#01 - Armageddon e Interstellar


Resumo

Este episódio realiza uma análise comparativa profunda dos filmes Armageddon (1998), de Michael Bay, e Interstellar (2014), de Christopher Nolan. A discussão começa destacando a premissa similar: um trabalhador rural norte-americano (um perfurador de petróleo e um fazendeiro/piloto, respectivamente) é recrutado para uma missão espacial para salvar a humanidade.

Os participantes exploram como ambos os filmes, apesar de diferenças estilísticas e de tom, codificam ideologias políticas semelhantes. Eles argumentam que as narrativas glorificam o ‘espírito pioneiro’ e a ‘malandragem’ (hustler) do herói americano comum, que, com seu conhecimento prático e empírico, supera a burocracia e o conhecimento teórico das elites. A natureza é posicionada como a grande vilã (um asteroide, um planeta moribundo), isentando a atividade humana, particularmente o modelo de vida norte-americano, de qualquer responsabilidade pela catástrofe.

A conversa avança para uma crítica ideológica, conectando os filmes ao cenário político dos EUA. Armageddon é visto como uma fantasia republicana, que celebra abertamente a indústria de combustíveis fósseis e o individualismo. Interstellar, por sua vez, é interpretado como uma versão ‘democrata’ ou liberal da mesma fábula, com uma estética mais intelectualizada e palatável, mas que no fim defende os mesmos valores: a necessidade de uma elite benevolente mentir e agir em segredo para o ‘bem maior’, e a preservação de um estilo de vida especificamente norte-americano como objetivo último da humanidade.

Por fim, a análise conclui que, embora Nolan se apresente como um cineasta mais sério e cerebral (o ‘cara de terno’), e Bay seja associado a um estilo excessivo e comercial, ambos produzem obras que, em sua essência, reforçam a mesma metafísica liberal ocidental: a crença de que a tecnologia, aliada ao individualismo heroico, permitirá à humanidade (leia-se, aos EUA) sobrepujar a natureza e garantir seu futuro, sem um questionamento profundo das estruturas que levaram à crise.


Indicações

Filmes

  • 2001: Uma Odisseia no Espaço — Mencionado como um exemplo clássico da narrativa sobre a humanidade superando a natureza através da tecnologia, servindo de contraponto à discussão sobre Interstellar.
  • Duro de Matar — Citado como o filme que consolidou o arquétipo do ‘psicopata cinematográfico’ heróico em Hollywood, personificado por Bruce Willis, que também estrela Armageddon.
  • Top Gun — Apontado como um precursor claro do arquétipo do ‘Maverick’, o piloto rebelde com habilidades intuitivas que supera os burocratas, comparado diretamente ao protagonista de Interstellar.
  • Bacurau — Mencionado de passagem, pois o ator alemão Udo Kier, que aparece em Armageddon como um médico, também é conhecido no Brasil por seu papel em Bacurau.
  • Hannah Arendt, Heidegger, Locke — Referenciados (não como filmes, mas como pensadores) como bases da ‘metafísica liberal ocidental’ que enxerga o homem como ser destinado a dominar a natureza através do trabalho e da tecnologia, ideia central criticada nos filmes analisados.

Pessoas

  • Matt Christman (podcaster) — Citado pela descrição que fez dos filmes Transformers (de Michael Bay) como ‘opulentos monumentos ao decadente império americano’, uma crítica que ecoa a análise deste episódio.
  • Isabella Stangass (filósofa) — Mencionada em relação à ideia de um estilo de vida que se tornou ‘incapaz de ter cuidado com o mundo onde vive’, conectando-se à crítica do consumismo e da exploração ambiental.

Linha do Tempo

  • 00:01:23Introdução aos filmes: Armageddon e Interstellar — Os participantes apresentam os filmes que serão analisados: Armageddon (1998) e Interstellar (2014). Eles comentam a experiência de reassistir Interstellar durante a quarentena, notando como a representação de uma vida pós-apocalíptica ressoa com o momento atual. Já se inicia uma crítica à mensagem do filme, que coloca a raça humana como vítima de um planeta que ‘falhou’, sem questionar a responsabilidade humana na crise.
  • 00:05:37A revolta do engenheiro e a visão de mundo norte-americana — A discussão se aprofunda na premissa de Interstellar. A grande frustração do personagem de Matthew McConaughey e de seu filho é a impossibilidade de se tornar um engenheiro, tendo que ser ‘apenas’ um fazendeiro. Isso é criticado como uma visão extremamente limitada e norte-americana do que constitui uma vida significativa, reduzindo-a a carreiras técnicas específicas e ao consumo, em detrimento de outras formas de existência e trabalho.
  • 00:10:04Comparação das coincidências narrativas e o ‘Maverick’ — Os participantes comparam a forçada entrada do protagonista na missão em Interstellar (uma série de coincidências absurdas) com a premissa de Armageddon (mandar perfuradores de petróleo para o espaço). Argumenta-se que a narrativa de Interstellar é ainda mais forçada e messiânica. Surge o conceito do ‘Maverick’, o herói que não segue as regras, presente em ambos os filmes e em uma tradição cinematográfica norte-americana que inclui filmes como Top Gun.
  • 00:17:24A política do ‘homem desagradável necessário’ e o segredo das elites — A análise conecta os filmes à imaginação política norte-americana, especificamente à ideia de que em situações extremas é preciso recorrer a figuras ‘desagradáveis’ ou que operam fora do sistema (como Trump ou o herói Maverick). Ambos os filmes validam a ação de elites que agem em segredo, escondendo a verdade da população ‘para o bem dela’, uma postura vista como profundamente anti-democrática e totalitária.
  • 00:22:54Armageddon como relíquia de 1998: petróleo e psicopatia — Foco em Armageddon. A cena que introduz Bruce Willis zombando de ambientalistas é analisada como uma relíquia de um tempo onde preocupações ambientais podiam ser ridicularizadas. O herói é um barão do petróleo. O comportamento do personagem é descrito como psicopático, especialmente em uma cena onde ele persegue o genro a tiros na plataforma petrolífera, tudo tratado como comédia.
  • 00:28:26Michael Bay vs. Christopher Nolan: estilo e substância — Comparação estilística entre os diretores. Michael Bay tem um estilo reconhecível, de ritmo acelerado e cheio de ‘frases de efeito’, comparado a uma música de rock do Bon Jovi. Christopher Nolan se vende como intelectual, mas sua estrutura narrativa é fundamentalmente a mesma. Ele é o ‘cara de terno’ que faz a mesma ‘música’ (filme pipoca), mas com uma embalagem mais sofisticada.
  • 00:35:01Tecnologia, pioneirismo e a metafísica liberal — Os participantes sintetizam o núcleo ideológico comum a ambos os filmes: a crença na tecnologia aliada ao ‘espírito pioneiro’ norte-americano como solução para superar a natureza. Essa junção é historicamente associada a uma máquina genocida e expansionista. A ‘metafísica liberal ocidental’, que vê o homem como dominador da natureza através do trabalho e da tecnologia, é apontada como base filosófica dessas narrativas.
  • 00:40:42A dicotomia Republicano vs. Democrata nos filmes — A análise propõe uma leitura política direta: Armageddon é um filme ‘republicano’ (Bush/Trump), que celebra abertamente a força bruta, o petróleo e o individualismo agressivo. Interstellar é um filme ‘democrata’ (Obama/Biden), que apresenta uma estética mais palatável e ‘intelectual’, mas defende os mesmos valores de elite, segredo e a preservação de um estilo de vida norte-americano específico como ideal universal.
  • 00:47:42Guerra, entretenimento e a naturalização do conflito — A discussão se expande para como filmes de guerra, mesmo os que mostram horrores, raramente questionam as causas profundas dos conflitos. Da mesma forma, Armageddon e Interstellar naturalizam a catástrofe (asteroide, praga) como um evento externo, não como consequência de ações humanas. Isso cria uma imagem que pode ser usada para justificar intervenções militares futuras, enquadrando o inimigo como uma ‘força natural’ a ser combatida.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2020-06-02T08:30:19Z
  • Duração: 00:54:16

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Dizem que é a idade que conta.

[00:00:02] Para nós, o que conta é a atitude.

[00:00:04] Novos Seat Ibiza e Seat Arona.

[00:00:07] Conectados, cheios de estilo e prontos para todos os planos.

[00:00:10] Porque ser jovem não é um número,

[00:00:12] é como te moves e como veves.

[00:00:14] Novos Seat Ibiza e Arona desde 195 euros ao mês.

[00:00:18] A idade é uma atitude.

[00:00:31] Tais quais as fábulas de Aesopo,

[00:00:33] filmes são simples histórias que tentam nos conver alguma mensagem moral.

[00:00:37] E assim, como essas pueris histórias,

[00:00:40] elas podem mudar completamente dependendo de quem as conta.

[00:00:43] No episódio de hoje, olharemos para como dois homens muito diferentes

[00:00:46] contaram a história de um trabalhador rural dos Estados Unidos

[00:00:49] indo para o espaço buscar um final feliz.

[00:00:51] Esses contadores de histórias são Christopher Nolan,

[00:00:54] o cineasta por trás de O Cavaleiro das Trevas, Inception

[00:00:57] e Michael Bay, um mestre na arte de fazer filmes que nem quem gosta consegue defender.

[00:01:01] O homem por trás dos filmes Transformers,

[00:01:03] que já foram descritos pelo podcaster Matt Christman

[00:01:06] como opulentos monumentos ao decadente império americano.

[00:01:09] Oi Orlando, tudo bem?

[00:01:11] Depois dessa introdução eu nem sei o que falar, tudo ótimo.

[00:01:15] Pois é, Orlando, conta para os nossos ouvintes que

[00:01:18] se eles já leram o título do episódio eles sabem, mas

[00:01:21] que filmes são esses dois?

[00:01:23] Olha, a gente vai falar sobre Amargedon de 1998

[00:01:27] e Interestelar de 2014.

[00:01:31] Que filmes? Eu assisti ambos hoje.

[00:01:34] Foi difícil, né cara? Já vivemos dias melhores.

[00:01:37] Já vivemos dias melhores.

[00:01:39] Eu comecei a assistir só às 9h30 da manhã, Interestelar.

[00:01:44] Não foi o melhor café da manhã que eu já tomei.

[00:01:47] Mas eu acho que foi o melhor café da manhã.

[00:01:50] Não foi o melhor café da manhã que eu já tomei.

[00:01:53] Mas definitivamente tem algo interessante em assistir o começo do filme

[00:01:58] no estado em que estamos, em quarentena.

[00:02:01] Porque ele mostra uma vida pós-apocalíptica muito similar com a nossa.

[00:02:07] Que está tentando manter uma normalidade após uma grande catástrofe natural

[00:02:14] que tirou muitas vidas e as pessoas vivem num facsímile da nossa realidade

[00:02:19] mas que claramente está extremamente limitada por consequências naturais.

[00:02:25] E isso mexeu comigo, sabe? Vendo aquilo ali.

[00:02:29] Mas é um filme do recalque, né?

[00:02:32] É um filme da frustração porque se tem uma mensagem do filme

[00:02:37] é de que o homem, a raça humana, ela não pode estar sujeita a esse tipo de situação.

[00:02:43] A raça humana não pode se adaptar a isso.

[00:02:46] A raça humana tem que buscar superar,

[00:02:49] em meio a sua própria potência de se libertar desse estado de natureza,

[00:02:53] essa fábula do nascimento da humanidade.

[00:02:56] Se você não fizer isso, acabou.

[00:02:58] É muito engraçado como é um filme sobre o colapso do planeta Terra

[00:03:03] que não encosta nunca nos fatores que levaram as mudanças climáticas no mundo real, por exemplo.

[00:03:11] Nunca se questiona a atividade humana no filme.

[00:03:14] O filme é só sobre um planeta que falhou uma raça, na verdade.

[00:03:19] A espécie humana totalmente decepcionada com seu próprio planeta.

[00:03:24] Basicamente é isso. O planeta Terra falhou os humanos.

[00:03:27] Na verdade, tem uma coisa que eu vivo falando, porque vou voltar aqui ao momento.

[00:03:33] Sou antropólogo, me respeitem.

[00:03:35] Mas tem uma questão fundamental que se imagina, que se fabula,

[00:03:41] que estrutura boa parte da nossa imaginação sobre a história da própria espécie,

[00:03:45] de que a raça humana se faz, ela emerge em meio à natureza,

[00:03:51] ela se destaca em meio a todas as outras espécies,

[00:03:53] no momento em que ela, por meio de seu próprio intelecto,

[00:03:57] sobrepuja as forças da natureza.

[00:03:59] Você vê isso, por exemplo, em 2001.

[00:04:02] Todo aquele começo de 2000, aquele épico começo, a descoberta da tecnologia,

[00:04:07] a raça humana simplesmente olha para a natureza e fala assim,

[00:04:09] você não é mais minha dona, agora eu sou dona de mim mesmo.

[00:04:12] Esse filme, ele encena, digamos, um conflito semelhante,

[00:04:16] mais uma vez por conta da decadência climática, da praga.

[00:04:22] Enfim, nunca se explica direito.

[00:04:24] Se explica daquele jeito, aquela ciência de filme.

[00:04:26] Mas o que está acontecendo ali com a Terra,

[00:04:29] a raça humana voltou a se ver presa nesse estado de natureza

[00:04:34] do qual ela tem uma algeriza, tem um medo de entender isso como um regresso

[00:04:40] a um certo primitivismo não desejado.

[00:04:43] E esse é mais um desses filmes, porque justamente o que promoveu

[00:04:49] a emergência da raça humana não foi essa briga,

[00:04:51] foi justamente a aliança com a natureza e não o domínio da natureza,

[00:04:54] não sobrepujar a natureza e essas coisas.

[00:04:56] Sim, são os famosos recursos naturais que a gente chama,

[00:04:59] que a gente usa para fazer tudo.

[00:05:01] Mas é muito engraçado como esse filme interestelar,

[00:05:03] ele no final, se a gente pegar ele como a obra toda ali,

[00:05:09] a mensagem dele é que a vida humana só existe dentro de uma imagem

[00:05:20] muito norte-americana de 2014 mesmo.

[00:05:23] Se as pessoas não estão jogando baseball e estudando engenharia,

[00:05:27] elas não estão vivendo de verdade.

[00:05:29] A grande revolta do Matthew McConaughey no começo do filme

[00:05:32] e a grande frustração do personagem do filho dele

[00:05:34] é que ele não pode ser um engenheiro.

[00:05:37] E o que existe de tão supremo do ser humano virar um engenheiro?

[00:05:43] A capacidade dele poder aprender coisas muito específicas sobre números

[00:05:48] para que ele possa trocar a força de trabalho que ele bota em prática

[00:05:54] com esse conhecimento por dinheiro para comprar o milho que ele não planta.

[00:05:58] Porque o grande problema é esse, que ele vai ter que virar um fazendeiro

[00:06:01] e plantar milho tal qual o Matthew McConaughey e não ser um engenheiro.

[00:06:04] Inclusive, algo que não parece ser um grande problema para o personagem do filho

[00:06:07] e sim um problema para o personagem da filha que nunca é muito levada em questão.

[00:06:12] O que ela sonha em fazer, ela é um personagem que não é bem um personagem,

[00:06:16] ela é uma extensão do personagem do Matthew McConaughey.

[00:06:19] Ela não tem nenhuma grande vontade a não se satisfazer os desejos do pai.

[00:06:24] Então, mas acho que tem uma coisa que a gente tem que falar.

[00:06:27] Imagino que todo mundo tenha visto esse filme, mas é bom lembrar o ponto principal

[00:06:31] que a Terra está morrendo e a humanidade basicamente cria uma missão secreta

[00:06:37] para procurar ambientes possíveis de colonização, basicamente é isso.

[00:06:43] Porque do contrário, se não tivesse movimento expansivo,

[00:06:46] a população vai sucumbir dentro do planeta.

[00:06:48] E aí tudo isso se desdobra num sistema…

[00:06:52] Isso que me incomoda, no primeiro momento do filme,

[00:06:55] no momento que ele vai para a escola e diz assim

[00:06:57] olha, seu filho não vai poder ser um engenheiro,

[00:06:59] seu filho vai ter que ser um fazendeiro porque a gente precisa de comida

[00:07:02] e não de novas tecnologias. E aí, tipo…

[00:07:06] Dizem que é a idade que conta.

[00:07:08] Para nós, o que conta é a atitude.

[00:07:11] Novos C.A. Tibisa e C.A. Tarona.

[00:07:13] Conectados, cheios de estilo e prontos para todos os planos.

[00:07:16] Porque ser jovem não é um número, é como te moves e como vives.

[00:07:20] Novos C.A. Tibisa e C.A. Tarona desde 195 euros ao mês.

[00:07:24] A idade é uma atitude.

[00:07:26] Porque como se esse estado de escassez, suposto estado de escassez,

[00:07:32] rapidamente se desdobre num sistema que não permite as pessoas serem livres.

[00:07:38] Ou seja, no fundo, o que ele está fazendo ali

[00:07:41] é defendendo esse estilo de vida

[00:07:46] que explora o planeta Terra de uma maneira inesgotável.

[00:07:50] Um estilo de vida que se tornou, como diz a filósofa Isabella Stangass,

[00:07:53] incapaz de ter cuidado com o mundo onde vive.

[00:07:57] Porque toda aquela revolta dele, tem uma hora que ele fala assim

[00:08:00] o que estamos nos tornando, se não pessoas que…

[00:08:03] A gente sonhava com o nosso lugar nas estrelas,

[00:08:05] agora olhamos para o chão, tentando…

[00:08:09] Como é sobreviver aqui nesse planeta.

[00:08:11] Ele fala com desgosto.

[00:08:13] E eu acho que a filha, justamente você falou que ela não tem uma personalidade bem desenvolvida,

[00:08:17] ela se torna, digamos, um desdobramento do roteiro

[00:08:21] dessas falas expositivas dele, da vontade do personagem.

[00:08:26] Sim, tem até uma cena que lida com isso ali, logo no fim,

[00:08:30] naquele trecho apêndice do filme, que é o epílogo lá,

[00:08:36] que ele acha que a base espacial tem o sobrenome dele por causa dele,

[00:08:42] e fala, não, por causa da sua filha.

[00:08:44] Porque realmente, a filha ali acaba sendo só uma extensão dele em tudo que ela faz.

[00:08:48] Ela não tem como personagem no filme nenhuma vontade própria.

[00:08:52] Inclusive, toda a descoberta dela vem dele, né?

[00:08:57] Sim, na verdade ela não descobriu nada e ela fala assim,

[00:09:00] as pessoas achavam que era eu descobrindo as coisas,

[00:09:03] mas você que me ajudou e tal, só que ninguém acreditou.

[00:09:07] Então é isso, e ele, alguém de novo, que fique claro,

[00:09:11] o filme já estabeleceu, não é alguém treinado cientificamente, né?

[00:09:15] Ele era um piloto, ele não era um grande cientista.

[00:09:20] Assim como, por exemplo, a personagem da Anne Hathaway no filme,

[00:09:24] que é uma cientista e tal, mas aí tem até o momento, mais ou menos no começo do filme,

[00:09:29] que é o momento em que, tipo, ela tinha todo o conhecimento teórico,

[00:09:33] mas ela não estava preparada para a prática, e ele sim estava.

[00:09:37] Tem todo aquele discurso também de, tipo, vocês aí, burocratas acadêmicos,

[00:09:42] não entendem como é na hora H.

[00:09:46] Então, esse é um dos temas que a gente vai falar, né?

[00:09:49] Porque é uma união entre os dois filmes.

[00:09:51] Sim.

[00:09:52] Mas tem uma coisa que, primeira coisa que vamos dizer aqui,

[00:09:56] a entrada dele para a NASA é uma das coisas mais forçadas da história do cinema mundial.

[00:10:04] Sim, assim, está exatamente no mesmo nível de,

[00:10:08] precisamos desses petroleiros para furar um asteroide no filme Armageddon.

[00:10:14] Eu ainda acho pior, sabe por quê?

[00:10:17] Porque no Amargeddon, isso é um filme que não se leva a sério.

[00:10:22] Sabe? Então, assim, whatever, né cara?

[00:10:25] Whatever, botar um monte de petroleiro para furar um asteroide, sabe?

[00:10:29] E a outra coisa é que o Armageddon não depende de tantas coincidências quanto interestelar.

[00:10:38] Nossa, cara, porque no final de tudo…

[00:10:41] Porque, assim, se ele não morasse há poucos quilômetros da base

[00:10:44] e não conhecesse o professor que coordena tudo da NASA,

[00:10:50] se a filha dele não tivesse empurrado ele para ir lá, né?

[00:10:54] Tudo isso, assim.

[00:10:55] Se ele não tivesse passado para ele mesmo as coordenadas do lugar.

[00:10:59] Tudo isso, assim, é tão necessário,

[00:11:02] é tão mais messiânico do que Armageddon,

[00:11:06] exatamente porque é uma história que se desenvolve

[00:11:10] de jeito que não poderia ser outra pessoa senão ele naquela posição,

[00:11:14] que é meio, é mais forçado que Armageddon mesmo.

[00:11:18] Então, isso é um outro…

[00:11:19] A gente pode levar isso até para um outro aspecto, né?

[00:11:22] Que o cinema norte-americano cada vez mais está se especializando nesse tipo de filme, né?

[00:11:27] Que vai criando uma situação tão rocambolesca, sabe?

[00:11:31] Uma coisa tão, sei lá, tudo tão enrolada

[00:11:34] que a resolução é sempre extremamente insatisfatória, né?

[00:11:41] Assim, é sempre…

[00:11:43] É quase…

[00:11:46] Tudo se resolve no estalar de dedos.

[00:11:48] Aí você pensa, né, no filme do lado da Marvel,

[00:11:51] tudo realmente se resolveu com o estalar de dedos.

[00:11:54] Mas esse filme, acho que ele é rei disso, né?

[00:11:57] Todo o problema, todo o conflito dele se resolve de uma maneira completamente esdrúxula,

[00:12:02] completamente do…

[00:12:03] Não, não é possível.

[00:12:05] E não é possível no sentido de…

[00:12:07] Não, não entendi isso, desafia as leis da lógica, enfim,

[00:12:10] nossa concepção de tempo passado, de presente e futuro.

[00:12:12] Não, porque isso fica tão forçado, tão forçado.

[00:12:15] Só seria pior se tudo fosse um sonho, sabe?

[00:12:17] Aquele momento o pessoal te acorda, rapaz, era tudo um sonho, né?

[00:12:20] Estou aqui na minha fazenda, sabe?

[00:12:21] Só seria pior desse sentido.

[00:12:23] Então, assim, esse é um ponto.

[00:12:25] O outro ponto disso é que…

[00:12:29] Tem uma questão que a gente estava falando disso até antes da gravação, né?

[00:12:33] De que como esse filme, ele reencena um troco muito típico dos filmes norte-americanos,

[00:12:41] que era muito comum, inclusive, nos filmes da década de 80, né?

[00:12:44] Nesses filmes que…

[00:12:46] Ou em filmes de conflito entre os heróis americanos e os soviéticos,

[00:12:51] mas também isso se reaparecia em filmes como…

[00:12:55] Qual o nome daquele filme que eu falei?

[00:12:57] Do Michael Keaton?

[00:12:58] Gun Hole, do Michael Keaton.

[00:13:00] Isso, que é um filme que mostrava, por exemplo,

[00:13:02] que um conglomerado japonês comprava uma fábrica de carros nos Estados Unidos

[00:13:09] e decidia fechar a fábrica por causa da ineficiência das pessoas que estavam ali,

[00:13:14] do desconhecimento técnico, de tecnologia,

[00:13:16] e o Michael Keaton organizava as pessoas e mostrava para as pessoas que não.

[00:13:19] Podemos não ser os mais inteligentes, mas nós temos um feeling,

[00:13:23] nós temos um tipo de arte que não pode ser…

[00:13:29] Que está muito além da sua técnica, que está muito além do que você está tendo nos livros.

[00:13:33] Nós somos os…

[00:13:34] Sabe, é um espírito americano, sabe?

[00:13:36] Uma coisa meio pioneira.

[00:13:37] É aquilo que os americanos vão chamar do espírito pioneiro dos norte-americanos,

[00:13:40] o espírito pioneiro do…

[00:13:41] Enfim, isso vai desdobrar em várias outras questões, como o Manifest China, outras paradas.

[00:13:45] Mas o ponto é que o filme traz o Satona até na maneira como o cara pilota, sabe?

[00:13:50] Tem toda aquela cena da maneira como ele vai pousar o avião no planeta lá,

[00:13:55] que é um planeta feito de água,

[00:13:56] e da maneira como ele faz tudo aqui, é uma coisa meio direção perigosa e sei lá o quê,

[00:14:01] e que tu fica assim, nossa, cara, que forçado, né, cara?

[00:14:04] É uma questão daquela pose do herói rebelde, né, que é muito comum em Hollywood,

[00:14:09] que é a coisa também que esse espírito do que eles chamam em inglês de hustler,

[00:14:15] que é quase a malandragem do gringo, né?

[00:14:18] Não é exatamente malandragem, mas é tipo isso, assim.

[00:14:22] Olha só como ele não precisa seguir as regras, porque ele faz tudo de um jeito melhor.

[00:14:26] É, você tem vários exemplos disso em filmes de comédia, né?

[00:14:29] O Maroney, da Locademia de Polícia, né?

[00:14:32] O próprio papel do Eddie Murphy no…

[00:14:36] É um Tira da Pesada, né?

[00:14:38] Mas como é que é em inglês?

[00:14:41] 48 Hours?

[00:14:42] Não, Beverly Hills Cop.

[00:14:44] Beverly Hills Cop, isso.

[00:14:46] Mas você também tem, por exemplo, um exemplo, cara, que é talvez seja

[00:14:52] uma boa analogia para esse filme.

[00:14:54] Ele é uma mistura de Top Gun com o Segredo do Abismo,

[00:14:57] saca?

[00:14:58] Tipo assim, esse personagem principal, ele é o Maverick, né?

[00:15:02] Ele é o Maverick, é.

[00:15:03] É o Maverick, saca?

[00:15:04] Tipo, ele é isso, exatamente.

[00:15:06] O Maverick, ele encarda isso, né?

[00:15:07] Ele não era exatamente um piloto mais técnico, mas ele tinha uma coisa, né?

[00:15:11] Ele era o melhor piloto, porque ele sabia fazer manobra, ele era usado, né?

[00:15:14] Ele era, enfim, ele era o cara que tava sempre correndo os discos ali, né?

[00:15:18] Ele sabia correr os discos certos, né?

[00:15:20] Ele fazia as coisas, enfim.

[00:15:22] É isso, o filme é sobre um Top Gun no espaço, né?

[00:15:25] Sim, é exatamente isso.

[00:15:27] E aí, a gente encontra então Armageddon, de 1998, que é um filme com o Bruce Willis,

[00:15:35] Ben Affleck, né?

[00:15:37] Que é irmão do Casey Affleck, que tá em Interestelar.

[00:15:39] E do Matt Damon, do Matt Damon, que também tá em Interestelar.

[00:15:43] O Matt Damon, né?

[00:15:44] Que logo antes de Armageddon, ele e Ben Affleck tinham ganhado o Oscar juntos, né?

[00:15:48] E aí, cada um dessa dupla, desse maravilhoso duo de Hollywood tá em um dos dois filmes.

[00:15:55] E só um adendo, quem também tá em Armageddon, rapidamente, é o Dokir, o ator alemão,

[00:16:05] que é também conhecido como o Alemão de Bacurau.

[00:16:08] Verdade, rapaz, verdade, verdade.

[00:16:11] Não tinha me atentado para isso, não tinha me atentado para isso.

[00:16:15] Ele aparece como um dos médicos que faz a análise médica de todos os astronautas lá

[00:16:21] e diz que eles não estão aptos a viajar para o espaço.

[00:16:26] Porque também, eles são Mavericks, eles não seguem as regras.

[00:16:29] Ele fala uma hora que, tipo, um deles testou positivo para ketamina, que é muito irônico.

[00:16:34] Porque eu assisti esse filme logo depois de ver Interestelar.

[00:16:36] E quando eu tava vendo Interestelar, a cena em que ele tá flutuando lá na tradução das cinco dimensões,

[00:16:43] cinco dimensões para três dimensões, eu pensei, caralho, isso parece alguém que tá muito louco de ketamina.

[00:16:50] Eu ouvi dizer, não que eu saberia.

[00:16:53] Tem um primo teu, um amigo do primo teu, né?

[00:16:55] Exato, que é astronauta, quem me falou isso.

[00:16:58] Exatamente.

[00:16:59] No Armageddon, a gente tem essa mesma situação de, tipo, esses caras, as cabeças da NASA,

[00:17:07] sabem de nada, o que a gente precisa mandar é um americano de todo dia, né?

[00:17:11] Um everyman americano, que ele sabe como fazer as coisas de um jeito que nenhum livro vai te ensinar a fazer.

[00:17:17] Ele tem essa ginga, de novo, essa malandragem de gringo.

[00:17:22] Cara, mas sabe o que é uma coisa que eu acho?

[00:17:24] A gente tava, assim, tem uns motes que a gente tem nesse programa, né?

[00:17:28] Quer mostrar que como os filmes inspiram determinadas tendências,

[00:17:33] na verdade, eles não inspiram, eles codificam determinadas tendências, assim, que muitas vezes não tem rosto,

[00:17:40] muitas vezes não tem um nome, mas elas estão meio que ali atravessando a sociedade, né?

[00:17:46] Certas tendências transversais, afetos, microafetos e tudo mais.

[00:17:50] E esse filme, na verdade, tanto um quanto o outro, né?

[00:17:53] O Interestelar só não assume isso.

[00:17:55] Eles têm uma coisa que é bastante típica do cenário político norte-americano.

[00:18:01] Da imaginação política norte-americana.

[00:18:03] De que é preciso, muitas vezes, recorrer a pessoas que usualmente consideremos desagradáveis

[00:18:11] para resolver determinadas situações extremas.

[00:18:14] Então, assim, boa parte da política republicana nos Estados Unidos se vale disso.

[00:18:20] Boa parte, muitos políticos republicanos e norte-americanos assumem esse discurso.

[00:18:25] E o Trump também já assumiu isso em alguns momentos.

[00:18:28] De que ele é essa pessoa que tem lá todos os seus defeitos, mas ele é o cara que vai dar conta do recado.

[00:18:35] Ao contrário dos liberais, que são softs, né?

[00:18:38] Tipo, numa situação muito tensa, eles não conseguem segurar a onda.

[00:18:41] Mas que, na verdade, acabam sendo os maiores expoentes disso, os democratas lá,

[00:18:44] porque eles são sempre as pessoas que não conseguem negociar nem com si mesmos.

[00:18:49] Eles já chegam entregando tudo, né?

[00:18:51] Agora mesmo, durante a pandemia, os democratas lutaram muito pouco e quase nada, assim, por assim dizer,

[00:18:57] tipo, contra as políticas republicanas de, ah, vamos redistribuir riqueza entre os bancos e as empresas mais ricas

[00:19:04] e muito pouco aqui para o povão.

[00:19:06] E os democratas são sempre as pessoas que chegam assim, você tem que saber desistir,

[00:19:10] você tem que saber dar um braço a torcer e tal.

[00:19:13] E é algo muito similar na esquerda mainstream do mundo todo.

[00:19:20] Eu acho que a gente viu aqui muito com o governo do PT também,

[00:19:24] que essa atitude de tipo, hey, a gente tem que ceder, hein?

[00:19:28] E a direita nunca tem essa posição aí, a gente tem que ceder um pouco, hein?

[00:19:33] É totalmente o contrário.

[00:19:35] E ao mesmo tempo, a gente vê nesses filmes que tentam ser extremamente apartidários

[00:19:40] e tentam mostrar uma política que não entra nessas questões,

[00:19:44] mas ela entrega muita coisa.

[00:19:47] Por exemplo, no Interestelar, o personagem do Michael Caine fala que a NASA existe secretamente,

[00:19:54] porque naquele futuro lá eles não investem mais em exército porque não têm mais dinheiro

[00:19:59] e você não poderia investir nenhuma grana na NASA, né, grana pública da NASA,

[00:20:06] enquanto as pessoas estão passando fome porque as pessoas não iam achar isso legal.

[00:20:10] Então o filme já valida de antemão uma posição de o povo não sabe o que é melhor para si.

[00:20:16] Então é muito bom que os governantes e burocratas tenham decidido roubar bilhões de dólares das pessoas

[00:20:24] e usar nesse projeto que ninguém sabe o que está acontecendo.

[00:20:27] É a produção de famélicos, né?

[00:20:30] Tudo bem, eles vão ficar com fome, mas a gente tem um sonho.

[00:20:34] Exato.

[00:20:35] Eles estão se sacrificando.

[00:20:37] Mas a gente não faz a mesma coisa, porque fica bem claro no personagem do Billy Bob Thornton,

[00:20:42] que é o cara da NASA que faz tudo acontecer,

[00:20:44] que ele fala assim, não, as pessoas não podem saber o que está acontecendo,

[00:20:47] senão haveria uma histeria em massa.

[00:20:49] Mas de alguma maneira, todos os familiares daqueles que viajam estão lá para receber eles quando eles voltam.

[00:20:56] Então tipo, o segredo mais bem guardado do mundo deixa de ser o segredo mais bem guardado do mundo

[00:21:00] em algum momento que eles estão no espaço, mas enfim, não vamos discutir isso.

[00:21:03] Não, não, não, é assim, mas justamente então essa coisa do quem não retrocede, né?

[00:21:09] Quem é que não…

[00:21:11] Tem essa coisa, a suposta democracia norte-americana, enfim, como todas supostas democracias do mundo,

[00:21:17] elas são extremamente totalitárias nesse aspecto, né?

[00:21:21] Elas realmente chegam em um determinado nível que falam assim,

[00:21:24] então é preciso existir toda uma coisa por debaixo do pano para que essa coisa bonita,

[00:21:30] para que essa fábula liberal possa ser operacional, né?

[00:21:35] Tanto o Amargedon quanto o Interestelar mostram isso,

[00:21:39] mas eu acho que no Amargedon tem a cena inicial, né?

[00:21:43] A cena que na verdade, não a cena inicial, porque a cena inicial começa a cair os meteoros e tudo mais,

[00:21:47] mas a cena que introduz o personagem do Bruce Willis, que ela é uma zombaria disso, né?

[00:21:55] Ele tem uma, como é que é, uma plataforma de petróleo,

[00:21:59] ele é dono dessa plataforma, é uma companhia que faz prospecção de petróleo e tudo mais,

[00:22:03] e tá ele jogando golfe, jogando bolinhas num barco de militantes de ambientalistas, né?

[00:22:11] E aí tem uma hora que o cara fala assim, ué, por que que o pessoal tá aí?

[00:22:15] Eles acham que é errado extrair petróleo, saca? Tipo zombando dos caras, sabe?

[00:22:19] E tipo assim, esses caras não vão salvar o mundo, somos nós que estamos aqui,

[00:22:24] que somos vilões pra vocês, que vamos salvar o mundo, né?

[00:22:26] Inclusive, é a nossa tecnologia predatória que tá destruindo o mundo, né?

[00:22:31] Com a extração de combustíveis fósseis, que vai salvar o mundo, saca?

[00:22:34] Assim, é um filme, é uma relíquia muito de 1928,

[00:22:39] no momento onde você podia ainda fingir que qualquer tipo de preocupação ambiental

[00:22:44] era só histeria de alguns liberais ou de alguns progressistas e tal.

[00:22:50] E é muito engraçado porque ele ainda, ele faz uma piadinha ali nessa hora que ele vira e fala assim,

[00:22:54] ué, mas eu doei 5 mil dólares pra vocês e tal.

[00:22:58] E até ele entra nesse esquema muito americano de tipo,

[00:23:02] a única coisa que você precisa pra ter a tal liberdade é você ter dois lados representados em alguma coisa.

[00:23:09] Você pode, mesmo que seja assim, ah, grandes barões do petróleo,

[00:23:15] que doam merrecas pra manter Greenpeace e outros grupos funcionando,

[00:23:20] pra dizer que olha só, todo mundo, né, você pode ser contra o petróleo, a favor do petróleo,

[00:23:25] somos todos livres. Hoje a gente sabe tipo, olha, na verdade quem tomou as decisões e nos botou aqui

[00:23:31] são as pessoas responsáveis pela extração de petróleo.

[00:23:33] A gente não teve muita liberdade de discordar ou controlar o destino do nosso planeta.

[00:23:39] E a outra coisa que eu acho que isso mostra também

[00:23:43] é a capacidade do ser humano norte-americano em 1898

[00:23:48] de achar que um bom herói seria um cara que extrai petróleo.

[00:23:56] Sim, sim.

[00:23:58] Assim, é impossível você pensar assim, em 2014, por exemplo, quando Interestelar foi feito,

[00:24:02] que você poderia ter um herói que é um cara que extrai petróleo sem nenhum arrependimento.

[00:24:08] Preciso só fazer uma adendo, existe sim um filme de 2014, então,

[00:24:12] se não me engano, de 2014, que tem como herói, entre aspas, um barão de petróleo que é

[00:24:20] There Will Be Blood, mas aí é outro contexto, gente.

[00:24:24] Mas ele não é exatamente um herói.

[00:24:26] Exato, ele não é nem um herói por assim dizer.

[00:24:30] É basicamente um psicopata, né, cara?

[00:24:32] Sim, exato. Não que o Bruce Willis não seja nesse filme e em outro,

[00:24:36] porque a gente vai chegar nesse episódio ainda.

[00:24:38] Sim, sim, não. Bruce Willis, na verdade, ele é um psicopata cinematográfico de mão cheia.

[00:24:44] Ele fez a carreira fazendo esse tipo de personagem, né?

[00:24:48] Nessa cena mesmo, ele é um psicopata, porque eu não sei se você lembra,

[00:24:52] claro que você lembra, porque é difícil esquecer as coisas ruins da nossa vida,

[00:24:54] mas na cena imediatamente seguinte a essa que você está falando,

[00:24:58] Ele descobre que o Ben Affleck transou com a filha dele, que é a Liv Tyler,

[00:25:06] e eles pegam uma espingarda e saem atirando na própria base de petróleo ali,

[00:25:14] na plataforma pretorífera, e começam a atirar no Ben Affleck.

[00:25:18] Reconjetei a bala por tudo que é canto, que poderia ter matado qualquer pessoa que estava ali,

[00:25:24] isso sem falar em todas as questões de materiais inflamáveis e tudo mais,

[00:25:26] e a segurança de todos que estão sendo ameaçados ali.

[00:25:30] E é pra ser uma cena meio de, ah, é um pai que fica meio irritado com essas coisas,

[00:25:34] que a filha dele, cara, está crescendo.

[00:25:36] E enquanto isso ele faz piadas, né?

[00:25:38] Sim!

[00:25:40] Porque é o bem círculo do psicopata americano, né?

[00:25:42] Os filmes de psicopata americano é que ele faz piada de quando está fazendo isso,

[00:25:46] ele lembra de fulano, lembra de ciclano e sei lá o quê, blá blá blá.

[00:25:50] Inclusive é uma coisa que a gente tem que citar, esse filme, o roteiro dele é uma arte,

[00:25:54] porque é um dos filmes com o maior número de piadas e faladas de efeito por cenas,

[00:26:02] saca? Tipo, é importante que basicamente a fala dos personagens é uma ponte entre uma frase de efeito e outra, né, cara?

[00:26:10] Então, e isso tem muito a ver com a carreira do Bruce Willis, né?

[00:26:12] Porque ele acontece dez anos depois de Duro de Matar, de 1938,

[00:26:18] que meio que é pra mim o começo do psicopata hollywoodiano que a gente conhece

[00:26:24] e é o John McClane do Bruce Willis que começa isso, né?

[00:26:29] E acho que inclusive Duro de Matar é um roteiro perfeito não só nisso,

[00:26:33] acho que é um roteiro muito melhor que Armageddon, claro, mas é um roteiro que também, além de ser perfeito estruturalmente,

[00:26:39] o McClane nunca abre a boca sem falar algo muito espertinho, uma tirada muito sacana, sarcástica.

[00:26:48] Pois é, né? Isso eu acho que no caso do Armageddon, e aí vou voltar pra interestelar,

[00:26:56] o roteiro, né, ele tenta, ele é quase uma espécie de espelho perfeito do filme, né?

[00:27:02] Porque se você pensar no Armageddon, esse tipo, Michael Bay, essa é a linguagem dele, né?

[00:27:08] Goste você ou não, eu detesto, particularmente, mas assim, é inegável que ele tem um estilo que você olha assim e você fala,

[00:27:16] cara, esse aqui é Michael Bay, tá? Que você consegue reconhecer os filmes dele, né?

[00:27:20] Ao contrário de muito diretor aí que você vê o filme, você não consegue identificar a mão do diretor, a marca do diretor e coisas do tipo.

[00:27:25] A marca do Michael Bay é principalmente uma câmera girando ao redor do protagonista, enquanto o protagonista olha pros dois lados.

[00:27:33] Não só isso, mas tem uma coisa do tipo, cena de efeito, pode ser uma cena de ação, alguma coisa do tipo, uma tirada,

[00:27:42] um momento mais calmo, cena de efeito. Sabe, tipo assim, é uma coisa meio do…

[00:27:47] Uma cadência, né?

[00:27:48] É, exatamente, parece uma canção de rock, uma canção clássica de rock, né?

[00:27:52] Uma canção clássica de rock, né? Tipo, começa com uma introdução, aí tem refrão 1, aí ponte, refrão 2, cara,

[00:27:58] aí tem aquele refrão final, música do Bon Jovi, a música do Bon Jovi, entendeu?

[00:28:02] Você vai ter lá, a música começa de um jeitinho, aí depois tem aquele refrão edificante, aí depois da música volta de vou ficar quente,

[00:28:09] e vagazinho, refrão edificante, solo e aí o refrão edificante edificante, né?

[00:28:14] Com voz duplicada e o caralho, entendeu? Tipo, o Michael Bay é isso, entendeu?

[00:28:19] E agora, o Interestelar é aquele tipo de rock alternativo, saca? O Nolan é isso, né?

[00:28:26] É aquele cara que faz aquele rock que parece, que se leva a sério demais, mas…

[00:28:31] No fim do dia tá fazendo exatamente a mesma coisa, sabe? Tá cantando as mesmas letras, escrotas, tá fazendo…

[00:28:38] Tipo, é um cara que vai ver um solo gigantesco, mas no final a música tem a mesma estrutura do rock do Bon Jovi.

[00:28:45] Sim, ele acha que ele é uma versão cabeça do Michael Bay, mas na verdade eles estão fazendo os mesmos produtos para as mesmas pessoas.

[00:28:50] E o Nolan, ele se vende muito com isso, né? Parte do marketing dele é muito esse, né?

[00:28:55] De que são filmes intelectualizados dentro do mainstream norte-americano, né?

[00:29:00] O Inception, enfim, o Interestelar e até os próprios Cavaleiros das Trevas são vistos pelas pessoas que…

[00:29:09] Nossa, o Cavaleiro das Trevas então tem gente que acha que aquilo é um ensaio sobre anarquismo, bicho, nossa.

[00:29:15] Enfim, e o…

[00:29:17] E se é um ensaio sobre anarquismo é um ensaio extremamente anti-anarquista, na verdade, né?

[00:29:21] Porque a mensagem do Cavaleiro das Trevas é, de novo, muito parecida com a de Interestelar e de Armageddon, é…

[00:29:28] Você tem que mentir para as pessoas para poder salvá-las e fazer o bem delas.

[00:29:32] Exato, né? O Batman, por exemplo, tem um momento em que ele hackeia todos os celulares, né?

[00:29:38] Sim.

[00:29:39] De Gotham, ele engana as pessoas, ele age por fora do sistema de uma maneira bastante…

[00:29:43] Ele vira um justiceiro, um Batman miliciano em sua essência máxima, né?

[00:29:47] Exato, que é outro tipo de Maverick, né?

[00:29:51] Que as regras não se aplicam a ele.

[00:29:53] Sim, inclusive tem toda a oposição que ele tem com o Gordon.

[00:29:57] Na verdade, nesse segundo filme, do Coringa, é interessante você contrastar o Batman com o Harvey Dent.

[00:30:05] Que o Harvey Dent era o bom moço, né? Era o cara que jogava dentro do sistema.

[00:30:09] Era o cara que estava fazendo ali, jogando as regras do jogo.

[00:30:13] O que acontece com ele, ele é corrompido, ele se transforma num monstro.

[00:30:16] Porque ou você morre um herói, ou você vive o suficiente para se tornar um vilão.

[00:30:20] Isso, e o único jeito de sobreviver nesse sistema é ali naquele limiar, né?

[00:30:27] Entre herói e vilão, né? Que o Batman é isso, né?

[00:30:30] Esse Batman é isso, né? Esse herói e vilão e tudo o mais.

[00:30:33] E no final das contas, essa figura solitária que joga fora das regras é o grande tropo masculinista do cinema norte-americano, né cara?

[00:30:41] Sim.

[00:30:42] E que está de novo presente no Interestelar.

[00:30:44] Só que esse tropo que a gente vai ver, por exemplo, no filme do Duro de Matar, esteticamente ele soa…

[00:30:53] Como é que é? Ele não pode ser consumido por uma certa parcela da população.

[00:30:57] Então você faz uma maquiagenzinha ali nele para que ele pareça mais palatável.

[00:31:02] Para um determinado público pareça mais intelectualizado.

[00:31:05] E é o caso do Interestelar, né?

[00:31:07] E é o caso dos dois filmes que é…

[00:31:09] Vamos pegar e ter essa mensagem que bota o protagonista americano-médio, branco, de um background não citadinho e tudo mais.

[00:31:23] Como o principal e a vida é importante e o ponto de vista é importante sem nem dar um inimigo.

[00:31:30] Sem ter que personalizar um inimigo ali.

[00:31:32] O único inimigo é o próprio planeta ou a própria natureza.

[00:31:34] No caso do Armageddon que é tipo…

[00:31:36] É um meteoro que está vindo destruir a gente.

[00:31:39] Não tem nada que a gente…

[00:31:40] De novo, não é nossa culpa, não é parte do…

[00:31:44] Não é uma consequência causada pelos nossos atos.

[00:31:47] É essa maldita natureza que quer acabar com a gente.

[00:31:50] A gente tem toda…

[00:31:51] A gente tem essa carta branca para…

[00:31:53] Vamos explodir bombas nucleares naquele asteroide e sobreviver e tudo mais.

[00:32:00] A gente tem um outro tropo que entra aí que é bem comum no sistema Hollywoodian também.

[00:32:05] Que é a alegoria cristã do grande sacrifício.

[00:32:10] Que o Nolan mais uma vez não consegue fazer.

[00:32:13] Porque no Armageddon o Bruce Willis se sacrifica, fica para trás lá para explodir o asteroide.

[00:32:19] Mas o Nolan, como ele fez o Batman 3 também lá.

[00:32:23] O Batman se explode para salvar todo mundo.

[00:32:27] Mas no final ele nem estava morto.

[00:32:28] E nesse filme é a mesma coisa.

[00:32:29] O Matthew e o Connery ficam para trás e se jogam no buraco negro.

[00:32:32] Simplesmente para poder viver uma vida totalmente sem culpa de nada.

[00:32:36] Onde a própria filha absolve ele de qualquer problema pessoal.

[00:32:41] Tipo, nossa, muito obrigado por tudo.

[00:32:43] Minha vida não significaria nada sem você.

[00:32:45] E agora bicho, aproveita que você ainda é jovem.

[00:32:48] Pega uma nave e vai virar o Blade Runner do espaço.

[00:32:52] Roba a nave.

[00:32:54] Roba a nave.

[00:32:55] Vira o Han Solo.

[00:32:56] Isso, vira o Han Solo.

[00:32:58] Vira o Han Solo.

[00:32:59] Vai você, teu robozinho e vai reconstruir tua vida contra a mulher aí.

[00:33:03] Porque o amor, seu amor por ela.

[00:33:05] Vira o Flash Gordon, vai ter aventuras no espaço.

[00:33:08] E isso é uma coisa que é interessante.

[00:33:10] Porque os dois filmes, pode parecer de bosta para muita gente.

[00:33:15] Pode parecer que nós estamos aqui tentando assassinar nossas carreiras na internet.

[00:33:22] Uma roleta de unfollow.

[00:33:23] Mas de fato os filmes são muito, muito próximos.

[00:33:27] Porque tanto um quanto o outro tem essa fábula tecnológica de que os nossos artefatos vão nos salvar.

[00:33:37] Que os nossos artefatos que criamos muitas vezes, na maioria das vezes, para matar outras pessoas.

[00:33:44] Inclusive tem uma hora que um personagem, num diálogo completamente ridículo.

[00:33:48] Um dos diretores da escola da filha do personagem do Interestelar, do personagem principal.

[00:33:54] Ele chega e fala assim.

[00:33:56] Ele começa a falar não, porque a exploração espacial e as guerras que eram um monte de tecnologia.

[00:34:01] Que eram tecnologias que enfim, que não vão nos servir e tudo mais.

[00:34:05] Não existem mais exércitos.

[00:34:06] E ele chega e fala assim.

[00:34:07] A ressonância magnética que foi criada desse jeito poderia ter salvado a minha esposa.

[00:34:12] Saca?

[00:34:13] Existe toda uma ideia.

[00:34:16] E essa ideia, mais uma vez eu vou falar uma coisa que os ouvintes desse programa vão começar a falar.

[00:34:22] Ele vai falar de novo da metafísica liberal ocidental.

[00:34:25] Mas é isso.

[00:34:26] Tipo, a metafísica liberal ocidental tem toda essa ideia de que por meio do trabalho,

[00:34:31] de por meio da nossa própria tecnologia, nós vamos ser capazes.

[00:34:34] Está lá em Hannah Arendt, Heidegger, até em Locke.

[00:34:37] Nós vamos ser capazes de sobrepujar a natureza.

[00:34:40] O filme é basicamente isso.

[00:34:41] Essa fantasia tecnológica.

[00:34:43] Na qual, por meio dela, junto com esse espírito do pioneiro.

[00:34:47] Lembrando que esse espírito do pioneiro nos Estados Unidos e para os ingleses.

[00:34:51] Da onde o Nolan vem.

[00:34:53] Alimentou uma máquina genocida durante alguns séculos.

[00:34:57] E continua alimentando.

[00:34:59] Então assim, a junção desses dois.

[00:35:01] A tecnologia, mas o espírito pioneiro é que vai salvar a humanidade.

[00:35:06] O filme do Amargedon é a mesma coisa.

[00:35:08] Porque a prospecção é ir atrás dessas regiões inóspitas e procurar petróleo.

[00:35:16] E os personagens falam assim.

[00:35:17] O tempo inteiro também é uma consequência desse espírito pioneiro.

[00:35:20] Alinhado a um saber tecnológico.

[00:35:23] Sim.

[00:35:24] O próprio…

[00:35:26] É muito louco.

[00:35:27] Como o Matthew McConaughey é mostrado no começo do filme.

[00:35:29] Como um cara super do empiricismo do método científico.

[00:35:33] Que passa isso para a filha e tal.

[00:35:35] Não sei o quê.

[00:35:36] E ele é muito questionador e cético.

[00:35:39] E ele derruba um drone de uma empresa para roubar a bateria e o computador do drone.

[00:35:46] Essa coisa também do pioneirismo americano.

[00:35:49] Você que dá um jeito nos seus problemas.

[00:35:52] E é por isso que em momento nenhum do filme.

[00:35:54] Com essa questão da mulher que morreu.

[00:35:57] E depois de todo mundo ficando doente por causa da tal poeira.

[00:36:02] Em momento nenhum Matthew McConaughey questiona se o que eles precisam não é saúde pública.

[00:36:08] Exatamente.

[00:36:10] E aí é muito engraçado.

[00:36:12] Porque tem um paralelo muito bom com isso no Armagedão.

[00:36:14] Que é um dos pedidos.

[00:36:16] O único pedido que todos os membros da equipe do Bruce Willis fazem.

[00:36:20] Para o Billy Bob Thornton.

[00:36:22] Para o Topei e para a Lua.

[00:36:24] Cada um tem pedidos diferentes.

[00:36:26] Mas um que todos fazem é.

[00:36:28] Não queremos pagar impostos nunca mais.

[00:36:30] Sim Garza.

[00:36:32] É bem esse liberalismo americano.

[00:36:36] A pior coisa que pode acontecer é o coletivismo.

[00:36:38] Que está de volta no Interestelar.

[00:36:40] Na cena que ele fala assim.

[00:36:42] É melhor o seu filho cuidar da sua fazenda e produzir comida.

[00:36:44] Porque as pessoas precisam de comida.

[00:36:46] E a gente não tem lugar na universidade.

[00:36:48] Para todo mundo que quer ser engenheiro.

[00:36:50] E a gente não precisa de tantos engenheiros.

[00:36:52] E isso é visto como uma grande afronta.

[00:36:54] Então, esse é uma questão fundamental.

[00:36:56] Existem trabalhos que mostram que a grande realidade.

[00:36:58] Existem trabalhos que mostram que a grande religião americana.

[00:37:00] É não depender dos outros.

[00:37:02] Não viver em sociedade.

[00:37:04] Essa é a verdadeira grande religião que marca.

[00:37:06] Não por acaso.

[00:37:08] São protagonistas que um vive numa fazenda.

[00:37:10] E outro vive numa petroleira no meio do mar.

[00:37:14] Inclusive a filha dele reclama muito disso.

[00:37:16] De como ela cresceu.

[00:37:18] De como ela virou mulher nesse cenário.

[00:37:20] Que ela aprendeu sobre sexo.

[00:37:22] Vendo as tatuagens de um amigo dela.

[00:37:24] Do amigo do pai dela.

[00:37:26] Isso é perturbador inclusive.

[00:37:28] Inclusive isso é uma coisa importante.

[00:37:30] Que a gente deveria falar em algum momento.

[00:37:32] Do quanto o Michael Bay.

[00:37:34] Tem relações pai filha nos filmes.

[00:37:36] Pertubadoras.

[00:37:38] Tem um Transformers dele.

[00:37:40] Que eu assisti em um avião.

[00:37:42] Porque é aquele tipo de filme que você assiste em avião.

[00:37:44] Que é o com…

[00:37:46] Mark Wahlberg.

[00:37:48] Grande ator.

[00:37:50] Que é o quarto filme.

[00:37:52] Eu nem faço ideia.

[00:37:54] Eu nem faço ideia.

[00:37:56] Eu sou homem que lê a Wikipedia antes de gravar.

[00:37:58] Eu tô aqui pra isso.

[00:38:00] Então.

[00:38:02] Tem esse que ele fez com o Mark Wahlberg.

[00:38:04] Que tem também uma relação super sensual.

[00:38:06] Entre pai e filha.

[00:38:08] Super edipiano.

[00:38:10] Uma coisa meio bizarro.

[00:38:12] Michael Bay nunca casou.

[00:38:14] Eu só queria jogar essa informação aí.

[00:38:16] Olha sei lá.

[00:38:18] Sei lá.

[00:38:20] Mas já que a gente tá tentando fazer uma análise.

[00:38:22] Psicológica dos dois.

[00:38:24] Eu tinha um fato realmente.

[00:38:26] De trazer pros dois aqui.

[00:38:28] Que eu acho que ilustra um pouco.

[00:38:30] As diferenças desses homens que contam histórias tão similares.

[00:38:32] Nesses dois filmes.

[00:38:34] Que é o Christopher Nolan.

[00:38:36] Notoriamente.

[00:38:38] Usa terno pra ir dirigir seus filmes.

[00:38:40] Ele acha que ele tem que botar um terno pra ir ao set.

[00:38:42] Todos os dias.

[00:38:44] Ele tem essa coisa britânica.

[00:38:46] Da estética da hierarquia.

[00:38:48] E de que existe um jeito.

[00:38:50] Proper.

[00:38:52] E o Michael Bay notoriamente.

[00:38:54] Gosta de levar seus cachorros pro set.

[00:38:56] Então.

[00:38:58] Longe de mim defender o Michael Bay em várias coisas.

[00:39:00] Mas me parece que o Michael Bay.

[00:39:02] Tem um approach um pouco mais saudável.

[00:39:04] Com o que ele faz da vida dele do que o Christopher Nolan.

[00:39:06] Pois é né.

[00:39:08] Mas você falou dessa coisa.

[00:39:10] Uma certa psicologia.

[00:39:12] Fiquei pensando aqui enquanto a gente tava falando.

[00:39:14] Tem uma.

[00:39:16] Uma coisa aqui pra mim.

[00:39:18] Posso fazer minha apregação algo anarquista aqui?

[00:39:20] Posso?

[00:39:22] Ah por favor.

[00:39:24] Cara.

[00:39:26] Eu acho que a gente falou que esses filmes são muito parecidos.

[00:39:28] E ele me parece.

[00:39:30] Eu tô pensando aqui naquela musica.

[00:39:32] Naquele videoclipe do Rage Against the Machine.

[00:39:34] A Tessify.

[00:39:36] Que vai falando nas vespas da eleição.

[00:39:38] Que elegeu o Bush filho.

[00:39:40] E de que como na verdade.

[00:39:42] Tanto um lado quanto o outro.

[00:39:44] Eram muito mais semelhantes do que as pessoas imaginavam.

[00:39:46] Ao ponto de que talvez fosse muito parecido ao resultado final.

[00:39:48] E isso é uma coisa que por exemplo.

[00:39:50] Se eu fosse pegar e dizer assim.

[00:39:52] A gente tava falando de republicanos.

[00:39:54] Democratas e tal.

[00:39:56] Mas obviamente.

[00:39:58] Se a gente fosse pensar nesse termo de uma psicologia política.

[00:40:00] O filme do Michael Bay.

[00:40:02] É um filme republicano.

[00:40:04] E os personagens.

[00:40:06] Esse cara voltou no Trump com certeza.

[00:40:08] Não teve erro.

[00:40:10] E ao mesmo tempo.

[00:40:12] O filme do Nolan.

[00:40:14] É um filme em tese.

[00:40:16] Democrata.

[00:40:18] Mas é o democrata que vota no Biden.

[00:40:20] Exato.

[00:40:22] Porque no fim das contas.

[00:40:24] É a mesma coisa.

[00:40:26] Tem uma estética um pouco diferente.

[00:40:28] Tem uma aparência um pouco mais palatável.

[00:40:30] Para nossas sensibilidades.

[00:40:32] Modernas, cidadinas.

[00:40:34] Brancas, europeias.

[00:40:36] Mas ao mesmo tempo.

[00:40:38] Quando você vai ver.

[00:40:40] Em termos daquilo que tá sendo defendido.

[00:40:42] Em termos daquilo que tá sendo.

[00:40:44] Daquilo que tá se desdobrando.

[00:40:46] Os dois filmes se assemelham demais.

[00:40:48] Porque mais uma vez.

[00:40:50] É o pioneirismo norte-americano.

[00:40:52] Alinhado a uma supremacia tecnológica.

[00:40:54] Que permite a essas pessoas.

[00:40:56] Superar.

[00:40:58] Sobrepujar a natureza.

[00:41:00] E a natureza é a grande vilã desses filmes.

[00:41:02] E sim.

[00:41:04] Se nem a natureza pode pará-los.

[00:41:06] Imagina as outras nações do mundo.

[00:41:08] Porque no filme do Interestelar.

[00:41:10] O mundo que é preservado.

[00:41:12] Não é qualquer mundo.

[00:41:14] É o mundo do baseball.

[00:41:16] E me desculpa.

[00:41:18] Mas aqui em Bangu.

[00:41:20] No suburbio do Rio de Janeiro.

[00:41:22] Da última vez que eu conferi.

[00:41:24] Ninguém tava jogando o baseball.

[00:41:26] Exato.

[00:41:28] O mundo que esses caras estão preservando.

[00:41:30] O mundo que importa pra eles.

[00:41:32] É o mundo norte-americano.

[00:41:34] Esse mundo da supremacia.

[00:41:36] Do sonho americano.

[00:41:38] Não é qualquer outro mundo.

[00:41:40] Não é o mundo dos ameríndios.

[00:41:42] Não é o mundo tipo.

[00:41:44] Não, vamos botar na nave.

[00:41:46] Todo mundo vai viver que nem a gente.

[00:41:48] Porque nossa vida é melhor do que possível.

[00:41:50] O simples fato do…

[00:41:52] Ser fazendeiro.

[00:41:54] Já é o suficiente pra ele ficar puto.

[00:41:56] Porque era pra ele ser astronauta.

[00:41:58] E quando o filho dele.

[00:42:00] E esse é interessante.

[00:42:02] Quando o filho dele se transforma em fazendeiro.

[00:42:04] No meio do final do filme.

[00:42:06] O filho dele se tornou um…

[00:42:08] Supersticioso.

[00:42:10] Biscurantista.

[00:42:12] Recalcado. Raivoso.

[00:42:14] Ele tem toda uma questão com a irmã.

[00:42:16] Porque a irmã é toda iluminista.

[00:42:18] E ele é tudo não.

[00:42:20] E é uma coisa super raiva.

[00:42:22] E é interessante.

[00:42:24] Porque de certa maneira.

[00:42:26] Essa é a forma como os liberais norte-americanos.

[00:42:28] Representam o…

[00:42:30] White trash.

[00:42:32] Representam os…

[00:42:34] Os fazendeiros que alimentam eles.

[00:42:36] Isso, né? Que são os eleitores do Trump.

[00:42:38] Sabe?

[00:42:40] Eu acho que a gente vê uma dicotomia.

[00:42:42] Entre os dois.

[00:42:44] Que é muito interessante. É quase como se o Michael Bay.

[00:42:46] Fosse o George W. Bush.

[00:42:48] E a gente não gosta dele.

[00:42:50] Porque ele representa tudo que a gente não gosta.

[00:42:52] E o Nolan acaba representando.

[00:42:54] Esses democratas meio Biden.

[00:42:56] Meio Obama.

[00:42:58] Ele deportou mais imigrantes do que todo mundo.

[00:43:00] Ele matou mais civis.

[00:43:02] No mundo inteiro do que todo mundo.

[00:43:04] Mas tão simpático, né?

[00:43:06] Pô, ele joga basquete.

[00:43:08] Escolado, faz umas tiradinhas.

[00:43:10] Isso, pô. Ele fala legal, pô.

[00:43:12] Ele permite que leis sobre maconha sejam aprovadas.

[00:43:14] Sabe? Tipo…

[00:43:16] Faz um aceno, né?

[00:43:18] Faz um aceno. Porque ele ainda permite que o FBI persiga.

[00:43:20] Quem planta e vende maconha.

[00:43:22] Mas ele finge que por ele tudo bem.

[00:43:24] Basicamente é isso.

[00:43:26] Também entra naquela questão.

[00:43:28] Você precisa mentir para as pessoas.

[00:43:30] Então vira aquela coisa, tipo…

[00:43:32] É claro que o Obama tinha que dizer que ele é contra a guerra.

[00:43:34] E ganhar o Nobel da Paz.

[00:43:36] Porque pouca gente se lembra disso.

[00:43:38] E continuar todas as guerras nas quais os Estados Unidos estavam.

[00:43:40] E ampliá-las.

[00:43:42] E o típico…

[00:43:44] O típico Nolan.

[00:43:46] Que é o cara que vota para isso lá.

[00:43:48] É o cara que acha que é isso mesmo.

[00:43:50] Que tem coisas que tipo…

[00:43:52] Eu sei que as pessoas adorariam que a gente não matasse pessoas.

[00:43:54] E não tivesse guerra.

[00:43:56] Mas você tem que esconder a verdade das pessoas.

[00:43:58] As pessoas não estão preparadas para lidar com a verdade.

[00:44:00] Quem está preparado para lidar com a verdade.

[00:44:02] É uma elite política.

[00:44:04] Que é quase…

[00:44:06] Uma casta…

[00:44:08] Monárquica.

[00:44:10] Quem elegeu…

[00:44:12] Quem elegeu as elites americanas?

[00:44:14] Ninguém. Eles são as elites.

[00:44:16] Porque eles têm dinheiro.

[00:44:18] E aquela galera que acha que é isso.

[00:44:20] Vamos eleger Hillary Clinton.

[00:44:22] Vamos eleger mais um Bush.

[00:44:24] É uma vontade de dizer…

[00:44:26] Eu não preciso lidar com o mundo real.

[00:44:28] Essas pessoas que são melhores que eu.

[00:44:30] Vão lidar com o mundo real.

[00:44:32] E eu não vou ter que me preocupar com isso.

[00:44:34] É uma mensagem que está nesses filmes.

[00:44:36] E está em outros filmes do Nolan também.

[00:44:38] Como a gente falou aqui.

[00:44:40] Sabe uma coisa que seria interessante?

[00:44:42] A gente fazia um segundo episódio sobre esse.

[00:44:44] Comparando Dan Kirk com Bill Harbour.

[00:44:48] Por que a gente vai fazer isso, cara?

[00:44:50] Porque…

[00:44:52] A gente começou a gravar esse episódio com você falando assim…

[00:44:54] Não entra na minha.

[00:44:56] Não vamos mais fazer uns episódios tão chatos de pesquisar.

[00:45:02] E olha que ideia que você joga, cara.

[00:45:04] Cara, eu estou precisando de terapia.

[00:45:06] Estou um tempo afastado.

[00:45:08] Estou precisando, cara.

[00:45:10] Mas o último argumento que eu tinha para apresentar aqui.

[00:45:14] Volta para aquela questão do Nolan usar terno.

[00:45:18] O Nolan está fazendo filme pipoca.

[00:45:20] Para você ver no cinema. Tal qual o Michael Bay.

[00:45:22] Só que ele acha que está fazendo um Michael…

[00:45:24] Ele está usando um terno.

[00:45:26] Então isso torna ele melhor, sabe?

[00:45:28] No final das contas, a substância que está ali é muito similar.

[00:45:30] Mas estilisticamente um deles está usando terno.

[00:45:34] Então um está fazendo comercial de refrigerante.

[00:45:36] O outro está fazendo comercial de perfume.

[00:45:38] E o cara que faz comercial de perfume acha que é melhor.

[00:45:40] Então, esse é o ponto.

[00:45:42] Eu acho…

[00:45:44] Por isso que eu falei do Dan Kirk.

[00:45:46] Porque seria interessante analisar como o Nolan pensa a guerra.

[00:45:48] Pensa a segunda guerra mundial.

[00:45:50] Porque…

[00:45:52] É impressionante que até esses filmes.

[00:45:54] Tipo, o resgate do soldado Ryan.

[00:45:56] Sabe? Todos esses filmes.

[00:45:58] Que vão mostrar os horrores da guerra.

[00:46:00] E teve uma época nos Estados Unidos.

[00:46:02] E se tornou…

[00:46:04] A gente tem essa questão.

[00:46:06] Ele sempre está falando das guerras que ele entrou.

[00:46:08] Vietnã, essas coisas todas.

[00:46:10] E a gente ainda vai fazer um episódio sobre isso.

[00:46:12] E é impressionante que mesmo esses filmes que mostram os horrores da guerra.

[00:46:16] Eles nunca se questionam sobre sua estrutura profunda.

[00:46:18] Por que tudo que está acontecendo.

[00:46:20] É mais uma coisa do tipo…

[00:46:22] Está vendo? Estamos sofrendo com isso.

[00:46:24] Mas vamos falar por que lá atrás a gente está sofrendo com essa história.

[00:46:26] Tipo…

[00:46:28] O Dan Kirk também não faz esse movimento.

[00:46:30] O Bill Harbour transforma tudo em videogame.

[00:46:32] O Dan Kirk também.

[00:46:34] Porque ele transforma em sofrimento.

[00:46:36] Em certa maneira é entretenimento.

[00:46:38] E é um sofrimento que enobrece.

[00:46:40] Tal qual o 1917 que é mais recente.

[00:46:42] Sim.

[00:46:44] E é isso que eu ponto.

[00:46:46] A gente pega essa máquina do entretenimento.

[00:46:48] Todos esses horrores.

[00:46:50] Que aconteceram na segunda guerra mundial.

[00:46:52] E o que que se está fazendo com isso?

[00:46:54] Tipo…

[00:46:56] Está pegando tudo isso e transformando em entretenimento.

[00:46:58] E não no entretenimento do tipo…

[00:47:00] Nossa, que terrível.

[00:47:02] Tem entretenimento que de fato vai ser…

[00:47:04] Vai propagar uma mensagem.

[00:47:06] Que vai fazer as pessoas se transformarem.

[00:47:08] Não. Aconteceu.

[00:47:10] Aconteceu essa história aqui.

[00:47:12] Eu tenho que contá-la.

[00:47:14] Eu tenho que colocar em uma posição crítica a ela.

[00:47:16] Da mesma forma, por exemplo.

[00:47:18] Como no Interstellar.

[00:47:20] Para ficar mais claro o que eu estou dizendo.

[00:47:22] Em nenhum momento se coloca.

[00:47:24] Porque toda aquela decadência do planeta Terra aconteceu.

[00:47:26] Em nenhum momento isso é colocado.

[00:47:28] Não, não é culpa nossa.

[00:47:30] Exato.

[00:47:32] Nós somos pessoas que estamos fazendo o nosso melhor.

[00:47:34] Para sobreviver nessa situação.

[00:47:36] Essa é o mote desses filmes de guerra.

[00:47:38] Mas a mesma coisa no Armageddon.

[00:47:40] Que é isso.

[00:47:42] O aparato e a estética militarista americana.

[00:47:44] Para lidar com um inimigo.

[00:47:46] Que não é…

[00:47:48] Gerado pela política externa americana.

[00:47:50] Ele é só meio uma asteróide que apareceu.

[00:47:52] E aí você usa essa imagem.

[00:47:54] Do tipo…

[00:47:56] Os heróis americanos indo lutar com algo.

[00:47:58] Totalmente sobrenatural.

[00:48:00] Mas que depois é usada na nossa vida.

[00:48:02] Em pouquinhos anos depois do Armageddon.

[00:48:04] Como a ideia de tipo…

[00:48:06] Os heróis americanos estão indo lutar contra a ameaça.

[00:48:08] Contra o fim do mundo.

[00:48:10] O fim do mundo que são os árabes.

[00:48:12] Que são os africãos.

[00:48:14] Que são os iraquianos.

[00:48:16] E antes eram soviéticos.

[00:48:18] Inclusive tem um personagem russo

[00:48:20] extremamente desconfortável.

[00:48:22] Em Armageddon ali.

[00:48:24] Nossa, que palavra…

[00:48:26] Que eufemismo.

[00:48:28] Grande ator Peter Stormer.

[00:48:30] Mas enfim.

[00:48:32] É a primeira vez que eu vi alguém sujo.

[00:48:34] Na base espacial.

[00:48:36] Eles fazem questão de que o personagem russo seja sujo.

[00:48:38] Já sujo ainda.

[00:48:40] Mas é assim.

[00:48:42] É muito fácil ver como esses filmes criam.

[00:48:44] Especialmente Armageddon por ter saído em 98.

[00:48:46] Uma imagem que é usada pra justificar

[00:48:48] toda e qualquer

[00:48:50] conflito que envolve os americanos.

[00:48:52] Como algo inevitável.

[00:48:54] E uma força natural.

[00:48:56] O terrorismo do Oriente Médio

[00:48:58] é uma força natural.

[00:49:00] Não é causado

[00:49:02] por nada que foi feito

[00:49:04] por outros seres humanos antes.

[00:49:06] A gente surgiu agora

[00:49:08] e a gente vai lá mandar os nossos heróis

[00:49:10] perfurarem esse petróleo aí.

[00:49:12] Inclusive isso

[00:49:14] tem uma coisa no…

[00:49:16] no Interestelar.

[00:49:18] Porque eu acho que mais uma vez.

[00:49:20] De um lado você tem a resposta republicana.

[00:49:22] A lá Bush.

[00:49:24] Do outro lado você tem a resposta

[00:49:26] a lá Obama, a lá Bill Clinton.

[00:49:28] Na verdade Bill Clinton.

[00:49:30] Sim, que era presidente na época.

[00:49:32] Exato.

[00:49:34] Porque tem o…

[00:49:36] Se de um lado a resposta

[00:49:38] é… Então.

[00:49:40] Nós somos a grande potência.

[00:49:42] Os Estados Unidos, aquele Salamaleque

[00:49:44] tipicamente norte-americano.

[00:49:46] Tipicamente estadunidense.

[00:49:48] Nós somos tão potentes

[00:49:50] que nós vamos estourar esses asteroides.

[00:49:52] E a gente vai proteger vocês.

[00:49:54] Saca?

[00:49:56] E se ai de quem for contra a gente,

[00:49:58] porque se a gente estourou um asteroide,

[00:50:00] imagina o que a gente faz com o teu país.

[00:50:02] No caso dos liberais do filme

[00:50:04] do Interestelar.

[00:50:06] O ponto é assim. Tá vendo como nós somos tão legais

[00:50:08] que nós estamos fazendo sacrifícios

[00:50:10] pra que vocês possam viver

[00:50:12] a nossa vida. Saca?

[00:50:14] Venham pra cá, se transformem

[00:50:16] na gente. Nós somos

[00:50:18] a existência ideal, porque é a nossa existência ideal

[00:50:20] que vai produzir a saída pra esse…

[00:50:22] pra essa situação.

[00:50:24] Sem perceber que tudo aqui, todos os etnocídios,

[00:50:26] genocídios, de todos os

[00:50:28] danos ambientais que aquela vida causou.

[00:50:30] Provavelmente foi aquele estilo de vida

[00:50:32] que causou a decadência do planeta.

[00:50:34] E é exatamente o que está acontecendo hoje em dia

[00:50:36] com as mudanças climáticas e tudo mais.

[00:50:38] Não é qualquer estilo de vida que está causando

[00:50:40] não são os Aikyawara, não são os Yanomami

[00:50:42] que estão destruindo o planeta. Somos nós.

[00:50:44] Somos, sobretudo, os norte-americanos.

[00:50:46] Enfim. Então assim, tem toda uma

[00:50:48] saída a-americana

[00:50:50] nos dois filmes.

[00:50:52] Só que uma é

[00:50:54] um pouco mais palatável,

[00:50:56] porque o diretor está usando

[00:50:58] o interno e editando o filme,

[00:51:00] montando o filme com…

[00:51:02] de uma forma um pouco mais demorada,

[00:51:04] com alguns arranjos poéticos,

[00:51:06] com algumas mensagens não tão óbvias assim,

[00:51:08] ao ponto de que

[00:51:10] boa parte do público ignora

[00:51:12] os erros de roteiro,

[00:51:14] os furos de roteiro absurdos.

[00:51:16] Do outro lado é um cara que fala assim

[00:51:18] irmão, quer saber, estou nem me importando.

[00:51:20] Sabe, tem aquela história clássica

[00:51:22] que o Ben Affleck, durante a leitura,

[00:51:24] a primeira leitura de roteiro, chegou pro

[00:51:26] Michael Bay e disse, ué,

[00:51:28] não era mais fácil ensinar os astronautas

[00:51:30] a furar, né, o

[00:51:32] meteoro, aí o Michael Bay falou assim, cara,

[00:51:34] não se preocupe com isso não, vamos fazer o filme.

[00:51:36] Ah, cala a boca. É isso.

[00:51:38] E lembrando que assim, não tem nenhuma

[00:51:40] muita, não tem muita diferença na

[00:51:42] elegância dos dois como

[00:51:44] contadores de histórias, né, porque

[00:51:46] lembrando que Armageddon

[00:51:48] tem 150 minutos

[00:51:50] e o

[00:51:52] Interstellar tem 170 minutos, então são só

[00:51:54] 20 minutinhos que separam essas

[00:51:56] duas grandes histórias aí.

[00:51:58] É, porque no

[00:52:00] Armageddon, enquanto tem o Aerosmith

[00:52:02] cantando, né,

[00:52:06] naquele clipe, outro videoclipe é de

[00:52:08] como é, com uma relação incestuosa, né?

[00:52:10] Extremamente, porque realmente é o pai

[00:52:12] da Liv Tyler no mundo real cantando

[00:52:14] uma música de amor pra ela. Isso, isso.

[00:52:16] E assim, o…

[00:52:18] Enquanto isso, Armageddon tem aquela trilha sonora

[00:52:20] tipicamente do Nolan, aquela coisa

[00:52:22] épica, né, meio

[00:52:24] Interstellar. Isso, tem aquela coisa

[00:52:26] meio Wagner, Strauss,

[00:52:28] aquela coisa, sabe?

[00:52:30] Tipo neoclássica. Que é o…

[00:52:32] É botar o terninho também na trilha sonora.

[00:52:34] Exatamente isso. Porque é tão formulaico quanto,

[00:52:36] ainda mais a gente já viu no Nolan, assim, né?

[00:52:38] Desde todos esses…

[00:52:40] A trilha do Inception, que agora

[00:52:42] é a trilha de todos os trailers que você vê

[00:52:44] de Hollywood,

[00:52:48] Isso foi do Inception, não foi originalmente

[00:52:50] utilizada no Prometheus?

[00:52:52] Efeito Prometheus?

[00:52:54] Eu acho que essa música, não.

[00:52:56] Eu acho que ela é original do…

[00:52:58] Do…

[00:53:00] Do Inception.

[00:53:02] É? E aí…

[00:53:04] É whatever, né? E aí ela foi…

[00:53:06] Depois do Inception, todo o trailer tem essa

[00:53:08] cadência da trilha que vem…

[00:53:10] Aí a…

[00:53:12] Aí…

[00:53:14] Antigamente…

[00:53:16] Antigamente era…

[00:53:18] Antigamente era a cena de ação,

[00:53:20] aí vem umas piadinhas no meio,

[00:53:22] e aí tem sempre aquela piadinha final, né cara?

[00:53:24] Tipo, agora vem isso, exatamente isso, esse corte.

[00:53:26] Então é, e aí…

[00:53:28] Isso começou a surgir no…

[00:53:30] No esquema de trailer que era exatamente

[00:53:32] estrutura, aí piadinha final,

[00:53:34] e aí um último… E aí uma última

[00:53:36] explosão.

[00:53:38] É isso.

[00:53:40] Bom, eu acho que a gente disse o que a gente

[00:53:42] tinha a dizer, né?

[00:53:44] Eu acho que sim. Esse episódio vai ficar com

[00:53:46] mais ou menos uma hora, né? Tu acha que quantos

[00:53:48] seguidores da Rede Social a gente vai perder com ele?

[00:53:50] Acho que há um jeito de descobrir.

[00:53:52] Por minuto, por minuto nesse episódio.

[00:53:54] Eu acho que a gente vai perder de 150 a

[00:53:56] 170. É um seguidor por minuto

[00:53:58] de cada um dos filmes.

[00:54:00] Vai ser pesado, hein?

[00:54:02] Vai ser pesado. Tô dizendo isso porque uma vez

[00:54:04] eu, nessas coisas de bêbado na

[00:54:06] madrugada, né? Eu escrevi uma coisa tipo

[00:54:08] verdade amarga, interstellar num

[00:54:10] filme super valorizado,

[00:54:12] roteiro furado, direção…

[00:54:14] Direção furada e tal.

[00:54:16] Nossa, cara. Só faltaram esfregar a minha

[00:54:18] cara no muro, sabe? Porque a pessoa realmente

[00:54:20] defende. Ah, que bom. Agora esse episódio deu

[00:54:22] a razão pra todo mundo que faltava esfregar

[00:54:24] a sua cara no muro assim que for seguro

[00:54:26] fazê-lo. Por enquanto, fique em casa.

[00:54:28] Muito obrigado. Eu tenho esse tempo.

[00:54:30] Tchau, tchau, gente. Muito obrigado.

[00:54:32] Vou dar stop.

[00:54:44] Legendas pela comunidade Amara.org