#02 - O Diabo Veste Prada (feat. Jeska Grecco)


Resumo

O episódio faz uma análise profunda do filme O Diabo Veste Prada (2006), discutindo como ele retrata relações de trabalho abusivas na indústria da moda e como essa representação reflete valores culturais problemáticos. Os participantes exploram como o filme normaliza e até glorifica o abuso no ambiente profissional através da personagem Miranda Priestly (baseada em Anna Wintour), apresentando-o como uma etapa necessária para o crescimento pessoal e profissional da protagonista Andy Sachs.

A conversa aborda como o filme cria uma narrativa que individualiza problemas sistêmicos, focando na jornada da protagonista como alguém ‘especial’ que consegue escapar do sistema abusivo, enquanto justifica a permanência de outras personagens na mesma situação. Os participantes criticam a forma como o filme trata questões como gordofobia, exploração do trabalho e a romantização do sacrifício extremo pelo sucesso profissional.

O episódio também discute como O Diabo Veste Prada se conecta com tendências culturais mais amplas da época, especialmente a glorificação de figuras autoritárias e abusivas como ‘gênios excêntricos’ que estão acima das regras sociais. Os participantes traçam paralelos com outras produções de Hollywood que seguem padrões semelhantes, como House e The Social Network, e como essas narrativas servem para justificar estruturas de poder opressivas.

Por fim, os debatedores refletem sobre o impacto cultural do filme e como ele influenciou a percepção sobre relações de trabalho, especialmente para jovens que estavam entrando no mercado quando o filme foi lançado. A análise destaca como o filme falha em criticar verdadeiramente a indústria que retrata, acabando por reforçar os mesmos valores que superficialmente parece questionar.


Anotações

  • 00:00:14Introdução ao tema e contexto do filme Os participantes apresentam o filme O Diabo Veste Prada e discutem como ele envelheceu mal ao mostrar relações de trabalho abusivas como parte do crescimento pessoal. Jeska Grecco é apresentada como convidada especial que sugeriu o tema.
  • 00:05:15Análise da representação problemática da protagonista Discussão sobre como o filme retrata Anne Hathaway como ‘feia’ e ‘gorda’ usando tropes hollywoodianos, e a constante gordofobia presente no filme. Os participantes criticam a normalização de padrões corporais irreais.
  • 00:13:03O discurso icônico da Miranda sobre moda e consumo Análise do famoso discurso da Miranda sobre os cintos cerúleos, onde os participantes criticam como o filme emoldura este momento como uma grande lição quando na verdade está descrevendo marketing capitalista e não a importância artística da moda.
  • 00:25:10O filme como drama de gangster e justificativa cultural Comparação do filme com dramas de gangster e discussão sobre como ele reflete ansiedades culturais pós-11 de setembro, justificando figuras autoritárias como necessárias para o sucesso. Conexão com outras produções que glorificam líderes abusivos.
  • 00:41:44Glorificação do trabalho excessivo e tradições culturais Análise de como o filme glorifica o sacrifício pessoal e o trabalho excessivo, conectando essas ideias com tradições protestantes e judaicas que valorizam o trabalho. Discussão sobre como Hollywood incorpora essas narrativas.

Indicações

Conceitos-Filosoficos

  • Paixões Tristes (Espinosa) — Conceito filosófico discutido como chave para entender a dinâmica do filme, especialmente a esperança como paixão triste que mantém personagens em relações abusivas.
  • Excepcionalidade Individual — Ideia discutida como central na narrativa hollywoodiana, onde o protagonista é apresentado como especial e capaz de escapar de sistemas opressivos sem transformá-los.

Filmes

  • Presente de Grego — Mencionado como um filme com estrutura similar, sobre uma mulher no ambiente corporativo de Wall Street que herda um bebê e muda sua vida.
  • Iluminado — Citado como exemplo de como Hollywood glorifica diretores abusivos como ‘gênios excêntricos’, com menção aos abusos de Stanley Kubrick durante as filmagens.
  • A Rede Social — Mencionado como outro filme que glorifica o rancor e o comportamento abusivo como motivação para o sucesso, seguindo padrões narrativos similares.

Livros

  • O Diabo Veste Prada (livro) — O livro original de Lauren Weisberger que inspirou o filme, baseado nas experiências da autora trabalhando para Anna Wintour na Vogue americana.
  • Revenge Wears Prada: The Devil Returns — Continuação do livro original lançada em 2013, onde a protagonista se torna editora de uma revista de noivas e reencontra Miranda Priestly.

Pessoas

  • Anna Wintour — Editora-chefe da Vogue americana que inspirou a personagem Miranda Priestly. O filme e seu sucesso contribuíram para sua glorificação como figura icônica.
  • Stanley Kubrick — Diretor citado como exemplo de figura abusiva glorificada por Hollywood como ‘gênio excêntrico’, com menção específica aos abusos durante as filmagens de O Iluminado.

Linha do Tempo

  • 00:00:14Introdução ao filme e contexto temporal — Os participantes introduzem o filme O Diabo Veste Prada e discutem como ele envelheceu mal, mostrando um relacionamento abusivo com uma chefe rica como parte do crescimento pessoal. Jeska Grecco é apresentada como convidada especial que sugeriu o tema. Eles comentam sobre terem visto o filme quando adolescentes e como sua percepção mudou com o tempo.
  • 00:05:15Análise da representação da protagonista e gordofobia — A discussão foca na representação problemática da protagonista Andy Sachs (Anne Hathaway), especialmente como o filme a retrata como ‘feia’ e ‘gorda’ apesar de ser interpretada por Anne Hathaway. Os participantes criticam o fat shaming constante no filme e como ele normaliza padrões corporais irreais. Também discutem o tropo hollywoodiano de usar óculos e cabelo preso como código para ‘feiura’.
  • 00:08:14A relação abusiva como lição de crescimento — Os participantes analisam como o filme apresenta o abuso sofrido por Andy como uma experiência de aprendizado valiosa. Discutem a mensagem problemática de que resistir ao abuso é positivo para a vida moderna e como isso reflete uma cultura que glorifica o sofrimento no trabalho. A conversa aborda como o filme mostra Andy se adaptando aos caprichos absurdos de Miranda como uma conquista pessoal.
  • 00:13:03O icônico discurso da Miranda sobre moda — Os participantes analisam o famoso discurso da Miranda sobre os cintos cerúleos, onde ela explica como a moda influencia a sociedade. Eles criticam como o filme emoldura este momento como uma grande lição, quando na verdade Miranda está descrevendo marketing capitalista e não a importância artística da moda. A discussão destaca como o discurso revela a perversidade do sistema de consumo.
  • 00:15:23O filme como metáfora da escravidão moderna — A conversa explora como O Diabo Veste Prada pode ser visto como um filme sobre escravidão moderna, onde os personagens vivem de ‘migalhas’ de reconhecimento em troca de abuso constante. Os participantes discutem como o filme mostra personagens presos em relações baseadas em esperança de recompensa futura, usando conceitos filosóficos de Espinosa sobre paixões tristes que favorecem a tirania.
  • 00:19:22Crítica à individualização dos problemas sistêmicos — Os participantes criticam como o filme individualiza problemas que são sistêmicos, focando apenas na jornada pessoal da protagonista enquanto ignora as estruturas opressoras que permanecem intactas. Discutem como essa abordagem é típica do cinema americano, onde o protagonista é ‘melhor que o sistema’ mas o sistema em si não é questionado ou transformado.
  • 00:25:10O filme como drama de gangster e justificativa cultural — A análise compara O Diabo Veste Prada com filmes de gangster, onde o primeiro ato mostra o crime como algo glamouroso e excitante. Os participantes discutem como o filme reflete ansiedades culturais pós-11 de setembro, justificando figuras autoritárias como necessárias para o sucesso. A conversa conecta essa tendência com outras produções da época que glorificavam líderes abusivos.
  • 00:33:02A falha em criticar a indústria da moda — Os participantes discutem como o filme falha em criticar verdadeiramente a indústria da moda, apesar de aparentemente questioná-la. Analisam o personagem de Nigel e seu argumento de que ‘a moda é melhor que a arte porque você vive nela’, destacando como isso revela uma visão utilitarista e egocêntrica. A conversa também aborda a omissão de questões como trabalho escravo e poluição na indústria da moda.
  • 00:41:44A glorificação do trabalho excessivo e sacrifício — A discussão explora como o filme glorifica o trabalho excessivo e o sacrifício pessoal como virtudes. Os participantes conectam isso com tradições protestantes e judaicas que valorizam o trabalho como sacrifício, e como Hollywood incorpora essas ideias em suas narrativas. Analisam como o filme normaliza a abdicação de relações pessoais, saúde e bem-estar em prol do sucesso profissional.
  • 00:56:22Conclusão e impacto cultural do filme — Os participantes refletem sobre o impacto cultural duradouro do filme e como ele influenciou percepções sobre relações de trabalho abusivas. Discutem como a continuação do livro reforça as mesmas mensagens problemáticas e como o filme contribuiu para a glorificação de Anna Wintour. A conversa termina com considerações sobre como essas narrativas moldam expectativas no mercado de trabalho real.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2020-06-09T08:30:11Z
  • Duração: 01:05:42

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Música

[00:00:14] 2006 parece que nem faz tanto tempo assim, mas é tempo suficiente para um filme mostrar um relacionamento abusivo com a sua chefe muito rica, como algo que você deveria ter como parte do seu crescimento pessoal.

[00:00:26] O Diabo Vestiprada é o nosso filme principal de hoje e nós temos uma convidada especial que inclusive recomendou o tema. Jéssica Greco, muito bem-vinda.

[00:00:36] Muito obrigada, a gente estou honradíssima de estar aqui com vocês para a gente reviver esse filme que tem muito o que falar, né? É um filme complexo.

[00:00:44] Eu adorei quando você sugeriu o tema, que é usar o Diabo Vestiprada para falar de como a nossa sociedade lida com o trabalho.

[00:00:52] E aí eu revi o filme, eu tinha visto mais perto da época que saiu e ele revira um pouco o estômago, né? Orlando, você também reviu o filme ou não?

[00:01:03] Eu revi o filme, inclusive eu tenho que começar fazendo uma confissão de que Diabo Vestiprada talvez seja um dos filmes que eu mais assisti na minha vida.

[00:01:13] O quê?

[00:01:14] É, cara, assim, por motivos completamente whatever, sabe? Tipo filme de avião, assisti uma vez no avião,

[00:01:21] aí uma vez estava zapando na madrugada, estava passando a assistir de novo, aí outra vez passando a assistir. Impressionante, assim, acho que eu já vi esses filmes,

[00:01:28] sem sacanagem, umas seis, sete vezes.

[00:01:31] Meu Deus do céu.

[00:01:32] Cara, eu vi duas vezes, eu vi uma vez logo na época que saiu, assim, e anteontem.

[00:01:39] E passo raiva, eu não gosto do filme, eu passo raiva.

[00:01:42] Eu vou confessar que quando esse filme saiu eu gostei dele, sem passar raiva, eu não tinha várias, eu não tinha o senso crítico que eu tenho hoje.

[00:01:52] Eu adorei o filme, eu lembro que eu amei o filme, achei o máximo, achei tudo.

[00:01:56] É que tem isso, né, tem essa diferença geracional, eu e a Jéssica, a gente era adolescente quando esse filme saiu.

[00:02:00] Nossa, vamos falar isso mesmo? Porque nesse programa eu sou meio que a velhinha do Titanic, né cara?

[00:02:07] Cara, assim, eu tô sempre trazendo referências do VHS, olha só.

[00:02:12] Literalmente, é que eu assisti VHS e fico dando conselhos, não, porque é filosofia.

[00:02:18] Mas não é tanto assim, não, eu e a Jéssica a gente viu muito VHS.

[00:02:20] É, ei, respeita a nossa história aqui.

[00:02:23] Inclusive a gente viu mais VHS que você porque, né, a gente cresceu em condições melhores, a gente podia alugar filmes.

[00:02:28] É, mas vocês cresceram… É verdade, né cara, eu era daquela locadora do bairro pirata, saca? Que os filmes divinham numas fitas azuis, sabe?

[00:02:36] Sim, né, a gente tinha acesso a hi-fi vídeo, a 2001, blockbuster.

[00:02:41] Chique, era outra coisa, a fita que você alugava não era a fita do filme, era uma segunda fita.

[00:02:47] Ela tinha um adesivo holográfico, que era pra identificar que era de verdade.

[00:02:52] Era muito chique.

[00:02:53] A minha era escrita a mão mesmo, assim, era…

[00:02:56] Uma coisa que eu fazia é que as VHS que você comprava ou alugava, elas tinham aquela proteção anticópia, né?

[00:03:03] Que basicamente é elas… Tinha um quadradinho de plástico lá que era reflexivo.

[00:03:09] E nas fitas que você comprava pra gravar, aquilo era coberto por um plástico opaco.

[00:03:13] E é basicamente assim, o VHS via ali, se refletia luz, ele não deixava você gravar em cima daquela fita.

[00:03:20] E aí, você vendo como funciona uma fita que grava e uma que não grava, você podia entender como burlar esse sistema.

[00:03:28] Então, o que o meu primo e a gente fazia, a gente alugava filmes, a gente botava um pedacinho de papel colado com durex ali naquela parte,

[00:03:34] e aí o VHS achava que podia gravar em cima daquela fita.

[00:03:36] Então, a gente no final dos créditos dos filmes que a gente alugava, a gente gravava trechos de programas de TV

[00:03:41] e deixava lá como tipo um easter egg pra se alguém assistir até o filme dos créditos.

[00:03:45] Gente, eu não acredito.

[00:03:46] Cara, então a gente deve ter uma cópia de, sei lá, cybercopy no programa do Gugu, sabe?

[00:03:52] Sim, exatamente.

[00:03:54] A única que eu lembro especificamente que a gente gravou é se você em algum momento em Porto Alegre comprou um VHS de Fred versus, não,

[00:04:02] de Mestre dos Desejos 6, eu acho, e no final dos créditos tem um trecho de top 20 USA apresentado pela Didi na MTV.

[00:04:16] Você criou a Marvel, né, Gus?

[00:04:18] Os filmes da Marvel que tem aquele final, que sempre tem, as pessoas esperam, foi você que criou.

[00:04:23] Eu criei. Hoje em dia, se eu fizesse isso, todo mundo ia ver as coisas que eu gravava,

[00:04:28] porque as pessoas aprenderam a esperar até o final dos créditos.

[00:04:30] Entendeu? Você era um visionário.

[00:04:32] Outra vez a gente fazia, era muito louco, porque a Espaço Vídeo alugava CDs também,

[00:04:36] então a gente tirava aquela parte da embalagem que você encaixa, o disco, e aí tinha o que era o verso do papel da contracapa do CD.

[00:04:46] E aí ali a gente escrevia mensagens secretas e aí fechava de novo com o plástico do CD.

[00:04:52] Então você só veria, se você também fizesse a mesma coisa de abrir, desmontar a caixa assim,

[00:04:56] para ir ver aquele papel, você veria que a gente tinha escrito coisas ali.

[00:04:59] Tipo, desenhava uns pentagramas.

[00:05:01] Era uma sociedade secreta.

[00:05:03] Muito tempo livre, né, cara?

[00:05:05] Cara, a criança era um ser com tanto tempo livre que eu não sei como eu sobrevivi.

[00:05:11] É, tem tempo.

[00:05:13] Assim, vamos voltar para Diabla Vesprada.

[00:05:15] Ele é um filme notório, porque o seu tema principal é a relação entre essa chefe Miranda,

[00:05:24] baseada na Anna Wintour, que foi editora-chefe da Vogue americana durante muitos anos.

[00:05:30] E ela, a protagonista do nosso filme é a Anne Hathaway, que já a primeira coisa que a gente tem que entrar nesse filme

[00:05:37] é que como ele faz certos tropos de Hollywood, pior do que o normal.

[00:05:41] Porque toda uma parte do primeiro ato do filme é as pessoas falando sobre como ela é feia e gorda,

[00:05:47] sendo que é a Anne Hathaway.

[00:05:50] E ela não está nem de cabelo preso e óculos, que normalmente é o código de Hollywood para esta mulher estar feia.

[00:05:56] Sendo que ela já tinha feito um filme em que ela era muito feia, que era o Diário da Princesa, que basicamente…

[00:06:02] Ah, eu não sabia que ela teoricamente começava feia naquele filme.

[00:06:05] Então, é, exatamente. Qual que é a história?

[00:06:07] O Diário da Princesa foi o filme que fez a Anne Hathaway aparecer, estrear e tudo mais.

[00:06:13] Porque ela era bem novinha.

[00:06:14] E aí o que aconteceu nesse belo filme?

[00:06:17] Ela era feia porque ela tinha um cabelo cachado e usava óculos.

[00:06:20] Aí ela tirou os óculos, alisou o cabelo e ficou linda.

[00:06:23] É isso, bacana.

[00:06:25] E nesse ela já começa sem óculos e com cabelo liso.

[00:06:27] É, mas o cabelo não é tão liso assim, né?

[00:06:29] Dá para ficar mais liso.

[00:06:31] E aí, basicamente, o que a gente identificou aqui em casa é a Jade,

[00:06:34] é que o feio e mal vestida dela é que ela está com um suéter bonito,

[00:06:38] só que ele é tipo uns dois números maiores do que deveria ser.

[00:06:40] Sim, e por fora da calça, que se for meio colocado para dentro aí melhora.

[00:06:45] É, mas tem várias… Exato, no começo do filme é isso, né?

[00:06:48] Ela trabalha nessa revista Runway, que é uma versão ficcionalizada da Vogue,

[00:06:51] é uma revista de moda e todo mundo critica muito ela porque ela não se veste bem.

[00:06:56] E sendo que, assim, numa das primeiras cenas ela está com um lookzinho de inverno muito bonito.

[00:07:02] Sim.

[00:07:03] Um casaco de inverno off-white, um belo de um e-sharp em volta do pescoço,

[00:07:06] ela está muito bem vestida, especialmente porque é teoricamente sete da manhã.

[00:07:10] Ela está muito bem vestida, para quem acordou às cinco e quarenta e cinco.

[00:07:14] Às cinco e quarenta e cinco?

[00:07:15] Chegou com aquela cara inchada daquele inverno de Nova York, né cara,

[00:07:18] com aquele tempo horroroso.

[00:07:19] Nossa, e ela é branca para que aceite, né cara?

[00:07:21] Sem contar o fat shaming de tudo no filme, o filme inteiro.

[00:07:25] Tanto que, mesmo depois, no terceiro ato do filme, quando ela está sacando que, tipo,

[00:07:30] aquilo que ela está achando legal daquele emprego não é legal,

[00:07:33] ainda rola um momento de tipo, mas, ei, pelo menos ela emagreceu.

[00:07:36] Nossa.

[00:07:37] Sim.

[00:07:38] Não, e assim, ela usava tamanho quarenta, que já é bem magra, tamanho quarenta.

[00:07:42] Sim.

[00:07:43] E aí eles ficam falando como se fosse um absurdo ela ser um tamanho quarenta.

[00:07:47] Não é tipo, ah, ela era um tamanho quarenta e quatro.

[00:07:49] Não.

[00:07:50] Que, tipo, já é um tamanho um pouco maior, que mesmo assim está errado.

[00:07:53] Não, era quarenta.

[00:07:54] E aí ela saiu do quarenta para o trinta e oito.

[00:07:56] E aí a grande coisa foi que ela apareceu negando pãezinhos.

[00:08:00] Eu amo isso, assim.

[00:08:01] É.

[00:08:02] Né?

[00:08:03] O detalhe dela parar de comer carboidrato.

[00:08:05] Sim, quando ela está jantando com o pai, né?

[00:08:06] É.

[00:08:07] Ela nega pãezinhos.

[00:08:08] Cover.

[00:08:09] É, então, exato.

[00:08:10] O filme, vamos lá, essa jornada dela de, ela chega, ela é uma estudante de jornalismo,

[00:08:14] que só está interessada em fazer jornalismo, ela não se interessa em moda,

[00:08:17] e ela chega lá na revista de moda e ela vai mostrar o quanto, tipo,

[00:08:20] ela superpode fazer isso porque é só um trabalho de moda.

[00:08:23] E desde o começo, quando ela vai lá fazer a primeira entrevista de emprego,

[00:08:26] a gente vê que a Miranda, essa chefe interpretada pela maravilhosa Meryl Streep,

[00:08:31] é extremamente abusiva, né?

[00:08:33] Ela trata todo mundo muito mal, ela não aprende o nome das pessoas,

[00:08:35] não olha as pessoas no olho, ela espera que tudo seja feito por ela.

[00:08:38] Enfim, ela age como uma rainha da era vitoriana, assim, e com seus súditos.

[00:08:46] E aí a Anne Hathaway, claro, começa a ter problemas com isso,

[00:08:51] mas basicamente o filme mostra que, na verdade, o jeito de você ver aquela situação

[00:08:55] é como uma situação que ensinou muito para ela.

[00:08:57] Inclusive, eu acho que essa parte da, o abuso como uma lição, né?

[00:09:02] É impressionante, porque mesmo que ela, no final do filme,

[00:09:06] tem todo esse arco no qual ela se decepciona com todo aquele universo,

[00:09:10] mas ainda assim ela aprendeu alguma coisa, né?

[00:09:13] Inclusive sobre si mesma, sobre suas próprias capacidades de se adaptar,

[00:09:17] de lutar pelo aquilo que ela quer, né?

[00:09:18] Então assim, todo, é impressionante, né?

[00:09:22] Porque todo aquele abuso, ele não é só uma etapa didática para ela,

[00:09:26] ele resistir aquele abuso é vendido enquanto algo extremamente positivo para a vida moderna, né?

[00:09:34] É isso que é.

[00:09:35] Sim. Me lembrou de algo muito traumático da minha infância,

[00:09:37] que eu nunca gostei de fazer lição de casa, né?

[00:09:39] E aí tem uma mensagem que minha mãe tentava passar para mim nessa época,

[00:09:42] e que é muito comum nos filmes e está nesse filme, que é,

[00:09:45] se alguém está te fazendo fazer algo que você acha estúpido, né?

[00:09:51] Ou sem valor, ou difícil demais por pouco retorno,

[00:09:58] o jeito de você provar que você está mais certo com aquela pessoa é você conseguindo fazer aquilo.

[00:10:03] E o filme tem essa postura, tipo, olha só, ela é tão exigente,

[00:10:08] que se você for lá e conseguir fazer tudo que ela quer, do jeitinho que ela quer,

[00:10:12] ela vai ver que você, aí ela vai dar valor para os seus argumentos.

[00:10:16] Sim.

[00:10:17] Ou não?

[00:10:18] Ela deixa tudo que ela é, tudo que ela acredita e tudo mais de lado,

[00:10:22] porque assim, a partir do momento que ela está fazendo a chefe feliz, ela também está feliz.

[00:10:27] Porque aí vira uma coisa meio provação, sabe?

[00:10:30] Tipo, ela precisa provar para ela mesma que ela consegue fazer todos os caprichos da chefe.

[00:10:36] Tipo, a chefe pediu um manuscrito do Harry Potter antes de ser lançado,

[00:10:41] e ela vai e ela consegue.

[00:10:43] E isso assim, é um negócio que quando aparece no filme, é muito, ela fez isso muito para espizinhar,

[00:10:48] porque ela tinha feito alguma coisa que a chefe não tinha gostado antes,

[00:10:52] e aí ela fala, beleza, então amanhã eu quero isso aqui.

[00:10:56] E aí ela vai e consegue, e aí ela sente, assim, uma alegria,

[00:11:00] que não é mais também sobre a chefe ter, enfim, ficado feliz por isso, é sobre ela mesma.

[00:11:06] É sobre ela ter ficado feliz de ter conseguido aquilo.

[00:11:09] É, não, essa coisa do Harry Potter é muito, assim, é claramente posto ali como,

[00:11:13] ah, ela quer demitir a personagem da Anne Hathaway,

[00:11:16] então ela pede algo impossível e fala assim, se você não conseguir fazer isso, nem volte para o escritório.

[00:11:22] E aí a Anne Hathaway comete um crime roubando material,

[00:11:27] ela suborna alguém para roubar um material que não é dela e que ela não poderia ter,

[00:11:32] faz três cópias irregulares

[00:11:36] e de alguma maneira encaderna elas em meia hora.

[00:11:40] De novo, assim, também ela tem uma verba para gastar nas coisas que a chefe pede, que é muito doida.

[00:11:44] E eu como um jornalista que trabalhou muito tempo no impresso,

[00:11:49] o simples fato de eu estar vendo uma época em que uma revista tinha dinheiro,

[00:11:53] mexe muito comigo, é gatilho.

[00:11:55] Eu pensei muito nisso, sabia?

[00:11:57] Pensei só assim, gente, nada disso estaria acontecendo,

[00:12:00] porque ninguém mais se importa com uma revista.

[00:12:03] Nada? Não.

[00:12:05] Não, inclusive tem uma hora que o Nigel, o personagem do Stanley Toot,

[00:12:11] dá várias roupas da revista para ela, né?

[00:12:14] E a Jade na mesma hora vira para mim e fala assim,

[00:12:17] cara que ele não pode pegar as coisas que estão ali e dar para alguém.

[00:12:21] É tipo o acervo da revista que eles usam, sabe?

[00:12:25] Mas o filme não se importa, o filme tenta passar que existe alguma nobreza naquele trabalho que é feito ali,

[00:12:34] mas depois, no final, especialmente quando a Anne Hathaway tem que se decepcionar com a personagem da Miranda,

[00:12:41] se decepcionar depois de tipo, amiga, pelo amor de Deus, assim,

[00:12:46] você já tinha que ter se decepcionado lá atrás,

[00:12:49] o filme meio que faz assim, ah, esse pá não, também.

[00:12:52] Então eu sinto que o filme tenta fazer duas coisas,

[00:12:55] e aí a gente vai chegar num momento que eu sei que todo mundo aqui quer comentar,

[00:12:59] que é o icônico discurso da personagem da Mary Streep,

[00:13:03] no qual a Anne Hathaway ri porque eles estão tentando selecionar dois cintos ali para ver qual vão usar num photoshoot,

[00:13:13] e aí a Anne Hathaway dá uma risadinha porque ela acha que os dois cintos são quase iguais.

[00:13:18] Eles são iguais, inclusive, no filme, esse é um erro do filme.

[00:13:21] Eles são iguais, é só a fivela que muda, o cinto não muda.

[00:13:24] Então, primeira coisa, se você estivesse planjando um photoshoot,

[00:13:27] você não ia ter dois cintos iguais com fivelas diferentes,

[00:13:29] você ia ter um cinto e várias opções de fivelas, talvez.

[00:13:32] Você está se apegando muito à realidade, Gunn, você tem esse compromisso que não precisa.

[00:13:37] É, não, é exato, parte da minha raiva com o filme eu tenho que deixar de lado, que é exatamente isso.

[00:13:42] Como alguém que já trabalhou numa revista e sabe como as coisas são feitas, mesmo não sendo uma revista de modos,

[00:13:46] aquilo ali não faz sentido nenhum, mas enfim, de qualquer jeito,

[00:13:49] o que faz mais, é que a Anne Hathaway dá uma risada, meio que desdenhando aquilo tudo ali,

[00:13:54] e aí a personagem da Mary Streep tem o seu momento para brilhar,

[00:13:57] e aí o filme realmente emoldura esse discurso, como tipo,

[00:14:00] essa mulher é uma pessoa horrível, mas o que ela está falando aqui, ela tem um ponto.

[00:14:04] E ela vai falando sobre tipo, sabia que há não sei quantos anos,

[00:14:08] teve um desfile em Milão ou em Paris, sei lá,

[00:14:11] em que tal designer mostrou vários vestidos com a cor cerúlian e tal,

[00:14:17] que aí é uma cor que todos os outros designers começaram a usar naquele ano,

[00:14:20] e eventualmente as grandes lojas de departamento começaram a copiar,

[00:14:24] e aí foi aí que você achou esse suéter vagabundo que você usa,

[00:14:27] então você não está usando uma roupa que você escolheu,

[00:14:30] você está usando uma roupa que nós aqui escolhemos para você.

[00:14:34] E isso é para, tipo, meio que ela não entender que nossa, a moda é muito mais complexa do que eu achava.

[00:14:40] Eu acho que a moda é sim muito mais complexa do que a personagem dela acha,

[00:14:44] mas não pelas razões que a personagem da Mary Streep está falando,

[00:14:48] porque o que a Mary Streep está explicando não é moda, é marketing.

[00:14:52] Ela está dizendo, a sociedade capitalista de consumo na qual você vive não é livre,

[00:14:57] e pessoas como eu são usadas por grandes conglomerados internacionais

[00:15:01] para criar a necessidade de consumo em pessoas como você.

[00:15:05] Então, na verdade, o que ela está falando é muito mais perverso

[00:15:08] do que uma grande iluminação sobre a importância da moda.

[00:15:12] Pois é, né, guys? Mas acho que eu vou botar um pouquinho só,

[00:15:16] porque tem uma coisa que você falou aí, que o mundo não é livre, né?

[00:15:20] E eu acho que esse é um grande filme sobre a escravidão.

[00:15:23] Acho que é um ponto fundamental aí.

[00:15:26] Tanto pela escravidão que quando ela faz todo esse discurso,

[00:15:30] ela não contempla justamente o aspecto escravocrata da indústria da moda,

[00:15:35] que é talvez uma das indústrias que mais se vale do trabalho escravo,

[00:15:40] já vive desde todas aquelas denúncias feitas contra a Nike na década de 90,

[00:15:44] enfim, toda semana.

[00:15:46] E não só na Ásia, né? A gente sabe de imigrantes bolivianos aqui no Brasil.

[00:15:50] Sim, do lado de casa tem isso, né?

[00:15:53] Não da minha, não estou olhando ninguem aqui, não, que fique claro, que fique claro.

[00:15:58] Isso aí você está passando perigo aí, rapaz.

[00:16:00] Não tem nada aqui do meu lado, está tudo bem, sabe?

[00:16:04] Será que foi isso que disseram para você dizer? Não, brincadeira.

[00:16:07] Não, não tem nada disso, não. Ninguém está aqui comigo me apontando uma arma.

[00:16:11] Mas tem esse aspecto oculto, entre aspas,

[00:16:16] e o outro aspecto é toda a poluição que causa a indústria da moda e tal,

[00:16:20] mas assim, tem uma coisa que eu acho que esse filme inteiro,

[00:16:23] você falou de toda essa didática, toda essa abuso que ela sofre e tudo mais,

[00:16:27] porque, meu, aquele momento velhinho do Titanic de novo, referências filosóficas,

[00:16:34] tem uma coisa que o Espinosa fala sobre as paixões tristes e como elas favorecem a tirania,

[00:16:40] e todo mundo fala raiva, tristeza, enfim, são paixões tristes.

[00:16:46] Mas uma das paixões tristes é a esperança,

[00:16:49] porque a esperança vai colocar sempre a pessoa no caminho de,

[00:16:53] ela vai se dobrar a determinadas situações, ela vai viver determinadas situações,

[00:16:58] à espera de uma recompensa. E esse filme inteiro é isso,

[00:17:03] é um filme inteiro sobre uma pessoa sofrendo toda sorte de abusos

[00:17:08] e em busca de uma recompensa.

[00:17:10] E aí, assim, você falou do momento que ela se decepciona com a Miranda,

[00:17:14] é mais um momento em que a Miranda se mostra uma pessoa humana pra ela,

[00:17:17] porque ela vê que a recompensa final talvez não seja uma grande recompensa,

[00:17:21] então ela meio que acorda de toda aquela ilusão e tudo mais.

[00:17:25] Então, assim, eu acho impressionante de que como o filme,

[00:17:30] você falou que ele é um filme, que todo aquele discurso oculta a ideia de que,

[00:17:34] olha, nós não vivemos numa sociedade livre porque, enfim, tem todo um conglomerado,

[00:17:38] uma indústria que faz você usar roupas e tudo mais.

[00:17:41] Inclusive, a prova de que a sociedade não é livre é você estando aqui trabalhando desse jeito,

[00:17:46] sob essas condições, à espera de pequenas migalhas.

[00:17:49] Ah, você conseguiu o manuscrito do Harry Potter?

[00:17:52] Beleza, eu não vou te demitir, mas vou continuar abusando de você.

[00:17:56] Ah, você tá se dobrando, acabando com a sua vida pessoal?

[00:17:59] É, vou te dar um acenozinho, sabe? Ela vive de migalhas,

[00:18:02] ela é uma personagem que vive pelas migalhas, né?

[00:18:05] Uma coisa que eu acho muito bizarro é que eu não lembrava de várias coisas do filme

[00:18:10] e eu achava que em algum momento, pelo menos os amigos que gostavam de debauchar dela,

[00:18:15] que falavam mal da indústria e tal, iam tocar em algum momento sobre trabalho escravo.

[00:18:19] E obviamente isso não foi tocado porque é um filme que justamente está exaltando essa cultura.

[00:18:24] Tem um dos estilistas que ela fala que aparece no filme, agora eu não lembro quem é,

[00:18:29] pois afinal não entendo nada de high fashion, mas tem um deles que aparece inclusive.

[00:18:34] Então assim, no fim das contas é um filme que ele tenta meio que agradar essa galera,

[00:18:39] mas ao mesmo tempo dá aquela crítica social foda, mas sem querer desmoralizar,

[00:18:44] porque isso ainda é uma coisa importante, isso ainda vai continuar acontecendo

[00:18:48] e ele não quer realmente criticar.

[00:18:50] E isso é uma coisa que me incomodou muito, sim.

[00:18:52] Eu senti que ao mesmo tempo que ele queria criticar, ele não queria.

[00:18:55] Então ele mostra a Miranda ser um pouco mais humana, mostra ela falar uma coisa ou outra,

[00:18:58] mas no fim das contas continua acontecendo.

[00:19:01] Só ela que saiu daquilo, mas o sistema todo que acontece

[00:19:05] e a Miranda não tem tipo uma lição que ela aprende no final

[00:19:08] ou alguma coisa que ela rever os atos dela, né?

[00:19:12] Não, ela continua impune, tipo continua fazendo exatamente a mesma coisa

[00:19:15] e a Anne Hathaway que saiu disso e se libertou, sendo que é uma cultura que 100% continua igual.

[00:19:22] Que é uma visão muito comum em filme de Hollywood, que é o nosso protagonista é melhor que isso,

[00:19:28] mas não que isso tem que deixar de existir, porque tem a Emily,

[00:19:32] que é a primeira assistente, a Andrea, a Anne Hathaway, é a segunda assistente.

[00:19:39] E no final a Andrea que se mostrou muito mais competente que a Emily,

[00:19:43] conseguiu a oportunidade de ir a Paris que a Emily queria e tudo mais,

[00:19:47] sai e vê que aquilo não é para ela, que ela é muito melhor que aquilo,

[00:19:50] que ela não é uma pessoa tão mesquinha e tão guiada pelo sucesso quanto a Miranda,

[00:19:54] que se divorcia frequentemente, que traiu o parceiro de trabalho, Nigel,

[00:20:02] para se manter no cargo, etc e tal.

[00:20:05] Só que no final o filme vê como um pouco tipo a Andrea é melhor que aquilo

[00:20:11] e ela sai e vai trabalhar num jornal de verdade, fazendo um trabalho digno.

[00:20:15] Mas a Emily continuar lá trabalhando para Miranda e sendo abusada

[00:20:19] é onde a Emily deveria estar, porque a Emily não é tão boa quanto a Andrea.

[00:20:22] Não, eu acho que o que é muito louco é que no fim das contas

[00:20:26] a Emily ela fica muito aliviada, que ela vai continuar tendo aquele cargo

[00:20:33] e sonhando em chegar em algum lugar que às vezes nem ela sabe muito onde ela quer chegar.

[00:20:37] O sonho dela era isso, era ir para Fashion Week de Paris, ponto.

[00:20:41] É, e não é pelo mesmo motivo, a Andrea quer ir para Paris para fazer networking

[00:20:45] e seguir subindo na vida e tal, por isso que a Miranda admira nela.

[00:20:49] Já a Emily, tudo que ela quer é poder reproduzir o abuso sempre com alguém que está abaixo dela.

[00:20:54] Ela sofre o abuso da Miranda e ela abusa da segunda assistente sempre,

[00:20:58] tanto que a gente vê ali na última cena que ela aparece que tem uma nova segunda assistente

[00:21:02] da qual ela faz gato e sapato e assim ela se mantém.

[00:21:08] E ainda compara com o anterior, né?

[00:21:10] Compara com o anterior e é isso, é meio que um retrato de todo o sistema hierárquico que a gente tem hoje,

[00:21:17] tanto corporativo que esse filme retrata quanto estatal e tudo mais.

[00:21:22] Uma coisa que você falou que é impressionante, que é interessante,

[00:21:25] de que como esses personagens são personagens, é muito comum esse trupo no cinema americano,

[00:21:30] o personagem principal é vendido, colocado, apresentado como alguém que é melhor do que tudo aquilo que está ali.

[00:21:39] Inclusive nesse tipo de filme tem um outro filme lá da década de 80, se não me engano,

[00:21:45] que se chama Presente de Grego com a Diana Keaton, que é basicamente o mesmo filme.

[00:21:53] Basicamente o mesmo filme, só que assim, a estrutura do filme é muito parecida, né?

[00:21:58] É uma mulher que vive naquele ambiente de Wall Street, ela é chamada a tigresa,

[00:22:04] porque ela é feroz com seus inimigos, enfim, aqui, todo aquele ambiente corporativo de guerra, né?

[00:22:09] E aí de repente ela herda um bebê, ela herda um bebê, tipo de uma prima que faleceu,

[00:22:14] e aí por conta da relação que ela cria com a maternidade, ela acaba perdendo várias chances dentro do ambiente de trabalho,

[00:22:21] depois ela vai para o interior dos Estados Unidos e, enfim, aí começa a vender uma, faz uma papinha para criança,

[00:22:27] e começa a fazer sucesso comercial vendendo a papinha, e aí depois das mesmas pessoas de Wall Street que tinham negado ela,

[00:22:33] falam assim, oh, você não é bom o suficiente para cá, tentam comprar a empresa dela, ela diz não,

[00:22:37] a minha papinha vai continuar sem vocês, saca? Uma coisa desse tipo.

[00:22:40] E é basicamente, ela tem uma hora que fala assim, não, a corrida dos ratos vai continuar, mas agora com uma rata menos, sabe?

[00:22:48] Todo esse discurso final é isso, e é impressionante porque esses personagens, eles não estão ali para criticar o sistema como um todo, né?

[00:22:59] Eles não estão ali, sabe, como, por exemplo, sei lá, vão pensar num personagem clássico da literatura Bartleby,

[00:23:04] que tem uma função muito parecida de mostrar como é que todo aquele ambiente é medíocre, como é que todo aquele ambiente é absurdo,

[00:23:09] pensando nas obras do Kafka, coisas do tipo, não, ele está ali justamente para mostrar assim,

[00:23:13] ele enquanto um indivíduo especial é capaz de sair daquilo, é capaz de ser, sabe, está sempre experimentando outras coisas,

[00:23:20] e existem pessoas que vão ser felizes naquele ambiente, e pronto, e tudo bem, ele é uma espécie de sujeito incorruptível, né?

[00:23:27] Ele é uma espécie de, é aquele sujeito que pode, sei lá, pensar nas figuras bíblicas,

[00:23:32] o cara que consegue beijar os pés dos mendigos e não ser contaminado, sabe, essas coisas todas?

[00:23:36] Esses personagens, eles são essas pessoas, por exemplo, a Andrea, ela vai, vive aquele ambiente todo, toda aquela esfera inteira,

[00:23:44] e ela, a corrupção, entre aspas, que ela sofre é momentânea, porque ela é capaz de tirar aquilo de si e voltar para aquilo que é de verdade,

[00:23:52] né, que é a relação dela, aquele mundo que ela vivia lá com o namorado dela e tudo mais,

[00:23:57] a personagem da Diana Kito no filme lá do Presente de Grego, ela vai viver com a filha adotiva, né, vendendo papinha e tudo mais,

[00:24:05] ou seja, toda aquela corrupção prévia, tudo aquilo que, aqueles pecados, aqueles crimes que foram cometidos, tudo bem, tudo bem,

[00:24:13] ela não foi corrompida, foi apenas uma fase, sabe? Então, assim, tem uma coisa assim, uma pureza da essência dessas personagens,

[00:24:20] mas que em nada, que em nada aponta toda a violência do sistema, né, muito pelo contrário, aponta justamente só a pureza deles, né, do indivíduo, né?

[00:24:28] Porque essas são narrativas muito americanas, na qual o problema nunca é sistêmico, é sempre individual,

[00:24:34] não é como você melhora o ambiente de trabalho, não, é como você tira a nossa protagonista daquele ambiente ruim,

[00:24:41] o ambiente pode continuar, entendeu? Não tem problema.

[00:24:45] E por isso que eu sinto, eu anotei aqui que durante o primeiro ato, especialmente, ele parece um filme de terror, né?

[00:24:51] Mas depois eu saquei que ele não é um filme de terror.

[00:24:54] Se você olha para a construção do filme, especialmente o quanto o foco do filme não está na protagonista em si,

[00:25:02] em reproduzir o ponto de vista da protagonista de uma outra pessoa, que é a Miranda, ele é um filme de gangster, né?

[00:25:10] Ele é um filme de gangster tipo do Scorsese, que sempre funciona do mesmo jeito, você tem um primeiro ato ali,

[00:25:17] no qual você vê como o crime é legal e o cara entrando no restaurante, todo mundo curtindo ele, muito dinheiro, mulheres, bebida, né,

[00:25:29] carros caros e mostrando como ele está acima das regras. E isso a gente tem com a Miranda, porque não só ela é rica,

[00:25:35] como ela serve para a gente com um certo prestagem catártico de é sempre satisfatório ver um personagem que não segue as regras que a gente tem que seguir, né?

[00:25:48] Então nessa época, especialmente em 2006, era muito popular no cinema e na TV americana o personagem do Cusão, né?

[00:25:55] Essa pessoa é tão bem sucedida, tão esperta, tão boa no que ela faz, que ela pode ser mal educada e ela pode ser abusiva com os outros.

[00:26:02] Essa época que é o auge da série House, por exemplo, e que eu acho, inclusive já falei isso com o Orlando uma vez,

[00:26:09] acho que fora de gravações, mas eu acho que inclusive reflete o momento político dos Estados Unidos naquela época que é eles voltarem a ser um país bélico, né?

[00:26:18] Porque nos anos 90 eles tentaram manter aquela imagem de tipo o fim da história, a gente não tem mais grandes guerras, a Guerra Fria acabou,

[00:26:24] por mais que a gente esteja bombardeando um outro país aqui, não é uma guerra de verdade, não se preocupem com isso.

[00:26:29] E aí em 2002, 2003, eles começam a Guerra da Afeganistia e do Iraque e eles têm que voltar a ser um poder bélico

[00:26:36] e aí a imagem interna deles é muito conflituosa, porque não é uma guerra que a população apoiou massivamente,

[00:26:44] apoiou em grande parte, mas não com o mesmo fã da Segunda Guerra e do começo da Guerra Libre de China,

[00:26:52] foi uma coisa muito mais parecida com a Guerra do Golfo, mas muito mais longa, né? Interminável, aparentemente.

[00:26:57] E aí ele meio que tipo a cultura pop americana começa a lidar com essa ansiedade, eu sinto, com essa angústia

[00:27:03] e começa a criar personagens que justificam porque que eles são agressivos com os outros,

[00:27:08] meio que como para tentar justificar porque que os Estados Unidos podem sair matando um monte de gente, bombardeando um monte de gente,

[00:27:14] porque não fala das contas, ele ainda é o melhor país do mundo, ele é o melhor de tudo e aí a Miranda nesse filme é exatamente isso,

[00:27:22] ela é tão boa no que ela faz que ela pode ter tantas vítimas, eu sinto que esse é o filme.

[00:27:28] E aí uma ironia do roteiro que eu queria pegar aqui que me frustra, até porque eu sou uma pessoa que gosta de cozinhar,

[00:27:35] o namorado dela é cozinheiro, só que ele está sempre em casa mais cedo que ela e ele nunca tem nenhum problema de abuso no meio de trabalho,

[00:27:46] sendo que é uma indústria onde é muito, muito comum um espaço de trabalho abusivo,

[00:27:51] ele claramente trabalha no turno do jantar porque ele está livre antes do almoço e então ele nunca estaria em casa antes das duas da manhã,

[00:28:00] então acho que me irrita muito que talvez em alguma versão desse roteiro tinha um contraste entre as carreiras dos dois e tal,

[00:28:08] e aí a gente fala que a vida de todo mundo é muito boa menos a dela.

[00:28:12] Você está se apegando a realidade, Gus, de novo, você está se apegando a uma realidade que não tem,

[00:28:16] porque a questão é, todo mundo ali tem que ter um trabalho fodido, mas todo mundo sabe lidar bem menos ela.

[00:28:22] Exato, o fato de que ela não quer ser abusada é algo que ela tem que superar.

[00:28:27] Sim, e é uma forma meio estranha de eles colocarem um feminismo na série, de tipo no filme dela virar para o namorado e falar assim,

[00:28:35] a Miranda é assim, mas se ela fosse um homem ninguém ia criticar, mas como ela é uma mulher, as pessoas criticam.

[00:28:42] Sim, e ela talvez até esteja certa, mas a resposta não é, então deixe ela ser abusiva, não deixe ninguém ser abusiva.

[00:28:50] Que é um discurso, de novo, voltando para a política de guerra americana, é um discurso que a gente viu recentemente,

[00:28:56] no ano passado, se não me engano, em que a primeira diretora da CIA Mulher foi nomeada e as pessoas bateram palma,

[00:29:02] eles bateram palma e falaram, finalmente, uma mulher agora está mandando pessoas matarem e torturarem em nome da América.

[00:29:10] Exato, e aí eu acho muito bizarro, porque tem essa relação de tipo, não, tudo bem, a Miranda é assim mesmo, ela é doidinha assim mesmo e beleza.

[00:29:21] Então assim, eu não vou participar disso, porque eu sou uma mulher independente e forte o suficiente para poder sair deste sistema.

[00:29:28] Tipo, e também é uma visão totalmente individualista em que ela está simplesmente lutando por ela mesma,

[00:29:33] porque ela e nenhuma outra, nenhuma mulher, ninguém no filme tem empatia por ninguém, né?

[00:29:38] Vamos lá, ninguém tem empatia por ninguém, então assim, se eles quiseram trazer isso de alguma forma,

[00:29:43] foi de uma forma totalmente deturpada dentro de um ambiente que é extremamente opressor e gordofóbico e que continua, né, até hoje isso, de várias formas.

[00:29:53] Então assim, parece que eles tentaram colocar várias coisas no meio do filme, tipo assim, não, a gente precisa falar disso aqui, não, esse ponto é importante.

[00:30:00] E aí jogou tudo dentro de um saco, sacudiu e aqui ó, está o roteiro, e beleza, bora.

[00:30:06] É não, é de uma supra oficialidade incrível e aí talvez a gente esteja esperando demais mesmo de um filme grande de Hollywood,

[00:30:13] mas é uma filosofia muito comum nesses filmes de o problema não existe se não está acontecendo com você.

[00:30:19] Sim.

[00:30:20] Sim, e aí o importante que a gente sempre tenta trazer aqui nesse podcast é,

[00:30:25] o quanto que você reproduzir essa visão na cultura pop, no supra-sumo do que é a experiência coletiva da nossa sociedade,

[00:30:33] faz você levar essa visão para o mundo real, assim, o quanto que a gente é estimulado a nas nossas vidas,

[00:30:39] ver as coisas assim, tipo, os problemas que não acontecem com você, não existem, não precisam te preocupar.

[00:30:46] Esse é um aspecto fundamental, né cara, eu acho que tem duas coisas, primeira é a excepcionalidade individual,

[00:30:53] essa coisa da excepcionalidade individual que a gente já falou até no episódio anterior sobre Interestelar,

[00:30:57] aquelas coisas do nós americanos somos especiais, primeiro encontro nação e depois encontro indivíduos,

[00:31:03] e essa excepcionalidade torna eles imunes justamente, eles são capazes de fazer qualquer coisa,

[00:31:07] o que importa é você ver o papel do indivíduo ali, então é isso, olha que legal, temos uma mulher torturando outras pessoas,

[00:31:13] olha só, sabe, tipo, você tá vendo uma mulher numa poção de poder, né cara, assim, o legal é ver isso,

[00:31:17] não contextualizar a figura daquela pessoa ali, né, a ação dela ali, o outro ponto que eu acho que é interessante,

[00:31:26] você falou, a gente tá esperando muito de roteiro de Hollywood, mas você mesmo ficou se contradiço,

[00:31:31] porque ao mesmo tempo a gente, é isso, ele funda uma estrutura de pensamento, né, as pessoas de fato pensam desse jeito,

[00:31:38] desse jeito, né, de que, tem uma coisa novamente, sendo o velho chato do podcast,

[00:31:43] tipo, que era uma coisa que o Deleze falava sobre o ser de esquerda, o ser de esquerda é ter o outro antes de si, né,

[00:31:51] esses filmes colocam você na posição do que é, justamente o ser da direita, que é colocar o si, a sua experiência familiar,

[00:31:57] a sua experiência próxima, acima da experiência alheia, os filmes são exatamente isso,

[00:32:01] ah cara, o problema todo se reduz a experiência dos indivíduos, se não tem acontecendo com eles, então não tá acontecendo lugar nenhum, ponto.

[00:32:07] Exato, aliás, esse é o momento que eu faço um jabá meu, eu fui citado recentemente num artigo italiano sobre The Sims e capitalismo,

[00:32:16] exatamente porque eu publiquei um texto uns anos atrás, falando sobre como The Sims e Sin City são as ilustrações perfeitas

[00:32:22] de como Deleze vê a esquerda e a direita, né, que o Sin City, ele vê tal qual a esquerda do Deleze, né, de fora pra dentro, né,

[00:32:31] você vê o macro, né, tipo a minha cidade, a minha rua, os meus vizinhos e eu, e o The Sims você vê como a direita vê,

[00:32:39] que é eu, minha casa, minha rua e aí o país ao meu redor, né, então, enfim.

[00:32:47] Bela alusão, bela alusão.

[00:32:49] Muito obrigado, aí vamos lá, um ponto que eu queria levantar, voltando aqui um pouco pra questão da moda,

[00:32:58] que às vezes é, exato, acho que como a Jéssica levantou, é uma coisa que a gente às vezes lembra como,

[00:33:02] ah não, mas pelo menos o filme tem um ponto sobre isso e é tipo, não?

[00:33:05] O personagem do Nigel, que é do Stanley Toot, que pra mim é um personagem trágico, maravilhoso, assim,

[00:33:12] se o filme fosse sobre ele, seria um drama incrível, porque ele fala, uma hora ele tá muito feliz porque ele acha que a Miranda

[00:33:18] conseguiu pra ele uma oportunidade de sair da revista e ter um emprego muito melhor, como diretor de uma grande marca internacional,

[00:33:24] e ele parece muito aliviado, ele fala, pô, pelo menos 18 anos eu vou poder viajar pra Paris e ver Paris, sabe,

[00:33:31] e não tá com a cabeça enfiada no trabalho, blá blá blá, e aí no final ele é traído pela Miranda

[00:33:37] e ele fala uma coisa que ilustra muito bem aquele ponto das paixões tristes, né, e a paixão triste que é a esperança,

[00:33:43] que assim que ela passa a perna nele, a Anne Hathaway pergunta pra ele assim, por que você não tá bravo?

[00:33:50] E aí ele fala assim, não, porque ela vai me recompensar por isso.

[00:33:54] E ela fala assim, certeza? E ele fala, não, mas eu preciso acreditar nisso.

[00:33:58] E é muito triste, assim, então esse personagem é fascinante, mas aí eu queria voltar numa coisa que ele fala,

[00:34:02] porque ele acaba sendo o good cop do filme, né, ele é o cara que tá do lado da Miranda,

[00:34:09] mas dando um afago na cabeça da Anne Hathaway e explicando pra ela que a moda pode ser muito legal.

[00:34:15] E ele tem o pior argumento possível, que deu a vontade de dar um soco na careca dele quando eu ouvi,

[00:34:21] que ele tá falando sobre como, eles tão falando tipo, a costura é uma arte, e é, mas ele vira e fala assim,

[00:34:29] mas é mais, ele fala, it’s better than art, because you live your life in it,

[00:34:35] é melhor do que a arte porque você vive a sua vida nela, ou seja, um argumento totalmente utilitarista,

[00:34:41] dizendo que uma camiseta com a Mona Lisa desenhada é melhor que a Mona Lisa porque você tá usando.

[00:34:46] É, é, apesar de ter toda uma discussão clássica, né, na, enfim, pega o Agamba, enfim,

[00:34:53] sobre como ao longo das últimas, sei lá, dos últimos dois, três séculos, a arte foi, a arte, né, enfim,

[00:34:59] foi se tornando uma dimensão externa da vida, né, foi confinada aos museus, aos lugares da não experiência,

[00:35:04] eu acho que…

[00:35:05] Não, não, eu não, não é…

[00:35:07] Só que ele tá sendo…

[00:35:09] Babaca, né?

[00:35:11] Não, eu acho, e tacanho, porque assim, a gente não pode descontar que essas coisas utilitárias são arte,

[00:35:18] elas não são só utilitárias, né, elas não são, né, uma, a gente não usa todo mundo a mesma roupa

[00:35:23] como naqueles filmes do futuro, que todo mundo usa o mesmo macacão prateado e tal,

[00:35:28] mas o fato de que ele fala que é melhor que a arte porque você usa é muito ruim, né?

[00:35:34] A coisa só pode se transcender por se ela tiver uma utilidade, né?

[00:35:37] É isso.

[00:35:38] E uma coisa que eu até comentei enquanto eu tava assistindo aqui com a Jade, é que,

[00:35:41] é tipo você ter um filme que tenta argumentar que, cara, o cinema é muito importante,

[00:35:45] porque ele é um jeito de botar você numa experiência que você nunca viveria na realidade,

[00:35:51] por isso que as artes dramáticas, o teatro e o cinema são muito importantes, blá, blá, blá,

[00:35:55] só que você faz isso num filme em que alguém tá produzindo o Vingadores da Marvel, sabe?

[00:36:00] Sim.

[00:36:02] Tipo, eles estão tentando falar sobre o quanto a moda é uma expressão artística e você

[00:36:08] usar uma roupa é um jeito de você estender a sua personalidade pra algo físico, né,

[00:36:13] estético, ilúdico, só que eles fazem isso dizendo assim, você sabe quantos bilhões

[00:36:18] de dólares são as suas marcas, né?

[00:36:20] Então, ele tem justamente esse ponto que, tipo, eles são tão egocêntricos e tão

[00:36:25] centrados no trabalho deles que aquilo vira a vida deles de uma maneira que absolutamente

[00:36:30] mais nada importa, tipo, o que eu faço é tão importante que é mais importante que arte.

[00:36:35] E, de novo, eles não estão nem aí com a expressão artística de ninguém, porque

[00:36:39] uma coisa que eles repetem muito é, só a opinião dela é a opinião que importa.

[00:36:44] Então, quando ela fala que ela não gostou de um vestido que um designer gostou de fazer

[00:36:48] e queria mostrar, o correto é realmente o designer refazer o vestido totalmente pra

[00:36:53] o gosto dela.

[00:36:54] Então, na verdade, não é nenhuma defesa da moda como arte e expressão.

[00:36:58] Isso, isso.

[00:36:59] E tem um outro, eu acho que esse ponto da Jéssica sobre como eles estão em si mesmados

[00:37:05] é fundamental, né, porque tem gente, eu já vi gente falando, não, porque esse filme

[00:37:10] ele é bastante crítico à indústria da moda e tudo mais.

[00:37:15] Eu falei, cara, aí eu acho que é uma camada extra da subjetividade de quem está assistindo

[00:37:21] colocando aquilo ali, porque o filme em nenhum momento, nenhum momento, ele entra nisso,

[00:37:27] ele entra nisso, né?

[00:37:28] Em nenhum momento ele pega, tipo, e descontextualiza ou apresenta um aspecto crítico a isso que

[00:37:35] o cara falar.

[00:37:36] A moda é melhor porque é uma arte que você usa, que você pode usar na sua vida, ou,

[00:37:40] sabe, não?

[00:37:41] Você só tem um personagem repetindo isso e nada contrapondo.

[00:37:44] Foi que você falou, ó, nenhum dos amigos descolados da Andreia chegou pra ele e falou

[00:37:48] assim, pô, cara, então, essa indústria que você trabalha aí, que gera bilhões

[00:37:52] de dólares, boa parte desses bilhões de dólares, sei lá, é baseado em trabalho escravo.

[00:37:57] Sim, sim.

[00:37:58] Esse lucro é trabalho escravo.

[00:38:00] Ele falha muito porque os amigos e o namorado têm um antagonismo correto com a situação

[00:38:07] dela, só que pra eles não parecerem muito lúcidos, o filme simplesmente escreve eles

[00:38:12] como crianças e aí eles agem de uma maneira muito infantil e de acabar antagonizando ela

[00:38:18] e nunca explicar de tipo, pô, a gente só quer o melhor pra você e a gente acha que

[00:38:21] você está numa situação abusiva e você deveria sair daí.

[00:38:23] E eles são abusivos com ela também?

[00:38:25] São, exato, porque o filme fica com medo de dar muita razão pra eles muito cedo e

[00:38:30] aí escreve eles como babacas também.

[00:38:32] Então, na verdade, ela é a solitária bastiã do racionalismo num filme de idiotas.

[00:38:41] Sim, e o namorado hoje, assistindo, ele é retratado como um grande babaca esquerdo macho

[00:38:46] que não consegue ver a mulher ter mais poder que ele, ganhar melhor que ele, usar roupas

[00:38:52] melhores do que ele, e ele só gosta disso quando ele se beneficia, que é quando ela

[00:38:56] aparece com uma lingerie bonita e aí ele vai lá transar com ela, porque antes disso

[00:39:00] ele não estava gostando.

[00:39:01] Exato, e é isso que o filme faz, o filme usa os amigos e ele pra dizer, tipo, esse

[00:39:07] trabalho é uma relação abusiva que está fazendo mal pra você, só que aí ele vai

[00:39:11] lá e transforma essas pessoas em pessoas completamente incapazes de enxergar um palmo

[00:39:16] da própria cara.

[00:39:17] E aí, ou seja, o filme, ele argumenta contra os amigos e o namorado.

[00:39:24] O filme está tentando que você caia no papinho que ela ouve muito.

[00:39:27] Nossa, o filme é muito pouco sutil nessa parte, que ele faz várias pessoas falarem

[00:39:32] a mesma coisa literalmente com suas bocas, não só em texto, que é, várias pessoas

[00:39:38] matariam pra ter esse emprego.

[00:39:41] Que é, tipo, a coisa mais assim, relacionamento abusivo one on one, de tipo, você quer

[00:39:48] ir embora, é?

[00:39:49] Você quer ir embora?

[00:39:50] Tem quem queira, viu?

[00:39:51] Porque se você for embora, você nunca vai achar alguém como eu.

[00:39:54] Mas eu acho que nesse caso é ainda mais literal, tem pessoas que realmente matariam

[00:40:00] pra estar naquele lugar ali, né cara, não é uma coisa assim, eu acho que mostra toda

[00:40:03] a decadência moral do, a intenção do roteiro obviamente não foi essa, mas daria pra

[00:40:07] a gente levar nesse sentido, porque tem pessoas que obviamente matam estando nesses empregos.

[00:40:12] E fica bem claro, o filme trata como galhofa, né, como piada, o fato de que as pessoas

[00:40:17] se matam para estar ali, né?

[00:40:18] A coisa de que, ah, eu não estou comendo a não sei quantos dias e não sei…

[00:40:22] Essa é a piada, essa é a piada, tipo, eu como quando eu estou quase desmaiando e essa

[00:40:28] é, tipo, como assim essa é a piada do filme?

[00:40:31] E é meio que assim, o filme está tentando, tipo, tirar sarro dessas pessoas, mas tirar

[00:40:35] sarro dessas pessoas como se fosse uma escolha, tipo, essa doidinha fazendo isso.

[00:40:39] E é tipo, cara, não, olha o ambiente, você está retratando exatamente o que eu…

[00:40:41] Existe uma pressão hierárquica superior pra essas pessoas se autoflagelarem dessa maneira.

[00:40:47] E no final, o filme de novo, assim, ele beneficia a personagem e fala assim, olha só, ela fez

[00:40:53] esse sacrifício todos aí, ela aprendeu algo com isso, ela aprendeu que ela é melhor do que

[00:40:56] essa gente que precisa disso.

[00:40:57] Sim, e ela ainda voltou com o namorado, que o sad boy é lá, porque é isso, ele fez

[00:41:02] ela escolher entre o trabalho e ele, aí como ela fez a escolha que é ele, aí beleza,

[00:41:07] aí podemos voltar.

[00:41:09] E as outras pessoas sofrem para emagrecer, mas ela nunca, tipo, além da cena que você citou

[00:41:15] de que ela nega os pãezinhos com o pai, ela nunca, a gente nunca vê que ela está sofrendo

[00:41:20] para fazer uma dieta e tal, se esforçando para isso, mas no final ela tem que ser recompensada

[00:41:24] com, olha só, eu diminui um tamanho, eu não sou mais um 40, eu sou um 38, né?

[00:41:30] E aí ela recebe os parabéns do Nádio, que é meio que o good cop, a voz da semi razão

[00:41:35] daquele moleque.

[00:41:36] O Gush.

[00:41:38] O filme ama o filme, esse filme tem uma grande síndrome de socoma, fala, Orlando.

[00:41:44] Não, porque assim, tem várias coisas aí, porque você falou assim, o filme não critica,

[00:41:48] porque ele não pode criticar a indústria da moda, você falou que ela é uma personagem

[00:41:53] rodeada por idiotas, né?

[00:41:57] Eu não gosto desse termo aí, porque quando eu falei do Bartleby, por exemplo, dos romances

[00:42:01] do Kafka, tem a figura do idiota, por exemplo, que vai se reproduzir o Bartleby, é um idiota,

[00:42:06] do idiota do Dostoievski, né?

[00:42:07] Que é um personagem que ele age meio, que é um sentido positivo a palavra idiota, é

[00:42:11] um personagem que age de forma meio deslocada, que está ali justamente para mostrar toda

[00:42:15] a incoerência daquele mundo, né?

[00:42:16] Toda a mediocridade, todas as violências e tudo o mais.

[00:42:19] Ela não age, não tem ninguém ali que age de fato como idiota, as pessoas que estão

[00:42:22] ali são imbecis, acho que é outra coisa, né?

[00:42:24] E as pessoas têm que ser imbecis, por quê?

[00:42:27] Porque se elas forem idiotas, no sentido filosófico da palavra idiota, que o Deleuze

[00:42:32] vai recuperar e tudo o mais, elas estariam demonstrando como aquele ambiente é violento

[00:42:37] e de que como ela, ao participar daquele ambiente, ela também assume o protagonismo

[00:42:42] dessas violências, né?

[00:42:44] Então, por exemplo, as pessoas falam, muitas pessoas matariam para estar no seu lugar,

[00:42:48] e você está ali.

[00:42:49] Quando a gente pensa, se a gente fosse pensar numa estrutura de poder, o que aquele lugar

[00:42:54] faz, né?

[00:42:55] Por exemplo, vamos pensar, falando de transtornos alimentares e a indústria da moda.

[00:42:59] Ela, como uma assistente, ela tem uma participação crucial naquele ambiente, né?

[00:43:03] De propagar aquela imagem surreal dos corpos, aquela imagem que tem consequências na vida

[00:43:08] das pessoas.

[00:43:09] Então, assim, ela tem uma responsabilidade naqueles crimes, tem uma responsabilidade

[00:43:13] naquela violência daquela indústria.

[00:43:15] Quando eles exentam a crítica, você recupera a ideia de ela é uma personagem boa, porque

[00:43:20] você tem que transformar, não pode ter uma contradição, se não, isso escapa da intenção

[00:43:24] original do filme.

[00:43:25] Acho que o filme tem medo de criticar a indústria da moda, porque justamente isso acabaria por

[00:43:30] terminar aquela coisa que você fala, o personagem não se torna tão adorável assim, né?

[00:43:33] Você vai ter que reconhecer que ela cometeu crimes, né?

[00:43:37] Cometeu coisas que são violentas, coisas que não são legais, assim, não tem como você

[00:43:41] falar, ela voltou para o namorado dela e está tudo resolvido, não é assim?

[00:43:44] Sim.

[00:43:45] É, tanto que eles não criticam que uma das cenas mais famosas do filme é aquela dela…

[00:43:49] Primeiro que assim, ela atravessa muito a rua, né?

[00:43:51] Nossa, como eles adoram atravessar a rua, meu Deus do céu!

[00:43:55] Que inferno!

[00:43:56] Assim, matei um pouco de saudade, confesso, porque é saudade atravessar uma rua cheia, né?

[00:44:00] Nesse momento…

[00:44:01] Nossa, que saudade atravessar uma rua correndo, mas assim…

[00:44:04] Aí, uma faixa de pedestre…

[00:44:06] Nossa, menino, eu tenho que pôr a mão na frente de um táxi, segurando no Starbucks, sonhando…

[00:44:11] Tomar uma buzinada, assim, caralho, porque eu tinha atropelado, chorado…

[00:44:14] É, com o move de sacola, só que sacola da Reiner, sabe?

[00:44:17] Aí, saudade.

[00:44:18] E aí, a cena grande, icônica, é dela atravessando a rua e os carros passando, e conforme o

[00:44:26] carro passa em frente da câmera, muda a roupa dela.

[00:44:31] E ela está com outra roupa e tocando Vogue no fundo, que é a música mais icônica da

[00:44:37] Madonna, quando a gente fala de moda, e ainda mais falando de um filme que é inspirado

[00:44:41] na editora da Vogue, que é a Anna Wintour.

[00:44:43] Então, assim, aquela cena é o supra-sumo da romantização daquele negócio, daquela

[00:44:50] indústria.

[00:44:51] Ter a Gisele Bündchen no filme é a exaltação disso, mas ela não queria ser uma modelo,

[00:44:56] ela queria fazer um outro papel, para não ser considerada sempre a modelo, mostrar que

[00:45:00] ela pode fazer outras coisas.

[00:45:02] Mas assim, umas coisas tão pequenas, sabe?

[00:45:05] Militaram umas coisas tão vazias, que naquela época fazia sentido, mas hoje não faz mais,

[00:45:10] né?

[00:45:11] E essa cena dela atravessando a rua e não sei o quê, isso, assim, eu conheço uma quantidade

[00:45:15] enorme de amigos que o sonho é ir para Nova York para atravessar a rua, entendeu?

[00:45:20] Igual a ela, ficar lá, sendo lindíssimo, com roupas maravilhosas.

[00:45:24] Por que a Anne Hathaway atravessou a rua?

[00:45:27] Essa é a grande pergunta.

[00:45:28] É a grande pergunta desse episódio, né, cara?

[00:45:31] É a notícia do ego.

[00:45:33] Mais um dia a Anne Hathaway é vista, atravessando a rua.

[00:45:36] Eu tenho uma péssima notícia para vocês, que eu acabei de descobrir aqui pesquisando

[00:45:40] sobre esse filme, que talvez nos faça perder toda a esperança na humanidade.

[00:45:44] Eu estava dando uma olhada aqui no IMDB do diretor e da roteirista e tal, e não achei

[00:45:51] nada muito interessante para comentar, a não ser que é muito interessante que o filme

[00:45:55] que o diretor fez logo depois desse foi Marley e Eu, que mostra o nível do trabalho dele,

[00:46:03] assim.

[00:46:04] Mas assim, eu fiquei muito desolado porque eu fui ler aqui o artigo que eu pedi sobre

[00:46:09] o livro que inspirou o filme, porque esse é mais um dado perverso aqui, é que o filme

[00:46:15] é baseado num livro de uma garota, de uma mulher que trabalhou para Anna Wintour e escreveu

[00:46:22] o livro meio que baseado nas experiências que ela teve, escreveu uma versão ficcionalizada

[00:46:26] da experiência que ela teve.

[00:46:27] Ou seja, é um livro escrito por alguém que passou por muitas dessas situações de abuso,

[00:46:31] viu essas situações de abuso em primeira mão.

[00:46:33] E aí eu fiquei muito triste ao ver que ela escreveu uma continuação para o livro,

[00:46:41] lançada dez anos depois, 2013, chamada Revenge Where Sprada, The Devil Returns.

[00:46:48] E na continuação, no tal livro, a Annie, nossa protagonista, virou editora de uma

[00:46:58] revista para noivas e ela reencontra a Miranda.

[00:47:04] Então, assim, soa.

[00:47:05] Eu não li nenhum dos dois livros aqui.

[00:47:07] Adoraria saber, inclusive, como é que é o tom do livro comparado ao do filme e do

[00:47:10] primeiro, mas esse segundo livro me soa como muito tipo mais uma chance para elas baterem

[00:47:14] na tecla de ei, eu aprendi muito com essa mulher.

[00:47:17] Com certeza.

[00:47:18] Deu que li.

[00:47:19] E todo aquele papo de tipo, eu gosto de fazer jornalismo que importa, não sei o que, editora

[00:47:24] de uma revista de noivas.

[00:47:26] Outra revista que só existe para segurar uma indústria que explora pessoas dos dois lados,

[00:47:32] tanto os consumidores com preços abusivos, por causa do momento emocional que as pessoas estão.

[00:47:37] Jéssica, você é uma pessoa que casou, você pode falar para a gente aqui.

[00:47:40] Eu conheço lugar de falar.

[00:47:41] Foi caro vestir de noiva?

[00:47:43] Foi, foi muito caro.

[00:47:44] Exatamente.

[00:47:45] Muito caro.

[00:47:47] Enfim, fiquei muito desolado de saber que a própria autora aqui, cujo nome eu vou puxar

[00:47:53] para vocês, é a Lauren Weisberger, que até ela decidiu entrar na onda de tipo, ei, vamos

[00:48:00] glorificar um pouco mais a Ana Winter.

[00:48:02] Que eu não sei se você lembra, o resultado desse filme foi glorificar muito a Ana Winter.

[00:48:06] Logo depois desse filme sair, o interesse foi tão grande que fizeram um documentário

[00:48:10] sobre o trabalho da Ana Winter na Vogue, que foi um grande sucesso e ela virou uma figura

[00:48:14] muito icônica no mundo inteiro, como tipo, olha essa badass woman.

[00:48:19] Nossa, cara.

[00:48:21] E só um comentário também sobre as roupas, que eu estava lendo hoje algumas coisas sobre

[00:48:26] o filme e tal.

[00:48:27] E a estilista do filme é a mesma estilista de Sex and the City, que ela é especializada

[00:48:32] em high fashion.

[00:48:34] Ah, sim, porque o diretor desse filme, antes de dirigir esse filme, ele dirigiu muitos

[00:48:38] episódios de Sex and the City e Entourage, daí vem o ator do namorado, que era o protagonista

[00:48:43] de Entourage.

[00:48:44] Faz muito sentido.

[00:48:45] Que também, né, tem muitas séries que vão objetificar, né, a gente tem aí um outro

[00:48:50] grande termínio.

[00:48:51] Ah, sim, é não, é.

[00:48:52] Se você quer analisar o subtexto de Entourage.

[00:48:56] Vamos deixar essa montanha russa sem as mãos.

[00:48:59] Sex and the City.

[00:49:00] Sex and the City, cara.

[00:49:01] Também, não, mas Entourage é um ótimo exemplo de uma série que parece que está criticando

[00:49:07] um sistema, mas está individualizando tudo.

[00:49:09] Sim.

[00:49:10] E romanizando e normalizando situações que não deveriam ser normalizadas e romanizadas.

[00:49:15] Hoje em dia, essa série não conseguiria existir.

[00:49:18] É uma série que não ia ter como, assim.

[00:49:21] E essa é a questão que eu queria voltar, então, pra mim, que conclui os nossos pensamentos.

[00:49:25] Jéssica, especialmente você, que como eu, viu isso numa época que a gente era jovem,

[00:49:30] impressionável.

[00:49:31] E é isso.

[00:49:32] Como a gente falou, a primeira vez que a gente assistiu, a gente achou o filme muito legal,

[00:49:34] né?

[00:49:35] O quanto que você acha que as pessoas que tiveram a mesma experiência que a gente acabam

[00:49:39] levando essa experiência pra vida, como tipo, nossa, eu quero muito, é tipo assim,

[00:49:43] acabam levando isso.

[00:49:44] Como, beleza, um desejo perverso de tipo, ah, um dia quando eu tiver muito sucesso eu

[00:49:47] vou poder ser assim, mas mais do que isso.

[00:49:49] Pessoas que, como nós, assim, logo depois desse filme ou na época que vira esse filme,

[00:49:52] estavam entrando no mercado de trabalho e acabaram normalizando, podem ter entrado em

[00:49:56] situações de trabalho meio abusivas e acabaram normalizando porque esse tipo de filme, não

[00:50:03] que esse filme sozinho fez isso, né?

[00:50:05] Mas esse filme sustenta uma ideia que já era muito comum, e que é muito comum ainda,

[00:50:08] essa coisa de que o sucesso, ele é uma desculpa pra várias coisas.

[00:50:11] É, eu sou publicitária, né?

[00:50:13] Então, assim, quando ela, ah, eu perdi um evento porque trabalhei até tarde e falta

[00:50:18] uns amigos publicitários pra faltar no evento com ela também, entendeu?

[00:50:22] Que herida, normal.

[00:50:24] Então, assim, essa coisa da normalização do trabalho excessivo é algo que sempre foi

[00:50:30] claro na minha vida, né?

[00:50:32] No ambiente que eu sempre fui inserida, que é o da publicidade, dentro de agências de

[00:50:36] publicidade principalmente.

[00:50:37] Então, muitas coisas que acontecem ali, eu consigo ver um paralelo muito grande dentro

[00:50:43] da minha profissão, o que é horrível, né?

[00:50:45] E é normal.

[00:50:46] E é muito comum em Hollywood, né?

[00:50:48] Porque isso, Hollywood é americana e como todo bom americano, Hollywood é protestante,

[00:50:54] por mais que muitos em Hollywood sejam judeus, mas a filosofia americana de vida é protestante,

[00:51:00] é a do trabalho, né?

[00:51:02] Como a grande ideologia e a grande virtude do homem.

[00:51:06] Então, assim, e os filmes adoram o trabalho duro como uma resolução de roteiro.

[00:51:12] Porque é muito simples, né?

[00:51:14] Você cria um obstáculo pro protagonista, você precisa ter esse obstáculo, esse conflito,

[00:51:17] né?

[00:51:18] Escrevendo o roteiro.

[00:51:19] Como que ele supera?

[00:51:20] Ué, com trabalho.

[00:51:21] Por quê?

[00:51:22] Porque no cinema o trabalho é só uma montagem.

[00:51:24] Como nesse filme, como em rock, como em tantos outros filmes.

[00:51:27] É só fazer uma montagem.

[00:51:28] Faz a pessoa lá treinando muito ou trabalhando até tarde, corta isso em um minuto com uma

[00:51:32] música legal e você mostra que a pessoa, porra, trabalhou duro.

[00:51:35] Dormiu em cima do caderno, um clássico.

[00:51:37] Isso, exatamente.

[00:51:38] Mas, Hugo, eu acho que também nem é só isso, não.

[00:51:40] Porque, por exemplo, o cinema americano, ele é muito responsável pela glorificação

[00:51:45] de uma certa imagem da produção como o resultado de um esforço conjunto, né?

[00:51:53] Então, toda aquela ideia assim, por exemplo, a imagem do diretor abusivo, né?

[00:51:57] Tipo, olha, ele é um grande gênio artístico, ele abusa de todo set de filmagens.

[00:52:01] Stanley Kubrick, por exemplo, clássico, Stanley Kubrick.

[00:52:04] Ele, cara, abusava de todo mundo.

[00:52:06] Vê o documentário sobre a produção do Iluminado, o que ele fez com a atriz do Iluminado, bicho.

[00:52:11] Sim, com a Shelley Duvall.

[00:52:12] Seria impossível de fazer hoje em dia, sabe?

[00:52:14] Hoje em dia seria impossível.

[00:52:16] Ele seria processado, tudo mais.

[00:52:17] Mas a genialidade da produção final, e eu gosto do Iluminado.

[00:52:21] Eu acho um filme genial ali, né, enfim.

[00:52:23] Menos do que as pessoas imaginam, mas, enfim, é um bom filme.

[00:52:26] Cara, mas exalta-se, justamente, esse filme seria impossível se não fosse aqueles abusos, sabe?

[00:52:33] Esse filme seria impossível se não fosse toda essa genialidade do autor feito daquele jeito, daquela forma e tudo mais.

[00:52:39] Então, assim, eu acho que Hollywood também nunca vai entrar nessa crítica,

[00:52:42] porque, de certa maneira, seria uma maneira dela se auto criticar, né?

[00:52:45] De toda aquela imagem romantizada da produção cinematográfica do diretor como um gênio, sabe?

[00:52:51] Um gênio excêntrico que grita com as pessoas.

[00:52:53] Toda aquela história do Hitchcock que deve tinha alguém no primeiro dia de filmagem, sabe?

[00:52:57] A mina dos pássaros do Hitchcock que ficou lá, sendo filmada e machucada de verdade.

[00:53:02] Porque ele queria fazer a cena um milhão de vezes até ela realmente ficar assustada.

[00:53:07] Isso é um absurdo, né? E isso foi assim, tranquilo, normalizado.

[00:53:11] Ah, ele era realmente muito duro e tudo bem.

[00:53:14] Só para faltar uma coisa, você falou que o Hollywood é protestante, né, no sentido.

[00:53:20] E judaica, acho que nesse ponto, judaica ou protestante, isso não tem uma grande distinção,

[00:53:29] porque são duas religiões baseadas na ideia de sacrifício, né?

[00:53:33] Trabalho como sacrifício.

[00:53:35] Sei lá, você for pensar na queda do Éden, enfim, na origem da humanidade.

[00:53:41] Você vai viver do suor do seu rosto, enfim.

[00:53:43] Toda a ideia do sacrifício dentro da cultura judaica.

[00:53:47] Toda a ideia, por exemplo, do sacrifício enquanto trabalho, né?

[00:53:50] Tipo, o trabalho é um sacrifício necessário para que o indivíduo possa florescer,

[00:53:54] para que as coisas do mundo possam ser transformadas em propriedades.

[00:53:57] Que funda a metafísica liberal que está na base do pensamento liberal do capitalismo, é isso.

[00:54:03] Então, basicamente, você está pegando toda aquela ideia de sacrifício

[00:54:07] que está lá atrás na origem do capitalismo e transformando assim, vamos dobrar a aposta.

[00:54:12] As pessoas não têm só que sacrificar, sei lá, trabalhar duro, não.

[00:54:16] Elas têm que sacrificar todos os aspectos da sua vida, né?

[00:54:19] Isso lá atrás, lá no início do capitalismo, era a ideia de que você ganha dinheiro,

[00:54:23] você não gasta o dinheiro com bebida, sabe?

[00:54:27] Que era a ética protestante, o espírito do capitalismo é isso, né?

[00:54:30] Você pega o dinheiro e vê que você gasta com os prazeres da vida, os prazeres mundanos.

[00:54:33] Então, você reinveste no negócio.

[00:54:35] Todo esse sacrifício da vida nos filmes e no estilo de vida que a gente tem hoje,

[00:54:40] ele é convertido num sacrifício completo.

[00:54:42] Você vai ter que abdicar das suas relações de parentesco.

[00:54:44] Você vai ter que abdicar do afeto dos seus amigos.

[00:54:47] Você vai ter que abdicar de ver seus filhos crescerem, sabe?

[00:54:51] Você vai ter que abdicar de todos os outros aspectos pra justamente viver pelo trabalho,

[00:54:55] pelo produto do seu trabalho.

[00:54:57] Sim, mas eu fiz a comparação com o protestantismo,

[00:55:00] não só porque eu acho que ele tem uma influência muito maior na cultura americana,

[00:55:05] pra além de Hollywood, mas porque eu acho que tem uma distinção aí,

[00:55:08] porque eu acho que existe um certo pragmatismo na visão judaica de trabalho e a sua necessidade,

[00:55:14] de como algo que você tem que fazer, porque você tem que sustentar a sua família

[00:55:18] e a comunidade em geral.

[00:55:20] E o protestantismo, ele usa a velha e boa cenoura no palito do cristianismo,

[00:55:29] de você vai trabalhar e se sacrificar porque depois haverá uma recompensa.

[00:55:34] Sim.

[00:55:35] Que não é o trabalho em si, entendeu?

[00:55:37] Sim, sim, mas acho que…

[00:55:39] Que não é o que acontece com ela, porque o final feliz dela é ela conseguir o próximo trabalho.

[00:55:44] Foda-se como ela vai fazer, isso vai ser difícil não.

[00:55:47] A gente só tem que ver que ela chegou onde ela queria e pronto.

[00:55:50] Ali é a redenção dela ali.

[00:55:53] Aquele editor contratando ela no jornal é o São Pedro dela.

[00:55:57] E não só acha que essa é a redenção dela, né?

[00:55:59] É a redenção do próprio trabalho anterior, porque mostra que as pessoas entram e saem…

[00:56:02] Dime o que foi que foi que foi contra ela.

[00:56:04] Porque fica implícito que ela só consegue o que ela queria porque ela se subjugou àquela situação.

[00:56:09] Sim, por conta da indicação da Miranda.

[00:56:12] É exatamente o que ela falou, eu vou ficar aqui porque essa indicação vai valer,

[00:56:16] esse sacrifício vai valer outras coisas.

[00:56:18] Exatamente, e o filme diz que é isso aí, ela estava certa em aturar.

[00:56:22] Sim, aguentem, é isso.

[00:56:24] E aguente o flerte bizarro desse homem que em 2006 era inexplicávelmente considerado atraente.

[00:56:36] Para ele poder te arranjar um manuscrito do Harry Potter depois.

[00:56:40] Nossa, essa construção com esse cara foi um negócio assim bizarro.

[00:56:45] Foi um negócio bizarro, é só o cara chegar lá e falar duas coisas para ela e mostrar como ele era forte, viril e não sei o que lá.

[00:56:52] Que é a parada que o Stanley Tuth até fala, acho que de um outro cara do filme que é tipo,

[00:56:57] quanto menor o homem, maior o ego, acho que ele fala isso, né?

[00:57:01] Ele fala do chefe do dono da editora.

[00:57:05] É, e é muito isso, todos os homens têm esse ego e a única pessoa que tem esse ego comparável é a Miranda.

[00:57:11] Porque ela pode, porque ela é uma mulher que está no poder e ninguém fala sobre os outros caras que têm esse ego grande, só da Miranda.

[00:57:18] E que sacrifica os casamentos dela, que ela mesma diz que é ruim para a saúde mental das filhas e tudo mais, mas tudo isso é justificável.

[00:57:26] E é muito louco, porque aí eles, eu tinha esquecido, né, que ela acaba, ela transa lá com o Garanhão quando eles estão em Paris.

[00:57:35] Só que aí o significado que isso ganha nesse filme é muito ruim, porque logo no mesmo dia ela transa com ele e descobre que ele faz parte de um plano para atirar a Miranda no trabalho dela.

[00:57:46] E aí tipo, o filme quer que eu me importe, que aquela mulher absurdamente rica vai deixar de ter o trabalho dela, não estou preocupado.

[00:57:55] E aí ela volta e volta para o namorado, então ele é usado, a coisa dela ter transado com esse outro cara é usado só como tipo,

[00:58:03] ela cometeu alguns erros, mas ela aprendeu muito.

[00:58:05] O plot twist do filme, a parte do atrito final, ela correr para contar para a chefe abusiva que a chefe abusiva perdeu o emprego.

[00:58:13] Essa foi a emoção do filme, eu estava assim, poque bom, né?

[00:58:18] Ela mostrar, é, síndrome de Stockholm, mostrar lealdade para alguém que é seu captor, né?

[00:58:22] E fora que, só para finalizar, a melhor hora onde ela se liberta dessa coisa de ser seduzida pelo cara e etc.

[00:58:30] É quando ele chama, acho que ela de meu bem, alguma coisa assim.

[00:58:33] É, ele chama ela de baby e ela fala, I’m not your baby.

[00:58:36] É, e ela bate a porta. Essa é a hora que ela se revolta.

[00:58:39] E assim, honestamente, eu não sei se eu estou errado, Jéssica, eu não sei a sua opinião, mas assim, eu achei meio desnecessário naquela hora.

[00:58:45] Tipo assim, eu não senti que ele tratou ela mal em nenhum momento.

[00:58:48] Não, não foi.

[00:58:49] Ele foi super honesto com ela.

[00:58:51] Cara, isso aí é um mock-up que a mulher lá vai pegar o emprego da sua chefe e ela quer me levar para trabalhar na revista e tal.

[00:58:56] Eles quiseram transformar esse cara no vilão e o namorado dela no bonzinho, sendo que é o contrário.

[00:59:02] Sim, exato, esse cara talvez não seja nem o bonzinho, mas tudo que ele está dizendo é tipo, cara, eu não tenho afeto nenhum por essa sua chefe abusiva.

[00:59:11] É, eu não me importo, eu realmente não me importo.

[00:59:13] Eu estou aqui também de baby porque, sei lá, a gente transnou.

[00:59:16] É, a gente está aqui.

[00:59:17] Exato, ele não é um superior tentando criar uma intimidade que não existia.

[00:59:22] Sim, não é isso.

[00:59:23] E na verdade, ele é a única pessoa que está tratando isso.

[00:59:26] Porque o filme, de alguma maneira, ele tenta dizer que a Miranda foi longe demais na busca do sucesso profissional e tudo mais,

[00:59:33] mas ele valoriza claramente essa busca pelo sucesso profissional.

[00:59:36] E esse cara está simplesmente falando isso porque ela me chamou para ser o head of editorial,

[00:59:42] tipo, eu vou mandar em toda a parte de…

[00:59:46] A personagem da Anne Hathaway, se não tivesse na total síndrome de Stockholm ali, teria visto isso como,

[00:59:50] cara, esse cara além de um bom escritor que eu já gosto, ele tem visão aí, está trabalhando aí,

[00:59:55] ele está fazendo exatamente o que eu quero fazer, sabe, de criar um espaço para mim, o network.

[00:59:59] Enfim, esse filme é muito inconstante.

[01:00:01] Não, mas pelo contrário, acho que é consistente, cara, isso.

[01:00:04] Ok, verdade.

[01:00:05] Não, é porque você fala da síndrome de Stockholm, mas assim, é o que eu estou falando.

[01:00:09] Porque se você enxergar o filme como ponto de vista dela, ele é totalmente…

[01:00:12] É isso, porque o crime do cara é não para compartilhar dessa perspectiva,

[01:00:17] aquilo que eu estava falando das paixões tristes do escravo,

[01:00:22] do cara cuja ligação com o senhor é baseada nesse sentimento de esperança,

[01:00:27] sempre em busca de uma recompensa, o filme é sobre isso.

[01:00:30] Então, o plot twist do filme é justamente, olha, tem um personagem címico,

[01:00:35] um personagem que não compartilha disso que todo mundo tem que compartilhar,

[01:00:38] inclusive os telespectadores.

[01:00:40] Cara, você tem que se importar que essa mulher é extremamente abusiva e extremamente inescrupulosa,

[01:00:47] ela pode perder o seu cargo.

[01:00:49] Uau!

[01:00:50] Sabe?

[01:00:51] E agora, hein?

[01:00:53] Ela realmente já fez uma fortuna, não é?

[01:00:56] Ela não precisa trabalhar para viver.

[01:00:58] É, vai ter o seguinte, vai ser ela morando na rua com as crianças, sabe?

[01:01:02] Só aquela casa onde ela mora, se ela pegar e alugar aquela casa,

[01:01:05] se for morar num apartamento menor, já está feito.

[01:01:07] Gente, ela vem de três brusinhas, está feito o ano dela.

[01:01:09] É isso, cara.

[01:01:10] Veste a metade do dinheiro e para hora.

[01:01:12] É, cara.

[01:01:13] Então, assim, o filme, a diagéssia do filme tenta criar essa ideia de que, olha,

[01:01:17] devemos todos viver pelas paixões tristes, devemos todos ter uma lealdade

[01:01:23] com aqueles que abusam da gente, porque essas pessoas que abusam da gente

[01:01:26] podem nos dar recompensas, né cara?

[01:01:28] É uma grande metáfora.

[01:01:29] A baixa cabeça que de vez em quando te faça um carinho.

[01:01:32] Sim, me lembra de um filme que veio uns anos depois, que é um pouco assim,

[01:01:35] que é a rede social lá do…

[01:01:39] Ah, esse eu não consegui nem assistir.

[01:01:41] Que o filme, ele fala assim, cara, olha só, ele fez tudo isso,

[01:01:45] todo o sucesso que ele tem, ele tem porque essa mina deu um pé na bunda nele.

[01:01:49] E está corretíssimo você agir por rancor.

[01:01:54] O rancor é o grande negócio que você tem que ter na sua vida.

[01:01:57] Só uma coisa, lembrando aqui, na mesma época você começou esse processo

[01:02:02] de endeusar o Steve Jobs, né cara?

[01:02:04] Sim, sim, porque o Steve Jobs começa assim, endeusado no ano seguinte

[01:02:10] com o primeiro iPhone, 2007.

[01:02:12] Essa ideia dos pessoas abusivas, como pessoas que realizam coisas

[01:02:16] que estão sacrificando a vida dos outros, dos seus empregados,

[01:02:21] das pessoas que são subordinárias, mas ele é um cara de visão,

[01:02:24] ele consegue sacrificar em nome de alguma coisa, que é um iPhone que vai dar de ouro pra ele.

[01:02:28] E House estreia ali, 2003, 2004, e aí a quantidade de séries e filmes na época

[01:02:34] que saem dos Estados Unidos com essa coisa que eu mencionei antes, que é isso,

[01:02:38] é o líder abusivo, que é tipo, apesar de tudo, ele merece ser líder.

[01:02:42] De estar sacrificando pessoas em nome de alguma coisa,

[01:02:45] enquanto existem pessoas que sacrificam outras em nome de nada.

[01:02:48] Exato, e me parece muito uma reação das pessoas que estão tendo que viver, né,

[01:02:53] como um capitão americano que tem que viver com a realidade de que, ué,

[01:02:56] o meu país ou a minha comunidade tá lá fazendo isso, tá sendo assassina, abusiva, genocida,

[01:03:02] e eu tenho que, de alguma forma, justificar isso pra mim mesmo,

[01:03:05] e aí quando, né, vamos presumir a total inocência da produção audiovisual americana.

[01:03:11] Mesmo que não houvesse interferência nenhuma do departamento de defesa e tudo mais,

[01:03:17] mas assim, vamos pensar, a angústia de um criador nessas condições leva ele a criar uma arte

[01:03:24] que justifica, até pro alívio próprio esse tipo de atitude,

[01:03:28] e o que acontece quando isso é um produto de consumo de massa?

[01:03:31] Ué, esse argumento é absorvido pela gente, e eventualmente a gente usa daquilo,

[01:03:36] porque tá ali na nossa memória, no nosso arsenal intelectual,

[01:03:41] a gente acaba usando os argumentos que a gente conhece.

[01:03:44] É o código, né, fornece o código do real, assim, pra você interpretar.

[01:03:48] Então, quantas pessoas viram esse filme e quiseram se tornar estilistas, ir pra indústria da moda, sabe?

[01:03:54] Quantas pessoas, cara, esse aqui é o meu filme preferido, tem a Miranda enquanto uma imagem,

[01:03:59] inclusive nesses tempos de representatividade, nossa, tá vendo?

[01:04:02] A imagem de uma mulher forte, uma mulher que faz,

[01:04:04] uma mulher que tá vivendo nesse mundo e tá conseguindo fazer as coisas.

[01:04:07] Pô, bicho, sabe? Olha onde a gente tá indo parar com esse discurso, é esse que é o ponto, né?

[01:04:12] Que como o filme de gangster e como vários tipos de filme muito comuns,

[01:04:16] ele também cria essa ideia do regras precisam existir e também existem pessoas pra quem as regras não se aplicam.

[01:04:23] A excepcionalidade, né?

[01:04:24] A excepcionalidade do indivíduo, exato.

[01:04:28] É isso, gente, muito obrigado.

[01:04:29] Jéssica, conta pra gente, você tá toda quarta-feira comigo no Imagina Juntas.

[01:04:33] Sim.

[01:04:34] Você tá todo dia, né, no diário de bordo com o Neko.

[01:04:36] Doideira, sim, estou.

[01:04:38] É um podcast diário, direto, das síndromes de Stockholm de vocês, né?

[01:04:42] É, a gente achou que ia ser uma quarentena rápida, né, estamos indo para o episódio 60,

[01:04:47] então que Deus esteja ao nosso lado mesmo, é 20 minutos, então é rápido, graças a Deus.

[01:04:51] Mas é isso, todo dia.

[01:04:53] Maravilha, é sobre vocês e a vida de todos os vizinhos que vocês conseguem ver da janela, né?

[01:04:56] Todos eles já têm nome e eu já sei a vida de todos eles.

[01:05:00] A horário que eles jantam, aqueles almoçam, é tudo.

[01:05:03] E Jéssica Greco nas redes sociais.

[01:05:05] Exato.

[01:05:06] Exato, tá escrito aí na descrição.

[01:05:08] Orlando, quer fazer plug dos seus outros projetos?

[01:05:11] Não, eu tô aqui com você direto.

[01:05:15] É isso, eu também tô aqui, esse é o meu grande negócio.

[01:05:20] Ouça esse podcast, semana que vem tem mais desse podcast, é isso.

[01:05:23] É isso.

[01:05:24] Vamos focar, né, vamos focar de cada vez.