#03 - O Poço e a Indomável Sonhadora
Resumo
Este episódio do Popcult apresenta uma análise comparativa entre dois filmes com visões diametralmente opostas sobre a humanidade: ‘O Poço’ (The Platform) e ‘Indomável Sonhadora’ (Beasts of the Southern Wild).
‘O Poço’ é criticado por sua visão pessimista e anti-científica da natureza humana, que naturaliza a ideia de que ‘o homem é o lobo do homem’. Os apresentadores argumentam que o filme parte de uma premissa falha ao criar uma estrutura artificial (a prisão vertical) que estimula o egoísmo e a violência, para então concluir que os seres humanos são naturalmente competitivos e incapazes de cooperação espontânea. A análise aponta problemas na construção do filme, como desenvolvimento fraco de personagens, uma trama que rapidamente se converte em ‘torture porn’, e uma mensagem final confusa sobre quem seria o destinatário da suposta ‘mensagem’ trazida pela criança.
Em contraste, ‘Indomável Sonhadora’ é elogiado como um retrato realista da solidariedade humana em tempos de crise. Baseado em dados etnográficos reais do pós-furacão Katrina, o filme mostra como comunidades em situação de extrema pobreza e isolamento desenvolvem formas de cooperação e partilha. A narrativa, vista através dos olhos da criança Hushpuppy, celebra a capacidade humana de criar laços comunitários mesmo diante da tragédia, oferecendo um contraponto otimista à visão apresentada em ‘O Poço’.
A discussão expande para questões antropológicas e políticas, criticando a noção de ‘estado de natureza’ hobbesiano como uma construção ideológica que justifica hierarquias sociais. Os apresentadores argumentam que ‘O Poço’ recalca essa visão hierárquica do mundo, enquanto ‘Indomável Sonhadora’ oferece um exemplo de como sociedades podem se organizar sem estruturas rígidas de poder. O episódio também critica a mentalidade ‘salvadora’ do protagonista de ‘O Poço’, comparando-a com a postura de certos intelectuais que se veem como portadores da verdade para as ‘massas ignorantes’.
Por fim, o episódio recomenda que, especialmente durante a quarentena, as pessoas busquem filmes como ‘Indomável Sonhadora’ que oferecem alento e esperança, em vez de visões pessimistas como a de ‘O Poço’. Orlando também promove uma campanha de arrecadação para ajudar populações indígenas afetadas pela pandemia de COVID-19.
Indicações
Filmes
- Cubo (Cube) — Recomendado como um filme melhor que ‘O Poço’ com uma construção arquitetônica fisicamente impossível e pessoas morando violentamente dentro dela. Tem continuações: Cubo 2: Hipercubo e Cubo Zero (prequel).
- O Dia em que Dorival Enfrentou a Guarda — Curta-metragem de Jorge Furtado que se passa numa prisão brasileira durante o regime militar. Considerado muito melhor que ‘O Poço’ e com apenas 14 minutos de duração - o tempo que ‘O Poço’ poderia ter durado para ser bom.
- Matrix — Mencionado como exemplo de uma ‘jornada messiânica’ melhor executada do que a apresentada em ‘O Poço’.
- A Encantadora de Baleias (Whale Rider) — Sugerido como exemplo de filme que ‘aquece o coração’ e oferece alento, especialmente durante a quarentena.
Livros
- Dom Quixote — Mencionado como o livro que o protagonista de ‘O Poço’ leva para a prisão. Os apresentadores discutem como o filme tenta fazer uma analogia com os temas do livro, mas falha em abraçar completamente o ideal da luta contra moinhos de vento.
Linha do Tempo
- 00:01:35 — Introdução aos filmes e suas visões opostas — Orlando explica por que escolheu esses dois filmes: ‘O Poço’ representa uma visão pessimista e anti-científica da humanidade que naturaliza a ideia de que ‘o homem é o lobo do homem’. Já ‘Indomável Sonhadora’ serve como contraponto, celebrando a solidariedade humana mesmo em tempos sombrios. A discussão estabelece o tema central do episódio: como diferentes narrativas cinematográficas constroem imagens opostas da natureza humana e da capacidade de cooperação social.
- 00:03:08 — Análise da premissa e estrutura de ‘O Poço’ — Gus descreve a premissa do filme ‘O Poço’: uma prisão vertical surrealista com mais de 200 andares, onde uma plataforma com comida desce por três minutos em cada nível. Quanto mais baixo, menos comida sobra, criando uma dinâmica de competição extrema. Os apresentadores criticam a simplicidade da metáfora visual e notam que o filme parece um curta de estudante ampliado, com problemas evidentes de montagem e desenvolvimento de personagens que refletem inexperiência dos criadores.
- 00:05:38 — Problemas narrativos e visão de mundo em ‘O Poço’ — A discussão aborda as falhas narrativas do filme, especialmente a conversão rápida de uma premissa potencialmente interessante em um ‘filme slasher’ ou ‘torture porn’. Os apresentadores criticam a visão de mundo ‘tosca’ e ‘anti-científica’ do filme, que apresenta os seres humanos como naturalmente selvagens e incapazes de cooperação sem intervenção violenta. O protagonista, que entra no poço para parar de fumar, é analisado como uma figura messiânica problemática cuja violência é justificada por uma ‘boa causa’.
- 00:12:16 — Crítica ao conceito de ‘estado de natureza’ — Orlando desenvolve uma crítica antropológica ao conceito de ‘estado de natureza’ que fundamenta filmes como ‘O Poço’. Ele argumenta que essa ideia foi inventada para justificar governos autoritários e não reflete a realidade histórica das sociedades humanas. Diversas populações ao longo da história se organizaram em escalas grandes sem hierarquias fixas ou estratos sociais privilegiados. ‘O Poço’ recalca essa visão hierárquica como natural, quando na verdade é uma construção ideológica.
- 00:19:03 — Meritocracia e classismo em ‘O Poço’ — Os apresentadores discutem como ‘O Poço’ também aborda indiretamente a ideia de meritocracia, com a possibilidade de ‘sair’ do poço após dois meses se a pessoa se comportar adequadamente. A análise critica a visão classista do filme, que retrata pessoas em estado de necessidade como incapazes de cooperação e destinadas à barbárie. Essa perspectiva reflete e perpetua estereótipos sobre pobres como indivíduos incompletos que precisam ser guiados por uma autoridade intelectual.
- 00:26:10 — Introdução a ‘Indomável Sonhadora’ e seu contexto — A discussão muda para ‘Indomável Sonhadora’, filme de 2012 que se passa em uma comunidade pobre isolada na região da ‘Banheira’ (Bathtub) após o furacão Katrina. Os apresentadores destacam como o filme retrata a extrema pobreza americana, algo raro no cinema mainstream dos EUA. A narrativa é centrada na perspectiva da criança Hushpuppy e celebra a solidariedade que emerge naturalmente entre pessoas em situação de miséria material, oferecendo um contraste direto com a visão de ‘O Poço’.
- 00:29:02 — Base etnográfica real do filme e solidariedade — Orlando explica como ‘Indomável Sonhadora’ é inspirado por dados etnográficos reais do pós-Katrina, onde comunidades desenvolveram soluções locais de cooperação em vez de se degenerarem em violência. Ele contrasta isso com a premissa artificial de ‘O Poço’, destacando como o filme mostra pessoas organizando jantares coletivos e se ajudando mutuamente em situações de tragédia. Essa representação baseia-se em observações reais de como comunidades vulneráveis realmente se comportam em crises.
- 00:32:02 — Comida e partilha como temas centrais — Os apresentadores destacam o paralelo interessante entre os dois filmes no tema da comida. Enquanto em ‘O Poço’ a comida é motivo de competição e violência, em ‘Indomável Sonhadora’ ela é constantemente partilhada. Mesmo quando Hushpuppy está perdida, todas as pessoas que encontra oferecem comida. Esta diferença ilustra como os filmes representam visões opostas da natureza humana: uma baseada na escassez e competição, outra na abundância e partilha.
- 00:37:32 — Celebração contínua versus acumulação capitalista — Orlando discute como ‘Indomável Sonhadora’ mostra comunidades que estão constantemente celebrando e partilhando, em contraste com a mentalidade acumuladora do capitalismo. Ele cita um exemplo antropológico de uma população melanésia que, ao receber ferramentas modernas que reduziam seu tempo de trabalho, escolheu usar o tempo extra para festejar em vez de produzir mais. Esta visão alternativa de socialidade contrasta radicalmente com a hierarquia rígida e competitiva apresentada em ‘O Poço’.
- 00:43:20 — Recomendações de filmes alternativos e conclusões — Os apresentadores concluem que ‘Indomável Sonhadora’ é um retrato realista da solidariedade, enquanto ‘O Poço’ é uma ‘fábula pessimista e classista’. Eles recomendam assistir a outros filmes como ‘Cubo’ (2000) para quem quer ver uma metáfora arquitetônica melhor executada, ou ‘O Dia em que Dorival Enfrentou a Guarda’ (curta gaúcho disponível no YouTube) para uma história prisional mais eficaz. O episódio termina com um apelo para que as pessoas busquem filmes que ofereçam alento durante a quarentena.
Dados do Episódio
- Podcast: Popcult
- Autor: Atabaque Produções
- Categoria: TV & Film Film Reviews
- Publicado: 2020-06-16T08:30:08Z
- Duração: 00:55:47
Referências
- URL PocketCasts: https://podcast-api.pocketcasts.com/podcast/full/57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2/f24b1ea9-542e-4bfa-9771-73e7bb9cffad
- UUID Episódio: f24b1ea9-542e-4bfa-9771-73e7bb9cffad
Dados do Podcast
- Nome: Popcult
- Tipo: episodic
- Site: https://www.spreaker.com/podcast/popcult—4416630
- UUID: 57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Olá e bem-vindo ao episódio do Pop Cult que vai discutir dois filmes como diametramente
[00:00:22] opostos em suas visões sobre a humanidade.
[00:00:26] O primeiro é O Poço, o filme que todo mundo mandou você ver no Netflix durante a quarentena e fazendo a pesquisa para esse episódio eu descobri que tem outro filme de 2019 com o nome O Poço, então esse aqui é o que se chama em inglês The Platform e no original espanhol El Rojo.
[00:00:43] E ele é do diretor Gauder Gass… ele é o primeiro longa metragem do diretor Gauder Gastello Ruxa e quando ele fizer um filme mais legal eu vou aprender a pronunciar direito o nome dele e a história e o roteiro são do David de Sola ou David de Sola e a gente quer contrapor esse filme com um filme de 2012 The Beasts of the Southern Wild lançado aqui no Brasil como Indomável Sonhada.
[00:01:13] O diretor é o Ben Zeitlin acredito que é assim e foi escrito por ele e pela Lucy Alibar e a estrela do filme que é realmente a atriz Mirim que faz a Hushpuppies é a Cuevenzane Wallis e eu espero ter pronunciado todos os nomes direito.
[00:01:35] Aqui comigo como sempre Orlando Calheiros, Orlando por que você que escolheu esses filmes de hoje? Então por que a gente vai falar de O Poço para falar de Indomável Sonhada e por que a gente vai falar de Indomável Sonhada para falar de O Poço?
[00:01:51] Então meu querido Gus, primeiro porque O Poço é um desses filmes que recalcam um certo tipo de imaginação sobre a sociedade. Quando eu digo recalco eles naturalizam a ideia de que o homem é o lobo do homem e transformam isso no seu mote principal.
[00:02:08] Eles trazem aquele tipo de filme que traz consigo uma visão muito pessimista sobre a humanidade, sobre a espécie humana e uma visão não é só pessimista como completamente anti científica e para contrapor isso é um filme que serve como uma espécie de alento é um filme que celebra justamente a solidariedade em tempos sombrios que esse Indomável Sonhadora tem todo um contexto de tragédia, todo um contexto de fim do mundo.
[00:02:39] Fala sobre justamente como diante da diversidade o que floresce não é o homem, o lobo do homem. Na verdade o que floresce é a solidariedade entre as pessoas.
[00:02:48] Pois é. Então vamos começar um pouco com O Poço porque é o que está nos gerando mais Billy aqui eu acho. Vamos lá algumas coisas. O Poço esse filme tem esse nome porque ele se passa inteiramente nessa prisão surrealista ali que é um grande poço
[00:03:08] com mais de 200 andares e em cada andar tem duas pessoas que não se conhecem previamente e tem uma plataforma que vai descendo.
[00:03:19] Ela fica tipo três minutos em cada andar e nela há um banquete que é servido lá no andar zero no topo e vai descendo e a cada andar que desce ela fica três minutos e as pessoas podem comer o que elas quiserem.
[00:03:32] Elas não podem pegar nada de comida para guardar para depois. Elas têm que consumir enquanto a plataforma está ali no andar delas.
[00:03:38] E quanto mais baixo chega a plataforma menos comida sobra e as pessoas comem excessivamente nos andares superiores e fazem uma grande bagunça e urinam dos andares de baixo.
[00:03:55] Enfim é uma grande é a barbárie mais clássica a ser imaginado assim é um comportamento acho que medieval que a gente pode dizer só que com uniformes cinzas e o tipo de cenário que você faz quando você não tem muito dinheiro para filmar porque todo andar é igual e só muda iluminação.
[00:04:15] Então a primeira coisa que eu senti vendo esse filme quando ele estava começando é que eu estava assistindo um curta metragem de estudantes de cinema e pesquisando sobre o filme fui ver que não está muito longe.
[00:04:29] É o primeiro longa desse diretor é um dos primeiros longas escritos pelo Davi e it shows sabe eu acho que fica aparente ali que talvez o material que eles tivessem ali o germe daquela história fosse interessante mas não sustenta é um bolo que abatumou sabe.
[00:04:53] Sim sim nossa cara e você falou que isso fica claro né tipo a experiência deles no caso do diretor para mim fica bastante evidente porque o filme tem alguns problemas bem sérios de montagem desenvolvimento de personagens sabe uma coisa do tipo sei lá às vezes as falhas são muito visíveis quando ele falha ele falha miseravelmente.
[00:05:16] Sim eu acho que inclusive tem falhas do filme que são refletidas talvez por falhas na visão de mundo do protagonista o goreng que é o protagonista que é o garotinho garotinho é um homem de barba na cara mas um garotinho no seu coração que decide a gente não sabe por que.
[00:05:38] Porque o filme tem dessas ele acha que quanto menos ele explica mais inteligente ele é mas quando o criador não tem nenhuma explicação para o que ele está fazendo e para a lógica do que as pessoas fazem isso não acho que não é uma forma muito boa mas aí eu esse protagonista ele todo mundo pode levar um objeto lá para dentro né e ele levou um livro ele é a primeira pessoa que levar um livro e ele leva um donkeyshot e eu fiquei o tempo inteiro falando olha só esse filme vai fazer.
[00:06:08] Uma grande analogia entre os temas de donkeyshot e o tema desse filme e não é um filme que abraça completamente o ideal da luta contra os moinhos de vento talvez sim eu acho que mais ele rapidamente esse é o ponto quando eu falei que tem uns problemas sérios de montagem é porque quando eu comecei a assistir o filme eu falei a cara até os até os 10 primeiros minutos estava muito interessado depois eu falei.
[00:06:38] O filme se perdeu em 10 minutos tipo parecia que realmente ele estabeleceu um paralelo daquela situação com a situação do donkeyshot e ainda tenta depois do final ele tenta reconstruir isso com um certo idealismo do personagem tudo mais.
[00:06:53] Mas rapidamente viram um filme de slasher ou daqueles filmes que fizeram bastante sucesso na meados do século na meada da primeira década desse século como o alberg como é que chama aquele estilo é tipo um terror tipo jogos mortais é um terror pornográfico uma coisa assim gore mas não é um gore é outra coisa torture porn isso isso isso isso por não de tortura isso então tipo assim ele realmente rapidamente se converte
[00:07:23] num terror de pornô de tortura né e ele não se recupera né toda a toda porque toda toda a ideia que pareceu que ele desenvolveu um comentário social usando donkeyshot isso rapidamente perde o sentido porque viram filme slasher pornô de tortura essas coisas todas né eu acho que pior do que perder sentido ele ele revela uma visão de mundo muito tosca assim né que como você falou é inclusive antes científica.
[00:07:53] Não só essa questão de tipo olha só o homem o lobo do homem o problema é que as pessoas não não as pessoas são selvagens e elas não conseguem se ajudar elas sempre vão se voltar umas contra as outras e oprimir umas às outras e aí no final do filme a questão dele é não a garota é a mensagem né a garota é a mensagem mas a mensagem para quem ela vai passar rapidamente por todos os andares ninguém vai ver ela quem vai ver elas são os cozinheiros lá em cima né o que
[00:08:23] a metáfora que é esse filme se a gente puder dizer isso é uma grande elite que controla tudo aquilo que está ali então assim de novo o filme ele parece ser extremamente elitista né assim ele a vida humana para ele não é algo muito universalmente preservável as vidas tais qual a do nosso protagonista talvez ou daquela criança são vistas como mais nobres e mais puras tanto que na luta para chegar até lá embaixo
[00:08:53] a violência e as fatalidades estão liberadíssimas e viram muito viram catárticos assim por mais que haja um semblante de conflito e de olha só que que coisa horrível é a violência no começo do filme nas primeiras duas ou três mortes ali rapidamente vira uma coisa de
[00:09:12] é isso nossos nossos heróis estão matando todo mundo igual Rambo e aí vira uma uma jornada muito sem sentido assim porque você não consegue não é uma questão de você não entende a mecânica pela qual a tal revolução que ele quer tentar criar ali vai se dar mas é que você não entende nem a ideia por trás dessa revolução você não entende qual que é a mensagem o filme acha que dizer ela é a mensagem é mais do
[00:09:42] que mais do que o suficiente e não é até porque você não deixa claro para quem é a mensagem no final das contas a mensagem parece ser para quem está botando a comida na mesa que o próprio filme retrata como mais engrenagens do de uma grande
[00:09:58] grande do grande sistema opressor assim não seria nem as pessoas que têm que ser impressionado com aquela mensagem em algum momento você você assistindo aquele filme você acredita que aqueles cozinheiros tem alguma escolha sobre o que eles fazem ali o que eles estão fazendo eles já sabem que eles estão em uma condição estranha eles servem um banquete todo dia para uma mesa vazia sabe eu não entendo muito o que aquele filme acha que está dizendo ali e o que ele está dizendo com o que ele faz é bem como você falou assim é uma crítica rasa
[00:10:28] e eu e eu tipo é o tipo de crítica que você ouve vindo de pessoas que falam a seguinte frase o problema do brasileiro é a pessoa que sempre fala isso que começa uma frase com o problema do brasileiro é ela é sempre um brasileira e dois não é parte do problema
[00:10:46] né na visão dela e o protagonista muito isso sabe o protagonista da o tempo inteiro tipo tentando dizer que a humanidade pode ser melhor se ela só tipo concordar com ele é quando na verdade ele mostra que ele é tão ruim com todos os outros ali e não tem nenhuma capacidade especial de liderar ninguém nem de trazer nenhuma ideia ele é incapaz de se comunicar com as pessoas então fica uma ideia de não tudo bem você pode matar todo mundo aqui dentro para salvar a ideia de
[00:11:16] que essas pessoas aqui dentro estavam sendo mais uns com os outros então é o filme tem um paralelo meio com Jesus Cristo ele tem uma coisa meio o homem que porque ele entra no poço para parar de fumar ou seja é um homem que cujo o maior objetivo dele é negar os vícios negar um vício ele entra lá para tentar parar de fumar e aí para tentar parar de fumar o sujeito depois ele tem aquela coisa de ele não ir embora ele ficar por lá e tudo mais então tem toda essa metáfora de um messias que se
[00:11:46] envolve ali né cara e então acho que a coisa do resgate da criança é uma tentativa de fazer um simbolismo barato né aquele simbolismo mais tacanho né tipo olha uma criancinha né olha a inocência pela qual é que ainda pode uma uma esperança de uma de um futuro né aquela coisa meio xuxa mas eu acho que o filme tem um problema é porque assim tem uma coisa que tem que explicar pro por que eu tô falando que esse filme ele recalca uma ideia de científicista da
[00:12:16] natureza do homem da natureza humana porque assim esse filme ele ele evoca uma ideia de estado de natureza que uma coisa que foi inventada alguns séculos atrás para justificar a existência de um governo a existência de um estado autoritário na ausência de uma explicação
[00:12:35] teológica sobre isso né porque até então né o antigo regime aquelas coisas todas existiu uma explicação teológica porque algumas pessoas o rei manda nas outras né existia todo um desenvolvimento jurídico de uma teologia na ausência dessa justificativa quando as pessoas falaram assim olha então quer dizer que esse sujeito que eu nunca vi esse deus te dá uma autoridade eu tenho que te obedecer por causa disso quando as pessoas começaram a duvidar disso criou-se uma fantasia chamada estado de natureza na qual disse assim então você está
[00:13:05] tem que nos obedecer porque nós estamos protegendo vocês e vocês mesmos então assim vocês têm que obedecer os nossos mandos e desmandos porque do contrário vocês vão matar uns aos outros então você tem todo um desenvolvimento de uma ciência política de uma imaginação
[00:13:23] política e uma imaginação social que se dá a partir do recalque da naturalização desse estado de natureza aquela frase que a gente sempre escuta o homem é o lobo do homem e algo que a gente sempre vê presente em ficções científicas de estopias desse tipo de ver Mad Max original ao estado caiu que aconteceu as pessoas começaram a se matar se
[00:13:43] carnibalizar né tipo sei lá ver o extermínio do Danny Boyle é a mesma coisa que acontece inclusive o Danny Boyle é um tema dele na praia vai aparecer esse tipo de coisa né sempre na ausência de um estado moderador sempre vai imperar o fascismo né sempre vai imperar o autoritarismo então esse filme ele parte dessa premissa quando ele estabelece que todos os sujeitos ali eles vão ser incapazes de entrar num acordo entre si que vai ser incapaz de florescer entre aqueles sujeitos diferentes de extratos o que já é uma condição
[00:14:13] artificial de organização é uma solidariedade uma solidariedade espontânea o sujeito sempre vai ser capaz de competir um com os outros porque o filme fala sobre as pessoas que lá diz que estão nos estratos superiores comem demasiadamente defecam mijam na comida para estragar para todas as pessoas e é necessário mais uma intervenção violenta que é o personagem principal para garantir que as coisas possam emergir ou seja solidariedade só é possível por meio da violência ou seja você cria um rambo para pessoas que
[00:14:43] acreditam que leandro carnal filosofia né tipo olha só ele está matando as pessoas mas é por uma boa causa ele está matando pessoas mas é para promover a solidariedade entre elas né ele está sendo aquela mão que pune mas de uma maneira pedagógica ou seja nada melhor do que uma boa desculpa para cometer assassinatos basicamente o filme é isso né o cara tem uma boa desculpa para matar as pessoas é exato é uma desculpa que se você começa a questionar ela se ela se entrosa porque é basicamente eu matei todo mundo para salvar todo mundo que
[00:15:13] é como o filme não entra numa questão de reencarnação acredito que não seja muito logicamente coesa nem com a ideia do filme e é muito interessante que o filme ele se utiliza de um construto totalmente antinatural que é aquela essa prisão é o tal poço titular para fazer o seu ponto assim basicamente ele tira aquelas pessoas de qualquer estado que elas pudessem existir na naturalidade e enfia elas no que é ao meu ver pelo menos e eu acredito que muitas pessoas
[00:15:43] tem uma péssima metáfora visual para o capitalismo que é tipo assim vai ter pessoas acima e sempre vai ter pessoas abaixo essa hierarquia é imutável então você tem que aprender a colaborar com as pessoas dentro dessa hierarquia então é falho nesse sentido
[00:15:58] mostrar que olha só as pessoas sempre vão ser vão estar umas contra as outras e você vai ter que lidar com um egoísmo natural do ser humano só que ele só consegue mostrar isso se ele enfia essas pessoas numa situação que é totalmente natural e que estimula o egoísmo que é uma analogia ao capitalismo eu assim eu vou um pouco além porque acho que não é só uma analogia ao capitalismo na verdade é a maneira como nos acostumamos a imaginar a própria socialidade humana então por exemplo
[00:16:28] a gente tem uma frase que é muito cacique para pouco índio que é uma frase que recalca na figura do cacique indígena a ideia de um líder de um líder político de quase um presidente de uma população ameríndia quando na verdade isso existe uma extensa literatura o cacique ou o chefe ou o principal enfim depende da população ele é justamente aquele que menos manda lá dentro ele é uma espécie de grande funcionário
[00:16:58] público dos seus então para muito comum você vê em diversas aldeias ameríndias o cacique na verdade ele é o motorista da aldeia saca é o cara que vai dirigir o caminhão que vai levar os integrantes da aldeia para os lugares ele é o cara que vai organizar as coisas vai organizar as expedições da mata que vai organizar as idas da cidade ele é um grande sei lá um grande gestor na verdade ele não é um ele não é uma liderança política no sentido como nós imaginamos então assim porque eu tô porque eu tô falando disso porque a nossa imaginação nossa imaginação social é tão viciada nessa ideia de que é
[00:17:28] necessário existir uma hierarquia que é uma ideia que a gente tem lá desde o desenvolvimento dos reis. A gente vai pensar nisso essa ideologia que que surge na idade média mas que tem já tem um respaldo no Império Romano que tem um respaldo inclusive na hierarquia cosmológica do cristianismo.
[00:17:46] Então a gente recalca a ideia de que é preciso existir um rei que é preciso existir alguém que está acima de todos os outros. Enquanto a experiência da sociedade humana é a experiência das sociedades humanas ao longo de sua história ao longo da geografia porque essas
[00:18:01] múltiplas experiências continuam a ocorrer mostra justamente que o contrário você tem você ao longo da história ao longo do mundo você vê a existência de diversas populações que se organizam em escala às vezes enormes sem nenhum tipo de hierarquia fixa entre elas sem nenhum tipo de um extrato social que está acima do outro que tem privilégios fundamentais.
[00:18:25] Então assim você fala esse filme é uma grande metáfora visual ruim do capitalismo. Na verdade é uma grande metáfora de pessoas capitalistas ou de pessoas que estão acostumadas que recalcaram a ideia de uma hierarquia necessária sobre o próprio funcionamento da humanidade.
[00:18:40] As pessoas são incapazes de imaginar uma situação uma forma de existir que não tem essa hierarquia que não tem alguém mijando em cima de você.
[00:18:48] Pois é. E o filme ainda joga dá uma piscadela uma acenada de longe para a ideia de meritocracia porque existe aquela questão de você aguentar aqui dentro você consegue sair.
[00:19:03] O personagem tem que ficar dois meses lá dentro se não me engano se você só aguentar e tal e se comprometer o mínimo possível você vai sair daqui vai ficar tudo bem para você pegar um certificado.
[00:19:16] Exato pega o certificado e aí é muito é muito engraçado porque é isso o filme ele acha que ele está atacando uma coisa que ele está só remoendo e cuspindo de volta porque é isso no final das contas ele tenta dizer que tipo se o ser humano
[00:19:37] é fica egoísta e violento num sistema que é para gerar egoísmo e violência ele perdeu como se o ser humano tivesse.
[00:19:47] E aí entra um pouco nessa questão também dessa metáfora cristã de que a gente tem que ser melhor do que o mundo ao nosso redor ou a gente tem que ser santo para provar o nosso valor e nos libertar do sofrimento desse mundo sabe.
[00:20:01] Quando na verdade a proposta do filme do protagonista é impossível e mesmo se não for impossível você fazer todas aquelas pessoas dentro daquela situação abusiva de tortura serem tipo as pessoas mais sóbrias de pensamento possível.
[00:20:18] É sabe você você está dizendo assim tipo o fato de que o nosso protagonista não não não não conseguiu pensar em um jeito de fazer as pessoas colaborarem prova que as pessoas são ruins e nunca tipo não na real essas pessoas estão submetidas a algo horrível e o nosso protagonista decidiu se submeter aquilo minimizando os efeitos que aquilo poderia ter nele e aí na verdade ele vê que ele não é melhor que aquilo ele só morre achando que ele é melhor então tem duas coisas importantes aí uma
[00:20:48] delas a primeira você falou do paralelo tem um paralelo com uma ideia cristã tem a imagem clássica do Papa beijando pés de moradores de ruas tipo lavando os pés moradores de ruas porque essa tem uma imagem da não corrupção de figuras santas.
[00:21:06] Então por exemplo por que que Jesus andava com determinado tipo de pessoas existe toda uma imagética cristã voltada para esse tipo de olha só pessoas santas não importa o que elas façam elas não vão ser corrompidas o que estabelece a ideia de que aquele personagem no nosso protagonista ele é capaz de matar as pessoas é capaz de cometer atos como canibalismo sem se corromper tal como outras pessoas então assim existe toda uma metáfora
[00:21:36] da não corrupção das boas almas que enfim é um tema que vai ser desenvolvido até o final do filme e por outro lado tem uma visão que é um tanto classista de que as pessoas em um estado de necessidade são incapazes de produzir uma cooperação porque quando ele vai designar que a barbara emerge sobretudo entre aqueles que estão nos últimos estratos não estão nos estratos mais inferiores dessa desse jogo dessa torre sei lá enfim as pessoas vão
[00:22:06] cometer canibalismo vão matar umas as outras e coisas do tipo eles têm uma visão não vou nem dizer pessimista é uma visão racista sobre como funciona a vida dos dispossuídos daqueles que têm pouco como se essas pessoas tivessem o único destino dessas pessoas fosse a barbárie como se essas pessoas não fosse pudesse desenvolver outras formas de sobreviver esse é muito um comentário assim você fala a metáfora daqueles que estão de cima vendo os que estão debaixo daqueles que estão de cima negando
[00:22:36] aos debaixo alimento o filme ele amulha essa própria perspectiva quando ele se coloca num pedestal e olha para os debaixo negando aos debaixo qualquer tipo de criatividade negando os que estão abaixo qualquer tipo de dignidade qualquer tipo de sabe olha vocês que estão abaixo
[00:22:55] o único destino de vocês é serem miseráveis e pessoas terríveis por conta disso pois é eu acho que isso reflete tanto um pensamento isso reflete e como a gente sempre gosta de falar aqui nesse podcast isso reflete algo e isso perpetua algo né porque a gente fica vendo filmes e isso
[00:23:14] cimenta certas ideias na nossa cabeça e aí eu acho que a ideia que está por trás desse filme e da maneira que a gente está explicando ele aqui é uma ideia que a gente vê muito presente por exemplo nessas discussões que a gente vê na esquerda da internet de que é exatamente isso que é assim que é incapaz de pensar nas pessoas mais pobres como indivíduos completos como pensa sobre si mesmo assim então fica sempre aquela uma certa postura de tipo tá a gente entende
[00:23:44] esse conceito mas como que a gente explica isso para as pessoas mais pobres porque as pessoas pobres não votam certo ou não fazem a coisa certa como se como se de alguma maneira o pensamento das pessoas mais intelectualizadas que levam um livro pro poço fosse o único que é válido as únicas pessoas que estão enxergando de uma maneira clara a realidade e as pessoas são incapazes de fazerem o melhor para si mesmas elas precisam de uma autoridade que ensine elas a fazer o melhor para si mesmo e uma autoridade uma linguagem
[00:24:14] as pessoas que estamos de necessidade segundo o filme segundo a diagese do filme e segundo a boa parte da nossa imaginação política só são capazes de entender a linguagem da violência a tradição do sujeito letrado acho que a ideia do livro também tem isso ele é um iluminista ele é o cara que vai trazer as boas novas para aquela situação só que com tudo aquela situação é tão miserável que a única forma que ele tem de expressar aquela boa nova é por meio da violência então tem justamente isso julga-se
[00:24:44] que aquelas pessoas que estão em estado de necessidade são incapazes de entender qualquer tipo de linguagem que não seja a violência por isso então por isso que o filme vira uma espécie de rambo para leitores de filosofia barata um filme o albergue para quem quer posar de intelectual
[00:25:03] sim o e tem eu acho que o momento emblemático disso que é um certo clichezão assim que é o momento esse filme conta com a cena do agora você machucou um cachorro então é sério eu não consegui ver essa cena não entendo mas é um artifício muito comum assim de filme porque ele se baseia nessa incapacidade das pessoas de ter empatia por pessoas em condições muito diferentes
[00:25:32] e usa no lugar essa empatia meio que universal que a gente tem pelos animais e aí então o personagem que já matou pessoas tudo bem mas agora ele matou um cachorro então agora tudo mudou já foi já foi longe demais então temos uma grande saga do cinema que é baseada nisso
[00:25:50] inclusive sim não isso é um artifício bem comum assim na ficção mas agora então vamos lá a gente queria falar sobre o poço a gente já sabia e você falou eu acho que um bom contraponto é indomável sonhadora e então vamos falar sobre o filme de 2012 feito então pouco tempo depois
[00:26:10] depois aí do do do furacão catrina atingir e nem 10 anos depois e ele se passa ali no que eles chamam de da banheira que é a região que é primeira a região que alaga naturalmente de novo para quem não sabe uma cidade abaixo do nível do mar e ela tem uma
[00:26:32] represa tinha uma represa que segura o nível da água que com a tempestade do catrina não foi o suficiente para impedir que a grande parte da cidade fosse inundada e muita gente perdesse a vida perdi sua casa enfim e aí é uma galera que vive na probreza então em primeiro lugar é interessante porque os cineastas americanos eles tendem a fugir muito de mostrar a extrema probreza americana não é algo que interessa muito.
[00:27:02] O país não é ficar mostrando o sistema pro sistema probreza eles têm essa imagem a resguardar e mesmo individualmente assim a gente vê que quando quando a extrema probreza americana é retratada é isso assim é o primeiro longa de alguém é um filme independente e depois eles acabam deixando muito disso para trás mas é muito interessante ver um olhar desses numa numa cidade que a gente conhece da cultura pop e tudo mais e ver a vida das pessoas
[00:27:32] muito parecida com a das pessoas que tem uma probreza aqui no Brasil que a gente vê mais até por ser brasileiro o que eu acho interessante desse filme dessa galera que vive para além da barragem porque o filme na verdade ele não diz exatamente que é no pós catrina ele não diz exatamente que ele se passa após essa catástrofe na verdade as pessoas vivem para uma catástrofe durante o filme que a espera da grande chuva que vai chegar enfim só que ele está ele está muito mais focado em
[00:28:02] descrever a vida dessas pessoas que vivem completamente completamente ausente completamente fora do sonho americano né completamente fora daquela realidade dos brancos norte-americanos pessoas que estão vivendo isoladas em todos os sentidos que por viver em isoladas produzem uma outra forma de socialidade uma outra forma de existir esse filme ele foi feito assim ele foi muito inspirado porque após a passagem do catrina que foi uma tragédia sem precedentes na história recente dos Estados Unidos
[00:28:32] porque o próprio combate ao catrina ele foi permeado por uma estrutura racista a gente sabia se as pessoas não tiveram muita vontade o Bush filho não teve muita vontade de mandar a gente para lá porque enfim não era preocupado porque só ia morrer pretos e pobres na situação enfim então assim foi basicamente uma espécie de quase genocídio assistido uma tragédia assistida porque as pessoas realmente lavaram as mãos para aquilo então assim mas no catrina se desenvolveu
[00:29:02] uma coisa que quando as pessoas quando o Estado chegou lá quando as pessoas foram resgatadas algumas pessoas ficaram sei lá quase meses isoladas as pessoas não se transformaram em canivais as pessoas não se transformaram em monstros muito pelo contrário o que foi responsável para salvar inúmeras vitas não foi ação do Estado não mas foi a solidariedade do populacho a maneira como essas pessoas encontraram soluções locais a maneira como essas pessoas se resguardaram se protegeram o que dificultou na verdade
[00:29:32] foi o pesadelo da Zemite do medo das pessoas que congestionaram as ruas para fugir sei lá o que tinham dinheiro para sabe para ocupar tanto o aparelho de aparelho hospitalar enfim as pessoas que não tinham dinheiro as pessoas que não tinham condições desenvolveram situações locais e por isso sobreviveram a tragédia isso é uma coisa que digamos isso inspirou uma série de estudos uma série de reportagens que aconteceram logo depois do catrina
[00:30:02] muita coisa foi publicada sobre isso porque as pessoas se tornaram nossa esperava-se que as pessoas cometessem canibalismo sabe na verdade as pessoas foram lá e organizaram jantares coletivos saca pegaram todo mundo que sobrou lá pegou que viu que tinha na dispensa e viu assim cara então olha só se fizer um jantão almoço um jantão almoço dá para todo mundo comer durante um mês aqui então que é uma coisa que inclusive acontece com muita frequência nas comunidades aqui do Rio de Janeiro depois que você tem uma tragédia tipo enchente que as pessoas às vezes ficam 10 20 dias sem água potada
[00:30:32] sem luz elétrica as pessoas organizam jantares coletivos enfim elas se auto organizam para poder sobreviver a que elas aquela tragédia elas vão começar a se matá-las vão começar a sacar uma das outras então o filme é muito inspirada por esse dado que a gente falou do cismo do poço agora está falando de um dado científico dado real dado etnográfico que inspira a feita desse filme e aí ele tem vai na história dessa menina que vive com seu pai e ela não
[00:31:02] sabe bem quem é a mãe dela ela só conhece a mãe dela por narrativas imaginando a chegada da grande tragédia com essa chuva e a existência de uma grande de uma grande besta fera e assim mas toda essa narrativa ela fica em segundo plano porque a
[00:31:17] grande ideia do filme é celebrar a solidariedade que emerge entre aquelas pessoas que estão no estado de no estado de miséria material que tem muito pouco para si enfim ela vive numa banheira literalmente um
[00:31:31] paralelo interessante entre os dois filmes é o assunto da comida que por mais que eles sejam pessoas extremamente pobres tanto a hush puppy quanto o pai dela e aquela comunidade imediata que eles têm ali eles não só eles não passam fome mas assim durante todo o filme mesmo quando a garota está perdida procurando o pai procurando a comunidade dela todo mundo que ela encontra oferece comida para ela pois é.
[00:32:02] E isso é um paralelo que a gente e é isso esse filme é uma situação ele é muito mais verosímil ele é baseado no lugar que existe em uma situação que ocorreu de maneira bem similar.
[00:32:14] Então assim a gente vê as pessoas sempre se ajudando ali no ambiente real e no ambiente que permite o que a construção de comunidade que é exatamente o que o poço não permite.
[00:32:28] Ele é inclusive uma arquitetura feita para não permitir comunidade socialização.
[00:32:34] Então quando a gente olha para o ser humano em algo que existe e não numa mentalização física do que é o sistema capitalista ou um sistema hierárquico qualquer que seja.
[00:32:47] Se você fica muito ofendido quando a gente fala mal de capitalismo procura analista procura um analista se você fica muito ofendido quando fala mal de capitalista.
[00:32:57] Exato mas o capitalismo não fica ofendido quando fala mal de você ou a questão é isso é quando a gente vê as pessoas no mundo real onde a gente pode e a gente naturalmente cria laços comunitários.
[00:33:10] A gente vê que é bom o homem não é esse personagem de desenho animado simples assim e ainda mais isso fica mais aparente ainda porque o filme da A Noiva Sonhadora.
[00:33:21] Ele é todo do ponto de vista da Hushpuppi que é uma criança pequena então que ela percebe o mundo com muito menos sutileza do que um adulto e tudo mais então o filme acaba tendo uma visão um pouco mais simplista das pessoas ao redor.
[00:33:34] Mas nem assim as pessoas são tão cartonescas e tão pouco verossímeis quanto no poço.
[00:33:42] Sabe é muito doido isso é um filme que é do ponto de vista de uma criança que eu acho que evidencia o quão pueril é o ponto de vista do outro filme do poço.
[00:33:52] Cara eu falo isso digo e repito o único personagem do poço que eu acreditei foi o cachorro.
[00:33:58] O único personagem que faz algum sentido foi o cachorro ali que realmente ele tem um motivo para estar ali porque a dona dele levou ele para lá porque todos os outros são caricaturas da pior qualidade.
[00:34:09] Parece que na verdade o poço parece um pouco com aqueles diálogos filosóficos e aí eu estou falando uma coisa que pode até ser encarada como elogi mas nesse caso não é tipo o banquete platão aquelas coisas todas onde os personagens que estão ali.
[00:34:24] Essas pessoas não existem.
[00:34:26] Eles são apenas pequenos artifícios para se chegar a uma conclusão.
[00:34:30] Você vai para dentro uma ideia vai ter um sujeito lá que vai oferecer tipo um contraponto e aí dali você vai oferecer uma síntese uma réplica uma tréplica e aí você chega a uma conclusão.
[00:34:40] Todos os personagens do poço eles só estão ali para isso enquanto os personagens da indomável sonhadora você olha e fala assim cara eu não apenas acredito que essas pessoas possam existir.
[00:34:52] Sobretudo quando vistas de olhar de uma criança como eu conheço pessoas assim como eu conheço as experiências de sociedade que são assim eu conheço lugares que as pessoas vivem dessa forma.
[00:35:02] Então assim é interessante e para mim uma coisa que eu acho que é sintomático é de que o primeiro filme o poço é chamado de como as pessoas estão hidrolatrando ele o hype dele é como se ele fosse um grande comentário social grande comentário sociológico.
[00:35:18] Enquanto o primeiro filme indomável sonhadora foi vendida como uma fábula otimista sobre a existência humana enquanto na verdade o poço é uma fábula pessimista é uma fábula pessimista e classista da existência humana.
[00:35:34] E o indomável sonhadora é de fato um comentário sociológico antropológico sobre como a humanidade pôde se tornar a humanidade.
[00:35:44] Porque assim como que as pessoas acham que a humanidade existiu criando hierarquia e competindo uma com a outra.
[00:35:49] As pessoas se ajudaram né cara tipo olha só foi para se ajudar e para celebrar a própria existência que as pessoas começaram a se reunir para produzir pequenas formas sociais que logo depois foram se convertendo em formas maiores.
[00:36:02] Do contrário imagina como que as pessoas iam atravessar o Alasca competindo com as outras corrida.
[00:36:09] Pois é e o indomável sonhadora começa exatamente nisso ele começa com uma festa né e aí na narração a garota fala assim meu pai falou que no mundo fora da banheira as pessoas só comemoram uma vez por ano né.
[00:36:26] Provavelmente ela fala né.
[00:36:30] Provavelmente se referindo ao final do ano o Natal no novo ali é a única época em que você pode se reunir com as pessoas e celebrar o resto está na labuta.
[00:36:37] E ali não é o caso ali ela está mostrando como tipo eles estão sempre festejando e tal não sei o que.
[00:36:43] E eles têm uma uma uma professora ali da comunidade eles têm uma organização e ela inclusive é a primeira pessoa fora o pai que oferece comida para ela.
[00:36:53] Que eu lembro que tem um momento que o pai dela some e ela termina a aula está ali esperando o pai buscar ela sem saber se o pai vai aparecer.
[00:37:00] E a primeira coisa que a professora fala você precisa de alguma coisa quer comer alguma coisa.
[00:37:05] Você falou uma coisa que a realidade que te chama é o dado etnográfico né.
[00:37:09] Aquilo que você quer é o cotidiano das pessoas não dá etnográfico é o cotidiano real da vida das pessoas.
[00:37:15] Aquilo que está além da projeção ideológica da fala né a maneira como as pessoas vivem em seu cotidiano.
[00:37:22] Essa coisa da celebração contínua é uma coisa que é importante porque eu que já convive muito tempo com populações ameríndias enfim não só com elas com quilombolas com a ribeiriz e tal.
[00:37:32] Se tem uma coisa que é constante é que as pessoas estão sempre arrumando motivos para celebrar e porque que estão arrumando motivos para celebrar encontrando tempo para fazê-lo.
[00:37:41] Porque elas não estão perdendo o seu tempo com besteiras com o acúmulo com a competição típica do capitalismo.
[00:37:52] Então tem um tem uma questão que é um artigo da antropologia que mostra por exemplo que numa uma situação da Melanésia existiu uma população de lá nativa.
[00:38:03] E eles levavam 10 dias para abrir uma roça usando os instrumentos que eles tinham feitos de pé tudo mais.
[00:38:11] E aí eles levavam 10 dias para abrir uma roça e gastavam outros 10 dias sei lá uma semana eles gastavam quatro dias para abrir a roça nos outros três dias eles comemoravam fazer uma festa.
[00:38:22] Aí deram para eles serras elétricas os instrumentos modernos para fazer isso o que diminuiu consideravelmente o tempo o tempo de produção das roças.
[00:38:33] Tipo que eles levavam quatro três dias para fazer eles passaram a fazer um dia.
[00:38:37] Aí o que se esperava era que eles que eles fizessem dentro de uma loja capitalista que eles fossem fazer mais roças.
[00:38:44] Não eles gastaram um dia para fazer a roça e os outros seis dias eles ficaram descansando e festejando.
[00:38:52] Corretíssimo.
[00:38:52] Mas não é tipo assim eles não trabalham com o acúmulo nesse nesse filme inclusive as pessoas as pessoas não acumulam as coisas.
[00:39:00] Tudo que elas têm estão distribuindo estão partilhando o tempo inteiro.
[00:39:04] Elas não estão preocupadas em acumular para si sabe não eu estou sozinho aqui não como a metáfora do Poço.
[00:39:11] Eles estão muito mais preocupados em estabelecer relações de partilha aquelas festas bebedeiras que eles fazem tudo vira motivo para partilhar inclusive a tragédia.
[00:39:20] Pois é então acho que a nossa conclusão é que indomável sonhadora é um retrato realista da solidariedade em tempos turbulentos.
[00:39:30] E o Poço é um maconheiro falando para o outro mas como é que eu sei que o azul que eu vejo é o azul que você vê é tipo isso.
[00:39:39] Cara na verdade eu diria que é só um maconheiro falando isso mas é um maconheiro com muito dinheiro falando para o outro maconheiro com muito dinheiro.
[00:39:47] Sobre isso saca tipo como que eu sei que a cor azul do meu Mac é igual a cor azul do seu iPhone saca tipo.
[00:39:55] É o cara que começa o discurso o problema do ser humano e se tira totalmente da equação.
[00:40:02] Justamente o Poço eu acho que é só para essa coisa de maconheiros e piadas.
[00:40:07] O Poço ele é o filme daquela pessoa que descobre que os vizinhos votaram no Bolsonaro e diz assim vem meteoro mata a humanidade que confunde a humanidade com seus vizinhos mais imediatos.
[00:40:21] Confunde a humanidade com a sua experiência totalmente marcada por uma existência capitalista sovina acumuladora neurótica sabe.
[00:40:30] Em vez de pensar que existem outras pessoas outras outras pessoas no mundo e que existiram outras formas de existir ao longo da história.
[00:40:37] O Poço o Poço é sobre isso enquanto o indomável sonhadora é justamente assim cara então se a gente esquecer essas pessoas que estão completamente comprometidas com uma imaginação neurótica hierárquica acumuladora.
[00:40:50] O que tem para a gente ver e ele vai descrever uma dessas experiências e é interessante justamente quando aparece as pessoas acumuladoras o papel dos brancos são os vilões do filme.
[00:40:59] Eu acho que é muito louco que essa visão que está no Poço é uma visão teoricamente aparentemente uma visão que diz.
[00:41:08] Eu sou tão diferente do resto da humanidade ela o próprio filme prova que ela é uma visão que na verdade ela existe para mascarar uma verdade bruta demais que não você é igualzinho a eles e você vai fazer a mesma coisa que eles.
[00:41:22] Pois é pois é exatamente existe toda uma ideologia do escolhido ali toda uma ideologia de uma mensagem daquele que vai se sacrificar mais uma vez a metáfora cristã a ideia de sacrifício que é uma.
[00:41:34] É um conceito cristão as pessoas esquecem disso né o sacrifício de Jesus o cordeiro de Deus e tal tudo mais.
[00:41:42] Então assim tem toda essa metáfora do sacrifício daquele do escolhido do mais mas quando você vai olhar na prática você vai ser pragmático sobre aquilo na verdade está fazendo exatamente o que as outras pessoas fazem ali só que ao contrário das outras pessoas ele finge que tem uma boa desculpa.
[00:41:56] Né ele faz ele faz aqui em nome das boas causas da boa verdade.
[00:42:01] Você entra numa questão de tipo ele vê como inevitável o comportamento bárbaro por assim dizer dos outros porque ele vê o próprio como inevitável e na verdade ele só consegue ver o outro como um igual a ele na verdade.
[00:42:14] Ele é o estopim de tanta violência ali então você pode dizer até dizer que talvez as coisas estivessem melhor sem ele talvez as pessoas sejam objetivamente pessoas mais pacíficas e solidárias que ele e ele foi o estopim de tudo ser tão pior.
[00:42:30] Pois é ele pode ter sido a pessoa que impediu a emergência de uma vamos ser muito muito benevolente com o filme ele pode ser a pessoa que impediu a emergência de uma solidariedade entre as pessoas que estavam ali.
[00:42:44] Tipo mas é difícil falar disso porque a própria estrutura do local era para produzir a violência para produzir a guerra e tudo o mais a ausência de comunicação e sei lá o que.
[00:42:57] Cara e tem uma metáfora com a prisão mas a gente não vai entrar nessa história não deixa.
[00:43:00] Não não vai entrar nessa história inclusive se você quer ver um filme sobre uma construção arquitetônica fisicamente impossível para fazer inveja a Escher com pessoas morrendo violentamente dentro dela e precisa de um filme melhor que o Poço tem Cubo o filme canadense de 2000.
[00:43:20] Veja Cubo não veja o Poço.
[00:43:22] Os Cubos teve continuações não teve.
[00:43:25] Teve tem Cubo 2 Hiper Cubo e depois teve Cubo 0 que é uma prequel.
[00:43:30] Olha só então tem esses filmes o Poço é o Cubo que eles são filmes Slasher.
[00:43:39] Mas o Cubo sabe que é um Slasher então mas eu acho que tem uma metáfora de uma metáfora de uma metáfora enfim o Poço.
[00:43:46] Ele sempre estava falando desse personagem aí que na verdade é igual a todos os outros só que ele se imagina diferente o Poço ele é um filme tão Slasher quanto o Alberg só que ele se imagina diferente.
[00:43:57] Ele é na verdade o Slasher para pessoas que acham que estão consumindo algum tipo de conteúdo intelectualizado por conta desse tipo de olha só que interessante esse comentário ele está comendo vermes.
[00:44:08] Saca eu acho que é isso que o Poço é um filme que se acha diferente demais.
[00:44:13] E sim ele é representado pelo seu protagonista que o filme acha que está apresentando uma figura de certo.
[00:44:23] Não vou dizer nobreza mas uma figura que você respeita como um protagonista mas assim eu fiquei extremamente arisco ao protagonista desde o começo assim da pose dele especialmente quando ele vira o cara do eu vim com um livro na mão.
[00:44:38] Nossa aquela inocência inicial dele com relação totalmente contrastada com o pragmatismo enfim cínico do seu companheiro de cela já era um sinônimo de que ele seria uma espécie de hoje escolhido ou diferente.
[00:44:57] Porque aquele personagem que não chegou o companheiro de cela dele foi um cara o primeiro companheiro dele foi um cara que estava ali enquanto ele foi para quando ele chegou para parar de fumar ele queria um certificado.
[00:45:10] O companheiro dele foi um cara que chegou ali com uma faca que cortava para pedra e porque tinha ficado revoltado jogou uma televisão pela janela e matou uma pessoa.
[00:45:19] Sabe um cara que matou uma pessoa com um motivo completamente torpe ele era o inocente o cara era uma dessas pessoas que a violência é o estado mais bruto a violência sem sentido nenhum.
[00:45:31] Então assim já esse contraste já era uma coisa tipo será dá para sair alguma coisa boa daí não saiu né.
[00:45:38] Mas e aí de novo é uma ideia totalmente cristã que é tipo esse cara aqui ele é totalmente diferente dessas pessoas e ele reconhece isso e o fato de que essas pessoas não reconhecem que elas são naturalmente
[00:45:52] doentes e precisam acender para acima da sua condição natural é que torna ela selvagem então de novo aquela ideia cristã de tipo você nasce um pecador e você tem que se redimir aos olhos de Deus.
[00:46:05] E o único cara que já nasceu redimido aqui é o querido lá que que precisava ler assim tem assim de novo.
[00:46:15] Don Quixote é um livro que você precisa reler muitas vezes é um puta é um é um é um é um poço intelectual de mergulho ali para tirar muitas lições.
[00:46:25] Não vou discutir isso mas claramente não é algo que o nosso protagonista fez porque eu posso o próprio protagonista é incapaz de se ver na posição de alguém como Don Quixote que está imaginando uma luta para si mesmo.
[00:46:37] Você falou dessa para voltar para a estrada da metáfora da metáfora cristã ele é a própria é o próprio nascimento virgem tipo todo mundo chegou ali por violências e coisas do tipo ele é o nascimento virgem.
[00:46:50] Ele não tem pecado original sim e tem outro sacrifício também no meio do filme que é a outra companheira de cela dele que também é outra nascida virgem no filme e tudo mais mas não tão virgem porque aí rola uma coisa não você trabalhava para essas pessoas aqui não sei o que.
[00:47:06] Mas ela também ela se mata para salvar ele é a metáfora do outsider é a metáfora daquilo que vem de fora para redimir o sistema e a gente sabe no que isso acontece no que isso faz com as pessoas.
[00:47:19] E é uma metáfora muito comum em filmes extremamente colonialistas e racistas tipo O Último dos Moicanos, Pocahontas essas coisas essa ideia do Salvador Branco também que no caso nem é tanto um Salvador Branco mas rola isso porque o único personagem
[00:47:36] negro que realmente tem falas é um cara que vira só o pau mandado dele né mas ele é o Salvador dos Pobres né mas ele é o intelectual né tipo ele é o Salvador dos Miseráveis então é assim tem uma distinção ali de raça classe enfim que é típica desses filmes de Whitesaver Salvador Branco.
[00:47:53] E fica uma impressão assim não conheço o diretor não conheço o Davi que escreveu a história mas eu fico muito com impressão e posso estar enganado mas assistindo filme eu fico muito na impressão que aquele protagonista é uma encarnação do autor assim de quem está contando aquela história.
[00:48:09] Sim nossa sim inclusive sei lá eu acho que é uma encarnação do militante militante com M maiúsculo né de internet saca tipo da pessoa que se vê naquela situação eu sou um metrado eu tenho a verdade mas aí.
[00:48:25] Ele foi votar no Haddad com o livro na mão com certeza.
[00:48:27] E rapidamente ele se converte na pessoa que vai pra violência né que vai falar essas pessoas tem que morrer se não aprende pela aprende pela dor e tal.
[00:48:37] Ele é o cara que acredita que uma indomável sonhadora precisa ser domada.
[00:48:41] Isso e aí você falou do comentário que da visão que ele tem das pessoas no filme ele tem uma visão muito pessimista dos outros personagens do filme né tipo ele não se conecta efetivamente com outros personagens a única conexão dele.
[00:48:55] Por isso que ele é tão incapaz de matar as pessoas no último ato do filme.
[00:49:00] Pois é enquanto a Hushpuppe tudo que ela faz é produzir aliança com as pessoas né tipo todo lugar que ela para ela se alinha com as pessoas que estão ali e por isso ela vai sobrevivendo né tipo todo o último ato do filme o arco final do filme é ela conhecendo pessoas desconhecidas né.
[00:49:20] E como elas se unem com aquelas pessoas e o que elas traem daquilo né então se o comentário social dela é muito mais é muito mais certeiro e é muito mais carinhoso é muito mais generoso com a ideia de diferentes com a ideia de uma diferença do que o comentário social desse filme que é basicamente um sujeito.
[00:49:38] Então uma cena inicial que a gente se masturbando né o filme de fato é uma grande essa masturbação é uma relação de si consigo mesmo né por meio de uma imaginação geralmente.
[00:49:48] Ela deixa de ser um argumento filosófico como você tinha falado porque ela não é um diálogo né.
[00:49:54] Isso então assim o filme é uma grande masturbação nesse sentido né é o sujeito com ele mesmo por uma ideia de uma imaginação de que ele está ali redimindo aquelas pessoas.
[00:50:02] Dá pra imaginar ele se masturbando falando eu sou a mensagem.
[00:50:06] É isso né cara é isso.
[00:50:08] Ela me tenebrou eu sei lá.
[00:50:10] E eu acho muito interessante um último ponto aqui que é essa jornada da indomável sonhadora ali quando ela conhece outras pessoas e ela está tentando voltar para casa.
[00:50:20] Se fosse um filme super tradicional assim um desenho da Disney ia ser exatamente a visão do poço né todo o estranho é uma ameaça é alguém que vai tentar tirar vantagem dela e tal e ela vai ter que fugir.
[00:50:30] Vira uma coisa meio pinóquio e aí exatamente porque não é um filme tradicional não é essa visão e a gente vê o quanto a visão do poço na verdade não é um grande questionamento fora da casinha.
[00:50:44] É a visão mais reacionária possível que é tipo as pessoas precisam de uma grande mão de ferro para controlá-las precisa vir uma autoridade e bater nelas e falar não não vai comer.
[00:50:54] Sabe qual seria um paralelo desse filme poço?
[00:50:58] Rei leão.
[00:51:00] Sim, rei leão que é talvez a grande mensagem monarquista da nossa geração.
[00:51:06] Existem bons reis né.
[00:51:08] Exato tipo você precisa de um bom rei.
[00:51:12] Tem um rei ruim aí as coisas estão erradas mas assim não vamos acabar com a monarquia não vamos botar um carabom lá entendeu.
[00:51:21] Inclusive pode ser um carabom que nunca morou aqui né que passou a vida inteira morando na floresta com o timão e o pumba e chega aqui só pronto para tipo agora eu sou o rei.
[00:51:29] É isso ele é o nascimento virgem né.
[00:51:33] Nascimento virgem e desconectado da sua própria comunidade então de novo uma ideia de que o monarca não é parte da comunidade ele é só uma autoridade hierárquica mesmo.
[00:51:43] Ele não é por exemplo um cacique que é parte da sua comunidade e tem uma responsabilidade ali.
[00:51:49] Não ele volta na floresta e fala tudo é meu né.
[00:51:53] É porque quando ele está acima as outras pessoas são uma mera propriedade dele como no próprio filme o poço.
[00:51:59] Inclusive no poço essa ideia de que as pessoas são propriedade do protagonista fica expressa no fato de que você nunca sabe se algumas pessoas que estão aparecendo no filme de fato elas existem.
[00:52:09] Então assim é tão em si mesmo a vida do protagonista que os seus como é que as pessoas estão dividindo a atenção dele na tela pode ser uma das alucinações dele que tanto faz tanto fez.
[00:52:21] Tipo você tanto faz tanto fez que aquelas pessoas porque elas não são nada para ele.
[00:52:25] Enquanto por exemplo no filme da Marvel sonhadora cada pessoa que aparece ali.
[00:52:31] É alguém para a Hushpupp.
[00:52:35] E assim que ela vai sobrevivendo ela vai avançando ao longo do filme.
[00:52:39] Acho que é isso Orlando você tem mais alguma coisa para dizer sobre o tema?
[00:52:43] Cara a única coisa que eu tenho a falar sobre o tema é o poço ele seguramente ele está no meu top 10 filmes para não assistir nessa quarentena.
[00:52:53] Saca assim não só pela qualidade dele assim como a gente deixou bem claro que a gente não foi o nosso preferido da última semana.
[00:53:01] Mas porque ele é um filme pessimista que pode dar errado pode pode pegar a onda né cara.
[00:53:09] Exato não entre não entre nessa onda errada desse filme.
[00:53:13] E eu como eu falei que quando eu estava assistindo ele lembrei de curtas estudantis e tudo mais.
[00:53:17] Eu lembrei de um programa que passava na TV gaúcha que era o curtas gaúchos.
[00:53:23] E todo fim de semana a gente tinha a oportunidade de ver um curta metragem de um diretor gaúcho.
[00:53:29] E foi lá que um dia eu vi o curta do Jorge Furtado o dia em que Dorival enfrentou a guarda.
[00:53:35] Que é um curta metragem se passa numa prisão no Brasil durante o regime militar.
[00:53:41] E é muito melhor que o poço e é só 14 minutos que é exatamente o tempo que o poço podia durar.
[00:53:45] O poço podia ter sido bom se fosse um episódio de além da imaginação sabe sim.
[00:53:51] Fazer um longo metragem só trabalha contra ele.
[00:53:55] Sim sim sim sim pois com certeza com certeza.
[00:53:59] Então assistam o dia em que Dorival enfrentou a guarda tem no YouTube.
[00:54:03] Se você precisa de uma jornada messiânica para assistir assista o primeiro Matrix né.
[00:54:07] Nossa assistindo a uma avançadora cara.
[00:54:12] Assistindo a uma avançadora tem um pouco de esperança nesse coração.
[00:54:16] A gente vai para frente a gente pode fazer um episódio só com bons filmes que nos dão um alento.
[00:54:24] Sabe que aquecem o coração a gente pode fazer indomável sonhadora.
[00:54:28] A viagem de herói a encatadora de baleia vamos fazer isso por favor.
[00:54:32] Vamo as pessoas merecem especialmente durante a quarentena elas precisam de coisas legais.
[00:54:38] Sim é Orlando você quer promover alguma coisa sua ou seus outros podcasts as suas outras aventuras.
[00:54:44] É eu só queria pedir o espaço para falar para as pessoas que está rolando uma campanha de arrecadação.
[00:54:50] Para o povo aqueuara né que eu tô promovendo o que acontece os aqueuara como várias populações indígenas estão.
[00:54:57] Sofrendo com a epidemia de coronavírus e já temos um óbito pelo menos dois indígenas situação gravíssima.
[00:55:05] Com total descaso dos órgãos competentes coisas do tipo.
[00:55:09] Então eu com outras pessoas que dá lá da região estamos promovendo uma ação de ajuda para essa população.
[00:55:15] Então dá para botar o link na descrição do episódio.
[00:55:19] Dá para botar o link na descrição.
[00:55:21] Então beleza é isso veja lá se vocês podem ajudar e se não puderem pelo menos promova nas suas redes vamos ajudar quem precisa.
[00:55:29] Isso aí então tá certo então até o próximo episódio.
[00:55:31] Achei.