#41 - Livro Sobre-posições (de Marcos Beccari)


Resumo

Neste episódio especial do podcast Não Obstante, os hosts Daniel Portugal e Rogério de Almeida recebem o professor e artista Marcos Beccari para discutir o lançamento de seu livro ‘Sobre-posições’. A obra, publicada pela editora Aspid através de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, é apresentada como um projeto que vai além de um simples livro, incluindo um kit com prints de aquarelas e pôsteres.

A conversa explora a gênese do livro, que reúne ensaios filosóficos escritos ao longo de três anos, refletindo sobre a própria prática artística de Beccari. Os participantes destacam como o livro aborda a sobreposição entre a atividade acadêmica (filosofia) e a artística (pintura), problematizando a dicotomia entre texto e imagem, conceito e técnica. A decisão de publicar as aquarelas em preto e branco no miolo do livro é discutida como uma estratégia para evitar que as imagens coloridas disputem a atenção com o texto escrito, criando um diálogo gráfico paralelo.

Os ensaios são analisados em seu conteúdo filosófico, com ênfase na ideia de que os modos de ver são aprendidos e não naturais, uma reflexão que beira o perspectivismo nietzschiano. Discute-se também o lugar da pintura realista figurativa na contemporaneidade, questionando por que pintar pessoas hoje e qual o sentido de se manter fiel a uma tradição considerada por alguns como ultrapassada. Beccari argumenta que sua pintura busca capturar o ‘rastro’ humano, a microfísica do cotidiano, em oposição a macroestruturas históricas.

A conversa também aborda a relação entre arte e projeto, criticando a imposição de uma lógica conceitual e proposital que muitas vezes domina o cenário artístico atual. Beccari defende a intuição e a técnica como elementos centrais de sua prática, sem necessariamente submeter-se a um ‘projeto’ definido. O episódio termina com um apelo para o apoio à campanha do livro, destacando a importância da amizade e do diálogo entre os participantes na construção do trabalho de Beccari.


Indicações

Artists

  • Wendy Sherman — Fotógrafa contemporânea citada por Beccari como uma artista que ele admira e comenta em seu livro.
  • Jane Saville — Artista contemporânea mencionada por Beccari como uma das que ele comenta em seus ensaios.

Books

  • Articulações Simbólicas — Livro acadêmico anterior de Marcos Beccari, orientado por Rogério de Almeida e com prefácio de Daniel Portugal, mencionado como contraste ao estilo ensaístico de ‘Sobre-posições’.
  • As Bestas Dentro de Nós — Primeiro livro publicado pela editora Aspid, de Daniel Portugal, mencionado como o lançamento anterior da editora.

People

  • Sionara — Escritora paranaense, amiga de Marcos Beccari, que o incentivou a escrever sobre pintura. Um de seus textos, ‘Esclarecimentos gerais sobre a técnica de gerar um truque’, foi incluído no livro com sua permissão.
  • Marcel Duchamp — Artista citado por Beccari como um de seus preferidos, admirado por sua atitude e por questionar as convenções artísticas de forma genial e intuitiva.
  • Edgar Morin — Filósofo francês cujo retrato foi pintado por Beccari para ilustrar uma entrevista em uma revista, causando grande fascínio nos envolvidos.

Linha do Tempo

  • 00:03:08Apresentação do projeto do livro e da campanha — Daniel Portugal, como editor, apresenta o livro ‘Sobre-posições’ de Marcos Beccari. Ele descreve o projeto como mais que um livro, incluindo um kit com ensaios, aquarelas em preto e branco no miolo, prints coloridos e pôsteres. A campanha de financiamento coletivo no Catarse é lançada em conjunto com este episódio. A editora Aspid, focada em humanidades e áreas criativas, está publicando a obra.
  • 00:07:51Marcos Beccari explica a origem e o tema do livro — Marcos Beccari agradece aos amigos e explica que o livro é uma coletânea de ensaios filosóficos sobre seu próprio trabalho artístico, escrito nos intervalos ao longo de três anos. O título ‘Sobre-posições’ refere-se às diferentes posições que ele ocupa (professor, aquarelista) e à ideia de sobrepor a pintura e a escrita no mesmo plano. Os ensaios são subjetivos e refletem suas impressões sobre pintura, estilo e a relação entre imagem e discurso.
  • 00:19:48Discussão sobre os modos de ver e a filosofia por trás da pintura — Rogério de Almeida e Daniel Portugal argumentam que o livro de Beccari vai além de reflexões técnicas sobre pintura, defendendo posições filosóficas claras sobre as artes. Eles destacam a questão do ‘império da visão’ na modernidade e a ideia de que a representação não é mera imitação, mas uma ‘gramática do espaço’ que fornece coordenadas para ver. O perspectivismo e a hermenêutica trágica são apontados como camadas de fundo da reflexão.
  • 00:37:57A impossibilidade de separar o visual do verbal e a questão do truque — Beccari desenvolve a ideia de que é impossível separar rigidamente a linguagem visual da verbal, pois ambas são aprendidas e se contaminam mutuamente. Ele introduz o conceito de ‘truque’ ou ‘encenação’, inspirado por um texto da escritora Sionara incluído no livro. A encenação é vista como um aspecto fundamental da pintura realista, da literatura e até das relações humanas, onde convenções são assumidas e levadas a sério, mesmo sabendo-se de seu caráter convencional.
  • 00:49:40Por que pintar pessoas e realismo figurativo hoje? — Rogério de Almeida questiona por que Beccari pinta pessoas e adota o realismo figurativo na contemporaneidade. Ele observa que as pinturas de Beccari frequentemente mostram figuras humanas em cenas triviais, com fundos desfocados, destacando o ‘humano’. Beccari responde que seu fascínio está em entender por que as pessoas ainda se fascinam com a figura humana e em capturar o ‘rastro’ da existência cotidiana, em uma afirmação trágica da vida (amor fati), opondo-se a leituras macro-históricas da arte.
  • 01:15:11Crítica à imposição do ‘projeto’ e da arte conceitual — A conversa critica o paradigma atual na arte que exige um ‘projeto’ ou conceito definido para validar a obra. Beccari comenta que frequentemente é questionado sobre o ‘projeto’ de suas pinturas e admite não ter um no sentido convencional. Ele e os hosts argumentam que essa exigência impõe uma racionalidade excessiva, desprezando a intuição e o prazer na criação. A valorização puramente financeira da arte e a dificuldade de formação do olhar do público também são problematizadas.
  • 01:32:54Estrutura do livro e considerações finais — Rogério de Almeida comenta a estrutura inventiva do livro, dividido em partes com títulos brincalhões como ‘Preâmbulo(s)’, ‘Das (im)precisões’, ‘Termos com sentidos’ e ‘Conclusões (inclusões)‘. Ele destaca ensaios específicos e a leitura prazerosa. Beccari explica que buscou abraçar o caráter ensaístico também nos títulos. O episódio se encaminha para o encerramento com um apelo final para o apoio à campanha do Catarse e reflexões sobre a importância da amizade e do diálogo entre os três para o desenvolvimento do trabalho de Beccari.

Dados do Episódio

  • Podcast: Não Obstante
  • Autor: Marcos Beccari
  • Categoria: Society & Culture Philosophy
  • Publicado: 2019-09-06T07:11:29Z
  • Duração: 01:48:49

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Você está ouvindo, não obstante, um podcast sobre filosofia e outras ficções.

[00:00:12] Começando, mas não obstante, eu sou Daniel Portugal e estou aqui, como sempre, com Marcos

[00:00:36] Beccari. Oi, oi, tudo bom? E Rogério de Almeida. Olá, tudo bem? Hoje o time completo aí do

[00:00:44] Não Obstante. Isso. É, num programa especial pra falar do livro do Marcos Beccari sobre

[00:00:51] aposições, que está sendo lançado agora por uma campanha de financiamento coletivo no Catarse.

[00:00:59] Pela editora Aspid. Exatamente, pela editora Aspid, que é uma editora da qual eu faço

[00:01:06] um podcast junto com o Vandy Haag, da Edge, que trabalha junto comigo. E enfim, é o segundo

[00:01:12] lançamento. O primeiro foi um livro meu, que os ouvintes já devem ter conhecido. E agora,

[00:01:19] segundo lançamento, é esse livro do Marcos, que é um projeto que eu, pelo menos, fiquei

[00:01:26] realmente muito feliz com ele. A gente vai falar um pouco mais. Mas antes de continuar,

[00:01:31] a pauta, vamos antes pros recados, né, Marcos? Sim, antes eu só quero agradecer vocês já de início,

[00:01:38] enfim, pelo, sei lá, pelo prazer aqui de lançar o livro comigo e de contar também

[00:01:46] com vocês dois no próprio livro, né, que tem um prefácio do Rogério e um postfácio do Daniel.

[00:01:52] Então, obrigado de novo aí pela amizade. Eu te agradeço. Que isso, é um prazer. Bom,

[00:02:00] de recados, é só hoje o de sempre. Seja patrão do Anticast, com uma contribuição mensal,

[00:02:07] você ajuda a nós do Não Bistante e toda a família do Anticast a continuar fazendo o

[00:02:15] trabalho que a gente faz, apagando a edição do Felipe Ares, enfim, mantendo a periodicidade.

[00:02:22] Faz tempo que a gente não grava, a gente pede desculpas, mas tá difícil, né? Tá até

[00:02:30] esse semestre, esse ano, tá sendo enrolado. Pois é. E claro, o próprio lançamento da

[00:02:38] campanha já é uma boa desculpa. Dá trabalho fazer isso aí. Mas então seja patrão que a

[00:02:46] falta é gravar com mais freqüência. É isso aí. Isso aí é tipo dinheiro primeiro, né?

[00:02:55] As coisas tão difíceis, né? Todo mundo é professor aqui, a gente tá fodido.

[00:03:01] Bom, então, vamos direto aí pra pauta, tá certo?

[00:03:08] Então, vamos falar um pouco da campanha do livro. É claro que o mais indicado pra começar a

[00:03:23] falar do livro é o próprio Marco, que é o autor, mas antes de passar a palavra, de repente

[00:03:29] eu queria falar um pouco como um dos editores aqui. Então o livro, como eu tava dizendo antes

[00:03:37] é um projeto que foi se desdobrando, então ele não é apenas um livro, ele é muito mais que um

[00:03:44] livro, porque ele é um livro de ensaios no qual não há apenas texto, mas também diversas

[00:03:50] aquarelas do Marcos. Essas aquarelas no miolo do livro, né? Tão em preto e branco,

[00:03:55] dialogando em termos de gráficos com o texto de maneira muito interessante. E aí acompanhando,

[00:04:01] a gente ficou pensando junto essa questão das aquarelas em preto e branco, e é claro,

[00:04:07] todo mundo também quer ver as aquarelas coloridas, então a decisão de colocar as

[00:04:12] aquarelas em preto e branco no miolo foi de colocar também um kit de prints dessas aquarelas

[00:04:19] em anexo, ou seja, então o kit inclui um livro que tem esse conjunto de ensaios do

[00:04:28] Marcos sobre, ele vai falar mais um pouco agora, mais sobre questões ligadas à visualidade,

[00:04:34] à pintura, etc. Então reflexões relacionadas à aquarela, diversos trabalhos dele, diversas

[00:04:43] aquarelas, dialogando graficamente com o texto. Esse conjunto de prints das aquarelas,

[00:04:51] que tem esse mesmo tamanho do livro, que é um tamanho um pouco maior do que um livro normal,

[00:04:55] ele tem 24 por 18, então um tamanho legal, um tamanho que chama a atenção. Tem esse kit com

[00:05:04] 8 prints e envolvendo o kit e também como sobrecapa do livro, tem dois pôsteres com

[00:05:11] aquarelas do Marcos também coloridos, claro. Então a gente achou que esse conjunto proporcionava

[00:05:20] um contato bastante interessante, de várias maneiras, com o trabalho do Marcos. É isso,

[00:05:27] Marcos, apresentei? Apresentei bem. Excelente, obrigado. E excelente também essas ideias todas,

[00:05:33] que eu acho interessante dizer que a maior parte delas veio do próprio Daniel.

[00:05:39] Não, que maior parte do quê, Marcos? Eu só dei uma sugestão. Tudo isso, esse projeto

[00:05:46] enfim, se deve muito ao Daniel e a editora Aspid, que só retomando também um pouco da editora,

[00:05:54] que tem a proposta de publicar livros nas áreas de humanidade, um pouco de filosofia,

[00:06:02] principalmente, e áreas criativas. Então design, comunicação, filosofia, psicologia, sociologia,

[00:06:12] enfim. E é uma honra para mim publicar o segundo livro da editora, porque o primeiro já foi o

[00:06:21] melhor livro possível, que é As Bestas Dentro de Nós. A gente já fez um podcast a respeito.

[00:06:28] A gente já fez um podcast. Que ficou excelente. Mas esse aí é comentário de amigo.

[00:06:33] Mas aqui a gente tá quase uma máfia aqui. Diga lá, Daniel.

[00:06:43] Não, mas só pra não perder o momento. Então o livro tá sendo lançado agora, ou seja, a gente

[00:06:51] tá lançando esse programa junto com a campanha do livro. Quem tá escutando agora, logo que

[00:06:58] esse programa foi lançado, tem a oportunidade de ser um dos primeiros a contribuir com a

[00:07:03] campanha. A gente vai deixar o link abaixo, na descrição do programa. E aí entrem lá e vocês

[00:07:13] vão ver com mais detalhes também o que a gente preparou. Então há diversas recompensas.

[00:07:19] A ideia é que vocês contribuam com a campanha e com essas contribuições,

[00:07:24] há diversas recompensas também, dependendo da contribuição que cada um fizer. E aí,

[00:07:30] além desse kit que é a recompensa principal, que eu falei agora há pouco, tem também algumas

[00:07:38] aquarelas originais do Marcos e outras coisas bem interessantes. Então vale a pena conferir.

[00:07:44] Bom, mas então Marcos, será que você quer começar falando um pouquinho sobre o que

[00:07:51] que é o livro? Como é que surgiu a ideia? Aliás, eu agradeço isso. Você já antecipou

[00:07:59] algumas coisas do objeto, do kit, do que a gente preparou do projeto todo. E eu acho,

[00:08:08] assim, independente do fato da gente ser amigo e tal, é legal de publicar na Ásped por ser uma

[00:08:17] editora voltada para filosofia. Porque o livro é, por mais confuso que isso possa

[00:08:24] ser, um livro que é sobre, ao mesmo tempo, filosofia e pintura. E, bom, não é tão confuso,

[00:08:33] não é tão incomum, mas é isso. É um livro que, na verdade, é uma coletânea de ensaios

[00:08:39] filosóficos sobre o meu próprio trabalho artístico. E esse formato, propriamente,

[00:08:47] é uma coisa que não foi exatamente da minha parte pensado desde o início, mas eu acho que

[00:08:55] ele não poderia casar, ele não poderia ser melhor, porque são ensaios que, a princípio,

[00:09:02] eu acho que eles parecem dispersos, mas no conjunto eles acabam dialogando entre si,

[00:09:08] seja pela repetição de temas, pela repetição até de reflexões e argumentos que eu dou,

[00:09:14] e seja pelo diálogo com as aquarelas que estão dentro do livro. Aliás, as aquarelas estão em

[00:09:20] preto e branco, isso também é uma questão interessante de dizer, não apenas pelo custo da

[00:09:25] impressão, que é a suposição mais óbvia que o pessoal pode fazer, e, sim, tem um pouco a

[00:09:32] ver com isso, para não ficar tão caro o livro, mas principalmente porque o aspecto colorido das

[00:09:41] aquarelas, isso foi uma coisa que a gente refletiu junto, pode chamar a atenção de uma forma que

[00:09:48] gera uma disputa, meio desigual, digamos assim, entre as figuras e o texto. Então, na verdade,

[00:09:55] eu estava com receio, por exemplo, que o livro ficasse como se fosse um livro portfólio ou um

[00:10:03] livro assim, dando mais ênfase às minhas pinturas do que ao que eu tenho a dizer sobre elas,

[00:10:11] enfim, como se fosse um livro do artista e tal. Como se fosse um catálogo, né? Como se fosse um

[00:10:15] catálogo. Isso, um catálogo, é. Isso, eu acho que já queria pegar o gancho aqui,

[00:10:20] por favor. Porque às vezes o autor acaba sendo um pouco acomedido no modo de apresentar

[00:10:29] o livro, a própria obra, e ele acaba representando. Eu acho que o livro, ele é bastante orgânico,

[00:10:38] ele tem uma relação bastante grande entre os ensaios que fazem parte dele, tem extensões

[00:10:48] diferentes, abordagens diferentes, mas elas são complementares, estão bem relacionados. E

[00:10:54] se sustentam muito bem num texto paralelo que é desenvolvido com as aquarelas reproduzidas.

[00:11:03] Então é interessante notar que as aquarelas aparecem em tamanhos diferentes, ou seja,

[00:11:10] mantém uma relação de segundo grau com a aquarela original no que diz respeito ao tamanho. Ela

[00:11:17] às vezes aparece também recortada, ou seja, não é a imagem completa, então é um fragmento.

[00:11:23] Ela não está diretamente ligada ao texto, por isso que ela corre em paralelo. Então é

[00:11:32] muito interessante, inclusive, quando você cita uma determinada obra, e a gente não vai ver

[00:11:39] essa obra ilustrada no livro, porque não é um livro ilustrado, quer dizer, ele não vai,

[00:11:46] as aquarelas não vão ilustrando o que está sendo dito, mas elas perfazem justamente um

[00:11:51] texto paralelo que forma uma rede. E é claro que nos dias que correm é muito mais fácil

[00:12:02] você acompanhar as aquarelas reproduzidas nas redes sociais, principalmente no Instagram,

[00:12:09] o Marcos tem milhões de seguidores, enfim. Então as pessoas acompanham as aquarelas e é

[00:12:17] praticamente uma por dia, então a gente tem uma quantidade bastante grande de material para ver

[00:12:25] como aquarelas para serem vistas como aquarelas. A proposta do livro é diferente, é justamente

[00:12:31] entreter essas duas camadas de texto, vamos dizer assim, com o texto escrito e com o texto,

[00:12:40] vamos dizer assim, emagético. Então há um equilíbrio muito grande de modo que eles não

[00:12:46] concorrem. Então a experiência da leitura, eu acho que é uma experiência muito bacana

[00:12:54] Então é um livro gostoso de ler pelo modo como essa experiência vai sendo propiciada e o fato de

[00:13:05] não ter cores é muito interessante tanto do ponto de vista dessa estratégia de não concorrer

[00:13:14] com o texto, mas também certo modo dando uma outra dimensão para o trabalho que é realizado,

[00:13:24] porque no fundo a gente vai ver uma aquarela para buscar aquela explosão de cores. A paleta

[00:13:31] do Marcos eu acho que é bastante característica, tem um estilo que é perceptível, que a gente

[00:13:39] consegue reconhecer e quando você tira isso num livro chamado sobreposições, é como se tivesse

[00:13:47] uma suposição aí no caso das cores. Então eu acho que há um subtexto assim, de certo modo,

[00:13:55] que tensiona o que o livro apresenta e também não deixa de ter uma certa ironia com isso mais

[00:14:04] Poxa, perfeito, obrigado Rogério, eu não poderia explicar melhor, na verdade, sabe,

[00:14:12] quando o amigo explica melhor o que você fez, assim, do que…

[00:14:17] É porque é a sensação da leitura, né? E como você havia me mostrado já os primeiros esboços,

[00:14:27] eu tive esse privilégio de ler ainda. Sim, acompanhado desde o início.

[00:14:31] O material foi modificado, enfim, então isso ficou pelo menos assim da sensação da leitura

[00:14:38] e é isso que eu queria compartilhar com quem está nos ouvindo.

[00:14:41] Legal, e aliás isso Rogério, é interessante que você acompanhou desde o início, o Daniel

[00:14:47] também, de dizer que eu acho que faz uns três anos que eu tô trabalhando nesse livro,

[00:14:53] só que assim, quando eu imagino quando eu falo que faz uns três anos, o pessoal pode

[00:15:00] pensar que é um livro gigante, e não é. Na verdade, se vocês veem o texto isoladamente,

[00:15:06] ele não passa de 70 laudas de Word, mas é porque o livro foi escrito nesses últimos anos

[00:15:15] nos intervalos mesmo, eu tinha em alguns momentos no início a pretensão mesmo de escrever

[00:15:23] um livro sobre pintura, um livro linear, enfim, como a estrutura de começo, meio e fim,

[00:15:28] só que eu nunca tive tempo de sentar e fazer isso, desde o início, e pensar no argumento,

[00:15:34] em algo nesse sentido. E daí eu fui escrevendo esses ensaios, e daí no final eu fui percebendo

[00:15:42] junto com o Rogério e o Daniel que eles têm algum sentido, alguma relação entre

[00:15:48] si que daria para manter eles dessa forma. E aí, assim, sobre o título, sobre posições,

[00:15:54] tem vários sentidos ali, mesmo essa ideia que o Rogério tá dizendo das cores, ou seja,

[00:16:02] da escolha de não ter cor nas aquarelas, eu falo um pouco no final do livro até do

[00:16:12] porquê que o cinza é uma coisa, é uma cor interessante. O cinza, que é a cor preto e

[00:16:19] com um modo assim de tentar, não é exatamente equilibrar, mas meio que achatar as cores e

[00:16:28] as reflexões e mostrar como tudo tá no mesmo plano. E as sobre posições,

[00:16:36] ela tem um pouco essa ideia, e claro, também tem vários sentidos que eu vou explorando ao

[00:16:41] final do livro para explicar esse título sobre posições, mas assim, tentando ser mais

[00:16:47] pessoal, talvez, uma questão que sempre foi, que nesses últimos anos eu sempre

[00:16:58] fiquei hesitando e me questionando, era justamente sobre essas duas atividades que

[00:17:05] eu faço, que é a atividade acadêmica, em que eu gosto de estudar filosofia e desenvolver

[00:17:11] pesquisas filosóficas, e essa atividade da pintura. Então, esse dilema entre a

[00:17:18] pintura e escrita, essa entre a docência e a minha atividade artística, e mesmo a própria

[00:17:28] porquê que eu faço pinturas realistas, no sentido figurativo, porquê que adoto

[00:17:35] esse estilo, eram questões que, pessoalmente, assim, me preocupavam. Preocupavam assim,

[00:17:40] né? Eu queria, assim, pensar sobre isso, porque as pessoas me perguntavam, eu sempre

[00:17:47] não sabia responder direito, e esse livro veio um pouco como essa necessidade. Então,

[00:17:52] essa sobreposição, a ideia de sobre posições, ela reflete de imediato essa questão. O título

[00:18:02] é sobre posições separado por ifens, então é sobre ifen posições. São posições diferentes,

[00:18:09] de início, posições diferentes que eu desempenho, como professor, aquarelista,

[00:18:17] mas também posições diferentes, assim, no texto é uma posição que a gente tem que adotar

[00:18:22] diante de um texto, diante da pintura, parece que é outra posição, e a ideia, daí vem

[00:18:30] esse segundo sentido de sobre posições, que é de sobrepor mesmo, de colocar uma coisa em cima

[00:18:36] da outra e ver como, na verdade, elas se relacionam no mesmo plano, elas podem se

[00:18:42] relacionar no mesmo plano. Então, acho que essa é a principal questão, ou mote, ou escopo,

[00:18:49] melhor dizendo, do livro, que é a sobreposição da pintura coescrita, nesse plano das imagens,

[00:18:56] com o plano das ideias, talvez, ou dos discursos, e claro, isso sempre na primeira pessoa,

[00:19:05] então os ensaios são bastante subjetivos, eu assumo mesmo, são impressões que eu tenho

[00:19:15] sobre o que eu faço, sobre o modo como eu, sei lá, escolho os temas, ou o modo como eu vejo

[00:19:25] os outros artistas ao longo da história, da arte. Mas eu ainda acho que você tá sendo,

[00:19:32] ainda acho de novo, você tá sendo modesto ao tentar explicar, ou falar um pouco do seu

[00:19:40] estilo, e aí nesse sentido acaba, pra quem tá ouvindo, por exemplo, dando a impressão de que

[00:19:48] você, efetivamente, tá tratando diretamente sobre a sua pintura, o modo como você pinta,

[00:19:59] então, de repente, quem tá ouvindo pode imaginar que você diz… É como mistura

[00:20:05] técnica. Isso, aquela coisa assim, tipo, eu acendo um incenso, coloco uma música fina,

[00:20:17] e aí eu começo a abrir as portas da percepção, e aí eu tô brincando aqui um pouquinho pra tentar

[00:20:33] trazer assim um elemento que eu acho que é muito interessante, que na verdade, sim,

[00:20:39] não é só as reflexões de como você pinta, ou de como você vê determinados

[00:20:44] cores ou pintura, eu acho que você acaba fazendo um livro mesmo que defende posições filosóficas

[00:20:51] muito claras em relação às artes, né, e a pintura como uma dessas artes, mas sobretudo

[00:20:57] sobre a questão, vamos dizer assim, do império da visão, que se alastrou a partir da modernidade,

[00:21:03] né, então, isso não aparece, digamos assim, de uma forma ostensiva no seu texto,

[00:21:10] e quando você discute a questão do perspectivismo, por exemplo, ou da obra renascentista, fica claro

[00:21:18] isso, quer dizer, muda um modo de organizar o espaço em que, sobretudo, se passa a valorizar

[00:21:26] a visão, né, e eu acho que a gente pode concordar que no primeiro momento, quando o

[00:21:32] livro surge ali com a revolução de Gutenberg, o predomínio era oral, né, a gente vinha de uma

[00:21:39] forma oral, então, por exemplo, nas academias você tinha a defesa de tese que era oral,

[00:21:44] que é um resquício que permanece até hoje, mas a gente sabe que a defesa de tese é textual,

[00:21:53] você considera o texto, se o autor gaguejou ou não respondeu muito bem às perguntas,

[00:21:58] isso não vai impactar diretamente na avaliação, né, porque o importante é a textual, mas,

[00:22:05] os livros eram livros em voz alta, né, depois de um tempo é que você passa para a leitura

[00:22:11] silenciosa em que predomina a atividade visual, e isso sem contar para proliferação, né,

[00:22:18] de telas, pinturas, quadros, enfim, até chegar hoje, por exemplo, numa sociedade que é

[00:22:24] muito visual, extremamente poluída em termos de, enfim, motivos, temas, né,

[00:22:33] informações, a gente é bombardeado o dia inteiro por isso. Então, eu acho que o seu trabalho

[00:22:39] faz uma reflexão sobre o lugar da pintura na estética, né? Sobre esse ponto eu queria voltar

[00:22:50] a seguir a mesma linha do Rogério, quando o Marcos começou a falar sobre o que ele estava

[00:22:57] fazendo nos ensaios, ele tentou dizer assim, ah não, eu estava escrevendo uma coisa, mas não deu

[00:23:02] tempo, e parecia que era uma cúmica se fosse menor, e realmente não é o caso.

[00:23:06] Não, mas é verdade também.

[00:23:07] Não, as questões práticas sempre existem, né, assim, a coisa vai se desenrolando na vida,

[00:23:14] mas o fato é que seja como for que na prática a coisa se desdobrou, o fato é que você tem

[00:23:20] um material que tem uma cara própria e que não é, digamos, menor do que um livro que seguisse

[00:23:26] uma única tese, digamos, aqui você tem, e esses ensaios, eu acho que eles dizem muito

[00:23:33] sobre o Marcos, sobre esses diversos trabalhos textuais também que o Marcos faz, porque vejam,

[00:23:38] no livro anterior dele, no Articulações Simbólicas, por exemplo, que foi orientado

[00:23:46] por Rogério, e eu tive o prazer de fazer o prefácio, então ele, você tem o texto mais

[00:23:53] acadêmico, que vai seguindo uma mesma tese, mas assim, nos intervalos tem textos que são

[00:23:58] textos de ficção, são textos ensaísticos também, então aqui nesses ensaios, eu acho que

[00:24:05] você também junta diversas maneiras de lidar com o próprio texto, ou seja, são ensaios

[00:24:10] que não têm uma dimensão reflexiva filosófica, mas que ao mesmo tempo tem um ritmo e uma maneira

[00:24:20] de se ler que são prazerosas, então acho que não é a nossa condagem, isso que é que o

[00:24:28] Rogério também tava, isso também que o Rogério, acho que queria apontar, né Rogério?

[00:24:32] Exatamente, é um texto que ele é filosófico no sentido de que ele faz reflexões, mas ele é

[00:24:38] muito gostoso de ler, ele vai fornecendo, vamos dizer assim, aos leitores, o material que ele

[00:24:47] precisa pra poder compreender a leitura que ele está realizando, então eu acho que isso é

[00:24:53] uma característica importante. Eu vou pedir licença pra ler um trechinho aqui, eu acho

[00:25:00] que isso vai ficar mais claro. Ah, com certeza, isso é ótimo. Em um determinado momento ele diz assim, por isso a

[00:25:05] representação da perspectiva nos quadros renascentistas, por exemplo, não era apenas uma ilusão de profundidade

[00:25:13] contra a superfície plana na tela, mas uma gramática do espaço, um modelo inteligível e

[00:25:19] coordenado para ver e deixar-se enganar. Podemos então dizer que uma representação não é

[00:25:26] meramente fiel ao que ela representa, é antes uma configuração visual que se adequa ao que se

[00:25:32] pode ver e que simultaneamente fornece as coordenadas para que isso que vemos se torne

[00:25:38] propriamente visível. E aí vem aqui os exemplos, por exemplo, a pintura de Pigmaleão e Galatea,

[00:25:44] enfim, mais outros elementos aqui que deixam o leitor, digamos assim, mais à vontade pra

[00:25:54] compreender essa reflexão, que é uma reflexão filosófica. E é uma reflexão importante por quê?

[00:26:00] Porque vai mostrar que a representação não é uma imitação direta da realidade, ou seja,

[00:26:05] não havia o interesse de fazer como se fosse, vamos ver assim, uma fotografia daquilo que se via.

[00:26:14] Há uma outra ideia que eu acho que é uma ideia bastante forte, bastante poderosa aí,

[00:26:20] que é essa própria ideia de que existe uma gramática espacial, portanto, existe a produção

[00:26:29] de um sentido espacial que vai demandar, vamos dizer assim, o aprendizado, ou seja,

[00:26:36] o olhar das pessoas, daquele que olha. Então, por exemplo, essa é uma reflexão bastante forte

[00:26:46] que tem a ver, por exemplo, com algo que sempre foi negligenciado em boa parte das

[00:26:52] discussões sobre arte ou sobre estética, que é a figura justamente de quem vê. Então,

[00:26:58] quem olha uma obra de arte, ou quem assiste a um filme, ou quem lê um livro. Então,

[00:27:03] trazê-lo pra dentro disso e mostrar como, de algum modo, ele se deixa enganar porque

[00:27:11] ele não entendeu a ler aquelas coordenadas, eu acho que é bastante inovador. Isso tem a ver,

[00:27:16] por exemplo, aí eu vou fazer aqui um gancho, com as reflexões que você faz sobre a emenêutica

[00:27:22] e sobre a emenêutica trágica. Agora, reparem. Isso fora do livro, né, no caso. Isso, isso,

[00:27:28] é isso que eu queria dizer. Então, reparem, quem vai ler o livro, ele vai conseguir ter uma

[00:27:33] reflexão bastante interessante, filosófica, mas sem ser acadêmica ou exaustivamente conceitual.

[00:27:44] Algo que, por exemplo, vai ocorrer para aquele leitor que tiver interesse nas suas obras

[00:27:51] acadêmicas, em que você tem, por exemplo, todo um trabalho já bastante sedimentado sobre

[00:27:58] a emenêutica trágica. Agora, isso não quer dizer que não tenha uma conexão, porque está no fundo

[00:28:06] isso, né? Quando você fala das sobreposições, no fundo o que você está dizendo é que há aqui

[00:28:11] uma espécie de perspectivismo nítiano, quer dizer, traduzindo, né, para ficar mais simples,

[00:28:17] trazendo claramente que não há como você não estar implicado, ou seja, se posicionar a partir

[00:28:27] de que você diz algo, né? Então, cai por terra aquela ideia moderna de que você teria um discurso,

[00:28:32] vamos dizer assim, isento da subjetividade ou isento, como se costuma dizer hoje,

[00:28:40] a cem viés ideológicos. Não existe. É, tinha lugar nenhum, justamente, sem condição.

[00:28:46] Isso, quando você falou sobre um determinado elemento, qualquer um que seja,

[00:28:55] naquele exato momento, quer dizer, naquele próprio modo como você pronuncia, como você se expressa,

[00:29:04] já está uma posição, já está a implicação de um lugar de fala, de um lugar de pensamento,

[00:29:10] de um lugar… Também de ver, né? Um lugar de… Isso! Então, por exemplo, isso só para mostrar,

[00:29:19] para ilustrar como existe aí uma camada de fundo, que é, digamos assim, de uma filosofia bastante,

[00:29:27] vamos dizer assim, consolidada, né? Que vai guiar essas suas reflexões. E aí,

[00:29:39] quando você diz assim, ah, eu levei uns três anos para escrever, era um pouco quando eu tinha

[00:29:46] eu já vejo uma forma diferente, eu acho que o livro exigiu de você um outro tempo de maturação.

[00:29:53] E que bom que você pôde ter isso, né? Porque o que acaba acontecendo na vida acadêmica é que

[00:29:59] a gente tem prazo. Então, as pessoas pedem, estão três meses, estão cinco meses, te dão uma

[00:30:06] semana. E escrever nesse período curto é sempre muito difícil. Então, por exemplo, poder ter

[00:30:15] uma janela de tempo maior, eu acho que é um privilégio. E ao mesmo tempo, isso só poderia

[00:30:22] arredondar numa obra que fosse muito distinta daquelas obras mais acadêmicas. Por isso que eu

[00:30:28] acho que o livro faz um apelo muito forte para o leitor de todas as áreas e que esteja

[00:30:34] interessado em refletir um pouco sobre pintura, né? Sobre as imagens do mundo, a gente poderia

[00:30:43] fazer dessa forma, né? Então, por exemplo, em um outro trecho você vai dizer o que uma

[00:30:47] representação propriamente representa, portanto, é menos algo visto que o modo pelo qual o vemos.

[00:30:55] Esse tipo de reflexão você não faz a toque de caixa, né? Quer dizer, você levar isso adiante,

[00:31:06] então você está fazendo uma cisão entre a representação como processo, o representado

[00:31:16] como resultado e a questão de um terceiro elemento que entra aqui, que é o modo pelo qual

[00:31:22] vemos, quer dizer, há um modo de se ver essa representação que implica um observador.

[00:31:29] E também, às vezes, a própria coisa representada, né? Ou como ela é vista, né?

[00:31:35] Isso, isso. E a expectativa daquilo que a gente quer encontrar nela.

[00:31:41] Não, é interessante de fato, de novo, isso que o Rogério está dizendo, são coisas até que

[00:31:50] me fazem pensar de novo no próprio livro que, por exemplo, a escolha da linguagem,

[00:31:56] da linguagem acadêmica, eu tentei, de fato, fazer com uma linguagem de uma simplificação

[00:32:04] filosófica, talvez, porque é inevitável eu entrar em questões filosóficas, só que eu

[00:32:11] não queria, de fato, ter esse vício exaustivo acadêmico de colocar conceitos e tal,

[00:32:18] eu tentei aí e essa simplificação dos conceitos, não é simplificação o termo,

[00:32:24] mas essa explicação dos conceitos que eu tento fazer, isso, de fato, deu bastante trabalho para

[00:32:32] deixar uma coisa que faça sentido, mas que, ao mesmo tempo, não exija do leitor e da leitora

[00:32:38] um conhecimento prévio, ou mesmo que a pessoa vá atrás de outras coisas. Eu tentei deixar

[00:32:44] o mínimo assim de links externos ou conexões mais filosóficas para deixar o livro por si,

[00:32:54] mas no tema, de modo geral, o Rogério se planou muito bem. Eu acho que a questão principal é

[00:32:59] essa ideia de modos de ver, que implica um certo aprendizado, isso é uma coisa que eu defendo,

[00:33:08] que o modo de ver não é uma coisa natural ou universal das pessoas, a gente sempre aprende

[00:33:16] a ver aquilo que a gente propriamente vê, ou quer ver, ou evita ver também,

[00:33:22] e isso que a gente vê, e daí entra um pouco a questão nitiana, talvez, é como uma cebola,

[00:33:29] é sempre um excesso de camadas que não tem um núcleo ou uma essência propriamente escondida

[00:33:38] por trás, são só camadas e daí retoma de novo o título sobre posições, então isso

[00:33:44] é realmente, eu acho que a ideia filosófica do livro, os ensaios giram em torno um pouco

[00:33:50] dessa questão, até entrar também sobre o lugar da pintura hoje, que é uma coisa que o Rogério

[00:33:56] estava dizendo no início, se na modernidade a gente foi inundado pela uma espécie de episteme

[00:34:07] visual, e hoje a gente entra num outro paradigma audiovisual, como que alguém ainda pinta hoje,

[00:34:18] isso daí era uma coisa que particularmente me instigava, por que fazer a pintura hoje,

[00:34:25] mas enfim, vou deixar aí, isso talvez eu comento mais adiante, Daniel, você quer comentar alguma

[00:34:36] coisa aqui? Sim, claro, estava, quando eu falei ali dos ensaios, por trás de tudo comentar um

[00:34:46] pouco a forma mais geral do livro, um pouco essa impressão geral, mas a gente pode, acho que

[00:34:55] entrar então nessas questões um pouco mais específicas também, claro, é que não cabe

[00:35:05] nada eu discordar, mas a minha impressão também foi essa, claro, que o tema principal do livro

[00:35:10] dizia respeito justamente a esses diferentes modos de ver, e que é realmente o tema que

[00:35:16] está conectando talvez o trabalho mais gráfico também com o trabalho filosófico, ou seja,

[00:35:22] ao pintar e ao pensar você está preocupado o tempo todo com esses modos de ver,

[00:35:30] se isso é que conecta as duas coisas, as sobreposições estão acontecendo aí,

[00:35:37] então tem essa conexão, ou seja, algo que te incomoda, uma certa angústia que reaparece

[00:35:45] tanto na escrita quanto no trabalho com aquarela, e no que diz respeito à reflexão mais

[00:35:55] gráfico, acho que com quantos e por cento que o Rogério falou, essa questão de perspectivismo

[00:36:02] está presente em diversos de seus textos, e acho que é uma questão que a gente compartilha

[00:36:10] aqui, todos nós no caso, eu, você e o Rogério, então quando o Rogério falou agora pouco,

[00:36:17] acho que sobreposições, é também pensar de uma maneira tal que você desconsidera de

[00:36:25] a possibilidade de ter uma não posição, que é justamente o que pretende quem acha que vai

[00:36:32] atingir a verdade, que seria a verdade, uma única verdade, é exatamente, seria justamente esse lugar

[00:36:40] em que você assume uma posição em que você não está implicado, que é o que aparece aqui

[00:36:47] na possibilidade, então sobreposições, de fato, é pensar também entendendo o lugar que você

[00:36:58] assume ao pensar, e a própria ideia de objetividade aí, do que é abordar um objeto de maneira

[00:37:06] interessante muda, lembro de uma frase do Nietzsche, que eu acho ótima, em que volta o meu uso,

[00:37:12] que é uma brincadeira justamente com essa ideia de objetividade, quando ele está falando sobre um

[00:37:19] certo perspectivismo, ele diz assim, quanto mais olhos diferentes, olhos soubermos usar para ver

[00:37:25] algo, quanto mais objetivo será a nossa visão desse alvo, é uma desconstrução, uma crítica,

[00:37:33] uma brincadeira, uma ironia em relação à ideia mais comum de objetividade, seria justamente

[00:37:41] o sair dos pontos de vista, então realmente sobreposições é acumular posições, acumular

[00:37:47] posições é a única coisa que a gente pode fazer para pensar de maneira interessante sobre

[00:37:51] alguma coisa. Só um exemplo disso, Daniel, que eu acho interessante, essa ideia de modo de ver,

[00:37:57] como eu estava dizendo, é aprendida, ou seja, eu defendo que você acaba aprendendo a ver as

[00:38:05] coisas por essas camadas ou pontos de vista que se acumula, então da mesma forma que

[00:38:10] um ponto de vista neutro, ou enfim, esse não lugar externo e objetivo pelo qual a gente vai ver o

[00:38:19] mundo, por outro lado também a gente não tem só o nosso ponto de vista, a gente está sempre

[00:38:28] contaminado e sabe, é indesviável ter outros pontos de vista e outros modos de ver que a

[00:38:36] gente está assimilando e aprendendo. E uma coisa assim, só para o pessoal ter uma ideia de tal,

[00:38:42] e qual que é o dilema disso, se isso já for bem aceito, que por exemplo isso nos leva também,

[00:38:49] por outro lado, a pensar que se o modo de ver é algo a ser aprendido, algo a ser ele também

[00:38:56] pode ser ensinado, então no design gráfico, por exemplo, ou no design de modo geral, a gente

[00:39:02] faz um estudo de linguagem gráfica que acaba fazendo com que o estudo da visualidade, dos

[00:39:09] modos de ver seja algo que seja isolado das outras linguagens e gramáticas pela qual a gente

[00:39:18] interpreta o mundo. Então por exemplo, a linguagem visual, ela se coloca como uma

[00:39:26] analogia à linguagem verbal, em termos assim de sintaxe e tal, mas de uma maneira isolada

[00:39:31] justamente da linguagem verbal, como se fosse dois âmbitos que têm lógicas diferentes, ou a gente

[00:39:40] pensa por imagens, por exemplo, ou a gente pensa por palavras. E uma coisa que eu defendo, que

[00:39:45] eu tento argumentar no livro, é que é impossível fazer essa distinção tão clara, sabe, é muito

[00:39:51] abstrata essas duas esferas. E ao mesmo tempo a gente aprende as duas, elas não são naturais,

[00:40:00] a esfera verbal, discursiva, o mesmo conceitual, ela não é algo, sei lá, genético ou congênito

[00:40:09] do ser humano, assim como a visualidade. No entanto, também assim, quando a gente começa

[00:40:15] a estudar isso com uma gramática isolada, a gente também acaba desconsiderando esse aspecto

[00:40:22] das camadas, que são sempre sobrepostas e meio que nunca puras, ou seja, elas sempre

[00:40:29] contaminam uma coisa ou outra, a imagem contamina o verbo, contamina as ideias e vice-versa,

[00:40:36] uma coisa não existe isolada da outra. Então essa é outra reflexão, assim, falando muito

[00:40:41] vagamente aqui, muito superficialmente também, que eu tento levantar nesses ensaios.

[00:40:50] Acho que esse deslocamento está ligado ao outro, porque essa diferenciação tão, sei lá,

[00:40:58] estanque entre o verbal e o visual, me parece que ela acontece quando você pressupõe que são

[00:41:04] quase como registros, instintos, pelos quais poderia chegar uma espécie de verdade. Então

[00:41:13] como se tivesse que trabalhar o modo, ou seja, o meio, digamos assim, ele também é visto apenas

[00:41:21] como secundário, como intermediário. Então é como se você, assim, como é que eu lido com isso de modo

[00:41:26] a chegar à verdade. Quando essa verdade também está deixada de lado, acho que quando isso

[00:41:33] que antigamente era pensado como meio, começa a ser o principal, essa divisão tão estanque,

[00:41:39] começa a se diluir um pouco também. Não é que não haja especificidade de uma apreensão visual

[00:41:50] para outra verbal, eu tenho especificidade da maneira de apreensão, mas elas não

[00:41:55] assumem mais um caráter estanque, elas se misturam, mas o mais importante é que elas

[00:42:03] se misturam de maneira tal, e não para chegar, por exemplo, então a verdade, digamos, na verbal

[00:42:10] estrutura assim, ou visual assim, exatamente, ou da visão assim, mas elas se misturam para formar

[00:42:16] posições distintas. E aí justamente aqui a questão da máscara, como o Nietzsche vai dizer,

[00:42:21] ou aqui você está pensando no truque, com a parte lá do texto da Sionara, que você coloca.

[00:42:29] De repente, valeria também falar um pouco sobre essa sua decisão de incluir esse texto da Sionara,

[00:42:35] e aí você já poderia falar um pouco dessa questão do truque, da enganação.

[00:42:40] Da encenação, principalmente, que é um conceito que eu coloco em um dos ensaios dedicados a

[00:42:49] refletir sobre a encenação. Sobre a Sionara, só um parênteses, que é interessante de colocar,

[00:42:57] esse livro foi assim, uma das primeiras pessoas que me falou, por que você não escreve sobre

[00:43:06] suas pinturas, foi a Sionara. A Sionara é uma amiga minha, ela foi uma escritora paranaense,

[00:43:14] quer dizer, nasceu no Rio Grande do Norte, mas foi erradicada aqui em Curitiba,

[00:43:21] e era uma amiga muito próxima minha, eu fiz curso com ela de literatura, depois ela fez curso

[00:43:28] comigo de aquarela, a gente refletia muito sobre, justamente até esses diálogos entre a

[00:43:36] literatura e a pintura, e ela gostava muito, não exatamente das minhas pinturas,

[00:43:44] mas ela gostava do assunto pintura, isso era uma coisa interessante, ela sempre queria que

[00:43:48] eu escrevesse sobre isso, e eu sempre resisti, ou falava, vou escrever um ensaio ou outro,

[00:43:58] quando no ano passado eu descobri que ela estava com câncer, ela veio falecer no final do ano

[00:44:05] passado, eu perguntei para ela se eu poderia incluir um dos textos dela, que eu acho que é

[00:44:10] o texto em que ela fala algo, que na minha interpretação, na minha leitura, tem muito

[00:44:17] a ver com a pintura, e quando eu falei isso para ela, ela falou, nossa, mas eu nunca escrevi sobre

[00:44:22] pintura, e esse texto não tem nada a ver com pintura, mas se você quiser colocar, coloca,

[00:44:28] que é o texto esclarecimento gerais sobre a técnica de gerar um truque, de criar um truque,

[00:44:34] e daí ela me autorizou a colocar um texto de poucas páginas, três páginas, como se fosse

[00:44:46] um conto assim, um mini conto, e daí ela autorizou, daí ela veio falecer, infelizmente,

[00:44:53] e eu acrescentei esse texto no meio do livro, e depois desse texto eu escrevi um texto que,

[00:44:58] na verdade, até foi lançado na revista Não Bistante, cujo título é Ela Não Está Mais

[00:45:04] Aqui, Ela Está Em Todo Lugar, e que eu falo sobre ela, sobre a importância do trabalho

[00:45:10] dela, da importância da influência dela no meu próprio trabalho também. Então,

[00:45:18] foi esse o motivo que eu coloquei ela ali. Agora, essa reflexão do truque que ela traz nesse texto,

[00:45:24] em específico, que eu acho que é uma questão que sempre me instigou, justamente porque é um

[00:45:33] conteúdo pelo qual, assim, claro, aparece no niche, como o Daniel estava falando, no conceito de

[00:45:40] máscara, entre outras coisas, só que eu acho que é realmente essa esfera do truque, ou da

[00:45:48] encenação, que também entra um pouco a ideia de insinuação, que a gente consegue, basicamente,

[00:45:55] onde se sobrepõe esse nível das ideias, ou conceitual, com esse nível visual. O que eu quero

[00:46:04] dizer com isso, que sempre a gente tende a se expressar ou a interpretar o mundo e a encarar

[00:46:14] a realidade, sobre a ideia de cena, por isso encenação, truque, ou seja, a gente sabe,

[00:46:23] como o Rogério estava dizendo também no início, que aquilo, no fundo, no fundo, é um truque,

[00:46:29] quer dizer, a gente sabe que em algumas coisas a gente está se deixando enganar. Quando a

[00:46:34] gente mesmo assiste um filme, por exemplo, a gente se deixa enganar que aquilo é uma história,

[00:46:39] se deixa em que sentido? A gente sabe que é um filme, a gente sabe que o vilão ali que,

[00:46:45] de repente, é morto no final do filme, não é alguém que foi morto de verdade, foi um

[00:46:50] filme encenando. Então essa dimensão da encenação, eu acho que é um modo que, para mim,

[00:46:57] é muito instigante e muito importante para você fazer a pintura, porque a pintura realista e

[00:47:04] figurativa, ela depende muito desse aspecto da encenação, do truque, de você, assim,

[00:47:11] fazer uma imagem, uma ideia, uma narrativa ser insinuada por meio do papel, por meio

[00:47:19] das pinceladas, por meio disso. Da mesma forma que a literatura faz também,

[00:47:27] suscita imagens enquanto a gente está lendo, basicamente, palavras. Então, essa ideia de

[00:47:33] encenação que a gente, que esse fingimento que a gente tem quando lê um texto, fingimento no

[00:47:41] sentido assim, a gente precisa acreditar ou suspender a nossa relação com a realidade,

[00:47:47] para imaginar o que está sendo escrito ou mesmo imaginar que há alguém falando por meio daquelas

[00:47:52] palavras, imaginar que há alguém que pintou aquilo ou que viu aquilo que foi pintado.

[00:47:58] Essa ideia de encenação é uma coisa que não está só no texto, na literatura, não está só na

[00:48:05] pintura, está no modo como a gente se relaciona uns com os outros. A gente sempre está assumindo

[00:48:12] uma personalidade, alguma convenção, enfim, assumindo que há leis em que devem ser seguidas.

[00:48:18] Não estou dizendo que é tudo uma mentira, veja bem, é que todos sabem o caráter convencional

[00:48:26] dessas coisas e que nem por isso a gente deixa de levar essas coisas a sério. Então,

[00:48:31] eu acho que esse aspecto do truque, da encenação, tem muito a ver um pouco com

[00:48:36] esse aspecto convencional pelo qual a gente aprende a entender, interpretar, a olhar o mundo

[00:48:47] e a conviver em sociedade, enfim, e propriamente imaginar quem nós somos como uma pessoa,

[00:48:54] ter uma identidade, é sempre uma máscara que a gente vai vestindo. A gente sabe que há camadas,

[00:48:59] só que são camadas acrescentadas sobre o nada, digamos assim, não tem nenhuma essência.

[00:49:05] No fundo disso, já estou falando demais aqui.

[00:49:08] É interessante que quando você fala dessa questão de truque, no fundo você substitui

[00:49:14] o termo, o truque ou encenação, pelo termo composição ou mesmo mise en scène,

[00:49:27] porque tem um caráter muito interessante das suas pinturas. Eu queria voltar para aquela

[00:49:32] questão que você lançou, porque pintar ainda hoje, porque fazer pintura, que eu acho que é o que

[00:49:40] exatamente você pinta, porque os objetos, vamos dizer assim, eles sempre aparecem,

[00:49:46] quer dizer, você não faz uma composição, você faz uma trucagem mesmo. Se você usa a

[00:49:58] composição de modo a fazer aparecer o humano. Então tem uma questão que é muito interessante

[00:50:08] nas suas pinturas, é que os objetos, eles não aparecem, eles aparecem sempre em segundo plano,

[00:50:15] o ambiente, quer dizer, a paisagem, não há paisagem. E daí a questão, por exemplo,

[00:50:24] que algumas de suas obras causam nas pessoas. Um deles, por exemplo, são as pinturas com o tema

[00:50:33] da água, que é uma série enorme que você faz e que justamente a água está lá como algo que

[00:50:41] não se constitui, vamos dizer assim, nem objeto nem paisagem, quer dizer, mas já é um fundo.

[00:50:48] Quer dizer, não haveria melhor fundo, porque inclusive quando as pessoas estão mergulhadas,

[00:50:56] elas acabam deformadas. Isso, então assim, aquilo que deforma nas pessoas já é do ambiente

[00:51:04] deformado em volta, mas a gente pode pegar várias, tem, sei lá, uma mulher deitada em um

[00:51:14] ônibus, por exemplo, numa poltrona de um ônibus, a poltrona do ônibus está desfocada, a mulher

[00:51:20] deitada na cama, o travesseiro está desfocado, dois garotos num pequeno barco, quer dizer, todo

[00:51:32] o redor vem desfocado, uma mulher tomando chá ou mexendo aqui o café, quer dizer, o carro,

[00:51:41] tudo vem desfocado, e aí o que é interessante é que se a gente for observar, não há,

[00:51:49] e aí você me corrige, porque eu acredito que não exista nenhuma aquarela, eu pelo menos não

[00:51:56] consigo lembrar de nenhuma, é que são muitas, né, mas não consigo lembrar de nenhuma aquarela

[00:52:00] que não apareça uma figura humana, então eu acho que ali já está a sua resposta,

[00:52:08] porque pintar, porque há algo, digamos assim, do humano, que só pode ser captado pela pintura,

[00:52:14] e aí eu acho que entra uma questão interessante da sobreposição, que é o fato de que boa parte

[00:52:20] das suas aquarelas, essa imensa maioria, se não todas, partem de um processo que é o da

[00:52:29] fotografia, então é interessante isso, porque você explicita isso no seu texto, tem um texto

[00:52:41] belíssimo aqui, um ensaio belíssimo, o caximbo pintado na tela, é sim um caximbo,

[00:52:45] em que você vai defender justamente essa questão do trabalho que o pintor faz na

[00:52:52] sua organização, daquilo que ele pinta, e aí no determinado momento você diz assim, o realismo

[00:52:58] é também abstrato, é outra reflexão, é bastante impactante, o realismo é também abstrato,

[00:53:04] quanto mais rompemos com as formas reconhecíveis, mais somos capazes de produzi-las,

[00:53:10] por isso a fotografia deve ser utilizada, se soubermos ver além de sua pronta organização,

[00:53:15] compreendemos como as pessoas enxergam ali uma imagem pronta, uma foto é na verdade uma

[00:53:21] organização, é um conjunto de manchas sem forma, que por sua vez podem ser reorganizadas,

[00:53:27] e aí lá na frente vai dizer, uma pintura que apresenta de outro modo o que as pessoas

[00:53:32] esperam ver, e aí de novo você introduz esse aspecto humano, então quer dizer,

[00:53:39] por que a pintura? Primeiro porque é só por meio da pintura que você pode trazer

[00:53:46] humanos na tela, que a fotografia não dá conta, embora você parte da fotografia justamente para

[00:53:54] ter a exata certeza de que você está tratando daquilo que a fotografia não dá conta,

[00:53:57] ao pintar olhando para a fotografia, quer dizer, quase uma sobreposição aí, mais uma delas,

[00:54:07] mas quando você pinta olhando… Uma cópia platônica, eu estou copiando a cópia, sabe?

[00:54:13] Isso, isso, quer dizer, você está devolvendo, vamos dizer assim, a realidade para aquilo que a

[00:54:26] foto queria, digamos assim, você está devolvendo a infidelidade da realidade que a foto queria

[00:54:31] que você tratar, então… Porque essa foto, digamos assim, ela tenta aprender uma realidade

[00:54:39] e ela sempre… Congelar, né? Ela tenta congelar o tempo, né? Aprender, pegar… Ela sempre falha, né?

[00:54:47] Sim, sim. Cara, isso é sempre um modo de olhar para a foto, né? Não é a foto. Exatamente.

[00:54:51] Isso é o ponto do márcosa. Isso, e é um acréscimo também, né? Não é exatamente… Isso, a foto já é um olhar, a foto já é um olhar da realidade,

[00:55:00] e você tem um modo de olhar para essa foto, então é um acréscimo, concordo. E é quando você vai para a foto,

[00:55:06] olha para a foto e aí você abstrai a foto, quer dizer, você olha a foto como se estivesse olhando

[00:55:13] manchas, né? Quer dizer, como se fosse uma pintura abstrata ali. Sim. E aí você vai, faz a sua

[00:55:17] pintura figurativa, realista, o realismo nunca vem 100%, ele vem acompanhado de elementos

[00:55:27] abstratos, que alguém pode dizer assim, ah, mas aqui é o que tá fora do foco, aqui é o que tá… Mas não é,

[00:55:33] existem manchas, você deliberadamente faz manchas nas suas aquarelas para dizer assim,

[00:55:39] aqui está o abstrato também. E o que a gente olha da pessoa é sempre um abstrato, mas a gente

[00:55:44] aprendeu a figurar esse abstrato. Sim. Então, esse jogo eu acho sempre muito interessante,

[00:55:50] porque eu acho que é aí que vai revelando um pouco do que você chama de truque. Sim. E agora,

[00:55:56] por outro lado, né, assim, caberia indagação, eu tenho a resposta, mas eu vou fazer a indagação.

[00:56:02] Sim. Que é justamente essa, né? Porque por que que você pinta? Ou a pergunta seria, por que que você

[00:56:09] pinta pessoas? Ou o que é que você pinta quando pinta as pessoas? Sim. É, e outras

[00:56:18] perguntas poderiam ser acrescentadas aí, que é tipo assim, por que, além de por que pintar

[00:56:22] pessoas hoje, por que pintar realismo hoje? Que é o que geralmente, assim, as pessoas me perguntam,

[00:56:33] principalmente aquelas que gostam de… De espalhar da arte. É, de acompanhar a produção

[00:56:39] artística, os acadêmicos e tudo mais. E esse é um dos dilemas que eu dizia, Anny. E é sempre

[00:56:48] difícil de responder assim. Mas eu acho que, por exemplo, se eu pintasse, se eu fizesse pinturas

[00:56:54] abstratas que poderiam vender muito bem em galerias, eu acho que isso me pareceria mais

[00:57:00] antiquado hoje do que fazer pinturas realistas, assim. O que eu quero dizer é que a pintura

[00:57:07] abstrata moderna, ela já é história, assim. E talvez pelo fato de ser uma história recente,

[00:57:12] ela é muito já… Sei lá, muito familiarizada, muito já, assim, entendida, já esgotada, quase.

[00:57:25] Mesmo… Claro, essa ideia de esgotar também é muito… É um vício da história também,

[00:57:31] da história da arte e tal. E justamente assim, o que me leva, tentando responder

[00:57:36] então, a pintar pessoas, é justamente assim, ao invés de captar o que são as pessoas,

[00:57:44] ou que, sei lá, aquela coisa liga que o pessoal fala, o retrato, você não tá fazendo a pessoa,

[00:57:54] você tá fazendo a alma da pessoa. Eu não tô buscando a alma da pessoa nem nada. Eu tô

[00:58:00] justamente me perguntando por que que ainda hoje, com toda a história da arte que a gente tem e

[00:58:10] com todas as reflexões que já foram feitas e pintura abstrata, a gente ainda tem esse fascínio

[00:58:17] pela figura humana, esse fascínio de olhar uma imagem e ver assim, putz, isso é água se mexendo,

[00:58:28] correndo. Por que que a gente tem esse fascínio de olhar uns pros outros e por tabela de ser visto?

[00:58:34] Por que que a gente precisa ser visto e a gente aprende a ser visto olhando os outros e vendo

[00:58:42] como as pessoas nos olham? É porque eu acho que tem uma filosofia por detrás, quer dizer,

[00:58:47] tem um pensamento. Porque quando você fala da questão da história da arte, eu me lembrei

[00:58:53] história é um pesadelo do qual tentamos acordar. Eu acho que há um clausuramento em relação à

[00:59:05] questão da história da arte, que é de certa forma autodestrutivo, a história é autodestrutiva.

[00:59:14] Então, quando a gente observa, por exemplo, a própria atualidade, é um pesadelo, porque a

[00:59:23] gente está preso ao quê? Quer dizer, a gente poderia estar preso às mazelas da nossa própria

[00:59:30] época, mas na verdade não, a gente está preso à história, por isso que voltam termos o tempo

[00:59:35] todo. Quando é a questão ideológica, a disputa ainda é liberal, comunista, se é política,

[00:59:44] ainda se fala em direita, esquerda, velha política, nova política, nazismo, neo-nazismo, neo-fascismo,

[00:59:50] neo-isso. Quer dizer, a gente ainda está preso mesmo à questão da história e eu acho que,

[00:59:58] de certa forma, estamos mesmo, acho que há uma redução de coisas, mas de outro também,

[01:00:03] há uma incapacidade de criar uma própria ideia ou visão daquilo que nós vivemos. Então,

[01:00:11] por exemplo, o Fukuyama diz assim, não, a história acabou, no sentido regueiliano.

[01:00:15] É sempre o como, né? É sempre o como, o que o uso da história, o texto é aquele texto

[01:00:20] neat lá, o vantagem e desvantagem da história para a vida.

[01:00:23] Sim, mas repare, por exemplo, o Fukuyama diz assim, a história acabou, ele está obviamente

[01:00:29] olhando para aquele elemento regueiliano. Aí o Jijek diz, estamos à espera de um evento,

[01:00:40] e aí o Badiou vai dizer, o ser e o evento. Quer dizer, o evento seria um dado revolucionário

[01:00:47] que nos tirasse da história e nos levasse a um outro padrão. O Piu Shun Han vai dizer,

[01:00:52] todos regueilianos, vai dizer ali, ou marxista, mas o marx também era regueiliano.

[01:01:01] Quer dizer, ele tira, ele desloca um idealismo para outro, mas enfim,

[01:01:05] eu não quero fugir aqui da questão, mas só para mostrar como, por exemplo, todos esses autores,

[01:01:10] o Biu Shun Han vai falar da sociedade do cansaço, então a gente está já, quer dizer, todos esses

[01:01:15] autores vão dizer que é um saturamento, uma saturação da história. Então assim, a história

[01:01:21] saturou, então hoje a gente já não teria mais, então o que eu preciso fazer em termos de arte

[01:01:28] para, vamos dizer assim, superar historicamente aquilo que as guardas já fizeram, aquilo que,

[01:01:37] enfim, a modernidade já fez, etc. E aí eu acho que, de certo modo, ir para o figurativo

[01:01:47] vai causar um certo incômodo. Quer dizer, vai dizer assim, mas isso daí é ser reacionário,

[01:01:55] ou ser conservador, ou ser nostálgico, ou no mínimo brega, ou ultrapassado, ou anticuado.

[01:02:03] É isso, mas são maneiras de usar a história justamente para não fazer nada e ainda criticar.

[01:02:10] Mas eu acho que acaba sendo o contrário, mas eu queria dizer, o que está por detrás disso,

[01:02:18] acho que é uma questão filosófica que merece ser posta, porque não se trata de buscar

[01:02:25] uma liberação, ou uma revolução no ponto de vista artístico, ou uma retomada a qualquer outra

[01:02:34] questão. É, ou uma nostalgia também. Isso, mas justamente de poder dizer algo por meio da arte,

[01:02:41] ou seja, a arte está dizendo alguma coisa. Por isso que no determinado momento do livro você

[01:02:45] diz que escrever ou pintar é intercambiável, embora eles sejam irreconciliáveis. E aí eu

[01:02:54] acho que você, por exemplo, coloca a figura humana, já há algo interessante aí. Por exemplo,

[01:02:59] tem um livro do Rollerback chamado Mapa e o Território, que você tem um artista plástico

[01:03:05] que faz fotografia, e aí ele fotografa mapas e fotografa objetos, objetos industrializados.

[01:03:15] E aí, de repente, ele vai para a pintura e aí na pintura ele pinta pessoas,

[01:03:22] profissões, pessoas nas suas profissões. E aí é um pouco dessa questão de que a máquina,

[01:03:29] a máquina fotográfica, ela é uma máquina, então é como se ela fosse mais adequada para

[01:03:35] reproduzir máquinas, vamos dizer assim, ou algo que passa pela própria lógica dela,

[01:03:42] a pintura tem algo que é puramente humano, então a mancha, o foco, o fora de foco,

[01:03:52] a expressividade. E a própria interpretação desses elementos todos, sabe? Tipo, a conexão

[01:04:01] entre essas coisas. Por isso que há algo do humano que talvez só possa ser reproduzido

[01:04:08] mesmo pela pintura, ou seja, pela intervenção ali humana, que vai dar conta, por exemplo,

[01:04:16] de comunicar isso. E aí o que eu vejo, as suas pinturas, é muito interessante,

[01:04:21] você cita isso num determinado momento do seu texto, que são questões triviais,

[01:04:24] assim, é um pouco como se não tivesse acontecendo nada naquele exato momento,

[01:04:33] mas eu acho também que é um pouco mais do que isso, porque, por exemplo, há uma série de,

[01:04:40] e aí eu vou começar aqui com uma maldade, já vi comentários, enfim, em relação às suas

[01:04:47] obras em que a pessoa diz assim, ah, o Marcos P. Caras só pinta mulheres, mulheres seminuas

[01:04:53] e coisas do gênero e tal. É claro que você pinta muitas mulheres e algumas seminuas,

[01:05:01] é longe de esgotar o tema do seu trabalho, porque você, por exemplo, pinta idosos,

[01:05:07] você pinta homens, você pinta crianças, você pinta pessoas, por exemplo,

[01:05:14] situações vulneráveis, você pinta filósofos. Aliás, fazer um breve parênteses aqui,

[01:05:23] eu orientei uma pesquisa da Juliana Michele Oliveira e ela fez uma entrevista com Mohan,

[01:05:30] a gente está publicando essa entrevista, do Edgar Mohan, e aí geralmente os entrevistados

[01:05:37] cedem a foto, mas pedir uma foto para o Mohan é quase como um, enfim, uma deselegância,

[01:05:46] sacrilégio, porque ele tem mais o que fazer do que mandar uma foto dele e ele tem milhares

[01:05:52] e milhares de fotos reproduzidas na internet, mas enfim, para não reproduzir nenhuma foto na

[01:05:56] internet, a ideia seria essa. Bom, a gente tinha uma foto, né, tirada ali, que não tinha uma boa

[01:06:03] resolução e aí eu propus, né, falei bom, espero que o Marcos aceite, mas propus para a revista

[01:06:10] ali que fosse feita uma aquarela do Mohan e o Marcos fez uma aquarela belíssima e as

[01:06:15] pessoas ficaram fascinadas, assim, imersivo atrás de elogios, tanto da Juliana quanto das

[01:06:23] secretárias que trabalham na revista, quanto dos professores que editam a revista, quer dizer,

[01:06:28] todos fascinados com a aquarela, ou melhor, com a reprodução da aquarela, aquela explosão de

[01:06:34] cores, assim, que dá uma vida para o Mohan, que já é uma interpretação da própria obra do

[01:06:39] Mohan, da complexidade e tal. Então, quer dizer, quando você olha para esse tipo de imagem,

[01:06:45] da universidade que você pinta, fica claro que você tá tentando mostrar algo, não só o humano,

[01:06:54] mas algo desse humano que você quer fazer sobressair. E aí me parece que isso vai se

[01:07:02] resolver filosóficamente no final do livro, lá no último ensaio, embora eles não tenham

[01:07:09] uma sequência, esse último ensaio pode ser lido como o primeiro, então quem tiver nos

[01:07:14] recebeu o livro em mãos ali, aderindo a campanha e recebeu o livro em mãos ali, poder já correr,

[01:07:21] ver esse último ensaio, e quando você fala do amor fati nitiano, né, e o Daniel cita que o

[01:07:27] nit com muita propriedade, e eu acho que é isso que realmente aparece, não só a questão das

[01:07:32] perspectivas, de um perspectivismo nitiano, na ideia de sobreposição, de uma hermeneutica

[01:07:38] aos moldes também de nit, mas sobretudo essa ideia de tentar captar essa afirmação trágica

[01:07:47] da existência, quer dizer, esse amor fati, essa adesão à vida, isso pode vir de um morador de

[01:07:57] rua, isso pode vir de um filósofo, isso pode vir de uma mulher negra, de uma mulher indígena,

[01:08:06] pode vir de alguém cansado ali, que para num momento para descansar, de uma mulher

[01:08:13] sentada na cama. Eu penso nos termos de rastros, né, assim, todas essas cenas, assim, a ideia,

[01:08:22] um modo de afirmar a existência, o amor fati, é produzir esses rastros, assim, que é você

[01:08:30] produzir por meio dessa, da pintura e de todas essas, que no fundo é um raciocínio que eu

[01:08:39] acabo levando no texto, é muito pendular, eu acho, assim, dessa coisa, ah, o realismo é

[01:08:43] abstrato, ou as manchas, elas vão lá justamente para refazer as cenas familiares, quer dizer,

[01:08:53] reconhecíveis e tal. Essa coisa de ir e voltar é muito, assim, talvez de um perspectivismo,

[01:09:00] mas justamente com a ideia, assim, de, né, voltando à questão que o Rogério tinha colocado,

[01:09:07] por que pintar hoje, por que pintar pessoas, hoje realistas figurativas? Eu acho que é,

[01:09:13] justamente, para produzir efeitos visuais, para produzir rastros, assim, que é justamente…

[01:09:21] É, eu acho que isso se opõe um pouco a essa ideia de uma história como uma macroestrutura,

[01:09:29] ou uma macrofísica, assim, seria nos termos da Foucault, rastro ou uma microfísica, ou aquilo

[01:09:34] que é nas coisas mais simples e comuns, ou a coisa mais ordinária e cotidiana, que é,

[01:09:42] assim, tá, se há alguma história aí, sondando os céus, assim, atravessando as gerações,

[01:09:48] assim, o que fica no chão são os rastros, sabe? Eu não sei se essa é uma imagem muito clara ou

[01:09:55] muito poética, mas eu gosto de ficar nesse chão, assim, de não me importar muito,

[01:10:01] assim, independente da sociedade do cansaço, sabe, são todas essas reflexões que eu acho

[01:10:10] que atravessam a filosofia, de modo geral, e as ciências humanas, a maior parte dela é

[01:10:16] entradas nessa macrofísica, como se houvesse algo estrutural, uma ordem histórica, uma ordem

[01:10:26] oculta, enfim, alguma razão que vai explicar todas as partes, enfim, sempre essa ideia do

[01:10:31] todo maior que a parte, e quando eu insisto, por exemplo, entre outras coisas, na ideia de rastro,

[01:10:36] ou da encenação, ou mesmo do realismo figurativo e da fotografia, eu realmente

[01:10:45] estou posicionando de um modo que talvez pareça conservador ou, sei lá, alienado,

[01:10:52] de um lado assim, não, eu quero ver os detalhes, assim, eu quero realmente ver o que se passa

[01:11:00] aqui no chão, ou seja, nas relações entre as pessoas, o modo como elas enxergam umas as

[01:11:08] outras, como elas, sabe, o que me fascina, particularmente na minha pintura, é, na verdade,

[01:11:14] como as pessoas se fascinam com a pintura, sabe, eu sei que isso parece muito redundante,

[01:11:20] de novo aquela coisa pendular, né, mas assim, o que me motiva, sendo bem honesto e ingênuo aqui

[01:11:26] talvez, ou arrogante também, o que me motiva a continuar pintando é ver como as pessoas se

[01:11:34] fascinam com isso, assim, muito simples isso, né, óbvio, na verdade. Não, mas eu não acho óbvio não,

[01:11:42] que isso tem a ver com as questões que eu observei anteriormente e que estão nas suas

[01:11:47] reflexões, né, quer dizer, você está preocupado, digo assim, com um olhar que vai ver aquilo que

[01:11:54] você está pintando, e nesse sentido, assim, e por que esse olhar se surpreende, sabe,

[01:11:59] por que esse olhar vê alguma coisa, né, em primeiro lugar naquilo, assim, vê alguma coisa

[01:12:03] que faz sentido e tal, como que eu quero. É, e eu concordo com você, assim, que nesse sentido você

[01:12:08] dá uma interpretação da totalidade da época que nós vivemos, mas ao mesmo tempo você dá,

[01:12:15] digamos assim, uma imagem da totalidade do humano, no sentido de que são pessoas fazendo

[01:12:23] coisas que todo mundo faz, né, quer dizer, são pessoas sentadas, são pessoas que estão

[01:12:28] mergulhando, são pessoas que estão eventualmente trabalhando, são pessoas que estão com um

[01:12:34] olhar melancólico perdido no horizonte, então é interessante que quando a gente fala dessa

[01:12:38] afirmação, né, da, quer dizer, é uma visão positiva da vida, mas que de maneira alguma

[01:12:46] exime, né, a melancolia, né, tem uma certa tristeza que aparece em algumas imagens,

[01:12:54] ou seja, não há uma interdição, né, em relação àquilo que a gente é, ou seja,

[01:13:02] a ambiguidade do humano. Eu acho que nesse sentido não é ingênua, nem, no meu modo de ver,

[01:13:07] conservadora, porque traz justamente essa ambiguidade. Então, quando as pessoas,

[01:13:16] por exemplo, que são retratadas nos olham, esse olhar é um olhar altamente expressivo,

[01:13:23] às vezes é um olhar quase de confronto, a gente fica de fato tendo que dizer alguma coisa em

[01:13:33] relação a isso, mas isso não é, por exemplo, todas as pinturas, há vários que os olhais

[01:13:38] estão para outros lugares ou que nem sequer aparecem postos, né, ou o olhar. Então eu

[01:13:45] acho que essa diversidade que mostra um pouco disso, né, de captar uma cena trivial do mundo,

[01:13:55] portanto, daquilo que seria uma microfísica e ao mesmo tempo mostrar assim, olha, mas é isso,

[01:13:59] nossa vida é isso, assim. Há momentos, vamos dizer, de cansaço, mas há momentos de alegria,

[01:14:05] há momentos de euforia, de melancolia, há momentos que a gente simplesmente está trabalhando,

[01:14:08] mas basicamente não há, isso não há de maneira alguma no seu trabalho, não há heroísmo,

[01:14:15] não há luta, não há protagonismo também, sabe? Não há protagonismo, não há…

[01:14:22] Antagonismo. Quando aparecem pessoas, mais de uma, porque sempre tem pessoa, quando aparecem

[01:14:33] mais de uma, elas não estão realmente disputando espaço, elas estão geralmente numa atitude de

[01:14:40] sensação. É, estão interagindo, né, mas é interessante que uma das questões que sempre

[01:14:46] me perguntam, não só acadêmicos, mas artistas também, que é qual o projeto das minhas pinturas,

[01:14:55] e é legal essa pergunta porque assim, ela revela, me parece que… É racionalista. Não,

[01:15:01] então, mas é que parece que, assim, talvez eu esteja falando uma bobagem agora,

[01:15:05] Existe um certo paradigma, assim, no mundo da arte hoje, que você tem que pensar,

[01:15:11] você tem que fazer a arte por meio de, assim, pensando nessa ideia de projetos,

[01:15:15] inclusive projetos isolados, assim, isso aqui é uma série, por exemplo, de pinturas ou de

[01:15:21] esculturas, que tem a ver com, que foi elaborado a partir de um projeto, quer dizer,

[01:15:26] eu quero falar sobre isso, e daí eu vou produzir isso, isso, isso, e daí esse é o projeto

[01:15:31] dessa série de obras, de peças. Então, eu acho muito interessante quando o pessoal me pergunta

[01:15:39] qual que é o meu projeto, e daí eu falo que eu não tenho, né, sendo o mais honesto possível,

[01:15:46] assim, e daí elas, não é que elas se frustram, elas basicamente falam, bom, então você não

[01:15:53] tá fazendo arte, assim, não tá levando a sério e tal, e eu falo, é, talvez não esteja mesmo.

[01:16:01] Levando a sério, mas essa questão, assim, tipo, o que é esse levar a sério, né, por meio do projeto e tal?

[01:16:07] Mas é o tal do pesadelo da história, né, porque a gente fica, digamos assim,

[01:16:14] atravessado por uma ideia iluminista de progresso, uma ideia iluminista de racionalidade,

[01:16:23] portanto, é cante, né, qual a intencionalidade do seu trabalho? E aí vem pra essas bobagens de

[01:16:32] projeto, né, quer dizer, parece que tá falando da arte como se fosse uma coisa empresarial,

[01:16:41] né, então tem essa questão, assim, ah, pra ser sério, pra ser importante, ele tem que

[01:16:47] tá dentro de um crivo, de uma ideia, de um olhar, sabe, assim, tira o aspecto da brincadeira,

[01:16:56] do prazer e até de uma certa, eu não vou dizer que a sua obra seja espontânea,

[01:17:01] porque não há nada de espontânea, ela é pensada, ela é pensada, ela é encenada,

[01:17:09] eu acompanho. A própria espontaneidade é encenada, sabe?

[01:17:13] E eu acompanho as suas angústias, às vezes até pra tentar dar uma resposta artística pra esse

[01:17:18] tipo de colocação, e eu sempre bato na mesma tecla, assim, eu acho que você tem que ser fiel

[01:17:25] ao instinto, acho que a arte tem que ser, acho que toda técnica é bem-vinda, eu acho

[01:17:35] que a gente estuda técnica e tem que estudar muito mais do que se estuda hoje, porque muitas

[01:17:39] coisas é negligenciada e eu sou brego nesse sentido, né? A arte é tecne, a arte tecne é técnica,

[01:17:47] mas não a técnica pela técnica, ou seja, não algo vazio, eu acho que a técnica ela tem que

[01:17:54] estar, tem que servir, né? Portanto, tem que estar subordinada ao instinto, não mais do que

[01:17:59] o pensamento, eu acho isso inclusive do ponto de vista da filosofia, quando o sujeito diz assim,

[01:18:05] porque o meu pensamento filosófico, aí ele tenta apresentar aquilo como uma, eu acho que é

[01:18:10] instinto mesmo, acho que os grandes filósofos são aqueles que dominaram uma técnica

[01:18:17] de expressividade, pra lidar com os jornais, mas sobretudo escrita, porque a tradição

[01:18:23] filosófica é isso, pra falar do seu instinto, né? Quer dizer, não me parece que o Sócrates

[01:18:28] pensou e aí forjou o modo de pensar, e parece que o modo de pensar do Sócrates era instintivo,

[01:18:37] quer dizer, era dialético, a dialética não é uma invenção dele que surge a partir, vamos dizer

[01:18:46] assim, das considerações, das possibilidades lógicas de pensamento, mas eu acho que algo

[01:18:52] que surge como um instinto mesmo, e é claro que aí há todas as condições históricas,

[01:18:59] sociais, culturais pra fazer, prevalecer isso, né? Então, por exemplo, a Grécia dava condições

[01:19:06] pra que determinados tipos de homem, que eram os homens livres, os cidadãos, ficassem nas

[01:19:13] praças públicas em contendas, né? Argumentativas sobre a situação da cidade, quer dizer, era o Osco

[01:19:23] que permitia isso. Claro, que permitia filosofia de modo geral. É, acho que hoje é a academia,

[01:19:29] acho que hoje é a academia, você não tem hoje como validar esse instinto filosófico,

[01:19:35] você não tiver preso as regras da academia, e portanto, a sua técnica, que é a técnica

[01:19:41] acadêmica de escrever trabalhos. Por isso que você tem, por exemplo, toda uma tradição francesa,

[01:19:45] que pra dizer uma coisa simples, escreve vinte páginas, em causa mais confusão do que

[01:19:51] clareza. Você lê Lacan, você lê Derrita, você lê Deleuze, mesmo em certa medida o Foucault,

[01:19:58] eles têm coisas muito simples, de uma forma muito complicada. Sem dúvida. E sacar essa

[01:20:04] complicação, no fundo, é sacar a técnica, né? Então, eu acho que você diz algo muito

[01:20:09] complicado do ser humano, de uma forma muito simples, né? Que faz parte dessa sua ensinação,

[01:20:16] né? Então, quando a gente olha, quase maravilhamente, você fala assim, ah, mas aqui, onde que tá o

[01:20:23] truque, né? Ou seja, onde que tá o conceito, onde que tá o projeto? Aí a pessoa fica procurando

[01:20:28] o conceito, né? Que é uma das desgraças das artes, é essa questão conceitual, né? Que fica

[01:20:34] claro, com o conceito, que é propriamente com a arte que você está.

[01:20:37] É, ou o propósito, né? Assim, como que isso, sei lá, dialoga com as questões atuais.

[01:20:43] É, nesse sentido do conceito, com certeza, né? Às vezes é isso, parece que a obra é

[01:20:49] secundária em relação a um suporte de intenção, aí é ao anunciado que é quase como

[01:20:57] querendo provar um ponto e realmente isso parece que tira completamente o interesse do

[01:21:04] conceito. E aí o conceito passa a ser a segunda coisa mais importante da arte,

[01:21:10] né? Porque a primeira é a validação financeira, né? E quanto vale essa pintura, né? Então,

[01:21:19] por exemplo, é importante dizer isso, que embora você venda suas pinturas no Brasil,

[01:21:27] ela é comercialmente muito mais valorizada nos Estados Unidos, por exemplo, ou na Europa,

[01:21:34] enfim, né? Se pegar a Florença, né? Que é o berço do Renascimento, onde as pessoas,

[01:21:39] quer dizer, ela é validada mais lá do que aqui. E aí você passa um pouco por esse crivo,

[01:21:46] quer dizer, se você, quanto mais cara você vender sua obra, quer dizer, quanto mais difícil

[01:21:52] é expressá-la financeiramente, mais ela vai ser valorizada, né? Esse é um dos problemas.

[01:21:59] É, isso que eu ia dizer. Às vezes é uma das crises da arte, é justamente quando se é

[01:22:06] valorizado muito financeiramente, só que você deixa desejar o outro lado conceitual ou,

[01:22:11] sei lá, discursivo, como o próprio caso do Romero Brito, assim. Eu sou meio que, sabe,

[01:22:18] eu fico um pouco com ele nesse sentido. Peraí, peraí. Tem uma diferença brutal.

[01:22:28] Brutal. Eu só vou aceitar isso quando você pintar o quadro do Bolsonaro e mandar pra ele.

[01:22:35] É, pode crer. Até onde eu saio, o Romero Brito é um bajuladu de primeira. Eu não vejo

[01:22:44] lá ninguém. Pode crer. Diz aí, Daniel. Não, mas acho que nem essa questão também.

[01:22:49] Assim, pode ser, mas isso também é de menos, né? Assim, ele pode ser um bajulador e pode

[01:22:54] ter uma obra, poderia, né? Se fosse o caso, tem uma obra excelente, não é? Também o meu primeiro

[01:22:59] caso. Mas acho que a diferença aí também é um pouco entre o que estava sendo dito de

[01:23:05] projeto. Eu particularmente acho interessante a ideia do projeto da arte, mas acho que é

[01:23:10] muito diferente do projeto pensado como a ideia do conceito, como se ela fosse uma coisa

[01:23:14] que explicasse a obra. E aí realmente é algo que eu considero muito estranho, né? É

[01:23:22] justamente essa ideia de que você pudesse tirar a casca enquanto a obra é a casca,

[01:23:28] né? Porque é a superfície. Sim. E lá, como de novo falou toda unidade, né? Superficial

[01:23:35] para a profundidade, é o profundo, é superficial. Não, eu só queria também deixar claro que eu

[01:23:39] não tenho nada contra o projeto de verdade, nem retórica, sabe? Eu não tenho nada contra,

[01:23:45] tenho até amigos que fazem. Eu acho muito interessante, eu estudo, eu gosto de estudar,

[01:23:51] sinto prazer em estudar e contemplar artistas que só produzem por meio de projetos. Isso

[01:24:00] eu acho assim fantástico. Agora, o projeto para mim não deixa de ser um blefe ou uma

[01:24:05] encenação de um projeto, entendeu? E também não deixa de levar em conta essa dimensão intuitiva

[01:24:11] que o Rogério estava colocando. Então eu acho que ele pode lidar com essas questões,

[01:24:17] é um projeto pensado dessa maneira específica, como se fosse um desdobramento de uma ideia

[01:24:23] que está por trás e que dá o valor à arte. Aí é que realmente. O problema é o caráter

[01:24:28] impositivo, eu concordo inteiramente também. Eu acho que não vejo problema nenhum no projeto,

[01:24:32] o problema é o caráter impositivo. Quando diz assim, tá, mas Marcos, qual é o conceito da sua obra?

[01:24:37] É aí que é o problema, é condicionar a essa necessidade. É o modo de transar o projeto,

[01:24:46] que aí acaba sendo também uma imposição porque é o projeto, não é um projeto.

[01:24:51] É o modus operandi da coisa. Só para ilustrar isso, tem uma coisa que eu cheguei a incluir no

[01:24:59] livro e depois tirei porque eu acho que ia ser muito polêmico, mas acho que eu vou trazer aqui,

[01:25:04] que é um caso do Duchamp, que eu sempre, eu gosto de falar que um dos artistas preferidos

[01:25:10] para espanto das pessoas é o Duchamp. Eu realmente admiro o Duchamp, assim, e… Oi?

[01:25:18] Ele tem coisas interessantíssimas, né? Sim, sim. E o que eu acho interessante nele é que,

[01:25:23] assim, a quantidade de obras que ele fez é muito diminuta, é muito pequena. Ele fez muito poucas

[01:25:31] peças e, assim, depois, lá da época do Red Maid e do McThor, enfim, e depois da Segunda

[01:25:40] Guerra, quando ele vai para os Estados Unidos, ele para de produzir, ele começa mais a escrever,

[01:25:46] enfim, ele também, se eu não me engano, tinha uma herança lá que permitia ele ser um diletante,

[01:25:51] assim, sem precisar, sem ter necessidades financeiras. Mas o caso é o seguinte, que nessa

[01:25:57] época que ele morava nos Estados Unidos, eu acho isso genial. Um galerista, ou sei lá,

[01:26:04] um cara do museu, ligou para ele e falou, olha, Duchamp, a gente quer fazer uma exposição

[01:26:08] sua para comemorar, sei lá, não sei quantos anos do McThor, dos Red Maids, e queria te

[01:26:16] perguntar se você está interessado e tem obras aí para a gente juntar. Aí o Duchamp falou,

[01:26:21] olha, eu parei de fazer a arte, eu já vendi todas as minhas obras, eu não tenho nada aqui comigo,

[01:26:28] então você me desculpe. Aí o cara insistiu, assim, e em resumo, o Duchamp, depois da

[01:26:33] insistência do cara, ele falou assim, então faz o seguinte, o senhor passe numa Leroy Merlin,

[01:26:40] uma loja de departamento assim, para a construção de casa, assim.

[01:26:44] Sim, Home Depot, nos Estados Unidos.

[01:26:47] É, e compra um balde, compra uma vassoura, compra um aspirador de pó, e traz todas essas coisas,

[01:26:55] daí deu uma lista toda e traz todas essas coisas para mim. Aí eu assino e você expõe.

[01:27:00] Cara, isso é genial, entendeu? Isso, assim, se você quiser, você pode dizer, não, isso é um projeto,

[01:27:16] sei lá, um projeto de vida do Duchamp, que é questionar, sei lá, o campo da arte e as

[01:27:23] convenções artísticas, etc. Pode se falar nesses termos, mas também não deixa de ser intuitivo,

[01:27:28] como o Rogério estava dizendo, assim. Tipo, é próprio da personalidade do Duchamp,

[01:27:34] assim, de quem ele, o modo como ele pensava, fazer esse tipo de coisa, que é genial, entendeu?

[01:27:41] É uma coisa assim.

[01:27:43] Quando eu falo intuitivo, eu não estou justamente colocando contra a intuição de um lado,

[01:27:50] por exemplo, e o pensamento do outro. Isso, eu estou dizendo o contrário,

[01:27:54] porque justamente esses processos racionais, eles são derivados, vamos dizer assim,

[01:28:00] dessa pulção inicial aí, que é intuitiva, né? E aí eu concordo com a sua leitura nesse sentido.

[01:28:07] É. Enfim, no livro eu comento sobre uma série de artistas, assim, que eu acho interessante,

[01:28:16] e alguns desses artistas que eu comento no livro são artistas contemporâneos,

[01:28:21] como a Wendy Sherman, que é uma fotógrafo, que eu realmente admiro o trabalho dela,

[01:28:25] a Jane Saville, que eu comento lá em determinado momento. Enfim, e no final,

[01:28:33] eu simplesmente falo assim, bom, porque que, sabe, eu tendo uma pintura que não é projetual,

[01:28:43] eu não tenho essa pretensão de ter uma, sei lá, uma proposta, um propósito bem definido,

[01:28:50] bem delimitado, por que eu não posso admirar outros artistas ou mesmo, sei lá, valorizar

[01:28:58] o meu próprio trabalho nesse sentido, que é diferente, né? Uma coisa que realmente valoriza

[01:29:04] a técnica. Uma das principais críticas, inclusive, que eu recebo é justamente essa,

[01:29:09] que eu acho ótimo, assim, que a pintura do Beccari é só técnica. Eu falo, é verdade,

[01:29:17] não tem nada além de técnica nisso. É verdade, é só tinta sobre o papel e uma técnica aí,

[01:29:25] fazendo a mediação. Não tem muito o que dizer além disso, assim. Então, sei lá, sabe,

[01:29:35] a gente pede, assim, não me faz, sei lá, alguém reacionário na arte, assim, que só valoriza a

[01:29:43] grande tradição dos grandes mestres que não tinha mais esse blá, blá, blá, que é o

[01:29:48] conservadorismo na arte hoje. Que eu também acho estúpido, assim, você sabe, ter uma,

[01:29:53] se fechar as artes contemporâneas, por exemplo, em nome de uma verdadeira arte que tá morrendo.

[01:29:59] É, só que o que eu vejo mais…

[01:30:02] Que de novo o uso da história, né? De novo o uso da história pra negar a realidade.

[01:30:07] Exatamente, o que eu vejo é quase o contrário disso, assim. Quem gosta de arte tradicional,

[01:30:14] figurativa, realista, geralmente, isso assim, na minha percepção, né, dos meus círculos

[01:30:21] sociais, estão super abertos e conseguem apreciar bastante arte contemporânea,

[01:30:27] arte conceitual. Agora o contrário eu não vejo, sabe, eu acho que…

[01:30:31] É, porque esse discurso de voltar a arte tradicional, normalmente, é de quem não

[01:30:35] aprecia arte nenhuma, assim, né, só pra dizer, não, esses artistas, bandas de vagabundo.

[01:30:40] É, aquele…

[01:30:42] Aí o verdadeiro artista é Leonardo da Vinci e tal.

[01:30:45] Então, mas que daí não fazem arte, também é essa…

[01:30:48] Não, só não fazem, como não consomem, assim, enouram.

[01:30:52] Sim, sim, sim, sim.

[01:30:53] É uma coisa, é uma palavra, assim, que…

[01:30:56] Sim.

[01:30:58] É, mas aí a gente teria que fazer um podcast, um filme não obstante, especial.

[01:31:04] Sim.

[01:31:04] Em vários, assim, só pra falar das idiotices, né, que a gente encontra, com certeza.

[01:31:12] Infelizmente, atualmente, então.

[01:31:15] É, a gente tem um cenário bastante adverso, que realmente concorda inteiramente.

[01:31:20] As pessoas não têm a menor ideia do que seja a arte, porque simplesmente não

[01:31:26] aprenderam essa questão de olhar, né, pra arte, enfim, não tiveram formação

[01:31:32] mínima, né, como observador, né, não tô falando como especialista.

[01:31:38] Sim, sim.

[01:31:39] E aí a gente fica num cenário bastante complicado, porque você tem, por exemplo,

[01:31:41] hoje você tem mais poetas do que eleitores de poesia.

[01:31:44] Então, como um poeta é aquele que não gosta de ler o que o colega faz,

[01:31:48] porque ele parece que tá concorrendo, então as pessoas escrevem pra si mesmas.

[01:31:52] Isso é um fenômeno interessante.

[01:31:55] Em relação à pintura é um pouco por aí, né, ou passa pelo crivo mercadológico,

[01:32:01] que é uma coisa meio bitcoin, né, assim, você nunca sabe se aquela tela ali

[01:32:07] pintada vai valer alguma coisa ou não vai valer nada, enfim, que é um tipo de

[01:32:16] aposta, né, que muitos fazem, ah, vou patrocinar aqui esse artista,

[01:32:21] porque aquele galerista lá consegue, né, então um pouco da ideia de casa

[01:32:28] lotérica, né, a galeria vira uma casa lotérica em que você compra o seu

[01:32:31] bilhete e espera que ele seja premiado.

[01:32:33] Sim, leilão principalmente.

[01:32:35] Isso, a gente tenta fugir um pouco disso e trazer justamente essa questão

[01:32:41] da arte integrada à vida, né, que tá na rua.

[01:32:43] Sim.

[01:32:44] Eu queria falar de uma coisa aqui, acho que a gente não pode terminar, né,

[01:32:49] a gente tá caminhando pro final, mas a gente pode terminar sem falar dos títulos,

[01:32:54] né, das quatro partes que compõem o vídeo, né, então a gente tem a primeira,

[01:33:00] que é o preâmbulos, né, com S aqui entre parênteses, então é um preâmbulo,

[01:33:04] mas que na verdade são preâmbulos, e aí tem três questões, né, duas

[01:33:08] perguntas em aberto, uma questão de disciplina, né, uma pergunta e

[01:33:12] representações, depois a gente tem das imprecisões, que pode ser lido também

[01:33:18] como impressões, né, do modo como os parênteses são colocados, com textos

[01:33:26] assim muito, muito interessantes, né, em termos de títulos, aqui vou pegar

[01:33:31] alguns, né, o cachimbo pintado na tela é sim um cachimbo, impressões na beira

[01:33:37] de um mesmo rio, é claro que a referência, né, a Heráclito, termos com sentidos,

[01:33:43] né, então termos sentidos e termos com sentidos,

[01:33:47] essa é a terceira parte já, né, essa é a terceira parte, e aí com o ensaio

[01:33:52] que eu acho que é ótimo, né, porque desmente tudo que a gente tá dizendo

[01:33:55] aqui, não se pergunta o que quer dizer uma pintura, ou então este outro

[01:34:02] impagável também, a encenação é uma mentira verdadeira, e por fim a quarta

[01:34:09] parte, né, que seria ali das conclusões e que aparece aqui em conclusões e ao

[01:34:14] mesmo tempo pode ser lido, achei essa sacada genial como inclusões, né, então

[01:34:19] a gente tem aí um final que na verdade não termina porque acaba incluindo ali

[01:34:24] uma outra ideia, e tem um ensaio aqui que é fantástico, que é da eloquência

[01:34:29] do mesmo, né, eu acho que acaba trazendo um pouco dessas questões que eu

[01:34:34] mencionei aqui anteriormente, né, sobre o amor-fate, sobre essa relação do

[01:34:40] original, da cópia, daquilo que é o mesmo, enfim, ali eu acho que é um ensaio

[01:34:47] mais filosófico mesmo, assim, mas talvez um pouco mais denso, né, mas eu acho

[01:34:54] que a liberdade com que você conduz aqui a nomeação dos ensaios mostra que eles

[01:35:01] não são nada cisudos, não são nada pesados, eu acho que há aqui uma

[01:35:06] reflexão que ela é profunda, mas que é enunciada também de uma maneira

[01:35:11] muito prazerosa de ler, pelo menos foi essa minha impressão, e foi isso

[01:35:15] que eu tentei passar no prefácio, né, quando convidaram a escrever, enfim,

[01:35:22] fiquei muito honrado e foi um prazer escrever.

[01:35:25] Poxa, foi uma alegria de ter o prefácio seu, enfim, você sabe por quê,

[01:35:33] da nossa amizade e tal, e de fato eu tentei meio que afirmar e abraçar

[01:35:39] essa ideia, esse caráter ensaístico nos títulos, assim, justamente de

[01:35:44] deixar os próprios títulos meio imprecisos, meio indefinidos, assim,

[01:35:50] sem ter uma ideia exatamente, assim, eu aproveitei os títulos pra brincar

[01:35:58] mesmo, sabe, não fazer um título como se espera de um título, pelo menos do

[01:36:01] ponto de vista acadêmico, né, que é mostrar do que o texto se trata

[01:36:06] exatamente, assim, eu tentei só fazer essas brincadeiras, e diga, Daniel, diga.

[01:36:12] Não, já que o Rogério apresentou o sumário, vale dizer que lá na

[01:36:18] campanha tem uma prévia do livro, então, quem estiver ouvindo até aqui no final,

[01:36:25] e indo, né, a gente encerrando aqui o programa e indo lá pra campanha, pode

[01:36:33] acessar, tem um link lá pra prévia do livro, pode ver o sumário e também

[01:36:37] alguns dos ensaios, algumas partes pra ter uma noção mais clara.

[01:36:45] E algumas partes do miolo pra ter uma noção de como é o livro.

[01:36:48] Sim, sim.

[01:36:49] É, fora, enfim, tem fotos, tem imagens, né, tem diversas coisas.

[01:36:53] E a possibilidade de ter a aquarela também ali com o incentivo.

[01:37:01] Ah, é, entre as recompensas possíveis.

[01:37:05] E aí uma das questões que eu coloquei no prefácio, que eu queria aqui só

[01:37:10] também, é que não é nada impressionante, nós temos, por exemplo, um professor

[01:37:16] acadêmico que toca piano ou que faça pinturas.

[01:37:21] Eu conheço, assim, dos colegas que trabalharam, que trabalham comigo,

[01:37:27] alguns que se lançam sempre a determinados hobbies.

[01:37:30] Caramba, você tem sorte, então, pra mim é difícil de ver.

[01:37:36] Não, isso é até relativamente comum.

[01:37:40] O que pra mim é muito difícil, eu acho realmente raro, é alguém conseguir conciliar

[01:37:46] com tamanha intensidade, tamanha qualidade, assim, duas carreiras, que é a de professor

[01:37:52] universitário, que a gente sabe que é difícil, no caso do Brasil sempre envolve uma aventura

[01:37:58] mais, com uma outra que é, enfim, de ser um artista, um aquarelista e fazer uma carreira

[01:38:09] como tal.

[01:38:10] Mas carreira também é um termo muito forte, porque eu sou iniciante nas duas áreas.

[01:38:15] Não, mas ele não.

[01:38:19] Isso na verdade você é professor efetivo da Universidade Federal do Paraná, com

[01:38:28] o probatório já cumprido, então você até pode querer dizer, ah, não, porque eu

[01:38:34] sou jovem, tô começando, não é verdade, você já tem experiência, inclusive acumula

[01:38:38] cargos de gestão, enfim, que você sabe que é de grande responsabilidade que

[01:38:42] toma o tempo.

[01:38:43] E de culpa também.

[01:38:44] E na pintura, eu acho que há uma cúmula, você tem com certeza mais de mil aquarelas,

[01:38:51] então, assim, há uma quantidade muito grande, há um tempo na estrada e há um

[01:38:56] conhecimento, quer dizer, você dá curso aqui em São Paulo, você dá curso em

[01:39:00] Florença, quer dizer, é o máximo que a gente pode imaginar em termos de

[01:39:04] reconhecimento, você tem uma galeria de Florença, quer dizer, o berço ali do

[01:39:08] que a gente conhece como arte moderna, moderna, que eu digo assim, na modernidade,

[01:39:14] feita na modernidade, esse é o berço do Renascimento.

[01:39:16] Não é uma arte moderna, do rótulo da Estrada da Arte.

[01:39:20] Isso, é que quando a gente fala Renascimento, a gente fica parado lá atrás, mas

[01:39:25] do Renascimento para cá, sim, sim, você é só modéstia, não permite dizer, mas

[01:39:31] enfim, você vai lá dar curso, você vai ensinar os europeus a fazer a

[01:39:37] pintar de verdade.

[01:39:39] Isso foi convidado a verdadeira arte, não sei porque ainda não foi para

[01:39:45] Rússia, enfim, poder também lá dar seus cursos na Rússia, quer dizer, esses

[01:39:53] convites internacionais, o fato de vender aquarelas internacionalmente, ter, enfim,

[01:40:01] né, milhares de seguidores nas redes sociais e poder fazer um livro em que

[01:40:09] você reflete sobre o seu trabalho como pintor, eu acho que é algo assim

[01:40:13] raríssimo de se encontrar e quando a gente observa a coerência com que

[01:40:20] você faz isso, a gente vê a maturidade que você atingiu e eu acho que esse

[01:40:25] livro é o testemunho e a comprovação disso.

[01:40:29] Muito obrigado Rogério e Daniel, enfim, foi um prazer não só conversar

[01:40:39] com vocês sobre esse livro e tal, mas ouvir de fato as impressões de

[01:40:43] vocês, apesar de a gente estar conversando desde o início e tal, agora que a gente

[01:40:51] quase fechou o projeto e está lançando ele, é sempre muito, assim, eu fico meio

[01:40:58] apreensivo com a impressão das pessoas e saber da impressão de vocês, que é

[01:41:03] para mim os leitores mais importantes, é muito bom, enfim, eu fico muito

[01:41:09] honrado e, sei lá, feliz, lisonjeado com todo esse papo que a gente teve

[01:41:18] hoje e convido o nosso ouvinte para conhecer o projeto no Catarse, faça o

[01:41:28] apelo aí, a gente tem que bater 30 mil reais.

[01:41:30] 29 mil, né?

[01:41:34] Mas é, não sou um suspeito para falar, é claro, como os editores, mas realmente

[01:41:39] acho que o projeto ficou muito legal, certamente se não fosse eu que tivesse

[01:41:46] também participando do teitinho do projeto, se eu por acaso tivesse entrado

[01:41:50] e encontrado um projeto desse, eu, com certeza, teria me interessado e

[01:41:57] me apoiado porque ele realmente tem diversas camadas, essa coisa de ter um

[01:42:04] texto interessante com ensaios e o modo como o texto dialoga com as aquarelas

[01:42:10] que são impressionantes, o material gráfico, a sobrecapa, os prints, então

[01:42:19] realmente eu fiquei muito satisfeito, por mais seja, falando de um projeto

[01:42:24] que eu participei, enfim, espero que tudo dê certo e quero ver ele pronto.

[01:42:31] Acrescentado, só um, sei que a gente já está se estendendo, mas que eu

[01:42:38] fiz questão, quer dizer, eu insisti para vocês escreverem o prefácio, o

[01:42:42] postfácio, insisti desde o início para vocês acompanharem esse projeto

[01:42:49] porque eu acho que a nossa amizade, que vem de longa data, tanto do

[01:42:57] Rogério com o Daniel, influenciaram diretamente no meu trabalho.

[01:43:05] Se eu começo a imaginar, por exemplo, que, sei lá, se eu seguisse um

[01:43:10] grupo, se eu estivesse fazendo parte de um grupo de arte, se eu tivesse

[01:43:15] mais proximidade com artistas que estão a longa data, a muito tempo fazendo

[01:43:24] arte, provavelmente eu não faria isso que eu faço, eu acho que a

[01:43:28] aquarela que eu faço ela é totalmente, vai ser super pretensioso o que

[01:43:33] eu vou falar agora, mas é totalmente filosófica, e isso é um privilégio

[01:43:38] que eu tenho justamente de conviver com pessoas como o Rogério e o

[01:43:44] Daniel, de ter essas pessoas que são, enfim, filósofos extremamente

[01:43:53] competentes, enfim, que eu admiro, e isso, basicamente, é o que me

[01:43:58] levou assim, direta ou indiretamente, a fazer esse tipo de trabalho, até

[01:44:02] essas reflexões e produzir esse livro, então acho que a parceria

[01:44:08] aqui vai além dos livros, obviamente, e as pinturas refletem

[01:44:12] muito, vocês me acompanharam, é isso que eu estou querendo dizer, desde

[01:44:16] quando eu comecei a mostrar as aquarelas e tal, isso foi muito

[01:44:22] importante para mim, de ver o olhar de vocês, as impressões,

[01:44:27] não só elogios, vocês sempre me falaram, ah, isso aqui eu achei

[01:44:32] meio estranho, ou essa daqui eu não gosto tanto, a gente sempre

[01:44:37] discutiu sobre as pinturas, isso sempre foi bom para mim, porque, enfim,

[01:44:45] eu lembro, por exemplo, no doutorado, eu comecei a mostrar algumas

[01:44:49] aquarelas para o Rogério, e daí ele gostou, ficou impressionado e tal,

[01:44:53] estava em dúvida, inclui elas na tese, aí o Rogério falou, não,

[01:44:57] inclui, inclui junto com os contos, enfim, sempre me motivou nesse sentido,

[01:45:02] e, enfim, o Daniel sempre quis comprar minhas aquarelas.

[01:45:10] Eu também sempre quis comprar, mas eu fico muito feliz quando eu ganho.

[01:45:18] Pois é, eu nunca deixei nenhum de vocês comprar.

[01:45:21] Porque eu acho que tem um valor adicional muito grande, mas isso que

[01:45:25] você está falando é verdade, eu me lembro de alguns exercícios que você

[01:45:29] fez que eu não gostei, a gente conversou a respeito disso, e aí, enfim, a gente

[01:45:36] vem aqui como cúmplice e também incentivando, se vocês estão ouvindo,

[01:45:41] a participar do projeto, apoiar o projeto, enfim, também acompanhar o

[01:45:49] trabalho que você faz tanto na produção de teses acadêmicos,

[01:45:54] mas sobretudo na produção de aquarelas, né, eu acho que eu, por exemplo,

[01:46:00] só não encerrei minha conta lá no Facebook, que é para de vez

[01:46:03] em quando poder entrar em festas aquarelas.

[01:46:08] Pensei que era para acompanhar o Bolsonaro ou o pessoal de esquerda, enfim.

[01:46:18] Estou cada vez mais alienado, assim.

[01:46:21] Não, mas isso que eu estou dizendo, assim, de brincadeiras à parte, é muito importante

[01:46:26] para mim, assim, só para o pessoal ter uma ideia, vocês, os dois sabem que

[01:46:31] várias vezes eu já falei para o Daniel e para o Rogério que eu estou

[01:46:35] pensando em desistir de pintar, que eu não quero mais pintar, também já

[01:46:39] falei que eu não quero mais fazer filosofia e tal, esses dilemas, assim,

[01:46:44] meio românticos, às vezes, de que eu não vejo mais sentido nisso e tal,

[01:46:49] então sempre e ele sempre falando, porra, para com essa frescura, né?

[01:46:58] Eu vou testemunhar que você realmente já tentou várias vezes parar de pintar,

[01:47:02] ficou dois dias.

[01:47:06] Exatamente, nem parece uma tentação, porque fala mesmo o que você queira,

[01:47:09] você não vai conseguir, então.

[01:47:11] Pois é.

[01:47:13] Exatamente, exatamente.

[01:47:16] É foda, enfim, gente, comprem o livro, porque daí com isso pelo menos eu posso

[01:47:25] continuar, eu posso continuar pintando, ou não, também nunca se sabe,

[01:47:32] mas enfim, também como eu disse, eu digo no vídeo, esse livro é um modo

[01:47:37] de agradecer o pessoal todo, que daí há distância, de maneira anônima,

[01:47:42] que eu não conheço todo mundo, mas todos esses seguidores mesmo, que são,

[01:47:46] né, como o Rogério disse, são milhares no Instagram, é um modo,

[01:47:53] assim, de agradecer mesmo a esse apoio, eu comento sobre isso no livro,

[01:47:59] então, enfim, é um trabalho que eu achei muito bonito de fazer junto com

[01:48:05] o Daniel e o Rogério e eu acho que o pessoal vai gostar bastante.

[01:48:10] Mas não é isso, gente, tchau, tchau, valeu a campanha, e até a próxima.

[01:48:19] E valeu pelos comentários aí, Márcio, prazer enorme.

[01:48:23] Eu agradeço também.

[01:48:25] Legal, então tchau pro vídeo.

[01:48:27] Tchau, tchau.

[01:48:40] Tchau, tchau.