AntiCast 394 – Masculinidade Tóxica nos Games


Resumo

Este episódio do Anticast, apresentado por Henrique Sampaio, discute o caso da streamer Gabi Cattuzo, que após postar uma foto humorada no Twitter, recebeu uma enxurrada de comentários machistas e sexualizadores. Em reação, ela desabafou com a frase “homem é lixo”, o que gerou uma enorme polêmica, levando a perda de patrocínio da marca Razer e a uma campanha de ódio e ameaças contra ela.

As participantes Beatriz Blanco, Letícia Vexel e Rebeca Puig analisam o caso, discutindo a validade da generalização feita por Gabi, explicando que se trata de uma crítica à estrutura social patriarcal e não a todos os homens individualmente. Elas destacam a desproporção entre a reação ao desabafo dela e a violência que ela sofreu, incluindo ameaças de morte e vazamento de dados.

A conversa se aprofunda na análise da cultura gamer, explorando como a identidade “gamer” foi construída como uma identidade masculina, anti-hegemônica e comercial, que frequentemente exclui mulheres e minorias. Discute-se a toxicidade desse meio, a resistência em ver videogames como produtos culturais políticos e a infantilização do consumo nerd.

São abordados também temas como a economia de atenção que alimenta polêmicas, a dificuldade dos homens em não se colocarem como centro do universo, a falta de diversidade nas empresas de games e a importância da crítica cultural. O episódio termina com recomendações de livros e canais que discutem masculinidade, gênero e diversidade nos games.


Indicações

Academic-Works

  • Tese ‘Jogos Vivos para Pessoas Vivas’ — Tese de doutorado de Lucas Goulart, recomendada por Beatriz Blanco. Estuda a cena queer de desenvolvimento de games em Berkeley, trazendo questões de masculinidade e construção de identidade.

Books

  • Die Tryin’ — Livro de Derek Burrill recomendado por Beatriz Blanco, que analisa a representação da masculinidade nos filmes sobre gamers dos anos 80/90, mostrando como a identidade gamer é uma releitura da masculinidade hegemônica.
  • Videogame, Diversidade, Gênero — Livro organizado por Beatriz Blanco e Lucas Goulart, apresentando um panorama de pesquisas sobre videogame e gênero no Brasil. É o primeiro de três volumes focados em trabalho acadêmico, mercado e militância.
  • Gaming at the Edge — Livro de Adrienne Shaw, recomendado por Beatriz. É um estudo etnográfico com gamers de minorias, discutindo conceitos como identificação e representatividade de forma acadêmica, com foco em questões LGBT.
  • A Jornada da Heroína — Livro de Maureen Murdock, recomendado por Letícia Vexel. Faz um paralelo com ‘A Jornada do Herói’ e discute a criação de narrativas que representam mulheres de forma mais correta e complexa.
  • Angry White Men — Livro de Michael Kimmel, recomendado por Rebeca Puig. É uma análise sobre a masculinidade e como ela afeta a sociedade e os próprios homens.

Channels

  • Pop Culture Detective — Canal do YouTube de Jonathan McIntosh, recomendado por Henrique Sampaio. Produz vídeos analisando representações de masculinidade na cultura pop (games, quadrinhos, filmes) e explorando sua toxicidade.
  • Canal do Léo Rouanet — Canal nacional no YouTube recomendado por Rebeca Puig. Léo fala sobre cultura pop, sentimentos e masculinidade, fazendo paralelos com a cultura pop em uma série dedicada ao tema.

Podcasts

  • Bonus Cast — Podcast em que Beatriz Blanco participa, focado em videogames. Ela menciona que tentam mantê-lo quinzenal.
  • Holodeck — Podcast de game design ao qual Beatriz Blanco contribui ocasionalmente.
  • ATAC — Podcast que discute videogames do ponto de vista da esquerda, com vários convidados. Beatriz participou de vários episódios; está em suspenso temporário.

Research-Groups

  • JOY - Jogos Digitais & Imaginário — Grupo de pesquisa coordenado por Letícia Vexel e Flávia Gaze, que estuda os verbos e ações nos videogames (atirar, pular, correr) e seu imaginário.

Linha do Tempo

  • 00:02:47Introdução ao episódio e apresentação do tema — Ivan Mizanzuk apresenta o episódio, explicando que não poderá conduzi-lo devido a uma viagem. Ele introduz o tema da masculinidade tóxica nos games, motivado pelo caso recente da streamer Gabi Cattuzo. Henrique Sampaio assume a apresentação e apresenta as convidadas: Beatriz Blanco, Letícia Vexel e Rebeca Puig.
  • 00:06:50Contextualização do caso Gabi Cattuzo — Henrique Sampaio detalha o caso: Gabi postou uma foto montada num touro mecânico com uma legenda humorada. Imediatamente, recebeu comentários machistas e sexualizadores. Ela reagiu dizendo “homem é lixo” e, após questionamentos, defendeu a generalização. A situação escalou, com um youtuber fazendo um vídeo denunciando-a para a Razer, sua patrocinadora. Gabi sofreu um linchamento virtual, perdeu o patrocínio e recebeu ameaças de morte.
  • 00:14:19Análise da reação de Gabi e o conceito de generalização — As participantes discutem se a reação de Gabi foi agressiva ou um desabafo compreensível. Rebeca Puig argumenta que não foi agressiva, mas um desabafo didático, e critica a expectativa de que mulheres sempre respondam com calma e paciência. Beatriz Blanco analisa pragmaticamente o impacto desproporcional: os homens ficaram ‘chateados’, enquanto Gabi sofreu consequências graves como perda de patrocínio e ameaças.
  • 00:20:44Explicação sociológica da generalização ‘homem é lixo’ — Henrique cita a explicação da influenciadora Maristella Rosa sobre a generalização. Ela argumenta que, ao falar de papéis sociais, generalizações são necessárias. A frase ‘homem é lixo’ se refere à construção social da masculinidade machista, que ensina os homens a tratar mulheres como objetos, e não a cada indivíduo. As participantes reforçam que é uma crítica à estrutura de poder, não ao homem individual.
  • 00:28:00A dificuldade do homem em não ser o centro — Rebeca Puig discute como homens, especialmente brancos héteros cis, estão acostumados a ser o centro das atenções e têm dificuldade em entender quando uma crítica não é sobre eles individualmente. Ela usa a analogia de ser uma pessoa branca e não se ofender com críticas a brancos. A conversa enfatiza a necessidade de os homens entenderem seu lugar de poder social e não internalizarem críticas estruturais.
  • 00:36:34Experiências de mulheres no meio gamer e estratégias de preservação — Letícia Vexel compartilha sua experiência como streamer, contando que geralmente ignora ou bane comentários ofensivos para se preservar, temendo reações como a sofrida por Gabi. Ela e as outras participantes discutem o desgaste de comprar brigas na internet e a importância de escolher quais lutas valem a pena, equilibrando a necessidade de não se silenciar com a preservação da saúde mental.
  • 00:50:46Análise do posicionamento da Razer — O grupo analisa criticamente o comunicado da Razer, que cortou laços com Gabi. O texto é considerado covarde, pois a empresa se distanciou dela, validou o linchamento e minimizou o preconceito real ao equiparar o sofrimento de gamers a preconceitos como sexismo e racismo. As participantes destacam a desonestidade intelectual de igualar uma crítica social a formas de discriminação estrutural.
  • 00:56:02A construção da identidade gamer e sua toxicidade — Beatriz Blanco explica, com base no livro ‘Die Tryin’ de Derek Burrill, como a identidade gamer foi construída como uma identidade masculina anti-hegemônica, mas que na verdade reforça valores masculinos tradicionais (competição, habilidade). Ela discute como essa identidade, muito comercial, cria uma divisão entre ‘insiders’ e ‘outsiders’, excluindo mulheres e minorias, e como marcas como a Razer exploram isso.
  • 01:07:42A importação do mito do gamer oprimido e a relação com política — As participantes discutem como a narrativa do gamer/nerd oprimido foi importada dos EUA através de filmes, não correspondendo necessariamente à realidade brasileira. Elas conectam essa identidade com a resistência em ver videogames como produtos culturais políticos. A conversa aborda como a comunidade gamer é usada para manobras políticas e como a toxicidade do meio está associada a movimentos como o Gamergate.
  • 01:30:02Videogame como território de masculinidade idílica e escapismo — Citando novamente Derek Burrill, Beatriz fala do videogame como um ‘território de masculinidade idílica’ ou ‘boyhood’, um espaço escapista onde homens fogem das questões da vida adulta, como problemas sociais e de gênero. Qualquer tentativa de trazer discussões políticas para esse espaço é vista como uma violação, gerando reações violentas. Isso explica a resistência a críticas sociais nos games.
  • 01:41:46A necessidade de crítica cultural e recomendações finais — O grupo enfatiza a importância da crítica cultural nos games, não como algo destrutivo, mas como uma conversa para melhorar o meio. São feitas recomendações de livros (como ‘Videogame, Diversidade, Gênero’, ‘Gaming at the Edge’, ‘Die Tryin’) e canais (Pop Culture Detective, Léo Rouanet) que discutem masculinidade, gênero e diversidade nos videogames. Cada participante faz seu jabá final.

Dados do Episódio

  • Podcast: AntiCast
  • Autor: HD1
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2019-06-27T06:32:04Z
  • Duração: 01:57:11

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Alô?

[00:00:02] Gus Lanzetta!

[00:00:04] Grande!

[00:00:06] Vã, tudo bem?

[00:00:08] CEO da Half Death

[00:00:10] Sim, você precisa de alguma coisa, cara?

[00:00:12] O que que quer dizer CEO?

[00:00:16] É sério isso, cara?

[00:00:18] É uma dúvida que você não podia tirar no Google?

[00:00:20] É porque na minha época ninguém falava CEO, falava chefe, empresário…

[00:00:26] E banca?

[00:00:28] Como eu sempre te digo, a sua época é agora meu amigo, tudo certo?

[00:00:32] É isso que eu acho, mais de alguma coisa?

[00:00:34] Ah…

[00:00:36] CEO…

[00:00:38] Escreve com S?

[00:00:40] Gus?

[00:00:42] Se você quer aprender inglês mas seus amigos são impacientes como o Gus, eu recomendo que você use o Cambly.

[00:00:48] Cambly é uma plataforma de aulas de inglês online que te conecta instantaneamente com professores nativos de língua inglesa.

[00:00:54] Assim, você pode fazer aulas particulares ao vivo por vídeo chamadas na hora que for melhor para você.

[00:01:00] Porque sim, há professores de todos os lugares do mundo 24 horas por dia.

[00:01:04] A Cambly se adapta a você no seu computador, tablet ou celular.

[00:01:08] Pode ter conversas de 15 minutos a 2 horas, e se você está começando você pode testar vários professores até encontrar algum que você goste,

[00:01:16] para que ele ou ela te ajude a montar um plano de aula.

[00:01:20] Há professores inclusive que falam português para também te ajudar, se você achar isso melhor.

[00:01:24] Se você for mais avançado e só quiser praticar seu inglês, você também pode usar o modo aleatório e encontrar qualquer professor disponível na hora que você preferir.

[00:01:32] Foi o que eu fiz alguns dias atrás quando encontrei o professor Duncan McGovern, um inglês que se casou com uma brasileira e hoje mora no Brasil.

[00:01:40] Em algum momento eu contava para ele que eu gostava do Liverpool por causa da minha Spice Girl favorita.

[00:01:50] Eu acredito que foi a Melanie C. da Spice Girls. Ela era um apoiador.

[00:01:55] Ela era uma apoiadora.

[00:01:57] E eu estava tipo, uau, ok, agora eu apoio o Liverpool também.

[00:02:02] Uau, essa conversação é tão 90s, é ótimo.

[00:02:06] É um prazer estar de volta.

[00:02:08] Você só conseguiu ouvir esse trecho porque a Cambly grava todas as aulas que você faz em vídeo,

[00:02:12] para que depois você possa se ouvir, falando e estudar com calma tudo que o seu professor falou.

[00:02:17] Baixe já o aplicativo da Cambly para iPhone ou Android e use o nosso código provocional, que é Anticast.

[00:02:23] Com ele, você ganha uma aula gratuita.

[00:02:25] Você também pode baixar o aplicativo pelo link no post deste episódio ou entrar direto no site da Cambly.

[00:02:31] Por sinal, Cambly se escreve C, A, M de Maria, B de Bola, L, Y.

[00:02:37] Boas aulas!

[00:02:47] E aí, pessoal, aqui é Ivan Mizanzuki e esse é o Anticast número 394, masculinidade tóxica nos games.

[00:02:55] Então, vamos lá. Primeiro de tudo, eu não estou neste programa, eu estou viajando.

[00:03:00] Amanhã eu tenho que dar uma palestra no congresso da Abragem, a Associação Brasileira de Orientes Vigitativos.

[00:03:07] Eee, muito bom.

[00:03:09] Então, o programa desta semana ia ser sobre Black Mirror.

[00:03:13] Eu já aviso, essa é a pauta da semana que vem.

[00:03:15] Mas aí, como aconteceu uma treta aí no mundo dos games relacionado a streamer Gabi Gattuso,

[00:03:23] eu pedi para o Henrique Sampaio, que é o host lá do Overloader.

[00:03:28] Ele é, não só host, né?

[00:03:30] Enfim, o Overloader é um portal de games, enfim.

[00:03:33] E o Henrique é um cara fantástico.

[00:03:35] Eu pedi para ele, então, assumir o Anticast esta semana e chamar algumas pessoas,

[00:03:40] para conversar sobre todo esse caso.

[00:03:42] E também, obviamente, sobre essa questão da masculinidade tóxica nos games,

[00:03:46] que é um assunto que, volta e meia, a gente cita por aqui, né?

[00:03:49] Então, além do Henrique hosteando, teve também a Beatriz Blanco,

[00:03:52] que é professora e pesquisadora na área de games e mídia.

[00:03:55] Teve a Letícia Vexel, que é jornalista de videogames, youtuber e podcaster.

[00:03:59] E a Rebeca Puig, que é roteirista e editora do site nebula.co.

[00:04:04] Daqui a pouco, todo mundo se apresenta.

[00:04:06] Já queria agradecer muito a todo mundo que participou.

[00:04:08] Eu acho que é um assunto super importante.

[00:04:10] A gente não podia deixar passar batido.

[00:04:12] Infelizmente, eu não pude tocar o programa.

[00:04:15] Gostaria muito, mas eu acho muito legal também poder dar essa oportunidade

[00:04:19] e esse espaço para discutir.

[00:04:22] Sempre que precisar do Anticast para isso, estamos aí para isso, né?

[00:04:25] Bom, alguns recadinhos vocês devem ter notado que, dessa vez, temos patrocinadora.

[00:04:29] Isso é maravilhoso.

[00:04:32] Esse Anticast, e mais alguns próximos,

[00:04:34] sempre com alguma propagadinha no início.

[00:04:38] Eu vou sempre mudar um pouquinho a dinâmica dele.

[00:04:41] Mas a mensagem da nossa patrocinadora, Cambly, muito legal.

[00:04:45] Espero que vocês tenham curtido a brincadeira.

[00:04:49] Ou não, o Gus, às vezes, é meio grosso comigo mesmo.

[00:04:53] Além disso, recado de sempre.

[00:04:56] Se vocês gostaram desse vídeo,

[00:04:59] você já torna tudo isso aqui possível.

[00:05:02] Toda essa nossa baderna aqui semanal.

[00:05:05] Não apenas o Anticast, mas também projetos humanos e tal.

[00:05:08] Se você quiser saber como contribuir, é só entrar em

[00:05:11] www.anticast.com.br e tem o botão lá em cima.

[00:05:14] Seja patrão, clica lá e daí já tem todas as instruções.

[00:05:17] A gente agradece imensamente todo o apoio aí de vocês.

[00:05:20] Certo?

[00:05:22] Bom, já falei de muito.

[00:05:25] Vamos ali para o programa novamente.

[00:05:28] Muito obrigado, Henrique, Beatriz, Letícia e Rebeca,

[00:05:31] por terem cedido seu tempo aqui para a gente.

[00:05:34] Tenho certeza que todo mundo vai curtir muito o papo.

[00:05:37] E é isso. Fiquem agora com o programa.

[00:05:46] Olá, me sejam bem-vindos a um episódio diferente do Anticast.

[00:05:49] Porque eu nunca estive por aqui antes.

[00:05:52] E de repente cai de paraquedas já como apresentador.

[00:05:55] Eu sou Henrique Sampaio, eu sou um dos membros do Overloader,

[00:05:58] que é um site de games.

[00:06:01] E por convite do Ivan Mizanzuk, eu estou apresentando

[00:06:04] esse episódio no qual a gente vai falar sobre o caso recente

[00:06:07] da streamer Gabi, que se envolveu num embrólio bem complicado,

[00:06:10] envolvendo a marca Razer, de acessórios de videogames.

[00:06:13] E para despedir, eu vou falar um pouco sobre esse episódio.

[00:06:16] A gente vai falar sobre esse episódio,

[00:06:20] e para debater esse assunto, que é bastante sensível,

[00:06:23] eu acho que é muito importante também nesse momento,

[00:06:26] que inclusive já saiu da bolha dos games

[00:06:29] e está chegando a grande mídia até.

[00:06:32] Acho que está rolando um debate bem intenso sobre isso.

[00:06:35] Eu estou aqui com três garotas que certamente

[00:06:38] vão complementar muito bem esse assunto,

[00:06:41] que é a Beatriz Blanco,

[00:06:44] a Letícia Vexel

[00:06:47] e a Rebecca Puig.

[00:06:50] Eu queria que primeiro vocês se apresentassem,

[00:06:53] eu também vou me apresentar depois,

[00:06:56] e depois eu vou fazer um resuminho sobre esse caso para a gente debater aqui.

[00:06:59] Eu sou a Beatriz Blanco, sou professora e pesquisadora

[00:07:02] na área de games e mídia

[00:07:05] e produtora ocasional de conteúdo,

[00:07:08] quando dá tempo eu escrevo, gravo sobre videogame,

[00:07:11] já atuei mais nesse mercado, hoje estou mais voltada para pesquisa mesmo.

[00:07:14] Você escreve no…

[00:07:17] Bonus Stage.

[00:07:20] Gravo com eles o Bonus Cast também

[00:07:23] e às vezes eu contribuo com o Holodeck, que é um podcast de game design.

[00:07:26] Legal.

[00:07:29] Letícia.

[00:07:32] Bom, eu sou jornalista, escrevo por aí sobre videogames,

[00:07:35] também sou criadora de conteúdo, tenho um canal no YouTube, faço live streams,

[00:07:38] estou sempre em vários podcasts aí do meio

[00:07:41] pesquisadora também, porque acho incrível falar sobre videogames

[00:07:44] de forma acadêmica também, acho que basicamente é isso,

[00:07:47] estou bem envolvida no meio de joguinhos e criação de conteúdo

[00:07:50] sobre joguinhos.

[00:07:53] Legal, Rebecca.

[00:07:56] Eu sou editora do nebula.co, que é um site que fala sobre cultura pop, diversidade

[00:07:59] e representação, e eu sou roteirista e estou falando

[00:08:02] sobre representação e diversidade faz aí uns bons 6 anos

[00:08:05] na internet já.

[00:08:09] Como eu falei, eu sou um dos fundadores do Overloader,

[00:08:12] que é um site de games, a gente foge um pouquinho do padrão

[00:08:15] de sites de games, eu acho

[00:08:18] inicialmente pelo fato de a gente ser

[00:08:21] bastante inclusivo, eu sou um homem gay,

[00:08:24] eu sempre tento tratar de assuntos, questões LGBT,

[00:08:27] trazer essa questão

[00:08:30] de desigualdade de gênero também no meio de games,

[00:08:33] eu já fazia isso há bastante tempo no IG, faz uns 10 anos que eu atuo bastante

[00:08:36] nessa área, sempre olhando também para esses campos,

[00:08:39] e a gente tem a nossa produção

[00:08:42] também de conteúdo, de vídeo e tal, a gente

[00:08:45] sempre se focou bastante em podcast, mas eu sempre

[00:08:48] acho que o Overloader sempre

[00:08:51] me deu esse aval para

[00:08:54] produzir conteúdo questionando

[00:08:57] bastante, falando sim que jogos são políticos,

[00:09:00] me envolvendo em questões que

[00:09:03] normalmente são tratadas meio que como o tabu nesse meio,

[00:09:06] especialmente porque o jornalismo de games costuma ser muito comercial,

[00:09:09] e como a gente é independente, a gente é

[00:09:12] financiado por uma comunidade,

[00:09:15] essa comunidade permite que a gente aborde

[00:09:18] videogames dessa maneira, obviamente também a gente se diverte, a gente

[00:09:21] joga videogames, a gente produz conteúdo rotineiro

[00:09:24] sem entrar em questões mais

[00:09:27] complicadas, mas a gente tem essa

[00:09:30] libertação, digamos assim, a gente tem essa liberdade, que é uma coisa maravilhosa,

[00:09:33] mas ainda sim é curioso,

[00:09:36] que é um meio que é

[00:09:39] tão tóxico normalmente, que embora a gente esteja

[00:09:42] nesse campo mais seguro, a gente tem uma comunidade

[00:09:45] bastante inclusiva, ainda

[00:09:48] existe uma maioria masculina,

[00:09:51] eu acho que isso também é reflexo do fato

[00:09:54] do site ser feito por 3 homens,

[00:09:57] sabendo, independente de eu ser gay ou não, ainda são 3 homens,

[00:10:00] tem essa questão de representatividade, falta figuras femininas ali

[00:10:03] para atrair, eu acho que é um público feminino maior, mas

[00:10:06] eu acho que isso reflete no público, mas

[00:10:09] é curioso, como eu sempre, quando eu estou no

[00:10:12] meio de games, se eu estou num podcast de games,

[00:10:15] enfim,

[00:10:18] nesse segmento, eu sempre me autocensuro

[00:10:21] um pouco, justamente porque eu tenho medo de

[00:10:24] repercussões e tudo mais, e aqui no

[00:10:27] podcast eu acho que me sinto talvez um pouco mais, até mais seguro,

[00:10:30] para falar de uma forma mais aberta,

[00:10:33] porque eu sei que o público é mais diversificado, isso faz toda a diferença

[00:10:36] de como a mensagem é recebida.

[00:10:39] Acho que feitas essas apresentações eu queria falar um pouquinho

[00:10:42] sobre, fazer um resumo desse caso, para a gente

[00:10:45] contextualizar e poder debater aqui,

[00:10:48] na última sexta-feira, no dia 21,

[00:10:51] a Gabi Catuzo,

[00:10:55] que é uma influenciadora digital,

[00:10:58] ela é uma streamer, ela

[00:11:01] joga videogame e transmite ali

[00:11:04] em diferentes canais, eu acho que no Twitch.

[00:11:07] Recentemente ela estava fazendo no YouTube Gaming, porque ela

[00:11:10] fechou um contrato há pouco tempo para fomentar

[00:11:13] o Facebook Gaming como

[00:11:16] plataforma de live, mas ela começou

[00:11:19] na Twitch. Entendi.

[00:11:22] Ela fazia isso já há bastante tempo,

[00:11:25] e recentemente ela postou no Twitter uma foto

[00:11:28] no qual ela estava montada num touro mecânico,

[00:11:31] acompanhada de uma frase, eu estou montada no chat,

[00:11:34] bem humorada, fazendo uma piadinha,

[00:11:37] eu acredito que ela já tinha essa coisa

[00:11:40] mais bem humorada, acho que era o tipo

[00:11:43] dela de lidar com o público dela.

[00:11:46] Imediatamente, assim que ela postou essa foto, ela começou a receber

[00:11:49] mensagens de homens, dizendo,

[00:11:52] sexualizando ela, falando tipo, montem em mim,

[00:11:55] coisas desse tipo, coisas que são, acho que acredito que sejam muito, muito, muito

[00:11:58] ofensivas para uma mulher,

[00:12:01] até porque, acredito, ela já deve ter tido todo um histórico

[00:12:04] de assédio, de ofensas e

[00:12:07] de objetificação e tudo mais.

[00:12:10] Ela claramente já lidava com isso há muito tempo,

[00:12:13] mas enfim, não foram uma, nem duas, nem três,

[00:12:16] foram muitas mensagens com esse teor

[00:12:19] bastante machista e teor sexual,

[00:12:22] tornando a situação ali bem complicada para ela,

[00:12:25] e ela obviamente reagiu a isso,

[00:12:28] ela respondeu,

[00:12:31] e acho que talvez o ponto ali

[00:12:34] dessa resposta dela que pegou mal para muita gente,

[00:12:37] muita gente com o olho meio torto,

[00:12:40] ela falou que homem é lixo, basicamente,

[00:12:43] e algumas pessoas já começaram,

[00:12:46] calma, mas nem todos os homens, que é uma resposta bem tradicional,

[00:12:49] não precisa generalizar,

[00:12:52] e daí ela até explicou, ela até se aprofundou um pouquinho,

[00:12:55] vocês acham que vale pegar

[00:12:58] a resposta dela até para a gente poder

[00:13:01] opinar em cima e tentar

[00:13:04] até desconstruir um pouco disso?

[00:13:07] Acho que vale.

[00:13:13] Mas basicamente o que ela falou foi,

[00:13:16] sempre vai ter um macho fodido para falar merda e sexualizar mulher

[00:13:19] até quando a mulher está fazendo uma piada,

[00:13:22] por isso que homem é lixo, que começou a gerar repercussão.

[00:13:25] Daí apareceu uma pessoa que falou,

[00:13:28] não precisa generalizar e tal, e ela falou, precisa sim,

[00:13:31] quando a gente fala desse tipo de coisa,

[00:13:34] não precisa generalizar, não é todo mundo, etc.

[00:13:37] E na primeira oportunidade fica sendo escroto com mina.

[00:13:40] Homem que não é merda é exceção, não a maioria,

[00:13:43] tem que generalizar mesmo para ver se esses filhos da puta acorda.

[00:13:46] Ela foi bastante agressiva, mas acho que isso também

[00:13:49] condiz com a situação de assédio que ela vive,

[00:13:52] e ao mesmo tempo,

[00:13:55] o que dá para entender

[00:13:58] o que ela está falando,

[00:14:01] acho que é reflexo da situação que ela está vivendo,

[00:14:04] ela posta uma foto e a maioria dos comentários

[00:14:07] vão ser sexualizando ela, vão ser objetificando ela,

[00:14:10] então isso é uma perspectiva dela, obviamente,

[00:14:13] mas acho que dá para entender

[00:14:16] se você se coloca na posição dela, vocês concordam com isso?

[00:14:19] Eu acho sim, eu sou bastante pragmática

[00:14:22] quando eu vou avaliar esse tipo de coisa,

[00:14:25] o comentário dela, o desabafo dela naquela situação específica,

[00:14:28] eu acho, porque a maioria está aqui me sexualizando,

[00:14:31] o efeito prático isso tem nos homens,

[00:14:34] que estão ali,

[00:14:37] eles podem ficar meio chateados, rolar timeline e vida que segue.

[00:14:40] A reação que foi montada em cima disso teve efeitos práticos

[00:14:43] muito bizarros para cima dela, ela perdeu o patrocínio,

[00:14:46] ela foi pressionada, a empresa foi pressionada a isso,

[00:14:49] e se comportou de uma maneira muito reprovável,

[00:14:52] a gente já chega aí, e ela foi ameaçada de morte,

[00:14:55] ela tweetou em algum momento que a família dela foi envolvida na questão,

[00:14:58] então a gente tem uma desproporção bem clara

[00:15:01] que já mostra o desequilíbrio de poder aí,

[00:15:04] e, gente, ela estava no Twitter,

[00:15:07] tem uma questão da linguagem da ferramenta,

[00:15:10] eu já vi gente tendo uma experiência horrível no hospital,

[00:15:13] chegar falando médico é lixo no Twitter,

[00:15:16] é uma linguagem da generalização que vem do desabafo,

[00:15:19] vem da plataforma, mas acho que a gente tem que levar em conta

[00:15:22] que a gente vive uma economia de atenção, o que aconteceu?

[00:15:25] Um youtuber pegou o comentário dela,

[00:15:28] é um cara que já é conhecido no mercado,

[00:15:31] porque fica pinçando esse tipo de conteúdo para fazer vídeo polêmico,

[00:15:34] para gerar buzz, sabendo que isso ia gerar um buzz,

[00:15:37] porque aí tem uma questão da comunidade gamers de já não gostar de feminista aí também,

[00:15:40] de mulher, de maneira geral, de feminista menos,

[00:15:43] e aí eles sabem que isso vai gerar uma reação,

[00:15:46] gente, tem gente que cresceu só fazendo isso, tá?

[00:15:50] Tem uma galera que cresceu só fazendo isso,

[00:15:53] então é um nicho, tem uma questão de mercado,

[00:15:56] e aí essa questão de economia de atenção jogou isso para o alto,

[00:15:59] trouxe a reação e quando você olha a reação em torno,

[00:16:02] o que acontece com os homens que foram xingados de lixo,

[00:16:05] como o comentário dela impactou sobre eles,

[00:16:08] e como o comentário deles impactou sobre ela, você já vê.

[00:16:11] É completamente desproporcional.

[00:16:14] Exatamente, então por isso que eu falo, vamos analisar do ponto de vista pragmático,

[00:16:17] o que aconteceu com os homens, o que aconteceu com ela?

[00:16:20] Que foi o lance, esse cara meio que dedurou também, não sei se foi ele especificamente,

[00:16:23] mas alguém dedurou para a Razer, né?

[00:16:26] Razer foi, ele citou a Razer.

[00:16:29] Citou a Razer nessa resposta dela,

[00:16:32] e no momento em que a coisa já tinha ali uma proporção gigantesca,

[00:16:39] e que eu acho que a Razer já começou também olhar para isso e falar,

[00:16:42] a gente talvez precisa se posicionar, porque é o nosso público,

[00:16:45] ou pelo menos as pessoas que possivelmente acompanham nosso trabalho,

[00:16:48] que compram nossos produtos, eles estão pedindo um certo posicionamento,

[00:16:52] e eles foram lá e se posicionaram, acho que já no meio da merda toda,

[00:16:56] enquanto já estava acontecendo todo o turbilhão de merda.

[00:17:00] Deixa eu fazer só um comentário sobre…

[00:17:03] Eu discordo em achar que o comentário dela foi agressivo,

[00:17:06] muito pelo contrário para mim.

[00:17:09] Trabalhando na internet contando tempo, a gente recebe muito,

[00:17:12] muita merda e muita violência e muita agressividade.

[00:17:15] E ela, como a Bia falou, ela fez um desabafo, sabe?

[00:17:18] E as pessoas, e mesmo quando ela foi explicar o desabafo,

[00:17:22] eu achei absolutamente didático, sabe?

[00:17:25] Tipo, beleza, ela falou, esses filhos da puta que você nem conta, sabe?

[00:17:29] Mas gente, quando me falaram, quando eu comecei a entender,

[00:17:33] tipo, está rolando esta treta, e eu fui ver, eu estava esperando

[00:17:37] que ela tivesse tipo, sei lá, sabe?

[00:17:40] Eu nem consigo imaginar.

[00:17:41] Feito um vídeo transtornado, quebrando cores,

[00:17:44] falando, não, vou bater no homem.

[00:17:46] Isso, só que tipo, a gente tem essa expectativa

[00:17:49] de que a mulher precisa sempre ser calma,

[00:17:52] ela precisa sempre ser didática, sabe?

[00:17:55] Então quando ela fala, homem é tudo lixo, e aí as pessoas cobram ela,

[00:17:59] as pessoas esperam que ela precise abrir uma tese de mestrado

[00:18:03] e explicar para todos os problemas sociais, etc,

[00:18:07] que levaram ela a chegar a essa conclusão de que homem é lixo, sabe?

[00:18:11] E não, sabe? Do mesmo…

[00:18:14] Eu acho muito louco essa necessidade de classificar…

[00:18:17] Eu não estou falando que você está fazendo isso, tá?

[00:18:18] Eu estou só dizendo que é uma necessidade geral, assim,

[00:18:21] de classificar uma resposta direta com palavrão de uma mulher

[00:18:26] como algo agressivo, sabe?

[00:18:29] E não é saber, é só uma reação.

[00:18:32] Por que a gente espera dessa mina que está sendo assediada,

[00:18:35] que está sendo xingada, etc, o tempo inteiro,

[00:18:37] que ela tenha a paciência que esses caras não têm

[00:18:40] de pensar sobre o que é essa generalização e por que ela existe.

[00:18:45] Sabe, eu acho que só desse ponto aí para frente já,

[00:18:48] tipo, quando as pessoas começaram a falar,

[00:18:49] ah, ela errou, eu tenho visto muitos influencers grandes falando,

[00:18:53] ah, ela se acedeu, ah, ela errou.

[00:18:56] Não, desculpa, ela não errou, sabe?

[00:18:59] Essa generalização masculina, ela existe por uma razão.

[00:19:03] E é uma razão que esse próprio movimento,

[00:19:05] eu acho muito engraçado porque ela explica

[00:19:08] o porquê da generalização e acontece exatamente a mesma coisa, sabe?

[00:19:12] Então, do meu ponto de vista, ela não fez nada de errado,

[00:19:17] ela só desabafou do mesmo jeito que qualquer pessoa desabafa.

[00:19:21] Sim, eu posso só pegar também uns tweets bem legais

[00:19:25] de uma influencer que eu achei, justamente tocando nesse assunto da generalização

[00:19:31] e explicando porquê isso não é anormal,

[00:19:35] porquê isso não é necessariamente incorreto, né?

[00:19:39] A Maristella Rosa, do canal Papo de Preta,

[00:19:43] ela respondeu no próprio tweet da Razer sobre o posicionamento dela,

[00:19:51] a gente já fala mais sobre isso, mas a Razer se posicionou,

[00:19:54] escreveu um texto bastante estranho

[00:19:57] e muitas pessoas começaram a reagir a isso

[00:20:04] e muitas foram bem pacientes em explicar quais eram os problemas desse posicionamento

[00:20:10] e também explicar essa questão do homem é lixo, da generalização,

[00:20:17] o que há por trás dessa generalização

[00:20:20] e por que os homens não deveriam ficar tão incomodados

[00:20:24] e ficar tentando se justificar, mas nem todo homem, etc.

[00:20:27] Ela fala, quando homens, quando o Danilo Gentile

[00:20:30] fazem piadas com estupro, gordofobia, racismo e machismo,

[00:20:33] aí é zoeira, é liberdade de expressão,

[00:20:35] mas quando uma mulher faz um tweet e os caras se sentem ofendidos,

[00:20:38] aí a resposta contra ela vem bem rápida,

[00:20:41] que foi a primeira tweet dela a essa resposta da Razer.

[00:20:44] Daí uma pessoa questionou, na real ela fez uma piada,

[00:20:47] um fulano aí respondeu ela com outra piada

[00:20:51] e ela ficou putada, se rexingou todo mundo, todos os homens existentes na Terra.

[00:20:55] Tem que generalizar sim palavras dela,

[00:20:57] fora que toda a generalização é burrice.

[00:21:00] Isso foi a resposta desse rapaz que estava tentando contestar

[00:21:03] e daí ela começa a explicar.

[00:21:05] Ela tuita, toda a generalização é burrice, entre aspas.

[00:21:10] Não é verdade, essa frase é um senso comum

[00:21:12] e apenas idiotas e pessoas que a repetem

[00:21:15] como se fossem a coisa mais inteligente do mundo.

[00:21:19] Quando estamos falando de papéis sociais,

[00:21:21] precisamos sim fazer generalizações.

[00:21:23] Não dá para pesquisar cada homem do Brasil,

[00:21:26] mas dá para ver estatísticas e compreender que o ser homem,

[00:21:30] de uma maneira geral, permite ao indivíduo ser inconveniente

[00:21:34] e até agressivo com mulheres,

[00:21:36] já que vivemos em uma sociedade que tolera

[00:21:38] e até incentiva alguns desses comportamentos.

[00:21:40] Quando se diz que homem é lixo,

[00:21:42] está se referindo à construção de masculinidade machista,

[00:21:46] que temos.

[00:21:51] E que ensina o homem que está certo tratar mulheres como objeto.

[00:21:54] E a esmagadora maioria dos homens crescem com esse referencial,

[00:21:57] pois estão inseridos dentro desse contexto social.

[00:22:00] Ou seja, ela está explicando aqui esse conceito

[00:22:04] de estrutura social mesmo.

[00:22:06] A gente não está falando quando a gente fala

[00:22:08] homem é lixo, ou homem é machista, ou homem não sei o quê.

[00:22:11] A gente não está necessariamente se referindo a todos eles,

[00:22:15] dizendo que 100% de todos vocês são um lixo.

[00:22:19] A gente está falando dessa estrutura social do homem enquanto…

[00:22:26] Enquanto o ser social mesmo.

[00:22:27] Enquanto o ser social, acima da pirâmide social de poder.

[00:22:32] A gente está falando de patriarcado,

[00:22:34] dessas construções sociais e não necessariamente do indivíduo.

[00:22:39] Então a pessoa não precisa necessariamente entrar na defensiva

[00:22:42] para falar, calma, eu não sou lixo, eu não sou machista,

[00:22:46] eu não objetifico as mulheres.

[00:22:48] Ela está falando de uma coisa muito mais abstrata.

[00:22:52] Vocês conseguem comentar mais sobre isso também?

[00:22:55] Eu acho incrível ela falar de generalização,

[00:22:57] porque falando como comunicóloga,

[00:22:59] como a gente se comunica sem generalização?

[00:23:01] Totalmente.

[00:23:02] É uma categoria discursiva que precisa existir, certo?

[00:23:05] É um recurso linguístico normal,

[00:23:07] uma conversa entre dois seres humanos.

[00:23:09] Exato.

[00:23:10] E aí eu acho muito, falando até da agressividade,

[00:23:12] pegando um pouco da fala da Rebecca,

[00:23:16] ela falou numa linguagem que é a linguagem

[00:23:18] que ela se comunica com o público dela sempre.

[00:23:20] Eu assisti trechos de lives dela depois

[00:23:23] e eu vi como ela fala na timeline.

[00:23:25] Nem o palavrão estava fora de lugar,

[00:23:28] porque ela fala dessa forma.

[00:23:31] Mas aí perceba que quando o conteúdo ofende,

[00:23:36] vamos assim dizer, uma categoria que tem poder,

[00:23:39] os homens daquela plataforma têm poder,

[00:23:41] isso ficou bem demonstrado nas reações contra ela.

[00:23:45] Aí o senso comum vem rápido

[00:23:47] e aí você vai ter todas essas bobagens,

[00:23:49] tipo, toda a generalização é burra.

[00:23:52] Ela está se excedendo.

[00:23:54] Isso é uma coisa que me irrita muito

[00:23:55] quando rola esse tipo de briga na internet.

[00:23:58] Sempre quando se diz que uma mulher passa por uma coisa horrorosa

[00:24:02] e ela se excede com todos,

[00:24:04] não vou nem chamar de se exceder, ela extravasa com todo direito.

[00:24:09] O pessoal que vai apontar o dedo pra ela,

[00:24:10] mas vem com revestido de um paladino do bom senso, sabe?

[00:24:15] Eu vi um post, não é?

[00:24:17] Paladino do bom senso.

[00:24:19] Mas como você está agressiva,

[00:24:22] ontem eu entrei numa discussão,

[00:24:24] eu quebrei meu jejum de anos sem brigar na internet.

[00:24:27] Eu entrei numa discussão com um cara

[00:24:29] que ele estava tentando jogar essa pra cima de mim o tempo todo,

[00:24:32] tipo, mas ela não poderia ter falado daquela forma.

[00:24:35] E eu pensei, onde está isso?

[00:24:36] No código de moral do Twitter, na etiqueta.

[00:24:40] Não tem porquê, mas aí é isso.

[00:24:43] Você vai ver que esse bom senso, esse suposto bom senso,

[00:24:46] que na real é senso comum,

[00:24:48] ele vai ser instrumentalizado bem nessas horas

[00:24:52] pra bater no lado mais fraco, mas até então,

[00:24:54] gente, todo mundo, como eu falei, as pessoas vão no médico,

[00:24:56] ficam bravas e escrevem,

[00:24:57] médico é lixo no Twitter.

[00:24:59] As pessoas escrevem, sei lá,

[00:25:00] a fila do mercado é lixo no Twitter.

[00:25:02] É padrão também essa coisa de,

[00:25:04] ai, a mulher está exagerando,

[00:25:06] ela está descontrolada, ela está louca,

[00:25:08] ela está agressiva só pra atacar a mulher

[00:25:10] por ser mulher em seu discurso, né?

[00:25:12] É, e é isso, vai atacar a generalização,

[00:25:14] mas você vai ver logo em seguida vão vir várias, assim, sabe?

[00:25:17] E é curioso que estava muito bem contextualizado tudo,

[00:25:19] você podia olhar as respostas ofensivas e extremamente machistas ali

[00:25:24] que ela estava recebendo,

[00:25:26] ou seja, tipo, não estava nem fora de contexto,

[00:25:30] você tinha a contextualização ali, é compreensível.

[00:25:33] Todo mundo entendendo muito bem o que ela estava falando,

[00:25:35] o que estava acontecendo.

[00:25:36] A jogada de denunciar ela, como eu falei,

[00:25:38] foi uma jogada numa economia de atenção,

[00:25:40] free calculista, pra gerar buzz em volta

[00:25:43] e com pitadas de aí de um problema, né?

[00:25:46] Desculpa colocar, assim, de caráter mesmo,

[00:25:48] porque eu sinto que é uma desonestidade na hora que você faz esse tipo de exposição de recorte,

[00:25:54] porque ele é bastante convenemente,

[00:25:55] ainda mais numa mídia como Twitter, que todo mundo se comunica dessa forma.

[00:25:58] É, não só o Twitter como o YouTube também, né?

[00:26:00] Porque o mesmo cara que fez a denúncia no Twitter

[00:26:02] foi logo fazer um vídeo no YouTube falando também

[00:26:04] nossa, Razer acha que eles são lixos?

[00:26:06] Claro, foi a pauta dele.

[00:26:08] Tem um negócio aqui sobre essa generalização

[00:26:12] que é muito de cara pulsa

[00:26:14] e da questão de que, tipo, homem, principalmente homem branco hétero cis,

[00:26:20] ele está acostumado a ser o centro das atenções.

[00:26:23] Então, se alguma coisa não é sobre ele,

[00:26:27] ele não sabe lidar com isso.

[00:26:29] E por isso, quando as pessoas falam

[00:26:31] que homem é lixo, os caras ficam

[00:26:32] como assim eu sou um lixo?

[00:26:34] Porque eles não conseguem não vestir esse uniforme de eu sou o centro do mundo, sabe?

[00:26:41] Então, tipo, se alguém, tipo…

[00:26:43] Por exemplo, eu sou uma pessoa branca, sabe?

[00:26:45] Quando alguém fala…

[00:26:46] Eu não entendi.

[00:26:48] Oi?

[00:26:49] Nossa, isso que aconteceu?

[00:26:51] Foi o meu.

[00:26:53] Foi o meu.

[00:26:57] Será que foi o meu?

[00:26:58] Que coisa maravilhosa.

[00:26:59] Eu nunca vi isso acontecer.

[00:27:01] A mulher do Google está querendo participar.

[00:27:04] Foi a mulher do Google.

[00:27:06] Foi no seu celular?

[00:27:07] Foi.

[00:27:08] Será que a captação do microfone pegou isso?

[00:27:11] Eu acho que pegou.

[00:27:13] Eu sou uma mulher branca. Não entendi.

[00:27:16] Como assim?

[00:27:18] Eu preciso descobrir como desativar isso, gente.

[00:27:20] Desculpa.

[00:27:21] É porque alguém falou Google e ele deve ter ativado.

[00:27:23] Ah.

[00:27:24] Será que… Mas você não falou Google agora, né?

[00:27:27] Ela está até agora tentando buscar alguma coisa.

[00:27:30] Então, esse danadinho vai ficar em modo avião.

[00:27:32] Até a gente terminar.

[00:27:38] Eu acho…

[00:27:39] Gente, foi uma interferência simbólica para você.

[00:27:43] Da ignorância deliberada.

[00:27:46] Das pessoas brancas.

[00:27:48] Numa epistemologia opressiva e racista.

[00:27:52] Que maravilhoso.

[00:27:54] Então, agora a gente segue.

[00:27:55] Desculpa, gente.

[00:27:56] Está…

[00:27:57] Menino mal.

[00:27:59] Mas assim.

[00:28:00] Essa questão da generalização é aquela coisa.

[00:28:02] Eu sou uma pessoa branca.

[00:28:03] De novo.

[00:28:05] Mas quando falam que branco é um problema.

[00:28:08] Ou que branco é tudo lixo.

[00:28:10] Eu não vou ficar ofendida.

[00:28:12] Porque eu sei quem eu sou.

[00:28:15] Que isso não é necessariamente sobre mim.

[00:28:18] E homem tem essa coisa de precisar ser sempre o centro da atenção.

[00:28:23] E de tudo é sobre ele.

[00:28:25] E eu acho que isso é um dos processos.

[00:28:27] Que provavelmente é um dos processos mais difíceis para um cara.

[00:28:31] Nessa coisa de tentar ser uma pessoa menos ignorante.

[00:28:35] E menos preconceituosa.

[00:28:37] Que é uma das coisas mais…

[00:28:39] Um dos primeiros passos mais difíceis de você ter.

[00:28:41] Você entender que quando uma mulher fala.

[00:28:43] Homem é tudo lixo.

[00:28:45] Se você não é um cara lixo.

[00:28:47] Não é sobre você.

[00:28:49] Você nem precisa reagir.

[00:28:50] E assim não vai acontecer nada.

[00:28:52] Você não precisa aparecer e falar.

[00:28:54] Isso mesmo. Homem é tudo lixo.

[00:28:56] Você não precisa nem fazer isso.

[00:28:58] Você só precisa ficar tipo.

[00:29:00] Não é sobre eu. Não é sobre mim.

[00:29:02] Então ok, beleza. A vida que segue.

[00:29:04] Se uma mulher falar para você que você é lixo.

[00:29:06] Não vai acontecer nada.

[00:29:08] Você vai para a tua casa.

[00:29:10] Você vai dormir.

[00:29:12] Vai acordar no dia seguinte.

[00:29:14] E vai continuar sendo lixo.

[00:29:16] Tudo vai estar igual.

[00:29:18] Não há problema.

[00:29:20] Eu acho muito importante de entender.

[00:29:22] Que é essa questão da estrutura social.

[00:29:24] O homem…

[00:29:26] Dentro de um sistema patriarcal.

[00:29:28] O homem detém o poder.

[00:29:30] A figura masculina.

[00:29:32] Ele está acima da mulher.

[00:29:34] O homem branco está acima do homem negro.

[00:29:36] Em termos de poder.

[00:29:38] De oportunidades.

[00:29:42] De uma série de fatores.

[00:29:44] Dentro de uma sociedade.

[00:29:46] Eu acho que quando

[00:29:48] Existe algum tipo de crítica

[00:29:50] Que envolve essa questão

[00:29:52] De poder.

[00:29:54] Muitas vezes ela é colocada

[00:29:56] Para baixo do tapete. As pessoas não percebem

[00:29:58] Que isso está presente

[00:30:00] Na equação.

[00:30:02] E justamente

[00:30:04] Puxam para si. Puxam para o indivíduo.

[00:30:06] E não para o homem enquanto

[00:30:08] Essa estrutura de poder.

[00:30:10] E daí destoa.

[00:30:12] Completamente. Foge do foco.

[00:30:14] Eu acho que essa coisa de perceber

[00:30:16] O homem e a figura do homem

[00:30:18] Como essa coisa social

[00:30:20] Também é parte do processo

[00:30:22] Que a Rebecca estava falando mesmo.

[00:30:24] De entender-se como não centro do universo.

[00:30:26] É difícil para o homem

[00:30:28] Entender que ele está num contexto

[00:30:30] Em que ele tem um poder.

[00:30:32] E que esse poder afeta

[00:30:34] As pessoas que estão abaixo dele

[00:30:36] De maneira negativa.

[00:30:38] E a partir disso entender o contexto

[00:30:40] Que diz. O homem é um lixo.

[00:30:42] Porque ele faz mal aos que estão abaixo.

[00:30:44] E tipo. Beleza.

[00:30:46] Se você é um cara.

[00:30:48] Etrocís.

[00:30:50] Branco etc. Ou só é um cara.

[00:30:52] E você está se sentindo mal.

[00:30:54] Porque as pessoas estão falando que o homem é lixo.

[00:30:56] Então talvez você

[00:30:58] Precise procurar um auxílio.

[00:31:00] Vai conversar com um psicólogo.

[00:31:02] Converse com seus amigos etc.

[00:31:04] Porque uma das coisas que eu mais vejo é que o homem não conversa com o homem.

[00:31:06] Sobre essas coisas. Sobre sentimentos.

[00:31:08] E meu Deus. O mundo seria um lugar muito melhor.

[00:31:10] Se o homem aprendesse a falar sobre seus sentimentos com os amigos.

[00:31:14] E falar mesmo. De verdade.

[00:31:16] Então eu acho realmente que

[00:31:18] Beleza. Se você viu esse negócio.

[00:31:20] Você viu esse tweet. Você falou

[00:31:22] Mancada. Eu não sou um lixo.

[00:31:24] Aí o próximo passo é pensar

[00:31:26] Eu não sou um lixo. Mas porque

[00:31:28] Ela acha que todos os homens são um lixo.

[00:31:30] E será que os homens

[00:31:32] Seriam menos lixo se você

[00:31:34] Que é um homem cis,

[00:31:36] Branco etc. Que você está lá no topo

[00:31:38] Da cadeia social.

[00:31:40] Que detém esse poder. Embora seja

[00:31:42] Uma coisa bastante inconsciente.

[00:31:44] Não é um negócio físico que está na sua frente.

[00:31:46] Não é um negócio palpável. Mas você tem

[00:31:48] Todas as oportunidades

[00:31:50] E os benefícios

[00:31:52] Sociais dessa sociedade.

[00:31:56] Acho que a atitude mais

[00:31:58] Lógica até.

[00:32:00] Se você discorda dessa afirmação.

[00:32:02] É reagir quando

[00:32:04] Você vê um homem destratando uma mina.

[00:32:06] Destratando uma travesti.

[00:32:08] Uma minoria.

[00:32:10] E falar que não faz isso.

[00:32:12] Isso é muito zoado que você está fazendo.

[00:32:14] Você está objetificando.

[00:32:16] Você está reduzindo uma pessoa.

[00:32:18] A menina às vezes está lá fazendo

[00:32:20] A transmissão. Ela está se divertindo.

[00:32:22] Ela está expondo a opinião dela e tudo mais.

[00:32:24] E você está reduzindo ela à buceta rosa.

[00:32:26] Que é o que a

[00:32:28] Gabi sempre fala.

[00:32:30] Isso era uma das coisas mais comuns

[00:32:32] Nas transmissões dela.

[00:32:34] Essa pura objetificação e sexualização.

[00:32:38] Isso é extremamente ofensivo.

[00:32:40] Você está reduzindo a pessoa

[00:32:42] A um órgão sexual.

[00:32:44] Você está ignorando todas as outras qualidades dela.

[00:32:46] Todos os outros

[00:32:48] Elementos que tornam ela humana.

[00:32:50] E isso

[00:32:52] É horrível.

[00:32:54] E se você é um homem e você percebe

[00:32:56] Esse tipo de atitude.

[00:32:58] Acho que quando você

[00:33:00] Conversa com essa pessoa que está agindo dessa maneira.

[00:33:02] Você não precisa nem ser escroto.

[00:33:04] Você pode só dar um toque.

[00:33:06] Você já está contribuindo para que

[00:33:08] O homem seja menos lixo.

[00:33:10] De certa forma.

[00:33:12] Você já está contribuindo para que

[00:33:14] possa haver uma conscientização maior.

[00:33:16] E possa haver um equilíbrio melhor.

[00:33:18] Para que

[00:33:20] Uma pessoa não precisa

[00:33:22] Chegar ao ponto de dizer que homem é lixo

[00:33:24] Para se defender.

[00:33:28] Se as pessoas tivessem mais consciência.

[00:33:30] Se esse meio fosse menos tóxico.

[00:33:32] Ela certamente não estaria passando por uma situação dessa.

[00:33:34] Ela não teria que reagir dessa maneira.

[00:33:36] Ela não teria que explodir

[00:33:38] Dessa maneira como as pessoas colocaram.

[00:33:40] Eu achei muito curioso porque quando

[00:33:42] Inicialmente a primeira vez que eu

[00:33:44] Entrei em contato com essa história e tal.

[00:33:46] Eu vi os tweets dela.

[00:33:48] E eu vi também outras situações em que

[00:33:50] Ela também

[00:33:52] Reagiu a ofensas.

[00:33:54] E a

[00:33:56] Objetificação e tudo mais.

[00:33:58] Eu fiquei tipo

[00:34:00] Mas ela

[00:34:02] Foi meio agressiva.

[00:34:04] Ela

[00:34:06] Respondeu meio que usando a mesma arma.

[00:34:08] Foi igualmente agressiva.

[00:34:10] Às vezes ela foi mais agressiva.

[00:34:12] Pelo menos daquele ponto específico.

[00:34:14] E eu até comentei.

[00:34:16] Respondendo a uma pessoa.

[00:34:18] Eu acho que ela foi um deslize.

[00:34:20] Mas depois eu vi alguns comentários.

[00:34:22] Eu vi o comentário da Maristella.

[00:34:24] Que é o nome dessa influência.

[00:34:26] Do canal

[00:34:28] Papo de Preta.

[00:34:30] Eu assisti a um vídeo muito bom.

[00:34:32] Do canal Tese Onze.

[00:34:34] Da Sabrina. Vocês sabem o nome dela?

[00:34:36] Sabrina Fernandes.

[00:34:38] Intitulada nem todo homem é machista.

[00:34:40] Justamente sobre essa questão da

[00:34:42] Generalização.

[00:34:44] É um vídeo bastante didático, bastante extenso.

[00:34:46] Sobre toda essa questão de

[00:34:48] Não precisa responder.

[00:34:50] Generalização é uma coisa

[00:34:52] A gente precisa dessas

[00:34:54] Generalizações para falar

[00:34:56] Em termos sociais.

[00:34:58] A sociologia os utiliza.

[00:35:00] Se você pega qualquer livro de história.

[00:35:02] Você vai ver as generalizações.

[00:35:04] Eu comecei a entender melhor.

[00:35:06] E fui lá e reli.

[00:35:08] E falei que ela não está errada.

[00:35:10] Ela está se defendendo.

[00:35:12] E essa generalização é uma maneira

[00:35:14] De ela expor o que está acontecendo.

[00:35:16] Dentro da perspectiva dela.

[00:35:18] De uma mulher streamer.

[00:35:20] Que é diariamente assediada.

[00:35:22] Eu acho que isso é um dos pontos

[00:35:24] Interessantes dessa discussão.

[00:35:26] Essa questão da generalização.

[00:35:28] Que é o que

[00:35:30] Gerou um desconforto muito grande

[00:35:32] Nos homens que acompanham.

[00:35:34] E é um meio

[00:35:36] Masculino.

[00:35:38] E é engraçado

[00:35:40] Que mesmo que

[00:35:42] A gente chegasse numa conclusão

[00:35:44] Que ela foi agressiva.

[00:35:46] Ela estava errada.

[00:35:48] Por que não estão falando com as pessoas

[00:35:50] Para falar coisas absurdas para ela na foto.

[00:35:52] Da mesma forma que estão falando

[00:35:54] Com ela sobre as

[00:35:56] Coisas agressivas.

[00:35:58] Que ela falou.

[00:36:00] Não há uma justiça nem nisso.

[00:36:02] Ela não foi agressiva.

[00:36:04] Eu concordo muito com a Rebecca no que ela falou.

[00:36:06] De que ela não se cedeu ali.

[00:36:08] Ela estava simplesmente reagindo

[00:36:10] A uma coisa absurda que cansa pra caralho.

[00:36:12] Mas por que não falam com as pessoas

[00:36:14] Que realmente foram agressivas para ela.

[00:36:16] Que é buceta rosa e puta.

[00:36:18] Essa fada é um negócio

[00:36:20] Muito chato de ficar ouvindo.

[00:36:22] Por que com essas pessoas não há

[00:36:24] Essa cobrança de

[00:36:26] Ai nossa

[00:36:28] Você está se cedendo também.

[00:36:30] Por que você está falando com ela assim?

[00:36:32] Letícia, você que trabalha bastante

[00:36:34] Com streaming.

[00:36:36] Você faz transmissões ao vivo.

[00:36:38] Você tem vídeos, tem o seu canal.

[00:36:40] Você trabalha bastante nesse meio de games.

[00:36:42] Como que você

[00:36:44] Acaba-se no avô

[00:36:46] Desse tipo de reação?

[00:36:48] Ou a sua comunidade

[00:36:50] Como você fala com seu público

[00:36:52] Permite que você

[00:36:54] Se escude um pouco?

[00:36:56] A minha comunidade

[00:36:58] O pessoal que eu vejo que está sempre ali

[00:37:00] Que é o que eu considero comunidade

[00:37:02] Eles são bem tranquilos.

[00:37:04] Mas obviamente você está lá no Twitch

[00:37:06] Você está jogando um jogo

[00:37:08] Entra uma pessoa X

[00:37:10] E fala absurdos pra você.

[00:37:12] Geralmente a minha reação é

[00:37:14] Ou os moderadores

[00:37:16] Já banem a pessoa

[00:37:18] E eu ignoro como se nada estivesse acontecendo

[00:37:20] Justamente porque eu tenho medo às vezes de

[00:37:22] Eu ir lá e responder isso

[00:37:24] E receber uma reação parecida com a reação

[00:37:26] Que as pessoas têm a resposta da Gabi

[00:37:28] De falar assim, nossa, mas você não precisava

[00:37:30] Fazer isso.

[00:37:32] Aí eu vou arrumar mais dor de cabeça pra mim

[00:37:34] Do que se eu só simplesmente banisse a pessoa

[00:37:36] E falasse, vai apastar pelo amor de Deus.

[00:37:38] Então geralmente é isso.

[00:37:40] Tem uma questão de

[00:37:42] De preservação nesse meio

[00:37:44] Como eu sempre

[00:37:46] Tratei também desses temas

[00:37:48] E as vezes eu cutucava na ferida ali

[00:37:50] Eu já lidei muito com ódio

[00:37:52] No Twitter, em comentários

[00:37:54] Já recebi

[00:37:56] A ameaça de morte

[00:37:58] E chegou um momento que eu falei, cara, eu preciso me preservar um pouco

[00:38:00] Até por uma questão de sanidade mental

[00:38:02] Saúde mental

[00:38:06] Tem situações em que eu simplesmente

[00:38:08] Vou deixar passar, sabe?

[00:38:10] Eu não consigo nem me expor, nem comentar

[00:38:12] Só que ao mesmo tempo

[00:38:14] Você está se apagando, né?

[00:38:16] Você está se silenciando

[00:38:18] Você está deixando de participar

[00:38:20] Por conta do medo

[00:38:22] Por conta dessa opressão invisível na verdade

[00:38:24] Mas sabe que eu vejo isso como sim e não

[00:38:26] Uma coisa que eu aprendi assim um tempo

[00:38:28] Depois de um tempo na internet que eu tive assim

[00:38:30] Eu tive um pico que eu brigava sobre tudo

[00:38:32] Depois por conta dessa questão do desgaste

[00:38:34] Eu parei a não brigar mais

[00:38:36] A me retirar totalmente

[00:38:38] Agora eu consigo encontrar o meio termo que é

[00:38:40] Eu escolhi muitas brigas que eu vou entrar

[00:38:42] Eu tive um processo muito parecido

[00:38:44] É, eu penso assim, né? Antes de entrar numa briga

[00:38:46] Eu não sou contra o conflito

[00:38:48] Acho que ele é necessário, mas eu sempre penso assim

[00:38:50] Eu vou chegar a algum resultado satisfatório

[00:38:52] Então, se eu vejo que o cara de cara

[00:38:54] Aquele diálogo não vai me render nada

[00:38:56] Eu já prefiro me retirar

[00:38:58] Até por essa questão da economia de atenção que eu te falei

[00:39:00] Muita gente cava essas brigas

[00:39:02] Pra ganhar visibilidade

[00:39:04] O que mais rola é você de repente

[00:39:06] Eu acho que se você é um editor, bota uma opinião

[00:39:08] E aí aparece um perfil com dez seguidores

[00:39:10] Me xingando pra caramba, sabe?

[00:39:12] Eu tô longe de ser uma celebridade

[00:39:14] Mas assim, se eu que tenho um pouquinho mais de visibilidade

[00:39:16] Vou lá e respondo

[00:39:18] Essa pessoa, né?

[00:39:20] Ela vai descontestualizar, vai tirar um print

[00:39:22] Vai colocar num fórum de discussão de ódio

[00:39:24] E ela vai capitalizar a atenção em cima disso

[00:39:26] Então eu acho que também ser um pouquinho cuidadoso

[00:39:28] Não acho que isso se aplica no caso da Gabi

[00:39:30] Porque pelo que eu entendi ela tava dialogando

[00:39:32] Diretamente com a comunidade dela

[00:39:34] Eu também entendo

[00:39:36] Eu acho que também a gente pode

[00:39:38] Não se retirar totalmente

[00:39:40] Se a gente se retirar totalmente

[00:39:42] A gente deixa esse espaço ser ocupado

[00:39:44] De uma forma nociva

[00:39:46] Mas eu também acho que você conseguir entender

[00:39:48] Onde que o diálogo é possível, onde não é

[00:39:50] É um processo de amadurecimento que é meio

[00:39:52] Importante assim nas redes

[00:39:54] Eu acho que é um processo

[00:39:56] Que todo mundo que começa a falar

[00:39:58] Sobre essas coisas na internet fala

[00:40:00] Eu quando comecei a falar sobre isso lá em 2013

[00:40:02] Eu diria que de 2013

[00:40:04] Até começo de 2016

[00:40:06] Em 2015 eu era muito faca na bota

[00:40:08] Eu também era mais nova

[00:40:10] Então eu tinha muito mais energia pra isso

[00:40:12] De realmente esse desgacho

[00:40:14] E depois disso eu já comecei a ficar muito cansada

[00:40:16] Eu já comecei a perder

[00:40:18] Paciência

[00:40:20] Que antes eu não usava paciência

[00:40:22] Eu fazia os textos

[00:40:24] Bem cruz mesmo

[00:40:26] Bem mandando toda a real

[00:40:28] Sem me importar com o que eu tava escrevendo

[00:40:30] E aí você começa

[00:40:32] E batendo de frente com os comentaristas

[00:40:34] E comprando todas as brigas

[00:40:36] E aí você começa a cansar

[00:40:38] E você começa a ver que tipo

[00:40:40] Por mais que a gente tenha feito ali

[00:40:42] Um efeito dentro do meio

[00:40:44] Porque eu principalmente trabalhava

[00:40:46] No trabalho mais com meio de quadrinhos

[00:40:48] E cinema assim

[00:40:50] Por mais que tenha tido esse efeito

[00:40:52] Eu tava me desgastando de um jeito que

[00:40:54] Eu não conseguia fazer mais nada

[00:40:56] E não dá porque você tem uma vida que você precisa viver

[00:40:58] E aí eu parei por um tempo assim

[00:41:00] De fazer praticamente qualquer coisa

[00:41:02] Eu só mantinha o site aberto

[00:41:04] Eu tava lá, não sei o que

[00:41:06] E aí aos poucos eu fui voltando

[00:41:08] Exatamente porque eu queria

[00:41:10] Essa sensação de que você precisa

[00:41:12] Fazer alguma coisa, sabe? Ainda mais hoje em dia

[00:41:14] Mas é bem isso, sabe?

[00:41:16] Você tem que escolher quais são as brigas

[00:41:18] Que você vai pegar

[00:41:20] E eu tenho muito essa sensação de hoje

[00:41:22] Com o cenário que a gente tá hoje

[00:41:24] O cenário político e como isso influencia

[00:41:26] Dentro das nossas áreas

[00:41:28] Da área nerd, gamer e etc

[00:41:30] A gente precisa saber

[00:41:32] O que é uma plataforma

[00:41:34] E como ela funciona, sabe?

[00:41:36] Então tipo

[00:41:38] Dentro do universo de quadrinhos

[00:41:40] Você tem um site que tem

[00:41:42] Um canal de youtuber que tem

[00:41:44] 100 mil inscritos, 200 mil inscritos

[00:41:46] É muito, porque é muito difícil

[00:41:48] Você ter um canal que é focado só pra quadrinhos

[00:41:50] Que tenha tudo isso, sabe?

[00:41:52] Mas querendo ou não também, eu por exemplo

[00:41:54] Entrei numa treta umas semanas atrás

[00:41:56] Com um canal de youtuber que tem

[00:41:58] 200 mil inscritos

[00:42:00] Eles até botaram a minha carinha lá no vídeo, etc

[00:42:02] Foi, tá sendo incrível

[00:42:04] Inclusive o segundo vídeo vai sair hoje

[00:42:06] Explicando em que eu tô tentando ser

[00:42:08] Extremamente didática

[00:42:10] E brigaram comigo

[00:42:12] Por causa do meu texto sobre Cyberpunk 2077

[00:42:18] Eu tô sendo extremamente didática no vídeo

[00:42:20] E é um vídeo que eu dividi em duas partes

[00:42:22] Porque são coisas muito importantes

[00:42:24] Que eles estão falando merda

[00:42:26] E que eu tô sendo didática

[00:42:28] Eu sabia aquela coisa, eu não tô na esperança

[00:42:30] De que as pessoas desse canal

[00:42:32] Vão assistir o vídeo, vão botar a mão

[00:42:34] E vão pensar, ah não, é verdade, né

[00:42:36] Eu realmente me assedi, etc

[00:42:38] Não!

[00:42:40] Porque eu nem tô querendo dizer

[00:42:42] Que eu tô certa e eles estão errados, sabe?

[00:42:44] Apesar de que é óbvio que eles estão errados

[00:42:46] Mas assim

[00:42:48] A gente produz esse conteúdo pra que as pessoas

[00:42:50] Que estão dentro desse universo, sabe?

[00:42:52] Além das pessoas que estão dentro

[00:42:54] De nossa comunidade, as pessoas que estão fora dessa comunidade

[00:42:56] Que estão rodeadas de ódio, etc

[00:42:58] Que só estão vendo isso

[00:43:00] Que elas entendam um pouco porque que

[00:43:02] Esse comportamento tá errado, sabe?

[00:43:04] E eu sei que é tipo uma visão extremamente bonitinha

[00:43:06] Fofa e pouco prática

[00:43:08] Mas é importante isso, sabe?

[00:43:10] E é importante que você foque

[00:43:12] Desculpa

[00:43:14] Qual é a sua energia

[00:43:16] Pro lugar certo, sabe?

[00:43:18] A gente pode se brigar com todo mundo na internet

[00:43:20] Comprar todas as brigas

[00:43:22] E morrer de noite, não conseguir dormir

[00:43:24] E não comer e só ficar pensando nisso, sabe?

[00:43:26] Mas

[00:43:28] A gente precisa bater de frente

[00:43:30] Sabe? A gente precisa conversar sobre isso

[00:43:32] Até porque pra que quando meninas

[00:43:34] Como a Gabi

[00:43:36] Que tenham tido esse tipo de reação

[00:43:38] Que é uma reação absolutamente compreensível

[00:43:40] Que as pessoas parem de olhar pra ela e falar

[00:43:42] Nossa, eu tô sendo agressiva, que não precisava disso tudo, sabe?

[00:43:44] Precisava sim, tipo, do meu ponto de vista

[00:43:46] Se não tivesse sido comigo ia ter sido muito pior

[00:43:48] E depois

[00:43:50] Da repercussão e tudo mais

[00:43:52] Enfim, a garota passou por um

[00:43:54] Linchamento virtual

[00:43:56] Os dados dela

[00:43:58] Começaram a ser vazados

[00:44:00] Eu acho que esses chances

[00:44:02] Forums

[00:44:04] As pessoas começaram a cavocar coisas dela

[00:44:06] Então ela passou

[00:44:08] Por um processo muito

[00:44:10] Traumático, né?

[00:44:12] E muito por conta disso ela também se afastou

[00:44:14] De redes sociais por enquanto

[00:44:16] Ela deixou ali uma carta de

[00:44:18] Meio que de desculpas

[00:44:20] Mas o que deu pra perceber

[00:44:22] É que ela se culpou muito

[00:44:24] Durante esse processo

[00:44:26] Ela pede desculpas

[00:44:28] É difícil também, né? Você não se culpar quando tem

[00:44:30] Tipo, sei lá, foi pros teteis mundiais

[00:44:32] Essa treta, é muito difícil você não se culpar

[00:44:34] Com tem centenas

[00:44:36] Milhares de pessoas falando pra ela que ela tá

[00:44:38] Errada, apesar de que ela não tá

[00:44:40] Mas ela também recebeu muito apoio

[00:44:42] Eu acho que carreira pra mulher

[00:44:44] É um negócio que pesa

[00:44:46] Muito, a gente se culpa muito

[00:44:48] Porque a gente tem a sensação de que a qualquer momento

[00:44:50] Tudo vai escapar porque é um mercado que

[00:44:52] Você tá muito frágil, então eu entendo, sabe?

[00:44:54] Do tipo…

[00:44:56] E é interessante que ela faz uma

[00:44:58] Autoreflexão dizendo que

[00:45:00] Ela acha que ela errou muitas vezes

[00:45:02] Também quando ela batia de frente

[00:45:04] Por isso que a gente falou

[00:45:06] De saber comprar as brigas certas, né?

[00:45:08] Ela falava que ela era bastante desbocada

[00:45:10] E respondia, às vezes tem até um vídeo

[00:45:12] Que também descontestualizaram um pouco

[00:45:14] Mas começaram a disseminar

[00:45:16] De que um cara, um rapaz

[00:45:18] Entra no stream de boa, assim

[00:45:20] Fala, qual que é o equipamento que você tá usando?

[00:45:22] E ela é super agressiva, ela fala, tipo

[00:45:24] Ela xinha o cara, não sei o que

[00:45:26] Provavelmente ela tava numa estação de estresse

[00:45:28] Porque já tinham enxido o saco dela demais

[00:45:30] Pegaram o vídeo dela de mais ou menos

[00:45:32] Um ano e meio atrás, quando ela fazia na Twitch

[00:45:34] Ainda, e quando você tá

[00:45:36] Streamando na Twitch e entra uma pessoa

[00:45:38] Que nunca entrou na sua live

[00:45:40] Ela aparece de um jeito diferentinho

[00:45:42] Então você sabe que aquela pessoa nunca entrou lá

[00:45:44] E nunca comentou lá, nunca falou nada

[00:45:46] Esse cara entrou, perguntou o equipamento

[00:45:48] Dela que ela tava usando e ela ficou brava

[00:45:50] Por ser uma pessoa que acabou de entrar

[00:45:52] Já querer saber

[00:45:54] O equipamento dela, ela falou de um jeito

[00:45:56] Bem agressivo assim, mas é uma coisa

[00:45:58] Que não tem nada a ver com a história

[00:46:00] Tipo, você não pode pegar a menina

[00:46:02] Num momento que, sei lá, ela tava de

[00:46:04] Com raiva, tava num dia x, não sei

[00:46:06] E querer usar isso pra falar

[00:46:08] Não, então, ela é uma pessoa horrível, olha só

[00:46:10] Ela tá agressiva, né, doida

[00:46:12] Que é esse lance, né, o pessoal que fica de olho

[00:46:14] Em tudo que já aconteceu lá, te pegando os

[00:46:16] Pontos específicos, descontextualizando

[00:46:18] Pegando algumas frases

[00:46:20] Possivelmente problemáticas

[00:46:22] E botando tudo agora, soltando tudo

[00:46:24] De uma vez, assim, pra tentar

[00:46:26] Acabar com a carreira da menina

[00:46:28] Justificar por que que precisa ver uma caça bruxa em cima dela

[00:46:30] Pois é

[00:46:32] Isso é um peso de estar nas redes sociais, né

[00:46:34] Eu tenho a saudade da liberdade que eu tinha de ser uma pessoa horrível

[00:46:36] Antigamente

[00:46:38] E aí, pra mulher é pior ainda

[00:46:40] A gente não pode, né, o que eu as vezes comento

[00:46:42] Eu falo assim, nossa, eu queria muito ver um produto cultural

[00:46:44] Sobre uma mulher horrível

[00:46:46] Porque eu acho que a gente também precisa ter essa abertura

[00:46:48] E, ok, ela pode ser

[00:46:50] Muita gente me falou, ah, ela é escrota

[00:46:52] Eu falei, cara, ela pode ser

[00:46:54] Tipo, não justifica, né

[00:46:56] Eu sinto que assim, quando

[00:46:58] Você é uma pessoa, digamos, pública

[00:47:00] Que você tem contato com muita gente, tal

[00:47:02] É ideal que você não seja tão escroto, né

[00:47:04] Porque tem muita gente que tá inclusive vendo você

[00:47:06] Como um espelho

[00:47:08] Eu aprendi isso na prática, quando a gente começou a gravar podcast

[00:47:10] Aos dez anos, eu percebia

[00:47:12] Que eu era bastante preconceituoso, assim, a gente falava

[00:47:14] Coisas como se a gente tivesse num grupo de amigos

[00:47:16] Fechados, sem perceber que tinha dez mil pessoas

[00:47:18] Ouvindo a gente, e daí quando chegavam as

[00:47:20] Respostas, a gente ficava

[00:47:22] Ah, talvez eu tenha sido escroto

[00:47:24] Sabe, talvez eu tenha sido feito um comentário

[00:47:26] Misógino, sabe

[00:47:28] E hoje, a gente sabe, tipo, e eu

[00:47:30] Sou só uma pessoa que tá lidando com esses temas

[00:47:32] Então, a gente tá num processo

[00:47:34] Um constante processo de aprendizado

[00:47:36] Pra que

[00:47:38] As pessoas que estão ouvindo a gente

[00:47:42] Pra gente, de certa forma, a gente trazer informação

[00:47:44] Correta, trazer uma certa

[00:47:46] Sensibilidade, pra que essas pessoas também melhorem

[00:47:48] Sabe, a ideia que

[00:47:50] Que a gente fala, né, tipo, a humanidade

[00:47:52] Sei lá, se fosse pegar nos 80

[00:47:54] Pra cá, a gente tava falando disso agora a pouco

[00:47:56] De como a TV aqui no estúdio, né

[00:47:58] De como a TV brasileira era bizarra

[00:48:00] Como era extremamente sexista

[00:48:02] Como tudo era horroroso

[00:48:04] Como era super violento

[00:48:06] Programa do Ratinho, etc

[00:48:08] E isso tava num contexto no qual

[00:48:10] A gente não tinha

[00:48:12] As pessoas não tinham, acho que tanto acesso umas às outras

[00:48:14] Online, obviamente

[00:48:16] Mas não tinha essa coisa de qualquer pessoa

[00:48:18] Poder ter um público tão grande falar pra tantas pessoas

[00:48:20] E, de certa forma, a internet

[00:48:22] Embora esteja também

[00:48:24] Criando situações bastante

[00:48:26] Complicadas, divisões, né

[00:48:28] Polarização, mas ela também

[00:48:30] Tá impulsionando isso, né, tipo, da gente

[00:48:32] Perceber que a gente tem uma responsabilidade muito grande

[00:48:34] Quando tá falando também com muita gente

[00:48:36] E a gente tentar passar por esse processo de

[00:48:38] Melhorar e evitar, e saber

[00:48:40] Comprar as brigas certas, que é o que ela

[00:48:42] Diz um pouco nessa carta dela

[00:48:44] Eu concordo muito em relação a isso, mas quando eu falo da liberdade

[00:48:46] Ser uma pessoa horrível, o que eu penso

[00:48:48] Muito é, eu acho que a gente moraliza

[00:48:50] Muitas certas questões na internet

[00:48:52] Então, por exemplo, as pessoas estão lá se expondo

[00:48:54] E elas vão ter falhas

[00:48:56] E isso é muito pesado pra cima das mulheres

[00:48:58] Quero deixar bem claro, por isso que eu falei

[00:49:00] Que sempre vem o paladino do bom senso

[00:49:02] E eu percebo que não há um espaço

[00:49:04] Pra que essas fraquezas sejam trabalhadas

[00:49:08] Ela tá num dia ruim, ela foi agressiva

[00:49:10] Isso não é trabalhado de uma forma

[00:49:12] Do tipo, ah, ela foi agressiva

[00:49:14] As pessoas são agressivas, pô, mandou mal, sendo agressiva, hein

[00:49:16] É, pô, realmente

[00:49:18] Já é uma coisa do tipo, vamos

[00:49:20] Esecrar essa pessoa, porque ela foi agressiva

[00:49:22] Ela foi agressiva, ela foi uma escrota, então se ameaçarem ela de morte

[00:49:24] Tudo bem

[00:49:26] Eu cheguei a falar isso pra um cara que eu tava discutindo ontem

[00:49:28] Eu falei assim, eu tô torcendo pra nunca ter um dia ruim

[00:49:30] Porque eu acho que se eu tiver um dia ruim, você vai achar que ameaçar

[00:49:32] E minha mãe de morte tá de boa

[00:49:34] E essa que é a desproporção que eu sinto, né

[00:49:36] Você não tem espaço pra falhar

[00:49:38] Então quando você vê essas mulheres, não acha que ela falhou também

[00:49:40] Vou endossar tudo que

[00:49:42] Rebeca e Letícia colocaram aqui

[00:49:44] Mas mesmo que ela tenha

[00:49:46] Agido de forma mais agressiva

[00:49:48] Em alguns momentos, né

[00:49:50] Isso vai ser usado de uma forma

[00:49:52] Que é totalmente desproporcional

[00:49:54] Contra ela, né, então eu percebo

[00:49:56] E eu percebo que essa moralização, às vezes

[00:49:58] Ela acontece até dentro de espaços muito seguros

[00:50:00] Uma coisa que me desgastou muito do feminismo

[00:50:02] É que você tinha que ser sem falhas

[00:50:04] Porque qualquer espaço

[00:50:06] Que você tinha, você tinha mobilizações dentro do próprio

[00:50:08] Do jeito que o feminismo se configura na internet

[00:50:10] Que as pessoas iam e

[00:50:12] Todo mundo massacrava a pessoa

[00:50:14] E aí você não tinha muito espaço pra dialogar, né

[00:50:16] Então eu sinto que tem essa coisa das redes sociais também

[00:50:18] E é muito louco isso

[00:50:20] Você pensar em uma comunidade de streamer, né

[00:50:22] Que eu penso que uma comunidade seria um espaço

[00:50:24] Em que as pessoas estão lá compartilhando coisas

[00:50:26] Mas você não tem um espaço compartilhado pra discutir

[00:50:28] Fraquezas ou problemas, né

[00:50:30] Tudo na base do linchamento

[00:50:32] Isso é uma questão muito séria

[00:50:34] Tem… nossa, desculpa de interromper

[00:50:36] Não, imagina, eu já tinha acabado

[00:50:38] Não, mas eu também esqueci

[00:50:40] Acho que vai interromper e depois esquece

[00:50:42] A gente pode

[00:50:44] A gente pode puxar pra resposta da Razer

[00:50:46] A Razer

[00:50:48] É essa empresa de

[00:50:50] Assessórios, né, de

[00:50:52] Periféricos, gamers

[00:50:54] Tipo teclado, mouse

[00:50:56] Eles só não fazem cadeira, né, cadeira gamer

[00:50:58] É, eu acho que estão fazendo

[00:51:00] Eu lembro de ter visto uma cadeira rosa que eu falei que bonitinha

[00:51:02] Compraria

[00:51:04] Uau, eu não sabia que eles tinham também

[00:51:06] Eles fazem até a orelha de gatinho pra fone

[00:51:08] E a Razer

[00:51:10] Dentro dessa situação

[00:51:12] Tipo a merda já tava acontecendo

[00:51:14] Quando a menina já tava sendo linchada

[00:51:16] Ela se posicionou de uma maneira

[00:51:18] Que parece ter validado

[00:51:20] Ainda mais

[00:51:22] Que validou o linchamento

[00:51:24] Virtual da Gabi

[00:51:26] Será que eu leio ela inteira

[00:51:28] Pra gente contextualizar também

[00:51:30] Eu acho que é importante

[00:51:32] Eu também acho

[00:51:34] O posicionamento que ela fez

[00:51:36] Inclusive foi anteontem

[00:51:38] Na segunda-feira, se eu não me engano

[00:51:40] Aconteceu na sexta-feira, daí a merda toda

[00:51:42] No final de semana

[00:51:44] E ela se posicionou na segunda-feira à noite

[00:51:46] Se eu não me engano

[00:51:48] O posicionamento que ela divulgou nas redes sociais e tudo mais

[00:51:50] Referente ao ocorrido nesses últimos dias

[00:51:52] Gostaríamos de deixar claro que a influenciadora

[00:51:54] Gabi Catuso

[00:51:56] Não é porta-voz da Razer

[00:51:58] E nunca foi embaixadora da marca

[00:52:00] Ela fazia parte de um time de influenciadores

[00:52:02] Que foram chamados pra usar e divulgar

[00:52:04] Os produtos da marca

[00:52:06] Até aí meio que tudo bem

[00:52:08] Acho que o problema começa a chegar aqui

[00:52:10] Estamos desde o começo

[00:52:12] Como gamers

[00:52:14] Enfrentando todo tipo de preconceito e estereótipo

[00:52:16] Gente

[00:52:18] Pelo amor de Deus

[00:52:20] A gente vai discutir a gamerfobia aqui hoje

[00:52:22] Tem problema social, séries

[00:52:24] Não, é praticamente um discurso de racismo inverso

[00:52:26] De orgulho hetero

[00:52:28] Mas vamos lá

[00:52:30] E continuaremos lutando pra que esse tipo de situação

[00:52:32] Não se repita

[00:52:34] A Razer Brasil reforça que a opinião dos seus influenciadores

[00:52:36] Não representa ou reflete necessariamente a opinião da empresa

[00:52:38] Que é totalmente contrária a qualquer tipo de discriminação

[00:52:40] Seja ela de sexo, religião

[00:52:42] Partido político

[00:52:44] Ou qualquer outro tipo de intolerância e extremismo

[00:52:46] Informamos que o contrato com a influenciadora

[00:52:48] Inspira nos próximos dias e não será renovado

[00:52:50] Eu acho que

[00:52:52] Obviamente pela reação aqui nossa

[00:52:54] Aquele parágrafo é o mais problemático

[00:52:56] De todos

[00:52:58] Mas também ela dizendo que

[00:53:00] Cortando os laços com a influenciadora

[00:53:02] Falando que ela não representa

[00:53:04] A empresa e tudo mais

[00:53:06] E também obviamente

[00:53:08] Sem levar em consideração

[00:53:10] Toda essa agressividade

[00:53:12] Contra ela, sem nenhum momento

[00:53:14] Se solidarizar

[00:53:16] E tocar nessa questão

[00:53:18] De que ela estava passando por um

[00:53:20] Momento complicado

[00:53:22] Estava passando por apuros, estava tendo seus dados

[00:53:24] Publicados, estava sendo ameaçada de morte

[00:53:26] A família estava sendo ameaçada de morte

[00:53:28] Até então ela tinha uma ligação ali com a empresa

[00:53:30] No mínimo eles tinham que ter

[00:53:32] Sei lá, ido falar com ela, não sei se foram

[00:53:34] Eu já acho super covarde de cara

[00:53:36] Porque eles mandam assim

[00:53:38] Ela nunca representou a merca

[00:53:40] Peraí bichão, tem campanha de vocês com ela

[00:53:42] Então, muito estranho isso

[00:53:44] Aí tipo não, não temos nada a ver

[00:53:46] E depois a gente

[00:53:48] Não quer ter nada a ver em nenhum momento

[00:53:50] Eles tentaram

[00:53:52] Nós não tem nada a ver, o gamer sofre

[00:53:54] Nós não tem nada a ver, não vamos ter mais a ver

[00:53:56] Porque a gente não tinha a ver, mas agora

[00:53:58] Acaba o contrato, então a gente vai ter a ver

[00:54:00] Essa necessidade do

[00:54:02] No final do negócio de falar

[00:54:04] Ah, o contrato dela acaba em pouco tempo

[00:54:06] A gente não vai renovar

[00:54:08] Beleza, o contrato dela acaba semana que vem

[00:54:10] Ok, você não precisa falar isso no texto

[00:54:12] E você não precisa dizer que você não vai renovar

[00:54:14] Porque aí sim você tá num texto que já é completo

[00:54:16] Cheio de coisa de tipo

[00:54:18] Não, a gente escutou, a gente escutou as pessoas erradas

[00:54:20] A gente escutou, e aí no final a gente fecha com vocês

[00:54:22] Que a gente não vai renovar, sabe?

[00:54:24] É só uma validação a mais num texto que já tá como

[00:54:26] Sim, é dizer assim, vocês conseguiram

[00:54:28] Vocês demitiram ela

[00:54:30] Dando o carimbinho ali

[00:54:32] Para quem se sentiu incomodar

[00:54:34] Nós não temos nada a ver com ela, mas está demitida

[00:54:36] Isso

[00:54:38] É horrível

[00:54:40] Agora, por que que

[00:54:42] Naquele trecho em que ela

[00:54:44] Ele menciona preconceito e estereótipo

[00:54:46] Por que isso é tão problemático?

[00:54:48] E por que a gente reagiu dessa maneira? Eu também acho ridículo

[00:54:50] Por que a gente…

[00:54:52] Qual é o grande problema desse trecho?

[00:54:54] Primeiro que ele fala que ela foi preconceituosa

[00:54:56] Meio que tá dizendo que isso

[00:54:58] Eles não fecham com preconceito

[00:55:00] Ela foi preconceituosa

[00:55:02] Ao falar que todos os homens são lixo

[00:55:04] E depois de tratar o gamer

[00:55:06] Como uma minoria

[00:55:08] Que sofre preconceito

[00:55:10] Nossa, eu vi uma imagem na internet

[00:55:12] Eu até tuitei ela, que era maravilhosa

[00:55:14] Tipo meio anos 80

[00:55:16] Sabe, escrito gamers

[00:55:18] Não são oprimidos, mas deveriam ser

[00:55:20] Meu Deus do céu

[00:55:22] Gente, teve um cara

[00:55:24] Que ele… Eu tava tuitando

[00:55:26] Nessa situação

[00:55:28] E falando, tipo gente, não é possível que a Hazy virou

[00:55:30] E falou, nossa, o gamer sofre preconceito

[00:55:32] O cara teve a pachurra de virar pra mim

[00:55:34] E falar que o gamer sofre preconceito sim

[00:55:36] Porque ele é culpabilizado por todos

[00:55:38] Os tiroteio em massa do planeta

[00:55:40] Mas eu ia chegar e…

[00:55:42] Eu só posso terminar também

[00:55:44] Isso é uma mitologia muito poderosa no meio gamer

[00:55:46] Que ele sofre preconceito

[00:55:48] E tem uma construção

[00:55:50] Eu posso terminar com a chave de ouro

[00:55:52] Que depois de toda essa mensagem tem o slogan da companhia

[00:55:54] For gamers by gamers

[00:55:56] Isso aí é a coisa mais emblemática de tudo

[00:55:58] É gente, que erro né

[00:56:00] Mas vamos falar sobre essa identidade gamer

[00:56:02] E porque que ela é tão frágil

[00:56:04] E porque que ela gera toda essa

[00:56:06] Essa questão complicada

[00:56:08] Tipo de alguém achar que

[00:56:10] Por exemplo, o gamer é uma minoria que deve ser

[00:56:12] Protegida

[00:56:14] Como que essa identidade

[00:56:16] Gamer foi construída

[00:56:18] Como que a gente enxerga o gamer

[00:56:20] Então, se a gente pega

[00:56:22] Tem um livro que eu adoro, eu até falei dele no twitter

[00:56:24] Mas vou reforçar a recomendação aqui

[00:56:26] Que é o Die Tryin, que é do Derrick Burrill

[00:56:28] Ele é pesquisador de masculinidades

[00:56:30] No videogame, então é bem legal

[00:56:32] Porque o trabalho dele é bem focado na representação do masculino

[00:56:34] E aí nesse livro ele vai fazer uma leitura da representação

[00:56:36] Dos gamers nos filmes

[00:56:38] Principalmente dos anos 80 e 90

[00:56:40] E aí o que ele vai falar é o seguinte

[00:56:42] O gamer se pretende como uma

[00:56:44] É uma identidade anti-hegemônica

[00:56:46] Então ele é

[00:56:48] Contra o status quo na cabeça dele

[00:56:50] Mas se você pega esses filmes que vão

[00:56:52] Retratar o gamer

[00:56:54] Em todos ele só não é o joker, ele só não é o atleta

[00:56:56] Mas ele também

[00:56:58] Vai ter a compensação, vai ficar com a

[00:57:00] Mulher mais atraente

[00:57:02] Do elenco, né, na visão deles assim

[00:57:04] No final, ele vai

[00:57:06] Sobrepujar os outros por meio da habilidade

[00:57:08] São valores muito masculinos

[00:57:10] Você só troca da competitividade

[00:57:12] Você só troca força pela habilidade

[00:57:14] intelectual, habilidade no jogo

[00:57:16] Mas ele fala na verdade é uma releitura

[00:57:18] Da masculinidade hegemônica

[00:57:20] Porém, essa construção midiática

[00:57:22] Ela ajudou a reforçar uma ideia de que

[00:57:24] Na verdade os caras são contracultura

[00:57:26] O videogame no momento foi

[00:57:28] Contracultura, lá quando a Atari começou

[00:57:30] Ela tinha essa característica, né, um pouco

[00:57:32] Mas a medida que

[00:57:34] O mercado caro que teve que se adaptar

[00:57:36] Que surgiu entre engenheiros

[00:57:38] A arte foi incorporada depois

[00:57:40] Então assim, tem uma série de questões que são

[00:57:42] Específicas do videogame

[00:57:44] O videogame foi aceito pelo mercado muito rápido

[00:57:46] Tem gente, o Billy Mitchell

[00:57:48] Do King of Kong

[00:57:50] Ele foi capa de revista já nos anos 80

[00:57:52] Ninguém estava discriminando esse cara

[00:57:54] Não era oprimido

[00:57:56] Pelo contrário, né, você vai pegar filmes

[00:57:58] Que nem jogos de guerra, né, o cara

[00:58:00] É o heroísmo

[00:58:02] O nerd é tratado como herói tanto que a nossa geração

[00:58:04] Cresceu, né, que tem que ter poucos anos hoje

[00:58:06] Pra tornar a nerdíssima hegemonia

[00:58:08] De mercado, o que é o mercado de massa hoje

[00:58:10] De cultura pop

[00:58:12] Cultura nerd, eu acho que nem faz mais sentido falar em nerd

[00:58:14] Tem nerd, né, se você for parar pra ver

[00:58:16] Porque quem não vê Vingadores

[00:58:18] O maior fenômeno de mídia

[00:58:20] A pessoa que começou a ver Vingadores só agora nos filmes

[00:58:22] Ela não é nerd, é verdade, ela é bazingueira

[00:58:24] Tem isso

[00:58:26] Feel the Big Bang Theory

[00:58:28] Mas é, né, e aí é muito louco

[00:58:30] Porque é isso, o videogamer

[00:58:32] Ele tem uma dificuldade de entender qual que é o lugar dele

[00:58:34] No sistema de mídia, porque o videogame não se vê como produto cultural

[00:58:36] Até hoje

[00:58:38] O videogame não quer ser criticado como produto cultural

[00:58:40] E aí como teve esse lance também

[00:58:42] Tem algumas questões de pânico moral aí

[00:58:44] Em alguns momentos, né

[00:58:46] Vai rolar no começo dos anos 90 com Night Trap

[00:58:48] E Mortal Kombat

[00:58:50] Depois a gente vai ter Columbine

[00:58:52] E depois todo tiroteio vai voltar

[00:58:54] Desde Columbine a questão do videogame violento

[00:58:56] Também o

[00:58:58] Isso acontece por outras questões

[00:59:00] Acontece justamente porque o próprio videogame

[00:59:02] Não se coloca como produto cultural

[00:59:04] Não é analisado como tal

[00:59:06] Fica muito tempo sempre anunciado como brinquedo

[00:59:08] Aí o brinquedo tem conteúdo violento

[00:59:10] Vai ter um pânico moral em cima

[00:59:12] Mas isso aqui está…

[00:59:14] Entra uma série de questões de proteção à infância

[00:59:16] Enfim

[00:59:18] Mas aí esses

[00:59:20] Ocasinais pânicos morais que acontecem

[00:59:22] São como eterna justificativa pra essa comunidade

[00:59:24] Dizer que ela sofre discriminação

[00:59:26] E do tipo

[00:59:28] Mas me zoavam na escola porque eu jogava videogame

[00:59:30] Primeiro

[00:59:32] Zoavam mesmo

[00:59:34] Porque hoje vem na minha memória afetiva

[00:59:36] Dos anos 90

[00:59:38] Eu não sei se tinha criança

[00:59:40] Que não jogava videogame

[00:59:42] Não sei

[00:59:44] Às vezes zoavam você por outras razões

[00:59:46] E o fato de você jogar videogame

[00:59:48] Era uma característica

[00:59:50] Mas você associou uma coisa à outra

[00:59:52] É, mas é uma mistificação

[00:59:54] Que está no inconsciente coletivo

[00:59:56] Aí você tem uma marca que nem a Razer

[00:59:58] E essa coisa, a cultura gamer, ela tem um aspecto

[01:00:00] Identitário de performance e de validação

[01:00:02] Constante, que é o clãsso dos outsiders

[01:00:04] Insiders, né?

[01:00:06] Ou você não é gamer

[01:00:08] O gamer está sempre se colocando em contraste com o não gamer

[01:00:10] Então é uma identidade de autovalidação

[01:00:12] O tempo todo

[01:00:14] Aí a Razer vai pegar bem nisso, que é a coisa pro gamer de verdade

[01:00:16] De gamers pra gamers

[01:00:18] Então vocês vão tomar toda uma construção

[01:00:20] Que vai reforçar essa ideia

[01:00:22] Que tem quem está de dentro e quem está de fora

[01:00:24] E a mulher

[01:00:26] Sempre esteve de fora, né?

[01:00:28] Não é verdade

[01:00:30] Historicamente as mulheres sempre

[01:00:32] Estiverem inseridas no mercado de games

[01:00:34] Então a construção, a mulher sempre esteve de fora

[01:00:36] Então você vai ter reações violentas

[01:00:38] Quando a mulher tenta entrar no mercado

[01:00:40] Ou quando a mulher já está no mercado

[01:00:42] Ela tem que entrar

[01:00:44] Ela tem que ser bem by the book

[01:00:46] Ela tem que seguir uma cartilha

[01:00:48] Porque a posição dela ali é muito frágil

[01:00:50] Ela pode ser expulsa a qualquer momento, né?

[01:00:52] Não só mulheres, mas pessoas negras

[01:00:54] Pessoas homossexuais

[01:00:56] Todo mundo tem que seguir uma cartilha

[01:00:58] Do que se não

[01:01:00] Carteirinha gamer

[01:01:02] Então eu acho que o que acontece é isso

[01:01:04] Como é uma cultura muito focada na autovalidação

[01:01:06] O tempo todo

[01:01:08] E as marcas exploram isso porque isso vende

[01:01:10] E aí a gente chega no cerdo do problema

[01:01:12] Isso vende

[01:01:14] E é uma identidade

[01:01:16] Muito construída justamente por marcas

[01:01:18] É uma identidade muito comercial, né?

[01:01:20] Se você pega, por exemplo

[01:01:22] Publicidade de games

[01:01:24] Lá nos anos 90, especialmente

[01:01:26] Que a gente está

[01:01:28] A identidade gamer que a gente vê foi construída nesse período

[01:01:30] Entre os anos 80, anos 90, 2000

[01:01:38] Essa coisa masculina era muito reforçada na publicidade

[01:01:40] Do homem tem um poder

[01:01:42] O homem tem o controle

[01:01:46] Tinha muita objetificação feminina

[01:01:48] Quando ela estava presente na publicidade

[01:01:50] Ela estava sendo usada

[01:01:52] Porque o homem que na verdade é o consumidor

[01:01:54] Ele que tem acesso ao jogo

[01:01:56] Ele que tem habilidade pra jogar

[01:01:58] A mulher está lá às vezes pra

[01:02:00] Interromper o jogo dele

[01:02:02] E ela muitas vezes está sutil e calcinha

[01:02:04] Ela está lá pra ser objetificada

[01:02:06] Ela está lá como

[01:02:08] Icandy

[01:02:10] Então raramente você tem

[01:02:12] Publicidade nesse período dos anos 90

[01:02:16] Anos 80 eu acho que mais da metade

[01:02:18] E em diante, né?

[01:02:20] Porque antes você via muita publicidade

[01:02:22] Tipo páginas de

[01:02:24] Propaganda de games em revista

[01:02:26] Com a família inteira, por exemplo

[01:02:28] Com a mãe jogando, com a avó jogando

[01:02:30] Daí chegando a esse ponto em que começa a ficar muito masculina

[01:02:32] Muito voltado pro garoto

[01:02:34] E esses garotos vão envelhecendo

[01:02:36] Então conforme eles vão

[01:02:38] Entrando ali na puberdade

[01:02:40] Essa publicidade fica ainda mais

[01:02:42] Agressiva, né? Fica ainda mais

[01:02:44] Sexualizada

[01:02:46] E ofensiva mesmo, eu diria

[01:02:48] Tem coisas bem ofensivas mesmo

[01:02:50] Durante os anos 90 ali com publicidade

[01:02:52] Especialmente em revista

[01:02:54] E ao mesmo tempo os jogos

[01:02:56] Também estão reforçando tudo isso, né?

[01:02:58] Com as temáticas, se você pega em geral

[01:03:00] Ali nos anos 90, especialmente pra consoles

[01:03:02] Você tem muito jogo

[01:03:04] De fantasia de poder

[01:03:06] Clássica, né? Em que o

[01:03:08] Personagem masculino vai

[01:03:10] Salvar a mocinha, a namorada

[01:03:12] Tem um milhão de casos

[01:03:14] Tipo a Anita Sarkis já fez

[01:03:16] Uma série em que ela aponta todos esses problemas

[01:03:18] Que por muito tempo

[01:03:20] Foram meio que ignorados

[01:03:22] Que as pessoas em geral sequer reparavam

[01:03:24] Nessas coisas, né?

[01:03:26] No PC é um pouco diferente

[01:03:28] Porque no PC você tinha

[01:03:30] Era um mercado que se afastou bastante

[01:03:32] Dessa questão do mercado de brinquedo

[01:03:34] Você tinha empresas como a Sierra

[01:03:36] Que tinha um homem e uma mulher

[01:03:38] Eles eram casados

[01:03:40] Um homem e uma mulher

[01:03:42] Na diretoria ali

[01:03:44] Eles eram os fundadores

[01:03:46] E a

[01:03:48] Roberta Williams, por exemplo, ela era muito

[01:03:50] Influente na produção, ela desenvolvia os jogos

[01:03:52] Ela escrevia os jogos

[01:03:54] E ela dava vagas ali

[01:03:56] Dentro da empresa dela pra mulheres

[01:03:58] Isso você vê refletido

[01:04:00] No público que consumia a Sierra

[01:04:02] Ela tinha um público feminino muito forte

[01:04:04] Os jogos fugiam bastante

[01:04:06] Das temáticas clássicas

[01:04:08] De fantasia de poder

[01:04:10] Você tinha muitos jogos

[01:04:12] Os adventures, né? Tipo eles criaram pra basicamente

[01:04:14] Esse gênero e desenvolveram muito bem

[01:04:16] Esse gênero, então eram jogos muito mais

[01:04:18] Sobre diferentes verbos

[01:04:20] Além de atirar, pular, literalmente verbos

[01:04:22] Porque você tinha ali olhar, pegar

[01:04:24] Falar, usar, não sei o que

[01:04:26] Era muito mais sobre raciocínio lógico

[01:04:28] Sobre diálogo

[01:04:30] Sobre tramas mesmo, narrativas

[01:04:32] Além de outros gêneros mesmo

[01:04:34] Que eles exploraram bastante, era uma companhia que tinha jogos

[01:04:36] Bastante fora do convencional

[01:04:38] Justamente porque era uma companhia mais

[01:04:40] Diversificada, né? Exato

[01:04:42] Então é bem interessante perceber como

[01:04:44] Só o fato de você ter mais mulheres numa empresa

[01:04:46] Mais mentes diferentes, pensando sobre diferentes coisas

[01:04:50] Você tem produtos mais diversificados

[01:04:52] Você tem um público mais diversificado e um meio mais saudável

[01:04:54] E o público da Sierra nunca foi considerado

[01:04:56] Esse público gamer, né? Por isso que eu falo

[01:04:58] Como uma identidade de insiders e outsiders

[01:05:00] Porque eu, por exemplo, adoro

[01:05:02] Adventure e eu sempre falava

[01:05:04] Jogava muito nos anos 90, né?

[01:05:06] Jogava muito com a minha mãe, inclusive, que ela curte muito

[01:05:08] E aí as pessoas dizem

[01:05:10] Ah, mas esses joguinhos aí, Adventure, point and click

[01:05:12] Não é jogo, entendeu? Então

[01:05:14] Isso sempre existiu, mas isso sempre foi

[01:05:16] Colocado como uma categoria

[01:05:18] A parte do que é ser gamer

[01:05:20] Que está meio

[01:05:22] Do lado de fora, né?

[01:05:24] Do ser gamer, um jogo

[01:05:26] Que é casual, que não envolve tanta habilidade

[01:05:28] Tipo, ah, ele é minimizado

[01:05:30] Até hoje, né? Que saiu recentemente

[01:05:32] Por exemplo, as pesquisas falando que tem

[01:05:34] 52% do público feminino

[01:05:36] Mas aí você vai lá e ah

[01:05:38] Jogo de celular? Não, então não é gamer

[01:05:40] Joguinho de celular não conta como

[01:05:42] Que é muito louco, né? Porque se você for

[01:05:44] Para pensar os primeiros videogames

[01:05:46] Eles eram basicamente versões primárias

[01:05:48] Do que são esses jogos de

[01:05:50] Jogo de celular que as pessoas reclamam, sabe?

[01:05:52] Basicamente é tipo Candy Crush Eterno

[01:05:54] Jogo de

[01:05:56] Os primeiros videogames mesmo

[01:05:58] Lá em casa, eu acho que talvez por isso

[01:06:00] Eu tenho uma experiência um pouco diferente

[01:06:02] Mas tipo, pra mim

[01:06:04] Quem comprou o primeiro videogame foi minha mãe

[01:06:06] Ela deu de aniversário de um ano pra minha irmã

[01:06:08] Mas velho, sabe? Então tipo

[01:06:10] Eu cresci jogando videogame com minha mãe

[01:06:12] E porque eu nasci numa cidade tão pequena

[01:06:14] Porque eu cresci numa cidade tão pequena, eu digo que talvez

[01:06:16] Minha experiência tenha sido um pouco diferente, mas eu sinto

[01:06:18] Que essa coisa do gamer que foi

[01:06:20] Oprimido, quando ele era adolescente

[01:06:22] Quando ele era criança, etc. É uma coisa que a gente

[01:06:24] Importou dos Estados Unidos

[01:06:26] Assim como esse conceito de

[01:06:28] High School, foi um negócio que foi importado

[01:06:30] Durante a década de 90 e se solidificou

[01:06:32] Durante os anos 2000

[01:06:34] Que antes, pelo menos eu não me lembro

[01:06:36] De estar na escola, eu me formei

[01:06:38] Do terceiro ano, em 2003

[01:06:40] Eu não me lembro de estar na escola

[01:06:42] E da gente ver esse tipo de coisa

[01:06:44] Obviamente, tinha bullying, claro que tinha bullying

[01:06:46] Mas era sobre outras coisas

[01:06:48] Sobretudo

[01:06:50] Eu era vítima de bullying porque eu era

[01:06:52] Tipo, afeminado, né? As pessoas me achavam

[01:06:54] Menininha, e daí tipo

[01:06:56] Era por isso, né?

[01:06:58] Era pelo fato de eu jogar videogame e todo mundo sabia

[01:07:00] Que eu adorava videogame, sabe? Então

[01:07:02] Eu não sei, será que as pessoas estão lembrando

[01:07:04] Corretamente disso? É, eu acho que é uma construção

[01:07:06] Eu concordo muito com a Rebeca, importada

[01:07:08] Por isso que eu acho legal essa análise que o Derek Burr

[01:07:10] Faz nos filmes, porque ele mostra que

[01:07:12] Primeiro, esses filmes constroem esse discurso

[01:07:14] Só que esses próprios filmes estão vendendo

[01:07:16] Uma imagem masculina que dá real

[01:07:18] É a mesma

[01:07:20] É, não tem nada de antes status quo ali

[01:07:22] Pelo contrário, né?

[01:07:24] Um dos filmes da década de 80

[01:07:26] Acho que é o começo da década de 80, o final da década de 80

[01:07:28] Que eles adoram, não os games necessariamente

[01:07:30] Mas que as pessoas mais velhas, assim

[01:07:32] Tipo, de 30 para cima

[01:07:34] Então, sobre como era difícil ser nerd

[01:07:36] Na escola, etc. É a Vingança dos Nerds

[01:07:38] Que é um filme

[01:07:40] Horrorosamente, me soja

[01:07:42] Sabe, não tem nada mais

[01:07:44] Masculinista do que aquilo, cara

[01:07:46] É nojento aquele filme

[01:07:48] Mas é tipo a Vingança dos Nerds

[01:07:50] É super celebrado, né? É, sabe, tipo

[01:07:54] Sabe, tipo, não é assim que as coisas funcionam

[01:07:56] Pelo menos não é assim que as coisas deveriam funcionar

[01:07:58] E as pessoas veem isso, e elas acham que a adolescência

[01:08:00] Delas foi assim também, e tipo, não foi cara

[01:08:02] Ela passou a sua adolescência inteira sentada no quarto

[01:08:04] Jogando videogame, ou sozinha, ou com seus amigos, sabe

[01:08:06] Tem problema aí? Provavelmente um problema de

[01:08:08] Social, de você não conversar com as pessoas, sabe

[01:08:10] Mas não foi por isso, entendeu

[01:08:12] Que você foi, tipo, você não sofreu

[01:08:14] Bulli, porque você tava jogando videogame

[01:08:16] É, aqui no Brasil você tem, por exemplo

[01:08:18] Um, sabe, um produto tipicamente brasileiro

[01:08:20] Que tem um personagem gamer

[01:08:22] Como protagonista

[01:08:24] Mundalua, ele jogava videogame

[01:08:26] É maravilhoso, Mundalu, eu amo

[01:08:28] E o

[01:08:30] Lucas Silva Silva, né

[01:08:32] Ele era um gamer, tipo, e ele não era

[01:08:34] Retratado, sabe, como vítima de bullying

[01:08:36] Ele era, tipo, um garoto legal

[01:08:38] Garoto saudável, sabe

[01:08:40] Socializava, era uma representação superpositiva

[01:08:42] E nunca, sabe

[01:08:44] Parece que não importou, não tinha essa

[01:08:46] Representação, porque é bastante norte-americana

[01:08:48] Do nerd isolado

[01:08:50] Socialmente inapto

[01:08:52] Etc, sabe, tipo

[01:08:54] Oprimido, de fato assim

[01:08:56] Eu nunca tinha pensado nessa questão da importação

[01:08:58] Eu sou de uma geração diferente

[01:09:00] De vocês, né

[01:09:02] Um pouquinho, sabe

[01:09:04] Mas, cara, é a mesma coisa

[01:09:06] Eu não me lembro de jeito nenhum, né, escola

[01:09:08] De ter algum problema de bullying

[01:09:10] Relacionado a jogar videogame, esse tipo de coisa

[01:09:12] Pelo contrário, eu acho que eu

[01:09:14] Já tava um pouco ali naquela geração

[01:09:16] Que começou a fazer um caminho de

[01:09:18] Olhar a menina gamer e falar

[01:09:20] Nossa, ela é diferenciada

[01:09:22] Ela gosta de videogame, uau, que incrível

[01:09:24] Não sei o que, mas ao mesmo tempo

[01:09:26] Ela tá fazendo ali, tipo, uma exclusão

[01:09:28] Uma outsider, tipo

[01:09:30] Ela é especial, ela tá aqui, mas ela

[01:09:32] Não é daqui, sabe, ela não pode pertencer

[01:09:34] Mas bullying, essa coisa

[01:09:36] Realmente é um bagulhinho cortado

[01:09:38] Quantos anos você tinha quando saiu o primeiro Homem de Ferro?

[01:09:40] O filme?

[01:09:42] Faz 12 anos

[01:09:44] Cara, eu não lembro quando saiu o Homem de Ferro, quando saiu?

[01:09:46] Faz 12 anos, eu tenho 21

[01:09:48] Então eu tinha

[01:09:50] Você tinha 10

[01:09:52] Essa sua geração já é uma geração que cresceu

[01:09:54] Com nerd legal

[01:09:56] Porque quando eu vejo essas coisas

[01:09:58] Eu vejo meio que essa divisão, sabe, tipo

[01:10:00] Homem de Ferro foi

[01:10:02] Uma divisão muito fácil de identificar

[01:10:04] Entre o que as pessoas falavam

[01:10:06] Que tipo, o que é nerd

[01:10:08] O que é quadrinhos

[01:10:10] E ser nerd é legal

[01:10:12] Porque beleza, antes a gente teve o filme do Batman, etc

[01:10:14] Mas nunca foi uma coisa que foi associada

[01:10:16] Tão diretamente a nerdice

[01:10:18] A ler quadrinho, etc

[01:10:20] Porque era o Batman, sabe, tipo, todo mundo conhecia

[01:10:22] Nerd nem existia muito no Brasil se a gente for parar pra pensar, né?

[01:10:24] Essa imagem de nerd

[01:10:26] É muito importada

[01:10:28] Eu lembro de ter, tipo, quando eu era pequena

[01:10:30] Assim, uma imagem de nerd

[01:10:32] Mas justamente importada

[01:10:34] De filme

[01:10:36] Que eu assistia, tipo, a filme dos anos 80

[01:10:38] Que passava na Sessão da Tarde, que eu assistia

[01:10:40] Mas existia uma coisa

[01:10:42] Mas ela já não era essa mesma coisa

[01:10:44] Que vocês me descrevem, sabe?

[01:10:46] Era o início da mudança

[01:10:48] Ali pra a gente chegar

[01:10:50] Já, o nerd é legal, é

[01:10:52] O dia do orgulho nerd

[01:10:54] Que também é super comercial, né

[01:10:56] Que tá muito associado a marcas, a venda, produtos e tal

[01:10:58] E eu sinto que essa identidade

[01:11:00] Também tá muito construída em cima dos jogos

[01:11:02] Que as pessoas jogam

[01:11:04] Você dedica muito tempo

[01:11:06] A esses produtos

[01:11:08] Tipo, uma pessoa que gosta muito

[01:11:10] De videogame, né, e eu

[01:11:12] Sabe, tipo, eu dedico bastante tempo

[01:11:14] Eu já dediquei mais, na verdade

[01:11:16] Mas eu jogava muito, sei lá, Diablo, por exemplo

[01:11:18] Diablo 2, eu achava maravilhoso

[01:11:20] Eu achava super complexo, então

[01:11:22] O jogo demanda um tempo

[01:11:24] De aprendizado

[01:11:26] Porque os sistemas são complexos

[01:11:28] Envolve habilidade, envolve estratégia

[01:11:30] Ele tá trabalhando

[01:11:32] Com uma série de

[01:11:34] Habilidades suas, né

[01:11:36] E o fato de você

[01:11:38] Dedicar tanto tempo a um universo

[01:11:40] Ou a uma série, ou aos jogos

[01:11:42] De uma empresa, porque você se identificar

[01:11:44] Com aquelas mecânicas

[01:11:46] De uma mecânica, você quer mais daquilo

[01:11:48] Daí vem uma próxima versão

[01:11:50] Então você consome, você dedica muito tempo

[01:11:52] Nesse consumo

[01:11:54] E obviamente

[01:11:56] Você acaba

[01:11:58] Se aproximando, né, tipo

[01:12:00] Desse sistema, desse universo

[01:12:02] Ah, eu quero saber mais sobre isso, quero saber mais sobre aquilo

[01:12:04] Porque você tá vivendo nesse universo, faz parte da sua vida, né

[01:12:06] Eu acho que é natural

[01:12:08] Se você começa a ler um livro e você gosta muito daquilo

[01:12:10] Você vai querer ler mais sobre aquele autor e tal

[01:12:12] De repente você tá super imerso naquele universo

[01:12:14] Então tem a ver com essa coisa

[01:12:16] De pertencimento, só que

[01:12:18] Onde o gamer pertence, né

[01:12:20] Porque se ele tá

[01:12:22] Dedicando tanto tempo e ele gosta tanto dessas coisas

[01:12:24] Ele vai querer procurar pessoas que gostam

[01:12:26] Às vezes também dos mesmos jogos

[01:12:28] Ou simplesmente que gostam de jogar videogame

[01:12:30] Eu lembro que quando eu era criança tinha bastante gente na rua

[01:12:32] Que gostava e tal, mas conforme a gente foi envelhecendo

[01:12:34] A gente foi procurando esse espaço

[01:12:36] A gente foi sentindo

[01:12:38] Esse senso de pertencimento

[01:12:40] Eu comecei a me aproximar de alguns amigos

[01:12:42] Que continuaram jogando

[01:12:44] Muita gente acho que parou também

[01:12:46] Ah, cresceu

[01:12:48] Tem essa condatação de videogame ser coisa de criança

[01:12:50] E tal

[01:12:52] E daí na época eu lembro de ter alguns amigos ali no bairro

[01:12:54] Que gostavam mais

[01:12:56] A gente falava mais dos mesmos jogos

[01:12:58] Com, sei lá, tinha a mesma pegada e tal

[01:13:00] Mas eram poucos

[01:13:02] No bairro

[01:13:04] E eu sinto que

[01:13:06] Por exemplo, daí chegou o momento em que

[01:13:08] Eu comecei a descobrir minha sexualidade

[01:13:10] Eu sempre ficava com caras que não tinha

[01:13:12] Menor interesse em jogos

[01:13:14] E tinha uma visão até meio negativa

[01:13:16] Achavam que era perda de tempo e tal

[01:13:18] Então a primeira vez que eu encontrei

[01:13:20] Um cara que gostava muito de jogos

[01:13:22] Foi uma realização pra mim, sabe?

[01:13:24] Caralho, eu encontrei o amor da minha vida

[01:13:26] Vou passar a minha vida jogando videogame com ele

[01:13:28] Então tem uma coisa muito

[01:13:30] Tá tão

[01:13:32] Incrustado na pessoa

[01:13:34] Quando ela gosta tanto daquilo

[01:13:36] Que ela quer procurar pessoas similares

[01:13:38] E daí

[01:13:40] Eu acho que, eu não sei se

[01:13:42] Se isso também tem a ver com o fato de

[01:13:44] Ela se sentir um pouco excluída

[01:13:46] Sabe? Se sentir uma minoria

[01:13:48] Porque às vezes

[01:13:50] Esse gosto é tão grande

[01:13:52] Que, sei lá, se a pessoa joga casualmente

[01:13:54] Um Mario ali, um negocinho

[01:13:56] Ela não se identifica necessariamente com essa pessoa

[01:13:58] Ela precisa se identificar com uma pessoa que gosta da mesma maneira

[01:14:00] Que usa os mesmos termos

[01:14:02] Jogar videogame é um negócio que

[01:14:04] Demanda um conhecimento

[01:14:06] Porque a gente vive, muitas vezes, de habilidades

[01:14:08] Você tem que ter habilidades, tem que ter

[01:14:10] Já conhecer certas estratégias

[01:14:12] Pra você conseguir entrar de cara num jogo

[01:14:14] Mais avançado

[01:14:16] E uma linguagem específica, né?

[01:14:18] Tipo, se a gente começar a falar de

[01:14:20] Sei lá, um jogo que tá todo mundo jogando agora

[01:14:22] Que tem uma certa complexidade

[01:14:24] A gente vai falar uma linguagem específica

[01:14:26] Que uma pessoa que não tá jogando aquele jogo

[01:14:28] Não vai entender nada

[01:14:30] Por isso que eu sinto que também tem esse lance de

[01:14:32] Um certo isolamento, de uma certa separação

[01:14:34] Entre o mundo habitual e o mundo

[01:14:36] Da linguagem normal

[01:14:38] Pra linguagem do videogame

[01:14:40] Pro mundo

[01:14:42] Pro mundo do videogame, né?

[01:14:44] Acho que por essas razões acaba sendo um mundo

[01:14:46] Mais isolado, né?

[01:14:48] Eu não sei, mas me dá a impressão de que qualquer coisa que

[01:14:50] Uma pessoa gosta muito

[01:14:52] Você cria essa ideia de

[01:14:54] Justamente uma comunidade, uma linguagem

[01:14:56] Uma coisa muito específica

[01:14:58] Que não é qualquer pessoa na rua

[01:15:00] Que vai gostar também

[01:15:02] Se eu for fã de uma little pony

[01:15:04] Se eu começar a falar coisa de uma little pony aqui

[01:15:06] Vai entender nada

[01:15:08] Mas não quer dizer que eu virei uma minoria

[01:15:10] Por isso que eu posso sofrer uma pressão social

[01:15:12] E é curioso que fandoms em geral são bastante

[01:15:14] Tóxicos

[01:15:16] Se você pega o fandom do Harry Potter

[01:15:18] Que também a pessoa tem que conhecer muito

[01:15:20] Pra entrar e fazer parte desse fandom

[01:15:22] E eu acho que

[01:15:24] Talvez essa competição por informação

[01:15:26] Por quem sabe mais, por quem joga melhor

[01:15:28] Por quem tá mais envolvido, por quem fez

[01:15:30] A melhor cosplay, quem é mais fã

[01:15:34] Esse tipo de competição é uma das fontes

[01:15:36] Eu acho que da toxicidade nesse ambiente

[01:15:38] Cara, fandom de Steven Universe

[01:15:40] Que é a coisa mais fofa do mundo, é tóxico

[01:15:42] É horrível, eu ia citar o fandom de Steven Universe

[01:15:44] Porque eu acho isso tudo de caso

[01:15:46] Que eu falo, gente, é a coisa mais inclusiva do mundo

[01:15:48] O produto é perfeito

[01:15:50] Aí você entra no fandom e você fala

[01:15:52] Como isso aconteceu?

[01:15:54] É um fenômeno a ser estudado assim, sabe?

[01:15:56] Eu acho que tem dois pontos aí

[01:15:58] Tem a questão do pertencimento

[01:16:00] Que eu acho que todo mundo quer pertencer a alguma coisa

[01:16:02] Sabe? Tipo viver sozinho

[01:16:04] Numa ilha

[01:16:06] Isolado de tudo, teoricamente

[01:16:08] É muito bonito, mas se você tirar a internet

[01:16:10] Ninguém quer ficar lá, entendeu?

[01:16:12] Então, tipo, essa necessidade de a gente pertencer

[01:16:14] É uma coisa absolutamente normal

[01:16:16] Por exemplo, eu cresci no Instituto Santo

[01:16:18] Gostava de um monte de coisa que ninguém sabia o que era

[01:16:20] Sabe? Tipo, eu tinha que viajar

[01:16:22] Pra comprar um quadrinho

[01:16:24] Uma hora e meia de carro pra comprar um quadrinho

[01:16:26] E eu nunca me senti que eu me pertencia exatamente

[01:16:28] Apesar de ter amigos, de conhecer pessoas, etc

[01:16:30] Quando eu vim pra São Paulo

[01:16:32] Foi aí que eu comecei a me encontrar

[01:16:34] E eu comecei a ter esse sentimento de pertencimento

[01:16:36] Porque eu encontrei pessoas que tinham os mesmos gostos que eu

[01:16:38] Que a gente podia conversar

[01:16:40] Sobre as mesmas coisas. Beleza, sabe?

[01:16:42] Isso é uma das questões

[01:16:44] A outra questão dessa coisa

[01:16:46] Do nerd, do pertencimento

[01:16:48] De ser oprimido ou não

[01:16:50] Esse negócio do tipo, jogos de videogames

[01:16:52] São para crianças

[01:16:54] Sabe? De novo, pra mim foi uma coisa que nunca entendi

[01:16:56] Eu entendi porque a minha mãe

[01:16:58] Eu tinha que brigar com ela pra poder jogar videogame

[01:17:00] Porque ela não queria deixar que a gente jogasse

[01:17:02] Porque ela queria jogar

[01:17:04] Mas aí a pessoa pega esse negócio do tipo

[01:17:06] Ah não, porque as pessoas veem que eu sou uma pessoa

[01:17:08] Que é uma coisa do universo nerd de maneira geral

[01:17:10] Porque quadrinhos tem muito isso também

[01:17:12] Porque você gosta de desenho, porque você gosta de videogame

[01:17:14] Porque você gosta de quadrinho, você é infantil

[01:17:16] E você é uma criança

[01:17:18] E sim, sabe?

[01:17:20] Tinha muito isso, principalmente

[01:17:22] Na década de 90, começo dos anos 2001

[01:17:24] Era um negócio muito nossa, Rebecca

[01:17:26] Você tem 16 anos, você tá assistindo Sailor Moon?

[01:17:28] As pessoas têm isso, tinham isso

[01:17:30] Aí você pega esse comentário

[01:17:32] Que era feito, sabe?

[01:17:34] Que beleza, você podia até, as pessoas podiam terminar

[01:17:36] Fulano é um bebê, ele continua assistindo desenho

[01:17:38] É um bully? É

[01:17:40] Mas aí você pega isso

[01:17:42] E você transforma isso

[01:17:44] Numa coisa que vai te segregar dos outros

[01:17:46] E você vai achar que

[01:17:48] Porque em algum momento da sua vida, alguém te disse

[01:17:50] Que você era uma criança

[01:17:52] Porque você estava assistindo Dragon Ball Z

[01:17:54] E você já tinha mais de 10 anos

[01:17:56] E você vai falar que você é uma minoria

[01:17:58] E que isso é um comportamento

[01:18:00] Que se mantém até hoje, depois do universo cinematográfico da Marvel

[01:18:02] Sabe?

[01:18:04] Tipo, você tá tipo, amigo

[01:18:06] Não é assim pessoal

[01:18:08] Eu acho que tem uma diferença entre estereótipo e preconceito

[01:18:10] Eu acho que existe o estereótipo do gamer

[01:18:14] E existe estereótipo de tudo, né?

[01:18:16] Sim, se você não tivesse sido gamer nessa infância

[01:18:18] Ou nerd, você ia sofrer, sei lá

[01:18:20] Talvez você tivesse dentro do estereótipo

[01:18:22] De skateista maconheiro, sabe?

[01:18:24] Ou então você ia ser

[01:18:26] Ai, o bagunceiro da escola

[01:18:28] Gente, é isso

[01:18:30] Acho que é isso que a galera não entende, né?

[01:18:32] Sim, e é muito diferente

[01:18:34] Do preconceito

[01:18:36] Desse preconceito

[01:18:38] Estrutural

[01:18:40] Exato

[01:18:42] Que pessoas como LGBTs

[01:18:44] Como negros, como mulheres

[01:18:46] Que estão abaixo, digamos, nessa pirâmide social

[01:18:48] Sofrem

[01:18:50] Justamente porque

[01:18:52] Essas pessoas deixam de conseguir oportunidades

[01:18:54] Elas são

[01:18:56] Vítimas de violência

[01:18:58] De estupro

[01:19:00] Lâmpada na cara

[01:19:02] Perdem, sabe?

[01:19:04] São oscilizadas no trabalho

[01:19:06] Isso sim é preconceito, sabe?

[01:19:08] Se você joga videogame

[01:19:10] Foda-se, talvez você até ganhe

[01:19:12] Uma promoção por jogar videogame

[01:19:14] Se você também joga, é legal

[01:19:16] Rola a identificação

[01:19:18] Você se torna mais inclusivo

[01:19:20] No meio do trabalho

[01:19:22] Agora

[01:19:24] Você ser negro, por exemplo

[01:19:26] Uma pessoa que é preconceituosa

[01:19:28] Ela vai olhar pra você e já vai agir

[01:19:30] De uma maneira diferente

[01:19:32] Você ser gamer não tem nada no seu corpo ali

[01:19:34] Que está dizendo

[01:19:36] Gritando, eu sou gamer

[01:19:38] Pra alguém poder ir lá

[01:19:40] E tratar você de uma maneira diferente

[01:19:42] Exato

[01:19:44] É muito gritante a diferença entre estereótipo

[01:19:46] A menos que você fique jogando trabalho

[01:19:48] É mereceu

[01:19:50] Não, e justamente

[01:19:52] Todas essas coisas que a gente fala

[01:19:54] Que ser um preconceito realmente

[01:19:56] Que sofrem pessoas sofrem preconceito

[01:19:58] Por serem negros, serem mulheres

[01:20:00] São coisas que de certa

[01:20:02] Você não escolhe

[01:20:04] Você gostar de jogar videogame

[01:20:06] De certa forma ela é uma escolha

[01:20:08] Uma coisa que não veio ao quando você nasceu

[01:20:10] Você foi ali por meio da tua vida

[01:20:12] Da tua trajetória, se envolvendo com aquilo

[01:20:14] E decidiu ficar naquilo

[01:20:16] Mas agora você não escolhe

[01:20:18] Se você é uma mulher ou não

[01:20:20] E não é uma construção histórica

[01:20:22] Não é um caso, por exemplo

[01:20:24] Mulheres são oprimidas historicamente

[01:20:26] LGBTs são oprimidos historicamente

[01:20:28] Muito pouco tempo atrás

[01:20:30] Eles conseguiram sair do armário

[01:20:32] A gente conseguiu sair do armário

[01:20:34] A gente conseguiu falar abertamente sobre isso

[01:20:36] E poder se expressar, não ter uma vida dupla

[01:20:38] Um gamer não precisa de nada disso

[01:20:40] Ele não sofre esse tipo de opressão

[01:20:42] Ele não sofre esse tipo de violência

[01:20:44] Então é uma…

[01:20:46] Quando você pega esse posicionamento da Razer

[01:20:48] E ela está usando a palavra preconceito

[01:20:50] Dessa maneira, ela está reduzindo

[01:20:52] Ela está minimizando o preconceito de fato

[01:20:54] O preconceito dessas minorias

[01:20:56] Desses grupos sociais fragilizados

[01:21:00] E é assustador, isso é horrível na verdade

[01:21:02] Ela não apenas

[01:21:04] Está validando

[01:21:06] A agressão contra a Gabi

[01:21:08] Mas ela está minimizando

[01:21:10] O que é preconceito de fato

[01:21:12] Então é duplamente horroroso

[01:21:14] Esse posicionamento

[01:21:16] Ele está querendo comparar o que a menina viveu

[01:21:18] A esse suposto preconceito de ser gamer

[01:21:20] Que eu acho que isso foi horrível

[01:21:22] Ela tentou igualar isso

[01:21:24] Com a situação

[01:21:26] É uma falsa simetria de uma desonestidade

[01:21:28] Intellectual, social, política

[01:21:30] Horrorosa, sabe?

[01:21:32] Eu senti também nessa parte, não sei se vocês concordam

[01:21:34] Eu senti nessa parte do texto também

[01:21:36] Que eles tentaram meio que dizer que a Gabi

[01:21:38] Foi preconceituosa

[01:21:40] Que ela fez um extremismo

[01:21:42] Que eles não concordam com isso

[01:21:44] Então está errado

[01:21:46] Claro que eles não concordam

[01:21:48] Pelo que o LinkedIn da empresa diz, só tem a única empresa

[01:21:50] Claro que eles não concordam

[01:21:52] Esse lance que eu comentei aqui

[01:21:54] A Sierra, que era uma empresa diversificada

[01:21:56] Ela tinha um público diversificado

[01:21:58] Sabe, saia dessa coisa

[01:22:00] Do gamer

[01:22:02] Enquanto, por exemplo, uma identidade própria

[01:22:04] E era uma coisa própria

[01:22:06] Era um negócio muito único

[01:22:08] E eu acho que até hoje

[01:22:10] É uma história de uma empresa muito única

[01:22:12] Justamente por conta de diversidade

[01:22:14] Quando você tem um único

[01:22:16] Grupo social numa empresa

[01:22:18] No caso homens

[01:22:20] Provavelmente cis

[01:22:22] Você tem um único mindset

[01:22:24] Tipo, você vai ter

[01:22:26] Uma única perspectiva pra pensar

[01:22:28] Sobre um problema, por exemplo

[01:22:30] Se tivessem mais mulheres envolvidas nessa decisão

[01:22:32] Certamente essa

[01:22:34] Essa reação teria sido outra

[01:22:36] O posicionamento teria sido outro

[01:22:38] Teria sido muito mais

[01:22:40] Inteligente mesmo, eu diria

[01:22:42] Foi um posicionamento burro

[01:22:44] Tanto é que

[01:22:46] Por mais que a Gabi tenha sido atacada

[01:22:48] Ela também recebeu muito apoio

[01:22:50] A Razer também foi atacada

[01:22:52] Recebeu apoio de diferentes grupos

[01:22:54] Mas a maneira como

[01:22:56] A Razer não foi atacada

[01:22:58] É uma empresa

[01:23:00] A Razer recebeu crítica

[01:23:02] Eu fiz um comentário lá, cheio de raiva

[01:23:04] Porque tu copia uma empresa, foda-se

[01:23:06] Mas tipo

[01:23:08] Isso não é ataque

[01:23:10] Porque ela não é uma pessoa

[01:23:12] O endereço da Razer

[01:23:14] E a família da Razer

[01:23:16] Isso faz toda a diferença

[01:23:18] Foi uma covardia porque assim

[01:23:20] Vamos ser bem sinceros

[01:23:22] Ela não ia vender um mouse a menos por causa disso

[01:23:24] Isso é uma polêmica de internet que é assim

[01:23:26] E ela tornou isso uma coisa muito maior

[01:23:28] Ela validou

[01:23:30] E ela tornou maior, exatamente

[01:23:32] Mas assim, sem a validação dela

[01:23:34] Se ela tivesse mandado um cala boca pra galera

[01:23:36] Logo cedo, tipo ela é nossa influencer

[01:23:38] Estamos com ela

[01:23:40] Lidem com a internet

[01:23:42] Ou ignorado, melhor não falar nada

[01:23:44] Vai falar uma meia e não fala nada

[01:23:46] A gente fica quieto

[01:23:48] Mas é engraçado que isso parece dividir ainda mais

[01:23:50] Não sei se esse meio

[01:23:52] Parece ficar muito claro

[01:23:54] Claro que existe essa divisão

[01:23:56] Pessoas que querem manter o status quo

[01:24:00] Que querem ter a permissão

[01:24:02] De poder ser tóxicos

[01:24:04] E falar palavras horrorosas

[01:24:06] E defendendo, celebrando a Razer

[01:24:08] Pelo posicionamento

[01:24:10] Se você entra lá na página da Razer

[01:24:12] Por exemplo, no Facebook

[01:24:14] Você vai ver a celebração

[01:24:16] Agora se você

[01:24:18] Sei lá, olhar em geral

[01:24:20] Entrar na

[01:24:22] Sei lá, em posts

[01:24:24] E diferentes sites

[01:24:26] Que saem um pouco do meio gamer

[01:24:28] Você vai ver que tem muita crítica a ela

[01:24:30] Então a impressão

[01:24:32] Que eu tenho é que

[01:24:34] Todo esse caso pode reforçar ainda mais

[01:24:36] Essa diferenciação, essa barreira

[01:24:38] Entre gamers e não gamers

[01:24:40] Eu não sei, é um negócio bem complicado

[01:24:42] Mas eu acho que na verdade

[01:24:44] Ao mesmo tempo está gerando esse debate

[01:24:46] A gente está num anti-cash falando

[01:24:48] Sobre isso

[01:24:50] Mas eu acredito que o público do anti-cash

[01:24:52] Não é, por exemplo, um público necessariamente

[01:24:54] Que consome podcast de games

[01:24:56] É um público mais neutro

[01:24:58] Com relação a esse assunto

[01:25:00] Então a gente está levando esse debate pra cá

[01:25:02] Assim como eu vi

[01:25:04] Sei lá, Veja cobrindo

[01:25:06] Capricho cobrindo

[01:25:08] Diferentes veículos que não necessariamente cobrem videogames

[01:25:10] Mas estão cobrindo essa história

[01:25:12] Chegou lá fora, né?

[01:25:14] Eu vi o Azul e Quinn tuitando

[01:25:16] Sim, cara

[01:25:18] Nessa questão da divisão

[01:25:20] E de como isso vai exacerbar

[01:25:22] Que eu até comentei com vocês quando a gente estava vindo pra cá

[01:25:24] Que é uma coisa que me preocupa muito hoje

[01:25:26] E que quando o Azul e Quinn

[01:25:28] Tuitou sobre isso, eu falei

[01:25:30] Nossa, a gente realmente está chegando full circle

[01:25:32] No rolê, sabe?

[01:25:34] E as pessoas

[01:25:36] Elas querem que o videogame

[01:25:38] Não seja uma coisa política

[01:25:40] Quando ele obviamente é

[01:25:42] E quando as massas de gamers

[01:25:44] São usadas pra também

[01:25:46] Fazer contornos políticos

[01:25:48] Manobras políticas

[01:25:50] As pessoas acham que elas vivem numa bolha

[01:25:52] Em que nada afeta elas

[01:25:54] E que elas não afetam nada

[01:25:56] Não são usadas como são centrais a isso, né?

[01:25:58] Sim, eu vejo

[01:26:00] Pelo que a Bia falou

[01:26:02] Da pesquisa que você fez, tem muito comentário positivo

[01:26:04] Mas olhando os comentários

[01:26:06] Que eu estava vendo ali

[01:26:08] E como uma pessoa que vem acompanhando

[01:26:10] Essa coisa do Gamergate, Comicsgate, In cells

[01:26:12] Faz muitos anos já

[01:26:14] O que eu vejo ali

[01:26:16] É In cells

[01:26:18] Saindo pra superfície

[01:26:20] Que era uma coisa que a gente não via na superfície aqui no Brasil

[01:26:22] Não desse tanto

[01:26:24] E você sabe que é

[01:26:26] In cell, porque você sabe quais são os tipos de comentário

[01:26:28] Que eles fazem

[01:26:30] E como é a fórmula desse comentário, sabe?

[01:26:32] E exatamente esse ataque de chan

[01:26:34] É uma coisa que a gente

[01:26:36] Quando foi a última vez que a gente viu isso aqui?

[01:26:38] Foi quando rolou

[01:26:40] Agora o tiroteio

[01:26:42] A noção ao grupo, aos gamers

[01:26:44] Ah, a noção a gamers

[01:26:46] Eu lembro de uma menina, de uma jornalista

[01:26:48] Que foi atacada muitos anos atrás

[01:26:50] Por uma matéria no Estadão Ana Freitas

[01:26:52] Isso, isso, sabe?

[01:26:54] Mas não foi só tão sobre games

[01:26:56] Ela fez uma matéria sobre chans

[01:26:58] A Marie Declair da Vice

[01:27:00] Ela fez uma única matéria na Vice

[01:27:02] Sobre games

[01:27:04] E rolou também

[01:27:06] Um ataque de chans

[01:27:08] Mas ela já é perseguida a chans

[01:27:10] E ela cobre o tema, né?

[01:27:12] Ela não saiu do tema

[01:27:14] É, então a gente tem

[01:27:16] Ver esse tipo de comentário

[01:27:18] Nessa conversa lá no Twitter

[01:27:20] Nessa briga no Twitter

[01:27:22] Me deixou muito preocupada por causa do nosso cenário político

[01:27:24] Por causa de como as coisas estão vindo

[01:27:26] E como a gente olha para trás

[01:27:28] Olha para os Estados Unidos, para tudo que aconteceu nos Estados Unidos

[01:27:30] E a gente vê porque até agora aqui

[01:27:32] Tipo

[01:27:34] Por exemplo, você pega o Wikipedia

[01:27:36] Em português do Gamergate

[01:27:38] Tipo, obviamente um negócio

[01:27:40] Que alguém que acho que eles estavam certos escreveu

[01:27:42] Mas que não quis ser muito

[01:27:44] Político sobre isso, sabe?

[01:27:46] Não quis ser muito óbvio sobre isso

[01:27:48] Porque tipo, ah não, é que teve esse negócio

[01:27:50] Mas aí não era verdade, mas aí era verdade

[01:27:52] E aí quando eu vi Zoe Queen

[01:27:54] Que foi a pessoa que acho que mais sofreu

[01:27:56] Com o Gamergate

[01:27:58] Ela e a Anita Sarkeesian

[01:28:00] Tipo, falando sobre isso

[01:28:02] E esse canal que botou minha carinha lá

[01:28:04] Eles tem vários vídeos que eles fazem

[01:28:06] Que eles fazem dog whistle

[01:28:08] Para esse público

[01:28:10] Inclusive num vídeo que eles soltaram depois

[01:28:12] Que eu fiz meu vídeo

[01:28:14] Eles falam de Gamergate

[01:28:16] Eu tô pensando, gente, é 2019

[01:28:18] Por que a gente tá falando disso agora?

[01:28:20] Porque essas pessoas estão puxando isso?

[01:28:22] Porque tá rolando sim

[01:28:24] Sabe?

[01:28:26] O povo tá saindo debaixo da cortina

[01:28:28] E chegando aqui em cima de novo

[01:28:30] Porque esse povo que também fez

[01:28:32] Tudo que aconteceu com um bote no final do ano passado

[01:28:34] Sim, sim

[01:28:36] Não, tá muito associado

[01:28:38] É muito engraçado assim

[01:28:40] Que eu recebi muitos comentários também no Twitter

[01:28:42] Tipo, dos posts que eu fiz sobre esse assunto

[01:28:44] E um deles foi

[01:28:46] Já começaram a envolver política no meio

[01:28:48] Meu Deus, mas isso é 100% política

[01:28:50] Que mundo que você tá

[01:28:52] Não, a gente tá discutindo culinária

[01:28:54] É engraçado, né

[01:28:56] O gamer vive batendo nessa tecla

[01:28:58] De que o game ele não tem a ver com política

[01:29:00] Ele é 100% fora do rolê

[01:29:02] Que é justamente falta

[01:29:04] Tem uma falta de tato social

[01:29:06] Político e tudo mais

[01:29:08] Que eu não sei exatamente qual é a origem disso

[01:29:10] Eu acho que tem muito a ver com o que a Bia tá falando

[01:29:12] Eu acho que tem a ver com escapismo

[01:29:14] Tipo, usar o videogame como escapismo

[01:29:16] Tipo, não quero pensar sobre realidade

[01:29:18] Eu vou jogar videogame pra me divertir

[01:29:20] E as vezes o videogame é extremamente político

[01:29:22] As vezes o videogame tem lá

[01:29:24] Toda uma trama política

[01:29:26] Você joga mess effect e aquilo é

[01:29:28] Tem muitas missões que são claramente

[01:29:30] Comentários sociais e tudo mais

[01:29:32] Qual que é o jogo, sei lá

[01:29:34] Eu tô jogando Persona 5 agora e gente é muito político

[01:29:36] Pois é

[01:29:38] E as pessoas parecem que não trazem isso pra realidade

[01:29:40] Deixam isso dentro daquele universo

[01:29:42] Isolado, virtual

[01:29:44] E não refletem sobre isso na realidade

[01:29:46] Isso é muito maluco

[01:29:48] Tem esse lance

[01:29:50] Eu acho que tem muito a ver com o que a Bia tá falando

[01:29:52] De justamente eles não serem levados

[01:29:54] Como produtos culturais

[01:29:56] Como brinquedo

[01:29:58] Ele vai se relacionar com escapismo

[01:30:00] Vou citar o Dereck Berry de novo

[01:30:02] Que eu amo ele

[01:30:04] Mas ele vai falar também no Die Trying

[01:30:06] Quando ele vai fazer essa análise da masculinidade dos games

[01:30:08] Ele vai falar o seguinte, o videogame é um território do que ele chama

[01:30:10] De masculinidade idílica

[01:30:12] É um estado de idílio

[01:30:14] Porque ele tá fora

[01:30:16] Ele é uma fantasia escapista de poder

[01:30:18] Fora dos problemas da realidade

[01:30:20] Ele chama esse espaço do videogame

[01:30:22] Nesse sentimento

[01:30:24] Ele chama de boyhood

[01:30:26] Pra traduzir assim

[01:30:28] O mais próximo é a broderagem

[01:30:30] Que é um homem

[01:30:32] Que ele não é adulto

[01:30:34] Ele consegue fugir das questões da vida adulta

[01:30:36] E quais são as questões da vida adulta

[01:30:38] Que ele quer fugir também

[01:30:40] Problemas sociais, questões de classe, questões de gênero

[01:30:42] Toda vez que você tenta trazer isso pro videogame

[01:30:44] A reação é violenta

[01:30:46] Porque segundo ele você tá violando o sentimento desse espaço

[01:30:48] Mulecagem

[01:30:50] Mulecagem é bom

[01:30:52] Mas é isso

[01:30:54] Essa coisa do eterno moleque

[01:30:56] Que aí a gente vai ter isso refletido

[01:30:58] Sei lá, quando o menino Neymar

[01:31:00] Faz uma bobagem, né

[01:31:02] Essa criança

[01:31:04] O menino Carlos Bolsonaro

[01:31:06] Eu tenho certeza que

[01:31:08] Se a coisa já foi bastante grave

[01:31:10] Isso que aconteceu com a Gabi

[01:31:12] Mas digamos que a coisa escalasse

[01:31:14] Um pouquinho mais, a ponto de

[01:31:16] Pegar um jornal nacional da vida

[01:31:18] Acontecesse alguma coisa mais séria

[01:31:20] Muita gente

[01:31:22] Poderia falar, mas né

[01:31:24] Os meninos se acederam, né

[01:31:26] Tem essa coisa de menino também

[01:31:28] Então assim

[01:31:30] É isso, né, é um misto dessa coisa

[01:31:32] De tá, não se vê como

[01:31:34] Produto cultural, porque aí outra defesa

[01:31:36] Que eles vão fazer no videogame é só um videogame

[01:31:38] É só um joguinho. Sim, e é muito louco, né

[01:31:40] Porque quando você tem

[01:31:42] A sociedade apontando pra você

[01:31:44] Você fala, ah, é só um joguinho

[01:31:46] É brincadeira, não sei o que

[01:31:48] Mas daí quando ninguém tá olhando pra gente

[01:31:50] A gente é arte, a gente é produto cultural

[01:31:52] A gente é cultura. Tem gente que ganha dinheiro

[01:31:54] Já é 3, né, é 3 e agora ela tá numa

[01:31:56] Estratégia de validação de você ver

[01:31:58] É toda uma estratégia pra validar o videogame como

[01:32:00] Produto cultural sério usando o cinema, né

[01:32:02] Tá emprestando a credibilidade do cinema

[01:32:04] Então, artistas de cinema, né

[01:32:06] Keanu Reeves que eu diga. Keanu Reeves, né

[01:32:08] Que foi o grande ponto, mas o próprio

[01:32:10] Mads Milken, né, então isso vai

[01:32:12] Vai sendo bastante aflorado

[01:32:14] Mas é isso, pro aspecto

[01:32:16] Mercadológico, o videogame se vende como uma coisa

[01:32:18] Sério, né, mas quando você vai tentar

[01:32:20] Discutir o videogame como produto cultural

[01:32:22] Ainda o lado idílico, o escapista

[01:32:24] Vai pegar forte e vai falar, não, aqui não

[01:32:26] Aqui é meu território

[01:32:28] É muito comum, assim, um jogo que por exemplo

[01:32:30] Que tem uma

[01:32:32] Uma profundidade na sua temática

[01:32:34] Como ele trata certos

[01:32:36] Assuntos, como ele entra em questões políticas

[01:32:38] Como ele entra em crítica social

[01:32:40] Mesmo, muitas vezes

[01:32:42] Tipo esses jogos são

[01:32:44] Tachados de SWJ

[01:32:46] Sjw

[01:32:48] Social Justice Warrior

[01:32:50] Ah, é jogo de Social Justice Warrior

[01:32:52] É jogo de feminista e não sei o que

[01:32:54] E meio que já são colocados

[01:32:56] Em escanteio por uma parte da comunidade

[01:32:58] Eu adoro quando me chamam de Social Justice Warrior

[01:33:00] É maravilhoso

[01:33:02] Eu fico meio ofendida

[01:33:04] Porque eu gostaria de ser uma Social Justice

[01:33:06] Necromancer

[01:33:08] É, tipo falaram que eu sou mais Social Justice

[01:33:10] Paladina, mas eu não entendo de jeito

[01:33:12] Posso ser Social Justice Archer

[01:33:14] Muito, muito

[01:33:16] Eu acho que esse negócio

[01:33:18] Ai cara

[01:33:20] Beca já tá cansada

[01:33:22] Nossa, não aguento mais

[01:33:24] Só de olhar pra vocês eu tô sentindo a vibe

[01:33:26] É a mesma tecla, mesma tecla

[01:33:28] Over and over and over

[01:33:30] Só muda os personagens

[01:33:32] É não, eu só ia falar, tipo

[01:33:34] Se imagina se esse negócio cresce realmente

[01:33:36] De um ponto que vai parar no

[01:33:38] No Jornal Nacional

[01:33:40] O discurso deles

[01:33:42] Além de tudo vai ser, tá vendo

[01:33:44] A culpa é das mulheres

[01:33:46] É das feministas, é desses Social Justice Warriors

[01:33:48] Que ficam falando e agora vai todo mundo achar

[01:33:50] Que o vídeo aqui é ruim, que faz mal pras pessoas

[01:33:52] Não sei o que, não sei o que

[01:33:54] Porque tem essa coisa de não conseguir olhar pra si mesmo

[01:33:56] É só isso

[01:33:58] Eu fico de cara que todos esses problemas

[01:34:00] Seriam resolvidos se

[01:34:02] Esses caras parassem e falassem

[01:34:04] Hum, eu não sou o centro do mundo

[01:34:06] Talvez eu esteja errado e tá tudo bem

[01:34:08] A gente pode melhorar

[01:34:10] É só isso

[01:34:12] Eu acho que também essa falta de visão

[01:34:14] Crítica, assim, tipo de

[01:34:16] De ter os joguinhos

[01:34:18] Como um negócio intocável, sabe

[01:34:20] Vem muito também da maneira como a imprensa

[01:34:22] De games trabalhou

[01:34:24] Com essa linguagem ao longo do tempo, né

[01:34:26] A imprensa de games durante muito tempo foi

[01:34:28] Sei lá, assessora

[01:34:30] Ela fazia assessoria, ela fazia marketing

[01:34:32] Ela não fazia crítica de fato, né

[01:34:34] Ela tava jogando as vezes um jogo ali

[01:34:36] De uma maneira crítica, né, mas é muito mais

[01:34:38] Como um produto, assim, pra falar

[01:34:40] Se aquele jogo vale o tempo

[01:34:42] Vale seu tempo, vale seu dinheiro

[01:34:44] E não exatamente

[01:34:46] Julgando o que o jogo tava dizendo

[01:34:48] O que ele tava dizendo, quais eram as mensagens

[01:34:50] Quais eram os símbolos, os significados e tudo mais

[01:34:52] E eu acho que

[01:34:54] O público geral, assim

[01:34:56] Que

[01:34:58] Foi meio que educado talvez por essa

[01:35:00] Imprensa

[01:35:02] Ele acaba não permitindo

[01:35:04] Esse tipo de visão crítica

[01:35:06] Não permitindo que

[01:35:08] Uma visão mais sociológica

[01:35:10] Mais psicológica, sabe, tipo

[01:35:12] Diferentes áreas do conhecimento

[01:35:14] Invadam esse meio

[01:35:16] E que a gente possa tirar

[01:35:18] Conclusões sobre o que

[01:35:20] Esse jogo representa, o que ele significa

[01:35:22] Fazer esse diálogo, essa ponte entre

[01:35:24] Video games e sociedade

[01:35:26] É, review de revista era aquela coisa, né

[01:35:28] Jogabilidade, gráfico

[01:35:30] Áudio

[01:35:32] E por aí vai

[01:35:34] Eu acho que é uma consideração muito essa coisa mais social, né

[01:35:36] É, review de produto de consumo

[01:35:38] Vale comprar, vale o seu dinheiro ou não vale, né

[01:35:40] Acho que o videogame também se é um produto caro

[01:35:42] Tem esse lado, né

[01:35:44] Isso é uma coisa que acontece na crítica

[01:35:46] De maneira geral, inclusive na crítica de cinema mesmo

[01:35:48] Tipo, eu sou formada

[01:35:50] Em cinema, eu trabalho com

[01:35:52] Audiovisual no Brasil

[01:35:54] E tem

[01:35:56] Existe a crítica de cinema

[01:35:58] Feminista, que é uma coisa que começou

[01:36:00] Na década de 70, década de 80, assim

[01:36:02] E ainda assim, até hoje não é uma coisa

[01:36:04] Bem vista, sabe

[01:36:06] E por exemplo, Deus me livre se eu fizer um texto

[01:36:08] Um dia falando que os filmes

[01:36:10] Por exemplo, do cara lá que fez

[01:36:12] Lala Land, que eu esqueci o nome dele agora

[01:36:14] Damien Chazin

[01:36:16] Que é um cara que tem tipo a minha idade, é jovem

[01:36:18] Sabe, branco, homem, etc

[01:36:20] Se eu falar que na verdade o filme dele é só uma grande pira

[01:36:22] Em volta da piroca dele, sabe

[01:36:24] Porque é isso que o filme é, sabe

[01:36:26] Pode ser incrível, pode ter uma construção

[01:36:28] Maravilhoso, o tempo do filme, etc

[01:36:30] Mas dá pra resumir

[01:36:32] Todos os filmes

[01:36:34] Sobre isso

[01:36:36] Porque se você for pegar

[01:36:38] Se você pegar o cinema na maior parte do tempo

[01:36:40] Ele é sobre como o homem é foda e todas as mulheres amam esse homem

[01:36:42] Ou como o homem sofre, sabe

[01:36:44] É basicamente isso, assim

[01:36:46] E quando a gente começa a trazer essa crítica

[01:36:48] Que é um pouco mais engajada, que é um pouco mais

[01:36:50] Começa a trazer mesmo

[01:36:52] Uma semiótica maior pra crítica, etc

[01:36:54] Simbologia, as pessoas começam a ficar

[01:36:56] Ofendidas, elas não querem que você fale sobre isso

[01:36:58] Sobre o feline delas, assim

[01:37:00] Como elas não querem que você fale sobre isso

[01:37:02] Sobre o fato de que

[01:37:04] Todas as mulheres são horríveis

[01:37:06] Nos jogos do

[01:37:08] Cara, esqueci o nome dele agora

[01:37:10] Do, sei lá, o Hideo Kojima?

[01:37:12] É, do Kojima, é isso

[01:37:14] Você vê que foi automático, né

[01:37:16] Você nem precisou falar quem era

[01:37:18] Deus me lia falar isso

[01:37:20] Sabe, tipo, é essa necessidade

[01:37:22] De proteção de uma coisa

[01:37:24] Que a gente devia estar falando sobre, sabe

[01:37:26] A gente quer coisas legais

[01:37:28] Existe uma coisa muito infantilizada

[01:37:30] Do jeito que a gente se relaciona com produtos culturais hoje

[01:37:32] Que é o seguinte

[01:37:34] A pessoa não consegue aceitar que ela pode amar

[01:37:36] Um negócio que é ruim

[01:37:38] Ou que a coisa às vezes não é ruim

[01:37:40] Mas ela é problemática sob certos aspectos, né

[01:37:42] Eu gosto muito de coisas que são horríveis

[01:37:44] E eu tenho consciência, assim

[01:37:46] Às vezes a pessoa me pergunta se o filme é bom

[01:37:48] Eu falo, não é, mas eu adoro

[01:37:50] O famoso Guilty Pledge

[01:37:52] É, eu tenho uma ligação

[01:37:54] Eu não consigo visualizar porque que eu adoro

[01:37:56] Quais são as questões afestivas ali

[01:37:58] Que me tocam mais que o filme é ruim

[01:38:00] Mas a gente tem uma dificuldade de fazer crítica

[01:38:02] Porque eu sinto que há uma relação

[01:38:04] E essa coisa da nerdice

[01:38:06] Da cultura nerd, como ela é explorada hoje

[01:38:08] Mercadologicamente e os gamers juntos

[01:38:10] É um consumo muito infantilizado

[01:38:12] É uma coisa que me irrita profundamente

[01:38:14] Tudo é épico

[01:38:16] Tudo é incrível

[01:38:18] Tudo é maravilhoso

[01:38:20] E tudo é um hype tremendo

[01:38:22] A videogame vive isso

[01:38:24] Se eu tenho uma preguiça de G3, gente

[01:38:26] Que é uma coisa que tudo é incrível

[01:38:28] Às vezes não é só um trem na minha boca

[01:38:30] Mas um sci-fi genérico que mostraram lá

[01:38:32] O negócio tem que bombar na expectativa

[01:38:34] E aí se você vai colocar qualquer crítica

[01:38:36] Você está estragando a experiência das pessoas

[01:38:38] Sabe?

[01:38:40] Você não é gamer de verdade

[01:38:42] Nós somos adultos

[01:38:44] Eu gosto muito

[01:38:46] Na transmissão que rolou

[01:38:48] A gente fez uma transmissão com jogabilidade

[01:38:50] Tem um momento muito maravilhoso

[01:38:56] O Ricardo do Nautilus fez uma piada

[01:38:58] Tipo, alguém ficou empolgado

[01:39:00] Com um anúncio de um jogo

[01:39:02] E o Ricardo fazendo uma piada

[01:39:04] Um deboche desse…

[01:39:06] Desse perfil

[01:39:08] Falou, você não é gamer de verdade

[01:39:10] E daí o Rafa

[01:39:12] Do jogabilidade

[01:39:14] Falou, você é gamer de verdade

[01:39:16] Então me cita duas minorias que você odeia

[01:39:18] E esse negócio bombou

[01:39:20] No twitter

[01:39:22] Tipo, eu não sei

[01:39:24] Tipo, uma maneira também

[01:39:26] De apontar esse problema

[01:39:28] Não sei

[01:39:30] Eu por exemplo

[01:39:32] Eu ficaria um pouco

[01:39:34] Com um pouco de medo de fazer essa piada na hora

[01:39:36] Porque eu não sei exatamente

[01:39:38] O público desses três canais

[01:39:40] Geralmente são bem mais mente aberta

[01:39:42] Mas mesmo assim

[01:39:44] Como existe uma maioria homem

[01:39:46] Como são canais que dependem

[01:39:48] Do público pra sobreviver

[01:39:50] Porque são canais baseados em financiamento coletivo

[01:39:52] Você sempre fica

[01:39:54] Será que essa piada vai cair bem?

[01:39:58] E uma coisa que eu gostei muito desse momento

[01:40:00] É que o Rafa desligou completamente

[01:40:02] Qualquer filtro

[01:40:04] Que maravilhoso

[01:40:06] O Rafa é uma pessoa incrível

[01:40:08] O Rafa é maravilhoso

[01:40:10] A gente precisa de mais disso

[01:40:12] Primeiro, consciência dos problemas

[01:40:14] Saber falar

[01:40:16] Acho que abertamente

[01:40:18] Sobre esses problemas

[01:40:20] Mas também tipo

[01:40:22] Tornar esses problemas

[01:40:24] Tipo, eles já

[01:40:26] Digamos, a conversa sobre esses problemas

[01:40:28] Foram normalizadas

[01:40:30] Não é mais um tabu falar sobre esse problema

[01:40:32] A pessoa vai se sentir confortável de fazer uma piadinha às vezes

[01:40:34] Criar um diálogo fácil

[01:40:36] Mas ser uma coisa tensa é difícil de falar

[01:40:38] Poder ter piada

[01:40:40] Poder ter uma conversa de bar normal

[01:40:42] Poder ser a piada

[01:40:44] De não de de debochar da pessoa

[01:40:46] Necessariamente tipo de debochar de alguém

[01:40:48] Mas debochar de um perfil que a gente sabe que é tóxico

[01:40:50] Sabe?

[01:40:52] Tornar isso

[01:40:54] Falar sobre esse assunto

[01:40:56] Tipo, tornar normal

[01:40:58] Falar sobre esse assunto

[01:41:00] Isso daí eu acho que precisa acontecer mais vezes

[01:41:02] Eu acho que pra isso acontecer

[01:41:04] O público precisa entender que a crítica

[01:41:06] Ela não é destrutiva

[01:41:08] Que eu acho que essa é uma dificuldade muito grande

[01:41:10] Por causa da sua relação que eles têm

[01:41:12] Qualquer coisa que você coloca, você tá querendo

[01:41:14] Destruir, mulheres querem

[01:41:16] Destruir o videogame

[01:41:18] E não, crítica não é isso

[01:41:20] Crítica é uma conversa, a gente pode inclusive fazer

[01:41:22] Crítica da posição de fã

[01:41:24] Só que eu acho que o problema é que

[01:41:26] Hoje a gente só tem crítica da posição de fã

[01:41:28] Até porque a gente gosta

[01:41:30] Por que a gente vai querer destruir

[01:41:32] A gente quer que as coisas melhorem

[01:41:34] Tem uma diferença entre você conversar

[01:41:36] Sobre as coisas e apontar problemas

[01:41:38] E você pregar a destruição delas

[01:41:40] Só um lado tá pregando a destruição das coisas

[01:41:42] E não é de quem tá fazendo as críticas

[01:41:44] Eu até acho que gamer tem que acabar

[01:41:46] Mentira

[01:41:48] Tem que acabar o gamer

[01:41:50] Eu acho muito louco isso, porque eu sou apaixonada por Tom Brady

[01:41:52] E eu joguei de novo

[01:41:54] Os últimos três, duas vezes seguidas

[01:41:56] Um mês atrás

[01:41:58] E toda vez que eu chego no terceiro

[01:42:00] Não que o primeiro e o segundo não tenham problema

[01:42:02] Mas quando eu chego no terceiro eu já fico

[01:42:04] Agora eu não quero jogar, porque agora eu tenho que matar índio

[01:42:06] Até agora eu tava matando gente

[01:42:08] Branca na Rússia

[01:42:10] Tudo bem, agora eu tô

[01:42:12] Você me quer que eu tire

[01:42:14] Com uma metralhadora num índio

[01:42:16] Que tem um cara indígena que tá com um arc flash

[01:42:18] O jogo é mutuado

[01:42:20] Em todas essas questões sociais

[01:42:22] Desde o primeiro tem coisas que a gente

[01:42:24] Pode criticar já

[01:42:26] Só que chega nesse último e o jogo

[01:42:28] Eu quase não terminei, eu só joguei porque eu paguei pelo jogo

[01:42:30] Eu falei ok, preciso fazer

[01:42:32] Valer esses 250 reais que eu paguei no jogo

[01:42:34] Mas tem muitos problemas

[01:42:36] Isso quer dizer que eu não gosto de videogames?

[01:42:38] Não, quer dizer que eu amo videogames

[01:42:40] E eu fico extremamente decepcionada

[01:42:42] Quando eu vejo um dos meus jogos favoritos fazer esse tipo de coisa

[01:42:44] Sim, e talvez isso às vezes

[01:42:46] Seja só um sintoma também

[01:42:48] Do fato de que a gente usa muitos poucos verbos

[01:42:50] Pra jogar jogos

[01:42:52] Você ainda precisa atirar, você ainda precisa

[01:42:54] Atacar e será que tipo

[01:42:56] Você pode ter uma aventura muito maravilhosa

[01:42:58] Da Lara Croft num ambiente

[01:43:00] Que é realmente

[01:43:02] Não colonizado

[01:43:04] Com diferentes aldeias e diferentes povos

[01:43:06] Ou que seja colonizado, mas que discuta

[01:43:08] Exatamente o fato de que ela é uma mina branca britânica

[01:43:10] Que veio pra América e agora está atirando em indígenas

[01:43:12] Que depois ela vai juntar junto

[01:43:14] Pra ir contra indígenas

[01:43:16] Saber tipo, não

[01:43:18] Você vai jogando, você vai percebendo

[01:43:20] Vai começando, fica muito desconfortável

[01:43:22] Só que é aí que tá

[01:43:24] A visão, a perspectiva média

[01:43:26] Digamos assim, do gamer

[01:43:28] É meio que não olhar pra isso

[01:43:30] É perceber se o controle está legal

[01:43:32] É gostoso atirar

[01:43:34] A animação é legal

[01:43:36] O visual é bonito

[01:43:38] Eu sinto que tudo isso é muito colocado

[01:43:40] Descanteio, o que a Lara Croft

[01:43:42] Está fazendo, o que isso representa

[01:43:44] E justamente talvez porque

[01:43:46] Falta esse tato social, político

[01:43:48] Falta essa noção de que

[01:43:50] Videogames são políticas

[01:43:52] Eles são um produto cultural, eles podem ser

[01:43:54] Tratados como um produto cultural

[01:43:56] Isso envolve a gente falar de sociedade

[01:43:58] Isso envolve falar do que

[01:44:00] As nossas ações nos jogos

[01:44:02] Representam, sabe?

[01:44:04] E também, às vezes virar página, sabe?

[01:44:06] Vamos jogar mais jogos em que a gente

[01:44:08] Não precisa atirar

[01:44:10] Por exemplo, sabe?

[01:44:12] Que tipo de ação, que tipo de história esses jogos estão contando

[01:44:14] E vamos celebrar esses jogos

[01:44:16] Porque normalmente os jogos mais celebrados são justamente

[01:44:18] De tiro, de guerra

[01:44:20] De super herói, de

[01:44:22] Fantasia de poder

[01:44:24] Eu acho que vai continuar perpetuando

[01:44:26] Certos símbolos

[01:44:28] Que são

[01:44:30] Defendidos, eu acho que

[01:44:32] Por essa parte mais tóxica

[01:44:34] Da linguagem

[01:44:36] Só que daí você vai falar isso no Twitter, é zecrado

[01:44:38] Eu só estou falando isso porque eu estou aqui no Anticast

[01:44:40] Mesmo no Overloader tem um pouco

[01:44:42] De dificuldade, às vezes eu me censuro um pouco

[01:44:44] Porque eu não quero ter justamente o problema da Gabi

[01:44:46] De ter que lidar com

[01:44:48] Ameaça, com

[01:44:50] Gente me xingando, sabe? É muito ruim

[01:44:52] Tipo você saber que estão

[01:44:54] Queimando sua imagem lá na internet

[01:44:56] E você não sabe o que você faz

[01:44:58] Sabe? Você fica meio, putz, e agora? Será que eu conto pra alguém?

[01:45:00] Será que eu deixo passar?

[01:45:02] Imagina, e a Gabi

[01:45:04] Ela deve ter

[01:45:06] Desligado a notificação do celular, né? Porque imagina

[01:45:08] Cada segundo deve rolar uma

[01:45:10] Coisa nojenta, né?

[01:45:12] Ela saiu de São Paulo numa reportagem

[01:45:14] Que saiu agora no Wall

[01:45:16] Acho que foi o único site que conseguiu falar

[01:45:18] Com ela até agora

[01:45:20] Ela, no final, ela fala

[01:45:22] Que ela saiu de São Paulo

[01:45:24] Porque ela estava com medo, justamente

[01:45:26] Pela questão dos chance de ficar

[01:45:28] Aqui

[01:45:30] Além de estar sozinha e não ter apoio

[01:45:32] Família, tal, não sei o que, foi pra algum

[01:45:34] Outro lugar que eu imagino que deve ter sido a casa de algum

[01:45:36] Parente, alguma coisa assim

[01:45:38] Pra escapar um pouco desse

[01:45:40] Dessa coisa toda

[01:45:42] Quando acontece é muito pesado

[01:45:44] A pessoa não sabe muito bem como reagir

[01:45:46] Por exemplo, uma vez que eu fui ameaçado

[01:45:48] Eu fiquei meio

[01:45:50] Tipo, na hora eu respondi, eu dei um retweet

[01:45:52] Na ameaça

[01:45:54] E tratei meio como se fosse uma coisa

[01:45:56] Banal, sabe, tipo

[01:45:58] Sabe o chão aqui, não sei o que

[01:46:00] Mas no fundo, aquele negócio ficou

[01:46:02] Aqui dentro, sabe, pesando, e eu fiquei tipo

[01:46:04] Será que isso é real? Eu tinha certeza

[01:46:06] Que não era, sabe, que não ia acontecer nada

[01:46:08] Mas você vai ficar com aquela

[01:46:10] Pulga atrás da orelha, eu não sabia como reagir

[01:46:12] Eu tava no meio dos amigos, namorados

[01:46:14] Eu fiquei tipo, será que eu falo pra eles? Eu acho que não

[01:46:16] Não, sabe, não quero gerar complicação

[01:46:18] Isso foi uma ameaça, imagina, tipo, você receber

[01:46:20] Ameaças o tempo todo, porque você

[01:46:22] Questionou o joguinho de alguém, sabe?

[01:46:24] Eu recebi uma ameaça também através de meme

[01:46:26] E eu fiquei tipo, eu tô lendo

[01:46:28] Esse negócio, certo? Falei, não deve ser

[01:46:30] Aí eu mostrei pro namorado, ele falou, não, isso é uma ameaça

[01:46:32] De morte, aí eu falei, mas é mesmo

[01:46:34] Porque as vezes é um pouco mais dramático do que eu

[01:46:36] Sobre essas coisas, aí eu mandei num grupo de amigos

[01:46:38] Que eu tenho no WhatsApp, que tá nessa hora

[01:46:40] Nesse negócio, as pessoas falam, não é, rolou

[01:46:42] É isso, eu falei, ah tá

[01:46:44] Que bad, né, porque, tipo, é tão banal

[01:46:46] As pessoas falam isso de uma maneira tão banal

[01:46:48] Que mesmo que você fica, tá, isso não vai acontecer

[01:46:50] Você fica, nossa, olha essa merda

[01:46:52] E isso foi antes

[01:46:54] Agora, sabe, tipo, pra mim faz

[01:46:56] Completamente sentido que a Gabi tenha sentido

[01:46:58] Medo pela vida dela

[01:47:00] Sabe, tipo, porque

[01:47:02] Olha tudo que aconteceu, sabe, as pessoas acham

[01:47:04] Que, tipo, as pessoas exageram, até parece

[01:47:06] Ninguém vai fazer nada, não, você não sabe

[01:47:08] A gente já tem exemplo suficiente

[01:47:10] No mundo de pessoas que foram, falaram que iam fazer alguma coisa na internet

[01:47:12] E foram lá e atiraram um monte de gente

[01:47:14] Saca?

[01:47:16] Sim, é

[01:47:18] Bem, eu acho que esse tipo de discussão

[01:47:20] Acaba sendo muito importante justamente pra gente

[01:47:22] Tocar nessa toxicidade

[01:47:24] Tocar nessa ferida

[01:47:26] E falar abertamente

[01:47:28] Sobre tudo isso que tá acontecendo, né

[01:47:30] Tipo, o meio de games eu sinto que ele

[01:47:32] Tem uma dificuldade justamente por isso

[01:47:34] Ah, é o patrocínio que pode deixar de acontecer com a gente

[01:47:36] Ah, mas é porque eu conheço fulão de tal que trabalha na empresa

[01:47:38] Ah, é porque

[01:47:40] Ah, é porque, sei lá, se a gente falar disso

[01:47:42] O nosso público vai embora

[01:47:44] Não, cara, você tem que assumir

[01:47:46] Isso é a comunidade que a gente

[01:47:48] Que a gente trabalha

[01:47:50] São as pessoas que estão ao nosso fedor

[01:47:52] Se a gente não toca

[01:47:54] Nesse problema e não fala abertamente

[01:47:56] Não faz as críticas devidas

[01:47:58] E não se informa, sabe, tipo, justamente

[01:48:00] Pega um livro

[01:48:02] Três indicações de livros

[01:48:04] Excelentes sobre esse tema

[01:48:06] Sobre violência?

[01:48:08] Sobre violência

[01:48:10] Sobre cultura de games ou sobre

[01:48:12] Problemas relacionados

[01:48:14] A comunidade de games

[01:48:16] Ok, você beija a baseira, tá

[01:48:18] Mas é pelos outros autores

[01:48:20] Eu organizei junto com o Lucas Gular

[01:48:22] Que é um pesquisador maravilhoso, psicólogo social

[01:48:24] É um livro chamado

[01:48:26] Videogame Diversidade Gênero

[01:48:28] Que é um panorama de pesquisas de videogame gênero no Brasil

[01:48:30] Então tem contribuição

[01:48:32] De várias autoras, né

[01:48:34] O primeiro de três volumes, esse primeiro a gente focou no trabalho acadêmico

[01:48:36] O próximo vai falar sobre mercado

[01:48:38] E a gente vai ter um terceiro volume sobre militância

[01:48:40] Então, recomendo

[01:48:42] Book, vocês conseguem achar

[01:48:44] Em todas as editoras

[01:48:46] O livro abre com uma entrevista

[01:48:48] Com a autora que eu vou recomendar agora

[01:48:50] Que é Adriana Shaw, ela é maravilhosa

[01:48:52] Especialista em videogame e gênero também

[01:48:54] Questões LGBT principalmente

[01:48:56] Ela tem um livro chamado

[01:48:58] Gaming at the Edge

[01:49:00] Em que ela vai discutir um estudo etnográfico

[01:49:02] Com gamers de minorias

[01:49:04] Então ela vai falar sobre

[01:49:06] Como as pessoas jogam

[01:49:08] E ela vai fazer um estudo bem

[01:49:10] Criterioso sobre o conceito de identificação

[01:49:12] E é muito legal, porque a gente fala muito

[01:49:14] De identificação e representatividade

[01:49:16] Mas a gente não delimita muito academicamente como isso ocorre

[01:49:18] E ela vai discutir isso

[01:49:20] Nos games e a questão da jogabilidade

[01:49:22] Vai aparecer um pouquinho a questão da violência

[01:49:24] E como que isso tem uma influência

[01:49:26] Eu já falei do Derek Bervin

[01:49:28] Então eu não vou recomendar ele de novo

[01:49:30] Já é um terceiro

[01:49:32] O Daytrian é realmente importante

[01:49:34] Porque ele vai discutir

[01:49:36] Masculinidade, e eu acho que a gente não discute muito

[01:49:38] Masculinidade, a gente discute muito

[01:49:40] Questões da representação feminina

[01:49:42] Mas a gente não discute masculinidade

[01:49:44] E eu acho que os homens ainda tem uma dificuldade

[01:49:46] De se ver inseridos nesse

[01:49:48] Nesse contexto

[01:49:50] Eles entende

[01:49:52] Quando eles entendem o problema

[01:49:54] Da representação feminina, muitas vezes eles não fazem

[01:49:56] O link de o que isso tem a ver

[01:49:58] Com eles e das consequências ruins que isso tem pra eles

[01:50:00] E quando não entendem, não chegam nem perto

[01:50:02] E eu acho que o legal do Derek Bervin

[01:50:04] E do Daytrian

[01:50:06] É que ele vai falar que isso implica numa certa

[01:50:08] Infantilização dos homens

[01:50:10] Que não é legal também

[01:50:12] É aquilo que eu falei, porque que a gente tem que ter esse consumo tão infantilizado

[01:50:14] De produtos culturais

[01:50:16] Eu acho isso uma droga total

[01:50:18] E aí vou deixar uma indicação extra

[01:50:20] Então, não é bem livre, mas procurem

[01:50:22] Tem disponível online a tese do

[01:50:24] Lucas Goulart

[01:50:26] Que é jogos vivos para pessoas vivas, a tese de doutorado dele

[01:50:28] Ele foi estudar

[01:50:30] A cena queer

[01:50:32] Em Berkeley

[01:50:34] E ele falou com todas as principais desenvolvedores

[01:50:36] E isso aparece no trabalho dele

[01:50:38] Inclusive, ele faz uma crítica bem interessante da cena

[01:50:40] E ele traz muitas questões de masculinidade

[01:50:42] De construção de identidade no trabalho dele também

[01:50:44] Então é bem legal

[01:50:46] Eu quero fazer uma recomendação também, que não é específica

[01:50:48] Sobre videogame, mas que fala muito sobre

[01:50:50] Narrativa e feminino

[01:50:52] E eu acho que tem tudo a ver com o que a gente conversou aqui

[01:50:54] Que é o livro A Jornada da Heroína

[01:50:56] De Murdock, que vai falar justamente

[01:50:58] Sobre criação de narrativas

[01:51:00] Que representam mulheres de forma

[01:51:02] Correta, digamos assim

[01:51:04] Muito fazendo um paralelo com

[01:51:06] A Jornada do Herói, que a gente já conhece

[01:51:08] Que tem muito nos videogames e tudo mais

[01:51:10] Acho que é uma leitura bem interessante

[01:51:12] Legal, você tem alguma recomendação?

[01:51:14] Eu vou recomendar um livro que eu não como internet

[01:51:16] Não estou conseguindo lembrar o nome do autor

[01:51:18] Mas que se chama Angry White Man

[01:51:20] Que é exatamente uma análise

[01:51:22] Sobre essa questão do homem

[01:51:24] E masculinidade

[01:51:26] E como isso afeta a sociedade

[01:51:28] Como isso afeta ele, etc

[01:51:30] É do Marshall Kimmel

[01:51:32] Legal, eu vou deixar também uma recomendação

[01:51:34] Tem um canal no Youtube que eu gosto bastante

[01:51:36] O Pop Culture Detective

[01:51:38] Do Jonathan McIntosh

[01:51:40] Ele tem uma série de vídeos

[01:51:42] Tocando bastante

[01:51:44] Na questão da masculinidade

[01:51:46] Aliás

[01:51:48] Masculinidade é o termo mais correto

[01:51:50] Desfalar, tipo masculinidade no meio

[01:51:52] A gente costuma falar em masculinidade

[01:51:54] As representações

[01:51:56] Sim, as diferentes representações de masculinidade

[01:51:58] No meio de games

[01:52:00] De quadrinhos

[01:52:02] De cultura pop em geral

[01:52:04] E ele explora bastante essa questão

[01:52:06] Da toxicidade

[01:52:08] De como o próprio homem é vítima do machismo

[01:52:10] Obviamente de uma maneira diferente

[01:52:12] Da mulher, de outras minorias

[01:52:14] Mas como o machismo

[01:52:16] Rebate no homem

[01:52:18] E como ele acaba replicando isso

[01:52:20] Dessa

[01:52:22] Que ele absorve

[01:52:24] E ele tem um vídeo muito legal chamado

[01:52:26] The Unfulfilled Potential of Video Games

[01:52:28] Que ele também toca muito nessa questão

[01:52:30] Dos verbos que a gente usa

[01:52:32] Em como o videogame

[01:52:34] Tem toda uma linguagem

[01:52:36] Que é muito sobre replicar o que a gente já conhece

[01:52:38] E a gente acaba deixando todo o universo maravilhoso por trás

[01:52:40] E que também está muito relacionado

[01:52:42] A essa questão da masculinidade

[01:52:44] Eu acho que é isso, gente

[01:52:46] A gente tocou em vários aspectos

[01:52:48] Tem um canal de Youtube que é nacional

[01:52:50] É o canal do Léo Rouan

[01:52:52] Ele fala sobre cultura pop de maneira geral

[01:52:54] E ele fala muito sobre sentimentos e sobre masculinidade

[01:52:56] E sobre como as coisas

[01:52:58] Como ele se sente

[01:53:00] Como o homem se sente, etc. É muito legal

[01:53:02] Léo é um fã

[01:53:04] Maravilhoso, ele tem uma série inteira sobre masculinidade

[01:53:06] Fazendo muito paralelo com a cultura pop, é bem legal

[01:53:08] Que bom

[01:53:10] Então acho que é isso

[01:53:12] A gente acabou abordando bastante coisa

[01:53:14] Teve umas coisinhas que eu acabei não conseguindo colocar

[01:53:16] Mas a gente falou por duas horas, acho que é suficiente

[01:53:18] Espero que a gente tenha alcançado algumas pessoas

[01:53:20] E gerado uma certa reflexão

[01:53:24] Gente, eu queria agradecer imensamente vocês

[01:53:26] Vou deixar um tempinho pra cada uma

[01:53:28] Fazer um jabazinho, falar das suas redes sociais

[01:53:30] Quer começar, Bia?

[01:53:32] Pode ser, eu já fiz o jabá do livro aí

[01:53:34] Então, né?

[01:53:36] Eu adoro agora que eu tenho o livro

[01:53:38] Que quando está rolando treta de videogame, eu vou lá

[01:53:40] Agora eu não brigo mais, eu faço o jabá, eu falo

[01:53:42] Gente, vocês querem entender o problema?

[01:53:44] Super…

[01:53:46] Marketing de oportunidade

[01:53:48] Eu estou no bonuscast, né?

[01:53:50] Sempre

[01:53:52] Então é um podcast, a gente está tentando fazer ele

[01:53:54] Quinzenal

[01:53:56] Tá indo

[01:53:58] De vez em quando eu contribuo também com o Holodeck

[01:54:00] Com o podcast Game Design

[01:54:02] Também quem quiser conhecer tem o Atac

[01:54:04] O Atac tá em suspenso por um tempinho

[01:54:06] Mas eu participei de vários episódios

[01:54:08] É um podcast que discute videogame

[01:54:10] Do ponto de vista da esquerda

[01:54:12] Ele é bem interessante, a proposta é discutir videogame

[01:54:14] Política da esquerda

[01:54:16] Sempre com vários convidados

[01:54:18] E quem quiser me seguir no twitter é

[01:54:20] Arroba B3a Blanco

[01:54:22] É B a Blanco com 3 no lugar do E

[01:54:24] É isso

[01:54:26] Rebeca

[01:54:28] Bom, eu escrevo no nebula.co

[01:54:30] Nebula com dois Ls

[01:54:32] A gente está em todas as redes sociais

[01:54:34] Nebula, underline, co

[01:54:36] E o meu twitter pessoal

[01:54:38] Arroba sailor, underline, pizza

[01:54:40] Muito bom

[01:54:42] E a gente tem vários vídeos

[01:54:44] Vários textos falando sobre videogames

[01:54:46] E com essa abordagem de crítica

[01:54:48] Social e etc

[01:54:50] E bastante

[01:54:52] Tem alguns vídeos no youtube também falando sobre essas coisas

[01:54:54] Legal

[01:54:56] Letícia

[01:54:58] Bom, eu faço muita coisa

[01:55:00] Então eu acho que o mais fácil a dizer pra me seguir no twitter

[01:55:02] Arroba Leticíneos

[01:55:04] Tipo Laticínio só que Letícia

[01:55:06] Porque eu sou muito criativa

[01:55:08] A gente tem um grupo

[01:55:10] Junto com a Flávia Gaza que é uma pesquisadora

[01:55:12] Que é muito conhecida

[01:55:14] No meio de games e tal que chama Joy

[01:55:16] Jogos digitais imaginário

[01:55:18] A gente pesquisa até um pouco isso que você falou Rick

[01:55:20] Sobre o videogame

[01:55:22] O atirar, o pular, o correr

[01:55:24] O alcançar, enfim

[01:55:26] Acho que também pode ser uma leitura

[01:55:28] Interessante, quem quiser conhecer é

[01:55:30] Arroba Joy Grupo

[01:55:32] Acho que é isso

[01:55:34] Eu acho que sim

[01:55:36] Eu sou Henrique Sampaio do Overloader

[01:55:38] Você pode me seguir

[01:55:40] No twitter

[01:55:42] Com Arroba Rick Sampaio

[01:55:44] R-I-Q-U-E

[01:55:46] Ou Arroba Overloader

[01:55:48] BR no twitter

[01:55:50] Mas em geral nas redes sociais

[01:55:52] Meu perfil pessoal é Arroba Rick Sampaio

[01:55:54] No Overloader

[01:55:56] A gente está atualmente mais focado em podcast

[01:55:58] Mas ano passado por exemplo eu publiquei

[01:56:00] Uma série de vídeos sobre

[01:56:02] Jogos e política, essa relação

[01:56:04] É um tema que na verdade estou retomando

[01:56:06] Estou querendo trabalhar

[01:56:08] Novamente na forma de vídeo, em podcast

[01:56:10] Então fica de olho no Overloader

[01:56:12] Que tem coisas bem legais

[01:56:14] Que a gente está para lançar provavelmente agora

[01:56:16] No comecinho de agosto

[01:56:18] E eu queria deixar também o meu agradecimento

[01:56:20] Ao Ivan Mizanzuc

[01:56:22] Que fez esse convite a mim

[01:56:24] Acho que ele viu ali que eu estava me envolvendo

[01:56:26] Com o tema no twitter

[01:56:28] E a gente comentou recentemente

[01:56:30] Alguma coisa do caso Evandro

[01:56:32] Eu fiz uma piadinha, ela falou que era Twin Peaks

[01:56:34] Ele comentou e tal, acho que ele lembrou de mim na hora

[01:56:36] Então aconteceu

[01:56:38] Que ele fez esse convite e eu fiquei muito feliz

[01:56:40] Muito, muito, muito grato, porque eu acho que é um tema importante

[01:56:44] Eles cedeu esse espaço, permitiu que a gente discutisse

[01:56:46] Então muito obrigado Ivan

[01:56:48] E novamente

[01:56:50] Obrigado a todos vocês

[01:56:52] Eu acho que é isso, tchau

[01:56:54] Até a semana que vem, olha se faltou alguma coisa

[01:56:56] Tchau

[01:56:58] Eu acho que é isso

[01:57:00] Beijos

[01:57:02] Tchau