41 - Crítica da filosofia do direito de Hegel


Resumo

Este episódio do Revoluchow é dedicado à análise da obra “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, escrita por Karl Marx em 1843 durante sua lua de mel em Kreuznach. O texto representa um momento crucial na evolução intelectual do jovem Marx, marcando sua ruptura com o hegelianismo de esquerda e seus primeiros passos em direção ao materialismo histórico.

Os participantes discutem o contexto histórico da obra, escrita quando Marx estava desempregado e se dirigia a Paris, carregando consigo a principal obra da filosofia política alemã da época. O episódio explora como Marx, influenciado por Feuerbach, desenvolve uma crítica radical à inversão hegeliana entre sujeito e predicado, onde o Estado aparece como criador da sociedade civil, quando na realidade é a sociedade civil que cria o Estado.

Três elementos centrais da crítica marxiana são destacados: a crítica da separação entre sociedade civil e Estado, a crítica à especulação filosófica abstrata (característica da “miséria alemã”) e a descoberta da alienação política. O episódio também analisa a famosa “Introdução” escrita posteriormente, onde Marx avança além do texto original ao identificar no proletariado a classe universal capaz de realizar a revolução.

Uma discussão importante gira em torno da famosa frase “a religião é o ópio do povo”, contextualizando-a dentro da análise marxiana da religião como expressão da miséria real e protesto contra essa miséria. Os participantes debatem a complexa relação entre marxismo e religião, argumentando que não há contradição necessária entre ser religioso e ser marxista, desde que não se adote uma ontologia metafísica que explique as relações sociais pela vontade divina.

O episódio conclui destacando a importância deste texto como ponte no desenvolvimento do pensamento de Marx, ainda influenciado por Feuerbach mas já apontando para rupturas fundamentais que seriam consolidadas nos anos seguintes, especialmente após seu contato com o movimento operário francês e seus estudos de economia política.


Indicações

Artigos

  • Artigo de Carlos Nelson Coutinho sobre Hegel — Mencionado por Jones como leitura introdutória útil sobre representação e democracia em Hegel, disponível online.

Canais

  • As Armas da Crítica — Podcast da editora Boitempo mencionado no início do episódio.

Cursos

  • Curso Marx e Engels do canal da Boitempo — Mencionado por Jones, contém três aulas do professor Alisson Leandro Mascaros sobre a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.

Livros

  • Crítica da Filosofia do Direito de Hegel — Texto de Karl Marx analisado no episódio, publicado pela Boitempo com tradução de Leonardo de Deus e outros.
  • Teoria da Revolução no Jovem Marx — De Michel Löwy, mencionado como obra importante para entender a evolução do pensamento de Marx, publicado pela Boitempo.
  • Karl Marx e o Nascimento da Sociedade Moderna — Biografia de Michael Heinrich, recomendada para entender o contexto do desenvolvimento intelectual de Marx.
  • O Jovem Hegel — De Georg Lukács, mencionado como obra importante para compreender Hegel e seu contexto histórico.
  • Heresias Medievais — De Nachman Falbel, recomendado por João para entender as lutas políticas dentro da religiosidade medieval.

Linha do Tempo

  • 00:05:42Contexto histórico da obra e cronologia marxiana — Diego apresenta o texto como terceiro episódio da cronologia Marx e Engels, situando-o após a biografia de Marx e “Os Despossuídos”. Explica que foi escrito em 1843 durante a lua de mel de Marx em Kreuznach, quando ele estava desempregado e se dirigia a Paris. Leonardo complementa falando sobre o processo de tradução da obra, que levou sete anos e envolveu três tradutores trabalhando com cadernos manuscritos.
  • 00:10:37A importância de Hegel e o contexto alemão — João detalha o contexto político e intelectual da Alemanha pós-Hegel, onde a disputa pelo “espólio hegeliano” dividia hegelianos de direita e esquerda. Explica que a filosofia do direito de Hegel era a obra principal da filosofia política alemã e que qualquer crítica à realidade alemã precisava passar por Hegel. Jones desenvolve o conceito de “miséria alemã” - o atraso histórico da Alemanha em relação às revoluções burguesas europeias, que gerava uma filosofia excessivamente especulativa e desconectada da prática material.
  • 00:31:04Elementos centrais da crítica marxiana a Hegel — Diego identifica três pontos principais da crítica de Marx: 1) crítica da separação entre sociedade civil e Estado; 2) crítica à especulação e mistificação hegeliana; 3) crítica da alienação política. Leonardo explica que Marx detecta uma inversão em Hegel: o Estado aparece como criador da sociedade civil, quando na realidade é a sociedade civil que cria o Estado. Esta inversão de sujeito e predicado é o cerne da crítica marxiana, influenciada pelo método feuerbachiano.
  • 00:48:07Diferenças epistemológicas entre Hegel/Marx e a tradição weberiana — Jones desenvolve uma análise comparativa entre a epistemologia hegeliano-marxiana e a tradição weberiana/funcionalista dominante nas ciências sociais. Enquanto na tradição weberiana o pesquisador organiza a realidade caótica através de seu intelecto, para Hegel e Marx a realidade tem uma legalidade imanente que o pesquisador deve apreender. Esta diferença fundamental explica a dificuldade de compreensão da dialética hegeliana e de textos como o de Fanon, que partem desta tradição.
  • 01:20:05A crítica da religião e a famosa frase “o ópio do povo” — Jones analisa profundamente a famosa frase de Marx sobre a religião, contextualizando-a dentro da “miséria alemã”. Explica que para Marx, a miséria religião é tanto expressão da miséria real quanto protesto contra ela. A religião é “o suspiro da criatura oprimida” e “o ópio do povo”. Desenvolve uma argumentação sobre como a religião tem plasticidade histórica - pode servir à reação ou à revolução - e como não há contradição necessária entre ser marxista e religioso, desde que não se adote uma ontologia metafísica.
  • 01:42:26A Introdução como avanço além do texto original — João analisa como a “Introdução” escrita posteriormente avança além do texto da Crítica. Enquanto o texto original ainda está muito influenciado por Feuerbach e mantém uma concepção do proletariado como classe passiva, a Introdução já identifica no proletariado a classe universal revolucionária. Marx escreve que “a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas”, mas ainda mantém resquícios da ideia feuerbachiana de que a revolução nasce na cabeça do filósofo para depois se apoderar das massas.

Dados do Episódio

  • Podcast: Revolushow
  • Autor: Revolushow
  • Categoria: News Politics
  • Publicado: 2019-05-06T03:19:04Z
  • Duração: 02:28:03

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá pessoal, estamos começando mais um episódio do Revoluchou, o seu podcast de esquerda,

[00:00:27] mas sem perder a ternura e nesse exato momento eu estou tentando conter um soluço miserável

[00:00:34] que pode fazer com que toda essa abertura seja uma porcaria, mas aparentemente passou o soluço.

[00:00:43] Bom, já que o soluço passou, o episódio está aí, o episódio maravilhoso gravado com o nosso querido e amado João Carvalho,

[00:00:50] nosso querido Diego Miranda, nosso querido Jones Manuel e Leonardo de Deus, sobre não fantástico, além de outras coisas,

[00:01:01] mas esse episódio de hoje é um episódio sobre a crítica da filosofia do direito de Hegel,

[00:01:06] então é aquele episódio maravilhoso, sabe você toda vez que ouviu que a religião é o ópio do povo?

[00:01:11] Pois é, esse episódio aí, bicho, é exatamente esse texto onde é que está esta citação fantástica do Marx

[00:01:18] que é utilizada para tudo e mais um pouco.

[00:01:21] E aí, obviamente, como todo bom episódio que está aí junto com o pessoal da Boitempo,

[00:01:25] essa editora mais do que fantástica que teve um evento fantástico essa semana,

[00:01:30] inclusive se você está ouvindo isso na segunda-feira foi ontem, que foi o aniversário do Marx, fantástico,

[00:01:38] eles vão ter um episódio aí que eles vão soltar também com alguns desses do que eles gravaram,

[00:01:45] então assina aí também o vídeo aí do podcast da Boitempo, agora que a Boitempo tem podcast, olha só que maravilha,

[00:01:50] que é As Armas da Crítica, então dá uma olhadinha lá.

[00:01:53] Além disso, como a gente está fazendo essa super dobradinha aí com a Boitempo, como sempre,

[00:01:57] a gente vai sortear dois livrinhos, um vai ser crítica da filosofia do direito de Hegel,

[00:02:02] que obviamente não faz sentido, a gente foi um episódio sem sortiá-lo,

[00:02:04] e a Teoria da Revolução no Jovem Marx, de Michel Lovie, eu sempre chamei ele de Michael Lowy,

[00:02:11] mas ele é brasileiro então é Michelzinho.

[00:02:14] Além disso, lembramos aí que nós temos aí as promoções do livro da Nova Cultura,

[00:02:20] que tem 20% com o cupom Revoluchow, além das nossas queridas e amadas camisetas de sempre,

[00:02:25] do pessoal da Sublime, da Camisa Crítica e da Veste Esquerda, todos os cupons estão aí no site,

[00:02:32] se você chegou pelo feed vai lá em www.revoluchow.com,

[00:02:35] no episódio que você está ouvindo neste exato momento, dá uma olhada nos cupons,

[00:02:39] se você quiser comprar uma camisa nada menos que show.

[00:02:43] E finalmente, finalizando esta nossa querida abertura,

[00:02:46] quero lembrar que este episódio fantárdigo é uma realização da nossa querida Health Death,

[00:02:52] nossa produtora maravilhosa, queria mandar um abraço aí para o Sr. Gus Lanzetta,

[00:02:55] um abraço e saudades de você, meu querido Lanzetta,

[00:02:58] que também está produzindo o podcast da Boitempo,

[00:03:01] e ele é só possível de ser produzido graças a você, nossa querida e amada Padrim e nosso Peak Payor,

[00:03:08] posso usar este termo, que você pode ser nosso padrinho lá em www.padrim.com.br.

[00:03:16] E a partir de 5 reais por mês, no Padrim ou no Peak Payor,

[00:03:20] você está concorrendo a estes maravilhosos sorteios de livrinhos.

[00:03:23] Então é isso, valeu igual marxista na revolta,

[00:03:29] e um abraço a todos vocês, espero que vocês gostem do episódio e tchau, tchau!

[00:03:38] .

[00:03:56] Está começando mais um Revoluchow,

[00:03:58] um programa educativo com os maiores nomes do marxismo,

[00:04:02] e hoje aqui à minha esquerda está ele,

[00:04:05] depois de um longo inverno e de ter acabado com os outros nos últimos episódios do Game of Thrones,

[00:04:10] ele, João Carvalho, o Nortenho.

[00:04:13] Esse é o inverno do nosso descontentamento, feito o glorioso verão por este sol de York,

[00:04:18] voltei citando Ricardo III, ato 3, cena 1, e estamos aí.

[00:04:25] Muito bom, muito bom.

[00:04:27] Se você quiser eu faço de novo em inglês médio mancando para entrar no personagem.

[00:04:31] Não, está bom assim, já está bem interpretado.

[00:04:35] À esquerda de João está ele, Jones Manuel.

[00:04:40] Salve, salve galera, estamos aqui.

[00:04:43] Eu não sei falar essas coisas bonitas que João fala,

[00:04:47] então, como diria a Mano Brau, é nós.

[00:04:50] Vamos segurar para mais um episódio.

[00:04:52] E nós temos à esquerda de Jones o nosso convidado especial,

[00:04:58] para esse episódio de hoje, que é a crítica da Filosofia do Direito de Hegel.

[00:05:03] E nós estamos aqui com nada mais, nada menos que o tradutor,

[00:05:07] Leonardo de Deus.

[00:05:09] Se apresente, fala um pouquinho pessoal, um pouco de você, onde você atua, para a galera conhecer.

[00:05:14] Boa noite pessoal, é um prazer estar aqui, agradecer ao Diego, ao João, ao João.

[00:05:21] Eu sou professor do FMG, no curso de economia e relações econômicas internacionais.

[00:05:29] É isso, é um imenso prazer estar aqui.

[00:05:32] Ótimo, obrigado.

[00:05:35] Gente, então, a proposta de hoje, esse é o terceiro episódio da cronologia Marx e Engels.

[00:05:42] A gente teve o primeiro episódio discutindo a biografia do Marx.

[00:05:47] Apresentamos uma série de elementos contextuais, históricos e do desenvolvimento intelectual do Marx.

[00:05:54] Depois a gente teve o segundo episódio da cronologia, que foi Os Dispossuídos,

[00:06:00] sobre a lei do furto da madeira, contando um pouco do processo pós universidade do Marx,

[00:06:08] quando ele começa a atuar na Gazeta Renana.

[00:06:10] E ali já aparecem os primeiros elementos da reflexão do Marx,

[00:06:14] do que levaria ele mais pra frente às produções.

[00:06:20] E aí, isso é em 42, e em 43 Marx está escrevendo esse texto da crítica da filosofia do direito de Hegel,

[00:06:36] que também é conhecido como manuscritos de Krosnar.

[00:06:41] Eu não sei como é que fala, mas é mais ou menos isso aí.

[00:06:43] E aí, isso na lua de mel, porque o Marx consegue fazer essas coisas maravilhosas.

[00:06:51] E aí, a gente queria apresentar um pouco, então.

[00:06:55] Eu não sei se o Leonardo queria falar um pouco de como é que foi a experiência da tradução,

[00:07:02] porque, o que que leva, ou se o João quer fazer um contexto histórico, retomar algumas coisas.

[00:07:08] Se o Leonardo quiser começar depois, eu dou só uma contextualizada no texto e no contexto,

[00:07:14] e a gente vai indo do jeito que preferiu. O convidado sempre manda.

[00:07:18] Beleza. Então, já falou, foi um texto escrito numa lua de mel, né?

[00:07:24] É óbvio que as luas de mel do século XIX duravam meses, né?

[00:07:31] Foi na Cachambú, da Alemanha, que é o Marx desempregado, expulso da Alemanha,

[00:07:40] se dirigindo a Paris, que era uma meca do socialismo na época, já com a sua senhora,

[00:07:47] e levou na bagagem a filosofia do direito de Hegel,

[00:07:52] que ainda era o livro principal da filosofia política alemã, da época, pelo menos.

[00:07:58] E foi isso, né? Ele se dedicou ali durante três meses à leitura do texto,

[00:08:04] e ao mesmo tempo a um exame crítico do texto, da obra hegeliana, do pensamento político de Hegel.

[00:08:11] É uma parte dele, pelo menos.

[00:08:14] Bom, traduzir esse texto foi uma grande aventura, e a gente começou, a gente fez a tradução em parceria,

[00:08:24] o Ruben Zendel e eu, mas na verdade eram três tradutores,

[00:08:29] era o Jaime França Teles, o Ruben Zendel e eu, e a gente fazia a tradução à mão,

[00:08:34] num caderno manuscrito, que eu espero que esteja guardado em algum lugar,

[00:08:40] mas era um texto que começava a ganhar importância aqui no Brasil,

[00:08:46] e aí um professor da filosofia, José Chazinho, infelizmente falecido,

[00:08:52] pediu que a gente traduzisse o texto.

[00:08:55] Só que o negócio demorou muitos anos entre mestrados e copas do mundo,

[00:09:01] o negócio foi se alongando no tempo, até que a editora Boitempo finalmente apareceu na cena

[00:09:08] para dizer, olha, a gente quer publicar, precisamos publicar textos de marcas.

[00:09:13] Então, sete anos depois de começar a tradução, muitas interrupções, a gente conseguiu publicar,

[00:09:20] e está aí até hoje, felizmente.

[00:09:23] Então, gente, o Leonardo já começou a falar,

[00:09:27] eu vou só dar algumas leves pinceladas aqui sobre o que ele já falou,

[00:09:34] o Zurkistik der Hegelchen Restphilosophie,

[00:09:38] o crítico da filosofia do direito de Hegel,

[00:09:41] foi um manuscrito que foi escrito lá em Kroisnacht, nessa lua de mel do Marx,

[00:09:46] e que não foi publicado durante boa parte da sua vida,

[00:09:51] apesar de depois ele ter escrito uma introdução

[00:09:56] que vai sair no Dois Françoises d’Hierbischer,

[00:10:00] depois a minha pronúncia é do Hordoz,

[00:10:03] o nosso querido Leonardo vai poder me corrigir de cima em baixo,

[00:10:06] porque meu alemão é intermediário e horrível,

[00:10:09] e esse é um texto que é muito interessante,

[00:10:13] porque eu como historiador de formação,

[00:10:16] e o Jones também é historiador de formação,

[00:10:19] sempre que a gente vai estudar um texto,

[00:10:22] a gente tem que entender o contexto de Hordoz,

[00:10:25] o contexto daquele texto que foi escrito,

[00:10:28] e depois os múltiplos contextos da recepção daquele texto.

[00:10:32] O contexto em que ele é escrito é o contexto do final,

[00:10:37] da expulsão do Marx alemão,

[00:10:40] e também do final da Rheinische Zeitung, da Gazeta Renana,

[00:10:43] que foi durante um tempo um lugar onde alguns neo-regelianos de esquerda,

[00:10:50] chamados jovens regelianos, apesar de nem todos eles serem tão jovens,

[00:10:55] nem todos eles serem tão de esquerda assim,

[00:10:58] conseguiram se encontrar num meio termo plausível

[00:11:03] com parte da burguesia liberal da Renânia,

[00:11:07] e, obviamente, como qualquer meio termo plausível com a burguesia liberal,

[00:11:11] ele era fadado a dar errado, e ele deu errado muito rapidamente,

[00:11:15] e no final da sua história de uma forma muito brutal.

[00:11:19] O que leva o Marx a sair,

[00:11:22] e que leva depois o Marx, durante a sua experiência já na França,

[00:11:28] influenciado pela sua experiência já na França,

[00:11:32] a escrever um texto que vai ser publicado nos Anais,

[00:11:38] que sai numa única edição em 1845,

[00:11:41] que é um texto que já é uma introdução,

[00:11:45] mas é uma introdução que já vai muito além do que o texto original teria ido.

[00:11:51] Quando a gente pensa no estudo que o Marx estava fazendo

[00:11:55] da filosofia do direito de Hegel,

[00:11:58] e como o Leonardo já falou que era basicamente a grande obra

[00:12:02] da filosofia política alemã à época,

[00:12:05] Marx já está fazendo isso depois dos embates que ele teve

[00:12:09] durante o seu período da Gazeta Renana.

[00:12:12] A importância desses embates são para a gente entender

[00:12:15] qual é o caminhar que vai levar o Marx ao comunismo.

[00:12:21] O que a gente tem muitas vezes são leituras marxistas

[00:12:25] de um texto marxiano que não necessariamente é marxista.

[00:12:29] Isso é uma coisa que eu acho que é interessante a gente pontuar nesse começo,

[00:12:33] que a Inleighton, a introdução que é escrita posteriormente,

[00:12:38] já caminha muito mais do que o próprio texto,

[00:12:41] a própria crítica da filosofia do direito de Hegel,

[00:12:44] vai caminhar nas posições de Marx,

[00:12:47] e isso se deve também às influências que ele teria posteriormente na França.

[00:12:51] Ainda assim, a gente vai ver uma outra caminhada gigantesca do Marx,

[00:12:56] ainda em 1844, quando da polêmica dele com o Ruger,

[00:12:59] e finalmente em 1845, nós vamos ver o nascimento do materialismo em Marx,

[00:13:05] quando ele vai fazer a sua polêmica final com Feuerbach.

[00:13:09] O texto é extremamente dependente das visões de Ludwig Feuerbach,

[00:13:15] Ludwig Andreas von Feuerbach era um filósofo da época,

[00:13:20] nascido em 1804, na Bavaria,

[00:13:24] e que o livro mais importante dele, que mais tem influência sobre esse trabalho do Marx,

[00:13:32] é o Das Wissen des Christentums,

[00:13:34] o Essência do Cristianismo, escrito em 1841.

[00:13:38] O que influencia tanto na obra do Marx,

[00:13:42] e que influenciou não só o Marx, mas o Engel, o Bakunin e vários outros autores da época,

[00:13:47] que foram profundamente influenciados por Feuerbach,

[00:13:49] e que depois iriam muito além do que Feuerbach jamais foi,

[00:13:52] que era exatamente, entre aspas, o ateísmo, a crítica teológica do Feuerbach.

[00:14:01] E aí eu vou me permitir a gente voltar um pouco ainda mais,

[00:14:05] e lembrar lá do episódio do primeiro volume que a gente estudou da biografia do Michael Heinrich,

[00:14:14] do Karl Marx, do nascimento da sociedade moderna,

[00:14:17] que a gente tem que entender a importância da crítica teológica dentro da filosofia alemã.

[00:14:26] E como que Feuerbach foi um rompedor de fronteiras,

[00:14:33] foi um cara que foi muito longe nessa sua crítica, apesar de ficar muito aquém nos seus aspectos políticos.

[00:14:41] Lembrando que o hegelianismo de esquerda, o neo-hegelianismo, os jovens hegelianos,

[00:14:46] a gente tem vários nomes diferentes para esses grupos,

[00:14:49] eram grupos muito heterodoxos.

[00:14:53] Então, se a gente tem o Marx da Gazeta Renana,

[00:14:57] que está muito próxima ainda do Huger, por exemplo, até 1844,

[00:15:03] e a gente tem, por exemplo, o grupo dos livres em Berlim, captaneado pelos irmãos Bauer,

[00:15:07] todos sendo colocados nesse enorme balaio de gatos, nesse guarda-chuva teórico do neo-hegelianismo,

[00:15:14] do jovem hegelianismo, do hegelianismo de esquerda,

[00:15:17] a gente tem que entender que existem profundas cisões sobre eles,

[00:15:20] e são essas cisões que vão nos levar aos percalços e ao caminho que leva Marx até a sua adesão final ao comunismo,

[00:15:32] e até, de fato, os escritos marxianos posteriores que vão trazer o tom de todo o restante da obra.

[00:15:42] Então, se a gente tem com, principalmente, na época dos Anais,

[00:15:49] do Deutsch-Französischer e Arbischer, que são escritos em Paris e posteriormente publicados na Alemanha,

[00:15:57] um Marx que está muito mais próximo do comunismo filosófico do Moses Hess, por exemplo,

[00:16:04] vai ser, quando ele começa a escrever, depois dos seus estudos em Kroisnar,

[00:16:11] quando ele escreve a Einleitung, que ele escreve a Introdução,

[00:16:15] que nós vamos ter uma segunda fase desse Marx caminhando, da sua adesão ao comunismo,

[00:16:24] onde você vai ter a descoberta do proletariado como classe emancipadora,

[00:16:28] como base real da revolução comunista, mas ainda assim um proletariado que não é a fonte ativa,

[00:16:36] mas sim é uma recepção passiva do proletariado da revolução que vem da cabeça do filósofo,

[00:16:42] ou seja, a gente ainda tem, por mais que se esteja já uma crítica a uma passividade,

[00:16:48] por exemplo, do Grupo dos Livres, e mesmo a passividade foi herbarquiana,

[00:16:51] ainda assim se tem uma adesão muito grande que subjeta, segundo um liame de interpretação dessa literatura,

[00:17:00] as próprias teses de Forme, mesmo as próprias teses da prevalência da filosofia à prática material.

[00:17:11] E é muito interessante a gente pensar que o texto, hoje em dia a gente já está na segunda ou terceira edição do livro,

[00:17:21] e que na primeira edição não tinha, a segunda já tem ela toda a partir do original em alemão,

[00:17:26] exatamente do crítico da filosofia do direito de Hegel e Introdução,

[00:17:30] que é um texto fundamental para a gente entender todo esse contexto de transição e de adesão ao comunismo do Marx,

[00:17:39] e que por sua vez é um texto que é escrito posteriormente ao nosso próximo episódio da nossa série, que é A Questão Judaica.

[00:17:46] Porque já no A Questão Judaica, e eu vou me antecipar aqui ao próximo episódio,

[00:17:52] a gente tem uma ruptura fundamental do Marx com o Feuerbach,

[00:17:58] que é exatamente o Marx que foi criticado muito pelo Sobre a Questão Judaica,

[00:18:06] por o Sobre a Questão Judaica ser em tese um texto antisemite,

[00:18:10] depois tiveram, principalmente nas décadas de 20, 30 do século passado, algumas leituras psicologizantes,

[00:18:16] como se fosse o escrito de um judeu se revoltando contra o fato de ser judeu,

[00:18:21] na verdade, quando a gente faz uma leitura mais atenta do Sobre a Questão Judaica,

[00:18:24] a gente percebe que a gente tem uma ruptura muito grande com o Feuerbach,

[00:18:27] o Feuerbach sim é um antisemite muito claro,

[00:18:30] o Feuerbach, quando ele escreve a essência do cristianismo,

[00:18:33] ele coloca no judaísmo a pecha que o Marx não coloca,

[00:18:38] por mais que o Marx no Sobre a Questão Judaica vai falar lá que o judaísmo é muito ligado ao dinheiro,

[00:18:43] que o judeu está sempre ligado ao lucro,

[00:18:45] ele não coloca isso como uma característica inata do judeu,

[00:18:48] ele coloca isso como uma característica sistêmica dentro de uma construção capitalista.

[00:18:54] Quando chega lá na frente, logo depois do Sobre a Questão Judaica,

[00:19:00] ele vai escrever a introdução do crítico da filosofia do direito de Hegel,

[00:19:07] ele vai usar pela primeira vez o termo proletariado na sua obra,

[00:19:11] e ele já vai dar um passo além do que a própria obra que ele está introduzindo dá.

[00:19:17] Isso é uma coisa que é muito engraçada para nós que somos da Academia,

[00:19:21] porque muitas vezes a gente escreve o trabalho inteiro e no final escreve a introdução,

[00:19:26] e isso é uma prática centenária se não milenar,

[00:19:30] e muitas vezes a introdução vai muito além do que o trabalho foi,

[00:19:34] e no caso deste livro em específico, a introdução vai muito além,

[00:19:39] a introdução dá um passo em direção ao processo de lesão do Marx ao comunismo que o próprio texto não dá,

[00:19:47] apesar de o texto já trabalhar com um grau de democracia radical

[00:19:53] que o Marx não chegava quando ele escrevia no Heinrich Zeitung.

[00:19:58] Quando ele escreve no Heinrich Zeitung, muitas vezes ele criticando aquilo que está acontecendo,

[00:20:03] criticando a dieta da Renane, criticando a coupidez dos liberais e dos burgueses da Renane

[00:20:13] em relação às leis do roubo de madeira,

[00:20:17] ele ainda assim está fazendo uma crítica pensando o Estado e pensando a sociedade civil nas mesmas categorias reguilianas,

[00:20:26] que são as categorias que ele vai criticar aqui no crítica da filosofia do direito do Hegel.

[00:20:33] Aí eu vou abrir para o Jones falar, para o Leonardo completar,

[00:20:37] para depois a gente entrar no crítica da filosofia do direito do Hegel

[00:20:41] para entender como que se dá a crítica a essas categorias,

[00:20:44] quais são as inversões que o Marx vai trabalhar em cima do Hegel

[00:20:47] e como que o Marx vai começar a desconstruir esse arcabouço reguiliano que tinha e que era muito importante na época.

[00:20:56] E a gente tem que entender também que, para além de todo esse contexto pessoal do Marx,

[00:21:01] a gente tem o contexto alemão da época onde isso está sendo escrito.

[00:21:05] A gente tem que pensar quem foi Guilherme Frederico IV,

[00:21:10] qual que era a importância dele, o que os liberais esperavam dele,

[00:21:14] o que muitas vezes os reguilianos de esquerda esperavam dele

[00:21:16] e qual foi o grande banho de água fria que essas pessoas todas tiveram

[00:21:20] e que levaram depois essas lutas, lutas essas que eram travadas à época nos jornais e nos periódicos acadêmicos

[00:21:28] e muito mais do que serem travadas no campo da crítica da filosofia política

[00:21:33] e no campo da economia política que Marx vai praticamente, entre aspas, inaugurar e adentrar essas sendas,

[00:21:40] vendo nelas uma importância muito grande, principalmente depois de 1845.

[00:21:44] Muitas vezes essas batalhas que se deram, principalmente as batalhas que se deram antes do final,

[00:21:49] antes da ascensão do Guilherme Frederico IV,

[00:21:53] elas se davam principalmente no campo da crítica teológica,

[00:21:58] antes mesmo até do que do campo da filosofia política.

[00:22:02] Então a gente tem que entender todo esse contexto para a gente entender quais são as rupturas, quais são os continuismos

[00:22:09] para a gente conseguir fazer uma historiografia contra pelo do que o texto nos dá

[00:22:15] para a gente poder de fato tirar dele o melhor que ele tem a nos oferecer.

[00:22:23] Já que você tinha encaminhado aí para o Jones ou Leonardo,

[00:22:25] ou Jones, acho que talvez seria interessante você comentar, até que você comentou lá,

[00:22:29] falando da questão da dialética e tal, e um pouco demonstrar o que esse pensamento hegeliano representava para o Marx

[00:22:38] e para a gente desdobrar no texto.

[00:22:40] Então, João falou uma parte que eu queria falar, porque eu queria abordar justamente

[00:22:46] que é uma coisa que às vezes a gente não se pergunta, porque é crítica Hegel?

[00:22:51] No sentido de qual era a importância de Hegel naquele momento histórico da formação do jovem Marx,

[00:22:58] do nosso Marx quase adolescente, porque Hegel era importante.

[00:23:02] E João já deu uma introdução de contexto muito bom, só tocando alguns pontos.

[00:23:09] O Lukács, ele tem um livro chamado Jovem Hegel, Os problemas da sociedade capitalista, se eu não me engano,

[00:23:18] que foi lançado inclusive pela Boitem.

[00:23:20] E aí nesse livro, por exemplo, o Lukács faz um debate muito grande, porque existe uma leitura que Hegel é um filósofo da reação,

[00:23:30] no sentido de que a filosofia de Hegel, especialmente na sua filosofia do Estado e do Direito,

[00:23:37] foi o fundamento de legitimação do Estado prussiano.

[00:23:43] Aquela ideia que é uma frase muito descontextualizada de que o Estado seria a encarnação da razão,

[00:23:52] portanto o real é racional e quem está contra o real, quem está contra o status quo, está fora do reino da razão.

[00:24:03] Então a parte desse tipo de leitura está legitimada, a realidade existente,

[00:24:10] como todas as misérias presentes nela e o poder instituído da monarquia feudal prussiana.

[00:24:17] E essa leitura já é muito polêmica, acho que não vale tanta pena aprofundar no debate sobre Hegel,

[00:24:24] porque Hegel tem muitas faceitas na sua obra.

[00:24:29] Tanto o Lukács como o Losurdo, que são dois autores que fazem percursos totalmente diferentes,

[00:24:36] têm informações diferentes, eles batem muito forte na tese de que Hegel era um filósofo da reação.

[00:24:44] Inclusive o próprio Losurdo até questiona a ideia de Hegel como um filósofo idealista,

[00:24:51] que é uma viagem mais profunda ainda.

[00:24:55] O que é interessante notar é que de maneira incontexta, Hegel foi a espécie de o espírito do tempo da Alemanha,

[00:25:03] usar até uma categoria dele, no sentido de que ele foi o grande intelectual da sua época histórica,

[00:25:10] e quando Hegel morre a disputa pelo espólio hegeliano era gigantesca,

[00:25:17] tanto que se formou uma espécie de, entre aspas, partidos na filosofia,

[00:25:23] tem os hegelianos de direita e os hegelianos de esquerda,

[00:25:26] não posso inserir a Marx, que depois ele vai romper com todo mundo, vai sair distribuindo porrada,

[00:25:32] ele junto com Engels, especialmente na saliagem da família, na ideologia alemã.

[00:25:38] Então, a crítica à filosofia do direito de Hegel, porque pra Marx, pensando,

[00:25:44] a gente sabe que nessa época não existia ainda Alemanha,

[00:25:47] Alemanha só vai ser formada enquanto estado nacional algumas décadas mais a frente,

[00:25:52] mas como dentro do ambiente da cultura germânica,

[00:25:57] quem queria fazer a crítica da realidade existente tinha que passar por Hegel,

[00:26:02] seja se apropriando uma leitura de uma democracia radical, que é mais ou menos onde Marx se situa nesse momento,

[00:26:10] uma influência muito grande numa leitura russoniana, da experiência histórica dos clubes jacobinos,

[00:26:16] da revolução francesa e por aí vai, seja até uma perspectiva conservadora,

[00:26:21] com muitos pensadores na Alemanha, mas a crítica à filosofia de Hegel, porque Hegel era o pensador,

[00:26:29] não dava pra você fazer filosofia na Alemanha sem passar por Hegel,

[00:26:35] tanto que, inclusive, Marx tinha o objetivo de ser professor universitário,

[00:26:42] ele queria entrar na academia do período e ser um filósofo acadêmico,

[00:26:51] queria beber toda essa tradição, de certa forma dar continuidade a ela,

[00:26:57] a gente sabe que felizmente Marx foi proibido de entrar na academia, foi perseguido,

[00:27:01] e aí partiu pra militância política cada vez mais ativa e se tornou o Marx que a gente conhece.

[00:27:10] O fundamental é que Marx, nesse livro, ele não se propõe a debater o conjunto da obra de Hegel,

[00:27:20] não é esse o objetivo, então o leitor que pegar o livro, quando ele ler, ele vai pensar assim,

[00:27:26] que o Hegel era um puto de um racionário mesmo, porque a forma como Marx vai mostrando as autonomias,

[00:27:32] as contradições da obra de Hegel, vai mostrando a forma como Hegel trabalha,

[00:27:37] a noção de estado e de estado como o ente universal que está acima das particularidades da sociedade civil,

[00:27:47] pode dar impressão ao leitor que já ouviu falar por cima, na universidade, em outros espaços,

[00:27:55] que Hegel era um filósofo da reação, um filósofo conservador, um defensor da monarquia prociana,

[00:28:01] que é isso mesmo, só que não é bem por aí, então acho que essa primeira advertência importante,

[00:28:07] essa aproximação que Marx faz de Hegel, é no sentido de superar Hegel, e que é algo que vai durando toda a obra dele,

[00:28:17] mas Marx nunca tomou a postura de jogar o bebê com água fora, tanto que no Capital,

[00:28:25] não vou lembrar em qual dos prefácios, Marx inclusive defende Hegel, fala que se transformou,

[00:28:35] virou moda tratar Hegel como um cachorro morto, mas que nenhum desses pensadores que criticam Hegel

[00:28:42] tem a qualidade que ele tem, algo assim, inclusive Marx voltou a ler o Ciência da Lógica pra escrever o Capital,

[00:28:51] se eu não me engano, pra reescrever a edição francesa do Capital, que foi a segunda ou terceira edição, não me lembro de cabeça agora,

[00:28:58] mas aí é a primeira advertência, então esse momento pra Marx é muito importante porque é uma superação da filosofia política hegeliana,

[00:29:08] que era algo fundamental, já que essa filosofia política foi apropriada enquanto legitimação do poder existente,

[00:29:15] mas isso não representa a totalidade da obra de Hegel, Hegel é muito mais do que Marx está criticando nessa obra,

[00:29:23] e o próprio Marx sabe disso, é como se essa obra tivesse um objetivo de autoconhecimento, um objetivo político muito bem específico,

[00:29:32] dentro do contexto da conjuntura do que o Lukács chama da miséria alemã, que é um aspecto que a gente vai aprofundar mais a frente,

[00:29:41] quando debater a questão da religião.

[00:29:44] Beleza, acho que te levantou vários elementos sobre a questão da conjuntura, sobre o processo do livro,

[00:29:54] é só importante retomar e lembrar uma coisa, esse livro foi publicado a primeira vez em 1927 lá no Instituto Marx e Engels pelo Riazanov,

[00:30:06] naquele processo que a gente discutiu lá do papel da mega e tudo mais, e é o seguinte, a primeira coisa para falar do livro é que é um textinho difícil pra porra,

[00:30:17] quem não está habituado com textos filosóficos e tal, vai ter uma certa dificuldade em entender, por exemplo, como eu tive,

[00:30:28] tem muitas questões que dependeriam de um conhecimento um pouco maior sobre Hegel, sobre a filosofia do direito de Hegel,

[00:30:39] porque o livro é a crítica a essa filosofia, e aparece várias questões, esse texto tem alguns pontos que eu acho importante marcar,

[00:30:54] uma que é uma coisa constante, que me chama muita atenção, estou levantando aqui alguns pontos, vocês fiquem à vontade pra levantar outros e falar,

[00:31:04] que é a questão da mistificação, o Marx, ele dá vários pontos aqui, ele condena o Hegel por uma espécie de mistificação,

[00:31:16] dentro do seu próprio sistema, identificações da realidade com a empiria, uma série de coisas desse sentido.

[00:31:26] Mas, para além disso, eu acho que tem três coisas importantes que o livro levanta, para a gente ver se a gente consegue falar bem deles,

[00:31:36] que é a crítica da separação e oposição entre sociedade civil e estado, acho que esse é um ponto importante,

[00:31:46] uma crítica à especulação, que tem a ver com essa questão da mistificação, e a operação que o Marx faz de inversão entre sujeito e predicado,

[00:31:58] na lógica Hegeliana, que tem a ver com a influência do Freubach, e o terceiro ponto, que é a crítica da política dela, da alienação política,

[00:32:10] que é a relação da sociedade civil com o estado, o que impede o povo de fato controlar o estado, acho que são esses três elementos,

[00:32:21] não sei se o Léo quer começar a falar dos pontos, do texto mesmo diretamente, que são importantes para a gente ir avançando.

[00:32:31] Perfeito. Como você falou, se a gente tem paciência de ler o texto inteiro, do Marx, como disse o Jones,

[00:32:44] depois tem em mente o texto do Hegel, que é muito maior, do direito e do sistema Hegeliano.

[00:32:51] Eu acho que no começo do livro, o Marx tem uma agenda muito pronta, que é detonar esse misticismo lógico do Hegel,

[00:33:07] quer dizer, a realidade do estado entra para confirmar uma lógica a priori, e logo nas primeiras páginas,

[00:33:16] Marx se confronta com a defesa Hegeliana da monarquia, contrapõe a monarquia Hegeliana, o que ele chama de verdadeira democracia,

[00:33:28] é o começo do texto, as 10, 20 primeiras páginas do texto, Marx parece já ter muito claro o que a gente está pensando,

[00:33:39] mas realmente depois, ao longo do texto, nós temos a primeira crítica ideológica de Marx, é uma crítica de uma formação ideal,

[00:33:50] própria medida, a obra de Hegel aparece diante do fórum do leitor Karl Marx, como uma espécie de expressão do tempo,

[00:34:03] quer dizer, as síntesis que Hegel vai fazer ao longo do seu percurso, poder exativo, poder burocrático, etc.,

[00:34:12] elas começam a formular para Marx um problema que ele não tinha no começo, que é exatamente o problema da separação entre o estado e a sociedade civil,

[00:34:27] ou por outro, o problema da representação, quer dizer, esse problema não estava no começo do texto, não aparece no começo do texto,

[00:34:36] e lá pela metade começa, quando Marx vai estudar o problema das imediações em meio, ou seja, o problema da representação política,

[00:34:45] quer dizer, um estado que na modernidade é separado da sociedade, que tudo existe como abstração e universalidade,

[00:34:54] Marx entende que a obra de Hegel é uma expressão e uma contradição real, uma contradição da realidade moderna,

[00:35:02] ou seja, um estado que vive, que está em volta da abstração, só que Marx, ali naquele momento, ele quer uma representação real,

[00:35:12] ele quer que cada indivíduo seja representado no estado como um membro tal qual existe, tal qual vive na sociedade civil,

[00:35:23] e ao final ele constata que é necessário superar o estado superando a própria sociedade civil,

[00:35:31] e foi isso que o João falou muito bem, quer dizer, logo depois ele vai ver outros textos que virão a seguir no Revoluchou,

[00:35:41] que são os textos de Marx que conseguem resolver esse problema, quer dizer, o problema de um estado separado da sociedade civil e uma sociedade civil,

[00:35:51] ou seja, uma vida material que não é representada por esse estado, uma vida alienada da sociedade civil,

[00:35:59] mas nesse texto da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel o problema vai se insinuando, como é que eu vou superar a abenação política,

[00:36:10] e isso Marx deve efetivamente apoiar, quer dizer, ele tenta fazer uma política, transformar um problema político que era para apoiar o problema religioso,

[00:36:24] que foi a tese do Marx, já citado aí, do jovem Marx, quer dizer, a ideia de que Marx transformou o problema, vamos dizer, filofórico, teológico,

[00:36:39] em foia ou num problema político, quer dizer, como é que eu vou representar uma sociedade tão diversa, tão complexa por meio de um poder,

[00:36:51] um poder muito restrito, muito pequeno, e a gente não conjunte a sociedade. Então, são três problemas que se conectam, de fato,

[00:36:59] e vão formando uma dificuldade maior da medida que você vai evoluindo no texto, o texto é muito importante.

[00:37:10] Marx começa com uma agenda muito clara, exatamente o que o Jones falou do Rousseau, ele quer uma democracia radical, uma verdadeira democracia,

[00:37:19] e termina o texto defendendo o sufragio universal, mas o sufragio universal que já é a superação da sociedade civil separada do Estado,

[00:37:29] quer dizer, uma sociedade civil que se torna política, quer dizer, um texto muito interessante porque mostra um estudioso,

[00:37:41] é um texto que aparece diante de muitos dilemas, muitos dilemas que estão ali e aparecem no texto claramente como apostos,

[00:37:48] eu acho que é isso que eu interesso do texto, como você falou, o texto foi publicado 80 anos depois, é a porta de entrada do jovem Marx e do Marx filósofo,

[00:37:59] são questões que se colocam só muito depois para o próprio Marxismo.

[00:38:06] Bom, uma coisa que eu acho que são duas coisas interessantes da gente pensar antes da gente entrar propriamente mais adiante no texto,

[00:38:13] que é um, pensar a localização deste texto na obra de Hegel e pensar o próprio texto de Marx como ele chega até a mega,

[00:38:24] porque assim, o texto do Marx, ele chega até a mega, ele é um texto fragmentário,

[00:38:29] e a gente sabe que se a gente for pensar no Grundlinien, na Grundlinien da Philosophie des Erster Recht,

[00:38:35] que é o texto do Hegel, os elementos, os princípios da filosofia do direito,

[00:38:43] que também foi publicado pelo maravilhoso nome de Naturrecht und Staatswirtschaft in Grundrisse,

[00:38:50] que é direito natural e da ciência do Estado em compêndio, ele era um texto gigantesco,

[00:38:56] tanto que quando a gente vai ler lá o texto do Marx, a gente já vê ele começando o seu texto lá pelo número 261,

[00:39:07] sendo que na verdade, na divisão do próprio texto do Hegel, existem parágrafos anteriores a gente crê,

[00:39:14] isso nos diz a mega, a mega 2, nos diz o próprio livro da Boitempo, os prefazes que foram inscritos ali,

[00:39:20] que teriam se perdido quatro, cinco, seis páginas dessa crítica.

[00:39:25] Então a gente não sabe até que ponto essas quatro, cinco ou seis páginas que se perderam,

[00:39:31] dariam uma, entre aspas, introdução que fala muito do que o Leonardo falou, que ele já chega descendo o porrete.

[00:39:39] Então assim, talvez nessas quatro, cinco páginas tinha uma leve amaciada e uma justificativa antes de se descer o porrete.

[00:39:45] A segunda coisa que é uma coisa que o próprio Diego falou durante a leitura que ele fez do texto,

[00:39:53] que tipo assim, o texto é pesado e o texto foi escrito num contexto e para pessoas que fosse esse texto publicado à época,

[00:40:04] ele seria publicado dentro de um contexto de pessoas que eram profundas conhecedoras da obra de Hegel.

[00:40:11] E quando eu falo obra, eu falo literalmente da versão mais vendida da obra de Hegel à época, que eram nove tomos gigantescos.

[00:40:20] Então assim, parte-se do pressuposto que quem estaria lendo esse texto teria tido um contato com a fenomenologia do espírito,

[00:40:29] teria tido um contato com a ciência da lógica, teria tido um contato mesmo com os elementos da filosofia do direito como um todo

[00:40:39] e estaria se pressupondo a leitura e o conhecimento de várias categorias Hegelianas antes disso.

[00:40:46] Tanto que boa parte da crítica de Marx nessas suas primeiras, vamos colocar 15, 20 pais igual o Leonardo falou,

[00:40:55] é uma crítica e exatamente a formalidade que o Hegel tenta fazer em cima do texto,

[00:41:02] que dá para entender numa entrelinha aí que o Marx está falando do momento em 1820 aonde Hegel escreve,

[00:41:11] esse texto é lançado em 1821, que é o momento na então Alemanha com várias aspas, onde Hegel escreve isso,

[00:41:21] que era um momento também, um momento estatal difícil e um momento que você tinha tido várias perseguições dentro da academia.

[00:41:29] Então assim, quando Hegel escreve esse texto, depois no próprio espolho de Hegel, igual o Jones falou,

[00:41:36] existe uma briga gigantesca entre os Hegelianos de direita e os Hegelianos de esquerda,

[00:41:41] se Hegel teria escrito esse texto como uma defesa dessa monarquia prociana,

[00:41:48] ou como uma crítica profunda dessa monarquia prociana, isso ficaria subjacente exatamente quando ele trabalha com categorias,

[00:41:56] que são categorias que ele vai tirar principalmente da ciência da lógica e mais ainda da fenomenologia do espírito,

[00:42:03] aonde ele está invertendo os sujeitos e praticados talvez até como uma crítica.

[00:42:08] Isso foi discutido na década de 30, logo depois, 26, 27, depois da morte do Hegel,

[00:42:15] tinha várias brigas sobre qual era a forma que isso teria se sucedido, qual era a intenção de Hegel com esse texto.

[00:42:29] Então a gente tem que pensar ainda mais que existem dois contextos que a gente tem que entender,

[00:42:35] que é o contexto da escritura e o contexto também da escritura do texto que está sendo criticado.

[00:42:39] Então a gente vai criando várias camadas, uma em cima da outra, que tornam o texto realmente de muito difícil compreensão.

[00:42:48] Então eu queria chamar a atenção pra essas duas questões, que eu acho que são duas questões importantes pra gente entrar de fato no texto.

[00:42:57] Eu vou passar a palavra pro Jones pra não ficar falando eternamente também.

[00:43:01] É isso, Jones, quiser começar a entrar nos três tópicos que o Diego alavancou pra gente poder discutir do texto em si?

[00:43:08] Ô, Jones, só me permite, se você pudesse esclarecer esse ponto, por que não tem definição de Hegel e por que também não tem tanta definição de Marx?

[00:43:19] Então, eu acho… Primeiro, o livro é muito importante pra compreender o percurso de Marx, fundamental pra fazer um esforço pra ler,

[00:43:30] mas eu vou confessar pra vocês que é um livro chatíssimo.

[00:43:34] E aí é engraçado, porque a primeira parte do livro, no sumado da Boitempo, é aquele que é a filosofia do direito,

[00:43:42] aí tem o primeiro ponto, a Constituição que é a de si, aí letra A, o Poder Soberano, letra B, o Poder Governmental e a terceira, o Poder Legislativo,

[00:43:50] que vai da página 33 até a página 149. Essa primeira parte é a mais difícil de ler, é a mais complicada.

[00:43:58] Quem não tem um certo traqueiro de Hegel vai levar algum pau pra ler, por exemplo, e varos momentos do livro, Marx tá falando da eticidade,

[00:44:09] e aí um termo, uma categoria de Hegel, cometicidade, não é o tipo de coisa que você coloca no Google,

[00:44:17] e vai aparecer uma definição do Wikipedia bom, saca? É o negócio que… A própria categoria de sociedade civil,

[00:44:26] se a gente não se ligar a gente tendo errado, porque nos dias atuais a gente tem sociedade civil como um conjunto de organizações,

[00:44:34] como uma rede associativa de coisas que estão para além do Estado e para além do mercado, como se fosse possível,

[00:44:40] mas esse é um entendimento de sociedade civil. Então, ONGs, movimentos sociais, associações profissionais,

[00:44:47] entidades representativas de corporações profissionais, como OAB e por aí vai. Quando a gente fala em sociedade civil hoje,

[00:44:57] a gente entende isso, né? E para Hegel não, sociedade civil tem outro significado. Para Hegel, a sociedade civil,

[00:45:07] em pouquíssimas palavras, é o reino dos interesses de materiais particulares, o que significaria em termos marxistas,

[00:45:15] relações sociais de produção e reprodução da vida. Então, até termos que são conhecidos no nosso vocabulário curto e teórico

[00:45:24] como sociedade civil, em Hegel tem um sentido diferente.

[00:45:29] Ô Jones, só me permite, se você pudesse esclarecer esse ponto, porque que não tem definição de Hegel e porque também não tem

[00:45:38] tanta definição de marx que você comentou recentemente, beleza.

[00:45:42] E aí, esse já é uma dificuldade adicional. Outra dificuldade adicional em si, e aí vou pegar o gancho que o Diego me deu, é o seguinte,

[00:45:49] eu estava comentando isso outro dia desse com alguns camaradas, que vejam, nos nossos cursos de graduação, de maneira geral,

[00:46:00] os cursos eles não têm, aliás, todos os cursos de humanas no Brasil, inclusive os cursos de serviço social que se declaram

[00:46:10] orientados pela teoria crítica marxista, eles não têm uma fundamentação teórica e epistemológica que vai da linha hegeliana marxista.

[00:46:20] O que eu quero dizer com isso? A gente aprende a pensar de maneira científica por uma base funcionalista e weberiana.

[00:46:30] Como assim, Jones? É bem simples, e aí eu vou tentar usar dois exemplos.

[00:46:38] A gente aprende que a construção científica depende do intelecto do pesquisador, ou seja, eu, por exemplo, vou pesquisar violência.

[00:46:54] E aí, a partir disso, eu começo a olhar uma série de dados, uma série de relatórios, secretarias de segurança,

[00:47:02] algumas pesquisas acadêmicas prévias, pego uma tela de jornais, por aí vai.

[00:47:08] A partir disso, eu analiso o que são os fenômenos mais recorrentes da violência e formo categorias, formo conceitos e explicações,

[00:47:21] relações de causalidade, de causa e efeito, para supostamente explicar os fenômenos a partir disso.

[00:47:27] Então, o sorte é que é como se o pesquisador encontrasse a realidade enquanto um todo caótico, a realidade está caótica,

[00:47:37] você tem vários dados, várias informações, várias percepções dispersas, e o pesquisador, a partir do seu intelecto,

[00:47:44] ele vai organizar essa realidade caótica e dispersa em categorias em relações de causalidade.

[00:47:51] E isso é a pesquisa teórica e a pesquisa científica.

[00:47:55] E para Hegel e para Marx, não.

[00:47:59] Para Hegel e para Marx, a realidade tem uma legalidade imanente.

[00:48:07] O que significa isso? Na própria realidade, existem leis, contradições, movimentos objetivos que não é o pesquisador que vai criar.

[00:48:18] O pesquisador, no processo de formação do conhecimento da pesquisa teórica,

[00:48:24] ele vai se apropriar dessas legalidades objetivas que existem em si e para si na realidade,

[00:48:31] inclusive à despeito da consciência do pesquisador sobre esses fenômenos ou não.

[00:48:37] Ou seja, para Hegel e para Marx também, a realidade tem uma dimensão ontológica.

[00:48:45] E a pesquisa científica não trabalha só com o intelecto, que seria essa dimensão de você

[00:48:53] compilar dados, descrições, informações e estabelecer relações de causalidade e criar conceitos.

[00:49:01] A pesquisa tem que trabalhar com a dimensão da razão. A razão no sentido de Hegel é você compreender o real tal como ele é em si.

[00:49:12] Isso é um pouco difícil de entender, mas é como quem explica isso muito bem,

[00:49:18] inclusive é o Carlos Nelson Coutinho no livro O Estrituralismo e a Miséria da Razão,

[00:49:22] Expressão Popular, 2014, vale muito a pena ler, é um livro de inspiração caxiana,

[00:49:27] inclusive é o melhor livro da vida do Carlos Nelson Coutinho.

[00:49:31] Parece difícil de entender, mas a ideia é que, dando um exemplo básico,

[00:49:37] Nas regras do método sociológico, ele diz que para compreender um fato social,

[00:49:42] nós temos que definir tudo que é regular e estável nesse fato social.

[00:49:48] Ou seja, voltando ao exemplo da violência, se eu for estudar o fenômeno da violência,

[00:49:53] eu vou pegar todos os fenômenos que parecem os mais regulares e estáveis,

[00:49:58] dentro de um arco temporal, dentro do que eu chamo de violência.

[00:50:03] Mas e os fenômenos que não são regulares, que são fenômenos, por assim dizer,

[00:50:08] episódicos, o que é que eu faço? Eu excluo, porque eles perturbam a análise

[00:50:14] na hora de eu formar a minha compreensão do fato social, do conceito.

[00:50:19] Então é o pesquisador que decide, por vontade própria, a forma do conceito.

[00:50:27] Então ele, o Durkheim, e o Weber também, por um caminho diferente,

[00:50:31] o Durkheim é o cara do fato social, o Weber é o cara do tipo ideal.

[00:50:35] Eles decidem que, para se criar uma explicação sociológica consistente,

[00:50:41] você, por exemplo, exclui a contradição dos fenômenos sociais.

[00:50:45] Já um pesquisador hegeliano marxista, ele vai dizer que, como diria uma famosa frase do Hegel,

[00:50:54] o método é parte do próprio objeto.

[00:50:58] Então é o objeto de estudos do pesquisador que vai dizer quais são suas contradições,

[00:51:07] quais são suas regularidades, suas temporalidades, seus fenômenos constitutivos, suas determinações.

[00:51:15] Então essa é a primeira dificuldade, porque isso vai totalmente,

[00:51:19] porque é contribuintivo do que a gente aprende a vida todinha na faculdade, na escola também, inclusive,

[00:51:26] na escola da maioria dos livros que a gente lê no Mercaditorial.

[00:51:32] É por isso, inclusive, que tanto a gente tem dificuldade, vou até jogar uma bola para o João sutar depois,

[00:51:38] de entender Pelas Negras e Máscaras Brancas do Fanon,

[00:51:42] porque é um livro de fundamentação hegeliana, Fanon linha muito Hegel,

[00:51:47] não entendia pra caramba de Hegel, e quando vai falar de raça, de identidade ali,

[00:51:51] muita gente toma por uma leitura identitária, porque tem dificuldade de entender a lógica dialética

[00:51:57] na construção da reflexão Fanoniana.

[00:52:01] Fecha os parênteses.

[00:52:04] O segundo aspecto é que a gente não é Hegel.

[00:52:13] A própria cultura alemã, pré-marx, de maneira geral, ela não chega até a gente,

[00:52:23] e vou ser muito sincero com vocês que na minha universidade eu só li Kant,

[00:52:28] que acho que foi alguns capítulos da crítica da razão pura numa cadeira de introdução à filosofia

[00:52:34] de um professor que era Heideggeriano e colocou assim rapidamente para a gente,

[00:52:38] para dizer que Kant estava errado, quem estava certo era Heidegger,

[00:52:41] então a gente leu um texto de Kant, um texto de Santagustinho, e foi o rastro da cadeira todinha,

[00:52:47] além do Heidegger.

[00:52:48] Então, como a gente não lê Hegel, a gente não sabe o que é contradição,

[00:52:54] a gente não sabe o que é processo, a gente não sabe o que é determinação,

[00:52:58] a gente não sabe o que é dialética, a gente usa o termo dialética como uma espécie de jargão,

[00:53:04] a gente fala assim, tal coisa é um processo dialético, é uma relação dialética,

[00:53:12] e normalmente a gente toma isso como se fosse sinônimo de ser um processo, uma relação complexa e contraditória,

[00:53:20] mas para a dialética Hegeliana, todo o processo, toda a relação é complexo e contraditório,

[00:53:27] porque a contradição é uma categoria histórico ontológica, ou seja, ela está posta na própria realidade,

[00:53:33] à despedida dos desejos e da subjetividade do próprio pesquisador.

[00:53:38] Então, há uma dificuldade gigantesca na compreensão disso, mas, e aí vou dar duas dicas de leitura

[00:53:47] para ler essa primeira parte do livro, porque a segunda parte é bem mais tranquila,

[00:53:51] que é inclusive onde tem a famosa frase, a religião é a obra do povo, eu quero falar muito sobre isso mais à frente.

[00:53:57] Mas duas dicazinhas básicas, no próprio canal da Boitempo, tem o curso Marx e Engels,

[00:54:05] em que tem três aulas do professor Alisson Leandro Mascaros, sobre o crítica filosofia do direito de Hegel,

[00:54:13] que de maneira geral, o professor Mascaros, ele dá uma fundamentação muito boa,

[00:54:21] para entender os aspectos centrais dessa obra, é muito interessante para você perceber as influências históricas,

[00:54:31] o papel de Hegel na filosofia política e na cultura alemã, e também o caso Nelson Coutinho,

[00:54:38] eu já ouvi falar muito mal da leitura dele de Hegel, como eu não sou um profundo conhecedor de Hegel,

[00:54:45] talvez o Leonardo de Deus possa falar disso mais à frente, eu não sei se a leitura dele é ruim ou não,

[00:54:50] eu pelo menos achei didática, deu para entender.

[00:54:54] Tem um livro do Carlos Nelson, o livro Soagramish, ensaios sobre teoria política, se eu não me engano,

[00:55:01] acho que o livro é de 2014, onde tem um artigozinho sobre Hegel, e esse artigo pode ser encontrado,

[00:55:07] inclusive na internet, não precisa nem comprar o livro, quem não tiver com grana nesse momento,

[00:55:10] mas quem tiver com grana, compra, coloca no Google Carlos Nelson Coutinho Hegel,

[00:55:15] e aí é um artigo de Carlos Nelson tratando de representação e democracia em Hegel,

[00:55:22] e ele explica o que é estado, o que é sociedade civil, o que é equidade, o que é direito, o que é soberania para Hegel,

[00:55:30] e que é muito bom para fazer com que o texto seja mais tranquilo de você compreender, ele seja mais inteligível.

[00:55:39] Se não tira o Carlos Nelson Coutinho da boca mesmo, essa história de cronologia Marx e Engels

[00:55:45] estava servindo para te mostrar que é ser um Coutiniano mesmo.

[00:55:52] Uma coisa só para ficar de referência pessoal, as obras do Hegel elas têm publicadas no Brasil,

[00:55:59] algumas edições estão pelas vozes, outras pelas loyolas, a filosofia do direito, por exemplo,

[00:56:06] já está publicada pela loyola, e as obras do Hegel não são baratas, mas aí fica a dica.

[00:56:13] Agora outra coisa para ilustrar, porque o Jones tentou fazer todo esse esforço didático,

[00:56:18] eu queria também fazer um esforço didático que vou usar aqui o futebol para ilustrar, olha só.

[00:56:24] A gente tem aqui nesse podcast duas pessoas que fazem parte de um time que é em si para si,

[00:56:34] e duas que fazem parte de times que são só em si.

[00:56:41] Assim vai ficar claro que todo mundo compreende.

[00:56:44] Vamos lá para a gente esclarecer isso.

[00:56:46] Qual é o seu time, Leo?

[00:56:48] Para sempre e até morrer em Flamengo, graças a Deus.

[00:56:53] Então esse é o futebol em si.

[00:56:56] Ah, Jones, qual é o seu time?

[00:56:59] Em si para si e acima disso.

[00:57:05] Não, brincadeira, gente, brincadeira só para brincar com isso.

[00:57:11] O Jones ficou até quieto, né, cruzeirense, tá no mesmo…

[00:57:16] Eu fiquei quieto com o Leonardo, coitado, porque o freguês tem sempre razão,

[00:57:20] então sempre que a gente se encontra nas finais por aí, a gente é muito grato ao Flamengo.

[00:57:25] Claro, claro, claro, todo Brasil é muito grato ao Flamengo, claro.

[00:57:31] Vamos seguir então para os próximos elementos.

[00:57:39] Leonardo, se quiser comentar aí, dá vontade.

[00:57:42] Acho que está perfeito o que o Jones falou,

[00:57:45] quer dizer, o texto aqui nunca deve tomar o que Marx fez em 1943 como uma crítica completa e acabada,

[00:57:57] até porque depois, nos manuscritos de 1944, ele prometia uma crítica da própria sessão da sociedade civil, do Hegel.

[00:58:07] Mas se a gente pegar a Filosofia do Direito do Hegel como um tolo,

[00:58:13] uma palavra na moralidade kantiana, assim, o livro do Hegel, A Filosofia do Direito,

[00:58:20] aliás, é bom dizer, se falou das traduções brasileiras,

[00:58:23] tem uma tradução por vez que é muito ruim, então a gente não recomenda,

[00:58:28] mas o texto do Hegel é dividido em três sessões, mas pegou uma sub-sessão da terceira sessão,

[00:58:37] então uma parte muito pequena, ou seja, eu repito, ele estava com um propósito muito nítido, muito claro,

[00:58:46] quando pegou exatamente o final do livro.

[00:58:50] O livro praticamente é uma parte de um sistema maior ainda, é a lógica do espírito,

[00:59:00] e ele se divide no direito abstrato, quer dizer, que é o indivíduo com as coisas,

[00:59:07] e esse indivíduo com as coisas vai produzir arbitrariedades, vai produzir abuso, inclusive o crime,

[00:59:14] ou seja, será necessário uma segunda instância, que é a moralidade,

[00:59:19] que é um indivíduo que consegue reconhecer as outras individualidades,

[00:59:24] mas mesmo esse indivíduo, ele está consumido a um arbítrio, quer dizer, a moralidade relega,

[00:59:32] se eu vou fazer a legislação, certamente, para Hegel, eu farei, não vou agir segundo operativo categório,

[00:59:40] eu vou agir segundo interesses materiais muito determinados,

[00:59:46] que é o caso da família e é o caso da sociedade civil.

[00:59:51] A família, o melhor exemplo, é antigo, é uma lei que se pretende maior do que todas as outras leis,

[00:59:58] porque é uma lei natural, e a sociedade civil porque é o interesse exatamente da sobrevivência,

[01:00:04] é um interesse natural. Aliás, o Hegel foi, se não for o primeiro, foi o melhor leitor

[01:00:10] no início do século XIX da economia política, a sociedade civil hegeliana nada mais é do que a divisão trabalho ismiteana,

[01:00:19] e só ao final, quer dizer, que eu tenho as funções de subsistência de um direito, de uma liberdade,

[01:00:26] que estão no Estado, então mais eu escolhi exatamente um pedaço muito pequeno da obra de reino,

[01:00:34] que é muito decisivo, quer dizer, que tipo de Estado que realiza a liberdade dos indivíduos.

[01:00:40] E para Marx, esse Estado hegeliano está longe, um Estado que tem o poder exativo, o poder governamental,

[01:00:51] e finalmente a monarquia condicional como poder, é um Estado que está ainda longe da sociedade civil.

[01:00:58] Então o que Marx faz, e eu concordo, é uma inversão, quer dizer, o que Marx aponta nesse trajeto do direito hegeliano

[01:01:11] é exatamente uma inversão entre sujeito e presidado. Quem é que faz o Estado?

[01:01:16] Quem é que elege os representantes? Quem é que determina os destinos da política?

[01:01:21] É a própria sociedade civil. Uma sociedade civil, como disse o João,

[01:01:25] que ali em Marx é uma sociedade civil ainda muito separada do Estado,

[01:01:32] uma sociedade de indivíduos privados, monodos, praticamente.

[01:01:36] Então isso é muito importante, quer dizer, ver como a ruptura de Marx, o Hegel,

[01:01:46] é uma ruptura muito localizada num objeto muito específico, mas é decisivo.

[01:01:52] Se você construir um sistema maravilhoso de defesa da liberdade, do Estado,

[01:01:58] mas que ao final você só está legitimando uma forma de Estado que ao final é reacionária,

[01:02:07] ou seja, a forma de Estado da restauração, a partir de 1828,

[01:02:14] a Filosofia do Direito de Regra é escrita três anos depois da restauração francesa.

[01:02:19] Então eu acho que isso é decidido, quer dizer, fazer uma crítica naquilo que importa.

[01:02:26] E é por isso que, como o João citou, depois de 30 anos,

[01:02:33] não posso falar da Segunda Edição do Capital, mas eu critiquei no Hegel que estava invertido.

[01:02:38] E o que está invertido é desse nível.

[01:02:40] O que está invertido é que a vida política, ela, sim, é o predicado.

[01:02:45] O sujeito é o povo, aí é Marx, que é um soísta.

[01:02:52] O que é decidido é a vida social mesmo, a vida material.

[01:02:57] E essa descoberta ele faz, ou pelo menos emuncia, exatamente nessa crítica da Filosofia do Direito de Regra.

[01:03:08] Muito bom, muito bom.

[01:03:10] Eu queria levantar uma questão aqui, eu não sei que vocês vão comentar mais aí, João,

[01:03:16] mas eu vou até citar aqui a página, eu até marquei com essas páginas aqui que eu fiquei brisadão com elas,

[01:03:24] porque da edição da Boitemp são as páginas 85 e 86,

[01:03:29] que ele aponta uma série de coisas, que é bem bater no Hegel algumas coisas,

[01:03:40] que, por exemplo, o Marx faz aqui na página 86, ele fala,

[01:03:45] Então, Hegel separa conteúdo e forma, ser em si e ser para si, e deixa esse último se acrescente exteriormente como um momento formal.

[01:03:54] O conteúdo está pronto e existe sobre muitas formas, que não são as formas desse conteúdo, em contrapartida.

[01:04:01] É evidente que a forma que ora deve valer como forma real do conteúdo não tem conteúdo real como seu conteúdo.

[01:04:09] Já deu para ver que é difícil para caralho, mas é muito interessante entender,

[01:04:19] até a discussão que o Johnny tinha colocado daquela acusação tipicamente que a gente vê do Hegel como idealista e tal,

[01:04:30] e ele comentou que o próprio Lo Sur defende a tese de que o Hegel não é um idealista e muitos outros vão corroborar nesse sentido,

[01:04:41] não na percepção do que se entende geralmente como idealista, e é precisamente onde o Marx vai bater nessas questões.

[01:04:51] Tem uma coisa que eu acho importante, que ainda não foi falada, que é essa questão do formal.

[01:04:59] Eu citei essa parte para falar um pouco dessa questão da formalidade que o Marx fala.

[01:05:06] Aí eu não sei se o João quer falar disso e tal.

[01:05:09] Para a gente fechando essa parte, a gente ir lá para a introdução, porque acho que a introdução é onde tem os insights mais bonitos e belos,

[01:05:18] para a gente poder comentar mais. Pode ser?

[01:05:22] Pode, pode ser sim.

[01:05:24] Então, cara, eu vou aproveitar um gancho que o Johnny muito gentilmente deixou para mim lá atrás, quando ele foi falar do Fanon,

[01:05:34] quando ele estava falando de como as nossas leituras são leituras muitas vezes vebrianas,

[01:05:40] como que a nossa crítica científica, a nossa produção de conhecimento, nossa epistemologia é apartada da ontologia da razão.

[01:05:50] O Fanon, e aí é um livro que é de um pouquinho mais de difícil acesso, ele chama Ecritsula Alineatione Liberte,

[01:05:59] que ele é da La Decoverte.

[01:06:01] A La Decoverte é uma editora francesa que lançou compilada as obras do Fanon em dois volumes.

[01:06:09] O primeiro volume chama Ouvre, tem as obras, são as obras mais conhecidas.

[01:06:16] O segundo volume, que é esse que eu estou falando, que é os escritos sobre a alienação e a liberdade,

[01:06:21] ele foi lançado há pouco tempo, ele infelizmente não tem tradição em português,

[01:06:25] inclusive boa parte dos escritos que estão aqui não tem tradição nenhuma em português,

[01:06:30] ou em outra língua que não seja o francês,

[01:06:32] mas o que mais me interessa aqui desse segundo volume é um texto do Jean Calfard,

[01:06:38] Jean Calfard é um especialista em Fanon, que ele estudou a biblioteca do François Fanon.

[01:06:45] O Fanon, eu estou saindo bastante do episódio, mas vai fazer sentido no final,

[01:06:50] ele escreveu boa parte dos seus textos enquanto ele militava diretamente.

[01:06:59] Ele escreveu muitas vezes correndo dos franceses no meio do mato e nos locais mais inósticos possíveis,

[01:07:07] então boa parte dos textos do Fanon quando a gente vai ler,

[01:07:10] a gente não tem nota de pé de página, quase não tem nota nenhuma,

[01:07:14] a gente tem que meio que fazer um trabalho de detetive para ver de onde que o Fanon tirou as coisas.

[01:07:20] O Jones falou de um texto especificamente do Fanon que não,

[01:07:23] que ele escreveu num momento extremamente acadêmico, que foi o texto inclusive que era o texto para o seu doutoramento,

[01:07:29] que foi negado pelo pavor, pela paura que esse texto causou na academia francesa,

[01:07:38] e esse é um texto que causou uma paura não só na academia francesa,

[01:07:42] mas também causou todo um problema que o Fanon vai ter depois,

[01:07:45] com vários representantes mesmo do movimento da negritude,

[01:07:48] que é o Pono Amache Blanco, Pelle Negras Máscaras Brancas.

[01:07:53] No Pelle Negras Máscaras Brancas, no seu original, que seria a tese de doutoramento que o Fanon apresentaria,

[01:08:04] ele trabalha muito em cima de um conceito hegeliano, que é um conceito da fenomenologia do espírito.

[01:08:12] Quando o Calfá foi estudar a biblioteca do Fanon, ele descobriu e transcreveu todas as anotações

[01:08:21] que o Fanon tinha feito nos livros da sua biblioteca, os livros que ele tinha lido.

[01:08:25] O Fanon era possuidor de alguns vários livros do Hegel,

[01:08:29] ele tinha a filosofia do direito, a estética, a fenomenologia do espírito,

[01:08:35] e na fenomenologia do espírito, que é o livro que o Fanon mais anotou,

[01:08:40] que é um livro do Hegel que pelo estado físico do livro, pela quantidade de anotações,

[01:08:44] foi o livro do Hegel que mais definiu depois dos estudos fanonianos,

[01:08:50] ele tem uma passagem específica que ele anota tanto no livro do Hegel,

[01:08:56] como depois ele anota nesse manuscrito dele do Pelle Negra e as Máscaras Brancas,

[01:09:02] que é a passagem da fenomenologia do espírito, onde o Hegel vai trabalhar com a relação do mestre escravo.

[01:09:10] E essa dinâmica da relação do mestre escravo…

[01:09:15] Desculpa, meu celular achou que eu estava falando com ele, gente, desculpa. Não, não é com você, querido.

[01:09:22] E nessa dinâmica da relação mestre escravo,

[01:09:26] que é um momento fundamental para a gente entender a fenomenologia do espírito,

[01:09:30] inclusive quando a gente vai dar aula sobre a fenomenologia do espírito e a gente vai falar alguma coisa do Hegel,

[01:09:35] a gente normalmente pega este momento exatamente para explicar algumas categorias que são muito importantes

[01:09:41] para a gente entender os conceitos de liberdade, libertação, como eles vão se dar,

[01:09:44] quais são os meandros que eles vão passar.

[01:09:47] Esse é um conceito que é fundamental para a definição do Pelle Negra e das Máscaras Brancas

[01:09:52] e que depois também vai ser muito usado, mesmo que de forma indireta,

[01:09:58] na própria crítica do Marx quando ele vai falar dessa inversão de sujeitos e predicados,

[01:10:05] que seria uma dinâmica muito análoga à dinâmica do senhor escravo

[01:10:14] quando ela ainda não chega ao seu momento de Aufheben, ao seu momento de supra-sunção.

[01:10:20] E aí quando a gente vai ter a crítica do Marx ao formalismo hegeliano nesse pedaço que ele cita,

[01:10:29] e aí eu acho que é muito importante a gente lembrar da fala do Leonardo,

[01:10:34] que esse é um pedaço muito específico do livro, que está numa subseção no final,

[01:10:39] que foi escrito três anos depois da restauração, que foi escrito num momento político muito sensível,

[01:10:45] inclusive para as pretensões pessoais de Hegel em sua cátedra,

[01:10:49] que Hegel, apesar de ter uma grande fama de ser o próprio Zeitgeist, de ser o espírito da sua época,

[01:10:56] inclusive durante a sua vida, teve vários problemas políticos durante a sua vida acadêmica,

[01:11:03] esse é um momento aonde mais uma vez a gente vai ter essa inversão do predicado com o sujeito,

[01:11:12] que eu acho que muito ironicamente a melhor forma de explicar essa dinâmica

[01:11:18] é usar um autor que é um autor da sociologia da religião, que é bem posterior deles,

[01:11:26] que é um autor quase coelho nosso, que é da década de 60 e 70, que é o Peter Berger.

[01:11:31] Em que sentido?

[01:11:33] Partindo do pressuposto, e aqui eu acho que tem uma ponte que dá para a gente fazer,

[01:11:37] a partir do momento que a crítica marxiana, a crítica de Marx desta obra de Hegel

[01:11:44] ainda é uma crítica extremamente baseada na crítica foirbachiana

[01:11:50] do que foi a crítica teológica que acompanhava o Hegelianismo,

[01:11:57] a gente pode usar o Peter Berger num livro que ele escreveu muito interessante,

[01:12:02] que chamou Do céu sagrado, aonde ele vai falar exatamente dessa inversão da criatura e do criador,

[01:12:12] inversão na religião aonde, por exemplo, a gente tem a retrojeção do caráter de criador na criatura,

[01:12:22] por exemplo, na reação da pessoa que tem crença, do crente, com a sua deidade, com o deus.

[01:12:29] O deus é criado pelo crente e a partir do momento que há um afastamento deste primeiro momento da criação,

[01:12:36] você tem uma retrojeção que vai transformar criador em criatura e criatura em criador.

[01:12:43] Da exata mesma maneira, é essa inversão que Marx vai criticar a partir da teoria do foirbach

[01:12:54] no que acontece entre as relações de família, sociedade, civil e estado,

[01:13:02] onde estado que é criador, que é criatura, passa a se tornar o criador

[01:13:09] e as estruturas e os seus criadores passam a se tornar as suas criaturas.

[01:13:16] Com isso, você passa a ter predicados dos predicados, predicado original que foi subjetivado,

[01:13:25] ou seja, o predicado se tornou sujeito, o predicado do predicado, então, passa a ser num segundo nível,

[01:13:33] muitas vezes subjetivado, por meio de um esoterismo, de um misticismo, a mistificação esotérica,

[01:13:43] ou seja, de um véu que é colocado sobre essa mudança, onde o que deveria ser o criado se torna o criador

[01:13:52] e isso, por sua vez, recobre as formas que vão ser o predicado desses predicados.

[01:14:00] Eu sei que tentar explicar Hegel de uma forma mais palatável, ainda mais,

[01:14:06] usando outros autores em suas críticas, às vezes, é meio complexo,

[01:14:10] mas o que a gente tem com isso é um falseamento dessas relações

[01:14:17] que levaria, por sua vez, a um falseamento em último instante da própria democracia.

[01:14:23] Se a gente volta lá no Jones e pensa que o Marx está criticando o Hegel sobre um prisma, entre aspas, russoniano,

[01:14:33] se o Marx está criticando o Hegel sobre um prisma de uma democracia radical, é um falseamento da democracia radical,

[01:14:42] a forma como essas formas que são predicados de um predicado, são subjetivadas a partir da subjetivação de um predicado primário.

[01:14:52] Não sei se ficou exatamente muito claro.

[01:14:55] Valeu o esforço, camarada. Ficou difícil mesmo.

[01:15:00] Eu brisei aqui. Deu uma onda.

[01:15:03] Se alguém quiser comentar, se alguém quiser falar de alguma forma menos tétrica, por favor, fique à vontade.

[01:15:11] Só para reforçar o que diz o Jones, é que no Hegel o Estado está antes.

[01:15:20] Ele é o antecedente. Ele é que forma a família, a sociedade civil, todas as relações sociais.

[01:15:29] E é essa inversão, ou perversão, se quiserem, que é o ponto de Marx na crítica de 1943.

[01:15:40] É exatamente isso. Uma inversão dos pressupostos dos sujeitos e dos predicados.

[01:15:48] Perfeito. Para Hegel, a ideia de Estado antecede espiritualmente a vida da própria sociedade, da própria família,

[01:16:00] enquanto Marx está buscando exatamente o contrário.

[01:16:04] A sociedade, a família, os vividos materiais e reais que construam e que constituam o Estado.

[01:16:12] Essa é a perversão Hegeliana.

[01:16:15] Essa é a dialética invertida de Hegel que Marx vai continuar a criticar pela vida à forma.

[01:16:22] É o que ele chama de mistificação. Inclusive, no prefácio do capital, ele faz isso.

[01:16:27] Perfeito. A dialética de ponta-cabeça invertida.

[01:16:32] Lembrando também que esse é um momento onde Marx começa a se aproximar.

[01:16:40] Eu falei lá no começo do episódio de autores como, por exemplo, Moses Hess,

[01:16:46] que é um momento ainda em 1943, quando ele escreve essa crítica,

[01:16:49] anterior ao seu contato na praxis com a realidade, por exemplo, do comunismo francês.

[01:16:56] Ele recebia a realidade francesa escamoteada pela ótica daquilo que chegava até a Prusa,

[01:17:05] daquilo que chegava até a Renânia antes, em 1942, no começo de 1943.

[01:17:09] E ele está nesse momento de uma primeira ruptura, que é também uma ruptura política

[01:17:16] dentro do neo-regulialismo contra, por exemplo, o grupo dos livres de Berlim.

[01:17:21] Então, aí a gente já tem uma primeira ruptura do Marx, que fica muito clara,

[01:17:25] contra, por exemplo, o Bruno Bauer, o seu irmão, que é essa ruptura onde ele tenta buscar,

[01:17:32] através dessa democracia radical, um papel prático para a filosofia.

[01:17:39] A filosofia ainda é, para um burdiano, o grande esporte de combate aqui.

[01:17:47] Não é exatamente o materialismo ainda. A gente tem que pensar na passividade das massas,

[01:17:55] e a gente vai discutir isso depois, quando a gente for discutir a introdução.

[01:17:58] Mas, ainda assim, já é uma mudança muito grande daquela filosofia puramente especulativa,

[01:18:05] daquela filosofia que vai se ater e se manter nos seus ciclos acadêmicos, nos seus ciclos literários,

[01:18:12] cuja crítica não ultrapassa os muros da cátedra.

[01:18:17] Aqui, nessa democracia radical, já existe um princípio de onde essa filosofia vai partir

[01:18:24] e vai começar a se tornar, ela mesma, uma arma.

[01:18:29] Apesar de, obviamente, a gente lembrar que a crítica da arma é a arma da crítica.

[01:18:33] A gente vai falar disso um pouco mais para frente.

[01:18:36] Mas, ainda assim, já é um primeiro momento de ruptura, que é uma ruptura muito grande, por exemplo,

[01:18:41] quando a gente vai pegar, como a gente pegou no primeiro livro, Nos Dispossuídos,

[01:18:47] onde você vai ter uma crítica da forma, mas não uma crítica do Estado.

[01:18:54] Ali, ainda, no Ambiente dos Dispossuídos, no Ambiente da Hainichi Zaitung,

[01:18:59] o Marx que está escrevendo já é muito mais radical do que aqueles outros que estão ali com ele.

[01:19:05] Quanto mais, ainda, se a gente for pensar da parte dos liberais,

[01:19:09] que eram os organizacionistas da Hainichi Zaitung,

[01:19:12] mas mesmo dentro do corpo editorial, ele já tinha um primeiro momento de ruptura,

[01:19:17] onde ele estava criticando a forma sem criticar o próprio conceito de Estado

[01:19:24] e a própria ideia dessa filosofia política hegeliana do Estado e do direito.

[01:19:29] Aqui, ele já está dando um passo além e já está criticando a inversão que se dá nessa ideação,

[01:19:37] que vai levar a esse idealismo de uma inversão onde o predicado se torna sujeito e o sujeito se torna predicado,

[01:19:44] e já vai propugnar por essa democracia radical que é uma filosofia combativa,

[01:19:51] mas que não é, ainda, um materialismo.

[01:19:55] Só para pontuar isso aí também.

[01:19:58] Show! Mas, Jones, na Alemanha, a crítica da religião está numa essencial terminada

[01:20:05] e a crítica da religião é o pressuposto de toda crítica.

[01:20:08] Essa parte é foda.

[01:20:10] Então, esse livro é engraçado porque a introdução, que, como já foi falado,

[01:20:16] vem no final do livro, ela já tem uma linguagem que é um dos textos mais lindos

[01:20:25] já escritos pela civilização humana.

[01:20:28] É sério, é um texto muito, muito bonito, muito poético.

[01:20:34] Marx tem frases sensacionais, parece um texto escrito por um poeta mesmo, por um Neruda, por um Drummond.

[01:20:44] É um texto belíssimo, fácil de ler, ao contrário da primeira parte do livro,

[01:20:50] onde ele está fazendo comentários sobre Hegel.

[01:20:54] A introdução, que está no final, é muito tranquila de ler, muito tranquila mesmo.

[01:21:00] Muito tranquilo, graças ao Leonardo e a todas as pessoas que traduziram.

[01:21:04] Você vai ler isso em alemão.

[01:21:06] Exatamente. Muito obrigado, Leonardo e eu, com o conjunto dos tradutores.

[01:21:10] Deus ama vocês e eu também.

[01:21:14] Primeiro, uma pitada histórica.

[01:21:16] O Lukács tem um termo que é miséria alemã, que ele inclusive pegou do Marx.

[01:21:23] Marx usa esse termo para falar da miséria alemã.

[01:21:25] O que significa isso?

[01:21:27] Os estados da Alemanha, antes da unificação, de maneira geral,

[01:21:31] eles passarão ao largo das revoluções burguesas.

[01:21:35] Vamos lembrar que a Europa, de maneira geral, era uma região dominada pelo modo de produção feudal

[01:21:45] e que a partir do século XVI, há um processo lento e gradual das relações de produção e de poder na Europa feudal

[01:21:53] com o comércio tricontinental, com a invasão e a colonização da região que vai ser chamada de América.

[01:22:01] Já tinha acontecido antes, alguns séculos antes, a abertura do Mediterrâneo,

[01:22:05] que ampliou o comércio, a monetarização das economias e desenvolveu os rudimentos da classe burguesa.

[01:22:14] Lembrando que, já no século XV, as cidades-estados italianas tinham uma classe,

[01:22:19] uma burguesia comercial muito forte, mas, de maneira geral, nessa Europa, ainda feudal,

[01:22:27] ainda com monarquias feudais, ela vai passando lentamente por um processo de transformações econômicas, políticas e culturais.

[01:22:35] E aí vem a forma protestante, o renascimento, o iluminismo, o renascimento, o resgate do direito romano

[01:22:44] como fundamento da propriedade privada que está nascendo, depois o nascimento do liberalismo e por aí vai.

[01:22:51] Todo esse processo político, econômico, cultural é um hundíssimo processo histórico de séculos de ascensão da burguesia

[01:23:01] ao papel de classe dominante. O Perry Anderson, nas linhagens do Estado Absolutista, que é um livro clássico

[01:23:10] para estudar o período dos chamados Estados Absolutos, ele fala que existia uma certa compatibilidade entre essa classe burguesa

[01:23:22] que tem uma dimensão muito comercial e financeira e o modo de produção feudal transformado, só que quando a burguesia

[01:23:33] percebe que é necessário, não em sentido de uma percepção consciente, mas de tendência histórica, transformar radicalmente

[01:23:44] o reino da produção quando a burguesia tenta, ou de uma linguagem de Marx, quando passa da subisunção formal

[01:23:53] para a subisunção real, ou seja, quando a burguesia quer revolucionar de alta a baixa o edifício social,

[01:24:00] essa compatibilidade entre essa burguesia e a ascensão e os Estados Absolutistas feudais se rompe.

[01:24:07] Você tem os processos de revolução burguesa que tem temporalidades históricas características bem diferentes,

[01:24:13] o que inclusive é um objeto de uma polêmica muito grande, mas vários autores colocam como a primeira revolução burguesa importante

[01:24:21] o processo de libertação nacional das províncias unidas do reino espanhol, depois você tem a revolução gloriosa

[01:24:30] na Inglaterra, a República de Cromwell, tudo isso, depois da famosa revolução francesa.

[01:24:38] De maneira geral, várias regiões da Europa passam por um processo de revolução burguesa e de ascensão da burguesia ao poder,

[01:24:46] mas as regiões germânicas passam ao largo disso. São regiões mais retardadas em termos de desenvolvimento capitalista,

[01:24:55] são regiões que não foram revolucionadas nos seus fundamentos políticos, culturais, intelectuais, subjetivos

[01:25:06] e quando o próprio Napoleão Bonaparte pega seus exércitos e sai querendo destruir o feudalismo com a força das armas

[01:25:14] e ocupa várias regiões que vão futuramente formar a Alemanha, os processos de resistência aos exércitos napoleônicos

[01:25:23] acabaram tendo uma dimensão de resistência nacional e a manutenção daquela sociedade alemã se confundiu

[01:25:34] com a defesa da identidade nacional contra o invasor estrangeiro e o invasor francês.

[01:25:40] Tá o sorte que enquanto a cidade burguesa florescia em várias regiões da Europa, na Terra de Marques,

[01:25:50] nesse momento ela estava estacionada, então o pensador, o filósofo alemão,

[01:25:57] ele ouvia falar do liberalismo, da soberania popular, do constitucionalismo, da divisão social do trabalho capitalista,

[01:26:08] da sociedade de mercado, da autonomia do indivíduo, da liberdade, da fraternidade e da propriedade,

[01:26:15] mas isso não tinha correspondência na realidade alemã, então se criou uma espécie de dessaciação,

[01:26:23] ou seja, o pensador alemão de maneira geral acabou caindo num reino especulativo,

[01:26:30] ele mergulhou na especulação teórica filosófica mais abstrata que você possa imaginar,

[01:26:40] pensando o mundo a partir de um plano ideal como uma espécie de forma de escapismo do atraso alemão.

[01:26:49] Então o filósofo alemão, ele lia os revolucionários franceses, ele lia os liberais esnubleses,

[01:26:58] e isso na Alemanha acabou se traduzindo numa filosofia altamente especulativa, porque não tinha essa correspondência.

[01:27:07] O próprio Hegel, como o Leonardo muito bem falou e o Lukács aponta isso de maneira genial no Jovem Hegel,

[01:27:13] era um profundo leitor da crítica da economia política, só que era uma crítica da economia política

[01:27:18] fundamentalmente de economistas ingleses e franceses, o que é natural, já que a economia política é a ciência

[01:27:25] por excelência da explicação do surgimento e funcionamento da sociedade burguesa,

[01:27:30] que ainda não tinha lastro na Alemanha de Hegel e nem no Jovem Marx.

[01:27:36] Então, de maneira geral, essa é a miséria alemã que o Lukács fala e que o Marx também fala,

[01:27:44] esse atraso histórico alemão, essa diferença de temporalidade gritante.

[01:27:53] O Marx ainda fala de maneira genial no texto que para o alemão é como se ele tivesse em 1789 ou antes,

[01:28:01] ou ele fala antes direto, enfim, mas aí o Marx tira uma ironia que é como se a Alemanha tivesse na França

[01:28:10] antes da revolução francesa. Então, nesse contexto da miséria alemã, é que Marx fala que na nossa sociedade

[01:28:21] que ainda não foi laicizada, ou seja, como não houve um processo de superação do modo de produção feudal

[01:28:28] e, como a gente sabe, no feudalismo a religião e a instituição de igreja

[01:28:36] cumpriam o papel de principal aparelho ideológico de Estado, usando o termo do Altser.

[01:28:43] A igreja era responsável por fornecer a cosmovisão de mundo, a ideologia de legitimação do poder político.

[01:28:51] Vamos lembrar que os teólogos e filósofos do absolutismo diziam que o monarca foi escolhido por Deus.

[01:29:00] O papel do monarca na terra era definido por Deus, assim como os estamentos, a organização da sociedade em estamentos

[01:29:10] foi também definido por Deus. Então, Deus é quem organizava a sociedade.

[01:29:15] Então, no modo de produção feudal, a religião tem um papel central.

[01:29:21] A religião não tinha passado pela crítica política, tal como nas religiões, nas revoluções burguesas,

[01:29:28] quando a religião, sem deixar de ter importância, dentro dos processos de regulação social,

[01:29:35] ela deixa de ter um papel central. Eu sempre brinco com meus alunos que a maioria deles já ouviu a frase de Nietzsche,

[01:29:44] Deus está morto. E ouviram também a brincadeira que diz assim, quando Nietzsche morreu, Deus falou pra Nietzsche que Nietzsche está morto.

[01:29:56] O ateísmo do século 19, que cresceu bastante, diz respeito a um dado muito concreto. Por exemplo,

[01:30:05] durante grande parte da existência europeia na Idade Média, o nível de domínio da religião sobre a subjetividade das pessoas

[01:30:16] era tal sorte que era o seguinte, quem é cristão acredita que Deus é onipotente, onisciente e onipresente,

[01:30:25] ou seja, Deus é capaz de operar todo tipo de milagre, todo tipo de mudança na vida dos seres humanos.

[01:30:32] Então não fazia sentido, por exemplo, acreditar que a cura de alguma doença, de algum mal, se devia a tratamentos médicos.

[01:30:46] É claro que existiam técnicas rudimentares, tentativas de tratamento médico durante o período da Idade Média,

[01:30:54] mas de maneira geral, as pessoas de verdade acreditavam que bastava elas rezar para Deus, que Deus iria curá-las.

[01:31:04] Então você poderia, por exemplo, estou doente, vou ficar na cama convalescendo, esperando a doença passar e Deus me curar.

[01:31:14] E isso é lógico, racional, dentro de uma cor de visão de mundo cristã, já que Deus é onipotente, ele tem todo o poder, então ele pode fazer isso.

[01:31:25] Com o nascimento da sociedade moderna, burguesa, nem o mais fanático religioso, nem o cristão, mais cristão que existe no mundo,

[01:31:35] quando ele quebra uma perna, ele não fica em casa rezando para Deus, esperando a perna voltar para o lugar.

[01:31:42] Ele vai a um médico, ele vai a um hospital, se ele está na rua e só for acidente de moto, ele vai ligar para o SAMU, vai ligar para os bombeiros,

[01:31:51] porque a gente sabe que quando eu quebro a minha perna, eu preciso de uma pessoa especializada que estudou vários anos,

[01:31:59] que se capacitou para colocar o meu osso no lugar, e eu vou fazer isso dentro de um hospital que é um lugar preparado especificamente

[01:32:06] para tratar esses problemas com pessoas formadas em universidades, em escolas de formação, entre aí e vai.

[01:32:13] Ou seja, por mais que a pessoa agradeça a Deus depois que o médico o curou, ou então diga que o médico só conseguiu curar ele

[01:32:25] porque Deus permitiu, ou que Deus operou pela mão do médico, as pessoas não ficam mais em casa esperando Deus operar o milagre.

[01:32:33] Isso para todos os exemplos que você imaginar, ou seja, do ponto de vista prático, nós não agimos mais como se Deus fosse onipotente.

[01:32:46] Então perceba a diferença da dimensão religiosa na vida do ser humano, a gente não age mais como se Deus fosse onipotente,

[01:32:54] a gente age como se Deus fosse uma espécie de intermediário nos processos da vida social que tem uma dimensão racional no sentido weberiano

[01:33:06] de determinados meios adequados a um fim. Então por mais que a gente reze para Deus para participar num pré-vestibular,

[01:33:14] no vestibular, a gente estuda, porque sabe que se não estudar, Deus só hoje não vai fazer o milagre.

[01:33:19] A gente vai no hospital, a gente não quer arrumar um emprego, reza para Deus para arrumar um emprego, mas a gente vai entregar currículo, vai na agência de trabalho,

[01:33:27] ou seja, tem toda uma lógica racional de meios adequados a um fim e Deus é uma espécie de intermediário que vai facilitar o alcance desse fim.

[01:33:37] Isso é o modo de pensar laico. E esse modo de pensar laico é produto das revoluções burguesas que a Alemanha ainda não conhecia.

[01:33:46] Então é até difícil para a gente hoje entender o papel que a religião ainda tinha em uma sociedade tal como a região germânica da época de Marx,

[01:33:57] que não tinha passado por uma revolução burguesa, que não tinha conhecido a laicização que a França, por exemplo, conheceu.

[01:34:06] E é por isso que Marx começa falando da importância da religião na realidade alemã, e essa importância da religião é justamente um sintoma,

[01:34:18] usando até um termo que é tido da capa do livro da Sabrina Fernandes, um sintoma mórbido do atraso alemão, da miséria alemã.

[01:34:30] Então é por isso que Marx começa. A crítica na Alemanha passa pela crítica da religião dada a centralidade que a religião tem na realidade alemã.

[01:34:41] Mas ao mesmo tempo o jovem Marx fala que essa crítica é limitada porque ela não vai à crítica do mundo real.

[01:34:51] Ela faz a crítica da representação do mundo real, faz a crítica do mundo real, mas trata-se de descer do céu à terra e fazer a crítica do mundo real.

[01:35:03] Marx, que ainda não era materialista, já era pouco propenso às especulações idealistas, no mau sentido da palavra idealistas,

[01:35:16] que se descolavam totalmente da realidade posta. Essa é minha introdução para o tema, porque já já eu gostaria de abordar a famosa frase

[01:35:28] a religião é o ópio do povo, e a questão se é possível ser marxista, cristão, barra religioso ao mesmo tempo.

[01:35:37] Acho que o Jonas falou muito bem, a diferença de um texto de estudo para a publicação é um texto cheio de esperanças,

[01:35:50] quando Marx chega na França ele está imbuído de revolução, e juntamente com o texto que será discutido brevemente,

[01:36:00] sobre a questão judarica, dá respostas a muitos dos temas que ele investigou ali em Croisant de maneira indicativa.

[01:36:13] Acho que o primeiro é esse que o Jonas colocou, não tem sentido fazer crítica de ideias, fazer crítica de ideias tem um alcance limitado,

[01:36:27] quer dizer, criticar as formas de confiança que são a expressão do mundo real, tem um alcance limitado se você não transforma esse próprio mundo,

[01:36:38] esse próprio mundo em que surgem tantas formas ideais como a filosofia, a cultura e a própria religião.

[01:36:48] E aí é o primeiro marco na ruptura dele com a própria filosofia alemã, chegou uma hora no texto que ele diz que os regalianos queriam fazer uma crítica da filosofia sem abolir a filosofia,

[01:37:07] quer dizer, se fazer uma crítica da religião sem abolir as condições reais em que ela visseja você não está criticando nada,

[01:37:17] você está só fazendo filosofia, só fazendo discurso tão comum no nosso tempo.

[01:37:25] E mais do que isso, o mais importante é a distinção entre, quer dizer, que vai no finalzinho da introdução, um texto curto,

[01:37:36] quer dizer, que você precisa abolir, por exemplo, você não pode transformar, enquanto houver propriedades privadas, que é o final do texto da crítica de Hegel,

[01:37:47] na introdução ele retoma esse tema. Enquanto houver propriedades privadas, enquanto houver alienação real, você não vai resolver filosoficamente, politicamente os problemas sociais,

[01:38:02] ou seja, para ver qualquer emancipação, ou seja, as promessas da revolução francesa, do iluminismo, etc., elas não se cumprem com reformas políticas,

[01:38:15] e no caso da miséria alemã isso é muito grave, quer dizer, a Alemanha não chegaria à liberdade ou não se colocaria à altura do seu tempo

[01:38:25] se não superasse praticamente os entraves práticos, ou seja, a Alemanha tinha que se colocar à altura não das revoluções passadas,

[01:38:38] mas da revolução futura, ou no caso do Marx, a revolução presente, quer dizer, romper as cadeias sociais que prendiam tanto o proletariado alemão quanto o francês.

[01:38:50] A verdadeira crítica tem que ser feita na prática, tem que dissolver a ordem social posta ali, e isso passa exatamente por esses problemas da propriedade privada,

[01:39:06] da alienação social, quer dizer, a crítica verdadeira, por isso que ele fala que a crítica da religião está resolvida,

[01:39:14] foi a bata de parabéns, criticar um evangélico é muito fácil, chamar uma pessoa um cristão de ignorante não está acrescentando nada,

[01:39:27] o importante é atacar a ignorância real sobre a qual se raíza a vida social, esse é o problema, quer dizer, o texto, a introdução,

[01:39:40] a crítica da filosofia do direito ego foi publicada por Marx em dezembro de 1943, 44, aliás, mais franco alemães, é exatamente a ruptura de Marx,

[01:39:55] aí sim, é a ruptura com a política, com a ideologia e com tudo que torna essas instâncias possíveis, ruptura com o estado também,

[01:40:04] aí sim, a ruptura, quer dizer, onde é possível emancipação humana, onde é possível liberdade, essas instâncias, essa realização só é possível na prática,

[01:40:17] é óbvio que ele ainda não vai anunciar aqui, mas ele já anuncia a ruptura dele com a própria filosofia, com o próprio discurso oco de crítica das ideias pela crítica,

[01:40:29] a crítica é crítica, então esse texto, acho que o Jones está certíssimo, é um texto muito bonito, porque é um texto cheio de esperança,

[01:40:40] quer dizer, em que condições é possível a emancipação humana, isso é possível quando a classe que não é nada, ela decide ter tudo,

[01:40:48] ela decide se tornar a totalidade, a promessa hegeliana da totalidade do estado, essa está falida, está falada ao fracasso,

[01:40:59] porque no final o estado é só o garantidor de interesses privados, de interesses os mesmos de sempre,

[01:41:06] seja na miserável Alemanha, de então quem somos nós para falar, seja na França ou então na Inglaterra, nos Estados Unidos da época e de hoje,

[01:41:16] quer dizer, a condição de liberdade é romper com esse estado que no final é ele mesmo um garante de interesses perversos,

[01:41:27] então a gente pode dizer que essa introdução aqui, da introdução que ele publicou, da crítica da filosofia de direito de Hegel,

[01:41:34] é quase uma terapia que ele mesmo fez, uma noite-mel serve para isso também, ele conseguiu resolver questões que estavam ali latentes,

[01:41:47] questões muito sérias e tal, e aqui ele realmente coloca as questões nos termos corretos, termos esses que não vão desaparecer da sua obra,

[01:42:01] então quando a gente fala do Jai, isso aqui é um rapaz de 25 para 26 anos, jovem mais, V.O.C., isso aqui ainda é muito,

[01:42:12] não, aqui nós temos questões que serão desenvolvidas nos textos posteriores e se manterão,

[01:42:20] se manterão não só no pensamento de mais, mas por enquanto só prática, então eu concordo plenamente.

[01:42:26] Ótimo, João, você vai querer comentar também?

[01:42:32] V.O.C., é só falar, primeiro para a gente trazer um outro elemento que eu acho que é sempre interessante quando a gente fala de um texto,

[01:42:41] que é fazer uma crítica interna do próprio texto, quando a gente pega o texto na mega, ou quando a gente vai estudar o original,

[01:42:50] ou mesmo algumas traduções mais clássicas, como a tradução para o francês do texto, a gente nota que entre a primeira parte do texto e a segunda parte do texto,

[01:43:01] a gente tem uma mudança muito grande até por causa dos momentos destinos de urdidura,

[01:43:06] esse texto ele vai ser publicado no final de 44 como o Leonardo já falou, no Deutche Franzose e a Bicha,

[01:43:13] mas ele é escrito, parte dele em Croisnard e parte dele já é escrito em Paris,

[01:43:23] e a gente vê muito claramente a evolução e a influência de Paris e da realidade francesa no texto como um todo,

[01:43:34] eu achei genial a definição do Leonardo, dessa lua de mel que ele usou para resolver os problemas consigo mesmo,

[01:43:45] o texto é quase que terapêutico nesse sentido, então essa primeira grande ruptura do texto é exatamente essa ruptura que eu falei lá atrás

[01:43:57] com o grupo de Berlim, com o grupo dos livres, com os neorreguilhantes de esquerda ligados ao Bauer,

[01:44:05] que aí deixa de ser uma crítica crítica, deixa de ser uma crítica puramente especulativa para se tornar a crítica num combate a corpo a corpo,

[01:44:15] agora apesar dessa crítica se tornar um combate a corpo a corpo, ele ainda se torna um combate mediado,

[01:44:23] que foi voltando na tecla que eu já falei, que o Leo já falou, que o Jones já falou, que é ainda a quem do materialismo que virá depois,

[01:44:35] tem uma parte que eu até tirei aqui para falar, que a parte da arma da crítica é muito legal,

[01:44:40] a arma da crítica não pode é claro, substituir a crítica da arma, o poder material tende ser derrubado pelo poder material,

[01:44:47] aqui você já tem uma ruptura total, como por exemplo o grupo dos livres,

[01:44:53] e aí logo na sequência você vê que ainda existe uma influência de Feuerbach gigantesca dentro do texto,

[01:45:00] mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas,

[01:45:05] aí logo para frente ele fala, as revoluções precisam de um elemento passivo, de uma base material,

[01:45:12] a teoria só é efetivada num povo na medida em que é a efetivação de suas necessidades,

[01:45:17] e aqui eu acho que esse termo passivo é muito importante,

[01:45:22] porque esse termo passivo vem literalmente da obra do Feuerbach,

[01:45:32] o Feuerbach quando ele escreve ali em 1842 as Teses Provisórias para a Reforma da Filosofia,

[01:45:40] ele vai falar exatamente quando ele vai dividir o que é o elemento passivo e o que é o elemento ativo,

[01:45:48] ele vai falar que o coração é vítima das paixões, paixões do Leidenschaft e dos sofrimentos,

[01:45:55] Leiden, e que ele sofre de modo passivo, Leiden que vai dar o Leidenschaft e vai dar tanto o substantivo como o verbo,

[01:46:03] ele tem esse duplo sentido de tanto de ser um sofrimento, mas de ser um sofrimento passivo,

[01:46:09] que você sofre sem agir, do qual você é vitimado por,

[01:46:12] então quando ele fala que da mesma forma que na Alemanha a Reforma nasceu na cabeça do monge e depois foi para o povo,

[01:46:21] e que agora as próprias Revoluções nascem na cabeça do filósofo e vão para o povo,

[01:46:26] você ainda tem a massa, e no começo do texto ele usa massa, que é ainda escrito lá em Kroisnar,

[01:46:33] e no final do texto ele vai usar pela primeira vez na sua obra o termo proletariado,

[01:46:37] você ainda tem essa influência muito presente do Feuerbach,

[01:46:44] onde o papel principal ele cabe ao filósofo,

[01:46:50] o papel principal é esse de se pensar e esse pensamento ele tem que fulminar,

[01:46:56] ele tem que passar, ele tem que acender, ele tem que criar uma centelha, uma faísca,

[01:47:01] uma iscra para usar o termo leiliniano, principalmente do Leine em 1902, 1904, do que fazer ali,

[01:47:08] que é essa ideia de um comando em cima das massas,

[01:47:14] e assim como o Leine depois vai ver na realidade prática pós 1905,

[01:47:19] o que gerará também uma mudança muito grande na sua teoria,

[01:47:23] a gente discutiu isso profundamente no nosso episódio do Reconstruindo o Leine,

[01:47:27] também o Marx vai ver depois de 1845 principalmente, mas já em 1844,

[01:47:33] principalmente no final, tem a publicação dos anais,

[01:47:39] depois ele tem a querela dele grande com o Ruger,

[01:47:42] e a querela dele com o Ruger vem, inclusive antes da publicação,

[01:47:46] no final de 1944 e em 1945 vem o seu rompimento com o Feuerbach,

[01:47:51] a gente está vendo esse momento desse desenvolvimento do Marx,

[01:47:56] o que é mais importante aqui é que a gente já tem aqui,

[01:48:01] finalmente essa ideia de que a revolução só vai poder ser realizada

[01:48:06] por uma classe que não seja uma classe particular qualquer da sociedade civil,

[01:48:11] mas sim uma classe universal, uma classe que não tenha privilégio para defender

[01:48:15] e que não tenha ninguém abaixo dela, que é exatamente a classe

[01:48:19] que por não ter nada a perder, a não ser os seus próprios grelhões,

[01:48:22] pode tornar-se tudo, então a gente tem esse proletariado,

[01:48:26] que ele vai ser externo à sociedade burguesa,

[01:48:28] que é uma classe da sociedade civil que não é uma classe da sociedade civil,

[01:48:32] essa frase é literalmente do texto, que tem um caráter universal

[01:48:36] mediante os seus sofrimentos universais,

[01:48:39] que não reivindica nenhum direito particular,

[01:48:43] e aí quando ele usa o termo aqui direito particular,

[01:48:46] a gente tem que voltar lá no Hegel para exatamente rememorar e relembrar

[01:48:51] a ideia de que há sociedade civil e quando ela vai requerer os seus direitos particulares,

[01:48:56] mesmo que esses direitos sejam sociais,

[01:48:59] para o Hegelianismo que interpreta isso da forma mais direta

[01:49:05] do que foi escrito por Hegel, do Hegelianismo de direita,

[01:49:08] isso não é um movimento político, um movimento que seja um movimento social

[01:49:12] requerendo algo que seja particular de um estamento, de um stand da sociedade,

[01:49:17] ele seria um movimento político e vai ser exatamente essa diferença

[01:49:21] em se buscar numa classe revolucionária dessa Alemanha,

[01:49:26] com esse sofrimento profundo dessa Alemanha,

[01:49:29] onde a ideação está muito além da prática,

[01:49:33] como Jones tão bem falou e o próprio Marx fala aqui no texto,

[01:49:36] que a Alemanha se encontra em pé de igualdade ou à frente de todas as nações europeias,

[01:49:41] quando o assunto é a filosofia, mas se encontra antes da própria revolução francesa

[01:49:47] na sua prática material, a gente vai ter logo na frente

[01:49:51] ali com o Ruger, exatamente essa diferença, onde um busca ainda

[01:49:55] na burguesia ou nos liberais essa classe que pode revolucionar

[01:50:01] e trazer a Alemanha à sua contemporaneidade,

[01:50:04] ou seja, fazer com que a Alemanha deixe de trabalhar somente no campo do imaginário

[01:50:11] e passe a trabalhar na prática material das suas relações humanas,

[01:50:15] se o Ruger vai buscar isso na burguesia e ao buscar isso na burguesia

[01:50:18] e ao buscar isso na burguesia e não encontrar, ao se perceber,

[01:50:22] se aperceber da burguesia alemã como uma classe completamente incapaz de fazer isso,

[01:50:28] ele torna o discurso do Ruger, por exemplo, e boa parte dos análises

[01:50:33] quando a gente pega os textos do Ruger, são textos que são quase que uma eologia,

[01:50:37] é quase que um elogio fúnebre de tudo aquilo que nunca será e de porque

[01:50:41] que a Alemanha está fadada a um fracasso eterno,

[01:50:43] a gente tem exatamente essa esperança do Marx,

[01:50:47] que ele já teve esse primeiro rompimento com a burguesia, com os liberais,

[01:50:51] exatamente nas querelas da Heinrich Zeitung em 42, em 43,

[01:50:57] e que vai ser essa lufada de ar fresco que ele recebe em Paris,

[01:51:02] e essa percepção dele em Paris, principalmente ao entrar em contato

[01:51:05] com teóricos advindos da massa das possibilidades de encontrar no proletariado

[01:51:15] finalmente essa classe revolucionária que vai poder criar essa revolução em si.

[01:51:23] Quando ele fala lá no francês que o materialismo francês deve ser ultrapassado

[01:51:31] por uma síntese no interior da filosofia nova de sangue galo-germânico,

[01:51:36] é exatamente disso que ele está falando.

[01:51:39] Quando ele fala ao fechar o texto que vai ser,

[01:51:44] agora eu perdi o texto exatamente, mas ele fala que o canto do galo francês

[01:51:50] que vai tirar essa passividade do povo alemão, ele está falando é exatamente disso.

[01:51:58] Mas ainda sim está falando isso de uma forma bastante influenciada por Feuerbach,

[01:52:05] de uma forma onde ele ainda encontra, apesar de já ver no proletariado essa classe,

[01:52:12] essa classe ainda é de uma atividade passiva.

[01:52:16] Lembrando aqui que em Feuerbach a gente tem o conceito de prática passiva,

[01:52:23] que é diferente do conceito em Feuerbach de autoatividade,

[01:52:28] que autoatividade seria o apanagem ideal do espírito,

[01:52:32] ou seja, só as pessoas que são imbuídas do verdadeiro espírito é que conseguiriam ter uma atividade ativa,

[01:52:41] por mais estranho que isso soe em português,

[01:52:43] enquanto o grosso da população, essa massa inerte teria que ser capitaneada na sua prática passiva.

[01:52:51] Então a gente está adiante de um momento que é uma ponte,

[01:52:56] a gente está vendo Marx atravessar essa ponte rumo à sua caminhada final para a adesão ao comunismo,

[01:53:07] mas a gente não pode ainda fazer como muitas vezes vários críticos já fizeram,

[01:53:13] que é fazer uma leitura marxista de um texto marxiano que não é necessariamente ainda marxista.

[01:53:19] Eu acho que é sempre interessante a gente pontuar isso,

[01:53:23] e é muito interessante porque a introdução vem depois da crítica,

[01:53:29] e apesar de ela contemplar várias coisas que a crítica contempla,

[01:53:34] a crítica, o livro que a gente está falando aqui,

[01:53:37] A Crítica da Filosofia do Direito de Hegel,

[01:53:39] ele ainda está muito aquém do Marx que vai escrever a introdução, a crítica da filosofia do direito do Hegel,

[01:53:47] apesar de várias coisas já estarem ali dentro.

[01:53:51] O próprio Leonardo falou da questão do revestimento da forma do governo, que não importa,

[01:53:55] se vai ser uma monarquia feudal, igual era a monarquia prussiana,

[01:54:01] se vai ser uma monarquia constitucional,

[01:54:03] ou se vai ser uma falsa democracia representativa como se dava nos Estados Unidos,

[01:54:08] a verdade é que esse estado que subjaza embaixo dele é o garantidor da opressão,

[01:54:14] ele continua garantindo os mesmos direitos, as mesmas clivagens sociais,

[01:54:22] independente da forma com a qual ele se imbui exteriormente.

[01:54:26] Então, esses são os grandes passos que a gente tem no Marx aqui,

[01:54:31] que são críticas que o Marx, de dois anos antes, muitas vezes não era capaz de fazer com essa profundidade,

[01:54:37] e que são críticas que o Marx, de um ano depois, vai fazer com a profundidade ainda maior,

[01:54:44] depois de todos os contatos que ele vai ter durante o período parisiense dele.

[01:54:50] Gente, pelo andar da carruagem, vamos caminhar para as considerações,

[01:54:55] o Jones pode começar, aí se aproveita.

[01:54:59] Para o Jones poder falar agora, que o Jones agora quer botar fogo no cabaret.

[01:55:03] Deixa ele botar fogo. E aí já emenda suas considerações, Jones.

[01:55:06] Massa, chegou o meu momento.

[01:55:08] Repare bem, na página 151 do livro, tem a frase completa onde está a famosa citação

[01:55:16] a religião ao óbvio do povo. Diz Marx,

[01:55:19] A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real.

[01:55:29] A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração,

[01:55:34] assim como o espírito de estados de coisas embrutecidas.

[01:55:39] Ela é o óbvio do povo.

[01:55:42] Quando eu era católico, eu fui católico por cinco anos, fui do grupo jovem,

[01:55:47] texto dos homens, eu saía para evangelizar e tal, e eu comecei a ter contato com o marxismo.

[01:55:53] E o padre da igreja, o padre Adriano, que era até um padre progressista, gente boa para caramba,

[01:55:58] me ajudou muito quando eu comecei a estudar para entrar na universidade,

[01:56:01] o padre Adriano falou assim, cuidado com esse negócio do marxismo, porque Marx e o comunismo é contra religião.

[01:56:09] Marx dizia que religião é o óbvio do povo, que é uma droga que faz com que as pessoas percam a consciência.

[01:56:15] E quando você percebe nesse trecho, Marx, ele, com uma fina percepção, ele diz que a miséria religiosa

[01:56:25] constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real, ou seja, aquela coisa da miséria alemã que eu já falei.

[01:56:29] E o protesto contra essa miséria.

[01:56:33] Marx sabe que na história das regiões germânicas, você teve guerras camponesas com um projeto igualitário,

[01:56:46] que depois Engels vai escrever um livro sobre as guerras camponesas na Alemanha,

[01:56:51] que foram influenciadas por uma visão de mundo radicalmente religiosa,

[01:56:55] e Marx também já sabe nessa altura da vida dele que a revolução inglesa

[01:57:01] teve também um conteúdo radicalmente igualitário influenciado por leituras religiosas da bíblia.

[01:57:09] Então Marx não está dizendo que a religião é de maneira unilateral, ou um-dimensional,

[01:57:20] apenas um elemento de manipulação e alienação dos explorados e oprimidos do mundo.

[01:57:28] Ele está dizendo que o domínio da religião, no sentido que eu expliquei há pouco tempo,

[01:57:33] que foi muito bem complementado pelo Leonardo e pelo João,

[01:57:36] o domínio da religião na Alemanha atrasada, na Alemanha que não fez essa revolução burguesa,

[01:57:41] na Alemanha que não fez, que não superou o feudalismo,

[01:57:45] o domínio da religião é a expressão da miséria alemã,

[01:57:47] mas ao mesmo tempo essa religião é também um protesto contra a miséria,

[01:57:55] é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração.

[01:58:01] E aí entra numa polêmica, a partir desse trecho é impossível tomar uma teoria marxista da religião

[01:58:10] como se a religião fosse necessariamente um elemento de reação,

[01:58:19] um elemento necessariamente alinhado à contrarrevolução.

[01:58:23] E aqui dois ou três comentários históricos.

[01:58:27] Primeiro, a gente sabe que historicamente instituições religiosas,

[01:58:32] seja a igreja católica, seja a igreja ortodoxa, seja depois as igrejas protestantes,

[01:58:35] quando se consolidaram enquanto instituições, são elementos da reação, da contrarrevolução,

[01:58:42] elas defendem a ordem dominante tal como está posta.

[01:58:46] Mas ao mesmo tempo, e quem tem essa sacada é Grams, nos cadernos do Cáceres,

[01:58:52] Grams se fala que a grande luta histórica da igreja católica é para manter a religião sobre o seu controle,

[01:59:00] impedindo a difusão de leituras populares do cristianismo.

[01:59:05] Porque Grams percebe que a religião tem uma espécie de plasticidade, uma elasticidade.

[01:59:14] Ela pode servir aos fins da reação da contrarrevolução, como historicamente ela serviu,

[01:59:21] mas ela também pode servir de elemento legitimador do protesto popular, de reivindicações igualitárias.

[01:59:28] É por isso que toda instituição religiosa se preocupa em que os seus fiéis não tenham uma relação direta com seu eu religioso,

[01:59:39] que essa relação seja mediada pela instituição, na figura do padre, na figura do pastor, na figura do rabino,

[01:59:46] na figura dos templos de culto, das liturgias, até inclusive das escolas de formação,

[01:59:54] as escolas de formação, as escolas de teologia, as seminárias para formar pálides,

[01:59:59] que são aparelhos privados de hegemonia para formar intelectuais orgânicos,

[02:00:04] intelectuais tradicionais, mais orgânicos, para manter sobre controle essa religiosidade dos trabalhadores.

[02:00:13] Então, repare, se historicamente a religião é um instrumento da reação, não significa que necessariamente sempre,

[02:00:20] ou seja, nunca é demais lembrar que na história da América Latina e do Brasil,

[02:00:29] tivemos vários momentos em que a religião foi usada enquanto um instrumento da rebeldia e do protesto popular.

[02:00:37] Tem sim, por exemplo, em canudos, em contestado, nas guerrilhas organizadas por organizações cristãs na América Central,

[02:00:45] na teologia da libertação, no papel que vários padres tiveram na organização do proletariado,

[02:00:53] em como a ação operária católica se transformou em uma organização marxista ou iminista,

[02:01:00] e como a igreja católica deixou com que seus padres, seus religiosos de grau mais baixo,

[02:01:08] que estavam mais em contato com o povo, fossem assassinados, perseguidos, torturados pela ditadura.

[02:01:15] A igreja católica, de maneira tática, usou as ditaduras como um elemento de expulgo dos religiosos progressistas de esquerda, inclusive marxistas.

[02:01:27] Então, a gente tem que sempre estar atento para essa dimensão da plasticidade, da elasticidade da religião.

[02:01:37] A religião pode servir para muitos fins, não necessariamente os fins da reação da contrarrevolução.

[02:01:44] Esse é um ponto. Segundo ponto, do ponto de vista mais teórico e epistemológico.

[02:01:52] A tese fundamental do materialismo histórico é que todas as relações sociais, todas as relações humanas são radicalmente históricas.

[02:02:02] Então, não existe relação social dada pela biologia do ser humano, nem dada pela configuração geográfica ou climática, ou qualquer ente metafísico, tal como Deus.

[02:02:18] As relações humanas são definidas pelos homens, são produtos dos seres humanos na história de acordo com suas conduções concretas de produção e reprodução da vida.

[02:02:27] Tal forma que não dá para você ser um marxista, um comunista e acreditar que o mundo é organizado por Deus.

[02:02:37] Só que a ideia de que a visão religiosa tem necessariamente um elemento de cosmovisão que tem que explicar o mundo e a natureza,

[02:02:49] ela é uma visão redutora do fenômeno religioso. Nem todo religioso tem que assumir necessariamente uma cosmovisão de mundo

[02:03:00] em que a filosofia materialista tem que estar fora porque quem explica o mundo e a natureza, tal como ele é, é um ente metafísico, é Deus ou qualquer outra divindade. Isso é falso.

[02:03:12] Você tem vários religiosos, várias pessoas que produzem, inclusive teologia sobre isso, que falam que o mundo dos seres humanos é determinado pelas relações humanas.

[02:03:25] Inclusive usam como argumento o princípio bíblico do nível arbítrio para fundamentar uma ontologia materialista de explicação da realidade sem excluir a existência de Deus.

[02:03:38] Ou seja, o mundo é organizado de acordo com as relações humanas porque os seres humanos têm livre arbítrio.

[02:03:47] Então não é Deus que diz que a maioria do povo vai ser expropriado das riquezas que produz porque os meios de produção estão nas mãos da burguesia.

[02:03:59] Nem que o Estado vai ser um Estado burguês que vai defender, fundamentalmente, o interesse dos proprietários privados dos meios de produção.

[02:04:08] Isso se explica pelas relações dos seres humanos no mundo.

[02:04:13] Tal sorte que Deus não interfere na forma como os seres humanos se relacionam.

[02:04:28] A dimensão da existência de Deus não anula o fundamento materialista da explicação das relações humanas.

[02:04:42] O próprio Alisson Leandro Mascaros que eu citei indicando os cursos dele sobre a crítica e filosofia de Victor Hegel é espírita.

[02:04:55] Tem palestras dele no YouTube sobre o espiritismo, quem quiser dar uma sacada vale a pena também.

[02:05:01] Então repare, só tem contradição entre ser religioso e ser marxista se você assumir uma ontologia metafísica.

[02:05:14] Ou seja, se você parte do pressuposto que a forma como a sociedade funciona e como a natureza funciona é dada não por leis imanentes da sociedade da natureza, mas é dada por Deus.

[02:05:24] Aí sim, é uma contradição epistemológica e não limita a contradição ontológica.

[02:05:29] Caso não, não existe contradição absolutamente nenhuma.

[02:05:36] Aliado a isso, um terceiro argumento e vou me dar uma conclusão, porque eu estou falando muito, é que historicamente todos os bons marxistas compreendem que o fenômeno religioso está ligado à dimensão de alienação e embrutecimento do proletariado na sociedade capitalista.

[02:06:01] E não faz sentido combater a religião em si enquanto existir capitalismo.

[02:06:10] Então Lene é o cara que, ele tem uma frase que é fantástica, que ele fala assim, para nós não interessa o que os trabalhadores pensam quando eles morrem, se eles vão para o céu ou para o inferno.

[02:06:23] Interessa que em vida eles estejam organizados e lutando pela revolução.

[02:06:27] Então essa é a dimensão. Evidentemente que Lene, Rosa Luxemburgo, Gramsci, todos os grandes marxistas da história, eles combatem instituições como a igreja católica, porque historicamente são instituições que supõem do lado da contrarrevolução.

[02:06:46] Então a gente vai combater a religião, assim como a gente tem que combater, combater a religião não, a instituição, desculpa.

[02:06:53] Assim como por exemplo na conjuntura brasileira a gente tem que combater fortemente essas igrejas neopentecostales, como a Universal do Reino de Deus, a Igreja Oscilas de Malafaia, a Igreja do Val do Milho de Santiago,

[02:07:05] porque são instituições reacionárias que são inclusive aparelhos para formar uma base de massas para o bolsonarismo.

[02:07:12] O combate à instituição é algo que está posto e é algo que é urgente, o que não significa cair numa propaganda ateísta, abstrata.

[02:07:22] O Gregório Bezerra, ele tem um episódio muito lindo da sua biografia que foi publicado pela Boitempo,

[02:07:28] que ele fala que era comum os camaradas da juventude do PCB ou JC picharem pelas ruas do Recife, pelos muros, frases contra Deus e contra a igreja.

[02:07:39] E Gregório Baludia numa reunião deu a famosa, a famosa sarrafa em todo o mundo, porque esse tipo de agitação política era burra,

[02:07:51] porque colocava os trabalhadores na mão dos conservadores e que não era nosso papel combater, falar mal de Deus, falar mal da religião,

[02:08:00] nosso papel era combater a influência da instituição religiosa na consciência dos trabalhadores como instrumento de apassivamento.

[02:08:07] Mas se o trabalhador querer estar em Deus, em Buda, lá, em, sei lá, em Kardec, não é papel dos comunistas normalmente que luta pela revolução

[02:08:20] fazer disso um elemento central no programa do partido. O Lenin até fez uma polêmica na história do Partido Bolchevique

[02:08:28] contra colocar como obrigatoriedade para ser membro do partido o ateísmo.

[02:08:34] Então, o Lenin sempre bateu forte nisso. Então, tal de sorte que não existe contradição necessariamente em ser comunista e ser religioso.

[02:08:48] E os religiosos são muito bem-vindos, até porque a gente sabe que no Brasil e na América Latina, da configuração da nossa formação social-histórica,

[02:08:59] a maioria dos trabalhadores é religioso. Então, não faria sentido algum a gente achar que esses trabalhadores têm que deixar a religião de lado

[02:09:11] para aderir a um projeto revolucionário porque isso não vai acontecer. E, da mesma forma, no processo revolucionário a própria religião muda de função,

[02:09:19] como é demonstrado brilhantemente pelo exemplo cubano, em que você tem um povo extremamente politizado, extremamente educado,

[02:09:32] com um altíssimo nível de cultura que já deu todas as provas possíveis e imagináveis de heroísmo revolucionário,

[02:09:40] como disse o Marx, já mostrou o grito da criatura oprimida várias e várias vezes e é um pouco profundamente religioso, em sua maioria.

[02:09:52] Então, para as pessoas que me perguntaram várias vezes no Instagram, depois de um post que eu afirmei rapidamente, de maneira lapidar,

[02:10:01] que não existe contradição de ser religioso e ser comunista, essa é a perspectiva, não existe contradição.

[02:10:06] A teoria da religião no conjunto da obra de Marx é um tema mais amplo, que eu não vou me arriscar a tentar abordar,

[02:10:13] já que eu já falei muito e era para as conclusões finais, mas com uma introdução para o tema eu deixo esse pequeno pitaco

[02:10:23] e peguem a frase completa, não é só que a religião é o ápio do povo, ela também é o grupo da criatura oprimida,

[02:10:29] um coração de um mundo sem coração. Agradecer a dividir mais esse espaço com o camarada Diego, que é o nosso grande organizador,

[02:10:42] Diego é uma espécie de Lenin do revolução. Camarada Leonardo, que eu não conhecia, quero elogiar que a tradução ficou maravilhosa,

[02:10:54] não entendo alemão, mas sei que ficou ótimo, ficou perfeito. Camarada João, que eu estava com muita saudade, meu irmão,

[02:11:05] do mesmo pai, que é lusudo, faleceu, a pouco tempo a gente continua meio triste, e é isso aí que foi maravilhoso,

[02:11:14] espero que vocês gostem da leitura, aproveitem muito bem e é isso.

[02:11:21] Muito bom, Jonas. Lembrando que a gente tem um episódio do Revoluchow, que é… como é o título do episódio?

[02:11:33] Você lembra, João, Se No Céu Tem Pão?

[02:11:36] Nossa, cara, ele é lá do começo. É um dos primeiros episódios que a gente discute essa questão.

[02:11:41] É com barba, com menino e tal. É uma discussão. Eu inclusive conheci o Alisson num movimento espírita, eu fazia parte do movimento espírita,

[02:11:48] comecei a militar, vamos dizer assim, dentro do movimento espírita, com o trabalho assistencial, até chegar às leituras do Marx e fodeu.

[02:11:57] Aí o rolê ficou pesado. Então acho que super concordo, Jonas, muito bom. Leonardo, suas conclusões, também você pode fazer…

[02:12:09] Diego, desculpe interromper, deixa eu falar antes do Leonardo, para o Leonardo poder fechar o episódio.

[02:12:15] Não, ótimo. Não, eu não quero ter a última palavra. Deixa eu falar.

[02:12:18] Leonardo, aproveita também, não sei, como as pessoas conseguem ler as coisas que você produz, falar um pouco talvez do CD-PLAR,

[02:12:33] fica à vontade para além da fala de falar do texto, falar um pouco também do que as pessoas podem ter acesso aí do que você está produzindo, onde você circula, essas coisas.

[02:12:43] Legal. Bom, eu quero agradecer muito, foi um imenso prazer, espero não baixar o nível, não pegar feio o nível do podcast de vocês, que é muito bom.

[02:12:54] Bom, foi um prazer. E eu quero dizer três coisas. A primeira, complementando o que o Jonas disse, que as ideias ainda têm uma função no mundo.

[02:13:11] Mais os críticos de Marx acham que ideologia não tem nenhuma função ou que tem uma função errada. Enfim, se não, não teria sentido o que nós estamos fazendo aqui, que é pensar.

[02:13:22] Acho que nós temos o dever revolucionário de mantermos a lucidez, de produzirmos ideias importantes para o nosso tempo.

[02:13:32] E acho que esse podcast cumpre esse papel. As ideias têm um lugar no mundo e nós precisamos atuar nesses debates importantes.

[02:13:41] A segunda coisa, a partir dos textos que a gente discutiu hoje, é o quanto a esquerda brasileira ainda vai investir, ou o quanto está disposta, ou o quanto é capaz de investir numa democracia falida.

[02:13:56] Essa democracia brasileira já deu todas as provas de sua falência e estámos imersos num sistema político perverso desse e o quanto ainda vale a pena investir nisso.

[02:14:09] Mas o mais importante mesmo é aproveitar essa audiência muito ampla para dizer que quando, há 20 anos, eu fui fazer mestrado, meu orientador, José Chazim, no começo falou que ia estudar esse texto.

[02:14:26] Eu falei, porra, eu não quero estudar esse texto, ele é muito cansativo, é um Marx pré-marxiano, eu quero ler o Capital, eu quero ler o Marifesto, essas coisas.

[02:14:37] Eu gostaria de convidar as pessoas que estão ouvindo a entenderem que é um esforço muito grande que a gente faz na universidade, mas fora dela.

[02:14:49] Marx não só escreveu críticas da Filosofia do Direito e Reino, mas encheu cinco cadernos de leitura, cadernos de cróis que não estão traduzidos, não estão estudados em nível de monografia aqui no Brasil.

[02:15:08] Enfim, a obra de Marx é imensa, existem muitas possibilidades de pesquisa, de reflexão, que não são o carro-chefe, o carro-chefe é efetivamente a prática, é efetivamente o coração dos debates que a gente está imerso hoje e sempre.

[02:15:25] Mas é muito bom que haja pessoas interessadas sempre em fazer essas leituras, esses sites, esse podcast são uma prova disso.

[02:15:35] Finalmente, então, aqui na USMG nós temos estudos na Filosofia, no curso de Economia e também no Direito, pesquisas muito interessantes, matérias, aulas, na administração, na pedagogia, enfim, vários esforços de leitura, aulas, grupos de estudos.

[02:15:56] E que o pessoal fique atento aí, que participe e que se aprimore sempre.

[02:16:02] Mais uma vez, Diego, João, Jonas, foi um imenso prazer, uma grande honra participar desse momento e que venham os próximos.

[02:16:12] Muito obrigado.

[02:16:13] Nossa, Léo, o prazer é todo nosso, muito obrigado por ter aceitado o convite, é uma honra pra gente ter você aqui com a gente pra poder dialogar.

[02:16:23] A gente sempre tenta trazer nos episódios pessoas que estão empenhadas aí, são pesquisadores, são pessoas envolvidas com esses textos e foi uma honra você ter aceitado estar aqui com a gente.

[02:16:36] Muito obrigado.

[02:16:37] João.

[02:16:39] Então, primeiro, você citou ali o nosso episódio, o episódio número 6 do Revoluchow.

[02:16:46] No céu tem religião e morreu, que é o episódio que a gente fala mais profundamente disso.

[02:16:54] Então, pra quem tiver curiosidade, entra lá no revoluchow.com e ouve lá.

[02:16:59] Você que tá no Spotify, o feed do Spotify só começa mais pra frente, que a gente trocou de feed no meio do caminho e no Spotify não tem todos os episódios.

[02:17:06] Então, esses episódios mais antigos, às vezes, ficam perdidos.

[02:17:08] Quem vai entrando em contato com o podcast de agora pode procurar todos eles direto lá no site nosso, no revoluchow.com.

[02:17:15] Eu queria agradecer imensamente a honra que foi pra mim participar aqui desse podcast com o professor Leonardo.

[02:17:24] Eu tenho uma profunda admiração pelo trabalho do professor Leonardo e fiquei muito feliz e muito honrado com a presença dele aqui.

[02:17:31] E pelo contrário, a gente aqui tenta, eu e o Jones, a gente tá suando aqui pra conseguir manter um debate, não jamais vou dizer no mesmo nível, mas num nível abaixo, porém não tão abaixo assim.

[02:17:44] Queria agradecer demais ao Diego, que o Jones falou tão bem, o Diego é o nosso Lenin, o Diego é o nosso organizador, o Diego é a centelha do nosso iscra.

[02:17:55] Então, a gente tem essa dívida de gratidão eterna com o Menino Diego, uma dívida física e metafísica, eu espero estar errado pra que eu possa agradecer o Diego numa vida vindoura.

[02:18:07] E agradecer demais ao Jones, cara, eu também tava morrendo saudado do Jones, o Jones é meu irmão inlosurdo, eu tenho mais do que um profundo respeito e amizade, eu tenho uma profunda admiração pelo Jones.

[02:18:21] Eu falo isso abertamente toda vez que eu posso, quando eu insisti pra trazer o Jones aqui pro Revolut Show, eu falei, eu vou trazer um cara que é muito melhor do que eu e cada vez que o Jones participa eu sei que eu tava certo.

[02:18:33] Então assim, é aquela coisa, se eu vejo mais adiante, é porque eu sento no ombro de gigantes, gigantes como o Menino Jones.

[02:18:41] Eu também te amo porra!

[02:18:44] Aproveitando a fala do Jones, me bateu muito profundamente porque eu, apesar de sempre ter se datado, eu sou de formação medievalista.

[02:18:55] E eu quero completar a citação do Jones com o parágrafo de baixo que eu acho que complementa perfeitamente.

[02:19:03] O Marx fala, a supra-função da religião como felicidade ilusória do povo é a exigência da sua felicidade real.

[02:19:12] A exigência de que abandonem as ilusões acerca de uma condição é a exigência de que abandonem uma condição que necessita de ilusões.

[02:19:22] A crítica da religião é, pois, em germe, a crítica do vale de lágrimas cuja auréola é a religião.

[02:19:29] E o Jones falou tão bem disso e eu como medievalista eu quero recomendar algumas leituras pras pessoas que tiverem interesse.

[02:19:37] Porque o Jones falou de uma coisa que é muito importante, que é a função da ortodoxia.

[02:19:43] Principalmente a ortodoxia se torna ortodoxia depois que uma doxa é criada.

[02:19:49] Mas desde a criação da doxa, a função ortodoxa da igreja, é exatamente não permitir que a heterodoxia cresça.

[02:19:59] E isso não é um fenômeno agora.

[02:20:02] Eu vou falar da Idade Média porque é o alvo dos meus estudos.

[02:20:07] Agora, eu tenho certeza que se eu estivesse conversando aqui, se a Tupá estivesse aqui, ela poderia falar a exata mesma coisa do cristianismo primitivo.

[02:20:16] E se a gente fosse estudar o cristianismo primitivo e fosse ver como que foi formada a doxa do cristianismo, do catolicismo,

[02:20:23] a gente veria como isso foi um processo político conduzido pelas elites exatamente pra massacrar essas manifestações populares.

[02:20:31] Manifestações populares essas que vão voltar com toda a força na Idade Média, principalmente a partir do século XI até o século XIII mais ou menos,

[02:20:44] mas que já começam com uma mudança na espiritualidade monástica no final do século X, na transição pro século XI,

[02:20:52] que vai vir aí depois a reforma gregoriana do começo do XII e toda a questão da vital area apostólica,

[02:21:01] da ideia da transformação da vida religiosa, do eremitismo, do novo monacismo no século XI e no século XII,

[02:21:08] da procura da espiritualidade leiga, dos livros de hora, da ascensão das mulheres a uma espiritualidade própria

[02:21:14] e principalmente depois com o surgimento das ordens mendicantes.

[02:21:19] Os franciscanos, por exemplo, eles tiveram na beira de se tornar mais uma das milhões de heresias medievais

[02:21:26] e só nos tornaram por causa da força popular que o movimento teve.

[02:21:30] Pra quem tem algum interesse em estudar história da Idade Média ou conhecer um pouco mais desse movimento,

[02:21:36] eu vou recomendar um livro que tem tradução portuguesa, que é bem genérico e fala desse desenvolvimento como um todo,

[02:21:43] que é um livro de um autor chamado André Voché, que chama a espiritualidade na Idade Média Ocidental

[02:21:49] e principalmente os trabalhos de um grande medievalista brasileiro, já falecido, que é o Narman Falbel,

[02:21:55] que era professor da USP.

[02:21:57] O Narman escreve dois livros que são pequenininhos e que são uma delícia de ler,

[02:22:02] que é o Heresias Medievais, que saiu pela perspectiva e também pela perspectiva os espirituais franciscanos.

[02:22:09] Quem tiver interesse de entender um pouco mais sobre como que se dá essa luta política dentro do escopo da religiosidade

[02:22:19] desde a Idade Média, esses são livros que são bem interessantes pra gente ver.

[02:22:24] Aproveitando pra falar agora um pouco sobre o livro, eu quero recomendar algumas outras leituras

[02:22:31] que eu acho que são muito importantes pra gente entender o contexto e os desenvolvimentos dessas primeiras obras do Marx.

[02:22:38] A gente já falou aqui, tem um episódio inteiro dedicado, mas eu quero bater nessa tecla.

[02:22:43] Se você ainda não teve a oportunidade, leia a biografia do Marx, do Michael Heinrich, é maravilhoso.

[02:22:52] É um livro fenomenal, um livro muito gostoso de ler.

[02:22:55] E se você tem interesse em estudar essa evolução do pensamento, da teoria de revolução no Jovem Marx,

[02:23:04] tem um livro do Michel Lovie, que é a tese de doutorado dele, que chama A Teoria da Revolução no Jovem Marx.

[02:23:11] Saiu pela Boitempo, tá aí, vira e mexe com desconto nos cupons nós.

[02:23:16] É um livro muito pequeno, muito fácil de ler e que ajuda muito nas leituras,

[02:23:21] ajuda muito como introdução pra você depois adentrar nas próprias leituras do Marx.

[02:23:28] E uma coisa que eu acho que é muito interessante,

[02:23:31] o crítico da Filosofia do Direito de Hegel não é um livro fácil, não é um livro gostoso de se ler.

[02:23:37] Agora, a introdução é fácil e ela é deliciosa.

[02:23:41] Então assim, eu recomendo demais o crítico da Filosofia do Direito de Hegel, principalmente se você começar o livro da forma mais estranha possível,

[02:23:49] que é começar pela introdução que foi escrita um ano depois.

[02:23:52] Leia a introdução e depois que você ler a introdução, volte no texto e comece a fazer as pontes entre o que está a quem, o que está igual e as poucas coisas que estão além.

[02:24:05] Entre o crítico da Filosofia do Direito de Hegel e o crítico da Filosofia do Direito de Hegel, introdução.

[02:24:10] Ambos estão na edição da Boitempo.

[02:24:12] A edição é fenomenal.

[02:24:13] Para além do próprio livro de trazer a introdução, que é um escrito do Deutsch, Franz Josef e Abiger,

[02:24:22] que é de difícil acesso, ele está ali compilado, bonitinho, traduzido de forma maravilhosa.

[02:24:28] Você ainda tem a apresentação e as notas que são muito interessantes para você poder se contextualizar.

[02:24:37] Para além disso, se você quer entrar nos meandros de entender o Hegel, o Jones já deu a letra.

[02:24:43] O Jovem Hegel do Lukas é um puta livro.

[02:24:46] Não é exatamente também um livro fácil de ler, mas está aí.

[02:24:49] O Losurdo também, que o Jones já falou, baita livro, tem edição dele em português.

[02:24:54] Então, assim, a gente recomenda muito, porque é muito importante para a gente construir esse arcabouço teórico, a gente entender essas categorias.

[02:25:03] E se você tiver que ler alguma coisa antes de ler, você fala assim, não, eu quero ler um pouquinho de Hegel para me preparar.

[02:25:11] Lê pelo menos as primeiras 100, 120 páginas do Fenomenologia do Espírito, que vai te ajudar muito com os conceitos,

[02:25:18] além do livro do Coulting, que o Jones já falou durante o episódio.

[02:25:21] Então, assim, ficam todas essas dicas aí para você que quer se aprofundar nos estudos.

[02:25:26] O nosso agradecimento a todo mundo que tem sempre a paciência de ouvir duas horas e meias de revolu-show quando a gente é rápido.

[02:25:33] E agradecer mais uma vez a presença do Leonardo e a todos vocês que estão ouvindo a gente em casa e que apoiam a gente.

[02:25:41] Continuem apoiando a gente lá no Padrinha, é muito importante para a gente manter as condições materiais dos nossos estudos.

[02:25:48] Nós todos trabalhamos, ninguém vive disso, a gente tem uma vida muito corrida.

[02:25:51] E é isso, gente, muito obrigado por tudo e até a próxima.

[02:25:55] Obrigado, João.

[02:25:57] Para fechar, aproveitando com o que o João falou aí, eu recomendo também sobre o estudo do Hegel,

[02:26:05] o livro do Charles Taylor Hegel, Sistema e Método, que é um apanhadão que dá uma noção bem ampla sobre a obra do Hegel.

[02:26:18] E, Leonardo, queria que você mandasse um abraço aí para o João Antônio do CD Plar e do Hugo Cerqueiro.

[02:26:24] O Hugo usou o material dele para poder fazer lá o estudo sobre as publicações da obra Marx e Engels.

[02:26:31] No primeiro episódio aqui da série, a gente tentou retomar e os artigos do Hugo foram importantes,

[02:26:37] do Reza 9, do Instituto Marx e Engels e do João Antônio.

[02:26:41] Um ano passado eu fiz o curso com ele lá no Sim de Rede sobre a história das lutas.

[02:26:46] Eu sei que você está convivendo com eles aí dia a dia na faculdade.

[02:26:49] O CD Plar é um exemplo para a gente aí de pesquisa, de estudo, de engajamento aí.

[02:26:56] Pretendo em algum momento conseguir fazer um curso com vocês aí de crítica da economia política.

[02:27:01] Quem sabe, né? A vida permitindo.

[02:27:03] E, gente, o Revoluchou isso aí, Teoria Osadia, esse é o terceiro episódio.

[02:27:09] Vão ter muitos mais e é isso.

[02:27:12] Aqui estamos para tentar provocar vocês, para estudar, para conhecer, para entender esse processo

[02:27:19] de desenvolvimento do pensamento do Marx.

[02:27:22] E taca ali palmas a obra que a gente tem muito o que fazer, né?

[02:27:27] Que a conjuntura não está fácil.

[02:27:29] E vamos lá. Vamos dar o tchauzinho então, pessoal.

[02:27:31] Tchauzinho. Tchau, tchau.

[02:27:33] Tchau, gente. Boa noite.

[02:27:35] Tchau.

[02:27:37] Tchau.

[02:27:52] Half-death.