Uberização da economia, plataformização do emprego
Resumo
O episódio discute o fenômeno da “uberização” da economia e da “plataformização” do emprego, com foco em como empresas como Uber, iFood, Rappi e Airbnb utilizam tecnologias digitais para reorganizar e precarizar as relações de trabalho. Os participantes analisam como essas plataformas se apresentam como parte de uma “economia do compartilhamento” benéfica, mas na realidade operam como mecanismos de superexploração, onde o trabalhador arca com todos os custos (veículo, equipamentos, manutenção) e riscos, enquanto a empresa intermedia sem vínculo empregatício, direitos trabalhistas ou responsabilidades.
A conversa explora a “gamificação” do trabalho, onde sistemas de avaliação, bônus e promoções mantêm o trabalhador permanentemente disponível e subordinado à plataforma, criando uma sensação falsa de liberdade e empreendedorismo. Discute-se também como a crise econômica brasileira, com alto desemprego e informalidade, criou o terreno fértil para a expansão desses modelos, que se aproveitam da falta de alternativas para oferecer trabalhos extremamente precários como única opção de subsistência.
Além dos impactos trabalhistas, o episódio aborda as consequências urbanas e sociais mais amplas, como a perda de capacidade de planejamento coletivo (ex.: transporte público, direito à moradia) e a dificuldade de regulação e tributação dessas plataformas transnacionais. São mencionados casos como o Airbnb, que transforma moradias em hotéis informais, contribuindo para a gentrificação e a perda de arrecadação pública.
Por fim, são discutidas possíveis soluções e resistências, como a necessidade de o Estado atuar como empregador de última instância para estabelecer um piso de direitos, a importância de gerar empregos formais de qualidade para alterar a correlação de forças, e exemplos de organização e greves de trabalhadores de plataforma, apesar dos enormes desafios impostos pela heterogeneidade e pelo individualismo fomentado por esses modelos.
Indicações
Books
- Uberização (Tom Slee) — Livro citado como uma crítica contundente ao funcionamento das plataformas digitais, que provoca indignação ao revelar as “cascatas de merda” por trás dos serviços aparentemente convenientes.
- O Privilégio da Servidão (Ricardo Antunes) — Recomendado por Davide Cachi como uma análise mais estrutural da uberização, enxergando o fenômeno como uma manifestação das contradições do capitalismo em sua face mais cruel na era digital.
- Dívida: Os Primeiros 5000 Anos (David Graeber) — Livro recomendado por Davide Cachi para repensar as formas de organização social, o mito do livre mercado e a natureza do dinheiro a partir de uma perspectiva antropológica, qualificando o debate econômico.
- Mulheres e Caça às Bruxas (Silvia Federici) — Recomendado por Thiago, é descrito como um adendo a “Caliban e a Bruxa”, abordando o trabalho reprodutivo das mulheres e sua função crucial na geração da massa de trabalhadores necessária para a manutenção do capitalismo, tema que se conecta à discussão sobre a uberização.
Documentaries
- Gig — Documentário exibido em um evento da UTFPR mencionado por Thiago, que aborda a precarização do trabalho por plataformas, começando com o exemplo de uma diarista que se submete a condições abusivas para manter boas avaliações.
- A Verdadeira História de Blue (Vice) — Documentário de 25 minutos recomendado por Thiago sobre a música “Blue” do Eiffel 65, descrito como uma curiosidade divertida sobre a loucura do final dos anos 90.
Linha do Tempo
- 00:01:00 — Introdução ao tema da uberização da economia — Davide Cachi se apresenta como economista e anuncia que o episódio discutirá a “uberização da economia” e a “plataformização do emprego”. Ele menciona o livro “Uberização” de Tom Slee, que critica essas plataformas, e adianta que a conversa abordará definições, consequências e quem realmente lucra com esse modelo.
- 00:05:16 — Diferença entre economia do compartilhamento e uberização — Os participantes diferenciam a genuína economia do compartilhamento (como bibliotecas ou caronas solidárias) da “uberização”, que usa a tecnologia para uma nova forma de organização, gerenciamento e controle do trabalhador a favor da superexploração. A uberização é caracterizada pela precarização, ausência de direitos trabalhistas e uma relação disfarçada de parceria onde o trabalhador arca com todos os custos.
- 00:10:41 — Gamificação, avaliações e submissão do trabalhador — A conversa aborda como as plataformas usam mecanismos de gamificação (bônus, metas) e sistemas de avaliação para controlar e submeter o trabalhador. O exemplo de uma diarista contratada via aplicativo ilustra como ela se torna “prisioneira das avaliações”, sendo forçada a aceitar condições abusivas para não receber notas ruins que a impediriam de conseguir novos trabalhos.
- 00:17:45 — Por que a uberização deu tão certo no Brasil — Analisa-se o sucesso da Uber e similares no Brasil, vinculando-o à profunda crise econômica e de desemprego a partir de 2015. A plataforma surge como “única opção” para uma massa de desempregados, aproveitando-se também da cultura já existente de trabalho informal (“bico”) e da popularização de smartphones e internet móvel acessível.
- 00:39:47 — Desafios para a organização dos trabalhadores de plataforma — Discute-se a enorme dificuldade de organização sindical e greve entre trabalhadores de aplicativos devido à heterogeneidade dos perfis, ao individualismo fomentado pela plataforma e à dinâmica do próprio aplicativo, que aumenta os preços (e a remuneração) para quem furar a greve, desincentivando a ação coletiva.
- 00:56:49 — Possíveis soluções: Estado como empregador de última instância — Davide Cachi propõe que uma solução mais concreta e urgente do que tentar regulamentar cada plataforma seria o Estado atuar como “empregador de última instância”, garantindo empregos formais com direitos básicos. Isso estabeleceria um piso salarial e de condições que forçaria as plataformas a melhorarem suas ofertas, além de atacar diretamente o desemprego estrutural.
- 00:57:43 — Impactos urbanos do Airbnb e perda de controle social — A discussão se expande para plataformas como o Airbnb, analisando seus impactos na gentrificação, no aumento do custo da moradia e na perda da capacidade da sociedade de planejar coletivamente as cidades. A plataforma dificulta a tributação e a regulação, esvaziando áreas residenciais para transformá-las em hotéis informais, com consequências para a arrecadação pública e o direito à moradia.
- 01:20:13 — Como plataformas não lucrativas sobrevivem e o valor dos dados — Questiona-se como empresas como a Uber, que muitas vezes não dão lucro operacional, conseguem se manter. A resposta aponta para a valorização de suas ações no mercado financeiro, baseada na expectativa de lucros futuros (ex.: carros autônomos) e, crucialmente, para o imenso valor dos dados que coletam sobre os hábitos de deslocamento e consumo dos usuários, um ativo ainda pouco regulado.
- 01:26:02 — Uberização, Previdência Social e a crise da regulação — A conversa conecta a uberização à crise da Previdência Social. A precarização e a informalidade dificultam a arrecadação de contribuições, enquanto a tecnologia permite que o capital gere valor com menos trabalhadores e escape da tributação. Conclui-se que a uberização é uma tecnologia que “blinda o capital” de qualquer interferência social ou fiscal, aprofundando as desigualdades em um momento de transição demográfica.
Dados do Episódio
- Podcast: Pistolando Podcast
- Autor: Leticia Dáquer e Thiago Corrêa
- Categoria: News Politics News News Commentary
- Publicado: 2019-12-27T02:46:16Z
- Duração: 02:00:39
Referências
- URL PocketCasts: https://podcast-api.pocketcasts.com/podcast/full/b6a05580-5917-0136-fa7c-0fe84b59566d/08b8b5e9-c173-4227-ad2c-192c34343e59
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Dados do Podcast
- Nome: Pistolando Podcast
- Tipo: episodic
- Site: http://www.pistolando.com
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Transcrição
[00:00:00] A CIDADE NO BRASIL
[00:00:30] A CIDADE NO BRASIL
[00:01:00] Meu nome é Davide Cachi, eu sou economista e vou bater um papo com vocês hoje sobre vários assuntos
[00:01:06] e principalmente sobre a tal da uberização da economia.
[00:01:11] Que diabo é isso?
[00:01:12] Que diabo é isso?
[00:01:13] Esse episódio, ele está na fila já tem um maior tempão.
[00:01:17] A gente estava, a gente não, não é o seu Tiago, estava sentado em cima dele chocando esse episódio
[00:01:21] esperando sair uma determinada notícia que nós comentaremos em algum momento.
[00:01:26] Mas era uma coisa que a gente queria comentar.
[00:01:29] Já tem bastante tempo, a gente leu aquele livro Uberização da Economia.
[00:01:33] Se chama Uberização da Economia em português, Tiago?
[00:01:35] Do Tom Slee, isso.
[00:01:36] Isso, do Tom Slee. É só Uberização mesmo.
[00:01:38] O nome em inglês é mais legal, né?
[00:01:40] Que é o que é meu é meu, o que é seu é nosso.
[00:01:43] É, é muito bom, muito bom. Descreve bastante a situação.
[00:01:47] E esse livro é um daqueles livros que você fica com ódio, né?
[00:01:50] Você vai lendo, você vai ficando com ódio, querendo jogar o livro na parede,
[00:01:53] querendo socar empresários na rua,
[00:01:56] porque você vai vendo a cascata de merda,
[00:01:59] que são essas plataformas, né?
[00:02:01] E que todos nós usamos no dia a dia.
[00:02:04] E você fica, cara, né?
[00:02:05] Só que é uma coisa super ampla,
[00:02:08] é um funcionamento que parece muito fácil,
[00:02:11] óbvio, simples e funcional e benéfico para todo mundo.
[00:02:13] E não é assim.
[00:02:14] Como os podres estão começando a aparecer agora, né?
[00:02:16] Já teve ciclista do rap que morreu, infartado na rua.
[00:02:20] Já teve, né? Teve um negócio desse tipo.
[00:02:23] Então, o pessoal está começando a pensar um pouquinho mais
[00:02:25] e abrir um pouquinho mais os olhos para o que realmente está acontecendo.
[00:02:29] Então, a gente vai falar sobre isso.
[00:02:30] O que é, não só a uberização, mas essa plataformização, né?
[00:02:35] Porque uber é a mais conhecida, talvez a maior, mas não é a única.
[00:02:38] Que consequências isso tem?
[00:02:40] Quem que ganha dinheiro com isso?
[00:02:42] Se é que alguém ganha dinheiro com isso?
[00:02:44] E por aí vai.
[00:02:46] Então, o assunto hoje é esse aí.
[00:02:48] Uberização e plataformização.
[00:02:51] Quer começar, Davi, dando uma panorâmica geral?
[00:02:55] É, eu acho que é o seguinte.
[00:02:57] É um termo que,
[00:02:59] mesmo quem estuda o tema,
[00:03:01] usa com definições diferentes para situações diferentes.
[00:03:06] É algo muito novo.
[00:03:09] O próprio livro que você falou,
[00:03:12] ele tem uma pegada um pouco diferente, por exemplo,
[00:03:15] de uns trabalhos que também são legais,
[00:03:17] por exemplo, do Ricardo Antunes.
[00:03:19] Ele enxerga que esse processo de uberização
[00:03:24] é a manifestação de algo muito mais estrutural
[00:03:28] e que é do próprio capitalismo
[00:03:31] na sua face mais cruel se manifestando.
[00:03:34] Então, é novo e não é essa dialética do capitalismo
[00:03:38] em sua forma mais cruel, né?
[00:03:43] E o engraçado da gente pensar
[00:03:47] do quanto isso é novo e do quanto não é
[00:03:49] é que há muito tempo que a gente não via
[00:03:52] a galera entregando as coisas de bicicleta, né?
[00:03:55] Sim.
[00:03:56] É um negócio interessante.
[00:03:57] Era uma coisa antiga, né?
[00:04:01] No Rio, o pessoal entrega aqueles galões de água, gelo, né?
[00:04:07] Mas não tem muita coisa além disso, né?
[00:04:09] Sim, era bem raro.
[00:04:10] São umas paradas bem específicas, assim, é.
[00:04:12] Eu lembro que, na década de 90,
[00:04:15] tinham joguinhos que a gente jogava com o menininho
[00:04:18] entregando o jornal, né?
[00:04:19] Paperboy, era muito bom.
[00:04:21] Paperboy.
[00:04:23] Então, é um negócio da década de 80.
[00:04:26] Os garotos entregando ali as coisas de bicicleta,
[00:04:29] coisas do tipo, né?
[00:04:31] Então, por um lado, é algo super tecnológico
[00:04:35] no sentido de organização, gerenciamento, controle do trabalho,
[00:04:40] e de outro, são trabalhos pouquíssimos sofisticados,
[00:04:44] que é quase que o ser humano,
[00:04:47] aquela coisa bem animal, né?
[00:04:52] De você usar toda a força física, né?
[00:04:56] É um negócio muito contraditório,
[00:04:58] e cada um usa o termo uberização de uma forma,
[00:05:02] e eu acho que melhor do que ficar tentando definir o termo
[00:05:05] é conversar sobre o fenômeno que é essa tal de uberização
[00:05:10] e descobrir nessa conversa o que é isso.
[00:05:12] Eu acho que vai ser um caminho melhor.
[00:05:14] Tá, como é que começou isso aí?
[00:05:16] Porque tem essa coisa da economia compartilhada, né?
[00:05:19] A gente tem essa ilusão que o seu motorista, na verdade,
[00:05:23] está te dando uma carona e você está dando uma ajudinha de custo,
[00:05:25] para ele.
[00:05:26] Tem essa romantização da coisa, né?
[00:05:29] É, exato.
[00:05:30] Mas como é que começou isso?
[00:05:32] Exato.
[00:05:33] Isso era onde eu queria chegar, exatamente.
[00:05:36] A gente nem combinou.
[00:05:38] Dentre as confusões de termos,
[00:05:41] muita gente trata a economia do compartilhamento
[00:05:45] como sinônimo de uberização também, né?
[00:05:48] Economia do compartilhamento é algo super legal
[00:05:50] e também não é muito novo.
[00:05:51] Por exemplo, uma biblioteca pública é economia do compartilhamento.
[00:05:55] Os aplicativos que, de fato, fazem com que você saia de casa
[00:06:00] e dê carona para os seus vizinhos que estão indo para o mesmo lugar
[00:06:04] é algo bem interessante.
[00:06:06] É sustentável.
[00:06:08] É bem legal.
[00:06:09] Isso está no sentido da economia do compartilhamento.
[00:06:12] Tem alguns aplicativos bacanas também.
[00:06:15] Sei lá, você precisa de uma furadeira.
[00:06:17] E aí tem alguém que tem uma furadeira em casa
[00:06:20] e você busca na casa do cara e faz o seu serviço e devolve.
[00:06:24] Porque você não vai ficar usando aquilo a vida inteira.
[00:06:27] Vai usar uma vez e nunca mais.
[00:06:29] Então não tem porque a gente ficar consumindo um monte de treco
[00:06:33] e acumulando tudo em casa
[00:06:35] se essas coisas podem ser compartilhadas.
[00:06:37] A uberização se confunde um pouco com isso.
[00:06:40] Porque as empresas tentam apresentá-la assim.
[00:06:45] Mas, na verdade, o que eu estou chamando de uberização aqui particularmente
[00:06:50] são as novas tecnologias.
[00:06:54] São tecnologias da informação a serviço de uma nova forma de organização
[00:07:00] de gerenciamento e controle do trabalhador.
[00:07:03] Então são tecnologias a favor da superexploração do trabalho
[00:07:10] de uma exploração ainda mais acentuada do trabalhador
[00:07:14] que se torna, para ele, ele é um empreendedor de si mesmo
[00:07:19] para a empresa.
[00:07:21] Lá na folha, lá na contabilidade da empresa.
[00:07:24] Ele é alguém que está dando lucro como um trabalhador qualquer
[00:07:27] sem nenhum direito trabalhista.
[00:07:30] Está disponível permanentemente ali no seu aplicativo.
[00:07:34] Também tem uma coisa que é meio que…
[00:07:36] Os aplicativos viram meio que um game.
[00:07:39] O trabalhador começa a ficar vidrado naquilo
[00:07:43] porque a empresa vai…
[00:07:45] As plataformas digitais dessa economia uberizada
[00:07:52] elas vão estimulando o cara a se tornarem presos ao aplicativo
[00:07:56] porque quanto mais tempo ele passa ali
[00:07:58] mais promoções ele pode ganhar.
[00:08:00] Então se ele fizer 100 corridas ao invés de 80
[00:08:04] ele ganha 50 reais no final do dia.
[00:08:06] Se ele não desligar o aplicativo durante não sei quantos dias
[00:08:10] ele vai ganhar ao invés de 25% ele vai ganhar 30% em cada corrida.
[00:08:15] Então aquilo vai preguendo o cara de uma forma que ele não consegue perceber.
[00:08:20] Então quando ele percebe
[00:08:22] ele está totalmente sob controle da plataforma
[00:08:26] sempre disponível
[00:08:28] sem nenhum tipo de relação ou de vínculo ou de proteção
[00:08:32] numa situação de total servidão.
[00:08:36] Então é uma tecnologia.
[00:08:38] São tecnologias a favor da precarização
[00:08:41] que se confunde até com uma servidão do próprio trabalhador
[00:08:45] a essas empresas transnacionais
[00:08:49] que oferecem algo que se confunde com a economia do compartilhamento
[00:08:54] que é algo bom e não é novo.
[00:08:56] E o que é interessante no sentido de uma merda
[00:09:01] é que todo mundo sabe
[00:09:03] a Uber é a maior empresa de táxi do mundo
[00:09:08] mesmo sem possuir nenhum carro.
[00:09:10] Então eles realmente só fazem a intermediação
[00:09:14] a única coisa que eles fazem é colocar em contato
[00:09:16] o motorista com quem está procurando o carro.
[00:09:19] E mais nada.
[00:09:20] E mesmo assim acaba virando um gigante da área.
[00:09:23] Então é uma coisa muito diferente.
[00:09:25] E quanto a esse lance da servidão que você estava falando
[00:09:28] eu estive em um evento na UTF-PR
[00:09:30] tem umas semanas ainda em Curitiba
[00:09:33] que foi super interessante
[00:09:35] e falaram de um monte de coisa que o livro, por exemplo, não menciona
[00:09:38] e que eu não tinha parado para pensar muito.
[00:09:40] E uma das coisas que eles tinham mencionado
[00:09:43] era que até nas sociedades escravagistas e feudais
[00:09:46] quem trabalhava era mantido
[00:09:48] por quem detinha os meios.
[00:09:50] O dono da terra lá, o senhor ou whatever
[00:09:53] dava comida, dava inchada
[00:09:56] para as pessoas trabalharem.
[00:09:58] E essa coisa dessas plataformas
[00:10:02] principalmente Uber e Rappi e por aí vai
[00:10:04] a pessoa, tudo é dela.
[00:10:06] Ela entra com tudo.
[00:10:08] A empresa não arca com absolutamente nada.
[00:10:10] Então o carro é dele, todas as despesas são dele
[00:10:12] a bicicleta é dele, o capacete é dele, tudo dele.
[00:10:14] Se você vai fazer um negócio, por exemplo, para o iFood
[00:10:17] você tem que comprar a mochila do iFood
[00:10:19] porque as mochilas são padronizadas e tal.
[00:10:21] Sim, tudo.
[00:10:23] É um negócio muito louco.
[00:10:25] É muito diferente do que a gente está acostumado.
[00:10:28] Porque normalmente você trabalha em uma empresa que tem uniforme
[00:10:30] a empresa te dá o uniforme.
[00:10:32] E ali não tem nada disso.
[00:10:34] Então é um nível de precarização muito bizarro.
[00:10:38] E uma outra coisa que eles comentaram é o fato de que
[00:10:41] e aí eu vou entrar em uma outra coisa específica
[00:10:43] que tem um pouco a ver com essa gamificação também
[00:10:45] e é Super Black Mirror.
[00:10:47] Que é essa coisa da avaliação
[00:10:49] que você acaba, é como se você tivesse
[00:10:51] um zilhão de chefes.
[00:10:53] Exato.
[00:10:54] Porque todo mundo está de olho em você
[00:10:56] mas não tem uma figura centralizada.
[00:10:58] Você não consegue falar com ninguém, é um negócio complicado.
[00:11:00] E todo mundo está de olho em você e o teu desempenho
[00:11:02] depende do que todas as pessoas falam.
[00:11:04] Se o cara não foi com a outra cara
[00:11:06] ou apertou o botão errado sem querer
[00:11:08] e te deu uma estrela, você está fodido.
[00:11:10] Exato. Antes de pesquisar sobre o assunto
[00:11:13] mais a fundo, eu baixei um aplicativo.
[00:11:16] Porque eu estava procurando
[00:11:18] tiaristas
[00:11:20] para contratar
[00:11:22] e era um negócio meio urgente
[00:11:24] sabe, para o mesmo dia.
[00:11:26] E aí eu fui, entrei na internet
[00:11:28] e vi que tinha um aplicativo para
[00:11:30] fazer esse tipo de intermediação.
[00:11:32] Porque quando a gente está falando de uberização
[00:11:34] a Uber acabou se tornando o símbolo
[00:11:36] dessa nova forma de organização do trabalho.
[00:11:40] Mas a uberização é muito alentista.
[00:11:42] Tanto é que ele falou agora, o Thiago falou agora
[00:11:44] há pouco tempo
[00:11:45] que o livro foi traduzido para o Brasil
[00:11:47] com o nome de uberização
[00:11:49] mas não era esse o nome.
[00:11:51] Porque uberização é
[00:11:53] porque a Uber é a empresa mais sintomática
[00:11:55] nesse sentido.
[00:11:57] É onde você vê de forma mais clara
[00:11:59] a subordinação do trabalhador
[00:12:01] esse processo de gamificação
[00:12:03] como ele não tem
[00:12:05] nenhum tipo de proteção trabalhista
[00:12:07] de como é difícil criar legislações
[00:12:09] que consigam
[00:12:11] abraçar esse trabalhador.
[00:12:13] Eu fui contratar uma tiarista
[00:12:15] e eu olhei no
[00:12:17] baixei o aplicativo
[00:12:19] e aí no aplicativo você poderia contratar
[00:12:21] a tiarista por
[00:12:23] quatro ou oito horas
[00:12:25] uma tiara ou meia tiara
[00:12:27] e aí você via lá os comentários
[00:12:29] das pessoas e
[00:12:31] automaticamente o critério para a gente
[00:12:33] contratar são as avaliações.
[00:12:35] Então
[00:12:37] essa tiarista ela se torna
[00:12:39] prisioneira das avaliações
[00:12:41] porque se ela tiver uma avaliação ruim
[00:12:43] automaticamente ela
[00:12:45] vai estar perdida ali na plataforma
[00:12:47] obviamente.
[00:12:49] E aí eu contratei
[00:12:51] uma tiarista
[00:12:53] nesse aplicativo
[00:12:55] numa situação de urgência
[00:12:57] e perguntei a ela como é que funciona isso
[00:12:59] ela falou
[00:13:01] o problema é que às vezes contratam a gente
[00:13:03] com meia tiara e pedem serviços
[00:13:05] que são impossíveis de você fazer
[00:13:07] em meio período
[00:13:09] que você precisava de um período inteiro
[00:13:11] só que você tem que fazer
[00:13:13] senão os caras alopram
[00:13:15] na hora de avaliar
[00:13:17] uma vez me contrataram para fazer uma
[00:13:19] faxina numa casa muito grande
[00:13:21] no Lago Sul
[00:13:23] que é uma região muito nobre de Brasília
[00:13:25] e
[00:13:27] me contrataram por meio período
[00:13:29] e aí obviamente
[00:13:31] eu não conseguia fazer tudo
[00:13:33] e a minha única avaliação que não é muito legal
[00:13:35] é a deles
[00:13:37] porque era algo impossível
[00:13:39] só que a gente tenta
[00:13:41] porque se não conseguir
[00:13:43] eles descem o pau
[00:13:45] e ninguém me contrata
[00:13:47] e te dá nota
[00:13:49] então o trabalhador
[00:13:51] é altamente controlado
[00:13:53] e tem que arcar com a passagem
[00:13:55] com a alimentação
[00:13:57] todos os custos
[00:13:59] é do trabalhador
[00:14:01] e você estava falando que antigamente
[00:14:03] até o escravo
[00:14:05] tinha alguma responsabilidade
[00:14:07] existia algum tipo de
[00:14:09] relação de responsabilidade
[00:14:11] de cooperação de fato
[00:14:13] a uberização tem uma característica
[00:14:15] muito curiosa que ela chama o trabalhador
[00:14:17] de colaborador, de parceiro
[00:14:19] ou coisas do tipo
[00:14:21] isso é tão ridículo
[00:14:23] e aí é uma parceria que o cara entra com tudo
[00:14:25] com a força de trabalho dele
[00:14:27] o cara banca a alimentação dele
[00:14:29] o cara cobre todos os x
[00:14:31] se você está dirigindo uber
[00:14:33] se você bate com o seu carro e fica um mês
[00:14:35] em casa parado
[00:14:37] ou seja, sem dinheiro para pagar o aluguel
[00:14:39] a escola dos filhos
[00:14:41] enfim, de comprar comida
[00:14:43] ele não passa só
[00:14:45] por uma romantização
[00:14:47] da relação
[00:14:49] que existe ali
[00:14:51] não sei se você concorda
[00:14:53] estou só jogando ideias aqui
[00:14:55] mas eu acho
[00:14:57] me incomoda muito esse termo
[00:14:59] porque ele também
[00:15:01] se traduz em um afastamento
[00:15:03] das duas partes
[00:15:05] para não vincular uma relação
[00:15:07] de trabalho mesmo
[00:15:09] você
[00:15:11] colocou o nosso aplicativo
[00:15:13] no seu celular
[00:15:15] você fez o cadastro
[00:15:17] você está aqui porque você quer
[00:15:19] e joga numa relação de precarização
[00:15:21] quase
[00:15:23] chantageosa
[00:15:25] exato
[00:15:27] é uma tecnologia
[00:15:29] que trabalha em prol
[00:15:31] da violação de qualquer tipo de
[00:15:33] regulação trabalhista
[00:15:35] eu acho que esse é o grande plano
[00:15:37] esse é o núcleo duro
[00:15:39] da uberização
[00:15:41] ela joga contra qualquer forma
[00:15:43] a violação trabalhista
[00:15:45] que é muito difícil você organizar
[00:15:47] trabalhadores por aplicativos
[00:15:49] trabalhadores que também
[00:15:51] dificilmente se veem como trabalhadores
[00:15:53] eles começam a se enxergar
[00:15:55] como empreendedores
[00:15:57] como empreendedores livres
[00:15:59] essa coisa do empreendedorismo
[00:16:01] é muito forte
[00:16:03] a empresa nas mensagens
[00:16:05] ela vai dialogando o tempo todo
[00:16:07] com trabalhador por mensagens
[00:16:09] promoções etc
[00:16:11] esse sujeito neoliberal
[00:16:13] esse indivíduo
[00:16:15] como um empreendedor
[00:16:17] que está ali
[00:16:19] numa parceria
[00:16:21] com critérios bem definidos
[00:16:23] o critério é o seguinte
[00:16:25] ele paga gasolina 35%
[00:16:27] eu fiz uma pesquisa há um tempo atrás
[00:16:29] os motoristas de uber
[00:16:31] por exemplo
[00:16:33] o cara gasta 35%
[00:16:35] do que ele ganha com manutenção
[00:16:37] e gasolina para o carro
[00:16:39] caraca
[00:16:41] quando eu comecei a fazer essa pesquisa
[00:16:43] eu fui entrevistando
[00:16:45] porque muitos deles
[00:16:47] não conseguem calcular
[00:16:49] o custo total
[00:16:51] que ele tem
[00:16:53] a depreciação do veículo
[00:16:55] muitos não levam essas coisas em consideração
[00:16:57] então o cara fica trabalhando
[00:16:59] seis meses, três meses
[00:17:01] perdendo dinheiro
[00:17:03] porque ele não sabe fazer
[00:17:05] esse tipo de conta
[00:17:07] o cara está desempregado
[00:17:09] e a única saída dele é
[00:17:11] 25% de
[00:17:13] depreciação, gasolina, etc
[00:17:15] mais 25% para o uber
[00:17:17] é muita coisa
[00:17:19] é muita coisa
[00:17:21] fora todos os riscos
[00:17:23] que ele tem diariamente
[00:17:25] segurança pública no Brasil
[00:17:27] é precária
[00:17:29] as ruas são muito mal estruturadas
[00:17:31] então o cara quebra o carro toda hora
[00:17:33] tem que ficar sem trabalhar
[00:17:35] então enquanto o carro está consertando
[00:17:37] ele tem que pagar o conserto
[00:17:39] e ele ainda tem um custo de oportunidade porque ele não pode trabalhar
[00:17:41] é uma situação bem difícil
[00:17:43] e aí eu acho que a gente entra
[00:17:45] no segundo aspecto
[00:17:47] porque essa galera está se submetendo a isso
[00:17:49] especialmente no Brasil
[00:17:51] um sexto de todos os motoristas de uber
[00:17:53] estão no Brasil
[00:17:55] isso é um dado
[00:17:57] de 2017
[00:17:59] isso é muito forte no Brasil
[00:18:01] e eu acho que é legal tentar entender
[00:18:03] porque a uber
[00:18:05] deu tão certo no país
[00:18:07] principalmente nos últimos
[00:18:09] 4 ou 5 anos
[00:18:11] é legal entender isso
[00:18:13] por fim, só para fechar aqui um negócio que ele tinha falado
[00:18:15] o cara que se vê como colaborador
[00:18:17] também tem um negócio interessante
[00:18:19] pode ser uma percepção equivocada
[00:18:21] minha, mas
[00:18:23] o cara da uber foi estabelecido
[00:18:25] numa falsa dicotomia
[00:18:27] agora isso está ficando mais claro para eles
[00:18:29] que era, a uber colocava
[00:18:31] qual era o inimigo dele
[00:18:33] do trabalhador, do motorista de uber
[00:18:35] o inimigo dele era o estado
[00:18:37] porque o estado queria regular a uber
[00:18:39] e a uber falava para ele, olha
[00:18:41] se o estado se meter, se taxar
[00:18:43] a gente, se fizer qualquer coisa desse tipo
[00:18:45] você vai ganhar menos
[00:18:47] o estado quer proteger os taxistas
[00:18:49] o estado quer te ferrar, o estado é seu inimigo
[00:18:51] esse estado no Brasil
[00:18:53] é muito grande
[00:18:55] e aí no início, por exemplo, tinha muita manifestação
[00:18:57] dos motoristas de uber
[00:18:59] eles se organizavam para tentar
[00:19:01] defender a plataforma
[00:19:03] isso é uma coisa muito curiosa
[00:19:05] na história do capitalismo
[00:19:07] é um processo de alienação
[00:19:09] muito profunda
[00:19:11] com impactos políticos inclusive
[00:19:13] então ele começou a se enxergar
[00:19:15] mesmo como um parceiro da empresa
[00:19:17] e como parceiro da empresa
[00:19:19] como um sócio
[00:19:21] de uma grande empresa capitalista
[00:19:23] o estado era o inimigo maior dele
[00:19:25] que queria regular o troço
[00:19:27] que queria inventar a regulação trabalhista
[00:19:29] e que tudo isso ia diminuir o ganho dele
[00:19:31] e que se o estado não fosse tão grande
[00:19:33] no Brasil ele ia ganhar muito dinheiro
[00:19:35] então essa situação é curiosa também
[00:19:37] como que
[00:19:39] vai se forjando um sujeito
[00:19:41] com um nível de alienação
[00:19:43] em relação ao próprio trabalho
[00:19:45] que é brutal
[00:19:47] muito maior do que
[00:19:49] nos primórdios do capitalismo
[00:19:51] tem essa coisa da
[00:19:53] dessa mania
[00:19:55] do empreendedorismo e tal
[00:19:57] tem essa coisa de você trabalhar dessa forma
[00:19:59] ser vendida como liberdade
[00:20:01] é uma espécie de máscara
[00:20:03] que o sistema usa
[00:20:05] para esconder o fato
[00:20:07] de que na verdade está tudo uma merda
[00:20:09] então você fica achando que está ótimo
[00:20:11] tem essa espécie de verniz
[00:20:13] de pátina
[00:20:15] não, isso aí é liberdade para você
[00:20:17] você trabalha a hora que você quiser
[00:20:19] e a gente sabe que não é assim
[00:20:21] porque se você trabalhar a hora que você quiser
[00:20:23] você não paga as suas despesas
[00:20:25] e para as pessoas que estão desempregadas
[00:20:27] e a gente volta no segundo aspecto
[00:20:29] que você ia falar
[00:20:31] para as pessoas que estão desempregadas
[00:20:33] e não tem absolutamente nenhuma alternativa
[00:20:35] elas não podem trabalhar só quando elas quiserem
[00:20:37] elas tem que trabalhar muitas horas por dia
[00:20:39] para conseguir tirar alguma coisa
[00:20:41] 25% é o que fica com o Uber
[00:20:43] é muita coisa
[00:20:45] que você dá para a empresa
[00:20:47] lembrando que a empresa não dá nada
[00:20:49] para o motorista
[00:20:51] pouquíssimo suporte
[00:20:53] e zero ajuda de qualquer tipo
[00:20:55] e mais esses 35%
[00:20:57] que você fez essa conta aí
[00:20:59] de manutenção
[00:21:01] então cara
[00:21:03] é uma fachada só
[00:21:05] você é livre para trabalhar quando você quiser
[00:21:07] mas não é, a gente sabe que não é assim
[00:21:09] não é assim
[00:21:11] não é assim
[00:21:13] não é assim
[00:21:15] tem uma frase de Marx no século 19
[00:21:17] que ele fala que
[00:21:19] no capitalismo os trabalhadores
[00:21:21] são livres no duplo sentido
[00:21:23] que nem eles próprios
[00:21:25] pertencem imediatamente aos meios de produção
[00:21:27] como os escravos
[00:21:29] nem também os meios de produção
[00:21:31] lhe pertencem
[00:21:33] e isso fica ainda mais forte
[00:21:35] com essa nova
[00:21:37] forma de organização do trabalho
[00:21:39] mas ao mesmo tempo
[00:21:41] fica mais forte
[00:21:43] o grau de alienação
[00:21:45] também é muito maior
[00:21:47] e ele não consegue perceber isso
[00:21:49] ele não
[00:21:51] a plataforma
[00:21:53] que é o que faz com que
[00:21:55] o trabalho dele seja possível
[00:21:57] que ele se sente
[00:21:59] um colaborador
[00:22:01] ele acha, de alguma forma
[00:22:03] ele acha que aquele jogo, que aquele game
[00:22:05] porque tem esse processo
[00:22:07] meio de joguinho mesmo
[00:22:09] interessante
[00:22:11] ele acha que faz parte daquilo
[00:22:13] ele começa a se sentir um jogador
[00:22:15] uma peça importante
[00:22:17] daquele trabalho
[00:22:19] porque a empresa coloca ele como
[00:22:21] alguém que está construindo aquilo
[00:22:23] o tempo todo
[00:22:25] olha, parabéns, nesse ano
[00:22:27] no final do ano eles devem mandar umas mensagens
[00:22:29] desse ano nós conseguimos
[00:22:31] espantir a empresa
[00:22:33] você conseguiu
[00:22:35] colaborar com mais de
[00:22:37] não sei quantas mil pessoas
[00:22:39] que você levou de um lado para o outro
[00:22:41] e você ajudou a chegar
[00:22:43] então parece que ele está construindo
[00:22:45] aquela plataforma
[00:22:47] que nunca foi tão pouco dele
[00:22:49] cria um senso de pertencimento
[00:22:51] é, ele cria um senso
[00:22:53] de pertencimento
[00:22:55] e sempre com essa ideia de que
[00:22:57] ele tem que defender essa plataforma
[00:22:59] de toda intervenção estatal
[00:23:01] por exemplo
[00:23:03] agora isso não
[00:23:05] nesses últimos meses
[00:23:07] isso está mudando um pouco, mas no início
[00:23:09] era muito difícil, por exemplo
[00:23:11] trabalhar com motorista de Uber
[00:23:13] sobre regulações trabalhistas
[00:23:15] a gente não estava nem falando sobre
[00:23:17] ah
[00:23:19] taxar mais você e tal
[00:23:21] mas sim um contrato
[00:23:23] de trabalho básico ou algo assim
[00:23:25] os caras tinham pavor disso
[00:23:27] porque eles achavam que
[00:23:29] eles iam ganhar menos grana
[00:23:31] que ia prejudicar a empresa
[00:23:33] que era a lobby dos taxistas
[00:23:35] contra a empresa
[00:23:37] então eles se enxergavam
[00:23:39] eles tinham uma ideia de pertencimento
[00:23:41] a plataforma
[00:23:43] isso é complicado
[00:23:45] e eu acho que agora
[00:23:47] a gente chegou num nível tão
[00:23:49] bizarro de exploração
[00:23:51] que eles começaram a perceber
[00:23:53] e é um nível de exploração que há um ano atrás
[00:23:55] não existia também
[00:23:57] eu acho que nos dois últimos anos
[00:23:59] a coisa piorou bastante
[00:24:01] eu tenho conversado com os motoristas de aplicativo
[00:24:03] começou a subir
[00:24:05] a taxa de administração
[00:24:07] que é aquela parcela da Uber
[00:24:09] o número de promoções
[00:24:11] de benefícios começou a cair
[00:24:13] a coisa começou a ficar mais feia
[00:24:15] para eles, porque eu acho que
[00:24:17] esse processo de urbanização teve dois momentos
[00:24:19] o primeiro momento
[00:24:21] é aquele que a empresa chega
[00:24:23] na hora de uma grande crise econômica
[00:24:25] todo mundo desempregado
[00:24:27] sempre que o capital
[00:24:29] entra em crise
[00:24:31] ele busca sair da crise
[00:24:33] ele tem que sair da crise
[00:24:35] ele tem que descobrir novas formas
[00:24:37] de acumulação
[00:24:39] então ele tem que criar novas esferas de acumulação
[00:24:41] e criar antigas esferas
[00:24:43] então essas plataformas surgiram
[00:24:45] como uma solução
[00:24:47] e elas foram quebrando
[00:24:49] as formas tradicionais
[00:24:51] de se realizar
[00:24:53] esses tipos de serviços
[00:24:55] por exemplo táxi
[00:24:57] sempre existiu
[00:24:59] o motoboy da pizzaria
[00:25:01] que tinha carteira assinada e trabalhava
[00:25:03] sempre existiu
[00:25:05] o garoto que se fosse entregar
[00:25:07] de bicicleta
[00:25:09] na hora do almoço para um restaurante grande
[00:25:11] o restaurante teria que assinar a carteira dele
[00:25:13] porque senão ia tomar um pau
[00:25:15] na justiça do trabalho
[00:25:17] mas no início
[00:25:19] quando essas empresas surgem
[00:25:21] curiosamente
[00:25:23] alguns falavam
[00:25:25] não, mas eu ganho muito melhor
[00:25:27] com aplicativo do que um salário mínimo
[00:25:29] então no início tinha um certo atrativo
[00:25:31] eu lembro que muita gente falava
[00:25:33] que o uber pagava bem
[00:25:35] a propaganda do uber era assim
[00:25:37] ganha 4, 5 mil reais
[00:25:39] por mês
[00:25:41] o pessoal que tá mais tempo
[00:25:43] eu também sou uma que conversa sempre
[00:25:45] com os motoristas
[00:25:47] e todos eles falam
[00:25:49] o pessoal que tá lá desde o começo fala
[00:25:51] nossa mudou muito
[00:25:53] era muito bom de trabalhar
[00:25:55] você tirava uma grana boa
[00:25:57] não precisava ficar 15 horas atrás do volante
[00:25:59] e hoje em dia tem carro demais na rua
[00:26:01] e os valores mudaram também
[00:26:03] a gasolina aumentou
[00:26:05] uma série de coisas aconteceram
[00:26:07] que eles não conseguem mais tirar
[00:26:09] o que eles tiravam antes
[00:26:11] dirigindo desde o começo
[00:26:13] esse negócio da gasolina é um dos pontos
[00:26:15] que eles repetem muito
[00:26:17] e de novo
[00:26:19] a gasolina subiu por causa da crise ecológica
[00:26:21] e eu tô ganhando menos
[00:26:23] então tem sempre um fator exógeno
[00:26:25] a própria uber
[00:26:27] que faz com que eles pensem assim
[00:26:29] hoje mesmo andei com um cara no uber
[00:26:31] e tava questionando ele
[00:26:33] como que era, quanto tempo ele trabalha
[00:26:35] ele trabalha há muitos anos também
[00:26:37] já na uber
[00:26:39] ele não conseguiu ganhar dinheiro
[00:26:41] porque quebraram o país
[00:26:43] e agora a gasolina tá cara
[00:26:45] mas o PT?
[00:26:47] ele não falou isso, mas eu acho que era
[00:26:49] muito provavelmente
[00:26:51] e agora a gasolina tá muito cara ainda
[00:26:53] e aí ele não consegue
[00:26:55] ganhar dinheiro mais
[00:26:57] e já ganhou muito dinheiro
[00:26:59] e agora o país quebrou
[00:27:01] a gasolina ficou alta e ele não tá ganhando dinheiro
[00:27:03] não tem nada a ver com a exploração da uber
[00:27:05] porque depois que ela conseguiu se estabelecer
[00:27:07] depois que ela conseguiu
[00:27:09] se estabelecer e criar ali
[00:27:11] um cartel junto com
[00:27:13] os outros dois aplicativos
[00:27:15] que concorrem
[00:27:17] ela começou a esmagar o trabalhador
[00:27:19] e ela esmaga
[00:27:21] sem muita resistência, porque o cara tá muito ferrado
[00:27:23] nesse país que vive uma crise
[00:27:25] exatamente
[00:27:27] então vamos lá, vamos voltar lá porque você tinha mencionado
[00:27:29] antes, que era
[00:27:31] porque que tem tanta gente
[00:27:33] disposta a fazer esse tipo de trabalho
[00:27:35] no Brasil, porque que deu tão certo o uber no Brasil
[00:27:37] é, bom, essa crise
[00:27:39] que a gente vive agora
[00:27:41] a recessão de 2015 e 2016
[00:27:43] ela não foi a maior da história, ela foi a segunda maior
[00:27:45] na década de 80
[00:27:47] foi ainda pior
[00:27:49] mas é a recuperação mais lenta
[00:27:51] de toda a história econômica
[00:27:53] brasileira, ou seja
[00:27:55] ela foi profunda
[00:27:57] e é persistente, então
[00:27:59] o desemprego quando ele explodiu
[00:28:01] explodiu de forma muito rápida
[00:28:03] e geralmente depois que
[00:28:05] a gente passa por uma crise dessas
[00:28:07] é…
[00:28:09] o tempo é para você começar a entrar numa
[00:28:11] situação de
[00:28:13] não vou falar de normalidade, mas
[00:28:15] uma situação aceitável
[00:28:17] a gente não fez esse
[00:28:19] a gente ainda não teve esse ponto de inflexão
[00:28:21] o desemprego ele é persistente
[00:28:23] e a precarização do trabalho também
[00:28:25] e com tanto desemprego, com tanta precarização
[00:28:27] informalidade
[00:28:29] a uber
[00:28:31] se torna a única opção, né
[00:28:33] sempre que o capital entra em crise
[00:28:35] há uma tendência do capital
[00:28:37] não é uma coisa, quando eu to falando capital
[00:28:39] eu to falando em uma coisa
[00:28:41] em uma empresa que os caras se reúnem
[00:28:43] numa sala e falam, vamos fazer isso, isso e isso
[00:28:45] é o movimento da própria concorrência capitalista
[00:28:47] que empurra para isso
[00:28:49] busca novas formas de acumulação
[00:28:51] e de exploração do trabalho
[00:28:53] né
[00:28:55] então
[00:28:57] essas novas formas de exploração
[00:28:59] do trabalho que já existiam
[00:29:01] elas caem como uma luva
[00:29:03] no momento de crise
[00:29:05] do capital, então
[00:29:07] o capital ele começa a desenvolver mecanismos
[00:29:09] de aumento
[00:29:11] da mais-valia
[00:29:13] absoluta, ou seja, você chegar ali no chicote
[00:29:15] e fazer o cara trabalhar mais
[00:29:17] sabe, não é aumento de produtividade
[00:29:19] melhores máquinas
[00:29:21] serviços mais sofisticados, não
[00:29:23] é fazer o cara trabalhar
[00:29:25] em vez de 8
[00:29:27] 14 horas por dia
[00:29:29] ganhando um salário menor
[00:29:31] sem nenhum tipo de legislação trabalhista
[00:29:33] sem nenhum tipo de custo
[00:29:35] trabalhista
[00:29:37] e isso começa a se estender no Brasil
[00:29:39] para as profissões, a gente está falando de Uber aqui
[00:29:41] ou de domésticas
[00:29:43] mas
[00:29:45] isso vai começar a se estender para arquitetos
[00:29:47] para professores
[00:29:49] para advogados
[00:29:51] e vai se tornar uma coisa
[00:29:53] generalizada
[00:29:55] então essa crise do capital
[00:29:57] ela vai
[00:29:59] remodelar
[00:30:01] as formas de
[00:30:03] relação trabalhista
[00:30:05] a partir do
[00:30:07] uso da tecnologia para precarizar
[00:30:09] e quando você tem uma crise
[00:30:11] desse tamanho
[00:30:13] a tendência é essa
[00:30:15] e essa crise é persistente
[00:30:17] e conforme
[00:30:19] ela vai se prolongando
[00:30:21] maior é
[00:30:23] essa
[00:30:25] reestruturação
[00:30:27] das relações trabalhistas
[00:30:29] a gente está se organizando totalmente
[00:30:31] isso está se enraizando
[00:30:33] na nossa forma
[00:30:35] de se relacionar
[00:30:37] capital e trabalho, isso está se enraizando
[00:30:39] está se expandindo de uma forma
[00:30:41] muito rápida
[00:30:43] a destruição do trabalho
[00:30:45] fiat monte
[00:30:47] das regras trabalhistas
[00:30:49] teve uma reforma trabalhista recentemente
[00:30:51] agora a gente tem um contrato verde e amarelo
[00:30:53] que é um troço mega
[00:30:55] precarizador
[00:30:57] e tem as plataformas que ajudam
[00:30:59] esse processo a acontecer
[00:31:01] é uma situação bem caótica
[00:31:03] e no Brasil
[00:31:05] a crise econômica que a gente vive
[00:31:07] facilitou muito esse processo, muito
[00:31:09] eu só queria lembrar que a gente está falando
[00:31:11] dessa coisa toda precária como se fosse uma novidade
[00:31:13] mas na verdade não é
[00:31:15] é chamado de gig economy
[00:31:17] que são esses trabalhos
[00:31:19] por plataforma que você não tem vínculo
[00:31:21] empregatício e trabalha
[00:31:23] pelo que você está fazendo
[00:31:25] isso é o chamado bico
[00:31:27] eu ia chegar justamente nesse ponto
[00:31:29] que sempre aconteceu no Brasil
[00:31:31] sempre rolou
[00:31:33] só que agora a coisa ganhou
[00:31:35] esse verniz de glamorização
[00:31:37] que o cara está lá fazendo o bico
[00:31:39] super achando que ele é empresário
[00:31:41] tem essa mentalidade de coach bosta
[00:31:43] que faz com que as pessoas
[00:31:45] entrem alegremente no próprio forno
[00:31:47] de cremação, um negócio muito estranho
[00:32:09] eu ia levar justamente
[00:32:25] para esse tipo de linha
[00:32:27] de raciocínio porque
[00:32:29] eu imagino que grande
[00:32:31] parte da popularização
[00:32:33] do mercado de aplicativos
[00:32:35] no Brasil tenha muito a ver
[00:32:37] com a nossa cultura
[00:32:39] com o trabalho informal
[00:32:41] o trabalho informal no Brasil
[00:32:43] sempre foi extremamente normalizado
[00:32:45] do camelô que vendia DVD
[00:32:47] na beira da praia
[00:32:49] o vendedor de mate em Copacabana
[00:32:51] o pessoal que andava de bicicleta
[00:32:53] procurando gente no seu bairro
[00:32:55] para afiar faca
[00:32:57] a gente sempre teve
[00:32:59] um tipo de trabalho informal
[00:33:01] dentro do Brasil
[00:33:03] que por uma questão de desconhecimento
[00:33:05] eu não sei o quão normalizado
[00:33:07] é esse tipo de trabalho informal
[00:33:09] em dados históricos
[00:33:11] fora do Brasil
[00:33:13] mas a gente já tinha uma
[00:33:15] a gente já tem uma cultura
[00:33:17] que é muito maleável
[00:33:19] esse tipo de coisa
[00:33:21] e que começou a crescer no Brasil
[00:33:23] na tempestade perfeita
[00:33:25] porque você tem ali
[00:33:27] no último trimestre de 2014
[00:33:29] uma economia plena
[00:33:31] com desemprego de 6,5%
[00:33:33] depois de toda a crise
[00:33:35] política, crise moral
[00:33:37] a porra toda acontecendo no Brasil
[00:33:39] você chega no primeiro semestre
[00:33:41] de 2017
[00:33:43] com 13,7% de desemprego
[00:33:45] essas pessoas precisam
[00:33:47] de alguma forma de subsistência
[00:33:49] elas pegam a tempestade perfeita
[00:33:51] de uma popularização de smartphones
[00:33:53] de uma tecnologia
[00:33:55] de rede celular
[00:33:57] começando a ficar barata
[00:33:59] para você poder usar 3G, 4G
[00:34:01] fora de casa
[00:34:03] sem ter que dar um rim no final do mês
[00:34:05] e junto com isso você ganha
[00:34:07] a oportunidade
[00:34:09] de uma talvez
[00:34:11] subsistência
[00:34:13] muita gente embarcou nessa jogada
[00:34:15] e embarcou justamente
[00:34:17] na época em que esses
[00:34:19] aplicativos estavam procurando
[00:34:21] a consolidação
[00:34:23] com a oferta
[00:34:25] ainda não
[00:34:27] totalmente equilibrada
[00:34:29] eles estavam dando muitas vantagens
[00:34:31] para que todo mundo instalasse o aplicativo
[00:34:33] tivesse corridas grátis no começo
[00:34:35] começasse a fazer coisas
[00:34:37] por conta própria até que
[00:34:39] começasse o comportamento de
[00:34:41] eu estou com fome, está muito longe
[00:34:43] está chovendo, eu posso ligar para a pizzaria
[00:34:45] e pedir uma pizza, mas não
[00:34:47] vou abrir o iFood, vou abrir o Rappi
[00:34:49] vou abrir o Uber Eats
[00:34:51] muitas coisas aconteceram
[00:34:53] ao mesmo tempo, uma conjunção
[00:34:55] de fatores que levou
[00:34:57] esse pessoal a
[00:34:59] embarcar nessa jogada
[00:35:01] eu não responsabilizo elas
[00:35:03] eu não criminalizo elas
[00:35:05] muito pelo contrário, cada um está procurando fazer o seu
[00:35:07] mas agora a gente vem
[00:35:09] a precarização dos precarizados
[00:35:11] com as condições
[00:35:13] de trabalho desse pessoal
[00:35:15] sendo cada vez mais
[00:35:17] estranguladas
[00:35:19] e uma hora essa corda vai arrebentar
[00:35:21] e a gente começa a ver
[00:35:23] esses movimentos
[00:35:25] começando a acontecer
[00:35:27] nesse momento, nesse mês
[00:35:29] de dezembro de 2019
[00:35:31] nós tivemos uma greve do iFood
[00:35:33] na zona leste de São Paulo
[00:35:35] e a gente começa a ver
[00:35:37] que começa a existir um
[00:35:39] comportamento entre esses
[00:35:41] trabalhadores individuais e essas plataformas
[00:35:43] como é que você
[00:35:45] vê isso Davi?
[00:35:47] num horizonte
[00:35:49] sei lá, de médio
[00:35:51] prazo, você vê esse pessoal
[00:35:53] começando a se organizar
[00:35:55] você vê esse pessoal começando a
[00:35:57] conseguir pleitear alguma coisa
[00:35:59] frente a essas plataformas?
[00:36:01] Bom, eu acho
[00:36:03] isso bem difícil
[00:36:05] mas sobre a informalidade
[00:36:07] a gente está no recorde da série histórica
[00:36:09] mas eu sei que teve essa característica
[00:36:11] de um mercado de trabalho muito precarizado
[00:36:13] mas entre
[00:36:15] 2006 principalmente
[00:36:17] quando a gente tem uma virada
[00:36:19] na política econômica ali
[00:36:21] um ano antes do início
[00:36:23] no final do primeiro governo Lula
[00:36:25] e até 2010
[00:36:27] 2011 as coisas começam a desandar de novo
[00:36:29] a gente tem um processo
[00:36:31] de melhora no mercado de trabalho
[00:36:33] bem interessante, de formalização
[00:36:35] se por um lado tinha formalização
[00:36:37] também tinha ganhos reais
[00:36:39] dos salários
[00:36:41] puxados pela
[00:36:43] política de valorização do salário mínimo
[00:36:45] por uma economia que
[00:36:47] crescia e etc
[00:36:49] então conforme a economia
[00:36:51] vai crescendo, vai se formalizando
[00:36:53] se você tem setores
[00:36:55] mais sofisticados
[00:36:57] você começa a
[00:36:59] transformar um pouquinho das relações de trabalho
[00:37:01] se você trabalha
[00:37:03] se você tem uma economia gerando um emprego alto
[00:37:05] você muda a correlação de forças
[00:37:07] entre capital e trabalho e o desemprego
[00:37:09] deixa de ser disciplinador
[00:37:11] desemprego é disciplinador para o capital
[00:37:13] ele disciplina o trabalhador
[00:37:15] a aceitar qualquer coisa
[00:37:17] e aí o trabalhador
[00:37:19] ele vai para o bico para vender coca cola na praia
[00:37:21] distribuir coca cola
[00:37:23] de graça
[00:37:25] ele não se vê assim
[00:37:27] mas ele está na ponta
[00:37:29] na ponta mais precária da distribuição
[00:37:31] daquilo ou vender biscoito
[00:37:33] no sinal
[00:37:35] esse processo de crise
[00:37:37] econômica
[00:37:39] reverte
[00:37:41] um momento
[00:37:43] em que a gente estava
[00:37:45] avançando a passos lentos
[00:37:47] de forma necessária
[00:37:49] mas muito insuficiente
[00:37:51] e a gente volta
[00:37:53] a uma situação que era muito vista
[00:37:55] até a década
[00:37:57] retrasada
[00:37:59] até os anos 90
[00:38:01] início dos anos 2000
[00:38:03] que é a predominância total
[00:38:05] da informalidade
[00:38:07] informalidade inclusive que começa a atingir
[00:38:09] uma classe média
[00:38:11] os estudantes universitários
[00:38:13] que o pai
[00:38:15] ou alguém da família perdeu o emprego
[00:38:17] então ele vai ter que trabalhar
[00:38:19] e ele não tem emprego
[00:38:21] porque o desemprego para o jovem é muito alto
[00:38:23] então ele tem que dirigir Uber
[00:38:25] ele tem que prestar algum serviço por meio de aplicativo
[00:38:27] então a crise econômica
[00:38:29] aprofunda essa característica
[00:38:31] que já é estrutural do mercado brasileiro
[00:38:33] de se ser formal
[00:38:35] hoje a gente está no recorde de informalidade
[00:38:37] e no recorde de subutilização da força
[00:38:39] de trabalho
[00:38:41] que é o trabalhador desalentado
[00:38:43] o trabalhador que não trabalha as horas que poderia
[00:38:45] ou seja aquele cara que é por exemplo intermitente
[00:38:47] a gente está no recorde
[00:38:49] dessa coisa precária
[00:38:51] trabalhadores sem carteira
[00:38:53] sobre a organização desses trabalhadores
[00:38:55] é um negócio super complexo
[00:38:57] é um desafio do nosso tempo
[00:38:59] é o grande desafio
[00:39:01] isso porque
[00:39:03] por exemplo quando você começa
[00:39:05] se os trabalhadores de Uber
[00:39:07] começarem uma greve
[00:39:09] o aplicativo entra em dinâmica
[00:39:11] ele começa a pagar o dobro
[00:39:13] o triplo
[00:39:15] conforme a oferta de carros caia
[00:39:17] o preço sobe
[00:39:19] então
[00:39:21] o cara que furar a greve vai ganhar muita grana
[00:39:23] é
[00:39:25] isso acontece
[00:39:27] então
[00:39:29] isso é um dos desafios
[00:39:31] por exemplo
[00:39:33] se os motoristas de aplicativo entram em greve
[00:39:35] em São Paulo
[00:39:37] a dinâmica vai nas alturas
[00:39:39] o preço da chamada vai tender ao infinito
[00:39:41] e quem furar essa greve
[00:39:43] vai ganhar muita grana
[00:39:45] então
[00:39:47] esse individualismo
[00:39:49] ele é levado ao extremo
[00:39:51] as regras de mercado
[00:39:53] elas vão
[00:39:55] formatando todo o diálogo
[00:39:57] inclusive entre os trabalhadores
[00:39:59] que não se conhecem
[00:40:01] também
[00:40:03] alguns são organizados
[00:40:05] e possuem grupos de WhatsApp
[00:40:07] eles se falam pelos grupos de WhatsApp
[00:40:09] então
[00:40:11] é o cara que dirige Uber depois
[00:40:13] ou antes do trabalho
[00:40:15] é o estudante
[00:40:17] que não tem tanta necessidade
[00:40:19] de sobreviver com aplicativo
[00:40:21] então é um negócio muito heterogêneo
[00:40:23] é diferente de uma fábrica
[00:40:25] que é super homogêneo
[00:40:27] todo mundo está trabalhando junto
[00:40:29] no mesmo horário
[00:40:31] te alugando
[00:40:33] todo mundo está perdendo mais ou menos igual
[00:40:35] a Uberização torna o trabalhador
[00:40:37] agindo cada vez mais
[00:40:39] de acordo com seus próprios interesses
[00:40:41] e não pensando em classe
[00:40:43] isso é um desafio enorme
[00:40:45] que eu acho que só pode ser superado
[00:40:47] de uma forma
[00:40:49] parece simples mas não é
[00:40:51] que é você voltar
[00:40:53] a gerar empregos bons
[00:40:55] bons empregos
[00:40:57] se você não tiver bons empregos
[00:40:59] não adianta
[00:41:01] é um desafio enorme
[00:41:03] por exemplo você formatar um contrato de trabalho
[00:41:05] eu não sou jurista
[00:41:07] mas eu lembro que há uns dois anos atrás
[00:41:09] a gente tentou pensar em um projeto de lei
[00:41:11] para regulamentar
[00:41:13] as relações trabalhistas
[00:41:15] entre os motoristas de aplicativo
[00:41:17] e as plataformas
[00:41:19] só que assim
[00:41:21] é um desafio enorme
[00:41:23] você estabelecer critérios
[00:41:25] tem um trabalhador que dirige 2 horas
[00:41:27] tem um que dirige 40
[00:41:29] é um desafio enorme
[00:41:31] porque ao mesmo tempo
[00:41:33] que ele é livre
[00:41:35] que não há subordinação
[00:41:37] a subordinação é total
[00:41:39] a característica de subordinação
[00:41:41] a subordinação ela se dá
[00:41:43] de outras formas
[00:41:45] que são muito
[00:41:47] camufladas
[00:41:49] pela aparência de liberdade
[00:41:51] são indiretas talvez
[00:41:53] porque quando a gente pensa em subordinado
[00:41:55] a gente pensa em um chefe que está lá no seu cangote
[00:41:57] enchendo o saco
[00:41:59] uma coisa direta
[00:42:01] e nesse caso você tem uma subordinação indireta
[00:42:03] ele está subordinado a empresa
[00:42:05] porque ele fica nessa gamificação
[00:42:07] e dirige eternamente
[00:42:09] até chegar no bônus que a empresa determina
[00:42:11] ele fica subordinado
[00:42:13] à nota que as pessoas dão
[00:42:15] e a gente sabe que isso é uma característica
[00:42:17] do capitalismo também
[00:42:19] que a pessoa que está pagando
[00:42:21] ela acha que tem o direito de ser escrota
[00:42:23] com quem está prestando o serviço
[00:42:25] e isso eu vejo assim
[00:42:27] eu uso bastante Uber
[00:42:29] mas eu uso muito pouco Rappi
[00:42:31] não preciso na verdade
[00:42:33] e eu me sinto muito em culpa as poucas vezes que eu uso
[00:42:35] e normalmente é mais ou menos perto da minha casa
[00:42:37] o cara vem da mesma rua
[00:42:39] e quando o cara chega de bicicleta
[00:42:41] eu vou para a calçada e fico abanando o braço
[00:42:43] porque eu sei que o aplicativo
[00:42:45] manda o cara para o lado errado
[00:42:47] e é impressionante como eles vêm sempre
[00:42:49] numa humildade
[00:42:51] pedindo desculpas por um problema que não é deles
[00:42:53] se o aplicativo mandou você para o outro lado da rua
[00:42:55] o problema é do aplicativo
[00:42:57] é do GPS, não é seu
[00:42:59] mas eles vêm pedindo um milhão de desculpas
[00:43:01] porque eles sabem que se eles não tiverem
[00:43:03] essa atitude
[00:43:05] de se rebaixar mesmo
[00:43:07] de servilismo
[00:43:09] então eu faço questão
[00:43:11] de esperar assim sorrindo, abanando
[00:43:13] e falar calma, não precisa vir
[00:43:15] se esgoelando
[00:43:17] porque eu imagino a pressão que eles sentem
[00:43:19] caraca, fui para outro quarteirão
[00:43:21] a comida vai chegar fria, a mulher vai me dar uma estrela só
[00:43:23] e dependendo do que eu tenho em casa
[00:43:25] eu levo até um chocolate de presente
[00:43:27] porque eu morro de pena
[00:43:29] é um emprego, entre aspas
[00:43:31] é um bico muito ruim
[00:43:33] as vezes são pessoas até de uma certa idade
[00:43:35] e o cara pedalando
[00:43:37] na chuva, naquele clima bom
[00:43:39] bosta de Curitiba
[00:43:41] e o cara tá lá subindo ladeira
[00:43:43] com aquele negócio no ombro
[00:43:45] eu não consigo nem imaginar
[00:43:47] como é que o cara chega no final do dia
[00:43:49] então é precário de todos os pontos de vista
[00:43:51] e essa sujeição mesmo
[00:43:53] essa submissão também é de vários pontos de vista diferentes
[00:43:55] sem uma contrapartida
[00:43:57] porque tem zero direito de porra nenhuma
[00:43:59] o cara não tem nada
[00:44:01] a empresa não dá nada como retorno
[00:44:03] então é uma merda de
[00:44:05] você dá a volta de 360 graus
[00:44:07] e você só vê merda por todos os lados
[00:44:09] não tem nada
[00:44:11] nesse evento da UTFPR
[00:44:13] eles passaram antes um documentário
[00:44:15] que eu acho que eu nem coloquei na pauta pra adicionar
[00:44:17] que se chama Gig
[00:44:19] e fala exatamente disso
[00:44:21] e eles começam com uma doméstica
[00:44:23] usando essa plataforma
[00:44:25] que deve ter sido uma parecida que você usou
[00:44:27] e ela fala isso
[00:44:29] exatamente isso que você falou
[00:44:31] tem clientes que me pagam
[00:44:33] por sei lá, 4 horas
[00:44:35] e tem louça até o teto
[00:44:37] porque não tem nada especificado
[00:44:39] e ela acaba tendo que se submeter a esse tipo de coisa
[00:44:41] exatamente pra não perder a avaliação
[00:44:43] e não perder aquele micro
[00:44:45] que ela está ganhando que é melhor do que nada
[00:44:47] é aquela coisa
[00:44:49] o bom é o inimigo do ótimo
[00:44:51] você tem aquele mínimo
[00:44:53] porque você está na merda total
[00:44:55] você fica felizão com aquele mínimo
[00:44:57] e se submete a tudo
[00:44:59] e essa que é a grande bosta
[00:45:01] porque é tudo ruim
[00:45:03] só quem lucra mesmo é a empresa
[00:45:05] e está bloqueado na plataforma
[00:45:07] sim, sem saber nem porque
[00:45:09] é, e ele não vai trabalhar
[00:45:11] tem a galera que aluga carro na localiza
[00:45:13] sim, direto
[00:45:15] o pessoal está se endividando
[00:45:17] inclusive isso está como link na postagem também
[00:45:19] tem gente se endividando
[00:45:21] pra alugar carro
[00:45:23] porque tem um contrato especial
[00:45:25] pra quem é motorista de aplicativo
[00:45:27] mas o pessoal está se endividando pra conseguir pagar
[00:45:29] e se ele fica cancelado no dia seguinte
[00:45:31] ele quebra literalmente
[00:45:33] exatamente, exatamente
[00:45:35] eu estou aqui meio que já prevendo algumas perguntas
[00:45:37] que provavelmente vão vir do nosso público
[00:45:39] e você falou
[00:45:41] sobre uma questão
[00:45:43] de que a partir do momento
[00:45:45] que a nossa economia começa a gerar
[00:45:47] empregos formais mais atrativos
[00:45:49] o poder de barganha
[00:45:51] dessas empresas vai caindo
[00:45:53] e as condições
[00:45:55] de trabalho do pessoal
[00:45:57] que está trabalhando para os aplicativos pode melhorar
[00:45:59] só que aí
[00:46:01] eu já prevendo uma pergunta que pode vir
[00:46:03] é
[00:46:05] você tem uma economia hoje como americana
[00:46:07] que poucas vezes
[00:46:09] esteve tão bem
[00:46:11] a economia americana justamente por conta
[00:46:13] das políticas protecionistas
[00:46:15] que o Trump adotou
[00:46:17] e tal
[00:46:19] ela sofreu
[00:46:21] é estranho de falar
[00:46:23] mas ela recebeu um aquecimento muito grande
[00:46:25] e você tem níveis de desemprego baixos
[00:46:27] níveis de produtividade
[00:46:29] altos
[00:46:31] e ainda assim
[00:46:33] a maioria desses aplicativos são um sucesso
[00:46:35] então o que exatamente
[00:46:37] existe na lógica
[00:46:39] do emprego americana
[00:46:41] que se aplica
[00:46:43] ou que não se aplica
[00:46:45] a lógica de
[00:46:47] empregos brasileira que faria
[00:46:49] com que esse
[00:46:51] aquecimento da nossa economia
[00:46:53] melhorasse a condição de quem trabalha para o aplicativo
[00:46:55] então
[00:46:57] primeiro sobre os Estados Unidos
[00:46:59] eu não conheço bem o mercado
[00:47:01] de trabalho muito por alto
[00:47:03] por lá, mas
[00:47:05] se as taxas de desemprego deles
[00:47:07] está em um patamar
[00:47:09] muito baixo, historicamente baixo
[00:47:11] por outro lado
[00:47:13] há uma insatisfação
[00:47:15] muito grande com o tipo de trabalho
[00:47:17] sim, sim
[00:47:19] tanto é que
[00:47:21] o nível de emprego
[00:47:23] você tem que olhar, mas também tem que olhar
[00:47:25] que emprego é esse
[00:47:27] então os Estados Unidos também passaram por
[00:47:29] um processo de
[00:47:31] alteração na estrutura do mercado
[00:47:33] de trabalho para
[00:47:35] trabalhos piores, um processo de
[00:47:37] desindustrialização, de perda
[00:47:39] de empregos
[00:47:41] em serviços mais sofisticados
[00:47:43] com uma
[00:47:45] melhor produtividade
[00:47:47] e afins, tanto é que o Trump
[00:47:49] ele consegue
[00:47:51] mobilizar esses
[00:47:53] trabalhadores
[00:47:55] que sofreram, que vivenciaram
[00:47:57] essa inflexão para votar nele
[00:47:59] desse aspecto reacionário
[00:48:01] de colocar a culpa
[00:48:03] da galera dos latino-americanos que vem roubar
[00:48:05] os empregos e coloca a culpa na China
[00:48:07] que está tirando
[00:48:09] os empregos deles e etc
[00:48:11] então também tem um processo
[00:48:13] de piora
[00:48:15] na qualidade do
[00:48:17] trabalho por lá, você
[00:48:19] o trabalhador do Walmart nem do McDonald’s
[00:48:21] são
[00:48:23] não devem ser muito satisfeitos
[00:48:25] com o tipo de
[00:48:27] trabalho que executa
[00:48:29] e com as relações que possuem
[00:48:31] mas no Brasil
[00:48:33] eu lembro que
[00:48:35] em março de 2015
[00:48:37] eu li uma coluna
[00:48:39] depois eu posso colocar o link aqui
[00:48:41] foi março ou abril, foi logo no início
[00:48:43] do ajuste fiscal
[00:48:45] do Joaquim Levin
[00:48:47] no segundo governo Dilma
[00:48:49] é uma coluna do Samuel Pessoa
[00:48:51] e ele fala o seguinte
[00:48:53] o ajuste fiscal está dando certo
[00:48:55] porque o desemprego
[00:48:57] está subindo rápido
[00:48:59] e os salários estão caindo também muito rápido
[00:49:01] esse era o diagnóstico da coluna dele
[00:49:03] nesse momento
[00:49:05] o Brasil estava com a inflação
[00:49:07] tendendo a explodir
[00:49:09] com tudo apontando já para uma
[00:49:11] recessão no final do ano
[00:49:13] todo o cenário era de caos
[00:49:15] mas ele conseguiu olhar um ponto positivo
[00:49:17] do ponto de vista dele, claro
[00:49:19] desemprego subindo rápido
[00:49:21] e salários caindo na mesma velocidade
[00:49:23] e que isso seria
[00:49:25] um ajuste no mercado de trabalho
[00:49:27] ou seja
[00:49:29] ele via o mercado de trabalho
[00:49:31] se ajustando
[00:49:33] outro dia ele escreveu de novo uma coluna
[00:49:35] junto com Marcos Lisboa
[00:49:37] agora quatro anos depois
[00:49:39] falando que o problema do Brasil
[00:49:41] é que ele viveu uma fase de hiperemprego
[00:49:43] ele chamou o negócio de hiperemprego
[00:49:45] como é que é?
[00:49:47] ele falou que o Brasil
[00:49:49] tinha hiperemprego
[00:49:51] ele inventou uma categoria
[00:49:53] isso daí não existe não
[00:49:55] ele inventou essa categoria
[00:49:57] de hiperemprego
[00:49:59] esse negócio nem foi combinado
[00:50:01] a minha pergunta meio que pareceu um negócio de advogado diabo
[00:50:03] mas inclusive já é uma
[00:50:05] brincadeira que nós fizemos aqui
[00:50:07] em episódios passados
[00:50:09] de um meme que circulava
[00:50:11] na rede do pessoal americano
[00:50:13] que tinha um cara no caixa do
[00:50:15] mercado falando para
[00:50:17] a moça do caixa de
[00:50:19] olha como o nosso país está ótimo
[00:50:21] a gente criou 15 milhões de empregos
[00:50:23] e aí a moça do caixa fala
[00:50:25] pois é
[00:50:27] desses 15 milhões, três são meus
[00:50:29] e ainda assim eu não consigo
[00:50:31] viver direito com eles
[00:50:33] então realmente
[00:50:35] pareceu alguma coisa meio
[00:50:37] piegas da minha parte
[00:50:39] colocar isso dessa forma
[00:50:41] mas você chegou exatamente no ponto que eu gostaria
[00:50:43] que é a gente
[00:50:45] mostrar
[00:50:47] que de fato
[00:50:49] só um aquecimento da economia com empregos formais
[00:50:51] pode trazer de volta
[00:50:53] um poder de barganha e tirar muita gente
[00:50:55] da precarização
[00:50:57] e ao mesmo tempo a gente não tem como
[00:50:59] contar com a carteira verde e amarela
[00:51:01] para trazer isso para a gente
[00:51:03] sim, perfeito
[00:51:05] mas no Brasil
[00:51:07] qualquer emprego formal
[00:51:09] já melhoraria essa situação
[00:51:11] isso é curioso porque o mercado de trabalho
[00:51:13] como você tinha falado no Brasil
[00:51:15] é tão bizarro que
[00:51:17] qualquer fôlego na economia
[00:51:19] já melhoraria
[00:51:21] a situação dessa
[00:51:23] uberização mais trágica que é o cara
[00:51:25] que fica em cima de uma
[00:51:27] bicicleta 12 horas por dia para ganhar
[00:51:29] 500 reais, eu vi algumas
[00:51:31] tem várias reportagens nesse sentido
[00:51:33] da galera pedalando o dia todo
[00:51:35] para ganhar bem menos que um salário
[00:51:37] mínimo sem nenhum direito então
[00:51:39] qualquer emprego desses com
[00:51:41] um salário mínimo e
[00:51:43] direitos trabalhistas
[00:51:45] garantidos já
[00:51:47] ajudaria
[00:51:49] a situação nos países
[00:51:51] centrais é um pouco diferente
[00:51:53] diferente como?
[00:51:55] explica para o pessoal aí
[00:51:57] a nossa situação
[00:51:59] a nossa história
[00:52:01] o nosso mercado de trabalho
[00:52:03] historicamente sempre foi muito precarizado
[00:52:05] de fato, vocês estavam falando
[00:52:07] o bico, o bico é uma coisa que
[00:52:09] é uma instituição brasileira
[00:52:11] é uma instituição
[00:52:13] as mulheres principalmente
[00:52:15] para conseguir
[00:52:17] tinha uma tripla jornada
[00:52:19] a mulher trabalhava fora
[00:52:21] cuidava
[00:52:23] da família
[00:52:25] e ainda fazia quentinha
[00:52:27] para vender
[00:52:29] no final de semana
[00:52:31] ou fazia algum tipo de bico
[00:52:33] para conseguir uma renda
[00:52:35] extra, essa situação
[00:52:37] no Brasil ela é muito
[00:52:39] perversa e quando você tem uma crise econômica
[00:52:41] como nossa renda per capita
[00:52:43] é muito baixa
[00:52:45] a exploração aqui ela se dá de forma
[00:52:47] mais aguda
[00:52:49] muito provavelmente
[00:52:51] isso daí tem que fazer uma pesquisa mais minuciosa
[00:52:53] o nível de remuneração
[00:52:55] e de retenção dos valores
[00:52:57] da Uber aqui é muito maior do que
[00:52:59] nos países centrais
[00:53:01] porque isso se dá muito
[00:53:03] pelo poder de barganha do trabalhador em cada lugar
[00:53:05] aqui o trabalhador
[00:53:07] por ele estar submetido
[00:53:09] no mercado de trabalho ainda pior
[00:53:11] ele aceita qualquer coisa
[00:53:13] eu acho
[00:53:15] que nos países centrais isso deve ter
[00:53:17] uma certa
[00:53:19] as empresas elas tem
[00:53:21] um nível de
[00:53:23] uma margem de exploração um pouco menor
[00:53:25] no Brasil a margem de exploração é muito mais alta
[00:53:27] e como a margem de exploração
[00:53:29] é muito mais alta
[00:53:31] o aumento da economia já reduz
[00:53:33] essa margem é muito grande
[00:53:35] qualquer aquecimento qualquer processo de formalização
[00:53:37] você já melhora muito
[00:53:39] a situação das pessoas
[00:53:41] a nossa situação é muito mais precária
[00:53:43] do mercado de trabalho
[00:53:45] e a gente vem vivendo um processo de
[00:53:47] desindustrialização
[00:53:49] muito rápida
[00:53:51] a gente não tem mais
[00:53:53] mesmo com a economia voltando a crescer
[00:53:55] vai ser difícil
[00:53:57] é difícil de visualizar
[00:53:59] aonde que essas pessoas que estão desempregadas
[00:54:01] vão estar muito provavelmente
[00:54:03] quando a economia voltar a reagir
[00:54:05] se as pessoas vão para o setor de serviço
[00:54:07] que é ruim mas já é alguma coisa
[00:54:09] o setor de serviço formal é ruim
[00:54:11] mas já é alguma coisa
[00:54:13] a situação aqui é mais cruel
[00:54:15] eu tenho uma ideia
[00:54:17] que é a seguinte
[00:54:19] no Brasil o Estado precisa
[00:54:21] entrar urgentemente
[00:54:23] com política de emprego e renda
[00:54:25] de emprego formal
[00:54:27] o Estado precisa entrar como empregador de última instância
[00:54:29] e precisa fazer um grande plano
[00:54:31] de empregos
[00:54:33] e isso iria solucionar dois problemas
[00:54:35] primeiro porque nos últimos anos
[00:54:37] a gente teve um processo de
[00:54:39] precarização
[00:54:41] no fornecimento
[00:54:43] de bens e serviços
[00:54:45] públicos
[00:54:47] muito grande
[00:54:49] então a gente precisa de gente trabalhando
[00:54:51] não estou falando de ser servidor público
[00:54:53] estou falando do Estado
[00:54:55] ou induzir
[00:54:57] políticas de saneamento básico
[00:54:59] moradia
[00:55:01] saúde pública
[00:55:03] enfim
[00:55:05] para melhorar esses serviços que estão sendo
[00:55:07] sucateados nos últimos anos
[00:55:09] e por outro lado isso vai trazer uma enorme massa
[00:55:11] de trabalhadores
[00:55:13] para o setor formal
[00:55:15] então é muito necessário o Estado intervir aí
[00:55:17] e uma intervenção do Estado
[00:55:19] como garantidor de emprego
[00:55:21] um Estado como empregador de última instância
[00:55:23] ele
[00:55:25] estabelece um piso mínimo
[00:55:27] para a exploração do trabalhador
[00:55:29] tem um
[00:55:31] economista americano
[00:55:33] já falecido
[00:55:35] o Minsky ficou muito famoso
[00:55:37] com a crise de 2008
[00:55:39] e agora há vários discípulos dele
[00:55:41] nos Estados Unidos
[00:55:43] que estão fazendo
[00:55:45] algum barulho com
[00:55:47] a ala mais à esquerda do Partido Democratas
[00:55:49] com Bernie Sanders
[00:55:51] com a Ocasio-Cortez
[00:55:53] que estão falando do Green New Deal
[00:55:55] ele tinha a seguinte ideia
[00:55:57] o Estado tem que atuar como empregador
[00:55:59] de última instância
[00:56:01] ou seja, ele tem que fornecer empregos
[00:56:03] para todo mundo que esteja desempregado
[00:56:05] e disposto a trabalhar
[00:56:07] o Estado tem que ter instituições
[00:56:09] preparadas para absorver a massa de desempregados
[00:56:11] em tempos de crise
[00:56:13] isso não são servidores públicos
[00:56:15] mas sim trabalhadores
[00:56:17] que vão estar ali
[00:56:19] naquele programa
[00:56:21] até a economia voltar à normalidade
[00:56:23] e ele volta para o setor privado
[00:56:25] isso estabelece duas coisas
[00:56:27] um salário mínimo de fato
[00:56:29] para conseguir o cara que está
[00:56:31] entregando na bicicleta
[00:56:33] o aplicativo não vai conseguir
[00:56:35] remunerar ele
[00:56:37] abaixo desse piso
[00:56:39] do programa de empregador de última instância
[00:56:41] e também vai ter que garantir pelo menos
[00:56:43] os mesmos direitos que ele tem
[00:56:45] nesse programa do Estado
[00:56:47] como empregador de última instância
[00:56:49] então você consegue colocar uma régua
[00:56:51] você consegue colocar um piso
[00:56:53] eu acho que essa é a
[00:56:55] demanda mais urgente
[00:56:57] e é a coisa mais concreta que eu vejo
[00:56:59] eu vejo isso muito mais concreto
[00:57:01] num primeiro momento
[00:57:03] do que por exemplo a gente tentar estabelecer
[00:57:05] regras trabalhistas que são
[00:57:07] facilmente burladas
[00:57:09] pelos aplicativos
[00:57:11] ou a gente esperar que
[00:57:13] esses trabalhadores consigam se organizar
[00:57:15] rapidamente
[00:57:17] e demandem
[00:57:19] das plataformas melhores condições
[00:57:21] essa é a minha
[00:57:23] visão inicial
[00:57:25] sobre uma possível solução
[00:57:27] Beleza, a gente vai voltar um pouquinho mais rapidinho nisso
[00:57:29] eu acho que eu quero puxar uma outra pergunta
[00:57:31] mas eu queria falar agora de uma outra coisa
[00:57:33] que também tem efeitos
[00:57:35] cascata, assim, muito
[00:57:37] maiores do que as pessoas pensam inicialmente
[00:57:39] que são plataformas
[00:57:41] tipo a do Airbnb
[00:57:43] por isso que a gente está falando de plataformização
[00:57:45] e não só de uberização
[00:57:47] porque o Uber é uma coisa específica
[00:57:49] você tem um cara que entrega e não sei o que
[00:57:51] mas você tem um milhão de outras plataformas
[00:57:53] e o Airbnb é uma delas
[00:57:55] então o Airbnb é uma empresa que é considerada
[00:57:57] a maior rede, com o maior número de quartos
[00:57:59] no mundo e eles não possuem
[00:58:01] nenhum hotel, nenhum quarto
[00:58:03] nada, eles não possuem nada
[00:58:05] assim como a Uber, eles só fazem
[00:58:07] a intermediação entre quem tem
[00:58:09] um espaço no chão
[00:58:11] ou um quarto
[00:58:13] que for para alugar
[00:58:15] e a pessoa que está procurando um lugar para ficar
[00:58:17] e essa
[00:58:19] é uma outra forma de precarização também
[00:58:21] mas que está tendo repercussões enormes
[00:58:23] nas cidades onde eles funcionam
[00:58:25] tem muita coisa em comum com o Uber
[00:58:27] e com as outras plataformas, mas tem particularidades
[00:58:29] você está falando de lugares onde as pessoas
[00:58:31] potencialmente poderiam morar
[00:58:33] sim, eu acho que tem um
[00:58:35] foi bom você tocar no Airbnb
[00:58:37] porque escapa um aspecto
[00:58:39] da uberização
[00:58:41] que é
[00:58:43] o estado também, o conjunto da sociedade
[00:58:45] perde a sua
[00:58:47] força de planejamento
[00:58:49] urbano coletivo
[00:58:51] a coletividade
[00:58:53] ela perde força
[00:58:55] de determinar que tipo de cidade
[00:58:57] você quer, no caso do Uber
[00:58:59] que tipo de formatação
[00:59:01] de transporte público
[00:59:03] você deseja
[00:59:05] como você vai organizar
[00:59:07] o trânsito na cidade
[00:59:09] você perde isso
[00:59:11] no caso do Airbnb
[00:59:13] você tem um problema sério
[00:59:15] que é o direito à moradia
[00:59:17] que vai ficando cada vez mais complicado
[00:59:19] você vai começando
[00:59:21] o Airbnb
[00:59:23] também é de novo isso
[00:59:25] é a tecnologia
[00:59:27] a serviço de…
[00:59:29] você consegue ter…
[00:59:31] a tecnologia acerta duas coisas
[00:59:33] primeiro você burla
[00:59:35] qualquer regra tributária
[00:59:37] em relação a por exemplo
[00:59:39] cidades que tem
[00:59:41] um turismo muito forte
[00:59:43] você vai perder qualquer forma
[00:59:45] de coletivização desses lucros
[00:59:47] de participação do conjunto da sociedade
[00:59:49] nos lucros gerados
[00:59:51] pelos serviços ligados ao turismo
[00:59:53] então
[00:59:55] fica difícil fiscalizar
[00:59:57] para tributar
[00:59:59] o serviço de hotelaria
[01:00:01] puro e simples
[01:00:03] por exemplo
[01:00:05] isso já está acontecendo no Brasil
[01:00:07] você vê muitas notícias no mundo
[01:00:09] mas isso está acontecendo no Brasil
[01:00:11] as pessoas esvaziam
[01:00:13] os apartamentos pequenos
[01:00:15] em Copacabana
[01:00:17] transformam tudo em Airbnb
[01:00:19] porque você lucra mais
[01:00:21] alugando
[01:00:23] então você tem um serviço de hotelaria
[01:00:25] sem gerar nenhum
[01:00:27] nenhum tipo de
[01:00:29] serviço de hotelaria para o estado
[01:00:31] você começa a expulsar
[01:00:33] as pessoas da cidade
[01:00:35] para você ter esse processo
[01:00:37] rola uma gentrificação
[01:00:39] isso, as áreas turísticas
[01:00:41] ou mais próximas do centro
[01:00:43] vão começar a sofrer esse processo
[01:00:45] de mercantilização, de gentrificação
[01:00:47] e você começa a expulsar as pessoas
[01:00:49] e no final das contas
[01:00:51] é a perda
[01:00:53] da capacidade do conjunto
[01:00:55] da sociedade decidir coletivamente
[01:00:57] qual é a melhor forma
[01:00:59] de organização urbana
[01:01:01] qual é a melhor forma de estruturação
[01:01:03] da rede de moradias
[01:01:05] no caso do Uber
[01:01:07] da própria questão de gestão
[01:01:09] do trânsito
[01:01:11] do transporte público
[01:01:13] enfim
[01:01:15] a gente vai ficando cada vez mais
[01:01:17] na mão do mercado
[01:01:19] e perdendo cada vez mais
[01:01:21] a nossa participação social
[01:01:23] nos rumos
[01:01:25] da nossa própria sociabilidade
[01:01:27] no direito a morar
[01:01:29] e vir
[01:01:31] a gente perde a nossa capacidade
[01:01:33] de gerir essas coisas
[01:01:35] e a gente fica na mão
[01:01:37] de plataformas que
[01:01:39] o fim não é tornar
[01:01:41] o simples movimento
[01:01:43] de você ir e vir do trabalho
[01:01:45] algo mais prazeroso
[01:01:47] mas isso não passa
[01:01:49] pela contabilidade dessa empresa
[01:01:51] o direito a moradia não passa
[01:01:53] pela contabilidade dessa plataforma
[01:01:55] a desestruturação
[01:01:57] das redes de hotéis
[01:01:59] das taxas
[01:02:01] dos próprios serviços
[01:02:03] tiram do estado a sua capacidade
[01:02:05] de tributar e de interferir
[01:02:07] nesses processos
[01:02:09] então a gente vai perdendo cada vez mais
[01:02:11] o nosso potencial
[01:02:13] de organização social
[01:02:15] e vai ficando cada vez mais
[01:02:17] refém de um simples processo
[01:02:19] de geração de lucro
[01:02:21] que estão nas mãos
[01:02:23] de empresas transnacionais
[01:02:25] que não tem nenhuma intenção
[01:02:27] não teria nem porque
[01:02:29] é bem o que foi comentado
[01:02:31] nesse evento que eu fui
[01:02:33] esse capitalismo explorador
[01:02:35] desenfreado
[01:02:37] ele entra quando tem o vácuo de poder
[01:02:39] então se o estado não está funcionando
[01:02:41] não tem emprego, não tem transporte público decente
[01:02:43] e você dividindo o Uber com uma outra pessoa
[01:02:45] você paga a mesma coisa que uma passagem de ônibus
[01:02:47] onde você iria em pé
[01:02:49] sem ar condicionado
[01:02:51] com gente fedida do seu lado
[01:02:53] você vai de Uber
[01:02:55] então você acaba cedendo
[01:02:57] tanto como colaboradora entre aspas
[01:02:59] quanto como usuário também
[01:03:01] eu moro em Curitiba
[01:03:03] não sou de Curitiba claramente
[01:03:05] mas eu moro em Curitiba
[01:03:07] e o transporte público funciona bastante bem
[01:03:09] principalmente para padrões brasileiros
[01:03:11] mas o meu bairro é mal servido de ônibus
[01:03:13] e eu uso Uber com muito mais frequência do que eu gostaria
[01:03:15] porque as minhas viagens são sempre curtas
[01:03:17] acabam saindo menos de uma passagem
[01:03:19] e se eu fosse de ônibus eu teria que pegar
[01:03:21] sei lá, dois ônibus
[01:03:23] e andar um pedação para chegar onde eu tenho que ir
[01:03:25] porque são poucas as linhas que passam no meu bairro
[01:03:27] mas eu adoro transporte público, eu sou a louca do transporte público
[01:03:29] eu adoro andar de ônibus
[01:03:31] e se tivesse mais linhas no meu bairro
[01:03:33] eu certamente andaria mais de ônibus do que de Uber
[01:03:35] mas eu acabo meio que sendo forçada
[01:03:37] e assim como o motorista
[01:03:39] é forçado porque ele não encontra
[01:03:41] um emprego formal melhor
[01:03:43] assim como a pessoa acaba ficando
[01:03:45] em um apartamento no Airbnb
[01:03:47] porque o hotel, às vezes, como paga mais imposto
[01:03:49] acaba saindo muito caro
[01:03:51] e isso tudo é mascarado
[01:03:53] daquela maneira que a gente falou
[01:03:55] tudo isso é vendido como sendo uma alternativa
[01:03:57] mais legal, mais humana
[01:03:59] então o Airbnb se vende
[01:04:01] como experiência real
[01:04:03] você vai viver a cidade
[01:04:05] em vez de ficar em um hotel
[01:04:07] que é uma coisa impessoal
[01:04:09] você vai ver como é um apartamento naquela cidade
[01:04:11] em vez de ficar em um hotel que é mais ou menos padrão
[01:04:13] no mundo inteiro
[01:04:15] então tem toda essa máscara
[01:04:17] de ser uma coisa super maneira, super moderna
[01:04:19] é coisa compartilhada mesmo
[01:04:21] nossa, é a casa da pessoa
[01:04:23] e na maioria das vezes não é a casa da pessoa
[01:04:25] esse livro que a gente estava comentando
[01:04:27] tem um monte de dados
[01:04:29] nós somos super espertos
[01:04:31] eu e o Thiago, nenhum dos dois lembrou de trazer o livro hoje
[01:04:33] então a gente não tem os dados
[01:04:35] aqui à mão, mas era uma quantidade
[01:04:37] absurda de apartamentos
[01:04:39] as propriedades que estão
[01:04:41] sendo alugadas no Airbnb
[01:04:43] a imensa maioria
[01:04:45] pertence a pessoas que tem mais de uma propriedade
[01:04:47] aquela não é a casa dela
[01:04:49] então o que está sendo vendido para você
[01:04:51] como uma experiência real
[01:04:53] não é, porque naquela casa não mora ninguém
[01:04:55] ela é uma casa que tem todas as comodidades
[01:04:57] de um hotel, ela praticamente
[01:04:59] um hotel, só que não paga
[01:05:01] tributo, não paga nada
[01:05:03] para o estado, então é ruim também para todo mundo
[01:05:05] só é bom para a plataforma
[01:05:07] é, não passa por uma
[01:05:09] e a tributação é muito importante
[01:05:11] em vários aspectos, porque
[01:05:13] eu não estou falando
[01:05:15] do aspecto de arrecadação
[01:05:17] mas sim do aspecto de regulação
[01:05:19] você tem que ter um número
[01:05:21] determinado de turistas
[01:05:23] por ano, como é que você controla
[01:05:25] isso para não sobrecarregar
[01:05:27] o meio ambiente
[01:05:29] daquela região
[01:05:31] para não sobrecarregar o trânsito
[01:05:33] os serviços públicos
[01:05:35] então o estado tem que ter alguma interferência
[01:05:37] nisso, o conjunto da sociedade
[01:05:39] dos moradores tem que ter alguma interferência nisso
[01:05:41] por exemplo
[01:05:43] outra coisa
[01:05:45] a tributação permite que você consiga
[01:05:47] elaborar políticas públicas
[01:05:49] étnico-raciais
[01:05:51] de gênero
[01:05:53] você pode estimular uma série de fatores
[01:05:55] você por exemplo pode
[01:05:57] dar algum tipo de
[01:05:59] incentivo tributário
[01:06:01] a redes hoteleiras que utilizem
[01:06:03] menos
[01:06:05] energias sustentáveis
[01:06:07] você consegue moldar
[01:06:09] o perfil daquele
[01:06:11] determinado mercado
[01:06:13] a necessidades sociais
[01:06:15] o controle social se perde
[01:06:17] totalmente com essa rede hoteleira
[01:06:19] que como você falou é uma rede hoteleira
[01:06:21] o cara
[01:06:23] tem 30, 40
[01:06:25] apartamentos geridos
[01:06:27] por uma plataforma
[01:06:29] nenhum tipo de controle social
[01:06:31] é isso
[01:06:33] nenhum tipo de controle social
[01:06:35] em nenhuma instância
[01:06:37] e ele vai avaliar
[01:06:39] o sucesso dele
[01:06:41] isso a gente chama de
[01:06:43] externalidade
[01:06:45] é quando você gera uma externalidade negativa
[01:06:47] quando você polui
[01:06:49] ou quando você sobrecarrega cidades de turistas
[01:06:51] isso tem que ser incorporado
[01:06:53] aos seus custos de alguma forma
[01:06:55] por isso você tem que ter alguma capacidade
[01:06:57] de atividade
[01:06:59] e com essas plataformas isso é impossível
[01:07:01] então a regulação do estado
[01:07:03] na vida econômica
[01:07:05] na sociabilidade
[01:07:07] estou falando da participação do conjunto
[01:07:09] da sociedade
[01:07:11] na forma como se vive
[01:07:13] ela começa a se perder com a uberização
[01:07:15] na organização do trânsito
[01:07:17] na organização da moradia
[01:07:19] e em outras esferas
[01:07:21] então a violação
[01:07:23] é a tecnologia para violar
[01:07:25] a regulação trabalhista para violar
[01:07:27] os projetos urbanísticos
[01:07:29] para violar
[01:07:31] as regulações que são
[01:07:33] relacionadas ao direito à moradia
[01:07:35] então você desmonta
[01:07:37] qualquer tipo de organização
[01:07:39] social em torno da
[01:07:41] própria dinâmica de vida que a gente quer
[01:07:43] a gente perde a participação
[01:07:45] a nossa democracia fica em risco
[01:07:47] ou seja
[01:07:49] as consequências são muito mais amplas
[01:07:51] do que a gente imagina inicialmente
[01:07:53] parece tudo super legal
[01:07:55] mas quando você vai ver tem um efeito cascata de merda
[01:07:57] que tem muita coisa
[01:07:59] muitas consequências nocivas localmente
[01:08:01] regionalmente meio que ruim
[01:08:03] para todo mundo só quem ganha
[01:08:05] são essas plataformas mesmo
[01:08:07] mas aí eu queria puxar desse assunto
[01:08:09] duas coisas
[01:08:11] primeira coisa você falou que é impossível regulamentar e tal
[01:08:13] mas a minha pergunta eu tinha anotado isso aqui
[01:08:15] hoje eu vim sem o livro mas eu estou com meu caderninho
[01:08:17] cheio das coisas que eu anotei durante o evento
[01:08:19] e perguntas para fazer
[01:08:21] hoje eu estou organizadinha
[01:08:23] porque não é possível regular se eles tem tanta informação
[01:08:25] se eles sabem exatamente
[01:08:27] o horário que tem mais gente pegando uber
[01:08:29] em que parte da cidade as pessoas ficam mais
[01:08:31] quantas pessoas
[01:08:33] se tem cachorro se não tem
[01:08:35] qual o tamanho do apartamento
[01:08:37] quantas pessoas pegam cada carro em média
[01:08:39] uber pool uber juntos
[01:08:41] e sei lá o que das quantas
[01:08:43] se tem essa quantidade absurda
[01:08:45] de informação
[01:08:47] que é muito mais detalhada do que isso
[01:08:49] a gente sabe que essa coisa dos metadados
[01:08:51] é um negócio complicado hoje em dia
[01:08:53] os caras sabem até a hora que a gente
[01:08:55] sei lá é
[01:08:57] mesmo com toda essa informação em mãos
[01:08:59] não é possível regularizar
[01:09:01] então eu acho que é um desafio enorme
[01:09:03] por exemplo a uber
[01:09:05] no brasil não libera os dados
[01:09:07] não libera nenhum dado então
[01:09:09] ela liberou esse dado
[01:09:11] que eu passei para vocês que
[01:09:13] um sexto dos motoristas de uber
[01:09:15] estão no brasil de 2017
[01:09:17] esse dado ou 2018
[01:09:19] foi um dado que ela liberou
[01:09:21] estrategicamente porque
[01:09:23] estava vendo uma
[01:09:25] tentativa de
[01:09:27] era naquele momento
[01:09:29] que as cidades estavam debatendo
[01:09:31] a questão de regular
[01:09:33] a uber e etc
[01:09:35] e eles liberaram esse dado para falar que eles são muito
[01:09:37] importantes na geração de emprego no brasil
[01:09:39] então eles soltaram esse dado
[01:09:41] mostrando que a importância
[01:09:43] deles na geração de emprego que
[01:09:45] hoje tem muito mais uber
[01:09:47] do que taxi como que isso é importante
[01:09:49] e como que
[01:09:51] seria prejudicial qualquer tentativa
[01:09:53] de interferência
[01:09:55] se
[01:09:57] qualquer tentativa de taxação poderia
[01:09:59] gerar
[01:10:01] alterar essa
[01:10:03] essa positividade que é
[01:10:05] gerar emprego para caramba para um monte de gente
[01:10:07] esses dados
[01:10:09] eles não são públicos
[01:10:11] e a gente teria que formatar
[01:10:13] uma legislação que obrigasse
[01:10:15] a eles
[01:10:17] a fornecer essas coisas
[01:10:19] eu não sou jurista
[01:10:21] eu não sei até que ponto
[01:10:23] esse tipo de interferência
[01:10:25] é possível né
[01:10:27] depois aqui pensando alto
[01:10:29] uma ideia legal
[01:10:31] eu acho que isso já tem em algumas cidades
[01:10:33] brasileiras e etc
[01:10:35] é o próprio estado oferecer
[01:10:37] plataformas do tipo
[01:10:39] e concorrer com os caras
[01:10:41] aí sim a gente teria
[01:10:43] uma forma de
[01:10:45] elaborar dados e etc
[01:10:47] concorrente mas eu não sei que ponto
[01:10:49] que a gente conseguiria obrigá-los
[01:10:51] a fornecer os dados
[01:10:53] que são particulares deles
[01:10:55] por exemplo o quanto cada motorista
[01:10:57] anda em média
[01:10:59] com o carro enfim
[01:11:01] ou quanto que isso daí
[01:11:03] seria um dado
[01:11:05] filtrado por eles
[01:11:07] como que a gente mediria
[01:11:09] a qualidade desse dado
[01:11:11] é porque tem isso também né
[01:11:13] exatamente tudo depende de como você
[01:11:15] organiza esses dados né
[01:11:17] é fácil você fazer com que os números digam
[01:11:19] o que você quer
[01:11:21] esses dados nem devem estar
[01:11:23] a gente teria que pensar em
[01:11:25] a gente tem que repensar toda a nossa forma de
[01:11:27] de fiscalização
[01:11:29] enfim é um desafio enorme
[01:11:31] por isso que eu acho que sempre o caminho
[01:11:33] é o estado estabelecer a régua sabe
[01:11:35] a régua
[01:11:37] de relações trabalhistas
[01:11:39] ela sendo estabelecida
[01:11:41] pelo conjunto da sociedade
[01:11:43] você ter opções de transporte
[01:11:45] público como você falou
[01:11:47] é uma forma de você enfrentar
[01:11:49] a questão da mobilização
[01:11:51] você ter transporte público de qualidade
[01:11:53] é mais fácil do que você tentar ficar
[01:11:55] criando um monte de projetos
[01:11:57] pra fiscalizar
[01:11:59] contratando um monte de fiscal pra fiscalizar aquilo
[01:12:01] você ter transporte público
[01:12:03] de qualidade é uma porrada nesses caras
[01:12:05] entendeu
[01:12:07] até porque essa coisa da regularização
[01:12:09] nem sempre é uma garantia
[01:12:11] de que a coisa vai resolver
[01:12:13] é uma conciliação de qualquer forma
[01:12:15] você quando regulamenta uma coisa bosta
[01:12:17] pra ela ficar menos bosta
[01:12:19] é uma forma de conciliação
[01:12:21] e que não é a garantia que as coisas realmente vão melhorar
[01:12:23] tanto é que tem muita gente que tem trabalho formal
[01:12:25] de carteira assinada
[01:12:27] de profissões que são regulamentadas
[01:12:29] e mesmo assim trabalham em condições precárias
[01:12:31] porque a empresa encontra uma maneira de burlar
[01:12:33] e o funcionário
[01:12:35] também vai ter medo de ser mandado embora
[01:12:37] e não vai entrar com a ação
[01:12:39] e a justiça é lenta
[01:12:41] então tem uma série de mecanismos
[01:12:43] que tornam isso muito mais difícil
[01:12:45] mesmo quando a coisa é feita tudo direitinho
[01:12:47] então também não sei se essa solução
[01:12:49] é você regulamentar
[01:12:51] eu estava lendo uma notícia aqui
[01:12:53] hoje os links da postagem estão muito bons
[01:12:55] eu sugiro de verdade que vocês vão lá ver
[01:12:57] é bem interessante
[01:12:59] estou lendo uma notícia italiana
[01:13:01] eu estou na Itália agora
[01:13:03] de outubro
[01:13:05] e a lei do Uber
[01:13:07] a lei que regulamenta essas coisas na Itália
[01:13:09] está bem complicada
[01:13:11] o Uber já chegou e já foi expulso de Roma, de Milão
[01:13:13] eu nem sei
[01:13:15] eu tenho que olhar
[01:13:17] eu nunca peguei Uber na Itália
[01:13:19] mas cada vez que eu lembro desse assunto
[01:13:21] eu tenho que procurar
[01:13:23] está tendo Uber na Itália
[01:13:25] porque já entrou e saiu um monte de vezes
[01:13:27] sobre o que eles chamam de
[01:13:29] que é tipo você
[01:13:31] alugar um carro com uma pessoa dirigindo
[01:13:33] que sempre existiu essa categoria
[01:13:35] que eles chamam de NCC
[01:13:37] que sempre existiu
[01:13:39] mas que normalmente é o cara que leva turista
[01:13:41] para lá e para cá
[01:13:43] ele tem uma placa especial
[01:13:45] na placa do carro dele tem escrito NCC
[01:13:47] e ele tem uma legislação toda especial dele
[01:13:49] e isso sempre rolou aqui
[01:13:51] e o Uber entra nessa categoria
[01:13:53] e eles mudaram essa lei agora
[01:13:55] para fazer com que todo carro
[01:13:57] tenha que sair de uma central
[01:13:59] então ele não pode sair de onde ele estiver na rua
[01:14:01] toda vez que ele acaba uma corrida
[01:14:03] ele tem que voltar para uma central
[01:14:05] e toda vez que ele receber uma chamada
[01:14:07] ele tem que sair dessa central
[01:14:09] para ir pegar o passageiro
[01:14:11] e com isso o tempo de espera por um carro
[01:14:13] fica muito grande e o passageiro desiste
[01:14:15] e aí o Uber acabou desistindo e falou
[01:14:17] então beleza tchau vou embora
[01:14:19] porque eu não consigo trabalhar assim
[01:14:21] então nesse caso eles conseguiram encontrar uma maneira
[01:14:23] de desincentivar a empresa a permanecer no país
[01:14:25] e eles tem um
[01:14:27] sindicato
[01:14:29] os taxistas italianos
[01:14:31] eles tem uma força muito grande assim
[01:14:33] é um pessoal casca grossa para caramba
[01:14:35] e quando eles estão atacados assim
[01:14:37] eles param as cidades mesmo
[01:14:39] eles fazem uma confusão
[01:14:41] é um pessoal que tem bastante força
[01:14:43] e conseguiram
[01:14:45] com uma pressão deles fazer isso
[01:14:47] então o Uber falou tchau vou embora
[01:14:49] só que eu não sei se isso ainda ficou
[01:14:51] eu tenho que olhar de novo agora
[01:14:53] porque toda hora muda a lei
[01:14:55] mas é uma maneira de você
[01:14:57] de alguma forma
[01:14:59] eles incluíram o Uber em uma categoria que já existia
[01:15:01] que é um serviço muito semelhante
[01:15:03] e mudaram as regras de modo que para eles
[01:15:05] não é mais conveniente então eles estão indo embora do país
[01:15:07] e talvez
[01:15:09] dê mais certo isso do que você regulamentar
[01:15:11] e botar o fiscalzinho como você falou
[01:15:13] que a gente já sabe que não funciona
[01:15:15] esse processo como
[01:15:17] essa manifestação
[01:15:19] da exploração do trabalho
[01:15:21] sobre a forma de Uberização
[01:15:23] ela exige muita criatividade
[01:15:25] isso é um ato de
[01:15:27] todas essas questões
[01:15:29] elas não foram respondidas ainda
[01:15:31] é uma coisa que a gente tem que
[01:15:33] pensar muito como resolver
[01:15:35] bom e tem
[01:15:37] quando você estava falando aí do
[01:15:39] criar alguns mecanismos
[01:15:41] muito criativos para tentar
[01:15:43] barrar esse processo de
[01:15:45] Uberização para expulsar a Uber
[01:15:47] tem um outro lado da moeda
[01:15:49] porque a Uber ela vai
[01:15:51] estabelecendo vários conflitos
[01:15:53] várias dicotomias por exemplo
[01:15:55] se você faz isso
[01:15:57] sei lá aqui em Brasília
[01:15:59] você tem uma ideia muito boa
[01:16:01] que consiga travar
[01:16:03] a Uber aqui
[01:16:05] a população vai ficar pau da vida
[01:16:07] entendeu os caras vão ficar putos
[01:16:09] porque a população
[01:16:11] ela vê a Uber como uma
[01:16:13] a melhor solução possível
[01:16:15] para a locomoção aqui
[01:16:17] aqui todo mundo anda de Uber o tempo todo
[01:16:19] transporte público
[01:16:21] é uma porcaria
[01:16:23] e todo mundo já se habituou a Uber
[01:16:25] então você vai ter uma demanda
[01:16:27] o conjunto
[01:16:29] da sociedade aqui vai demandar
[01:16:31] que o Estado volte atrás
[01:16:33] para você voltar a ter Uber
[01:16:35] então tem um padrão de consumo também
[01:16:37] que foi estabelecido pela Uberização
[01:16:39] que anda de mãos dadas
[01:16:41] com essa nova forma de organização
[01:16:43] e gerenciamento do trabalho
[01:16:45] as formas de organização, gerenciamento e controle
[01:16:47] do trabalho andam de mãos dadas
[01:16:49] com o padrão de consumo estabelecido
[01:16:51] e cria uma demanda
[01:16:53] social, a mesma sociedade
[01:16:55] que é explorada pela
[01:16:57] pela Uberização
[01:16:59] que é um trabalhador que está sendo explorado
[01:17:01] pela Uberização
[01:17:03] é a tiarista
[01:17:05] que está sendo explorada por uma plataforma
[01:17:07] é o arquiteto
[01:17:09] que vai ser contratado por uma plataforma
[01:17:11] é o professor que vai ser contratado por uma plataforma
[01:17:13] que vai defender
[01:17:15] a Uber no Brasil
[01:17:17] porque isso está favorecendo ele
[01:17:19] ele acha que
[01:17:21] ele vai pagar menos
[01:17:23] um serviço melhor
[01:17:25] do que o do táxi
[01:17:27] então essas novas formas
[01:17:29] essas tecnologias
[01:17:31] a favor da precarização do trabalho
[01:17:33] ela também estabelece novos padrões de consumo
[01:17:35] e novas dicotomias
[01:17:37] então isso é muito difícil
[01:17:39] por exemplo no Rio as pessoas
[01:17:41] têm muita raiva de táxi
[01:17:43] porque taxista tinha má fama
[01:17:45] principalmente para quem era turista
[01:17:47] então a galera que ia fazer turismo
[01:17:49] no Rio tinha muita raiva
[01:17:51] dos taxistas
[01:17:53] eles trabalhavam o taxímetro
[01:17:55] e faziam a corrida do tiro
[01:17:57] ao invés de ligar o taxímetro
[01:17:59] eles já falavam R$ 650
[01:18:01] e todos falavam a mesma coisa
[01:18:03] cartelzão total
[01:18:05] então se você
[01:18:07] tenta frear o avanço
[01:18:09] da Uber
[01:18:11] você vai ver uma demanda
[01:18:13] muito grande dos consumidores
[01:18:15] para a Uber continuar funcionando
[01:18:17] do trabalhador que está desempregado
[01:18:19] e está dirigindo a Uber
[01:18:21] porque não tem emprego
[01:18:23] é muito complexo
[01:18:25] eu acho que
[01:18:27] eu passo antes de tudo a solução para isso
[01:18:29] na geração de
[01:18:31] por causa de um país periférico
[01:18:33] na geração de uma
[01:18:35] na construção de uma economia
[01:18:37] mais sofisticada
[01:18:39] que gere empregos de qualidade
[01:18:41] e enquanto isso não acontece
[01:18:43] mesmo
[01:18:45] mesmo que seja uma política
[01:18:47] de geração de empregos
[01:18:49] não sofisticados
[01:18:51] mas que forneça um mínimo de
[01:18:53] produção trabalhista e salário digno
[01:19:23] não é um homem que
[01:19:25] é só um homem
[01:19:27] para que seja
[01:19:29] um homem
[01:19:31] ele deve ser
[01:19:33] que ele possa
[01:19:35] evoluir
[01:19:37] porque não é
[01:19:39] um homem
[01:19:41] pra ele
[01:19:43] e ele
[01:19:45] deve ser
[01:19:47] um homem
[01:19:49] que
[01:19:51] antes de liberar o episódio,
[01:19:52] se a gente sabe que o Uber não ganha dinheiro,
[01:19:57] é uma empresa que não está rendendo,
[01:20:01] não é lucrativa e não é a única.
[01:20:03] Muitas dessas outras plataformas também não são lucrativas.
[01:20:07] Como é possível que elas sejam viáveis, então?
[01:20:09] Por que elas ainda existem?
[01:20:10] Do que elas vivem?
[01:20:11] O que elas comem?
[01:20:12] O que acontece?
[01:20:13] Bom, a gente tem que separar duas coisas.
[01:20:15] A empresa pode não gerar lucro,
[01:20:18] mas as ações dela podem estar disparando, né?
[01:20:21] Sim.
[01:20:22] Eu posso criar uma empresa aqui agora
[01:20:25] que eu só tenho prejú,
[01:20:26] mas minhas ações estão valorizando
[01:20:28] porque eu tenho chance de ganhar muito dinheiro no futuro
[01:20:33] e, inclusive, com o desenvolvimento de novos produtos,
[01:20:38] como é a intenção da Uber em um futuro bem próximo.
[01:20:44] Aqueles carros da Google trabalhando em plataforma
[01:20:47] seria algo, aí sim, muito lucrativo.
[01:20:51] Então, não necessariamente você precisa gerar resultados positivos,
[01:20:57] resultados operacionais positivos no curto prazo
[01:21:00] para você ter um processo de valorização da sua marca, né?
[01:21:04] Isso acontece muito com as redes sociais.
[01:21:07] Sim.
[01:21:08] Eu acho que a maioria, a esmagadora maioria das redes sociais,
[01:21:13] no processo de consolidação,
[01:21:15] ela tem um preju muito grande,
[01:21:17] até ela descobrir formas de ganhar grana, né?
[01:21:20] Por exemplo, deve ter com o Tinder, com tudo isso.
[01:21:24] O Facebook foi, assim.
[01:21:26] Sim, sim.
[01:21:26] Porque para o usuário é de graça, né?
[01:21:29] E mesmo para o Uber, a gente tem muito desconto.
[01:21:31] No Airbnb também, você tem código de desconto disso, daquilo,
[01:21:34] que você acaba pagando uma merreca.
[01:21:36] Aí você fica, gente, quem está ganhando dinheiro com isso?
[01:21:37] No Uber Eats.
[01:21:39] E no caso do Facebook, a gente já sabe.
[01:21:41] Eles vendem os nossos dados, a nossa alma, né?
[01:21:43] Para quem pagar mais, né?
[01:21:45] Imagino que com o Uber também não seja diferente,
[01:21:47] porque você tem essa quantidade de informações
[01:21:49] sobre o deslocamento das pessoas.
[01:21:51] Cara, é muito importante isso, né?
[01:21:55] Informação, hoje em dia, a gente sabe que é a coisa mais preciosa que tem.
[01:21:57] Isso é muito significativo.
[01:21:59] É, eles estão criando mercado.
[01:22:00] Eu não sei como é que eles estão…
[01:22:02] Exato.
[01:22:03] A gente não sabe ainda como é que eles estão operacionando,
[01:22:06] se eles conseguem operacionalizar isso já para tornar rentável, né?
[01:22:10] Muito provavelmente, sim, já conseguem.
[01:22:13] Então, eu acho muito pouco relevante o resultado,
[01:22:17] contábil de uma empresa desse porte no curto prazo
[01:22:21] para a gente medir o sucesso…
[01:22:23] A viabilidade, né, da empresa.
[01:22:25] A viabilidade da empresa.
[01:22:26] Essa questão do mercado de dados, ela é bem nebulosa, né?
[01:22:31] Será que a gente consegue mensurar isso?
[01:22:33] Será que isso aparece no balanço das empresas?
[01:22:36] É, e nem legislação direito para isso tem, né?
[01:22:39] Porque o desenvolvimento disso é tão recente, é tão rápido,
[01:22:42] muda tanto com o tempo que acho que nenhum país está acompanhando isso.
[01:22:45] Consegue legislar.
[01:22:47] De uma maneira que acompanhe isso de perto, né?
[01:22:50] As mudanças são muito rápidas, é difícil você correr atrás, né?
[01:22:53] Exato.
[01:22:54] O negócio é complicado.
[01:22:55] Aí eu queria entrar nessa parte que você queria comentar
[01:22:57] da coisa da Previdência, para a gente fechar, né?
[01:23:01] Mas ficou muita coisa de fora, mas senão o episódio ia ter 18 horas,
[01:23:05] por isso que eu estou falando.
[01:23:05] Vamos ver os links depois, porque tem muita informação.
[01:23:08] Saiu uma notícia na Folha agora essa semana,
[01:23:11] ou no início do mês, se não me engano, agora em dezembro,
[01:23:14] que tem como manchete.
[01:23:15] A justiça vê vínculo empregativo,
[01:23:17] notício entre a loja ou log, eu não sei como é que se fala isso,
[01:23:20] e motoboys, e manda a empresa pagar 30 milhões de reais.
[01:23:24] Então, basicamente, eles entenderam,
[01:23:26] cara, o cara só trabalha para você, né?
[01:23:28] Ele trabalha o dia inteiro para você, trabalha muitas horas para você,
[01:23:31] ele é seu funcionário, você pode chamar ele de colaborador,
[01:23:33] quanto você quiser, mas ele é teu funcionário, tu vai ter que pagar.
[01:23:36] Isso, esses caras são bem organizados.
[01:23:38] Como é que é? Conta aí o que aconteceu.
[01:23:40] Então, eu não acompanhei esse caso de perto,
[01:23:42] eu também acompanhei igual você, pela notícia.
[01:23:45] Esses caras são bem organizados.
[01:23:47] Categoria bem organizada.
[01:23:48] Talvez porque eles compartilham o mesmo espaço, né?
[01:23:52] Eles estão sempre em contato pessoal,
[01:23:56] indo de um lado para o outro,
[01:23:57] eles devem ter uma interação bem próxima.
[01:24:01] Bom, essa decisão foi um bom sinal.
[01:24:03] É um bom sinal de que dá para a gente brigar por isso.
[01:24:08] Você já percebeu que eu sou muito pessimista
[01:24:10] quanto ao judiciário, quanto à justiça trabalhista resolver essa questão.
[01:24:15] Eu acho que é uma questão difícil.
[01:24:16] Não, mas aí você…
[01:24:17] Você está justificadíssimo, né?
[01:24:19] Seria muito estranho alguém ser otimista
[01:24:21] num cenário que a gente tem no Brasil.
[01:24:23] É, eu sou muito pessimista com a justiça trabalhista
[01:24:26] resolvendo o problema da urbanização no Brasil, sabe?
[01:24:29] É claro que isso é importante
[01:24:33] porque motiva os trabalhadores e outros aplicativos a se organizarem.
[01:24:38] Então, tem um efeito em termos de organização trabalhista
[01:24:43] dos trabalhadores em prol de determinada causa.
[01:24:47] Eu acho que tem um efeito simbólico também
[01:24:49] para as outras plataformas.
[01:24:51] Sim, para caramba.
[01:24:52] É um precedente importante para a burro.
[01:24:54] É, para eles tentarem se organizar.
[01:24:56] Mas eu acho que isso não elimina o fator estrutural
[01:24:59] que leva à urbanização do trabalho, né?
[01:25:02] Que é a ausência total do poder público.
[01:25:06] Por um lado, por exemplo, na questão do Uber,
[01:25:10] no fornecimento de transporte público de qualidade,
[01:25:14] na garantia do emprego.
[01:25:17] Na organização da moradia.
[01:25:20] Enfim, eu acho que é algo importante, mas muito insuficiente.
[01:25:25] E eu não tenho muita esperança no judiciário.
[01:25:27] Eu sou muito cético.
[01:25:30] E mesmo a justiça do trabalho no Brasil que funciona melhor
[01:25:32] do que as outras áreas do judiciário,
[01:25:36] eu sou muito cético em demandar soluções via judiciário.
[01:25:41] Eu acho isso importantíssimo.
[01:25:42] Mas eu não sei se sairia daí um fôlego
[01:25:47] para a gente conseguir regulamentar.
[01:25:49] Enquanto isso, como é que fica o lance da previdência,
[01:25:53] que era o que você queria falar?
[01:25:55] Para os outros, para as outras plataformas,
[01:25:56] para quem não é organizado, para o que não foi decidido ainda.
[01:26:00] Como é que fica essa questão?
[01:26:02] Então, eu acho que esse novo perfil tecnológico,
[01:26:07] ele afeta a questão previdenciária de duas formas.
[01:26:10] Primeiro, que a tecnologia está em um processo muito acelerado
[01:26:16] de subestimação.
[01:26:17] Substituição de mudança na composição,
[01:26:19] que a gente chama de composição orgânica do capital.
[01:26:22] Nada mais é do que substituir o homem por você precisar de menos trabalhadores,
[01:26:26] porque você tem uma tecnologia que dispensa mão de obra
[01:26:31] crescendo em velocidade muito acelerada.
[01:26:34] Por outro, essas plataformas, como você falou,
[01:26:38] é muito difícil você conseguir fazer com que elas repartam o excedente
[01:26:45] produzido, o lucro dela,
[01:26:47] com o conjunto da sociedade.
[01:26:48] É muito difícil você conseguir fazer esse processo de tributação,
[01:26:53] fiscalização e etc.
[01:26:55] Isso é algo muito complicado.
[01:26:57] E quando a gente fala de previdência social,
[01:27:00] as pessoas têm um pouco de dificuldade de compreender que debate é esse,
[01:27:05] mas é simplesmente o seguinte.
[01:27:07] Tem pessoas que estão no mercado de trabalho,
[01:27:09] que estão trabalhando,
[01:27:11] que são o que a gente chama de população ativa,
[01:27:14] e tem a população inativa, que são as crianças e os idosos.
[01:27:17] Como é que as crianças e os idosos sobrevivem?
[01:27:20] Eles sobrevivem…
[01:27:21] Se não trabalham.
[01:27:22] Se não trabalham a partir da redistribuição desse excedente social
[01:27:26] que é produzido por quem está trabalhando.
[01:27:29] Isso pode se dar de várias formas.
[01:27:30] Por capitalização, que é um regime onde cada um vai fazer uma espécie de poupança
[01:27:36] e vai ter direitos monetários no futuro.
[01:27:38] Pelo sistema de repartição que funciona no Brasil,
[01:27:41] que é o trabalhador que está na ativa contribuindo
[01:27:45] para quem está na inovação,
[01:27:47] na atividade.
[01:27:48] Mas, no fim das contas, é sempre o trabalhador corrente
[01:27:51] repartindo o excedente com os inativos.
[01:27:55] Independente de regime, se for de capitalização,
[01:27:57] se for de repartição,
[01:27:58] essa estrutura está dada.
[01:28:00] Se for uma tribo,
[01:28:01] as pessoas que estão lá trabalhando diariamente
[01:28:04] vão ter que repartir o excedente com os idosos e com as crianças.
[01:28:07] Essa repartição se torna muito complicada
[01:28:10] quando você não tem a interferência do conjunto da sociedade
[01:28:14] direta nos grupos de trabalho.
[01:28:16] Então, a gente tem que ter uma estrutura direta
[01:28:16] para que a gente possa ter uma estrutura direta
[01:28:16] para que a gente possa ter uma estrutura direta
[01:28:16] nos mecanismos de política fiscal, de fato.
[01:28:21] É muito difícil, como a gente conversou,
[01:28:25] você conseguir operacionar, por exemplo,
[01:28:29] a tributação no setor hoteleiro hoje,
[01:28:32] que virou uma imensa plataforma.
[01:28:36] É muito difícil a gente pensar em tributação
[01:28:40] de um professor que está dentro de um aplicativo qualquer,
[01:28:45] de um profissional da engenharia,
[01:28:48] daqui a pouco vai começar a ter,
[01:28:50] de um veterinário,
[01:28:51] de um cuidador,
[01:28:53] de um cara que é cuidador de pet, enfim.
[01:28:56] A gente vai perdendo…
[01:28:57] Tem tudo, né?
[01:28:58] É, tem tudo.
[01:28:59] A gente vai perdendo cada vez mais essa capacidade
[01:29:01] de interferir na repartição do excedente socialmente produzido.
[01:29:06] Então, essa dificuldade em um mundo em que os trabalhadores ativos…
[01:29:11] Você está vivendo uma transição demográfica no Brasil,
[01:29:14] ou seja,
[01:29:14] você tente ter cada vez mais trabalhadores…
[01:29:18] Você tem uma tendência cada vez maior
[01:29:21] de ter pessoas na inatividade,
[01:29:23] ou seja, a população está envelhecendo,
[01:29:25] menos trabalhadores em atividade,
[01:29:28] e os poucos trabalhadores que estão em atividade
[01:29:30] estão em setores cada vez mais precarizados, informais…
[01:29:34] Sem contribuir com a Previdência, portanto, né?
[01:29:37] Isso, sem contribuir com a Previdência, portanto…
[01:29:39] Mas o importante não é nem ele contribuir com a Previdência, tá?
[01:29:42] Porque o trabalhador não precisa contribuir,
[01:29:44] se você, por exemplo, conseguisse fazer com que a empresa contribuísse, né?
[01:29:47] Sim, sim, exatamente.
[01:29:49] É, é porque a gente fica muito com essa lógica
[01:29:51] de que é o trabalhador que tem que contribuir
[01:29:54] com a Previdência Social dele.
[01:29:55] A gente tem que tratar mais…
[01:29:56] Sim, sim, sim, sim.
[01:29:57] É, esse é um debate que eu insisto muito,
[01:30:01] porque a gente tem que pensar em novas formas de tributação.
[01:30:05] A gente tem que tributar cada vez mais o capital
[01:30:08] e tirar o peso muito da Previdência Social
[01:30:11] das costas do trabalhador.
[01:30:12] Eu sei que você falou isso,
[01:30:14] mas isso parece um detalhe mais…
[01:30:16] Não, mas não é detalhe de maneira nenhuma.
[01:30:19] Tem que esclarecer mesmo.
[01:30:20] Tem que ficar bem na nossa cabeça.
[01:30:22] A gente tem que entender o que deveria ser, né?
[01:30:26] Para a gente poder saber pelo que a gente tem que lutar, né?
[01:30:28] O que a gente tem que exigir.
[01:30:29] É, tá?
[01:30:29] É certíssimo.
[01:30:30] É, e o capital, ele começa a gerar muito valor
[01:30:33] com cada vez menos trabalhadores, né?
[01:30:36] Essa é a tendência da tecnologia, tá?
[01:30:38] Então, não adianta a gente ficar mirando no trabalhador.
[01:30:42] A gente tem que mirar no capital.
[01:30:44] E a uberização, a gente já falou que é uma tecnologia
[01:30:47] que precariza o trabalho,
[01:30:49] que é uma tecnologia que dificulta a regulamentação,
[01:30:53] a regulação do Estado na esfera da organização urbana,
[01:30:59] enfim, no turismo, etc.
[01:31:01] Mas ela também é uma tecnologia
[01:31:03] que dificulta a própria execução da política fiscal do Estado, né?
[01:31:08] Ela vai blindando o capital de qualquer tipo de interferência social.
[01:31:13] E isso, no momento de transição,
[01:31:14] ela vai blindando o capital de qualquer tipo de intervenção demográfica
[01:31:16] com avanço tecnológico.
[01:31:19] Ou seja, você está com cada vez menos trabalhadores
[01:31:21] e com o processo de geração de desemprego estrutural muito acelerado
[01:31:25] e você precisa, cada vez mais,
[01:31:28] de uma intervenção estatal na repartição,
[01:31:32] na redistribuição desse excedente socialmente produzido,
[01:31:36] você vai perdendo essa capacidade.
[01:31:38] E esse é o desafio demográfico.
[01:31:40] É você ter capacidade de redistribuir esse excedente
[01:31:44] para os idosos, né?
[01:31:46] De forma minimamente justa.
[01:31:49] Senão a gente ia estar numa paranoia,
[01:31:51] numa maluquice de cada um por si.
[01:31:54] E aí você vai pegar o motorista
[01:31:56] de um sistema de capitalização maluco, imagina,
[01:31:59] a gente pegar esse motorista de Uber,
[01:32:01] se a gente tivesse sido aprovada a reforma do Paulo Guedes,
[01:32:03] que era uma capitalização restrita,
[01:32:05] era o fim da capitalização do sistema de repartição,
[01:32:08] o Estado não teria mais responsabilidade nenhuma.
[01:32:11] Nenhuma, praticamente nenhuma.
[01:32:12] Ótimo, né? Maravilhoso.
[01:32:13] Uma pessoa sensacional.
[01:32:15] É, como é que esse cara ia poupar grana pro futuro dele?
[01:32:18] Esse cara seria totalmente abandonado na velhice também,
[01:32:21] além de se fuder a vida toda.
[01:32:23] Sim, exatamente.
[01:32:25] Ele não teria aposentadoria nenhuma,
[01:32:26] ele ia se fuder na velhice.
[01:32:29] Em verde e amarelo, literalmente, inclusive.
[01:32:32] E sem o Estado ter nenhuma capacidade de,
[01:32:34] naquele momento, chegar lá e interferir em alguma coisa,
[01:32:37] fazer um processo de,
[01:32:39] um programa de repartição desse excedente,
[01:32:43] porque ele perdeu,
[01:32:43] ele perdeu o controle sobre as empresas,
[01:32:45] sobre o capital.
[01:32:47] A gente está perdendo o controle sobre o capital.
[01:32:49] Eu acho que, cada vez mais,
[01:32:52] a tecnologia está a favor disso.
[01:32:53] A gente perdeu o controle total
[01:32:55] sobre a dinâmica do capital.
[01:32:58] A dinâmica dele é cada vez mais autônoma
[01:33:02] em relação…
[01:33:04] A mediação que existe,
[01:33:06] ela vai se perdendo.
[01:33:08] Uma coisa interessante que você tinha falado,
[01:33:10] que você está falando que,
[01:33:13] o capital, isso, aquilo, tal, não sei o quê,
[01:33:16] a gente tem que lembrar mesmo que o capitalismo,
[01:33:18] na verdade, todas as coisas que a gente está comentando aqui,
[01:33:21] esse esquema das plataformas e a precarização do trabalho,
[01:33:25] elas são soluções para problemas,
[01:33:28] soluções entre muitas aspas,
[01:33:29] que o capitalismo oferece para problemas que ele mesmo criou.
[01:33:33] Então, é o capitalismo que cria essa urgência
[01:33:36] que a gente tem de serviço,
[01:33:37] tudo tem que ser imediato.
[01:33:39] É o capitalismo que cria essa massa de pessoas
[01:33:42] dispostas a fazer o que a gente quer,
[01:33:43] a gente tem que fazer o que a gente quer,
[01:33:43] a gente tem que aceitar qualquer tipo de trabalho,
[01:33:46] e aí ele oferece como pseudo-solução
[01:33:48] esse trabalho muito precário.
[01:33:50] Então, é um círculo que a gente não está conseguindo quebrar.
[01:33:53] Está muito complicado,
[01:33:54] porque o Estado não está entrando
[01:33:56] para fazer o que deveria fazer,
[01:33:58] e isso abre espaço para que esse capitalismo
[01:34:00] feroz, predador, predatório,
[01:34:03] entre com os seus tentáculos
[01:34:06] e invada todas as camadas da sociedade
[01:34:08] e está muito difícil,
[01:34:10] vai ficar cada vez mais difícil regular.
[01:34:12] Hoje a gente estava comentando,
[01:34:13] na Pistolândia, que é o nosso grupo de apoiadores,
[01:34:16] uma notícia que é de 2016,
[01:34:18] mas que foi puxada outra vez agora,
[01:34:21] essa semana,
[01:34:22] sobre a Mercedes fazendo os carros
[01:34:24] que se autodirigem,
[01:34:25] os carros com piloto automático lá e tal,
[01:34:28] e que, até agora,
[01:34:30] o que tinha impedido esses carros
[01:34:31] de serem colocados no comércio
[01:34:32] é a questão ética.
[01:34:34] Porque se você fizer um carro
[01:34:35] que, para salvar a vida de quem está lá dentro,
[01:34:38] que presumivelmente é o dono do carro,
[01:34:40] no caso de um acidente que está para acontecer,
[01:34:42] o carro faz os cálculos e ele fala,
[01:34:44] olha, para salvar a pessoa que está dentro do carro,
[01:34:46] eu tenho que subir na calçada e matar três pessoas
[01:34:48] estando no ponto de ônibus.
[01:34:49] Qual seria a resposta correta,
[01:34:52] do ponto de vista ético, numa situação dessas?
[01:34:54] Aí você fala, sei lá, de repente,
[01:34:56] poupar o motorista porque é uma pessoa só,
[01:34:59] tipo, você mata o motorista,
[01:35:00] que é uma pessoa só para poupar a vida de três pessoas.
[01:35:02] Só que a pessoa que compra um carro desses,
[01:35:04] ela não vai comprar um carro que ela sabe
[01:35:06] que numa situação dessas
[01:35:08] vai matar ela.
[01:35:10] Claro que não, não é seguro para ela,
[01:35:12] ela quer que se foda as pessoas estando no ponto de ônibus.
[01:35:14] O que ela quer é ela sobreviver, né?
[01:35:16] Então fica uma coisa predatória
[01:35:17] de todos os pontos de vista, o tempo todo,
[01:35:20] é briga de cachorro mesmo,
[01:35:23] é todo mundo lutando por migalhas,
[01:35:26] quem quiser, quem tiver mais força,
[01:35:29] quem tiver mais adaptado é aquele que se dá bem,
[01:35:31] isso porque você está retirando o Estado
[01:35:34] e até pela dificuldade mesmo de acompanhar, né?
[01:35:36] Não tem nenhuma legislação que regule uma coisa dessas.
[01:35:39] Em nenhum país está equipado
[01:35:41] do ponto de vista jurídico
[01:35:42] para legislar num caso desses.
[01:35:45] Não tem nada que fale
[01:35:47] o que você faz com um carro que se autodirige, né?
[01:35:50] E aí como não tem o Estado,
[01:35:51] entra o capitalismo e caga tudo.
[01:35:54] É, esse exemplo seu é ótimo, né?
[01:35:56] Que você mostrou como que
[01:35:58] o ótimo para um indivíduo
[01:36:01] ele é prejudicial para um todo, né?
[01:36:05] Sim.
[01:36:06] Como que cada um maximizando a sua própria utilidade,
[01:36:09] que é o que a gente fala em economia,
[01:36:11] pode não levar um ótimo social, né?
[01:36:14] Como que essa perseguição pelo próprio bem-estar
[01:36:17] pode ser prejudicial como um todo.
[01:36:20] E como esse tipo de economia que está se moldando,
[01:36:24] ele reforça o individualismo
[01:36:26] em detrimento do coletivo,
[01:36:28] do nosso contrato social.
[01:36:30] A gente está voltando a uma coisa de selva, né?
[01:36:32] É, exatamente.
[01:36:33] Eu vou no carro sozinho,
[01:36:35] porque aí eu não falo com ninguém,
[01:36:36] não encosto em ninguém.
[01:36:37] Tem até aquela opção agora que estavam para lançar,
[01:36:39] não sei se foi realmente lançada, né?
[01:36:41] Pagar um pouco a mais para o motorista não falar com você, né?
[01:36:44] Para o motorista de Uber não falar contigo.
[01:36:46] É um negócio muito louco, cara.
[01:36:48] Realmente é um troço muito maluco.
[01:36:50] Mas aí você fica pensando também que
[01:36:51] se por um lado…
[01:36:53] Se por um lado, não.
[01:36:54] Tudo corrobora a mesma coisa, né?
[01:36:56] Essa coisa do indivíduo.
[01:36:57] Isso é uma coisa que se vocês ouvirem
[01:36:59] o nosso episódio que já está antigo, né?
[01:37:02] Digamos assim, né?
[01:37:02] Primeira temporada, por assim dizer.
[01:37:04] Com a Sabrina sobre lixo, plástico e reciclagem.
[01:37:07] Com a Sabrina Fernandes e a Anakaru.
[01:37:10] Foi falado…
[01:37:11] Foi batido muito nessa tecla.
[01:37:12] Não adianta, tipo, ah, eu vou boicotar o Uber agora.
[01:37:15] Não é isso que vai resolver, né?
[01:37:17] Nós, enquanto indivíduos,
[01:37:18] nós somos responsáveis em parte
[01:37:20] pela existência dessa empresa, né?
[01:37:22] Ela só existe porque a gente está usando, obviamente.
[01:37:25] Mas, na verdade,
[01:37:26] quem criou essa necessidade foi a própria empresa.
[01:37:28] A gente não sabia que a gente queria Uber.
[01:37:30] Até a Uber existir e inventar essa coisa.
[01:37:32] A gente estava vivendo tranquilamente sem.
[01:37:34] E foi criada essa necessidade,
[01:37:36] que também é uma coisa típica do capitalismo.
[01:37:38] A gente caiu que nem um patinho porque
[01:37:39] as condições eram todas propícias.
[01:37:42] Mas, assim como nós, individualmente,
[01:37:44] não somos o problema,
[01:37:46] nós, individualmente, também não vamos ser a solução.
[01:37:49] Não vai ser eu boicotando o Uber
[01:37:50] que vai resolver o problema, né?
[01:37:53] É o sistema todo que está cagado.
[01:37:55] Não sou eu usando o Uber que vou…
[01:37:58] Usando ou deixando de usar
[01:37:59] que vou piorar ou melhorar o problema, né?
[01:38:02] É uma coisa realmente estrutural.
[01:38:04] Muito mais complicada do que
[01:38:05] só euzinha chamando o motorista, né?
[01:38:07] É, você tem que ter uma organização social,
[01:38:09] para pensar em saídas coletivas
[01:38:13] para um problema que é coletivo.
[01:38:16] É importante pensar…
[01:38:18] Porque eu vejo muito voluntarismo, né?
[01:38:20] As pessoas falam, pô,
[01:38:22] eu não vou andar de Uber.
[01:38:24] A culpa é de vocês
[01:38:26] que ficam usando aí o Uber, né?
[01:38:29] É essa lógica assistente para tudo, né?
[01:38:32] A culpa é de quem toma banho mais…
[01:38:33] Sim, a maconha.
[01:38:34] É, a culpa é de quem toma banho mais de 10 minutos.
[01:38:37] De quem usa canudo de plástico,
[01:38:39] né?
[01:38:40] É, que não tem painel solar em casa.
[01:38:42] Ou a culpa do agro
[01:38:44] é de quem consome a carne,
[01:38:47] que o agro…
[01:38:48] Por isso que eles estão destruindo o meio ambiente,
[01:38:50] porque as pessoas consomem carne.
[01:38:52] É, essas soluções são…
[01:38:55] É, parecem interessantes.
[01:38:57] Eu acho que até traz um conforto
[01:38:58] para quem…
[01:38:59] Definitivamente. Eu me sinto ótima quando eu uso
[01:39:01] o meu canudinho de inox.
[01:39:03] É, traz um conforto.
[01:39:05] Mas não resolve, né?
[01:39:06] Mas não resolve. Você vai se sentir melhor.
[01:39:08] Mas isso está…
[01:39:09] Para longe de resolver
[01:39:11] a questão que é estrutural.
[01:39:15] Então, eu acho que a gente tem que pensar
[01:39:16] em novas formas de participação
[01:39:18] social nessas esferas
[01:39:21] que a gente está cada vez mais distante.
[01:39:23] Só uma coisinha rápida
[01:39:25] que você falou, que eu achei muito interessante.
[01:39:27] Você estava falando, né? Como o capitalismo
[01:39:28] ele cria crises
[01:39:30] e ele sai da crise…
[01:39:32] E a gente vem de uma solução…
[01:39:33] É, aprofundando as próprias contradições que levaram ele a essa crise.
[01:39:37] Né?
[01:39:38] É, o feedback…
[01:39:38] O feedback…
[01:39:39] Positivo, assim.
[01:39:40] Ele reforça ele mesmo, né?
[01:39:41] É, e isso, por exemplo,
[01:39:43] rapidamente, ó.
[01:39:44] Por exemplo, eu vou dizer uma crise em 2008
[01:39:46] que tem muito a ver com a financiarização
[01:39:48] da economia
[01:39:50] na área da habitação
[01:39:51] e ligada diretamente com os fundos de pensão.
[01:39:55] Sim.
[01:39:55] Com a mercantilização generalizada,
[01:39:57] com a financiarização generalizada
[01:39:59] da Previdência Social.
[01:40:00] Que eles não têm, por exemplo, nos Estados Unidos.
[01:40:03] Então, os fundos de pensão, eles são centrais
[01:40:05] para o processo…
[01:40:06] Para todo o processo de financiarização,
[01:40:07] todos esses recursos, eles são generalizados.
[01:40:09] Generalizados.
[01:40:09] Para instrumentos financeiros,
[01:40:12] para produtos financeiros altamente criminosos e fraudulentos.
[01:40:17] Mas a essência dessa crise está ali, ó.
[01:40:19] Por exemplo, nos fundos de pensão,
[01:40:20] que começa um processo de regulamentação ainda na década de 80.
[01:40:24] E vai se manifestar em crise.
[01:40:26] Como é que o…
[01:40:27] Quando a crise se manifesta, as taxas de lucro despertam
[01:40:31] e o capitalismo busca recuperar essas taxas de lucro.
[01:40:33] Como que é a solução, por exemplo, do capitalismo
[01:40:36] para a crise que ele mesmo criou?
[01:40:37] E que tem muito a ver, por exemplo,
[01:40:39] com a financiarização dos fundos de pensão.
[01:40:41] Você fazer reformas da Previdência na periferia do sistema,
[01:40:46] mercantilizando a Previdência Social de países, por exemplo, como o Brasil.
[01:40:50] Então, a própria contradição que levou à crise,
[01:40:54] eles aprofundam para sair da crise.
[01:40:57] Então, você vai criando novas bolhas
[01:40:59] que uma hora ou outra vai explodir.
[01:41:02] Então, a Previdência aconteceu isso, exatamente.
[01:41:05] Você teve um processo de crise econômica,
[01:41:08] no capitalismo central.
[01:41:12] E o capitalismo, tentando sair da crise,
[01:41:14] isso não é coincidência de forma alguma,
[01:41:16] ele vai empurrando uma série de reformas estruturais
[01:41:19] na periferia do sistema.
[01:41:21] E, por exemplo, o Brasil, agora, nesse exato momento,
[01:41:23] está a reboque dessa estratégia de financiarização de tudo.
[01:41:27] É a mesma coisa para o mercado de trabalho.
[01:41:29] Você cria uma crise imensa de desemprego
[01:41:31] para reformular radicalmente o seu mercado de trabalho.
[01:41:35] Então, a mobilização da economia
[01:41:37] vai se tornando cada vez mais legítima.
[01:41:38] De acordo com a nossa legislação trabalhista.
[01:41:41] A nossa legislação trabalhista está se adequando à uberização.
[01:41:46] Há passos lentos, mas daqui a pouco a gente não vai ter mais nada.
[01:41:50] O contrato verde e amarelo é quase isso.
[01:41:52] Enfim, você vai tendo novas rodadas de reformas trabalhistas.
[01:41:58] Isso vai ser enlouquecedor nos próximos anos
[01:42:00] se a gente continuar com os governos neoliberais.
[01:42:03] Nesse ritmo, né?
[01:42:04] É.
[01:42:04] Você vai adequar cada vez mais a sua legislação
[01:42:07] às necessidades da uberização.
[01:42:08] E não o contrário.
[01:42:10] Por isso que eu sou pessimista.
[01:42:13] Tem uma história que é muito rápida, tá?
[01:42:16] Que eu já sei que a gente já estudou todo o tempo.
[01:42:19] Não tem problema, que o papo está ótimo.
[01:42:21] Milton Friedman,
[01:42:23] talvez um dos pais do neoliberalismo,
[01:42:27] que ele foi essencial
[01:42:29] para o primeiro modelo de neoliberalismo
[01:42:33] que foi o chileno.
[01:42:35] Foi uma ditadura sanguinária, etc.
[01:42:37] Um ano antes dele morrer,
[01:42:38] em 2005,
[01:42:40] teve o furacão Katrina.
[01:42:41] Sim, nossa.
[01:42:42] Ele dá uma entrevista que é sintomática.
[01:42:45] As escolas foram destruídas,
[01:42:47] as escolas públicas.
[01:42:48] E ele fala o seguinte,
[01:42:49] olha, foi uma tragédia,
[01:42:51] mas é uma bela oportunidade
[01:42:52] para reconstruirmos o nosso sistema educacional, tá?
[01:42:57] Então, essa destruição, para eles,
[01:43:00] ela tem um potencial de reformular
[01:43:03] a estrutura econômica
[01:43:06] para buscar cada vez mais mercado em tudo.
[01:43:08] Então, como para ele
[01:43:10] era uma bela oportunidade
[01:43:12] de você, já está destruída,
[01:43:15] as escolas públicas já estão destruídas,
[01:43:16] então a gente abre
[01:43:17] um sistema totalmente privado.
[01:43:22] Você precisa destruir a saúde pública
[01:43:24] para você vender plano de saúde privado.
[01:43:26] Você precisa destruir a educação pública
[01:43:28] para vender o privado.
[01:43:30] Você precisa destruir a previdência social
[01:43:32] para vender fundos de previdência privada
[01:43:34] do Itaú, do Bradesco, dos grandes bancos.
[01:43:36] Se você tiver transporte público,
[01:43:38] você prejudica um pouco
[01:43:40] do processo de urbanização.
[01:43:42] Se você tiver emprego garantido pelo Estado,
[01:43:45] você impede que as plataformas
[01:43:49] explorem em um nível muito grotesco.
[01:43:52] Você não vai impedir tudo,
[01:43:53] mas você vai determinar uma régua.
[01:43:55] Então, essa disputa política,
[01:43:58] ela é constante,
[01:43:59] o capital tentando sair da crise,
[01:44:01] ele vai destruindo os resquícios
[01:44:04] de Estado de bem-estar social,
[01:44:05] os resquícios de regulação trabalhista,
[01:44:08] os resquícios de regulação ambiental.
[01:44:12] Que merda, né?
[01:44:13] Então, fica a dica do He-Man para vocês hoje, gente.
[01:44:15] O capitalismo é um cu, tá?
[01:44:17] Aí, imaginem o He-Man montando no jet ski
[01:44:19] e indo embora, assim.
[01:44:19] Amiguinhos, o capitalismo é uma merda.
[01:44:21] Hoje aprendemos que o capitalismo é uma merda.
[01:44:23] Todos esses problemas vêm do capitalismo.
[01:44:26] E se você acha que você é empreendedor
[01:44:29] ou se você acha que você é supercapitalista
[01:44:32] porque você tem o famoso Honda Civic,
[01:44:34] você está errado,
[01:44:35] porque você não possui os meios de produção,
[01:44:37] então você não é capitalista,
[01:44:39] você está vendendo a sua força de trabalho,
[01:44:41] logo, você é fudido pelo capitalismo também.
[01:44:44] Davi, você quer falar mais alguma coisa
[01:44:46] que você acha que a gente deixou de fora
[01:44:47] antes da gente passar para as dicas culturais?
[01:44:50] É, eu acho que…
[01:44:50] Eu acho que a gente cobrou tudo direitinho.
[01:44:52] Eu acho que a gente falou sobre bastante coisa,
[01:44:54] é um assunto muito amplo,
[01:44:55] mas eu acho que deu para pensar bastante, né,
[01:44:59] nesses problemas.
[01:45:00] Depois o pessoal manda mensagem, né?
[01:45:02] Sim, certamente.
[01:45:03] Eu acho que, como é uma coisa muito nova,
[01:45:06] é legal.
[01:45:07] As pessoas começaram a pensar em soluções.
[01:45:10] Sim, sim.
[01:45:11] Falar o que que…
[01:45:12] A gente não pensa nisso, né?
[01:45:14] É.
[01:45:15] Inclusive até para você conversar com o seu motorista de Uber,
[01:45:17] quando ele falar para você,
[01:45:18] não, porra, tá legal,
[01:45:20] você fala, olha só,
[01:45:21] você não tem direito de trabalhar nisso,
[01:45:22] o que acontece se você bater no teu carro
[01:45:24] e ficar sem trabalhar?
[01:45:25] Eu já tive essa conversa algumas vezes
[01:45:27] e já aconteceu no motorista ficar mudo, assim,
[01:45:29] porque ele nunca tinha parado para pensar nisso
[01:45:31] e não sabia o que responder.
[01:45:32] É, quanto que ele perde,
[01:45:33] quanto que a Uber perde.
[01:45:34] Aproveitem.
[01:45:35] Se ele bater de carro e ficar…
[01:45:36] Seis meses com o gesso no pé,
[01:45:38] quanto que ele perde?
[01:45:39] Exatamente.
[01:45:40] Quanto que a Uber vai perder?
[01:45:42] Exatamente, né?
[01:45:43] Então, fica aí a reflexão.
[01:45:45] Plantem sementinhas na cabeça dos seus motoristas.
[01:45:48] Eu peço desculpas pelo Thiago,
[01:45:50] que teve que sair,
[01:45:51] ele está enrolado no trabalho
[01:45:52] porque ele trabalha com TI,
[01:45:53] agora é época de Natal,
[01:45:54] está tudo cagado,
[01:45:55] ele foi chamado de emergência
[01:45:57] para resolver um babado lá.
[01:46:00] Então, vamos entrar nós dois
[01:46:01] na balada do pistoleiro,
[01:46:02] que é a nossa sessão de dicas culturais.
[01:46:04] Você chegou a separar alguma coisa aí
[01:46:06] para dar de dica para a gente?
[01:46:08] Eu não separei,
[01:46:09] mas eu pensei aqui agora,
[01:46:10] tem um livro interessante,
[01:46:13] pode ser um livro, né?
[01:46:14] Por exemplo…
[01:46:14] Pode ser qualquer coisa que você quiser.
[01:46:16] É, tem dois livros aí
[01:46:18] que eu gostaria de recomendar.
[01:46:20] Manda ver.
[01:46:21] O primeiro é o do David Graeber,
[01:46:23] é um antropólogo,
[01:46:25] ele escreveu um livro muito interessante,
[01:46:27] que é Tive de 5 mil anos,
[01:46:28] é um livro super gostoso,
[01:46:30] vende em qualquer loja de aeroporto,
[01:46:32] banca de jornal,
[01:46:33] já virou um best-seller.
[01:46:36] É um livro bem interessante
[01:46:39] e eu acho que ele dá algumas dicas,
[01:46:42] é um livro um pouco, talvez, pessimista,
[01:46:45] mas ele dá algumas dicas ali
[01:46:47] de como a gente pode repensar
[01:46:49] nas nossas formas de organização social
[01:46:52] a partir de uma leitura nova
[01:46:54] do que é o dinheiro de fato,
[01:46:56] do que são as dívidas
[01:46:57] e todo esse processo que a gente discutiu aqui,
[01:47:01] ele aborda no livro dele
[01:47:03] de uma maneira muito interessante,
[01:47:05] muito clara,
[01:47:06] muito gostosa,
[01:47:06] eu acho que é um livro bem interessante
[01:47:09] para a gente repensar o que é dinheiro,
[01:47:11] como a gente se organiza socialmente,
[01:47:14] de como existe um mito,
[01:47:16] como que o mito econômico ortodoxo
[01:47:20] ele deixa isso tudo muito turvo,
[01:47:22] as nossas relações,
[01:47:23] elas ficam muito turvas,
[01:47:25] o mito do livre mercado,
[01:47:29] o mito de que o dinheiro surge
[01:47:31] a partir da nossa propensão individual
[01:47:35] a barganhar o ódio,
[01:47:36] como o indivíduo propenso a trocar
[01:47:38] essas coisas,
[01:47:40] ele como antropólogo vai esclarecendo
[01:47:42] ao longo do livro,
[01:47:43] não é nada de muito novo,
[01:47:47] mas é um trabalho de divulgação
[01:47:48] científica interessante.
[01:47:51] Para quem nunca parou para pensar nisso,
[01:47:53] é sempre uma boa, né?
[01:47:54] É, eu acho que é bem interessante
[01:47:56] porque ele faz uma coletânea de coisas
[01:47:58] que os economistas,
[01:48:00] principalmente os economistas,
[01:48:03] não pensam,
[01:48:04] não pensam.
[01:48:05] E eu acho muito importante
[01:48:10] para economistas, especialmente,
[01:48:13] que não sabem nada
[01:48:15] do que ele está falando ali
[01:48:16] e repetem um monte de baboseira
[01:48:19] e é importante ter essa visão
[01:48:21] de um antropólogo sobre a economia.
[01:48:23] Eu acho que isso é bem importante
[01:48:25] para também quem gosta de economia
[01:48:27] e para quem acha que sabe tudo de economia,
[01:48:30] estudou muito economia,
[01:48:32] é importante ler esse livro
[01:48:33] para perceber como a gente não sabe nada
[01:48:35] sobre dinheiro e mercado.
[01:48:37] Ótimo.
[01:48:38] Outra coisa, aí, já para quem quiser
[01:48:40] se aprofundar no tema,
[01:48:41] tem o livro do Ricardo Antunes,
[01:48:43] O Privilégio da Servidão,
[01:48:45] o novo proletariado
[01:48:47] de serviços na era digital.
[01:48:50] Eu acho que ele tem uma pegada
[01:48:51] mais estrutural
[01:48:53] do que o livro da uberização que você falou antes.
[01:48:56] Eu tinha lido esse livro,
[01:48:57] eu li esse livro tem uns dois anos,
[01:49:00] é um livro mais descritivo, né?
[01:49:02] Sim, sim.
[01:49:03] É um livro mais descritivo.
[01:49:05] O Ricardo Antunes, ele vai mais na raiz do problema.
[01:49:09] Então, eu acho que é bem complementar, assim,
[01:49:12] o Ricardo Antunes faz a gente pensar mais
[01:49:14] nas questões estruturais
[01:49:17] do que a gente está chamando aqui de uberização,
[01:49:20] como que isso é o próprio capital,
[01:49:22] o velho e o próprio capital
[01:49:23] manifestando as suas contradições
[01:49:26] em uma outra especificidade histórica do capitalismo.
[01:49:29] Eu acho que é bem rico,
[01:49:30] uma leitura bem rica para a gente pensar
[01:49:32] nesses novos desafios, né?
[01:49:34] Acho que a gente tem que…
[01:49:35] Ah, e a gente está imerso nesse tipo de economia,
[01:49:37] a gente precisa saber como ela funciona,
[01:49:39] precisa saber o que ela implica,
[01:49:40] que consequências ela tem,
[01:49:41] não dá para a gente fingir
[01:49:42] que isso tudo é alheio a gente,
[01:49:45] porque não é, né?
[01:49:46] Quem que não pega uber?
[01:49:47] Quem que não fica no Airbnb quando viaja?
[01:49:49] Quem que não pede um negócio pelo Rappi, pelo iFood?
[01:49:52] A gente não consegue mais fugir disso,
[01:49:54] então a gente tem que saber como isso funciona
[01:49:55] e que consequências isso tem, né?
[01:49:57] Exato.
[01:49:57] Para a gente poder entender o que precisa mudar,
[01:49:59] senão a gente fica eternamente nesse ciclo
[01:50:01] e não sai nunca.
[01:50:02] É, e é um desafio muito grande pensar nisso,
[01:50:05] porque, por exemplo, na economia
[01:50:07] é uma coisa que não é abordada, sabe?
[01:50:10] Economista, por exemplo, não pensa nisso,
[01:50:12] parece que é uma simples coisa
[01:50:15] que surge no mercado, oferta e demanda.
[01:50:18] Tem gente querendo o serviço do Uber,
[01:50:22] o cara está querendo ofertar o serviço dele,
[01:50:25] eles vão se encontrar no mercado e pronto,
[01:50:27] é só isso, nada de mais,
[01:50:29] é algo positivo, enfim.
[01:50:32] Todas as partes estão de acordo, né?
[01:50:34] Cientes e de acordo.
[01:50:35] Todas as partes estão de acordo.
[01:50:35] É um contrato estabelecido no mercado,
[01:50:38] oferta e demanda e vai lá.
[01:50:40] É uma leitura muito pobre que os economistas têm
[01:50:43] da nossa especificidade histórica.
[01:50:47] É uma leitura muito pobre,
[01:50:48] é uma leitura muito pobre e é difícil.
[01:50:52] Eu gosto muito mais de ler as pessoas das outras áreas.
[01:50:55] Eu, como economista, me sinto bem decepcionado
[01:50:59] com a minha profissão nesses debates tão importantes, né?
[01:51:03] Quando a gente debate Previdência,
[01:51:05] a única coisa que aparece no noticiário
[01:51:07] é como reduzir o benefício do cara, entendeu?
[01:51:12] Como fazer o cara trabalhar mais
[01:51:13] e como reduzir o benefício do cara.
[01:51:15] São os dois debates, olha.
[01:51:17] A gente tem que fazer uma regra de cálculo
[01:51:19] para o cara ganhar menos,
[01:51:21] uma outra regra de cálculo para ele pagar mais
[01:51:23] e uma outra regra para ele se aposentar mais tarde.
[01:51:26] Esse é o tripé do debate dos caras.
[01:51:30] É um negócio muito pobre
[01:51:32] e aí a gente precisa das pessoas das outras áreas,
[01:51:35] entrando no debate,
[01:51:36] porque é quando qualificam o nosso, né?
[01:51:39] A galera da sociologia,
[01:51:41] a galera do jornalismo,
[01:51:43] essa galera tem que começar a discutir urgentemente,
[01:51:47] os historiadores discutirem urgentemente economista,
[01:51:50] tomar a economia da mão dos economistas,
[01:51:53] porque senão a gente está ferrado.
[01:51:56] Lerei.
[01:51:57] Eu já tinha ouvido falar bastante desse livro,
[01:51:59] ele está bem badalado, assim,
[01:52:01] nas internets esquerdopatas,
[01:52:05] só comenta bastante, assim,
[01:52:06] e eu agora vou colocá-lo seriamente na lista e lerei.
[01:52:10] É, e ele tem falado sobre tudo também.
[01:52:11] Tá, mais alguma dica?
[01:52:13] Não, eu acho que é essa.
[01:52:14] Essas são dicas…
[01:52:16] Beleza.
[01:52:17] Eu mudei de ideia,
[01:52:18] eu ia dar de dica um livro que não tem nada a ver.
[01:52:22] Eu não terminei ele ainda,
[01:52:23] então eu vou dar ele como dica no próximo episódio, talvez.
[01:52:26] E eu vou mudar aqui
[01:52:28] e vou dar como dica cultural
[01:52:30] o livro da Silvia Federici,
[01:52:33] que é Mulheres e Caçadores,
[01:52:35] Caças Bruxas, se não me engano a tradução,
[01:52:37] que é uma espécie,
[01:52:39] não exatamente um resuminho,
[01:52:40] mas ele é um pequeno adendo
[01:52:42] ao Caliban e à Bruxa,
[01:52:44] que foi um outro livro dela que eu li esse ano,
[01:52:45] que já é mais antigo, né?
[01:52:47] O Mulheres e a Caça às Bruxas é mais recente.
[01:52:49] É um livro super curtinho, é fácil de ler,
[01:52:52] ela escreve muito bem
[01:52:53] e dá muitos exemplos interessantes.
[01:52:56] O meu está todo sublinhado, todo marcado.
[01:52:58] Eu provavelmente vou gravar sobre ele um outro podcast,
[01:53:01] mas estamos sem data ainda, então não vou falar nada.
[01:53:03] E ele, em parte,
[01:53:04] toca um pouco isso que a gente estava falando hoje,
[01:53:06] porque quando você fala dessa massa
[01:53:09] de pessoas que precisam
[01:53:11] estar na merda para poder aceitar qualquer trabalho,
[01:53:13] bosta, e isso é necessário
[01:53:15] para a manutenção do capitalismo,
[01:53:17] essa massa não vem do nada,
[01:53:19] ela não vem do espaço, né?
[01:53:20] Quem gera essa massa de pessoas são as mulheres, né?
[01:53:23] Então isso faz parte do trabalho
[01:53:24] reprodutivo da mulher, que é uma coisa que a Federici
[01:53:26] martela muito nos livros dela,
[01:53:28] é um conceito que eu nunca tinha ouvido falar
[01:53:30] até pouco tempo atrás, assim, do ponto de vista teórico,
[01:53:33] eu não estudo teoria,
[01:53:34] do feminismo, então era uma coisa que eu tinha
[01:53:36] observado, mas não tinha organizado na minha cabeça
[01:53:39] direito, e ler esses livros foi muito
[01:53:40] iluminador para mim, né?
[01:53:43] Para entender que tem um nome isso,
[01:53:44] isso tem uma função social, não é por
[01:53:47] nada que essa função é relegada a gente,
[01:53:49] não é por nada que a gente
[01:53:50] se sente culpada quando não quer ter filho,
[01:53:53] né? Que a mulher que não tem filho
[01:53:54] é vista de uma maneira diferente na sociedade,
[01:53:57] não é à toa,
[01:53:58] isso tem um motivo por trás disso, né?
[01:54:00] A sociedade, o capitalismo principalmente,
[01:54:03] precisa da gente para
[01:54:04] reproduzir, para aumentar a massa
[01:54:06] de pessoas que precisam de um emprego,
[01:54:09] né? E lembrando que a gente precisa do
[01:54:10] emprego, que a gente
[01:54:11] vem da nossa força de trabalho,
[01:54:14] para fazer coisas que a gente
[01:54:16] normalmente não consegue comprar,
[01:54:18] né? E em troca disso a gente ganha um dinheiro
[01:54:20] com o qual a gente não consegue pagar por essas
[01:54:22] coisas que a gente produziu, é um sistema muito
[01:54:24] injusto, muito maluco,
[01:54:26] mas para ele se manter
[01:54:28] precisa ter uma certa massa de pessoas,
[01:54:30] e essa massa de pessoas
[01:54:32] fica sob responsabilidade da mulher,
[01:54:34] então tem um pouco a ver
[01:54:36] com o que a gente estava falando hoje, é um livro
[01:54:38] curtinho, a edição brasileira
[01:54:40] é lindíssima, tem ilustrações
[01:54:42] maravilhosas, saiu pela Boitempo,
[01:54:44] e é lindo o livro, eu até
[01:54:46] acho que até vou abrir uma exceção e comprar ele em português,
[01:54:48] normalmente eu gosto das coisas na língua
[01:54:50] original, o que eu li está em inglês,
[01:54:52] mas eu acho que eu vou comprar em português também, porque
[01:54:54] está linda a edição, e
[01:54:56] vale muito a pena ler, muito mesmo,
[01:54:59] várias fichas cairão,
[01:55:00] eu vou ouvir daqui as fichas caindo,
[01:55:02] porque você aprende um monte,
[01:55:04] de coisa que normalmente você não
[01:55:06] pensaria, e tem a ver com o que a gente
[01:55:08] está falando aqui hoje também,
[01:55:10] então vale muito a pena ver,
[01:55:12] eu não sei se o Thiago depois vai inserir a dica
[01:55:14] dele mais tarde, mas de qualquer maneira,
[01:55:16] Oi,
[01:55:18] olha, você chegou,
[01:55:20] eu acabei de voltar,
[01:55:21] então fala a sua balada do pistoleiro que nós já acabamos,
[01:55:24] ah meu Deus, eu tive uma emergência
[01:55:26] aqui, tive que abandonar a gravação, mas
[01:55:28] me desculpem por isso,
[01:55:30] mas eu vou deixar todo mundo com uma música
[01:55:32] incrivelmente grude na cabeça,
[01:55:34] porque a minha dica…
[01:55:36] Puta que pariu, você e essas dicas
[01:55:38] que grudam, desgraçada.
[01:55:39] Então, a minha dica
[01:55:41] para esse episódio
[01:55:44] é um documentário
[01:55:46] da Vice, a Vice
[01:55:48] tem uma série de
[01:55:50] reportagens que eles
[01:55:52] chamam de
[01:55:53] A Verdadeira História de…
[01:55:56] e aí tem sobre uma cacetada de coisas,
[01:55:59] e esse que eu estou recomendando
[01:56:00] é A Verdadeira História de
[01:56:02] Blue,
[01:56:04] Blue é uma…
[01:56:06] um dance, um Eurodance de
[01:56:08] 99 de Eiffel 65,
[01:56:11] que provavelmente
[01:56:12] estará tocando aqui no fundo
[01:56:14] nesse momento…
[01:56:34] , então…
[01:56:40] e é um documentário de 25 minutos
[01:56:44] que está no YouTube produzido pela Vice
[01:56:46] sobre a história dessa música
[01:56:48] e de como ela…
[01:56:51] como isso apareceu e como
[01:56:52] isso nada faz sentido, e aquela
[01:56:54] loucura do final dos anos 90
[01:56:56] e tal, e é muito curioso,
[01:56:58] inclusive eles são italianos de uma cidadezinha
[01:57:00] de 5 mil habitantes,
[01:57:03] e
[01:57:04] e assim,
[01:57:06] dá pra se divertir um pouquinho e você vai ficar
[01:57:08] com essa música durante uma vida inteira
[01:57:10] na sua cabeça. Obrigada,
[01:57:12] tô super feliz, ótima maneira de fechar.
[01:57:14] Para!
[01:57:17] Chega!
[01:57:19] Não quero, eu não vou ouvir,
[01:57:21] eu só vou ouvir quando sair o episódio.
[01:57:23] Vamos para o Jabás,
[01:57:25] então, Davi, se alguém quiser acatar você
[01:57:27] onde que te encontra, por onde que você
[01:57:29] fala as suas coisas,
[01:57:31] fala aí.
[01:57:32] Eu tô meio…
[01:57:34] ultrapassado, eu tô na era
[01:57:36] pré-obulização ainda, nas redes sociais.
[01:57:39] Eu uso mais o Facebook,
[01:57:40] meu nome é David DeCache,
[01:57:42] há pouco tempo que eu comecei a…
[01:57:44] O Twitter eu uso mais pra ler o que as pessoas
[01:57:47] escrevem do que para escrever.
[01:57:49] Mas foi por lá que a gente entrou em contato com você,
[01:57:51] então tá funcionando, se alguém quiser
[01:57:52] fazer alguma pergunta, pode ser?
[01:57:55] Tá, mas eu vou botar teu perfil
[01:57:57] do Face aqui então.
[01:57:58] Beleza, mais alguma coisa?
[01:57:59] Obrigado aí, foi um prazer enorme
[01:58:01] bater um papo com vocês, super interessante.
[01:58:03] Nossa, o papo foi ótimo.
[01:58:04] Eu tô até com sede de tanto que eu falei.
[01:58:06] Eu acho que rendeu
[01:58:07] uma conversa boa demais,
[01:58:10] foi um prazer enorme.
[01:58:12] Prazer foi todo nosso, muito obrigada por
[01:58:14] disponibilizar esse tempo, eu não tô conseguindo
[01:58:16] falar, né? Toda vez que eu falo disponibilizar
[01:58:18] a língua enrola.
[01:58:20] Muito obrigada mesmo, foi ótimo
[01:58:22] o papo, mais uma sugestão
[01:58:25] de convidado acertadíssima do seu Tiago,
[01:58:27] que é o nosso caçador de convidados,
[01:58:29] ele investiga e eu acedi,
[01:58:31] funciona assim.
[01:58:31] E mais uma vez, mais uma vez
[01:58:34] deu super certo, então obrigada mesmo
[01:58:36] de verdade, foi ótimo. Quem quiser
[01:58:38] falar com a gente, vocês já sabem, é
[01:58:39] arroba Pistolando Pode, tanto no Twitter
[01:58:42] quanto no Instagram, mandem e-mail que a gente
[01:58:44] gosta, contato arroba pistolando.com
[01:58:46] nosso site maravilhino
[01:58:48] do pistolando.com
[01:58:50] sem BR, parceria com a Veste Esquerda
[01:58:52] vai no site da vestesquerda.com.br
[01:58:55] compra sua
[01:58:56] camiseta esquerda opata linda, maravilhosa
[01:58:58] tem uma mais linda que a outra
[01:59:00] e usa o cupom de desconto Pistola10
[01:59:02] pra você ganhar 10% de desconto.
[01:59:04] Quando forem compartilhar esse episódio
[01:59:06] que eu sei que vocês vão compartilhar, que vocês são ótimos,
[01:59:09] compartilhe com a hashtag
[01:59:10] Mulheres Podcasters, que aí
[01:59:12] quem estiver procurando mulheres que produzem conteúdo
[01:59:14] vai achar com mais facilidade
[01:59:16] e também com a hashtag
[01:59:18] Pode Antifa, porque a gente
[01:59:20] é orgulhosamente membro da
[01:59:22] podosfera antifascista.
[01:59:24] Se vocês googlarem, vocês vão achar outros
[01:59:26] programas bem bacanas, é um pessoal muito
[01:59:28] legal. Ah, e outra coisa, obviamente, né
[01:59:30] catarse.me barra
[01:59:32] pistolando, patreon.com
[01:59:34] barra pistolando pra quem estiver fora do Brasil
[01:59:36] se vocês acharem que a gente merece
[01:59:38] alguns caraminguais mensais
[01:59:40] pelo trabalho que a gente vem fazendo
[01:59:42] por aqui. Seu Thiago, esqueceu de alguma coisa?
[01:59:44] Acho que não, né? Tô completinho. Eu creio que não.
[01:59:46] Eu creio que não. Então, então, vambora.
[01:59:48] Então, vamos, vamos. Pessoal, já que vocês falaram de antifascista
[01:59:50] é só registrar aqui minha solidariedade
[01:59:52] à torcida Botafogo
[01:59:54] antifascista. Ah, garoto.
[01:59:56] Que teve sua faixa retirada.
[01:59:58] No estádio do Botafogo
[02:00:00] pela Polícia Militar.
[02:00:02] Era uma faixa Botafogo antifascista com o nome
[02:00:04] da torcida. E a Polícia Militar
[02:00:06] tirou essa faixa porque
[02:00:08] não seria permitido
[02:00:10] manifestações políticas.
[02:00:13] Ah, gente. Ah, tomando o cu, sinceramente.
[02:00:15] É, eu já cansei de falar aqui
[02:00:16] quem acha que política e futebol não se
[02:00:18] misturam ou não entende nada
[02:00:20] de política ou não entende nada de futebol.
[02:00:22] Provavelmente não entende nada das duas.
[02:00:25] Das duas. Davi, fica aqui
[02:00:26] a dica pra você. A gente tem dois episódios
[02:00:28] sobre desmilitarização da Polícia Militar
[02:00:30] com o Luiz Eduardo Soares, que não é por nada
[02:00:32] não, mas ficaram bem legais.
[02:00:34] Ouve lá e
[02:00:36] depois diz o que você achou.
[02:00:38] Ótimo. Obrigado pela dica, pessoal.
[02:00:41] Muito obrigada, viu?
[02:00:42] De verdade. Foi ótimo. Boa noite.
[02:00:44] Tchau, tchau. Eu que agradeço.
[02:00:46] Tchau, tchau.