Frontdaciência - T11E03 - Isaac Asimov
Resumo
O episódio celebra o centenário de nascimento de Isaac Asimov, um dos maiores escritores de ficção científica do século XX. Os participantes discutem sua trajetória de vida, desde seu nascimento na Rússia em 1920 e mudança para os Estados Unidos aos três anos, até sua formação em química e sua prodigiosa carreira literária, que inclui cerca de 500 livros e inúmeros contos.
A obra de ficção de Asimov é analisada, com destaque para suas características marcantes: a quase ausência de alienígenas, o foco na humanidade e a criação de séries como a Fundação, os Robôs e o Império. Discute-se o desafio que recebeu para incluir alienígenas, mulheres e sexo em uma história, resultando no livro “Os Próprios Deuses”. A qualidade literária de sua prosa, considerada clara e funcional, mas por vezes criticada por personagens superficiais, é debatida, assim como sua imensa produtividade.
As contribuições conceituais de Asimov são exploradas em detalhe. As Três Leis da Robótica são apresentadas e discutidas, incluindo suas possíveis limitações e a crítica de que não são implementadas na robótica real, especialmente na militar. A psico-história, disciplina fictícia da série Fundação que busca prever o comportamento das sociedades em massa, é outro conceito central analisado, inclusive sua influência em pensadores como o economista Paul Krugman.
Por fim, o episódio aborda Asimov como divulgador científico prolífico e humanista, membro do Committee for Skeptical Inquiry. São mencionadas algumas de suas previsões sobre o futuro, como as videochamadas e a crise ambiental, e suas críticas ao complexo militar-industrial e ao anti-intelectualismo. O legado de Asimov é encerrado como o de um escritor influente, divulgador fora da curva e pensador preocupado com o futuro da humanidade.
Indicações
Livros
- Os Próprios Deuses (originalmente O Despertar dos Deuses) — Livro escrito por Asimov após um desafio para incluir alienígenas, mulheres e sexo em uma história. Considerado por ele um de seus melhores trabalhos, envolve uma fonte de energia de outra dimensão e alienígenas com três gêneros.
- Fundação (trilogia) — Série considerada o apogeu da ficção científica de Asimov, focada na psico-história, uma disciplina que prevê o comportamento de sociedades em massa. Foi influente para o economista Paul Krugman.
- O Cair da Noite — Conto escrito por Asimov aos 21 anos (1941), considerado um de seus mais importantes. Trata de uma civilização em um planeta com seis sóis que enfrenta a primeira noite em milênios, explorando pânico coletivo e ciclos históricos.
- Viagem Fantástica II — Romance de Asimov que tenta corrigir as explicações científicas do filme “Viagem Fantástica”. No livro, a miniaturização é explicada pela alteração do valor da constante de Planck.
- The Feeling of Power (A Sensação de Poder) — Conto de 1958 onde Asimov prevê uma sociedade totalmente dependente de computadores, onde as pessoas esqueceram como fazer matemática. Uma pessoa redescobre a matemática arqueologicamente, causando conflitos.
Organizacoes
- Committee for Skeptical Inquiry (CSI) — Organização americana de combate ao obscurantismo e pseudociências da qual Isaac Asimov era membro.
Pessoas
- Carl Sagan — Astrofísico e divulgador científico mencionado em comparação com Asimov. Asimov considerava Sagan uma das duas pessoas mais inteligentes que já conheceu. Sagan era mais otimista que Asimov sobre a existência de civilizações extraterrestres.
- Ursula K. Le Guin — Escritora de ficção científica citada como contraste a Asimov, por trazer perspectivas feministas e de tolerância (incluindo questões LGBT) em suas obras já nas décadas de 60 e 70.
- Kurt Vonnegut Jr. — Outro escritor de ficção científica mencionado. Ele uma vez perguntou a Asimov como era viver sabendo tudo, ao que Asimov respondeu sobre o estigma de ser considerado alguém que sabe tudo.
- Peter Singer — Filósofo citado como crítico das Três Leis da Robótica de Asimov. Argumenta que as leis não são implementadas na robótica real e que a preocupação deveria ser com a ética dos criadores, não das máquinas.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução e centenário de Isaac Asimov — O programa apresenta Isaac Asimov no centenário de seu nascimento, destacando-o como um dos maiores escritores de ficção científica do século XX. São mencionados seus dados biográficos básicos: nascimento em 1920 na Rússia, mudança para os EUA aos três anos, sua memória prodigiosa e formação em química. Também é citada sua vasta produção de cerca de 500 livros e seu trabalho como divulgador científico.
- 00:02:49 — Características da obra de ficção de Asimov — Os participantes começam a discutir a extensa obra de ficção de Asimov, notando a característica marcante da quase ausência de alienígenas, com foco na humanidade. É mencionada sua recusa a escrever para “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” e suas principais séries: Império, Fundação, Robôs e Lucky Starr. A discussão aborda o uso de pseudônimos e o desafio que recebeu para escrever uma história com alienígenas, mulheres e sexo, resultando no livro “Os Próprios Deuses”.
- 00:05:50 — Por que Asimov evitava alienígenas? — É levantada uma possível explicação para a ausência de alienígenas na obra de Asimov, baseada em seu ceticismo e na falta de evidências na época. É citada uma frase dele sobre acreditar em evidências, relacionada ao princípio de Carl Sagan sobre alegações extraordinárias. Discute-se seu pessimismo em relação à existência de civilizações extraterrestres, contrastando com o otimismo de Sagan, e é mencionada a equação de Drake.
- 00:09:04 — Qualidade literária e estilo de Asimov — A qualidade literária da prosa de Asimov é debatida. São lidas críticas que apontam personagens superficiais e diálogos funcionais, mas enredos elaborados. Defende-se que seu estilo deliberado era a clareza, visando a comunicação eficaz. Sua prodigiosa produtividade é destacada, com a estimativa de que publicou o equivalente a um livro a cada duas semanas por 25 anos, graças à sua disciplina e velocidade de escrita.
- 00:13:28 — Asimov e o cinema: ‘Viagem Fantástica’ — É contada a participação de Asimov no filme “Viagem Fantástica”, para o qual foi consultor e escreveu um romance. Ele não ficou satisfeito com as explicações científicas do primeiro filme e escreveu uma sequência, “Viagem Fantástica II”, na qual tentou corrigir a lógica da miniaturização usando a alteração da constante de Planck como justificativa científica.
- 00:15:04 — As Três Leis da Robótica — As famosas Três Leis da Robótica de Asimov são apresentadas: 1) Um robô não pode ferir um humano ou, por inação, permitir que um humano sofra dano. 2) Deve obedecer ordens humanas, exceto se conflitarem com a primeira lei. 3) Deve proteger sua própria existência, desde que não conflite com as leis anteriores. Também é mencionada a Lei Zero, posterior. Discute-se sua função como dispositivo de enredo (plot device) na ficção.
- 00:16:32 — Críticas às Leis da Robótica na realidade — É apresentada uma crítica às Leis da Robótica, baseada em um artigo de Peter Singer, argumentando que elas estão “erradas” porque não são implementadas na robótica real, especialmente na área militar (como drones). Argumenta-se que a ciência e a tecnologia evoluem mais rápido que a ética, e que o foco deveria estar na ética dos criadores, não em regras embutidas nas máquinas.
- 00:20:14 — Personagens femininos: Susan Calvin — É discutida a presença de personagens femininos na obra de Asimov, com foco em Susan Calvin, uma psicóloga de robôs que resolve paradoxos das leis. Nota-se que, embora profissionalmente relevante, ela é descrita como pouco atraente e pessoalmente irrelevante, refletindo os valores da época em que foi escrita (décadas de 40 e 50). Contrasta-se com autoras como Ursula K. Le Guin, que tinha uma perspectiva mais avançada.
- 00:22:09 — A série Fundação e a Psico-história — A série Fundação é analisada como uma ficção científica sociológica. Explica-se o conceito central da psico-história, uma disciplina fictícia que prevê o comportamento de grandes massas humanas. O enredo envolve um império galáctico em colapso e um plano para reduzir o período de barbárie subsequente de 30 mil para mil anos. O “imprevisto” na história é um mutante chamado Mulo, que desafia as previsões da psico-história.
- 00:24:39 — Análise do conto ‘O Cair da Noite’ — O conto “O Cair da Noite” (1941), escrito quando Asimov tinha 21 anos, é analisado como um exemplo precoce de sua ficção sociológica. A história se passa em um planeta com seis sóis onde nunca é noite. Cientistas preveem um eclipse que trará escuridão pela primeira vez em milênios, prevendo que o pânico coletivo destruirá a civilização, como evidenciado por ciclos arqueológicos de destruição por fogo a cada 2.049 anos.
- 00:26:11 — Previsões e visão social de Asimov — São citadas algumas previsões acertadas de Asimov, como as videochamadas via satélite. Discute-se sua visão de que a tecnologia poderia reverter problemas ambientais (tecnofix), mas também suas críticas aos abusos tecnológicos, como a dependência excessiva de computadores (ilustrada no conto “The Feeling of Power”) e ao financiamento militar da pesquisa. É citada uma frase atribuída a Eisenhower sobre anti-intelectualismo que ressoa com as preocupações de Asimov.
- 00:29:28 — Encerramento e legado de Isaac Asimov — O episódio é encerrado lembrando que Asimov faleceu em 1992 devido a complicações da AIDS contraída em uma transfusão de sangue. Reafirma-se seu legado como um dos maiores e mais influentes escritores de ficção científica, um divulgador científico sensacional e um importante humanista secular. Os participantes se despedem.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2020-03-23T12:00:00Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/frontdaci%C3%AAncia-t11e03-isaac-asimov/87e84095-7dcd-48c4-8581-b56e96075e9b
- UUID Episódio: 87e84095-7dcd-48c4-8581-b56e96075e9b
Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
- UUID: fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c
Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, onde discutiremos os limites entre o que é
[00:00:08] ciência e o que é mito.
[00:00:10] Em 2020, a gente comemora o centenário do nascimento de um dos maiores e mais influentes
[00:00:14] escritores de ficção científica do século XX, Isaac Asimov.
[00:00:18] O Asimov nasceu oficialmente em Petrovich, que fica na atual Rússia, em 1920.
[00:00:24] Tem uma certa incerteza na data de nascimento, que não era muito incomum naquela época,
[00:00:29] as pessoas precisavam se deslocar para fazer os registros, então às vezes até esperavam
[00:00:33] o nascimento de mais algum filho para fazer tudo junto.
[00:00:36] Mas a data registrada é, então essa é a data oficial, dia 2 de janeiro.
[00:00:41] Osimov, então aos três anos, se mudou junto com a família para os Estados Unidos, foi
[00:00:45] morar em Nova York.
[00:00:46] Ainda pequeno, ele mesmo conta, quando comprava os livros do colégio para aquele ano, aqueles
[00:00:50] livros que são cheios de um montão de amontoado de coisas escritas, ele ainda no caminho devorava
[00:00:56] completamente, lia tudo e nunca mais precisava abrir novamente.
[00:01:00] Então ele era conhecido por essa memória prodigiosa.
[00:01:03] Até uma vez o Kurt Vonnegut, que é outro monstro da ficção científica, perguntou
[00:01:08] como era viver sabendo tudo.
[00:01:10] E a resposta do Asimov foi que o mais difícil era viver com o estigma de ser alguém que
[00:01:17] sabe tudo.
[00:01:18] Ele se formou em química em 1939, mas o que ele queria mesmo era zoologia.
[00:01:23] Só que ele não estava disposto a fazer dissecção de gatos.
[00:01:26] Uns anos depois, em 1948, terminou o doutorado e fez uma tentativa de seguir a carreira acadêmica,
[00:01:33] mas não foi muito adiante.
[00:01:34] Em 1939, o mesmo ano que ele se formou, ele começou a sua brilhante carreira de escritor,
[00:01:41] quando ele publicou o primeiro conto, mais tarde a gente vai falar sobre isso.
[00:01:45] Em toda a carreira ele publicou cerca de 500 livros, inúmeros contos, cartas e outros
[00:01:51] textos, não só de ficção científica.
[00:01:54] Ele foi também um excelente divulgador da ciência e escrevia sobre os temas mais variados
[00:02:00] indo da bíblia à astrobiologia.
[00:02:03] Ele foi nomeado o humanista do ano em 1984, foi membro do CSI, o Committee for Skeptical
[00:02:11] Inquiry, que é uma organização americana de combate ao obscurantismo e às pseudociências.
[00:02:16] Ele também aparece no Pantheon of Skeptics, tem o nome em um asteroide, uma cratera em
[00:02:22] Marte, uma escola em Nova Iorque e em diversos prêmios literais.
[00:02:25] Uma indicação, então, do enorme reconhecimento que ele tem.
[00:02:29] Então, para reverenciar esse fabuloso escritor, que é até hoje uma das minhas grandes referências
[00:02:35] e modelo, hoje estão aqui o Jorge Kielfel, do Departamento de Biófisica, eu, Jefferson
[00:02:42] Lorenzo e a Carolina Brito, ambos do Departamento de Física, todo mundo da Works.
[00:02:47] Vamos começar, então, pela sua obra de ficção.
[00:02:49] A obra do Asimov, ela, obviamente, é impossível de ser discutida num programa de 30 minutos,
[00:02:58] ela é muito extensa, tem diferentes facetas, então a gente vai tentar falar sobre alguns
[00:03:05] pontos interessantes.
[00:03:07] Uma das características bastante notáveis na obra do Asimov é que praticamente não
[00:03:13] há linhígenas, o foco dele sempre foi a humanidade, ele até recusou uma oferta do
[00:03:18] Spielberg para escrever o roteiro do Encontros Imediatos do terceiro grão, por que isso?
[00:03:24] Então, é que ele escreveu muito entre os anos 1940 e poucos, até os anos 1960, no
[00:03:29] fim dos anos 1950 até os anos 1970.
[00:03:31] É a época de horda da ficção científica.
[00:03:33] É, aí ele parou de escrever nessa época, ele ficou escrevendo livros de divulgação
[00:03:36] e ele era muito famoso, já tinha publicado na Fundação o Robô e várias histórias
[00:03:41] de robôs e algumas outras séries, ele tinha basicamente quatro séries importantes, que
[00:03:45] é a série do Império, que depois foi engolida pela Fundação, a série da Fundação, a
[00:03:51] série dos robôs e aí uma série de aventuras para crianças que se chama Look Star.
[00:03:57] Eu li um desses volumes, o nome do livro era Look Star e os Piratas dos Asteróides, que
[00:04:02] aliás foi publicado no Brasil já com o nome dele, mas na época, nos anos 1950, tinha
[00:04:05] medo que isso fosse usado para falar mal das outras obras de ficção científica dele,
[00:04:11] então ele publicou com o pseudônimo de Paul French, porque o pessoal ia criticar.
[00:04:14] Porque ele tinha medo de ser…
[00:04:15] Sim, porque ele estava escrevendo sopa ópera pra gulisada, pra criança, um filme bem
[00:04:19] um negócio bem infantil.
[00:04:20] Tem uma anedota interessante sobre essa história do pseudônimo, que no início o editor queria
[00:04:25] que ele usasse um pseudônimo, porque o nome dele era muito complicado, ele disse, não,
[00:04:28] usa um nome mais comum.
[00:04:30] Ele se recusou, disse, não, é o fato de ter um nome diferente, vai fazer com que as
[00:04:33] pessoas lembrem de mim, e bem adiante na carreira ele encontrava pessoas que acreditavam que
[00:04:38] Isaac Asimov é um pseudônimo, porque o nome dele seria um nome comum.
[00:04:41] Interessante isso, então nessa primeira leva de trabalho dele, porque ele ficou muito
[00:04:46] famoso e são considerados os melhores trabalhos, ele era muito criticado porque nas histórias
[00:04:50] dele não tinha alienígenas, não tinha mulheres e não tinha sexo, que eram coisas que estavam
[00:04:55] presentes fortemente na literatura de ficção científica da era de ouro, então ele recebeu
[00:05:02] o desafio de um colega lá, tudo não é capaz de botar isso, e ele escreveu então um livro
[00:05:05] com essas três coisas, que é talvez o livro mais surpreendente dele, no Brasil a primeira
[00:05:10] edição se chamou o despertar dos deuses, mas hoje se chama, tem uma nova edição,
[00:05:15] os próprios deuses, que é uma tradução mais literal do título original, nessa história
[00:05:19] tem alienígenas.
[00:05:20] É, mas esses alienígenas que no livro estão em contato com a humanidade, eles estão em
[00:05:24] outro universo, não sei se isso conta.
[00:05:25] Mas é um universo no caso daqueles multiversos de mecânica quântica?
[00:05:29] Não, não, muito antes disso, na verdade isso foi um device, porque eles descobriram
[00:05:33] uma nova fonte de energia e essa fonte de energia é dessa outra dimensão, e ele considera
[00:05:37] a melhor coisa que já escreveu.
[00:05:38] E a mulher entra onde nesse conto?
[00:05:40] É que eles tem, são três gêneros, aqueles ETs lá, e eles estavam intrigados com a sexualidade
[00:05:45] humana.
[00:05:46] Mas tem um argumento que eu vi que talvez explique porque que não tem muitos alienígenas,
[00:05:50] então deixa eu ler primeiro uma citação da Zimófiga, diz o seguinte, eu acredito
[00:05:54] em evidências, eu acredito em observação, medida e raciocínio confirmados por observadores
[00:05:59] independentes.
[00:06:00] Eu acreditaria em qualquer coisa, não importa quão descabida e ridícula, se houvesse evidências
[00:06:04] para isso.
[00:06:05] Quanto mais descabida e ridícula, mais firmes e sólidas as evidências precisam ser.
[00:06:10] Que basicamente é o princípio de Laplace, que depois ficou famoso nas palavras do Carl
[00:06:14] Seguin, alegações extraordinárias demandam evidências também extraordinárias.
[00:06:18] Então na década de 40, 60, que o Jorge mencionou, a gente não tinha evidência alguma sobre
[00:06:25] do que depende o aparecimento da vida em outros lugares.
[00:06:28] Por exemplo, qual é o número de exoplanetas na nossa galáxia, quais são as condições
[00:06:33] ideais para o aparecimento de moléculas complexas, que se mantenham estáveis, que
[00:06:37] consigam se reproduzir e evoluir.
[00:06:40] Isso tudo não se conhecia na época.
[00:06:42] O próprio Zimófiga escreveu um livro basicamente sobre a equação de Drake, que é uma equação
[00:06:47] onde todos esses fatores são levados em conta e fez estimativas para cada um deles.
[00:06:53] E as avaliações dessas probabilidades naquela época eram muito baixas.
[00:06:58] Então talvez ele considerasse, não sei se chegou explicitamente a dizer isso, talvez
[00:07:01] ele considerasse que a evidência para alienígenas era muito pequena para valer a pena incluir
[00:07:06] eles nas histórias.
[00:07:07] Posso fazer um parêntese, porque esse é um livro que eu li mais de uma vez, que influenciou
[00:07:10] bastante civilizações extraterrestres, porque na verdade ele foi um grande divulgador
[00:07:15] de exobiologia, mas é o único divulgador pessimista, porque todos os outros eram muito
[00:07:19] saganeanos.
[00:07:20] O Sagan acreditava que tinha mais de um milhão de civilizações na nossa galáxia.
[00:07:23] Tinha uns números gigantes lá que também não se confirmaram.
[00:07:26] O Yosemov, por várias razões, ele era bem mais pessimista, e como existem três fatores
[00:07:31] lá no final da equação que são mais objetivos, especialmente o último, que é o tempo de
[00:07:35] duração da civilização, e ele é um foragido da Europa, da Primeira Guerra e tal, ele
[00:07:40] basicamente chegou num número bem mais baixo, portanto com uma probabilidade quase nula
[00:07:44] de se encontrar.
[00:07:45] Tem outra conexão entre o Yosemov e o Sagan, que o Yosemov disse que o Sagan e o Marvin
[00:07:50] Minsky foram as duas únicas pessoas que ele encontrou em toda a vida que ele considerou
[00:07:54] mais inteligentes do que ele.
[00:07:56] Ah, ele é modesto.
[00:07:57] O Sagan ficou famoso também porque ele tinha mídias de televisão, que é muito um quebrant
[00:08:02] demais.
[00:08:03] Ele ficou famoso com o Cosmos, mas o Cosmos foi feito baseado na obra literária de divulgação
[00:08:08] anterior.
[00:08:09] Então a gente está comparando os dois antes do Sagan ir para televisão, porque depois
[00:08:13] é unfair.
[00:08:14] Ele fazia divulgação já nos anos 40.
[00:08:17] A cada um se destacou.
[00:08:18] O Yosemov fez divulgação em inúmeras áreas.
[00:08:22] Ele escreveu desde sobre a Bíblia até a Exoplaneta.
[00:08:27] Sim, ele secava Shakespeare, fazia qualquer assunto.
[00:08:29] Mas talvez também, mas eu quero dizer que a comparação não é justa porque quando
[00:08:32] vai a televisão tu atinge um público muito maior, mas sobretudo eu acho que o Sagan ele
[00:08:36] é conhecido até hoje nas relações e o Yosemov ele está cada vez menos conhecido, né?
[00:08:41] Não diria isso.
[00:08:42] Ele continua sendo, quem acompanha a tradução científica, o Yosemov é uma espécie de referencial
[00:08:47] permanente.
[00:08:48] Inclusive, algumas histórias dele são consideradas melhores de todos os tempos, como por exemplo
[00:08:52] O Caíro da Noite, que é uma novela muito interessante que escreveu muito novo.
[00:08:56] Ela foi criada em 41.
[00:08:57] Ele tinha 21 anos.
[00:08:58] Ele está no panteão dos grandes escritores, mas ele não é, digamos, o meu escritor favorito,
[00:09:03] longe disso.
[00:09:04] Na verdade eu não gostava muito dele como escritor de ficção científica, eu li a
[00:09:07] mais a divulgação dele.
[00:09:08] Nem lembro, acho que foram bem mais de 30 anos que eu li Os Nove Amanhãs, Despertar dos
[00:09:13] Deuses e nunca tinha lido da Fundação.
[00:09:16] Aí numa passagem no exterior eu consegui comprar os três volumes, uma edição antiga, eu
[00:09:20] também fiquei com a vontade de ler e ler a Fundação agora mais recentemente.
[00:09:24] Gostei bastante, mas me chamou muito a atenção uma coisa que é, embora ele seja uma ficção
[00:09:30] científica baseada em civilizações muito humanas e tudo mais, é mais uma ficção científica
[00:09:36] da sociologia e da psicologia de massas, né?
[00:09:38] Ele tem muitas coisas datadas, como por exemplo essa superscivilização que envolve uns 50
[00:09:42] milhares de planetas e tal, as pessoas fumam.
[00:09:44] Quer dizer, isso é uma coisa muito anos 50.
[00:09:47] Ele não sabe o que elas fumam.
[00:09:48] Não, foram cigarros, inclusive fala das marcas e tal.
[00:09:51] Então como é que ele não imaginou que no futuro as pessoas não fumariam?
[00:09:54] Isso é uma coisa, é mais um dos erros.
[00:09:56] Então acho que um escritor de ficção científica sempre vai pensar que vai ser datada a sua
[00:10:01] obra ou ele não se interessa?
[00:10:02] Tipo assim, era uma realidade da época, inclusive interessante do ponto de vista histórico,
[00:10:06] vou escrever que alienígenas, no caso, fumam.
[00:10:09] Nossa, pegar toda série, Star Trek, Jornadas Estrelas e tal, não existe cigarro.
[00:10:14] Mas a minha pergunta é, é um critério de qualidade de uma obra de ficção científica
[00:10:18] ela se perene ou não?
[00:10:19] Não, acho que é um dos critérios de avaliação.
[00:10:22] Pode ter uma obra muito boa, considerada ainda muito boa e ter feito erros factuais nesse sentido.
[00:10:28] Não, esse cigarro não compromete o essencial da obra da fundação que é a história dessa
[00:10:33] disciplina chamada psico-história, que existiria uma teoria determinística que prevê com
[00:10:38] exatidão a evolução das sociedades em massa.
[00:10:41] Até o Paul Krugman, um Nobel de economia, escreveu um artigo lá elogiando esse livro
[00:10:46] do Asimov dizendo que foi um dos que mais influenciou ele na formação dele como economista,
[00:10:50] porque ele achava que a economia também tinha que fazer as equações que descrevem o futuro
[00:10:54] e prevêem tudo como vai funcionar.
[00:10:56] Claro que não deu certo, mas assim, tem muita crítica sobre a qualidade literária dele.
[00:11:01] E aí eu vou me permitir ler duas frases que resumem um pouco isso aqui que eu achei
[00:11:06] bem interessante.
[00:11:07] Esse aqui é o cara mais sacanete, esse tal de Eric não sei o que que escreveu.
[00:11:10] O pior grande escritor que eu conheço, sua prosa é bastante simples, seus personagens
[00:11:16] são muito superficiais, seu diálogo é funcional, mas a maior parte das histórias são diálogos,
[00:11:21] ele não tem muita descrição, mas os enredos são bastante elaborados, como o quebra-cabeça
[00:11:25] que ele tenta resolver, só que como ele elabora bastante isso aí, segundo esse Especialismo
[00:11:30] de Literatura, fica um enredo um pouco plausível, que poderia envolver pessoas reais.
[00:11:35] Então tu lê aquilo sem te sentir parte daquilo, como tu lê um bom grande romance.
[00:11:40] Ele tinha uma resposta pra isso, que quando diziam que ele não tinha um estilo, ele dizia
[00:11:44] não, eu tenho, o meu estilo é ser claro.
[00:11:46] Exato, essa era a meta dele, queria ser claro, por isso ele era um grande divulgador, ele
[00:11:50] disse que a coisa que ele mais queria era comunicar com clareza, ele tinha muito humor
[00:11:53] também, isso é uma das coisas que não é muito falado, ele até escreveu alguns livros
[00:11:56] de humor, inclusive ele escreveu a maior autobiografia que um escritor de ficção científica escreveu,
[00:12:00] eu desconfiico também a maior autobiografia que alguém já escreveu, quatro volumes e
[00:12:04] um quinto saco-piadas e anedotas da vida dele.
[00:12:07] Ou seja, mas o cara era mega prolixo também, né?
[00:12:09] Isso eu nunca entendi, como é que alguém pode publicar tantas centenas de livros, foram
[00:12:14] 460 pelo menos, chega a 500 dependendo da contagem e tal.
[00:12:18] Eu achava que ele tinha uma equipe de escritores escrevendo e ele só realizava.
[00:12:21] Não, é só ele.
[00:12:22] Bom, ele era muito veloz, muito eficiente, ele digitava cerca de 90 palavras por minuto
[00:12:26] na sua máquina elétrica, trabalhava o dia inteiro com pequenas interrupções, era muito
[00:12:30] disciplinado e um escritor, pra ter uma produção comparável a dele, teria que terminar um
[00:12:35] livro a cada duas semanas durante 25 anos.
[00:12:38] A gente se conta que quando o editor pediu pra ele escrever a autobiografia, ele teria
[00:12:43] respondido, mas eu não fiz nada até hoje, mas tudo bem, foi lá e voltou com um calha
[00:12:48] massa gigante, né?
[00:12:49] Eu quero dizer, não, não, isso aqui tá grande demais, daí ele saiu e voltou com
[00:12:52] outro.
[00:12:53] Daí o editor perguntou, o que que tu teria escrito se tu tivesse feito alguma coisa?
[00:12:57] Mas tem uma definição assim, ele gostava de ser reconhecido como o mestre das histórias
[00:13:02] que envolve basicamente diálogos com personagens de cartão, assim, bem simples, com enredos
[00:13:06] bem elaborados, com ciência rígida e ideias surpreendentes, né?
[00:13:12] E essa da ciência rígida é o mesmo que alimenta ele como divulgador, ele gasta bastante
[00:13:17] tempo quando ele faz ascrições e explicar conceitos físicos, científicos, isso leva
[00:13:20] a uma das histórias interessantes, teve vários filmes que acabaram saindo dessa história,
[00:13:24] mas um que ele assessorou e foi convidado pra fazer o enredo foi a Viagem Fantástica.
[00:13:28] A Viagem Fantástica é aquela de uma nave que é miniaturizada pra entrar dentro de
[00:13:31] uma pessoa pra fazer um procedimento cirúrgico que não tinha como fazer.
[00:13:35] A tal coisa fantástica é miniaturizar uma nave cheia de pessoas com laser e tal, e aí
[00:13:39] disseram, enquanto eu tava fazendo o roteiro, não, tu aproveita e já faz uma novela disso,
[00:13:43] e ele escreveu tão rápido que ele terminou a novela antes do filme, mas ele não ficou
[00:13:47] satisfeito com as explicações científicas das drogas, porque ele achou muito furado,
[00:13:50] e aí ele escreveu o Viagem Fantástica 2 pra tentar arrumar e não resolveu também.
[00:13:55] Não, esse Viagem Fantástica 2 eu li, eu gostei, a explicação que ele dava é que
[00:14:00] eles tinham descoberto uma maneira de alterar o valor da constante de Planck.
[00:14:04] O valor da constante, ele impõe o limite de resolução, no princípio da incerteza
[00:14:08] que tu pode ter, então se tu faz ela diminuir, ou seja, tu começa a te aproximar do limite
[00:14:14] clássico, tu pode miniaturizar mais quanto menor for o valor da constante.
[00:14:19] Esse é o argumento dele no livro.
[00:14:22] Acho que o risco que o Arasimov assumia em escolher um estilo que literariamente era
[00:14:28] considerado fraco e basear o valor dos seus livros na ciência e tecnologia era um risco
[00:14:34] muito grande, porque obviamente ele estava escrevendo na década de 50, ele estava usando
[00:14:37] ciência na década de 50.
[00:14:39] Então fazer com que essa obra se tornasse datada, quando a gente lê hoje muitas das
[00:14:44] coisas parecem que envelheceram, é o risco que ele assumiu.
[00:14:48] Mas alguns conceitos que ele introduziu parecem ser mais fundamentais e ainda hoje até em
[00:14:54] algumas áreas de pesquisa o pessoal ainda cita como princípios iniciais, pelo menos,
[00:14:59] para serem discutidos e um deles são as três leis da robótica.
[00:15:04] Essas leis eram colocadas fisicamente no cérebro positrônico dos robôs, ou seja, não era
[00:15:11] uma escolha obedecer aquelas leis, e o Arasimov fez a sua obra sobre robôs, era explorar
[00:15:17] possíveis paradoxos e situações que levassem a contradições com essas leis, então mesmo
[00:15:24] que o Arasimov não incluísse alienígenas nas histórias, tinham outros seres inteligentes
[00:15:29] que não eram humanos, no caso os robôs.
[00:15:31] E tem toda uma outra controvérsia com esses seres conscientes, inteligentes, como eles
[00:15:36] eram tratados, porque basicamente eles eram escravos incondicionais da humanidade e o
[00:15:40] que mantinha essa situação eram justamente as três leis da robótica.
[00:15:45] Vamos entrar então um pouquinho nas leis da robótica.
[00:15:47] Nós já gravamos um programa sobre elas quando a, como é que é, o International Electronic,
[00:15:53] não sei que é, um órgão internacional, fez uma proposição com regras gerais para
[00:15:59] impor certos limites para o desenvolvimento da inteligência artificial.
[00:16:02] Na época a preocupação era tanto com a inteligência artificial embarcada em robôs
[00:16:05] ou computadores na rede, quanto o tal do machine learning, o aprendizado de máquina, que é
[00:16:11] uma coisa que cresce bastante e na verdade o que mais assusta é que ele cresce e tu
[00:16:16] não sabe como, ele desenvolve sozinho formas de conclusão, de algoritmos, que a gente
[00:16:22] chamaria heurístico porque seria um chute para nós, mas na verdade existe alguma lógica
[00:16:26] interna só que ela não é a que nós humanos usamos.
[00:16:29] Eu também achava que isso era uma das grandes contribuições e sempre venderei muitas três
[00:16:32] leis, até que eu achei um artigo do Peter Singer, cara dos direitos animais e tal, e
[00:16:37] do outro cara também, até antes, e eles me convenceram de uma coisa, as leis são muito
[00:16:42] bonitas mas elas estão erradas.
[00:16:43] Tá, calma, vamos citar as leis então.
[00:16:45] Primeira lei, um robô não pode ferir um ser humano ou através da inação permitir
[00:16:50] que o ser humano sofra algum dano, uma lesão.
[00:16:53] Lei dois, um robô deve obedecer às ordens dadas por um humano, exceto ordens que entrem
[00:16:57] em conflito com a primeira lei.
[00:16:59] Terceiro, um robô deve proteger sua própria existência, desde que essa proteção não
[00:17:02] conflite nem com a primeira nem com a segunda lei.
[00:17:04] E no fim, mais adiante, ele introduziu a lei zero, que é um robô não pode ferir a humanidade
[00:17:10] ou purinação, permitir que a humanidade sofra algum dano, de ter uma generalizada.
[00:17:14] Qual é a crítica que os caras fazem?
[00:17:16] É que a internet artificial tem evoluído nesse século e em nenhum momento se preocupou
[00:17:19] com isso.
[00:17:20] Por dois motivos.
[00:17:21] Primeiro, não tem nenhum exemplo de tecnologia que embarque esse tipo de raciocínio.
[00:17:25] E mais, ele é tão complexo e abstrato, num certo sentido, que é definir o que é humano
[00:17:30] ou não, todas essas coisas, que talvez nem seja possível ainda de fazer.
[00:17:34] E se tu pensar assim, ele cita como exemplo uma coisa só pra arrematar, que o setor da
[00:17:39] sociedade, especificamente o primeiro mundo, que mais investe em robótica são os militares.
[00:17:43] Fazendo drones robóticos, com a gastromovendo agora sendo utilizados em massa, né?
[00:17:47] Mas não autônomos ainda.
[00:17:49] Não totalmente autônomos, mas com bastante tomar decisão em loco.
[00:17:52] Os robôs marcianos, os robôs sonda na superfície, têm uma autonomia incrível, de dias até
[00:17:58] a partir de instruções iniciais.
[00:18:00] Então, assim, nenhum desses robôs tem qualquer dessas regras, aliás, um robô militar não
[00:18:04] poderia tê-los.
[00:18:05] Sim, mas no mesmo tempo, eu acho que é natural, assim, tu pensa, historicamente, a ciência
[00:18:09] e a tecnologia sempre andam mais rápido que a ética, né?
[00:18:12] É verdade.
[00:18:13] É sempre uma coisa que tu tem que fazer a posterior, dizer, bom, agora eu vou trabalhar
[00:18:16] nas leis.
[00:18:17] Tem que criar o problema, né?
[00:18:19] Porque é normal que a gente esteja vivendo isso hoje, né?
[00:18:22] É verdade.
[00:18:23] Exceto que ele escreveu isso antes da…
[00:18:24] Pois é, quando tu disse que é uma crítica que se faz, eu não entendi, é a crítica
[00:18:27] a que ou a quem?
[00:18:28] É uma crítica à obra dele, às leis em si?
[00:18:31] Não, não, digamos, ao uso expandido no mundo real das leis da robótica.
[00:18:35] Tu acha que tem que ser encarado como um objetivo último, assim?
[00:18:39] Olha, o objetivo é que traz princípios éticos, sejam obedecidos por qualquer máquina de
[00:18:44] inteligência artificial que venha a ser desenvolvida.
[00:18:46] O Peter Singer, na verdade, ele vai pra uma conclusão boba e óbvia, assim, que não
[00:18:51] devemos preocupar em embutir ética nas máquinas e sim se preocupar com a ética de quem faz
[00:18:55] elas.
[00:18:56] Eu achei isso muito fraco como argumento, mas, de todo caso, são leis que surgem no
[00:18:59] contexto de ficção pra restringir e facilitar organizar os enredos daquela história.
[00:19:04] Isso é o que chamam em inglês o plot device, é um mecanismo para organizar um enredo
[00:19:09] em torno dele.
[00:19:10] Ele conseguiu construir um…
[00:19:11] Dizem, são um monte de livros, né?
[00:19:13] Tem até uma ordem certa pra leis.
[00:19:14] Também, ele tinha um monte de contos que foram reunidos em livros, né?
[00:19:17] Isso.
[00:19:18] Na verdade, o primeiro é o robô já reuniu nove contos que já existiam em um ou dois
[00:19:21] novos, né?
[00:19:22] Aliás, o primeiro conto dele foi com o robô, aquele que ele colocou com 19 anos.
[00:19:26] Enfim, como o dispositivo para facilitar o enredo, ele é muito bom, porque se tu contar
[00:19:32] uma história que é livre, vale tudo, pode ficar meio chato, né?
[00:19:35] Isso é interessante para um disficcionista, mas, digamos, a dificuldade que os dois autores
[00:19:40] apontam é que nós não temos ainda nenhuma tecnologia capaz de replicar a presença
[00:19:44] desse tipo de dispositivo em máquinas.
[00:19:46] E não tem ninguém se preocupando em fazer isso, que se saiba, assim, em embutir isso.
[00:19:50] E, aliás, se tivesse fazendo, não são os robôs militares que estão utilizando, com
[00:19:54] certeza.
[00:19:55] Com os mesmos argumentos, pode usar.
[00:19:56] Livros são sobre viagens do tempo, né?
[00:19:57] Não tem ninguém fazendo máquina.
[00:19:58] Não, mas viagem de tempo é um pouco mais louco.
[00:19:59] Os robôs já existem, já são a realidade agora, né?
[00:20:01] O robô que varre o chão, o robô que bombardeia o inimigo no aeroporto e tal, e tudo isso
[00:20:06] aí já é real.
[00:20:07] Uma coisa curiosa também nas histórias de robô é que ele tem um dos poucos personagens
[00:20:14] femininos de importância.
[00:20:15] Uma das poucas protagonistas na época, principalmente literatura feita por homens, na década de
[00:20:20] 40 e 50, foi a Susan Calvin, que, por outro lado, era considerada nos próprios livros,
[00:20:26] onde ela aparecia, como uma espécie de aberração.
[00:20:28] Pensando bem em se usar os robôs junto com a Fundação, são o conjunto de histórias
[00:20:33] mais importantes dele nessa primeira fase dele de escritor, né?
[00:20:36] E a Susan Calvin é uma personagem central, porque ela que inventa e organiza o negócio
[00:20:41] do relacionamento das leis da robótica, não é que eles podiam dizer que não tem mulheres
[00:20:45] importantes na literatura dele, mas ele dizia em entrevistas que ele não tinha mulheres
[00:20:51] interessantes na história dele, porque ele não tinha uma história pessoal de convivência
[00:20:54] com mulheres fortes.
[00:20:55] Mas nos livros onde aparece a Susan Calvin, ela é uma psicóloga de robôs, ela é uma
[00:21:00] das que se soluciona, resolve os problemas levantados por contradições nas três leis
[00:21:05] da robótica, mas ela é descrita como pouco atraente, desinteressante.
[00:21:11] Ou seja, ela é profissionalmente relevante, mas pessoalmente irrelevante.
[00:21:17] Ah bom, a descrição machista, com certeza.
[00:21:19] Tem sempre um indício de quando foi escrito o livro.
[00:21:23] Mas ele vem de uma época bem diferente.
[00:21:25] Eu tenho dois escritores principais, para mim, de Filosofia Científica, que é a Úrsula
[00:21:29] Caliguin e o Curto Vonnegut Jr., do qual eu curto, eu li tudo, e da Úrsula eu não li
[00:21:34] tudo, porque ela tem histórias que não são de ficção científica, eu não gosto, são
[00:21:37] de fantasia.
[00:21:38] Mas ela tem essa perspectiva super feminista e inclusive muito de tolerância, não só
[00:21:44] a questão feminina, a questão LGBT e outros, nos anos 60, nos anos 70, ela é extremamente
[00:21:50] adiantada.
[00:21:51] Mas eu acho que nos anos 60, que foram os anos da liberação, é natural que essas
[00:21:59] ideias ganhassem terreno.
[00:22:01] Mas ele escreveu na década de 40, 50, era outra ética vigente.
[00:22:05] Mas voltando, Jorge, tu tinha mencionado a Fundação, que sem dúvida é uma das grandes
[00:22:09] obras do Asimov.
[00:22:10] Não, porque eu tinha contado assim, eu não sei definir, eu também não sou especialista
[00:22:14] em nada, mas da obra de ficção científica, digamos, mais grandiosa do Asimov, e muitos
[00:22:20] consideram a trilogia Fundação o apogeu disso, mas nem todo mundo concorda, mas enfim.
[00:22:26] Ele é classificado como um escritor hard science fiction, ou seja, um escritor de
[00:22:31] ciência, ficção científica dura, ou seja, ele bota mais ciência que ficção e elaboração
[00:22:36] e o maneiro ele não é nem estar na ciência, mais do que no enredo e nas novidades malucas.
[00:22:41] Ou seja, é mais ficção menos literatura.
[00:22:43] É, ele é muito pé no chão, ele vai a fundo porque ele tem exatamente essa longa prática
[00:22:48] e toda a vida investiu em divulgação científica de qualidade.
[00:22:52] Eu comparo ele com ficção científica soft ou suave, por exemplo, o Arthur Clarke, que
[00:22:56] também era um tecnólogo importante, era um físico e astrônomo, mas ele tinha uma escrita
[00:23:00] onde ele era muito mais contemplativo e mais doido e tal, mas assim, são diferentes.
[00:23:06] O Clarke nunca explica muito nada científico, ele conta uma história ambientada, então
[00:23:10] são abordagens, é interessante comparar esses dois extremos, mas ele escolheu assim
[00:23:14] como temática a história, a história das civilizações, ele está muito interessado
[00:23:18] nisso.
[00:23:19] Na ideia da fundação, existia um grande império que estava incluído para o colapso e existia
[00:23:25] uma disciplina científica chamada psico-história que aparentemente conseguia explicar todos
[00:23:31] os mecanismos internos desse processo histórico que não era no único planeta, era em muitos
[00:23:34] planetas e podia prever quando ia entrar em colapso e também quando deixaria de estar
[00:23:39] em colapso.
[00:23:40] Inclusive surge na história, agora spoilers, surge então um grupo que seria a fundação,
[00:23:47] um grupo que tenta preservar a história para não se perder nesse período de barbárie,
[00:23:51] a previsão que tinha que seriam 30 mil anos de caos, em 30 mil anos ia se desfazer, se
[00:23:55] perder toda a memória histórica, cultural, artística, tudo, e eles conseguiram então…
[00:23:59] E a gente está reclamando de quatro.
[00:24:01] É, a gente está reclamando de quatro.
[00:24:03] E aí eles conseguiram fazer uma, digamos, uma predição de uma outra forma, se eles
[00:24:07] produzissem uma série de acontecimentos, reduziria esse caos para apenas mil anos.
[00:24:11] E aí aparece o imprevisto, que é um personagem que é um mutante, um mulo, que é muito interessante
[00:24:16] porque essa ideia foi concebida no início dos anos 50, a biologia molecular estava engatinhando
[00:24:20] nessa época, mas o conceito de mutação já existia, o conceito de mutante, pelo menos,
[00:24:24] então ele introduziu o impredisível disso ali e por causa desse mutante, todos os cálculos
[00:24:29] e previsões não tinham como funcionar.
[00:24:31] Então ele está interessado em discutir isso, isso que é interessante, e essa ideia vem
[00:24:34] de antes.
[00:24:35] Quando ele escreveu o conto que é considerado talvez o mais importante dele, que é uma
[00:24:39] noveleta de 80 páginas, chama o Caíro da Noite, escreveu em 41, ele tinha 21 anos.
[00:24:45] É uma história curta que mostra uma civilização que vive num planeta que tem 6 sóis, nunca
[00:24:52] é de noite, então é uma civilização que nunca conheceu o escuro.
[00:24:55] E aí os astrônomos, que só conheciam então 6 sóis e um planeta, fizeram uma predição
[00:25:00] e tinha uma lua, quando descobriram uma lua, descobriram que uma lua ia fazer uma eclipse
[00:25:04] no único salgotaria presente em certo momento e eles iam experimentar a primeira vez em
[00:25:08] 2050 anos a escuridão.
[00:25:11] E aí tinha relatos dos arqueólogos de que tinha ocorrências anteriores da mesma civilização
[00:25:16] nesse planeta que sempre desaparecia a cada 2 mil anos.
[00:25:18] Então a predição foi que quando fica escuro as pessoas vão enlouquecer e destruir a civilização.
[00:25:22] As evidências arqueológicas eram de que a cada 2.049 anos a civilização é destruída
[00:25:27] por grandes incêndios, ou seja, por fogo.
[00:25:30] Então porque a pessoa ficava em pânico, com medo da escuridão, tentava acender fogo
[00:25:34] para clarear tudo e acabava atirando fogo na cidade e destruindo tudo.
[00:25:37] Mas é interessante porque na verdade ele está tentando descrever o pânico coletivo
[00:25:41] e ali tem vários elementos, tem a religião, tem a ciência e a razão, tem vários tipos
[00:25:46] de enfoques em debate, talvez seja muito interessante isso e nesse sentido essa preocupação
[00:25:51] de ficção científica sociológica já está a percoce no ásimo óbvio.
[00:25:55] Mas acho que essa questão da sociedade aparece em vários pontos da obra dele, né?
[00:25:58] E quando ele faz predições também, né, pro futuro, ele também traz um monte essa
[00:26:02] questão da humanidade, da preocupação social.
[00:26:04] No início do ano 70 existia uma coisa chamada futurologia, estava na mota de escrever sobre o futuro.
[00:26:09] Isso.
[00:26:09] Mas seria interessante um dia ler e comparar tudo isso.
[00:26:11] Então a gente tem algumas, né, inclusive agora com esse aniversário que ele faria
[00:26:15] 100 anos esse ano, vários jornais publicaram isso, eu até baixei aqui um da Folha de São
[00:26:20] Paulo que traz algumas e eu vou ler duas que eu achei interessantes, claro que entre
[00:26:24] as previsões que ele fez corretas, provavelmente tenha muitas erradas, né?
[00:26:28] Mas a gente tem esse viés de só prestar atenção no que bate.
[00:26:31] Exato, mas tem umas coisas que eu achei interessante, por exemplo, ele fez a previsão em 64 de
[00:26:37] que conversas em vídeos serão comuns e será possível falar com alguém em qualquer lugar
[00:26:42] do planeta via satélite.
[00:26:43] Bom, e é uma realidade absoluta, né?
[00:26:45] Na verdade nós já não falamos tanto pelo satélite como falamos pela internet via cabos
[00:26:50] e fibra ótica.
[00:26:51] Eles já superaram os satélites.
[00:26:53] Já superamos essa questão.
[00:26:54] Mas tem um outro que eu achei interessante que linka com a ideia da sociedade que estava
[00:26:57] falando, ele previu isso em 83.
[00:26:59] A irresponsabilidade humana com questões ambientais ficará abundantemente clara e
[00:27:05] em 2019 avanços tecnológicos permitirão reverter a deterioração.
[00:27:09] Claro que ele acertou de cara que a gente iria destruir, mas ele era um pouco tecnofix,
[00:27:13] né?
[00:27:14] Ele tinha a ideia de que a tecnologia poderia reverter tudo.
[00:27:17] Isso é uma crítica geral dele, né?
[00:27:18] Ele considerava que os problemas da humanidade seriam resolvidos pela própria humanidade,
[00:27:22] com a sua capacidade lógica e criatividade.
[00:27:25] Mas ele tinha uma crítica muito séria aos abusos da tecnologia, né?
[00:27:30] Isso aparece não só no pessimismo dele, na exobiologia, mas ele tinha uma crítica
[00:27:35] muito séria ao complexo militar-industrial.
[00:27:37] Inclusive ele fez críticas da tecnologia, por exemplo, a dependência de computadores.
[00:27:41] Ele escreveu em 1958, The Feeling of Power, a sensação de poder, onde ele previu uma
[00:27:47] sociedade computadorizada, onde todo mundo tem computadores portáteis, como robôs e
[00:27:52] tal, e todas as pessoas não têm nem ideia o que é matemática.
[00:27:55] Eles esqueceram completamente como fazer a matemática, a matemática, a programação,
[00:27:58] tudo.
[00:27:59] Ninguém faz conta nenhuma.
[00:28:00] As máquinas fazem.
[00:28:01] E aí uma pessoa começa a investigar e redescobre a matemática, como que arqueologicamente,
[00:28:08] e aí começa todo um problema de conflito e tal.
[00:28:11] Fazer a matemática não é somente um detalhe cultural, mas também fala sobre o nosso futuro
[00:28:16] atual, que na verdade a gente está dependendo dos celulares hoje em dia de uma forma muito
[00:28:20] parecida.
[00:28:21] Mas ele tinha essa crítica, a ideologia da meritocracia, e também criticava muito o
[00:28:26] financiamento militar para a pesquisa.
[00:28:30] Tem uma frase do próprio Eisenhower, no seu Discurso e Despedida, ele falou alguma coisa
[00:28:36] sobre isso.
[00:28:37] Algo como é perigoso financiar a pesquisa militar, porque praticamente essa instância
[00:28:41] de trabalho corrompe tudo naquilo que ela toca, e acaba então utilizando essa ciência
[00:28:46] e vai fazer coisas muitas vezes abomináveis, como de fato sabemos que faz.
[00:28:51] Então ele tenta meio que encontrar uma espécie de moral, princípio moral para a sociedade.
[00:28:56] Tem outra frase do Eisenhower que eu considero uma espécie de profecia, ele diz o seguinte,
[00:29:01] que o anti intelectualismo tem sido uma ameaça constante que encontra o seu caminho através
[00:29:07] da nossa vida política e cultural, alimentada pela falsa noção de que a democracia significa
[00:29:12] que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento.
[00:29:16] Ou seja, ele já praticamente previu esse período obscurantista que a gente está…
[00:29:21] É, o relativismo que antecedeu ele.
[00:29:22] Zorak Asimov, ele faleceu em 1992 aos 72 anos por complicações da AIDS que ele contraiu
[00:29:28] uma década antes por meio de uma transfusão de sangue.
[00:29:31] Ele foi sem dúvida um dos maiores e mais influentes escritores de ficção científica
[00:29:34] de todos os tempos, seus livros continuam sendo lidos e filmados até hoje.
[00:29:39] Foi um divulgador científico sensacional fora da curva e um importante humanista secular.
[00:29:44] Então, participaram hoje dessa pequena homenagem a ele no centenário do seu nascimento, o
[00:29:48] Jorge Kielfel do Departamento de Biofísica e o Jephor Sarenzon e a Carolina Brito do
[00:29:53] Departamento de Física Todo Mundo da URGES.
[00:29:55] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES.