AntiCast 322 – Os 100 Anos da Revolução Russa [EPEP 32]


Resumo

Este episódio especial do É Pau É Pedra, lançado originalmente em outubro de 2017 para marcar o centenário da Revolução Russa, oferece uma análise abrangente dos eventos que transformaram a Rússia e impactaram o mundo. Produzido colaborativamente por cerca de dez pessoas da comunidade Anticast, o programa combina narração histórica, leituras de documentos importantes e entrevistas com especialistas para reconstruir o contexto e os desdobramentos da revolução.

A análise começa com o contexto pré-revolucionário da Rússia czarista, um país com contradições entre aspectos feudais e modernos, que passava por acelerada industrialização mas mantinha a maioria da população camponesa. A Primeira Guerra Mundial agravou as crises sociais e econômicas, criando as condições para a insurreição. O programa detalha os eventos de 1905 como “ensaio geral” que introduziu os sovietes como forma de organização popular, e traça o caminho até as revoluções de fevereiro e outubro de 1917.

As entrevistas exploram temas como a organização do Partido Bolchevique sob o centralismo democrático, a duplicidade de poderes entre o governo provisório e os sovietes, e o papel decisivo de figuras como Lenin, Trotsky e Stalin. Especial atenção é dada à participação das mulheres no processo revolucionário, destacando figuras como Alexandra Kollontai e o papel das trabalhadoras têxteis como estopim da revolução de fevereiro.

O episódio também aborda os desafios enfrentados após a tomada do poder: a guerra civil, o comunismo de guerra, a Nova Política Econômica (NEP) e o posterior processo de burocratização sob Stalin. Os especialistas discutem os erros e acertos da experiência revolucionária, incluindo questões como o terror vermelho, a polícia política (Tcheka) e a supressão da democracia interna no partido.

Por fim, o programa reflete sobre o legado da Revolução Russa para a contemporaneidade, destacando suas aspirações de igualdade, liberdade e emancipação humana, enquanto reconhece a necessidade de aprender com seus erros e evitar reproduções mecânicas de modelos históricos em contextos diferentes.


Indicações

Books

  • Dez Dias Que Abalaram o Mundo — Livro de John Reed mencionado como relato jornalístico fundamental sobre a Revolução de Outubro, com prefácio elogioso de Lenin que destaca sua importância para entender o momento revolucionário.
  • 1905 — Livro de Leon Trotsky citado como obra fundamental para entender não apenas a Revolução de 1905, mas também a Rússia pré-revolucionária e os processos que levaram a 1917.

Concepts

  • Teoria do elo mais fraco — Conceito desenvolvido por Lenin que explica por que revoluções socialistas tenderiam a acontecer não nos países capitalistas mais desenvolvidos, mas sim nos ‘elos mais fracos’ da cadeia imperialista, como a Rússia atrasada.
  • Revolução permanente — Teoria de Trotsky discutida no episódio, que defendia a combinação de etapas revolucionárias (democrática e socialista) e a necessidade de expansão internacional da revolução, contra concepções etapistas tradicionais.

People

  • Alexandra Kollontai — Dirigente bolchevique e primeira mulher eleita para o soviete de Petrogrado, depois comissária do povo para assuntos do bem-estar social. Defendia a organização das mulheres e a socialização do trabalho doméstico como parte essencial da revolução.
  • John Reed — Jornalista americano e fundador do Partido Comunista dos Trabalhadores dos EUA, autor de ‘Dez Dias Que Abalaram o Mundo’. Aceitou ser cônsul da República Soviética em Nova York quando os EUA não reconheciam o governo, sendo preso por isso.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao É Pau É Pedra e contexto do episódio — Ivan Mizanzuk apresenta Débora, coordenadora do É Pau É Pedra, que explica o funcionamento do podcast colaborativo produzido pelos patrões do Anticast. Eles discutem os diferentes programas spin-off como É Pau É Drag, SAC Feminista e Craco RPG. Débora conta sobre a produção especial sobre os 100 anos da Revolução Russa, destacando que foi uma superprodução com cerca de dez participantes, incluindo gravações, entrevistas e edição elaborada.
  • 00:08:50Contexto histórico pré-Revolução Russa — O episódio começa com uma leitura do Manifesto Comunista de Marx e Engels, estabelecendo o tom teórico. A narração descreve o cenário do final do século XIX com a divisão imperialista do mundo e a corrida armamentista que levou à Primeira Guerra Mundial. A revolucionária Rosa Luxemburgo é citada apresentando a alternativa histórica: socialismo ou barbárie. O professor João Victor de Paula analisa as contradições da Rússia czarista, um país com aspectos feudais mas também com industrialização acelerada e produção científica e cultural significativa.
  • 00:15:31Revolução de 1905 e o surgimento dos sovietes — O professor João Victor discute a Revolução de 1905 como “ensaio geral” para 1917. Embora derrotada, esta revolução criou a instituição fundamental dos sovietes - conselhos de trabalhadores, soldados e camponeses que representavam uma forma radicalmente democrática de auto-organização. Leon Trotsky é citado descrevendo os sovietes como “embriões do governo revolucionário” que organizavam massas e dirigiam greves políticas. Esta experiência preparou o terreno para os eventos de 1917.
  • 00:30:47Organização do Partido Bolchevique — Marcos Yanoni, cientista político, explica a estrutura do Partido Operário Social-Democrata Russo (bolchevique). Descreve um partido altamente organizado e disciplinado, baseado no centralismo democrático - liberdade de discussão interna combinada com unidade na ação após decisões majoritárias. O partido era financiado por contribuições dos militantes e atividades como venda de jornais. A palavra “bolchevique” originou-se da ala majoritária (bolshinstvo) que venceu disputas internas em 1905, enquanto “menchevique” referia-se à minoria (menshinstvo).
  • 00:39:02Revoluções de 1917: fevereiro e outubro — Análise detalhada das duas revoluções de 1917. Em fevereiro, a queda do czarismo levou à formação de um governo provisório liderado por liberais, mas com os sovietes como contrapoder real. Lenin retorna do exílio em abril e defende a posição de que a revolução deveria ser socialista, não apenas democrático-burguesa. O período entre abril e outubro é marcado pela “duplicidade de poderes” entre governo provisório e sovietes. Em setembro, a tentativa de golpe do general Kornilov é derrotada pela população, abrindo caminho para a tomada do poder pelos bolcheviques em outubro.
  • 00:56:28Papel das mulheres na Revolução Russa — Tatiana Godinho discute a participação fundamental das mulheres no processo revolucionário. Destaca que uma importante greve de mulheres trabalhadoras têxteis em fevereiro de 1917, com gritos de “queremos pão”, foi o estopim da revolução de fevereiro. As mulheres foram ativas em todos os momentos, insistindo que a revolução precisava ser libertária não apenas na economia mas também nas relações sociais. Alexandra Kollontai, primeira mulher eleita para o soviete e depois comissária do povo, defendia a socialização do trabalho doméstico e superação dos modelos tradicionais de família.
  • 01:05:09Desafios pós-revolução e ascensão de Stalin — Discussão sobre os enormes desafios após a tomada do poder: país arrasado pela guerra, três quartos da indústria destruída, sistema de transporte paralisado. Os bolcheviques enfrentaram ataques imperialistas e exércitos brancos contra-revolucionários, levando ao “comunismo de guerra”. Após a vitória na guerra civil em 1921, implementou-se a Nova Política Econômica (NEP). Analisa-se a luta interna no partido entre direita (Bukharin), esquerda (Trotsky) e centro (Stalin), culminando na vitória de Stalin que aplicou com violência o programa da esquerda através da coletivização forçada. Os expurgos de 1936-38 liquidaram a velha guarda bolchevique.
  • 01:39:40Legados e lições da Revolução Russa — Reflexão final sobre o significado histórico da Revolução Russa. Destaca-se que cada revolução tem circunstâncias únicas e não deve ser tratada como arquétipo a ser reproduzido mecanicamente. O legado inclui aspirações de igualdade, liberdade e emancipação humana, mesmo reconhecendo que a experiência degenerou em tragédia. A principal lição é a necessidade de unificar forças revolucionárias diversas em vez de exclusivismos partidários. A revolução russa representou um “assalto aos céus” que, apesar de seus erros, mantém seu valor como experiência de transformação social radical.

Dados do Episódio

  • Podcast: AntiCast
  • Autor: HD1
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2018-01-31T23:14:31Z
  • Duração: 02:07:15

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] E aí pessoal, aqui é o Ivan Mizanzuki, esse é o Anticast 322, e na verdade não tem Anticast

[00:00:19] porque eu estou fudido essa semana, novamente, ainda produzindo o Projeto Humanos, a quarta

[00:00:24] temporada, e tem aqui alguém comigo que vai poder explicar o que está acontecendo.

[00:00:29] Quem é você que está aqui hoje?

[00:00:31] Olá, eu sou a Débora, a nova chefa coordenadora do É Pau É Pedra.

[00:00:37] Ah, explica pra gente o que é o É Pau É Pedra, Débora, seja bem-vinda também.

[00:00:43] Obrigada.

[00:00:44] Então, o É Pau É Pedra é um podcast colaborativo produzido pelos patrões do Anticast, nós

[00:00:50] temos um grupo de organizadores que ajudam a preparar as pautas, edição dos programas,

[00:00:56] mas todo mundo que está na Cracovia faz parte do É Pau É Pedra e pode se candidatar pra

[00:01:02] participar desse grupo de organizadores, pode sugerir pauta e gravar todos os programas.

[00:01:07] E como é que vocês conseguem se organizar, que é uma loucura, é muita gente, é muito

[00:01:13] programa, então, como é que vocês se organizam, assim, só pra dar uma ideia pro pessoal?

[00:01:19] Então, os temas, a gente faz uma votação aberta todo início de ano, a primeira parte

[00:01:26] é que todo mundo pode indicar um tema, a gente lança um formulário pra quem quiser indicar

[00:01:31] tema e depois a gente pega esses temas indicados e faz uma votação, aí os 20 mais lotados

[00:01:37] nós vamos produzir, mas a gente reveza esses temas com temas espontâneos, por exemplo,

[00:01:44] surgiu uma série nova, o pessoal está querendo discutir ela, aí lança um podcast, por

[00:01:50] exemplo, o EPEP36, que foi sobre a segunda temporada de Stranger Things.

[00:01:55] Eu tô vendo aqui que tem, eu tô dando uma olhada nos últimos programas e playlists,

[00:02:01] vocês têm um, é que desses tem vários spin-offs dentro do É Pau É Pedra, né?

[00:02:06] Isso.

[00:02:07] Então, assim, tem o É Pau É Pedra, que é o programa que originou tudo isso, mas tem

[00:02:11] o Dja, o que que é o Dja?

[00:02:14] Então, o Dja, a gente aposentou, mas o Dja eram esses temas espontâneos que surgiam,

[00:02:20] porque o pessoal ficava meio confuso, porque não entendia o Dja e o EPEP, a gente aposentou

[00:02:25] essa temporada, o Dja vai fazer só EPEP, aí revezando esses temas já predefinidos

[00:02:31] com os espontâneos.

[00:02:32] Certo.

[00:02:33] Fica à vontade, então, pra falar, porque eu quero que, obviamente, eu tô muito curioso

[00:02:38] aqui pro do RuPaul’s Drag Race, como é que é essa história?

[00:02:43] Tem o É Pau É Drag, que é sobre o RuPaul’s Drag Race, inclusive, essa semana teve um

[00:02:49] crossover com o The Library is Open, que é um podcast também sobre o RuPaul, sobre

[00:02:55] o mundo drag e outras outras temáticas envolvendo o mundo LGBT.

[00:02:58] Sim.

[00:02:59] Então, daí vocês comentam episódio por episódio, temporadas?

[00:03:03] É, por temporada que eles fazem.

[00:03:05] Por temporada, legal.

[00:03:06] Tem também o SAC Feminista, que eu acho fantástico, né?

[00:03:10] O SAC Feminista, ele tá dentro do Pergunta de Quinta, que a gente responde perguntas

[00:03:16] sobre feminismo no SAC Feminista e veganismo no VEG Responde toda quinta-feira.

[00:03:21] Aí quem quiser mandar perguntas sobre isso é só enviar.

[00:03:25] Inclusive, o SAC Feminista dessa semana, de amanhã, vai ser um especial sobre gênero,

[00:03:32] porque segunda-feira, dia 29 de janeiro, foi o Dia Nacional da Visibilidade Trans,

[00:03:37] então a gente preparou uma discussão bem legal com especialistas no assunto e pessoas

[00:03:41] trans.

[00:03:42] Ah, que legal.

[00:03:44] Bom, e o SAC Feminista eu acho super divertido também, eu ouço bastante ele.

[00:03:48] Agora, eu tô muito curioso também, além da recomendação pra ouvir o SAC Feminista,

[00:03:55] vocês começaram um RPG também agora, o Craco RPG?

[00:03:59] Como é que faz a história?

[00:04:01] Então, eles montaram uma mesa de RPG lá na Craco e acabaram gravando um podcast.

[00:04:06] Eu não sei se eles vão dar continuidade, porque de RPG é mais complicado, né, toda

[00:04:13] E tem também programa sobre o Harry Potter, é isso mesmo?

[00:04:17] Harry Potter, é.

[00:04:18] O Epau Epédra Filosofal, que daí eles discutem sobre os livros, os filmes e tá bem legal.

[00:04:25] E a gente tem um dos participantes, ele nunca leu o Harry Potter e ele tá lendo enquanto

[00:04:31] grava os programas, tipo, a cada… tá sendo acompanhado.

[00:04:36] Ah, que legal.

[00:04:37] Beleza.

[00:04:38] Beleza.

[00:04:39] Bom, você citou antes que pro pessoal participar do Epau Epédra e saber mais sobre, é só

[00:04:44] participar lá da Cracovia do Anticast ser patrão.

[00:04:46] Então, pra quem não sabe, os patrões e patrões do Anticast são o que fazem o Anticast acontecer,

[00:04:52] toda a rede podcast.

[00:04:54] Pra saber mais sobre isso, entra em Anticast.com.br, clica no botão lá em cima, seja patrão

[00:04:59] e daí você pode contribuir com a quantia que puder todo mês.

[00:05:03] Se você contribuía pra gente no PagSeguro, ou mora no Brasil e contribuía pelo Patreon,

[00:05:10] eu peço que, por favor, caro patrão ou patroa, mude para o Catarse agora, que é onde estamos

[00:05:16] fazendo… estamos tentando concentrar toda a nossa patronagem ali.

[00:05:21] E ali no link que eu citei, Anticast.com.br, barra seja patrão, ou só clicar no botão

[00:05:27] lá em cima, vocês já sabem melhor sobre o Catarse, que é onde a gente tá tentando

[00:05:31] concentrar tudo agora.

[00:05:32] E daí, entra na Cracóvia, vira o seu passaporte pra Cracóvia, você vira no patrão ou patroa,

[00:05:37] e daí pode participar também aqui do Epáue Pedra, que fez este episódio que vamos

[00:05:42] lançar hoje, fez esse episódio no ano passado, em outubro, quando completou os 100 anos da

[00:05:49] Revolução Russa.

[00:05:50] Então, eu queria que você falasse um pouquinho, Débora, sobre como que foi esse programa,

[00:05:54] qual que foi a história da produção dele, porque foi um programa super bem produzido,

[00:05:58] deu um trampo considerável.

[00:06:01] Você poderia contar um pouquinho da história de bastidor dele?

[00:06:04] Então, esse programa, acho que ele é o mais icônico que representa o que é o Epáue

[00:06:09] Pedra, esse podcast colaborativo.

[00:06:11] Foi uma super produção, várias pessoas participaram da discussão, teve uma super

[00:06:16] edição, teve leituras, teve todo um storytelling por trás do programa.

[00:06:23] Sim.

[00:06:24] E ele tá bem legal, conteúdo muito legal.

[00:06:26] Quantas pessoas que participaram?

[00:06:28] Quantas pessoas que participaram?

[00:06:29] Porque não é um bate-papo, né?

[00:06:31] Ali você tem várias participações.

[00:06:35] Então, quantas pessoas que participaram?

[00:06:37] Você tem uma ideia, mais ou menos?

[00:06:39] Nossa, eu acho que umas 10 pessoas.

[00:06:41] É, sim.

[00:06:42] E teve gente que produziu pauta, outro editor, e teve mais gravações e entrevistas.

[00:06:48] Então, quem quiser ouvir agora, eu recomendo, porque achei uma baita produção, inclusive

[00:06:54] quando vocês lançaram, eu avisei, né?

[00:06:56] Eu disse, ó, o Epáue Pedra já fez programa sobre a Revolução Russa, então nós não

[00:07:00] vamos fazer, e daí eu recomendei para que ouvissem.

[00:07:03] Mas, como essa semana também eu tô super corrido, eu aproveitei já pra dizer assim

[00:07:07] pra vocês, né?

[00:07:08] Cheguei pra você, pra chefe agora, e falei assim, ó, Débora, escolhe um programa pra

[00:07:12] lançar.

[00:07:13] E daí me recomendaram aí os Senhores da Revolução Russa, achei uma excelente escolha.

[00:07:17] E quem quiser assinar, então, o feed do Epáue Pedra tá ali no nosso site, né?

[00:07:23] Tem também vocês, mas é só procurar por Epáue Pedra em qualquer agregador de podcast

[00:07:27] ou também em soundcloud.com barra paupedra.

[00:07:32] Eu sempre me confuso, eu sempre escrevo o E no meio e não tem.

[00:07:36] Então, paupedra tudo junto.

[00:07:37] Também estamos no Spotify, no Deezer, e semana que vem estreia a nova temporada do EPEP.

[00:07:43] E no Clima de Volta às Aulas a gente vai trazer um episódio sobre histórias de professores.

[00:07:48] Ah, maravilha.

[00:07:49] Então, fico feliz de saber que tá tudo andando bem aí pelas terras do EPEP.

[00:07:54] Vou começar a falar assim também agora.

[00:07:58] Mas, bem lembrado também, você pode ouvir todos os programas do T-Cast no Spotify e

[00:08:03] no Deezer.

[00:08:04] E estamos ansiosos aí pela nova temporada, então, Débora.

[00:08:08] Boa sorte aí agora no comando dessa galera toda.

[00:08:11] Espero que não dê muito problema.

[00:08:14] E é isso, gente.

[00:08:15] Vamos agora para o programa.

[00:08:16] Fique agora com ele.

[00:08:17] Tchau!

[00:08:19] Tchau!

[00:08:50] Um espectro ron da Europa.

[00:08:53] O espectro do comunismo.

[00:08:55] Todas as potências da velha Europa unem-se numa santa aliança para conjurá-lo.

[00:09:00] O Papa e o Guizar, Meternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha.

[00:09:07] Duas conclusões decorrem desses fatos.

[00:09:10] Primeiro, o comunismo já é reconhecido como força por todas as potências da Europa.

[00:09:16] Segundo, é tempo de os comunistas exporem abertamente ao mundo inteiro seu modo de

[00:09:22] ver, seus objetivos, suas tendências, opondo um manifesto do próprio partido, a lenda do

[00:09:30] espectro do comunismo.

[00:09:31] A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história de luta de classes.

[00:09:37] O homem livre e o escravo, Patrício e Plebeu, Senhor Feudal e Servo, mestre de corporação

[00:09:44] e companheiro.

[00:09:45] Em resumo, opressores e oprimidos em constante oposição têm vivido numa guerra ininterrupta,

[00:09:51] hora franca, hora disfarçada, uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação

[00:09:56] revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em conflito.

[00:10:02] Os comunistas se recusam a dissimular suas opiniões e seus fins, proclamam abertamente

[00:10:08] que seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social

[00:10:14] presidente.

[00:10:15] Que as classes dominantes tremam a ideia de uma revolução comunista.

[00:10:19] Nela, os proletários nada têm a perder a não ser seus grilhões.

[00:10:23] Tem um mundo a ganhar.

[00:10:25] Proletários de todos os países, univos.

[00:10:45] O episódio de hoje foi produzido por Márcio Moraes e vamos falar sobre os 100 anos da

[00:10:50] revolução russa.

[00:11:15] No final do século XIX, a divisão do mundo entre potências imperialistas estava finalizada.

[00:11:22] Com a colonização da África, o capitalismo abriu todo o planeta ao comércio e à produção

[00:11:27] e se constituiu completamente um mercado mundial.

[00:11:30] Daí por diante, qualquer potência que avantasse abrir novos mercados deveriam tomá-los a

[00:11:36] força de outra potência.

[00:11:38] O mundo caminhava para uma guerra imperialista, cujo centro era o enfrentamento entre o imperialismo

[00:11:43] inglês, alemão e francês.

[00:11:45] Todas as potências se armaram até os dentes.

[00:11:48] Os diversos governos estimulavam ódios nacionais que eram continuamente alimentados.

[00:11:54] A revolucionária alemã Rosa Luxemburgo afirmava que a humanidade encontrava-se diante das

[00:11:59] seguintes alternativas, socialismo ou barbárie.

[00:12:13] Então, estou aqui com o professor João Victor de Paula, que é professor da Faculdade

[00:12:27] de Ciências Econômicas da FMG.

[00:12:29] Professor, desde já obrigado por conceder essa entrevista para a gente.

[00:12:32] Bom, professor, é comum dizer que a Rússia, que é a Rússia lá no começo do século

[00:12:36] XX, que é quando acontece os eventos da Revolução Russa, é comum dizer que era um país atrasado,

[00:12:41] um país feudal comparado à Europa.

[00:12:43] Essa caracterização, eu acho, está correta.

[00:12:45] Não há um certo eurocentrismo nessa afirmação, devido a uma tendência da Europa ocidental

[00:12:52] ver a Rússia como um país asiático demais?

[00:12:55] Em parte, você tem razão.

[00:12:57] De fato, a Rússia tem características.

[00:13:00] Eu tinha, naquela época, no início do século XX, aspectos que vão na direção de uma certa

[00:13:08] apropriação, uma certa modernidade em vários aspectos econômicos.

[00:13:15] Por exemplo, a Rússia, no final do século XIX, experimentou uma aceleração muito forte

[00:13:21] na sua industrialização.

[00:13:23] Pouca gente se lembra ou sabe que a Rússia tinha, durante os primeiros anos do século,

[00:13:30] a maior empresa industrial do mundo.

[00:13:34] Uma empresa chamada Usina Putlov, tinha milhares de empregados.

[00:13:39] Era a maior empresa, maior que a Forte, a General Mortos.

[00:13:43] Você tinha um país enorme, uma população muito grande, com, de fato, um grande contingente,

[00:13:50] a maioria da população, no campo.

[00:13:52] Mas tinha aspectos muito contraditoriamente avançados.

[00:13:58] Se você pensar a ciência russa, no século XIX, como um exemplo de modernidade, a Rússia

[00:14:06] produziu, por exemplo, ou teve, entre os seus cientistas, gente como o Mendeleev,

[00:14:13] que é um cara que vai criar a tabela periódica dos elementos, que é um avanço fundamental

[00:14:19] da química.

[00:14:20] No caso da matemática, o Lobachevsk, que é um dos pioneiros das geometrias nanofibianas,

[00:14:28] na literatura, nem se fala, a literatura russa do século XIX, é uma coisa extraordinária.

[00:14:34] Uma quantidade de grandes escritores, escritores entre os na hora e os escritores do tempo,

[00:14:41] e ainda hoje, grandes escritores, o Top Toys, o Forrest, o Bouguignard, mais na frente o

[00:14:47] tcheco, o Corki.

[00:14:51] Então, é verdade que a Rússia é um país atrasado, mas é preciso não exagerar esse

[00:14:57] atraso e reconhecer, na verdade, um país meio que misto, como certos aspectos muito

[00:15:04] atrasados e outros aspectos nem tantos.

[00:15:11] Na Revolução de 1905, quando se viu a primeira grande fissura do regime kizarista, o que

[00:15:31] é que aquele evento que acabou não tendo sucesso, com o deviso de um novo regime, contribuiu

[00:15:37] para a maturidade política da sociedade civil russa que vai desaguar aí nos eventos

[00:15:42] de 17?

[00:15:43] É discutível que a Revolução de 1905 tenha fracassado, os seus intentos de mudar a sociedade

[00:15:53] russa, de fato, não se verificaram.

[00:15:55] A repressão foi derrotada e reprimida e o peso dessa derrota durou muito tempo para

[00:16:02] ser superado.

[00:16:03] Mas a Revolução de 1905 criou pelo menos uma questão, uma instituição fundamental

[00:16:11] que foi o sovieto, a ideia do sovieto como um instrumento da auto-organização de trabalhadores,

[00:16:20] de marinheiros, de soldados, de camponeses, como uma forma de governo democrático, radicalmente

[00:16:27] democrático, é uma das criações, das invenções da Revolução de 1905.

[00:16:33] Leon Trotsky sobre a função dos sovietes.

[00:16:37] O soviet organizou as massas, dirigiu greves políticas, liderou greves políticas, procurou

[00:16:43] armar os operários.

[00:16:45] A substância do soviet consistiu no esforço de se tornar um órgão de autoridade pública.

[00:16:50] O proletariado, por um lado, e a imprensa reacionária, de outro, definiram o soviet

[00:16:54] como um governo dos trabalhadores.

[00:16:57] Isso não é senão o reflexo do fato de que o soviet era, na realidade, um embrião do governo revolucionário.

[00:17:03] Na medida em que o soviet dispunha de um poder objetivo, não o usava, mas quando esse poder

[00:17:08] estava nas mãos da monarquia e burocracia, o soviet lutava para obtê-lo.

[00:17:13] Antes do soviet, existiram organizações revolucionárias entre os operários.

[00:17:17] Elas se endiam mais para o modelo socialdemocrata, tratando-se, porém, de organização do proletariado.

[00:17:22] Seu objetivo imediato era influenciar as massas.

[00:17:25] O soviet é uma organização do proletariado.

[00:17:27] Sua meta final era lutar pelo poder revolucionário.

[00:17:30] Que, por sua vez, retomou algumas das lições da comunidade de Paris.

[00:17:35] Então, a revolução do 1905 deve ser vista desse modo.

[00:17:38] Está bom, uma revolução derrotada, mas ela deixa sementes, ela deixa exemplos.

[00:17:43] Por isso que muita gente, quando fala da revolução do 1905, fala do ensaio geral.

[00:17:48] Como se ela preparasse uma série de situações históricas que, mais tarde,

[00:17:54] vão se dobrar na revolução do 17 de outubro.

[00:17:58] Então, se aproximando um pouco mais das revoluções de 1917,

[00:18:02] a gente tem esse evento definidor para a história mundial, que foi a Primeira Guerra Mundial.

[00:18:07] E que a Rússia entra de cabeça e que tem um efeito devastador para a população russa como um todo.

[00:18:14] E que então essa devastação contribuiu para a desembocar nas revoluções de 1917.

[00:18:19] Acho que tem um fenômeno na geral que a gente poderia dizer que uma revolução não ocorre

[00:18:24] sem que haja como precondição para a revolução o que o Trot chamava de incapacidade de governar.

[00:18:33] Um regime, um regime social não cai, não entra em crise, em colapso.

[00:18:42] Se ele mantiver algum tipo de controle, porque, ao final, tem o Estado, tem o Exército, tem a polícia,

[00:18:48] tem os tribunais, tem todo um aparato à sua mão para mobilizar, para se manter.

[00:18:54] Quando ele perde isso, quando esse regime cai, é porque, na verdade, ele perdeu a capacidade de mobilizar tudo isso.

[00:19:02] No caso, se nós tomámos todas as revoluções, a revolução francesa, por exemplo, é a mesma coisa.

[00:19:07] Você tinha um regime absolutista consolidado.

[00:19:12] A história da França se confunde com a própria afirmação do absolutismo.

[00:19:18] E, de repente, é uma força de expressão.

[00:19:22] E durante um certo tempo, num certo período histórico, que é a segunda metade do século XVIII,

[00:19:30] essas instituições que davam solidez, que davam consistência, que permitiam o domínio daquele quadro social,

[00:19:38] o domínio das classes proprietárias, da nobreza, do alto clero,

[00:19:42] essas condições de sustentabilidade começam a se operar por várias razões,

[00:19:48] por uma crise econômica, por uma crise financeira, por uma crise moral,

[00:19:52] por um desgaste da ditocracia russa, desde a época de Luís XV,

[00:19:57] uma denúncia frequente da corrupção, da venenidade,

[00:20:02] agravada por uma crise fiscal.

[00:20:05] Então, você tinha na França, naquele momento, uma questão.

[00:20:08] O Estado não conseguia pagar as suas despesas.

[00:20:14] Recorreu sistematicamente ao endividamento.

[00:20:18] Mas isso não foi suficiente.

[00:20:20] Vai ter um agravamento das condições de manutenção mesmo econômica dessa elite parasitária.

[00:20:29] E o recurso que sempre se usava é lançar mão do aumento de impostos.

[00:20:35] E no contexto dessa questão, vou aumentar os impostos,

[00:20:39] que o governo resolve fazer uma coisa temerária, que é convocar os Estados gerais.

[00:20:44] Os Estados gerais era a Assembleia, por assim dizer,

[00:20:49] onde as cartas estavam marcadas desde o início,

[00:20:52] porque a Assembleia, os votos eram contados por ordem, como eram três ordens,

[00:20:57] o clero, alto clero, a nobreza, os pares, e o terceiro Estado.

[00:21:03] E como você estava em contato por ordem, ia dar dois a um,

[00:21:06] independente da posição do terceiro Estado, que corresponde à Valdesia e os outros setores,

[00:21:12] setores que não clero e nobreza, ganhariam necessariamente.

[00:21:17] Só que no meio desse processo houve uma insubordinação do terceiro Estado, etc.

[00:21:23] E o terceiro Estado exige que a votação seja por cabeça e não por ordem.

[00:21:28] Isso gera uma crise. O Estado, o governo, na verdade, no 2016,

[00:21:32] tenta sufocar isso, tenta suprimir as reuniões do terceiro Estado,

[00:21:39] prendendo seus deputados, e nesse momento a população de Paris se subleva,

[00:21:45] pega em armas e tem o episódio da Quero da Bastilha.

[00:21:53] A Quero da Bastilha, 14 de julho, é o primeiro de uma série de eventos

[00:21:59] que simboliza o fim da capacidade de governar daquele reino, daquele reinado,

[00:22:08] daquela dinastia, etc., que vai levar a uma crise profunda até que em 1792

[00:22:15] o rei vai ser decapitado, e ter início um período republicano da Revolução Francesa,

[00:22:21] que é muito complexo, não dá para entrar em detalhes aqui.

[00:22:25] O fato é que a Revolução Francesa, nesse sentido, é um exemplo de um quadro revolucionário

[00:22:31] onde você tem isso, quer dizer, uma determinada situação histórica,

[00:22:35] um determinado grupo no poder perto da capacidade de governar,

[00:22:39] e aí abre caminho para a insurreição, para uma revolução social.

[00:22:44] A Revolução Russo é a mesma coisa, o pisarismo, a casa reinante na Rússia há séculos,

[00:22:53] armada de todo um aparato que era não só o exército, mas também a igreja autotóxica,

[00:23:01] que era fazer a parte da máquina estatal, todo esse aparato burocrático,

[00:23:06] entra numa situação de colapso com a derrota da guerra,

[00:23:12] destruição de milhares de vidas durante a guerra, com a fome, com o desabastecimento,

[00:23:19] com a crise no sistema de transporte.

[00:23:22] O país, em função da guerra, entra numa crise terminal.

[00:23:28] É nesse momento que o governo do pisar, o Nicolau II,

[00:23:35] por uma série de circunstâncias específicas da situação,

[00:23:38] a Rússia acaba assumindo de forma inepita a responsabilidade direta pela condução da guerra,

[00:23:46] que era um fracasso completo, agravado também com o fenômeno da corrupção, com o Rasputin e tudo isso.

[00:23:53] E em fevereiro de 1917, eu preciso dizer que o fevereiro, como depois do outubro,

[00:23:59] tem que sempre fazer o desconto porque tem uma defasagem dos calendários,

[00:24:03] de 12 dias para menos do calendário juliano, que é o calendário dele,

[00:24:10] em relação ao norte, que é o calendário heboriano.

[00:24:13] Acontece então uma revolução em fevereiro de 1917, onde o governo cai,

[00:24:18] e obrigada de ficar.

[00:24:49] Não. Não erramos de revolução.

[00:24:52] Essa é uma versão modificada da marcelese original.

[00:24:55] Ficou conhecida como marcelese operária e foi o primeiro hino da Rússia Republicana

[00:25:00] entre março de 1917 e janeiro de 1918, quando foi substituída como hino oficial pela Internacional.

[00:25:09] A letra é de Pyotr Lavrov e a adaptação da melodia foi feita por Alexander Glasnov.

[00:25:18] E a letra é de Eduardo Mancuso, historiador e autor do livro

[00:25:44] Internacionais Socialistas e Socialismo no século XXI.

[00:25:48] Na revolução de fevereiro, quando a queda do bizarreismo e as massas abrem o processo de crise revolucionária,

[00:25:56] resgatam os conselhos operários que haviam surgido 12 anos antes, em 1905,

[00:26:06] na revolução derrotada de 1905, da Rússia de outro grado,

[00:26:12] resgata a ideia dos conselhos na prática, derrubam o bizarreismo, colapsam o bizarreismo,

[00:26:19] entregam de certa forma o poder de Estado a setores liberais,

[00:26:27] a partidos que ocupavam uma posição meramente formal,

[00:26:32] no parlamento absolutamente formal, que o bizarreismo concedia aos partidos liberais,

[00:26:39] ou aos partidos populares camponeses, a turma,

[00:26:46] esse governo provisório assume, mas assume graças ao apoio popular,

[00:26:54] graças ao movimento de massas e graças à licença política dos conselhos, dos soviets,

[00:27:02] e naquele momento os soviets, ao longo dos meses, depois de fevereiro,

[00:27:08] os soviets tem uma hegemonia, uma maioria reformista, basicamente o Partido Socialista Revolucionário,

[00:27:16] o Partido que tinha uma base no campesinato muito forte, a origem do populismo russo.

[00:27:23] Os Socialistas Revolucionários era um partido político-agrário que reunia facções populistas.

[00:27:30] Em linha geral, defendia em seu programa derrubada da autocracia, estabelecimento de uma sociedade sem classes,

[00:27:38] a autodeterminação das minorias do império e, sobretudo, a coletivização da terra,

[00:27:45] que deveria ser distribuída aos camponeses.

[00:27:49] E o Partido Menchevique, ou seja, a ala direita da socialdemocracia russa.

[00:27:57] O Partido Bolchevique tinha cerca de 10%.

[00:28:03] Por exemplo, no primeiro Congresso Nacional de toda a Rússia, em junho de 1917,

[00:28:12] ou seja, meses depois da Revolução de Fevereiro, do início do processo revolucionário, da crise revolucionária,

[00:28:18] como eu digo, culmina em outubro de 1917, o Partido Bolchevique tinha 10% dos alegados e os soviets.

[00:28:25] E no segundo Congresso, setembro, outubro, as portas da tomada do poder, o Partido Bolchevique tem 60%.

[00:28:36] E os seus aliados têm mais 10%, 15%.

[00:28:40] Então, é um processo fantasticamente acelerado, que tem um impacto enorme do ponto de vista internacional

[00:28:52] e que tem um respaldo de massas popular gigantesco.

[00:28:57] A Rússia camponesa, a Rússia que se desfazia com a guerra,

[00:29:05] em que, de certa maneira, é a base da revolução e da tomada do poder pelos bolcheviques e pelos soviets,

[00:29:15] é exatamente o colapso do Estado czarista em fevereiro e depois a permanência na guerra imperialista,

[00:29:23] ou seja, os liberais e, logo em seguida, os setores reformistas do povo e da social-democracia,

[00:29:32] os socialistas do revolucionário, dão aval e mantêm os compromissos com o imperialismo britânico e francês

[00:29:41] e mantêm a Rússia na guerra.

[00:29:45] Uma carnificina de milhões e milhões, onde um exército basicamente composto por camponeses,

[00:29:52] não tinha nem fuzis suficientes para o conjunto dos soldados,

[00:29:57] e enfrentava uma máquina de guerra do Império Austro-Húngaro e do Império Alemão.

[00:30:04] E é verdade que lutava em duas frentes. Primeiro na frente, o ocidental enfrentava a França e a Inglaterra, fundamentalmente,

[00:30:11] e já naquele momento os Estados Unidos.

[00:30:14] Então, os próprios mencheviques depois da tomada do poder pelos soviets e pela direção com o chevique,

[00:30:23] reconhecem que a manutenção por parte do governo provisório da Rússia na guerra realmente, de certa maneira, entregou o poder,

[00:30:34] levou ao colapso do último governo provisório de Kerensky.

[00:30:40] Marcos Yanoni, cientista político, professor da Universidade Federal Fluminense,

[00:30:47] fala sobre a organização do Partido Operário Social-Democrata Russo.

[00:30:52] O Partido Bolchevique, que era uma sessão russa da Internacional Socialista,

[00:31:02] um partido social-democrata, marxista, revolucionário dos trabalhadores,

[00:31:07] ele era um partido altamente organizado, disciplinado, um partido auto-sustentado,

[00:31:14] formado por quadros de alto nível intelectual, e a maioria desses quadros eram profissionalizados,

[00:31:23] ou seja, eram revolucionários pagos pelo partido,

[00:31:29] e as finanças do partido eram resultado das contribuições dos seus próprios militantes,

[00:31:36] eventualmente da promoção de alguma atividade como venda de jornal, algum evento festivo com contribuições das pessoas que participavam.

[00:31:49] Então era um partido pequeno, um partido de quadros que tinha como programa

[00:31:58] as principais teses do marxismo aplicadas à realidade soviética.

[00:32:06] O termo bolchevique veio de um congresso do partido no início do século 20, em 1905,

[00:32:16] em que a ala majoritária venceu, e a ala majoritária ficou conhecida como os bolcheviques e a ala minoritária os mencheviques.

[00:32:29] Os bolcheviques eram liderados por Lenin.

[00:32:33] O partido se baseava numa tese de funcionamento organizativo chamada centralismo democrático,

[00:32:41] que significa mais ou menos o seguinte, liberdade de discussão, mas uma vez votada a matéria divergente, unidade na ação.

[00:32:51] Então é o centralismo democrático, a decisão da maioria passava a ser a decisão do partido.

[00:32:58] Era um partido que previa os debates internos, previa a democracia interna,

[00:33:06] mas ao mesmo tempo, uma vez decidido uma questão, uma vez que se tratava de um partido revolucionário,

[00:33:12] a divergência era solucionada pelo respeito à decisão da maioria.

[00:33:18] Esse partido lutou contra a autocracia russa, o regime tsarista, e finalmente, em contexto de Primeira Guerra Mundial,

[00:33:30] em 1917, em outubro de 1917, esse partido conseguiu estabelecer laços com os trabalhadores das principais cidades da Rússia,

[00:33:44] que era um país semi feudal e semi capitalista, e também com os camponeses, e realizar a revolução russa,

[00:33:53] que foi o resultado da influência do partido sobre os conselhos que foram formados pelos camponeses e operários

[00:34:03] na luta contra o tsarismo em contexto de Primeira Guerra Mundial.

[00:34:07] Esses conselhos eram os Soviets, e a palavra de ordem que orientou a ação dos Bolsheviks para a chegada deles ao poder em outubro de 1917

[00:34:16] foi todo o poder aos Soviets, então um modelo de partido altamente disciplinado, organizado, autofinanciado, independente,

[00:34:25] marxista, revolucionário, um partido de quadros de alto nível, liderado por Lenin, até que Lenin faleceu,

[00:34:33] e a história do partido é um outro capítulo que a gente fala um outro dia.

[00:34:37] A ideia de um partido que absolutamente não era uma seita, o mito de um partido seito, do partido bolchevique,

[00:34:44] como um partido sectário, monolítico, absolutamente não se sustenta nos fatos e na prática completa do partido bolchevique,

[00:34:53] desde os seus tempos de fração, desde até 2012, quando era uma fração da esquerda marxista no interior do Partido Operário Social Democrata Russo,

[00:35:08] e depois quando se torna o Partido Social Democrata Russo, bolchevique, os mencheviques mantêm obviamente também a sua organização,

[00:35:17] então é um partido que sempre teve uma vida interna, uma democracia interna muito, muito, muito forte, com prensa,

[00:35:27] com debates de correntes, de tendências, com congressos e conferências muito frequentes, portanto nada a ver com uma ideia de um partido monolítico,

[00:35:41] enfim, absolutamente controlado pela sua direção, uma direção que em muitos momentos estava fragmentada em várias partes do exílio,

[00:35:51] na Europa ou presa na Rússia, para vocês terem uma ideia, depois da revolução de fevereiro, do colapso do pisarismo em fevereiro,

[00:36:01] em março, quando os súbitos já existem, já estão organizados pelas massas, com a direção no exílio, na Sibéria, o Stalin, por exemplo,

[00:36:13] sim, o Stalin, o Kamenev, por exemplo, vem do exílio na Sibéria e assume a direção do partido na cidade de Petrogrado, na capital,

[00:36:24] porque até então era o comitê de Petrogrado que tocava, era, enfim, então o Lenin estava indo na Suíça.

[00:36:31] Lenin o perseguiu, mas como era exilado, foi obrigado a se estabelecer na Cracória, na Polônia Austríaca, perto da fronteira rússia.

[00:36:41] Que os Bolcheviques, assim como Rosa Luxemburgo na Alemanha e outros setores minoritários que não se vergaram,

[00:36:51] não se renderam àquela capturação da socialdemocracia na guerra, na 1ª Guerra Mundial,

[00:36:56] essa corrente socialista, internacionalista, ela de certa maneira, ela praticou,

[00:37:07] ela deu consequência às resoluções da Segunda Internacional sobre a questão da guerra,

[00:37:13] não apenas no sentido de condenar a guerra que se desenhava, que era previsível anos antes,

[00:37:21] mas transformar a crise que essa guerra inesitável imperialista, quando ocorresse,

[00:37:28] utilizar no sentido da transformação política e social no sentido da revolução,

[00:37:35] e os Bolcheviques fizeram isso. Naquele momento, da 1ª Guerra Mundial,

[00:37:42] uma carnificina que matou seguramente mais de 15 milhões de pessoas basicamente na Europa,

[00:37:50] Rosa Luxemburgo, os Bolcheviques, os italianos como Gramsci, enfim,

[00:37:59] poucos setores minoritários do socialismo mundial, foi a única corrente que defendeu

[00:38:09] de forma consequente, não apenas a paz contra a guerra, mas a tentativa de transformar aquele momento

[00:38:18] de crise, de barbárie, de carnificina, numa transformação social, uma mudança em proveito das massas.

[00:38:27] Não havia nenhuma outra corrente, havia correntes pacifistas, nenhuma outra corrente política

[00:38:34] que defendeu contra a barbárie imperialista, contra aquela carnificina que tinha uma visão não apenas

[00:38:41] de parar a guerra, mas de dar uma consequência humanista, democrática e popular para ela.

[00:38:49] Então isso é muito importante.

[00:38:57] É o momento da revolução russa.

[00:39:02] Inicia-se um governo chamado governo provisório, com uma composição que é o Príncipe Livov,

[00:39:08] que é o regente, e depois o Kerensky, que era o ministro, um dos ministros da justiça,

[00:39:17] depois esse Príncipe Livov cai e fica o Kerensky como presidente desse governo provisório.

[00:39:24] Esse governo provisório não consegue atender as demandas que estão absolutamente postas,

[00:39:31] não só pelos trabalhadores do campo, da cidade, dos soldados, pelo quadro de crise profundo,

[00:39:37] e nesse meio tempo acontece um fenômeno politicamente fundamental, que é a volta de Lenin para a Rússia.

[00:39:44] Lenin estava exilado, estava na Suíça, e exatamente em abril de 1917, ele consegue chegar à Rússia,

[00:39:53] vindo da Suíça, por uma permissão especial da Alemanha, que estava em guerra com a Rússia.

[00:39:59] Os alemães permitem que o Lenin venha em um trem lacrado até Pertesburgo, e quando ele chega à Rússia,

[00:40:10] nesse quadro, em abril de 1917, ele defende uma palavra de ordem, está num texto clássico da série de abril.

[00:40:18] Na nossa atitude perante a guerra, que por parte da Rússia continua a ser indiscutivelmente uma guerra imperialista,

[00:40:25] de rapina, também sob o novo governo de Lvov, em virtude do caráter capitalista desse governo,

[00:40:31] é intolerável a menor concessão ao defensismo revolucionário.

[00:40:35] O proletariado consciente só pode dar seu assentimento a uma guerra revolucionária,

[00:40:40] que justifique verdadeiramente o defensismo revolucionário nas seguintes condições.

[00:40:45] A passagem do poder para as mãos do proletariado e dos setores pobres do campesinato que a ele aderem,

[00:40:50] renuncia de fato, e não em palavras, a todas as anexações e ruptura completa, de fato, com todos os interesses do capital.

[00:40:59] No seu jornal, o senhor Plekhanov qualificou o meu discurso como delirante.

[00:41:03] Muito bem, senhor Plekhanov, mas veja quão desajeitado, inábil e pouco perspicaz é você na sua polêmica.

[00:41:10] Se durante duas horas pronunciei um discurso delirante, como é que centenas de ouvintes aguentam esse delírio?

[00:41:16] Mas ainda, para que dedicar o seu jornal toda uma coluna a um delírio? Isso não pega, não pega mesmo em nada.

[00:41:23] É muito mais fácil, naturalmente, gritar, insultar e vociferar que tentar expor, explicar e recordar

[00:41:30] como raciocinaram Marx e Engels, em 1871, 1872 e 1875,

[00:41:37] sobre a experiência da comuna de Paris e sobre qual o estado de que o proletariado necessita.

[00:41:43] Provavelmente, o ex-marxista, senhor Plekhanov, não deseja recordar o marxismo.

[00:41:48] Dada a indubitável boa-fé de grandes setores de representantes de massas do defensismo revolucionário

[00:41:54] que admitem a guerra só como uma necessidade e não para fins de conquista,

[00:41:58] e dado seu engano pela burguesia, é preciso esclarecê-los sobre seu erro de modo particularmente minuncioso,

[00:42:05] perseverante, paciente, explicar-lhes a ligação indissolúvel do capital com a guerra imperialista

[00:42:11] e demonstrar-lhes que, sem derrubar o capital, é impossível por fim a guerra com uma paz verdadeiramente democrática

[00:42:18] e não imposta pela violência.

[00:42:20] Onde ele vai defender a posição de que a revolução deveria ser socialista,

[00:42:26] rompendo o quadro de uma certa indecisão se a revolução é democrática e burguesa, socialista e tal.

[00:42:34] Que dominava na época.

[00:42:36] Quando ele defende essa posição, a revolução defende o Partido Bolchevich,

[00:42:41] o partido em qual ele era o principal dirigente.

[00:42:44] Ele deveria adotar a posição de revolução socialista.

[00:42:47] Os companheiros de partido dele estão num certo susto, que estão meio S.O.V. e o Lênio é obrigado a fazer um esforço muito grande de convencimento

[00:42:56] para atrair o partido para essa posição que acaba se prevalecendo.

[00:43:01] E aí nós temos um período que vai de abril até outubro, em que o Lênio defende a pese de que a duplicidade de poderes,

[00:43:11] que era a situação que se devia, o que é a duplicidade de poderes?

[00:43:15] Havia o governo provisório de um lado, liberado pelo Kerensky, e os S.O.V.E.s, de outro lado,

[00:43:21] que era a auto-organização dos trabalhadores, que eu vou dizer,

[00:43:27] hoje os Bolchevichs passavam a ter cada vez mais força e que existia um poder de fato,

[00:43:32] é, a duplicidade de poderes, um poder oficial e um contra-poder, que era o poder das bases.

[00:43:40] Esses dois poderes disputavam a efetiva condução do país,

[00:43:46] e o Lênio passa a defender a partir de abril todo o poder aos S.O.V.E.s.

[00:43:50] Em vez de ficar respeitando o governo provisório, vamos reforçar o poder dos S.O.V.E.s.

[00:43:56] Quando essa coisa começa a ganhar mais corpo e galvanizar a sociedade russa,

[00:44:04] que estava, de certa maneira, mobilizada em torno do projeto da Revolução,

[00:44:10] em setembro de 1917, o general ligado ao governo, chamado General Kornilov, resolve dar um golpe

[00:44:20] e prender os S.O.V.E.s, fechar os S.O.V.E.s, interditar o funcionamento dos S.O.V.E.s.

[00:44:27] Em certa forma, um golpe reacionário.

[00:44:29] A direita está à direita, um golpe comandado por um general ultra-reacionário,

[00:44:35] que queria, na verdade, uma ditadura militar, para colocar fim à revolução que estava em curto.

[00:44:44] Nesse momento, a população de Petesburgo, depois de Moscou, etc. se insurre.

[00:44:49] Esse general é derrotado.

[00:44:51] Isso é exatamente o dia 25 de novembro de 1917.

[00:44:55] O 5 de outubro de 1917, que corresponde no nosso calendário, o dia 7 de novembro.

[00:45:01] Então, a data da Revolução russa é esse momento em que o general Kornilov é derrotado

[00:45:07] e que existe a salva da tomada do Palácio de Inverno, que é a população,

[00:45:12] invadindo o Palácio de Governo em São Petesburgo,

[00:45:15] instaurando uma república soviética ao corte do dia 7 de novembro.

[00:45:25] O primeiro período da Revolução russa, desde a sua explosão em março até a Revolução de outubro,

[00:45:29] corresponde exatamente, em seu curso geral, ao esquema evolutivo das grandes revoluções em inglês e francês.

[00:45:35] É o desenvolvimento típico de todo o primeiro grande conflito generalizado das forças revolucionárias,

[00:45:40] engendradas no seio da sociedade burguesa contra as amarras da velha sociedade.

[00:45:45] Ele progride naturalmente em linha ascendente, moderados no início,

[00:45:50] os objetivos radicalizam cada vez mais e, paralelamente,

[00:45:54] passa-se da coalizão de classes e partidos à dominação exclusiva do Partido Mais Radical.

[00:45:59] Neste momento, em março de 1917, os cadetes, isso é, a burguesia liberal, estavam à cabeça da Revolução.

[00:46:07] A primeira vaga global da maré revolucionária arrastou tudo e todos.

[00:46:11] A Quarta Duma, o mais reacionário produto do reacionaríssimo sufragio sensitário das quatro classes,

[00:46:17] proeminente do golpe de Estado,

[00:46:19] transformou-se subitamente num órgão da Revolução.

[00:46:22] Todos os partidos burgueses, inclusive a direita nacionalista,

[00:46:26] formaram, de repente, uma falange contra o absolutismo.

[00:46:29] Este caiu ao primeiro assalto, quase sem luta,

[00:46:32] como órgão carcomido em que bastava tocar para que desmoronasse.

[00:46:36] Do mesmo modo, a breve tentativa da burguesia liberal de salvar, pelo menos a dinastia e o trono,

[00:46:42] espatifou-se em poucas horas.

[00:46:44] Nesta situação, coube a tendência bolchevique,

[00:46:48] um mérito histórico de ter proclamado e seguido, desde o início, com sua coerência férrea,

[00:46:54] a única tática que podia salvar a democracia e fazer avançar a Revolução.

[00:46:59] Todo o poder exclusivamente na mão das massas trabalhadoras e camponesas, nas mãos dos sovietes.

[00:47:06] Essa era, de fato, a única saída para as dificuldades em que a Revolução havia caído.

[00:47:11] O golpe de espada, que cortava o nono górdio,

[00:47:14] tirava a Revolução do impasse e deixava o campo livre para que ela continuasse a se desenvolver sem traves.

[00:47:20] O partido de Lenin foi, assim, o único na Rússia que compreendeu, nesse primeiro período,

[00:47:25] os verdadeiros interesses da Revolução.

[00:47:28] Foi o elemento que a fez avançar e, nesse sentido, foi o único partido que praticou uma política realmente socialista.

[00:47:35] Isso explica também que os bolcheviques, minoria proscrita, caloniada e aquada por todos os lados no início da Revolução,

[00:47:42] tenham, num tempo muito curto, se tornado seus dirigentes e podido reunir, sob a sua bandeira, todas as massas realmente populares.

[00:47:50] O proletariado urbano, o exército, os camponeses, assim como os elementos revolucionários da democracia,

[00:47:56] a ala esquerda dos socialistas revolucionários.

[00:47:59] Nostou o tempo da Revolução da Rússia!

[00:48:08] John Reed descreve aqueles dias.

[00:48:12] Petrogrado apresentava então um curioso espetáculo.

[00:48:17] Nas fábricas, as salas de comitês estavam repletas de fuzis.

[00:48:22] Mensageiros iam e vinham.

[00:48:26] A guarda vermelha era instruída.

[00:48:29] Todas as noites, em todos os quartéis, eram realizadas reuniões.

[00:48:35] E os dias passavam em meio a apaixonadas discussões.

[00:48:56] John Reed foi fundador do Partido Comunista dos Trabalhadores dos Estados Unidos da América.

[00:49:14] Jornalista, foi autor do célebre livro Dez Dias Que Abalaram o Mundo.

[00:49:19] Jimmy Reds, estrelado por Warren Beatty, foi baseado na sua vida e ganhou vários prêmios do Oscar.

[00:49:27] Camarada Presidente, proponho nossa imediata constituição como genuína do Partido Comunista.

[00:49:32] E que sejamos chamados do Partido Comunista Operário da América.

[00:49:35] Se vamos ser realmente um partido revolucionário, eu acho que o que temos que fazer é descobrir o que o proletário americano mais deseja.

[00:49:41] Então temos que traduzir isso de volta pra ele em termos do movimento operário como um todo.

[00:49:45] O que temos que fazer é levá-los a querer mais. Nós temos que levá-los a querer a revolução inteira.

[00:49:49] Essas pessoas aí em cima acham que Karl Marx foi alguém que escreveu uma boa lei antitruste.

[00:49:53] Camarada Presidente, eu quero retomar onde paramos.

[00:49:56] Foi proposta uma moção para nossa imediata constituição como genuína do Partido Comunista.

[00:50:01] E que nos intitulemos de Partido Comunista Operário da América.

[00:50:04] Os que forem a favor, queram se manifestar.

[00:50:08] Contra aprovada.

[00:50:11] Camaradas! Camaradas!

[00:50:13] Camaradas, esse não é o momento de brigarmos uns com os outros.

[00:50:17] Nós precisamos nos unir em nossa luta contra os capitalistas.

[00:50:20] Eu devia ter pensado nisso há um mês e meio.

[00:50:22] Se os seus seguidores tivessem ficado conosco, estaríamos na maioria e teríamos o controle daquela convenção.

[00:50:26] Temos mais membros que vocês.

[00:50:28] Sua aritmética parecida com suas convicções, camarada Presidente.

[00:50:31] Nós estaremos na Federação Russa da Avenida Blue Island. Esperamos ver alguns de vocês.

[00:50:37] Camarada Presidente, proponho que mandemos um delegado a Moscou imediatamente

[00:50:40] para conseguir o reconhecimento do Comiterno para o Partido Comunista Operário da América

[00:50:44] e que esse delegado seja Jack Reed.

[00:50:46] Nós estamos propondo enviar Jack Reed a Moscou como delegado internacional

[00:50:50] para obter reconhecimento do Comiterno para o Partido Comunista Operário da América.

[00:50:54] Os que forem a favor, se manifestem.

[00:50:57] Contra aprovada.

[00:51:02] Uma história de grande ousadia.

[00:51:04] Por exemplo, John Reed aceitou ser conso da República Soviética em Nova Iorque.

[00:51:13] Só que os Estados Unidos não reconheciam a República Soviética.

[00:51:17] Portanto, ele era representante de um poder contra o qual os Estados Unidos estavam a organizar uma intervenção militar.

[00:51:23] O que quer dizer, portanto, que ele foi preso por isso.

[00:51:26] Foi preso, aliás, por muitas outras razões ao longo do tempo.

[00:51:28] Ele teve sucessivos episódios de prisão.

[00:51:32] É, no entanto, ao regressar à Rússia, que ele vive o seu último período.

[00:51:38] Um período conturbado.

[00:51:40] Ele participa, como vos disse, do Congresso Internacional Comunista,

[00:51:43] participa no Congresso dos Povos do Oriente, que é organizado em Baku, em 1920,

[00:51:47] em que entra em choque com a direção da Internacional Comunista, na altura dirigida por Zinoviev,

[00:51:53] porque não concordou com a política de aproximação que o poder soviético

[00:51:59] teve em relação a várias comunidades e nacionalidades na parte asiática da Rússia

[00:52:09] e entrou em conflito com eles.

[00:52:12] Mor depois de doença, em 1920, e foi o primeiro cidadão estrangeiro a ser sepultado no creme.

[00:52:22] O Lenin, que era vivo nessa altura, morreu quatro anos depois, em 1924,

[00:52:30] escreve uma nota introdutória altamente elogiosa que tem um aspecto curioso.

[00:52:35] Não é só uma recomendação de leitura do livro.

[00:52:38] É dizer, o livro é importante porque nos fala de uma revolução.

[00:52:44] Do momento da revolução.

[00:52:46] Isso é o problema fundamental para os partidos operários no mundo de hoje.

[00:52:52] Esta é a nota do Lenin, são poucas linhas e é isto que ele diz.

[00:52:56] Francisco Louça, economista e dirigente do Bloco de Esquerda de Portugal.

[00:53:18] Na verdade, a tomada do palácio e, portanto, o derrubo do governo do Kerensky

[00:53:24] e a formação, em consequência, do novo governo, coisa que não foi fácil,

[00:53:28] é quase o princípio da história.

[00:53:31] 18 ou 20 de novembro, num congresso de camponeses, que é uma escolha extraordinária.

[00:53:37] Porque não é o congresso soviético que dá o poder ao novo governo,

[00:53:41] que na verdade confirma o poder do novo governo.

[00:53:44] É um congresso que representava socialmente a grande maioria da população da Rússia.

[00:53:51] Mas não era o centro organizado do poder.

[00:53:54] Era decisivo. Era.

[00:53:56] Porque era a massa camponesa que era a base do exército e, portanto, a base da população,

[00:54:03] a base da produção na Rússia.

[00:54:05] E, portanto, acaba com a consagração de um acordo feito entre os bolcheviques

[00:54:12] que dirigiam o congresso soviético com um grupo político que funcionava como um partido

[00:54:19] que era um socialista revolucionário de esquerda, ou seja, uma parte do partido socialista revolucionário,

[00:54:25] um partido, digamos, que representava a maioria camponesa,

[00:54:29] de que uma parte à direita ficou em posições contra a revolução,

[00:54:34] e uma parte, o socialista revolucionário de esquerda não só se aproximou e negociou com os bolcheviques,

[00:54:40] como aceitou participar no primeiro governo neste período.

[00:54:44] E esse acordo e a negociação desse acordo para um governo de coligação,

[00:54:48] que garantiu que os bolcheviques passaram a ter influência sobre o congresso camponês,

[00:54:55] nesse congresso de camponeses, que era presidido pela líder do socialista revolucionário de esquerda,

[00:55:02] era o único partido dirigido por uma mulher, Maria Espírito da Nova,

[00:55:06] que era uma figura marcante deste período.

[00:55:10] Maria Espírito da Nova foi dirigente da ala esquerda dos socialistas revolucionários.

[00:55:16] Em 1906, assassinou o inspetor-geral de polícia, Lujanovinski,

[00:55:22] que havia ordenado a brutal repressão policial ao levante campesino durante a revolução russa de 1905,

[00:55:30] disparando uma bala de revólver contra o rosto do inspetor na estação ferroviária de Borizoglepsk.

[00:55:37] Por se opor ao tratado de Bretsilitovski, rompeu com os bolcheviques e tramou em 1918 uma insurreição contra eles,

[00:55:45] sendo presa logo em seguida pela tcheca, polícia política criada por Lenin, no final de 1917.

[00:55:52] Os operários da Rússia têm diante de si perspectivas históricas até agora desconhecidas.

[00:55:59] Todos os movimentos revolucionários do proletariado até o presente foram derrotados.

[00:56:06] O movimento atual é internacional. Eis porque é invencível.

[00:56:11] No mundo inteiro não há força capaz de extinguir este incêndio revolucionário.

[00:56:18] O velho mundo desmorona-se e um novo mundo nasce.

[00:56:22] Tatal Godinho é doutora em ciências sociais e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

[00:56:28] Fala sobre a participação das mulheres na revolução russa.

[00:56:31] Uma importante greve de mulheres trabalhadoras e as manifestações de rua do Dia Internacional das Mulheres

[00:56:37] foram estopim da revolução de fevereiro, que é a primeira fase da revolução russa.

[00:56:43] No dia 18 de fevereiro de 1917, os 30 mil operários da metalúrgica Putlov, situado em Petrogrado,

[00:56:51] saíram às ruas reivindicando aumento salarial e o fim das demissões.

[00:56:57] Ao mesmo tempo que nas ruas surgiam vários incidentes, as trabalhadoras tesis da cidade se declaravam em greve.

[00:57:04] Ao grito de queramos pão, arrastaram com elas os operários metalúrgicos.

[00:57:09] Com o passar dos dias, a reivindicação central mudou de caráter e os trabalhadores e trabalhadoras passaram a clamar

[00:57:16] abaixo à autocracia e abaixo à guerra.

[00:57:20] As mulheres foram ativas em todos os momentos da revolução.

[00:57:24] Marcaram e insistiram que a revolução precisa ser libertária.

[00:57:29] Romper com as amarras não apenas da economia capitalista, mas também criar novas relações sociais.

[00:57:36] Socializar o trabalho doméstico, superar os modelos de família tradicional, repensar as relações afetivas.

[00:57:43] Estas questões eram debates importantes entre os revolucionários russos.

[00:57:48] Alexandra Kolontay, dirigente que se dedicou de corpiar uma revolução e a organização das mulheres,

[00:57:54] comprava briga dentro do partido, defendendo que a organização das mulheres fortalecia a revolução.

[00:58:01] A presença das mulheres nas mobilizações populares e sua participação no processo revolucionário

[00:58:07] marcou a revolução russa e precisa ser lembrada como uma parte essencial dessa história.

[00:58:14] Alexandra Kolontay, que tata o cita, foi uma militante do Partido Operário Social Democrata Russo,

[00:58:20] foi a primeira mulher eleita para o sovieto em U.T. pretrogrado e também em nível pã russo.

[00:58:25] Após a revolução de outubro, foi designada comissária do povo para assuntos do bem-estar social,

[00:58:31] o que seria equivalente ao cargo de ministra.

[00:58:34] Camaradas trabalhadoras, por longos séculos a mulher não teve liberdade e direitos,

[00:58:40] pois era tratada como um mero apêndice, como sombra do homem.

[00:58:44] O marido sustentava a esposa e em troca ela se curvava a seu arbítrio,

[00:58:49] suportando quieta a falta de justiça e a servidão familiar e doméstica.

[00:58:54] A revolução de outubro emancipou a mulher, hoje as camponesas têm os mesmos direitos que os camponeses

[00:59:01] e as operárias os mesmos direitos que os operários.

[00:59:05] Em todo lugar a mulher pode votar, ser membro dos sovietes ou comissária, até comissária do povo.

[00:59:12] A lei equipara a mulher em direitos, mas a realidade ainda não as libertou.

[00:59:17] As operárias e camponesas continuam sujeitas aos trabalhos domésticos como escravas da própria família.

[00:59:23] Os homens operários devem agora cuidar para que a realidade tire dos ombros delas o fardo de lidar com os filhos

[00:59:30] e alivie o peso dos serviços domésticos, as operárias e camponesas.

[00:59:35] A classe operária também está interessada em libertar a mulher nessas esferas.

[00:59:40] Um terço da riqueza da terra surge das mãos das mulheres.

[00:59:43] A Europa e a América contam com 70 milhões de operárias.

[00:59:48] Numa sociedade comunista, mulheres e homens devem ter direitos iguais.

[00:59:53] Sem essa igualdade, não há comunismo.

[00:59:55] Então mãos à obra, camaradas trabalhadoras, iniciem sua emancipação.

[01:00:00] Construam creches e maternidades.

[01:00:02] Ajudem os sovietes a criar refeitórios públicos.

[01:00:05] Ajudem o Partido Comunista a criar uma nova e radiosa realidade.

[01:00:09] Tomem lugar nas fileiras de todos os que lutam pela libertação das trabalhadoras.

[01:00:14] Pela igualdade, pela liberdade e pela alegria dos filhos de vocês.

[01:00:19] Tomem lugar, operárias e camponesas, sob a bandeira vermelha revolucionária do vitorioso comunismo mundial.

[01:00:49] Vamos todos para a luta final.

[01:00:57] No mar, no ar, no ar nacional.

[01:01:05] Que Deus nos abençoe, que Deus nos abençoe.

[01:01:19] Declaração do congresso dos sovietes.

[01:01:39] O governo provisório foi deposto.

[01:01:41] A maioria de seus membros está presa.

[01:01:43] O poder soviético proporá uma paz democrática imediata a todas as nações.

[01:01:48] Ele procederá à entrega aos comitês camponeses dos bens dos grandes proprietários da coroa e da igreja.

[01:01:54] Ele estabelecerá o controle operário sobre a produção,

[01:01:57] garantirá a convocação da assembleia constituinte para a data marcada.

[01:02:02] O congresso decide que o exercício de todo o poder nas províncias é transferido para os sovietes dos deputados operários, camponeses e soldados,

[01:02:10] que terão de assegurar uma disciplina revolucionária perfeita.

[01:02:14] O congresso dos sovietes está persuadido de que o exército revolucionário saberá defender a revolução contra os ataques imperialistas.

[01:02:21] Esse governo que tomou o poder é o governo dominado pelo Bolchevique.

[01:02:30] Existiam várias forças revolucionárias, mas os Bolcheviques fazem esse movimento de tomada do poder e se instalam como lideranças do projeto.

[01:02:48] Esses dois momentos, que tem poucos meses de diferença de um para o outro,

[01:02:52] de certa forma não são uma resposta empírica a uma certa concepção etapista da história de classe.

[01:03:00] Esses foram os motivos que levou a uma espécie de perplexidade por parte de alguns dos lideranças do Bolchevique,

[01:03:10] como o Bolchevique e o Cameneves, que eram duas figuras muito próximas ao Lenin,

[01:03:14] porque no fundo essa visão do Lenin é uma visão que coincide com a do Trotsky.

[01:03:18] O Trotsky defendia desde 1905 a ideia de revolução permanente,

[01:03:22] e quer dizer basicamente o seguinte, é uma combinação de etapas.

[01:03:26] A revolução não é nenhuma coisa nem outra.

[01:03:29] O Trotsky perguntava uma coisa fundamental.

[01:03:32] Se nós somos os revolucionários, somos os socialistas que vão fazer a revolução,

[01:03:38] o conteúdo dessa revolução vai se levar para nós.

[01:03:41] Vamos fazer uma revolução para eles?

[01:03:43] Não, é uma revolução que tem a ver, ou seja, aos trabalhadores socialistas revolucionários,

[01:03:50] caderia uma dupla tarefa, não só, de criar as condições para uma nova retomada econômica,

[01:04:00] uma nova reestruturação da vida econômica, em novas bases,

[01:04:04] para recompor um pouco o que tinha sido destruído por sete, três anos de guerra revolucionária,

[01:04:12] que tinha liquidado o país, não só, recompor como dar início ao processo de socialização.

[01:04:19] Tem duas tarefas, uma tarefa quase que de correr para tentar suprir uma série de carências.

[01:04:28] Quando a Rússia faz a revolução, ela não começa do zero, ela começa do muito negativo.

[01:04:34] Você tinha, por exemplo, três quartos da indústria destruída,

[01:04:38] a mesma proporção do sistema de transporte, o sistema de ferrovia,

[01:04:44] a indústria completamente liquidada, o sistema de produção de energia,

[01:04:49] o país estava em franálise, então você tinha que recompor isso

[01:04:54] e ao mesmo tempo dar início ao processo de socialização, democratização do processo de produção,

[01:05:00] de valorização dos conselhos, dos surdos, etc.

[01:05:03] Essas duas tarefas são extremamente complexas, mas essa era o desafio que estava à força.

[01:05:09] E aí acontece uma coisa que não era esperada por ninguém, era esperada porque era insidio.

[01:05:15] Quando os bolchevistes tomam o poder, quando a revolução vence,

[01:05:20] as forças imperialistas que estavam guerreando continuam a guerra,

[01:05:27] agora não mais quanto o governo pisarista quanto o governo bolchevista.

[01:05:30] Então você tem forças imperialistas atacando e os exércitos brancos contra-revolucionários

[01:05:36] em várias partes do país atacando também.

[01:05:38] Que quando se discute no verão de 1917 a possibilidade da tomada do poder,

[01:05:47] a posição do Lenin era quase isolada, quase isolada.

[01:05:52] Os seus principais aliados ou alguns seus principais aliados não concebiam a possibilidade

[01:05:58] de uma revolução social e de uma transformação do poder político.

[01:06:02] E uma vez constituído o novo governo, a percepção que os próprios governantes tinham

[01:06:07] era da sua enorme fragilidade.

[01:06:09] Há uma andota muito célebre que é quando se ultrapassaram os 100 dias,

[01:06:14] 90 e poucos dias, que tinha durado a Comuna de Paris,

[01:06:18] o Lenin e alguns comissários do povo organizaram uma dança na neve no pátio do Kremlin.

[01:06:25] Porque não acreditavam que fosse possível, ou pelo menos entendiam que era muito difícil

[01:06:30] viver em mais tempo do que a Comuna de Paris, 100 dias, 3 meses.

[01:06:34] Portanto, o poder estava pendurado de uma enorme fragilidade.

[01:06:39] O valor simbólico diz que nós percebemos o que é que isto quer dizer.

[01:06:42] Ou seja, eles entendiam que era, como é que o Marx dizia em relação à Comuna de Paris,

[01:06:47] era um assalto aos céus, era assaltar os céus, era desafiar o impossível,

[01:06:53] era tentar reorganizar um poder, um país destroçado, com muito pouca capacidade militar,

[01:06:59] isso provou, aliás, que durante muito tempo não pudessem sequer reagir à pressão militar dos alemães.

[01:07:06] Aí o Bolchevique foi obrigado a fazer um recuo das suas pretensões,

[01:07:11] que era de começar, que tinha muita socialização,

[01:07:14] e abriu-se um período da história chamada comunismo de guerra.

[01:07:18] Tem que fazer um sobresforço político, econômico, material,

[01:07:22] de armar o exército vermelho, o exército funcionário,

[01:07:27] para combater os inimigos internos e externos.

[01:07:30] Isso é, de novo, um novo sacrifício, de vidas humanas, etc.,

[01:07:34] e um sacrifício político, porque muitas das liberdades, dos direitos, das conquistas da revolução

[01:07:41] são efetivamente, neste momento, pelo menos, se pode dizer, suspenso.

[01:07:45] Por quê? Porque havia um inimigo a ser derrotado.

[01:07:48] Essa era a justificativa que foi dada, com razão, para explicar o comunismo de guerra.

[01:07:54] Finalmente, o comunismo de guerra acaba em 1921, com a derrota das forças iberialistas

[01:08:01] e contra-revolucionárias, e o governo, aparentemente, agora pode começar um novo período.

[01:08:08] Nesse período, é conhecido como NEP, Nova Comunista Econômica.

[01:08:12] Só que o país está arrasado, o país não só está…

[01:08:15] Nós estamos falando de sete anos de guerra, de um processo de liquidação de quadros importantes,

[01:08:21] de gente que morreu, de quadros do partido, fora do partido, de lideranças importantes, etc.,

[01:08:28] que foram destruídas, foram mortas da guerra, e, ao mesmo tempo, com uma desconfiança enorme dos trabalhadores,

[01:08:34] porque não tinham visto nada até então de socialismo, liberalização do trabalho, ecofísico, etc.

[01:08:41] Esse período, que vai de 1921 até 1928, representa um recuo para que, eventualmente, a frente se pudesse anetomar.

[01:08:49] Só que a história não permite intervalo, a história continua, as contradições se aprofundaram,

[01:08:57] e esse período aí, da NEP, é um período também muito contraditório.

[01:09:02] Tem importantes avanços, sobretudo no campo cultural, tem muita coisa importante.

[01:09:07] Eu gosto de chamar muito de Renascença Vermelha, tem uma quantidade absurdamente expressiva

[01:09:13] de manifestações no campo artístico, no campo da filosofia, no campo da literatura, etc.

[01:09:21] E no quadro da economia, uma situação híbrida, né?

[01:09:25] Algumas melhorias, mas também uma contradição importante, que foi o crescimento do campesinato rico, chamado Kulak,

[01:09:33] que criou uma desigualdade no campo.

[01:09:36] Sim, você tem um quadro, esse que vai de 1928, marcado por contradições econômicas, políticas,

[01:09:44] que vão levar a uma crise de dominação, o resultado final vai ser a vitória da burocracia titanínea.

[01:09:52] Então, a história da Revolução Russa, como qualquer revolução, ela não é uma linha reta,

[01:09:58] ela tem zigzags, ela tem eventualmente recursos, mas tem também muita coisa positiva,

[01:10:06] Professor, eu gostaria que você comentasse o papel dos indivíduos da Revolução Bolchevique,

[01:10:12] em especial as grandes personalidades que eram mais notórias.

[01:10:16] Você já falou bastante de Lenin e um pouco de Trotsky, se você puder comentar mais alguma coisa sobre os dois,

[01:10:23] mas também a figura de Stalin, o papel que essas três figuras desempenham no processo revolucionário.

[01:10:31] Essa é uma discussão importante a respeito do papel, tem um livro do Plevenov, o papel do indivíduo da história,

[01:10:39] os indivíduos existem e eles fazem a história, não há dúvidas sobre isso.

[01:10:44] O problema é que não fazem a história das condições que escolhem, tem toda uma série de condicionamentos.

[01:10:51] Agora, efetivamente, as figuras emblemáticas, as figuras de liderança,

[01:10:57] elas atuam em contextos específicos e em coletividades, no caso do partido, dos grupos políticos, etc.

[01:11:08] Para que exista uma grande liderança é preciso que exista um tecido político-cultural no qual esse sujeito emerge.

[01:11:16] Eu sei que as figuras excepcionales, como de fato eram, estão falando de uma história política que no século XIX se acelerou muito.

[01:11:27] A Rússia é um país que no século XIX um pouco que acelerou o processo histórico formando grandes lideranças,

[01:11:40] grandes quadros com uma extraordinária lucidez política, etc.

[01:11:46] Trotsky e Lenin são as duas grandes figuras da Revolução.

[01:11:51] Trotsky é uma figura fundamental da Revolução de 1905, ele teve um papel decisivo aí,

[01:11:57] e tem um livro absolutamente fundamental para entender não só a Revolução de 1905, mas para entender a Rússia,

[01:12:06] chamado exatamente de 1905, que tem um complemento balança e perspectiva, é um belíssimo livro.

[01:12:13] Trotsky é uma combinação rara de um grande intelectual, muito culto, informado de tudo o mais importante que acontecia,

[01:12:23] em literatura, em filosofia, em artes, ele era um crítico literário muito sofisticado, Trotsky era um intelectual,

[01:12:30] mas ao mesmo tempo era um grande líder político, com uma capacidade de ter visão como acho que pouca gente teve na política em geral,

[01:12:39] uma capacidade de ver mais longe, de observar, de definir coisas no plano estratégico, as visões de longo prazo de Trotsky são sempre fantásticas.

[01:12:51] Na insurreição, tal como na guerra, e muito menos no primeiro caso, não se podem tolerar hesitações ou perdas de tempo,

[01:13:05] mas é capaz de ter diversar, ainda que por algumas horas, restitui parcialmente os dirigentes a confiança em si próprios,

[01:13:12] retirando aos insurretos parte de sua certeza. Ora, essa confiança, essa certeza, determinada a correlação das forças, decide o desenlace da insurreição.

[01:13:23] A insurreição armada, repetimos, efetuou-se por duas vezes em Petrogrado, na primeira quinzena de outubro,

[01:13:30] quando os regimentos se recusavam a cumprir as ordens do comando, submetendo-se a decisão do Soviet, que correspondia inteiramente ao seu estado de espírito,

[01:13:39] e em 25 de outubro, quando já só bastava uma pequena insurreição complementar para derrubar o governo de fevereiro.

[01:13:46] Em Moscou, a insurreição efetuou-se de uma só vez, essa provavelmente a principal razão por que se prolongou.

[01:13:54] Mas ainda há uma outra, uma certa irresolução por parte da direção.

[01:13:59] Passou-se por várias vezes das operações militares as conversações, voltando-se a seguir a luta armada.

[01:14:05] Se as hesitações da direção, sentidas perfeitamente pelas tropas, são em regra geral politicamente prejudiciais,

[01:14:12] durante uma insurreição, tornam-se mortalmente perigosas.

[01:14:16] Nesse momento, muito embora tivesse já perdido confiança nas próprias forças, a classe dominante detinha ainda o aparelho governamental.

[01:14:23] A classe revolucionária incumbia a tarefa de conquistar o aparelho estatal.

[01:14:29] O Lenin é um igualmente grande intelectual, um grande refinamento filosófico.

[01:14:37] O Lenin tem um livro sobre Hegel, que é de uma…

[01:14:41] O Hegel é um autor muito difícil, como se sabe, e o Lenin consegue captar o essencial da obra do Hegel

[01:14:51] e um pouco permitir que cada um de nós se aproveite da maneira como ele faz.

[01:14:56] Ele é um homem extraordinariamente talentoso e com uma capacidade intelectual única.

[01:15:03] E uma capacidade intelectual, ele dizia uma coisa, o que é ser marxista, o que é ser revolucionário.

[01:15:10] Dar a resposta concreta a problemas concretos.

[01:15:13] E com uma capacidade de organização, de formulação política, isso é uma ordenação do segredo das opções geniais.

[01:15:28] Então, partir da própria situação, permitiu a Lenin reconhecer e ele postula um dos legados que nós temos que incorporar,

[01:15:40] que é a tese do elo mais fraco, que nas sociedades, no capitalismo desenvolvido,

[01:15:48] nas sociedades em que países imperialistas dominam outros países,

[01:15:55] as revoluções tendem a acontecer diferente do que era esperado por Marx e Engels,

[01:16:01] não naqueles países onde o capitalismo está mais desenvolvido,

[01:16:05] naqueles países onde o capitalismo está mais fortalecido, mas sim nos elos mais fracos da corrente,

[01:16:12] exatamente o que os bolcheviques foram capazes de explorar para conseguir realizar a revolução proletária na Rússia.

[01:16:20] Então, esse é um legado também muito importante, a teoria do elo mais fraco,

[01:16:26] mas muito mais do que por afirmar que tende a acontecer a revolução nos países mais atrasados,

[01:16:35] mas sim porque Lenin e os bolcheviques ensinam concretamente para todo mundo,

[01:16:43] para os evolucionários de todo mundo, que nós temos que partir do conhecimento das nossas próprias condições.

[01:16:52] Aqueles que vivem, aqueles que atuam, aqueles revolucionários que operam nos países de capitalismo mais desenvolvido,

[01:17:00] é evidente que tem que buscar as suas forças nesse capitalismo mais desenvolvido.

[01:17:06] Aqueles que operam, que trabalham e levam seu labor revolucionário, a prática nos países mais atrasados,

[01:17:16] têm que partir dessa outra realidade.

[01:17:18] O Stalin, que afinal vai ser a figura que vai prevalecer a partir de 24,

[01:17:23] é uma figura que não tem esse brilho intelectual, de jeito nenhum,

[01:17:28] que é um ponto de vista cultural, intelectual, muito limitado, muito tosco,

[01:17:33] mas um organizador poderoso, de jeito que dominou a máquina, era um secretário,

[01:17:40] eu conhecia todo mundo que fazia um pouco o papel, uma espécie de caixa de ressonância dos setores mais atrasados do partido,

[01:17:52] dos setores mais conformados, menos críticos, então ele acaba sendo, na maioria,

[01:18:00] ele acaba sendo a voz dessas camadas de oportunistas, meio de conformistas etc.

[01:18:09] e que acaba dominando a máquina do partido.

[01:18:12] Quando tem a luta política, você tem três grupos, basicamente, um grupo à direita,

[01:18:18] esse direito aí é representado pelo Hein, que é uma figura também muito importante,

[01:18:24] muito intelectual, sofisticada, também muito culto, que estudou economia, filosofia, ciencias,

[01:18:33] e esses, o Kahn, o que é direita? Direita é porque ele propõe a um ritmo mais lento do processo.

[01:18:42] Não é que ele fosse à direita, ele é a direita no caso.

[01:18:46] A situação significava alguém que queria levar, tanto mais lojo quanto possível, o quadro da NEP,

[01:18:56] aquela situação meio ambígua, de um regime misto, meio economia do mercado mesmo.

[01:19:02] Estou lendo, o Borrari, tem o Trotsky, o Brageschi, outros que queriam acelerar o processo revolucionário.

[01:19:11] Então é conhecido como a esquerda, não só queriam acelerar, mas queriam exportar,

[01:19:17] a revolução mundial, a revolução permanente, a revolução não pode ficar restrita a um país só,

[01:19:22] tem que ser mundial, não pode ser a esquerda.

[01:19:25] E tem o centro, que é o Estado.

[01:19:29] Então o que acontece, aí é que entre 24, quando o Lenin morre, até 27,

[01:19:35] vocês têm lutas da esquerda com a direita, no primeiro momento o Estado se alia com a direita contra a esquerda.

[01:19:43] Então alinha ao Borrari contra o Trotsky, derrota o Trotsky.

[01:19:48] Quando o Trotsky é derrotado, no primeiro momento, o Trotsky ele liderava a posição de esquerda.

[01:19:54] O Trotsky é derrotado e o Borrari é aparentemente vitorioso, com o Stalin.

[01:20:00] Nesse momento, uma parte do centro, representado pelos nomes NEP e o Khamenei,

[01:20:05] vão, percebem o perigo que significa a vitória do Stalin e fazem uma aliança com o Trotsky.

[01:20:11] Esse é o segundo momento da luta política, é chamada oposição unificada.

[01:20:16] Vai de 1925 até 1926, que é o Trotsky, os nomes NEP e Khamenei, contra o Borrari e o Stalin.

[01:20:24] E aí o Borrari e o Stalin, de novo, derrotam a oposição unificada, isso é em 1927.

[01:20:29] Em 1927, o Trotsky está liquidado e todo o grupo político dele está completamente neutralizado.

[01:20:36] E aí tem, então o Trotsky primeiro é afastado do Comitê Central, depois é afastado do Partido,

[01:20:42] depois é expulso do país, em 1929 eles exilam o Trotsky para o lugar, embora da Rússia, expulso da nossa viagem,

[01:20:49] que ficou conhecido como expurgo.

[01:20:51] Não, ainda não, a expurga é de 1936 e 1937.

[01:20:55] Nesse momento, expulsa o Trotsky em 1929 e o Stalin fica sozinho, que aí acontece o seguinte,

[01:21:02] ele fica com, na verdade, a aliança dele com o Borrari é uma aliança vitoriosa, só que ele alija o Borrari e fica sozinho.

[01:21:12] Ele fica sozinho e aí faz uma coisa que é fantástica, ele pega o programa da esquerda e aplica com a maior violência do mundo,

[01:21:19] que é a chamada constituição forçada.

[01:21:21] Então se você for olhar para a setora do Stalin, ele zigzagga, ele vai para a direita, depois vai para a direita, vai para o centro e tal,

[01:21:28] vai conseguindo neutralizar os seus adversários e no final fica como a única grande liderança e mais,

[01:21:35] liquida toda a velha guarda bochevista.

[01:21:38] Todo mundo que tinha alguma possibilidade, em algum momento, de se colocar como alternativa, ele vai liquidando fisicamente, etc.

[01:21:48] A culminância disso é o tamanho dos grandes expulgos, dos grandes processos, 36, 37, 38, 36.

[01:21:56] E tudo isso começa com uma manobra que é uma coisa, a grande liderança ligada a ele, Stalin, é o Kirov, que era o sujeito de Petersburg.

[01:22:09] E esse camarada converteu a imprudência de ter mais votos em uma certa votação lá do que o Stalin.

[01:22:16] Houve uma votação e ele teve mais votos do que o Stalin.

[01:22:21] Aí, liquidou a fatura dele. Então, Stalin vai manobrar, vai colocar a polícia para ele lá, o Kirov é assassinado.

[01:22:31] Então, encontrou o Kirov assassinado, assassinado, e aí começa a investigação para curar a responsabilidade pelo assassinado do Kirov.

[01:22:42] E aí, dizem uma conspiração, trotskistas, zinoveístas, bucarinistas, etc. E aí começa.

[01:22:48] A 36 zinoveístas que são acusados, são obrigados a confessar crimes, porque o negócio não é só o cara.

[01:22:58] Todo mundo que foi assassinado, desses expulsos, são executados, eles antes confessaram que eram espiões nazistas, que eram, não sei o quê, que eram sabotadores.

[01:23:09] É uma coisa, não só de uma violência, de uma humilhação absurda, é um processo completamente falso.

[01:23:17] Então, 36 é liquidado, na parte 37, os militares, como o general, o mais importante general russo, chamado Tukhachevsky, é assassinado.

[01:23:30] Então, 37 e 38, o borrário.

[01:23:34] E aí, 38, ele, digamos, destruiu todas as raízes que ligavam a Revolução Russo e o Partido Bolshevique no seu nascimento.

[01:23:49] Ele está sozinho e vai agora fazer as manobras que são absolutamente problemáticas com a aliança com Stalin, com o Vítor.

[01:24:02] Vamos lá. Para bem ou para mal, depende do ponto de vista, Stalin é um personagem absolutamente importante do século XX.

[01:24:14] E é um personagem absolutamente importante no processo da Revolução Russo.

[01:24:20] Certamente um amigo, um querido amigo meu que subscreve uma dessas questões, deve ser, eu tenho muitos amigos trotskistas, muitos,

[01:24:28] aí deve ter um trotskista dizendo, como é que Stalin foi responsável?

[01:24:32] Eu acho que ele não pode mais personalizar, nós não podemos aceitar mais a explicação do que foi o Stalinismo,

[01:24:42] sob todos os seus aspectos, aceitando uma teoria psicológica do poder.

[01:24:49] O problema não é o Stalin, o problema é o sistema no qual o Stalin teve papel importante.

[01:25:00] Investigar isso, a gênese do que, aquilo que eu chamo pro horror de alguns camaradas meus, agora eles já se acostumaram,

[01:25:08] aquilo que eu chamo de autocracista, alinista, isso não pode ser estudado se leva enquanto a guerra civil, o isolamento da Revolução Russo.

[01:25:19] Lembremos, Luiz, que na cabeça do Lenin, na teoria do duelo mais fraco da cadeia, a Revolução Russo era o momento inicial

[01:25:32] que ia vincular dois outros processos revolucionários, a Revolução Socialista no Ocidente, na Alemanha, e a Revolução Democrática na China.

[01:25:44] Essas duas, ao tempo de Lenin, abortaram, a Revolução Russo ficou insulada, teve a guerra civil, com uma barbaridade monumental.

[01:25:55] Se a gente não leva isso em conta, nós não vamos entender nunca o que foi chamado período Stalinista.

[01:26:03] E me parece muito fecunda uma ideia plástica do Lucat, dizendo que ali é um equívoco imaginar um Stalin ditador com uma massa de servos embaixo.

[01:26:15] Não, aquele sistema era uma pirâmide, lá em cima um Stalin grande, reproduzindo nos seus vários extratos até a base Stalin de menor tamanho.

[01:26:29] Estou chamando a atenção para isso, porque acho que nós precisamos, já com a documentação, inclusive, atenção, com a documentação facilitada a partir de 91, nos arquivos soviéticos,

[01:26:44] nós precisamos primeiro parar de demonizar Stalin, compreender, sem relevar as suas opções políticas, algumas, a meu juízo, evitáveis e condenáveis.

[01:27:00] Não é preciso dizer que o Ramon Mercader foi mandado para o México para dar uma picaretada na cabeça do Trotsky, isso é um crime, isso é um crime, não é como não dizê-lo.

[01:27:14] Isso era uma necessidade histórica? Não tinha nada disso.

[01:27:18] Nos anos 30, 40, 50, se fizeram escolhas, essas escolhas tiveram uma multidimensionalidade, então me parece que em primeiro lugar nós temos que parar de demonizar Stalin.

[01:27:38] Mas quero deixar claro que eu não entro na onda dos últimos 10, 15 anos de uma literatura que já chega ao Brasil querendo reabilitar Stalin.

[01:27:49] Ou seja, nós temos que, sabe o que eu acho que é necessário, especialmente para os marxistas, procurar uma concepção teórico-metodológica que dê conta do fenômeno stalinista, sem moralismos, sem moralismo.

[01:28:49] As negociações de paz em Brasileirote com os Impérios Santrais, com o Império Austro-Húngaro e com o Império Alemão, onde Lenin, de forma minoritária na direção, no primeiro momento defende imediatamente uma assinatura de paz com os Impérios, com o Império Alemão e Austro-Húngaro, mesmo pelo que entregar parte do território.

[01:29:19] Só que ele é minoritário, inclusive dentro da direção Bolchevique. Trotski fica em uma posição mais centrista e boa parte da direção Bolchevique e dos SRs de esquerda, dos socialistas revolucionários de esquerda e dos anarquistas, é radicalmente complexo.

[01:29:36] E num momento de lucidez fantástica do Lenin, ele diz não, tem que assinar esse acordo porque nós não vamos aguentar, não tem como, tem que entregar os dedos para preservar a revolução e para termos chance de continuarmos existindo e sermos inspiradores para aqueles processos que já ameaçavam começar de revolução.

[01:30:02] Na Alemanha, por exemplo, já em 18 já havia o processo de início de crise revolucionária. Na Hungria já havia isso. Na Finlândia, ao lado de Petrogrado, já havia isso também.

[01:30:17] São processos efetivos de radicalização de crise revolucionária e de possibilidade de discutar o poder. Precisamos preservar a revolução e temos que assinar esse acordo de paz. E a maioria não concorda com isso.

[01:30:35] E bem, isso acaba acontecendo porque se retomam a ofensiva do exército alemão, o exército russo não tinha como resistir e logo depois o Lenin consegue a maioria, Trotsky o apoia, ele consegue a maioria e assina o acordo de paz numa situação muito pior.

[01:30:55] Entrega toda a Ucrânia, perde boa parte do país, mas consegue barrar, enfim, uma ofensiva que poderia ser final, poderia, inclusive, liquidar com a revolução, mas com um custo político muito alto.

[01:31:10] Porque com isso perdem, de certa forma, alianças pela esquerda, com os socialistas revolucionários que se negavam a aceitar esse tipo de coisa de uma forma absolutamente aventureira.

[01:31:23] Isso tem um impacto, sem dúvida, no enfraquecimento da direção revolucionária, que não era apenas Bolchevique, alemãnicamente Bolchevique, mas que tinha aliados.

[01:31:35] Um outro exemplo de um erro importante, sem dúvida nenhuma, é a questão do comunismo de guerra.

[01:31:43] Quer dizer, se as requisições forçadas cumpriram um papel muito importante entre 18 de 1920 para alimentar o exército vermelho e enfrentar os exércitos brancos e os ataques das forças imperialistas e preservar a revolução,

[01:32:03] então foi importante para alimentar o exército, garantir o exército vermelho, a partir de 1921, e do final de 1920, quando derrota e farram a tentativa de invasão polonesa e isso é derrotado,

[01:32:23] quer dizer, o exército vermelho havia realmente vencido e isso custou tempo para sair do comunismo de guerra e para se aprovar algo como foi a nova política econômica,

[01:32:35] foi fundamental para dar um fôlego não apenas econômico, mas político, na medida em que as requisições forçadas e o impedimento de qualquer funcionamento de mercado com o campesinato, com a burguesia,

[01:32:51] afetava muito, mas uma situação extremamente difícil. Então isso a demora em tomar essa iniciativa, enterrar o comunismo de guerra é outro erro, mas o fundamental, depois tem a questão também da tcheca do terror vermelho.

[01:33:11] Na hora, é evidente que o terror vermelho, o Mandel defende a legitimidade, já que foi uma resposta ao terror branco, não foi uma iniciativa…

[01:33:21] A tomada do poder em Petrogrado em outubro de 1917 teve 15 mortos, 60 felizes. No Moscou, onde teve uma resistência morta contra a revolução, teve centenas de mortos, mas foi isso.

[01:33:34] Comparado com o fevereiro, que é saudado com uma revolução democrática, derrubou o Pisaíto, teve 2.500 mortos em fevereiro.

[01:33:44] Então, a revolução de outubro, a tomada do poder, a revolução socialista própria medirita em outubro de 1917, foi uma tomada de poder, uma revolução incruenta.

[01:33:55] A violência foi imposta pelas forças do imperialismo, pelos países, pela Grã-Bretanha, pela França, pelos Estados Unidos, pelo Japão, que armaram e deram condições para o exército branco, os exércitos brancos, monarquistas, atacarem a revolução já no início de 1918.

[01:34:17] E é isso que vai se prolongar por 3, 4 anos e que vai terminar de destruir o país, destruir inclusive fisicamente boa parte da classe operária que vai, por exemplo, vermelho, estar na vanguarda dessa luta contra a revolução.

[01:34:34] Mas uma coisa, o Mandel assiná-la, que é a questão da Polícia Política, a Tcheca, a Comissão Especial, isto é uma crítica que ele faz, que ele diferencia isto da ideia do terror vermelho que foi imposto pelas condições do terror branco da Guerra Civil.

[01:34:56] E finalmente o tema da democracia, em que ele enfatiza bastante o tema do 10º Congresso, não apenas o tema do 10º Congresso do Partido Comunista em 1921, que é quando se, vamos dizer assim, proíbem as tendências e frações no interior do Partido Comunista.

[01:35:15] Inicialmente com uma ideia provisória, com uma medida extraordinária, mas também a proibição dos partidos soviéticos, ou seja, os socialistas, os revolucionários de esquerda, os anarquistas, cumpriram um papel importante na revolução, mas também fizeram medidas, tiveram atitudes contra, violentas de agressão, inclusive o atentado Alen, a tiros, foram proibidos.

[01:35:41] E depois da Guerra Civil terminada, da vitória, da revolução do Exército Vermelho, esse seria o momento da nepe, de uma recuperação da classe superária, inclusive das fábricas, uma retomada, mesmo que lenda da economia, era possível, vamos dizer, retomar a ideia de um debate democrático, isso seria absolutamente vital para evitar o processo de autoritaísmo,

[01:36:11] de vigenciamento e depois de burocratização.

[01:36:14] Para concluir, eu queria fazer uma pergunta para você, que nós estamos comemorando, celebrando o centenário da revolução russa, na sua opinião, o que fica de legado daquele evento para a contemporaneidade, ninguém pode tirar de aprendizado daqueles eventos?

[01:36:42] Eu acho que a revolução russa não acabou, do mesmo jeito que a revolução russa não acabou, se você falar em liberdade, igualdade, fraternidade, você está falando do grande legado da revolução russa, se você falar da revolução russa você está falando de igualdade e liberdade, quem será contra isso?

[01:37:07] Quem será capaz de ser, com outra ideia, de uma humanidade auto-emancipada, que constrói ela própria o seu destino, onde homens e mulheres, exceto, são iguais, são iguais e diferentes nas suas diferenças culturais, étnicas, gêneros,

[01:37:27] todo esse conjunto de questões, de aspirações, a revolução russa, por algum momento, houve um deslumbre dessas possibilidades, e no campo da cultura isso foi muito concreto, esse negócio do assalto ao céu, essa coisa de transformar as condições de vida,

[01:37:54] de tal forma que cada homem, cada pessoa pudesse olhar para o futuro com esperança, com uma disposição, como promessa de felicidade, esse tipo de coisa, a revolução russa é isso, que ela tenha degenerado,

[01:38:15] que ela tenha provocado uma enorme tragédia, não elimina aquilo que a motivou, aquilo que está na base da sua existência, eu diria que nós temos que aprender muito com os erros da revolução,

[01:38:36] e eu diria que o principal erro é ter tentado impor uma determinada situação oficial, se ela levar em conta as diversidades do próprio processo, porque é diversidade do próprio processo, existiam várias forças revolucionárias naquele momento,

[01:38:53] a ideia fundamental de hoje seria tentar unificar essas forças, não afastar, os mexediques eram profissionais, os anarquistas eram profissionais, os socialistas eram profissionais,

[01:39:06] por que não tentar conduzir um processo em que essas forças, um processo mais heterogêneo, mais complexo, mas que você teria tido sempre uma capacidade de mobilizar essas novidades sociais que estavam comprometidas com a ideia,

[01:39:26] eu acho que o principal erro da revolução russa foi esse exclusivismo de achar que os doutros indígenas, só eles, eram profissionais, o que obviamente não é verdade.

[01:39:37] Professor, eu quero agradecer muito a sua participação e a sua entrevista.

[01:39:40] Obrigado.

[01:39:41] Não olhar para esta história como uma espécie de arquétipo de uma revolução, por muitas razões, umas muito evidentes, outras, por ventura, menos.

[01:39:55] O que é muito evidente é que a Rússia é a combinação de uma desagregação do Império Cesarista, o regime autocrático, com escassíssima legitimidade democrática e participativa e a derrota numa guerra contra a Alemanha.

[01:40:14] O exército russo colapsou na frente de batalha e, portanto, esta conjugação da servidão da grande parte da população, os camponeses, da autocracia, do autoritarismo, do casarismo e do fracasso da guerra,

[01:40:31] criou a oportunidade de um desenvolvimento de um povo político que tem uma raiz importante na história política russa, na revolução de 1905 em particular, apesar de tudo era muito minoritária quando começa o ano de 1917.

[01:40:47] E rapidamente ganhou uma força maioritária entre o proletariado industrial e nas principais cidades.

[01:40:56] Portanto, este conjunto de circunstâncias é muito diferente do que se conheceu noutros países da Europa Ocidental.

[01:41:04] Certamente muito diferente do que aconteceu na Alemanha nos anos 1920, 1918, 1923, quando houve a revolução alemã.

[01:41:13] Muito diferente do que aconteceu nas poucas experiências revolucionárias ou pré-revolucionárias pós Segunda Guerra Mundial, muito diferente também,

[01:41:21] porque estas circunstâncias não se repetiram, não se repetem e não se hão de repetir.

[01:41:26] São circunstâncias únicas, porque cada um destes processos tem circunstâncias únicas.

[01:41:31] Por isso, qualquer pensamento de estratégia política que seja uma reprodução deste arquétipo é sempre viciada.

[01:41:39] Eu lembro de muitas discussões em Portugal em que, com a melhor das boas vontades, muitas pessoas diziam, nós estamos a passar da fase de fevereiro para a fase de outubro.

[01:41:48] Isso não vale nada, porque fevereiro é fevereiro, é Rússia, e outubro é outubro.

[01:41:56] Portanto, nenhuma revolução reproduz os passos de outra, não é uma espécie de mecânica celestial revolucionária que se revela aos ignaros camponeses de quando em quando.

[01:42:07] Não é assim, a revolução é uma construção social que resulta do conflito, da aprendizagem, da invenção, da reestruturação do poder, da alteração política.

[01:42:15] E é isso que faz uma transformação.

[01:43:15] Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos.

[01:43:23] Em vão, percorremos volumes, viajamos e nos colorimos.

[01:43:29] A hora pressentida, esmigalha se impõe, e o tempo passa.

[01:43:36] Em vão, percorremos volumes, viajamos e nos colorimos.

[01:43:42] A hora pressentida, esmigalha se impõe na rua.

[01:43:46] Os homens pedem carne, fogo, sapatos.

[01:43:50] As leis não bastam, os lírios não nascem da lei.

[01:43:54] Meu nome é Tomulto e escreve-se na pedra.

[01:43:58] Visita os fatos, não te encontro.

[01:44:01] Onde te ocultas, precária síntese, penhor do meu sono, luz, dormindo acesa na varanda?

[01:44:08] Mildas certezas de empréstimos.

[01:44:11] Num beijo, sob ao ombro, para me contar minha cidade dos homens completos.

[01:44:17] Calam-me, espero, decifro.

[01:44:20] As coisas talvez melhores, são tão fortes as coisas.

[01:44:25] Mas eu não sou as coisas e me revolto.

[01:44:28] Tenho palavras em mim buscando canal.

[01:44:31] São roucas e duras, irritadas, enérgicas.

[01:44:36] Comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido.

[01:44:40] Apenas querem explodir.

[01:44:43] Esse é tempo de divisas, tempo de gente cortada.

[01:44:48] De mãos viajando sem braços, obscenos gestos avulsos.

[01:44:53] Mudou-se a rua da infância e o vestido vermelho.

[01:44:57] Vermelho cobra no deus do amor, ao relento, no vale.

[01:45:02] Símbolos obscuros se multiplicam.

[01:45:05] Guerra, verdade, flores.

[01:45:09] Dos laboratórios platônicos mobilizados vem um sopro que cresta as faças.

[01:45:15] E dissipa na praia as palavras.

[01:45:18] A escuridão estende-se, mas não elimina o sucedâneo da estrela nas mãos.

[01:45:24] Certas partes de nós como brilham.

[01:45:28] São unhas, anéis, pérolas, cigarros, lanternas.

[01:45:34] São partes mais íntimas e pulsação.

[01:45:38] O ofego e o ar da noite é o estritamente necessário para continuar.

[01:45:44] E continuamos.

[01:45:46] O poeta declina de toda a responsabilidade na marcha do mundo capitalista.

[01:45:52] E com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas,

[01:45:57] promete ajudar a destruí-lo com uma pedreira, uma floresta, um verme.

[01:46:17] Proletários de todos os países, univos.

[01:46:20] O Sovet organizou as massas, dirigiu greves políticas, liderou greves políticas.

[01:46:25] O golpe de espada que cortava o nó no gorde.

[01:46:28] Todo o poder ao Sovet.

[01:46:30] Abaixo a autocracia e abaixo a guerra.

[01:46:34] Exposta em pílica a uma certa concepção etapista da história do clássico.

[01:46:38] Como é que o Marx dizia, era só uma comuna do Paris? Era um assalto aos céus?

[01:46:43] Era assaltar os céus? Era desafiar o impossível?

[01:46:47] Toma em lugar operárias e camponesas, sob a bandeira vermelha revolucionária do vitorioso comunismo mundial.

[01:50:17] O mundo internacional

[01:50:21] será o tipo de paz.

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