60 - Bacurau
Resumo
O episódio do Revolushow é dedicado a uma análise profunda do filme brasileiro Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Os participantes Zami, Marina e Jones discutem as múltiplas camadas do filme, desde seus aspectos técnicos e narrativos até suas implicações políticas e sociais.
A conversa aborda a recepção crítica do filme, destacando as acusações de apologia à barbárie e à violência feitas por intelectuais como Durval Muniz e Pablo Ortellado. Jones argumenta que essas críticas partem de uma perspectiva liberal e habermasiana que enxerga a política apenas como espaço de diálogo e consenso, negando a legitimidade da violência como resposta à opressão estrutural. O grupo debate a natureza da violência revolucionária representada no filme e sua relação com a resistência anticolonial.
Os participantes exploram os simbolismos presentes em Bacurau, como a reivindicação da história de lutas brasileiras (cangaço, guerrilha), a crítica à colonialidade, a representação de corpos fora do padrão estético capitalista e a questão do binarismo de gênero através do personagem Lunga. A discussão também trata da estética do filme, elogiando seu som, iluminação natural, diálogos verossímeis e estrutura narrativa que coloca o espectador na mesma perspectiva de conhecimento que os personagens.
O debate se expande para questões mais amplas sobre a esquerda brasileira e internacional, analisando o “fetiche pela violência” como “grande outro” e a dificuldade de certos setores em apoiar processos revolucionários quando estes assumem o poder e deixam a condição de pura resistência. Marina pondera sobre as contradições do filme, especialmente na representação do imperialismo como inimigo externo, quando na realidade ele se manifesta através da sociabilidade capitalista interna.
Por fim, os participantes refletem sobre como a recepção entusiástica do filme por parte de setores da esquerda que na prática política defendem frentes amplas e alianças com setores conservadores revela uma desconexão entre o deleite com a radicalidade na arte e a prática política cotidiana.
Indicações
Filmes
- Tropa de Elite — Mencionado por Zami como filme consideravelmente mais violento que Bacurau, especialmente em sua representação da violência policial e miliciana.
- Uma Linda Mulher — Citado por Jones como exemplo de crítica ao capitalismo financeiro, que ele usa em formações de economia política para explicar a financeirização.
Livros
- Os Condenados da Terra — De Frantz Fanon, mencionado por Jones como leitura essencial para entender a violência revolucionária e a descolonização.
Pessoas
- Lia de Itamaracá — Musicista e cirandeira brasileira mencionada por Zami como artista maravilhosa que merece ser conhecida.
- W.E.B. Du Bois — Pensador marxista do movimento negro norte-americano citado por Jones, que definiu o crime como rebelião aberta contra o sistema em comunidades negras segregadas.
Textos
- Quando a violência revolucionária não é no cinema — Artigo escrito por Jones para a revista Ópera sobre Bacurau, analisando a linguagem política e a crise do marxismo acadêmico.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao filme Bacurau e apresentação dos participantes — Zami apresenta o episódio dedicado ao filme Bacurau, alertando sobre spoilers. São apresentados os participantes Marina e Jones. Discute-se brevemente o contexto de lançamento do filme e sua recepção nas redes sociais.
- 00:07:30 — Críticas políticas recebidas pelo filme Bacurau — Jones comenta as duas principais linhas de crítica ao filme: uma cinematográfica (sobre narrativa e personagens) e outra política. Destaca as críticas de Durval Muniz e Pablo Ortellado, que acusam o filme de fazer apologia à barbárie e à violência. Explica que essas críticas partem de uma perspectiva filosófica habermasiana/arendtiana que vê a política como espaço exclusivo de diálogo.
- 00:15:20 — Análise de Marina sobre os simbolismos e méritos do filme — Marina elogia Bacurau como obra-prima que une posição ético-política com conteúdo. Destaca os simbolismos da reivindicação histórica (cangaço, guerrilha), o papel do museu e da escola, e a relação contraditória com a morte. Analisa a cena final onde os habitantes de Bacurau não aparecem felizes após a vitória, contrastando com a celebração dos opressores.
- 00:32:27 — Discussão sobre duplo padrão no julgamento da violência política — Jones e Zami discutem o duplo padrão no julgamento moral da violência política, comparando as reações à repressão na Venezuela e no Chile. Argumentam que há uma normalização da violência de estados burgueses liberais, enquanto a violência em governos de esquerda é imediatamente classificada como totalitarismo. Usam exemplos concretos de prisões e mortes em protestos.
- 00:40:45 — Análise técnica e estética do filme Bacurau — Marina e Jones analisam aspectos cinematográficos do filme. Discutem a acessibilidade de Bacurau comparado a outros trabalhos de Kleber Mendonça Filho, o uso do som para ambientação, a trilha sonora reduzida e significativa, as transições que seguem o ritmo do dia, e a ausência de narrador onisciente. Também comentam a construção dos personagens antagonistas como caricaturas propositais.
- 01:04:43 — Debate sobre se a violência em Bacurau é revolucionária ou reativa — Zami questiona se a violência em Bacurau é realmente revolucionária ou apenas reativa. Jones defende que é revolucionária, usando a definição de W.E.B. Du Bois do crime como rebelião aberta contra o sistema. Argumenta que qualquer forma organizada de contra-política fora da institucionalidade burguesa constitui violência revolucionária. Marina concorda, acrescentando que a resistência contém germes revolucionários.
- 01:19:50 — Considerações finais e reflexões sobre a recepção do filme — Os participantes fazem considerações finais. Marina aponta como problema político a representação do imperialismo como inimigo externo, quando na realidade é parte da sociabilidade capitalista interna. Jones reflete sobre o fascínio da esquerda pela radicalidade no cinema enquanto na prática política defende alianças amplas. Zami finaliza agradecendo aos participantes.
Dados do Episódio
- Podcast: Revolushow
- Autor: Revolushow
- Categoria: News Politics
- Publicado: 2019-10-28T20:30:33Z
- Duração: 01:48:45
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/revolushow/ca3a2360-cb21-0134-10da-25324e2a541d/60-bacurau/f9a6beb0-f694-4382-8d66-b8e048cb99ab
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Dados do Podcast
- Nome: Revolushow
- Tipo: episodic
- Site: https://revolushow.com/
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Transcrição
[00:00:00] Olá pessoas, estamos começando mais um episódio do Revoluchou, o seu podcast de esquerda, mas
[00:00:20] sem perder a ternura.
[00:00:23] E no episódio de hoje nós vamos falar sobre um filme fantástico, é um filme brasileiro
[00:00:27] chamado Bakural, e que no lançamento no Japão foi conhecido como Bakuri, mentira, desculpa
[00:00:33] gente, piada sem graça, da noite, mas é um filme aí que tem sido muito falado nas
[00:00:40] redes sociais, nas xoxomídias, não tanto agora do momento que a gente está falando,
[00:00:43] porque o filme já tem mais ou menos um mês aí que saiu.
[00:00:47] E para falarmos desse filme aí, desse Bakural aí, que tem causado polêmicas e alegrias,
[00:00:52] ou não, nós temos aqui à minha esquerda a convidadíssima Marina, olá Marina, como
[00:00:57] vai?
[00:00:58] Marina adora estar à sua esquerda, sempre gosta de ser me apresentando assim.
[00:01:05] Todo mundo aqui sempre está à esquerda, é impossível estar à direita.
[00:01:08] Cuidado que vai indo para a esquerda demais, às vezes chega na direita, mas é raro.
[00:01:17] Aliás, recentemente esteve aí no dicionário marxista sobre dependência, muito bom o dicionário
[00:01:24] aliás.
[00:01:25] E ao lado de Marina está a Sônia Braga, que na verdade é o Jones, olá Jones, tudo
[00:01:30] bem?
[00:01:31] Olá, olá pessoas, muito boa noite, bom dia, boa tarde, a depender do horário que você
[00:01:35] está escutando esse podcast maravilhoso.
[00:01:37] Muito bom, fantástico.
[00:01:38] Para quem não sabe, ou para quem por exemplo está vivendo preso em uma câmara criogênica,
[00:01:46] recentemente aqui no Brasil, no ano de 2019, saiu um filme fantástico chamado Bacurau.
[00:01:52] Para quem também não sabe, Bacurau é um pássaro, se você perdeu essa parte no filme
[00:01:55] explicando que Bacurau é um pássaro e você não procurou sobre Bacurau, o pássaro que
[00:02:00] é muito bonitinho aliás, você está perdido no universo.
[00:02:06] Bacurau basicamente roda em cima de algumas questões que nós vamos começar a falar neste
[00:02:10] exato momento e eu acabei de lembrar que se você não assistiu Bacurau e você está
[00:02:15] vindo aqui no Revolucho ouvir sobre o Bacurau, eu queria avisar que isso não é um trailer,
[00:02:20] a gente está discutindo o filme, então se a gente está discutindo o filme a gente vai
[00:02:23] dar spoiler, porque quem não dá spoiler é trailer, e dependendo do trailer ele já
[00:02:27] fala o filme todo e você não precisa nem ver o filme, porque o filme é ruim, mas não
[00:02:30] é o caso de Bacurau, que é um filme bom, então se você está esperando que a gente
[00:02:36] não fale de pontos sensíveis de Bacurau, você está errado e eu recomendo profundamente
[00:02:41] que você vá ver o filme e depois você volte aqui.
[00:02:44] E se você não tem problema com isso, tudo bem, você pode ficar aqui, a gente deixa.
[00:02:50] Então basicamente assim, Bacurau vai rodar em cima da história de um distrito, nem
[00:02:56] uma cidade na verdade, Bacurau é um distrito de Serra Verde, olha só, cidade é Serra
[00:03:01] Verde, que é um distrito que está lá na dele, que é tina dele etc, que obviamente
[00:03:06] em determinado ponto, quando você chega em Bacurau você tem aquela placa maravilhosa
[00:03:10] que é se for vai em paz, muitas frases ali, aliás de Bacurau, elas estão sendo utilizadas
[00:03:16] pelas pessoas, enfim, e que algumas pessoas vão e de repente elas não vão em paz na
[00:03:23] verdade, então esse basicamente é o plot inicial de Bacurau, começa com o enterro
[00:03:31] de uma senhora, agora eu fico em dúvida, a senhora é avó ou é mãe da protagonista
[00:03:37] que vem no caminhão de água?
[00:03:39] Avó.
[00:03:40] Avó?
[00:03:41] É avó.
[00:03:42] Então a avó, eu esqueci o nome dela cara.
[00:03:45] Carmelita.
[00:03:46] Carmelita, obrigado.
[00:03:47] Tô afiada, tô afiada.
[00:03:48] Não, pior que, tá ótimo, porque é a que eu vi o filme a segunda vez e eu não lembro
[00:03:56] o nome de quase ninguém, eu sou péssimo com nomes, o único que eu lembro é pacote,
[00:04:00] porque pacote é um apelido e pacote é muito fácil.
[00:04:04] Aproveitar só pra fazer uma parte aqui que é o momento, ela é a Lia de Tamaracá, né,
[00:04:09] que é maravilhoso em si.
[00:04:10] É mesmo, não conheço a Lia de Tamaracá, fale mais sobre isso.
[00:04:13] Caraca, musicista maravilhosa, cirandeira, fantástica, nossa música brasileira, vamos
[00:04:20] conhecer a Lia de Tamaracá, maravilhosa.
[00:04:22] Gente do céu, que loucura.
[00:04:25] Então olha aí, já fica aí a primeira dica pra você que passou direto que nem eu desse
[00:04:31] filme aí.
[00:04:32] Acho que eu passei direto em vários momentos desse filme, mas em outros momentos eu acho
[00:04:36] que eu não passei.
[00:04:37] Algumas coisas assim que eu achei que me chamaram muita atenção no filme, eu não sei se vocês
[00:04:41] notaram isso no começo, eu vou falar de algumas coisas que são bem simples na verdade, depois
[00:04:44] a gente entra na discussão mais pesada ainda no medida possível.
[00:04:49] Alguém notou que em determinada parte do filme tem uma boca de um tubarão no chão?
[00:04:55] Sim.
[00:04:56] Vocês notaram isso?
[00:04:57] Johnny, você notou também?
[00:04:59] Eu notei, notei, eu acho que sim, talvez, quem sabe.
[00:05:03] Cara, a primeira coisa que veio na minha cabeça quando eu vi aquela boca foi a frase
[00:05:07] de Antônio Conselheiro, que o sertão vai virar mal, mas vai ser acertão, sabe?
[00:05:13] Porque a boca de tubarão não era pra tá ali, definitivamente não era pra tá ali,
[00:05:16] é bem no interior na verdade, ali do nordeste ali, agora qual região específico fica meio
[00:05:22] nebuloso, eu acho que a ideia é essa mesmo, mas a gente sabe que é o nordeste.
[00:05:25] É o época de Pernambuco, Zamy.
[00:05:28] É?
[00:05:29] Olha só, perdi essa parte.
[00:05:31] Eu assisti hoje, gente, pela segunda vez, é por isso que eu tô sabendo.
[00:05:34] Ah não, você tá mais fresca que todo mundo aqui, cara.
[00:05:37] Eu fui ver hoje a tarde, minha gente.
[00:05:42] O cara que fez o dv de casa profundamente, né?
[00:05:45] E o Jones, eu acho que o Jones teve mais contato com isso do que eu, né?
[00:05:49] O Jones aí teve mais contato com pessoas, nada a ver reclamando do filme, né, Jones?
[00:05:54] Não, a primeira mensagem que eu quero deixar aqui, eu quero deixar uma nota de repúdio,
[00:05:58] né, porque nas redes sociais sempre, sempre questionam minhas opiniões cinematográficas.
[00:06:05] Eu sou fubúlen, né?
[00:06:07] Eu sou fubúlen porque as pessoas não compreendem meu gosto particular pelo cinema e eu quero
[00:06:12] dizer que em protesto a isso, todo episódio do Revoluchow que for falar sobre um filme
[00:06:16] eu vou entrar no meio.
[00:06:20] Como diria o grande Mario Lobo Zagallo, vocês vão ter que me engolir.
[00:06:24] Muito bom.
[00:06:25] Eu queria aproveitar esse exato momento aqui, gente, pra quem não lembra, né, do democracia
[00:06:32] invertida, o Jones aí confessou profundamente que ele é um romântico, é, e que ele gosta
[00:06:37] muito de Titanic, né, que é um filme triste, eu falei que o Titanic é um filme de comédia,
[00:06:41] mas o Jones foi contra.
[00:06:43] A minha opinião.
[00:06:44] Eu só quero abrir um parêntese aí também, recentemente no Rio Grande do Sul eu participei
[00:06:48] de uma formação, introdução à economia política e eu expliquei a finalização do
[00:06:53] capitalismo a partir do filme Uma Linda Mulher, que é uma crítica ao capitalismo financeiro,
[00:06:59] ninguém percebeu isso, mas eu percebi.
[00:07:01] Eu nem lembro da história de Uma Linda Mulher, cara.
[00:07:04] Fica a dica aí, infelizmente essa formação não foi gravada, mas em breve eu vou gravar
[00:07:09] um vídeo no canal provando a minha tese.
[00:07:12] Que Uma Linda Mulher é uma crítica ao capital financeiro.
[00:07:16] Ao capital financeiro e que existe uma nostalgia Fordista expressa na história do filme.
[00:07:23] Que isso, que loucura.
[00:07:24] Agora a gente vai ter que abrir, vou ter que voltar com o meu canal agora, por causa disso.
[00:07:29] Muito bom.
[00:07:30] Jones, o que você viu nesse filme, plus, você já escreveu aí uns dois artigos aí
[00:07:36] para outros sites, etc, plus o que você viu de gente reclamando desse filme, porque até
[00:07:42] por exemplo eu, eu particularmente não vi ninguém reclamando desse filme.
[00:07:46] Veja, eu acompanhei basicamente do ponto de vista, existem duas grandes perspectivas
[00:07:52] de analisar o filme, uma perspectiva mais cinematográfica, por assim dizer, mais de
[00:07:58] técnica de cinema, e aí eu vi, sinceramente, pouquíssimas críticas, o máximo que eu
[00:08:03] vi foi pessoas afirmando que a narrativa do filme é muito pobre, que os personagens
[00:08:09] são muito maniqueístas, por assim dizer, mas sinceramente eu acho que os diretores
[00:08:16] ou quem escreveu o roteiro, enfim, acho que os autores ou autoras, os mentores intelectuais
[00:08:22] da obra, acho que fizeram isso de propósito, eu acho que o nível de caricaturização
[00:08:28] dos, especialmente dos mercenários gringos, me parece proposital, é como se fosse uma
[00:08:34] espécie de rambo invertido, sabe?
[00:08:36] Aquela construção do saudado norte-americano perfeito, valente, corajoso, destemido, que
[00:08:43] vence todo mundo sozinho, se fez uma caricatura ao contrário.
[00:08:47] A maioria das críticas que eu vi foram políticas, e aí pessoas, personalidades famosas, como
[00:08:54] o famoso historiador Duval Muniz, o nem tão famoso, mas mais conhecido porque é colunista
[00:09:00] do jornal Filha de São Paulo, o professor da USP, Pablo Hortelado, também escreveu
[00:09:04] um texto destrinchando o filme e colocando ele como um filme ruim, porque faz uma apologia
[00:09:12] da Barbari, assim como saiu também na revista Piauí, no ensaio, que eu não vou lembrar
[00:09:17] o nome do sujeito, eu posso procurar, já que também criticava a apologia da Barbari
[00:09:26] no filme expressa pela violência, como se o universo de resistência fosse restringido
[00:09:32] a dimensão da violência.
[00:09:34] De maneira geral, as críticas ao filme dão uma perspectiva política, já que a recepção
[00:09:40] do filme foi extremamente politizado, aqui, pelo menos, em Recife, em Pernambuco e em
[00:09:46] várias regiões do Nordeste, espero que eu pudesse conversar com outras pessoas, o próprio
[00:09:50] ato de assistir o filme ganhou uma dimensão política, ganhou uma coisa de pessoas indo
[00:09:57] assistir o filme toda semana, eu conheço gente que, por exemplo, assistiu o filme quatro
[00:10:02] vezes em semanas sequenciais, virou uma espécie de um elemento de cartaz, de quase que, como
[00:10:10] se ir ao cinema, ver Bacurau, fosse um ato político de resistência, e aí, como o filme
[00:10:17] foi muito politizado, acabou que o filme ganha uma conotação, que é interessante e engraçado
[00:10:22] ao mesmo tempo, que a partir do filme, se debateu muito estratégia e tática, o filme
[00:10:27] foi um catalisador de um debate muito interessante e de um debate sobre o papel da violência
[00:10:31] revolucionária. As críticas ao filme, e aí, mais pra frente, que a gente pode falar sobre isso,
[00:10:38] com mais aprofundamento, que é um tema que eu gostaria muito de abordar, de maneira geral,
[00:10:43] se parte de uma premissa filosófica e política habermaziana, e também um pouco de ranarite,
[00:10:49] que compreende a política essencialmente como um espaço de diálogo intersubjetivo,
[00:10:55] em que o convencimento, o consenso, constitui a essência da esfera política, da esfera pública.
[00:11:03] Por definição, já que a política é uma esfera do diálogo, do consenso intersubjetivo,
[00:11:10] a violência é a negação do diálogo. Então, no plano geral, abstrato, toda a violência
[00:11:16] seria necessariamente uma apologia da Barbárie, já que ela nega a essência do diálogo,
[00:11:23] do consenso, do entendimento intersubjetivo entre as partes. Então, grande parte dos críticos,
[00:11:29] de uma perspectiva mais política do filme, apelaram, com níveis de profundidade histórica
[00:11:35] e filosófica diferentes, para essa perspectiva. O Duval Muniz chegou a escrever que a esquerda
[00:11:43] precisa repudiar o paradigma político da revolução francesa e da revolução russa bolchevique,
[00:11:51] porque a esquerda precisa deixar de ser esquerda, que são os grandes paradigmas políticos de
[00:11:56] constituição da esquerda ocidental. E defender uma visão, que é uma visão essencialmente baseada
[00:12:05] em Hannah Arendt, naquele livro dela, sobre a revolução ou da revolução, de acordo com a
[00:12:08] publicação do título, de que a revolução francesa e a revolução russa levaram necessariamente
[00:12:15] ao totalitarismo, porque tinham a questão social no centro da sua agenda política, e toda vez que
[00:12:22] a questão social está no centro da esfera pública, o resultado é necessariamente totalitarismo à
[00:12:27] violência política, já que, segundo a doutora Hannah Arendt, a pobreza, a miséria, ela não pode
[00:12:33] ser superada, é um dado ontológico da sociedade humana, ela é baseada na escassez, ou seja,
[00:12:39] enquanto existir sociedade, vai existir pobreza, porque nunca vai ter bens e recursos necessários
[00:12:45] para todos, independente do modo de produção, da forma de organizar a sociedade. Hannah Arendt,
[00:12:51] a partir disso, se apropriando das reflexões do francês Alex Tocqueville e até certo ponto
[00:12:57] de Aristóteles, defende que a política é essencialmente o espaço em que os seres humanos
[00:13:05] livres vão gerir a coisa pública, como se fosse um espaço essencialmente para formular leis e
[00:13:15] formular leis para a manutenção da república, sem que coisas como acabar com uma pobreza estejam
[00:13:20] no centro da agenda política. A partir disso, necessariamente, nesse espaço entre iguais,
[00:13:26] baseado em diálogo para manter a república, toda e qualquer violência está excluída a priori,
[00:13:33] assim como está excluída a priori, a legitimidade da reação do oprimido, violenta, frente a um
[00:13:41] processo de opressão. Duval Muniz, basicamente, parte dessa premissa filosófica, repete esse
[00:13:47] argumento, assim como foi a premissa geral de crítica ao filme. Outro argumento também que
[00:13:53] eu ouvi bastante foi que, embora a violência presente no filme de revistência seja uma violência
[00:14:02] justa, ela por si só já representa a barbárie, porque quando a violência entra na política,
[00:14:09] isso significa que todos os lados já perderam, a política deixou de ser um espaço democrático.
[00:14:15] Evidentemente, para essas belas almas, as chacinas, a violência policial, os massacres nos presídios,
[00:14:26] os helicópteros atirando bala de cima no Rio de Janeiro, as mortes no campo, os Chico Mendes,
[00:14:34] Steng, Marielle Franco e por aí vai, assassinados, eles são falhas, desvios, que não maculam a
[00:14:41] essência divina e idealizada da República, que é, essencialmente, o espaço democrático e diálogo
[00:14:48] onde o poder é disputado via voto. E tudo que se desvia disso é uma falha que um dia, com a graça
[00:14:54] de Deus, vai ser corrigida antes de Jesus voltar, eu presumo. E o Faro, em, sei lá, 150 anos de
[00:15:02] República, essas, entre aspas, falhas não tenham sido corrigidas, não maculam a ideia original que
[00:15:08] pleina no reino das ideias, fazendo com que Platão pareça um grande materialista.
[00:15:14] Foi longe, garoto? Eu fiquei até confuso aqui agora no momento. Marina, você tem alguma
[00:15:20] questão para levantar em relação ao filme também? Nossa, eu tenho várias. Assim, primeiro,
[00:15:27] isso quer dizer que eu não poderia concordar mais com o que o Jones disse. Eu concordo plenamente
[00:15:32] com o que tu disse, Jones, plenamente. E eu achei Bacurá um dos melhores filmes que eu já vi. Eu acho
[00:15:41] uma obra-prima, eu acho que é um filme que consegue juntar uma posição ético-política com a questão
[00:15:50] e conteúdo de uma maneira genial. Tem muitas referências à nossa história e, ao mesmo tempo,
[00:15:57] é um filme que retrata a realidade brasileira de uma maneira muito direta. Eu acho que, assim,
[00:16:04] do ponto de vista técnico que o Jones estava falando, né, é um filme que não tem uma cena
[00:16:10] sobrando, não tem um diálogo sobrando. Hoje que eu assisti de novo para fazer o podcast,
[00:16:15] eu fiquei reparando e, caraca, eu achei mais genial ainda. Achei fantástico. E do ponto de vista
[00:16:21] político, eu acho que esse filme é uma reivindicação da luta, e não só da luta,
[00:16:27] como uma reivindicação da possibilidade de vitória, né, o que é muito importante. E,
[00:16:33] assim como o Jones colocou, é uma reivindicação da violência revolucionária como necessária para
[00:16:38] vitória. E aí, me parece que a questão da história talvez queira começar por isso,
[00:16:43] como os simbolismos que estão presentes, né. Me parece que o principal simbolismo é a reivindicação
[00:16:48] da nossa história. Então, tem uma reivindicação muito forte e imediata, que todo mundo certamente
[00:16:53] reparou, do cangaço, né, e da guerrilha. A transição, ele tem três atos, assim,
[00:16:59] uma estrutura bem básica de filme, né, e a transição do segundo para o terceiro ato,
[00:17:04] que é quando começa a guerra de fato, é aquela música do Geraldo Vandré que fala se alguém tem
[00:17:10] o poder que seja para melhorar, né, que é uma música que todo mundo que é de esquerda,
[00:17:14] e aqui acho que todo mundo que está ouvindo, todos somos, né, é uma música que a gente sabe que é uma
[00:17:19] música símbolo da guerrilha no Brasil e da luta armada como forma de resistência. Então, o papel
[00:17:26] que cumpre o museu, o papel que cumpre a escola, o papel que cumpre a reivindicação dos mortos,
[00:17:30] inclusive no fim, quando junto aos mortos, aos personagens mortos, reivindica Marielle,
[00:17:35] reivindica até a Marisa Letícia, o simbolismo, né, de que o Lunga corte a cabeça dos gringos da mesma
[00:17:44] maneira que os cangaceiros tiveram a sua cabeça cortada e exposta quando o cangaço foi derrotado.
[00:17:48] Me parece que esse simbolismo da necessidade da gente louvar os nossos mortos, né, esse paralelismo,
[00:17:56] o filme começa com um funeral, começa com caixões, né, mortos que a gente não sabe de onde vêm,
[00:18:02] tem um caminhão de caixões virado na estrada, um outro corpo morto, inclusive a Tereza que é a
[00:18:08] personagem principal ali, que não é a personagem principal, né, mas aquela primeira personagem que
[00:18:14] aparece, talvez a mulher, né, com maior papel no filme, ela fala, assim que ela vê o caixão da
[00:18:20] vó, ela fala, hoje eu vi dois mortos, né, e começa a ter aquela viagem com a água brutando do caixão,
[00:18:26] e tem essa essa relação com a morte muito forte, é uma relação contraditória com a morte, porque,
[00:18:33] por um lado, a morte é vista como inevitável e até motivo de celebração quando ela é decorrência
[00:18:42] de uma vida vivida em partilha em comunidade, então o funeral inicial que inicia o filme é
[00:18:49] maravilhoso, porque tá todo mundo relativamente feliz naquele funeral, apesar de ser um funeral,
[00:18:53] que mostra o espírito de comunidade, o espírito de partilha e a reivindicação da nossa história e
[00:18:59] dos nossos mortos. Por outro lado, os outros funerais que vão aparecendo ao longo do filme são
[00:19:04] funerais terríveis, né, a contraposição entre o funeral da Carmelita e o funeral da criança que
[00:19:09] é assassinada pelo gringo, né, eles carregando o corpo da criança com aquelas lanternas, acho que
[00:19:15] é uma das cenas mais horríveis do filme, aquele assassinato, né, então são relações com a morte
[00:19:21] diferentes. E a relação, eu tava conversando com um amigo semana passada, trocando ideias sobre
[00:19:27] o Bacurau, porque hoje em dia, né, galera troca ideias sobre o Bacurau. Eu não sou do cinema,
[00:19:31] eu não li muitas críticas, eu não fiz esse acompanhamento que o Jones fez, mas tamo aí conversando, né,
[00:19:36] e ele me contou que ele assistiu em Salvador, numa das primeiras sessões, ele tá morando lá, e foi
[00:19:42] uma sessão com os diretores, e que os diretores disseram que foi muito importante para eles aquela
[00:19:47] cena final que aparece inclusive em vários pôsteres do filme, que aparece no trailer,
[00:19:53] que é uma cena quando eles prendem o chefe dos gringos, né, o alemão no buraco, tô dando um monte
[00:20:00] de spoilers, gente, quando eles prendem o alemão no buraco, tem uma tomada que é de baixo para cima,
[00:20:05] e que aparece o rosto de todo mundo tendo acabado de ganhar a guerra, né, ou pelo menos de ganhar
[00:20:10] aquela batalha. E dá pra ver, eu reparei agora quando assisti pela segunda vez, que não tem ninguém
[00:20:16] feliz, então a galera se protege, a galera resiste, a galera é violenta porque tem que ser,
[00:20:22] mas ninguém tá feliz de cometer aquelas mortes, né, ao contrário dos inimigos, né, ao contrário da
[00:20:31] classe dominante, ao contrário do imperialismo, que tá lá rindo, se divertindo, caçando por esporte,
[00:20:36] trepando logo depois que mata para celebrar a adrenalina da morte, não tem ninguém feliz ali,
[00:20:42] então acho que o primeiro simbolismo que eu queria ressaltar é o da morte, queria ressaltar
[00:20:46] mas talvez eu já tenha falado demais, ressalto daqui a pouco. Muito bom, na verdade, aqui no
[00:20:52] Revolut Show ninguém fala demais, pode falar à vontade. Cara, é assim, eu peguei as questões
[00:21:00] que vocês levantaram aqui e eu achei muito boas, todas as questões, e aí ao mesmo tempo que eu tô
[00:21:05] concordando em algumas outras, eu tenho mais questões, das questões que foram trazidas,
[00:21:12] acho que não foram questões, foram afirmações, na verdade, eu que tenho questões, mas enfim,
[00:21:17] assim, por exemplo, eu conversei isso com um amigo meu, inclusive conversei com o Diego,
[00:21:22] o Diego não está aqui nesse exato momento, e aí a gente tava conversando sobre isso, né,
[00:21:26] depois que a gente viu a segunda vez o filme, algumas amigas minhas foram ver o filme também,
[00:21:30] inclusive algumas saíram até animadas do filme, né, teve uma amiga em específico, até que de
[00:21:35] vez em quando ela bateu uma palminha, assim, de leve, eu só tava observando, né, ao mesmo tempo
[00:21:40] que eu tava levando o filme, eu queria ver muita reação das pessoas em relação ao filme,
[00:21:43] e depois eu fui perguntar algumas coisas pra eles, eles meio que, que eles meio que se tocaram,
[00:21:48] depois eles ficaram meio caralho, não tinha percebido isso, então, por exemplo, eu não sei
[00:21:52] se vocês percebem, eu acho que acredito que vocês perceberam, principalmente a Marina aí,
[00:21:56] que viu o filme, sei lá quantas vezes, e viu hoje, aliás, mas eu vejo aquele filme de uma certa
[00:22:05] pessimismo sobre o futuro do país, assim, o filme ocorre daqui a cinco anos, né, e aí pode ser daqui
[00:22:13] a cinco anos, pode ser daqui a todos os cinco anos de acordo com o que você vê o filme, né,
[00:22:16] que eu achei muito inteligente da parte deles, aliás, eles terem colocado isso, né, o filme
[00:22:22] ocorre daqui a cinco anos, e se você perceber, o Brasil tá fragmentado no filme, porque quando
[00:22:30] eles estão chegando naquele caminhão, as notícias que estão vindo é de um tal de Brasil do Sul,
[00:22:34] vocês notaram o Brasil do Sul? E aí ali, pra mim, tá colocando assim, tem um país que tá fragmentado,
[00:22:40] né, completamente fragmentado, e que chegou ao ponto de, em São Paulo, estarem sendo retomadas
[00:22:49] as execuções no Iangabaú, vocês notaram isso também? E isso eu achei um relativamente bizarro,
[00:22:59] na verdade, o filme, pra mim, ele traz, ele traz uma questão que é aquela população resistindo
[00:23:07] a uma agressão externa feita por gringos, no geral, né, especificamente americanos,
[00:23:15] inclusive o cara que é alemão, né, que fala que mora nos Estados Unidos há 40 anos, eu até
[00:23:20] sacanei o outro cara lá falando que ele é mais americano que ele, pela idade que ele mora nos Estados
[00:23:24] Unidos, que estão fazendo, obviamente, o jogo, eu não sei se vocês notaram isso também, mas alguns
[00:23:32] deles estão com camisas de jogo, aliás, de times, sabe, e tem pontuações, né, e aquele ponto,
[00:23:40] falando no ouvido deles, é um ponto que basicamente tá dando a missão que eles têm que fazer, né,
[00:23:44] naquele momento, não vai modificando o jogo de acordo com aquilo, e ao mesmo tempo, né, é um total
[00:23:50] preso pela existência, pela nossa existência, né, principalmente naquela cena que eu acho
[00:23:56] fantástica, assim, pro vira-lata aí de plantão, né, eu acho muito boa essa cena, que é quando as
[00:24:03] duas pessoas que estão na moto, nas motos, né, elas falam que foram lá pra ajudar eles na missão
[00:24:09] deles, etc., né, que nós somos como vocês e os caras começam a sacanear de volta, falando que
[00:24:15] eles são como a gente, o cara pega até o binóculo pra olhar pra ele, né, falar da menina, eu achei
[00:24:21] muito bom aquilo, e no final eles acabam matando essas pessoas, é, isso é uma coisa que eu acho
[00:24:26] tão interessante, assim, em vários níveis, principalmente o final, né, quando, isso, cara, eu acho
[00:24:31] fantástico, que é quando o, vou chamar de alemão, porque é o que tem pra hoje, né, quando o alemão,
[00:24:38] ele tá descendo aquele buraco, né, que eles estão colocando ele, e aí ele fala tanta violência,
[00:24:44] sabe, só que o tanto a violência dele não é o que eles estavam fazendo, sabe, era o que o pessoal de
[00:24:52] Bacurau fez com eles, e pra ele aquilo é violência, não o que eles estavam fazendo, sabe, eu acho muito
[00:24:58] fantástico isso, eu acho muito essa, essa concepção de que nós, nós não somos violentos, vocês são
[00:25:06] violentos, e isso me lembra muito bem, né, de hoje em dia, a gente discutia exatamente isso, a gente tá
[00:25:13] fazendo um processo bizarro no Chile, né, que ninguém tá falando nada, né, a medida possível, né, com um
[00:25:20] pouco mais de ênfase que deveria ser, ser falado, assim como está acontecendo, é, processos extremamente
[00:25:25] violentos no Kurdistan Sírio, né, na área ali conhecido como Rojava, e a mesma coisa, né, mas se alguma
[00:25:34] coisa no centro ocorre, aí sim é o apocalipse, aí é muito complicado, né, aí é violência pra caralho,
[00:25:42] e não, eles estão acostumados com esse monte de violência mesmo, né, a gente aqui, né, ferrando com vocês,
[00:25:48] na verdade, é em nome da democracia, em nome de qualquer coisa que a gente acha interessante,
[00:25:52] inclusive, até em nome dos direitos humanos, se a gente quiser, também, né, eu acho que isso tem uma
[00:25:57] certa, certa conexão, na medida do possível, quando ele tem essa pequena fala rápida, né, essa fala
[00:26:02] que deve ter o que, três segundos, sabe, dele falando de, da violência, assim, do que ele achava
[00:26:09] de violência, né, é, assim, assim como eu acho muito bom também a fala do, eu acho que é o pacote que
[00:26:14] pergunta pra ela, né, é, será que a gente exagerou? E ela responde, não, não, acho que a gente
[00:26:19] exagerou, não, acho muito bom isso também, é, então, assim, o filme tem vários momentos extremamente
[00:26:24] memoráveis, né, mas eu, eu… Eu posso dar um pitaco rapidão sobre isso? Pode. Tem uma coisa que sempre me
[00:26:31] chama a atenção, que é o seguinte, vamos lá, a questão da Venezuela, que pegou muito esse ano,
[00:26:37] para além de entrar num debate se Maduro é ditador, se não é, e pipi, popopó, esse negócio todinho,
[00:26:43] mas foca no negócio objetivo, quando teve a tentativa de golpe de estado, e o Gaidó tentou
[00:26:51] sublevar as forças armadas para dar um golpe, em meio à repressão a um golpe de estado, na Venezuela
[00:27:00] já haviam sido 200 pessoas presas, e uma pessoa tinha morrido dos protestos, e isso em si foi
[00:27:08] suficiente para o grosso da esquerda nacional, ao menos os setores mais famosos, com mais visibilidade,
[00:27:18] entrar em uma posição ou em cima do muro, ah, eu não apoio o Gaidó, mas também não apoio a repressão
[00:27:25] e a mídia internacional mostrou como prova de um regime necessariamente violento, repressivo,
[00:27:33] violador dos direitos humanos, a cena do tanque que faz uma manobra e quase passa por cima de um rapaz,
[00:27:39] por exemplo, correr o mundo, no mesmo dia na França, num protesto dos coletes amarelos, que é um
[00:27:45] protesto, embora com grau de intensidade e organização interessante, não se comparava o que estava
[00:27:50] acontecendo na Venezuela, porque não era uma tentativa de tomada do poder, foram presas 400 pessoas,
[00:27:56] e duas morreram, ou seja, foi preso o dobro do número de pessoas, aconteceu o dobro do número de
[00:28:04] mortes, num acontecimento político de proporções infinitamente menores, e ainda que rapidamente
[00:28:13] as pessoas tenham comentado isso na França, isso não gera um juízo moral e uma, entre aspas,
[00:28:20] análise política do regime francês, então ninguém, ou quase ninguém, olhou para a repressão dos
[00:28:27] coletes amarelos e falou assim, olha aí, tá vendo que ditadura, olha aí, tá vendo, Macron é o ditador,
[00:28:33] Macron é o violador dos direitos humanos, hoje mesmo no Twitter, hoje, esse programa está gravado dia 22,
[00:28:42] eu questionei no Twitter um rapaz chamado Lucas Berti, que é jornalista do Intercept, que escreveu um texto
[00:28:49] comparando Bolsonaro ao Hugo Chávez, dizendo que Bolsonaro não pode ser comparado a Sebastián Pineda,
[00:28:55] já que Pineda é um político democrata e a direita chilena promove o progresso das liberdades civis,
[00:29:01] frente à repressão que está acontecendo no Chile, eu questionei o rapaz, o jornalista, em questão se ele
[00:29:08] mantinha sua posição expressa no texto, a resposta do rapaz, depois de muito dar voltas, foi o que está
[00:29:15] acontecendo no Chile é condenável, então repare, Maduro é ditador, autoritário, autocrata,
[00:29:20] miserável, satanás, o caminhão, diabo na terra, não sei o quê, o sujeito de uma bola só e por aí vai,
[00:29:26] já no Chile o que está acontecendo é condenável, perceba como o juízo moral que se propõe para condenar
[00:29:36] a violência geral, em abstrato, na realidade, quando você olha com mais atenção, quando é a violência
[00:29:42] efetivada dentro de um governo liberal burguês, o trato é outro, quando é num governo de esquerda ou
[00:29:51] uma experiência socialista, necessariamente se alguém levar um tiro de borracha no dedo midinho,
[00:29:58] isso é a prova da manifestação do totalitarismo, percebe essa diferença de juízo moral? O filme
[00:30:05] por gringo, aquilo é violência, toda a barbária que eles promoveram, aquilo não é violência,
[00:30:12] é a mesma coisa, esse duplo juízo moral na hora de analisar as coisas e alguns fatos levantam o juízo
[00:30:22] teórico, então por exemplo, Cuba, se Cuba der um pétaleco, o governo cubano der um pétaleco na
[00:30:27] Ione Sanchez, isso é a prova que o governo cubano é uma ditadura do mal terrível, o governo brasileiro,
[00:30:34] um helicóptero lá no Rio de Janeiro, tá com um governador de cima metendo bala na favela e aquilo
[00:30:41] ali, como eu já disse anteriormente, é apenas uma falha da democracia a ser corrigida numa próxima
[00:30:47] eleição, não jogando luz sobre o tipo de regime político que a gente vive no Brasil, no máximo se
[00:30:54] vai falar que é culpa do governo, é um governo autoritário, como se fosse uma novidade necessariamente
[00:31:01] da democracia do Rio de Janeiro e dos estados do país, então a gente tem que ter muita atenção para
[00:31:05] esse juízo moral, o Losur dele tem uma metáfora que eu acho fantástica, que é inclusive para debater
[00:31:11] a questão da violência e da repressão na experiência socialista do século 20, ele conta a história
[00:31:16] que os cristões quando eram perseguidos na Roma antiga, no começo do cristianismo, um cristão
[00:31:26] foi enterrado até o pescoço e aí depois os soldados romanos soltaram leões para comer a cabeça
[00:31:34] do rapaz, teve um momento que o rapaz, o leão foi para cima dar um bode, o rapaz conseguiu se desviar
[00:31:40] e mordeu o testículo do leão, conseguiu arrancar o testículo do leão na boca e o leão saiu chorando
[00:31:46] e caiu por causa do sangramento, o soldado romano chegou para ele e censurou, ele dizendo que ele
[00:31:55] ia fazer isso porque ele estava sendo desonesto e violento com o animal, a lógica da política dentro
[00:32:03] de uma ótica burguesa é tipo o soldado romano, que você está lá enterrado até o pescoço
[00:32:08] para os leões comer a sua cabeça e você tem que aceitar de bom grado e não fazer nada, é por isso
[00:32:14] que eu sempre brinco, mas falando sério que eu não sou contra a repressão não viu, o debate…
[00:32:23] Vamos pegar um gancho aí nessa coisa do Jones e dialogar com o que eles me disseram.
[00:32:27] Só queria complementar rapidamente, muito rapidamente o que o Jones falou, o que eu
[00:32:32] estava falando aquela hora, o Chile foram 15 mortos aceitos pelo governo, eu perdi a conta aqui dos
[00:32:40] presos, bastante gente, acho que 1.500 pessoas presas por aí mais ou menos, o Chile tem 18,5
[00:32:46] milhões de pessoas e a Venezuela tem o dobro, mais de 30 milhões de pessoas, então tem uma
[00:32:54] diferença meio estranha, e não vem com essa gente, mas é porque não sei quem tem mais, você não tem,
[00:33:00] isso está bem diferente, inclusive agora pouco eu vi um vídeo que basicamente os caras passam com
[00:33:08] o carro e jogam a pessoa na rua em movimento, eles não estavam devagar, a pessoa fica caída no chão,
[00:33:14] filmando aleatoriamente, passam, abrem a porta e tá com o cara do carro no meio da rua, enfim, Marina?
[00:33:20] Eu queria dialogar com isso aí que eu acho que é bem importante realmente, porque eu acho que tem uma
[00:33:27] especificidade sim em relação à esquerda, que é a gente está tentando construir o novo, então como
[00:33:35] a gente está tentando construir o novo, o que a gente faz importa porque vai determinar a forma que
[00:33:42] o novo pode ou não assumir. Eu acho que as divisões da esquerda, pensando aqui, estamos entrando em todo
[00:33:48] um debate que se afasta, mas não de bacurau, né, que eu acho que as divisões da esquerda elas têm
[00:33:53] uma base concreta no sentido de que a gente não quer só conservar o que existe, é fácil a direita
[00:33:58] se unir? Porque conservar é muito mais fácil, é só blocar e conservar, a gente por querer inovar,
[00:34:05] a gente precisa da coisa da finalidade teleológica mesmo, né, o que a gente valora como positivo,
[00:34:11] a gente quer construir quais são os nossos valores. Porém, eu estou ressaltando isso porque eu acho que
[00:34:20] é importante sim ter isso em questão e eu acho que é importante sim a esquerda ser capaz de
[00:34:27] autocrítica no processo em movimento, né, agora eu pessoalmente, se alguém já me ouviu aqui em outras
[00:34:33] oportunidades ou em outros lugares, eu defendo com unhas e dentes todos os processos de construção de
[00:34:39] racismo contemporâneos a nós e passados, né, e é a nossa história, se a gente não defende a nossa
[00:34:45] história, ninguém vai defender a nossa história pela gente, a gente precisa reconhecer quais são as
[00:34:53] contradições da construção concreta, é algo que me incomoda muito, até estava conversando com um
[00:34:57] outro amigo sobre isso também semana passada, mas em outro contexto, é que grande parte de quem apoia,
[00:35:05] eu adoro Cuba, vou lá, solidariedade a Cuba e tal, mas se tivesse no momento do calor do processo
[00:35:11] revolucionário, essas pessoas talvez tivessem criticado e rechaçado Cuba, né, ressalta e
[00:35:18] reivindica, mas vai criticar e rechaçar a Venezuela, eu acho que é muito terrível, né, é muito terrível
[00:35:26] porque é uma falta de perspectiva das contradições da história e é claro que qualquer processo
[00:35:33] revolucionário vai ter suas contradições simplesmente porque existe, né, aí eu queria pegar um gancho no
[00:35:39] que o Joanne estava falando que acho que vocês já colocaram isso bem, mas eu queria pegar pra falar
[00:35:44] de uma outra coisa que o filme apresenta, eu acho que o filme apresenta uma crítica à colonialidade,
[00:35:47] porque no fundo essa coisa de que, ah, se é na América Latina tá tudo bem, mas se é no centro a gente
[00:35:53] se arrepia, né, tem a ver com a colonialidade, que é a modernidade capitalista, que é a escravização
[00:35:59] dos povos, né, que foram arrancados dos seus territórios e trazidos para cá escravizados, então o
[00:36:05] filme acho que ele faz uma crítica maravilhosa à colonialidade, né, ele reivindica muito o quanto
[00:36:13] é fértil, o quanto é rica e o quanto é luta à nossa cultura própria, né, acho que reivindica a
[00:36:20] negritude, acho que mostra mulheres com muita firmeza, mulheres senhoras da sua própria sexualidade,
[00:36:25] mulheres que lutam em pé de igualdade, tem a questão do lunga e a crítica ao binarismo, né, porque o
[00:36:32] lunga se veste de maneira que é considerada feminina na nossa sociedade, pinta as unhas, coloca aquele
[00:36:38] cabelo postiço para trás, né, a Domingas, a lésbica, tem o arrebentar todos os padrões estéticos, né,
[00:36:45] mostrando corpos de verdade, que estão fora do padrão estético capitalista, e tem a questão do
[00:36:53] binarismo, né, muito clara, acho que quando o Bacurau some do mapa e aí o, acho que a Plinio,
[00:37:00] o nome dele, que é o professor da escola, eu vi só duas vezes também, gente, só que eu vi uma hoje,
[00:37:05] então tá bom aqui, quando Plinio, ele apresenta um outro mapa, né, que é um mapa feito analogicamente
[00:37:12] por eles mesmos e que tá pendurado na parede da escola, não sei se vocês lembram disso, isso é uma
[00:37:18] discussão de geografias, né, isso é a gente propor o nosso conhecimento sobre o nosso território,
[00:37:23] a nossa geografia, o nosso conhecimento sobre a gente, ao conhecimento padronizado e hegemônico do
[00:37:32] mapa colonial, né, a relação com a tecnologia, que se apropria da tecnologia, mas ao mesmo tempo
[00:37:38] tem esse troço aí de realismo mágico, né, do psicotrópico, que no final das contas eu não sei
[00:37:43] qual é a opinião de vocês, a gente vai debater aí sobre esse psicotrópico, mas para mim ele não faz
[00:37:49] nada, esse psicotrópico, sei lá, para mim ele está sob o efeito de um placebo, né, algo que não faz
[00:37:59] nada e o verdadeiro psicotrópico é esse velo que encobre a nossa realidade, que não nos permite que
[00:38:07] a gente enxergue a realidade, que a gente veja o potencial e a necessidade da luta revolucionária
[00:38:12] e da violência revolucionária para a transformação da sociedade, né, e aí, enfim, vou seguir aqui, tá,
[00:38:21] rapidamente, eu acho que talvez as críticas que Bacurau tem recebido, eu acho que a gente tem que
[00:38:29] entender elas com base na própria sociedade que a gente vive, porque o cinema é um troço que não é
[00:38:34] excessivo a maior parte da classe trabalhadora, é um troço caro, né, ninguém tem a possibilidade de
[00:38:40] sentir o filme, mas eu acho que o filme funciona, assim, acho que o filme funciona inclusive como
[00:38:45] filme de gênero, como ficção científica, sabe, acho que é um filme que prende para caramba e que
[00:38:51] traz todas essas mensagens da contraposição aí da vida, né, na metáfora da água e da chuva e da
[00:38:58] luta com a morte na metáfora da invasão e da banalização da violência, né, eles mostram o
[00:39:07] que ele precisa, é um filme muito violento, mas ele não banaliza a violência em nenhum momento,
[00:39:12] ele não é um filme que deixa de ter essa preocupação ético-política com o que é a
[00:39:17] banalização da violência, pelo contrário, ele mostra que um tiro de carabina realmente explode uma
[00:39:21] cabeça, ele mostra a dor que a violência causa, né, e ele mostra o quanto ela é necessária para os
[00:39:28] habitantes de Bacurau como justiça histórica, né, como sobrevivência e como justiça histórica, eu acho
[00:39:35] que funciona como ficção científica e me parece que quem tem acesso a assistir o filme, em geral,
[00:39:44] tem uma origem burguesa ou pequena burguesa, o que tem a ver com a forma como o cinema é distribuído
[00:39:50] no nosso país e, portanto, é um público que está viciado nessa amostra aí que vai ter uma visão
[00:39:56] liberal sobre a parada e, mas não me parece que seja assim, o cinema novo, por exemplo, Glauber Roche,
[00:40:03] é um troço incompreensível, sabe, eu entendo os méritos e tal, mas para mim é um troço que pouca
[00:40:10] gente entende, eu não entendo várias coisas que estão ali, eu não entendo as referências, várias
[00:40:15] vezes eu assisto, reassisto, reassisto, acho até genial quando eu pego alguma parada, mas é um
[00:40:20] cinema de difícil acesso, né, e me parece que o Glauber, agora incorporando o Juliano, que acho que
[00:40:27] eu já trabalhava com ele, ele fez um movimento contrário nos filmes, né, O Som ao Redor, O Aquarius
[00:40:32] são filmes que vão passando a ser cada vez mais acessíveis, né, O Som ao Redor era um filme muito
[00:40:37] menos acessível do que Bacurau, Bacurau, cara, eu adorei Bacurau. Muito bom, e assim, eu particularmente
[00:40:45] eu não acho esse filme violento. Nem eu. Particularmente, eu não acho esse filme violento, eu acho o Trope
[00:40:51] de Elite muito mais violento que esse filme, eu tenho muito mais medo daquela violência do Trope
[00:40:57] de Elite, cara, porra, o segundo filme que tem os milicianos, eu me borro naquela porra ali, né,
[00:41:00] falando de um grupo de gente, assim, cara, aquilo ali, porra, loucura, mas eu acho que ao mesmo tempo
[00:41:07] algumas pessoas ficaram relativamente chocadas, porque esse filme ele abre um paradigma que nunca
[00:41:11] teve no cinema nacional, pelo menos não em grandes telas, nunca teve também, meio complicado, mas
[00:41:16] bem feito, na verdade, vamos melhorar aí, né, porque provavelmente o Zé do Cachona deve ter feito
[00:41:20] isso alguma vez, eu nunca tinha visto um filme brasileiro que uma cabeça explode, então eu acho
[00:41:26] que muita gente deve ter, ninguém nunca está esperando, tipo, uma cabeça vai explodir um filme
[00:41:29] e você fala, ah não, pô, vai ter um sangue, nada a ver, etc. Quando aconteceu isso eu fico tipo,
[00:41:34] caralho, que louco, e condiz completamente com o tiro de bacamarte, né, que estava rolando
[00:41:40] naquele momento, inclusive a forma com a qual eles seguram o bacamarte, se eu me lembro se é esse
[00:41:46] nome mesmo correto, me lembrou muito, tem uma dança que tem nas regiões do norte, nordeste,
[00:41:53] ou se eu estou me enganando nesse exato momento, que é feito com bacamarteiros, eu não sei se
[00:41:59] eles viram isso, tem uma galera que dá aquela, cara, aquilo é muito bonito, sabe, inclusive tem
[00:42:04] uns vídeos muito engraçados de algumas pessoas que tentam fazer aquilo e erram e o bacamarte vai
[00:42:07] parar em cima do telhado da casa das pessoas, mas assim, e quando eles seguram aquilo, foi a
[00:42:13] primeira coisa que me veio tipo, caralho, pode crer, né, assim, tem uma pegada total de uma
[00:42:21] determinada cultura que não estão nos centros, sabe, e isso é uma coisa que me fez, agora que
[00:42:26] eu estou me enganando, me fez levantar outra questão em relação ao bacoral em si, o bacoral
[00:42:31] ele tem dois níveis de centros ali, né, primeiro que você tem o nível de centro, que é o inicial,
[00:42:38] que é o centro do sudeste, né, que são aquelas pessoas que vem do sudeste, que falam que vem do
[00:42:43] sul, enfim, mas ao mesmo tempo o violeiro muito fantástico, assim, fala do povo do sudeste, né,
[00:42:51] etc, tira sarro da cara deles, acho muito bom aquilo ali, acho que um dos melhores, inclusive
[00:42:55] um dos elementos mais espirituosos do filme é o cara tocando essa canina nas pessoas e fazendo
[00:43:00] pergunta, né, é porque eu sou do interior, né, eu sou do interior do estado do Rio de Janeiro e a
[00:43:08] gente aqui tem um problema muito sério com a capital, com o Rio, né, tanto é que eu, Diego,
[00:43:13] também do interior, né, essa pessoa vem falar, ah, você é carioca, a gente faz questão de falar,
[00:43:17] eu sou carioca, né, eu sou, no máximo, sufrimente, no mínimo, volta redondense, né,
[00:43:23] é porque não tem esse reconhecimento interior e esse não reconhecimento interior ele expressa
[00:43:29] muito bem no filme, é com o total desprezo das pessoas quando elas chegam e olham aquelas,
[00:43:36] dos brasileiros mesmo, né, quando eles chegam e olham as pessoas de uma forma assim, sabe,
[00:43:42] um olhar de desprezo mesmo, um olhar de tipo inferioridade, sabe, a todo momento e as pessoas
[00:43:49] perguntam e você vai ver o, veio ver o museu, o museu, que museu e isso é um outro ponto que eu
[00:43:55] acho muito fantástico nesse filme, assim, porque aquilo ali é uma, pra mim é muito claro, assim,
[00:43:59] é, se eles tivessem entrado no museu nada teria acontecido, eles teriam desistido, sabe, é uma
[00:44:07] avaliação de como o desprezo da história e da avaliação histórica de determinados espaços
[00:44:13] pode gerar erros absurdos, né, no caso, erro tático ali, né. Esse é o mesmo momento que eles
[00:44:21] perguntam os dois motoqueiros, né, que são os brasileiros que pensam que são brancos, né,
[00:44:27] é o mesmo momento que eles perguntam quem nasce em Bacurau é o quê e a criança responde
[00:44:32] curiosamente é gente, é o mesmo momento, é muito bom e também é o momento que eles perguntam o que
[00:44:39] é Bacurau e a moça responde que é uma ave e hoje eu reparei que eles perguntaram se é um passarinho
[00:44:48] logo depois que ela responde, ela fala não, é um pássaro, é um pouco maior e dela pergunta mas não
[00:44:52] tá extinto, o que tem muito a ver com a conjuntura política atual, né, não tá extinto e aí ela fala
[00:44:59] que não tá extinto não, é brabo e só sai à noite. Exato, né, eu acho isso muito bom e assim,
[00:45:05] e aí quando eles vão encontrar com os gringos, os gringos têm a mesma relação que eles têm,
[00:45:10] que é o outro nível de interior, sabe, tipo nós fomos lá na roça, olha esses roceiros, agora nós
[00:45:18] vamos falar com quem nos entende e aí os que eles acham que entendem eles olham pra eles e falam assim,
[00:45:23] olha esses roceiros, sabe, que eu acho muito bom que a brincadeira do Acastã do Pará no
[00:45:29] filme se chama castanha, né, e assim vai, né, como lá fora é a castanha do Brasil e assim por diante,
[00:45:34] enfim, eu acho isso, eu acho que isso no filme é um ponto muito interessante.
[00:45:40] Joana, você quer falar alguma coisa? Porque eu quero levantar uma outra questão aqui.
[00:45:42] Não, eu tenho um aspecto, eu concordo muito com Mariana, é Mariana, né, porque agora tá longa,
[00:45:52] eu confundi. Marina. É Marina, amigo. Marina, desculpa, desculpa. Eu concordo muito com
[00:45:58] Mariana, ela falou que o filme tá muito bem amarrado, que não tem cena solta, diálogo
[00:46:04] desnecessário. Eu achei meio chocante ver pessoas criticando o filme, a construção, porque duas
[00:46:15] críticas foram muito comuns, disseram que meio que a batalha final, entre aspas, foi muito morna e aí
[00:46:22] as pessoas não perceberam que aquilo ali não é propriamente um filme de ação, aquilo não é,
[00:46:25] eu acho que não é um filme de ação, então não tem sentido em ter um foco num confronto armado com
[00:46:36] grandes detalhes pirotécnicos, efeitos especiais, etc, etc, que não é um filme de ação. A segunda
[00:46:42] coisa, reclamaram muito da construção dos antagonistas, né, falaram que os personagens
[00:46:48] filmes simplistas, unidimensionais, e eu, sinceramente, eu acho que o seguinte, comparado com os outros
[00:46:59] filmes do Cláudio Amendoça, por exemplo, eu não gostei do som ao redor, sinceramente, eu achei o filme
[00:47:05] muito ruim, porque eu achei o filme muito ruim. Existe uma ideia do filme interessante, só que o
[00:47:12] filme tem uma pegada subjetivista, que eu acho que considerando a cultura brasileira de maneira
[00:47:19] geral, o público brasileiro, quanto mais subjetivista estiver o filme em torno de referências cifradas
[00:47:26] para você entender a sua mensagem central, mais ruim o filme fica, porque o cinema brasileiro e o
[00:47:36] público consumidor brasileiro, e é que não tem nenhum traço de virar latismo, mas, por exemplo, a gente
[00:47:41] não tem uma cubana, sabe, a gente não tem o público consumidor cubano. Assim como Aquarius, eu também
[00:47:47] não gostei, porque eu achei que tanto Bakural como Aquarius, eles têm uma pegada muito de dramas da
[00:47:56] classe média, tem uma dimensão muito like people problems, assim, sabe, e eu também não gostei do tempo
[00:48:03] de narração, de como os diálogos são lentos, de como a coisa é muito travada e tal. Bakural, eu acho
[00:48:10] que o Leber e o Juliano, eles acertaram assim de uma maneira magnífica, porque o filme não é um filme
[00:48:16] acelerado, como eu gosto de falar, não tem estética de videoclipe, então é um filme gostoso de ver, bonito
[00:48:25] de ver, é um filme que tem momentos que são engraçadíssimos, é um filme que tem personagens que
[00:48:30] são muito interessantes, o pacote Barracácio, por exemplo, assim, é fantástico, tem aquele momento que
[00:48:40] os sulistas chegam pra sondar Bakural. Cara, ele fazendo a pêssega é maravilhoso, né? Ele tá meio abestalhado com eles, que é um
[00:48:50] matuto simpático e tal, enfim, tem momentos que são deliciosos de ver e ao mesmo tempo ele consegue
[00:48:58] tratar politicamente e inclusive teoricamente, porque reparei, quando os sulistas descobrem que
[00:49:07] os gringos, eles não são brancos, aquilo ali, eu vou fazer uma afirmação polêmica, aquilo ali, acho que
[00:49:20] quase metade do movimento negro brasileiro não sabe disso. Outro dia desse, por exemplo, eu tava vendo
[00:49:26] uma entrevista de um sujeito, que eu não vou nem citar o nome, que é um funcionário da Fundação Ford, que
[00:49:31] fazia que Marx era racista e defendia a escravidão, ele tava falando da aliança dos marxistas brancos
[00:49:38] contra a população negra. Aí, quando ele vai falar dos marxistas brancos, ele cita Mao Tse Tung. Na cabeça dele,
[00:49:46] ele acha que o asiático é branco. Aí, quando ele vai falando dos marxistas brancos, aí ele cita a Salera Fátima.
[00:49:53] Não, não, como é o cara da Palestina, eu esqueci o nome do cara, que foi líder da Palestina por 20, 30 anos.
[00:50:02] Enfim, eu esqueci o nome do doido.
[00:50:03] É o Arafat.
[00:50:04] Arafat?
[00:50:06] É.
[00:50:06] É, esse mesmo, pronto.
[00:50:07] Bom tempo.
[00:50:08] Aí, ele cita o Arafat, e aí eu fiquei meio chocado, vei, porque o repórter que tava me entrevistando
[00:50:14] não falou porra nenhuma, porque tem que ser muito desinformado sobre a questão racial pra achar que
[00:50:24] árabe e asiático é branco. E não compreender como a dimensão da racialização é uma dimensão
[00:50:33] relacional. Então, você pode ser não racializado em determinados locais, espaços de sociabilidade
[00:50:41] de classes, e em outros sim. Então, aquele choque de que o sulimptia dentro do Brasil, ele é branco,
[00:50:48] só que para o gringo norte-americano, ele não é branco, que a racialização, ela é relacional.
[00:50:54] Porque é uma relação histórico-social, e não é um dado que emerge da biologia, da epiderme.
[00:51:00] Aquilo foi fantástico, e a grande parte do movimento negro não sabe daquilo ali, sabe?
[00:51:05] Foi quase uma revelação teórica. Então, eu acho que do ponto de vista estritamente cinematográfico,
[00:51:11] eu acho que foi o segundo mais alto filme que eu assisti, em 2019.
[00:51:16] Eu tô pra te dizer que foi um dos poucos filmes que me fez sair de casa pra ir no cinema.
[00:51:19] Foi?
[00:51:19] Foi, foi um dos pouquíssimos. Muito tempo que eu não ia no cinema.
[00:51:22] Foi maravilhoso. Eu quero dizer que o filme é realmente incrível.
[00:51:26] E digo mais, talvez esse seja o segundo melhor filme nacional que eu já vi na minha vida.
[00:51:34] Gente, antes de passar pra outra pergunta aí do Zami, outro tema, eu queria falar um pouquinho
[00:51:39] do ponto de vista cinematográfico também, já que a gente tá nisso, pra não ter que voltar.
[00:51:46] Assim, porque eu fui ficando animada enquanto o Joanes falava.
[00:51:53] E eu também acho, eu anotei umas paradas aqui pra falar do ponto de vista cinematográfico,
[00:51:58] não é a minha praia, né, mas coisas que eu reparei e que eu acho que são fantásticas.
[00:52:03] Eu também acho que esse filme é muito mais acessível do que os outros filmes do Kleber, né?
[00:52:09] Muito, muito mais acessível. Só que tem aspectos do ponto de vista cinematográfico
[00:52:13] que estão presentes nos outros, que se reapresentam nesse de uma maneira que fica melhor a relação
[00:52:21] da forma e do conteúdo. Então, por exemplo, o som ao redor, né, que se pá, o personagem
[00:52:25] principal do filme é o som, né? Tipo, é aquela, aquela parada que te enlouquece porque
[00:52:31] você, você escuta o som, né? Me parece que é muito importante em Bacurau, porque o que
[00:52:37] ambienta a gente e o que nos faz ter essa identidade de que a gente tá no Brasil é
[00:52:43] o som. Se ouve as moscas, se ouve os grilos, se ouve cada ruidinho e coxixinho, se ouve
[00:52:50] perfeitamente as motos, você ouve os cachorros, né? O som de uma cidade interior, tipo aquele
[00:52:58] ambiente que todo mundo, quer dizer, não é todo mundo que conhece, né? Mas aquele ambiente que
[00:53:03] grande parte da população conhece, tá perfeito ali no som. O filme tem uma trilha sonora
[00:53:09] reduzidíssima. Eu fiquei tentando lembrar que eu lembro só de nove músicas e dessas nove
[00:53:16] músicas, só quatro são músicas que não são os personagens ou as personagens que estão ouvindo
[00:53:23] dentro do filme. São, são músicas para quem tá assistindo, né? Que, que os personagens não
[00:53:30] participam. E são músicas muito emblemáticas, porque a primeira é daquela sequência maravilhosa
[00:53:36] que meio que enquadra uma ficção científica e faz a, a relação com 2001, Modes Cé No Espaço, que
[00:53:43] tem toda a relação lá com os macacos, com a teleologia, com a nossa capacidade de construir o novo,
[00:53:48] com o mais bonito da humanidade, né? Faz relação com Guerra nas Estrelas, que inclusive tem a ver
[00:53:54] com Se Passar no Futuro, né? O que é uma puta sacada, o filme Se Passa no Futuro, é genial.
[00:53:59] E então tem o deslocamento, né? É como se a câmera tivesse filmando a galáxia parada e aí a câmera
[00:54:07] se deslocar e filma a curvatura da terra, que também aqui cá entre nós é uma agulhada ali nos
[00:54:13] terraplanistas, né? Que a terra é curva, né? E aí vai, vai se aproximando do sertão do Brasil e é muito
[00:54:23] doido porque não tem nenhuma luz naquele sertão do Brasil. É, é um sertão do Brasil diferente do que
[00:54:28] é de fato o sertão do Brasil se a gente fosse ver uma imagem de satélite noturna do sertão do
[00:54:33] Brasil. Porque as luzes estão todas na costa oeste da América do Sul e não aparece nenhuma luz ali e
[00:54:39] nesse momento tá tocando a, eu não sei o nome das músicas, gente, desculpa, mas tá tocando aquela que
[00:54:44] a Gal canta, né? Que é do Caetano, acho que canta de um objeto não identificado, né? E, e justamente essa
[00:54:51] é a sensação de todo o primeiro ato do filme, que é a apresentação dos personagens, a apresentação do
[00:54:56] lugar, a apresentação de, de que tá rolando alguma coisa ali que a gente não sabe o que é, né? E
[00:55:03] a primeira vez que aparece o drone parece que é um disco voador, porque ele tem formato de disco voador
[00:55:08] da década de 50 e todas as transições. Inclusive eu tenho que confessar uma coisa. É, você achou que era?
[00:55:13] É, quando apareceu o disco voador eu fiquei relativamente puto. Achei que era também no início, só que daí quando eu tive o disco voador eu, ah, filha da puta, filme de ET não, cara, não faz isso comigo.
[00:55:28] Mas, né, e parece que é, então essa coisa do objeto não identificado é maravilhoso, porque você não identifica, desde o velório, no discurso, depois que a Domingas faz o alvoroço ali e que o, o cara, o Plínio acha que ele faz um discurso, né?
[00:55:45] No discurso ele diz que tem muita gente que não pôde vir pro velório por conta da situação que tá sendo vivida ali pela localidade, só que você não sabe que situação é essa.
[00:55:54] Tem os mortos, tem o caixão e aí é uma ficção científica, nossa, porque é realismo mágico, não é ficção científica, né?
[00:56:01] Tem o psicotrópico, tem, acho que esteticamente é um filme que poderia ser enquadrado como o realismo mágico, se é que existe essa possibilidade, deve existir, né? Se não existe, deveria.
[00:56:14] Então rola essa música.
[00:56:16] Então é um realismo fantástico.
[00:56:17] É, exatamente, é super realismo fantástico.
[00:56:21] Aí depois rola a música do cortejo, que é uma música de reivindicação do cortejo fúnebre, uma música de reivindicação de bacural, né?
[00:56:29] Rolam as músicas do repentista, aí quando tá passando do segundo ato pro terceiro ato, só aí, ou seja, já do primeiro ato que é a apresentação pro segundo, que você repara que realmente tem um problema, essa transição é anunciada.
[00:56:44] Não sei se vocês vão lembrar disso, eu reparei isso muito hoje, eu fiquei procurando, cadê a transição, né?
[00:56:48] E a transição é anunciada com um tropel de cavalos.
[00:56:51] Cara, não tem anúncio mais fantástico, é genial.
[00:56:54] Aqueles cavalos ali, na hora que eles passaram correndo, eu voltei à questão do ETzinho, né? Eu fiquei, putz, lá vamos nós.
[00:57:03] Então, mas não é ET, tipo, é isso, tá rolando alguma coisa que até os animais fogem e você vai acreditando realmente que o que tá rolando é uma invasão alienígena, né?
[00:57:12] E aí é muito legal brincar com a colonialidade, porque os gringos chamam a gente de alien, né?
[00:57:17] Tipo, nós somos muito aliens.
[00:57:19] Exato, exato.
[00:57:20] E que é coisa de inferno, de inferno.
[00:57:22] Sim, ao mesmo tempo eu acho isso fantástico, porque nesse momento que eu virei e falei assim, putz, ETzinho não, cara, durei essa ETzinho, putz, ET de Varginha, não faz isso comigo, não.
[00:57:33] ET Bilu, ET Bilu.
[00:57:34] ET Bilu, porra, busquem conhecimento.
[00:57:36] Aí, na hora que os cavalos correm, eu fui e disse, caralho, ET Bilu, ET Bilu, não faz isso não.
[00:57:42] É maravilhoso.
[00:57:44] Sim, mas aí depois o nobre camponês que vai todos os dias à floresta buscar lenha para a sua família, né?
[00:57:53] Ele tá dirigindo a motinha, vê a parada, fica meio bolada e vaza e tudo o mais e vira pro pacote lá e fala assim, olha, tinha um drone fantasiado aí de escovador, né?
[00:58:04] E aí volta na coisa do tipo assim, cara, os malucos acham que a gente é da roça pra caralho, né?
[00:58:10] Ele sabe disso, e isso já é nessa segunda parte do filme, que é a parte pancadão em que você começa a ver as paradas todas.
[00:58:16] Tem o tropelos de cavalos, tem os vários assassinatos, tem o lance lá na fazenda,
[00:58:23] depois tem o lance com os dois motoqueiros que executam os dois companheiros no intervalo natural, exatamente.
[00:58:34] Então você vai vendo tudo isso, você sabe que tem algum problema com a água,
[00:58:37] você sabe que tem alguma história por trás que poderia ser um outro filme pra contar dessa guerrilha do Lunga e da represa,
[00:58:43] porque eles estão encastelados na represa, e aí depois que você foi se enfiando em todos esses problemas
[00:58:48] e que você foi entendendo que realmente o que tá rolando é muito estranho,
[00:58:52] você entende que é uma invasão de uns gringos que estão jogando um jogo que banaliza a morte a ponto
[00:58:59] e desumaniza a gente a ponto de brincar de caça de seres humanos.
[00:59:03] E daí você entende os drones e eles falam em inglês, a relação entre inglês e português,
[00:59:09] eles chamam o português de brasileiro, a coisa deles alugarem uma fazenda e a fazenda vir com os escravos juntos,
[00:59:17] porque a fazenda vem com a galera que trabalha na fazenda, que vai trabalhar pra eles e que é todo mundo assassinado,
[00:59:23] é fantástico. E aí a transição pra terceira parte do filme, pro terceiro ato,
[00:59:29] é quando o pacote barracasso, que daí tá se retransformando em pacote, ele se reempodera de ser pacote
[00:59:39] e ele vai lá mostrar os mortos pro Lunga pra chamar o Lunga pra voltar pra Bacurau,
[00:59:44] e nesse momento toca a música do Geraldo Vandré, que reivindica a guerrilha,
[00:59:48] é a música da guerrilha brasileira, maravilhosa essa música.
[00:59:52] E aí quando o Lunga, logo em seguida, a tocar essa música, aparece o Lunga pela primeira vez,
[00:59:58] o Lunga já tinha sido chamado no primeiro ato e no segundo ato, quando aparece a imagem de procurado,
[01:00:04] o Lunga só tinha aparecido como alguém que tava sendo procurado pela polícia,
[01:00:09] e aí ele aparece no espelho e você vê que ele é essa figura que quebra, rompe totalmente o binarismo,
[01:00:16] com aquelas unhas pintadas, com uma comportação do feminino que jamais na reivindicação histórica da esquerda,
[01:00:23] que infelizmente também tem suas contradições, jamais seria reconhecido como o guerrilheiro chefe,
[01:00:29] alguém que é tão feminino, e aí ele mesmo traça um paralelo dele com o Tia Guevara
[01:00:35] e começa a tocar uma música erudita atrás, tipo super romântica, dele pensando se ele vai ou não vai voltar pra Bacurau,
[01:00:45] e aí ele volta pra Bacurau e começa um tec-não, minha gente, aí começa um tec-não com cenas de capoeira,
[01:00:52] eles jogam capoeira reivindicando a nossa memória, todo mundo em Bacurau joga capoeira,
[01:00:57] e a capoeira fica com um som de tec-não, e ao mesmo tempo as crianças vão brincar no mato,
[01:01:03] e aí vai ficando a capoeira com tec-não, as crianças brincando no mato, essas duas coisas vão se alternando,
[01:01:08] até que tem o assassinato da criança. Eu achei genial, queria falar rapidinho mais dois, três aspectos rapidamente,
[01:01:16] diálogos, acho que os diálogos, a luz e as transições de uma cena pra outra no filme nos trazem,
[01:01:25] também assim como o som que mostra todos os aspectos, todas as dimensões do som,
[01:01:30] eles nos trazem pra parte realista do filme, a parte realista do realismo fantástico,
[01:01:36] porque os diálogos, eles usam uma linguagem que a gente usa mesmo, eles usam palavrão,
[01:01:42] tipo, os diálogos não têm nada de falso, são diálogos absolutamente críveis,
[01:01:47] e cada personagem tá falando ali desde o seu lugar de fala, vamos dizer assim,
[01:01:51] cada personagem tá falando ali de maneira muito verossímel,
[01:01:56] inclusive os gringos falando em inglês, a luz do filme é toda natural,
[01:02:01] não tem nenhuma iluminação artificial e estranha, sempre tem algo em primeiro plano,
[01:02:06] em todas as tomadas, então sempre parece que você tá vendo desde um lugar que tá dentro do filme
[01:02:11] que você tá participando da cena, as transições no início são as transições laterais, assim,
[01:02:17] tipo, década de 50, década de 60 daquelas séries da década de 50, 60, que devem ver com os óculos também,
[01:02:22] mas depois as transições passam a ser o céu de Bacurau, e o filme assume o ritmo da vida no interior,
[01:02:30] o ritmo do sol se pondo e do sol nascendo, então cada transição é o céu escurecendo,
[01:02:36] o céu clareando, o céu escurecendo, o céu clareando, me lembro só de duas que não são,
[01:02:42] que uma é no meio da guerra e é um Bacurau voando, e a outra são as bocas das pessoas tomando o psicotrópico,
[01:02:49] não tem onisciência, não é um filme que tem um narrador onisciente que vai nos contando coisas
[01:02:53] que os personagens não conhecem, a gente, tirando aquela cena inicial que tá fora da terra,
[01:02:58] então, obviamente, onisciente, mas tirando essa cena inicial, todas as cenas do filme partem da
[01:03:04] perspectiva dos personagens e a gente só vê e só sabe o que os personagens sabem, por isso que na
[01:03:09] dúvida a gente não sabe, no início a gente não sabe o que tá acontecendo, né, e a gente vai se apropriando
[01:03:14] na medida que os personagens se apropriam, o que politicamente é fantástico, porque a gente se
[01:03:20] apropria na medida que a realidade, né, as contradições da realidade permitem e, ao mesmo
[01:03:27] tempo, a gente vai se apropriando também da necessidade de luta e luta, enfim, é isso,
[01:03:32] o filme é tecnicamente brilhante. Não, é assim, eu acho que acabou o podcast, né,
[01:03:37] pode finalizar com a sua grande avaliação. Não, cara, foi muito bom, você trouxe elementos aqui
[01:03:43] que eu tô aqui tipo, caralho, eu não vi isso aqui não, né, mas, pô, muito bom, muito bom mesmo,
[01:03:48] e aí eu queria levantar agora, neste exato momento, não sei se isso vai ser uma polêmica,
[01:03:54] acredito que talvez não. Em determinado ponto, eu comecei a ver que algumas pessoas tavam vendo
[01:04:00] coisas no filme que não tem, ou talvez eu não esteja vendo isso, talvez vocês podem me ajudar
[01:04:04] com isso. Algumas pessoas colocaram que a violência de Bacurau é uma violência revolucionária,
[01:04:13] e eu não acho que é uma violência revolucionária, eu acho que é uma violência reativa. O que que
[01:04:20] eu acho? Porque assim, se é que existe essa polêmica, né, aqui nessa questão a Sonia Braga
[01:04:27] levantou a mão ali, porque o Johnny está com o nome da Sonia Braga na gravação.
[01:04:33] Eu já falei demais, eu vou esperar o Johnny.
[01:04:35] É muito bom, assim, eu acho que eu acho, sinceramente, que algumas pessoas elas estão
[01:04:43] projetando algumas coisas que elas queriam muito no filme, sabe, mas que não tá no filme,
[01:04:49] mas que não tá lá, entendeu? Enfim, Sonia Braga.
[01:04:53] Vamos lá. Um famoso pensador marxista no movimento negro norte-americano se escreve do Bois,
[01:05:05] mas pode se ler do Bois, que é de origem francesa. Ele tem uma definição de crime que eu acho
[01:05:13] Ele fala que o crime, na questão de estudar a criminalidade na comunidade negra norte-americana,
[01:05:20] no momento da segregação racial, o crime é uma rebelião aberta contra o sistema. Essa definição
[01:05:28] de crime dele foi muito polêmica. Por quê? O do Bois é parte de uma longa tradição histórica que
[01:05:35] descamba em Fanon, em Aimé Cézanne, em Lenin, em Trotsky, em Stalin, enfim, em todos os grandes
[01:05:45] pensadores revolucionários do século XX, em Che Guevara, em Fidel, o Amilcar Cabral,
[01:05:50] o Samoramache, por aí vai, que parte do pressuposto que é o seguinte, veja, a violência é um dado
[01:05:56] estrutural do sistema capitalista, então a violência é onipresente. Como eu já falei,
[01:06:02] e eu venho batendo muito nisso, a gente tem que superar pra ontem essa visão quase que platônica
[01:06:09] do que é a República e a democracia burguesa que define, do ponto de vista ideal, o que é o sistema
[01:06:16] político, e aí todas as manifestações concretas desse sistema político não passam de desvios do
[01:06:23] que deveria ser o seu funcionamento, só que esse seu funcionamento, que deveria ser, isso deve ser,
[01:06:28] não se encontra na história, portanto, a verdade, a realidade é o que se expressa concretamente,
[01:06:36] e não a projeção ideal que se tem do sistema político, então veja, a violência é um dado
[01:06:41] estrutural do sistema capitalista. Todo estado burguês, o mais democrático que seja, imagine,
[01:06:46] por exemplo, a Península Norte, que é que fica na região central do capitalismo e que tem níveis
[01:06:52] de desigualdade mais baixos comparado com o resto do mundo, mesmo num país de capitalismo nórdico,
[01:06:59] todo estado burguês se configura numa dialética entre estado de direito e estado penal para as
[01:07:06] diferentes classes, então a polícia, não importa onde seja, ela vai ser sempre mais violenta com a
[01:07:14] classe trabalhadora do que com a burguesia, assim como a violação dos princípios fundamentais do
[01:07:21] estado de direito, vão acontecer para a classe trabalhadora de maneira sistemática e não vão
[01:07:26] acontecer para a burguesia, dado o simples objetivo. Posso dar até outro exemplo, na república
[01:07:32] norte-americana, até 1984, existia um dispositivo penal que possibilitava a condenação sem a
[01:07:43] estipulação da pena, então você poderia ser condenado e ficar lá até o momento que as
[01:07:50] autoridades decidissem que você tem que sair, se elas nunca decidissem você ficava preso para
[01:07:55] sempre, então teve um caso famoso em 1961 de um rapaz chamado Jay-Z Samuel Romans, acho que
[01:08:07] alguma coisa assim pronunciou o nome dele, em que ele roubou 70 dólares de um posto de gasolina e
[01:08:12] foi condenado a ser preso inde eterno, e é isso. Eu compreendo a violência revolucionária como
[01:08:21] qualquer expressão organizada, ainda que não consciente, que busque questionar as relações e
[01:08:29] fazer política por fora da institucionalidade posta, então, por exemplo, quando camponeses
[01:08:38] vão ocupar uma terra e eles se armam para defender aquela terra sabendo que os jagunços
[01:08:46] do proprietário vão atacar, retalhando, isso para mim é violência revolucionária, porque os
[01:08:53] camponeses não estão esperando a mediação do Estado, não estão esperando o Ministério Público tomar
[01:08:57] uma decisão, eles têm que defender na prática o seu direito à terra, quando em vários bairros de
[01:09:08] na Turquia as organizações comunistas montam milícias revolucionárias e impedem não só o
[01:09:16] tráfico de drogas como a entrada na polícia e a comunidade vira uma espécie de minibânquer onde
[01:09:21] a polícia não entra e para entrar tem que ser com grande efetivo policial, isso é uma forma de
[01:09:27] violência revolucionária, porque você não está procurando fazer uma audiência pública, entrar
[01:09:33] no Ministério Público, fazer um apelo ao AB ou qualquer coisa do tipo para tentar resolver o
[01:09:40] problema da violência, do mesmo jeito quando as panteras negras se armam para patrulhar as ruas
[01:09:46] contra a violência policial mesmo que apoiadas no dispositivo constitucional da constituição
[01:09:52] norte-americana que permite o uso de armas, que permitia aliás na Califórnia o uso de armas em
[01:09:58] desde que não seja usada para matar ninguém eles estão na violência revolucionária, então para mim
[01:10:06] a violência revolucionária não é só aquela violência destinada a tomada do poder, aquele
[01:10:13] momento em que a classe trabalhadora toma o palácio de inverno ou que em Cuba se entra em Havana de
[01:10:24] A violência revolucionária é toda a forma de contra-política da classe trabalhadora que
[01:10:30] necessariamente vai ter que passar por algum uso de violência porque um dos fundamentos de reprodução
[01:10:38] do Estado burguês é negar a legitimidade de existência de qualquer forma de contra-política,
[01:10:43] o que eu estou chamando aqui de contra-política é você fazer política fora do que é esperado no
[01:10:49] movimento normal do Estado burguês, sabe? Então dentro do Estado burguês quando um movimento
[01:10:55] social ocupa uma terra e indica a função social da propriedade mesmo sendo a prescrição
[01:11:01] constitucional se espera que depois que ele ocupa a terra o Ministério Público, a Polícia Federal
[01:11:07] e por aí vai seja acionado e aí a partir de um eliminar judicial se decida a querela, quando o
[01:11:12] movimento ocupa, pega as armas na mão e diz assim daqui eu não saio, isso para mim é uma forma de
[01:11:18] contra-política revolucionária, então Bacurau para mim é uma violência revolucionária, qual é
[01:11:23] o x da questão? E aí que vem uma coisa interessante que eu desenvolvi inclusive no meu texto quando a
[01:11:28] violência revolucionária não está, não é no cinema, a linguagem política é a crise do Marxismo
[01:11:33] Acadêmico. Eu defendi nesse texto que Bacurau causou o encantamento em certa intelectualidade
[01:11:41] da esquerda porque essa intelectualidade ela tem uma subjetividade cristã muito forte, embora
[01:11:50] com esse modo não seja religiosa e não admita isso. Como assim? Veja, no cristianismo existe uma
[01:11:56] exaltação do confronto do fraco contra o forte, que é sintetizada na metáfora bíblica de Davi
[01:12:04] Então é lindo Davi vencer Golias, Golias mais forte, mas bem preparado e Davi com um
[01:12:13] simples instrumento consegue vencer, assim como a expressão da graça nos textos sagrados da Bíblia
[01:12:21] passa pelo sofrimento, então sofrimento, aprovação e a manutenção da fidelidade religiosa,
[01:12:29] da fé religiosa, mesmo nos momentos de maior sofrimento, é o que prova que você está em
[01:12:36] comunhão com Deus. A esquerda de maneira geral no Brasil, e inclusive eu estenderia isso para o
[01:12:42] ocidente, o marxismo ocidental, ele tem uma característica que é o seguinte, ele ama o
[01:12:49] momento da revolta, especialmente se essa revolta for uma revolta assimétrica, então existe um
[01:12:55] tesão na esquerda ocidental pelas imagens dos palestinos com pedras enfrentando tanques,
[01:13:02] inclusive existe uma exaltação disso que eu acho horrível, por exemplo, mostra-se isso como um ato
[01:13:08] de heroísmo supremo, isso para mim, embora tenha uma dimensão de heroísmo, isso é muito mais a
[01:13:12] dimensão de uma dominação brutal, bárbara, do que a expressão de um heroísmo, porque por você
[01:13:17] enfrentar pedras, você enfrentar tanques com pedras, você vai se fuder, porque enfim, não tem condição,
[01:13:22] ao mesmo tempo, todas as vezes que se passa desse momento do enfrentamento em condições desiguais
[01:13:29] da revolta, para o momento de assunção do poder e construção de uma nova ordem, porque grosso modo a
[01:13:36] revolução tem dois momentos, é o momento do questionamento da velha ordem, da derrubada do
[01:13:42] poder instituído, e a instituição de um novo poder, um poder popular, um poder proletário que
[01:13:47] vai construir uma nova ordem, vai fazer as transformações econômicas, sociais, culturais,
[01:13:51] e institucionais. Nesse momento, via de regra, em que os trabalhadores, os dominados e oprimidos,
[01:13:59] saem da condição total de dominados, e passam a ter capacidade real de defesa, é nesse momento que
[01:14:09] o grosso da esquerda renega as experiências históricas concretas, e começa a achar revoluções
[01:14:15] traídas, eu brinco que existe um marxismo bentinho, sabe a bentinha do capítulo de Machado e Assis,
[01:14:20] a traição em todo o canto, existe uma esquerda captura, ela vê traição em todo o canto.
[01:14:25] Exemplo concreto disso, por exemplo, é o Vietnã, o Vietnã passa quase 100 anos lutando numa guerra
[01:14:31] de libertação nacional, dá pau na França, depois dá pau no Japão, depois dá pau na França de novo,
[01:14:36] depois dá pau nos Estados Unidos, ainda dá um pequeno cacete no quimé vermelho do Cambolja,
[01:14:42] ainda dá um cacete tamanho médio na China, e aí, depois de quase 100 anos, quando o Vietnã consegue
[01:14:48] realmente estabelecer a paz, e construir uma ponta, e construir uma escola, sem ter medo que caia uma
[01:14:53] bomba de cima amanhã e derrubem, a esquerda ocidental, de maneira geral, abandona o Vietnã,
[01:14:58] porque perdeu aquele encanto daquela pureza de pobreza extrema, de sofrimento total, o mesmo
[01:15:07] acontece, por exemplo, a luta da Coreia do Norte, e a luta da Palestina, é exatamente o mesmo tipo
[01:15:12] da luta, é uma luta anti-colonial, anti-imperialista, pela soberania nacional, pelo direito de existência
[01:15:19] de um povo, a grande diferença é que a Palestina não tem nada, e a Coreia Popular tem um estado bem
[01:15:25] organizado, uma força armada, poderosíssima, algum nível de desenvolvimento científico-técnico,
[01:15:31] um complexo industrial mediamente desenvolvido, e bomba atômica, que é arma do diálogo, você bota bomba
[01:15:38] no mesmo imperialismo na hora que é dialogar, a esquerda ocidental, ela odeia a Coreia Popular,
[01:15:45] ela repudia, ela vira o olho, a Coreia Popular, que inclusive é o país mais bloqueado do mundo,
[01:15:49] bem mais que Cuba, e não recebe um décimo da solidariedade que Cuba recebe, que ainda é pouca,
[01:15:55] e ama a Palestina, o Tony Negri, ele foi inclusive sincero, quando naquele livro Império, ele falou
[01:16:02] que nós apoiamos a Palestina, porque ela hoje não tem seu estado nacional, só que depois que
[01:16:07] ela está no estado nacional, nós vamos ter que deixar de apoiar a Palestina, porque a luta deixa
[01:16:11] de ser emancipatória, ou seja, quando um povo consegue o seu grande objetivo, que é se livrar
[01:16:16] do colonialismo, a gente deixa de apoiar, porque agora não é mais emancipatório, o que que é emancipação?
[01:16:20] É uma eterna resistência, em que a gente gosta do oprimido, enquanto ele está na eterna condição
[01:16:27] de oprimido, que é basicamente um dos segredos do sucesso de Star Wars, Star Wars é um ciclo
[01:16:35] permanente e reatualizado, que pretende agora terminar, o que parece, mas permanente e reatualizado
[01:16:40] de resistência, em que você derrota o império, mas aí depois já surge a segunda ordem, e a resistência continua
[01:16:46] quando a segunda ordem nunca tem o momento de construção de uma nova sociedade, é sempre a resistência
[01:16:51] à opressão, ao mal. Bacurau é uma violência revolucionária, só que é uma violência que
[01:16:57] não está na dimensão da proposta de construir um novo mundo, é uma dimensão de resistência,
[01:17:04] e que mostra toda aquela pobreza, aquela miséria, porque aquelas pessoas estão na miséria, a cena de que
[01:17:11] o prefeito traz os alimentos, e mesmo eles recusando a politicagem do prefeito, eles precisam
[01:17:20] depois dividir os alimentos, porque é importante para as pessoas comer, a expressão concreta é que aquele
[01:17:24] povoado vive na extrema de miséria, mesmo assim as pessoas veem aquilo como o máximo de emancipação,
[01:17:32] porque o povo de Bacurau, ele não quer mudar, ele quer apenas viver a sua vida, aquilo não é emancipação,
[01:17:39] viver na pobreza não é emancipação, ainda que aquela dimensão de pobreza tem uma certa aura de
[01:17:47] pureza cristana, como diria Marx, nada mais fácil do que emprestar ao socialismo a aura de asceticismo cristão,
[01:17:53] é por isso que grande parte da esquerda na Europa olhou para o comunismo de guerra na Rússia,
[01:17:58] e viu aquilo como a realização do socialismo, então repare, estava todo mundo pobre, fudido, a economia
[01:18:08] destruída, mas todo mundo comia, vestia, consumia mais ou menos igual, então aquela igualdade seria
[01:18:14] o socialismo, é a socialização da miséria, naquelas condições que não se podia fazer diferente,
[01:18:19] então é uma violência revolucionária, mas muito me interessou porque a esquerda brasileira, grosso modo,
[01:18:26] nega a violência revolucionária, ela nem sequer debate isso a nível mais teórico,
[01:18:30] não quero nem falar de prática política, vou falar a nível teórico mesmo, ela nega, mas ela se apaixonou
[01:18:35] para o Bacurau, por que ela se apaixonou para o Bacurau? Porque Bacurau tem essa aura cristã,
[01:18:40] essa coisa do martírio, do sofrimento, é por isso também, concluindo, passando a palavra, que,
[01:18:49] por exemplo, se ama Che Guevara e não se gosta tanto de Fidel Castro, porque Che Guevara tem aquela
[01:18:55] cristã que morreu no sacrifício, ele saiu do poder e foi para o Congo, depois foi para Bolívia,
[01:19:03] morreu na selva sem nada, pobre, com fome, já Fidel Castro acaba dentro desse imaginário encarnando
[01:19:10] um burocrata que ficou e que traiu a revolução, se burocratizou, etc, etc, etc, então essa aura
[01:19:22] cristã, essa coisa da pureza original, da pobreza, como se socialização da pobreza,
[01:19:30] embora suprima a desigualdade, não deixa de ser pobreza, é o que fez com que essa violência
[01:19:36] revolucionária tão repudiada, via de regra pelo grupo da esquerda, caísse graças dela.
[01:19:42] Bom, eu queria concordar discordando, mas eu não sei se Marina quer levantar alguma questão.
[01:19:50] Eu sinto muito, mas eu concordo concordando. Eu concordo. Pois é, mas eu concordo discordando.
[01:19:59] Eu concordo discordando porque eu ainda acho que estão colocando coisa onde é que não tem,
[01:20:08] porque eu acho que não estão colocando coisa onde é que não tem? Você falou da questão da
[01:20:13] revolução, eu concordo no sentido da violência revolucionária da esquerda, ou do ponto que você
[01:20:19] faz a crítica. Da esquerda nacional, ela se nega a questão da violência revolucionária,
[01:20:24] e em um determinado ponto fica parecendo que a gente quer fazer uma revolução com o Bahia,
[01:20:27] que eu não sei de onde é que tiraram esse negócio de revolução com o Bahia. Pessoal que gosta do
[01:20:34] Mahatma Gandhi, falar, abraçar Mahatma Gandhi, aliás, que para mim é o avatar internacional,
[01:20:39] não sei onde é que tiraram esse negócio aí, fazer uma revolução sem quebrar milhões de ovos aí,
[01:20:47] e aí a galera entra nesse papo dessa negação, e aí nega todo mundo. Aí nega a União Soviética,
[01:20:51] aí nega a Coreia do Norte, aí nega e vai na negação até que a revolução sacro-santa dessas
[01:20:57] pessoas aconteça, no meio de uma ciranda ou alguma coisa do gênero que vai fazer com que todo mundo
[01:21:03] se abrace e a burguesia vire e fale assim, não, tudo bem, eu entrego para vocês agora, tá tudo ok.
[01:21:09] Nisso eu concordo plenamente com você, mas em relação a abacural eu não vejo isso, sabe,
[01:21:17] porque quando você coloca para mim assim que é uma violência revolucionária porque eles pegam
[01:21:24] em armas e estão resistindo aquele processo, não sei, não consigo ver isso, eu consigo ver
[01:21:33] pessoas resistindo e dando um tapa na cara do resto da sociedade falando o seguinte, olha,
[01:21:37] é isso, né, se aparecer o nazista a gente não tem que dialogar não, a gente tem que socar mesmo,
[01:21:43] inclusive alguém postou alguma coisa de uma série que aconteceu exatamente isso e tem uma galera
[01:21:49] caindo de pau em cima da série porque a série basicamente falou não é isso, a gente tem que
[01:21:54] socar nazistas mesmo, depois eu lembro qual é a série, eu acho que é The Good Fight, eu acho,
[01:21:59] e quando você traz, eu não li The Boyz, nem sei, não, The Boyz não, The Boyz, e agora fiquei confuso.
[01:22:06] Do Boar, eu não li ele, né, mas você coloca o crime como um rebelião aberto, assim, qual crime?
[01:22:14] Eu achei o crime como um rebelião aberto extremamente genérico, assim, eu não sei qual
[01:22:19] crime ele tá falando, porque Clarinho Branco é rebelião aberta ao sistema, o Eduardo Cunha
[01:22:24] fez uma rebelião aberta ao sistema, não, ele tá falando um crime específico? Não, ô Zamy, o crime
[01:22:30] é comunidades negras. Ah tá, eu nunca li ele, não sabia. Ah, beleza, beleza. Então, beleza, nesse sentido
[01:22:38] concordamos. E assim, eu acho que o que se projeta concretamente pra mim em Bacurau é uma população
[01:22:45] que resiste e as pessoas que se fodem ali na medida do possível porque elas não estudaram a história
[01:22:49] daquele grupamento e daquelas pessoas, né, que tinha uma história pregressa de resistência ao
[01:22:58] ao governo do local, né, inclusive tem aquele carro da PM, nossa, que eu achei até incrível os gringos
[01:23:06] terem percebido que era um carro da PM velho, porque, assim, a PM lá, quer dizer, a polícia nos Estados Unidos
[01:23:12] não tem aquele tipo, mas enfim, faz parte ali da licença poética ali do filme. E eles ignoraram mesmo
[01:23:20] assim, né, eles tiveram um sinal óbvio que não era pra eles irem pra lá e eles continuam, eles ignoraram
[01:23:25] o mesmo jeito, né, obviamente. Mas, enfim, eu ainda não consigo ver uma violência revolucionária,
[01:23:35] eu vejo uma violência reativa a uma violência que veio exteriormente de pessoas que definitivamente
[01:23:42] não sabiam qual era a história daquele local, né, enfim. Marina, você traz seu ponto, por favor.
[01:23:49] Então, dentro disso que você tá colocando, né, assim, eu vejo violência revolucionária em vários
[01:23:55] sentidos, eu entendo o seu ponto, Usame, no sentido de que não existe um projeto de tomada do poder
[01:24:02] político, né, que tem a ver com aquilo que Joana estava falando, não existe um projeto de construção
[01:24:09] revolucionária e de construção de uma outra forma de sociedade, construção de um outro tipo de estado,
[01:24:16] então, de fato, não tem uma violência que está direcionada pra tomada do poder político e é claro
[01:24:23] que um processo revolucionário supõe a tomada do poder político, não supõe só a tomada do poder
[01:24:29] político, porque a tomada do poder político é o começo do processo revolucionário, não o fim,
[01:24:33] mas supõe a tomada do poder político. Nesse sentido, eu entendo o que você tá colocando,
[01:24:39] mas eu também tenho dificuldade de, eu acho que no fundo, enfim, vamos entrar em um debatão aí,
[01:24:46] né, mas eu acho que tem a ver também com a dialética entre reforma e revolução.
[01:24:49] Ah, agora começou o podcast.
[01:24:51] É, eu vou ter que ir embora logo mais, não pode começar agora.
[01:24:56] Eu preciso encerrar esse podcast, mas tá, tem a ver um pouco com a dialética entre reforma e
[01:25:03] revolução, porque essa linha entre violência reativa e violência revolucionária não me parece
[01:25:10] que exista de maneira tão clara, né, porque toda violência reativa, quando ela é resistência
[01:25:18] efetiva, ordem estabelecida, e ela é resistência efetiva ao grau de violência ao qual a classe
[01:25:26] trabalhadora, né, principalmente preta e pobre, tá submetida no cotidiano do capitalismo,
[01:25:33] ela tem o potencial de se tornar revolucionária, né, então eu acho que esse é um primeiro aspecto
[01:25:38] no qual eu vejo violência revolucionária, porque toda violência reativa, ela tem esse potencial
[01:25:43] revolucionário, porque ela cria a organização e ela cria a luta revolucionária de fato, né,
[01:25:50] o processo ele não tá colocado a priori, um processo ele sempre pode ser disputado,
[01:25:56] ele pode, né, tomar um rumo, tomar outro rumo, a história tá em aberto, então a resistência,
[01:26:02] ela, eu vejo a resistência como revolucionária, eu não separo resistência de processo revolucionário,
[01:26:08] esse é um aspecto. Outro aspecto que eu acho que tem violência revolucionária, e nesse sentido,
[01:26:16] talvez eu concorde discordando com o Jones, mas eu concordo com tudo que ele falou, então era,
[01:26:20] eu acho que é menos importante, mas eu acho que existe sim alguma construção do novo ali em Bacurau,
[01:26:28] né, quando, por exemplo, chegam os mantimentos vencidos e a galera faz uma assembleia comunitária
[01:26:34] e existe essa possibilidade de colocar, né, olha esses mantimentos tão vencidos, mas vocês escolham
[01:26:41] aí, quando chega o remédio que é lá o ópio do povo, né, que acho que suprime a vontade de fazer
[01:26:47] alguma coisa e é esclarecido o que é aquele remédio, mas tem um negócio ali, tem até uma frase,
[01:26:54] cada um pegue com a sua consciência, tem um negócio ali de partilha do produto social,
[01:26:58] inclusive de a cada qual segundo sua necessidade, não segundo seu trabalho, que eu concordo plenamente
[01:27:05] com tudo que o Jones falou, que a gente não deve de maneira nenhuma idealizar isso como repartição
[01:27:10] da miséria, eu concordo totalmente com tudo que o Jones falou, mas a gente tá falando da violência
[01:27:16] Eu vejo um germe revolucionário aí também, né, toda a construção de forma comunitária de vida,
[01:27:21] principalmente aquela que tem o domínio e o controle sobre um território, que pode efetivamente
[01:27:27] se propor a reorganizar a vida, ainda que num espaço, que não é o espaço nacional do poder
[01:27:32] político do Estado, né, mas reorganizar a forma da vida social num espaço territorial limitado,
[01:27:39] ela vai se confrontar diretamente com a reprodução do capitalismo, porque ela vai se confrontar com
[01:27:44] a mercantilização, né, toda forma comunitária de vida, toda a solidariedade entre nós,
[01:27:50] ela criou o germe do novo, e a violência que defenda essa forma comunitária, no meu entender,
[01:27:55] é revolucionária. Eu ainda tenho as questões, ainda discordo de alguns pontos, e eu acho que
[01:28:02] esse podcast não vai acabar nunca, na verdade, agora que a gente entrou nesse ponto, o Jones quer
[01:28:08] levantar mais uma questão? Eu concordo com tudo que a Mariana disse, primeiramente, eu quero deixar
[01:28:13] isso claro aqui, que Zemeliana quer minoria, tá entendendo? Finalmente, né, cara? Mas a gente te ama
[01:28:21] mesmo assim. Não, tudo bem, finalmente o Revoluchou aí tem discordância. Eu acho que o primeiro podcast
[01:28:26] que a gente tem é o discordância. Eu acho que tem outro elemento também, Zamy, que prova nisso,
[01:28:33] que é o seguinte, o perfil sociológico mesmo de quem discordou, de quem não gostou de bacural
[01:28:41] por causa do elemento da violência. Que repare bem, vejam, eu vou tentar explicar isso a partir de um
[01:28:47] exemplo. Eu não simpatizo com Lula da Silva, eu acho Lula da Silva um grande canalha, embora eu seja a favor
[01:28:54] do Lula Livre e tal, o meu partido chamar, participaria do Lula Livre, eu vou também, que sou militante
[01:28:59] disciplinário e por aí vai. Por que eu não simpatizo com Lula? Foi antes, inclusive, de eu virar marxista.
[01:29:06] Lula, em 2010, na campanha para a reeleição lá no Rio de Janeiro, ele tava lá de pesão, cabral e companhia
[01:29:13] e ele falando numa UPP, no Morro Dona Marta, se não me falha a memória, ele fala, não, agora tá bom,
[01:29:20] porque a polícia antes ela só subia pra bater, agora ela bate quem tem que bater e protege quem tem
[01:29:28] E o discurso do Lula, pra vocês falarem das UPPs, era esse, não, a UPP é que a polícia agora não vai
[01:29:37] mais só bater, ela vai começar a proteger também, então ele legitima a violência policial. Pra mim,
[01:29:41] quem legitima a violência policial contra meu povo, não tem perdão mais, ele morreu enquanto figura
[01:29:46] política pra mim de qualquer elemento positivo. Porque a violência contra os debaixo não é
[01:29:53] Só que existe uma cultura política que é assim, Bush, ele não é chamado ditador totalitário,
[01:29:59] mesmo tendo comandado duas guerras, Obama não é chamado ditador totalitário e por aí vai, mesmo
[01:30:04] sendo responsável, dentre outras coisas, pela destruição da Líbia. Então, existe um processo
[01:30:09] de normalização cotidiana e unipresente da violência estrutural ao capitalismo, então seus
[01:30:15] gerentes que coordenam e operam essa violência, eles são normalizados, então ninguém, inclusive,
[01:30:22] por exemplo, todo mundo que morreu da União Soviética no período da liderança do Stalin,
[01:30:26] as mortes são colocadas na conta dele, o mesmo não acontece com Bush, com Obama, com Trump, com Lula,
[01:30:32] com Dima, com FGC, sabe? Então, existe um processo de normalização. Quando o Bacural expõe de maneira
[01:30:40] que, ó, a gente tem que se definir da violência e coloca a luz sobre a violência, que não é
[01:30:47] provocada, desejada pela comunidade, é como se fosse um fator exógeno que quer dominar a vida dessas
[01:30:52] pessoas, ele choque essa consciência liberal que, como eu disse, e eu vou repetir isso durante o
[01:30:59] podcast, trata atrocidades cotidianas como falhas que um dia vão ser corrigidos, embora nunca sejam
[01:31:05] corrigidos. E toda vez que a esquerda ou alguém tenta dar uma resposta a isso, como às vezes
[01:31:13] acontece um acidente, como foi no caso da morte do cinegrafista, ou como o debate sobre os
[01:31:19] Black Blocks, aquilo é como se fosse a máxima expressão da barbárie do inaceitável. Então,
[01:31:28] a violência, ela é todo dia naturalizada, normalizada, mas no dia em que um trabalhador
[01:31:36] estoura a cabeça de um policial ou então joga uma pedra num governador, num prefeito, aquilo é o
[01:31:44] maior escândalo, sabe? O grande efeito pra mim de Bacural, o que tem essa dimensão revolucionária
[01:31:54] e que chocou essa consciência liberal do Duval Muniz, do Pablo Hortelado e por aí vai,
[01:31:59] é que eles tratam a violência, eu defendi isso no meu texto, numa perspectiva de realismo político,
[01:32:05] porque a violência não é uma questão ética em essência ontológica, embora tenha uma dimensão
[01:32:10] ética, a violência é uma questão prática e efetiva. É assim, o inimigo vai atacar a gente de maneira
[01:32:15] violenta, qual é a melhor forma de resistir? É usando uma tática de resposta meio violenta ou
[01:32:21] dentro da conjuntura, é uma dimensão essencialmente prática, então um revolucionário como Lenin,
[01:32:28] por exemplo, como Rosa Luxemburgo, eles não tinham fetiche pela violência, só que eles não colocavam
[01:32:34] como dogma a priori uma política não violenta, porque não faz sentido, porque se a realidade exigir,
[01:32:39] a violência vai ter que ser usada, então é questão prática e efetiva no primeiro plano da reflexão.
[01:32:43] Então quando Bacural traz isso, porque assim, não houve muita elucubração teórica, muito debate,
[01:32:51] se eles iam resistir violentamente ou não, o negócio é meio óbvio, tipo assim, porra,
[01:32:55] os caras estão atacando a gente pra exterminar, a gente vai resistindo em volta, sabe aquela coisa
[01:33:00] meio fanoniana de que é como se os gringos fossem colonizadores e frente à colonização não existe
[01:33:07] nas conversas, a dominação total e a resistência não é necessariamente violenta, e esse dado,
[01:33:12] o objetivo da política, esse nível de realismo político, se perdeu nas boas consciências da
[01:33:20] revolução brasileira, ao ponto de mês passado, numa mesa, eu falei que eu defendo bomba atômica,
[01:33:26] porque vieram com esse discurso fofinho de que acabar com o programa nuclear brasileiro, eu falei
[01:33:31] não, eu defendo a bomba atômica, inclusive, acho que uma das poucas coisas boas que os militares
[01:33:35] fizeram foi dar um empurrãozinho nesse programa nuclear aí, porque com a revolução brasileira,
[01:33:39] a gente vai aproveitar ele, e aí isso chocou, isso chocou muita gente que tava ali, mas assim,
[01:33:47] gente, a gente vive num mundo que tem OTAM, a gente vive num mundo que os Estados Unidos tem bases
[01:33:51] militares. A galera não tá acostumada com o termo arma de suasão, né? Eu acho isso fantástico,
[01:33:59] porque teve um revolucho, que foi o revolucho da Coreia do Norte, eu queria lembrar isso pra quem
[01:34:03] tá ouvindo aqui nesse exato momento, que o jubão levanta exatamente essa questão, como a bomba
[01:34:09] nuclear como de suasão da Coreia do Norte, por isso que eles estavam naquele processo de construção,
[01:34:13] ela passou, sei lá, alguns meses, quando eles conseguiram fazer um míssil que chegava até os
[01:34:16] Estados Unidos, cara, o discurso dos Estados Unidos mudou. É a arma do diálogo. Exatamente, né? É tipo dois
[01:34:22] malucos muito parrudos querendo cair na porrada, ninguém entra. Bom, em relação a isso que você
[01:34:28] colocou, Joannis, concordo de novo com você, concordo bastante, aliás, inclusive como eu coloquei
[01:34:34] em relação à questão da violência, né? Porra, eu fiquei meio chocado com esse pessoal que é contra a
[01:34:40] bomba atômica, daqui a pouco estamos começando a falar que você é igual a Enéas, que é assim,
[01:34:44] né? A galera tem a teoria da ferradura pra tudo nessa porra, né? Não pode ver uma ferradura que
[01:34:50] quer logo ferrar alguém. Enfim, concordo fundamentalmente com isso, né, que você colocou, mas eu não tô nessa
[01:35:00] perspectiva, acho que realmente a única forma de eles agirem àquela situação seria através da
[01:35:06] violência. Porra, que bom que era um local em que as pessoas já estavam acostumadas com esse
[01:35:14] tipo de coisa, aliás, né? O museu deles comprova isso plenamente, aquele museuzinho de Bacurau,
[01:35:20] né? Comprova completamente isso, inclusive eles, e eu acho isso muito bom, porque isso também tem
[01:35:26] uma relação com a arte fantástica, eles tiram toda a força deles da história deles, porque eles
[01:35:33] usam as armas no museu, né? Enfim, então isso pode ser um ponto bem interessante aí do filme também,
[01:35:40] uma metáfora bem legal aí do filme. E eu acho que agora a gente deu uma avançada boa aí no podcast,
[01:35:48] apesar de que a gente podia avançar mais ainda nesse debate, como a Marina colocou pra gente aí,
[01:35:53] mas a gente tem que ir, o tempo está curto aí, a gente tem que finalizar. Então, pra nós entrarmos
[01:36:00] na finalização, vou começar por Marina. Marina, as suas considerações finais sobre o filme,
[01:36:05] e qualquer jabá que você queira fazer também, tem que ser à vontade.
[01:36:09] É difícil, porque a gente entrou aqui num tema, mas eu também preciso ir embora, então é nóis.
[01:36:18] Eu vou falar só brevemente sobre a bem batômica antes das considerações finais,
[01:36:24] porque eu não vou aguentar, tá? Rapidinho. Assim, eu acho que é um tema pra gente debater,
[01:36:30] mas como esse é um podcast que dialoga dentro da esquerda e que participa na formação de muitos
[01:36:37] militantes, enfim, eu me sinto aqui na necessidade de colocar que eu também considero necessário,
[01:36:43] historicamente, que a União Soviética desenvolvesse a bomba atômica, que a Coreia do Norte tem a bomba
[01:36:49] atômica, mas isso é diferente de defender a bomba atômica, né? E acho que mesmo dentro das
[01:36:57] circunstâncias e contradições históricas dos processos, eu acho importante a gente entender
[01:37:01] como que a necessidade, imposta pelo capitalismo, não pelo socialismo, a necessidade imposta pelo
[01:37:07] capitalismo de desenvolver uma bomba atômica, dificultou o processo de construção de socialismo
[01:37:12] nesses países, porque leva a uma necessidade de emulação do desenvolvimento das forças
[01:37:17] ativas e não necessariamente de transformação das relações sociais de produção, porque você
[01:37:22] tem que aumentar a produtividade loucamente pra atender a corrida armamentista, o que dificulta
[01:37:27] transformar efetivamente a relação de alienação com o trabalho, dificulta efetivamente obter mais
[01:37:34] coisas do produto social mesmo, né? Conseguir satisfazer as necessidades humanas através da
[01:37:40] construção de socialismo. Não acho que isso é uma contradição colocada pelo socialismo, uma
[01:37:45] contradição colocada pelo capitalismo, pelo fato de que inevitavelmente as revoluções socialistas
[01:37:49] se fazem a partir do capitalismo e tem que se contrapor a uma formação social capitalista, mas
[01:37:57] queria deixar isso, eu não defendo a bomba atômica como construção de socialismo, eu defendo o
[01:38:03] socialismo como maneira da gente desconstruir a necessidade de bomba atômica e acho que é
[01:38:08] muito legal sentir isso. Aí sobre o filme, que dialoga com isso, acho que o filme, queria deixar
[01:38:15] aqui considerações finais, acho que o filme tem problemas políticos também, em certo sentido eu
[01:38:20] concordo com o que o Zamiliano falou do projeto político, da construção política, eu só não
[01:38:25] chamaria de não ter violência revolucionária, na medida em que, acho que o principal problema
[01:38:32] político do filme é que ele mostra o imperialismo como um inimigo externo e aí fazendo o jabá do
[01:38:37] sobredependência, que a dependência do imperialismo não são inimigos externos, são a forma da própria
[01:38:43] reprodução da sociabilidade capitalista e só dá para acabar com eles acabando com o próprio
[01:38:47] capitalismo. Ao mostrar o imperialismo como um inimigo externo, a gente criaria a possibilidade
[01:38:53] política de se livrar do imperialismo matando o imperialismo sem romper o capitalismo e essa
[01:38:58] possibilidade não existe, porque essa não é a realidade objetivo, o imperialismo não é um inimigo
[01:39:02] é a forma da sociabilidade capitalista no nosso tempo histórico, então acho que o filme tem
[01:39:07] problemas políticos, mas eu acho que os méritos, e é um filme né minha gente, é divertidaça,
[01:39:13] muito bom, os méritos são muito maiores do que os problemas eu acho, aí como forma de encerramento,
[01:39:22] acho que a gente não tocou aqui na questão do Bolsonaro, e eu queria talvez tocar nela para
[01:39:28] que é o quanto se passando no futuro, mas sendo lançado nesse contexto político,
[01:39:33] é um filme que dialoga com o momento político que a gente está vivendo né, e por isso que,
[01:39:38] também por isso, as análises sobre o filme sempre acabam remetendo a análise da conjuntura né,
[01:39:43] ele foi terminado antes da eleição do Bolsonaro, então ele não é sobre o Bolsonaro,
[01:39:47] mas o contexto histórico faz com que inevitavelmente se veja esse filme, se pense
[01:39:54] no acirramento né, da repressão e da perda dos direitos, que nada mais é do que o acirramento
[01:40:02] de algo que a maior parte da classe trabalhadora já vive no seu cotidiano há séculos né, mas que
[01:40:08] tem algo de qualitativamente novo sim, no sentido de que está sendo necessário para que a classe
[01:40:13] dominante reconfigure o capitalismo, para reconfigurar suas taxas de lucro frente à
[01:40:18] profundidade da crise em todas as dimensões que a gente está vivendo né, então acho que é
[01:40:26] importante frisar aqui que esse neoconservadorismo e neofascista em muitos momentos né, ele não é um
[01:40:34] traço que dá para a gente tirar do momento histórico atual, tipo também não é um negócio só vamos
[01:40:40] cortar só esse pedacinho, porque o resto não, ele é algo necessário a reconfiguração do capitalismo
[01:40:45] na profundidade da crise, ele é a única maneira do Bloco No Poder se legitimar e conseguir fazer a
[01:40:51] retirada de direitos que considera necessário e então a nossa organização ela passa por reconhecer
[01:41:00] que só a luta anticapitalista é uma luta efetiva contra o momento político que a gente está vivendo
[01:41:07] né, acho que é isso que eu queria colocar, o psicotrópico não nos deixa bem doidos, o psicotrópico
[01:41:13] clareia e tira o véu da realidade, viva a luta anticapitalista, é nóis, muito bom, Jones, eu quero
[01:41:22] dizer mais uma vez que eu concordo plenamente com a ponderação que Marina fez em relação à questão
[01:41:27] da bomba atômica e a prioridade de desenvolvimento das suas produtivas por causa da pressão do
[01:41:31] imperialismo, é isso mesmo, estamos totalmente alinhados Marina, inclusive acho que depois de
[01:41:36] esse podcast a gente pode até escrever um livro junto, porque a gente está bem sintonizado nas ideias
[01:41:42] eu só quero fazer dois jabás, já falei que eu ia falar, eu tenho um texto que foi publicado na revista
[01:41:48] ópera que é sobre Bacurau e que é quando a violência revolucionária não é no cinema,
[01:41:55] linguagem política e crise do marxismo acadêmico e aí o Zemiliano provavelmente vai colocar na
[01:42:00] descrição, e eu leio um texto, ficou legalzinho, o texto já está com 7 mil acessos, então o povo
[01:42:09] e tem um vídeozinho no meu canal também sobre violência revolucionária, que embora não seja o
[01:42:16] tema central do podcast, mas foi um elemento que foi debatido, eu acho que vale a pena a gente
[01:42:22] aprofundar esse debate também, então vou pedir para Zemiliano colocar aí na sugestão de materiais
[01:42:30] esses dois elementos para a gente debater, que eu acho que são elementos muito importantes,
[01:42:35] porque eu falei que só ia fazer jabá, mas só uma letra rápida, eu achei muito interessante como no
[01:42:43] país em que se está defendendo frente ampla, num país em que se quer combater a polarização dos
[01:42:50] extremos, num país em que figuras como Tabata Marau conseguem serem defendidas em massa como era até
[01:42:57] pouco tempo atrás, esse filme fazer tanto sucesso, a gente tem que pensar seriamente sobre esse
[01:43:04] cartático da arte, em que uma mensagem cinematográfica com conteúdo político consegue
[01:43:11] ser abraçado plenamente enquanto deleite da arte, só que ele é exata negação da nossa prática
[01:43:17] política, do nosso imaginário político, e a gente não consegue perceber isso, eu acho esse elemento
[01:43:22] muito importante, a gente refletir concretamente, teve até um rapaz que escreveu um texto que no
[01:43:28] mundo real já se está fazendo as alianças com os Tony Junios para a próxima eleição, com o prefeito
[01:43:35] de Bacurau, então a mesma figura que amou Bacurau, ele defende a prática política que na verdade se
[01:43:41] aliaria com o prefeito, que ele ia falar que não tem correlação de forças e que quem não se aliar
[01:43:47] com o prefeito é a esquerda que a direita gosta, então eu acho importante pensar nisso, sabe,
[01:43:54] esse fetiche que a gente tem pela radicalidade em outros países, que é outra coisa também que
[01:44:01] é meio assim, é meio chocante, porque a gente olha por bagulho no Chile, no Equador, alguns
[01:44:08] olham para Hong Kong, eu acho absurdo, mas tudo bem e tal, aí olha para as barricadas, para o
[01:44:13] enfrentamento contra a polícia, não sei o que, olha com um olhar deslumbrado, maravilhoso, quando
[01:44:18] o prefeito chega para o Brasil, não tem disposição, nem vantagem, nem acha necessário, sei lá, no
[01:44:25] momento de paralisação ou de greve, acordar para ir travar uma garagem de ônibus para os trabalhadores
[01:44:31] não saírem e tentar travar a cidade, a gente tem que pensar seriamente sobre esse fetiche que a gente
[01:44:38] tem pela violência e pela radicalidade, quando ele se expressa como um grande outro, como se a
[01:44:45] violência e a radicalidade fossem uma espécie de sublimação, na linguagem da psicanálise, uma
[01:44:51] transferência para um outro externo que não faz eu questionar meu lugar de segurança, então eu estou
[01:44:58] aqui fazendo o mesmo de sempre ou não fazendo nada e reclamando de que o brasileiro é passivo, que o
[01:45:04] brasileiro não luta e por aí vai, e aí quando eu olho no cinema ou em algum país, no inferno de longe,
[01:45:11] elementos de radicalidade, de enfrentamento direto, eu olho maravilhado e fico esperando como que um
[01:45:22] milagre divino que sobrote das terras brasileiras, quando a gente não percebe que radicalidade é
[01:45:31] construída, a radicalidade não brota do nada e ao contrário do que muitos teóricos pensam depois do
[01:45:38] dia de junho de 2013, a crença de que a espontaneidade por si só vai produzir algum momento o nível de
[01:45:47] radicalidade porque a vida é cada vez pior, ela também não se sustenta, a gente tem que pensar
[01:45:53] seriamente nisso, essa glamurização da violência como um grande outro, da radicalidade como um
[01:46:00] grande outro e na prática política, está aí por exemplo defendendo uma frente ampla, ampla, ampla,
[01:46:07] que é uma filhíssima para a eleição do ano que vem, inclusive o que já é em cima se toma é nesse
[01:46:13] momento, o grande foco da preocupação é a eleição do ano que vem, como diria o camarada Ivan Pinheiro,
[01:46:19] tem uma certa esquerda que nos anos pá, ela tá pensando na eleição que acontece no ano ímpar,
[01:46:24] aliás, é o contrário, no ano ímpar ela tá pensando na eleição que acontece no ano pá, então acho que vale a
[01:46:31] gente refletir com cuidado e que encarinham sobre isso e leiam Fanon, os condenados da terra, beijos, amo vocês.
[01:46:38] Muito bom, e para eu finalizar aqui vou levantar essa maravilhosa questão aí através do que o
[01:46:44] Jones acabou de trazer, eu acredito profundamente que as pessoas que assistem Bacurau nessa perspectiva
[01:46:50] de não perceberem que elas são as pessoas que fazem alianças com o Tony Junior da vida, que inclusive
[01:46:56] é obviamente o PMDB, afinal de contas o número dele é 150 né, 15 aí ó, abraça aí PMDB, que esses
[01:47:03] muitos transformam a PMDB de novo, essas pessoas eu acho que profundamente no fundo, no fundo elas querem
[01:47:11] que as pessoas de Bacurau saiam na tela e resolvam o problema para elas, ao invés de perceberem que elas
[01:47:17] têm que construir esse processo, então como elas querem que eles saiam na tela, no fundo, no fundo
[01:47:23] esse tipo de pessoa tá vendo Bacurau como se fosse mais um filmezinho da Marvel né, e que tem seus
[01:47:30] heróis, e os heróis estão lá e para mim isso já basta né, eu acho que a gente não pode entrar nessa
[01:47:38] perspectiva né, eu como Jones, como Marina, né, Diego, João, etc, definitivamente nós não estamos
[01:47:44] dentro das perspectivas né, de achar que é isso né, tá lá e já me basta o que tá lá, na verdade é
[01:47:51] uma das perspectivas que a gente tem que construir aqui, é um filme de ficção que como um bom filme
[01:47:56] de ficção traz questões que a gente tem que refletir, que a gente fez em reflexão aqui nesse
[01:48:01] podcast né, na medida do possível o filme é recheado, rechadíssimo de simbologias assim, muito
[01:48:08] rechado de simbologias né, tem muita coisa e obviamente que aqui em quase duas horas aí de podcast
[01:48:12] a gente não ia conseguir esgotar tudo isso, foi um ótimo debate, queria agradecer Marina por estar
[01:48:17] aqui com a gente até aqui nesse momento né, ao Jones por ter vindo participar aqui também da nossa
[01:48:23] gravação né, e é isso gente, então eu mando um caloroso tchau tchau pra vocês e até o próximo
[01:48:28] podcast, tchau tchau, tchau tchau, a delícia tá com vocês, tchau!