Frontdaciência - T09E11 - Extremófilos e Astrobiologia


Resumo

Neste episódio do Fronteiras da Ciência, o professor Rubens Tadeu Delgado Duarte, especialista em microbiologia de extremófilos da UFSC, discute sua trajetória acadêmica e pesquisa com micro-organismos que vivem em condições extremas de frio, os psicrófilos. Ele detalha seu trabalho com permafrost da Antártica, realizado durante seu doutorado com a professora Vivian Pelisari e um estágio sanduíche na Rússia com o renomado David Gelichinsky, pioneiro no estudo da microbiota de permafrost.

A conversa explora as adaptações dos psicrófilos, como a produção de proteínas anticongelantes (AFPs) que impedem o congelamento da água intracelular, e a importância do permafrost como um “freezer natural” que preserva material biológico por milhares ou milhões de anos. O professor Rubens explica como o estudo desses micro-organismos não só avança a astrobiologia, ao servir como análogo para a busca de vida em ambientes frios como Marte e luas geladas, mas também contribui para a compreensão das mudanças climáticas ao analisar bactérias preservadas em diferentes eras geológicas.

O episódio aborda a diversidade de extremófilos (termófilos, halófilos, etc.) e debate por que os psicrófilos são especialmente relevantes para a astrobiologia, dado que a maior parte da biosfera terrestre e do cosmos é fria. A discussão se expande para a possibilidade de vida em refúgios marcianos, luas como Europa e Encélado, e o conceito de panspermia balística, onde micro-organismos extremófilos poderiam ser transportados entre planetas via meteoritos.

Por fim, são discutidos os desafios técnicos e de contaminação em missões de perfuração em busca de vida (como no Lago Vostok ou em luas distantes), a durabilidade do DNA em ambientes congelados e os bioindicadores atmosféricos (como oxigênio e metano) que poderiam sinalizar a presença de vida em exoplanetas. O professor Rubens encerra expressando otimismo de que a questão da vida em Marte pode ser respondida em um futuro não muito distante.


Indicações

Conceitos

  • Permafrost — Solo permanentemente congelado por dois anos ou mais, podendo ter milhares ou milhões de anos. Atua como um ‘freezer natural’ que preserva material biológico. É estudado na Antártica, Sibéria e também existe em regiões de alta altitude como os Andes.
  • Proteínas Anticongelantes (AFPs) — Moléculas produzidas por micro-organismos psicrófilos para impedir o congelamento da água dentro e fora da célula em temperaturas abaixo de zero, analogias ao anticongelante de radiadores de carro.
  • Panspermia Balística — Hipótese de que a vida pode ser disseminada entre planetas através do transporte de micro-organismos extremófilos no interior de rochas ejetadas por impactos de asteroides.
  • Bioindicadores Atmosféricos — Gases na atmosfera de um exoplaneta, como oxigênio ou metano em desequilíbrio químico, que podem ser sinais indiretos da presença de vida. O oxigênio na atmosfera terrestre é um produto da atividade de micro-organismos fotossintetizantes.

Locais

  • Lago Vostok — Lago subglacial na Antártica, coberto por cerca de 4 km de gelo. Citado como um análogo terrestre para os oceanos subsuperficiais de luas como Europa, e cuja perfuração apresenta enormes desafios técnicos e de contaminação.

People

  • David Gelichinsky — Referenciado como um dos maiores especialistas em microbiota de permafrost. Trabalhou com o convidado na Rússia e foi pioneiro em técnicas de coleta asséptica. Conseguiu reviver uma planta de 30 mil anos a partir de sementes preservadas no permafrost.
  • Vivian Pelisari — Professora orientadora do convidado durante seu doutorado na USP, pioneira na área de astrobiologia e no estudo de micro-organismos psicrófilos.
  • Douglas Galante, Fábio Rodrigues, Ivan Paulino Lima — Colegas pesquisadores brasileiros citados por realizarem experimentos demonstrando que extremófilos como Deinococcus radiodurans podem sobreviver às condições do espaço, suportando a hipótese da panspermia balística.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao programa e ao convidado Rubens Tadeu Delgado Duarte — O apresentador Jorge Quillfe apresenta o programa Fronteiras da Ciência e o convidado, professor Rubens Tadeu Delgado Duarte da UFSC, especialista em extremófilos. É destacada sua trajetória acadêmica, incluindo doutorado com Vivian Pelisari, estágio na Rússia com David Gelichinsky e participação em missões antárticas. O objetivo é explorar sua carreira e trabalho.
  • 00:01:12Trajetória acadêmica e interesse inicial por astrobiologia — O professor Rubens conta como entrou no curso de Ciências Biológicas na UEL motivado por perguntas fundamentais sobre a vida. Seu interesse por astrobiologia o levou ao doutorado com a professora Vivian Pelisari na USP, onde estudou micro-organismos extremófilos da Antártica. Ele também relata seu estágio sanduíche na Rússia com David Gelichinsky, aprendendo técnicas de coleta asséptica de permafrost.
  • 00:04:00O que é ecologia molecular e sua aplicação — Rubens explica o conceito de ecologia molecular, que usa DNA para identificar micro-organismos em ambientes, superando as limitações da identificação morfológica ou por cultivo. É como um “teste de paternidade” para bactérias, permitindo catalogar a diversidade microbiana em amostras ambientais complexas como o permafrost.
  • 00:05:46Adaptações dos psicrófilos e a importância da água líquida — O convidado detalha como os micro-organismos psicrófilos sobrevivem em temperaturas abaixo de zero, principalmente através da produção de proteínas anticongelantes (AFPs) que impedem o congelamento da água intracelular. Ele enfatiza que o consenso na astrobiologia é seguir a água líquida, pois ela é essencial para os processos bioquímicos da vida. A conversa também menciona o feito de David Gelichinsky em reviver uma planta de 30 mil anos a partir de sementes preservadas no permafrost.
  • 00:07:38Definição e características do permafrost — É explicado que permafrost é solo permanentemente congelado por dois anos ou mais, podendo ter milhares ou milhões de anos. Discute-se como ele se forma, sua profundidade variável (mais rasa em regiões mais quentes) e seu papel como um “freezer natural” que preserva material biológico. A conversa também aborda a existência de permafrost em regiões de alta altitude, como os Andes, e não apenas nas regiões polares.
  • 00:11:25Relação entre estudo do permafrost e mudanças climáticas — Rubens explica que sua pesquisa com permafrost da Antártica (com amostras de 2500 a 7500 anos) visa entender como as comunidades microbianas respondem a mudanças climáticas passadas, como um aquecimento ocorrido há cerca de 4800 anos. Identificar quais bactérias surgiram ou foram extintas nesses períodos pode auxiliar projeções sobre mudanças climáticas atuais e futuras.
  • 00:13:59Importância dos psicrófilos para a astrobiologia — O professor argumenta que os psicrófilos são especialmente interessantes para a astrobiologia porque a Terra é, em grande parte, um planeta frio (80% da biosfera está a 5°C ou menos) e a maior parte do cosmos também é fria. Portanto, a vida em ambientes frios pode ser a regra, não a exceção, no universo. Ele também comenta que, sem o efeito estufa, a temperatura média da Terra seria de -15°C.
  • 00:16:25Possibilidade de vida em Marte e outras luas — É discutida a possibilidade de existir vida em refúgios marcianos, como cavernas, onde micro-organismos poderiam sobreviver protegidos da radiação e aproveitar ciclos de descongelamento. A conversa se estende para luas como Europa e Encélado, que possuem oceanos líquidos sob crostas de gelo. A presença de água líquida é reiterada como o elemento chave para a busca de vida extraterrestre.
  • 00:18:52Desafios de explorar lagos subglaciais e outros mundos — São abordados os enormes desafios logísticos e de contaminação envolvidos na perfuração de locais como o Lago Vostok na Antártica (com 4 km de gelo) ou futuras missões em luas como Europa. A preocupação é evitar contaminar esses ambientes prístinos com micro-organismos terrestres transportados acidentalmente pelas sondas.
  • 00:20:57Panspermia balística e resistência de extremófilos — A hipótese da panspermia balística (disseminação da vida via meteoritos) é discutida. Experimentos, inclusive com participação brasileira, demonstram que extremófilos como Deinococcus radiodurans podem sobreviver às condições do espaço, especialmente se protegidos dentro de rochas. A conversa também menciona a recuperação de células viáveis de permafrost com milhões de anos.
  • 00:23:55Estabilidade do DNA e limites da preservação — Debate-se a estabilidade do DNA em ambientes congelados e a polêmica em torno de alegações de recuperação de material genético muito antigo (como de insetos em âmbar). Embora o DNA seja uma molécula estável, danos acumulados por radiação ao longo de milhões de anos podem inviabilizar células, mas fragmentos pequenos de DNA podem teoricamente sobreviver por mais de 10 milhões de anos em condições ideais.
  • 00:26:22Bioindicadores atmosféricos para vida em exoplanetas — A discussão final aborda como detectar vida à distância em exoplanetas através de bioindicadores atmosféricos. Gases como oxigênio e metano são candidatos, mas sua origem pode ser ambígua (biótica ou abiótica). O professor destaca o papel dos micro-organismos na transformação da atmosfera terrestre através da fotossíntese, criando o Grande Evento de Oxidação, e como uma atmosfera com oxigênio é um forte indicador de atividade biológica.
  • 00:28:43Perspectivas futuras para a astrobiologia — Na pergunta final, o professor Rubens é questionado sobre a principal questão respondível da astrobiologia em um futuro não muito distante. Ele expressa otimismo de que a questão da vida em Marte pode se tornar palpável, talvez dentro de 50 anos, seja através de missões robóticas ou humanas. Ele concorda com Carl Sagan de que qualquer resposta, positiva ou negativa, será fascinante e transformadora.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2018-05-14T13:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência da Rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:09] os limites entre o quia-ciência e o quia-mito.

[00:00:14] Esse é o Fronteiras da Ciência e hoje nós vamos começar com o professor Rubens Tadeu

[00:00:17] Delgado Duarte, colega da Universidade Federal de Santa Catarina, departamento de microbiologia,

[00:00:23] monologia e parasitologia.

[00:00:26] O Rubens é um dos principais pesquisadores em extremófilos do país, com uma carreira

[00:00:30] que eu considero invejável.

[00:00:31] Egresso da Universidade Saudável Londrina, que é uma universidade forte e importante

[00:00:35] naquele estado, ele foi parar na USP a fazer o seu doutorado com a colega Viviana Pelisar,

[00:00:40] que é uma das também pioneiras nessa área da astrobiologia, que trabalha com micro-organismo

[00:00:43] psicófilos.

[00:00:44] Tu conseguiu depois fazer um sanduíche com outra pessoa que eu admiro demais, que é

[00:00:48] o David Gielischinsky, na Rússia, que é um dos maiores especialistas em microbiota

[00:00:52] de permafrost, que é um modelo absolutamente essencial para ligar micro-organismo e extremófilos

[00:00:58] com a astrobiologia.

[00:00:59] Depois participou de pelo menos três missões antárticas, absolutamente engajado nessa

[00:01:03] atividade por todos esses anos.

[00:01:05] Vou começar perguntando um pouco sobre como foi essa carreira para depois a gente entrar

[00:01:08] um pouco no seu trabalho.

[00:01:09] Obrigado pela oportunidade de estar aqui conversando com vocês.

[00:01:12] Eu entrei no curso de ciências biológicas na UEL.

[00:01:14] Minha ideia na época, e ainda continua sendo, foi buscar uma carreira que me respondesse

[00:01:20] perguntas.

[00:01:21] Eu sempre quis ser um cientista, partir para a carreira científica.

[00:01:24] Então, dentro desse contexto, eu queria responder por que uma célula viva funciona

[00:01:30] e uma célula com as mesmas estruturas, mas ela está morta, por que ela não funciona?

[00:01:34] O que que distingue isso no contexto da biologia mesmo?

[00:01:37] É difícil.

[00:01:38] Pergunta sem resposta.

[00:01:39] Mas dentro da biologia, eu tive contato com o assunto da astrobiologia.

[00:01:45] Isso me encantou e me fez buscar o doutorado posteriormente.

[00:01:48] Eu vinha fazendo já um trabalho em microbiologia e eu via que existia uma interface da microbiologia

[00:01:55] com a astrobiologia ou a exobiologia.

[00:01:58] Então, busquei dentro do Brasil pesquisadores que pudessem me orientar nesse sentido a oportunidade

[00:02:03] de trabalhar com a professora Vivian Pelisari, hoje lá no Instituto de Oceanografia da USP.

[00:02:08] E lá eu desenvolvi meu trabalho com Antártica, com micro-organismos extremófilos da Antártica,

[00:02:14] estudando lá bactérias de solo, gelo e permafrost da Antártica.

[00:02:19] E aí eu tive a oportunidade, durante esse doutorado, de fazer um estágio de sanduíche

[00:02:27] na Rússia sob a orientação do David Gelichinsky, que foi um dos papas.

[00:02:34] Ele faleceu, né?

[00:02:35] Ele faleceu em 2012, em fevereiro.

[00:02:38] Um pouco depois da espasa, que foi a escola que tu foi um dos coordenadores.

[00:02:41] Isso, exatamente.

[00:02:42] Inclusive, ele faleceu algumas semanas antes da publicação desse artigo das plantas.

[00:02:48] Ele não chegou a ver isso por poucas semanas, mas tive essa oportunidade, fui trabalhar

[00:02:53] com ele, aprendi a trabalhar com permafrost, ele era um das grandes autoridades no conhecimento

[00:02:58] da microbiologia de permafrost no mundo todo.

[00:03:01] Eu fui para lá porque justamente ele tinha o equipamento para fazer coletas de permafrost

[00:03:06] para microbiologia.

[00:03:07] Os geólogos coletam permafrost há muito tempo, mas na coleta se contamina esse permafrost

[00:03:13] com bactérias da mão dos pesquisadores, do ar, do equipamento, de tudo.

[00:03:18] Do óleo que é colocado lá no lubrificante e tudo mais.

[00:03:21] Então o Gelichinsky tinha esse equipamento de coleta acéptica e eu fui aprender como

[00:03:26] é que eu trabalho com esse equipamento e nós fizemos, em janeiro de 2009, uma coleta

[00:03:30] na Antártica.

[00:03:31] Tive a oportunidade de trabalhar com ele em campo também.

[00:03:34] Foi uma expedição dos russos mesmo.

[00:03:36] Dos russos, a expedição Antártica-Russa.

[00:03:38] E que virasse no russo.

[00:03:39] Me virei no russo.

[00:03:40] Eu já vinha estudando russo por outros motivos, mas coincidentemente tive a oportunidade

[00:03:48] de trabalhar com o Gelichinsky, então usei o que eu sabia de russo para me virar.

[00:03:53] Não, sensacional.

[00:03:54] Aliás, hoje tu dirige um laboratório de ecologia de microorganismos extremófilos.

[00:03:58] É esse o nome?

[00:03:59] Ecologia Molecular.

[00:04:00] Ecologia Molecular é o nome que a gente dá para a área da ecologia ou a área da

[00:04:05] microbiologia que se usa de moléculas para a identificação dos microorganismos presentes

[00:04:11] no ambiente.

[00:04:12] Então, ao invés de como o ecólogo tradicional vai na floresta e observa os pássaros, os

[00:04:19] insetos, as plantas, ele vai catalogando e identificando esses organismos, o microbiologista

[00:04:25] não é capaz de fazer isso, porque nós não conseguimos identificar um microorganismo

[00:04:28] no microscópio.

[00:04:30] É muito parecido, a informação morfológica não é suficiente e mesmo em laboratório,

[00:04:37] quando a gente cultiva esses microorganismos, ainda assim é bem difícil determinar a espécie

[00:04:41] deles.

[00:04:42] Então, a ideia da ecologia molecular é justamente usar o DNA desses microorganismos, ou seja,

[00:04:47] molécula, para fazer a identificação taxonômica.

[00:04:50] É como se fosse um teste de paternidade das bactérias, a gente consegue identificá-las

[00:04:55] desse jeito.

[00:04:56] Os ouvintes devem estar se perguntando como assim essa planta que ele reviveu e eu vou

[00:05:00] usar isso como gancho para o seu trabalho.

[00:05:01] O Guilichintes, que é um especialista em microbiota e outros, enfim, amostras de material

[00:05:06] vivo no permafrost, que é o solo perenemente congelado da tundra, da toda a região da

[00:05:11] Sibéria, e ele, pouco antes de morrer, conseguiu resgatar frutos de uma planta extinta de

[00:05:16] 30 mil anos, ou seja, praticamente da época da aurora, da humanidade, do Homo sapiens

[00:05:20] atual.

[00:05:21] E eles conseguiram, clonando ela, fazer ela reviver e botar as flores, ou seja, é uma

[00:05:26] façanha notável, foi uma notícia incrível na época, e ele não viu isso publicado,

[00:05:30] isso que azar.

[00:05:31] Exatamente, então vamos falar um pouquinho do que é o permafrost, talvez, né?

[00:05:34] Esse é o gancho porque exatamente tu és especializado nos microorganismos de frio,

[00:05:37] eles vivem no extremo de baixas temperaturas, inclusive abaixo de 0 graus, alguns vão te

[00:05:42] perguntar como é possível abaixo de 0 graus se a água congela, aí que tu falasse dos

[00:05:45] psicrófilos.

[00:05:46] Então vamos lá, como é que eles sobrevivem, como é que bactérias conseguem sobreviver

[00:05:51] e inclusive ocorrer em ambientes extremamente frios, lugares onde a água está congelada,

[00:05:57] eles têm várias adaptações, entre essas, a gente pode citar a principal, que são adaptações

[00:06:02] que impedem o congelamento da água de dentro da célula.

[00:06:06] São crioprotetores?

[00:06:08] Eles fabricam proteínas ou moléculas que são crioprotetoras, né, é basicamente…

[00:06:13] Isso é parecido com aqueles anticongelantes que se colocam nos líquidos dos automóveis

[00:06:16] dos países frios?

[00:06:17] Perfeito, perfeito, nos radiadores, exatamente.

[00:06:20] Então a bactéria, que é psicrofílica, por exemplo, quando a temperatura abaixou

[00:06:24] demais, está prestes a congelar, ela sintetiza chamadas antifreeze proteins, ou AFPs.

[00:06:31] Essas proteínas anticongelantes, elas são fabricadas e armazenadas tanto dentro quanto

[00:06:35] fora da célula.

[00:06:36] Então ela joga para fora também e isso impede…

[00:06:38] O tecido inteiro fica inundado.

[00:06:39] Exatamente.

[00:06:40] Então o entorno da célula fica líquido, com água líquida, ou pastoso, na pior das

[00:06:46] hipóses, exatamente, e o interior dela não congela.

[00:06:49] Se a célula permitir o congelamento, ela morre, porque os cristais de gelo perfuram

[00:06:53] as membranas e destroem as proteínas, então…

[00:06:56] Além de cessar todo o movimento que é a base das reações bioquentes.

[00:06:59] Exatamente.

[00:07:00] Então essa é uma das questões importantes.

[00:07:01] O grande, talvez o único, consenso na comunidade astrobiológica é que a água é o ator principal

[00:07:06] e deve-se seguir a água.

[00:07:07] Toda a pesquisa, inclusive em astrológica, no sistema solar, de sondas de espaço profundo,

[00:07:11] que vão a Marte, as luzes de Júpiter, de Saturno, ou além, estão em busca de água

[00:07:15] líquida.

[00:07:16] Porque a água tem três estados.

[00:07:18] No estado gasoso não faz muito sentido, porque não sustenta um sistema estruturado.

[00:07:24] No sólido, que é gelo, também, porque não permite os movimentos, ou seja, ele não

[00:07:28] pode estar vivo, ele pode estar no máximo em suspensão, como essas sementes dessa planta

[00:07:32] que foram revividas depois de 30 mil anos.

[00:07:34] Parece que ele reviveu bactérias bem mais antigas, inclusive.

[00:07:37] Sim.

[00:07:38] O permafrost é o solo, na verdade, cuja matriz de água permanece congelada e permanece

[00:07:44] congelada por dois anos ou mais.

[00:07:46] E esse mais significa milhares ou milhões de anos.

[00:07:51] Então nós temos permafrosts extremamente antigos aqui no planeta Terra, e tem mais

[00:07:56] antigos ainda até em outros planetas, como, por exemplo, em Marte.

[00:07:59] A ideia é que esse permafrost, então, é um solo que no verão, se a gente imaginar

[00:08:04] o solo da Sibéria, por exemplo, ou lá da Antártica, no verão, a temperatura atmosférica

[00:08:09] não é quente o suficiente para derreter toda a camada de solo.

[00:08:14] Existe uma certa profundidade, uma interface, que a temperatura atmosférica não consegue

[00:08:20] influenciar, então ela não esquenta essa camada do solo.

[00:08:23] Essa camada do solo que não é esquentada, ou seja, a água não derrete, ela permanece

[00:08:28] congelada, é o que a gente chama de permafrost.

[00:08:31] Quer dizer que os centímetros finais ali podem derreter ocasionalmente e ter uma certa

[00:08:36] dinâmica.

[00:08:37] Sim.

[00:08:38] Eles não estão bem preservados, mas a partir de uma certa profundidade, até que profundidade

[00:08:40] dá para escavar no permafrost?

[00:08:42] Existem permafrostes que são mais rasos e permafrostes mais profundos.

[00:08:47] Quanto mais quente é a região, mais fundo é o permafrost, porque a região mais quente,

[00:08:53] vamos pensar, o sul da Patagônia ou o norte da Antártica, é uma região muito, mas muito

[00:08:59] mais quente do que o interior da Antártica.

[00:09:02] Regiões muito quentes, esse permafrost vai ocorrer ali, por exemplo, na Antártica ele

[00:09:06] está a 4 metros de profundidade.

[00:09:09] Nos primeiros 4 metros de solo da Antártica, é um solo que derrete no verão e congela

[00:09:14] no inverno.

[00:09:15] Então ele não é permafrost, a gente dá o nome de camada ativa.

[00:09:18] Abaixo disso, temperatura negativa.

[00:09:20] E quanto mais fundo, mais antigo, respeitando a mesma lógica dos sedimentos em biologia.

[00:09:24] Exatamente.

[00:09:25] Então o permafrost mantém ali sedimentado e preservado no gelo.

[00:09:30] Todo o material biológico, quanto mais tempo aquele permafrost se formou, se congelou aquilo

[00:09:35] e não descongelou mais, mais tempo está preservado aquele material biológico, seja

[00:09:40] uma célula, um pólen, uma semente, um tecido de um animal, por exemplo, ou obviamente um

[00:09:46] microrganismo, esporos ou DNA ou proteínas do ser vivo.

[00:09:52] Tudo aquilo é preservado no permafrost.

[00:09:54] O permafrost é um freezer natural.

[00:09:56] Por que tu estuda organismos de um solo que provavelmente não tem no Brasil?

[00:09:59] É bem interessante a pergunta porque existe permafrost de altitude, então não são apenas

[00:10:06] as regiões polares que tem permafrost, mas as regiões de alta altitude, onde a temperatura

[00:10:11] é muito fria, nós temos, por exemplo, permafrost nos Andes, nos Alpes, nós temos permafrost

[00:10:17] no Himalaia.

[00:10:18] Mas são solas diferentes, porque a erosão nas montanhas é diferente de um vale, por

[00:10:22] exemplo, que deposita tudo.

[00:10:23] São.

[00:10:24] Eu costumo pensar, não sei se está errado pensar assim, permafrost é uma espécie de

[00:10:27] um pântano congelado, não é um deserto congelado, ou seja, é um lugar originalmente

[00:10:31] muito úmido.

[00:10:32] Já tem uma idade…

[00:10:33] Dá pra dizer que é um pântano congelado, ou pelo menos um terreno muito úmido, congelado?

[00:10:38] Não, porque tem permafrost bem secos, pouco de água que tem está congelado, na Sibéria

[00:10:43] são mais pantanosos, mas na Antártica são bem secos.

[00:10:46] Tem um permafrost, inclusive com aquela fragmentação poligonal…

[00:10:49] Exatamente.

[00:10:50] Ali é muito úmido.

[00:10:51] Isso, ali é muito úmido.

[00:10:54] Essa formação poligonal é uma característica do permafrost.

[00:10:57] Então a gente tem essa formação também na Antártica, embora seja ali mais seco

[00:11:01] do que no Canadá, por exemplo.

[00:11:03] E a partir da reconação a gente sabe que tem em Marte também, que é onde se fez pousar

[00:11:06] em 2008 a Fênix, que cavou direto ali e achou gelo.

[00:11:10] Gosto de dizer sempre, no sexen em 2002, 2008, a água começou de uma pista forte

[00:11:15] e terminou uma coisa na mão de um instrumento terrestre.

[00:11:18] Mas respondeu a tua pergunta, Jorge, sobre por que que eu trabalho com microrganismos

[00:11:22] de permafrost, é um solo que não tem no Brasil.

[00:11:25] Na verdade, a nossa ideia de pesquisa não é apenas astrobiologia, mas também mudanças

[00:11:29] climáticas, é entender como que os microrganismos conseguem nos dar pistas a respeito de mudanças

[00:11:37] climáticas.

[00:11:38] Então a gente busca esse material na Antártica, a gente tem lá no laboratório permafrost

[00:11:42] congelados entre 2500 a 7500 anos atrás.

[00:11:47] Então nesse intervalo de tempo, ali por volta de 4.800 anos atrás, a Antártica sofreu

[00:11:53] uma pequena mudança climática, um aquecimento no meio do Holoceno, onde nós temos aí o

[00:11:59] perfil de permafrost e estamos trabalhando com essas bactérias para entender quem são

[00:12:04] essas bactérias que apareceram na mudança climática, quais são as bactérias que foram

[00:12:09] extintas na mudança climática e isso poder auxiliar os estudos e as projeções de mudança

[00:12:15] climática hoje.

[00:12:16] Na tua balança, tu falou então desse pico de metano que estaria concentrado nesse extrato

[00:12:19] dos 4.300, 4.500 anos.

[00:12:22] Já está publicado esse dado?

[00:12:23] Ou é uma coisa quente ainda?

[00:12:24] Não, não.

[00:12:25] É uma informação bem interessante, especificamente do metano, da parte geoquímica dos permafrostes

[00:12:32] estão publicados num artigo de 2011, mas a parte microbiológica não.

[00:12:37] É uma aluna minha de mestrado, a Candice Boff tregou essa semana a dissertação de

[00:12:43] mestrado dela, então passando a defesa, a gente vai começar a fazer redação do artigo

[00:12:48] e a publicação.

[00:12:49] A gente fala de organismos extremófilos, são aqueles que vivem fora das nossas confortáveis

[00:12:53] condições ditas mesófilas, que é entre 0 ou 5 graus Celsius até uns 45 ou por aí

[00:12:59] da ilha pra diante já complica, mas existem outras classes de extremófilos até mais

[00:13:03] notáveis, como os termófilos que vivem acima de 45 graus, hipertermófilos acima de 85

[00:13:08] até quantos graus o máximo?

[00:13:10] 113.

[00:13:11] O ranking está em 113.

[00:13:12] 113.

[00:13:13] 113 é acima do ponto de ebulição da água no nível do mar, mas embaixo de uma coluna

[00:13:17] da água com pressão aumentada, você pode ter água líquida até muito mais quente

[00:13:20] do que isso, e ali tem seres vivos, até 113.

[00:13:23] Tem organismos que vivem em ambientes extremamente ácidos, ou extremamente básicos, ou sobre

[00:13:27] pressões extremas, em geral as extremofilias não se dão separadamente, elas vêm combinadas.

[00:13:33] Hipertermófilos com barófilos ou piezófilos, que é a depressão, tem as alófilos que

[00:13:37] vivem em ambientes muito salgados, e tem hiproligotróficas, xerófilos, enfim, e as resistências a radiações

[00:13:42] são as mais notáveis, que aguentam dos arges de até 5 mil vezes a letal pra nós

[00:13:45] humanos.

[00:13:47] Todas as classes aqui, todas elas são fascinantes, todas têm desafios de interpretação diferentes.

[00:13:51] Tu acha que de uma forma as psicrófilas se destacam diante dessas, na sua importância

[00:13:56] subbiológica, tu vê assim um papel diferenciado para as psicrófilas nisso aí?

[00:13:59] Bom, eu sou suspeito pra falar, porque eu trabalho com elas, eu vou tentar ser neutro

[00:14:03] no meu argumento.

[00:14:04] Eu acho que sim, apesar de qualquer coisa que a gente possa imaginar, aquelas que vivem

[00:14:08] em ambientes frios são talvez mais interessantes de forma geral pra astrobiologia, pelo simples

[00:14:14] fato de que o planeta Terra é um ambiente frio, nós temos 80% do nosso planeta da biosfera

[00:14:21] terrestre, ou seja, dos locais onde tem seres vivos, 80% desses locais estão a 5 graus

[00:14:29] Celsius ou abaixo disso, então a Terra é um planeta frio, quem são extremófilos na

[00:14:34] verdade somos nós humanos, nós que vivemos nas condições diferentes, fora da curva,

[00:14:40] a maioria dos seres vivos que estão no oceano vivem a temperatura de 5 graus Celsius, que

[00:14:46] é a temperatura da nossa geladeira lá de casa, esse é o normal na verdade, é que

[00:14:50] a questão do extremófilo é uma questão muito antropocêntrica, é uma visão muito

[00:14:54] humana da coisa, quando a gente extrapola isso pra vida fora da Terra, a gente tem

[00:15:00] que considerar que realmente fora da Terra a maior parte do cosmos, dos planetas, das

[00:15:06] luas e etc, estão a temperaturas frias, sim, longe de alguma estrela ou de uma motividade

[00:15:12] geotérmica, é frio, é frio, então talvez os psicofílicos ou psicotróficos, que são

[00:15:19] microorganismos que vivem no ambiente frio aqui na Terra, talvez eles se destaquem dentre

[00:15:24] os extremófilos nesse cenário, aliás, uma coisa que as pessoas não sabem, mas a Terra

[00:15:29] é do ponto de vista astronômico um crioplaneta, apesar de nós estarmos no tal da zona de

[00:15:33] habitabilidade, se a Terra fosse desprovida de atmosfera, a temperatura de corpo negro

[00:15:37] seria 15 graus negativos, e a média do planeta Terra, média entre todas as regiões é mais

[00:15:42] 15, e isso é causado pelo efeito estufa da atmosfera, esses 30 graus de presente que

[00:15:46] a atmosfera nos dão por um efeito estufa regulado, que agora nós estamos desregulando ele, que

[00:15:51] é outra conversa, a possibilidade de vida no sistema solar, nos ambientes onde tem água

[00:15:56] congelada como o Marte e também nas luas das planetas gigantes, deixa uma margem de

[00:16:01] esperança que não só tu encontra evidóias evidências dormentes de vida pregressa, tipo

[00:16:07] fósseis ou material preservado, mas eventualmente alguns bolsões onde ainda possa ver sobreviventes,

[00:16:12] tu acha possível isso, ou pelo menos tu sonha como eu nisso, todos sonhamos, quem trabalha

[00:16:19] com astrobiologia tem essa ideia, mas eu considero que sim, existem refúgios dentro desses,

[00:16:25] por exemplo, se a gente considerar Marte, existem cavernas em Marte, existem refúgios

[00:16:30] onde os microrganismos podem sobreviver e protegidos de radiação, por exemplo, aproveitando

[00:16:37] os pequenos ciclos de descongelamento da água marciana, então no verão marciano a temperatura

[00:16:43] do planeta no Equador pode chegar a 15 graus Celsius, positivos, para um ser vivo está

[00:16:48] excelente, né?

[00:16:49] Para o gaúcho aqui isso é ideal, não precisa nem de bruxinha, lá em Florianópolis mesma

[00:16:52] coisa, a gente consegue, vai de camiseta, entra numa caverna marciana, pronto, está

[00:16:59] dentro da radiação, o problema vai ser o oxigênio ali, mas tudo bem, os extremófilos,

[00:17:02] muitos deles não vivem na presença do oxigênio, arqueias, por exemplo, que são microrganismos

[00:17:07] parecidos com as bactérias, algumas arqueias metanogênicas, ou seja, são arqueias que

[00:17:13] fabricam metano no seu metabolismo, elas são anaeróbias, elas são microrganismos que

[00:17:19] não sobrevivem na presença do oxigênio, então a ausência do oxigênio é interessante

[00:17:24] para esses microrganismos e esses refúgios podem ser muito interessantes para se explorar,

[00:17:30] por exemplo, em Marte ou em outras luas, Europa, por exemplo, ou em Célados, que são luas

[00:17:34] de Júpiter e Saturno, eles estão fora da zona de habitabilidade do Sol, mas ainda assim

[00:17:40] pode-se encontrar água líquida, então existem esses refúgios no sistema solar.

[00:17:45] Tendo água líquida, a ideia na astrobiologia, e isso eu como microbiologista dou todo suporte

[00:17:51] porque a ideia é se existe água líquida, pode existir vida, a pergunta que a gente

[00:17:56] começou a conversa aqui na entrevista, a água é o elemento chave para a busca de

[00:18:02] vida fora da Terra, a gente tem que encontrar água líquida porque todos os seres vivos

[00:18:06] terrestres precisam de água líquida para sobreviver.

[00:18:09] No caso das luzes, das luas, a Europa foi a primeira onde se olhando detalhes, as rachaduras

[00:18:14] no gelo da sobrefície da Europa, é praticamente uma bola de gelo com até 180 km de espessura

[00:18:19] e a suspeita de que a água líquida embaixo de uma certa camada bem profunda é por causa

[00:18:23] dessas tectônicas e movimentos que racham o gelo, que não teria explicação se fosse

[00:18:26] tudo sólido, mas é indireto, em celdo não, em celdo quando se passou lá a Cassini pegou

[00:18:31] um cuspe saudado no espaço, não só com vapor d’água e incluindo alguns sais que

[00:18:36] só se encontram quando a água está em contato com o croça, com o sódio e tal, o que é

[00:18:39] mais interessante ainda, porque uma coisa é um bolsão de gelo longe da croça e não

[00:18:43] tem nutrientes, mas lá embaixo a conversa é outra, então é muito promissor isso.

[00:18:47] Um exemplo possível de analogia a isso, inclusive para o futuro chegar numa dessas luzes e perfurar,

[00:18:52] que é o Lago Vostok, que são os lagos subglaciais da Antártica, tem lagos subglaciais a centenas

[00:18:57] de metros ou dezenas de metros, como o Lago Vida, onde brasileiros fizeram junto com americanos

[00:19:02] uma descoberta importante, tua colega Emanuele Kuhn, tem que falar dela, regressa da nossa

[00:19:07] disciplina de exobiologia da primeira edição, mas os lagos interessantes são aqueles que

[00:19:11] estão com muito gelo em cima, como o Vostok é a quantos quilômetros?

[00:19:15] 3.800 e alguns metros ali.

[00:19:18] E quais são os desafios para acessar um desses e ver se, por exemplo, lá tem Vida, se a gente conseguir

[00:19:22] fazer isso no Vostok, a gente está preparado para pelo menos tentar algo assim, em outra escala,

[00:19:26] em outra lua?

[00:19:27] A dificuldade é logística, obviamente.

[00:19:29] Existe uma dificuldade logística da própria perfuração em si, então os russos demoraram

[00:19:35] quase 50 anos aí para fazer a perfuração de 4 quilômetros de gelo no Lago Vostok.

[00:19:41] É uma dificuldade imensa.

[00:19:41] É uma dificuldade logística imensa.

[00:19:44] Mas tem uma dificuldade adicional.

[00:19:45] E aí existe a dificuldade adicional que é fazer a perfuração sem contaminar o lago

[00:19:51] subglacial da Antártica.

[00:19:53] Ou se a gente for fazer isso um dia em Europa, por exemplo, ou em Sélado, ou em outro lugar,

[00:19:57] é coletar aquele material em busca de vida sem contaminar aquela lua, sem contaminar

[00:20:04] aquele vasto oceano de água líquida que tem ali, ou micro-organismos que são terrestres,

[00:20:09] que foram lá de carona com as sondas, com os equipamentos.

[00:20:12] Chegando lá eles fazem uma festa.

[00:20:14] Fazem uma festa porque no planeta Terra eles conseguem sobreviver aqui, então não há

[00:20:18] porquê, talvez não conseguirem pelo menos ser preservados nesses locais.

[00:20:23] Tem uma classe de extremófilos que a minha favorita são os quimio-lito autotróficos,

[00:20:27] que vivem dentro da rocha, comendo pedra literalmente, claro, nutrientes orgânicos,

[00:20:31] e a fonte energética é sobretudo o calor geotérmico e não a luz do sol.

[00:20:35] Completamente, aliás, a maioria das arqueias, que a maioria são extremófilos, esse tipo

[00:20:41] de organismo dá a esperança de que tu pode inclusive rochas de um planeta onde tem vida

[00:20:46] serem ejetadas por colisão de asteróides pro espaço e parar em outro planeta, e eventualmente

[00:20:52] disseminar a vida que veio originária de um primeiro lugar num segundo lugar.

[00:20:57] O nome disso é panspermia balística, é o nome que o Shostak deu, e a panspermia balística

[00:21:02] é uma hipótese bem interessante, quer dizer, é uma nave espacial a pedra, nesse caso só

[00:21:07] extremófilo poderia fazer uma coisa dessas.

[00:21:09] É, claro que a panspermia é uma outra discussão que a gente podia ter aqui, mas a ideia é

[00:21:18] que experimentos já foram realizados com alguns extremófilos pra demonstrar a capacidade

[00:21:25] que eles têm de sobreviver às condições do espaço.

[00:21:28] Vá com baixa temperatura?

[00:21:30] Exatamente, alta radiação.

[00:21:32] Alta radiação, mas dentro da rocha tu tem…

[00:21:34] Você tem uma proteção, né?

[00:21:36] Então, tem experimentos que já foram feitos inclusive aqui no Brasil, né?

[00:21:40] O Douglas Galante, o Fábio, o Rodrigues e o Ivan.

[00:21:44] Os colegas do nosso lado.

[00:21:46] Exatamente, o Paulino Lima, eles publicaram um artigo junto com a Claudia Lage e os outros pesquisadores

[00:21:52] demonstrando, por exemplo, que Deinococcus radiodurans e outros microorganismos, eles

[00:21:57] conseguem sim sobreviver a, por exemplo, o transporte de material geológico da Terra

[00:22:03] pra Marte ou vice-versa, eles sobrevivem no espaço, né?

[00:22:06] Das condições, sim, o que não tá resolvido é o tempo da durabilidade do tempo, porque

[00:22:10] geralmente esses meteoritos que caem na Terra, por exemplo, de Marte, ou eventualmente

[00:22:14] se caíssem em meteoritos terrestres em Marte, é da hora de milhões de anos.

[00:22:18] Uma órbita muito lenta, né?

[00:22:20] Sim, mas é uma coisa interessante.

[00:22:22] Eles podem ser transportados, eles conseguem sobreviver, o frio extremo é capaz de manter

[00:22:28] as células viáveis depois de milhões de anos.

[00:22:31] A gente tem aí trabalhos, né?

[00:22:33] Células que foram recuperadas de permafrostes de até 3,2 milhões de anos atrás.

[00:22:39] Viáveis.

[00:22:40] Viáveis.

[00:22:41] Esse é a pergunta que eu ia te fazer.

[00:22:42] Foram recuperados.

[00:22:43] Isso é um trabalho do Gelichinsky mesmo.

[00:22:44] Isso é um trabalho do Gelichinsky.

[00:22:45] Ele acredita que daria pra encontrar até de cinco.

[00:22:47] Ele me disse, mas eu não vi um paper, eu não sei como é que é.

[00:22:51] Parece incrível demais.

[00:22:52] O artigo de cinco milhões de anos é bem polêmico, porque ele foi publicado por um

[00:22:57] grupo de geólogos, numa revista de geologia e paleontologia.

[00:23:01] E eles simplesmente dizem ali na metodologia que eles fizeram um cultivo, eles pegaram

[00:23:06] ali o permafrost, diluíram numa solução salina qualquer e semearam no meio de cultura.

[00:23:13] Então não dá muitas informações e existe aquela preocupação.

[00:23:17] Será que o que eles cultivaram?

[00:23:19] São microrganismos autênticos do permafrost de cinco milhões de anos ou são contaminantes?

[00:23:24] Pois é.

[00:23:25] É uma grande questão que até alguém repetir isso.

[00:23:28] Isso lembra o parque dos dinossauros, onde se extraiu o material de dentro de um inseto.

[00:23:32] No âmbar?

[00:23:33] Sangue de dinossauro dentro do estômago de um mosquito de 65 milhões de anos.

[00:23:39] Isso aí é inspirado no trabalho de um outro cara que é bem polêmico, que é esse especialista

[00:23:42] em fósseis de âmbar, da Costa Rica.

[00:23:44] Não esqueci o nome dele agora.

[00:23:46] Ele alega ter conseguido extrair material genético razoavelmente intacto de termites

[00:23:49] de até 20 milhões de anos, do âmbar.

[00:23:51] Isso é bem polêmico, porque não é um consenso.

[00:23:53] Então aí tem a questão da durabilidade.

[00:23:55] É uma molécula extremamente estável, o DNA.

[00:23:58] Talvez essa é a razão pela qual ela é o reservatório de informação genética,

[00:24:01] porque ela é muito estável.

[00:24:02] Mas será que ela está por tanto tempo?

[00:24:04] Pois é.

[00:24:05] Existe uma meia-vida.

[00:24:06] O DNA, com qualquer molécula química…

[00:24:09] Qualquer material.

[00:24:10] Qualquer material vai sofrer oxidações, tem radiação.

[00:24:14] Então existe até uma preocupação.

[00:24:16] O DNA no permafrost está congelado há tanto tempo que a dose acumulada de radiação ionizante,

[00:24:21] por exemplo, pode já alterar e ter destruído.

[00:24:24] No mínimo destruir.

[00:24:26] Tem muita sorte para dar uma mutação e sobreviver.

[00:24:29] Então o dano acumulado para a célula é tão grande que às vezes ao se recuperar a célula do permafrost

[00:24:34] ela não cresce em laboratório, porque ela acumulou tantos danos

[00:24:37] e não tem mais um metabolismo funcionante.

[00:24:39] Mas a molécula de DNA, sim, ela é bem resistente, muito mais do que o RNA.

[00:24:45] O RNA, não.

[00:24:46] Ele é temporário.

[00:24:48] Em questão de alguns minutos você já perde o RNA.

[00:24:52] Mas o DNA é bem mais estável.

[00:24:54] O interessante é que hoje, com a tecnologia que nós temos hoje de sequenciamento de DNA,

[00:24:59] nós temos a capacidade de, por exemplo, identificar um fragmento de DNA de 50 a 100 pares de base.

[00:25:06] Um pedacinho bem pequeno.

[00:25:07] Um pedaço extremamente pequenininho.

[00:25:09] É capaz de saber a função, por exemplo, provavelmente a função através do sequenciamento.

[00:25:13] Essa é uma época fantástica.

[00:25:14] Nós estamos vivendo de poder examinar nesse nível.

[00:25:16] Isso.

[00:25:17] Então, existem já estimativas que um fragmento desse tamanho,

[00:25:20] que tenha 500 pares de base,

[00:25:22] pode chegar a sobreviver em temperaturas abaixo de 20 graus Celsius, por exemplo,

[00:25:28] ou menos 15 ou menos 20 graus Celsius,

[00:25:31] pode sobreviver mais do que 10 milhões de anos.

[00:25:34] Então…

[00:25:35] Teoricamente.

[00:25:36] Teoricamente, isso é possível.

[00:25:37] Mas os termites de 20 milhões e os mosquitos de 65, a ficção científica…

[00:25:42] Alguém precisa repetir.

[00:25:44] É uma fronteira da ciência.

[00:25:46] É uma fronteira.

[00:25:47] Uma última pergunta que a gente já está chegando ao final.

[00:25:49] Sobre bioindicadores.

[00:25:50] Eu costumo dizer, na nossa disciplina,

[00:25:52] tem três pilares sobre o qual está erigida a atual astrobiologia nos últimos 20 anos,

[00:25:56] que são a descoberta dos extremófilos e a aceitação delas,

[00:25:59] como a vida vivendo de forma mais elástica em outros ambientes,

[00:26:02] os estudos de astronáutica no sistema solar,

[00:26:06] que praticamente percorreram quase tudo o que tem

[00:26:08] e pode ter informação de primeira mão sobre esses astros,

[00:26:12] e a descoberta dos exoplanetos

[00:26:15] e a progressiva qualificação das técnicas de observação e registro deles.

[00:26:19] Um dos debates importantes é o debate dos bioindicadores.

[00:26:22] Como é que você pode olhar um planeta

[00:26:23] com o qual provavelmente nós nunca vamos viajar,

[00:26:25] ou pelo menos por muito tempo não vamos acessar,

[00:26:27] que pelo telescópio não dá para ver bactéria daqui?

[00:26:30] Você tem que ver indicadores na suposta atmosfera,

[00:26:33] ou seja, comprovar a essência da atmosfera e procurar certos tipos de moléculas.

[00:26:36] Essa é a ideia geral.

[00:26:38] Mas há um debate qual seria a melhor molécula.

[00:26:40] Por exemplo, o metano é um candidato óbvio,

[00:26:42] mas o metano também tem origem biogênica,

[00:26:46] mas também a biótica, como por exemplo de vulcões,

[00:26:48] ele é produzido em pequena escala.

[00:26:50] O debate, por exemplo, do metano encontrado em Marte,

[00:26:52] se pode ou não ser de qual origem,

[00:26:54] ainda está em aberto, tão complexo que é.

[00:26:57] Qual é o teu bioindicador potencial favorito para uma atmosfera de um exoplaneto?

[00:27:02] Me parece que se a gente olhar para a história do planeta Terra,

[00:27:06] uma atmosfera que contenha gases como o oxigênio ou o nitrogênio

[00:27:11] sejam bons indicadores da atividade biológica.

[00:27:15] Os seres vivos, e aí eu vou chamar a atenção pros microorganismos,

[00:27:19] eles estão aqui, os microorganismos, há muito mais tempo do que nós.

[00:27:22] Eles já estavam aqui quando a gente chegou e onde nos comeram.

[00:27:25] Isso, então os microorganismos, eles transformaram a atmosfera do planeta Terra.

[00:27:30] Não existia oxigênio na nossa atmosfera,

[00:27:33] assim como não existe oxigênio nos nossos vizinhos,

[00:27:37] os nossos vizinhos Vênus e Marte, que foram feitos aqui,

[00:27:40] com o mesmo resto de material do sistema solar,

[00:27:43] e eles não têm uma atmosfera com oxigênio.

[00:27:46] E nós temos aqui na Terra, porque há mais ou menos,

[00:27:49] por volta de 3 bilhões de anos atrás, 2,2 bilhões de anos atrás,

[00:27:56] a gente tem uma mudança drástica na concentração de oxigênio na atmosfera.

[00:28:00] É o grande evento de oxidação chamado.

[00:28:03] Isso, começou no oceano, micro-organismos fazendo fotossíntese e gerando oxigênio,

[00:28:08] esse oxigênio reagindo lá com ferro no oceano, precipitando esse ferro,

[00:28:11] mas quando o ferro já acabou também no oceano,

[00:28:13] o oxigênio em excesso foi para a atmosfera e isso oxidou muita coisa.

[00:28:18] Deve ter dado uma bom esterilizada no planeta.

[00:28:20] É até justiça poética, ou seja, que o excremento de micro-organismos

[00:28:23] mudou o planeta e permitiu a vida fora d’água.

[00:28:26] É, exatamente.

[00:28:27] Bom, a gente teria tantas coisas para falar, mas eu queria terminar agradecendo então a tua participação.

[00:28:33] Muito obrigado e parabéns pelo teu trabalho.

[00:28:35] Eu não preciso fazer uma última pergunta.

[00:28:37] Qual é a principal questão da subbiologia respondível num futuro não muito longo?

[00:28:43] Não muito longo, Jorge, excelente pergunta.

[00:28:46] Me parece, eu tenho a percepção de que a vida em Marte é algo palpável, realmente, para logo.

[00:28:54] É uma questão de talvez 50 anos, a gente tem uma boa resposta.

[00:28:58] Vamos ter que ir para lá fazer em logo.

[00:29:00] Provavelmente, embora, claro, a tecnologia pode ajudar bastante,

[00:29:04] mas encontrar vida lá ou não, como o Sagan já dizia, qualquer resposta já é fascinante.

[00:29:11] Não, vai mudar tudo, vai mudar tudo.

[00:29:12] Muito obrigado, parabéns pelo teu trabalho.

[00:29:14] Obrigado, Jorge.

[00:29:15] Isso aí, sensacional.

[00:29:16] Também foi Fronteiras da Ciência, nós falamos hoje com o professor Rubens Tadeus Delgado Duarte,

[00:29:20] da Universidade Federal de Santa Catarina, microbiolo,

[00:29:23] especialista em micro-organismos extremófilos do frio, os psicrófilos.

[00:29:27] Eu nem cheguei a perguntar por que não se chamam criófilos.

[00:29:29] Esse é um debate meio bobo, mas fica para outro programa.

[00:29:32] Eu sou Jorge Kiufe, do Departamento de Biofísica da URGES.

[00:29:36] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES.