né?

[00:43:27] É o Modern Night, o Player Piano,

[00:43:29] o Sirens of Titans,

[00:43:31] o que mais que tinha?

[00:43:33] Modern Night, né?

[00:43:35] Então, porque assim, se você for pensar,

[00:43:37] os únicos que falam que tem realmente esse cenário de guerra

[00:43:40] seria o Modern Night,

[00:43:42] o… é, qual que é o outro?

[00:43:46] Cat’s Cradle, o Cama de Gato, que isso.

[00:43:49] Cat’s Cradle não é exatamente guerra, né?

[00:43:51] Se você for pensar, é um contexto de guerra fria,

[00:43:53] mas não é um contexto de Segunda Guerra Mundial, né?

[00:43:55] Sim.

[00:43:57] Segunda Guerra mesmo seria o Modern Night, eu acho,

[00:43:59] porque o Player Piano é aquela coisa meio distópica, né?

[00:44:02] Aquele romance meio experimental como é o primeiro romance dele.

[00:44:05] Eu lembro que quando eu li esse livro, eu fiquei meio chocada.

[00:44:08] Qual que é a história do Player Piano?

[00:44:10] Então, o Player Piano é o seguinte, é um…

[00:44:14] Tentando… é que faz muito tempo que eu li,

[00:44:16] mas basicamente é o seguinte,

[00:44:18] um futuro meio distópico em que o mundo é dividido numa sociedade de castas, né?

[00:44:22] Então, tem aqueles que…

[00:44:24] Pensa naquele filme Gattaca, por exemplo, sabe?

[00:44:27] Aham.

[00:44:29] Mas não é uma superioridade, é uma superioridade mental que tem nesse livro, né?

[00:44:33] Eles fazem lá os testes, e de acordo com a origem da família,

[00:44:37] e de acordo com os testes que eles fazem,

[00:44:40] você está numa casta superior, né?

[00:44:42] Então, aí tem esse personagem principal,

[00:44:44] que é um cientista, né, o Dr. Paul Proteus,

[00:44:48] que ele está nessa casta superior, mas é um cara super filosófico,

[00:44:53] ele fica se questionando o tempo inteiro.

[00:44:55] E é engraçado que não é um personagem muito cativante, assim.

[00:44:58] Não é que nem o Billy Pilgrim, que você quer abraçar,

[00:45:01] você quer dar os pedala, você tem uma empatia muito grande,

[00:45:03] o personagem vai falar, ah tá, tá bom, sabe?

[00:45:06] Mas é um personagem interessante, assim.

[00:45:08] E é um romance meio distópico,

[00:45:10] mas ele não tem muito a veia do humor do Vonnegut.

[00:45:13] Por isso que eu até achei estranho, assim.

[00:45:15] Quando eu li eu falei, nossa, nem parece um livro do Vonnegut.

[00:45:18] É um livro bom, mas é um livro diferente.

[00:45:21] Você vê claramente que é um livro que ele está experimentando,

[00:45:24] você vê claramente que é um primeiro livro, sabe?

[00:45:26] Sim. Revolução no futuro, o nome em português ainda,

[00:45:29] que é um nome curioso.

[00:45:31] É, eles viram assim.

[00:45:32] Curioso, né?

[00:45:33] Eu não sei, o God bless you, Mr. Rosewater,

[00:45:37] que foi o último antes do Matador 5,

[00:45:39] também não tem muito a ver com guerra.

[00:45:41] Ele fala desse personagem, o Mr. Rosewater,

[00:45:44] que é meio que um personagem recorrente, né?

[00:45:47] Ele aparece em outros livros também,

[00:45:49] se eu não me engano, no Café da Manhã dos Campeões.

[00:45:51] Ele é o patrocinador, né?

[00:45:53] Ele é um milionário que patrocina artes, né?

[00:45:55] Tipo, o Vonnegut adora fazer isso,

[00:45:58] ficar colocando vários personagens e vários livros diferentes, né?

[00:46:03] Nesse livro do God bless you,

[00:46:05] o tema é, faz um tempinho que eu li isso,

[00:46:08] ele é tipo, o Rosewater, ele tem,

[00:46:12] ele descobre que ele tem direito a uma herança, né?

[00:46:14] Que é assumir o controle da empresa, do pai dele,

[00:46:18] que é uma multinacional, multimilionária lá.

[00:46:21] Só que tem uma cláusula no contrato lá da empresa

[00:46:24] que diz que se for constatado que o herdeiro é louco,

[00:46:29] ele não ganha a empresa.

[00:46:31] E no livro, o Rosewater, ele está ficando louco mesmo.

[00:46:34] Então ele, o tom do livro é mais uma crítica social assim,

[00:46:38] porque ele gira em torno dos advogados do pai dele,

[00:46:41] que estão tentando provar que ele não é louco,

[00:46:43] e da galera lá da oposição que está tentando provar que sim ele é louco, né?

[00:46:51] O livro gira em torno disso assim.

[00:46:53] Isso eu preciso ler.

[00:46:55] Então ok, já me mostrou assim que ele não fica só na guerra,

[00:47:02] apesar de que esse tema está em volta dele,

[00:47:04] também não daria como sair porque, enfim, né?

[00:47:06] Assim como também no Panic, que está falando toda hora de consumo e tal,

[00:47:10] são questões que são próprias do autor

[00:47:12] e que o formam como um pensador, enfim, né?

[00:47:17] Antes de focar na Cama de Gato,

[00:47:20] eu queria também fazer uma última pergunta que é,

[00:47:23] eu não sei, mas pelo que eu conheço Vonnegut,

[00:47:29] eu fico sempre achando um pouco estranho encaixar ele na ficção científica,

[00:47:34] porque me parece que é uma outra coisa que ele faz,

[00:47:37] toda aquela flerta com a ficção científica.

[00:47:40] Essa minha suspeita faz sentido ou não?

[00:47:43] Ele tem obras que são sci-fi.

[00:47:46] Fala aí, Livia.

[00:47:47] Não, eu acho que faz sim.

[00:47:49] Eu acho que, na verdade, é até errado você classificar ele como ficção científica.

[00:47:53] Acho que nem ele gostava dessa peixa, né?

[00:47:57] Eu assumir ele da seguinte maneira.

[00:48:00] Ele era um escritor que trazia o fantástico para o cotidiano

[00:48:05] e conseguia extrair do cotidiano elementos malucos e fantásticos, assim.

[00:48:10] E da forma mais tranquila possível,

[00:48:13] porque os personagens são pessoas tão comuns, assim,

[00:48:17] que são pessoas que você espera encontrar para ver se é na rua,

[00:48:20] sei lá, na padaria ou numa mesa de bar.

[00:48:23] E com essas pessoas acontecem coisas absurdas,

[00:48:26] coisas realmente dignas de um romance de ficção científica

[00:48:29] ou de, sei lá, alguma coisa bem maluca, assim.

[00:48:32] Fantasia, terror, ele conseguiria.

[00:48:35] Pois é, mas não é ficção científica.

[00:48:37] Eu diria que não é mesmo.

[00:48:38] Não sei o que o Bolívia acha, mas sei lá.

[00:48:41] Essa é uma pergunta boiva, porque o próprio Vonnegut…

[00:48:45] Obrigado. Como host eu me esforço mesmo em fazer boas perguntas.

[00:48:50] É porque, se a gente parar para pensar na ficção científica como gênero,

[00:48:54] ela sempre foi meio marginalizada, assim, na literatura highbrow.

[00:49:00] Se a gente pensar em grandes escritores e nessa questão

[00:49:04] o que que gera mais, chama mais atenção,

[00:49:08] o que que é mais bem visto na literatura,

[00:49:11] ali no início dos anos do século 20,

[00:49:15] a ficção científica estava muito bem conhecida,

[00:49:19] e a ficção científica estava naquele campo do tipo

[00:49:23] só ator que quer experimentar coisas ali,

[00:49:27] que está fazendo investigações,

[00:49:30] que não tem ligação com o mundo real,

[00:49:32] então não é importante.

[00:49:33] Isso eu estava estudando, lendo em algum lugar,

[00:49:36] mas eu não sei se essa informação é 100% idedigna,

[00:49:40] mas eu acho que isso tem a ver um pouco com o fato do Vonnegut

[00:49:44] não querer ser enquadrado como escritor de ficção científica.

[00:49:47] Até porque se a gente pegar o que ele escreve,

[00:49:51] os depoimentos que ele dá no O Homem Sem Pátria,

[00:49:54] no último livro dele,

[00:49:55] ele demonstra um certo ranço

[00:49:57] por nunca ter ganhado um Nobel de literatura.

[00:50:00] Ele se sentia desvalorizado, eu li isso na biografia também.

[00:50:04] Ele até fala mal do pessoal do Nobel,

[00:50:07] ele fala que aquele pessoal lá da Suécia

[00:50:09] não quis dar o prêmio para mim, então eles que vão catar coquinho.

[00:50:14] E eu acho que isso tem um pouco a ver com o fato do estilo dele,

[00:50:18] das temáticas dele serem muito próximos da ficção científica.

[00:50:23] Mas eu acho que isso é por livro, Ivan.

[00:50:26] Se a gente pegar o Sirens of Titan, o segundo livro dele,

[00:50:30] aquilo ali é um livro claramente sci-fi.

[00:50:33] É, que é até verdade.

[00:50:34] Envolve colonização em Marte, envolve guerra entre planetas,

[00:50:38] envolve viagem em tempo, envolve muita coisa.

[00:50:43] Lapsos temporais, coisas muito malucas de ficção científica mesmo.

[00:50:47] E envolve extraterrestre também.

[00:50:49] Se pegar Ivan, o Sirens of Titan, e tu ler sem tu saber quem é o autor,

[00:50:53] tu arrisca que quem escreveu foi Douglas Adams.

[00:50:58] Eu acho que dá para arriscar que o Douglas Adams bebeu dessa fonte com certeza,

[00:51:03] porque a temática é muito parecida com a do Guia do Mochileiro.

[00:51:06] O negócio assim chega a ser absurdo.

[00:51:09] Mas tem livros que se aflaçam um pouco disso, que é o caso do Matadouro V,

[00:51:14] que fica em cima do muro na hora de classificar como ficção científica,

[00:51:19] porque apesar de ter abdução alienígena, viagem no tempo,

[00:51:24] a gente não sabe se isso é para ser encarado literalmente, saca?

[00:51:31] Tem outros livros também que fogem totalmente.

[00:51:34] Eu disse, por exemplo, aquele Jailbird, que é um livro mais tardio dele,

[00:51:38] que trata basicamente do escândalo de Watergate,

[00:51:41] que é um cara que é pego como se fosse um bode expiatório.

[00:51:45] O personagem principal é pego como um bode expiatório do escândalo de Watergate.

[00:51:49] Eu acho que é bem isso que você falou, Bolívia.

[00:51:51] Cada livro é um caso mesmo.

[00:51:53] Porque cada livro, embora tenha alguns temas recorrentes que ele trate,

[00:51:56] essa coisa do fantástico, que ele sempre dá um jeito de inserir,

[00:52:00] de personagens recorrentes, tipo o Kilgore Trout,

[00:52:03] que ele sempre dá um jeito de colocar os livros do Kilgore Trout,

[00:52:08] sempre cada livro tem uma temática principal,

[00:52:13] que não necessariamente é a mesma.

[00:52:16] Sim, sim.

[00:52:18] Eu não li esse Jailbird, mas eu lembrei também,

[00:52:21] o próprio Café da Manhã dos Campeões, ele tem ficção científica dentro do livro,

[00:52:27] mas ela é até tratada de esprezo.

[00:52:31] O Kilgore Trout ali é um velho maluco que está escrevendo o livro,

[00:52:36] que vende lojas de pornografia também.

[00:52:39] É bem isso.

[00:52:41] Ele tira esse sarro por saber que essa é a situação,

[00:52:46] essa é a tragédia da ficção científica.

[00:52:49] Ele tira esse sarro porque muitas vezes a crítica americana

[00:52:54] parece considerar a ficção científica como um gênero menor, parece assim.

[00:52:58] De certa forma é uma crítica.

[00:53:00] Na época dele, com certeza.

[00:53:02] É vendido em banca de jornal.

[00:53:04] Várias vezes ele fala que os livros do Kilgore Trout eram vendidos

[00:53:07] com capas horrendas em bancas de jornal.

[00:53:12] É foda, é bem isso mesmo.

[00:53:14] Na época dele, aqui que ele está…

[00:53:18] Se eu falar aqui dos seus anos, dos seus décadas mais produtivas,

[00:53:22] que ele vai despontar, década de 60 e 70.

[00:53:26] Se a gente está pensando nisso,

[00:53:28] é justamente o momento em que na ficção científica mais hardcore

[00:53:32] vai aparecer o cânone de Arthur Clarke, a Zimov.

[00:53:38] É isso, que daí são mais Hard Sci-Fi.

[00:53:42] Space óperas começam a aparecer também.

[00:53:46] E você via que tinha um quê mais de escapismo.

[00:53:51] Apesar de um Star Trek fazer em algum momento

[00:53:55] uma discussão, você vai ter o Orwell, o Antis, o Huxley,

[00:53:59] o próprio Bradbury.

[00:54:01] Mas o que a galera relacionava com ficção científica era mais escapismo.

[00:54:05] E de repente ter alguma coisa que traz uma crítica social foda,

[00:54:09] não pegava tanto assim.

[00:54:12] E daí parece que ele fica no pior caminho possível, que é…

[00:54:16] Você não vai ser nem tão amado pelo pessoal de ficção científica,

[00:54:20] e também não vai ser muito amado pela galera da academia.

[00:54:24] E com isso você fica justamente na contracultura,

[00:54:27] que é onde você só vai reconhecido por hippie e vagabundo,

[00:54:32] que somos nós todos.

[00:54:34] E nem um agravante pra isso, que é o fato do Vonnegut ser um ator engraçado.

[00:54:39] Ele escreve coisas engraçadas e aí ele cai também na desgraça,

[00:54:44] que é a comédia não ser tão valorizada também.

[00:54:48] Isso a gente vê pelo cinema também,

[00:54:51] porque muitas preferências do Oscar são os dramas,

[00:54:55] mas o Vonnegut ele vai um pouco na contramão dessas outras ficções científicas,

[00:55:00] que nem do Arthur C. Clarke,

[00:55:02] que valoriza mais uma linguagem um pouco mais técnica

[00:55:06] do que esse tom jocoso dele,

[00:55:10] essa linguagem informal que ele emprega.

[00:55:14] Eu fico pensando que se a gente for pensar,

[00:55:18] eu estava lendo que colocam o Vonnegut junto com Joseph Heller

[00:55:24] e outros autores, acho que até o Bradbury e tal,

[00:55:29] numa categoria de postmodernismo americano.

[00:55:33] Eu não gosto muito dessas classificações de categoria,

[00:55:37] mas essa categoria era marcada justamente pela experimentação.

[00:55:41] E eu diria que o Vonnegut é justamente isso.

[00:55:43] Ele experimenta tanto que ele não chega a ser classificado em nenhum gênero.

[00:55:47] Não dá para você dizer que ele é ficção científica,

[00:55:50] porque tem isso que o Bolívar falou.

[00:55:52] Eu nunca, dificilmente se achar um livro de ficção científica

[00:55:56] com a quantidade de humor, com o peso do humor que você encontra

[00:55:59] num livro do Vonnegut, não é?

[00:56:01] É um humor, é presente o tempo inteiro.

[00:56:04] O humor traz de cômico, tudo bem, mas está lá o tempo inteiro.

[00:56:07] Você vai rir, vai chorar, mas você vai em iguais doses.

[00:56:10] Mas é tão experimental que não dá para classificar mesmo.

[00:56:14] Sim.

[00:56:15] E uma coisa que eu achei curiosa aqui,

[00:56:19] que eu estou com o Wikipedia dele aberto para ficar vendo a lista de obras,

[00:56:22] e daí vi aqui embaixo as categorias onde ele é colocado.

[00:56:27] Nascidos em 22, mortos em 2007,

[00:56:31] e daí começam as partes mais interessantes.

[00:56:34] Ateus dos Estados Unidos, socialistas dos Estados Unidos

[00:56:39] e anarquistas dos Estados Unidos.

[00:56:44] Lá está ele.

[00:56:46] Ele falava muito, obviamente a política está direto nos livros dele

[00:56:54] pelo que vocês estão me falando,

[00:56:56] mas ele falava abertamente das inclinações políticas também, Bolívar?

[00:57:00] No Homem Sem Pátria, de novo citando esse livro,

[00:57:05] ele fala que ele é socialista.

[00:57:07] Ele diz, eu sou socialista, gente, mas vocês já se ligaram disso,

[00:57:11] lendo meus livros, porque o que eu sou contra é quando esse negócio tem desigualdade.

[00:57:16] Os Estados Unidos é um país que podia ser grandioso,

[00:57:20] podia ser o melhor lugar para viver do mundo,

[00:57:23] mas não é porque tem muita gente gananciosa, tem muito corporativismo,

[00:57:27] e é por isso que eu não tenho pátria.

[00:57:30] Eu não considero mais os Estados Unidos a minha casa por causa disso que está acontecendo.

[00:57:35] Ele fala abertamente.

[00:57:37] E o doido é que se ele está escrevendo tudo isso e tem essas inclinações,

[00:57:43] já ele na década de 50 e 60, ele vai passar pelo marcatismo.

[00:57:47] Marcatismo, pensei nisso agora.

[00:57:51] Será que ele se fodeu nessa?

[00:57:54] Parece que baniram o Matador 5 das bibliotecas públicas.

[00:57:59] Eu li alguma coisa a respeito.

[00:58:01] Que loucura.

[00:58:02] Foi considerado anti-patriota,

[00:58:04] porque se for pensar, trata justamente do bombardeio de uma cidade

[00:58:08] pelos americanos que bombardearam uma cidade civil.

[00:58:14] Então parece que baniram o Matador 5.

[00:58:18] Rolou lá uma celeuma.

[00:58:21] Capaz.

[00:58:22] É, eu era escritor nessa época que queria pensar muito e ia ter um problema nos Estados Unidos.

[00:58:28] Eu estou enrolando para entrar no Cats Cradle, mas é que a última coisa, juro, antes.

[00:58:33] Ele fez filmes também, trabalhou com filmes também ou não?

[00:58:38] Então, eu vi um filme dele só.

[00:58:41] Um filme dele não.

[00:58:42] Um filme baseado numa obra dele que foi o filme que fizeram no Matador 5.

[00:58:46] E olha, eu achei bom o filme, viu?

[00:58:49] Pois é, tem uma adaptação do Café da Manhã dos Campeões também.

[00:58:54] Essa eu não vi.

[00:58:56] Mas eu não quis assistir.

[00:58:58] Deliberadamente, eu me recusei a assistir, sabe?

[00:59:01] Estragar, né?

[00:59:03] Eu fico com um pouco de receio.

[00:59:05] É bobagem.

[00:59:07] Acho que devia assistir, mas eu não quero, gente.

[00:59:10] Não sei.

[00:59:11] É que dá sempre um medo de ver essas adaptações.

[00:59:15] Eu faço tipo que está passando na televisão.

[00:59:17] Aí eu falei, deixa eu ver.

[00:59:18] Uma coisa que eu fiquei empolgado foi quando anunciaram que ia ser feito uma adaptação

[00:59:23] do Matador 5 dirigida pelo Charlie Kaufman.

[00:59:28] Jura?

[00:59:29] Nossa.

[00:59:30] Eu acho que isso foi anunciado em 2012, só que não foi para frente.

[00:59:35] O projeto foi engavetado.

[00:59:37] Mas daí eu empolguei, sabe?

[00:59:39] Porque, nossa, aí ia ser um filme muito louco mesmo.

[00:59:41] Então, eu ouvi falar que parece que o Leonardo DiCaprio tem uma produtora

[00:59:46] e que eles queriam fazer uma versão de Cama de Gato.

[00:59:50] Mas não seria em formato de filme, seria meio que uma minissérie, sabe?

[00:59:54] E que já estavam mexendo os pauzinhos para ver como iam fazer e tal.

[00:59:58] Mas assim, não sei se é verdade, mas eu li em algum lugar,

[01:00:01] em alguma revista, alguma coisa dessa informação.

[01:00:04] Zé, é que…

[01:00:07] Pode falar.

[01:00:08] Não, não pode falar.

[01:00:09] Pode falar.

[01:00:10] É que eu acho que muitas coisas que a aventura de adaptar o Vonnegut para o cinema

[01:00:17] está esbarrando muito nessa consistência climática dele, sabe?

[01:00:22] O que vai ser um livro do… sei lá, se for fazer um livro do Cama de Gato,

[01:00:26] vai ser uma ficção científica ou vai ser…

[01:00:29] É, dá esse medo, né?

[01:00:30] Pois é.

[01:00:31] Eu sei que o Macadam e o Cinco eles…

[01:00:34] Oi?

[01:00:35] Oi, desculpa.

[01:00:36] Não, eu te cortei, desculpa.

[01:00:38] Só para…

[01:00:39] Acaba sendo uma escolha do diretor, né?

[01:00:41] Que tom que eu vou dar para o filme.

[01:00:44] O Matadouro Cinco poderia ser um filme sério, mas poderia ser uma comédia também

[01:00:48] ou poderia ser um sci-fi, não sei.

[01:00:51] Então, sabe o que eles fizeram com o Matadouro Cinco,

[01:00:53] que eu achei bem honesto, assim?

[01:00:56] Que o Matadouro Cinco é esse filme, né?

[01:00:58] Com várias digressões temporais, assim.

[01:01:01] Uma hora você vê o Billy Pilgrim na guerra,

[01:01:04] outra hora ele está com cinquenta e tantos anos na casa dele e tal.

[01:01:08] Tipo, o tempo inteiro é isso.

[01:01:10] Várias quebras temporais, né?

[01:01:12] E no filme, eu vi que eles tomaram bastante cuidado em ser bem fiel a isso, assim, sabe?

[01:01:17] Então, você vê que o diretor não teve a pretensão de querer, sei lá,

[01:01:22] tornar mais…

[01:01:24] Mastigar a história para o telespectador, sabe?

[01:01:28] E ele colocou as digressões lá, para tudo lá, entendeu?

[01:01:31] Então, se você quiser entender, você entende.

[01:01:33] Se você não entender, também está tudo bem.

[01:01:35] Então, se você quiser entender, você entende.

[01:01:37] Se você não entender, também está tudo bem.

[01:01:39] Eles colocaram os atores bem carismáticos nos papéis principais.

[01:01:44] Eu gostei.

[01:01:45] Eu tive a impressão, assim, que, sei lá, não vou dizer que é um filme nota dez,

[01:01:48] mas eu achei bem, bem ok, assim.

[01:01:50] Achei bacaninha.

[01:01:52] É o mesmo diretor do Butch Cassidy, eu acho.

[01:01:55] Então, olha só…

[01:01:57] Então, olha só.

[01:01:58] Porque, assim, quando eu fui procurar por Kurt Vonnegut também no Google,

[01:02:02] eu encontrou lá filmes, né?

[01:02:05] Que, obviamente, é que a maioria, pelo jeito,

[01:02:07] é adaptações de peças que ele escreveu também e de livros.

[01:02:13] Então, por exemplo, tem um aqui que eu achei o nome fantástico,

[01:02:15] que é a adaptação do Slapstick dele.

[01:02:19] Caramba, tem uma adaptação?

[01:02:21] Isso, que o nome é Trapalhões do Futuro.

[01:02:24] Que fantástico.

[01:02:28] Muito bom.

[01:02:29] Daí tem o Do Matadouro 5, tem Happy Birthday…

[01:02:33] Novenight também.

[01:02:34] É, Happy Birthday Vanda June.

[01:02:37] Tem a adaptação de contos deles.

[01:02:39] E tem um aqui que eu fiquei tipo, como assim?

[01:02:43] Daí eu fui ver na lista do IMDB.

[01:02:46] Vocês lembram um filme que passava direto na sessão da tarde?

[01:02:51] Deixa eu ver aqui.

[01:02:52] Regresso à Escola, que era com o Roger Dingerfield.

[01:02:56] Que era o…

[01:02:57] Regresso à Escola.

[01:02:58] O empresário milionário, ao saber que seu filho não pretende

[01:03:01] ingressar na universidade, decide se matricular para provar

[01:03:04] que essa é uma tapa importante da vida.

[01:03:06] Nossa.

[01:03:07] O pai acaba se tornando…

[01:03:09] Era mais ou menos assim, que o cara era milionário e já era velho

[01:03:13] e o pai dele disse, olha, é o seguinte, você não vai ter herança nenhuma

[01:03:17] se você não entrar na universidade.

[01:03:19] E daí é com o Roger Dingerfield.

[01:03:22] Cara, se vocês verem a imagem assim, eu vou até mandar a Wikipedia

[01:03:26] aqui para vocês, no chat, para vocês verem.

[01:03:29] Daí vocês vão notar…

[01:03:32] De cara vocês vão saber do que eu estou falando, só pela capa do filme.

[01:03:36] O Back to School em inglês.

[01:03:38] O que o Vonnegut tem a ver com esse filme?

[01:03:41] Eu fui ver aqui que ele interpreta ele mesmo como um dos professores,

[01:03:48] se eu não me engano.

[01:03:50] Nossa, que coisa maravilhosa.

[01:03:52] Não preciso ver isso.

[01:03:53] Ele tem…

[01:03:54] Ah, ele dá…

[01:03:55] Olha só, no filme…

[01:03:56] Cara, eu vou até que rever esse filme só para ver isso, que é um filme de 86.

[01:04:00] O Vonnegut interpreta um professor de literatura

[01:04:04] e o professor, o aluno lá tem que escrever um ensaio para a matéria do Vonnegut.

[01:04:11] Que maravilhoso.

[01:04:12] E é um filme tipo de sessão da tarde, assim, cara, é…

[01:04:16] Não precisa isso.

[01:04:17] Tá bem doido. Que loucura.

[01:04:20] A gente viu o Vonnegut na sessão da tarde e nem sabia.

[01:04:23] Que bacana.

[01:04:26] Certo.

[01:04:27] Passou mesmo, não conhecia.

[01:04:29] Tem que ver isso aí agora.

[01:04:30] Também.

[01:04:31] Então, por você ver como tem coisa dele que a gente…

[01:04:33] Ele está por aí e a gente não encontra, né?

[01:04:36] Sabe que eu li uma coisa bem…

[01:04:37] Que eu achei bem bacana?

[01:04:39] Que um dos produtores daquele feriado lá do Larry David, o Curb Your Enthusiasm,

[01:04:46] antigamente ele queria fazer, quando o Kurt Vonnegut estava vivo, é claro,

[01:04:50] ele queria fazer como se fosse uma série baseada em várias entrevistas

[01:04:54] e impressões do Vonnegut sobre a vida e tal.

[01:04:57] Só que ele não conseguia o dinheiro para bancar isso aí.

[01:05:00] Mas imagina que maravilhoso seria, né?

[01:05:02] Sim.

[01:05:03] É assim, o Larry David que é o Seinfeld, né?

[01:05:07] É o idealizador do Seinfeld.

[01:05:09] Não era o próprio Larry David, mas era um dos produtores que estavam lá junto com o Larry David.

[01:05:14] Ele era super fã do Vonnegut e queria fazer uma série só sobre ele.

[01:05:20] Ia ser sensacional se tivesse saído do papel.

[01:05:23] Que bacana.

[01:05:24] Mas é uma pena que não saiu.

[01:05:26] Então, mas enfim, vamos então…

[01:05:28] Agora que a gente já falou tudo isso e já vimos que o Vonnegut é um dos caras mais legais

[01:05:32] que já andaram nessa terra, vamos falar do Cama de Gato.

[01:05:38] Então, vai lá, Lívia, você que…

[01:05:41] Primeiro vamos falar como é que foi a tua tradução.

[01:05:43] Foi a tua primeira tradução do Vonnegut?

[01:05:46] Foi legal?

[01:05:47] Como é que foi o teu processo nisso?

[01:05:49] Bom, então, eu já…

[01:05:52] Eu estava falando para o Bolívia, antes da gente começar a conversar, nós três,

[01:05:56] que eu tive a minha fase Vonnegut, né?

[01:05:59] Perdura até hoje, mas eu também estou que nem o Bolívia,

[01:06:01] eu estou tentando economizar os livros que eu ainda não vi dele, né?

[01:06:04] Se não vai acabar, aí eu vou ter que reler tudo.

[01:06:06] Tudo bem, não vai ser terrível, mas tem alguns ainda que eu quero ler

[01:06:09] com aquela tensão devida.

[01:06:11] Mas eu estava numa fase Vonnegut, que eu só queria ler Vonnegut o tempo inteiro,

[01:06:15] aí eu relia alguns livros também, né?

[01:06:17] Eu comecei a pensar, poxa, isso é tão legal se eu traduzir isso, né?

[01:06:20] Eu já tinha feito umas traduções, nada muito relevante assim,

[01:06:24] mas eu falei, eu acho que eu podia tentar, né?

[01:06:27] E aí eu montei um projetinho de tradução,

[01:06:30] e aí apresentei para a editora Aleph, né?

[01:06:33] Na época tinha conhecido o meu, que estava como editor lá, o Lameira.

[01:06:36] O Daniel, o grande Daniel.

[01:06:38] O Daniel, se parece o Daniel.

[01:06:40] Pô, meu brother aí, então.

[01:06:42] O Daniel foi incrível, porque a gente conversou sobre isso,

[01:06:45] apresentei o projeto para o Daniel,

[01:06:47] o Daniel falou, legal, o Daniel já conhecia o Vonnegut, né?

[01:06:50] Falou, legal, ótima ideia.

[01:06:52] Aí a gente viu a questão dos direitos e tal,

[01:06:54] e eles acreditaram no projeto.

[01:06:56] Fiquei super feliz assim, porque eu sou uma pessoa totalmente insegura, né?

[01:07:00] Mas eu falei, a única coisa que eu quero é tentar disponibilizar

[01:07:04] para os leitores brasileiros alguma coisa do Vonnegut,

[01:07:07] porque ele é tão maravilhoso que ele não pode ficar,

[01:07:10] assim, na sombra, sabe?

[01:07:12] Ele tem que estar em evidência, né?

[01:07:14] Aí rolou, deu certo, e super feliz.

[01:07:16] Oi, Bolívia.

[01:07:18] Não, que massa, muito bom.

[01:07:20] Eu fiquei muito feliz, porque na verdade, sendo bem sincera,

[01:07:23] eu também, como o Vonnegut, sou uma pessoa bem pessimista,

[01:07:26] além de ser segura, eu sou bem pessimista,

[01:07:28] eu falo, ah, não vai rolar nada, tudo bem, vou ficar só lendo e tal.

[01:07:31] E é isso aí, mas deu certo.

[01:07:34] E o processo de tradução foi, assim, apaixonante,

[01:07:38] porque eu já tinha lido o livro duas vezes,

[01:07:40] mas foi ler com uma atenção, assim, nunca dada antes.

[01:07:44] Foi descobrir referências escondidas que eu não tinha percebido antes, sabe?

[01:07:49] Foi uma experiência muito boa, de tradução dos calixtos,

[01:07:52] foi um momento à parte lá, especial para mim, porque eu adoro poesia também,

[01:07:56] então eu pude ter toda aquela diversão de ficar achando rima, sabe?

[01:08:01] O velho dilema de traduzir poesia, né?

[01:08:04] Eu gosto, sabe? Não que eu seja tradutora de poesia,

[01:08:07] mas eu gosto de mexer com poesia, assim.

[01:08:09] Então para mim foi um desafio, mas ao mesmo tempo foi muito divertido.

[01:08:13] E a sinopse do Cama de Gato?

[01:08:16] Quer que eu leia da Aleph ou você quer fazer de coração?

[01:08:21] Então, eu pensei nisso antes de começar a conversar com vocês,

[01:08:25] e eu cheguei à conclusão que se eu fosse falar da minha própria cabeça,

[01:08:28] eu ia dar muitos spoilers e eu acho que não seria legal para quem está ouvindo o programa.

[01:08:32] E aí eu li a orelha da Aleph e realmente eles fizeram uma orelha muito boa.

[01:08:37] A orelha eu acho que está perfeita.

[01:08:39] Se você quiser ler, eu acho que é até melhor,

[01:08:41] porque eu ia acabar soltando algum spoiler e não ia ser legal.

[01:08:44] Na orelha mesmo, não na quarta capa, né?

[01:08:46] É, a orelha eu achei muito boa.

[01:08:48] Então vou primeiro falar da quarta capa, do verso,

[01:08:51] porque aqui é legal também para se introduzir o livro e tal.

[01:08:55] Então, Cama de Gato, clássico do reverenciado autor Kurt Vonnegut,

[01:08:59] é uma divertida sátira do homem moderno e de suas loucuras.

[01:09:03] As desventuras de seu protagonista começam quando ele decide escrever um livro

[01:09:07] sobre o dia do bombardeio em Hiroshima.

[01:09:09] Em sua pesquisa sobre o inventor da bomba atômica,

[01:09:14] o escritor entrevista diversas pessoas que conviveram com o cientista

[01:09:18] e essas interações o fazem descobrir histórias e lugares inusitados

[01:09:22] e conhecer personagens cômicos.

[01:09:24] Guiada por uma controversa religião fictícia cheia de ensinamentos sarcásticos,

[01:09:28] sua narrativa fala sobre moral, ciência, política e o fim do mundo.

[01:09:32] O humor de Kurt Vonnegut de subversivo e incômodo, com seu estilo inigualável,

[01:09:36] ele criou em Cama de Gato a mais peculiar ficção apocalíptica já escrita.

[01:09:41] E daí na orelha, que daí seria sinopse em si mesmo, fala,

[01:09:46] a ciência pode mudar o mundo para o bem ou para o mal.

[01:09:49] É com isso em mente que um despretensioso escritor

[01:09:52] começa a trabalhar em um livro sobre o dia que alterou o curso da história,

[01:09:56] o primeiro bombardeio atômico no Japão.

[01:09:59] O ponto de partida da pesquisa é o próprio inventor da bomba,

[01:10:02] o falecido cientista Felix Hoenicker.

[01:10:05] Mas, ao tentar descobrir mais sobre essa figura histórica,

[01:10:09] o escritor acaba se envolvendo com o legado de Hoenicker

[01:10:12] e com a família do cientista.

[01:10:14] Enquanto escreve novos personagens e até um estranho país carimbenho

[01:10:18] com a religião banida pelo governo,

[01:10:20] o protagonista passa por transformações pessoais

[01:10:23] e por reflexões sobre política, filosofia e religião.

[01:10:26] Em uma história entrelaçada pelo que o narrador acredita ser providência divina,

[01:10:30] personagens pitorescos de diversas nações vão se encontrar.

[01:10:34] Suas interações engraçadas e perturbadoras são parte do caminho

[01:10:38] que todos eles compartilham até seu destino inexorável.

[01:10:41] E aqui eu já acho muito legal mesmo,

[01:10:45] da orelha e da contracapa.

[01:10:48] Já fiquei curioso.

[01:10:50] É demais, eu achei muito bem escrita.

[01:10:53] De novo, vou falar as coisas que me fazem querer ler esse livro pra caralho.

[01:10:58] Primeiro, como eu gosto de autor que usa coisas que não estão no plot em si,

[01:11:06] mas estão ali circulando.

[01:11:08] Então, ele faz a dedicatória do livro aqui

[01:11:11] para Kenneth Littauer, um homem de elegância e bom gosto.

[01:11:18] Daí, próxima página, está ali no meio já.

[01:11:22] Simplesmente escrito no meio assim.

[01:11:24] Nada neste livro é verdadeiro.

[01:11:29] Aqui já começa a história pra mim, sabe?

[01:11:32] Aí já te pega, já faz o ganchinho.

[01:11:35] Isso, já fala ok.

[01:11:36] Se o cara está preocupado em falar isso, já tem coisas importantes.

[01:11:40] Daí, próxima, tem uma citação.

[01:11:42] A citação diz,

[01:11:44] Viva de acordo com os fomas, e daí um asterisco,

[01:11:48] que o tornam corajoso e gentil e saudável e feliz.

[01:11:51] Vai achar aspas.

[01:11:52] Os livros de Bocconon, primeiro do 5, capítulo 1, versículo 5,

[01:11:57] daí o asterisco indica que mentiras inofensivas.

[01:12:01] Fomas seriam mentiras inofensivas.

[01:12:04] Então, viva de acordo com as mentiras inofensivas.

[01:12:07] Daí começa o capítulo 1, que a gente já falou aqui a sua abertura.

[01:12:12] Capítulo 1, o Dick, o mundo acabou.

[01:12:14] Me chame de Jonah.

[01:12:16] Meus pais me chamavam assim ou quase assim.

[01:12:18] Eles me chamavam de John.

[01:12:19] E aqui a gente já vê essa questão de,

[01:12:21] eu sou isso, eu não sou…

[01:12:23] Está aqui a referência a Mob Dick pra quem pegou.

[01:12:27] Mas olha só, eu sou um narrador que não sei direito o que estou falando.

[01:12:31] Eu estou meio que perdido na vida

[01:12:32] e estou conversando com você que está me lendo.

[01:12:34] Então, ele já estabelece esse vínculo com o leitor.

[01:12:39] E esse primeiro capítulo é um daqueles que te dá vontade de ir até o fim.

[01:12:44] Que interessante, porque é um capítulo curtinho.

[01:12:46] Tem uma página, se eu fosse colocar ele diretão.

[01:12:49] E daí ele continua aqui.

[01:12:51] Jonah, John, se eu fosse um Sam, ainda assim seria um Jonah.

[01:12:55] Não porque tenho dado azar aos outros,

[01:12:57] mas porque alguém ou algo me obrigou a estar inevitavelmente

[01:13:01] em determinados lugares, em determinados momentos.

[01:13:04] Os meios e os motivos, ao mesmo tempo convencionais e bizarros,

[01:13:07] me foram fornecidos.

[01:13:09] E de acordo com o plano a cada segundo indicado,

[01:13:12] a cada lugar indicado, esse Jonah estava lá.

[01:13:16] Escute, dois pontos.

[01:13:19] Quando eu era mais jovem, duas esposas atrás,

[01:13:22] 250 mil cigarros atrás, 3 mil litros de birita atrás,

[01:13:26] cara, isso eu adoro quando o cara…

[01:13:30] Aqui a gente vê o exemplo máximo do Mostre Não Diga.

[01:13:35] Quando eu era mais jovem, ele está dizendo.

[01:13:37] Ele fala, não, eu não estou te explicando o que era,

[01:13:40] o que foi eu envelhecer.

[01:13:43] Então, meu envelhecer foi duas esposas atrás,

[01:13:47] 250 mil cigarros atrás, 3 mil litros de birita atrás.

[01:13:52] Então, quando eu era bem mais jovem,

[01:13:55] comecei a coletar material para um livro

[01:13:57] que se chamaria O Dia em Que o Mundo Acabou.

[01:14:00] O livro era para ser baseado em fatos reais.

[01:14:03] O livro seria…

[01:14:05] E aqui já viu que deu tudo errado.

[01:14:08] O livro seria um relato do que norte-americanos ilustres

[01:14:12] fizeram no dia em que a primeira bomba atômica

[01:14:15] foi lançada em Hiroshima, no Japão.

[01:14:17] Era para ser um livro cristão.

[01:14:19] Na época eu era cristão.

[01:14:21] Hoje eu sou bocononista.

[01:14:25] Eu teria sido bocononista naquele tempo

[01:14:28] se houvesse alguém para me ensinar

[01:14:30] as mentiras agridoces do boconom.

[01:14:33] Mas o bocononismo era desconhecido

[01:14:37] para além das praias de cascal e corais afiados

[01:14:40] que circundam essa ilhota no bar do Caribe

[01:14:43] da República de São Lourenço.

[01:14:46] Nós, bocononistas,

[01:14:48] acreditamos que a humanidade é organizada em equipes.

[01:14:51] Equipes que realizam a vontade de Deus

[01:14:53] sem nunca descobrir o que estão fazendo.

[01:14:56] Boconom…

[01:14:58] Boconom…

[01:15:00] É muito bom.

[01:15:02] Boconom chamou equipes como essas de caras.

[01:15:06] E o instrumento de cancan.

[01:15:08] E o cancan que me levou até meu caras particular

[01:15:11] foi o livro que nunca terminei de escrever.

[01:15:13] O livro que era para se chamar O Dia em Que o Mundo Acabou.

[01:15:16] Caralho, velho, isso aqui já é um convite…

[01:15:19] É maravilhoso.

[01:15:20] É fantástico.

[01:15:21] Você não quer mais parar de ler, né?

[01:15:22] Não, não quero.

[01:15:24] E esse tom é o livro inteiro, né, Lívia?

[01:15:28] Só melhora, só vai melhorando.

[01:15:30] Porque uma das características dele é…

[01:15:33] Não sei se foi o Bolíver que falou…

[01:15:35] Acho que foi você, Bolíver, que falou que é você sentar e ler.

[01:15:38] Você não conseguir…

[01:15:40] Você não quer nem parar.

[01:15:41] Você não quer parar para fazer nada.

[01:15:42] Você quer ler até o final.

[01:15:43] E quando você terminar, você quer ler outro.

[01:15:45] Um negócio assim muito viciante.

[01:15:47] Nessa mesma parte do livro inteiro, você só vai se divertindo mais.

[01:15:51] Você só vai ficando mais perplexo e ao mesmo tempo rindo mais.

[01:15:55] É demais, assim.

[01:15:56] É muito bom esse livro.

[01:15:58] Pois é.

[01:15:59] Eu fiquei triste até porque o meu Cama de Gata…

[01:16:03] Eu li ele em inglês.

[01:16:04] Eu comprei esse livro quando eu estava lá fazendo meu intercâmbio na Alemanha.

[01:16:07] Eu achei lá um…

[01:16:09] Estava barato.

[01:16:10] Eu comprei assim na inocência.

[01:16:12] Só que eu emprestei ele para alguém que não me devolveu mais.

[01:16:16] Ah, clássico, né?

[01:16:18] Um minuto de silêncio, por favor.

[01:16:21] Mas eu lembrei também de uma curiosidade.

[01:16:25] Tem uma entrevista que pergunta o Vô Negut qual é o livro dele mesmo, o favorito dele.

[01:16:30] E ele meio que faz um ranking dos livros que ele mais gosta.

[01:16:35] E ele dá nota 10 só para dois livros que ele escreveu.

[01:16:39] Que é o Matador 5 e o Cama de Gato, se eu não me engano.

[01:16:43] Uau, hein?

[01:16:44] Que bacana.

[01:16:45] São os livros que ele mais gostou de ter escrito.

[01:16:49] Sim, sim.

[01:16:50] Se vê que era super crítico com relação à própria obra.

[01:16:53] Porque todos os livros são tão incríveis da sua própria maneira.

[01:16:57] A gente como leitor acaba se empolgando tanto com eles.

[01:17:01] Pois é.

[01:17:02] E até esse trecho sobre o Bocononismo.

[01:17:06] Eu achei um site, que eu até salvei um tempo atrás.

[01:17:10] E um aluno acho que…

[01:17:12] Esse aqui tem muito caro do trabalho da faculdade, sabe?

[01:17:14] Ele compilou todos os trechos dos livros.

[01:17:18] Ah, dos livros de Boconon, né?

[01:17:21] Compilou tudo e colocou online.

[01:17:23] Então dá para consultar se tu quiser entrar para essa religião.

[01:17:27] E pode consultar ali para ver se tem o seu agrado.

[01:17:30] Na época de vício eu fiquei lendo isso aí.

[01:17:32] Eu fiquei lendo sem parar.

[01:17:33] Eu ficava lendo Boconon, Boconon.

[01:17:34] Eu fiquei obcecada.

[01:17:36] Eu decorava o ensinamento de Boconon.

[01:17:39] Se eu queria que eles fossem reais.

[01:17:41] Eu seria uma Bocononista também.

[01:17:44] Que fantástico.

[01:17:47] Eu procurei aqui no Google por Bocononismo.

[01:17:50] Parece ter entrevista dele falando também sobre…

[01:17:54] Aqui o link.

[01:17:55] Depois que coloca no site.

[01:17:57] Ah, beleza.

[01:17:58] Me manda.

[01:17:59] Vou botar o link na postagem para quem quiser saber então.

[01:18:03] É…

[01:18:04] Tem até um Twitter.

[01:18:06] Oi?

[01:18:07] Tem um Twitter dos livros de Boconon aqui.

[01:18:10] Está tudo no Twitter.

[01:18:11] Sério?

[01:18:12] Sim.

[01:18:13] Que legal.

[01:18:14] Não, é realmente incrível alguém se der o trabalho de juntar tudo e organizar.

[01:18:18] Nós só temos que agradecer a essa pessoa.

[01:18:21] Mas será que ele tinha o livro completo que ele criou também?

[01:18:28] Porque, cara, se ele escreve isso aqui hoje em dia,

[01:18:31] é certeza que ia ser tipo J.K. Rowling fazendo os animais fantásticos e tal.

[01:18:37] Tipo, faz aí também o Evangelho, o livro de Boconon.

[01:18:42] Expande o universo.

[01:18:45] Sobre…

[01:18:47] Então, assim…

[01:18:49] Claro.

[01:18:50] Então, a gente tem essa história desse cara que quer…

[01:18:54] Ele tem esse interesse em escrever sobre o inventor da bomba atômica.

[01:18:59] E daí, muitas confusões.

[01:19:01] Obviamente, aqui parece o típico romance em que, ok, esse é o começo,

[01:19:05] mas uma coisa vai levando a outra e por isso torna um romance bem ágil.

[01:19:09] Nunca para de acontecer coisa e a coisa vai ficando cada vez mais maluca.

[01:19:13] De novo, para mim, Chuck Palahniuk aqui pegando muita coisa do Vonnegut,

[01:19:20] porque os livros dele também vêm bastante disso.

[01:19:22] Então, quando você vê aquelas escaladas de absurdo que tem nos livros do Palahniuk,

[01:19:26] é a mesma coisa do Vonnegut, pelo jeito.

[01:19:29] Mas eu gostaria de daí perguntar para a Lívia se a gente fosse…

[01:19:35] A gente estava falando antes dos temas dos livros do Vonnegut.

[01:19:38] Qual que você acha que seria o tema, o conceito do Cama de Gato

[01:19:43] que ele está tentando explorar aqui?

[01:19:46] Olha, se eu fosse sintetizar numa frase, eu diria que é uma crítica mordaz

[01:19:53] com tudo que ele faz, mas principalmente ao militarismo.

[01:19:57] Corrida armamentista, você pensa pelo contexto que o livro foi escrito também.

[01:20:02] E também a religião.

[01:20:04] Ele era um notório cético, ele era um ateu.

[01:20:08] Então, porque conforme você vai lendo um livro, você vai descobrindo mais

[01:20:11] sobre a religião do Bokonon.

[01:20:13] O próprio Bokonon é um set.

[01:20:15] Então, esse livro é como se fosse realmente isso.

[01:20:20] Uma grande crítica à corrida armamentista, ao militarismo e à religião, basicamente.

[01:20:28] Em uma frase eu definiria assim.

[01:20:30] É claro que tem outras coisas inseridas no meio.

[01:20:34] Tem o humor, tem as referências que ele põe no meio.

[01:20:38] Em uma frase eu diria que é isso.

[01:20:40] Bolívar quer complementar?

[01:20:42] Tem algo a mais isso?

[01:20:44] É que, como eu tinha mencionado antes, ele estava muito preocupado por causa da bomba atômica,

[01:20:50] o Vonnegut, dessa possibilidade do homem acabar com o mundo mesmo.

[01:20:56] Dessa tecnologia cair em mãos erradas.

[01:20:59] Para a gente acabar se matando por bobagem.

[01:21:03] A paranoia que tinha na época.

[01:21:05] Todo mundo estava muito paranoico com isso.

[01:21:08] E no livro isso é um tema recorrente.

[01:21:12] Porque no caso, a arma que ele acaba descobrindo.

[01:21:16] Eu não quero dar muito spoiler.

[01:21:18] Enquanto ele vai investigando sobre a vida de um dos inventores da bomba atômica,

[01:21:23] ele descobre que existe uma chance muito grande do mundo acabar mesmo.

[01:21:27] Porque tem uma arma que esse cientista inventou,

[01:21:31] que está nas mãos do ditador dessa ilha onde existe essa religião, do Bokononismo.

[01:21:37] Ele acaba indo para lá.

[01:21:40] E até essa era a minha pergunta para a Lívia.

[01:21:44] Como é que tu traduziu o Ice Nine?

[01:21:47] Ah, então, gelo nove, assim.

[01:21:50] Gelo nove?

[01:21:51] Gelo nove.

[01:21:53] Essa é a arma, né?

[01:21:55] O gelo nove é tipo um composto químico que congela as coisas no contato.

[01:22:02] Então ele é um insta-freeze.

[01:22:04] Você derrubou na sua caipirinha, ela congela.

[01:22:08] Só que esse cientista criou três cápsulas do gelo nove.

[01:22:15] Eu vou dar spoiler se eu falar mais.

[01:22:19] Mas esse escritor tenta descobrir onde estão essas cápsulas.

[01:22:25] Qual é o paradeiro delas.

[01:22:27] Porque imagina se uma dessas cai no oceano.

[01:22:31] Imagina se uma coisa, sei lá, é complicada.

[01:22:35] Sim, sim.

[01:22:37] Vale lembrar também que o personagem, o John, que narra a história,

[01:22:41] você começa a achar que ele é meio…

[01:22:45] Você não tem muitos detalhes sobre a vida dele.

[01:22:47] Você sabe algumas informações.

[01:22:49] Mas uma das coisas que faz ele parar em São Lourenço é a Mona,

[01:22:53] que é a filha adotiva do ditador da ilha.

[01:22:56] Eu não posso dar muito spoiler também,

[01:22:58] mas não é só um trabalho que ele vai fazer na ilha,

[01:23:01] mas tem também interesses pessoais.

[01:23:04] Então é um personagem que ele ao mesmo tempo não é…

[01:23:08] Isso que é legal do Vônico, nem o personagem é…

[01:23:11] Talvez com exceção do Billy Pilgrim, que é tipo 100% puro.

[01:23:14] É impressionante.

[01:23:15] Mas os personagens sempre têm um interesse meio…

[01:23:18] Nunca eles são muito exemplos de pureza ou de, sei lá, de caráter.

[01:23:24] São meio pusilânimes alguns.

[01:23:26] Que são os melhores personagens, né?

[01:23:28] São os melhores, exatamente.

[01:23:30] Não gosta de nenhum santo, né?

[01:23:32] Eu pelo menos, cara muito bonzinho, eu já digo, não, cara, para com isso.

[01:23:37] E já fica entediado, porque a humanidade não é assim, né?

[01:23:40] Não, não.

[01:23:41] A cara é cheia de valores e tal.

[01:23:43] Não, é século XXI já, porra.

[01:23:45] A gente precisa pensar um pouco mais nisso.

[01:23:48] Personagens mais complexos.

[01:23:51] E eu acho que uma coisa que é legal também desse livro,

[01:23:56] que a gente acabou passando meio por cima,

[01:23:59] quando eu perguntei para a Lívia falando da sua tradução,

[01:24:02] mas que a Lívia falou uma coisa que eu acho que é bastante importante nesse ponto,

[01:24:07] que é que você não queria que o Vonnegut fosse deixado de lado, né?

[01:24:11] Porque, de fato, edições brasileiras do Vonnegut,

[01:24:15] hoje em dia você encontra em Cebo e olha lá, né?

[01:24:18] Eu comprei o Matador V em inglês, sendo que é o livro mais famoso dele

[01:24:22] e da LPM está difícil de encontrar.

[01:24:24] Não, da LPM eu acho, sinceramente, eu acho que está fora de catálogo as duas,

[01:24:28] o Café da Manhã e o Macador,

[01:24:30] e eu não sei como eles conseguem deixar sair fora de catálogo,

[01:24:33] que certamente é um dos livros mais vendidos, sabe?

[01:24:35] Mas constantemente você encontra esse livro para vender.

[01:24:38] Sim.

[01:24:39] Mas tem vários que não têm tradução ainda também, né?

[01:24:43] Vários, é.

[01:24:44] Galápagos, eu não sei se têm tradução, mas eu li em inglês também,

[01:24:47] e foi um dos primeiros que eu queria ler do Vonnegut

[01:24:50] por causa da história que ele conta, né?

[01:24:52] O Galápagos eu acho que tem, deixa eu até olhar aqui,

[01:24:55] tem uma edição da Bertrand super velha.

[01:24:58] Você até encontra em Cebo, mas é caro, viu?

[01:25:01] Eu sei porque eu paguei, na época, acho que uns 50 reais na minha,

[01:25:04] deve estar mais caro que isso.

[01:25:06] É, mas vale a pena.

[01:25:08] Então, olha, eu comprei assim porque eu queimei o ressecado,

[01:25:12] eu falei, eu quero ter tudo, tudo, tudo, em português, em inglês,

[01:25:15] então eu fico comprando, assim, conforme aparecia.

[01:25:17] Mas tem umas traduções em português que são bem ruimzinhas, viu?

[01:25:20] Bem ruimzinhas.

[01:25:21] Sim.

[01:25:22] Talvez seja, dependendo do livro, vale a pena ler no original mesmo.

[01:25:25] É, quem conseguir, ótimo, né?

[01:25:27] Quem conseguir, exatamente.

[01:25:28] Quem não conseguir, acho que dá para encontrar vários livros em português

[01:25:31] no Instituto Virtual.

[01:25:32] Sim.

[01:25:35] Lívia, eu não sei se você pode falar,

[01:25:38] ou pelo menos assim dizer, tem planos de traduzir mais?

[01:25:41] Tem alguma coisa aí em vista?

[01:25:44] Porque de fato me preocupa muito, assim,

[01:25:46] que eu consigo ler em inglês de boa, mas cara, eu gosto de ler em português,

[01:25:52] porque daí eu já ouço muita coisa em inglês,

[01:25:55] eu quero ler na minha língua alguma coisa.

[01:25:59] É, e às vezes quer recomendar para alguém e não pode também.

[01:26:02] Exato, exato.

[01:26:03] E quando eu dou aula também de literatura, eu preciso às vezes,

[01:26:07] eu digo assim, se eu ler alguma coisa, eu quero trazer às vezes em sala de aula

[01:26:10] e eu quero que meus alunos possam ver.

[01:26:12] Então, você vai ser a nossa embaixadora de Voa Negut no Brasil?

[01:26:17] Como é que é?

[01:26:18] Eu não diria embaixadora, porque vai sair um livro dele também,

[01:26:21] eu não lembro a editora agora, mas é aquele tradutor super bom,

[01:26:25] o Peter Risatti, vai ter um livro dele,

[01:26:27] mas acho que é um ensaio do Voa Negut que vai sair,

[01:26:32] eu não lembro a editora, mas a Aleph vai publicar sim,

[01:26:36] mais dois livros dele ano que vem, é só que eu posso falar,

[01:26:39] mas vai ter mais dois Voa Negut ano que vem, é certeza.

[01:26:41] Ah, legal.

[01:26:42] Melhor notícia.

[01:26:43] Eu já sei de mais editora que está trazendo Voa Negut também,

[01:26:46] mas eu acho que eu não posso falar, então por enquanto deixa só.

[01:26:51] Eu tenho uma fofoquinha também, mas acho que eu não posso falar.

[01:26:54] Eu acho que temos a mesma fofoca, por sinal.

[01:26:57] Eu acho que sim.

[01:26:59] Mas é legal já para avisar, olha, Voa Negut é um cara para ficar de olho,

[01:27:05] para quem gosta de literatura vai ter muita coisa saindo dele ainda,

[01:27:08] então pelo jeito ainda bem.

[01:27:10] Bolívar, fica feliz com essa notícia também?

[01:27:13] Meu Deus, gente, que coisa bem boa.

[01:27:16] Nossa, tomara que traduzam todos os livros dele,

[01:27:18] ele é um escritor que realmente merece estar nas prateleiras das librarias.

[01:27:23] No grupo de humor que eu estou coordenando,

[01:27:26] a gente faz um grupo de estudos de humor,

[01:27:28] e eu coloco alguns trechos do Matador 5 e do Café da Manhã dos Campeões

[01:27:33] para ler, porque são os mais acessíveis,

[01:27:36] querendo ou não, é o que mais sai, o que mais é fácil encontrar por aí.

[01:27:40] Mas se você não colocar tudo, você tipo não, gente.

[01:27:44] Com certeza, é assim maravilhoso, né?

[01:27:47] Sim.

[01:27:49] Gente, alguma outra coisa sobre Voa Negut que não falamos,

[01:27:54] que vocês gostariam de aproveitar aqui, Lívia?

[01:27:57] Olha, eu acho que levando em conta aquele script que você já tinha me comentado,

[01:28:04] que você já tinha me passado,

[01:28:06] eu acho que basicamente a gente abordou tudo, né?

[01:28:09] Imagino.

[01:28:10] Sim.

[01:28:11] Eu tinha me aparto satisfeito, só deixou assim aberto,

[01:28:13] para de repente você tem que falar mais…

[01:28:15] Ah, eu não posso deixar de falar isso, né?

[01:28:17] Bolívar, tem alguma coisa que você gostaria de falar também?

[01:28:20] Ah, eu queria falar, mas eu vou acabar dando uma de becária agora.

[01:28:24] Lívia, só para que você não saiba,

[01:28:26] becária é o cara que, quando participa aqui, é o nosso amigo,

[01:28:29] e ele faz longas digressões filosóficas sobre a Alvacanta.

[01:28:34] Então, manda ver, Bolívar, fica à vontade.

[01:28:37] Mas é que, sobre o Cama de Gato mesmo,

[01:28:42] o bocononismo, esse papel central que essa região tem na história,

[01:28:47] eu gosto muito de observar,

[01:28:50] na época que eu não li, eu não tinha percebido ainda,

[01:28:53] mas essa dimensão trágica da religião do bocononismo

[01:28:57] de se aceitar como crente.

[01:28:59] Quando você vê os escritos de Boconon,

[01:29:02] ele sempre está relembrando o leitor

[01:29:05] que aquela religião, aquilo ali que ele está falando,

[01:29:07] é tudo uma mentira, mas é uma mentira inofensiva,

[01:29:10] então tudo bem você acreditar nela.

[01:29:12] E é engraçado pensar que essa religião,

[01:29:16] se aplicasse também a outras religiões,

[01:29:19] o bocononismo se enxerga como uma mentira,

[01:29:22] ele faz questão de ser visto como uma crença.

[01:29:25] Então, ele se apresenta dessa forma, como uma mentira,

[01:29:29] assim, gente, isso aqui, o boconon não sabe que é uma religião,

[01:29:34] ele deixa claro que ele está falando mentiras ali para as pessoas

[01:29:38] e que essas mentiras não são mentiras,

[01:29:42] ele está falando mentiras ali para as pessoas

[01:29:44] e que essas mentiras são o trabalho de Deus

[01:29:48] e você tem que seguir elas porque é uma opção deles.

[01:29:53] Enfim, é uma religião que não se leva muito a sério, né?

[01:29:56] Isso para mim é um detalhe muito bom, assim,

[01:30:01] do que é uma religião, né?

[01:30:04] O Ronegote enxerga isso.

[01:30:06] Tem um gato com fome aí.

[01:30:08] É minha gata, vou pegar ela.

[01:30:10] Não tem problema.

[01:30:12] Isso daí, claro, hoje em dia eu já começo a pensar

[01:30:18] em movimentos de religiões de paráodia,

[01:30:21] ou próprios movimentos esotéricos como a magia do caos,

[01:30:26] que já brincam com essa noção da crença e da fantasia da ficção

[01:30:35] e aceitar essa narrativa como sendo tal.

[01:30:39] E como, de fato, assim, é difícil,

[01:30:42] quando a gente está falando de religiões mais antigas

[01:30:45] e mais estruturadas, às vezes dá esse espaço

[01:30:48] de visões de mundo diferentes, né?

[01:30:52] Geralmente há uma…

[01:30:54] Em alguns casos você vai ter, principalmente em movimentos mais radicais,

[01:30:57] essa ideia da verdade absoluta, né?

[01:31:00] Então, com certeza eu consigo visualizar o Ronegote fazendo isso na década de 60,

[01:31:06] até para lutar contra o fundamentalismo cristão nos Estados Unidos,

[01:31:11] que é sempre uma sociedade muito conservadora nesse sentido.

[01:31:14] E daí ele vai usar isso não criticando a religião em si,

[01:31:18] mas criando uma outra religião que dá esse espaço.

[01:31:21] Então, de novo, o que mais me fascina e tudo o que você está me falando

[01:31:25] é como ele é inteligente em fazer subversões de sistemas.

[01:31:30] Ele subverte o sistema toda hora.

[01:31:32] Eu vou falar de guerra, mas eu vou dar um jeito aqui

[01:31:35] de mostrar como a guerra tem esses problemas.

[01:31:38] Ou eu vou falar de religião e eu vou mostrar

[01:31:41] como a religião funciona através disso.

[01:31:44] Então, muito interessante assim, de novo,

[01:31:47] como ele é um cara criativo e subversivo, né?

[01:31:50] Acho que dá para colocar ele aqui como um cara bastante subversivo no seu tempo.

[01:31:55] Com certeza incomodou muita gente, né?

[01:31:58] Isso falando da maneira mais simples possível,

[01:32:01] que é aquele estilo de escrita direto, sem grandes delongas,

[01:32:06] curto, breve, engraçado.

[01:32:09] É um estilo assim direto, vai direto a ponto, não vai ficar com delongas.

[01:32:15] Ele é acessível, né?

[01:32:17] Como é muito acessível?

[01:32:19] Ele é muito fácil de pegar, ler e gostar.

[01:32:23] Eu acho que ele tem noção disso.

[01:32:26] Toda essa linguagem coloquial dele é muito voltada

[01:32:30] para essa facilidade de acesso aos livros dele.

[01:32:34] Sim.

[01:32:35] Que é uma coisa que eu particularmente admiro bastante

[01:32:38] na literatura americana.

[01:32:41] Como eles têm esse preso pela questão de cortar a frase,

[01:32:48] deixar ela bastante lapidada, ser bastante seca.

[01:32:53] Não são todos escritores, obviamente,

[01:32:55] mas essa escola americana de literatura mais seca eu gosto bastante.

[01:32:59] Eu também, acho bem bacana.

[01:33:02] E é legal que ele também usa bastante diálogos,

[01:33:05] que é uma coisa que eu geralmente não gosto muito,

[01:33:08] mas os diálogos são bons também colocados.

[01:33:11] Enfim, eu gosto bastante.

[01:33:15] Fico feliz que tenha saído essa tradução nova aqui da Aleph.

[01:33:21] Com certeza vou usar agora minhas férias para devorar esse livro.

[01:33:24] E pelo que eu já senti aqui vai ser uma leitura de um dia,

[01:33:28] porque eu não vou conseguir largar tão cedo.

[01:33:30] Nossa, é com certeza.

[01:33:31] Você prepara para ficar viciado.

[01:33:33] Essa é a grande sacada dos capítulos curtos,

[01:33:37] que se ficar só mais um capítulo é tão rapidinho.

[01:33:40] Quando você vê que o sol já está amanhecendo,

[01:33:43] você tem que trabalhar e você fala, caralho, velho, foi rapidão.

[01:33:47] Mas tem cara de livro que devora mesmo

[01:33:51] e fico bastante animado em lê-lo.

[01:33:54] Então, parabenizo a Aleph pelo lançamento,

[01:33:57] o Bolívar por ter me dado a dica

[01:34:00] e Lívia pelo grande trabalho como tradutora aqui.

[01:34:04] Pelo que eu já vi aqui, foi uma tradução muito bem pensada.

[01:34:08] Você conhece bem o autor e isso é fundamental

[01:34:10] para fazer uma tradução bem feita.

[01:34:12] E, Lívia, vou deixar aqui um espaço

[01:34:16] para você fazer o seu jabá, se quiser.

[01:34:20] Eu agradeço.

[01:34:21] Então, fica à vontade.

[01:34:23] Como o pessoal está em contato?

[01:34:24] O que você pode oferecer de serviço?

[01:34:26] Então, o espaço aqui é teu.

[01:34:28] Obrigada.

[01:34:29] Primeiro, eu agradeço a oportunidade de falar aqui no Anticast.

[01:34:33] Agradeço a você e ao Bolívar por conversarem comigo.

[01:34:37] E é isso.

[01:34:38] Agradeço a Aleph também pela oportunidade,

[01:34:40] a honra de traduzir o Vonnegut,

[01:34:42] que é simplesmente uma honra para mim.

[01:34:44] Espero ter feito isso da melhor maneira possível,

[01:34:46] de minimamente razoável.

[01:34:49] E queria aproveitar e falar que…

[01:34:51] fazer meu jabazinho, claro,

[01:34:53] porque também preciso comprar o leitinho dos gatinhos.

[01:34:57] E que ano que vem vai sair três livros meus,

[01:35:02] traduções minhas.

[01:35:04] Vai sair uma coletânea de contos de ficção científica

[01:35:08] do Jack London pela editora Penelux.

[01:35:11] Estou aproveitando para divulgar aqui para eles também,

[01:35:13] que eles são muito pontafirme.

[01:35:17] Também vai ter dois livros que vão sair pela editora Zuki,

[01:35:21] lá de Porto Alegre também, de um camarada meu, Xavier,

[01:35:24] que vai sair Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo,

[01:35:27] do John Reed.

[01:35:28] Que legal, vamos fazer.

[01:35:30] Pois é, meu.

[01:35:31] Que bacana.

[01:35:32] Faiu, foi meio atrasado.

[01:35:33] Era para ter saído esse ano, mas não deu tempo.

[01:35:36] A gente teve uns probleminhas, mas vai sair no começo do ano que vem.

[01:35:39] Para quem não sabe, esse é o clássico do escritor John Reed,

[01:35:43] que ele estava no momento da Revolução Russa

[01:35:46] e escreve esse livro, Dez Livros Que Abalaram o Mundo.

[01:35:49] Para entender a revolução por dentro,

[01:35:53] depois vai virar o filme Reds também.

[01:35:55] Cara, é um baita livro.

[01:35:56] Que bom que vai se relançar.

[01:35:58] É uma delícia de ler.

[01:36:00] A gente acabou perdendo um pouco o timing

[01:36:02] da comemoração do centenário da revolução,

[01:36:05] mas antes e tarde do que nunca vai sair o livro ano que vem também.

[01:36:08] Eu não sei exatamente quando, mas acho que vai ser no começo do ano.

[01:36:11] E também ano que vem vai rolar um dos autores prediletos do Kurt Vonnegut,

[01:36:16] que é o Mark Twain.

[01:36:17] Vai sair o primeiro volume da autobiografia do Mark Twain também,

[01:36:20] que eu já comecei a traduzir.

[01:36:22] E estou bem ansiosa também,

[01:36:24] que também é um dos meus escritores prediletes.

[01:36:27] E vamos ver o que vai rolar aí.

[01:36:29] Estou torcendo para dar certo, para enclacar bem.

[01:36:32] E obrigado pela oportunidade de fazer o jabazinho aí.

[01:36:35] E nós temos também pessoas editoras que ouvem aqui.

[01:36:40] Quem quiser contratar você como tradutora, como é que faz?

[01:36:44] Então, eu estou no Facebook.

[01:36:48] Eu não entro muito, mas eu estou lá.

[01:36:51] E tenho meu e-mail, que tem meu sobrenome impronunciável,

[01:36:55] mas eu vou passar se alguém quiser.

[01:36:58] Nossa, é realmente pronunciável.

[01:37:00] Eu recebo cartas com sobrenomes mais disparis que você pode imaginar.

[01:37:06] Mas eu vou botar o teu e-mail no post também, para quem quiser saber.

[01:37:11] Acho que é melhor até, viu?

[01:37:13] Você tem Twitter, página pessoal, blog, alguma coisa?

[01:37:18] Então, eu não tenho Twitter.

[01:37:20] Eu também não tenho página pessoal,

[01:37:21] mas eu estou sempre entrando no Facebook.

[01:37:24] Se alguém quiser mandar uma mensagem pelo Facebook, eu estou lá no e-mail.

[01:37:27] Eu estou 100% ligada no e-mail também.

[01:37:31] E é isso.

[01:37:32] Embora o ano que vem seja um ano bem cheio para mim,

[01:37:36] eu também estou super disposta a varar as madrugadas,

[01:37:39] porque eu sou meio urbicarólica.

[01:37:40] Então, se alguém quiser passar trampo, estamos aí.

[01:37:42] Becana.

[01:37:43] Além de tradução, fornece outros serviços?

[01:37:46] Revisão, revisão crítica, alguma coisa?

[01:37:50] Então, eu trabalhei uma época com revisão e com preparação,

[01:37:53] mas agora eu estou tentando focar mais em tradução mesmo.

[01:37:56] Beleza.

[01:37:57] Porque como eu já tenho um tempo meio escasso,

[01:37:58] tenho uma bebezinha que demanda bastante atenção.

[01:38:01] Então, eu estou tentando focar só em tradução no momento.

[01:38:03] Saquei.

[01:38:04] Então, beleza.

[01:38:05] Só para saber.

[01:38:06] Então, pessoal, o que o Zé entrou com a Lívia é para tradução neste momento.

[01:38:10] Então, agradeço muito.

[01:38:12] Maravilha.

[01:38:13] Bolívar, quer fazer também o seu jabá?

[01:38:16] Olha, eu queria, antes de tudo, parabenizar a Lívia,

[01:38:19] ficar sabendo que foi a iniciativa tua

[01:38:22] pegar o projeto do Cama de Gato e levar para a Aleph.

[01:38:26] Foi muito interessante, sim.

[01:38:28] Parabéns mesmo.

[01:38:29] Que bom.

[01:38:30] Obrigada.

[01:38:31] Que bom que existem a facção vonnegutiana aí lutando para…

[01:38:36] Nativa, sempre nativa.

[01:38:40] É muito bom.

[01:38:41] Espero mesmo que tenha mais lançamentos.

[01:38:43] Eu adoraria ver uma edição nova da Sereias de Titã,

[01:38:47] que é o meu livro favorito dele.

[01:38:49] E o Cama de Gato traduzido aí já está na lista também.

[01:38:53] Que é muito lindo.

[01:38:55] Muito bom.

[01:38:56] E eu queria mandar também um abraço para a galera da Cracóvia.

[01:38:59] Né, Zé?

[01:39:00] Sim.

[01:39:01] Poxa, aquele pessoal está lá, né?

[01:39:03] O pessoal está sempre lá.

[01:39:06] A galera aí, né?

[01:39:08] Sou link.

[01:39:09] Sim, sim.

[01:39:10] Mas também queria agradecer e obrigado.

[01:39:12] Foi uma conversa muito boa.

[01:39:14] Meu Deus, eu fico querendo conversar sobre vonnegut

[01:39:17] com todo mundo e não consigo.

[01:39:19] Finalmente, hoje, quero ter meu sonho.

[01:39:22] Pro Cijano falar sobre vonnegut, manda uma mensagem

[01:39:25] que a gente pode continuar falando dele,

[01:39:27] porque eu adoro falar sobre ele também.

[01:39:29] Que choia.

[01:39:30] E é um autor muito bom que eu sempre recomendo mesmo.

[01:39:34] Muitas reflexões, muita inspiração, né?

[01:39:38] Eu tirei dele para escrever também.

[01:39:40] E eu realmente estou lendo só um plano para não gastar tudo.

[01:39:46] Faz bem, Boliva, faz bem.

[01:39:49] Se bem que depois, se os caras forem espertos,

[01:39:52] depois vão falar, tem aqui escritos nunca lançados antes,

[01:39:57] que estavam sendo guardados.

[01:39:59] Esses caras sempre têm essas coisas.

[01:40:01] Tira uma carta da manga, né?

[01:40:03] Sempre tira alguma coisa assim.

[01:40:05] É só algum filme de Hollywood baseado nele estourar

[01:40:09] que essas coisas começam a aparecer.

[01:40:11] E para isso a gente precisa fazer esse hype.

[01:40:14] Então, maravilha.

[01:40:16] Bolívia e Lívia.

[01:40:18] Bolívia.

[01:40:20] Juntei vocês dois.

[01:40:22] Que loucura.

[01:40:24] Tava demorando, né?

[01:40:26] Tava óbvio, na minha cara isso a qualquer momento.

[01:40:28] Mas Bolívar, você não tem…

[01:40:31] Você está fazendo alguma coisa na internet, site,

[01:40:33] shows online, alguma coisa assim?

[01:40:36] Nossa, então, Ivo.

[01:40:38] Eu estou ainda fazendo uns shows de stand-up aqui a colar, né?

[01:40:42] Mas eu acho que o principal é, principalmente para a galera de Curitiba,

[01:40:45] a gente vai lançar mais uma turma

[01:40:47] ano que vem do nosso grupo de estudos de humor

[01:40:50] na escola de escrita, né?

[01:40:52] E eu queria convidar esse pessoal,

[01:40:55] quem gosta de ler,

[01:40:57] quem gosta de medias,

[01:40:59] depois eu mando o link ali.

[01:41:01] E o Negut, como eu já falei,

[01:41:03] é um dos autores que a gente lê, estuda e debate.

[01:41:06] A gente tenta encontrar ali as estratégias com que…

[01:41:10] Bolívar, está cortando pra caralho a sua voz,

[01:41:13] mas se eu bem entendi, então, vocês têm um grupo

[01:41:16] de estudos de comédia na escola de escrita de Curitiba,

[01:41:20] e quem quiser entrar em contato, você vai deixar o link aí

[01:41:23] para a galera correr atrás, é isso?

[01:41:25] Isso, quem quiser ler, vou, Negut, estar convidado também,

[01:41:28] porque é um dos autores que a gente lê.

[01:41:30] Tá, legal, bacana.

[01:41:32] Então, eu vou botar também o link da escola de escrita aqui em Curitiba.

[01:41:39] Quem que cuida lá da escola mesmo?

[01:41:41] A Júlia, né?

[01:41:43] A Júlia, uhum.

[01:41:45] A Júlia.

[01:41:47] Eu falava Júlia antes.

[01:41:49] A Júlia, isso.

[01:41:51] A Júlia é uma querida, então manda um beijo lá pra ela também.

[01:41:54] A escola de escrita é um lugar bem legal aqui pra quem é de Curitiba,

[01:41:58] então podem correr atrás também,

[01:42:00] que eu tenho o meu selo de qualidade também,

[01:42:02] não é que isso vale alguma coisa, mas enfim.

[01:42:05] Os links estão na postagem,

[01:42:07] tanto pro Bolívar e pra Bolívia.

[01:42:10] Né, já temos aí o…

[01:42:13] Eu já fui chamada assim já.

[01:42:15] É, então ótimo.

[01:42:20] Eu imagino.

[01:42:24] Eu já fui chamada até de Zíbia, mas…

[01:42:26] Zíbia, tá aí é complicado.

[01:42:28] Mas é isso.

[01:42:30] Gente, então muito obrigado, foi uma delícia,

[01:42:32] espero que o pessoal goste aí também,

[01:42:34] e no final a gente sempre dá aquele tchau pro ouvinte,

[01:42:36] então vamos lá, um, dois, três, tchau, pessoal.

[01:42:38] Tchau, tchau, valeu.

[01:42:40] Muito obrigada por tudo.

[01:42:42] Eu que agradeço.