Uberização da economia, plataformização do emprego


Resumo

O episódio discute o fenômeno da “uberização” da economia e da “plataformização” do emprego, com foco em como empresas como Uber, iFood, Rappi e Airbnb utilizam tecnologias digitais para reorganizar e precarizar as relações de trabalho. Os participantes analisam como essas plataformas se apresentam como parte de uma “economia do compartilhamento” benéfica, mas na realidade operam como mecanismos de superexploração, onde o trabalhador arca com todos os custos (veículo, equipamentos, manutenção) e riscos, enquanto a empresa intermedia sem vínculo empregatício, direitos trabalhistas ou responsabilidades.

A conversa explora a “gamificação” do trabalho, onde sistemas de avaliação, bônus e promoções mantêm o trabalhador permanentemente disponível e subordinado à plataforma, criando uma sensação falsa de liberdade e empreendedorismo. Discute-se também como a crise econômica brasileira, com alto desemprego e informalidade, criou o terreno fértil para a expansão desses modelos, que se aproveitam da falta de alternativas para oferecer trabalhos extremamente precários como única opção de subsistência.

Além dos impactos trabalhistas, o episódio aborda as consequências urbanas e sociais mais amplas, como a perda de capacidade de planejamento coletivo (ex.: transporte público, direito à moradia) e a dificuldade de regulação e tributação dessas plataformas transnacionais. São mencionados casos como o Airbnb, que transforma moradias em hotéis informais, contribuindo para a gentrificação e a perda de arrecadação pública.

Por fim, são discutidas possíveis soluções e resistências, como a necessidade de o Estado atuar como empregador de última instância para estabelecer um piso de direitos, a importância de gerar empregos formais de qualidade para alterar a correlação de forças, e exemplos de organização e greves de trabalhadores de plataforma, apesar dos enormes desafios impostos pela heterogeneidade e pelo individualismo fomentado por esses modelos.


Indicações

Books

  • Uberização (Tom Slee) — Livro citado como uma crítica contundente ao funcionamento das plataformas digitais, que provoca indignação ao revelar as “cascatas de merda” por trás dos serviços aparentemente convenientes.
  • O Privilégio da Servidão (Ricardo Antunes) — Recomendado por Davide Cachi como uma análise mais estrutural da uberização, enxergando o fenômeno como uma manifestação das contradições do capitalismo em sua face mais cruel na era digital.
  • Dívida: Os Primeiros 5000 Anos (David Graeber) — Livro recomendado por Davide Cachi para repensar as formas de organização social, o mito do livre mercado e a natureza do dinheiro a partir de uma perspectiva antropológica, qualificando o debate econômico.
  • Mulheres e Caça às Bruxas (Silvia Federici) — Recomendado por Thiago, é descrito como um adendo a “Caliban e a Bruxa”, abordando o trabalho reprodutivo das mulheres e sua função crucial na geração da massa de trabalhadores necessária para a manutenção do capitalismo, tema que se conecta à discussão sobre a uberização.

Documentaries

  • Gig — Documentário exibido em um evento da UTFPR mencionado por Thiago, que aborda a precarização do trabalho por plataformas, começando com o exemplo de uma diarista que se submete a condições abusivas para manter boas avaliações.
  • A Verdadeira História de Blue (Vice) — Documentário de 25 minutos recomendado por Thiago sobre a música “Blue” do Eiffel 65, descrito como uma curiosidade divertida sobre a loucura do final dos anos 90.

Linha do Tempo

  • 00:01:00Introdução ao tema da uberização da economia — Davide Cachi se apresenta como economista e anuncia que o episódio discutirá a “uberização da economia” e a “plataformização do emprego”. Ele menciona o livro “Uberização” de Tom Slee, que critica essas plataformas, e adianta que a conversa abordará definições, consequências e quem realmente lucra com esse modelo.
  • 00:05:16Diferença entre economia do compartilhamento e uberização — Os participantes diferenciam a genuína economia do compartilhamento (como bibliotecas ou caronas solidárias) da “uberização”, que usa a tecnologia para uma nova forma de organização, gerenciamento e controle do trabalhador a favor da superexploração. A uberização é caracterizada pela precarização, ausência de direitos trabalhistas e uma relação disfarçada de parceria onde o trabalhador arca com todos os custos.
  • 00:10:41Gamificação, avaliações e submissão do trabalhador — A conversa aborda como as plataformas usam mecanismos de gamificação (bônus, metas) e sistemas de avaliação para controlar e submeter o trabalhador. O exemplo de uma diarista contratada via aplicativo ilustra como ela se torna “prisioneira das avaliações”, sendo forçada a aceitar condições abusivas para não receber notas ruins que a impediriam de conseguir novos trabalhos.
  • 00:17:45Por que a uberização deu tão certo no Brasil — Analisa-se o sucesso da Uber e similares no Brasil, vinculando-o à profunda crise econômica e de desemprego a partir de 2015. A plataforma surge como “única opção” para uma massa de desempregados, aproveitando-se também da cultura já existente de trabalho informal (“bico”) e da popularização de smartphones e internet móvel acessível.
  • 00:39:47Desafios para a organização dos trabalhadores de plataforma — Discute-se a enorme dificuldade de organização sindical e greve entre trabalhadores de aplicativos devido à heterogeneidade dos perfis, ao individualismo fomentado pela plataforma e à dinâmica do próprio aplicativo, que aumenta os preços (e a remuneração) para quem furar a greve, desincentivando a ação coletiva.
  • 00:56:49Possíveis soluções: Estado como empregador de última instância — Davide Cachi propõe que uma solução mais concreta e urgente do que tentar regulamentar cada plataforma seria o Estado atuar como “empregador de última instância”, garantindo empregos formais com direitos básicos. Isso estabeleceria um piso salarial e de condições que forçaria as plataformas a melhorarem suas ofertas, além de atacar diretamente o desemprego estrutural.
  • 00:57:43Impactos urbanos do Airbnb e perda de controle social — A discussão se expande para plataformas como o Airbnb, analisando seus impactos na gentrificação, no aumento do custo da moradia e na perda da capacidade da sociedade de planejar coletivamente as cidades. A plataforma dificulta a tributação e a regulação, esvaziando áreas residenciais para transformá-las em hotéis informais, com consequências para a arrecadação pública e o direito à moradia.
  • 01:20:13Como plataformas não lucrativas sobrevivem e o valor dos dados — Questiona-se como empresas como a Uber, que muitas vezes não dão lucro operacional, conseguem se manter. A resposta aponta para a valorização de suas ações no mercado financeiro, baseada na expectativa de lucros futuros (ex.: carros autônomos) e, crucialmente, para o imenso valor dos dados que coletam sobre os hábitos de deslocamento e consumo dos usuários, um ativo ainda pouco regulado.
  • 01:26:02Uberização, Previdência Social e a crise da regulação — A conversa conecta a uberização à crise da Previdência Social. A precarização e a informalidade dificultam a arrecadação de contribuições, enquanto a tecnologia permite que o capital gere valor com menos trabalhadores e escape da tributação. Conclui-se que a uberização é uma tecnologia que “blinda o capital” de qualquer interferência social ou fiscal, aprofundando as desigualdades em um momento de transição demográfica.

Dados do Episódio

  • Podcast: Pistolando Podcast
  • Autor: Leticia Dáquer e Thiago Corrêa
  • Categoria: News Politics News News Commentary
  • Publicado: 2019-12-27T02:46:16Z
  • Duração: 02:00:39

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] A CIDADE NO BRASIL

[00:00:30] A CIDADE NO BRASIL

[00:01:00] Meu nome é Davide Cachi, eu sou economista e vou bater um papo com vocês hoje sobre vários assuntos

[00:01:06] e principalmente sobre a tal da uberização da economia.

[00:01:11] Que diabo é isso?

[00:01:12] Que diabo é isso?

[00:01:13] Esse episódio, ele está na fila já tem um maior tempão.

[00:01:17] A gente estava, a gente não, não é o seu Tiago, estava sentado em cima dele chocando esse episódio

[00:01:21] esperando sair uma determinada notícia que nós comentaremos em algum momento.

[00:01:26] Mas era uma coisa que a gente queria comentar.

[00:01:29] Já tem bastante tempo, a gente leu aquele livro Uberização da Economia.

[00:01:33] Se chama Uberização da Economia em português, Tiago?

[00:01:35] Do Tom Slee, isso.

[00:01:36] Isso, do Tom Slee. É só Uberização mesmo.

[00:01:38] O nome em inglês é mais legal, né?

[00:01:40] Que é o que é meu é meu, o que é seu é nosso.

[00:01:43] É, é muito bom, muito bom. Descreve bastante a situação.

[00:01:47] E esse livro é um daqueles livros que você fica com ódio, né?

[00:01:50] Você vai lendo, você vai ficando com ódio, querendo jogar o livro na parede,

[00:01:53] querendo socar empresários na rua,

[00:01:56] porque você vai vendo a cascata de merda,

[00:01:59] que são essas plataformas, né?

[00:02:01] E que todos nós usamos no dia a dia.

[00:02:04] E você fica, cara, né?

[00:02:05] Só que é uma coisa super ampla,

[00:02:08] é um funcionamento que parece muito fácil,

[00:02:11] óbvio, simples e funcional e benéfico para todo mundo.

[00:02:13] E não é assim.

[00:02:14] Como os podres estão começando a aparecer agora, né?

[00:02:16] Já teve ciclista do rap que morreu, infartado na rua.

[00:02:20] Já teve, né? Teve um negócio desse tipo.

[00:02:23] Então, o pessoal está começando a pensar um pouquinho mais

[00:02:25] e abrir um pouquinho mais os olhos para o que realmente está acontecendo.

[00:02:29] Então, a gente vai falar sobre isso.

[00:02:30] O que é, não só a uberização, mas essa plataformização, né?

[00:02:35] Porque uber é a mais conhecida, talvez a maior, mas não é a única.

[00:02:38] Que consequências isso tem?

[00:02:40] Quem que ganha dinheiro com isso?

[00:02:42] Se é que alguém ganha dinheiro com isso?

[00:02:44] E por aí vai.

[00:02:46] Então, o assunto hoje é esse aí.

[00:02:48] Uberização e plataformização.

[00:02:51] Quer começar, Davi, dando uma panorâmica geral?

[00:02:55] É, eu acho que é o seguinte.

[00:02:57] É um termo que,

[00:02:59] mesmo quem estuda o tema,

[00:03:01] usa com definições diferentes para situações diferentes.

[00:03:06] É algo muito novo.

[00:03:09] O próprio livro que você falou,

[00:03:12] ele tem uma pegada um pouco diferente, por exemplo,

[00:03:15] de uns trabalhos que também são legais,

[00:03:17] por exemplo, do Ricardo Antunes.

[00:03:19] Ele enxerga que esse processo de uberização

[00:03:24] é a manifestação de algo muito mais estrutural

[00:03:28] e que é do próprio capitalismo

[00:03:31] na sua face mais cruel se manifestando.

[00:03:34] Então, é novo e não é essa dialética do capitalismo

[00:03:38] em sua forma mais cruel, né?

[00:03:43] E o engraçado da gente pensar

[00:03:47] do quanto isso é novo e do quanto não é

[00:03:49] é que há muito tempo que a gente não via

[00:03:52] a galera entregando as coisas de bicicleta, né?

[00:03:55] Sim.

[00:03:56] É um negócio interessante.

[00:03:57] Era uma coisa antiga, né?

[00:04:01] No Rio, o pessoal entrega aqueles galões de água, gelo, né?

[00:04:07] Mas não tem muita coisa além disso, né?

[00:04:09] Sim, era bem raro.

[00:04:10] São umas paradas bem específicas, assim, é.

[00:04:12] Eu lembro que, na década de 90,

[00:04:15] tinham joguinhos que a gente jogava com o menininho

[00:04:18] entregando o jornal, né?

[00:04:19] Paperboy, era muito bom.

[00:04:21] Paperboy.

[00:04:23] Então, é um negócio da década de 80.

[00:04:26] Os garotos entregando ali as coisas de bicicleta,

[00:04:29] coisas do tipo, né?

[00:04:31] Então, por um lado, é algo super tecnológico

[00:04:35] no sentido de organização, gerenciamento, controle do trabalho,

[00:04:40] e de outro, são trabalhos pouquíssimos sofisticados,

[00:04:44] que é quase que o ser humano,

[00:04:47] aquela coisa bem animal, né?

[00:04:52] De você usar toda a força física, né?

[00:04:56] É um negócio muito contraditório,

[00:04:58] e cada um usa o termo uberização de uma forma,

[00:05:02] e eu acho que melhor do que ficar tentando definir o termo

[00:05:05] é conversar sobre o fenômeno que é essa tal de uberização

[00:05:10] e descobrir nessa conversa o que é isso.

[00:05:12] Eu acho que vai ser um caminho melhor.

[00:05:14] Tá, como é que começou isso aí?

[00:05:16] Porque tem essa coisa da economia compartilhada, né?

[00:05:19] A gente tem essa ilusão que o seu motorista, na verdade,

[00:05:23] está te dando uma carona e você está dando uma ajudinha de custo,

[00:05:25] para ele.

[00:05:26] Tem essa romantização da coisa, né?

[00:05:29] É, exato.

[00:05:30] Mas como é que começou isso?

[00:05:32] Exato.

[00:05:33] Isso era onde eu queria chegar, exatamente.

[00:05:36] A gente nem combinou.

[00:05:38] Dentre as confusões de termos,

[00:05:41] muita gente trata a economia do compartilhamento

[00:05:45] como sinônimo de uberização também, né?

[00:05:48] Economia do compartilhamento é algo super legal

[00:05:50] e também não é muito novo.

[00:05:51] Por exemplo, uma biblioteca pública é economia do compartilhamento.

[00:05:55] Os aplicativos que, de fato, fazem com que você saia de casa

[00:06:00] e dê carona para os seus vizinhos que estão indo para o mesmo lugar

[00:06:04] é algo bem interessante.

[00:06:06] É sustentável.

[00:06:08] É bem legal.

[00:06:09] Isso está no sentido da economia do compartilhamento.

[00:06:12] Tem alguns aplicativos bacanas também.

[00:06:15] Sei lá, você precisa de uma furadeira.

[00:06:17] E aí tem alguém que tem uma furadeira em casa

[00:06:20] e você busca na casa do cara e faz o seu serviço e devolve.

[00:06:24] Porque você não vai ficar usando aquilo a vida inteira.

[00:06:27] Vai usar uma vez e nunca mais.

[00:06:29] Então não tem porque a gente ficar consumindo um monte de treco

[00:06:33] e acumulando tudo em casa

[00:06:35] se essas coisas podem ser compartilhadas.

[00:06:37] A uberização se confunde um pouco com isso.

[00:06:40] Porque as empresas tentam apresentá-la assim.

[00:06:45] Mas, na verdade, o que eu estou chamando de uberização aqui particularmente

[00:06:50] são as novas tecnologias.

[00:06:54] São tecnologias da informação a serviço de uma nova forma de organização

[00:07:00] de gerenciamento e controle do trabalhador.

[00:07:03] Então são tecnologias a favor da superexploração do trabalho

[00:07:10] de uma exploração ainda mais acentuada do trabalhador

[00:07:14] que se torna, para ele, ele é um empreendedor de si mesmo

[00:07:19] para a empresa.

[00:07:21] Lá na folha, lá na contabilidade da empresa.

[00:07:24] Ele é alguém que está dando lucro como um trabalhador qualquer

[00:07:27] sem nenhum direito trabalhista.

[00:07:30] Está disponível permanentemente ali no seu aplicativo.

[00:07:34] Também tem uma coisa que é meio que…

[00:07:36] Os aplicativos viram meio que um game.

[00:07:39] O trabalhador começa a ficar vidrado naquilo

[00:07:43] porque a empresa vai…

[00:07:45] As plataformas digitais dessa economia uberizada

[00:07:52] elas vão estimulando o cara a se tornarem presos ao aplicativo

[00:07:56] porque quanto mais tempo ele passa ali

[00:07:58] mais promoções ele pode ganhar.

[00:08:00] Então se ele fizer 100 corridas ao invés de 80

[00:08:04] ele ganha 50 reais no final do dia.

[00:08:06] Se ele não desligar o aplicativo durante não sei quantos dias

[00:08:10] ele vai ganhar ao invés de 25% ele vai ganhar 30% em cada corrida.

[00:08:15] Então aquilo vai preguendo o cara de uma forma que ele não consegue perceber.

[00:08:20] Então quando ele percebe

[00:08:22] ele está totalmente sob controle da plataforma

[00:08:26] sempre disponível

[00:08:28] sem nenhum tipo de relação ou de vínculo ou de proteção

[00:08:32] numa situação de total servidão.

[00:08:36] Então é uma tecnologia.

[00:08:38] São tecnologias a favor da precarização

[00:08:41] que se confunde até com uma servidão do próprio trabalhador

[00:08:45] a essas empresas transnacionais

[00:08:49] que oferecem algo que se confunde com a economia do compartilhamento

[00:08:54] que é algo bom e não é novo.

[00:08:56] E o que é interessante no sentido de uma merda

[00:09:01] é que todo mundo sabe

[00:09:03] a Uber é a maior empresa de táxi do mundo

[00:09:08] mesmo sem possuir nenhum carro.

[00:09:10] Então eles realmente só fazem a intermediação

[00:09:14] a única coisa que eles fazem é colocar em contato

[00:09:16] o motorista com quem está procurando o carro.

[00:09:19] E mais nada.

[00:09:20] E mesmo assim acaba virando um gigante da área.

[00:09:23] Então é uma coisa muito diferente.

[00:09:25] E quanto a esse lance da servidão que você estava falando

[00:09:28] eu estive em um evento na UTF-PR

[00:09:30] tem umas semanas ainda em Curitiba

[00:09:33] que foi super interessante

[00:09:35] e falaram de um monte de coisa que o livro, por exemplo, não menciona

[00:09:38] e que eu não tinha parado para pensar muito.

[00:09:40] E uma das coisas que eles tinham mencionado

[00:09:43] era que até nas sociedades escravagistas e feudais

[00:09:46] quem trabalhava era mantido

[00:09:48] por quem detinha os meios.

[00:09:50] O dono da terra lá, o senhor ou whatever

[00:09:53] dava comida, dava inchada

[00:09:56] para as pessoas trabalharem.

[00:09:58] E essa coisa dessas plataformas

[00:10:02] principalmente Uber e Rappi e por aí vai

[00:10:04] a pessoa, tudo é dela.

[00:10:06] Ela entra com tudo.

[00:10:08] A empresa não arca com absolutamente nada.

[00:10:10] Então o carro é dele, todas as despesas são dele

[00:10:12] a bicicleta é dele, o capacete é dele, tudo dele.

[00:10:14] Se você vai fazer um negócio, por exemplo, para o iFood

[00:10:17] você tem que comprar a mochila do iFood

[00:10:19] porque as mochilas são padronizadas e tal.

[00:10:21] Sim, tudo.

[00:10:23] É um negócio muito louco.

[00:10:25] É muito diferente do que a gente está acostumado.

[00:10:28] Porque normalmente você trabalha em uma empresa que tem uniforme

[00:10:30] a empresa te dá o uniforme.

[00:10:32] E ali não tem nada disso.

[00:10:34] Então é um nível de precarização muito bizarro.

[00:10:38] E uma outra coisa que eles comentaram é o fato de que

[00:10:41] e aí eu vou entrar em uma outra coisa específica

[00:10:43] que tem um pouco a ver com essa gamificação também

[00:10:45] e é Super Black Mirror.

[00:10:47] Que é essa coisa da avaliação

[00:10:49] que você acaba, é como se você tivesse

[00:10:51] um zilhão de chefes.

[00:10:53] Exato.

[00:10:54] Porque todo mundo está de olho em você

[00:10:56] mas não tem uma figura centralizada.

[00:10:58] Você não consegue falar com ninguém, é um negócio complicado.

[00:11:00] E todo mundo está de olho em você e o teu desempenho

[00:11:02] depende do que todas as pessoas falam.

[00:11:04] Se o cara não foi com a outra cara

[00:11:06] ou apertou o botão errado sem querer

[00:11:08] e te deu uma estrela, você está fodido.

[00:11:10] Exato. Antes de pesquisar sobre o assunto

[00:11:13] mais a fundo, eu baixei um aplicativo.

[00:11:16] Porque eu estava procurando

[00:11:18] tiaristas

[00:11:20] para contratar

[00:11:22] e era um negócio meio urgente

[00:11:24] sabe, para o mesmo dia.

[00:11:26] E aí eu fui, entrei na internet

[00:11:28] e vi que tinha um aplicativo para

[00:11:30] fazer esse tipo de intermediação.

[00:11:32] Porque quando a gente está falando de uberização

[00:11:34] a Uber acabou se tornando o símbolo

[00:11:36] dessa nova forma de organização do trabalho.

[00:11:40] Mas a uberização é muito alentista.

[00:11:42] Tanto é que ele falou agora, o Thiago falou agora

[00:11:44] há pouco tempo

[00:11:45] que o livro foi traduzido para o Brasil

[00:11:47] com o nome de uberização

[00:11:49] mas não era esse o nome.

[00:11:51] Porque uberização é

[00:11:53] porque a Uber é a empresa mais sintomática

[00:11:55] nesse sentido.

[00:11:57] É onde você vê de forma mais clara

[00:11:59] a subordinação do trabalhador

[00:12:01] esse processo de gamificação

[00:12:03] como ele não tem

[00:12:05] nenhum tipo de proteção trabalhista

[00:12:07] de como é difícil criar legislações

[00:12:09] que consigam

[00:12:11] abraçar esse trabalhador.

[00:12:13] Eu fui contratar uma tiarista

[00:12:15] e eu olhei no

[00:12:17] baixei o aplicativo

[00:12:19] e aí no aplicativo você poderia contratar

[00:12:21] a tiarista por

[00:12:23] quatro ou oito horas

[00:12:25] uma tiara ou meia tiara

[00:12:27] e aí você via lá os comentários

[00:12:29] das pessoas e

[00:12:31] automaticamente o critério para a gente

[00:12:33] contratar são as avaliações.

[00:12:35] Então

[00:12:37] essa tiarista ela se torna

[00:12:39] prisioneira das avaliações

[00:12:41] porque se ela tiver uma avaliação ruim

[00:12:43] automaticamente ela

[00:12:45] vai estar perdida ali na plataforma

[00:12:47] obviamente.

[00:12:49] E aí eu contratei

[00:12:51] uma tiarista

[00:12:53] nesse aplicativo

[00:12:55] numa situação de urgência

[00:12:57] e perguntei a ela como é que funciona isso

[00:12:59] ela falou

[00:13:01] o problema é que às vezes contratam a gente

[00:13:03] com meia tiara e pedem serviços

[00:13:05] que são impossíveis de você fazer

[00:13:07] em meio período

[00:13:09] que você precisava de um período inteiro

[00:13:11] só que você tem que fazer

[00:13:13] senão os caras alopram

[00:13:15] na hora de avaliar

[00:13:17] uma vez me contrataram para fazer uma

[00:13:19] faxina numa casa muito grande

[00:13:21] no Lago Sul

[00:13:23] que é uma região muito nobre de Brasília

[00:13:25] e

[00:13:27] me contrataram por meio período

[00:13:29] e aí obviamente

[00:13:31] eu não conseguia fazer tudo

[00:13:33] e a minha única avaliação que não é muito legal

[00:13:35] é a deles

[00:13:37] porque era algo impossível

[00:13:39] só que a gente tenta

[00:13:41] porque se não conseguir

[00:13:43] eles descem o pau

[00:13:45] e ninguém me contrata

[00:13:47] e te dá nota

[00:13:49] então o trabalhador

[00:13:51] é altamente controlado

[00:13:53] e tem que arcar com a passagem

[00:13:55] com a alimentação

[00:13:57] todos os custos

[00:13:59] é do trabalhador

[00:14:01] e você estava falando que antigamente

[00:14:03] até o escravo

[00:14:05] tinha alguma responsabilidade

[00:14:07] existia algum tipo de

[00:14:09] relação de responsabilidade

[00:14:11] de cooperação de fato

[00:14:13] a uberização tem uma característica

[00:14:15] muito curiosa que ela chama o trabalhador

[00:14:17] de colaborador, de parceiro

[00:14:19] ou coisas do tipo

[00:14:21] isso é tão ridículo

[00:14:23] e aí é uma parceria que o cara entra com tudo

[00:14:25] com a força de trabalho dele

[00:14:27] o cara banca a alimentação dele

[00:14:29] o cara cobre todos os x

[00:14:31] se você está dirigindo uber

[00:14:33] se você bate com o seu carro e fica um mês

[00:14:35] em casa parado

[00:14:37] ou seja, sem dinheiro para pagar o aluguel

[00:14:39] a escola dos filhos

[00:14:41] enfim, de comprar comida

[00:14:43] ele não passa só

[00:14:45] por uma romantização

[00:14:47] da relação

[00:14:49] que existe ali

[00:14:51] não sei se você concorda

[00:14:53] estou só jogando ideias aqui

[00:14:55] mas eu acho

[00:14:57] me incomoda muito esse termo

[00:14:59] porque ele também

[00:15:01] se traduz em um afastamento

[00:15:03] das duas partes

[00:15:05] para não vincular uma relação

[00:15:07] de trabalho mesmo

[00:15:09] você

[00:15:11] colocou o nosso aplicativo

[00:15:13] no seu celular

[00:15:15] você fez o cadastro

[00:15:17] você está aqui porque você quer

[00:15:19] e joga numa relação de precarização

[00:15:21] quase

[00:15:23] chantageosa

[00:15:25] exato

[00:15:27] é uma tecnologia

[00:15:29] que trabalha em prol

[00:15:31] da violação de qualquer tipo de

[00:15:33] regulação trabalhista

[00:15:35] eu acho que esse é o grande plano

[00:15:37] esse é o núcleo duro

[00:15:39] da uberização

[00:15:41] ela joga contra qualquer forma

[00:15:43] a violação trabalhista

[00:15:45] que é muito difícil você organizar

[00:15:47] trabalhadores por aplicativos

[00:15:49] trabalhadores que também

[00:15:51] dificilmente se veem como trabalhadores

[00:15:53] eles começam a se enxergar

[00:15:55] como empreendedores

[00:15:57] como empreendedores livres

[00:15:59] essa coisa do empreendedorismo

[00:16:01] é muito forte

[00:16:03] a empresa nas mensagens

[00:16:05] ela vai dialogando o tempo todo

[00:16:07] com trabalhador por mensagens

[00:16:09] promoções etc

[00:16:11] esse sujeito neoliberal

[00:16:13] esse indivíduo

[00:16:15] como um empreendedor

[00:16:17] que está ali

[00:16:19] numa parceria

[00:16:21] com critérios bem definidos

[00:16:23] o critério é o seguinte

[00:16:25] ele paga gasolina 35%

[00:16:27] eu fiz uma pesquisa há um tempo atrás

[00:16:29] os motoristas de uber

[00:16:31] por exemplo

[00:16:33] o cara gasta 35%

[00:16:35] do que ele ganha com manutenção

[00:16:37] e gasolina para o carro

[00:16:39] caraca

[00:16:41] quando eu comecei a fazer essa pesquisa

[00:16:43] eu fui entrevistando

[00:16:45] porque muitos deles

[00:16:47] não conseguem calcular

[00:16:49] o custo total

[00:16:51] que ele tem

[00:16:53] a depreciação do veículo

[00:16:55] muitos não levam essas coisas em consideração

[00:16:57] então o cara fica trabalhando

[00:16:59] seis meses, três meses

[00:17:01] perdendo dinheiro

[00:17:03] porque ele não sabe fazer

[00:17:05] esse tipo de conta

[00:17:07] o cara está desempregado

[00:17:09] e a única saída dele é

[00:17:11] 25% de

[00:17:13] depreciação, gasolina, etc

[00:17:15] mais 25% para o uber

[00:17:17] é muita coisa

[00:17:19] é muita coisa

[00:17:21] fora todos os riscos

[00:17:23] que ele tem diariamente

[00:17:25] segurança pública no Brasil

[00:17:27] é precária

[00:17:29] as ruas são muito mal estruturadas

[00:17:31] então o cara quebra o carro toda hora

[00:17:33] tem que ficar sem trabalhar

[00:17:35] então enquanto o carro está consertando

[00:17:37] ele tem que pagar o conserto

[00:17:39] e ele ainda tem um custo de oportunidade porque ele não pode trabalhar

[00:17:41] é uma situação bem difícil

[00:17:43] e aí eu acho que a gente entra

[00:17:45] no segundo aspecto

[00:17:47] porque essa galera está se submetendo a isso

[00:17:49] especialmente no Brasil

[00:17:51] um sexto de todos os motoristas de uber

[00:17:53] estão no Brasil

[00:17:55] isso é um dado

[00:17:57] de 2017

[00:17:59] isso é muito forte no Brasil

[00:18:01] e eu acho que é legal tentar entender

[00:18:03] porque a uber

[00:18:05] deu tão certo no país

[00:18:07] principalmente nos últimos

[00:18:09] 4 ou 5 anos

[00:18:11] é legal entender isso

[00:18:13] por fim, só para fechar aqui um negócio que ele tinha falado

[00:18:15] o cara que se vê como colaborador

[00:18:17] também tem um negócio interessante

[00:18:19] pode ser uma percepção equivocada

[00:18:21] minha, mas

[00:18:23] o cara da uber foi estabelecido

[00:18:25] numa falsa dicotomia

[00:18:27] agora isso está ficando mais claro para eles

[00:18:29] que era, a uber colocava

[00:18:31] qual era o inimigo dele

[00:18:33] do trabalhador, do motorista de uber

[00:18:35] o inimigo dele era o estado

[00:18:37] porque o estado queria regular a uber

[00:18:39] e a uber falava para ele, olha

[00:18:41] se o estado se meter, se taxar

[00:18:43] a gente, se fizer qualquer coisa desse tipo

[00:18:45] você vai ganhar menos

[00:18:47] o estado quer proteger os taxistas

[00:18:49] o estado quer te ferrar, o estado é seu inimigo

[00:18:51] esse estado no Brasil

[00:18:53] é muito grande

[00:18:55] e aí no início, por exemplo, tinha muita manifestação

[00:18:57] dos motoristas de uber

[00:18:59] eles se organizavam para tentar

[00:19:01] defender a plataforma

[00:19:03] isso é uma coisa muito curiosa

[00:19:05] na história do capitalismo

[00:19:07] é um processo de alienação

[00:19:09] muito profunda

[00:19:11] com impactos políticos inclusive

[00:19:13] então ele começou a se enxergar

[00:19:15] mesmo como um parceiro da empresa

[00:19:17] e como parceiro da empresa

[00:19:19] como um sócio

[00:19:21] de uma grande empresa capitalista

[00:19:23] o estado era o inimigo maior dele

[00:19:25] que queria regular o troço

[00:19:27] que queria inventar a regulação trabalhista

[00:19:29] e que tudo isso ia diminuir o ganho dele

[00:19:31] e que se o estado não fosse tão grande

[00:19:33] no Brasil ele ia ganhar muito dinheiro

[00:19:35] então essa situação é curiosa também

[00:19:37] como que

[00:19:39] vai se forjando um sujeito

[00:19:41] com um nível de alienação

[00:19:43] em relação ao próprio trabalho

[00:19:45] que é brutal

[00:19:47] muito maior do que

[00:19:49] nos primórdios do capitalismo

[00:19:51] tem essa coisa da

[00:19:53] dessa mania

[00:19:55] do empreendedorismo e tal

[00:19:57] tem essa coisa de você trabalhar dessa forma

[00:19:59] ser vendida como liberdade

[00:20:01] é uma espécie de máscara

[00:20:03] que o sistema usa

[00:20:05] para esconder o fato

[00:20:07] de que na verdade está tudo uma merda

[00:20:09] então você fica achando que está ótimo

[00:20:11] tem essa espécie de verniz

[00:20:13] de pátina

[00:20:15] não, isso aí é liberdade para você

[00:20:17] você trabalha a hora que você quiser

[00:20:19] e a gente sabe que não é assim

[00:20:21] porque se você trabalhar a hora que você quiser

[00:20:23] você não paga as suas despesas

[00:20:25] e para as pessoas que estão desempregadas

[00:20:27] e a gente volta no segundo aspecto

[00:20:29] que você ia falar

[00:20:31] para as pessoas que estão desempregadas

[00:20:33] e não tem absolutamente nenhuma alternativa

[00:20:35] elas não podem trabalhar só quando elas quiserem

[00:20:37] elas tem que trabalhar muitas horas por dia

[00:20:39] para conseguir tirar alguma coisa

[00:20:41] 25% é o que fica com o Uber

[00:20:43] é muita coisa

[00:20:45] que você dá para a empresa

[00:20:47] lembrando que a empresa não dá nada

[00:20:49] para o motorista

[00:20:51] pouquíssimo suporte

[00:20:53] e zero ajuda de qualquer tipo

[00:20:55] e mais esses 35%

[00:20:57] que você fez essa conta aí

[00:20:59] de manutenção

[00:21:01] então cara

[00:21:03] é uma fachada só

[00:21:05] você é livre para trabalhar quando você quiser

[00:21:07] mas não é, a gente sabe que não é assim

[00:21:09] não é assim

[00:21:11] não é assim

[00:21:13] não é assim

[00:21:15] tem uma frase de Marx no século 19

[00:21:17] que ele fala que

[00:21:19] no capitalismo os trabalhadores

[00:21:21] são livres no duplo sentido

[00:21:23] que nem eles próprios

[00:21:25] pertencem imediatamente aos meios de produção

[00:21:27] como os escravos

[00:21:29] nem também os meios de produção

[00:21:31] lhe pertencem

[00:21:33] e isso fica ainda mais forte

[00:21:35] com essa nova

[00:21:37] forma de organização do trabalho

[00:21:39] mas ao mesmo tempo

[00:21:41] fica mais forte

[00:21:43] o grau de alienação

[00:21:45] também é muito maior

[00:21:47] e ele não consegue perceber isso

[00:21:49] ele não

[00:21:51] a plataforma

[00:21:53] que é o que faz com que

[00:21:55] o trabalho dele seja possível

[00:21:57] que ele se sente

[00:21:59] um colaborador

[00:22:01] ele acha, de alguma forma

[00:22:03] ele acha que aquele jogo, que aquele game

[00:22:05] porque tem esse processo

[00:22:07] meio de joguinho mesmo

[00:22:09] interessante

[00:22:11] ele acha que faz parte daquilo

[00:22:13] ele começa a se sentir um jogador

[00:22:15] uma peça importante

[00:22:17] daquele trabalho

[00:22:19] porque a empresa coloca ele como

[00:22:21] alguém que está construindo aquilo

[00:22:23] o tempo todo

[00:22:25] olha, parabéns, nesse ano

[00:22:27] no final do ano eles devem mandar umas mensagens

[00:22:29] desse ano nós conseguimos

[00:22:31] espantir a empresa

[00:22:33] você conseguiu

[00:22:35] colaborar com mais de

[00:22:37] não sei quantas mil pessoas

[00:22:39] que você levou de um lado para o outro

[00:22:41] e você ajudou a chegar

[00:22:43] então parece que ele está construindo

[00:22:45] aquela plataforma

[00:22:47] que nunca foi tão pouco dele

[00:22:49] cria um senso de pertencimento

[00:22:51] é, ele cria um senso

[00:22:53] de pertencimento

[00:22:55] e sempre com essa ideia de que

[00:22:57] ele tem que defender essa plataforma

[00:22:59] de toda intervenção estatal

[00:23:01] por exemplo

[00:23:03] agora isso não

[00:23:05] nesses últimos meses

[00:23:07] isso está mudando um pouco, mas no início

[00:23:09] era muito difícil, por exemplo

[00:23:11] trabalhar com motorista de Uber

[00:23:13] sobre regulações trabalhistas

[00:23:15] a gente não estava nem falando sobre

[00:23:17] ah

[00:23:19] taxar mais você e tal

[00:23:21] mas sim um contrato

[00:23:23] de trabalho básico ou algo assim

[00:23:25] os caras tinham pavor disso

[00:23:27] porque eles achavam que

[00:23:29] eles iam ganhar menos grana

[00:23:31] que ia prejudicar a empresa

[00:23:33] que era a lobby dos taxistas

[00:23:35] contra a empresa

[00:23:37] então eles se enxergavam

[00:23:39] eles tinham uma ideia de pertencimento

[00:23:41] a plataforma

[00:23:43] isso é complicado

[00:23:45] e eu acho que agora

[00:23:47] a gente chegou num nível tão

[00:23:49] bizarro de exploração

[00:23:51] que eles começaram a perceber

[00:23:53] e é um nível de exploração que há um ano atrás

[00:23:55] não existia também

[00:23:57] eu acho que nos dois últimos anos

[00:23:59] a coisa piorou bastante

[00:24:01] eu tenho conversado com os motoristas de aplicativo

[00:24:03] começou a subir

[00:24:05] a taxa de administração

[00:24:07] que é aquela parcela da Uber

[00:24:09] o número de promoções

[00:24:11] de benefícios começou a cair

[00:24:13] a coisa começou a ficar mais feia

[00:24:15] para eles, porque eu acho que

[00:24:17] esse processo de urbanização teve dois momentos

[00:24:19] o primeiro momento

[00:24:21] é aquele que a empresa chega

[00:24:23] na hora de uma grande crise econômica

[00:24:25] todo mundo desempregado

[00:24:27] sempre que o capital

[00:24:29] entra em crise

[00:24:31] ele busca sair da crise

[00:24:33] ele tem que sair da crise

[00:24:35] ele tem que descobrir novas formas

[00:24:37] de acumulação

[00:24:39] então ele tem que criar novas esferas de acumulação

[00:24:41] e criar antigas esferas

[00:24:43] então essas plataformas surgiram

[00:24:45] como uma solução

[00:24:47] e elas foram quebrando

[00:24:49] as formas tradicionais

[00:24:51] de se realizar

[00:24:53] esses tipos de serviços

[00:24:55] por exemplo táxi

[00:24:57] sempre existiu

[00:24:59] o motoboy da pizzaria

[00:25:01] que tinha carteira assinada e trabalhava

[00:25:03] sempre existiu

[00:25:05] o garoto que se fosse entregar

[00:25:07] de bicicleta

[00:25:09] na hora do almoço para um restaurante grande

[00:25:11] o restaurante teria que assinar a carteira dele

[00:25:13] porque senão ia tomar um pau

[00:25:15] na justiça do trabalho

[00:25:17] mas no início

[00:25:19] quando essas empresas surgem

[00:25:21] curiosamente

[00:25:23] alguns falavam

[00:25:25] não, mas eu ganho muito melhor

[00:25:27] com aplicativo do que um salário mínimo

[00:25:29] então no início tinha um certo atrativo

[00:25:31] eu lembro que muita gente falava

[00:25:33] que o uber pagava bem

[00:25:35] a propaganda do uber era assim

[00:25:37] ganha 4, 5 mil reais

[00:25:39] por mês

[00:25:41] o pessoal que tá mais tempo

[00:25:43] eu também sou uma que conversa sempre

[00:25:45] com os motoristas

[00:25:47] e todos eles falam

[00:25:49] o pessoal que tá lá desde o começo fala

[00:25:51] nossa mudou muito

[00:25:53] era muito bom de trabalhar

[00:25:55] você tirava uma grana boa

[00:25:57] não precisava ficar 15 horas atrás do volante

[00:25:59] e hoje em dia tem carro demais na rua

[00:26:01] e os valores mudaram também

[00:26:03] a gasolina aumentou

[00:26:05] uma série de coisas aconteceram

[00:26:07] que eles não conseguem mais tirar

[00:26:09] o que eles tiravam antes

[00:26:11] dirigindo desde o começo

[00:26:13] esse negócio da gasolina é um dos pontos

[00:26:15] que eles repetem muito

[00:26:17] e de novo

[00:26:19] a gasolina subiu por causa da crise ecológica

[00:26:21] e eu tô ganhando menos

[00:26:23] então tem sempre um fator exógeno

[00:26:25] a própria uber

[00:26:27] que faz com que eles pensem assim

[00:26:29] hoje mesmo andei com um cara no uber

[00:26:31] e tava questionando ele

[00:26:33] como que era, quanto tempo ele trabalha

[00:26:35] ele trabalha há muitos anos também

[00:26:37] já na uber

[00:26:39] ele não conseguiu ganhar dinheiro

[00:26:41] porque quebraram o país

[00:26:43] e agora a gasolina tá cara

[00:26:45] mas o PT?

[00:26:47] ele não falou isso, mas eu acho que era

[00:26:49] muito provavelmente

[00:26:51] e agora a gasolina tá muito cara ainda

[00:26:53] e aí ele não consegue

[00:26:55] ganhar dinheiro mais

[00:26:57] e já ganhou muito dinheiro

[00:26:59] e agora o país quebrou

[00:27:01] a gasolina ficou alta e ele não tá ganhando dinheiro

[00:27:03] não tem nada a ver com a exploração da uber

[00:27:05] porque depois que ela conseguiu se estabelecer

[00:27:07] depois que ela conseguiu

[00:27:09] se estabelecer e criar ali

[00:27:11] um cartel junto com

[00:27:13] os outros dois aplicativos

[00:27:15] que concorrem

[00:27:17] ela começou a esmagar o trabalhador

[00:27:19] e ela esmaga

[00:27:21] sem muita resistência, porque o cara tá muito ferrado

[00:27:23] nesse país que vive uma crise

[00:27:25] exatamente

[00:27:27] então vamos lá, vamos voltar lá porque você tinha mencionado

[00:27:29] antes, que era

[00:27:31] porque que tem tanta gente

[00:27:33] disposta a fazer esse tipo de trabalho

[00:27:35] no Brasil, porque que deu tão certo o uber no Brasil

[00:27:37] é, bom, essa crise

[00:27:39] que a gente vive agora

[00:27:41] a recessão de 2015 e 2016

[00:27:43] ela não foi a maior da história, ela foi a segunda maior

[00:27:45] na década de 80

[00:27:47] foi ainda pior

[00:27:49] mas é a recuperação mais lenta

[00:27:51] de toda a história econômica

[00:27:53] brasileira, ou seja

[00:27:55] ela foi profunda

[00:27:57] e é persistente, então

[00:27:59] o desemprego quando ele explodiu

[00:28:01] explodiu de forma muito rápida

[00:28:03] e geralmente depois que

[00:28:05] a gente passa por uma crise dessas

[00:28:07] é…

[00:28:09] o tempo é para você começar a entrar numa

[00:28:11] situação de

[00:28:13] não vou falar de normalidade, mas

[00:28:15] uma situação aceitável

[00:28:17] a gente não fez esse

[00:28:19] a gente ainda não teve esse ponto de inflexão

[00:28:21] o desemprego ele é persistente

[00:28:23] e a precarização do trabalho também

[00:28:25] e com tanto desemprego, com tanta precarização

[00:28:27] informalidade

[00:28:29] a uber

[00:28:31] se torna a única opção, né

[00:28:33] sempre que o capital entra em crise

[00:28:35] há uma tendência do capital

[00:28:37] não é uma coisa, quando eu to falando capital

[00:28:39] eu to falando em uma coisa

[00:28:41] em uma empresa que os caras se reúnem

[00:28:43] numa sala e falam, vamos fazer isso, isso e isso

[00:28:45] é o movimento da própria concorrência capitalista

[00:28:47] que empurra para isso

[00:28:49] busca novas formas de acumulação

[00:28:51] e de exploração do trabalho

[00:28:53] né

[00:28:55] então

[00:28:57] essas novas formas de exploração

[00:28:59] do trabalho que já existiam

[00:29:01] elas caem como uma luva

[00:29:03] no momento de crise

[00:29:05] do capital, então

[00:29:07] o capital ele começa a desenvolver mecanismos

[00:29:09] de aumento

[00:29:11] da mais-valia

[00:29:13] absoluta, ou seja, você chegar ali no chicote

[00:29:15] e fazer o cara trabalhar mais

[00:29:17] sabe, não é aumento de produtividade

[00:29:19] melhores máquinas

[00:29:21] serviços mais sofisticados, não

[00:29:23] é fazer o cara trabalhar

[00:29:25] em vez de 8

[00:29:27] 14 horas por dia

[00:29:29] ganhando um salário menor

[00:29:31] sem nenhum tipo de legislação trabalhista

[00:29:33] sem nenhum tipo de custo

[00:29:35] trabalhista

[00:29:37] e isso começa a se estender no Brasil

[00:29:39] para as profissões, a gente está falando de Uber aqui

[00:29:41] ou de domésticas

[00:29:43] mas

[00:29:45] isso vai começar a se estender para arquitetos

[00:29:47] para professores

[00:29:49] para advogados

[00:29:51] e vai se tornar uma coisa

[00:29:53] generalizada

[00:29:55] então essa crise do capital

[00:29:57] ela vai

[00:29:59] remodelar

[00:30:01] as formas de

[00:30:03] relação trabalhista

[00:30:05] a partir do

[00:30:07] uso da tecnologia para precarizar

[00:30:09] e quando você tem uma crise

[00:30:11] desse tamanho

[00:30:13] a tendência é essa

[00:30:15] e essa crise é persistente

[00:30:17] e conforme

[00:30:19] ela vai se prolongando

[00:30:21] maior é

[00:30:23] essa

[00:30:25] reestruturação

[00:30:27] das relações trabalhistas

[00:30:29] a gente está se organizando totalmente

[00:30:31] isso está se enraizando

[00:30:33] na nossa forma

[00:30:35] de se relacionar

[00:30:37] capital e trabalho, isso está se enraizando

[00:30:39] está se expandindo de uma forma

[00:30:41] muito rápida

[00:30:43] a destruição do trabalho

[00:30:45] fiat monte

[00:30:47] das regras trabalhistas

[00:30:49] teve uma reforma trabalhista recentemente

[00:30:51] agora a gente tem um contrato verde e amarelo

[00:30:53] que é um troço mega

[00:30:55] precarizador

[00:30:57] e tem as plataformas que ajudam

[00:30:59] esse processo a acontecer

[00:31:01] é uma situação bem caótica

[00:31:03] e no Brasil

[00:31:05] a crise econômica que a gente vive

[00:31:07] facilitou muito esse processo, muito

[00:31:09] eu só queria lembrar que a gente está falando

[00:31:11] dessa coisa toda precária como se fosse uma novidade

[00:31:13] mas na verdade não é

[00:31:15] é chamado de gig economy

[00:31:17] que são esses trabalhos

[00:31:19] por plataforma que você não tem vínculo

[00:31:21] empregatício e trabalha

[00:31:23] pelo que você está fazendo

[00:31:25] isso é o chamado bico

[00:31:27] eu ia chegar justamente nesse ponto

[00:31:29] que sempre aconteceu no Brasil

[00:31:31] sempre rolou

[00:31:33] só que agora a coisa ganhou

[00:31:35] esse verniz de glamorização

[00:31:37] que o cara está lá fazendo o bico

[00:31:39] super achando que ele é empresário

[00:31:41] tem essa mentalidade de coach bosta

[00:31:43] que faz com que as pessoas

[00:31:45] entrem alegremente no próprio forno

[00:31:47] de cremação, um negócio muito estranho

[00:32:09] eu ia levar justamente

[00:32:25] para esse tipo de linha

[00:32:27] de raciocínio porque

[00:32:29] eu imagino que grande

[00:32:31] parte da popularização

[00:32:33] do mercado de aplicativos

[00:32:35] no Brasil tenha muito a ver

[00:32:37] com a nossa cultura

[00:32:39] com o trabalho informal

[00:32:41] o trabalho informal no Brasil

[00:32:43] sempre foi extremamente normalizado

[00:32:45] do camelô que vendia DVD

[00:32:47] na beira da praia

[00:32:49] o vendedor de mate em Copacabana

[00:32:51] o pessoal que andava de bicicleta

[00:32:53] procurando gente no seu bairro

[00:32:55] para afiar faca

[00:32:57] a gente sempre teve

[00:32:59] um tipo de trabalho informal

[00:33:01] dentro do Brasil

[00:33:03] que por uma questão de desconhecimento

[00:33:05] eu não sei o quão normalizado

[00:33:07] é esse tipo de trabalho informal

[00:33:09] em dados históricos

[00:33:11] fora do Brasil

[00:33:13] mas a gente já tinha uma

[00:33:15] a gente já tem uma cultura

[00:33:17] que é muito maleável

[00:33:19] esse tipo de coisa

[00:33:21] e que começou a crescer no Brasil

[00:33:23] na tempestade perfeita

[00:33:25] porque você tem ali

[00:33:27] no último trimestre de 2014

[00:33:29] uma economia plena

[00:33:31] com desemprego de 6,5%

[00:33:33] depois de toda a crise

[00:33:35] política, crise moral

[00:33:37] a porra toda acontecendo no Brasil

[00:33:39] você chega no primeiro semestre

[00:33:41] de 2017

[00:33:43] com 13,7% de desemprego

[00:33:45] essas pessoas precisam

[00:33:47] de alguma forma de subsistência

[00:33:49] elas pegam a tempestade perfeita

[00:33:51] de uma popularização de smartphones

[00:33:53] de uma tecnologia

[00:33:55] de rede celular

[00:33:57] começando a ficar barata

[00:33:59] para você poder usar 3G, 4G

[00:34:01] fora de casa

[00:34:03] sem ter que dar um rim no final do mês

[00:34:05] e junto com isso você ganha

[00:34:07] a oportunidade

[00:34:09] de uma talvez

[00:34:11] subsistência

[00:34:13] muita gente embarcou nessa jogada

[00:34:15] e embarcou justamente

[00:34:17] na época em que esses

[00:34:19] aplicativos estavam procurando

[00:34:21] a consolidação

[00:34:23] com a oferta

[00:34:25] ainda não

[00:34:27] totalmente equilibrada

[00:34:29] eles estavam dando muitas vantagens

[00:34:31] para que todo mundo instalasse o aplicativo

[00:34:33] tivesse corridas grátis no começo

[00:34:35] começasse a fazer coisas

[00:34:37] por conta própria até que

[00:34:39] começasse o comportamento de

[00:34:41] eu estou com fome, está muito longe

[00:34:43] está chovendo, eu posso ligar para a pizzaria

[00:34:45] e pedir uma pizza, mas não

[00:34:47] vou abrir o iFood, vou abrir o Rappi

[00:34:49] vou abrir o Uber Eats

[00:34:51] muitas coisas aconteceram

[00:34:53] ao mesmo tempo, uma conjunção

[00:34:55] de fatores que levou

[00:34:57] esse pessoal a

[00:34:59] embarcar nessa jogada

[00:35:01] eu não responsabilizo elas

[00:35:03] eu não criminalizo elas

[00:35:05] muito pelo contrário, cada um está procurando fazer o seu

[00:35:07] mas agora a gente vem

[00:35:09] a precarização dos precarizados

[00:35:11] com as condições

[00:35:13] de trabalho desse pessoal

[00:35:15] sendo cada vez mais

[00:35:17] estranguladas

[00:35:19] e uma hora essa corda vai arrebentar

[00:35:21] e a gente começa a ver

[00:35:23] esses movimentos

[00:35:25] começando a acontecer

[00:35:27] nesse momento, nesse mês

[00:35:29] de dezembro de 2019

[00:35:31] nós tivemos uma greve do iFood

[00:35:33] na zona leste de São Paulo

[00:35:35] e a gente começa a ver

[00:35:37] que começa a existir um

[00:35:39] comportamento entre esses

[00:35:41] trabalhadores individuais e essas plataformas

[00:35:43] como é que você

[00:35:45] vê isso Davi?

[00:35:47] num horizonte

[00:35:49] sei lá, de médio

[00:35:51] prazo, você vê esse pessoal

[00:35:53] começando a se organizar

[00:35:55] você vê esse pessoal começando a

[00:35:57] conseguir pleitear alguma coisa

[00:35:59] frente a essas plataformas?

[00:36:01] Bom, eu acho

[00:36:03] isso bem difícil

[00:36:05] mas sobre a informalidade

[00:36:07] a gente está no recorde da série histórica

[00:36:09] mas eu sei que teve essa característica

[00:36:11] de um mercado de trabalho muito precarizado

[00:36:13] mas entre

[00:36:15] 2006 principalmente

[00:36:17] quando a gente tem uma virada

[00:36:19] na política econômica ali

[00:36:21] um ano antes do início

[00:36:23] no final do primeiro governo Lula

[00:36:25] e até 2010

[00:36:27] 2011 as coisas começam a desandar de novo

[00:36:29] a gente tem um processo

[00:36:31] de melhora no mercado de trabalho

[00:36:33] bem interessante, de formalização

[00:36:35] se por um lado tinha formalização

[00:36:37] também tinha ganhos reais

[00:36:39] dos salários

[00:36:41] puxados pela

[00:36:43] política de valorização do salário mínimo

[00:36:45] por uma economia que

[00:36:47] crescia e etc

[00:36:49] então conforme a economia

[00:36:51] vai crescendo, vai se formalizando

[00:36:53] se você tem setores

[00:36:55] mais sofisticados

[00:36:57] você começa a

[00:36:59] transformar um pouquinho das relações de trabalho

[00:37:01] se você trabalha

[00:37:03] se você tem uma economia gerando um emprego alto

[00:37:05] você muda a correlação de forças

[00:37:07] entre capital e trabalho e o desemprego

[00:37:09] deixa de ser disciplinador

[00:37:11] desemprego é disciplinador para o capital

[00:37:13] ele disciplina o trabalhador

[00:37:15] a aceitar qualquer coisa

[00:37:17] e aí o trabalhador

[00:37:19] ele vai para o bico para vender coca cola na praia

[00:37:21] distribuir coca cola

[00:37:23] de graça

[00:37:25] ele não se vê assim

[00:37:27] mas ele está na ponta

[00:37:29] na ponta mais precária da distribuição

[00:37:31] daquilo ou vender biscoito

[00:37:33] no sinal

[00:37:35] esse processo de crise

[00:37:37] econômica

[00:37:39] reverte

[00:37:41] um momento

[00:37:43] em que a gente estava

[00:37:45] avançando a passos lentos

[00:37:47] de forma necessária

[00:37:49] mas muito insuficiente

[00:37:51] e a gente volta

[00:37:53] a uma situação que era muito vista

[00:37:55] até a década

[00:37:57] retrasada

[00:37:59] até os anos 90

[00:38:01] início dos anos 2000

[00:38:03] que é a predominância total

[00:38:05] da informalidade

[00:38:07] informalidade inclusive que começa a atingir

[00:38:09] uma classe média

[00:38:11] os estudantes universitários

[00:38:13] que o pai

[00:38:15] ou alguém da família perdeu o emprego

[00:38:17] então ele vai ter que trabalhar

[00:38:19] e ele não tem emprego

[00:38:21] porque o desemprego para o jovem é muito alto

[00:38:23] então ele tem que dirigir Uber

[00:38:25] ele tem que prestar algum serviço por meio de aplicativo

[00:38:27] então a crise econômica

[00:38:29] aprofunda essa característica

[00:38:31] que já é estrutural do mercado brasileiro

[00:38:33] de se ser formal

[00:38:35] hoje a gente está no recorde de informalidade

[00:38:37] e no recorde de subutilização da força

[00:38:39] de trabalho

[00:38:41] que é o trabalhador desalentado

[00:38:43] o trabalhador que não trabalha as horas que poderia

[00:38:45] ou seja aquele cara que é por exemplo intermitente

[00:38:47] a gente está no recorde

[00:38:49] dessa coisa precária

[00:38:51] trabalhadores sem carteira

[00:38:53] sobre a organização desses trabalhadores

[00:38:55] é um negócio super complexo

[00:38:57] é um desafio do nosso tempo

[00:38:59] é o grande desafio

[00:39:01] isso porque

[00:39:03] por exemplo quando você começa

[00:39:05] se os trabalhadores de Uber

[00:39:07] começarem uma greve

[00:39:09] o aplicativo entra em dinâmica

[00:39:11] ele começa a pagar o dobro

[00:39:13] o triplo

[00:39:15] conforme a oferta de carros caia

[00:39:17] o preço sobe

[00:39:19] então

[00:39:21] o cara que furar a greve vai ganhar muita grana

[00:39:23] é

[00:39:25] isso acontece

[00:39:27] então

[00:39:29] isso é um dos desafios

[00:39:31] por exemplo

[00:39:33] se os motoristas de aplicativo entram em greve

[00:39:35] em São Paulo

[00:39:37] a dinâmica vai nas alturas

[00:39:39] o preço da chamada vai tender ao infinito

[00:39:41] e quem furar essa greve

[00:39:43] vai ganhar muita grana

[00:39:45] então

[00:39:47] esse individualismo

[00:39:49] ele é levado ao extremo

[00:39:51] as regras de mercado

[00:39:53] elas vão

[00:39:55] formatando todo o diálogo

[00:39:57] inclusive entre os trabalhadores

[00:39:59] que não se conhecem

[00:40:01] também

[00:40:03] alguns são organizados

[00:40:05] e possuem grupos de WhatsApp

[00:40:07] eles se falam pelos grupos de WhatsApp

[00:40:09] então

[00:40:11] é o cara que dirige Uber depois

[00:40:13] ou antes do trabalho

[00:40:15] é o estudante

[00:40:17] que não tem tanta necessidade

[00:40:19] de sobreviver com aplicativo

[00:40:21] então é um negócio muito heterogêneo

[00:40:23] é diferente de uma fábrica

[00:40:25] que é super homogêneo

[00:40:27] todo mundo está trabalhando junto

[00:40:29] no mesmo horário

[00:40:31] te alugando

[00:40:33] todo mundo está perdendo mais ou menos igual

[00:40:35] a Uberização torna o trabalhador

[00:40:37] agindo cada vez mais

[00:40:39] de acordo com seus próprios interesses

[00:40:41] e não pensando em classe

[00:40:43] isso é um desafio enorme

[00:40:45] que eu acho que só pode ser superado

[00:40:47] de uma forma

[00:40:49] parece simples mas não é

[00:40:51] que é você voltar

[00:40:53] a gerar empregos bons

[00:40:55] bons empregos

[00:40:57] se você não tiver bons empregos

[00:40:59] não adianta

[00:41:01] é um desafio enorme

[00:41:03] por exemplo você formatar um contrato de trabalho

[00:41:05] eu não sou jurista

[00:41:07] mas eu lembro que há uns dois anos atrás

[00:41:09] a gente tentou pensar em um projeto de lei

[00:41:11] para regulamentar

[00:41:13] as relações trabalhistas

[00:41:15] entre os motoristas de aplicativo

[00:41:17] e as plataformas

[00:41:19] só que assim

[00:41:21] é um desafio enorme

[00:41:23] você estabelecer critérios

[00:41:25] tem um trabalhador que dirige 2 horas

[00:41:27] tem um que dirige 40

[00:41:29] é um desafio enorme

[00:41:31] porque ao mesmo tempo

[00:41:33] que ele é livre

[00:41:35] que não há subordinação

[00:41:37] a subordinação é total

[00:41:39] a característica de subordinação

[00:41:41] a subordinação ela se dá

[00:41:43] de outras formas

[00:41:45] que são muito

[00:41:47] camufladas

[00:41:49] pela aparência de liberdade

[00:41:51] são indiretas talvez

[00:41:53] porque quando a gente pensa em subordinado

[00:41:55] a gente pensa em um chefe que está lá no seu cangote

[00:41:57] enchendo o saco

[00:41:59] uma coisa direta

[00:42:01] e nesse caso você tem uma subordinação indireta

[00:42:03] ele está subordinado a empresa

[00:42:05] porque ele fica nessa gamificação

[00:42:07] e dirige eternamente

[00:42:09] até chegar no bônus que a empresa determina

[00:42:11] ele fica subordinado

[00:42:13] à nota que as pessoas dão

[00:42:15] e a gente sabe que isso é uma característica

[00:42:17] do capitalismo também

[00:42:19] que a pessoa que está pagando

[00:42:21] ela acha que tem o direito de ser escrota

[00:42:23] com quem está prestando o serviço

[00:42:25] e isso eu vejo assim

[00:42:27] eu uso bastante Uber

[00:42:29] mas eu uso muito pouco Rappi

[00:42:31] não preciso na verdade

[00:42:33] e eu me sinto muito em culpa as poucas vezes que eu uso

[00:42:35] e normalmente é mais ou menos perto da minha casa

[00:42:37] o cara vem da mesma rua

[00:42:39] e quando o cara chega de bicicleta

[00:42:41] eu vou para a calçada e fico abanando o braço

[00:42:43] porque eu sei que o aplicativo

[00:42:45] manda o cara para o lado errado

[00:42:47] e é impressionante como eles vêm sempre

[00:42:49] numa humildade

[00:42:51] pedindo desculpas por um problema que não é deles

[00:42:53] se o aplicativo mandou você para o outro lado da rua

[00:42:55] o problema é do aplicativo

[00:42:57] é do GPS, não é seu

[00:42:59] mas eles vêm pedindo um milhão de desculpas

[00:43:01] porque eles sabem que se eles não tiverem

[00:43:03] essa atitude

[00:43:05] de se rebaixar mesmo

[00:43:07] de servilismo

[00:43:09] então eu faço questão

[00:43:11] de esperar assim sorrindo, abanando

[00:43:13] e falar calma, não precisa vir

[00:43:15] se esgoelando

[00:43:17] porque eu imagino a pressão que eles sentem

[00:43:19] caraca, fui para outro quarteirão

[00:43:21] a comida vai chegar fria, a mulher vai me dar uma estrela só

[00:43:23] e dependendo do que eu tenho em casa

[00:43:25] eu levo até um chocolate de presente

[00:43:27] porque eu morro de pena

[00:43:29] é um emprego, entre aspas

[00:43:31] é um bico muito ruim

[00:43:33] as vezes são pessoas até de uma certa idade

[00:43:35] e o cara pedalando

[00:43:37] na chuva, naquele clima bom

[00:43:39] bosta de Curitiba

[00:43:41] e o cara tá lá subindo ladeira

[00:43:43] com aquele negócio no ombro

[00:43:45] eu não consigo nem imaginar

[00:43:47] como é que o cara chega no final do dia

[00:43:49] então é precário de todos os pontos de vista

[00:43:51] e essa sujeição mesmo

[00:43:53] essa submissão também é de vários pontos de vista diferentes

[00:43:55] sem uma contrapartida

[00:43:57] porque tem zero direito de porra nenhuma

[00:43:59] o cara não tem nada

[00:44:01] a empresa não dá nada como retorno

[00:44:03] então é uma merda de

[00:44:05] você dá a volta de 360 graus

[00:44:07] e você só vê merda por todos os lados

[00:44:09] não tem nada

[00:44:11] nesse evento da UTFPR

[00:44:13] eles passaram antes um documentário

[00:44:15] que eu acho que eu nem coloquei na pauta pra adicionar

[00:44:17] que se chama Gig

[00:44:19] e fala exatamente disso

[00:44:21] e eles começam com uma doméstica

[00:44:23] usando essa plataforma

[00:44:25] que deve ter sido uma parecida que você usou

[00:44:27] e ela fala isso

[00:44:29] exatamente isso que você falou

[00:44:31] tem clientes que me pagam

[00:44:33] por sei lá, 4 horas

[00:44:35] e tem louça até o teto

[00:44:37] porque não tem nada especificado

[00:44:39] e ela acaba tendo que se submeter a esse tipo de coisa

[00:44:41] exatamente pra não perder a avaliação

[00:44:43] e não perder aquele micro

[00:44:45] que ela está ganhando que é melhor do que nada

[00:44:47] é aquela coisa

[00:44:49] o bom é o inimigo do ótimo

[00:44:51] você tem aquele mínimo

[00:44:53] porque você está na merda total

[00:44:55] você fica felizão com aquele mínimo

[00:44:57] e se submete a tudo

[00:44:59] e essa que é a grande bosta

[00:45:01] porque é tudo ruim

[00:45:03] só quem lucra mesmo é a empresa

[00:45:05] e está bloqueado na plataforma

[00:45:07] sim, sem saber nem porque

[00:45:09] é, e ele não vai trabalhar

[00:45:11] tem a galera que aluga carro na localiza

[00:45:13] sim, direto

[00:45:15] o pessoal está se endividando

[00:45:17] inclusive isso está como link na postagem também

[00:45:19] tem gente se endividando

[00:45:21] pra alugar carro

[00:45:23] porque tem um contrato especial

[00:45:25] pra quem é motorista de aplicativo

[00:45:27] mas o pessoal está se endividando pra conseguir pagar

[00:45:29] e se ele fica cancelado no dia seguinte

[00:45:31] ele quebra literalmente

[00:45:33] exatamente, exatamente

[00:45:35] eu estou aqui meio que já prevendo algumas perguntas

[00:45:37] que provavelmente vão vir do nosso público

[00:45:39] e você falou

[00:45:41] sobre uma questão

[00:45:43] de que a partir do momento

[00:45:45] que a nossa economia começa a gerar

[00:45:47] empregos formais mais atrativos

[00:45:49] o poder de barganha

[00:45:51] dessas empresas vai caindo

[00:45:53] e as condições

[00:45:55] de trabalho do pessoal

[00:45:57] que está trabalhando para os aplicativos pode melhorar

[00:45:59] só que aí

[00:46:01] eu já prevendo uma pergunta que pode vir

[00:46:03] é

[00:46:05] você tem uma economia hoje como americana

[00:46:07] que poucas vezes

[00:46:09] esteve tão bem

[00:46:11] a economia americana justamente por conta

[00:46:13] das políticas protecionistas

[00:46:15] que o Trump adotou

[00:46:17] e tal

[00:46:19] ela sofreu

[00:46:21] é estranho de falar

[00:46:23] mas ela recebeu um aquecimento muito grande

[00:46:25] e você tem níveis de desemprego baixos

[00:46:27] níveis de produtividade

[00:46:29] altos

[00:46:31] e ainda assim

[00:46:33] a maioria desses aplicativos são um sucesso

[00:46:35] então o que exatamente

[00:46:37] existe na lógica

[00:46:39] do emprego americana

[00:46:41] que se aplica

[00:46:43] ou que não se aplica

[00:46:45] a lógica de

[00:46:47] empregos brasileira que faria

[00:46:49] com que esse

[00:46:51] aquecimento da nossa economia

[00:46:53] melhorasse a condição de quem trabalha para o aplicativo

[00:46:55] então

[00:46:57] primeiro sobre os Estados Unidos

[00:46:59] eu não conheço bem o mercado

[00:47:01] de trabalho muito por alto

[00:47:03] por lá, mas

[00:47:05] se as taxas de desemprego deles

[00:47:07] está em um patamar

[00:47:09] muito baixo, historicamente baixo

[00:47:11] por outro lado

[00:47:13] há uma insatisfação

[00:47:15] muito grande com o tipo de trabalho

[00:47:17] sim, sim

[00:47:19] tanto é que

[00:47:21] o nível de emprego

[00:47:23] você tem que olhar, mas também tem que olhar

[00:47:25] que emprego é esse

[00:47:27] então os Estados Unidos também passaram por

[00:47:29] um processo de

[00:47:31] alteração na estrutura do mercado

[00:47:33] de trabalho para

[00:47:35] trabalhos piores, um processo de

[00:47:37] desindustrialização, de perda

[00:47:39] de empregos

[00:47:41] em serviços mais sofisticados

[00:47:43] com uma

[00:47:45] melhor produtividade

[00:47:47] e afins, tanto é que o Trump

[00:47:49] ele consegue

[00:47:51] mobilizar esses

[00:47:53] trabalhadores

[00:47:55] que sofreram, que vivenciaram

[00:47:57] essa inflexão para votar nele

[00:47:59] desse aspecto reacionário

[00:48:01] de colocar a culpa

[00:48:03] da galera dos latino-americanos que vem roubar

[00:48:05] os empregos e coloca a culpa na China

[00:48:07] que está tirando

[00:48:09] os empregos deles e etc

[00:48:11] então também tem um processo

[00:48:13] de piora

[00:48:15] na qualidade do

[00:48:17] trabalho por lá, você

[00:48:19] o trabalhador do Walmart nem do McDonald’s

[00:48:21] são

[00:48:23] não devem ser muito satisfeitos

[00:48:25] com o tipo de

[00:48:27] trabalho que executa

[00:48:29] e com as relações que possuem

[00:48:31] mas no Brasil

[00:48:33] eu lembro que

[00:48:35] em março de 2015

[00:48:37] eu li uma coluna

[00:48:39] depois eu posso colocar o link aqui

[00:48:41] foi março ou abril, foi logo no início

[00:48:43] do ajuste fiscal

[00:48:45] do Joaquim Levin

[00:48:47] no segundo governo Dilma

[00:48:49] é uma coluna do Samuel Pessoa

[00:48:51] e ele fala o seguinte

[00:48:53] o ajuste fiscal está dando certo

[00:48:55] porque o desemprego

[00:48:57] está subindo rápido

[00:48:59] e os salários estão caindo também muito rápido

[00:49:01] esse era o diagnóstico da coluna dele

[00:49:03] nesse momento

[00:49:05] o Brasil estava com a inflação

[00:49:07] tendendo a explodir

[00:49:09] com tudo apontando já para uma

[00:49:11] recessão no final do ano

[00:49:13] todo o cenário era de caos

[00:49:15] mas ele conseguiu olhar um ponto positivo

[00:49:17] do ponto de vista dele, claro

[00:49:19] desemprego subindo rápido

[00:49:21] e salários caindo na mesma velocidade

[00:49:23] e que isso seria

[00:49:25] um ajuste no mercado de trabalho

[00:49:27] ou seja

[00:49:29] ele via o mercado de trabalho

[00:49:31] se ajustando

[00:49:33] outro dia ele escreveu de novo uma coluna

[00:49:35] junto com Marcos Lisboa

[00:49:37] agora quatro anos depois

[00:49:39] falando que o problema do Brasil

[00:49:41] é que ele viveu uma fase de hiperemprego

[00:49:43] ele chamou o negócio de hiperemprego

[00:49:45] como é que é?

[00:49:47] ele falou que o Brasil

[00:49:49] tinha hiperemprego

[00:49:51] ele inventou uma categoria

[00:49:53] isso daí não existe não

[00:49:55] ele inventou essa categoria

[00:49:57] de hiperemprego

[00:49:59] esse negócio nem foi combinado

[00:50:01] a minha pergunta meio que pareceu um negócio de advogado diabo

[00:50:03] mas inclusive já é uma

[00:50:05] brincadeira que nós fizemos aqui

[00:50:07] em episódios passados

[00:50:09] de um meme que circulava

[00:50:11] na rede do pessoal americano

[00:50:13] que tinha um cara no caixa do

[00:50:15] mercado falando para

[00:50:17] a moça do caixa de

[00:50:19] olha como o nosso país está ótimo

[00:50:21] a gente criou 15 milhões de empregos

[00:50:23] e aí a moça do caixa fala

[00:50:25] pois é

[00:50:27] desses 15 milhões, três são meus

[00:50:29] e ainda assim eu não consigo

[00:50:31] viver direito com eles

[00:50:33] então realmente

[00:50:35] pareceu alguma coisa meio

[00:50:37] piegas da minha parte

[00:50:39] colocar isso dessa forma

[00:50:41] mas você chegou exatamente no ponto que eu gostaria

[00:50:43] que é a gente

[00:50:45] mostrar

[00:50:47] que de fato

[00:50:49] só um aquecimento da economia com empregos formais

[00:50:51] pode trazer de volta

[00:50:53] um poder de barganha e tirar muita gente

[00:50:55] da precarização

[00:50:57] e ao mesmo tempo a gente não tem como

[00:50:59] contar com a carteira verde e amarela

[00:51:01] para trazer isso para a gente

[00:51:03] sim, perfeito

[00:51:05] mas no Brasil

[00:51:07] qualquer emprego formal

[00:51:09] já melhoraria essa situação

[00:51:11] isso é curioso porque o mercado de trabalho

[00:51:13] como você tinha falado no Brasil

[00:51:15] é tão bizarro que

[00:51:17] qualquer fôlego na economia

[00:51:19] já melhoraria

[00:51:21] a situação dessa

[00:51:23] uberização mais trágica que é o cara

[00:51:25] que fica em cima de uma

[00:51:27] bicicleta 12 horas por dia para ganhar

[00:51:29] 500 reais, eu vi algumas

[00:51:31] tem várias reportagens nesse sentido

[00:51:33] da galera pedalando o dia todo

[00:51:35] para ganhar bem menos que um salário

[00:51:37] mínimo sem nenhum direito então

[00:51:39] qualquer emprego desses com

[00:51:41] um salário mínimo e

[00:51:43] direitos trabalhistas

[00:51:45] garantidos já

[00:51:47] ajudaria

[00:51:49] a situação nos países

[00:51:51] centrais é um pouco diferente

[00:51:53] diferente como?

[00:51:55] explica para o pessoal aí

[00:51:57] a nossa situação

[00:51:59] a nossa história

[00:52:01] o nosso mercado de trabalho

[00:52:03] historicamente sempre foi muito precarizado

[00:52:05] de fato, vocês estavam falando

[00:52:07] o bico, o bico é uma coisa que

[00:52:09] é uma instituição brasileira

[00:52:11] é uma instituição

[00:52:13] as mulheres principalmente

[00:52:15] para conseguir

[00:52:17] tinha uma tripla jornada

[00:52:19] a mulher trabalhava fora

[00:52:21] cuidava

[00:52:23] da família

[00:52:25] e ainda fazia quentinha

[00:52:27] para vender

[00:52:29] no final de semana

[00:52:31] ou fazia algum tipo de bico

[00:52:33] para conseguir uma renda

[00:52:35] extra, essa situação

[00:52:37] no Brasil ela é muito

[00:52:39] perversa e quando você tem uma crise econômica

[00:52:41] como nossa renda per capita

[00:52:43] é muito baixa

[00:52:45] a exploração aqui ela se dá de forma

[00:52:47] mais aguda

[00:52:49] muito provavelmente

[00:52:51] isso daí tem que fazer uma pesquisa mais minuciosa

[00:52:53] o nível de remuneração

[00:52:55] e de retenção dos valores

[00:52:57] da Uber aqui é muito maior do que

[00:52:59] nos países centrais

[00:53:01] porque isso se dá muito

[00:53:03] pelo poder de barganha do trabalhador em cada lugar

[00:53:05] aqui o trabalhador

[00:53:07] por ele estar submetido

[00:53:09] no mercado de trabalho ainda pior

[00:53:11] ele aceita qualquer coisa

[00:53:13] eu acho

[00:53:15] que nos países centrais isso deve ter

[00:53:17] uma certa

[00:53:19] as empresas elas tem

[00:53:21] um nível de

[00:53:23] uma margem de exploração um pouco menor

[00:53:25] no Brasil a margem de exploração é muito mais alta

[00:53:27] e como a margem de exploração

[00:53:29] é muito mais alta

[00:53:31] o aumento da economia já reduz

[00:53:33] essa margem é muito grande

[00:53:35] qualquer aquecimento qualquer processo de formalização

[00:53:37] você já melhora muito

[00:53:39] a situação das pessoas

[00:53:41] a nossa situação é muito mais precária

[00:53:43] do mercado de trabalho

[00:53:45] e a gente vem vivendo um processo de

[00:53:47] desindustrialização

[00:53:49] muito rápida

[00:53:51] a gente não tem mais

[00:53:53] mesmo com a economia voltando a crescer

[00:53:55] vai ser difícil

[00:53:57] é difícil de visualizar

[00:53:59] aonde que essas pessoas que estão desempregadas

[00:54:01] vão estar muito provavelmente

[00:54:03] quando a economia voltar a reagir

[00:54:05] se as pessoas vão para o setor de serviço

[00:54:07] que é ruim mas já é alguma coisa

[00:54:09] o setor de serviço formal é ruim

[00:54:11] mas já é alguma coisa

[00:54:13] a situação aqui é mais cruel

[00:54:15] eu tenho uma ideia

[00:54:17] que é a seguinte

[00:54:19] no Brasil o Estado precisa

[00:54:21] entrar urgentemente

[00:54:23] com política de emprego e renda

[00:54:25] de emprego formal

[00:54:27] o Estado precisa entrar como empregador de última instância

[00:54:29] e precisa fazer um grande plano

[00:54:31] de empregos

[00:54:33] e isso iria solucionar dois problemas

[00:54:35] primeiro porque nos últimos anos

[00:54:37] a gente teve um processo de

[00:54:39] precarização

[00:54:41] no fornecimento

[00:54:43] de bens e serviços

[00:54:45] públicos

[00:54:47] muito grande

[00:54:49] então a gente precisa de gente trabalhando

[00:54:51] não estou falando de ser servidor público

[00:54:53] estou falando do Estado

[00:54:55] ou induzir

[00:54:57] políticas de saneamento básico

[00:54:59] moradia

[00:55:01] saúde pública

[00:55:03] enfim

[00:55:05] para melhorar esses serviços que estão sendo

[00:55:07] sucateados nos últimos anos

[00:55:09] e por outro lado isso vai trazer uma enorme massa

[00:55:11] de trabalhadores

[00:55:13] para o setor formal

[00:55:15] então é muito necessário o Estado intervir aí

[00:55:17] e uma intervenção do Estado

[00:55:19] como garantidor de emprego

[00:55:21] um Estado como empregador de última instância

[00:55:23] ele

[00:55:25] estabelece um piso mínimo

[00:55:27] para a exploração do trabalhador

[00:55:29] tem um

[00:55:31] economista americano

[00:55:33] já falecido

[00:55:35] o Minsky ficou muito famoso

[00:55:37] com a crise de 2008

[00:55:39] e agora há vários discípulos dele

[00:55:41] nos Estados Unidos

[00:55:43] que estão fazendo

[00:55:45] algum barulho com

[00:55:47] a ala mais à esquerda do Partido Democratas

[00:55:49] com Bernie Sanders

[00:55:51] com a Ocasio-Cortez

[00:55:53] que estão falando do Green New Deal

[00:55:55] ele tinha a seguinte ideia

[00:55:57] o Estado tem que atuar como empregador

[00:55:59] de última instância

[00:56:01] ou seja, ele tem que fornecer empregos

[00:56:03] para todo mundo que esteja desempregado

[00:56:05] e disposto a trabalhar

[00:56:07] o Estado tem que ter instituições

[00:56:09] preparadas para absorver a massa de desempregados

[00:56:11] em tempos de crise

[00:56:13] isso não são servidores públicos

[00:56:15] mas sim trabalhadores

[00:56:17] que vão estar ali

[00:56:19] naquele programa

[00:56:21] até a economia voltar à normalidade

[00:56:23] e ele volta para o setor privado

[00:56:25] isso estabelece duas coisas

[00:56:27] um salário mínimo de fato

[00:56:29] para conseguir o cara que está

[00:56:31] entregando na bicicleta

[00:56:33] o aplicativo não vai conseguir

[00:56:35] remunerar ele

[00:56:37] abaixo desse piso

[00:56:39] do programa de empregador de última instância

[00:56:41] e também vai ter que garantir pelo menos

[00:56:43] os mesmos direitos que ele tem

[00:56:45] nesse programa do Estado

[00:56:47] como empregador de última instância

[00:56:49] então você consegue colocar uma régua

[00:56:51] você consegue colocar um piso

[00:56:53] eu acho que essa é a

[00:56:55] demanda mais urgente

[00:56:57] e é a coisa mais concreta que eu vejo

[00:56:59] eu vejo isso muito mais concreto

[00:57:01] num primeiro momento

[00:57:03] do que por exemplo a gente tentar estabelecer

[00:57:05] regras trabalhistas que são

[00:57:07] facilmente burladas

[00:57:09] pelos aplicativos

[00:57:11] ou a gente esperar que

[00:57:13] esses trabalhadores consigam se organizar

[00:57:15] rapidamente

[00:57:17] e demandem

[00:57:19] das plataformas melhores condições

[00:57:21] essa é a minha

[00:57:23] visão inicial

[00:57:25] sobre uma possível solução

[00:57:27] Beleza, a gente vai voltar um pouquinho mais rapidinho nisso

[00:57:29] eu acho que eu quero puxar uma outra pergunta

[00:57:31] mas eu queria falar agora de uma outra coisa

[00:57:33] que também tem efeitos

[00:57:35] cascata, assim, muito

[00:57:37] maiores do que as pessoas pensam inicialmente

[00:57:39] que são plataformas

[00:57:41] tipo a do Airbnb

[00:57:43] por isso que a gente está falando de plataformização

[00:57:45] e não só de uberização

[00:57:47] porque o Uber é uma coisa específica

[00:57:49] você tem um cara que entrega e não sei o que

[00:57:51] mas você tem um milhão de outras plataformas

[00:57:53] e o Airbnb é uma delas

[00:57:55] então o Airbnb é uma empresa que é considerada

[00:57:57] a maior rede, com o maior número de quartos

[00:57:59] no mundo e eles não possuem

[00:58:01] nenhum hotel, nenhum quarto

[00:58:03] nada, eles não possuem nada

[00:58:05] assim como a Uber, eles só fazem

[00:58:07] a intermediação entre quem tem

[00:58:09] um espaço no chão

[00:58:11] ou um quarto

[00:58:13] que for para alugar

[00:58:15] e a pessoa que está procurando um lugar para ficar

[00:58:17] e essa

[00:58:19] é uma outra forma de precarização também

[00:58:21] mas que está tendo repercussões enormes

[00:58:23] nas cidades onde eles funcionam

[00:58:25] tem muita coisa em comum com o Uber

[00:58:27] e com as outras plataformas, mas tem particularidades

[00:58:29] você está falando de lugares onde as pessoas

[00:58:31] potencialmente poderiam morar

[00:58:33] sim, eu acho que tem um

[00:58:35] foi bom você tocar no Airbnb

[00:58:37] porque escapa um aspecto

[00:58:39] da uberização

[00:58:41] que é

[00:58:43] o estado também, o conjunto da sociedade

[00:58:45] perde a sua

[00:58:47] força de planejamento

[00:58:49] urbano coletivo

[00:58:51] a coletividade

[00:58:53] ela perde força

[00:58:55] de determinar que tipo de cidade

[00:58:57] você quer, no caso do Uber

[00:58:59] que tipo de formatação

[00:59:01] de transporte público

[00:59:03] você deseja

[00:59:05] como você vai organizar

[00:59:07] o trânsito na cidade

[00:59:09] você perde isso

[00:59:11] no caso do Airbnb

[00:59:13] você tem um problema sério

[00:59:15] que é o direito à moradia

[00:59:17] que vai ficando cada vez mais complicado

[00:59:19] você vai começando

[00:59:21] o Airbnb

[00:59:23] também é de novo isso

[00:59:25] é a tecnologia

[00:59:27] a serviço de…

[00:59:29] você consegue ter…

[00:59:31] a tecnologia acerta duas coisas

[00:59:33] primeiro você burla

[00:59:35] qualquer regra tributária

[00:59:37] em relação a por exemplo

[00:59:39] cidades que tem

[00:59:41] um turismo muito forte

[00:59:43] você vai perder qualquer forma

[00:59:45] de coletivização desses lucros

[00:59:47] de participação do conjunto da sociedade

[00:59:49] nos lucros gerados

[00:59:51] pelos serviços ligados ao turismo

[00:59:53] então

[00:59:55] fica difícil fiscalizar

[00:59:57] para tributar

[00:59:59] o serviço de hotelaria

[01:00:01] puro e simples

[01:00:03] por exemplo

[01:00:05] isso já está acontecendo no Brasil

[01:00:07] você vê muitas notícias no mundo

[01:00:09] mas isso está acontecendo no Brasil

[01:00:11] as pessoas esvaziam

[01:00:13] os apartamentos pequenos

[01:00:15] em Copacabana

[01:00:17] transformam tudo em Airbnb

[01:00:19] porque você lucra mais

[01:00:21] alugando

[01:00:23] então você tem um serviço de hotelaria

[01:00:25] sem gerar nenhum

[01:00:27] nenhum tipo de

[01:00:29] serviço de hotelaria para o estado

[01:00:31] você começa a expulsar

[01:00:33] as pessoas da cidade

[01:00:35] para você ter esse processo

[01:00:37] rola uma gentrificação

[01:00:39] isso, as áreas turísticas

[01:00:41] ou mais próximas do centro

[01:00:43] vão começar a sofrer esse processo

[01:00:45] de mercantilização, de gentrificação

[01:00:47] e você começa a expulsar as pessoas

[01:00:49] e no final das contas

[01:00:51] é a perda

[01:00:53] da capacidade do conjunto

[01:00:55] da sociedade decidir coletivamente

[01:00:57] qual é a melhor forma

[01:00:59] de organização urbana

[01:01:01] qual é a melhor forma de estruturação

[01:01:03] da rede de moradias

[01:01:05] no caso do Uber

[01:01:07] da própria questão de gestão

[01:01:09] do trânsito

[01:01:11] do transporte público

[01:01:13] enfim

[01:01:15] a gente vai ficando cada vez mais

[01:01:17] na mão do mercado

[01:01:19] e perdendo cada vez mais

[01:01:21] a nossa participação social

[01:01:23] nos rumos

[01:01:25] da nossa própria sociabilidade

[01:01:27] no direito a morar

[01:01:29] e vir

[01:01:31] a gente perde a nossa capacidade

[01:01:33] de gerir essas coisas

[01:01:35] e a gente fica na mão

[01:01:37] de plataformas que

[01:01:39] o fim não é tornar

[01:01:41] o simples movimento

[01:01:43] de você ir e vir do trabalho

[01:01:45] algo mais prazeroso

[01:01:47] mas isso não passa

[01:01:49] pela contabilidade dessa empresa

[01:01:51] o direito a moradia não passa

[01:01:53] pela contabilidade dessa plataforma

[01:01:55] a desestruturação

[01:01:57] das redes de hotéis

[01:01:59] das taxas

[01:02:01] dos próprios serviços

[01:02:03] tiram do estado a sua capacidade

[01:02:05] de tributar e de interferir

[01:02:07] nesses processos

[01:02:09] então a gente vai perdendo cada vez mais

[01:02:11] o nosso potencial

[01:02:13] de organização social

[01:02:15] e vai ficando cada vez mais

[01:02:17] refém de um simples processo

[01:02:19] de geração de lucro

[01:02:21] que estão nas mãos

[01:02:23] de empresas transnacionais

[01:02:25] que não tem nenhuma intenção

[01:02:27] não teria nem porque

[01:02:29] é bem o que foi comentado

[01:02:31] nesse evento que eu fui

[01:02:33] esse capitalismo explorador

[01:02:35] desenfreado

[01:02:37] ele entra quando tem o vácuo de poder

[01:02:39] então se o estado não está funcionando

[01:02:41] não tem emprego, não tem transporte público decente

[01:02:43] e você dividindo o Uber com uma outra pessoa

[01:02:45] você paga a mesma coisa que uma passagem de ônibus

[01:02:47] onde você iria em pé

[01:02:49] sem ar condicionado

[01:02:51] com gente fedida do seu lado

[01:02:53] você vai de Uber

[01:02:55] então você acaba cedendo

[01:02:57] tanto como colaboradora entre aspas

[01:02:59] quanto como usuário também

[01:03:01] eu moro em Curitiba

[01:03:03] não sou de Curitiba claramente

[01:03:05] mas eu moro em Curitiba

[01:03:07] e o transporte público funciona bastante bem

[01:03:09] principalmente para padrões brasileiros

[01:03:11] mas o meu bairro é mal servido de ônibus

[01:03:13] e eu uso Uber com muito mais frequência do que eu gostaria

[01:03:15] porque as minhas viagens são sempre curtas

[01:03:17] acabam saindo menos de uma passagem

[01:03:19] e se eu fosse de ônibus eu teria que pegar

[01:03:21] sei lá, dois ônibus

[01:03:23] e andar um pedação para chegar onde eu tenho que ir

[01:03:25] porque são poucas as linhas que passam no meu bairro

[01:03:27] mas eu adoro transporte público, eu sou a louca do transporte público

[01:03:29] eu adoro andar de ônibus

[01:03:31] e se tivesse mais linhas no meu bairro

[01:03:33] eu certamente andaria mais de ônibus do que de Uber

[01:03:35] mas eu acabo meio que sendo forçada

[01:03:37] e assim como o motorista

[01:03:39] é forçado porque ele não encontra

[01:03:41] um emprego formal melhor

[01:03:43] assim como a pessoa acaba ficando

[01:03:45] em um apartamento no Airbnb

[01:03:47] porque o hotel, às vezes, como paga mais imposto

[01:03:49] acaba saindo muito caro

[01:03:51] e isso tudo é mascarado

[01:03:53] daquela maneira que a gente falou

[01:03:55] tudo isso é vendido como sendo uma alternativa

[01:03:57] mais legal, mais humana

[01:03:59] então o Airbnb se vende

[01:04:01] como experiência real

[01:04:03] você vai viver a cidade

[01:04:05] em vez de ficar em um hotel

[01:04:07] que é uma coisa impessoal

[01:04:09] você vai ver como é um apartamento naquela cidade

[01:04:11] em vez de ficar em um hotel que é mais ou menos padrão

[01:04:13] no mundo inteiro

[01:04:15] então tem toda essa máscara

[01:04:17] de ser uma coisa super maneira, super moderna

[01:04:19] é coisa compartilhada mesmo

[01:04:21] nossa, é a casa da pessoa

[01:04:23] e na maioria das vezes não é a casa da pessoa

[01:04:25] esse livro que a gente estava comentando

[01:04:27] tem um monte de dados

[01:04:29] nós somos super espertos

[01:04:31] eu e o Thiago, nenhum dos dois lembrou de trazer o livro hoje

[01:04:33] então a gente não tem os dados

[01:04:35] aqui à mão, mas era uma quantidade

[01:04:37] absurda de apartamentos

[01:04:39] as propriedades que estão

[01:04:41] sendo alugadas no Airbnb

[01:04:43] a imensa maioria

[01:04:45] pertence a pessoas que tem mais de uma propriedade

[01:04:47] aquela não é a casa dela

[01:04:49] então o que está sendo vendido para você

[01:04:51] como uma experiência real

[01:04:53] não é, porque naquela casa não mora ninguém

[01:04:55] ela é uma casa que tem todas as comodidades

[01:04:57] de um hotel, ela praticamente

[01:04:59] um hotel, só que não paga

[01:05:01] tributo, não paga nada

[01:05:03] para o estado, então é ruim também para todo mundo

[01:05:05] só é bom para a plataforma

[01:05:07] é, não passa por uma

[01:05:09] e a tributação é muito importante

[01:05:11] em vários aspectos, porque

[01:05:13] eu não estou falando

[01:05:15] do aspecto de arrecadação

[01:05:17] mas sim do aspecto de regulação

[01:05:19] você tem que ter um número

[01:05:21] determinado de turistas

[01:05:23] por ano, como é que você controla

[01:05:25] isso para não sobrecarregar

[01:05:27] o meio ambiente

[01:05:29] daquela região

[01:05:31] para não sobrecarregar o trânsito

[01:05:33] os serviços públicos

[01:05:35] então o estado tem que ter alguma interferência

[01:05:37] nisso, o conjunto da sociedade

[01:05:39] dos moradores tem que ter alguma interferência nisso

[01:05:41] por exemplo

[01:05:43] outra coisa

[01:05:45] a tributação permite que você consiga

[01:05:47] elaborar políticas públicas

[01:05:49] étnico-raciais

[01:05:51] de gênero

[01:05:53] você pode estimular uma série de fatores

[01:05:55] você por exemplo pode

[01:05:57] dar algum tipo de

[01:05:59] incentivo tributário

[01:06:01] a redes hoteleiras que utilizem

[01:06:03] menos

[01:06:05] energias sustentáveis

[01:06:07] você consegue moldar

[01:06:09] o perfil daquele

[01:06:11] determinado mercado

[01:06:13] a necessidades sociais

[01:06:15] o controle social se perde

[01:06:17] totalmente com essa rede hoteleira

[01:06:19] que como você falou é uma rede hoteleira

[01:06:21] o cara

[01:06:23] tem 30, 40

[01:06:25] apartamentos geridos

[01:06:27] por uma plataforma

[01:06:29] nenhum tipo de controle social

[01:06:31] é isso

[01:06:33] nenhum tipo de controle social

[01:06:35] em nenhuma instância

[01:06:37] e ele vai avaliar

[01:06:39] o sucesso dele

[01:06:41] isso a gente chama de

[01:06:43] externalidade

[01:06:45] é quando você gera uma externalidade negativa

[01:06:47] quando você polui

[01:06:49] ou quando você sobrecarrega cidades de turistas

[01:06:51] isso tem que ser incorporado

[01:06:53] aos seus custos de alguma forma

[01:06:55] por isso você tem que ter alguma capacidade

[01:06:57] de atividade

[01:06:59] e com essas plataformas isso é impossível

[01:07:01] então a regulação do estado

[01:07:03] na vida econômica

[01:07:05] na sociabilidade

[01:07:07] estou falando da participação do conjunto

[01:07:09] da sociedade

[01:07:11] na forma como se vive

[01:07:13] ela começa a se perder com a uberização

[01:07:15] na organização do trânsito

[01:07:17] na organização da moradia

[01:07:19] e em outras esferas

[01:07:21] então a violação

[01:07:23] é a tecnologia para violar

[01:07:25] a regulação trabalhista para violar

[01:07:27] os projetos urbanísticos

[01:07:29] para violar

[01:07:31] as regulações que são

[01:07:33] relacionadas ao direito à moradia

[01:07:35] então você desmonta

[01:07:37] qualquer tipo de organização

[01:07:39] social em torno da

[01:07:41] própria dinâmica de vida que a gente quer

[01:07:43] a gente perde a participação

[01:07:45] a nossa democracia fica em risco

[01:07:47] ou seja

[01:07:49] as consequências são muito mais amplas

[01:07:51] do que a gente imagina inicialmente

[01:07:53] parece tudo super legal

[01:07:55] mas quando você vai ver tem um efeito cascata de merda

[01:07:57] que tem muita coisa

[01:07:59] muitas consequências nocivas localmente

[01:08:01] regionalmente meio que ruim

[01:08:03] para todo mundo só quem ganha

[01:08:05] são essas plataformas mesmo

[01:08:07] mas aí eu queria puxar desse assunto

[01:08:09] duas coisas

[01:08:11] primeira coisa você falou que é impossível regulamentar e tal

[01:08:13] mas a minha pergunta eu tinha anotado isso aqui

[01:08:15] hoje eu vim sem o livro mas eu estou com meu caderninho

[01:08:17] cheio das coisas que eu anotei durante o evento

[01:08:19] e perguntas para fazer

[01:08:21] hoje eu estou organizadinha

[01:08:23] porque não é possível regular se eles tem tanta informação

[01:08:25] se eles sabem exatamente

[01:08:27] o horário que tem mais gente pegando uber

[01:08:29] em que parte da cidade as pessoas ficam mais

[01:08:31] quantas pessoas

[01:08:33] se tem cachorro se não tem

[01:08:35] qual o tamanho do apartamento

[01:08:37] quantas pessoas pegam cada carro em média

[01:08:39] uber pool uber juntos

[01:08:41] e sei lá o que das quantas

[01:08:43] se tem essa quantidade absurda

[01:08:45] de informação

[01:08:47] que é muito mais detalhada do que isso

[01:08:49] a gente sabe que essa coisa dos metadados

[01:08:51] é um negócio complicado hoje em dia

[01:08:53] os caras sabem até a hora que a gente

[01:08:55] sei lá é

[01:08:57] mesmo com toda essa informação em mãos

[01:08:59] não é possível regularizar

[01:09:01] então eu acho que é um desafio enorme

[01:09:03] por exemplo a uber

[01:09:05] no brasil não libera os dados

[01:09:07] não libera nenhum dado então

[01:09:09] ela liberou esse dado

[01:09:11] que eu passei para vocês que

[01:09:13] um sexto dos motoristas de uber

[01:09:15] estão no brasil de 2017

[01:09:17] esse dado ou 2018

[01:09:19] foi um dado que ela liberou

[01:09:21] estrategicamente porque

[01:09:23] estava vendo uma

[01:09:25] tentativa de

[01:09:27] era naquele momento

[01:09:29] que as cidades estavam debatendo

[01:09:31] a questão de regular

[01:09:33] a uber e etc

[01:09:35] e eles liberaram esse dado para falar que eles são muito

[01:09:37] importantes na geração de emprego no brasil

[01:09:39] então eles soltaram esse dado

[01:09:41] mostrando que a importância

[01:09:43] deles na geração de emprego que

[01:09:45] hoje tem muito mais uber

[01:09:47] do que taxi como que isso é importante

[01:09:49] e como que

[01:09:51] seria prejudicial qualquer tentativa

[01:09:53] de interferência

[01:09:55] se

[01:09:57] qualquer tentativa de taxação poderia

[01:09:59] gerar

[01:10:01] alterar essa

[01:10:03] essa positividade que é

[01:10:05] gerar emprego para caramba para um monte de gente

[01:10:07] esses dados

[01:10:09] eles não são públicos

[01:10:11] e a gente teria que formatar

[01:10:13] uma legislação que obrigasse

[01:10:15] a eles

[01:10:17] a fornecer essas coisas

[01:10:19] eu não sou jurista

[01:10:21] eu não sei até que ponto

[01:10:23] esse tipo de interferência

[01:10:25] é possível né

[01:10:27] depois aqui pensando alto

[01:10:29] uma ideia legal

[01:10:31] eu acho que isso já tem em algumas cidades

[01:10:33] brasileiras e etc

[01:10:35] é o próprio estado oferecer

[01:10:37] plataformas do tipo

[01:10:39] e concorrer com os caras

[01:10:41] aí sim a gente teria

[01:10:43] uma forma de

[01:10:45] elaborar dados e etc

[01:10:47] concorrente mas eu não sei que ponto

[01:10:49] que a gente conseguiria obrigá-los

[01:10:51] a fornecer os dados

[01:10:53] que são particulares deles

[01:10:55] por exemplo o quanto cada motorista

[01:10:57] anda em média

[01:10:59] com o carro enfim

[01:11:01] ou quanto que isso daí

[01:11:03] seria um dado

[01:11:05] filtrado por eles

[01:11:07] como que a gente mediria

[01:11:09] a qualidade desse dado

[01:11:11] é porque tem isso também né

[01:11:13] exatamente tudo depende de como você

[01:11:15] organiza esses dados né

[01:11:17] é fácil você fazer com que os números digam

[01:11:19] o que você quer

[01:11:21] esses dados nem devem estar

[01:11:23] a gente teria que pensar em

[01:11:25] a gente tem que repensar toda a nossa forma de

[01:11:27] de fiscalização

[01:11:29] enfim é um desafio enorme

[01:11:31] por isso que eu acho que sempre o caminho

[01:11:33] é o estado estabelecer a régua sabe

[01:11:35] a régua

[01:11:37] de relações trabalhistas

[01:11:39] ela sendo estabelecida

[01:11:41] pelo conjunto da sociedade

[01:11:43] você ter opções de transporte

[01:11:45] público como você falou

[01:11:47] é uma forma de você enfrentar

[01:11:49] a questão da mobilização

[01:11:51] você ter transporte público de qualidade

[01:11:53] é mais fácil do que você tentar ficar

[01:11:55] criando um monte de projetos

[01:11:57] pra fiscalizar

[01:11:59] contratando um monte de fiscal pra fiscalizar aquilo

[01:12:01] você ter transporte público

[01:12:03] de qualidade é uma porrada nesses caras

[01:12:05] entendeu

[01:12:07] até porque essa coisa da regularização

[01:12:09] nem sempre é uma garantia

[01:12:11] de que a coisa vai resolver

[01:12:13] é uma conciliação de qualquer forma

[01:12:15] você quando regulamenta uma coisa bosta

[01:12:17] pra ela ficar menos bosta

[01:12:19] é uma forma de conciliação

[01:12:21] e que não é a garantia que as coisas realmente vão melhorar

[01:12:23] tanto é que tem muita gente que tem trabalho formal

[01:12:25] de carteira assinada

[01:12:27] de profissões que são regulamentadas

[01:12:29] e mesmo assim trabalham em condições precárias

[01:12:31] porque a empresa encontra uma maneira de burlar

[01:12:33] e o funcionário

[01:12:35] também vai ter medo de ser mandado embora

[01:12:37] e não vai entrar com a ação

[01:12:39] e a justiça é lenta

[01:12:41] então tem uma série de mecanismos

[01:12:43] que tornam isso muito mais difícil

[01:12:45] mesmo quando a coisa é feita tudo direitinho

[01:12:47] então também não sei se essa solução

[01:12:49] é você regulamentar

[01:12:51] eu estava lendo uma notícia aqui

[01:12:53] hoje os links da postagem estão muito bons

[01:12:55] eu sugiro de verdade que vocês vão lá ver

[01:12:57] é bem interessante

[01:12:59] estou lendo uma notícia italiana

[01:13:01] eu estou na Itália agora

[01:13:03] de outubro

[01:13:05] e a lei do Uber

[01:13:07] a lei que regulamenta essas coisas na Itália

[01:13:09] está bem complicada

[01:13:11] o Uber já chegou e já foi expulso de Roma, de Milão

[01:13:13] eu nem sei

[01:13:15] eu tenho que olhar

[01:13:17] eu nunca peguei Uber na Itália

[01:13:19] mas cada vez que eu lembro desse assunto

[01:13:21] eu tenho que procurar

[01:13:23] está tendo Uber na Itália

[01:13:25] porque já entrou e saiu um monte de vezes

[01:13:27] sobre o que eles chamam de

[01:13:29] que é tipo você

[01:13:31] alugar um carro com uma pessoa dirigindo

[01:13:33] que sempre existiu essa categoria

[01:13:35] que eles chamam de NCC

[01:13:37] que sempre existiu

[01:13:39] mas que normalmente é o cara que leva turista

[01:13:41] para lá e para cá

[01:13:43] ele tem uma placa especial

[01:13:45] na placa do carro dele tem escrito NCC

[01:13:47] e ele tem uma legislação toda especial dele

[01:13:49] e isso sempre rolou aqui

[01:13:51] e o Uber entra nessa categoria

[01:13:53] e eles mudaram essa lei agora

[01:13:55] para fazer com que todo carro

[01:13:57] tenha que sair de uma central

[01:13:59] então ele não pode sair de onde ele estiver na rua

[01:14:01] toda vez que ele acaba uma corrida

[01:14:03] ele tem que voltar para uma central

[01:14:05] e toda vez que ele receber uma chamada

[01:14:07] ele tem que sair dessa central

[01:14:09] para ir pegar o passageiro

[01:14:11] e com isso o tempo de espera por um carro

[01:14:13] fica muito grande e o passageiro desiste

[01:14:15] e aí o Uber acabou desistindo e falou

[01:14:17] então beleza tchau vou embora

[01:14:19] porque eu não consigo trabalhar assim

[01:14:21] então nesse caso eles conseguiram encontrar uma maneira

[01:14:23] de desincentivar a empresa a permanecer no país

[01:14:25] e eles tem um

[01:14:27] sindicato

[01:14:29] os taxistas italianos

[01:14:31] eles tem uma força muito grande assim

[01:14:33] é um pessoal casca grossa para caramba

[01:14:35] e quando eles estão atacados assim

[01:14:37] eles param as cidades mesmo

[01:14:39] eles fazem uma confusão

[01:14:41] é um pessoal que tem bastante força

[01:14:43] e conseguiram

[01:14:45] com uma pressão deles fazer isso

[01:14:47] então o Uber falou tchau vou embora

[01:14:49] só que eu não sei se isso ainda ficou

[01:14:51] eu tenho que olhar de novo agora

[01:14:53] porque toda hora muda a lei

[01:14:55] mas é uma maneira de você

[01:14:57] de alguma forma

[01:14:59] eles incluíram o Uber em uma categoria que já existia

[01:15:01] que é um serviço muito semelhante

[01:15:03] e mudaram as regras de modo que para eles

[01:15:05] não é mais conveniente então eles estão indo embora do país

[01:15:07] e talvez

[01:15:09] dê mais certo isso do que você regulamentar

[01:15:11] e botar o fiscalzinho como você falou

[01:15:13] que a gente já sabe que não funciona

[01:15:15] esse processo como

[01:15:17] essa manifestação

[01:15:19] da exploração do trabalho

[01:15:21] sobre a forma de Uberização

[01:15:23] ela exige muita criatividade

[01:15:25] isso é um ato de

[01:15:27] todas essas questões

[01:15:29] elas não foram respondidas ainda

[01:15:31] é uma coisa que a gente tem que

[01:15:33] pensar muito como resolver

[01:15:35] bom e tem

[01:15:37] quando você estava falando aí do

[01:15:39] criar alguns mecanismos

[01:15:41] muito criativos para tentar

[01:15:43] barrar esse processo de

[01:15:45] Uberização para expulsar a Uber

[01:15:47] tem um outro lado da moeda

[01:15:49] porque a Uber ela vai

[01:15:51] estabelecendo vários conflitos

[01:15:53] várias dicotomias por exemplo

[01:15:55] se você faz isso

[01:15:57] sei lá aqui em Brasília

[01:15:59] você tem uma ideia muito boa

[01:16:01] que consiga travar

[01:16:03] a Uber aqui

[01:16:05] a população vai ficar pau da vida

[01:16:07] entendeu os caras vão ficar putos

[01:16:09] porque a população

[01:16:11] ela vê a Uber como uma

[01:16:13] a melhor solução possível

[01:16:15] para a locomoção aqui

[01:16:17] aqui todo mundo anda de Uber o tempo todo

[01:16:19] transporte público

[01:16:21] é uma porcaria

[01:16:23] e todo mundo já se habituou a Uber

[01:16:25] então você vai ter uma demanda

[01:16:27] o conjunto

[01:16:29] da sociedade aqui vai demandar

[01:16:31] que o Estado volte atrás

[01:16:33] para você voltar a ter Uber

[01:16:35] então tem um padrão de consumo também

[01:16:37] que foi estabelecido pela Uberização

[01:16:39] que anda de mãos dadas

[01:16:41] com essa nova forma de organização

[01:16:43] e gerenciamento do trabalho

[01:16:45] as formas de organização, gerenciamento e controle

[01:16:47] do trabalho andam de mãos dadas

[01:16:49] com o padrão de consumo estabelecido

[01:16:51] e cria uma demanda

[01:16:53] social, a mesma sociedade

[01:16:55] que é explorada pela

[01:16:57] pela Uberização

[01:16:59] que é um trabalhador que está sendo explorado

[01:17:01] pela Uberização

[01:17:03] é a tiarista

[01:17:05] que está sendo explorada por uma plataforma

[01:17:07] é o arquiteto

[01:17:09] que vai ser contratado por uma plataforma

[01:17:11] é o professor que vai ser contratado por uma plataforma

[01:17:13] que vai defender

[01:17:15] a Uber no Brasil

[01:17:17] porque isso está favorecendo ele

[01:17:19] ele acha que

[01:17:21] ele vai pagar menos

[01:17:23] um serviço melhor

[01:17:25] do que o do táxi

[01:17:27] então essas novas formas

[01:17:29] essas tecnologias

[01:17:31] a favor da precarização do trabalho

[01:17:33] ela também estabelece novos padrões de consumo

[01:17:35] e novas dicotomias

[01:17:37] então isso é muito difícil

[01:17:39] por exemplo no Rio as pessoas

[01:17:41] têm muita raiva de táxi

[01:17:43] porque taxista tinha má fama

[01:17:45] principalmente para quem era turista

[01:17:47] então a galera que ia fazer turismo

[01:17:49] no Rio tinha muita raiva

[01:17:51] dos taxistas

[01:17:53] eles trabalhavam o taxímetro

[01:17:55] e faziam a corrida do tiro

[01:17:57] ao invés de ligar o taxímetro

[01:17:59] eles já falavam R$ 650

[01:18:01] e todos falavam a mesma coisa

[01:18:03] cartelzão total

[01:18:05] então se você

[01:18:07] tenta frear o avanço

[01:18:09] da Uber

[01:18:11] você vai ver uma demanda

[01:18:13] muito grande dos consumidores

[01:18:15] para a Uber continuar funcionando

[01:18:17] do trabalhador que está desempregado

[01:18:19] e está dirigindo a Uber

[01:18:21] porque não tem emprego

[01:18:23] é muito complexo

[01:18:25] eu acho que

[01:18:27] eu passo antes de tudo a solução para isso

[01:18:29] na geração de

[01:18:31] por causa de um país periférico

[01:18:33] na geração de uma

[01:18:35] na construção de uma economia

[01:18:37] mais sofisticada

[01:18:39] que gere empregos de qualidade

[01:18:41] e enquanto isso não acontece

[01:18:43] mesmo

[01:18:45] mesmo que seja uma política

[01:18:47] de geração de empregos

[01:18:49] não sofisticados

[01:18:51] mas que forneça um mínimo de

[01:18:53] produção trabalhista e salário digno

[01:19:23] não é um homem que

[01:19:25] é só um homem

[01:19:27] para que seja

[01:19:29] um homem

[01:19:31] ele deve ser

[01:19:33] que ele possa

[01:19:35] evoluir

[01:19:37] porque não é

[01:19:39] um homem

[01:19:41] pra ele

[01:19:43] e ele

[01:19:45] deve ser

[01:19:47] um homem

[01:19:49] que

[01:19:51] antes de liberar o episódio,

[01:19:52] se a gente sabe que o Uber não ganha dinheiro,

[01:19:57] é uma empresa que não está rendendo,

[01:20:01] não é lucrativa e não é a única.

[01:20:03] Muitas dessas outras plataformas também não são lucrativas.

[01:20:07] Como é possível que elas sejam viáveis, então?

[01:20:09] Por que elas ainda existem?

[01:20:10] Do que elas vivem?

[01:20:11] O que elas comem?

[01:20:12] O que acontece?

[01:20:13] Bom, a gente tem que separar duas coisas.

[01:20:15] A empresa pode não gerar lucro,

[01:20:18] mas as ações dela podem estar disparando, né?

[01:20:21] Sim.

[01:20:22] Eu posso criar uma empresa aqui agora

[01:20:25] que eu só tenho prejú,

[01:20:26] mas minhas ações estão valorizando

[01:20:28] porque eu tenho chance de ganhar muito dinheiro no futuro

[01:20:33] e, inclusive, com o desenvolvimento de novos produtos,

[01:20:38] como é a intenção da Uber em um futuro bem próximo.

[01:20:44] Aqueles carros da Google trabalhando em plataforma

[01:20:47] seria algo, aí sim, muito lucrativo.

[01:20:51] Então, não necessariamente você precisa gerar resultados positivos,

[01:20:57] resultados operacionais positivos no curto prazo

[01:21:00] para você ter um processo de valorização da sua marca, né?

[01:21:04] Isso acontece muito com as redes sociais.

[01:21:07] Sim.

[01:21:08] Eu acho que a maioria, a esmagadora maioria das redes sociais,

[01:21:13] no processo de consolidação,

[01:21:15] ela tem um preju muito grande,

[01:21:17] até ela descobrir formas de ganhar grana, né?

[01:21:20] Por exemplo, deve ter com o Tinder, com tudo isso.

[01:21:24] O Facebook foi, assim.

[01:21:26] Sim, sim.

[01:21:26] Porque para o usuário é de graça, né?

[01:21:29] E mesmo para o Uber, a gente tem muito desconto.

[01:21:31] No Airbnb também, você tem código de desconto disso, daquilo,

[01:21:34] que você acaba pagando uma merreca.

[01:21:36] Aí você fica, gente, quem está ganhando dinheiro com isso?

[01:21:37] No Uber Eats.

[01:21:39] E no caso do Facebook, a gente já sabe.

[01:21:41] Eles vendem os nossos dados, a nossa alma, né?

[01:21:43] Para quem pagar mais, né?

[01:21:45] Imagino que com o Uber também não seja diferente,

[01:21:47] porque você tem essa quantidade de informações

[01:21:49] sobre o deslocamento das pessoas.

[01:21:51] Cara, é muito importante isso, né?

[01:21:55] Informação, hoje em dia, a gente sabe que é a coisa mais preciosa que tem.

[01:21:57] Isso é muito significativo.

[01:21:59] É, eles estão criando mercado.

[01:22:00] Eu não sei como é que eles estão…

[01:22:02] Exato.

[01:22:03] A gente não sabe ainda como é que eles estão operacionando,

[01:22:06] se eles conseguem operacionalizar isso já para tornar rentável, né?

[01:22:10] Muito provavelmente, sim, já conseguem.

[01:22:13] Então, eu acho muito pouco relevante o resultado,

[01:22:17] contábil de uma empresa desse porte no curto prazo

[01:22:21] para a gente medir o sucesso…

[01:22:23] A viabilidade, né, da empresa.

[01:22:25] A viabilidade da empresa.

[01:22:26] Essa questão do mercado de dados, ela é bem nebulosa, né?

[01:22:31] Será que a gente consegue mensurar isso?

[01:22:33] Será que isso aparece no balanço das empresas?

[01:22:36] É, e nem legislação direito para isso tem, né?

[01:22:39] Porque o desenvolvimento disso é tão recente, é tão rápido,

[01:22:42] muda tanto com o tempo que acho que nenhum país está acompanhando isso.

[01:22:45] Consegue legislar.

[01:22:47] De uma maneira que acompanhe isso de perto, né?

[01:22:50] As mudanças são muito rápidas, é difícil você correr atrás, né?

[01:22:53] Exato.

[01:22:54] O negócio é complicado.

[01:22:55] Aí eu queria entrar nessa parte que você queria comentar

[01:22:57] da coisa da Previdência, para a gente fechar, né?

[01:23:01] Mas ficou muita coisa de fora, mas senão o episódio ia ter 18 horas,

[01:23:05] por isso que eu estou falando.

[01:23:05] Vamos ver os links depois, porque tem muita informação.

[01:23:08] Saiu uma notícia na Folha agora essa semana,

[01:23:11] ou no início do mês, se não me engano, agora em dezembro,

[01:23:14] que tem como manchete.

[01:23:15] A justiça vê vínculo empregativo,

[01:23:17] notício entre a loja ou log, eu não sei como é que se fala isso,

[01:23:20] e motoboys, e manda a empresa pagar 30 milhões de reais.

[01:23:24] Então, basicamente, eles entenderam,

[01:23:26] cara, o cara só trabalha para você, né?

[01:23:28] Ele trabalha o dia inteiro para você, trabalha muitas horas para você,

[01:23:31] ele é seu funcionário, você pode chamar ele de colaborador,

[01:23:33] quanto você quiser, mas ele é teu funcionário, tu vai ter que pagar.

[01:23:36] Isso, esses caras são bem organizados.

[01:23:38] Como é que é? Conta aí o que aconteceu.

[01:23:40] Então, eu não acompanhei esse caso de perto,

[01:23:42] eu também acompanhei igual você, pela notícia.

[01:23:45] Esses caras são bem organizados.

[01:23:47] Categoria bem organizada.

[01:23:48] Talvez porque eles compartilham o mesmo espaço, né?

[01:23:52] Eles estão sempre em contato pessoal,

[01:23:56] indo de um lado para o outro,

[01:23:57] eles devem ter uma interação bem próxima.

[01:24:01] Bom, essa decisão foi um bom sinal.

[01:24:03] É um bom sinal de que dá para a gente brigar por isso.

[01:24:08] Você já percebeu que eu sou muito pessimista

[01:24:10] quanto ao judiciário, quanto à justiça trabalhista resolver essa questão.

[01:24:15] Eu acho que é uma questão difícil.

[01:24:16] Não, mas aí você…

[01:24:17] Você está justificadíssimo, né?

[01:24:19] Seria muito estranho alguém ser otimista

[01:24:21] num cenário que a gente tem no Brasil.

[01:24:23] É, eu sou muito pessimista com a justiça trabalhista

[01:24:26] resolvendo o problema da urbanização no Brasil, sabe?

[01:24:29] É claro que isso é importante

[01:24:33] porque motiva os trabalhadores e outros aplicativos a se organizarem.

[01:24:38] Então, tem um efeito em termos de organização trabalhista

[01:24:43] dos trabalhadores em prol de determinada causa.

[01:24:47] Eu acho que tem um efeito simbólico também

[01:24:49] para as outras plataformas.

[01:24:51] Sim, para caramba.

[01:24:52] É um precedente importante para a burro.

[01:24:54] É, para eles tentarem se organizar.

[01:24:56] Mas eu acho que isso não elimina o fator estrutural

[01:24:59] que leva à urbanização do trabalho, né?

[01:25:02] Que é a ausência total do poder público.

[01:25:06] Por um lado, por exemplo, na questão do Uber,

[01:25:10] no fornecimento de transporte público de qualidade,

[01:25:14] na garantia do emprego.

[01:25:17] Na organização da moradia.

[01:25:20] Enfim, eu acho que é algo importante, mas muito insuficiente.

[01:25:25] E eu não tenho muita esperança no judiciário.

[01:25:27] Eu sou muito cético.

[01:25:30] E mesmo a justiça do trabalho no Brasil que funciona melhor

[01:25:32] do que as outras áreas do judiciário,

[01:25:36] eu sou muito cético em demandar soluções via judiciário.

[01:25:41] Eu acho isso importantíssimo.

[01:25:42] Mas eu não sei se sairia daí um fôlego

[01:25:47] para a gente conseguir regulamentar.

[01:25:49] Enquanto isso, como é que fica o lance da previdência,

[01:25:53] que era o que você queria falar?

[01:25:55] Para os outros, para as outras plataformas,

[01:25:56] para quem não é organizado, para o que não foi decidido ainda.

[01:26:00] Como é que fica essa questão?

[01:26:02] Então, eu acho que esse novo perfil tecnológico,

[01:26:07] ele afeta a questão previdenciária de duas formas.

[01:26:10] Primeiro, que a tecnologia está em um processo muito acelerado

[01:26:16] de subestimação.

[01:26:17] Substituição de mudança na composição,

[01:26:19] que a gente chama de composição orgânica do capital.

[01:26:22] Nada mais é do que substituir o homem por você precisar de menos trabalhadores,

[01:26:26] porque você tem uma tecnologia que dispensa mão de obra

[01:26:31] crescendo em velocidade muito acelerada.

[01:26:34] Por outro, essas plataformas, como você falou,

[01:26:38] é muito difícil você conseguir fazer com que elas repartam o excedente

[01:26:45] produzido, o lucro dela,

[01:26:47] com o conjunto da sociedade.

[01:26:48] É muito difícil você conseguir fazer esse processo de tributação,

[01:26:53] fiscalização e etc.

[01:26:55] Isso é algo muito complicado.

[01:26:57] E quando a gente fala de previdência social,

[01:27:00] as pessoas têm um pouco de dificuldade de compreender que debate é esse,

[01:27:05] mas é simplesmente o seguinte.

[01:27:07] Tem pessoas que estão no mercado de trabalho,

[01:27:09] que estão trabalhando,

[01:27:11] que são o que a gente chama de população ativa,

[01:27:14] e tem a população inativa, que são as crianças e os idosos.

[01:27:17] Como é que as crianças e os idosos sobrevivem?

[01:27:20] Eles sobrevivem…

[01:27:21] Se não trabalham.

[01:27:22] Se não trabalham a partir da redistribuição desse excedente social

[01:27:26] que é produzido por quem está trabalhando.

[01:27:29] Isso pode se dar de várias formas.

[01:27:30] Por capitalização, que é um regime onde cada um vai fazer uma espécie de poupança

[01:27:36] e vai ter direitos monetários no futuro.

[01:27:38] Pelo sistema de repartição que funciona no Brasil,

[01:27:41] que é o trabalhador que está na ativa contribuindo

[01:27:45] para quem está na inovação,

[01:27:47] na atividade.

[01:27:48] Mas, no fim das contas, é sempre o trabalhador corrente

[01:27:51] repartindo o excedente com os inativos.

[01:27:55] Independente de regime, se for de capitalização,

[01:27:57] se for de repartição,

[01:27:58] essa estrutura está dada.

[01:28:00] Se for uma tribo,

[01:28:01] as pessoas que estão lá trabalhando diariamente

[01:28:04] vão ter que repartir o excedente com os idosos e com as crianças.

[01:28:07] Essa repartição se torna muito complicada

[01:28:10] quando você não tem a interferência do conjunto da sociedade

[01:28:14] direta nos grupos de trabalho.

[01:28:16] Então, a gente tem que ter uma estrutura direta

[01:28:16] para que a gente possa ter uma estrutura direta

[01:28:16] para que a gente possa ter uma estrutura direta

[01:28:16] nos mecanismos de política fiscal, de fato.

[01:28:21] É muito difícil, como a gente conversou,

[01:28:25] você conseguir operacionar, por exemplo,

[01:28:29] a tributação no setor hoteleiro hoje,

[01:28:32] que virou uma imensa plataforma.

[01:28:36] É muito difícil a gente pensar em tributação

[01:28:40] de um professor que está dentro de um aplicativo qualquer,

[01:28:45] de um profissional da engenharia,

[01:28:48] daqui a pouco vai começar a ter,

[01:28:50] de um veterinário,

[01:28:51] de um cuidador,

[01:28:53] de um cara que é cuidador de pet, enfim.

[01:28:56] A gente vai perdendo…

[01:28:57] Tem tudo, né?

[01:28:58] É, tem tudo.

[01:28:59] A gente vai perdendo cada vez mais essa capacidade

[01:29:01] de interferir na repartição do excedente socialmente produzido.

[01:29:06] Então, essa dificuldade em um mundo em que os trabalhadores ativos…

[01:29:11] Você está vivendo uma transição demográfica no Brasil,

[01:29:14] ou seja,

[01:29:14] você tente ter cada vez mais trabalhadores…

[01:29:18] Você tem uma tendência cada vez maior

[01:29:21] de ter pessoas na inatividade,

[01:29:23] ou seja, a população está envelhecendo,

[01:29:25] menos trabalhadores em atividade,

[01:29:28] e os poucos trabalhadores que estão em atividade

[01:29:30] estão em setores cada vez mais precarizados, informais…

[01:29:34] Sem contribuir com a Previdência, portanto, né?

[01:29:37] Isso, sem contribuir com a Previdência, portanto…

[01:29:39] Mas o importante não é nem ele contribuir com a Previdência, tá?

[01:29:42] Porque o trabalhador não precisa contribuir,

[01:29:44] se você, por exemplo, conseguisse fazer com que a empresa contribuísse, né?

[01:29:47] Sim, sim, exatamente.

[01:29:49] É, é porque a gente fica muito com essa lógica

[01:29:51] de que é o trabalhador que tem que contribuir

[01:29:54] com a Previdência Social dele.

[01:29:55] A gente tem que tratar mais…

[01:29:56] Sim, sim, sim, sim.

[01:29:57] É, esse é um debate que eu insisto muito,

[01:30:01] porque a gente tem que pensar em novas formas de tributação.

[01:30:05] A gente tem que tributar cada vez mais o capital

[01:30:08] e tirar o peso muito da Previdência Social

[01:30:11] das costas do trabalhador.

[01:30:12] Eu sei que você falou isso,

[01:30:14] mas isso parece um detalhe mais…

[01:30:16] Não, mas não é detalhe de maneira nenhuma.

[01:30:19] Tem que esclarecer mesmo.

[01:30:20] Tem que ficar bem na nossa cabeça.

[01:30:22] A gente tem que entender o que deveria ser, né?

[01:30:26] Para a gente poder saber pelo que a gente tem que lutar, né?

[01:30:28] O que a gente tem que exigir.

[01:30:29] É, tá?

[01:30:29] É certíssimo.

[01:30:30] É, e o capital, ele começa a gerar muito valor

[01:30:33] com cada vez menos trabalhadores, né?

[01:30:36] Essa é a tendência da tecnologia, tá?

[01:30:38] Então, não adianta a gente ficar mirando no trabalhador.

[01:30:42] A gente tem que mirar no capital.

[01:30:44] E a uberização, a gente já falou que é uma tecnologia

[01:30:47] que precariza o trabalho,

[01:30:49] que é uma tecnologia que dificulta a regulamentação,

[01:30:53] a regulação do Estado na esfera da organização urbana,

[01:30:59] enfim, no turismo, etc.

[01:31:01] Mas ela também é uma tecnologia

[01:31:03] que dificulta a própria execução da política fiscal do Estado, né?

[01:31:08] Ela vai blindando o capital de qualquer tipo de interferência social.

[01:31:13] E isso, no momento de transição,

[01:31:14] ela vai blindando o capital de qualquer tipo de intervenção demográfica

[01:31:16] com avanço tecnológico.

[01:31:19] Ou seja, você está com cada vez menos trabalhadores

[01:31:21] e com o processo de geração de desemprego estrutural muito acelerado

[01:31:25] e você precisa, cada vez mais,

[01:31:28] de uma intervenção estatal na repartição,

[01:31:32] na redistribuição desse excedente socialmente produzido,

[01:31:36] você vai perdendo essa capacidade.

[01:31:38] E esse é o desafio demográfico.

[01:31:40] É você ter capacidade de redistribuir esse excedente

[01:31:44] para os idosos, né?

[01:31:46] De forma minimamente justa.

[01:31:49] Senão a gente ia estar numa paranoia,

[01:31:51] numa maluquice de cada um por si.

[01:31:54] E aí você vai pegar o motorista

[01:31:56] de um sistema de capitalização maluco, imagina,

[01:31:59] a gente pegar esse motorista de Uber,

[01:32:01] se a gente tivesse sido aprovada a reforma do Paulo Guedes,

[01:32:03] que era uma capitalização restrita,

[01:32:05] era o fim da capitalização do sistema de repartição,

[01:32:08] o Estado não teria mais responsabilidade nenhuma.

[01:32:11] Nenhuma, praticamente nenhuma.

[01:32:12] Ótimo, né? Maravilhoso.

[01:32:13] Uma pessoa sensacional.

[01:32:15] É, como é que esse cara ia poupar grana pro futuro dele?

[01:32:18] Esse cara seria totalmente abandonado na velhice também,

[01:32:21] além de se fuder a vida toda.

[01:32:23] Sim, exatamente.

[01:32:25] Ele não teria aposentadoria nenhuma,

[01:32:26] ele ia se fuder na velhice.

[01:32:29] Em verde e amarelo, literalmente, inclusive.

[01:32:32] E sem o Estado ter nenhuma capacidade de,

[01:32:34] naquele momento, chegar lá e interferir em alguma coisa,

[01:32:37] fazer um processo de,

[01:32:39] um programa de repartição desse excedente,

[01:32:43] porque ele perdeu,

[01:32:43] ele perdeu o controle sobre as empresas,

[01:32:45] sobre o capital.

[01:32:47] A gente está perdendo o controle sobre o capital.

[01:32:49] Eu acho que, cada vez mais,

[01:32:52] a tecnologia está a favor disso.

[01:32:53] A gente perdeu o controle total

[01:32:55] sobre a dinâmica do capital.

[01:32:58] A dinâmica dele é cada vez mais autônoma

[01:33:02] em relação…

[01:33:04] A mediação que existe,

[01:33:06] ela vai se perdendo.

[01:33:08] Uma coisa interessante que você tinha falado,

[01:33:10] que você está falando que,

[01:33:13] o capital, isso, aquilo, tal, não sei o quê,

[01:33:16] a gente tem que lembrar mesmo que o capitalismo,

[01:33:18] na verdade, todas as coisas que a gente está comentando aqui,

[01:33:21] esse esquema das plataformas e a precarização do trabalho,

[01:33:25] elas são soluções para problemas,

[01:33:28] soluções entre muitas aspas,

[01:33:29] que o capitalismo oferece para problemas que ele mesmo criou.

[01:33:33] Então, é o capitalismo que cria essa urgência

[01:33:36] que a gente tem de serviço,

[01:33:37] tudo tem que ser imediato.

[01:33:39] É o capitalismo que cria essa massa de pessoas

[01:33:42] dispostas a fazer o que a gente quer,

[01:33:43] a gente tem que fazer o que a gente quer,

[01:33:43] a gente tem que aceitar qualquer tipo de trabalho,

[01:33:46] e aí ele oferece como pseudo-solução

[01:33:48] esse trabalho muito precário.

[01:33:50] Então, é um círculo que a gente não está conseguindo quebrar.

[01:33:53] Está muito complicado,

[01:33:54] porque o Estado não está entrando

[01:33:56] para fazer o que deveria fazer,

[01:33:58] e isso abre espaço para que esse capitalismo

[01:34:00] feroz, predador, predatório,

[01:34:03] entre com os seus tentáculos

[01:34:06] e invada todas as camadas da sociedade

[01:34:08] e está muito difícil,

[01:34:10] vai ficar cada vez mais difícil regular.

[01:34:12] Hoje a gente estava comentando,

[01:34:13] na Pistolândia, que é o nosso grupo de apoiadores,

[01:34:16] uma notícia que é de 2016,

[01:34:18] mas que foi puxada outra vez agora,

[01:34:21] essa semana,

[01:34:22] sobre a Mercedes fazendo os carros

[01:34:24] que se autodirigem,

[01:34:25] os carros com piloto automático lá e tal,

[01:34:28] e que, até agora,

[01:34:30] o que tinha impedido esses carros

[01:34:31] de serem colocados no comércio

[01:34:32] é a questão ética.

[01:34:34] Porque se você fizer um carro

[01:34:35] que, para salvar a vida de quem está lá dentro,

[01:34:38] que presumivelmente é o dono do carro,

[01:34:40] no caso de um acidente que está para acontecer,

[01:34:42] o carro faz os cálculos e ele fala,

[01:34:44] olha, para salvar a pessoa que está dentro do carro,

[01:34:46] eu tenho que subir na calçada e matar três pessoas

[01:34:48] estando no ponto de ônibus.

[01:34:49] Qual seria a resposta correta,

[01:34:52] do ponto de vista ético, numa situação dessas?

[01:34:54] Aí você fala, sei lá, de repente,

[01:34:56] poupar o motorista porque é uma pessoa só,

[01:34:59] tipo, você mata o motorista,

[01:35:00] que é uma pessoa só para poupar a vida de três pessoas.

[01:35:02] Só que a pessoa que compra um carro desses,

[01:35:04] ela não vai comprar um carro que ela sabe

[01:35:06] que numa situação dessas

[01:35:08] vai matar ela.

[01:35:10] Claro que não, não é seguro para ela,

[01:35:12] ela quer que se foda as pessoas estando no ponto de ônibus.

[01:35:14] O que ela quer é ela sobreviver, né?

[01:35:16] Então fica uma coisa predatória

[01:35:17] de todos os pontos de vista, o tempo todo,

[01:35:20] é briga de cachorro mesmo,

[01:35:23] é todo mundo lutando por migalhas,

[01:35:26] quem quiser, quem tiver mais força,

[01:35:29] quem tiver mais adaptado é aquele que se dá bem,

[01:35:31] isso porque você está retirando o Estado

[01:35:34] e até pela dificuldade mesmo de acompanhar, né?

[01:35:36] Não tem nenhuma legislação que regule uma coisa dessas.

[01:35:39] Em nenhum país está equipado

[01:35:41] do ponto de vista jurídico

[01:35:42] para legislar num caso desses.

[01:35:45] Não tem nada que fale

[01:35:47] o que você faz com um carro que se autodirige, né?

[01:35:50] E aí como não tem o Estado,

[01:35:51] entra o capitalismo e caga tudo.

[01:35:54] É, esse exemplo seu é ótimo, né?

[01:35:56] Que você mostrou como que

[01:35:58] o ótimo para um indivíduo

[01:36:01] ele é prejudicial para um todo, né?

[01:36:05] Sim.

[01:36:06] Como que cada um maximizando a sua própria utilidade,

[01:36:09] que é o que a gente fala em economia,

[01:36:11] pode não levar um ótimo social, né?

[01:36:14] Como que essa perseguição pelo próprio bem-estar

[01:36:17] pode ser prejudicial como um todo.

[01:36:20] E como esse tipo de economia que está se moldando,

[01:36:24] ele reforça o individualismo

[01:36:26] em detrimento do coletivo,

[01:36:28] do nosso contrato social.

[01:36:30] A gente está voltando a uma coisa de selva, né?

[01:36:32] É, exatamente.

[01:36:33] Eu vou no carro sozinho,

[01:36:35] porque aí eu não falo com ninguém,

[01:36:36] não encosto em ninguém.

[01:36:37] Tem até aquela opção agora que estavam para lançar,

[01:36:39] não sei se foi realmente lançada, né?

[01:36:41] Pagar um pouco a mais para o motorista não falar com você, né?

[01:36:44] Para o motorista de Uber não falar contigo.

[01:36:46] É um negócio muito louco, cara.

[01:36:48] Realmente é um troço muito maluco.

[01:36:50] Mas aí você fica pensando também que

[01:36:51] se por um lado…

[01:36:53] Se por um lado, não.

[01:36:54] Tudo corrobora a mesma coisa, né?

[01:36:56] Essa coisa do indivíduo.

[01:36:57] Isso é uma coisa que se vocês ouvirem

[01:36:59] o nosso episódio que já está antigo, né?

[01:37:02] Digamos assim, né?

[01:37:02] Primeira temporada, por assim dizer.

[01:37:04] Com a Sabrina sobre lixo, plástico e reciclagem.

[01:37:07] Com a Sabrina Fernandes e a Anakaru.

[01:37:10] Foi falado…

[01:37:11] Foi batido muito nessa tecla.

[01:37:12] Não adianta, tipo, ah, eu vou boicotar o Uber agora.

[01:37:15] Não é isso que vai resolver, né?

[01:37:17] Nós, enquanto indivíduos,

[01:37:18] nós somos responsáveis em parte

[01:37:20] pela existência dessa empresa, né?

[01:37:22] Ela só existe porque a gente está usando, obviamente.

[01:37:25] Mas, na verdade,

[01:37:26] quem criou essa necessidade foi a própria empresa.

[01:37:28] A gente não sabia que a gente queria Uber.

[01:37:30] Até a Uber existir e inventar essa coisa.

[01:37:32] A gente estava vivendo tranquilamente sem.

[01:37:34] E foi criada essa necessidade,

[01:37:36] que também é uma coisa típica do capitalismo.

[01:37:38] A gente caiu que nem um patinho porque

[01:37:39] as condições eram todas propícias.

[01:37:42] Mas, assim como nós, individualmente,

[01:37:44] não somos o problema,

[01:37:46] nós, individualmente, também não vamos ser a solução.

[01:37:49] Não vai ser eu boicotando o Uber

[01:37:50] que vai resolver o problema, né?

[01:37:53] É o sistema todo que está cagado.

[01:37:55] Não sou eu usando o Uber que vou…

[01:37:58] Usando ou deixando de usar

[01:37:59] que vou piorar ou melhorar o problema, né?

[01:38:02] É uma coisa realmente estrutural.

[01:38:04] Muito mais complicada do que

[01:38:05] só euzinha chamando o motorista, né?

[01:38:07] É, você tem que ter uma organização social,

[01:38:09] para pensar em saídas coletivas

[01:38:13] para um problema que é coletivo.

[01:38:16] É importante pensar…

[01:38:18] Porque eu vejo muito voluntarismo, né?

[01:38:20] As pessoas falam, pô,

[01:38:22] eu não vou andar de Uber.

[01:38:24] A culpa é de vocês

[01:38:26] que ficam usando aí o Uber, né?

[01:38:29] É essa lógica assistente para tudo, né?

[01:38:32] A culpa é de quem toma banho mais…

[01:38:33] Sim, a maconha.

[01:38:34] É, a culpa é de quem toma banho mais de 10 minutos.

[01:38:37] De quem usa canudo de plástico,

[01:38:39] né?

[01:38:40] É, que não tem painel solar em casa.

[01:38:42] Ou a culpa do agro

[01:38:44] é de quem consome a carne,

[01:38:47] que o agro…

[01:38:48] Por isso que eles estão destruindo o meio ambiente,

[01:38:50] porque as pessoas consomem carne.

[01:38:52] É, essas soluções são…

[01:38:55] É, parecem interessantes.

[01:38:57] Eu acho que até traz um conforto

[01:38:58] para quem…

[01:38:59] Definitivamente. Eu me sinto ótima quando eu uso

[01:39:01] o meu canudinho de inox.

[01:39:03] É, traz um conforto.

[01:39:05] Mas não resolve, né?

[01:39:06] Mas não resolve. Você vai se sentir melhor.

[01:39:08] Mas isso está…

[01:39:09] Para longe de resolver

[01:39:11] a questão que é estrutural.

[01:39:15] Então, eu acho que a gente tem que pensar

[01:39:16] em novas formas de participação

[01:39:18] social nessas esferas

[01:39:21] que a gente está cada vez mais distante.

[01:39:23] Só uma coisinha rápida

[01:39:25] que você falou, que eu achei muito interessante.

[01:39:27] Você estava falando, né? Como o capitalismo

[01:39:28] ele cria crises

[01:39:30] e ele sai da crise…

[01:39:32] E a gente vem de uma solução…

[01:39:33] É, aprofundando as próprias contradições que levaram ele a essa crise.

[01:39:37] Né?

[01:39:38] É, o feedback…

[01:39:38] O feedback…

[01:39:39] Positivo, assim.

[01:39:40] Ele reforça ele mesmo, né?

[01:39:41] É, e isso, por exemplo,

[01:39:43] rapidamente, ó.

[01:39:44] Por exemplo, eu vou dizer uma crise em 2008

[01:39:46] que tem muito a ver com a financiarização

[01:39:48] da economia

[01:39:50] na área da habitação

[01:39:51] e ligada diretamente com os fundos de pensão.

[01:39:55] Sim.

[01:39:55] Com a mercantilização generalizada,

[01:39:57] com a financiarização generalizada

[01:39:59] da Previdência Social.

[01:40:00] Que eles não têm, por exemplo, nos Estados Unidos.

[01:40:03] Então, os fundos de pensão, eles são centrais

[01:40:05] para o processo…

[01:40:06] Para todo o processo de financiarização,

[01:40:07] todos esses recursos, eles são generalizados.

[01:40:09] Generalizados.

[01:40:09] Para instrumentos financeiros,

[01:40:12] para produtos financeiros altamente criminosos e fraudulentos.

[01:40:17] Mas a essência dessa crise está ali, ó.

[01:40:19] Por exemplo, nos fundos de pensão,

[01:40:20] que começa um processo de regulamentação ainda na década de 80.

[01:40:24] E vai se manifestar em crise.

[01:40:26] Como é que o…

[01:40:27] Quando a crise se manifesta, as taxas de lucro despertam

[01:40:31] e o capitalismo busca recuperar essas taxas de lucro.

[01:40:33] Como que é a solução, por exemplo, do capitalismo

[01:40:36] para a crise que ele mesmo criou?

[01:40:37] E que tem muito a ver, por exemplo,

[01:40:39] com a financiarização dos fundos de pensão.

[01:40:41] Você fazer reformas da Previdência na periferia do sistema,

[01:40:46] mercantilizando a Previdência Social de países, por exemplo, como o Brasil.

[01:40:50] Então, a própria contradição que levou à crise,

[01:40:54] eles aprofundam para sair da crise.

[01:40:57] Então, você vai criando novas bolhas

[01:40:59] que uma hora ou outra vai explodir.

[01:41:02] Então, a Previdência aconteceu isso, exatamente.

[01:41:05] Você teve um processo de crise econômica,

[01:41:08] no capitalismo central.

[01:41:12] E o capitalismo, tentando sair da crise,

[01:41:14] isso não é coincidência de forma alguma,

[01:41:16] ele vai empurrando uma série de reformas estruturais

[01:41:19] na periferia do sistema.

[01:41:21] E, por exemplo, o Brasil, agora, nesse exato momento,

[01:41:23] está a reboque dessa estratégia de financiarização de tudo.

[01:41:27] É a mesma coisa para o mercado de trabalho.

[01:41:29] Você cria uma crise imensa de desemprego

[01:41:31] para reformular radicalmente o seu mercado de trabalho.

[01:41:35] Então, a mobilização da economia

[01:41:37] vai se tornando cada vez mais legítima.

[01:41:38] De acordo com a nossa legislação trabalhista.

[01:41:41] A nossa legislação trabalhista está se adequando à uberização.

[01:41:46] Há passos lentos, mas daqui a pouco a gente não vai ter mais nada.

[01:41:50] O contrato verde e amarelo é quase isso.

[01:41:52] Enfim, você vai tendo novas rodadas de reformas trabalhistas.

[01:41:58] Isso vai ser enlouquecedor nos próximos anos

[01:42:00] se a gente continuar com os governos neoliberais.

[01:42:03] Nesse ritmo, né?

[01:42:04] É.

[01:42:04] Você vai adequar cada vez mais a sua legislação

[01:42:07] às necessidades da uberização.

[01:42:08] E não o contrário.

[01:42:10] Por isso que eu sou pessimista.

[01:42:13] Tem uma história que é muito rápida, tá?

[01:42:16] Que eu já sei que a gente já estudou todo o tempo.

[01:42:19] Não tem problema, que o papo está ótimo.

[01:42:21] Milton Friedman,

[01:42:23] talvez um dos pais do neoliberalismo,

[01:42:27] que ele foi essencial

[01:42:29] para o primeiro modelo de neoliberalismo

[01:42:33] que foi o chileno.

[01:42:35] Foi uma ditadura sanguinária, etc.

[01:42:37] Um ano antes dele morrer,

[01:42:38] em 2005,

[01:42:40] teve o furacão Katrina.

[01:42:41] Sim, nossa.

[01:42:42] Ele dá uma entrevista que é sintomática.

[01:42:45] As escolas foram destruídas,

[01:42:47] as escolas públicas.

[01:42:48] E ele fala o seguinte,

[01:42:49] olha, foi uma tragédia,

[01:42:51] mas é uma bela oportunidade

[01:42:52] para reconstruirmos o nosso sistema educacional, tá?

[01:42:57] Então, essa destruição, para eles,

[01:43:00] ela tem um potencial de reformular

[01:43:03] a estrutura econômica

[01:43:06] para buscar cada vez mais mercado em tudo.

[01:43:08] Então, como para ele

[01:43:10] era uma bela oportunidade

[01:43:12] de você, já está destruída,

[01:43:15] as escolas públicas já estão destruídas,

[01:43:16] então a gente abre

[01:43:17] um sistema totalmente privado.

[01:43:22] Você precisa destruir a saúde pública

[01:43:24] para você vender plano de saúde privado.

[01:43:26] Você precisa destruir a educação pública

[01:43:28] para vender o privado.

[01:43:30] Você precisa destruir a previdência social

[01:43:32] para vender fundos de previdência privada

[01:43:34] do Itaú, do Bradesco, dos grandes bancos.

[01:43:36] Se você tiver transporte público,

[01:43:38] você prejudica um pouco

[01:43:40] do processo de urbanização.

[01:43:42] Se você tiver emprego garantido pelo Estado,

[01:43:45] você impede que as plataformas

[01:43:49] explorem em um nível muito grotesco.

[01:43:52] Você não vai impedir tudo,

[01:43:53] mas você vai determinar uma régua.

[01:43:55] Então, essa disputa política,

[01:43:58] ela é constante,

[01:43:59] o capital tentando sair da crise,

[01:44:01] ele vai destruindo os resquícios

[01:44:04] de Estado de bem-estar social,

[01:44:05] os resquícios de regulação trabalhista,

[01:44:08] os resquícios de regulação ambiental.

[01:44:12] Que merda, né?

[01:44:13] Então, fica a dica do He-Man para vocês hoje, gente.

[01:44:15] O capitalismo é um cu, tá?

[01:44:17] Aí, imaginem o He-Man montando no jet ski

[01:44:19] e indo embora, assim.

[01:44:19] Amiguinhos, o capitalismo é uma merda.

[01:44:21] Hoje aprendemos que o capitalismo é uma merda.

[01:44:23] Todos esses problemas vêm do capitalismo.

[01:44:26] E se você acha que você é empreendedor

[01:44:29] ou se você acha que você é supercapitalista

[01:44:32] porque você tem o famoso Honda Civic,

[01:44:34] você está errado,

[01:44:35] porque você não possui os meios de produção,

[01:44:37] então você não é capitalista,

[01:44:39] você está vendendo a sua força de trabalho,

[01:44:41] logo, você é fudido pelo capitalismo também.

[01:44:44] Davi, você quer falar mais alguma coisa

[01:44:46] que você acha que a gente deixou de fora

[01:44:47] antes da gente passar para as dicas culturais?

[01:44:50] É, eu acho que…

[01:44:50] Eu acho que a gente cobrou tudo direitinho.

[01:44:52] Eu acho que a gente falou sobre bastante coisa,

[01:44:54] é um assunto muito amplo,

[01:44:55] mas eu acho que deu para pensar bastante, né,

[01:44:59] nesses problemas.

[01:45:00] Depois o pessoal manda mensagem, né?

[01:45:02] Sim, certamente.

[01:45:03] Eu acho que, como é uma coisa muito nova,

[01:45:06] é legal.

[01:45:07] As pessoas começaram a pensar em soluções.

[01:45:10] Sim, sim.

[01:45:11] Falar o que que…

[01:45:12] A gente não pensa nisso, né?

[01:45:14] É.

[01:45:15] Inclusive até para você conversar com o seu motorista de Uber,

[01:45:17] quando ele falar para você,

[01:45:18] não, porra, tá legal,

[01:45:20] você fala, olha só,

[01:45:21] você não tem direito de trabalhar nisso,

[01:45:22] o que acontece se você bater no teu carro

[01:45:24] e ficar sem trabalhar?

[01:45:25] Eu já tive essa conversa algumas vezes

[01:45:27] e já aconteceu no motorista ficar mudo, assim,

[01:45:29] porque ele nunca tinha parado para pensar nisso

[01:45:31] e não sabia o que responder.

[01:45:32] É, quanto que ele perde,

[01:45:33] quanto que a Uber perde.

[01:45:34] Aproveitem.

[01:45:35] Se ele bater de carro e ficar…

[01:45:36] Seis meses com o gesso no pé,

[01:45:38] quanto que ele perde?

[01:45:39] Exatamente.

[01:45:40] Quanto que a Uber vai perder?

[01:45:42] Exatamente, né?

[01:45:43] Então, fica aí a reflexão.

[01:45:45] Plantem sementinhas na cabeça dos seus motoristas.

[01:45:48] Eu peço desculpas pelo Thiago,

[01:45:50] que teve que sair,

[01:45:51] ele está enrolado no trabalho

[01:45:52] porque ele trabalha com TI,

[01:45:53] agora é época de Natal,

[01:45:54] está tudo cagado,

[01:45:55] ele foi chamado de emergência

[01:45:57] para resolver um babado lá.

[01:46:00] Então, vamos entrar nós dois

[01:46:01] na balada do pistoleiro,

[01:46:02] que é a nossa sessão de dicas culturais.

[01:46:04] Você chegou a separar alguma coisa aí

[01:46:06] para dar de dica para a gente?

[01:46:08] Eu não separei,

[01:46:09] mas eu pensei aqui agora,

[01:46:10] tem um livro interessante,

[01:46:13] pode ser um livro, né?

[01:46:14] Por exemplo…

[01:46:14] Pode ser qualquer coisa que você quiser.

[01:46:16] É, tem dois livros aí

[01:46:18] que eu gostaria de recomendar.

[01:46:20] Manda ver.

[01:46:21] O primeiro é o do David Graeber,

[01:46:23] é um antropólogo,

[01:46:25] ele escreveu um livro muito interessante,

[01:46:27] que é Tive de 5 mil anos,

[01:46:28] é um livro super gostoso,

[01:46:30] vende em qualquer loja de aeroporto,

[01:46:32] banca de jornal,

[01:46:33] já virou um best-seller.

[01:46:36] É um livro bem interessante

[01:46:39] e eu acho que ele dá algumas dicas,

[01:46:42] é um livro um pouco, talvez, pessimista,

[01:46:45] mas ele dá algumas dicas ali

[01:46:47] de como a gente pode repensar

[01:46:49] nas nossas formas de organização social

[01:46:52] a partir de uma leitura nova

[01:46:54] do que é o dinheiro de fato,

[01:46:56] do que são as dívidas

[01:46:57] e todo esse processo que a gente discutiu aqui,

[01:47:01] ele aborda no livro dele

[01:47:03] de uma maneira muito interessante,

[01:47:05] muito clara,

[01:47:06] muito gostosa,

[01:47:06] eu acho que é um livro bem interessante

[01:47:09] para a gente repensar o que é dinheiro,

[01:47:11] como a gente se organiza socialmente,

[01:47:14] de como existe um mito,

[01:47:16] como que o mito econômico ortodoxo

[01:47:20] ele deixa isso tudo muito turvo,

[01:47:22] as nossas relações,

[01:47:23] elas ficam muito turvas,

[01:47:25] o mito do livre mercado,

[01:47:29] o mito de que o dinheiro surge

[01:47:31] a partir da nossa propensão individual

[01:47:35] a barganhar o ódio,

[01:47:36] como o indivíduo propenso a trocar

[01:47:38] essas coisas,

[01:47:40] ele como antropólogo vai esclarecendo

[01:47:42] ao longo do livro,

[01:47:43] não é nada de muito novo,

[01:47:47] mas é um trabalho de divulgação

[01:47:48] científica interessante.

[01:47:51] Para quem nunca parou para pensar nisso,

[01:47:53] é sempre uma boa, né?

[01:47:54] É, eu acho que é bem interessante

[01:47:56] porque ele faz uma coletânea de coisas

[01:47:58] que os economistas,

[01:48:00] principalmente os economistas,

[01:48:03] não pensam,

[01:48:04] não pensam.

[01:48:05] E eu acho muito importante

[01:48:10] para economistas, especialmente,

[01:48:13] que não sabem nada

[01:48:15] do que ele está falando ali

[01:48:16] e repetem um monte de baboseira

[01:48:19] e é importante ter essa visão

[01:48:21] de um antropólogo sobre a economia.

[01:48:23] Eu acho que isso é bem importante

[01:48:25] para também quem gosta de economia

[01:48:27] e para quem acha que sabe tudo de economia,

[01:48:30] estudou muito economia,

[01:48:32] é importante ler esse livro

[01:48:33] para perceber como a gente não sabe nada

[01:48:35] sobre dinheiro e mercado.

[01:48:37] Ótimo.

[01:48:38] Outra coisa, aí, já para quem quiser

[01:48:40] se aprofundar no tema,

[01:48:41] tem o livro do Ricardo Antunes,

[01:48:43] O Privilégio da Servidão,

[01:48:45] o novo proletariado

[01:48:47] de serviços na era digital.

[01:48:50] Eu acho que ele tem uma pegada

[01:48:51] mais estrutural

[01:48:53] do que o livro da uberização que você falou antes.

[01:48:56] Eu tinha lido esse livro,

[01:48:57] eu li esse livro tem uns dois anos,

[01:49:00] é um livro mais descritivo, né?

[01:49:02] Sim, sim.

[01:49:03] É um livro mais descritivo.

[01:49:05] O Ricardo Antunes, ele vai mais na raiz do problema.

[01:49:09] Então, eu acho que é bem complementar, assim,

[01:49:12] o Ricardo Antunes faz a gente pensar mais

[01:49:14] nas questões estruturais

[01:49:17] do que a gente está chamando aqui de uberização,

[01:49:20] como que isso é o próprio capital,

[01:49:22] o velho e o próprio capital

[01:49:23] manifestando as suas contradições

[01:49:26] em uma outra especificidade histórica do capitalismo.

[01:49:29] Eu acho que é bem rico,

[01:49:30] uma leitura bem rica para a gente pensar

[01:49:32] nesses novos desafios, né?

[01:49:34] Acho que a gente tem que…

[01:49:35] Ah, e a gente está imerso nesse tipo de economia,

[01:49:37] a gente precisa saber como ela funciona,

[01:49:39] precisa saber o que ela implica,

[01:49:40] que consequências ela tem,

[01:49:41] não dá para a gente fingir

[01:49:42] que isso tudo é alheio a gente,

[01:49:45] porque não é, né?

[01:49:46] Quem que não pega uber?

[01:49:47] Quem que não fica no Airbnb quando viaja?

[01:49:49] Quem que não pede um negócio pelo Rappi, pelo iFood?

[01:49:52] A gente não consegue mais fugir disso,

[01:49:54] então a gente tem que saber como isso funciona

[01:49:55] e que consequências isso tem, né?

[01:49:57] Exato.

[01:49:57] Para a gente poder entender o que precisa mudar,

[01:49:59] senão a gente fica eternamente nesse ciclo

[01:50:01] e não sai nunca.

[01:50:02] É, e é um desafio muito grande pensar nisso,

[01:50:05] porque, por exemplo, na economia

[01:50:07] é uma coisa que não é abordada, sabe?

[01:50:10] Economista, por exemplo, não pensa nisso,

[01:50:12] parece que é uma simples coisa

[01:50:15] que surge no mercado, oferta e demanda.

[01:50:18] Tem gente querendo o serviço do Uber,

[01:50:22] o cara está querendo ofertar o serviço dele,

[01:50:25] eles vão se encontrar no mercado e pronto,

[01:50:27] é só isso, nada de mais,

[01:50:29] é algo positivo, enfim.

[01:50:32] Todas as partes estão de acordo, né?

[01:50:34] Cientes e de acordo.

[01:50:35] Todas as partes estão de acordo.

[01:50:35] É um contrato estabelecido no mercado,

[01:50:38] oferta e demanda e vai lá.

[01:50:40] É uma leitura muito pobre que os economistas têm

[01:50:43] da nossa especificidade histórica.

[01:50:47] É uma leitura muito pobre,

[01:50:48] é uma leitura muito pobre e é difícil.

[01:50:52] Eu gosto muito mais de ler as pessoas das outras áreas.

[01:50:55] Eu, como economista, me sinto bem decepcionado

[01:50:59] com a minha profissão nesses debates tão importantes, né?

[01:51:03] Quando a gente debate Previdência,

[01:51:05] a única coisa que aparece no noticiário

[01:51:07] é como reduzir o benefício do cara, entendeu?

[01:51:12] Como fazer o cara trabalhar mais

[01:51:13] e como reduzir o benefício do cara.

[01:51:15] São os dois debates, olha.

[01:51:17] A gente tem que fazer uma regra de cálculo

[01:51:19] para o cara ganhar menos,

[01:51:21] uma outra regra de cálculo para ele pagar mais

[01:51:23] e uma outra regra para ele se aposentar mais tarde.

[01:51:26] Esse é o tripé do debate dos caras.

[01:51:30] É um negócio muito pobre

[01:51:32] e aí a gente precisa das pessoas das outras áreas,

[01:51:35] entrando no debate,

[01:51:36] porque é quando qualificam o nosso, né?

[01:51:39] A galera da sociologia,

[01:51:41] a galera do jornalismo,

[01:51:43] essa galera tem que começar a discutir urgentemente,

[01:51:47] os historiadores discutirem urgentemente economista,

[01:51:50] tomar a economia da mão dos economistas,

[01:51:53] porque senão a gente está ferrado.

[01:51:56] Lerei.

[01:51:57] Eu já tinha ouvido falar bastante desse livro,

[01:51:59] ele está bem badalado, assim,

[01:52:01] nas internets esquerdopatas,

[01:52:05] só comenta bastante, assim,

[01:52:06] e eu agora vou colocá-lo seriamente na lista e lerei.

[01:52:10] É, e ele tem falado sobre tudo também.

[01:52:11] Tá, mais alguma dica?

[01:52:13] Não, eu acho que é essa.

[01:52:14] Essas são dicas…

[01:52:16] Beleza.

[01:52:17] Eu mudei de ideia,

[01:52:18] eu ia dar de dica um livro que não tem nada a ver.

[01:52:22] Eu não terminei ele ainda,

[01:52:23] então eu vou dar ele como dica no próximo episódio, talvez.

[01:52:26] E eu vou mudar aqui

[01:52:28] e vou dar como dica cultural

[01:52:30] o livro da Silvia Federici,

[01:52:33] que é Mulheres e Caçadores,

[01:52:35] Caças Bruxas, se não me engano a tradução,

[01:52:37] que é uma espécie,

[01:52:39] não exatamente um resuminho,

[01:52:40] mas ele é um pequeno adendo

[01:52:42] ao Caliban e à Bruxa,

[01:52:44] que foi um outro livro dela que eu li esse ano,

[01:52:45] que já é mais antigo, né?

[01:52:47] O Mulheres e a Caça às Bruxas é mais recente.

[01:52:49] É um livro super curtinho, é fácil de ler,

[01:52:52] ela escreve muito bem

[01:52:53] e dá muitos exemplos interessantes.

[01:52:56] O meu está todo sublinhado, todo marcado.

[01:52:58] Eu provavelmente vou gravar sobre ele um outro podcast,

[01:53:01] mas estamos sem data ainda, então não vou falar nada.

[01:53:03] E ele, em parte,

[01:53:04] toca um pouco isso que a gente estava falando hoje,

[01:53:06] porque quando você fala dessa massa

[01:53:09] de pessoas que precisam

[01:53:11] estar na merda para poder aceitar qualquer trabalho,

[01:53:13] bosta, e isso é necessário

[01:53:15] para a manutenção do capitalismo,

[01:53:17] essa massa não vem do nada,

[01:53:19] ela não vem do espaço, né?

[01:53:20] Quem gera essa massa de pessoas são as mulheres, né?

[01:53:23] Então isso faz parte do trabalho

[01:53:24] reprodutivo da mulher, que é uma coisa que a Federici

[01:53:26] martela muito nos livros dela,

[01:53:28] é um conceito que eu nunca tinha ouvido falar

[01:53:30] até pouco tempo atrás, assim, do ponto de vista teórico,

[01:53:33] eu não estudo teoria,

[01:53:34] do feminismo, então era uma coisa que eu tinha

[01:53:36] observado, mas não tinha organizado na minha cabeça

[01:53:39] direito, e ler esses livros foi muito

[01:53:40] iluminador para mim, né?

[01:53:43] Para entender que tem um nome isso,

[01:53:44] isso tem uma função social, não é por

[01:53:47] nada que essa função é relegada a gente,

[01:53:49] não é por nada que a gente

[01:53:50] se sente culpada quando não quer ter filho,

[01:53:53] né? Que a mulher que não tem filho

[01:53:54] é vista de uma maneira diferente na sociedade,

[01:53:57] não é à toa,

[01:53:58] isso tem um motivo por trás disso, né?

[01:54:00] A sociedade, o capitalismo principalmente,

[01:54:03] precisa da gente para

[01:54:04] reproduzir, para aumentar a massa

[01:54:06] de pessoas que precisam de um emprego,

[01:54:09] né? E lembrando que a gente precisa do

[01:54:10] emprego, que a gente

[01:54:11] vem da nossa força de trabalho,

[01:54:14] para fazer coisas que a gente

[01:54:16] normalmente não consegue comprar,

[01:54:18] né? E em troca disso a gente ganha um dinheiro

[01:54:20] com o qual a gente não consegue pagar por essas

[01:54:22] coisas que a gente produziu, é um sistema muito

[01:54:24] injusto, muito maluco,

[01:54:26] mas para ele se manter

[01:54:28] precisa ter uma certa massa de pessoas,

[01:54:30] e essa massa de pessoas

[01:54:32] fica sob responsabilidade da mulher,

[01:54:34] então tem um pouco a ver

[01:54:36] com o que a gente estava falando hoje, é um livro

[01:54:38] curtinho, a edição brasileira

[01:54:40] é lindíssima, tem ilustrações

[01:54:42] maravilhosas, saiu pela Boitempo,

[01:54:44] e é lindo o livro, eu até

[01:54:46] acho que até vou abrir uma exceção e comprar ele em português,

[01:54:48] normalmente eu gosto das coisas na língua

[01:54:50] original, o que eu li está em inglês,

[01:54:52] mas eu acho que eu vou comprar em português também, porque

[01:54:54] está linda a edição, e

[01:54:56] vale muito a pena ler, muito mesmo,

[01:54:59] várias fichas cairão,

[01:55:00] eu vou ouvir daqui as fichas caindo,

[01:55:02] porque você aprende um monte,

[01:55:04] de coisa que normalmente você não

[01:55:06] pensaria, e tem a ver com o que a gente

[01:55:08] está falando aqui hoje também,

[01:55:10] então vale muito a pena ver,

[01:55:12] eu não sei se o Thiago depois vai inserir a dica

[01:55:14] dele mais tarde, mas de qualquer maneira,

[01:55:16] Oi,

[01:55:18] olha, você chegou,

[01:55:20] eu acabei de voltar,

[01:55:21] então fala a sua balada do pistoleiro que nós já acabamos,

[01:55:24] ah meu Deus, eu tive uma emergência

[01:55:26] aqui, tive que abandonar a gravação, mas

[01:55:28] me desculpem por isso,

[01:55:30] mas eu vou deixar todo mundo com uma música

[01:55:32] incrivelmente grude na cabeça,

[01:55:34] porque a minha dica…

[01:55:36] Puta que pariu, você e essas dicas

[01:55:38] que grudam, desgraçada.

[01:55:39] Então, a minha dica

[01:55:41] para esse episódio

[01:55:44] é um documentário

[01:55:46] da Vice, a Vice

[01:55:48] tem uma série de

[01:55:50] reportagens que eles

[01:55:52] chamam de

[01:55:53] A Verdadeira História de…

[01:55:56] e aí tem sobre uma cacetada de coisas,

[01:55:59] e esse que eu estou recomendando

[01:56:00] é A Verdadeira História de

[01:56:02] Blue,

[01:56:04] Blue é uma…

[01:56:06] um dance, um Eurodance de

[01:56:08] 99 de Eiffel 65,

[01:56:11] que provavelmente

[01:56:12] estará tocando aqui no fundo

[01:56:14] nesse momento…

[01:56:34] , então…

[01:56:40] e é um documentário de 25 minutos

[01:56:44] que está no YouTube produzido pela Vice

[01:56:46] sobre a história dessa música

[01:56:48] e de como ela…

[01:56:51] como isso apareceu e como

[01:56:52] isso nada faz sentido, e aquela

[01:56:54] loucura do final dos anos 90

[01:56:56] e tal, e é muito curioso,

[01:56:58] inclusive eles são italianos de uma cidadezinha

[01:57:00] de 5 mil habitantes,

[01:57:03] e

[01:57:04] e assim,

[01:57:06] dá pra se divertir um pouquinho e você vai ficar

[01:57:08] com essa música durante uma vida inteira

[01:57:10] na sua cabeça. Obrigada,

[01:57:12] tô super feliz, ótima maneira de fechar.

[01:57:14] Para!

[01:57:17] Chega!

[01:57:19] Não quero, eu não vou ouvir,

[01:57:21] eu só vou ouvir quando sair o episódio.

[01:57:23] Vamos para o Jabás,

[01:57:25] então, Davi, se alguém quiser acatar você

[01:57:27] onde que te encontra, por onde que você

[01:57:29] fala as suas coisas,

[01:57:31] fala aí.

[01:57:32] Eu tô meio…

[01:57:34] ultrapassado, eu tô na era

[01:57:36] pré-obulização ainda, nas redes sociais.

[01:57:39] Eu uso mais o Facebook,

[01:57:40] meu nome é David DeCache,

[01:57:42] há pouco tempo que eu comecei a…

[01:57:44] O Twitter eu uso mais pra ler o que as pessoas

[01:57:47] escrevem do que para escrever.

[01:57:49] Mas foi por lá que a gente entrou em contato com você,

[01:57:51] então tá funcionando, se alguém quiser

[01:57:52] fazer alguma pergunta, pode ser?

[01:57:55] Tá, mas eu vou botar teu perfil

[01:57:57] do Face aqui então.

[01:57:58] Beleza, mais alguma coisa?

[01:57:59] Obrigado aí, foi um prazer enorme

[01:58:01] bater um papo com vocês, super interessante.

[01:58:03] Nossa, o papo foi ótimo.

[01:58:04] Eu tô até com sede de tanto que eu falei.

[01:58:06] Eu acho que rendeu

[01:58:07] uma conversa boa demais,

[01:58:10] foi um prazer enorme.

[01:58:12] Prazer foi todo nosso, muito obrigada por

[01:58:14] disponibilizar esse tempo, eu não tô conseguindo

[01:58:16] falar, né? Toda vez que eu falo disponibilizar

[01:58:18] a língua enrola.

[01:58:20] Muito obrigada mesmo, foi ótimo

[01:58:22] o papo, mais uma sugestão

[01:58:25] de convidado acertadíssima do seu Tiago,

[01:58:27] que é o nosso caçador de convidados,

[01:58:29] ele investiga e eu acedi,

[01:58:31] funciona assim.

[01:58:31] E mais uma vez, mais uma vez

[01:58:34] deu super certo, então obrigada mesmo

[01:58:36] de verdade, foi ótimo. Quem quiser

[01:58:38] falar com a gente, vocês já sabem, é

[01:58:39] arroba Pistolando Pode, tanto no Twitter

[01:58:42] quanto no Instagram, mandem e-mail que a gente

[01:58:44] gosta, contato arroba pistolando.com

[01:58:46] nosso site maravilhino

[01:58:48] do pistolando.com

[01:58:50] sem BR, parceria com a Veste Esquerda

[01:58:52] vai no site da vestesquerda.com.br

[01:58:55] compra sua

[01:58:56] camiseta esquerda opata linda, maravilhosa

[01:58:58] tem uma mais linda que a outra

[01:59:00] e usa o cupom de desconto Pistola10

[01:59:02] pra você ganhar 10% de desconto.

[01:59:04] Quando forem compartilhar esse episódio

[01:59:06] que eu sei que vocês vão compartilhar, que vocês são ótimos,

[01:59:09] compartilhe com a hashtag

[01:59:10] Mulheres Podcasters, que aí

[01:59:12] quem estiver procurando mulheres que produzem conteúdo

[01:59:14] vai achar com mais facilidade

[01:59:16] e também com a hashtag

[01:59:18] Pode Antifa, porque a gente

[01:59:20] é orgulhosamente membro da

[01:59:22] podosfera antifascista.

[01:59:24] Se vocês googlarem, vocês vão achar outros

[01:59:26] programas bem bacanas, é um pessoal muito

[01:59:28] legal. Ah, e outra coisa, obviamente, né

[01:59:30] catarse.me barra

[01:59:32] pistolando, patreon.com

[01:59:34] barra pistolando pra quem estiver fora do Brasil

[01:59:36] se vocês acharem que a gente merece

[01:59:38] alguns caraminguais mensais

[01:59:40] pelo trabalho que a gente vem fazendo

[01:59:42] por aqui. Seu Thiago, esqueceu de alguma coisa?

[01:59:44] Acho que não, né? Tô completinho. Eu creio que não.

[01:59:46] Eu creio que não. Então, então, vambora.

[01:59:48] Então, vamos, vamos. Pessoal, já que vocês falaram de antifascista

[01:59:50] é só registrar aqui minha solidariedade

[01:59:52] à torcida Botafogo

[01:59:54] antifascista. Ah, garoto.

[01:59:56] Que teve sua faixa retirada.

[01:59:58] No estádio do Botafogo

[02:00:00] pela Polícia Militar.

[02:00:02] Era uma faixa Botafogo antifascista com o nome

[02:00:04] da torcida. E a Polícia Militar

[02:00:06] tirou essa faixa porque

[02:00:08] não seria permitido

[02:00:10] manifestações políticas.

[02:00:13] Ah, gente. Ah, tomando o cu, sinceramente.

[02:00:15] É, eu já cansei de falar aqui

[02:00:16] quem acha que política e futebol não se

[02:00:18] misturam ou não entende nada

[02:00:20] de política ou não entende nada de futebol.

[02:00:22] Provavelmente não entende nada das duas.

[02:00:25] Das duas. Davi, fica aqui

[02:00:26] a dica pra você. A gente tem dois episódios

[02:00:28] sobre desmilitarização da Polícia Militar

[02:00:30] com o Luiz Eduardo Soares, que não é por nada

[02:00:32] não, mas ficaram bem legais.

[02:00:34] Ouve lá e

[02:00:36] depois diz o que você achou.

[02:00:38] Ótimo. Obrigado pela dica, pessoal.

[02:00:41] Muito obrigada, viu?

[02:00:42] De verdade. Foi ótimo. Boa noite.

[02:00:44] Tchau, tchau. Eu que agradeço.

[02:00:46] Tchau, tchau.