Frontdaciência - T10E35 - Blade Runner


Resumo

Este episódio do Fronteiras da Ciência é dedicado a uma análise aprofundada do filme Blade Runner (1982), dirigido por Ridley Scott, e sua relação com o livro de Philip K. Dick, Android Sonho com Ovelhas Elétricas (1968). Os participantes discutem as diferenças fundamentais entre as obras, como a ambientação (Los Angeles superpovoada no filme versus São Francisco pós-guerra nuclear no livro), os motivos dos personagens e a ênfase em temas como a extinção dos animais e o mercerismo, uma religião estatal presente apenas no livro.

A conversa aborda as diferentes versões do filme, destacando a polêmica narração em off da versão original de 1982, imposta pelos produtores, e sua remoção na “Director’s Cut” de 1993. É analisada a cena do sonho com o unicórnio, que na versão do diretor introduz a ambiguidade sobre o protagonista Rick Deckard também ser um replicante, enriquecendo a interpretação da obra. Os debatedores compartilham suas experiências pessoais com o filme e o livro, com opiniões divergentes sobre a qualidade da escrita de Dick, embora reconhecendo sua imaginação fértil.

Um dos temas centrais é a questão da empatia e dos direitos. O filme levanta dilemas éticos sobre a humanidade dos replicantes (Nexus 6), seres biologicamente construídos com memórias implantadas e vida curta, que demonstram emoções e desejos. O teste Voight-Kampff, usado para identificá-los, é comparado e contrastado com o teste de Turing, sendo considerado mais avançado por medir respostas fisiológicas e emocionais baseadas em vivência. A discussão conecta essa ficção a problemas reais, como a desumanização de grupos sociais ao longo da história.

Os participantes exploram a estética única do filme, uma mistura de film noir, cyberpunk e futurismo, com influências do quadrinista Moebius. Também são mencionadas as dificuldades de produção, como a escolha de Harrison Ford para o papel principal e o uso de cenários escuros para esconder limitações técnicas. O episódio conclui refletindo sobre a atualidade dos temas de Blade Runner, que continuam relevantes para debates sobre consciência, direitos e o que define a humanidade, servindo como um motivador para (re)visitar a obra.


Indicações

Filmes

  • Blade Runner (1982) — O filme dirigido por Ridley Scott, foco principal do episódio. É discutida sua estética, as diferentes versões (com e sem narração), a atuação de Harrison Ford e seus temas centrais sobre humanidade e inteligência artificial.
  • Blade Runner: Director’s Cut (1993) — Versão do filme sem a narração em off e com a cena do sonho do unicórnio reinserida. Considerada pelos participantes como superior, pois introduz a ambiguidade sobre Deckard ser um replicante e confia mais na força visual e musical.
  • O Homem Bicentenário — Filme baseado em história de Isaac Asimov, brevemente mencionado como outro exemplo que explora o tema de um androide buscando reconhecimento como ser humano e direitos iguais.
  • 2001: Uma Odisseia no Espaço — Citado como outro filme clássico de ficção científica que, assim como Blade Runner, aborda temas de inteligência artificial e humanidade, evitando colocar o conflito da Guerra Fria em seu enredo.
  • Total Recall — Outra adaptação de uma obra de Philip K. Dick (o conto ‘Lembramos de Tudo para Você’), mencionada como um exemplo das muitas ideias do autor levadas ao cinema.
  • Minority Report — Filme adaptado de um conto de Philip K. Dick, citado como parte do legado cinematográfico das ideias do autor.

Livros

  • Android Sonho com Ovelhas Elétricas — Livro de Philip K. Dick de 1968 que inspirou o filme Blade Runner. Os participantes discutem as diferenças significativas para o filme, como o cenário pós-guerra nuclear em São Francisco, a obsessão por animais reais e a presença de uma religião estatal chamada mercerismo.

Pessoas

  • Philip K. Dick — Autor do livro que originou Blade Runner. Os participantes comentam seu estilo de escrita, sua imaginação fértil, sua impressão com o teste de Turing e sua aprovação da visão do futuro apresentada no filme antes de morrer.
  • Ridley Scott — Diretor de Blade Runner. É discutida sua decisão de não ler completamente o livro, sua influência na estética final do filme (inspirada em Moebius) e seu uso de cenários escuros para esconder limitações técnicas.
  • Harrison Ford — Ator que interpretou Rick Deckard. É mencionada a dificuldade de escalá-lo devido à sua fama como Indiana Jones, e como o papel o revelou como um ator de densidade, não apenas de aventura.
  • Moebius (Jean Giraud) — Quadrinista francês cuja estética influenciou fortemente o design e a concepção visual de Blade Runner, inclusive através de storyboards.
  • Alan Turing — Matemático e pai da ciência da computação. Seu famoso ‘Teste de Turing’ é discutido e comparado com o teste Voight-Kampff do filme, sendo citado como uma grande influência para Philip K. Dick.

Linha do Tempo

  • 00:01:13Introdução ao filme Blade Runner e seu contexto — Apresentação do episódio, que celebra o ano de 2019, quando se passa o filme Blade Runner. É mencionada a origem do filme no livro de Philip K. Dick e a morte do ator Rutger Hauer. O programa adverte sobre spoilers e apresenta os participantes.
  • 00:02:09Sinopse do enredo do livro e do filme — Resumo da trama comum ao livro e ao filme: um mundo pós-guerra nuclear, animais raros substituídos por eletrônicos, e um caçador de recompensas (Deckard) que precisa eliminar replicantes Nexus 6 fugitivos. São destacadas as características dos replicantes: vida curta, memórias implantadas e proibição na Terra.
  • 00:03:38Motivação dos replicantes e dilema ético — Discussão sobre o motivo da fuga dos replicantes: buscar seu criador para estender sua vida breve. Isso levanta o dilema central do filme: máquinas que demonstram motivações e sentimentos profundos, desafiando a distinção entre humano e artificial. É corrigida a ideia de que são ‘máquinas’ no sentido tradicional, pois possuem matriz biológica.
  • 00:05:22Opiniões pessoais sobre o livro e o filme — Os participantes compartilham suas impressões. Um considera o livro chato, com temas subaproveitados, enquanto outro defende Blade Runner como um dos grandes filmes já feitos. É mencionada a frustração inicial com a narração em off na versão de 1982.
  • 00:06:22História das diferentes versões do filme — Relato sobre a descoberta de cenas cortadas por uma estudante de cinema e a remontagem que resultou na versão de 1993 (Director’s Cut). A remoção da narração em off e a reinserção da cena do sonho com o unicórnio são destacadas como mudanças cruciais que alteram a interpretação, sugerindo que Deckard pode ser um replicante.
  • 00:09:40Principais diferenças entre o livro e o filme — Listagem detalhada das diferenças: o termo ‘Blade Runner’ e ‘replicante’ só existem no filme; a ambientação (Los Angeles superpovoada vs. São Francisco vazia); a motivação de Deckard (dinheiro para um animal real no livro); e a presença da religião do mercerismo e da caixa de empatia apenas no livro.
  • 00:15:46Empatia, desumanização e direitos — Discussão filosófica sobre a empatia como tema central. O filme é relacionado a históricos de desumanização (como a escravidão) e à questão de estender direitos a não-humanos, como animais ou inteligências artificiais. A rebelião dos replicantes é vista como uma luta contra a escravidão.
  • 00:19:24O teste Voight-Kampff e o teste de Turing — Análise aprofundada do teste usado para detectar replicantes. Explica-se que ele vai além do teste de Turing, medindo respostas fisiológicas (como dilatação da pupila) a perguntas com carga emocional, que revelariam a vivência mais curta e implantada dos androides. A influência de Turing no trabalho de Dick é mencionada.
  • 00:23:53Estética e produção do filme — Discussão sobre a estética única do filme, uma fusão de film noir, cyberpunk e futurismo, com influência do quadrinista Moebius. São mencionados detalhes de produção, como a reutilização de cenas de ‘O Iluminado’ e a escolha de Harrison Ford para o papel de Deckard.
  • 00:27:35Legado de Philip K. Dick e adaptações — Conversa sobre o legado literário de Philip K. Dick, reconhecido por suas ideias, mas com estilo de escrita considerado por alguns como deficiente. São citadas outras adaptações de suas obras para o cinema, como ‘Total Recall’ e ‘Minority Report’.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2019-12-16T13:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência da Rádio da Universidade, onde discutiremos

[00:00:08] os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:30] Eu assisti a frutas de cebola brilhar na escuridão, perto de uma casa de 10, de novo.

[00:00:43] Todos esses momentos serão perdidos em tempo

[00:00:52] como teus

[00:00:55] e a chuva.

[00:01:03] É hora de morrer.

[00:01:13] Em 2019 é o ano em que se passa o filme Blade Runner, que foi baseado no livro

[00:01:17] Android Sonho com Ovelhas Elétricas, do Philip K. Dick, e também o Ano da Morte de Ruth Gerhauer,

[00:01:23] que interpretou o Android Roy Batty. E essa fala que a gente acabou de ouvir foi o discurso final

[00:01:29] dele no filme. Para celebrar tudo isso, hoje então vamos conversar sobre o filme de 1982 e suas versões

[00:01:37] posteriores, mas não sobre a continuação que foi lançada recentemente e que se passa em 2049.

[00:01:45] Como o filme tem quase 40 anos, todos já tiveram tempo suficiente para assistir, então para evitar

[00:01:51] os spoilers que vão ser dados em abundância aqui, a gente sugere fortemente que vocês vejam antes.

[00:01:57] Participam desse episódio o Carlos Miralia, da Filosofia da Ulf Pell, o Jorge Kieffel, da Biofísica da

[00:02:03] Urix, o Marco Diatti e eu, Jeffrey Sorenson, ambos do Departamento de Física também da Urix.

[00:02:09] Tanto o livro de 68 quanto as duas versões do primeiro filme de 82 e 93, essa segunda que é o que se chama

[00:02:15] a versão do diretor, elas contam essa distopia que se passa num mundo pós-guerra nuclear,

[00:02:21] onde os animais são raríssimos, tema que é explorado muito mais no livro, essa estranha

[00:02:29] obsessão que as pessoas têm por esses animais eletrônicos que substituem os animais naturais,

[00:02:35] como símbolo de status. O personagem central, tanto do filme quanto do livro, é um policial,

[00:02:41] um robô de recompensas que precisa caçar e eliminar um grupo de androides de última geração,

[00:02:47] os Nexus 6, também chamados de replicantes no filme. Esses androides eles tinham uma duração limitada,

[00:02:53] viviam poucos anos, mas tinham memórias implantadas de uma vida pregressa, mas a presença deles na

[00:03:01] terra era proibida. Esses androides eram usados principalmente na colonização do espaço em atividades

[00:03:07] muito especializadas e que demandavam, portanto, bastante inteligência, o que os tornava extremamente

[00:03:13] parecidos aos seres humanos e complicado não só de distingui-los, como saber se de fato eles tinham

[00:03:20] se tornado sentientes. Esse basicamente era o dilema crescente do décado do detetive do filme.

[00:03:27] Hoje então a gente vai conversar sobre o filme e o livro e os diversos temas que são ali levantados.

[00:03:33] Para começar, então, por que eles escaparam e voltaram para a Terra?

[00:03:38] Eles escaparam porque tinham um problema existencial fundamental, que a vida era muito breve e eles

[00:03:44] queriam encontrar o criador para ver se dava jeito nisso. Essa ideia de atrasar o criador também…

[00:03:49] Mas acho que esse é um dos dilemas que o filme coloca. Eles são androides, eles são máquinas, mas eles

[00:03:56] parecem ter uma motivação forte por trás. Eles começam a demonstrar sentimentos, sensações e

[00:04:02] atividades que não se esperariam na máquina.

[00:04:04] Eu queria só consertar o nome máquina. Mesmo que a gente tenha dito aqui que eles não são

[00:04:09] exatamente máquinas, porque eles são construídos com matriz biológica o tempo todo.

[00:04:13] Tanto que o teste precisa ser psicológico, porque só escanear o cara não adianta.

[00:04:17] É porque o Sebastian, que é um dos personagens do filme, é que ele é um desses designers.

[00:04:22] Que ele desenha olho, desenha coisa.

[00:04:24] Se você se lembra do filme, para saber que a peça era artificial, eles tinham que usar um

[00:04:27] só para eletrônico, e lá embaixo na escapa, ver a patente escondida lá num cabelinho, numa escama.

[00:04:32] Não era trivial saber que era…

[00:04:35] Eles não eram máquinas no sentido normal.

[00:04:37] Eram máquinas no sentido de que foram construídas. O material é relevante.

[00:04:40] É, porque também podemos dizer que nós somos máquinas, no certo sentido.

[00:04:43] Nós somos. Só que a gente é automontável, a partir de Marcelo. E eles não eram,

[00:04:50] para de sim, automontáveis. O que eu entendi, se bem que nunca foi tocado no filme.

[00:04:55] O livro não fala nem sobre a constituição, nem sobre como eles são criados.

[00:05:00] Aliás, foi um grande esforço que eu fiz para ler o livro.

[00:05:03] E não gostei. Achei chato, com temas sub-aproveitados.

[00:05:07] Por exemplo, a gente consegue enxergar ali dentro de onde foi tirado o roteiro do filme.

[00:05:12] Mas muita coisa que é bem explorada no filme passa batida ali no livro.

[00:05:17] Já, por outro lado, eu considero o Blade Runner um dos grandes filmes que eu vi.

[00:05:22] Não só filme de ficção científica, mas em geral.

[00:05:25] Eu vi 82 para 83 por causa do nosso amigo Zeca.

[00:05:30] E fui com uma alta expectativa e comecei a me frustrar durante o filme.

[00:05:35] Principalmente por causa do narrador.

[00:05:37] O cara pensa, que saco, esse cara me explicando o filme.

[00:05:40] Porque o narrador fica basicamente explicando o filme.

[00:05:43] Isso não é uma leitura de traço à frente? Porque eu me lembro que eu assisti o filme.

[00:05:47] E eu achei o máximo. Inclusive aquele ar-noir de um detetive de escolar.

[00:05:51] Não, a narrativa. Por exemplo, para mim o que foi determinante

[00:05:55] foi que depois que termina essa cena do Roy Batty, que ele morre e a pomba vai embora.

[00:06:00] E aí tu fica pensando, do ponto de vista emocional, que eu cume do filme.

[00:06:04] E aí aparece a voz do cara, não, eu achava que no fundo então…

[00:06:08] É ali e ele fica do quê?

[00:06:09] Mas é o que o Jorge disse, o narrador é um elemento do filme noir.

[00:06:13] Então ele é considerado um neo-noir.

[00:06:14] E eu vou dizer assim, eu achei bom.

[00:06:16] Mas assim, eu posso complementar o teu relato porque eu estava no dia em que estreou a versão de 93.

[00:06:22] Eu estava fazendo Doutorado Sanduíche na Califórnia em 90 e 91.

[00:06:26] Era Guerra do Golf, a primeira e tal.

[00:06:28] Em 91, estudante de cinema da Universidade da Califórnia encontrou uma gaveta com os restos do filme que ela reconheceu.

[00:06:34] Que eram cenas do Blade Runner.

[00:06:36] O filme era bem diferente à ideia original, mas o estúdio não aprovou.

[00:06:40] Ele não teria narrativa em off e tinha umas cenas a mais.

[00:06:43] Ele era mais explícito em alguns detalhes e tal.

[00:06:45] Mas a narrativa saindo, ela é substituída pela força da música e das cenas.

[00:06:50] Então ela montou o filme de novo.

[00:06:53] Era um filme-filme mesmo.

[00:06:54] Estraiu num cinema lá em Los Angeles.

[00:06:56] Estava lotado.

[00:06:57] Porque cinema gigantesco foi emocionante estar lá para ver o troço.

[00:06:59] E eu me lembro da sensação que eu tive quando eu escutei ele sem a narrativa.

[00:07:02] Porque eu já tinha visto umas 20 vezes.

[00:07:04] Mas esse de 93 não é o Director’s Cut.

[00:07:06] Não, então, de 93 é a versão já arrumada pelo diretor dessa versão reconstituída que eu vi em 91.

[00:07:12] Então foi um negócio bem interessante, bem emocionante.

[00:07:15] E a sensação que eu tive de assistir ele em off sim foi mágica.

[00:07:18] Mas essa história aí da narração em off já é notório.

[00:07:22] Por exemplo, o Erwin Fanford detestou fazer aquilo.

[00:07:25] E foi uma imposição dos produtores.

[00:07:27] Eles achavam que o público não ia conseguir entender e votar.

[00:07:30] Mas tem uma coisa assim, eu prefiro também sem a narração.

[00:07:34] Mas com a narração, aquela pegada filme no ar, sabe, policial, faz sentido.

[00:07:40] Porque tem essa coisa do detetive canastrão que fica falando, as coisas.

[00:07:44] A femme fatal.

[00:07:46] Tentou, tentou acelerar mesmo a fotografia.

[00:07:48] Ele é um filme no ar.

[00:07:49] A narração não estraga, mas eu prefiro sem.

[00:07:51] É que essa foi uma das modificações nessa segunda versão.

[00:07:54] Teve cenas incluídas e cenas excluídas que mudaram toda a interpretação do filme.

[00:08:00] É, uma que eu me lembro que estava lá naquela exibição.

[00:08:02] E até a moça explicou lá no início da apresentação.

[00:08:05] Na versão nova que ela reconstituiu, ela colocou de volta uma cena que tinha sido limada.

[00:08:09] Que é uma cena em que ele sonha com um unicórnio cavalgando em câmera lenta.

[00:08:12] Exatamente.

[00:08:13] E realmente não tem na apresentação nacional.

[00:08:14] É porque a cena bota em dúvidas se ele também não é um replicante.

[00:08:18] Exatamente.

[00:08:19] Essa interpretação não existe.

[00:08:21] É, mas assim, cinematograficamente eu acho essa…

[00:08:23] Muito mais impactante, claro.

[00:08:24] Muito mais impactante.

[00:08:25] Ou seja, os caras realmente destruíram o filme num certo sentido, né?

[00:08:28] Porque eles tiraram um elemento pra deixar tudo na dúvida.

[00:08:30] A melhor coisa de um filme que já te interpreta tudo na forma de mágica,

[00:08:33] é ainda, apesar disso, deixar margem de dúvida.

[00:08:37] Quando tu bota lá fica na dúvida.

[00:08:38] Será que ele é um replicante?

[00:08:39] Porque o policial chinês sabia.

[00:08:41] Ele deixou origami lá no finalzinho, na última cena, né?

[00:08:44] É, mas isso de uma outra interpretação.

[00:08:46] De que existiam desejos e vontades que eram comuns, assim.

[00:08:51] E aquilo era só uma sinalização de que eu te entendo, eu sei o que tu tá fazendo, eu te apoio.

[00:08:56] Como é que ele sabia do sonho?

[00:08:57] É que não tinha sonho na primeira versão.

[00:08:59] Quer dizer que não tinha sonho que o unicórnio era que nem o símbolo do time de futebol.

[00:09:05] Ou então é um sonho runguiano.

[00:09:07] É um coletivo, um arquétipo.

[00:09:10] Eu prefiro a interpretação dessa aqui, que na verdade foi o que o Felipe disse.

[00:09:14] Eu também prefiro.

[00:09:15] Ele disse isso na época.

[00:09:16] Só que ele disse assim, eu quero sugerir, mas eu não quero entregar.

[00:09:19] Mas ele disse que o Ridley Scott, nas últimas entrevistas, ele foi mudando de ideia.

[00:09:22] Ele disse, não, ele é um replicante.

[00:09:23] Porque agora as pessoas tem os que acreditam que é e os que não é.

[00:09:26] São dois tipos de fãs.

[00:09:27] Eu acho que ele é replicante, eu gosto mais dessa interpretação.

[00:09:30] Mas existe o debate, existe a resolvente.

[00:09:32] É, ele é como ela, um replicante especial que não morre.

[00:09:35] Eu tenho aqui um paralelo das diferenças entre livro e filme, que talvez seja interessante ver.

[00:09:40] O nome Blade Runner, que é presente no filme, não é citado no livro.

[00:09:44] No livro não aparece.

[00:09:45] Não aparece?

[00:09:46] É notado no título.

[00:09:47] No livro, nada.

[00:09:48] No livro, essa palavra é original.

[00:09:49] É nas edições brasileiras, talvez.

[00:09:50] É, mas depois foi reeditado como Blade Runner.

[00:09:53] É.

[00:09:54] O Decker, ele é um caçador de recompensa.

[00:09:56] Não é um cara da lei.

[00:09:57] Ele é um policial, mas que o salário dele é em cima do que ele tem metas.

[00:10:03] O nome replicante, replicantes, só tem no filme, não tem no livro.

[00:10:07] O livro eles são chamados de Andes, uma curbitela para androides.

[00:10:10] No filme, se passa em Los Angeles, que é superpopulosa.

[00:10:14] Uma terra superpopulada.

[00:10:16] Um clima destruído.

[00:10:17] Mas é a superpopulação que é o centro do filme.

[00:10:20] No livro, é a guerra nuclear.

[00:10:22] No livro é o contrário.

[00:10:24] É em São Francisco.

[00:10:25] No livro, a cidade é vazia.

[00:10:28] As pessoas mais qualificadas já saíram.

[00:10:30] Então, as pessoas mais qualificadas foram para as colônias.

[00:10:33] Eles tinham teste de QI.

[00:10:34] Os que não passavam, ficavam trabalhando na terra.

[00:10:36] Ficavam na terra.

[00:10:37] Então, a terra tinha essas pessoas que eram as especiais.

[00:10:39] Para sair para as colônias, para fugir da guerra nuclear, que era chamado World War Terminus.

[00:10:45] As pessoas tinham que ser, não especiais, as especiais ficavam na terra.

[00:10:48] Quem tinha algum problema de saúde, alguma baixa probabilidade de sobrevivência.

[00:10:53] No filme, a história é de um clima alterado por poluição industrial e tudo mais.

[00:10:58] Mas eu gostei que numa das entrevistas, o Ridley Scott disse que ele usou aquele cenário chovendo o tempo todo.

[00:11:03] Bem escuro e tal.

[00:11:04] Para esconder os defeitos do cenário e do material.

[00:11:06] Que era muito fácil de entregar.

[00:11:08] Deixa eu terminar isso rápido.

[00:11:09] Então, o livro se passa em São Francisco.

[00:11:12] É pós-guerra.

[00:11:13] Tem toda essa questão da extinção dos animais.

[00:11:15] Então, os animais eram raríssimos.

[00:11:17] Eram um objeto de desejo muito grande da população.

[00:11:21] Uma das motivações do Decker ir atrás dos Nexus 6 era para ganhar dinheiro para conseguir comprar uma ovelha real.

[00:11:28] Ele tinha uma ovelha eletrônica em casa.

[00:11:31] É um símbolo de status.

[00:11:32] É um símbolo de status.

[00:11:33] As pessoas compravam um bicho eletrônico para os vizinhos acharem que ele tinha um gato de verdade.

[00:11:38] Então, esse personagem que eu tinha mencionado, o Sebastian.

[00:11:42] Que era aquele que conviveu com os androids.

[00:11:44] Ele que ajudou os androids, depois foi morto pelos androids.

[00:11:47] E no livro existe um cara que é o JR Isidor.

[00:11:50] Que é um dessas pessoas meio retardadas.

[00:11:52] Mas também que ajudava os…

[00:11:54] Não, é porque esse cara morava…

[00:11:56] Como os edifícios estavam praticamente abandonados.

[00:11:58] Nesse edifício alguns dos androids se escondem.

[00:12:01] E aí ele encontra no elevador sem querer a Pris.

[00:12:05] E se apaixona.

[00:12:06] E quer ajudar.

[00:12:07] Isso é Android loira.

[00:12:09] Isso.

[00:12:10] Então, ele começa a ajudar ela.

[00:12:12] Acaba entendendo que eles são fugitivos, androids.

[00:12:17] Então no livro ele não está aposentado, como no filme.

[00:12:20] No filme ele está aposentado.

[00:12:22] Está aposentado, ele não quer fazer mais.

[00:12:24] O cara vai atrás dele assim.

[00:12:25] Eu parei, não quero mais matar ninguém.

[00:12:27] Mas eu acho que ele é policial.

[00:12:29] Sim, mas não quer mais ser caçador de androids.

[00:12:31] O detalhe é que ele não tinha um dilema ético.

[00:12:33] Porque ele sabia que ia matando uma máquina.

[00:12:35] Não um ser humano.

[00:12:37] Mas ele começava a ter dúvidas.

[00:12:39] Porque era tão perfeito o negócio de fazer todas aquelas entrevistas.

[00:12:41] Ele começou a duvidar.

[00:12:43] Deixa eu só terminar a parte das diferenças.

[00:12:45] Outra coisa que tem no livro.

[00:12:47] O Jefferson é o único que leu o livro aqui.

[00:12:49] O que tu comentasse era sobre esse mercerismo.

[00:12:51] Porque tem uma religião.

[00:12:53] Que tem a ver com uma caixa de empatia.

[00:12:55] Eu tentei ler o livro e não consegui.

[00:12:57] Eu achei ele muito chato no começo.

[00:12:59] Duas vezes tentei e não consegui.

[00:13:01] Mas eu nunca cheguei a essa parte da religião.

[00:13:03] Mas o que eu entendi não…

[00:13:05] Está no primeiro capítulo.

[00:13:07] Mas perci na página.

[00:13:09] Mas essas duas obsessões dos seres humanos que moram ali na terra ainda.

[00:13:14] Uma era os animais e outra a questão da empatia e a religião.

[00:13:18] Essa é a linha movente do filme.

[00:13:20] Porque tanto os conflitos morais que o Deckard tem.

[00:13:24] São causados por essa sensação empática que ele tem com os entrevistados.

[00:13:30] Então os Nexus 6 atingiram um tal nível de sofisticação.

[00:13:33] Que ele trazia…

[00:13:35] São pessoas, como é que eu separei.

[00:13:37] Então tem a questão moral interna do Deckard.

[00:13:41] E ao mesmo tempo tem toda essa religião.

[00:13:44] É essencialmente uma religião estatal.

[00:13:47] Então tinha um programa de televisão.

[00:13:49] Eles tinham essa tal caixa de empatia.

[00:13:53] Que basicamente funcionava como um remédio.

[00:13:55] Se eles não tivessem se sentindo bem, eles regulavam.

[00:13:58] E ganhavam mais drogas.

[00:13:59] E eles ganhavam…

[00:14:00] É uma droga eletrônica.

[00:14:01] Eu não lembro como funcionava.

[00:14:02] Isso é típico do filme Cadica, esse tipo de coisa.

[00:14:04] Esse é um dos problemas que eu encontro nos livros.

[00:14:06] Ele tem essas duas coisas e elas parecem desconectadas.

[00:14:09] Toda a discussão, os eventos.

[00:14:12] Que as pessoas tinham essa experiência religiosa fortíssima ali.

[00:14:17] Elas pareciam completamente desconectadas.

[00:14:19] Da trama.

[00:14:20] Da trama relacionada aos drogas.

[00:14:22] Deixa só um comentário.

[00:14:23] Ele deixava os livros cheios de ideias.

[00:14:26] Inseminados de ideias.

[00:14:27] Mas não conseguia costurar depois.

[00:14:29] Explorar uma coisa do filme.

[00:14:30] Importante levando em conta a participação do autor.

[00:14:34] Porque geralmente os autores detestam os filmes que são feitos.

[00:14:37] E ele não viu o filme completo.

[00:14:38] Porque ele morreu antes de ser lançado.

[00:14:40] Mas ele conseguiu assistir parte da produção.

[00:14:43] E dos efeitos especiais do Douglas Trumbull.

[00:14:45] Que fez isso.

[00:14:46] E ele disse que…

[00:14:48] Isso é legal.

[00:14:49] Saber que era exatamente o que ele imaginava.

[00:14:52] Aquele futuro que estava apresentado.

[00:14:54] Exatamente o que ele sentiu como se estivesse dentro do livro dele.

[00:14:57] Se tiveram dificuldades.

[00:14:59] Esse não foi o primeiro roteiro que foi apresentado.

[00:15:01] Teve gente que não gostou.

[00:15:03] Ele não gostou.

[00:15:05] Escolher quem seria o Deckard no filme foi difícil.

[00:15:08] Até o Schwarzenegger foi cogitado lá.

[00:15:10] Tem uma lista de pessoas.

[00:15:11] Mas aí a gente sabia que com certeza que ele era o Android.

[00:15:13] Se fosse o Schwarzenegger.

[00:15:14] Eu estava lendo um debate hoje.

[00:15:15] A gente soube moda.

[00:15:16] Que ele estava tão famoso por causa do Indiana Jones.

[00:15:21] E não só o Indiana Jones.

[00:15:22] Tinha o Star Wars.

[00:15:23] Star Wars.

[00:15:24] Mas o Indiana Jones era o que dava a marca registrada do chapéu dele.

[00:15:27] Então a gente diz assim.

[00:15:28] Como é que eles vão fazer esse cara sem o chapéu?

[00:15:29] E aí eles tiraram o chapéu.

[00:15:30] E diziam que o cabelo dele era horrível.

[00:15:32] Daí que eles inventaram esse corte novo dele.

[00:15:34] Que eles só usam nesse filme.

[00:15:35] E de fato.

[00:15:36] Na verdade foi nesse filme que o Harrison Ford revelou um ator mais que de aventura.

[00:15:39] Um ator com densidade mesmo.

[00:15:41] Deixa eu pegar o gancho.

[00:15:42] Uma das coisas que o Jefferson falou a respeito da empatia.

[00:15:46] Isso certamente acho que é um dos pontos mais importantes e decisivos no filme.

[00:15:50] Porque ele retoma uma coisa que é presente nas nossas relações sociais até hoje.

[00:15:55] Na medida que muitas vezes você pode dizer que a grupos diferentes do teu grupo.

[00:16:01] Você não qualifica eles exatamente como humanos.

[00:16:03] A gente sabe na nossa própria história que tempos atrás a cor da pele poderia estabelecer um gênero humano inferior ou superior.

[00:16:13] Era tratado como.

[00:16:14] E essa é a ideia.

[00:16:15] De repente você vê.

[00:16:16] Muita gente levava a sério essa ideia de que a cor da pele é que caracterizava a humanidade.

[00:16:23] Os negros poderiam ser escravos porque eles não eram exatamente humanos como nós.

[00:16:28] A gente tinha culpa.

[00:16:29] Eu não sei porque tu usa os negros do passado.

[00:16:31] Sim, exatamente.

[00:16:33] Por isso que ainda é atual esse tipo de coisa.

[00:16:35] Não só isso.

[00:16:36] Não é só o corte da pele, mas o corte da religião.

[00:16:41] Exatamente.

[00:16:42] Ainda tem a chamada etnia.

[00:16:44] Deixam de ser humanos aqueles outros lá.

[00:16:47] A combinação desse conceito com a ficção científica da inteligência artificial.

[00:16:51] Ela atinge um nível de indistinguibilidade afetivo.

[00:16:56] É interessante porque nós estamos assistindo o surgimento de uma nova espécie.

[00:17:01] É mais ou menos o mesmo tema do Homem Bicentenário.

[00:17:03] Do Isaac Asimov.

[00:17:04] E 2001 também.

[00:17:05] E 2001.

[00:17:06] Mas o Homem Bicentenário é o único primeiro android que entra na justiça para ser reconhecido

[00:17:11] como humano para poder casar.

[00:17:12] Então é uma história bem…

[00:17:13] É mais uma DVD.

[00:17:15] Eu acho até nesse sentido parece também que o filme permite esse passo a mais.

[00:17:21] Aqui também tem aquele aspecto da empatia que a gente, digamos, dá o status de igual

[00:17:27] para aqueles que, digamos, atingem a humanidade.

[00:17:30] A gente diz assim, ah, então, são como humanos, mas talvez tem que ser mais do que isso.

[00:17:36] Mais do que…

[00:17:37] Digamos, o status de respeito não é para o humano.

[00:17:40] É, digamos, para aquilo que alcança a racionalidade.

[00:17:43] Então aí não importa que seja humano, não importa a cor, não importa a raça e não

[00:17:47] importa nem que seja humano, sabe?

[00:17:49] Pode ser qualquer outra coisa.

[00:17:50] Na verdade a discussão que se faz hoje usa um critério bem mais flexível do que isso.

[00:17:55] Existe uma toda uma discussão para se estender, digamos, os direitos humanos a praticamente

[00:18:00] todos os animais.

[00:18:01] Exatamente.

[00:18:02] Existe uma coisa que é diferente em relação a nós é que, em princípio, um android tradicional,

[00:18:07] um robô tradicional, ele tem uma certa reversibilidade.

[00:18:10] Posso matar ele e recriar ele.

[00:18:12] Isso não acontece com a gente.

[00:18:13] Pode guardar as memórias.

[00:18:14] A gente não consegue.

[00:18:15] Não desse jeito.

[00:18:16] Não tem o que fazer.

[00:18:17] Mas um android fica pensando assim, será que ele teria o mesmo direito humano de proteção

[00:18:22] à vida?

[00:18:23] É, não, esse é diferente.

[00:18:24] Mas os replicantes são seres vivos.

[00:18:25] Os replicantes são diferentes.

[00:18:26] E eles inclusive têm medo da morte.

[00:18:28] E é coroel?

[00:18:29] Eles são super inteligentes, são assim geniais e vivem cinco anos.

[00:18:34] E sofrem.

[00:18:35] É um tipo de caso onde você está, de alguma forma, exercendo um certo racismo, né?

[00:18:39] A partir de um certo momento não tem porquê você dizer que aquele ser deve ser o teu

[00:18:43] escravo.

[00:18:44] Exatamente.

[00:18:45] Eu vi no filme que esses Nexus 6 eles estavam voltando para a Terra e se rebelando contra

[00:18:50] os senhores.

[00:18:51] E por isso eles deviam ser mortos.

[00:18:52] Porque eram perigosos, fortes e coisas assim.

[00:18:54] É catrenosa.

[00:18:55] Sempre tem essas notas políticas nas histórias do K.

[00:18:57] Jake.

[00:18:58] Sempre tem.

[00:18:59] Sempre tem uma coisa das corporações que estão… da questão da rebelião.

[00:19:04] Nesse artigo que eu li sobre as diferenças, eles dizem que tem essa diferença entre o

[00:19:09] livro e o filme, que no livro os Andes esses, que são os replicantes, eles não teriam

[00:19:16] empatia.

[00:19:17] Na verdade, o teste esse, o Voidkampf que eles faziam, não é exclusivamente sobre

[00:19:24] empatia.

[00:19:25] A ideia é a seguinte.

[00:19:26] Quando você recebe uma pergunta complexa…

[00:19:29] Com conteúdo emocional.

[00:19:30] Com conteúdo emocional, a tua resposta é baseada na tua vivência prévia.

[00:19:35] Deixa eu fazer um parêntesis.

[00:19:36] Super importante aqui.

[00:19:37] Tem um momento decisivo na vida do Philip K.

[00:19:40] Dick.

[00:19:41] Ele ficou totalmente perplexo com o texto do Turing sobre se as máquinas podem pensar.

[00:19:47] O teste de Turing pra ele, assim, norteou quase todas as histórias que ele fez depois.

[00:19:52] O teste de Turing é uma homenagem.

[00:19:54] Qual é o nome do teste?

[00:19:56] É um teste de Turing mais sofisticado.

[00:19:59] Se fosse simplesmente um teste de empatia, tu teria uma hipótese por trás de que a

[00:20:03] espécie humana seria a única capaz de ter empatia.

[00:20:06] Não é verdade.

[00:20:07] Mas o teste, ele distingue entre um ser que tem uma vivência prévia.

[00:20:13] Então a tua resposta emocional, que é no teste detectado com o movimento das pupilas,

[00:20:18] etc.

[00:20:19] Ela se baseia nos teus 50 anos vividos.

[00:20:23] Enquanto que o Android viveu menos do que 5 anos com memórias implantadas.

[00:20:28] Então essa diferença na resposta eles conseguiam detectar.

[00:20:32] A experiência extensiva dele era muito mais curta.

[00:20:35] Mas ele não era um teste de Turing esse tema.

[00:20:37] É mais avançado que o teste de Turing bastaria a linguagem.

[00:20:39] Só o que tu ouve, assim, pra te dizer.

[00:20:41] Esse aí tem a reação da pupila, se tu tá suando ou não.

[00:20:45] É um teste de vivência mental e de resposta vegetativa.

[00:20:49] Eu fico com o teste de Turing.

[00:20:50] É um teste de Turing no sentido de que tu pode usar ele pra distinguir se é ou não é.

[00:20:55] Sim, mas…

[00:20:56] Mas é além da linguagem, tem mais do que a linguagem.

[00:20:59] Em princípio tu pode fazer com um terminal.

[00:21:01] É por isso, o teste de Turing não exige o contato visual.

[00:21:03] Você não morde bem nessa questão dos avanços desse teste em relação ao teste de Turing.

[00:21:07] Tu manda eu fazer certinho.

[00:21:08] Hoje em dia tem um desenvolvimento muito grande nessa tecnologia de eye tracking.

[00:21:13] Mas uma das coisas que se sabe é que a pupila oscila.

[00:21:17] O tamanho do pretinho do teu olho oscila.

[00:21:20] A frequência de oscilação é um indicador da complexidade do texto que tu tá lendo.

[00:21:26] Eu não conhecia isso, mas isso tem problema.

[00:21:29] A pupila é um sistema de dois músculos.

[00:21:32] Um músculo radial, que ao contrair, abre a pupila.

[00:21:35] E um músculo anular, que ao contrair, fecha a pupila.

[00:21:38] Um é controlado pelo sistema nervoso simpático.

[00:21:40] Outro pelo sistema nervoso parasimpático.

[00:21:42] E aí eles estão balanceados.

[00:21:44] Tu faz um balanço entre eles.

[00:21:45] Inclusive, é por isso que tá associado a respostas não ser mais.

[00:21:48] Quando tu tá confiante, tu relaxa, abre a pupila.

[00:21:51] Quando tu vai brigar, vai lutar, vai se defender.

[00:21:53] Tu tem um medo, tua pupila fecha.

[00:21:55] Então essa oscilação tem que vir, inevitavelmente, do balanço semi-autônomo.

[00:22:00] E isso, o controle emocional domina totalmente.

[00:22:04] O controle emocional diz que a comunidade da linguagem aciona uma resposta emocional em paralelo.

[00:22:08] Porque não tem como só a linguagem fazer isso diretamente.

[00:22:11] Eu acho interessante.

[00:22:13] Mas é interessante isso.

[00:22:15] Porque a frequência é correlacionada com a complexidade.

[00:22:18] Inversamente, na verdade.

[00:22:19] A frequência cai quando o texto é mais complexo.

[00:22:22] Então esse é um jeito também deles seguir.

[00:22:25] Pode ser uma resposta de atenção.

[00:22:26] Eu tenho uma hipótese aqui.

[00:22:27] Mas a questão é só para dizer como é sofisticado esse negócio de olhar a resposta fisiológica.

[00:22:33] O teste de Turing não é um teste fisiológico.

[00:22:36] Ele é um teste completamente de lógica.

[00:22:38] Funciona basicamente como o polígrafo.

[00:22:40] O famoso detector de mentiras.

[00:22:42] A gente sabe que não funciona no sentido.

[00:22:44] Ele é faludável de muitas formas.

[00:22:46] Ele não funciona no sentido de que a margem de erro, falsos positivos e falsos negativos é muito grande.

[00:22:50] Eu acredito que provavelmente ele deve ter ficado muito impressionado com o teste de Turing.

[00:22:54] Mas ele concluiu que não seria suficiente.

[00:22:56] Não para o uso do ZX-6 em princípio.

[00:22:58] Não nem para o humano.

[00:23:00] É uma inteligência artificial embarcada no corpo.

[00:23:03] Praticamente humano.

[00:23:04] O teste não pode ser só perguntas.

[00:23:06] A questão é a seguinte.

[00:23:07] O teste de Turing serviria para a gente identificar o Turing.

[00:23:10] Porque o Turing eu acho que não tinha essas reações emocionais padrões.

[00:23:14] Tem uma diferença entre o filme e o livro.

[00:23:17] No filme ele precisava, devido à sofisticação dos androides,

[00:23:22] ele fazia da ordem de 100 perguntas até conseguir identificar.

[00:23:25] E a discussão no livro dizia que com meia dúzia de perguntas já era suficiente.

[00:23:29] Mas no filme também fala isso.

[00:23:31] Ele estava comentando, eu consegui identificar um com 15, 20 perguntas e esse aqui já estou em 100.

[00:23:36] Sim, por isso é da ordem de perguntas.

[00:23:38] Esse cara aqui é outro nível.

[00:23:40] Porque ele não conseguia decidir.

[00:23:43] Será que a gente passaria nesse teste?

[00:23:45] Essa cena inicial do teste é o que põe o dilema do filme na cena.

[00:23:51] Esse filme é muito bem feito.

[00:23:53] Não é o meu filme favorito.

[00:23:55] É um dos meus cinco, ou certamente um dos meus dez filmes favoritos.

[00:23:59] E ele tem toda uma estética enviesada.

[00:24:03] Porque ele tem elementos super futuristas.

[00:24:06] O carro voador.

[00:24:07] Um cenário retrogador.

[00:24:09] É um filme no ar futurista.

[00:24:11] Um cyberpunk misturado.

[00:24:13] Isso talvez seja mais obra do Ridley Scott que do próprio Philip K. Dick.

[00:24:17] A estética é fortemente inspirada no Mabius.

[00:24:22] A estética, o desenho das roupas.

[00:24:25] A concepção do filme tem Mabius.

[00:24:27] Ele fez o storyboard do filme.

[00:24:31] Mas ao mesmo tempo ele usou cenas de iluminado no final.

[00:24:35] E eu me lembro quando vi o filme pela primeira vez.

[00:24:37] Isso é o iluminado.

[00:24:38] Mas o diretor.

[00:24:39] Mas usou mesmo as cenas?

[00:24:41] Não, ele disse que estava sobrando e eu usei.

[00:24:43] Mas é muito parecido.

[00:24:45] É na versão dos produtores.

[00:24:47] Para ter aquele final otimista.

[00:24:49] Eu não sei se na versão dele ficou…

[00:24:51] Não, acaba quando ele pega…

[00:24:53] No elevador.

[00:24:54] E não tem esse passeio infinito.

[00:24:56] Ele não é tão feliz porque ele não sabe quando vai morrer.

[00:25:00] Pode ser qualquer momento.

[00:25:01] Mas isso também não sabemos quando a gente vai morrer.

[00:25:03] Mas eles estão livres, eles fugiram.

[00:25:05] Eu sei, eles estão discutindo dilemas humanos sendo máquinas.

[00:25:08] Uma coisa que eu vi no livro.

[00:25:10] É que tinha a questão dos russos e americanos.

[00:25:13] O filme não tem nada, não se fala nada disso.

[00:25:15] Ainda bem.

[00:25:16] O cara fica temporal.

[00:25:17] É por isso.

[00:25:18] Foi em 68 que ele faz.

[00:25:20] Que ele termina o livro.

[00:25:21] Então em 68 está a áudio da guerra.

[00:25:23] Isso é um cuidado que o Ursula computer em 2001.

[00:25:26] De não transportar a garra fria para dentro do filme.

[00:25:28] E ficou incrível.

[00:25:29] Ficou incrível.

[00:25:30] Ficaram assustados até.

[00:25:31] Ficaram abusados de comunista.

[00:25:32] Por ter feito isso.

[00:25:34] Porque os russos uniram a boa.

[00:25:36] Na estação conversando.

[00:25:37] Não é uma colaboração.

[00:25:38] Não, mas tem um pouquinho lá naquela reunião da…

[00:25:41] Na estação espacial que ele encontra um russo.

[00:25:43] Na minha ele não diz para o russo.

[00:25:44] Por que ele estava indo para a base americana.

[00:25:46] Tinha um segredo ali.

[00:25:47] Tinha segredo, mas não é um conflito tão aberto.

[00:25:49] Não, não.

[00:25:50] A gente colaborou.

[00:25:51] Sim, sim.

[00:25:52] Mas no caso do Blade Runner não tem nenhuma…

[00:25:56] A gente não sabe como é que é o resto do mundo.

[00:25:58] A gente só sabe como é que é Los Angeles.

[00:25:59] A gente sabe que…

[00:26:00] Não, a gente não sabe nem se eles não são russos naquele momento.

[00:26:03] Pode ser que seja.

[00:26:04] A gente não sabe que tipo de governo é.

[00:26:06] Isso, não importa.

[00:26:07] Tem polícia, mas não sabe se é…

[00:26:09] Aliás, tem uma polícia extensiva.

[00:26:11] É verdade, é uma polícia extensiva.

[00:26:13] Aparece em todo o tempo.

[00:26:15] A gente diz uma história aqui que o Ridley Scott não leu o livro.

[00:26:18] Pelo menos até fazer o filme.

[00:26:19] Ainda bem.

[00:26:20] Ele deve ter tentado.

[00:26:22] Exato, ele parou a terceira fase.

[00:26:25] Eu, de fato, não consegui entrar nele.

[00:26:28] Eu encontrei com o Vildo Cardic e depois ele disse…

[00:26:30] Eu entendo que você não consiga ler o livro.

[00:26:32] E aí eu disse…

[00:26:33] Você sabe, ele é tão denso, companheiro.

[00:26:35] Que na página 32 já tinha 17 storylines.

[00:26:38] De tantas ideias para desenvolver.

[00:26:40] Ele tem muitas ideias, mas ele não sabe escrever.

[00:26:43] Mas ele é um dos melhores escritores.

[00:26:44] Ele nunca ganhou nenhum prêmio importante.

[00:26:46] Ele foi nominado do Nebula, mas ele não ganhou.

[00:26:48] Mas a história do… Aquilo que eu disse antes.

[00:26:51] A história do Blade Runner está escondida lá dentro.

[00:26:54] Toda essa parte das discussões com os androides,

[00:26:57] o conflito, a caçada, isso não tem no livro.

[00:27:00] Ele está lá, ele entra no edifício

[00:27:02] e aí ele sai do edifício já tendo matado os dois últimos androides.

[00:27:05] Eu acho que o Blade Runner tem muito mais mérito dos roteiristas do que do Cardic.

[00:27:10] Eu também acho.

[00:27:11] Por exemplo, eles também acham.

[00:27:12] Ah, ele tem muita imaginação.

[00:27:13] Isso é uma menor sombra de dúvida.

[00:27:15] Você sabe como é a primeira história dele, o primeiro conto?

[00:27:18] Narra, assim, os pensamentos de um cão que ficava impressionado

[00:27:21] porque os seus donos todos os dias pegavam a sagrada comida,

[00:27:25] colocava dentro de um recipiente de ferro, assim, totalmente seguro e fechado.

[00:27:29] E todos os dias tinha uns caras que roubavam aquilo.

[00:27:33] Mas olha só, a quantidade de filmes foram feitos, né?

[00:27:35] Tem Total Recall, foi filmado duas vezes, né?

[00:27:38] Que é muito bom, as ideias são excelentes.

[00:27:40] Eu gosto.

[00:27:41] Mas a pergunta é sempre a mesma.

[00:27:44] O quanto do livro se parece com o livro?

[00:27:47] Não, mas o Total Recall é bem igualzinho.

[00:27:49] O Screamers…

[00:27:50] Tu lê o livro?

[00:27:51] Eu li quase todos.

[00:27:52] O Minor Report é um conto, tem uma antologia.

[00:27:55] Minor Report ficou muito famoso, tem uma minissérie agora.

[00:27:57] É muito legal também o filme.

[00:27:58] Mas Scanner Darkly eu só não estou reconhecendo.

[00:28:01] Aquela coletânea de contos dele, realidades alternativas.

[00:28:04] Isso, que é onde está o Minor Report.

[00:28:06] Aqueles contos são legais, aqueles contos são bem escritos.

[00:28:08] Não, como histórias curtas eles não saem bem, né?

[00:28:10] Tá, mas então nesse estilo de perguntas rápidas,

[00:28:14] se vocês fossem androides e tivessem visto as coisas que os humanos nunca veriam,

[00:28:19] o que vocês teriam visto?

[00:28:20] Pingüins transparentes.

[00:28:22] Ursos pandas com lança-chamas eidrôngion.

[00:28:25] Hoje então conversamos sobre o Blade Runner,

[00:28:28] o primeiro filme que se passa em 2019 e foi lançado em 1982.

[00:28:32] A história é uma adaptação, bastante grande por sinal,

[00:28:36] do livro do Filipe Kadik, de 1968.

[00:28:39] Androides sonham com ovelhas elétricas.

[00:28:41] Ele toca em diversos temas que são fronteiras na pesquisa de hoje,

[00:28:46] não só de tecnologia como os carros voadores e os androides sentientes,

[00:28:51] mas também questões mais filosóficas sobre o que é a consciência

[00:28:55] e a quem os direitos que hoje são seletivamente consagrados aos seres humanos

[00:29:01] devem ser estendidos e compartilhados.

[00:29:04] Por isso, obviamente, é praticamente impossível tocar em todos esses aspectos

[00:29:09] num único episódio, né?

[00:29:11] Mas a gente espera que, pelo menos, ele sirva como motivador

[00:29:15] para aquelas pessoas que nunca têm visto,

[00:29:18] como motivador para aquelas pessoas que nunca viram o filme,

[00:29:22] até em vontade de assisti-lo.

[00:29:25] Então participaram desse episódio o Carlos Miralia,

[00:29:28] da Filosofia da Universidade Federal de Pelotas,

[00:29:31] o Jorge Kieffel, do Departamento de Biofísica da URGES,

[00:29:36] o Marco Diarte e o Geoffrey Sorenson, os dois do Departamento de Física da URGES.

[00:29:41] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES.

[00:29:48] Filosofia da Universidade Federal de Pelotas

[00:29:53] Todos esses momentos se perderão no tempo,

[00:29:56] como lágrimas na chuva,

[00:29:58] e hora de morrer.

[00:30:00] Carlos da Pomba.