Frontdaciência - T09E10 - Vida, Universo e tudo mais


Resumo

Este episódio, gravado ao vivo no Point of Science 2017, aborda as grandes questões sobre as origens da vida e do universo. Os pesquisadores Jorge Kielfel (Biofísica) e Thaisa Stork Bergman (Astrofísica) conduzem uma discussão interdisciplinar que parte da formação da Terra e do Sistema Solar, passando pelas condições únicas que permitiram o surgimento da vida em nosso planeta.

A conversa explora a hipótese da panspermia, mas rapidamente se concentra na origem autóctone da vida na Terra. São detalhados os elementos essenciais, como a presença de água líquida, a tectônica de placas que regula o CO2, a proteção oferecida pelo campo magnético e pela atmosfera, e os papéis estabilizadores da Lua e de Júpiter. Comparações com Vênus e Marte ilustram o quão especiais são as condições terrestres.

A perspectiva astrofísica amplia o debate, discutindo a síntese dos elementos fundamentais para a vida (carbono, oxigênio, nitrogênio) no interior das estrelas e a formação ubíqua de planetas na galáxia. O programa aborda o trabalho de telescópios como o ALMA e o satélite Kepler, que já confirmou milhares de exoplanetas, alguns na zona habitável de suas estrelas.

Por fim, os participantes refletem sobre a definição de vida, a robustez dos micro-organismos em condições extremas e os locais promissores para busca de vida dentro do nosso Sistema Solar, como Marte e as luas de Júpiter e Saturno. A discussão conclui com o impacto que a descoberta de vida extraterrestre, mesmo microbiana, teria para a biologia e nossa compreensão do universo.


Indicações

Conceitos

  • Panspermia — Hipótese de que a vida pode ter sido transportada para a Terra a partir de outro local do universo, seja acidental ou intencionalmente. Considerada uma ideia divertida, mas atualmente difícil de testar cientificamente.
  • Ciclo Carbonato-Silicato — Processo geológico regulado pela tectônica de placas que controla os níveis de CO2 na atmosfera terrestre a longo prazo, sendo um dos fatores cruciais para a estabilidade climática do planeta.
  • Zona Habitável — Região ao redor de uma estrela onde as condições de temperatura permitem a existência de água líquida na superfície de um planeta, um conceito central na busca por exoplanetas com potencial para abrigar vida.

Ferramentas

  • Telescópio Espacial Kepler — Satélite da NASA responsável por descobrir milhares de exoplanetas usando o método de trânsito, medindo minúsculas diminuições no brilho das estrelas quando um planeta passa à sua frente.
  • ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) — Conjunto de radiotelescópios no Chile que observa o universo em ondas milimétricas e submilimétricas, crucial para estudar nuvens moleculares, discos protoplanetários e a formação de estrelas e planetas.

Locais

  • Nuvem de Oort — Uma enorme nuvem esférica de objetos gelados que envolve o Sistema Solar, considerada a fonte de muitos cometas de longo período que ocasionalmente se dirigem para o interior do sistema.

Pessoas

  • Carl Sagan — Astrofísico e divulgador científico citado pela famosa frase ‘nós somos poeira de estrelas’, que sintetiza a ideia de que os átomos que nos constituem foram forjados no interior de estrelas.
  • Giordano Bruno — Frade e filósofo queimado na fogueira por defender, entre outras coisas, a pluralidade dos mundos habitados. Sua visão é mencionada como um prenúncio histórico da descoberta moderna de exoplanetas.

Linha do Tempo

  • 00:00:30Apresentação do tema: Origens, Vida e Universo — Os apresentadores introduzem o episódio, definindo o tema central como as grandes perguntas sobre de onde viemos e como chegamos aqui. Eles mencionam as duas formas de abordar a origem da vida: autóctone (surgida na Terra) ou por panspermia (transportada de outro lugar). A hipótese da panspermia é brevemente mencionada, mas considerada difícil de abordar cientificamente no momento.
  • 00:02:00Formação da Terra e a importância da água líquida — É descrita a formação da Terra há 4,6 bilhões de anos e o impacto gigante que formou a Lua. A conversa destaca a posição especial da Terra em relação ao Sol, permitindo a existência de água líquida. São explicadas as condições específicas de temperatura e pressão necessárias para que a água exista em estado líquido, um fluido essencial para a vida como a conhecemos.
  • 00:04:00Perspectiva astrofísica e formação de planetas — Thaisa apresenta a perspectiva em grande escala, explicando como estrelas e planetas se formam a partir de nuvens moleculares. Ela menciona observações do ALMA e do Hubble que mostram discos protoplanetários e a formação de sistemas planetários em outros lugares da galáxia. A conclusão é que a presença de planetas é uma regra, não uma exceção, no universo.
  • 00:06:00Condições favoráveis e desfavoráveis para a vida — A discussão aborda o pensamento catastrofista (de que a Terra é um acidente raro) e contrapõe com as condições que tornam a vida possível. As propriedades únicas da água são detalhadas, como seu ponto anômalo que permite a formação de uma camada de gelo isolante. São introduzidos os três pilares da astrobiologia moderna.
  • 00:08:00Tectônica de placas e regulação do CO2 — Jorge explica o papel crucial da tectônica de placas no ciclo do carbono (ciclo carbonato-silicato). Ele descreve como o CO2 vulcânico é removido da atmosfera ao ser dissolvido na chuva, reagir com rochas e ser subductado de volta ao manto. Este é um processo de controle natural de longo prazo que planetas como Vênus e Marte não possuem.
  • 00:10:00O papel do Sol e o tipo de estrela ideal — Thaisa discute a importância do tipo de estrela. O Sol, uma estrela amarela de massa intermediária, tem uma fase estável longa (bilhões de anos), essencial para o desenvolvimento da vida. Estrelas muito massivas (azuis) evoluem rápido e emitem radiação nociva, enquanto estrelas de baixa massa (vermelhas) forçam os planetas a uma órbita próxima que causa rotação travada.
  • 00:12:00Comparação com Vênus e Marte — Os planetas vizinhos são usados como contraste. Vênus tem uma atmosfera densa de CO2, causando um efeito estufa descontrolado e temperaturas extremas. Marte tem uma atmosfera rarefeita de CO2 e não tem tectônica ativa. A falta desses mecanismos reguladores os torna inóspitos, destacando a singularidade da Terra.
  • 00:14:00Proteções planetárias: campo magnético e atmosfera — São listadas as defesas da Terra: o campo magnético que desvia partículas solares ionizantes, e a atmosfera que bloqueia radiações como raios-X e UV (esta última graças à camada de ozônio). A atmosfera rica em oxigênio é destacada como uma consequência direta da vida (fotossíntese), não uma condição inicial.
  • 00:16:00A vida modifica o planeta e o Grande Evento de Oxidação — É enfatizado que a vida, uma vez estabelecida, altera profundamente o planeta. O Grande Evento de Oxidação, há 2,1 bilhões de anos, é citado como exemplo, quando algas fotossintéticas enriqueceram a atmosfera com oxigênio. Isso mostra uma relação dinâmica entre a biosfera e a geosfera.
  • 00:18:00Nucleossíntese estelar: a origem dos elementos da vida — Thaisa explica a origem dos átomos que compõem a vida. Após o Big Bang, só existiam hidrogênio e hélio. Elementos como carbono, oxigênio e nitrogênio foram forjados no interior das primeiras estrelas massivas e espalhados pelo universo quando elas explodiram como supernovas. Isso fundamenta a famosa afirmação de Carl Sagan de que ‘somos poeira de estrelas’.
  • 00:20:00A importância da Lua e de Júpiter — A Lua estabiliza a inclinação do eixo da Terra, garantindo estações regulares. Ela também atua como ‘guarda-costas’, absorvendo impactos de asteroides (como possivelmente ocorreu na cratera Tycho). Júpiter, por sua vez, protege o sistema solar interior ao atrair e capturar cometas com sua gravidade.
  • 00:22:00Ameaças cósmicas: supernovas e raios gama — São mencionadas ameaças externas à vida. Explosões de supernovas próximas podem emitir feixes direcionais de radiação gama, capazes de esterilizar um planeta. A localização da Terra na galáxia, longe de regiões muito densas ou de estrelas massivas jovens, é mais um fator de ‘sorte’.
  • 00:24:00Definindo vida e a abundância de seus ingredientes — Jorge propõe que a característica principal da vida é a capacidade de replicação. Ele argumenta que a vida na Terra é baseada nos átomos mais comuns do universo (H, C, O, N), o que sugere que sua ocorrência pode não ser tão incomum. Moléculas orgânicas complexas, como etanol, são encontradas em nebulosas no espaço.
  • 00:26:00Busca por vida: do Sistema Solar aos exoplanetas — O foco volta para a busca prática por vida. São listados nove corpos no Sistema Solar com água (mesmo que gelada), como Marte, Europa e Titã. Em seguida, é discutida a revolução dos exoplanetas, impulsionada pelo telescópio Kepler, que já confirmou milhares de planetas, incluindo alguns na zona habitável. O próximo passo é analisar a composição atmosférica desses mundos distantes em busca de bioassinaturas, como o ozônio.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2018-05-07T13:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência da Rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:08] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:11] Esse episódio foi gravado ao vivo durante o Point of Science em 2017, em Porto Alegre,

[00:00:17] com o Jorge Kielfel, do Departamento de Biofísica, da URX, e a Thaisa Stork Bergman, do Departamento

[00:00:23] de Astrofísica, também da URX.

[00:00:26] Tema intitulado Origens, Vida, Universo e todo o resto.

[00:00:30] Basicamente, as perguntas que a gente quer responder são daquelas perguntas mais ressoantes

[00:00:33] na história da humanidade, que é de onde viemos?

[00:00:36] Ou, para ser mais preciso, como é que nós viemos parar aqui?

[00:00:38] Tem duas formas de abordar a vida.

[00:00:40] A vida pode ter surgido aqui, autócnicamente, neste planeta, ou ter surgido em outro local

[00:00:45] e chegado aqui, transportado tanto acidentalmente quanto intencionalmente.

[00:00:50] Mas o tema da panspermia, ou seja, do transporte de vida pronta de um lugar para o outro, falar

[00:00:55] sobre ele é muito chato, porque a gente não sabe nem como a vida surgiu, como é que

[00:00:58] nós vamos discutir, como é que ela chegou aqui.

[00:01:00] Aliás, para abordar ela cientificamente, para poder elaborar hipóteses testáveis,

[00:01:04] eu precisaria ter alguns elementos.

[00:01:05] Portanto, a hipótese da panspermia é divertida de falar e acabou.

[00:01:08] Vamos deixar para o dia que a gente tiver alguma outra informação.

[00:01:11] Então, se ela surgiu neste planeta, os elementos estão todos dados, nós temos todas as condições

[00:01:15] aqui.

[00:01:16] E esses elementos que eu preciso enfatizar, essa história tem que ser bem longa, porque

[00:01:20] a vida ocupa esse planeta, e a gente sabe isso a partir dos dados da paleontologia

[00:01:23] e tudo mais, há bastante tempo.

[00:01:25] São bilhões de anos.

[00:01:27] A Terra tem 4,6, aproximadamente, bilhões de anos.

[00:01:31] Esse planeta surgiu junto com o Sol, junto com o resto semossolar, foi se formando por

[00:01:35] a cresção e acabou num lugar bastante especial no sentido que, para a nossa estrela, nós

[00:01:40] estamos na distância certa para nem ser quente demais, nem ser frio demais.

[00:01:45] Quando está muito perto, a gravidade interage de tal forma que a rotação vai diminuindo,

[00:01:49] diminuindo, leva tempo.

[00:01:51] Não para de girar completamente, ele começa a sincronizar com a translação, foi o que

[00:01:56] aconteceu com a nossa Lua, por isso que a nossa Lua é tão chata, e tem sempre a mesma

[00:01:59] cara pela noite que dá para ver ela, é uma rotação aprisionada.

[00:02:02] A Mercúria é um planeta perto do Sol que também tem rotação aprisionada e vê-nos

[00:02:06] bastante também, mas a Terra não.

[00:02:08] Então, a gente tem o calor, uma atmosfera com uma determinada pressão que permite ter

[00:02:12] água líquida.

[00:02:13] A água líquida é um fluido muito especial, ele precisa de certas condições de acontecer,

[00:02:17] uma janela de temperaturas e uma determinada pressão.

[00:02:20] Na Lua, em outros locais do Sema Solar onde não tem atmosfera, também tem água, mas

[00:02:25] ou congelada ou na forma de vapor.

[00:02:27] Então, na Terra, o que nós tínhamos há 4,6 milhões de anos era um desastre.

[00:02:32] No começo, ela estava se formando, era muito quente, era uma bola de lava, não tinha oceanos,

[00:02:37] não tinha água líquida, era quente demais.

[00:02:39] A medida que ela foi esfriando, e parece que isso aconteceu bem rápido, os últimos modelos

[00:02:42] mostram que isso aconteceu em 400 milhões de anos, inclusive, já teria até oceanos

[00:02:46] nessa época.

[00:02:47] Só que, quando estava há mais ou menos 4 bilhões de anos atrás, aconteceu um pequeno

[00:02:51] desastre.

[00:02:52] Um planeta do tamanho de Marte deu uma arrasante aqui perto e arrancou um pedaço da Terra.

[00:02:56] Esse pedaço da Terra estava voando e girou em torno da Terra e formou a Lua.

[00:03:00] Então, foi parida do ventre desse planeta, ela é feita de basalto, o mesmo que tem no

[00:03:04] manto aqui embaixo, que é uma área que a gente dá nome e tudo, mas a gente não tem

[00:03:08] nem ideia como é que é, porque a gente não desceu lá.

[00:03:10] Não dá para descer no manto, não tem como perfurar até lá.

[00:03:12] A atmosfera foi se acalmando e tal, no início era uma pressão bastante maior, inclusive

[00:03:16] diz que tinha oceanos de água gasosa, imagino que divertido que deveria ser, e nesse período

[00:03:20] de grandes reações químicas com as rochas, mais material orgânico vindo do espaço pode

[00:03:25] ter acontecido uma sucessão de reações químicas interessantes que estaria na origem

[00:03:29] da vida.

[00:03:30] Essa é a fonte do material orgânico que teria aqui no planeta, combinação de moléculas

[00:03:33] muito simples, como amônia, metano, CO2 e hidrogênio molecular, se combinando com atividade

[00:03:39] elétrica, calor, enfim, pH enorme, alto, baixo, mas também esse material não estava

[00:03:46] só que ele estava por todo o sistema solar, e ele estava caindo constantemente aqui,

[00:03:51] e aliás até hoje está caindo, só que hoje não cai tanto como naquela época, porque

[00:03:54] naquela época no comecinho tudo era muito mais sujo e poluído.

[00:03:57] Eu vou dar a perspectiva astrofísica não só do nosso planeta e do nosso sistema solar,

[00:04:03] mas em grande escala, então hoje em dia a gente pensa, é o nosso planeta tão especial?

[00:04:08] As observações astronômicas, o telescópio espacial com o ALMA, que é o Atacama lá

[00:04:13] de Milimétrica Ray, está detectando nuvens moleculares em todo lugar do universo, e

[00:04:19] a gente sabe então que a nossa estrela e os planetas se formaram de uma nuvem molecular,

[00:04:25] então a nuvem molecular é uma condição necessária.

[00:04:28] O que é a nuvem molecular?

[00:04:29] É uma nuvem de gás e moléculas, onde tem moléculas, e essa nuvem vai se contraindo

[00:04:34] para formar uma estrela lá no centro, e ao redor tudo gira, e pela conservação de momento

[00:04:41] molecular vai se achatando essa nuvem e a partir dessa nuvem se forma a estrela no centro

[00:04:47] e o sistema planetário ao redor.

[00:04:49] Então a gente tem teorias de como se formam esses planetas, e a beleza disso tudo é que

[00:04:54] a gente vê os nozinhos protoplanetários em imagens do Hubble, então a gente vê esses

[00:05:00] nozinhos que são mini sistemas solares nas nuvens moleculares, e o ALMA já mostrou também

[00:05:08] discos protoplanetários, onde a gente tem bastante poeira e mostrando gaps, que seriam

[00:05:14] intervalos no disco a partir do qual a gente vê como os planetas se formaram, que seria

[00:05:19] de conglomerações dentro do disco, e daí ele vai limpando a sua órbita e vai formando

[00:05:24] os planetas que ficam em órbitas quase circulares ou levemente elíticas em torno da sua estrela.

[00:05:31] Então as observações astronômicas mostram que isso que está acontecendo aqui na nossa

[00:05:36] Terra também acontece em outros lugares da galáxia e é claro em outras galáxias.

[00:05:42] A nossa galáxia tem 200, 400 bilhões de estrelas, e cada estrela parece ter planeta, então

[00:05:50] a presença de planetas, hoje em dia a conclusão é que é uma regra e não uma exceção,

[00:05:56] então a gente tem muito planeta e a gente está entendendo como eles se formam, se formam

[00:06:01] como a sobra da estrela, na verdade os planetas são uma fração minúscula da massa que

[00:06:08] se concentra na estrela, então nós somos uma poeirinha que sobrou da formação da

[00:06:12] estrela, mas nessa poeirinha, que é a Terra, é que se formou a vida, então esse assunto

[00:06:18] de origem da vida e procura de vida fora do sistema solar é algo que está se começando

[00:06:23] realmente fazer pesquisa científica a respeito.

[00:06:25] Nós temos que tentar entender como é que nós vamos parar aqui, muito bem, tem uma

[00:06:28] série de condições favoráveis, tem também muitas condições desfavoráveis, tanto é

[00:06:33] que durante séculos, predominou uma linha de pensamento chamado catastrofismo, que

[00:06:37] o que aconteceu na Terra era uma sucessão de coisas muito, muito, muito raras, e se

[00:06:42] nós estamos aqui é por uma dessas coisas muito, muito, muito raras, e se tu tem um

[00:06:46] pensamento norteado dessa forma pessimista, que tu depende de um monte de azar, tu provavelmente

[00:06:50] não espera encontrar outros por aí.

[00:06:52] Nessa história toda, como eu falei pra vocês, tem um elemento chave, um deles é a água,

[00:06:57] ela tem probabilidades únicas de uma molécula triatômica dessa faixa de peso molecular,

[00:07:01] ela faz coisas que nenhuma outra molécula parecida faz, nem a amônia, nem o metano,

[00:07:05] nem CO2, nem nada, nenhum deles faz isso, ela aguenta janelas temperaturas maiores na

[00:07:10] fase líquida quando dá, outros líquidos não fazem isso, e ela tem umas coisas esquisitas

[00:07:14] tipo ponto anômalo, que quanto mais tu aperta ela, mais difícil é congelar ela, graças

[00:07:18] a isso, quando está um inverno muito rigoroso, os lagos, os rios e até trechos do oceano

[00:07:23] congelam, mas faz uma capinha de gelo, aquilo também é um isolante térmico, e não congela

[00:07:28] até o fundo, então a água líquida é uma das condições pra isso, o problema é que

[00:07:31] a água líquida é muito rara, inclusive no nosso sistema solar, e é bom lembrar que

[00:07:34] tem três questões que são os pilares dessa astrobiologia atual, da exobiologia, os astrônomos

[00:07:41] e os astrofísicos e os físicos propunham a vida extraterrestre de forma inteligente

[00:07:45] lá em 1959, por quê?

[00:07:47] Porque era esperado que eventualmente podia ter vindo inteligente, se eles tivessem uma

[00:07:50] tecnologia que nem a nossa, eles poderiam emitir sinales de rádio e nós já tínhamos

[00:07:54] rádio telescópios, essa é a busca de inteligentes extraterrestre usando ondas de rádio, por

[00:07:58] aquilo que eu pareço essa foi a primeira hipótese científica da área, porque dava

[00:08:01] pra testar, é só ficar escutando se aparece algo, se tu testa e não dá certo não quer

[00:08:05] dizer que está errada a hipótese, quer dizer que é muito difícil testar, a questão da

[00:08:09] água é que na uma parte do sistema solar a água está congelada, ou ela é sólida

[00:08:12] ou ela evapora, ela sublima e vira um gás, nenhuma dessas duas formas é apropriada pra

[00:08:17] vida, todos os seres vivos conhecidos, que somos nós, e os micro-organizos que mandam

[00:08:21] nesse planeta, que é a maior parte da biomasa, vivem em ambientes aquosos e contêm ambientes

[00:08:25] aquosos internos em compartimentos diversos onde as reações bioquímicas, blá blá

[00:08:29] blá, vocês sabem, acontecem, isso é essencial, as propriedades da água garantem que isso

[00:08:33] funcione bem, a própria membrana define o que é célula, ela é mantida só porque

[00:08:37] existe água, é até meio perturbador saber que aquilo que define uma célula é algo que

[00:08:41] não tem estrutura própria, ele simplesmente é mantido organizado pela presença da água,

[00:08:47] então a gente pode dizer que a água é praticamente uma parte de nós, mas um segundo fator que

[00:08:50] tem nesse planeta é uma coisa chamada tectônica de placas, os nossos continentes estão andando

[00:08:55] pra lá e pra cá e batendo uns nos outros, esse movimento é de alguns centímetros por

[00:08:59] ano, esses movimentos todos se dão porque a terra elicoefeita a partir de uma certa

[00:09:03] profundidade que é no manto, e nós temos umas placas buiando aqui em cima e tal, existe

[00:09:07] calor que não se perdeu lá do comecinho da terra quando ela se formou, a causa disso

[00:09:12] são várias, mas entre outras, isótopos radioativos, e o fato da terra ser grande

[00:09:16] e levar mais tempo a esfriar que coisas menores, tectônica de placas é decisiva porque por

[00:09:20] incrível pareça é ela que nos protege do excesso de CEL2, a maior parte do CEL2 vem

[00:09:25] da terra através de vulcões, por sorte nós estamos vivendo um período muito tranquilo

[00:09:29] com poucos vulcões, só que nós estamos fazendo uma coisa muito parecida que é o vulcanismo

[00:09:32] humano, nós estamos produzindo muito CEL2 com máquinas, com combustão de combustíveis

[00:09:36] fósseis e blá blá blá, mas o fato é que seja 1, 5, 10, 15, 30 ou 70% da quantidade

[00:09:46] excessiva do CEL2 está vindo, se é de origem humana, não interessa, porque se o resto

[00:09:51] é de origem natural, espontânea e vem de vulcões, eu quero saber se alguém aqui conhece

[00:09:56] uma tecnologia capaz de botar rolo em vulcão, não existe ainda, então são essas coisas

[00:10:01] que não dá pra controlar, mas a tectônica de placas tem um truque legal no meio, no

[00:10:05] lugar que as placas se encontram no fundo dos oceanos, o fundo do oceano é atragado

[00:10:08] e levado de volta para o manto e ali é onde vai parar a maior parte do CEL2 que é jogado

[00:10:12] para fora pelos vulcões, ele é capturado na tonceira, ele dissolve na água da chuva,

[00:10:18] ele vira a chuva ácida, um pouquinho pelo menos, agora tem mais do que deveria, ele

[00:10:22] chove, ele reage com as rochas, ele é levado com as rochas, é carregado pelos rios até

[00:10:26] os oceanos, vai lá no meio do oceano, ele afunda e subduz, esse é um processo que leva

[00:10:30] milhões de anos, mas o fato é que esse é o nosso controlador do CEL2, a gente não

[00:10:34] tem como aumentar nem diminuir ele, mas a gente tem o controle sobre uma fração desconhecida

[00:10:40] que está sendo colocada ali.

[00:10:41] Essa questão da vida, o Sol, que é a nossa estrela, tem um papel muito importante, então

[00:10:46] além do Sol a gente tem estrelas muito mais massivas, estrelas azuis, estrelas muito

[00:10:52] menos massivas, que são as vermelhas, nós somos uma estrela amarela e a gente tem então

[00:10:57] essa temperatura superficial da ordem de 6 mil graus e isso faz com que nós aqui, a

[00:11:03] distância do Sol, conseguimos ter uma temperatura que é favorável para o desenvolvimento da

[00:11:08] vida.

[00:11:09] Além disso, o Sol tem um ciclo em que ele fica estável do jeito que ele está agora

[00:11:15] por bilhões de anos, então são 5 bilhões de anos que ele vai se manter estável do

[00:11:20] jeito que ele está e isso propicia que a gente tenha as condições necessárias para

[00:11:24] a vida prosperar.

[00:11:25] Então, além da gente ter todas essas condições químicas que o Jorge estava falando, a estrela

[00:11:31] é fundamental.

[00:11:32] Se a gente fosse um planeta em torno de uma estrela azul, essa estrela tem raio-x e ela

[00:11:37] evolui muito rapidamente, em 1 bilhão de anos ela já virou uma gigante vermelha atmosfera,

[00:11:42] já queimou todos os planetas, assim como o Sol vai queimar a gente, mas daqui a 4,5

[00:11:46] bilhões de anos.

[00:11:47] Então, a gente precisa que a estrela seja a massa uma vez e meia, no máximo maior que

[00:11:52] a massa do Sol e no mínimo meia vez a massa do Sol, porque daí a gente tem uma estrela

[00:11:57] vermelha que tem pouca radiação, é fria e daí o planeta tem que ficar muito perto

[00:12:01] e daí ocorre aquele efeito que o Jorge falou, que fica a face do planeta sempre virada

[00:12:07] para a estrela e isso não é propício para a vida, então o tipo de estrela é bem importante.

[00:12:13] Tem mais coisas assim, na verdade, que é o nosso fatores de sorte.

[00:12:16] Eu falei do CO2, quem remove o CO2 da nossa atmosfera é esse sistema que se chama ciclo

[00:12:21] dos carbonatos silicatos.

[00:12:23] Agora, a gente não tem controle na saída, mas tem o controle na entrada.

[00:12:26] A entrada é tão grande que em outros planetas, de fato, esse é o gás que predomina.

[00:12:30] Vejam, nós temos dois planetas vizinhos próximos do tamanho da Terra, que é Vênus e Marte.

[00:12:35] A atmosfera de Vênus tem 95% de CO2.

[00:12:39] Na Terra, nós tínhamos uma média de 0,03% de CO2.

[00:12:45] O problema é que a gente está aumentando para 0,04%, o que esse ponto global é três

[00:12:49] casas depois da vírgula e nós estamos fazendo um planeta que tem quase 100% de CO2.

[00:12:54] Vênus não só é isso, ele está tão perto do Sol que essa combinação do gás de feito

[00:12:58] estufa na atmosfera, que ajuda a reter o calor, a distância menor da estrela faz com que

[00:13:03] a superfície de Vênus acabe se esquentando demais e a atmosfera também.

[00:13:07] De fato, por causa disso, a atmosfera de Vênus é mais ou menos 90 atmosferas de pressão

[00:13:12] daqui.

[00:13:13] É o equivalente ao túnel gulhar 900 metros de profundidade e ser esmagado imediatamente

[00:13:17] por essa pressão.

[00:13:18] Essa é a pressão na superfície de Vênus, que tem uma temperatura média de 450 graus.

[00:13:23] Agora, a combinação disso mais um predomínio de ácido sulfúrico na atmosfera completa

[00:13:28] o quadro.

[00:13:29] Então, Vênus é um lugar bastante desconfortável, quente para burro, com uma pressão enorme

[00:13:32] e ácido, ou seja, muito parecido com Porto Alegre em fevereiro.

[00:13:36] Marte também tem 95% a 96% de CO2, mas é uma atmosfera bem rarefeita.

[00:13:40] Ambos os planetas não têm como remover o CO2 porque eles não têm tecnônica de placas.

[00:13:44] Podem ter lutido no passado, mas não tem mais.

[00:13:47] Mas Marte tem 6 milésimos da pressão atmosférica, que é bem num lugar chamado ponto tríplice

[00:13:52] da água, que é a temperatura, a pressão abaixo da qual a água ou é gelo ou é gás.

[00:13:57] Acima disso, a água é trilegal, porque ela pode ser líquida também.

[00:14:00] Então, com a pressão da atmosfera de Marte exatamente essa e a temperatura é bem abaixo

[00:14:05] de zero, quando ela flutua ao longo das estações, Marte pode ter água líquida, mas de vez

[00:14:09] em quando tem mais.

[00:14:11] Nós temos proteção planetária.

[00:14:13] Primeiro, nós temos um campo magnético.

[00:14:15] Marte não tem, Vênus não tem, que nos protege de partículas vomitadas pelo Sol, que são

[00:14:20] íons, cargas, átomos ionizados, que são jogados em uma enorme velocidade, eles são

[00:14:24] radiação ionizante e fazem um mal danado.

[00:14:27] Felizmente eles não chegam na superfície do planeta, porque o campo magnético pega,

[00:14:31] puxa eles para fora e joga eles para os polos.

[00:14:33] Segundo, nós temos também uma atmosfera que nos protege de outras radiações malvadas

[00:14:36] do Sol, como o raio-x, boa parte do ultravioleta, que é por causa da camada de ozônio, mas

[00:14:41] também a nossa ionosfera nos protege de várias dessas radiações, inclusive o raio-x do

[00:14:44] Sol.

[00:14:45] Mas o fato é que esse ozônio que está aí, ele nos traz um outro fato importante.

[00:14:49] Nós só temos uma camada de ozônio bem fininha, 40 km de altura, porque aqui embaixo temos

[00:14:54] oxigênio.

[00:14:55] A nossa atmosfera não é de 90% de CO2, ela é de 70% de nitrogênio.

[00:14:59] Ela é 21% de oxigênio, e depois tem argônio, e o resto todo é quase nada, inclusive o

[00:15:05] CO2, mas é um quase nada que faz um estrago danado, sendo um pouquinho mais que quase

[00:15:09] nada.

[00:15:10] Esse oxigênio que tem na Terra adora reagir, ele é muito oxidante.

[00:15:13] Então a atmosfera terrestre é instável, nenhuma atmosfera fica com tantos por cento

[00:15:17] de oxigênio se não tiver alguém botando esse oxigênio lá.

[00:15:20] Você sabe quem bota o oxigênio na Terra?

[00:15:22] Os seres vivos.

[00:15:23] As algas fotossintéticas e plantas colocam o oxigênio que a gente respira.

[00:15:27] Não era sempre assim.

[00:15:28] Na origem da vida, não tinha quase nada de oxigênio nesse planeta, isso era fundamental

[00:15:32] porque o oxigênio ia oxidar qualquer tentativa de juntar moléculas para fazer algo mais

[00:15:36] complicado.

[00:15:37] Mas depois que ela surgiu, aprendemos a se defender com coisas como bactérias, xenofíscias

[00:15:40] e outras que são capazes de lidar com esse excesso de oxigênio, que viraram as nossas

[00:15:43] mitocôndrias, aí a gente aprendeu a se defender deles.

[00:15:46] Há mais ou menos 2,1 bilhões de anos atrás aconteceu o maior espetáculo da Terra, o

[00:15:52] grande evento de oxidação.

[00:15:54] Do repente, começou a entrar oxigênio na atmosfera mais rápido que ele era atirado,

[00:15:58] mais rápido que ele reagia, porque algas fotossintéticas se multiplicaram demais nos

[00:16:02] oceanos e começaram a liberar bolhas nesse oceano, reagindo com os sais que tinha lá

[00:16:06] de ferro, começaram a precipitar um monte de ferrinho oxidado, vermelhinho, e essa oxigênio

[00:16:11] acumulou, acumulou, vazou a atmosfera e subiu até 2%.

[00:16:15] 10 menos menos do que tem hoje, tu não conseguiria respirar com 2%, e assim ficou

[00:16:19] um bom tempo.

[00:16:20] Então, a Terra tem uma atmosfera que é consequência da vida nela, isso é muito importante porque

[00:16:24] dá uma outra propriedade à vida, a vida não só surge se as condições são dadas,

[00:16:27] ao momento que ela surge, ela define novas condições, inclusive em escala planetária,

[00:16:31] geológica e até astronômica.

[00:16:33] O que eu gostaria de acrescentar, então, no grande cenário, a vida precisa da água,

[00:16:38] do nitrogênio, do oxigênio, de todos esses elementos, e quando é que surgiram esses elementos?

[00:16:44] A gente sabe que o universo, no início, no Big Bang, só existia energia, depois se formaram

[00:16:49] as primeiras partículas, e quando o universo tinha 380 mil anos, bem no seu início, é

[00:16:54] que se formaram os primeiros átomos, só que os únicos átomos que foram possíveis de

[00:16:59] se formar no universo primordial, foi hidrogênio e hélio, então, naquela época, não podia

[00:17:04] ter vida no universo.

[00:17:05] E um pouquinho de lítio também.

[00:17:07] É, então, pequenos traços de lítio existiam também, e nada acontecia, daí a gente tem

[00:17:12] uma época que a gente chama era da escuridão.

[00:17:14] O que que funcionou naquela época, funcionou a gravidade, a inexorável gravidade, e foi

[00:17:20] começando a juntar esse hidrogênio e hélio em nuvens, e essas nuvens acabaram dando origem

[00:17:27] às galáxias, mas, ao mesmo tempo, dentro das galáxias, as nuvens se compactaram, cada

[00:17:32] vez esquentando mais o seu centro, até que a temperatura era tão alta que começou reações

[00:17:38] nucleares.

[00:17:39] Nesse momento, hidrogênio começou a fundir em mais hélio, e nesse instante se forma

[00:17:44] uma estrela.

[00:17:45] Gera energia, essa energia faz, então, essa estrela começar a brilhar.

[00:17:49] E, no começo, as estrelas eram enormes, muito maior que o Sol, tinham mil vezes a massa

[00:17:55] do Sol, e quanto mais massiva é uma estrela, quanto mais massa ela tem, mais rapidamente

[00:17:59] ela evolui.

[00:18:00] Então, as primeiras estrelas que a gente chama estrelas de geração 3, de população

[00:18:05] Eram as primeiras estrelas do universo que evoluíram rapidamente, e o que acontece dentro

[00:18:09] da estrela?

[00:18:10] Depois de ela sintetizar hélio, três hélios vão dar o carbono, depois do carbono mais

[00:18:15] um hélio dá um oxigênio, um nitrogênio, então, os elementos primeiros a ser formados

[00:18:21] e que acabam dando a maior abundância do universo, depois do hidrogênio e o hélio,

[00:18:25] é justamente aqueles que levam a vida, o carbono, o oxigênio, o nitrogênio, então,

[00:18:31] esses elementos são bem importantes e formados mais ou menos no início, quando começaram

[00:18:35] as reações nucleares.

[00:18:36] Na verdade, sintetiza até o ferro e depois a reação não gera mais energia, mas ela

[00:18:42] puxa a energia da estrela, a estrela para de brilhar e a estrela colapsa, o caroço comprime

[00:18:47] e a parte externa é ejetada, e essa parte externa, ela já está enriquecida, então,

[00:18:52] de carbono, oxigênio, nitrogênio, e é assim que surgem os primeiros elementos, por isso

[00:18:58] que tem aquela famosa frase do Carl Sagan, que nós somos poeira de estrelas, cada átomo

[00:19:04] que constitui as nossas células foi sintetizado no centro de uma estrela e pode ser que a

[00:19:09] gente tenha átomos de diferentes estrelas, porque as estrelas se formam e depois explodem,

[00:19:14] novas gerações se formam daquele material enriquecido e somente após o universo ter

[00:19:20] cinco bilhões de anos que a composição química foi adequada para formar um planeta

[00:19:25] como a Terra, então, a gente precisa ter estrelas para sintetizar os elementos que

[00:19:30] nos formam.

[00:19:31] É interessante porque eu estava mencionando antes a origem da Lua, ela não disse qual

[00:19:35] é a utilidade dela, ela tem várias utilidades, uma delas é que a gravidade dela, a massa

[00:19:40] dela é tão grande que é suficiente para ajudar a controlar os próprios movimentos

[00:19:44] da Terra, então a Terra, por exemplo, tem um eixo inclinado em relação ao plano em

[00:19:48] que orbita o Sol, graças a isso nós temos estações, mas não muito radicais, então

[00:19:53] a Lua serve para estabilizar o eixo de rotação da Terra e as estações são regulares ao

[00:19:58] longo de milhões de anos, Marte, por exemplo, tem uma inclinação bem parecida com a terrestre,

[00:20:02] mas ele não tem uma Lua grandona, ele tem duas Luas, Phobos e Deimos, por isso o eixo

[00:20:06] de Marte fica fazendo isso aqui, o que é mais fácil, as gerações sucessivas de animais

[00:20:10] terem estações previsíveis de 6 em 6 meses ou tem um inverno de vez em quando, um verão

[00:20:15] de 50 anos, depois um inverno de 5 mil anos, enfim, tudo aleatório, não é possível fazer

[00:20:19] essa seleção estável e regular em um ambiente tão variável, então esse é um das consequências

[00:20:24] da Lua, o outro é que a Lua é o nosso guarda-costas, ele leva porradas por nós, todo mundo ouviu

[00:20:28] falar da teoria dos Álvares, pai e filho, que é a teoria de que um meteorito gigante

[00:20:32] de em torno de 10 quilômetros caiu a 65 milhões de anos e promoveu a extinção dos dinossauros,

[00:20:37] essa teoria é parcialmente verdadeira, existem outros fatores que estavam acontecendo na

[00:20:40] época, como o super vulcanismo bem importante, que provavelmente se juntaram os dois fatores,

[00:20:44] mas esse meteorito levantou tanta matéria e escureceu a atmosfera do planeta inteiro

[00:20:48] e também promoveu um inverno que durou milhares de anos, que deve ter extinguído boa parte

[00:20:52] da vegetação superficial e levado pela fome a morte de muitas espécies herbívoras e

[00:20:56] na sequência todo o resto, então foi uma extinção maciça na vida terrestre que, como

[00:21:00] todos sabem, permitiu nós estar aqui nesse bar hoje à noite, com mamíferos, falantes

[00:21:04] e bebedores, os répteis são mais quietos e não bebem tanto, bom, que eu estou contando

[00:21:09] isso, por quê?

[00:21:10] Se tu olhar a Lua do lado direito e inferior, aqui no Misfério Sul, tem uma cratera enorme

[00:21:14] cujas raias chegam a atravessar ela toda, essa cratera se chama Ticho, essa cratera

[00:21:18] tem 65 milhões de anos, ela foi causada por um objeto, provavelmente um companheiro do

[00:21:22] asteróide que extinguiu os dinossauros, mas isso é uma hipótese, não tem como comprovar

[00:21:26] porque a datação de crateras lunares é até mais difícil que a datação de crateras

[00:21:30] terrestres, mas é possível, então, em vez de levar dois asteróides, levamos só um,

[00:21:34] mas tem outro cara que nos ajuda, porque muita coisa grande vem de fora do sistema solar,

[00:21:37] essa poluição que tinha no início da formação do sistema solar, com um monte de coisa caindo

[00:21:40] em cima da terra, enfim, aquele fuzuê danado, né, era muito poluído, muitas coisas secretando

[00:21:45] ainda e, portanto, era muito ruim fazer planos de longo prazo, mas lá pra fora o sistema

[00:21:49] solar ainda está desorganizado mais ou menos como era aqui, só que a densidade, infelizmente,

[00:21:53] é mais baixa, existe uma coisa chamada nuvem de Hort, onde estão muitos cometas, volta

[00:21:57] e meia algum cara é desviado e vem cair aqui, pode cair na Terra, por sorte, nós temos um

[00:22:01] guarda-coças mais eficiente que a Lua, que é Júpiter, e Júpiter engole pra nós vários

[00:22:06] cometas, então, tu tem que ter um sistema solar com grandalhões pra te proteger, com

[00:22:10] luas aqui na volta pra dar uma assegurada e ainda te estabilizar, uma atmosfera pra

[00:22:13] ter água líquida, em uma distância certa do planeta é uma série de condições, mas

[00:22:17] mesmo assim, tu tem que ter mais sorte, se tu estiver num lugar muito povoado, por exemplo,

[00:22:20] mais perto do centro da galáxia, tem estrelas demais por perto, tu vai ter mais cometa caindo

[00:22:24] na tua cara, porque tem mais perturbações na nuvem de Hort, isso é ruim, mas tem coisas

[00:22:27] piores, tu pode estar perto de estrelas jovens e grandes, essas estrelas maiores duram menos

[00:22:32] tempo, mas fabricam, na sua vida, boa parte da tabela periódica e no instante final,

[00:22:37] em segundos, o resto da tabela periódica.

[00:22:39] Aproveitar o gancho aqui pra dizer que onde a gente tem uma explosão de supernova, no

[00:22:43] instante da explosão a gente tem a emissão de radiação gama, e a radiação gama é

[00:22:47] só bem direcionada, então, se a gente tiver o azar de estar na direção do feixe de radiação

[00:22:53] gama, também é fatal pra vida na Terra, então, até tem algumas sinais de extinção

[00:22:58] que pode ser explicada por uma estrela supernova que teria explodido e que a radiação gama

[00:23:03] veio na nossa direção.

[00:23:04] Raio gama é muito ruim, se um planeta estiver na direção dessa explosão de raio gama,

[00:23:08] você pode esterilizar toda uma face do planeta, completamente.

[00:23:11] Como o planeta vai ter vida do outro lado e a atmosfera vai continuar, vai ser um desastre

[00:23:14] igual.

[00:23:15] Então, a nossa sorte é o quarto fator, além da água líquida, além da proteção da tectônica

[00:23:21] de placas que controla o CO2, da proteção planetária do campo magnético da atmosfera

[00:23:25] e dos grandalhões, a Lua e Júpiter, nós temos muita sorte.

[00:23:29] Talvez os católicos surfistas não estejam tão errados assim, mas tem mais um fator

[00:23:32] que é importante.

[00:23:33] Tempo.

[00:23:34] A Lua já tem 4,6 bilhões de anos e estima que a vida possa ter surgido lá no primeiro

[00:23:38] bilhão de anos.

[00:23:40] Difícil dizer, mas com certeza a vida está nesse planeta há pelo menos 3 a 3,2 bilhões

[00:23:45] de anos.

[00:23:46] O último bi é dúvida.

[00:23:47] As estrelas muito grandes e quentes, como as gigantes azuis e brancas e outras, duram

[00:23:50] apenas alguns milhões de anos.

[00:23:52] Alguém espera que a vida surja, se desenvolva e faça algo interessante nesse pouco tempo?

[00:23:56] Que me leva à última pergunta que eu vou fazer para ela.

[00:23:59] O que é vida, afinal?

[00:24:00] Para mim, a principal característica da vida é quando a gente tem um monte de moléculas

[00:24:04] que começam a adquirir a capacidade de se replicar.

[00:24:07] Isso é uma das características principais da vida, começar a se multiplicar e daí

[00:24:12] criar um organismo.

[00:24:13] Esse é o modelo dominante, na verdade elas também tem que fazer metabolismo e tem que

[00:24:17] também se isolar do ambiente para sobreviver à termodinâmica.

[00:24:19] Mas assim, basicamente todos os seres vivos na Terra não só têm os mesmos ácidos nucleicos

[00:24:24] e aminoácido na sua composição básica, eles são compostos a partir dos quatro átomos

[00:24:28] mais comuns que existem.

[00:24:29] Se você tem um universo onde o terceiro átomo mais comum é o carbono, o quarto é o oxigênio

[00:24:34] e o sétimo é o nitrogênio, hidrogênio ainda é o que mais tem, esperar coisas feitas

[00:24:39] disso não é tão incomum.

[00:24:40] Então, se alguém quer imaginar qual é o melhor argumento para esperar ter vida aí fora,

[00:24:44] é esse, da quantidade de disponibilidade dos materiais.

[00:24:46] A água está em toda parte, tem nebulosas inteiras de água, tem ácido fórmico, que

[00:24:50] é aquele que as formigas injetem na gente que dói, etanol, vejam que interessante,

[00:24:54] uma nebulosa de etanol.

[00:24:55] É difícil de beber porque é muito raro efeito, é que ficar com a boca aberta durante milhões

[00:24:59] de anos para tomar um gole, mas é possível.

[00:25:03] Isso leva ao tema, porque ela está mencionando os exoplanetas, porque de fato a astrobiologia

[00:25:06] atual tem três eixos, o estudo de micro-organismos, que é o que se espera se acontecer vida

[00:25:10] em outros lugares, que seja na forma de micro-organismos, que se descobriu ser também bastante robustos

[00:25:15] e resistentes e vivem em condições extremas, temperaturas muito altas ou muito baixas,

[00:25:18] até 113 graus Celsius no fundo do mar ou até 15 graus abaixo de zero, em pH próximo

[00:25:24] de zero, ou muito básico, em pressões de milhares de atmosferas e com radiações cinco

[00:25:29] mil vezes maiores do que o suficiente para matar um ser humano.

[00:25:32] Tudo isso existe em micro-organismos que não estão nem aí, isso foi o que trouxe os biólogos

[00:25:35] para a astrobiologia, porque até então os biólogos não acreditavam que a vida era

[00:25:38] tão robusta.

[00:25:39] Quando eles apareciam nos anos 70, eles disseram bom, então dá para ter vida aí fora, a questão

[00:25:43] é achar água.

[00:25:44] Já tem nove lugares além da Terra onde sabemos que tem água, embora congelada.

[00:25:48] Esses lugares são Marte, Ceres, um asteroide, Plutão também tem gelo, tem três luas grandes

[00:25:55] de Júpiter, que é Europa, Ganymede e Calixto, tem duas luas certamente das 67 que tem em

[00:26:01] Saturno, que é em Celadu, a mais interessante, mas também Titã, que é a mais notável

[00:26:05] porque ela tem uma atmosfera com a pressão, que é parecida com a terrestre, só que a

[00:26:08] fibra burro, então não esqueçam.

[00:26:09] E por fim, esses são os lugares interessantes de sistema solar.

[00:26:12] Então nós temos onde procurar a possibilidade de vida aqui, que pode ou não ser independente

[00:26:16] da nossa.

[00:26:17] O próximo passo são os planetas que tem a mais.

[00:26:19] Um satélite muito legal que está trazendo um monte de conhecimento para a gente é o

[00:26:23] satélite chamado Kepler, que consegue detectar a presença de planetas ao redor de estrelas.

[00:26:29] Então tem uma região da Via Láctea, que o satélite Kepler está apontando constantemente,

[00:26:34] medindo a radiação das estrelas naquela região.

[00:26:37] E o fato de o brilho do planeta diminuir um milionésimo, periodicamente, revela a presença

[00:26:44] de um planeta.

[00:26:45] Se você tem essa repetição, você consegue concluir que é um planeta que está passando

[00:26:49] na frente da estrela, você conclui qual é a órbita, qual é a massa dele, e a gente

[00:26:53] tem já 2.300 e poucos planetas confirmados, tem mais de 4 mil ainda a ser confirmados,

[00:27:02] e esse número só cresce, e o Kepler aponta para uma região minúscula da Via Láctea.

[00:27:07] Então ele escolheu porque ele precisa fazer curvas de luz, ele tem que repetir as observações

[00:27:11] para ver a variação de brilho periódico.

[00:27:14] 21 desses 2.300 estão na distância da estrela propícia à vida, como nós conhecemos, porque

[00:27:21] elas estão na zona de habitabilidade da estrela, que é onde tem água líquida, a temperatura

[00:27:27] fica entre 0 e 100 graus, então ali é a zona propícia de ter vida.

[00:27:32] E agora um outro estágio é a procura de sinais da composição química desses planetas.

[00:27:39] A gente encontra que a maioria das estrelas tem planetas, então nós temos 200 bilhões

[00:27:44] de estrelas, e se cada estrela tem mais de um planeta, é mais de 200 bilhões de planetas, né?

[00:27:49] Então tem um problema, eles estão longe, paca, mas muito longe, isso vai nos alimentar

[00:27:53] da discussão da última pergunta da noite, depois a gente pode discutir que é a história

[00:27:56] dos discos, ovnis, essas porcaria que o pessoal alega ali, que aliás saíram de moda, porque

[00:28:01] depois que o celular popularizou, desapareceram fotos de ovnis, quando todo mundo está de

[00:28:07] Vejam, há 22 anos atrás se conheciam 9 planetas no universo, porque Plutão ainda era um planeta.

[00:28:13] Jordano Bruno foi queimado na fogueira em Praça Pública por defender que havia a pluridade

[00:28:17] dos mundos habitados, escreveu toda uma teologia baseada nisso, foi queimado vivo e não renegou,

[00:28:21] e ele dava certo, só que a gente levou daquela época até 20 anos atrás para ter certeza

[00:28:26] desses planetas, porque a demonstração deles não é trivial, eles são pequenos, não

[00:28:30] emitem luz própria, refletem apenas e deve ter um avanço técnico para chegar lá, isso

[00:28:33] a gente conseguiu, mas tem um lado ruim, como está muito longe, mas muito, muito, muito

[00:28:39] longe, a gente pode não ficar muito feliz com o resultado, ou seja, a gente vai examinar

[00:28:44] a atmosfera e tem moléculas interessantes, por exemplo, se tiver o zônio na atmosfera,

[00:28:48] é porque tem oxigênio na atmosfera, nós não conhecemos nenhum processo na Terra que

[00:28:51] faz oxigênio inorganicamente, pode até existir, mas não conhecemos, vai ser um baita de um

[00:28:55] passo, nós podemos chegar a descobrir a composição de uma atmosfera que tipo, não tem outra

[00:28:59] explicação, tem que ter vida lá, e vai ficar nisso.

[00:29:02] A aposta mais legal é pesquisa no sistema solar, porque aqui tem muitos lugares interessantes,

[00:29:07] ir num outro planeta e estudar a vida da microscópia pode ser fascinante, qualquer outra forma

[00:29:11] de vida encontrada vai ensinar mais para a biologia terrestre do que para a própria

[00:29:15] astronomia, a biologia que vai aprender, porque vai entender muito mais os seus limites, as

[00:29:18] suas condições, então quem deveria estar ansiando muito por esse tipo de informação

[00:29:21] são os biólogos, eu sei que vários estão, porque é um dos temas mais fascinantes que

[00:29:25] tem, que vai responder de onde viemos e talvez até para onde vamos, o que diabos tem aí,

[00:29:30] então, a gente tem muito para aprender e a ciência é quem talvez tenha permitido

[00:29:33] a gente aprender mais sobre isso, aí ela só nos ensinou ainda a fazer uma coisa que

[00:29:37] é a mais importante de todos, que é viver em paz, que é possível com álcool, mas é

[00:29:41] também possível sem álcool.

[00:29:42] Esse episódio foi gravado ao vivo durante o Point of Science de 2017 em Porto Alegre

[00:29:54] com Jorge Killfield do Departamento de Biofísica e Thais Stockbergman do Departamento de Astrofísica,

[00:30:01] ambos da URGAS.

[00:30:02] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGAS.