#05 - Robocop vs. Padilhacop
Resumo
Este episódio do Popcult realiza uma análise comparativa profunda entre o filme Robocop de 1987, dirigido por Paul Verhoeven, e o remake de 2014 dirigido por José Padilha. A discussão começa estabelecendo como os dois filmes, apesar de compartilharem a mesma premissa básica, possuem orientações políticas e propostas radicalmente diferentes.
O Robocop de Verhoeven é analisado como uma crítica sutil e elaborada ao capitalismo, à indústria do entretenimento e à privatização dos serviços públicos. O filme é destacado por sua capacidade de transformar a violência em entretenimento, servindo como um espelho para o próprio espectador que consome aquela narrativa. A análise explora como o filme antecipa conceitos como smart cities, gentrificação urbana e a relação simbiótica entre crime organizado e forças de segurança privatizadas.
Em contraste, o Robocop de Padilha é criticado por sua visão simplista que personaliza problemas estruturais em vilões individuais. O episódio destaca como o filme brasileiro cai na narrativa do “good cop, bad cop”, apresentando a corrupção como desvio individual rather than como parte de um sistema. A discussão conecta essa visão com outras obras de Padilha como Tropa de Elite e O Mecanismo, mostrando uma consistência em sua abordagem política.
A conversa também explora temas como a representação da mídia nos dois filmes, a humanização do personagem Alex Murphy, as diferenças estéticas e de design, e como cada filme lida com conceitos de sacrifício, tecnologia e controle social. O episódio conclui refletindo sobre o impacto cultural dessas diferentes visões e como elas refletem e moldam entendimentos sobre violência policial e justiça social.
Indicações
Filmes
- Robocop (1987) — O filme original de Paul Verhoeven, analisado como uma crítica sofisticada ao capitalismo, entretenimento violento e privatização.
- Robocop (2014) — O remake de José Padilha, criticado por sua visão simplista que personaliza problemas estruturais e glamouriza a violência policial.
- Starship Troopers — Outro filme de Paul Verhoeven mencionado como exemplo de sátira política sofisticada que muitas vezes é mal interpretada como simples filme de ação.
- Network — Filme citado como precursor na crítica à mídia e ao entretenimento, com o qual Robocop é comparado em sua capacidade de prever tendências sociais.
- Jibã — Releitura japonesa do Robocop recomendada como alternativa ao filme de Padilha, disponível no Amazon Prime com as duas temporadas originais.
Series
- Jibã — Série japonesa baseada no Robocop, recomendada como uma releitura bem feita, disponível no Amazon Prime com dublagem original.
Linha do Tempo
- 00:00:32 — Introdução à dicotomia Robocop vs. Robocop — Os apresentadores introduzem o tema do episódio: a comparação entre o Robocop de 1987 de Paul Verhoeven e o de 2014 de José Padilha. Explicam que o primeiro é uma crítica elaborada ao capitalismo e à indústria do entretenimento, enquanto o segundo demonstra as consequências dessa forma de entretenimento. A discussão inicial estabelece como dois filmes com a mesma premissa podem ter orientações políticas tão opostas.
- 00:03:25 — A abertura com telejornais e crítica à mídia — Os participantes analisam como ambos os filmes abrem com cenas de telejornais, mas com abordagens diferentes. No filme de Verhoeven, o noticiário transforma tragédias em entretenimento, servindo como espelho para o espectador. Já no de Padilha, o âncora (Samuel Jackson) representa claramente uma visão de extrema-direita. A discussão explora como cada filme retrata a relação entre mídia, polícia e poder.
- 00:10:25 — O problema do Robocop de Padilha e a glamourização — A conversa se aprofunda nas críticas ao filme de Padilha, destacando que ele não questiona fundamentalmente a violência policial, apenas a personaliza em vilões. Enquanto Verhoeven mostra a violência como grotesca e desconfortável, Padilha a apresenta de forma “cool” e aceitável. Os participantes discutem como isso reflete uma visão de mundo que vê problemas como individuais rather than sistêmicos.
- 00:31:05 — Diferenças na representação da polícia e corrupção — Os analistas contrastam como cada filme retrata a corrupção policial. No filme de Verhoeven, a polícia privatizada e o crime organizado têm uma relação simbiótica que serve aos interesses do capital. Já no de Padilha, a corrupção é apresentada como desvio individual de policiais ruins, com a solução sendo simplesmente prender ou matar esses indivíduos. A discussão conecta isso com narrativas reais sobre violência policial.
- 00:52:39 — Finais contrastantes e mensagens políticas — Os participantes analisam os finais radicalmente diferentes dos dois filmes. No de Verhoeven, o final é inútil - matar um vilão não muda a estrutura de poder. O filme termina ironicamente com o nome “Robocop” aparecendo após o personagem dizer “Alex Murphy”. Já no de Padilha, há um triunfo individual onde o herói resolve todos os problemas ao eliminar os vilões. A discussão reflete sobre como cada final comunica visões diferentes de mudança social.
- 01:07:30 — Conclusão e recomendações finais — Os apresentadores concluem recomendando que os ouvintes assistam às obras de Verhoeven com cuidado, destacando sua relevância contínua. Em contraste, sugerem que, em vez de assistir ao Robocop de Padilha, os espectadores vejam “Jibã”, uma releitura japonesa do Robocop disponível no Amazon Prime. A conversa final reflete sobre o processo de gravação e o sofrimento compartilhado ao analisar o filme de Padilha.
Dados do Episódio
- Podcast: Popcult
- Autor: Atabaque Produções
- Categoria: TV & Film Film Reviews
- Publicado: 2020-06-30T08:30:09Z
- Duração: 01:10:56
Referências
- URL PocketCasts: https://podcast-api.pocketcasts.com/podcast/full/57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2/142087f8-86c0-4428-9673-2dbc72ddda32
- UUID Episódio: 142087f8-86c0-4428-9673-2dbc72ddda32
Dados do Podcast
- Nome: Popcult
- Tipo: episodic
- Site: https://www.spreaker.com/podcast/popcult—4416630
- UUID: 57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] A nossa primeira diretiva é falar sobre cultura pop.
[00:00:18] A nossa segunda diretiva é entender como essa cultura pop influencia a nossa visão de mundo.
[00:00:25] A nossa terceira diretiva é gravar um podcast sobre isso.
[00:00:28] E a quarta diretiva é secreta.
[00:00:32] A gente não pode falar sobre isso.
[00:00:33] Hoje a gente vai falar de Robocop vs. Robocop.
[00:00:37] O filme de 1987 do Paul Verhoeven e o filme de 2014 do José Padilha,
[00:00:43] que talvez você tenha esquecido que ele fez.
[00:00:46] Orlando, bem-vindo a mais um episódio do Pop Cult.
[00:00:49] Por que essa dicotomia?
[00:00:51] Por que essa dicotomia?
[00:00:53] Olha…
[00:00:53] De Robocops.
[00:00:54] Porque eu acho que ela mostra…
[00:00:58] O primeiro filme do Paul Verhoeven é uma crítica sutil e elaborada,
[00:01:05] bastante elaborada, ao capitalismo, à própria indústria do entretenimento.
[00:01:12] O Robocop do Padilha é justamente a demonstração das consequências
[00:01:18] dessa forma de entretenimento, dessa indústria.
[00:01:22] Enfim, é interessante pensar que como dois filmes,
[00:01:24] que na verdade são o mesmo filme, entre muitas aspas, um remake do outro,
[00:01:28] podem ser tão opostos em sua proposta e sua orientação política.
[00:01:34] É muito louco.
[00:01:35] E esse confronto de Robocops tem uma origem não só no próprio filme,
[00:01:40] em que você tem no primeiro filme o ED-209,
[00:01:45] que é o modelo que eles realmente querem botar nas ruas,
[00:01:47] que é o robô policial.
[00:01:49] E eles têm que usar o Robocop titular, o Alex Murphy,
[00:01:53] como um passo para chegar nisso.
[00:01:56] Essa é parte do roteiro do papo.
[00:01:58] O Robocop do Padilha, por questões diferentes ali.
[00:02:01] Mas, na minha pesquisa, totalmente inútil para esse episódio,
[00:02:06] eu cheguei no fato de que existe um outro enfrentamento de Robocops,
[00:02:10] que é no segundo seriado de TV que o Robocop teve.
[00:02:14] A gente vai entrar um pouco mais nisso,
[00:02:15] mas o Robocop teve não só duas sequências no cinema,
[00:02:18] logo depois do primeiro filme, Robocop 2 e Robocop 3,
[00:02:21] teve uma série animada nos anos 80,
[00:02:23] teve aí uma série de TV nos anos 90,
[00:02:26] uma segunda série animada.
[00:02:28] No final dos anos 90, e no final dos anos 90, começo dos anos 2000,
[00:02:32] uma segunda série de TV de quatro episódios,
[00:02:35] na qual existe o Robocable,
[00:02:39] que é um ex-parceiro da polícia do Alex Murphy, nosso Robocop,
[00:02:44] que vira um Robocop do mal, que ele é igual ao Robocop,
[00:02:46] só que mais cromado.
[00:02:49] Ele chegou tunado, né, cara?
[00:02:51] É o Robocop tunado.
[00:02:52] Ele chega tunado, só falta um neonzinho embaixo,
[00:02:55] e é um…
[00:02:56] Caraca!
[00:02:56] O Need for Speed Underground, assim.
[00:02:58] Mac, Mac, Mac, mais um…
[00:03:00] Vamos falar de Robocop,
[00:03:04] esse filme que a gente gosta tanto,
[00:03:05] que a gente queria abordar desde que a gente criou a ideia desse podcast.
[00:03:09] É um filme maravilhoso,
[00:03:10] eu tava revendo os dois hoje pra gente gravar,
[00:03:12] e eu não me lembrava, assim,
[00:03:14] eu me lembrava o quanto que a paródia da TV
[00:03:18] é uma parte integral do filme do Verhoeven,
[00:03:22] mas eu não lembrava que abria direto na TV, assim.
[00:03:25] A primeira coisa que a gente vê do mundo desse Robocop,
[00:03:28] da nova Detonation,
[00:03:28] do Detroit e tudo mais,
[00:03:30] é com o noticiário desse mundo que a gente tá entrando.
[00:03:35] É, isso é perfeito, né,
[00:03:36] porque tem a maneira como os jornalistas, né,
[00:03:41] os âncoras noticiam coisas tenebrosas, né,
[00:03:44] tipo a escalada da paranoia nuclear na África do Sul,
[00:03:48] vai ter uma guerra, sei lá o quê,
[00:03:50] rapidamente se transforma abertamente em entretenimento, né?
[00:03:53] Assim, a maneira como eles são, como eles comemoram,
[00:03:56] como eles falam, tem todo um ar cínico ali,
[00:03:58] né, uma coisa engraçada,
[00:04:00] e logo depois vira um brinquedo, né?
[00:04:02] Então, assim, tem uma mensagem,
[00:04:03] tu fala assim, a coisa, o jornalismo, ele abre o filme, né?
[00:04:08] Mas eu acho que é uma coisa, assim,
[00:04:10] é um espelho do próprio telespectador
[00:04:13] que vai assistir toda aquela violência
[00:04:15] como um entretenimento, né?
[00:04:17] Da mesma maneira que a violência, toda aquela guerra,
[00:04:19] é um entretenimento na televisão do filme,
[00:04:22] a morte no filme, né,
[00:04:24] porque o filme tem uma característica estética
[00:04:26] do diretor, né, do Paul Verhoeven,
[00:04:27] né, do diretor, do diretor, do diretor, do diretor,
[00:04:28] do diretor, do diretor, do diretor, do diretor,
[00:04:28] do diretor, do diretor, do diretor, do diretor,
[00:04:28] que a violência nos filmes dele é um negócio,
[00:04:30] enfim, fora de série, né, cara, assim,
[00:04:32] é um negócio, um tiro que faz um braço cair, né,
[00:04:34] estoura uma coisa e tudo mais,
[00:04:36] que é proposital, né?
[00:04:37] Então, toda aquela cena grotesca
[00:04:39] torna um entretenimento pro próprio telespectador,
[00:04:41] é meio como se ele fornecesse um espelho, né,
[00:04:43] olha, você tá aqui também, né,
[00:04:46] não é, você não tá fora dessa brincadeira, não.
[00:04:48] Sim, e ele mescla
[00:04:50] depois com isso, uma,
[00:04:52] né, comerciais
[00:04:54] e trechos de sitcoms,
[00:04:57] é,
[00:04:58] no…
[00:04:59] I Buy That For A Dollar.
[00:05:02] Exato, que é quase, é um
[00:05:03] proto-idiocracia, o jeito que ele mostra
[00:05:06] a cultura da TV, ele faz, assim,
[00:05:08] comerciais e aquela
[00:05:10] trecho de sitcom do I Buy That For A Dollar
[00:05:12] e tal, como um
[00:05:14] um bagulho que é
[00:05:16] pra ser um pouco exagerado, assim,
[00:05:18] tipo, olha, como a nossa cultura
[00:05:19] está ficando idiota, mas
[00:05:22] assim, né, eu acho
[00:05:24] que o Robocop, ele é, em muitas maneiras,
[00:05:26] tal qual o Network, né,
[00:05:28] o filme que simplesmente mostrou uma realidade
[00:05:30] e a realidade mirou e
[00:05:32] falou, não, a gente vai ser exatamente assim
[00:05:34] alguns anos depois, e aí
[00:05:36] hoje a gente meio que vive na realidade
[00:05:38] que o Robocop
[00:05:39] nos mostrou. É, tem uma coisa, por isso que eu
[00:05:42] achei importante frisar essa coisa
[00:05:43] do espelho, porque tem uma
[00:05:46] um tipo de filme
[00:05:48] que é um tipo de crítica que eu acho
[00:05:50] muito rasa, muito poeril que se faz
[00:05:52] hoje em dia, né,
[00:05:53] é,
[00:05:53] de uma crítica, um filme que se coloca
[00:05:57] fora da…
[00:05:58] daquilo que ele critica, né, porque
[00:05:59] é muito estranho você, sei lá, você
[00:06:01] tem um filme
[00:06:02] feito em Hollywood com todas aquelas dinâmicas
[00:06:06] de Hollywood, criticando Hollywood,
[00:06:08] saca, sem o filme se comprometer,
[00:06:10] é uma coisa assim, o filme tem um…
[00:06:12] ele fala de uma
[00:06:13] perspectiva a cavaleira
[00:06:15] daquilo, né, de toda aquela
[00:06:17] entretenimento violento,
[00:06:19] enfim, e os telespectadores
[00:06:22] desse tipo de filme também se sentem
[00:06:23] de alguma forma superiores àquilo,
[00:06:26] né, o Robocop, e
[00:06:28] por isso que eu acho que o Robocop, até hoje,
[00:06:29] ele é um filme muito subestimado,
[00:06:31] o Verhoeven é um diretor muito subestimado,
[00:06:34] né, no geral, as pessoas, todo mundo vai
[00:06:35] falar do David Lynch, nossa, o David Lynch,
[00:06:38] o grande diretor, e eu concordo,
[00:06:40] mas quando vão falar do Verhoeven, que é um cara que tá ali
[00:06:42] na mesma época que o David Lynch produziu
[00:06:43] umas paradas, todo mundo vai colocar ele como
[00:06:46] o cara que fez o Starship Troopers,
[00:06:48] o cara que fez o Passageiro do Futuro, que são
[00:06:49] grandes filmes que tocam em temas muito sensíveis, né.
[00:06:53] Mas eu acho que o Verhoeven,
[00:06:54] ele é uma vítima da
[00:06:55] própria arte, nesse sentido, em que
[00:06:58] ele faz Robocop
[00:06:59] e Starship Troopers, por exemplo,
[00:07:01] serem umas sátiras
[00:07:03] tão bem feitas, de um formato,
[00:07:06] assim, ele emula tão bem
[00:07:07] aquilo que ele tá parodiando
[00:07:09] e satirizando, que
[00:07:11] é adotado pela massa,
[00:07:14] até por conta dos
[00:07:15] interesses comerciais dos estúdios que lançaram esses filmes,
[00:07:18] como se
[00:07:20] ele não estivesse fazendo uma paródia, como se aquilo fosse
[00:07:21] a versão straight face do que ele tá fazendo.
[00:07:24] Starship Troopers, eu sinto que
[00:07:25] sofreu disso muito mais do que
[00:07:28] Robocop, porque Robocop, eles conseguiram
[00:07:30] transformar numa franquia family friendly,
[00:07:32] apesar de tudo que o Verhoeven fez.
[00:07:34] Mas Starship Troopers era mais difícil.
[00:07:36] E aí Starship Troopers, muita gente viu como
[00:07:37] um filme de ação que não deu certo,
[00:07:40] um filme de ação que era difícil de engajar as pessoas,
[00:07:42] quando na verdade ele era um filme sobre
[00:07:44] o desmiolamento
[00:07:47] das tropas, né.
[00:07:48] Como que você tem que
[00:07:50] amansar uma sociedade,
[00:07:52] intelectualmente falando,
[00:07:53] pra ela, né,
[00:07:55] entrar na guerra e servir
[00:07:57] de…
[00:07:58] de bucha de canhão,
[00:08:00] basicamente, como todos os personagens do
[00:08:02] Starship Troopers são.
[00:08:02] Uma máquina, né, tipo, uma indústria literalmente
[00:08:05] de guerra. Como que você consegue
[00:08:08] transformar as pessoas que elas se submetam
[00:08:10] àquele processo, olha só, então vamos pegar seus filhos
[00:08:12] e transformar em
[00:08:14] vítimas, porque, inclusive,
[00:08:16] esse é o nosso entretenimento, né, porque na TV
[00:08:18] do Starship só passava aquilo, né,
[00:08:19] tipo a guerra.
[00:08:21] E que o Robocop tem
[00:08:24] de uma maneira mais sutil, que é isso, assim,
[00:08:25] que é o… meio que ele prevê
[00:08:28] o destino do Robocop no mundo real
[00:08:30] também, que é. O Robocop é um
[00:08:32] produto de desejo, ele é um ícone,
[00:08:34] né, da sociedade. Então,
[00:08:35] o que que acontece numa sociedade em que você tem um
[00:08:37] Robocop e ele vira bonequinho
[00:08:40] e personagem,
[00:08:42] né, e no mundo real
[00:08:44] virou personagem desenho animado, série, como eu falei aqui,
[00:08:46] todas sem, né,
[00:08:48] vamos dizer, a mandíbula
[00:08:49] afiada do filme do Verhoeven,
[00:08:52] que é, você torna
[00:08:53] aceitável e desejável que aquela figura
[00:08:55] exista. Então, não tem nada
[00:08:58] melhor pra OACP,
[00:08:59] que é a Omnicorp, né,
[00:09:01] a organização que… a empresa que cria
[00:09:03] o Robocop, porque ela é uma organização
[00:09:05] que já tomou conta da polícia de Detroit, que foi
[00:09:07] privatizada no filme, algo que
[00:09:09] não tá longe de acontecer no mundo real.
[00:09:12] E aí, o que que acontece? Se você tem crianças
[00:09:13] que querem o boneco do Robocop, se o Robocop
[00:09:15] vira, né, parte da
[00:09:17] cultura pop daquele universo diegético,
[00:09:20] ele também vira algo totalmente aceitável,
[00:09:22] né, e é isso.
[00:09:24] Esse podcast tem muito sobre
[00:09:25] analisar isso. Como que você simplesmente
[00:09:27] exibir uma ideia, né, você usar
[00:09:29] uma ideia, um conceito
[00:09:31] em algo que é um entretenimento de massa,
[00:09:34] torna aquilo aceitável porque você já viu,
[00:09:36] né, quanto menos algo é imprevisível,
[00:09:38] quanto menos algo é novo, menos aquilo
[00:09:39] te assusta e te dá medo, né.
[00:09:41] Então, é muito louco ver como
[00:09:43] o Robocop, ele já prevê isso dentro
[00:09:45] do próprio filme, né, o enredo do filme mostra que
[00:09:47] aquilo acontecendo diegeticamente que aconteceria
[00:09:49] aqui fora, e
[00:09:51] aí te leva a questionar
[00:09:53] aquela questão de
[00:09:55] mesmo esse filme sendo uma crítica,
[00:09:57] tudo isso, ele
[00:09:59] acaba gerando o efeito que
[00:10:01] ele critica, né, aquela questão de
[00:10:03] tipo, será que não existe uma
[00:10:05] maneira não glamourizada de mostrar
[00:10:07] guerra no cinema? E nesse caso,
[00:10:10] a minha questão não é sobre
[00:10:11] a guerra, existe uma maneira
[00:10:13] de botar um
[00:10:15] homem meio robô
[00:10:17] matando bandidos na tela da TV
[00:10:19] que não vai me fazer achar
[00:10:21] muito legal aquele cara.
[00:10:23] Esse que é o problema de Padilha, né, mas
[00:10:25] assim… Sim, sim, não, é que
[00:10:27] esse é o problema do Padilha, porque o Padilha nem questiona
[00:10:29] isso, mas a gente vai chegar lá no
[00:10:31] Padilha Cop. Mas assim, tem umas
[00:10:33] questões aí no Robocop, a primeira delas
[00:10:35] eu acho que é fundamental, que
[00:10:37] tem, a gente falou disso quando a gente
[00:10:39] falou do filme O Poço, né,
[00:10:41] desses filmes que
[00:10:43] emulam a imagem de Cristo, toda essa
[00:10:45] cosmologia cristã, e cara,
[00:10:47] quando eu falo que a crítica do Verhoeven é muito
[00:10:49] fina, porque assim,
[00:10:51] Robocop é o Jesus Cristo, né,
[00:10:53] cara, assim, a metáfora de
[00:10:55] Jesus ali fica muito explícita,
[00:10:57] o sacrifício dele, e só que ele volta
[00:10:59] como um produto, né, assim,
[00:11:01] o novo Jesus é um robô
[00:11:04] policial
[00:11:05] que é um produto, que o tempo todo os caras ficam
[00:11:07] ele é um produto, ele é um produto, nós temos que vender
[00:11:09] esse produto, né, cara. Que maravilha
[00:11:12] que você trouxe esse
[00:11:13] assunto, porque o próprio Verhoeven
[00:11:15] fala, né, que ele acha que o
[00:11:17] Robocop é, no filme dele, também
[00:11:19] uma metáfora pra Cristo, que é muito comum
[00:11:21] no cinema americano, e faz sentido o Verhoeven
[00:11:23] se apropriar disso, mas se a gente
[00:11:25] entende que o Robocop, ele é
[00:11:27] uma metáfora pra Cristo,
[00:11:30] ele é também o anticristo
[00:11:32] do próprio universo,
[00:11:33] porque o Robocop, o triunfo
[00:11:35] do Robocop no terceiro ato é matar o seu
[00:11:37] criador. Sim, sim, mas aí também
[00:11:39] tem, enfim, tem toda uma outra questão dentro do próprio
[00:11:41] Cristo aí, que é justamente essa ideia
[00:11:43] que ele suplanta o Deus antigo, né,
[00:11:45] o… mas tem uma, mas eu acho
[00:11:47] que tem uma outra questão fina
[00:11:49] dessa ideia, porque eu acho que é bom trazer
[00:11:51] o cristianismo pra essa discussão,
[00:11:54] porque
[00:11:55] a gente já falou disso aqui, nesse
[00:11:57] podcast, a grande
[00:11:59] religião
[00:12:00] que prega o
[00:12:03] sacrifício é o capitalismo, né,
[00:12:05] e ele herda isso do
[00:12:07] cristianismo, né,
[00:12:09] o Velho Testamento, a própria ideia de
[00:12:11] holocausto, que era o sacrifício
[00:12:13] de animais, de bezerros feitos
[00:12:15] em fornos e tudo mais.
[00:12:17] Então, assim, o cristianismo
[00:12:19] ele vai, quando ele
[00:12:21] se torna católico, essas coisas, né,
[00:12:23] ele vai se basear no sacrifício de si,
[00:12:25] né, Jesus foi aquele que se sacrificou,
[00:12:27] foi por nós. Depois,
[00:12:29] os cristãos são aqueles que se sacrificam
[00:12:31] a si mesmo,
[00:12:32] almejando uma vida,
[00:12:35] uma pós-vida.
[00:12:38] Só que logo essa linguagem,
[00:12:40] ela vai se reconfigurar dentro do
[00:12:41] capitalismo, porque a ideia de trabalho
[00:12:43] dentro do capitalismo, ela vem, o trabalho
[00:12:45] é um sacrifício, ponto, né,
[00:12:47] o trabalho é a origem de todas as coisas,
[00:12:49] enfim, isso você vai ter na metafísica liberal,
[00:12:51] você vai ter dentro do marxismo, essas coisas todas,
[00:12:53] porque é por meio desse sacrifício
[00:12:55] que você vai se expandir, que você vai se
[00:12:57] tornar um senhor do mundo, um dono de propriedades
[00:13:00] e coisas do tipo. O grande
[00:13:01] questão é que essa é a grande ideologia do
[00:13:03] capitalismo. Só que na prática,
[00:13:05] o capitalismo, ele procede sacrificando
[00:13:07] outros, tornando outros corpos,
[00:13:09] outras vidas matáveis. O filme
[00:13:11] do Robocop é justamente
[00:13:13] sobre isso, porque o próprio Messias,
[00:13:15] ele é uma vida matável, né, ele é aquele que vai
[00:13:17] ser sacrificado por nós. Só que esse
[00:13:19] por nós do filme é uma grande
[00:13:22] ideia corrupta, né,
[00:13:23] que é o capitalismo, ou melhor,
[00:13:25] o anarco-capitalismo, né, porque esse filme é o,
[00:13:27] é o paraíso do anarco-capitalismo, é onde nós
[00:13:29] vamos parar com o anarco-capitalismo, né, a polícia
[00:13:31] mantém tudo, né, a polícia são os militares,
[00:13:33] a polícia não, a OCP, né, são os militares,
[00:13:35] é a polícia,
[00:13:37] são os hospitais,
[00:13:39] é tudo, né. Então, assim, toda
[00:13:41] a grande
[00:13:42] sacada desse filme é que ele é um grande
[00:13:45] filme sobre o sacrifício
[00:13:47] em todas as suas formas, né,
[00:13:49] como o sacrifício da própria
[00:13:51] população, dos próprios policiais,
[00:13:53] né, pra esse jogo abstrato,
[00:13:55] né, que é o lucro, que é o capital,
[00:13:57] enfim. E é muito interessante porque
[00:13:59] o filme, quando
[00:14:01] rola o primeiro problema com
[00:14:03] o ED-209,
[00:14:05] é numa reunião em que ele vai ser exibido,
[00:14:07] e aí eles vão mostrar como, ah, a gente
[00:14:09] consegue controlar, ele não vai matar uma
[00:14:11] pessoa do nada, e ele vai
[00:14:13] e mata um
[00:14:15] funcionário da OCP no meio de uma reunião,
[00:14:18] e é
[00:14:19] tratado como um, tipo, ai, nossa,
[00:14:21] que horror, isso vai atrasar.
[00:14:22] Não, isso, você sabe o dinheiro que você
[00:14:24] fez a gente perder por causa disso? O cara lá, todo
[00:14:26] destruído, né? Exato.
[00:14:27] É, e é
[00:14:29] muito louco, assim, como
[00:14:30] a OCP ali no filme do Verhoeven
[00:14:33] serve como uma crítica também
[00:14:35] a essa cultura IUP,
[00:14:37] assim, que tá no seu auge ali nos anos 80 americanos,
[00:14:40] essa cultura
[00:14:41] corporativa. E aí no final, quando
[00:14:43] como que o final dessa reunião vira
[00:14:45] tipo, ah, não, um outro
[00:14:47] executivo que tem uma ideia competitiva
[00:14:49] que é, não, não, eu tenho uma ideia aqui, mas
[00:14:51] que é um robô que a gente usa um ser humano também
[00:14:53] e tal, então aí é mais fácil
[00:14:55] de implementar do que esse,
[00:14:57] o ED-209, ele vê como uma chance pra ele.
[00:15:00] E aí,
[00:15:01] eles, no final da cena,
[00:15:03] o outro
[00:15:04] cara que trabalha com ele vira e fala, tá, mas
[00:15:07] quando que a gente começa?
[00:15:09] E ele vira assim, assim que alguém se voluntariar.
[00:15:11] E o que acontece é que eles veem que
[00:15:13] ninguém vai se voluntariar e eles decidem pegar esse
[00:15:15] cara que vai morrer se eles não pegar, que é o
[00:15:17] Alex Murphy, né, o policial, que é
[00:15:19] o protagonista, que vira o Robocop.
[00:15:21] Ele é, é porque assim, ah, ele vai morrer
[00:15:23] de qualquer jeito, então ele não sobreviveria
[00:15:25] se a gente não transformasse ele no Robocop. Então,
[00:15:27] ele não, ele não se voluntaria pra ser
[00:15:29] sacrificado, é um sacrifício que tal qual
[00:15:31] é, é, é, é, acontece
[00:15:33] com, com Jesus, é predestinado, né,
[00:15:35] pra ele. Sim, sim, e
[00:15:37] é interessante que essa cena tem,
[00:15:39] você falou dessa cena toda, porque
[00:15:41] quando ele, esse diálogo
[00:15:43] acontece no elevador, o
[00:15:45] outro executivo que pergunta, ah, quando
[00:15:47] que a gente começa e tal, um pouco antes ele
[00:15:49] pergunta, pô, que triste, né, que fulano
[00:15:51] morreu, aí o cara fala assim, ah, esse é o negócio,
[00:15:53] né, tipo, esse é o capitalismo, né,
[00:15:55] tipo, esse é o… Ele fala, não, ele fala melhor que
[00:15:57] isso, ele fala assim, life in the big city.
[00:15:59] Isso, né, cara, tipo.
[00:16:01] É, a vida não segue de grande. E aí,
[00:16:03] só voltando pra esse último ponto da cidade, que é
[00:16:05] o horizonte do, do grande plano
[00:16:07] da, da OCP, é fazer uma cidade
[00:16:09] toda controlada pela OCP, né, e eles,
[00:16:11] ah, e esse é o grande,
[00:16:13] vamos dizer, o horizonte distópico
[00:16:15] do, do filme, que já é distópico, ele já
[00:16:17] é, ele já vive numa, no, no, meio que numa,
[00:16:19] numa Detroit distópica,
[00:16:20] mas a grande distopia, né, no final
[00:16:23] do, do horizonte
[00:16:24] imaginado pelo, pelo universo do Robocop,
[00:16:27] é exatamente o que estão tentando vender
[00:16:29] pra gente agora, como Smart Cities.
[00:16:31] Sim. Né, as cidades conectadas.
[00:16:33] E, e que é algo que tá sendo
[00:16:35] muito avançado, né, no momento que a gente
[00:16:37] grava isso, a gente tá de quarentena ainda, por causa, né,
[00:16:39] da pandemia do coronavírus, não sei se você tá
[00:16:41] ouvindo isso, ah, daqui muito tempo,
[00:16:43] mas, é, ou seja, e essa
[00:16:45] pandemia tá sendo utilizada,
[00:16:47] inclusive pra, pra diversas, né,
[00:16:49] corporações e governos, e qual a diferença entre os
[00:16:51] dois, é, pra avançar
[00:16:53] essa ideia de que nós precisamos implementar
[00:16:55] cidades inteligentes e sistemas,
[00:16:57] de controle de informação e
[00:16:59] coleta de informação, é,
[00:17:01] no nível, né, das, das grandes
[00:17:03] metrópoles, né, esse controle
[00:17:05] das pessoas se tornou algo, ah,
[00:17:07] rapidamente desejável nesse momento,
[00:17:10] todo mundo acha isso muito legal,
[00:17:11] eu já fico revoltado que eu tenho uma daquelas
[00:17:13] lâmpadas em casa que precisa do celular
[00:17:15] pra você mudar, se ela tá ligada, desligada,
[00:17:17] ou mudar a corzinha dela,
[00:17:19] então eu já, já, eu já
[00:17:21] sinto esse, essa revolta. Eu sou um sujeito
[00:17:23] que coleciona vinis, né, então pra mim
[00:17:25] é isso aí. Eu não era
[00:17:27] esse sujeito, mas o… Matrimônio. O matrimônio
[00:17:29] trouxe consigo uma vitrola pra minha casa,
[00:17:31] então… Olha só, olha só que maravilha, olha só que maravilha.
[00:17:34] Então, mas eu acho que uma coisa que
[00:17:35] é interessante, né, as pessoas falam muito
[00:17:37] do, do Black Mirror, né, assim,
[00:17:39] isso é muito Black Mirror. Isso é muito Black Mirror,
[00:17:41] nossa, estamos vivendo aquilo que o Black Mirror colocou.
[00:17:43] Eu acho que o Robocop, ele,
[00:17:46] ele, ele foi o primeiro,
[00:17:48] não vou dizer que foi o primeiro,
[00:17:49] né, filme a fazer isso, né,
[00:17:51] mas ele fez isso de tal maneira,
[00:17:53] porque assim, vamos pensar no, no Robocop
[00:17:55] versus Blade Runner, né,
[00:17:57] assim, porque o Blade Runner,
[00:17:59] ele,
[00:18:00] ele opera de uma outra maneira que o Robocop,
[00:18:03] porque a crítica do Blade Runner,
[00:18:05] a galera olhar pro Blade Runner
[00:18:07] e ver aquilo como uma crítica à própria
[00:18:09] sociedade, é muito
[00:18:11] difícil, né, porque o Blade Runner
[00:18:13] ele se torna uma espécie de discussão meio
[00:18:15] etérea sobre, enfim,
[00:18:17] o limite da humanidade, coisas do tipo.
[00:18:19] O Robocop, muito pelo contrário,
[00:18:21] ele tá próximo demais, então,
[00:18:23] por exemplo, aquela realidade distópica
[00:18:25] de Detroit,
[00:18:27] anos 80 e tudo mais, era uma coisa
[00:18:29] típica dos filmes da época, né.
[00:18:32] É, porque ela lida já com
[00:18:33] uma ansiedade que
[00:18:34] dominava o público americano naquele momento,
[00:18:37] que é a desindustrialização
[00:18:39] do país, né. Sim! Inclusive,
[00:18:41] se reflete no Padilha Cop,
[00:18:43] no qual a produção do Robocop passa pra China.
[00:18:46] Sim, sim, sim,
[00:18:47] mas, e aí tem um detalhe,
[00:18:50] né, que a Detroit do Padilha,
[00:18:51] do Robocop, é melhor
[00:18:53] do que a Detroit de verdade, né, cara, assim,
[00:18:55] em termos de…
[00:18:57] Porque, assim, Detroit de verdade
[00:18:59] é muito parecido com a Detroit do Robocop,
[00:19:01] cara. Sim, sim. Detroit é uma cidade
[00:19:03] destruída, né, cara. E é uma cidade
[00:19:05] que tava caminhando, né,
[00:19:07] flutuou-se essa ideia aí um tempo atrás,
[00:19:09] não sei se ainda flutua, de realmente
[00:19:11] privatizar a cidade de Detroit, ou seja,
[00:19:13] a OCP da vida real tava
[00:19:15] cada vez mais plausível.
[00:19:18] Sim, sim.
[00:19:19] E aí que vem o ponto que eu ia chegar, né, porque,
[00:19:21] por exemplo, por estar perto
[00:19:23] demais, e essa que é uma coisa que é muito
[00:19:25] interessante da, da, da, da,
[00:19:27] da fineza, da finesse, né, dessa análise
[00:19:29] do Verhoeven. Porque por estar próximo
[00:19:31] demais, ele meio que antecipa,
[00:19:33] ele… Porque, assim, tem um tipo
[00:19:35] de ficção científica, o Usto Leleguin fala isso, né,
[00:19:38] fazer ficção científica
[00:19:39] distópica, de certa maneira,
[00:19:41] é muito simples, porque você pega um
[00:19:43] elemento que tá errado na nossa sociedade,
[00:19:45] se você vê como negativo, e leva
[00:19:47] ele ao limite. Quando você leva ele ao limite, ele se torna um
[00:19:49] câncer, né.
[00:19:51] Eu acho que o Robocop, ele não cai
[00:19:53] nesse clichê, porque
[00:19:55] ele não precisa levar nada
[00:19:57] ao limite. Muito pelo contrário,
[00:19:59] o que que ele faz, ele transforma tudo em entretenimento,
[00:20:01] né, e ao transformar em entretenimento
[00:20:03] aquilo, o entretenimento barato
[00:20:05] do tipo, nossa, vai lá Robocop,
[00:20:07] mata os vilões, sabe,
[00:20:08] tudo aquilo se torna mais, aquela estrutura se
[00:20:11] torna muito transparente. Então, por exemplo, ao tornar
[00:20:13] entretenimento todas essas
[00:20:15] violências que já estavam presentes na Detroit
[00:20:17] na época, nesse conjunto de ansiedade,
[00:20:19] ele começa a prever
[00:20:21] e descrever um efeito
[00:20:22] que só iria se tornar
[00:20:24] muito sentido,
[00:20:27] ali no final
[00:20:29] dos anos 80 com o começo dos 90, que é
[00:20:31] a gentrificação das cidades norte-americanas como
[00:20:33] uma salvação pra violência.
[00:20:35] Nova York, né, como Nova York
[00:20:37] se salvou da violência, toda aquela coisa que as pessoas adoram
[00:20:39] repetir como uma coisa nossa, que
[00:20:41] legal, aquele plano Tolerância Zero, Nova York,
[00:20:43] virando o metro quadrado mais
[00:20:45] caro dos Estados Unidos.
[00:20:47] Isso. E expulsando todo mundo que morava
[00:20:49] lá há décadas. Exato, então assim,
[00:20:51] o Robocop fala
[00:20:53] sobre isso, né, assim, porque todo o projeto
[00:20:55] de construir a Delta City no lugar de Detroit,
[00:20:57] né, é justamente, enfim,
[00:20:59] vamos tirar todo mundo que tá morando aqui
[00:21:01] e vamos botar uma cidade onde só pessoas que vão
[00:21:03] ter dinheiro vão morar.
[00:21:05] Tanto que o plano do
[00:21:07] Robocop
[00:21:08] era matar os bandidos todos,
[00:21:11] né, mas assim, ele ia ser uma máquina
[00:21:13] genocida. É uma máquina genocida
[00:21:15] desengonçada que é, que só pode
[00:21:17] existir enquanto
[00:21:18] comendo papinha de bebê. Inclusive,
[00:21:21] tem aí toda uma relação com o filme 2001,
[00:21:23] né, tipo, toda essa infantilização
[00:21:25] do ser que depende da máquina,
[00:21:27] é muito tipo, é, é, tá ali, por exemplo,
[00:21:29] no filme do Stanley Kubrick, no 2001,
[00:21:31] olha só, uma coisa que todo mundo, né,
[00:21:33] Stanley Kubrick, 2001, um filme cult,
[00:21:35] tudo super intelectualizado, mas o Robocop
[00:21:37] também tá tocando o mesmo tema,
[00:21:39] né, tipo assim, o indivíduo
[00:21:41] que vive na tecnologia, que só vive
[00:21:43] pela tecnologia, ele termina por se
[00:21:45] tornar um bebê.
[00:21:47] O Robocop, ele vive comendo papinha, né.
[00:21:49] Pois é, eu adorei essa cena com
[00:21:51] um adulto que às vezes come
[00:21:53] papinha de bebê, da Nestlé,
[00:21:55] eu gostei dessa,
[00:21:57] dessa cena. Mas você tá correto na sua
[00:21:59] observação também. E falando nisso,
[00:22:01] eu vou voltar no nosso primeiro ponto, pra puxar o
[00:22:03] primeiro ponto do Padilha Cop, que eu sinto que esse é o
[00:22:05] momento da gente entrar
[00:22:06] nessa grande obra
[00:22:08] quase esquecida do
[00:22:10] grande diretor do cinema nacional,
[00:22:13] José Padilha, que é
[00:22:14] a TV, a TV também é o pronto
[00:22:16] introdutório do nosso
[00:22:18] menino Padilha.
[00:22:20] A gente começa com o personagem do Samuel
[00:22:22] Jackson, que é um âncora meio Fox News,
[00:22:25] defendendo
[00:22:27] de que nós temos que trazer os robôs
[00:22:28] que os Estados Unidos usam na guerra
[00:22:30] pra casa. No filme, eles são robôs
[00:22:33] que, né, é o, é uma versão
[00:22:35] do ED-209 lá do
[00:22:37] filme original, e uns
[00:22:38] robôs humanoides, assim,
[00:22:41] que são a base pra armadura do Robocop,
[00:22:43] só que eles são totalmente robôs, não tem um homem ali dentro.
[00:22:45] Só um bosta fazer um adendo?
[00:22:47] Como, como
[00:22:49] o designer de maquinário
[00:22:51] nos filmes de ficção científica
[00:22:53] norte-americano foi pro saco?
[00:22:55] Tu pega lá o R2-D2,
[00:22:57] lá, antigo, né, tipo
[00:22:59] o R2-D2, enfim, tu pega lá
[00:23:01] os robôs antigos, né, do Robocop,
[00:23:03] tu vê assim, cara, ó o designer maneiro das paradas,
[00:23:04] eles têm uma identidade, aí tu vê esse
[00:23:06] é tipo, é tipo os Transformers,
[00:23:09] né, do Michael Bay, né, assim, caraca
[00:23:11] são um, disse o Capta, sabe?
[00:23:13] Uma das piores coisas
[00:23:15] no design que já existiu.
[00:23:17] Mas o que eu acho muito interessante é que
[00:23:19] o noticiário
[00:23:20] do Verhoeven, até
[00:23:22] pela época, né, não existia uma Fox News,
[00:23:25] mas o noticiário do
[00:23:27] Verhoeven é um noticiário muito comum, vamos dizer
[00:23:29] é um noticiário muito jornalacional
[00:23:30] o, o, o falso
[00:23:32] o jornal imparcial, né
[00:23:35] ele não é algo tão extremista
[00:23:37] quanto aquele âncora do
[00:23:38] do Samuel Jackson no Padilha
[00:23:41] que é só o Padilha
[00:23:42] refazendo aquelas cenas do
[00:23:44] do Tropa de 22, mas, enfim
[00:23:47] é, o que eu acho interessante
[00:23:49] é o seguinte, é que as cenas
[00:23:50] nos dois filmes, elas servem pra mostrar o que?
[00:23:53] Olha só como a mídia
[00:23:54] e a TV, né, o jornalismo
[00:23:57] especialmente, servem pra
[00:23:59] reproduzir a mensagem
[00:24:01] que a polícia e as forças
[00:24:02] de segurança querem
[00:24:05] passar, né, isso a gente vê no
[00:24:06] mundo real muito, assim, toda matéria policial
[00:24:09] que você vê no jornal, na TV
[00:24:10] ela vem da polícia, né
[00:24:12] matéria policial
[00:24:14] 99% do tempo, ela é um press release
[00:24:17] da polícia, é a polícia querendo falar alguma coisa
[00:24:19] que ela fez, que faz a imagem da polícia
[00:24:21] ser positiva pro público, né
[00:24:22] e aí, é muito interessante o Verhoeven retratar
[00:24:25] isso, e aí o Padilha quando vai
[00:24:27] retratar isso, ele retrata como algo que
[00:24:28] a extrema direita faz, né
[00:24:30] que, ou seja, na cabeça do
[00:24:33] Padilha, e isso eu não tô dizendo
[00:24:35] só por causa da cena, porque, né, a gente
[00:24:36] conhece o Padilha por causa
[00:24:39] de muitas das suas declarações públicas
[00:24:40] e pelos seus outros filmes, o Padilha
[00:24:42] mostra isso como algo que só
[00:24:44] o mal, entre aspas, faz
[00:24:47] assim, não, isso vem daquele lado
[00:24:49] lá, essas pessoas estão manipulando
[00:24:50] se essas pessoas não manipulassem essa visão, a gente
[00:24:52] teria, assim, a visão da boa
[00:24:54] polícia, né, ou enfim
[00:24:57] o que quer que seja, assim, se não fosse
[00:24:58] esse cara tentando usar a notícia
[00:25:01] pra propagar essa agenda
[00:25:03] dele, a gente teria o verdadeiro
[00:25:05] noticiário imparcial sobre o que está acontecendo
[00:25:07] e como a gente não tem, esse meu
[00:25:09] filme vai ser o
[00:25:10] jornalismo imparcial
[00:25:13] sobre o Robocop
[00:25:14] Não, mas tem
[00:25:17] tem uma hora que o personagem do
[00:25:19] Gary Oldman, ele chega e diz assim
[00:25:21] é…
[00:25:23] não, eu vou pra mídia, sabe
[00:25:25] e é a mídia que salva, né, no final, aparece
[00:25:27] o Gary Oldman, né, tem aquela coisa, é a mídia que dá espaço
[00:25:29] pra mulher, a mídia é um
[00:25:31] é um dispositivo de controle dos
[00:25:32] poderosos no filme dele, não, ele
[00:25:34] acredita na mídia, né. Sim, o fato de que
[00:25:37] de que o Alex Murphy
[00:25:38] consegue levar a público o que está acontecendo
[00:25:41] é a única salvação dele
[00:25:43] como se
[00:25:45] como se o levar a público
[00:25:46] fosse, assim, como se os interesses
[00:25:49] da mídia não tivesse na mão de corporações, né
[00:25:51] especialmente nos Estados Unidos
[00:25:53] não que no Brasil seja diferente, mas assim
[00:25:54] quem que controla toda a mídia, assim, a
[00:25:57] ideia de que existe uma
[00:25:58] diferença fundamental entre o que é a
[00:26:01] Fox News e o que é uma MSNBC
[00:26:03] é o que dá impulso
[00:26:05] pra um padilha sair todo dia da cama
[00:26:07] Exato!
[00:26:08] Ele acha que tem mocinhos
[00:26:10] vencendo todo dia
[00:26:12] Então, eu acho que
[00:26:14] tem isso, né, porque eu acho que tem uma coisa que você vê
[00:26:16] lá do Tropa de Elite, que é o
[00:26:18] good cop, bad cop, né, assim
[00:26:20] ele admite que tem a corrupção
[00:26:22] ele admite que tem problemas, mas
[00:26:24] eles são sempre reduzidos a uma
[00:26:27] maneira individual mesmo, né
[00:26:28] sempre vai ter o policial corrupto versus
[00:26:30] o bom policial, sempre vai ter a
[00:26:33] boa mídia versus a má mídia, né
[00:26:34] Que é uma narrativa que a própria polícia
[00:26:36] propaga através da
[00:26:38] cobertura que ela busca
[00:26:41] pra si, né, a polícia
[00:26:42] saiba você ou não aí, ouvinte
[00:26:45] a polícia tem assessoria de imprensa
[00:26:46] a polícia é só mais uma
[00:26:48] empresa com interesses, então
[00:26:51] o mais interessante
[00:26:52] disso tudo é isso, essa narrativa de
[00:26:55] One Bad Apple
[00:26:57] pagada pela polícia, toda vez que a polícia
[00:26:58] tá botando uma ação que ela vê como
[00:27:00] positiva na TV
[00:27:01] ela tá dizendo que
[00:27:04] olha só, a polícia é inerentemente
[00:27:07] boa, e quando
[00:27:08] um policial ou a polícia, né
[00:27:11] faz algo ruim
[00:27:12] é um desvio, né
[00:27:14] da sua função, a função
[00:27:16] que é uma coisa que
[00:27:18] entra no discurso também que a gente ouve hoje em dia
[00:27:20] dos ministros técnicos, né, essa questão
[00:27:22] de que, não, se as instituições
[00:27:25] existentes, simplesmente
[00:27:27] são eficientes, tá tudo bem
[00:27:29] o problema é ineficiência ou desvio
[00:27:31] de função
[00:27:32] e não nunca questionar a função
[00:27:35] das instituições
[00:27:37] existentes, nunca, entendeu
[00:27:39] você pode reclamar de um policial corrupto
[00:27:41] você não pode dizer, eu acho que a gente
[00:27:43] não deveria ter uma polícia militar
[00:27:44] então, esse é um ponto fundamental, porque assim
[00:27:47] o
[00:27:47] a pior coisa
[00:27:50] e isso é muito propagado
[00:27:53] assim, tanto a mídia quanto a polícia
[00:27:55] enfim, se apega muito
[00:27:57] a essa ideia, quando acontece um crime
[00:27:59] feito por policiais
[00:28:00] vamos punir esses caras
[00:28:02] eles isolam o problema a uma ação
[00:28:05] individual, mesmo que esses indivíduos
[00:28:06] estejam aliados em uma
[00:28:08] corporação, enfim, não, tudo vira
[00:28:10] um problema individual ali
[00:28:12] porque justamente, é uma maneira de salvar o todo
[00:28:15] né, e é uma maneira
[00:28:16] que a própria esquerda
[00:28:18] se apropria erroneamente, né, eu acho
[00:28:21] que assim, a esquerda ela cai, por exemplo
[00:28:22] a gente tá gravando isso na semana em que
[00:28:24] dois casos de jovens
[00:28:27] do Rio de Janeiro
[00:28:28] baleados pela polícia
[00:28:30] e com tentativa de ocultação
[00:28:32] do crime pela parte da polícia
[00:28:34] vieram à tona, assim, ganharam atenção
[00:28:36] e eles ganham atenção
[00:28:38] de novo, dessa maneira individualizada
[00:28:40] temos que punir os responsáveis
[00:28:42] e do outro lado
[00:28:44] olha esse garoto, olha uma foto dele
[00:28:46] olha o nome dele, que não é desnecessário, mas assim
[00:28:49] perde-se nesse contexto
[00:28:51] muitas vezes, o fato de que isto
[00:28:52] está acontecendo o tempo todo
[00:28:54] nós estamos dando destaque a esses
[00:28:56] nomes, mas isso
[00:28:58] é parte de um plano
[00:29:00] e de um sistema que está em prática
[00:29:02] né, e não é tipo, não, esses dois
[00:29:05] garotos, não foi algo pessoal com eles
[00:29:07] e isso é parte da grande tragédia
[00:29:08] as pessoas não, né, são
[00:29:10] pessoas que não tiveram a chance
[00:29:12] de fazer nada por si
[00:29:15] né, elas foram condenadas pela sua
[00:29:17] situação socioeconômica
[00:29:18] por elas fazerem parte
[00:29:20] de uma sociedade que reforça
[00:29:23] aí opressões racistas
[00:29:24] e classistas, e aí
[00:29:26] a gente finge que, tipo, não, vamos
[00:29:28] se a gente resolver os policiais que mataram
[00:29:30] esse garoto e esse garoto, a gente resolveu o problema
[00:29:33] é, porque tem várias questões aí
[00:29:34] que eu acho que se a gente entrar vai longe
[00:29:36] né, porque é isso
[00:29:38] né, por exemplo, tem todo um
[00:29:40] discurso de bom, bem versus mal
[00:29:42] tem toda, tudo vira um entretenimento
[00:29:45] também tem isso, né, tipo
[00:29:46] e o entretenimento, quando eu digo aqui
[00:29:48] não é só uma coisa, nossa, como estou me divertindo
[00:29:51] vendo essas notícias, nossa
[00:29:52] sobre necropolítica, não, cara, assim
[00:29:54] você se sentir mal, você se sentir revoltado, causar
[00:29:56] uma reação em você, é entretenimento
[00:29:58] né, o entretenimento não é algo que só te causa
[00:30:01] uma coisa positiva, porque se fosse por isso
[00:30:02] ninguém assistia filme de terror, sabe
[00:30:04] assim, o entretenimento ele causa emoções
[00:30:06] negativas, então assim, toda essa máquina
[00:30:08] de reportar, todo esse discurso
[00:30:11] que acaba isolando
[00:30:12] tudo numa questão individualizada, olha
[00:30:14] quem morreu, quem foram aqueles que mataram
[00:30:16] realmente serve pra manutenção dessa máquina
[00:30:18] o que eu acho que é um ponto
[00:30:20] é, que por exemplo, o
[00:30:22] o primeiro filme do Robocop, ele toca nisso
[00:30:24] de uma maneira muito interessante, é primeiro
[00:30:26] a violência fica o tempo inteiro
[00:30:28] se transforma em entretenimento
[00:30:30] o filme deixa isso muito claro, né, primeiro
[00:30:32] né, do Verhoeven, tem uma hora que
[00:30:34] por exemplo, eles falam de um policial que foi
[00:30:35] paliado e tava à beira da morte, aí o cara
[00:30:38] o jornalista vira assim, força aí
[00:30:40] saca, tipo uma coisa meio super
[00:30:42] super, super amiguinho, isso é a abertura do filme
[00:30:44] que a gente falou, é, força aí
[00:30:46] você consegue, saca, vira sempre um discurso
[00:30:48] ele consegue transformar a tragédia num discurso
[00:30:50] motivacional, individual, sabe
[00:30:52] e aí o outro ponto é que
[00:30:54] enquanto no filme
[00:30:56] do
[00:30:56] , Padilha
[00:30:57] os policiais e a mídia
[00:31:00] existem os bons policiais, existem os maus
[00:31:02] policiais, existe a boa mídia e a má mídia
[00:31:04] no filme do Verhoeven
[00:31:05] tanto a mídia, quanto
[00:31:07] a instituição polícia
[00:31:09] elas tem um papel
[00:31:11] apenas secundário
[00:31:13] numa estrutura de violência muito maior
[00:31:16] que é toda essa estrutura
[00:31:18] ancap, né, toda essa estrutura
[00:31:20] anarco-capitalista, extrema
[00:31:22] tanto que o final
[00:31:24] do filme do Verhoeven
[00:31:26] porque o final do filme do Verhoeven
[00:31:27] não termina nada, né, basicamente o Robocop
[00:31:31] se vinga de um cara
[00:31:32] então todo mundo, nossa, ele se vingou desse cara
[00:31:34] que era mau e sei lá o que, bababá
[00:31:36] mas toda a história
[00:31:39] continuou, toda a destruição
[00:31:41] nada mudou, exatamente
[00:31:42] nada mudou, né, cara
[00:31:44] e é maravilhoso porque o tópico
[00:31:47] que eu ia falar agora é exatamente essa questão
[00:31:49] de personificação e por que
[00:31:50] a gente tem uma certa necessidade de personificar
[00:31:52] essas histórias e de lidar
[00:31:54] com dramas individuais, um porque
[00:31:56] é da nossa psicologia, a gente não, né, o nosso cérebro
[00:31:59] não é naturalmente
[00:32:01] estruturado pra lidar com problemas
[00:32:03] sistêmicos, né, e
[00:32:04] abstratos, a gente lida com aquilo que a gente
[00:32:07] vê, que a gente sente, então personificar histórias
[00:32:09] faz muito sentido, e aí quem que
[00:32:11] se utiliza disso? A ficção
[00:32:12] o entretenimento, e a gente
[00:32:15] tá acostumado a consumir esse tipo de narrativa
[00:32:17] e aí, narrativa ruim
[00:32:19] é extremamente
[00:32:20] personalizada, porque
[00:32:22] perde-se a ideia de que
[00:32:25] você pode contar mais do que só a história
[00:32:27] de um indivíduo com
[00:32:28] a história, então, e eu acho que o
[00:32:31] Padilha passa por isso, porque
[00:32:32] vamos comparar o Alex Murphy dele
[00:32:35] com o Alex Murphy do
[00:32:37] Verhoeven, né, o Alex Murphy
[00:32:39] do Verhoeven, a gente nunca vê a família dele
[00:32:41] a gente nunca vê ele fora da delegacia
[00:32:43] a gente vê ele no primeiro dia dele na delegacia
[00:32:45] ele chega, a gente
[00:32:47] vê um pouco da personalidade dele, pra gente
[00:32:49] poder entender, inclusive, quando que aquela
[00:32:51] personalidade tá sendo preservada no robô, pra gente
[00:32:53] ter alguma conexão com ele, e com a
[00:32:55] parceira dele, a Luz
[00:32:56] e aí, o
[00:32:58] dali pra frente, essa é a história sobre
[00:33:01] mais um policial, mais
[00:33:03] uma engrenagem do sistema
[00:33:05] que foi usada daquela maneira
[00:33:07] e aí ele vira o
[00:33:08] Robocop. Mas uma narrativa
[00:33:11] inútil, inclusive isso. Uma narrativa inútil
[00:33:13] e tudo sem útil. E de
[00:33:15] nenhuma maneira excepcionalista
[00:33:17] em nenhum momento aquela narrativa
[00:33:19] é algo que só poderia ter acontecido com
[00:33:21] o Alex Murphy, ele tá longe de ser um escolhido
[00:33:23] ele é só o cara que morreu
[00:33:25] aquele dia, foi uma
[00:33:26] infeliz coincidência, né
[00:33:28] já o Alex Murphy
[00:33:31] do Padilha
[00:33:32] o primeiro sinal de que tudo vai dar errado
[00:33:35] é que ele tenta humanizar demais
[00:33:36] o Alex Murphy, então, primeira coisa
[00:33:39] ele é um policial incorruptível
[00:33:41] lutando contra a corrupção do próprio
[00:33:43] da própria, né
[00:33:45] delegacia lá. Aí em segundo lugar
[00:33:47] ele morre, não
[00:33:49] enfrentando o crime
[00:33:51] ele morre porque os criminosos botam
[00:33:53] uma bomba no carro dele, na casa dele
[00:33:55] e aí ele morre, eu tinha esquecido disso
[00:33:56] durante coito interrompido
[00:33:58] ele tá começando
[00:34:01] a fazer sexo com a esposa
[00:34:03] ele ouve um barulho, ele vai ver o que que é
[00:34:05] e o carro explode na cara dele
[00:34:06] então de novo, aí ou seja
[00:34:08] é o desejo, a paixão desse homem foi interrompida
[00:34:11] por esses malditos bandidos
[00:34:13] ou seja, dizendo que na real
[00:34:15] o grande problema aí
[00:34:17] é que foram lá mexer com ele no tempo livre
[00:34:19] dele, e acreditar nessa
[00:34:21] falácia de que tipo, não, ele só
[00:34:23] tava fazendo o trabalho dele quando ele tava na polícia
[00:34:25] com isso você resolve com ele
[00:34:27] no horário comercial, sei lá
[00:34:29] que é essa mesma ideia
[00:34:30] que permeia muito da nossa vida
[00:34:33] hoje em dia, com a questão de que a discussão política
[00:34:35] tem que ser feita só no horário do debate
[00:34:37] pré-gravado, sem palavrão, sem
[00:34:39] tapa na cara, e é isso
[00:34:41] que tudo é
[00:34:43] que tudo tem que caber
[00:34:45] nos subterfúgios
[00:34:47] da nossa vida
[00:34:49] como trabalhadores
[00:34:51] comerciais e cheios
[00:34:53] de rótulos e
[00:34:55] etiquetas e tudo mais
[00:34:56] então, eu acho que esse é um ponto, né, porque a grande
[00:34:58] a grande, grande golpe baixo
[00:35:01] foi atacá-lo na sua vida pessoal, né, e não
[00:35:03] na sua vida, na sua vida
[00:35:05] enfim, profissional
[00:35:06] sim, como se a corrupção da força policial não fosse
[00:35:09] algo que afetasse a vida pessoal de ninguém
[00:35:11] é tipo, ué, você pode ser contra isso, eu posso ser a favor
[00:35:13] disso, mas a gente discute isso durante o
[00:35:15] horário comercial, né, agora cada um na sua casa
[00:35:17] e esse é uma outra coisa que
[00:35:19] assim, os dois filmes
[00:35:21] resolvem isso de uma outra maneira, né
[00:35:23] porque
[00:35:25] todos os dois tem um discurso do tipo, um policial
[00:35:26] incansável, né, uma pessoa que não tem vida pessoal
[00:35:29] então, assim, só que no Robocop
[00:35:31] ele de fato não vai ter uma vida pessoal
[00:35:33] no Robocop do original do Verhoeven
[00:35:34] no Robocop do Padilha
[00:35:36] tem essa coisa, tipo
[00:35:38] nós temos a grande violência
[00:35:41] no fim, é as pessoas
[00:35:42] não deixar que
[00:35:44] aquele cara, que é uma máquina de matar
[00:35:46] tenha uma vida pessoal
[00:35:48] esse que é o ponto, né, tipo assim, quanto o problema do Robocop
[00:35:51] original era
[00:35:52] todo, ele era uma aberração
[00:35:55] né, inclusive isso fica muito
[00:35:57] explícito
[00:35:58] quando ele tira o capacete, né, porque ele é
[00:36:01] incômodo, a cara dele é incômoda
[00:36:03] né, tipo, você olha ele assim, caralho
[00:36:04] você fica incomodado
[00:36:05] no filme do Padilha é quase um Power Rangers
[00:36:09] sem capacete, saca, é tipo
[00:36:11] ele é cool, é um cara
[00:36:13] usando uma roupa assim, pretão
[00:36:15] sabe, tipo, olha, sei lá o que
[00:36:17] e entra numa questão da movimentação também dele, né
[00:36:19] no original, até por causa da tecnologia
[00:36:21] da época, ele se movimenta de uma maneira muito
[00:36:23] travada, ruim, desconfortável, ele
[00:36:25] não é
[00:36:25] ele não é charmoso
[00:36:29] né, ele não é uma figura
[00:36:31] carismática, né
[00:36:32] e o do Padilha não, o do Padilha
[00:36:35] é um personagem desanimado, porque ele se mexe
[00:36:37] com todos os movimentos que o computador
[00:36:38] deixa ele ter quando ele quer, entendeu
[00:36:40] então ele vira um tipo um ninja robô
[00:36:43] assim, muito legal
[00:36:44] e o Robocop original não, o Robocop original
[00:36:47] é uma máquina de guerra mesmo, ele é tão
[00:36:49] duro quanto um tanque de guerra, né
[00:36:50] esse que era o ponto, porque uma vez eu lembro que eu vi
[00:36:53] uma, não sei se era o próprio
[00:36:55] Verhoeven falando disso, ou se era alguém falando
[00:36:56] sobre o filme dele, de que como isso era
[00:36:59] uma coisa tão proposital
[00:37:00] porque assim, é
[00:37:02] era pra ele ser desengonçado
[00:37:04] tal como uma máquina de guerra
[00:37:06] e violento tal como uma máquina de guerra
[00:37:08] mas tão infantilizado ao ponto de que
[00:37:11] precisa comer papinha
[00:37:12] a coisa do rosto dele que eu achei legal
[00:37:15] que você levantou, que foi uma coisa que eu descobri durante a minha pesquisa
[00:37:17] é que o Edward Neumayer, que é o
[00:37:19] roteirista do Robocop original
[00:37:20] ele fala que na cabeça dele
[00:37:22] o rosto dele que a gente vê ali não é
[00:37:24] porque teoricamente o crânio dele
[00:37:27] tá ali dentro do robô
[00:37:29] é que é pra parecer como
[00:37:30] se fosse a pele dele esticada
[00:37:32] por cima do robô, que eles teriam
[00:37:34] preservado a pele do rosto dele
[00:37:36] só pra ele não ter um choque psicológico
[00:37:38] muito grande quando ele recobrasse consciência
[00:37:40] isso fica muito explícito no filme mesmo
[00:37:42] sim, sim, exato
[00:37:44] eles não falam estritamente que
[00:37:46] a cabeça dele não tá lá, mas assim, assim que ele tira
[00:37:48] o capacete você percebe que aquela pele tá puxada
[00:37:51] aquela pele tá presa ali
[00:37:52] não é como no do Padilha que é
[00:37:54] o rosto dentro de um capacetinho, né
[00:37:56] é, inclusive no filme do Padilha
[00:37:58] como é que é essas coisas de filme americano atual
[00:38:00] né, que os caras tem que explicar
[00:38:02] o que você tá vendo na tela, tem uma hora que eles falam isso
[00:38:04] ah, ele é uma máquina que pensa que é humano
[00:38:07] é
[00:38:08] não, e ele fala, ah, esse não é meu cérebro
[00:38:10] né, porque tem uns pedaços eletrônicos no cérebro
[00:38:12] ah, tem uns chips aí, não, e aí
[00:38:14] tem uma cena que, como eu vi um depois
[00:38:16] do outro hoje, fica muito engraçado
[00:38:18] que é o, logo que ele
[00:38:21] vai falar com a família pela primeira vez
[00:38:22] ele não quer que a família veja ele na roupa
[00:38:24] do Robocop, né, e ele fala
[00:38:26] ah, sim, não, eu não quero que eles me vejam assim
[00:38:28] porque ele tá se sentindo grotesco, só que no filme
[00:38:30] do Padilha, ele não tá grotesco
[00:38:33] ele tá tipo, né, um bonequinho
[00:38:35] um action figure, pronto pra ser vendida
[00:38:37] o Robocop do Verhoeven, quando ele
[00:38:38] acorda, ele, um, não tá todo pronto, não tá
[00:38:40] todo montado, e assim
[00:38:42] e a, e a, e ele tá grotesco
[00:38:44] assim, de certa maneira, né
[00:38:46] no Padilha, nem o que
[00:38:49] é pra ser grotesco, é grotesco
[00:38:50] é tudo muito clean, é aquela
[00:38:52] ideia de, de, de, parece
[00:38:54] seriado do CW, aquele canal americano, em que
[00:38:56] todo mundo é um adolescente muito bonito
[00:38:58] então, até a pessoa feia, na verdade
[00:39:00] ela é só pra uma pessoa menos bonita que as outras
[00:39:03] mas você tem que comprar que ela
[00:39:05] não, essa é a pessoa mais feia do mundo
[00:39:06] é, às vezes nem isso, né, só a GZ fala, ele é feio
[00:39:09] caraca, ele é feio, não, exato, é só isso
[00:39:10] é só a GZ, e é a mesma coisa, assim, é o momento
[00:39:13] que ele fala, ele, ele acorda
[00:39:15] do nada, com a roupa pronta, sim
[00:39:17] sim, não, então, tem
[00:39:18] tem, tem essa coisa, assim
[00:39:20] que é muito interessante, porque o
[00:39:23] no filme, ele é um produto
[00:39:24] totalmente feito pro marketing, né
[00:39:27] e o, o filme é
[00:39:29] feito pra isso, porque o filme não pode em nenhum
[00:39:30] momento, né, do Padilha
[00:39:32] tô dizendo, é, ferir
[00:39:35] a sensibilidade instituída
[00:39:37] dos seus telespectadores
[00:39:39] então, por exemplo, enquanto
[00:39:41] no primeiro filme, a existência
[00:39:43] dele, enquanto o Robocop
[00:39:44] você consegue enxergar aquilo como
[00:39:46] uma violência tremenda que fizeram com aquele
[00:39:48] homem, né, uma violência absurda
[00:39:51] a existência dele como
[00:39:53] o Robocop, no filme do Padilha
[00:39:54] é vendida
[00:39:56] dentro do filme, e o personagem
[00:39:58] aceita isso, com todos, aos trancos
[00:40:00] e barrancos, mas isso é a mensagem
[00:40:02] como uma segunda chance, né
[00:40:04] com um presente que a mulher dele
[00:40:06] deu pra ele, né, com um presente de amor
[00:40:08] saca, tanto que aquela coisa, aceitação
[00:40:11] da mulher dele quando ele volta
[00:40:12] aquela brigar pra tê-lo junto
[00:40:14] junto a ela, no convívio
[00:40:16] familiar e coisas do tipo, então assim
[00:40:18] o problema não foi ter
[00:40:20] transformado aquele sujeito
[00:40:22] numa máquina de matar, o problema
[00:40:24] foi tentar, assim, o problema
[00:40:26] maior é
[00:40:28] que, pô, eles perderam um pouco a mão ali
[00:40:30] quando exigiram que ele não pudesse ter vida
[00:40:32] pessoal, saca, que tiveram que fazer aquela coisa
[00:40:34] apressar pra lançar, saca
[00:40:36] e por algum motivo, aquela mulher
[00:40:38] tem que querer ficar casada com um homem
[00:40:40] que é só uma mão e uma cabeça
[00:40:42] agora, né, que é uma
[00:40:44] parada muito boa que o Verhoeven não faz, né
[00:40:46] o Verhoeven nunca mostra
[00:40:48] a família, e quando o
[00:40:51] Murphy finalmente escapa da OCP
[00:40:52] junto com a parceira dele, ele pergunta, o que aconteceu com a
[00:40:54] família, ele fala, eu não lembro
[00:40:56] da família do Murphy, mas eu sinto
[00:40:58] eles, né, como se ele tivesse um resquício
[00:41:00] ele não tem mais as memórias, ele tem um resquício
[00:41:02] daquele amor pela família, e ela só fala assim
[00:41:04] cara, depois do que tudo aconteceu, ela
[00:41:06] saía, foi embora da cidade, não queria as pessoas
[00:41:08] né, ela ficou com medo também
[00:41:10] de alguém poder vir atrás dela e tal
[00:41:13] e a família foi embora
[00:41:14] e acaba aí, porque tipo
[00:41:16] é provavelmente que aconteceria isso
[00:41:18] é uma resposta muito melhor do que
[00:41:20] essa esposa do Padilha, que não ganha
[00:41:22] um sobrenome, não ganha
[00:41:24] um emprego, nada, porque ela é só
[00:41:26] um acessório de roteiro, assim
[00:41:28] ela não é um personagem. É isso que é um ponto
[00:41:30] fundamental, eu acho, porque assim
[00:41:32] aquilo que a gente tava falando, de como no
[00:41:34] primeiro filme do Verhoeven, o
[00:41:36] ambos são robôs que imaginam que são pessoas
[00:41:38] isso é um ponto, né, uma discussão clássica
[00:41:40] né, só que o do Padilha
[00:41:42] ele não leva essa ideia a sério, então no final ele é humano
[00:41:44] tanto que ele supera, né, a alma dele
[00:41:46] que eles ficam brincando, ele supera as travas
[00:41:48] né, que foram impostas a ele. Eu vou entrar
[00:41:50] nos problemas técnicos desse filme, o primeiro dele
[00:41:52] sendo que ele usa o Bing pra fazer
[00:41:54] busca
[00:41:55] e dois, usa o Bing
[00:41:58] na China, né, ou seja, tinha que estar rodando um
[00:42:00] proxy ali. Nossa, verdade
[00:42:02] cara, eu nem lembro que o Bing
[00:42:04] existe, né, cara, porque enfim, não uso
[00:42:06] Windows, mas assim, o
[00:42:08] nem as pessoas que usam Windows lembram que
[00:42:10] ele existe. Não, exato, a gente prefere
[00:42:12] lembrar, a gente prefere pensar que não acontece
[00:42:14] É que nem a gente que usava Zune, né, cara
[00:42:16] essas coisas. Não, usa o Zune até hoje
[00:42:18] o melhor software de música. O que eu queria dizer
[00:42:20] falando em software, é que o filme
[00:42:22] do Padilha, ele tem um problema, né
[00:42:24] que é, ele passa cinquenta
[00:42:26] e sete minutos criando
[00:42:28] o Robocop, é insuportável
[00:42:30] o filme é quinze minutos mais longo do que o original
[00:42:32] do Verhoeven e com um ritmo muito pior
[00:42:34] e aí, o que que acontece?
[00:42:36] O Padilha, ele decide
[00:42:38] passar muito tempo mostrando, assim, os testes
[00:42:41] né, e a coisa de como criar o Robocop
[00:42:42] e aí, por algum motivo, bom
[00:42:44] todo o negócio no Padilha é o seguinte
[00:42:46] existe o Dreyfus Act
[00:42:48] que é uma lei no Congresso
[00:42:50] americano que não permite que se usem robôs
[00:42:53] pra o combate ao crime
[00:42:54] dentro dos Estados Unidos. É mostrado que eles
[00:42:56] já usam fora, eles usam no começo do filme
[00:42:58] é muito estranho. O Padilha tem esse problema
[00:43:00] ele é muito americanoide, né
[00:43:02] e ele tem um filme, inclusive. Mais do que os americanos
[00:43:04] inclusive. Mas, sim
[00:43:06] porque, ué, porque o cara que vê de fora não vê defeito
[00:43:08] né, tipo, gente que não mora em São Paulo
[00:43:10] que acha que São Paulo é incrível
[00:43:11] só quem mora em São Paulo pode falar mal de São Paulo
[00:43:14] e aí, o, mesma coisa com o Rio de Janeiro
[00:43:16] o, o, o, a questão
[00:43:19] é que, por exemplo, ele tem
[00:43:20] o outro filme dele, o Entebbe
[00:43:22] que é sobre terroristas pró-palestinos
[00:43:24] terroristas não, né, enfim
[00:43:25] enfim
[00:43:27] mas, enfim, o filme dele é extremamente pró-Israel
[00:43:30] assim, e muito míope
[00:43:32] da questão daqueles que ele retrata
[00:43:33] ele abre o filme dele, do Robocop
[00:43:36] com os Estados Unidos, inexplicavelmente, tendo tomado
[00:43:38] conta de Teherã no futuro dele, né
[00:43:40] ou seja, eles invadiram o Irã
[00:43:42] e ganharam essa guerra, que é uma guerra que
[00:43:44] eles ensaiam há muito tempo e o Padilha dá
[00:43:46] essa satisfação de gozar com o pau do outro
[00:43:48] de, ah, no meu filme vocês já conquistaram
[00:43:50] o Irã, hein, olha que legal
[00:43:52] é, é, é, ele é
[00:43:54] o próprio Brasil agora, né, cara
[00:43:56] assim, que eles ouçam de viver
[00:43:58] em Miami, sabe?
[00:43:59] Pelo amor de Deus, cara, aí, mas
[00:44:02] aí vamos lá, o que que acontece com o negócio
[00:44:04] esse ato dry-fuse, né
[00:44:06] eles têm, a empresa
[00:44:08] a OCP percebe que, ah, a gente precisa convencer
[00:44:10] o governo americano, o público
[00:44:12] americano, porque é isso, né, os senadores
[00:44:14] não aprovam a
[00:44:16] dissolução dessa lei, porque o
[00:44:18] o populacho
[00:44:20] não deixa, então eles falam, ah, então a gente tem que convencer
[00:44:22] as pessoas de que é legal, né, um
[00:44:24] um
[00:44:24] um policial robô
[00:44:27] e aí eles acham um jeito
[00:44:30] de burlar a lei falando, ah, e se a gente
[00:44:32] botar um homem dentro do robô, né
[00:44:33] não é um robô, e aí
[00:44:35] aí começa o Murphy e tal, só que aí
[00:44:38] eles deixam o Murphy pra ser treinado
[00:44:40] assim, pelo cara que programa
[00:44:42] e cuida dos robôs de guerra
[00:44:44] e aí o grande desafio
[00:44:46] que eles têm que superar é que o
[00:44:48] desempenho dele é alguns segundos mais
[00:44:50] lento que o do robô, sempre sendo robô
[00:44:52] e eles falam, ah, a gente tem que consertar isso
[00:44:54] e é nisso que eles tiram parte das
[00:44:56] emoções dele e ele vira a máquina
[00:44:58] que acha que é humano, porque até esse ponto ele era
[00:44:59] um humano com corpo robô
[00:45:01] só que a questão principal que esse filme não
[00:45:03] pensa é, é muito mais
[00:45:06] interessante que ele não seja mais eficiente que um robô
[00:45:08] porque fica bem claro no roteiro
[00:45:10] que o objetivo da OCP é que
[00:45:12] isso seja só um stopgap, assim como
[00:45:14] no primeiro filme, que é, ah, a gente bota esse
[00:45:16] homem com roupa de robô, depois a gente dá uma
[00:45:17] desculpa pra gente ter que tirar ele quando o público
[00:45:19] estiver pronto pra aceitar um policial 100%
[00:45:22] robô, então nunca que
[00:45:24] a comparação dele seria, ah, ele tem que ser
[00:45:26] melhor que um robô, não, ele tem que ser melhor que um humano
[00:45:28] e aí depois a gente mostra o quanto que o robô
[00:45:30] é melhor que ele pra finalmente substituir ele
[00:45:32] pelo robô, porque o OCP não tem interesse nenhum
[00:45:34] também em continuar usando humanos
[00:45:35] como a sua força, né, de trabalho
[00:45:37] isso é um problema
[00:45:39] muito, é uma falta de comunicação
[00:45:41] entre o marketing e o criativo, né
[00:45:44] cara, tipo assim, a galera que
[00:45:45] não tá se entendendo ali, né, a galera
[00:45:48] que é o criativo, que são os cientistas, estão ali, não, a gente vai
[00:45:50] fazer aqui o, pô, o melhor robô que tem
[00:45:52] mas esse é o problema, o filme
[00:45:54] nem tem essa desculpa, porque é o personagem
[00:45:55] do Michael Keaton que personaliza tudo isso
[00:45:57] então ele tá em todas as cenas, em todas as reuniões
[00:45:59] ele é mais hands-on do que o Elon Musk
[00:46:02] finge que é, enfim, ele é
[00:46:04] insuportável, e é muito doido, porque essa figura
[00:46:06] do Michael Keaton, eu lembro que
[00:46:08] na época o Padilha falou muito sobre como ele se inspirou
[00:46:10] no Steve Jobs, que era um grande líder
[00:46:11] porque não é, porque aí ele não queria mostrar
[00:46:14] o, o, esse personagem da OCP
[00:46:16] como só um vilão e mostrar
[00:46:17] que ele é ambíguo, e é tipo assim
[00:46:19] não tem um cara mais vilão
[00:46:21] na vida real, assim, da indústria
[00:46:24] da tecnologia, do que o Steve Jobs
[00:46:25] tudo que você lê sobre a vida desse homem
[00:46:27] ele tratava as pessoas com efeito lixo, assim
[00:46:29] e ele não melhorou a vida de ninguém
[00:46:31] esse cara não tem nada de ambíguo, mas assim
[00:46:34] absolutamente nada, a única
[00:46:35] pessoa que é minimamente ambíguo
[00:46:38] mas assim, muito minimamente
[00:46:39] é o personagem do Gary Oldman
[00:46:42] né, que é um cientista, muito, muito pouco
[00:46:44] mas é muito rápido, assim, porque no começo ele tinha
[00:46:45] todo um discurso humanista, e de repente ele fede
[00:46:47] todas as pressões possíveis, ele é o cara assim
[00:46:50] com a menor força de vontade na história do heavy metal
[00:46:52] porque todo mundo chega pra ele, olha só, você tem que
[00:46:54] não, eu tenho princípios, aqui meu trabalho é humanista
[00:46:56] eu quero salvar vidas, é o cara
[00:46:57] não, mas vou te dar uma chance de salvar vidas, você precisa criar uma máquina
[00:47:00] de guerra pra mim, tá bom, aí depois chega pra assim
[00:47:02] olha só, mas ele é humano, você quer que eu faça
[00:47:03] não, eu tenho que lançar esse cara agora, quer que eu fale o que ele
[00:47:05] tá bom, vou aqui, é só isso, assim, não tem nenhum
[00:47:08] embate, né cara, enfim, conflito
[00:47:09] zero, zero, e aí por algum motivo
[00:47:12] com o Robocop funcionando normalmente
[00:47:14] é que eles conseguem que o público
[00:47:16] apoie
[00:47:16] a, né, a
[00:47:20] você derrubar essa lei
[00:47:21] por voto do senado
[00:47:24] de novo assim, a timeline do filme é muito
[00:47:26] pouco crível, porque eles
[00:47:27] conseguem que o senado americano vote a mesma
[00:47:30] lei num período de tempo muito
[00:47:32] curto, é bizarro
[00:47:34] e, nossa cara
[00:47:36] e a mulher dá uma entrevista na televisão e todo mundo
[00:47:38] nossa, perdemos tudo, acabou, os caras já estão
[00:47:40] ganhando a lei, passando, saca, tipo
[00:47:41] essa mulher deu uma entrevista, nossa
[00:47:44] não, mas sabe que tem uma coisa rapidinho que eu acho que é interessante
[00:47:46] voltar, nessa cena
[00:47:48] onde ele, que vai
[00:47:50] marcar a diferença
[00:47:52] né, o momento que as pessoas falam, ele é uma
[00:47:54] máquina que acha que é humano
[00:47:55] é, porque é um momento em que
[00:47:58] mostra que ele se diverte no Robocop
[00:47:59] que é fundamental pra criar
[00:48:02] uma empatia
[00:48:03] do público com aquela máquina
[00:48:06] de guerra, né cara, assim
[00:48:07] porque você não tem empatia com o Murphy, você tem empatia com a
[00:48:09] eficiência dele de matar, cara
[00:48:11] e o fato de que ele sacaneia o
[00:48:13] treinador lá dele que ele não gosta
[00:48:15] no final dessa demonstração
[00:48:17] sim, que ele perguntava, posso dar um taser
[00:48:20] nele, tipo, posso torturar ele
[00:48:22] um pouco, e ele gosta disso
[00:48:24] que tem tudo a ver com o Padilha, o Padilha adora
[00:48:26] essas figuras, ele adora, por mais que ele
[00:48:28] finja que não, ele adora o
[00:48:29] o, o, o, o
[00:48:31] Wagner Moura lá, como é que é o nome dele
[00:48:33] a máquina de matar eficiente
[00:48:34] o capitão nascimento, ele adora
[00:48:38] o capitão nascimento, ele transforma o robô
[00:48:39] num grande capitão nascimento
[00:48:40] assim que ele recupera, é muito louco
[00:48:44] né, isso, é bem
[00:48:45] é aquele momento assim que
[00:48:48] o fascismo tá sendo jogado
[00:48:50] na sua cara, né, porque assim
[00:48:51] tem um momento em que, quando ele tá
[00:48:54] sem emoções
[00:48:55] ele tá lá cumprindo o papel dele de uma maneira muito
[00:48:57] eficiente, né, como robô, máquina de prender
[00:49:00] e tudo mais, no momento em que ele
[00:49:01] recupera as emoções
[00:49:03] ele se torna meio sádico, né
[00:49:05] ele aterroriza as pessoas
[00:49:07] ele tortura, ele tortura
[00:49:10] ele não deixa de ser violento, ele só
[00:49:11] traz uma paixão pra violência
[00:49:13] exato, né, tipo assim, a violência ela sai da eficácia
[00:49:16] da máquina, fria
[00:49:18] e vai pra, porque assim
[00:49:19] todo o debate original era sobre ter consciência
[00:49:22] pra não matar crianças
[00:49:24] a consciência que o policial tem
[00:49:26] que o impede de matar crianças
[00:49:28] é muito eficiente na hora de obter informações
[00:49:30] lembrando que não é a consciência
[00:49:33] de matar, de não matar
[00:49:34] crianças, é, ele se arrependeria
[00:49:36] de matar uma criança, é a grande questão que o filme levanta
[00:49:38] e aí, o que eu queria
[00:49:40] voltar pra essa questão, que ele transforma
[00:49:42] em algo extremamente pessoal
[00:49:44] do Robocop
[00:49:46] é que aí vira a luta do Robocop
[00:49:47] e aí agora que eu lembrei, porque que o público
[00:49:50] no filme é convencido de que um policial
[00:49:52] robô é bom?
[00:49:54] é porque
[00:49:55] ele acaba com a corrupção da polícia
[00:49:58] e aí teoricamente
[00:49:59] o senado vota a favor
[00:50:02] de acabar com a corrupção, porque de novo
[00:50:03] o Padilha, ele é o
[00:50:06] cara que fez Tropa de Elite 1 e 2
[00:50:07] e depois aquela série O Mecanismo
[00:50:09] que pinta
[00:50:10] o Moro e toda a galerinha da
[00:50:13] Vaza Jato como
[00:50:15] grandes heróis, porque ele realmente acredita
[00:50:18] nisso, ele realmente acredita
[00:50:19] nessa visão de mocinhos e vilões do mundo
[00:50:22] que ele tem, e ele acha que os mocinhos
[00:50:24] são as pessoas que querem acabar com a corrupção
[00:50:25] e aí o Robocop, ao investigar
[00:50:28] o próprio assassinato, descobre
[00:50:29] tem policiais corruptos trabalhando
[00:50:31] com esse bandido aqui, que é um traficante
[00:50:33] de armas, ele é um bandido genérico
[00:50:35] na verdade, mas a gente entende que ele é
[00:50:37] um traficante de armas, e aí
[00:50:39] a grande raiz do problema
[00:50:41] ele é só mal, e a grande raiz do problema
[00:50:43] entre aspas, é que aí ele descobre que
[00:50:45] a comandante do meu precinct
[00:50:48] da minha delegacia
[00:50:49] é corrupta e deixou ele se safar com isso
[00:50:51] no original do Verhoeven, quem tá
[00:50:53] mancomunado com o crime organizado
[00:50:55] e de uma maneira muito mais
[00:50:57] ligada
[00:50:59] mesmo sem
[00:51:01] 10 mil horas de diálogo expositivo que o Padilha
[00:51:03] usa, o Verhoeven com um pouquinho
[00:51:05] de diálogo já pinta uma
[00:51:07] clara ideia de que
[00:51:09] a polícia privatizada da OCP
[00:51:11] e o crime organizado precisam do outro
[00:51:14] a OCP só tem
[00:51:15] reserva de mercado enquanto o crime organizado
[00:51:18] for uma ameaça pros políticos
[00:51:20] e pras pessoas, e ela puder usar
[00:51:21] desse medo pra se estabelecer
[00:51:23] e a OCP não existe na vida real
[00:51:25] então o que o Verhoeven tá falando?
[00:51:27] o Verhoeven tá falando assim, a ideia de guerra ao crime
[00:51:30] que sustenta todas as decisões
[00:51:32] que existem no mundo do Robocop e no seu
[00:51:33] ela existe porque
[00:51:35] é do interesse dos poderosos sim que
[00:51:37] o crime organizado exista
[00:51:38] já no filme do
[00:51:41] Padilha isso não é verdade
[00:51:42] o personagem do Michael Keaton, por exemplo, do OCP
[00:51:45] não tem nada a ver com a corrupção policial que leva
[00:51:47] à morte dele, por exemplo
[00:51:49] e aí, inclusive a solução
[00:51:51] do Robocop nesse filme é
[00:51:53] matar o Michael Keaton, sendo que não é
[00:51:55] o personagem do Michael Keaton, teoricamente
[00:51:57] que é o líder da OCP, que morre
[00:51:59] no filme do Robocop
[00:52:01] ele só consegue matar o cara que está
[00:52:03] com uma arma apontada pra cabeça
[00:52:05] do chefe, porque o chefe vira e fala
[00:52:07] você está demitido, e ele consegue quebrar a quarta
[00:52:09] diretiva, que é não matar ou prender
[00:52:11] um oficial, um alto
[00:52:13] executivo da OCP
[00:52:14] no filme do Padilha, o
[00:52:17] CEO lá da OCP, que é o Michael Keaton
[00:52:19] ele aponta uma arma pra
[00:52:21] família do Robocop
[00:52:23] e fala assim, eu poderia
[00:52:24] dar um tiro nele se eu quisesse, nada ia acontecer
[00:52:27] mas eu não vou, e tal, e aí aponta a arma
[00:52:29] pro Robocop, e o Robocop mata ele nessa hora
[00:52:31] não quando ele está ameaçando a vida de um terceiro
[00:52:33] enfim
[00:52:35] é muito ruim
[00:52:37] porque a história do Padilha é sobre o triunfo
[00:52:39] desse um homem, e como esse um homem
[00:52:41] esse policial incorruptível foi lá
[00:52:43] e acabou com a corrupção, e acabou com
[00:52:45] os ideais torpes
[00:52:47] da OCP, porém
[00:52:49] o médico que se
[00:52:51] que se arreganhou lá pra OCP
[00:52:53] e fez o Robocop em primeiro lugar
[00:52:55] e se recusou a dar a eutanásia
[00:52:57] pro Robocop quando ele perde, ele é
[00:52:59] mostrado como alguém que lutou pela
[00:53:01] justiça aí, hein?
[00:53:02] Ele sacrificou, também sacrificou muita coisa, né
[00:53:05] porque assim, eu acho que esse ponto que tu tocou
[00:53:07] é fundamental porque
[00:53:08] no filme original, toda essa
[00:53:11] narrativa, a polícia
[00:53:13] sabe, todo o sofrimento da população
[00:53:16] ele tá ligado a
[00:53:17] um processo de poder estrutural
[00:53:19] que inclusive é até maior do que
[00:53:21] os personagens, né
[00:53:23] é até maior do que o dono da OCP
[00:53:25] o presidente da OCP, porque no momento
[00:53:27] que ele morrer, outra pessoa
[00:53:29] vai ocupar o lugar dele
[00:53:31] então assim, não existe
[00:53:33] o vilão, esse é um ponto
[00:53:35] importante no filme
[00:53:37] do primeiro Robocop do Verhoeven
[00:53:39] tipo assim, existe uma estrutura
[00:53:41] de poder, uma estrutura que oprime
[00:53:44] a sociedade, que sacrifica
[00:53:45] que torna todo mundo
[00:53:46] que todo mundo é
[00:53:49] imatável, né, torna toda
[00:53:51] a vida em combustível de seu próprio crescimento
[00:53:53] e autorreprodução, então um projeto
[00:53:55] de cidade que vai
[00:53:57] deslocar os mais
[00:53:59] pobres, que vai aumentar ainda mais
[00:54:01] a criminalidade, sei lá o que
[00:54:03] ele tá ligado à máquina policial
[00:54:05] é tudo junto, é uma estrutura
[00:54:07] o filme do Verhoeven é uma estrutura
[00:54:09] por isso que o final do Verhoeven é inútil
[00:54:12] então assim, e é uma
[00:54:13] o final do Robocop, na hora que ele mata
[00:54:15] o cara que foi demitido, o cara cai
[00:54:17] o filme acaba ali, e basicamente
[00:54:19] ele foi assim, tá vendo, toda essa história
[00:54:21] ela é inútil, e o máximo que a gente consegue é fazer
[00:54:23] um entretenimento pra você
[00:54:24] tem uma piada final
[00:54:27] foda nessa cena, que eu não lembrava
[00:54:30] que eu vi hoje
[00:54:31] que é uma piada muito boa do Verhoeven, que é
[00:54:33] a cena acaba nesse momento, que aí o
[00:54:35] cara da OCP pergunta
[00:54:37] qual é o seu nome, e aí ele vira e fala
[00:54:39] Alex Murphy, que é pra ser
[00:54:41] um momento triunfal, tipo, olha, ele está recuperando
[00:54:43] a própria individualidade e tal, só que
[00:54:45] o que o filme faz, ele fala, Alex Murphy
[00:54:47] e imediatamente corta pra preto o escrito
[00:54:49] Robocop, exato, porque é tipo
[00:54:51] não, você não é Alex Murphy, você
[00:54:53] é Robocop
[00:54:55] é, então, e esse que é interessante
[00:54:57] porque toda essa narrativa grandiosa
[00:54:59] que, sei lá, é porque
[00:55:01] por isso que eu citei aqueles filmes lá no começo, né
[00:55:03] que colocam o telespectador
[00:55:05] e o próprio filme
[00:55:07] o próprio diretor, num papel
[00:55:09] fora daquilo que eles estão criticando
[00:55:11] nesse filme
[00:55:12] no fim das contas, você volta
[00:55:15] pro começo, no qual você é o telespectador
[00:55:17] vendo toda uma história violenta
[00:55:19] um telespectador daquele telejornal
[00:55:21] vendo toda uma situação hiperviolenta
[00:55:23] super tensa, de pessoas
[00:55:25] que foram mutiladas, vidas que foram destruídas
[00:55:27] sei lá o que, e que é um entretenimento
[00:55:29] pra você, no fim das contas
[00:55:31] todo aquele sofrimento que
[00:55:33] dentro daquela estrutura do filme
[00:55:34] é inútil, é só um entretenimento
[00:55:37] pra te satisfazer, olha só
[00:55:39] olha onde você está, no filme do
[00:55:41] no filme do Padilha, você não está vendo só
[00:55:43] o Robocop
[00:55:45] dar tiro num criminoso
[00:55:47] e aí se satisfazendo sadicamente
[00:55:48] com o sofrimento de um cara que o filme
[00:55:51] está te dizendo que você pode ver sofrer porque ele é um criminoso
[00:55:53] você está se satisfazendo no final das contas
[00:55:55] com o sofrimento do próprio Alex Murphy
[00:55:56] que é o Robocop
[00:55:57] inclusive isso é reiterado
[00:56:00] totalmente reiterado, por exemplo
[00:56:02] no momento que ele vai salvar
[00:56:04] a primeira cena que ele vai
[00:56:06] em ação
[00:56:07] um cara vai assaltar uma loja
[00:56:10] ele causa mais dano na loja pra matar
[00:56:13] o cara, do que se o cara fosse
[00:56:15] assaltar as paradas lá
[00:56:16] essa cena é brilhante, porque ele vai andando lentamente
[00:56:19] em direção ao cara que fica atirando nele
[00:56:20] que leva uma metralhadora
[00:56:23] pra assaltar uma lojinha de conveniência
[00:56:25] mas enfim, essa é a estética dos filmes
[00:56:27] dos anos 80 mesmo
[00:56:28] mas é isso, o Robocop vai andando lentamente
[00:56:30] e esse cara vai atirando no Robocop
[00:56:32] e as balas vão ricocheteando o Robocop
[00:56:34] e destruindo a loja inteira
[00:56:36] e isso é impressionante
[00:56:38] e tu vê que se dá uma atenção
[00:56:41] na destruição da loja pra ver que
[00:56:42] não é uma sobre-interpretação, não
[00:56:44] o Robin está querendo te mostrar, está vendo
[00:56:46] ele está pegando esse cara e isso é completamente
[00:56:49] inútil, isso vai ser completamente inútil
[00:56:51] o filme todo
[00:56:53] o filme do Padilha, muito pelo contrário
[00:56:56] o filme do Padilha está o tempo todo
[00:56:57] todo esse arco triunfal
[00:56:59] é muito louco, porque toda a situação da corrupção
[00:57:02] da polícia de Detroit
[00:57:04] é resolvida
[00:57:05] com a morte de duas prisões
[00:57:07] sabe, o cara desmanchou, está tudo resolvido
[00:57:10] agora, pô, vem aqui, batalhão de São Gonçalo
[00:57:12] os caras viram e mexem, prendem todo mundo
[00:57:14] e nada é resolvido
[00:57:15] o Robocop tem a cena
[00:57:18] clássica também
[00:57:19] que ele dá o tiro
[00:57:20] no pênis de um cara
[00:57:23] através da saia da vítima
[00:57:25] da mulher que ele está
[00:57:26] teoricamente assaltando, a gente não entende o que está acontecendo
[00:57:29] mas como tem essa conotação sexual
[00:57:31] que surge mais do Robocop do que qualquer coisa
[00:57:33] mas enfim
[00:57:35] ele reconhece que poderia ter um possível estupro
[00:57:37] ali, que ele evitou
[00:57:39] e aí a mulher está totalmente em choque, imagina
[00:57:41] ela está sendo segurada
[00:57:43] por um criminoso violento que está botando
[00:57:45] uma arma na cabeça dela, ela não sabe o que vai acontecer
[00:57:47] o cara é morto pelo Robocop
[00:57:50] enquanto ele está segurando ela
[00:57:51] com um tiro que atravessa a própria saia dela
[00:57:53] e aí ela está em choque
[00:57:55] tremendo, e o Robocop fala
[00:57:57] sem nenhuma emoção, com aquela voz maravilhosa dele
[00:57:59] eu estou entrando em contato com
[00:58:01] um centro de ajuda
[00:58:03] para vítimas de estupro
[00:58:05] e essa cena tem um outro detalhe
[00:58:07] ela não consegue abraçar ele, ela fica desengonçada
[00:58:09] tentando abraçar ele, ele não pode
[00:58:11] ser abraçado, ele é muito estranho
[00:58:13] ele não é abraçável, é exato, do Padilha não
[00:58:15] do Padilha é super
[00:58:17] aerodinâmico, maravilhoso
[00:58:19] e aí que está o ponto, porque toda aquela
[00:58:21] enquanto a primeira narrativa do filme
[00:58:23] Robocop é um grande
[00:58:24] é garoto, isso aqui é uma grande
[00:58:27] piada pra você, saca, tipo assim
[00:58:29] você estava achando que esse é um filme de entretenimento
[00:58:31] não, você é basicamente o telespectador
[00:58:34] daqueles comerciais ruins
[00:58:35] o telespectador do
[00:58:37] I Buy That For A Dollar, né, tipo
[00:58:39] você é aquele cara que está assistindo isso
[00:58:40] esse é o seu I Buy That For A Dollar
[00:58:42] esse filme é isso pra você, né, o do Padilha
[00:58:45] não, ele é um desses filmes edificantes
[00:58:47] tal como Tropa de Elite, tal como
[00:58:49] 1 e 2, enfim, o Mecanismo
[00:58:51] no qual você, não apenas
[00:58:53] sente que tem
[00:58:55] gente que pode fazer a diferença
[00:58:57] né, no mundo
[00:58:58] nesse mundo difícil, o mundo é difícil
[00:59:01] sim, mas tem gente que bem intencionada
[00:59:03] pode fazer a diferença, né
[00:59:04] como você também está fazendo
[00:59:07] a diferença participando
[00:59:09] daquilo, tanto que
[00:59:10] o filme do Padilha
[00:59:13] Tropa de Elite 1 e 2
[00:59:15] não é à toa, ele até hoje
[00:59:17] um filme muito utilizado pela
[00:59:19] ultradireita brasileira como um código
[00:59:21] né, o Capitão Nascimento
[00:59:22] como um símbolo, né
[00:59:23] é, então assim, aquilo ali
[00:59:25] conformou
[00:59:27] a libido de muita gente
[00:59:29] com relação à criminalidade
[00:59:31] com relação, sei lá
[00:59:32] a maneira como as classes médias
[00:59:35] atuam, o papel das classes médias
[00:59:37] ou seja, todo mundo é responsável, menos ele
[00:59:39] ele é um herói que está lutando contra aquilo
[00:59:40] então assim, a política brasileira emula
[00:59:43] exatamente isso, não é à toa
[00:59:44] é assim, óbvio que não vamos botar
[00:59:47] a culpa só no Padilha, porque também ele é um
[00:59:49] código de um tempo maior, né
[00:59:50] mas se, imagina
[00:59:52] se não tivesse existido Tropa de Elite no Brasil
[00:59:55] né, que foi um fenômeno
[00:59:57] cultural sem precedente, assim
[00:59:58] uma visão que já existia
[01:00:01] claro, antes do Tropa de Elite
[01:00:03] mas que é incapaz de ser
[01:00:04] desassociada disso, eu sinto
[01:00:06] é que quando a gente fala desses casos
[01:00:08] de violência policial, de assassinatos por policiais
[01:00:11] aqui no Brasil
[01:00:12] sempre tem alguém
[01:00:15] seja o repórter
[01:00:17] ou alguém que está comentando no Twitter e tal, pra falar
[01:00:19] o que a pessoa estava fazendo
[01:00:20] e que ela nem estava cometendo um crime
[01:00:22] como se, a partir do momento que aquela pessoa
[01:00:24] roubou uma moeda
[01:00:26] aí tudo bem, aí talvez
[01:00:28] tivesse uma justificativa pra matar a pessoa
[01:00:30] então, esse que é um ponto, né
[01:00:32] como se a linha entre você merecer
[01:00:34] estar vivo ou não, fosse totalmente
[01:00:36] arbitrar
[01:00:37] muito pequena, muito tênue
[01:00:39] o Estado tem o direito
[01:00:41] de te executar sumariamente
[01:00:43] a partir do momento que você meio que deu uma pisada
[01:00:46] fora da linha, que é a tal
[01:00:48] bandido bom
[01:00:49] bandido bom é bandido morto
[01:00:51] a tal filosofia
[01:00:52] do próprio Bolsonaro
[01:00:53] que é uma filosofia que não é sobre bandidos
[01:00:56] ela usa essa palavra pra falar outras coisas
[01:00:59] mas
[01:01:00] é isso, essa ideia de que
[01:01:02] mesmo as pessoas que são teoricamente progressistas
[01:01:04] e de esquerda
[01:01:05] a gente internaliza essa noção de
[01:01:08] porra, não é nem alguém que estava roubando alguém
[01:01:10] olha só, era um garoto que estava indo pra escola
[01:01:11] mas e se estivesse roubando alguém?
[01:01:13] você estaria mais ok com o fato de que
[01:01:16] foi sumariamente executado por policiais?
[01:01:19] e assim, não só isso
[01:01:20] sumariamente executado e torturado
[01:01:22] torturado e com tentativa
[01:01:24] de esconder o crime
[01:01:26] e com corpos deixados sei lá onde
[01:01:28] esse que é um ponto, por exemplo, enquanto o filme
[01:01:30] todo do primeiro Robocop, ele coloca
[01:01:32] o telespectador
[01:01:33] faz o telespectador que está querendo pensar com o filme
[01:01:36] que isso que é importante, né
[01:01:38] querendo pensar com o filme, fala assim, cara
[01:01:39] o sofrimento dos outros é o meu entretenimento
[01:01:43] nos filmes do Padilha
[01:01:44] especialmente no Tropa de Lixo, mas no Robocop
[01:01:46] também, o sofrimento do outro
[01:01:49] é um entretenimento
[01:01:50] pro telespectador
[01:01:52] contudo, isso é legal
[01:01:53] saca, tipo assim, porque
[01:01:55] o sofrimento do outro
[01:01:58] serve, primeiro pra sua própria proteção
[01:02:01] ou seja, ah, é que bom que existem
[01:02:03] pessoas que tal como o Capitão Nascimento
[01:02:05] sabe, estão sofrendo
[01:02:07] porque o Capitão Nascimento sofre no filme
[01:02:09] tem transtornos psicológicos
[01:02:11] e tudo mais, então assim, que bom que tem
[01:02:13] esse cara que está lutando pelo
[01:02:14] meu bem estar, e ao mesmo tempo
[01:02:16] as pessoas que são torturadas por ele
[01:02:18] se transformam em uma piada
[01:02:20] pro telespectador, no Robocop
[01:02:22] é a mesma coisa, sabe, só que
[01:02:24] óbvio, numa estética mais
[01:02:26] hollywoodiana, no qual
[01:02:28] o sofrimento do cara, o cara tá numa
[01:02:30] tipo assim, tem uma cena desse Robocop do Padilha
[01:02:32] que eu acho uma cena boa
[01:02:34] que é uma cena muito rápida, que é quando
[01:02:36] ele é desmontado
[01:02:38] e aí fica só a cabeça, o pulmão
[01:02:40] e uma mão
[01:02:42] essa cena é de uma agonia
[01:02:44] assim, naquele momento, eu falei assim
[01:02:46] cara, o filme aqui acertou
[01:02:48] relógio parado, né, aquela coisa toda
[01:02:50] mas enfim, nesse momento o filme acertou
[01:02:52] porque assim, naquele momento você vê, cara
[01:02:54] essa existência é de um sofrimento
[01:02:56] imenso, imagina você
[01:02:59] telespectador, ouvinte
[01:03:00] sendo colocado no papel desse homem
[01:03:02] sabe, eu tô olhando assim, cara, meu corpo
[01:03:04] porque na hora que vão desmontando ele, ele fica, meu Deus, não sobrou nada
[01:03:07] meu Deus, não sobrou nada, não sobrou nada
[01:03:08] cara, se o filme seguisse nessa linha
[01:03:11] ficaria um bom filme, não, logo depois se transforma
[01:03:12] no entretenimento, o cara tá sorrindo, fazendo os testes
[01:03:15] dando tiros, sei lá o que, e eu acho que
[01:03:17] aí o Padilha deixa transparecer um pouco
[01:03:18] da filosofia dele, de uma certa
[01:03:22] mas que, por opção
[01:03:24] quase, às vezes eu acho, porque o Padilha
[01:03:26] é um cara que nesse filme, em várias outras coisas
[01:03:28] ele é muito capaz de chegar muito perto
[01:03:30] de mostrar o tal mecanismo
[01:03:32] e como as coisas funcionam, e não vê
[01:03:34] e nessa cena, o Robocop fala assim
[01:03:36] me monta de novo, e nunca mais
[01:03:38] me deixa me ver assim
[01:03:39] e eu sinto que o Padilha é um cara que ele chega
[01:03:42] muito perto de notar que, tipo, ah, na verdade
[01:03:44] a corrupção da polícia é algo que interessa
[01:03:46] sim ao Senado, que interessa sim ao OCP
[01:03:48] que interessa esse tema, só que ele
[01:03:49] para e fala assim, mas eu não quero ver o
[01:03:52] mundo dessa maneira
[01:03:53] e que não seria um problema se ele estivesse fazendo
[01:03:56] só Robocop, mas assim
[01:03:58] é um desperdício, assim
[01:04:00] de uma história, de uma temática
[01:04:01] com um cara que tá fazendo um filme do Robocop
[01:04:04] mas acha que tá fazendo um filme do Batman
[01:04:05] sim, cara
[01:04:08] e só que o problema é justamente porque
[01:04:09] é muito difícil você produzir uma
[01:04:12] narrativa nos termos que ele tá acostumado
[01:04:14] se você vai comprar
[01:04:16] a ideia do Verhoeven, de que
[01:04:18] cara, então
[01:04:18] todo mundo é essa estrutura
[01:04:21] todo mundo participa
[01:04:24] desse sistema de violências
[01:04:26] não existe ninguém
[01:04:28] que está fora dela, existem aquelas pessoas
[01:04:30] que estão em negação
[01:04:31] da sua participação, e tem aquelas que
[01:04:34] assumem de uma maneira cínica
[01:04:35] a participação, como o, sei lá, o Capitão Nascimento
[01:04:38] coisa do tipo
[01:04:39] no filme do Padilha não, existem as pessoas
[01:04:42] que são boas mesmo, e os vilões
[01:04:44] podem ter rostos, que basta de uma
[01:04:46] maneira muito simplória, infantil
[01:04:48] você eliminar esses sujeitos
[01:04:50] que pronto, tá resolvido
[01:04:51] é aquilo, né, basta uma eleição que tudo se resolve
[01:04:54] é, exato, tanto que assim
[01:04:55] o primeiro filme do Tropa de Elite
[01:04:58] até toca um pouco na questão de tipo
[01:04:59] a guerra às drogas
[01:05:01] é incansável e inacabável
[01:05:04] mas o segundo
[01:05:05] chega num ponto em que ele
[01:05:07] ele personifica de uma maneira que
[01:05:09] não, o problema não é a guerra às drogas, o problema são
[01:05:11] estes homens aqui
[01:05:12] não é a guerra às drogas em si, é a hipocrisia
[01:05:15] de ter um político que lucra com o tráfico de drogas
[01:05:17] é, ou enfim, toda uma
[01:05:19] estrutura societária, né
[01:05:21] que vai determinar
[01:05:22] um código de sociedade
[01:05:25] que vai determinar que vidas são matáveis
[01:05:27] que vidas podem ser sacrificadas
[01:05:29] em nome de uma sociedade
[01:05:31] em nome de lucros, né
[01:05:33] que esse é o grande ponto, que o Verhoeven toca nisso
[01:05:35] o Padilha
[01:05:37] não, o problema não é esse, o problema é que tem gente ruim
[01:05:39] fazendo isso
[01:05:40] e o Verhoeven mostra
[01:05:43] muito assim, muito isso, porque por exemplo
[01:05:45] a gangue lá que mata
[01:05:47] o Murphy, da qual ele se
[01:05:49] vinga no quase fim
[01:05:51] que ele usa muito bem aquela cena
[01:05:54] da Louise ajudando o Murphy
[01:05:55] matando os capangas do vilão
[01:05:58] como um momento de tipo
[01:05:59] olha aqui o quanto você gosta dessa violência, né
[01:06:01] tem o cara que cai lixo tóxico nele
[01:06:04] sim, sim, sim
[01:06:05] cara, aquele lixo tóxico é puro
[01:06:07] como é que é? Porn Torture
[01:06:09] como é que é aquele?
[01:06:10] Torture Porn
[01:06:11] você vê aquela cena e você fala assim, ah, é daí que veio o Vingador Tóxico
[01:06:15] cara, eu lembro
[01:06:17] eu lembro do dia que eu assisti Robocop
[01:06:19] que meu pai alugou o
[01:06:21] net, a gente assistiu na casa de um tico, a gente não tinha vídeo cassete
[01:06:23] em casa, e aí eu fui com meu pai
[01:06:25] assistir o Robocop
[01:06:27] cara, e o que me marcou
[01:06:29] eu era bem novo, assim, e o que me marcou
[01:06:32] foi essa cena, eu tinha
[01:06:33] morrido de medo daquilo
[01:06:34] eu fiquei muito marcado pela cena
[01:06:37] dos bandidos quando eles matam o Murphy
[01:06:39] no começo, porque eles ficam dando tiros em vários
[01:06:41] vários membros dele, né, arrancam
[01:06:43] uma mão com um tiro, dão um tiro no joelho
[01:06:45] e ele vai explodindo em sangue
[01:06:48] né, e é uma cena pra mostrar
[01:06:49] que esses caras são muito sádicos e tal
[01:06:51] e aí funciona muito bem com a visão do Robocop
[01:06:53] e você também é sádico, né, porque você tá aqui
[01:06:56] você tá pagando pra ver isso
[01:06:57] só que aí o filme do Padilha
[01:06:59] não tem isso, porque o filme do Padilha não tem vilões
[01:07:01] né, ele tem homens incompreendidos
[01:07:04] sim, exatamente
[01:07:05] ele tem os senadores que foram enganados, coitados
[01:07:08] pela pressão popular e pelo
[01:07:09] Michael Keaton, e ele tem o Michael Keaton que
[01:07:11] porra, o Michael Keaton queria fazer o bem, mas ele é um cara
[01:07:14] né, misguided aí e tal
[01:07:15] mas, enfim
[01:07:17] é, é, é, é
[01:07:19] é
[01:07:19] ai, nem
[01:07:21] lembro onde eu ia, mas acho que eu falei tudo o que eu tinha pra falar
[01:07:24] eu quero deixar uma mensagem final
[01:07:26] por favor
[01:07:26] a minha mensagem final assim, cara, eu gostaria de pedir
[01:07:30] aos nossos ouvintes que
[01:07:31] assistam com o maior
[01:07:33] cuidado a obra do Verhoeven
[01:07:35] é, inclusive, né
[01:07:37] talvez em algum momento a gente retome a ela
[01:07:39] com Starship Troopers ou fazer um programa
[01:07:41] especial sobre o Verhoeven, vamos deixar aqui, vamos deixar no ar aqui
[01:07:43] essa proposta
[01:07:44] e que se surgir a vontade
[01:07:48] de assistir
[01:07:49] o Robocop do Padilha
[01:07:51] pelo que a gente tá dizendo aqui
[01:07:52] eu vou recomendar algo no lugar
[01:07:55] assistam Jibã, saca
[01:07:57] que é a versão do Robocop feita no Japão
[01:08:00] entendeu, que é uma releitura
[01:08:01] feita direita, que é uma releitura boa do Robocop
[01:08:03] Jibã, saca
[01:08:05] tem no Amazon Prime, a gente pode fazer propaganda
[01:08:07] Amazon Prime? Pode, pode
[01:08:09] tem no Amazon Prime, eles não tão pagando a gente
[01:08:11] pra fazer isso, ninguém tá pagando a gente, então nesse momento a gente pode
[01:08:13] fazer propaganda de qualquer um, no momento que alguém pagar a gente não fala dos outros
[01:08:16] exato, mas ainda
[01:08:17] não estão patrocinando
[01:08:19] a gente, mas tá lá, as primeiras duas
[01:08:21] temporadas do Jibã, que são só duas
[01:08:23] e com a dublagem original
[01:08:25] de 19… Eu não sabia disso, eu assino
[01:08:27] o Amazon Prime, eu acho… Tem tudo lá
[01:08:29] tem Jibã, Jiraiya, Changeman Flash
[01:08:31] eu vou perder um tempo, hein
[01:08:32] eu vou perder
[01:08:35] um tempo, hein, meu amigo
[01:08:37] não vou dizer que
[01:08:39] já fiz isso, não vou dizer que dessa água
[01:08:41] eu já não bebi, mas vou te contar um paralelo
[01:08:43] que eu aprendi semana passada
[01:08:45] sobre Jibã, que
[01:08:47] eu vou relatar aqui pra você, o meu amigo
[01:08:49] Lucas, que já frequentou
[01:08:51] muito o Japão, sabe muito
[01:08:53] a coisa de cultura japonesa, tava fazendo
[01:08:55] os streams de Mortal Kombat
[01:08:57] comigo, porque ele também é muito fã de Mortal Kombat
[01:08:59] e aí ele me contou, a gente caiu
[01:09:01] no assunto do Jibã, por algum motivo
[01:09:03] e, ou seja, tá no Zeitgeist
[01:09:05] e ele me contou
[01:09:07] que eles
[01:09:09] usavam, aqui no Brasil, bonecos
[01:09:11] do Robocop pra vender
[01:09:13] boneco do Jibã, que aqueles
[01:09:15] os bonecos de borracha do Jibã
[01:09:17] vendidos aqui, eram só bonecos de borracha
[01:09:19] do Robocop que foram pintados de Jibã
[01:09:21] olha só, tá vendo, quando eu digo
[01:09:23] que uma releitura feita direito, é isso, você não precisa
[01:09:25] nem mudar os produtos de marketing, né cara
[01:09:27] exatamente
[01:09:28] cara, olha
[01:09:30] é um povo eficiente mesmo, né cara
[01:09:33] é isso cara, olha isso bicho
[01:09:35] cara, e eu, assim
[01:09:37] quanta raiva a gente passou, né
[01:09:39] essa semana, a bile
[01:09:41] que eu detectei no áudio
[01:09:43] dessa semana, foi incrível
[01:09:44] quando tudo isso começou, era uma
[01:09:47] boa ideia, era tipo, vamos ver Robocop, a gente gosta
[01:09:49] de Robocop, é uma baita crítica, é um baita filme
[01:09:51] e aí você veio com essa
[01:09:53] ideia, de vamos ver o do
[01:09:55] Padilha também, pra poder, né, contrastar
[01:09:57] um com o outro
[01:09:59] puta que pariu, Orlando
[01:10:00] mas eu sou um cara que, assim, eu não tenho limite
[01:10:03] saca, esse que é o meu problema, eu tenho que
[01:10:05] encontrar alguém que fala assim, pô Orlando, faz isso não, vai dormir
[01:10:07] cara, vai dormir
[01:10:08] eu te dei um limite essa semana, que foi, qual era o filme que você queria
[01:10:11] que eu visse essa semana, que eu falei, não, pelo amor de Deus
[01:10:13] pô, não sei
[01:10:15] agora esqueci, deve ter sido tão ruim que a gente entrou em negação
[01:10:18] cara, teve algum muito
[01:10:19] ruim, que tipo assim, que até esse do Padilha
[01:10:21] apareceu melhor
[01:10:22] mas é isso, Orlando, muito
[01:10:27] obrigado novamente, por estar aqui
[01:10:29] comigo, sofrendo junto comigo
[01:10:31] tenho certeza que nossos ouvintes
[01:10:33] apreciam também, é sempre bom saber que a gente
[01:10:35] faz parte de uma estatística no sofrimento, né
[01:10:37] exatamente
[01:10:51] obrigado, obrigado, obrigado